POLÍTICA E DESCONSTRUÇÃO: RASTROS DA TEORIA PÓSCOLONIALISTA NA AMÉRICA LATINA

Fabio Marchon Coube, e-mail: fabiomarchon@hotmail.com
Mestre em Filosofia (UFRJ-PPGF)

Palavras-chave: desconstrução, rastros, pós-colonialismo

O tema escolhido tem como interesse situar o pensamento pós-colonialista
através da teoria literária exercida na América Latina. Para isso, é preciso ressaltar o
vigor crítico exercido nos países que passaram pelo violento processo de colonização.
Destarte o pensamento da desconstrução exercido por Jacques Derrida torna-se
expoente condutor de uma crítica que se situa às margens da teoria, conforme elabora
seus textos iniciais Gramatologia, A escritura e a diferença, Posições, entre outros. O
texto almeja, através do que Derrida denominou como rastro (DERRIDA, 1967a),
estabelecer o deslocamento crítico proporcionado por diversos autores pós-colonialistas
quando propõem ir além dos conceitos da teoria literária enquanto limite etnocêntrico.
O deslocamento crítico proporcionado por Edward Said, Stuart Hall, e Gayatri Spivak
demonstra a hierarquia dos conceitos ocidentais como um gesto opressor que privilegia
e centraliza a cultura europeia. Todavia, a heterogeneidade do polo recalcado
possibilitará a disseminação dos estudos culturais em nome de uma alteridade radical
indelével. É nesse sentido que autores como Silviano Santiago e Néstor Canclini
enfatizaram o hibridismo que contamina as fronteiras culturais, pensando a política a
partir de sua espectralidade que não mais dá conta de um discurso único o que aponte
apenas uma herança de pensamento. Trata-se de fazer jus a potência do pensamento
totalmente outro, para além dos polos dicotômicos exercidos pelo etnocentrismo. Os
estudos culturais funcionam como parasitários nas margens teóricas envolvendo seu
corpus

enquanto

disciplina,

não

somente

por

incentivar

a

prática

da

interdisciplinaridade a partir dos estudos culturais, mas também por rever o papel do
intelectual diante de questões multiculturais ante o viés nacional que muitas vezes
centraliza o pensamento (STOCKER, 2006). Ao fazer um mergulho crítico na tradição
literária brasileira – passando de Joaquim Nabuco a Antônio Candido, entre outros –
colocando-os vis-à-vis à vitalidade multicultural contemporânea, com questões sobre as

uma vez que representa não somente a visão eurocêntrica do oriente. “encerra também o jogo que abre e torna possível” (DERRIDA. Esse pensamento inventivo do oriente. O interior primaria pelo centro. E a diferença. é porque. no trabalho da repressão histórica. faz parte do discurso que apreende em si uma exigência estrutural. para então. impedindo mudanças de seus elementos Frisa-se que. p. as mulheres negras. . Silviano engloba em suas considerações a proposta do quaseconceito de rastro do projeto gramatológico de Derrida. não é pensada sem o rastro. no surgimento das diferenças para cada remetimento. 2004). segundo afirma o filósofo. a escritura era. 1967a). 69). Said introduz a discussão acerca da representação que o orientalismo exerceu enquanto invenção do ocidente. engendrado desde a Antiguidade como lugar exótico. necessita ser posto em xeque. como nas versões romantizadas por Chateaubriand e Nerval. o sempre por vir de um pensamento totalmente outro (SANTIAGO. 1967b). os “novos” retirantes brasileiros”). que segundo Derrida. A partir do quase-conceito de rastro. pensar o descolamento inerente ao “cosmopolitismo do pobre”. a partir do crítico literário brasileiro. ou até mesmo o conceito de Oriente formado por pressupostos ocidentais. 1967b).desigualdades sociais que marginalizam movimentos sociais e minorias identitárias (como o Movimento Sem Terra. proposta que percorre toda a teoria crítica pós-colonialista justamente ao ir de encontro com todo pensamento que tenha a busca por fundamentos em torno de um centro. caracterizada por um pensamento centralizador em sua origem metafísica (DERRIDA. mais de perto. Como por exemplo. 1967a. O jogo dicotômico estabelecido sobre o conceito de linguagem.” (DERRIDA. Faz-se mister. destinada a significar o mais temível da diferença. elucidado como paisagem exuberante. demonstrar o que se repete e se apaga na construção de todo e qualquer conceito (DERRIDA. Em Orientalismo. em Gramatologia o filósofo franco-magrebino parte da premissa etnocêntrica que envolveu durante todos esses tempos o conceito de escritura. nós o experimentamos progressivamente. ameaçava o desejo da fala viva. que sem se afincar nos limites conceituais – uma vez que se posiciona como entre-lugar – promovem por meio de rastros o acolhimento do chegante. a crítica de Santiago nos leva a emergir da tradição que antes opera como suplemento da cultura ocidental. não se poderia mais afirmar um ideal de presença mas sim um movimento que se inscreveria e se apagaria na cadeia de rastros pois segundo Derrida: “Se persistirmos nomeando escritura essa diferença. encetava-a. poderemos então deslocar o conceito etnocêntrico exercido pelo Ocidente. Ela era aquilo que. daquilo que do dentro e desde seu começo. moldada por uma “imobilidade fundadora”. situacionamente.

ou o Ocidente como Sujeito” (SPIVAK. 2007). de um modo mais prospectivo. Falar pelo subalterno faz parte de toda a história europeia e ambos os filósofos franceses estariam segundo Spivak. 2008). O crítico francês conclui que: “Contrariamente à história escrita pela elite ocidentalizada. a Europa menos o seu outro como equação logocêntrica. a “ausência” de um solo pátrio legítimo propagado por um período dentro de nossa crítica literária promove uma espécie de saudade do que nunca foi. em nome de sua heterogeneidade. 1997). Segundo Santiago. é nesse sentido que as teorias pós-colonialistas relacionam a tentativa de compreender os problemas colocados por esses estudos assim como suas consequências. ou como nas palavras de François Cusset. Já Spivak pensará o lugar instável das vozes periféricas. Forma-se um sujeito híbrido capaz de responder questões sobre a relação hegemônica dos discursos ocidentais da mesma forma que pensa suas resistências. O orientalismo não era nada além do outro que estava além do ocidente em invenção conceitual. A América Latina tem um ganho singular graças ao desvencilhamento do circuito cultural europeu. escrevendo seu caminho ao invés de permitir passivamente a história do outro (CULLER. fala-se sempre a língua do outro. os aspectos da phoné representam os moldes da metafísica ocidental. É nesse sentido que o subalterno não pode falar. O cosmopolitismo eurocêntrico exercido pela síntese das tendências particulares e universalistas nos obriga e rever o “paraíso tropical” ou a nacionalidade de vocabulário como apontou Machado . ao abordar o pós-colonialismo conclui que com a “quebra a cadeia de significante”. “desocidentaliza-se” em nome do subalterno. o “ângulo morto do processo histórico” (CUSSET. mas igualmente. A latinidade dos povos colonizados produz como dínamo propulsor a potência de uma narrativa da alteridade. re-criando o lugar do sujeito subalterno. é feita uma autocrítica que dissemina os significantes políticos. 2008). onde o a literatura exercida nessa margem alarga as fronteias cosmopolitas. Só assim. Cusset. cita a teórica indiana. e essa posição seria intrinsecamente necessária para a autoafirmação da identidade ao longo da tradição ocidental. trata-se de pensar não apenas uma história de baixo. Segundo Culler. Leva-se o exílio e a vida para fora da ordem habitual. partindo de uma crítica aos intelectuais ocidentais. Segundo Spivak “Algumas das críticas mais radicais produzidas pelo Ocidente hoje são resultado de um desejo interessado em manter o sujeito do Ocidente. o subalterno rompe com a imagem totalizante de um “programa realizado”.mas também o rebaixamento ou o tratamento de irrelevância sobre a visão dos próprios orientais (SAID. 2010). nunca podemos tê-la como propriedade. a possibilidade de uma luta antiimperialista cujas modalidades e objetivos não seja ocidentais” (CUSSET.

a América Latina a partir do seu hibridismo. isto é. O suplemento de sua origem já é. pensando no que antes existia de forma separada. 1997. 2008).lugar. a partir de uma aproximação metodológica de Gramsci quanto à desconfiança do papel exercido pelo intelectual. Para Silviano: “A consciência de nacionalidade estará menos no conhecimento do seu interior. rompe com o purismo intelectual – e segundo Silviano. mestiço. por si só. Trad. 2004). institui-se no entre. proporciona novas estruturas. 2003). CULLER. Rio de Janeiro: Recorde: Rosa dos Tempos. Canclini ressaltará que até mesmo o que era considerado puro foram resultados de processo de hibridação (CANCLINI. Patricia Burrowes. É a partir dessa hibridação suplementar a cada origem que se desconstrói a questão de uma origem enquanto tal. sem se deixar levar por uma fundamentação originária ou pura (SANTIAGO. Sobre a Desconstrução: teoria e crítica do pós-estruturalismo.de Assis quanto ao “sentimento íntimo” atrelado a busca da identidade nacional. e em uma espécie de combinação altera-se então. faz-se mister convocar a questão da diáspora segundo Stuart Hall. J. estará mais no complexo processo de interiorização do que lhe é exterior. uma vez que foi deixado de lado a importância da cultura africana e indígena no seio do discurso de formação da nacionalidade. No entanto. Referências Bibliográficas CANCLINI. Editorial Grijalbo. 1978). Porém. México. a crítica de Machado ainda seria vista como eurocêntrica pelo crítico literário. essa seria a importante contribuição latina ante ao sistema conceitual europeu – e em um percurso oblíquo. 1990. Como aponta Santiago em Uma literatura nos trópicos. Culturas Híbridas: estratégias para entrar y salir de la modernidad. E se o conceito em torno do “puro” serviria para nutrir as forças da cultura europeia comparando e elevando a formação de sua identidade ao rebaixar a diferença. Néstor García. do que lhe é estrangeiro mas que não lhe é estranho pelo efeito da colonização europeia” (SANTIAGO. busca-se uma estratégia cultural que possa produzir diferença e ao mesmo tempo deslocar dispositivos de controle e poder. . Para o crítico. O espaço multicultural não permite mais o jogo dicotômico de um ou outro como aponta Canclini já em sua primeira definição do termo híbrido. não se conformando apenas em inverter o jogo de oposições representativas diante do processo cultural (HALL.

G. E. Belo Horizonte: Autêntica. SAID. Derrida on Deconstruction. DERRIDA. A identidade cultural na pós-modernidade. São Paulo: Perspectiva. Derrida. Filosofia francesa. Porto Alegre: Artmed. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2001. B. Deleuze & cia. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. ___________ Posições. 2004. 2006. As raízes e o labirinto da América Latina. 2001. Belo Horizonte: Editora UFMG. A escritura e a diferença. 1999. 1987. SPIVAK. F. ________ Da diáspora: Identidades e mediações culturais. SANTIAGO. S.CUSSET. ___________ Psyché: inventions de l’autre. STOCKER. _____________O cosmopolitismo do pobre. ___________ Gramatologia. 1995. _____________Uma literatura nos trópicos. New York: Routledge. 2000. Rio de Janeiro: Rocco. 2003. Rio de Janeiro: DP&A. a influência de Foucault. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG. 2006. J. . HALL. Rio de Janeiro: Rocco. S. SP: Companhia das Letras. 2007. 2008. Paris: Galilée. 2010. São Paulo: Perspectiva.