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Estudo das fábulas

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra, sem pensar em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
- "Antes de agosto chegar,
pode estar certa a Senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
A formiga não seria.
- "Que fizeste até outro dia?"
- "Eu cantava, sim Senhora,
noite e dia sem tristeza."
- "Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança, agora..."

in: Fábulas de La Fontaine. Villa Rica Editoras Reunidas Limitada.

Editora Nova Fronteira) A ROSA E A BORBOLETA Uma vez. vi quando você deu voltinhas na dona Margarida até que dona Abelha chegou e expulsou você. – Assim que me afastei. A rosa ficou comovida. Um dia resolveu pregar uma peça nos vizinhos. – Faz séculos que você partiu. Morrendo de medo. ó desgraça! A borboleta só voltou um tempo depois. – É isso que você chama de fidelidade? – choramingou a rosa. Pena que ela não lhe deu uma boa ferroada! – Fidelidade!? – riu a borboleta.1992. mas acharam que era caçoada. Não havia lobo nenhum. e. Depois de um longo noivado e muitas promessas de fidelidade. uma borboleta se apaixonou por uma linda rosa. — Um lobo! Um lobo! Socorro! Os vizinhos ouviram. Mas um dia. vi o Senhor Vento beijando você. Moral: Ninguém acredita quando o mentiroso fala a verdade. E ele caçoou de todos.. o menino saiu correndo. 743-4. Assim. Vi quando você beijou dona Gerânio. Mas encontraram-no às gargalhadas. I. o lobo apareceu de fato e começou a atacar as ovelhas. além disso. (Retirado do "Livro das Virtudes para Crianças" de William Bennett. pois o pó das asas da borboleta formava um maravilhoso desenho em ouro e prata. Mas. Milton Amado e Eugênio Amado O MENINO QUE MENTIA Um pastor costumava levar seu rebanho para fora da aldeia. vol.. Ainda outra vez ele fez a mesma brincadeira e todos vieram ajudar. você passa o tempo de namoro com todos os tipos de flores. — Um lobo! Um lobo! Socorro! Ele vai comer minhas ovelhas! Os vizinhos largaram o trabalho e saíram correndo para o campo para socorrer o menino. Depois você deu o maior escândalo com o senhor Zangão e . da rosa e disse que a amava. a rosa ficou coradinha e aceitou o namoro. a borboleta deixou sua amada rosa. Ninguém socorreu e o pastor perdeu todo o rebanho. voando. pp. Trad. quando a borboleta se aproximou.

como nos sentimentos e reações humanas que apresentam – envolve sempre a escolha de seres que colaborem na construção do enredo. na voz da formiga. reconhecida pelo seu 'canto' contínuo: duas características fundamentais para compor o enredo – enquanto uma trabalha a outra canta – duas características que vão entrar em choque.. "O menino que mentia" e "A borboleta e a rosa" Diferentemente da fábula A cigarra e a formiga.. E ainda vem me falar em fidelidade! Moral: Não espere fidelidade dos outros se não for fiel também . uma pedra. talvez. cabe observar que em A cigarra e a formiga também há uma moral implícita. ciúme e fidelidade (próprios da natureza e comportamento humanos). que têm sentimentos humanos) – é a que apresenta como personagens seres humanos e os animais citados não são personificados. também como um desfecho trágico da história: "Tu cantavas? Que beleza! / Muito bem: pois dança. No caso da fábula A rosa e a borboleta. Ou seja. (in: Fábulas de Esopo. Estas duas fábulas trazem como personagens outros seres além dos animais: temos uma deusa. gerando o conflito. Apesar da diferença. Também na fábula A cigarra e a Formiga. O recurso de personificação de animais ou objetos – observados tanto no fato de estes seres falarem.ficou dando trela para todo besourinho que passava por aqui. conhecida como inseto que nunca pára que está sempre recolhendo alimento para estocar e a cigarra. em destaque. percebemos a escolha pertinente das personagens: a formiga. Heloisa Jahn) Comentários sobre algumas características das fábulas "A cigarra e a formiga". que fala como "um velho que prega lição em tom edificante e moralizador". agora." Em vista destas considerações sobre a moral. ambos os personagens servem perfeitamente bem ao enredo da fábula: aos seres que figuram nesta fábula é naturalmente impossível exigir fidelidade. além do inseto. percebe-se que desta perspectiva ela passa a ser parte integrante da história e um recurso a mais para o autor compor a estética do texto. 86. p. conforme comentado no texto inicial em que caracterizamos a fábula. Como se vê. Explorar a variedade de personagens das fábulas reforça a informação de que eles não se restringem a animais: podem ser seres animados (inclusive o homem) e seres inanimados (como um machado. menos atraente em razão da ausência do elemento mágico (os animais que falam. Para desenvolver este enredo o fabulista escolhe a borboleta – concorrendo com outros insetos que polinizam as flores em geral – e a rosa – que como uma flor é polinizada por vários insetos. Trad. . um homem e uma flor. estas duas fábulas trazem uma moral explícita. por exemplo. o enredo se constrói em torno de uma situação que envolve amor. 1990. Cabe observar que a fábula mais óbvia – e. é preciso que o ser escolhido tenha alguma característica que contribua para o desenvolvimento da ação da narrativa. Companhia das Letrinhas. tal como a concebemos. conforme veremos em outras fábulas). mas agora. como um desfecho trágico e conclusivo da história. na voz do próprio narrador.

o macaco no lugar do menino. ainda. Teríamos que nos perguntar: que outros seres teriam características semelhantes às das personagens? A cigarra e a formiga e a borboleta e a rosa poderiam. – Chove quando a água da lagoa começa a borbulhar suas gotinhas. teríamos que pensar em um animal que seja brincalhão. a partir do qual a fábula se desenvolve. Editora Desiderata. Neste caso.As personagens destas fábulas poderiam ser outras desde que a escolha seja guiada pelo critério comentado acima. Uns diziam que ia chover logo. surpreende ao suspender o enredo no conflito – as personagens continuam com opiniões diferentes sobre a chuva – e introduzir a moral que interpreta a situação de uma perspectiva inesperada: todas as personagens estão erradas! Não há vencedores na competição pela explicação correta sobre a chuva. Os vizinhos poderiam ser outros bichos quaisquer. – Parecem cegos! Não vêem que a água cai das folhas das árvores? Moral: Todas as opiniões estão erradas. outros diziam que ainda ia demorar. – Como assim? – disse a lebre. no lugar da borboleta e da rosa poderíamos ter um casal de namoradas infiéis ou dois amigos que se traem. – O telhado do meu galinheiro está pingando. a deixar cair às gotas d'água que têm dentro. A explicitação da moral é parte constitutiva da construção do sentido do texto. – Viram? – gritou a galinha. Nesse momento começou a chover. 2007) Comentários sobre algumas características da fábula A causa da chuva Esta fábula de Millôr Fernandes apresenta um enredo que começa construído segundo os princípios da fábula: um conflito é estabelecido desde o início. poderíamos pensar em substituí-los por animais. Mas não chegavam a uma conclusão. – Ora. – Mas. poderíamos ter um lavrador e um cantor. Isso é chuva! – Ora. que bobagem! – disse o sapo de dentro da lagoa. não vê que a chuva é a água da lagoa borbulhando? – disse o sapo. de modo que os animais ficaram inquietos. A CAUSA DA CHUVA Millôr Fernandes Não chovia há muitos e muitos meses. enganador – por exemplo. por exemplo. O texto é um excelente exemplo do papel que a moral passa a assumir na fábula em verso e que as novas versões da fábula em prosa também incorporaram. Na fábula O menino que mentia – que já traz seres humanos como personagens –. por meio da moral. como assim? – tornou a lebre. – Chove só quando a água cai do telhado do meu galinheiro – esclareceu a galinha. – Está visto que só chove quando as folhas das árvores começam. Neste caso. Entretanto. Rio de Janeiro. (In: Novas Fábulas Fabulosas. RJ. o . ser substituídas por seres humanos: no lugar da cigarra e da formiga.

autor introduz uma informação inesperada que se contrapõe ao que comumente se espera das morais das fábulas que sempre condensam um ensinamento ou uma crítica a partir das ações de uma das personagens. 1990. fazia a floresta inteira tremer com seus urros de raiva. como acontece nas fábulas anteriores. o fabulista assume o seu próprio ponto vista ao interpretar a situação apresentada e cria. Moral: Uma boa ação ganha outra. mas não significa que estejam certos ou Cada um tem a sua verdade etc. em La Fontaine temos a crítica ao comportamento escandaloso do leão e o reconhecimento do esforço do ratinho. um desfecho para a narrativa. . Não conseguindo se soltar. O LEÃO E O RATINHO Um leão. Nesta última. Vieram uns ratinhos passear em cima dele e ele acordou. que o leão prendeu debaixo da pata. menos um. Trad. cansado de tanto caçar. ainda. dormia espichado debaixo da sombra boa de uma árvore. Caso o fabulista quisesse fazer uso da moral de acordo com o esperado – assumindo a perspectiva moral a partir do comportamento de uma das personagens –. Algum tempo depois o leão ficou preso na rede de uns caçadores. novos interesses e novas finalidades para as fábulas. 61. e com seus dentes afiados roeu as cordas e soltou o leão. enquanto o comportamento do Leão – que ao ver-se preso ruge. Todo mundo tem uma opinião sobre as coisas. (in: Fábulas de Esopo. observamos que a moral reassume um tom mais sério e apresenta um ensinamento moral baseado na atitude positiva do leão (de complacência em relação ao ratinho) que é recompensada no final. Heloisa Jahn) Comentários sobre as diferentes morais da fábula O leão e o ratinho As três morais formuladas a partir do enredo desta fábula são resultado de diferentes autores em contextos sócio-históricos que definem. na versão de La Fontaine o que entra em foco é a oposição entre a força bruta (do feroz leão) e a discrição do trabalho contínuo (do frágil rato) para conseguir o que se quer. poderíamos ter algo como: Há várias interpretações para um mesmo problema ou Cada um vê a vida de seu ponto de vista ou. Enquanto na versão de Esopo o comportamento do leão é exaltado e premiado (quem faz uma boa ação é compensado). irritado – chega a ser ridicularizado. considerado positivo. Todos conseguiram fugir. p. Tanto o ratinho pediu e implorou que o leão desistiu de esmagá-lo e deixou que fosse embora. Companhia das Letrinhas. produzindo humor. Vale a pena comparar a moral desta fábula de Millôr com a de Esopo – O leão e o ratinho. ele mesmo. Enquanto em Esopo vislumbramos um ensinamento de cunho moral religioso. inclusive. Aqui. Em La Fontaine o que se destaca é o comportamento do ratinho. Nisso apareceu o ratinho.

tais como motivação de equipe. Vê-se que é possível aproximar o sentido do segundo verso (que não deixa de ser também uma moral!!!) com a moral proposta por A. nos deparamos com sentimentos e comportamentos possíveis e próprios de seres humanos. Rangel: Todas as funções dentro de uma empresa têm seu valor. É importante observar que embora tenhamos alguns animais que simbolizem aspectos de caráter ou de comportamento humanos de forma mais permanente (por exemplo. rápida. esta situação tem especificidades da vida humana. Esta é uma razão porque as situações das fábulas podem ser transpostas para situações humanas. professor: embora trataremos mais adiante dos procedimentos que serão comentados agora. Tomando como exemplo a fábula do leão e do rato. Duas fábulas mostrarão Que eu não estou falando senão a verdade. antecipa a moral que volta a ser reapresentada ao final da fábula. é interessante notar que se comparamos a versão da fábula (e não apenas da moral) de La Fontaine com a de Alexandre Rangel. criatividade nos negócios. poder se ver preso em uma rede é totalmente plausível (verossímil) no mundo dos animais. Comentários sobre as situações apresentadas como enredos das fábulas e sobre as personagens Se considerarmos que os animais ou outros seres inanimados que aparecem nas fábulas são quase sempre personificados – apresentam ações. seria possível propor a leitura da versão em verso. satisfação do cliente. A título de ilustração. a situação do rato poder ser devorado pelo leão e. Entretanto. Outro aspecto importante de ser observado refere-se à seleção dos animais que serão personagens das fábulas. como o próprio editor do livro declara. fica evidente que embora o enredo apresente uma situação próxima da vida real destes seres. indica o uso da fábula num contexto de trabalho. neste texto é possível observar sobre o a escolha dos animais que serão personagens de uma fábula: essa escolha está muito mais associada ao que ele pode oferecer à ação da narrativa (ao . veja como La Fontaine inicia a fábula: Vale a pena espalhar razões de gratidão: Os pequenos também têm utilidade. anunciando-lhe duas fábulas (O leão e o Rato e A pomba e a formiga) e demonstrando previamente o tema que prenuncia a moral – os pequenos também têm utilidade. sentimentos e comportamentos humanos –. de La Fontaine (ver indicação bibliográfica) para chamar a atenção do aluno para os procedimentos usados pelo fabulista que diferem das versões de Esopo. Atenção. inteligente). a raposa como sempre astuta. A título de informação complementar. deste. se considerarmos o momento da generosidade do leão que permite ao rato viver e o episódio de generosidade e heroísmo do rato que salva o leão da rede. caso você avalie pertinente. por mais simples que possam parecer. é possível perceber que toda a fábula deste é uma adaptação mais próxima à versão de La Fontaine. se aproximando mais do leitor e ao fazer isso. estabelecendo um diálogo com o leitor.Quanto à última moral – Todas as funções dentro de uma empresa têm seu valor. e define uma finalidade particular: usá-las para discutir temas relacionados ao mundo do trabalho. por mais simples que possam parecer – faz referência a um contexto muito específico. O livro de que foi retirada (Fábulas de Esopo para executivos). em 1ª pessoa. Na versão de La Fontaine: a voz do fabulista se apresenta ao leitor. vemos em La Fontaine dois recursos inovadores: o fabulista se apresentando como o narrador das histórias (e não como uma voz institucionalizada). Em suma.

solicitou ajuda pra tirar do forno a carne. Quando foi embora. mas a pobre da cegonha com seu bico comprido mal pôde tomar uma gota. Milton Amado e Eugênio Amado) A RAPOSA E A CEGONHA – 2ª versão Um dia a raposa convidou a cegonha para jantar. p. Esta. serviu sopa num prato raso. amoladíssima. cujo cheiro enchia o ar. A raposa. mas o focinho da outra era bem diferente. perguntou se a sopa não estava do gosto da cegonha. 1992. 36. num vaso comprido e de gargalo fino à beça. por causa do bico comprido. Espertalhão. Moral: Trate os outros tal como deseja ser tratado. a raposa se sentou lambendo os beiços de fome. onde a cegonha podia beber sem o menor problema. a comadre um dia a convidou para um jantar. Ela aceitou com deleite do qual não fez disfarce. 117-8. A RAPOSA E A CEGONHA – 1ª versão A Comadre Raposa. foi-se a raposa. vol. Ela me tratou mal. Assim que chegou. espiou o cozido: era carne moída – e a fome a apertar! Eis que a cegonha vira. I. Constava a refeição de um caldo muito ralo. com caprichoso afã. pedindo desculpas pelo transtorno. a partilhar da sua mesa. só teve uma saída: lamber as gotinhas de sopa que escorriam pelo lado de fora da jarra. Villa Rica Editoras Reunidas Limitada. O resultado foi que a cegonha voltou para casa morrendo de fome. A raposa fingiu que estava preocupada. pp. gulosa. pensava: "Não posso reclamar da cegonha.enredo) do que propriamente ao que ele simboliza em termos de características humanas. todo o conteúdo da travessa! O bico de uma entrava facilmente. Não pôde prová-lo a cegonha. Na hora marcada. conforme já comentado na abertura do projeto e também nos comentários à fábula A borboleta e a rosa. 1990. de gargalo estreito. O jantar veio para a mesa numa jarra alta. amanhã vai (in: Fábulas de La Fontaine. (in: Fábulas de Esopo. mas fui grosseira com ela primeiro". Querendo pregar uma peça na outra. A raposa. mas a cegonha não disse nada. Heloisa Jahn) A RAPOSA E O CORVO Um dia um corvo estava pousado no galho de uma árvore com um pedaço de . Companhia das Letrinhas. Trad. Claro que a raposa tomou toda a sua sopa sem o menor problema. Num dos tais. rabo entre as pernas. atente: quem hoje planta. A raposa. em segundos. apesar de mesquinha. servido em prato raso. havia lambido todo o caldo. curiosa para ver as delícias que a outra ia servir. tinha lá seus momentos de delicadeza. Enquanto ia andando para casa. chegou à casa da anfitriã. agradeceu muito a gentileza da raposa e disse que fazia questão de retribuir o jantar no dia seguinte. convidou a cegonha. a correr. Ela aprendeu muito bem a lição. Querendo desforrar-se da raposa. faminta. vizinha. assim. Trad.

o uso e a escolha dos animais que serão personagens de uma fábula associada ao que ele pode oferecer à ação da narrativa: o corvo teria uma vantagem sobre a raposa – como voa. estou vendo que voz o senhor tem. em especial. não há dúvida de que deve ser proclamado rei dos pássaros. Heloisa Jahn) Comentários sobre algumas características da fábula "A RAPOSA E CORVO" Embora o corvo seja considerado um animal astuto e inteligente. mas perfeitamente subentendida que nos alerta sobre os perigos de nos deixarmos dominar pela vaidade e pelo orgulho. para não cairmos em armadilhas. A LEBRE E A TARTARUGA – 1ª VERSÃO A lebre vivia a se gabar de que era o mais veloz de todos os animais. cai na armadilha e deixa cair o queijo do bico que é devorado pela raposa. E assim podemos proceder em busca de várias 'morais' em qualquer fábula. Até o dia em que encontrou a tartaruga. e a raposa abocanhou ligeiro aquela delícia. O que não tem é inteligência! Moral: cuidado com quem muito elogia. a raposa logo começou a matutar um jeito de se apoderar do queijo. presentes no texto: temos a moral explicitada no final da fábula – que atenta para o cuidado que devemos ter com quem nos elogia em demasia. Trad. 61. olhou para cima e disse: — Que pássaro magnífico avisto nessa árvore! Que beleza estonteante! Que cores maravilhosas! Será que ele tem uma voz suave para combinar com tanta beleza! Se tiver. p.queijo no bico quando passou uma raposa. Este aspecto. nesta fábula ele aparece sendo enganado pela raposa. abriu o bico e soltou um sonoro "Cróóó!". Neste texto é possível observar. 1990. e outra moral não explícita. Vendo o corvo com o queijo. se apostarmos uma corrida. ela aposta no orgulho e na vaidade do pássaro superando a sua inteligência: a raposa o elogia. foi para debaixo da árvore. destacando suas qualidades e sugerindo outras. mais uma vez. dependendo da situação em que a queremos usar e do enfoque que desejamos dar (nosso objetivo). O queijo veio abaixo. (in: Fábulas de Esopo. dizendo: — Olhe. constatamos pelo menos duas. está no alto de uma árvore e esta não teria como alcançá-lo para brigar pelo queijo. será mais explorado em atividades posteriores. claro. E o corvo. Quanto à moral. serei a vencedora – desafiou a tartaruga. dominado pelo orgulho e pela vaidade. Com esta idéia na cabeça. . – Eu tenho certeza de que. meu senhor. Para mostrar à raposa que sabia cantar. Mais astuta. Companhia das Letrinhas. Ouvindo aquilo o corvo ficou que era pura vaidade.

– É mais fácil um leão cacarejar do que eu perder uma corrida para você – respondeu a lebre. posso comprar uma asa igual à sua.. Companhia das Letrinhas. a lebre tornou-se o alvo das chacotas da floresta. subiu num precipício enorme e. As asas não faziam efeito! Aí. o coelho apareceu e emprestou o dinheiro do táxi. São Paulo. em princípio. 59) Comentários sobre as fábulas Na clássica fábula A lebre e a tartaruga. Quando acordou. Na hora de voltar para casa.. que não descansara um só minuto. a tartaruga. (Jean de La Fontaine. cruzou a linha de chegada em primeiro lugar.. carrego muito dinheiro no meu casco-cofre.. Com as asas postiças. é só correr um pouco que eu a ultrapasso" – pensou. Adaptação: Lúcia Tulchinski) A TARTARUGA E O COELHO – 2ª versão Dilea Frate A tartaruga ganhou do coelho na corrida e ficou rica. a tartaruga ajeitou o casco-cofre.. como num passe de mágica. A lebre estava tão certa da vitória que resolveu tirar uma soneca. Quando dizia que era o animal mais veloz. torna-se descuidada e se distrai do seu objetivo. Editora Scipione.. Temos aqui uma competição entre o mais rápido e o mais lento – o que. O pardal respondeu: "Eu sou pobre. para sua surpresa. mas sou leve e posso voar".A lebre caiu na gargalhada.. – Uma corrida? Eu e você? Essa é boa! – Por acaso você está com medo de perder? – perguntou a tartaruga. todos lembravam-na de uma certa tartaruga. em sua marcha vagarosa e constante. No dia seguinte a raposa foi escolhida para ser a juíza da prova. . ela teve a idéia de jogar o casco-cofre pelos ares e. animal ligeiro e a tartaruga. "Se aquela molenga passar na minha frente. Mas. ela se encontrou com o pardal e começou a rolar uma discussão sobre dinheiro: "Eu sou rica. as asas começaram a funcionar!. Chegou o dia do vôo. animal que se movimenta com vagar. passou. Entretanto. A tartaruga não se abalou e continuou na disputa. continuou a correr com ares de vencedora. novamente observamos a escolha de dois animais com características importantíssimas para o desenvolvimento do enredo: Uma corrida vai acontecer e para vencer é preciso ser o mais rápido. Bastou dar o sinal da largada para a lebre disparar na frente a toda velocidade. indicaria a vitória da lebre. p. mas feliz. Desse dia em diante. e você?". não tenho casco nem cofre. Para estabelecer o conflito as personagens escolhidas são a lebre. In: Fábulas de Esopo. movida pela autoconfiança exagerada e acreditando que venceria sem qualquer esforço.. O dinheiro consegue tudo". SP. Começou a cair feito uma pedra. a tartaruga estava pobre. E foi o que ela fez. 1996. 2000. Que alívio! E que alegria poder voar como um passarinho! Quando chegou à terra. A lebre dormiu tanto que não percebeu quando a tartaruga. Um dia. (In: Histórias para Acordar. Moral: Quem segue devagar e com constância sempre chega na frente. A tartaruga respondeu: "Se quiser. (assovio).

Esta ausência de oposições pode ser interessante para questioná-las e relativizá-las. forte e fraco. mas num conflito pessoal: movida pelo desejo de ter o que não possui – ela deseja voar e não é capaz – gasta tudo o que tem na tentativa de realizar este desejo. Neste momento de 'fraqueza' acaba possibilitando à tartaruga. mas de uma continuação dela.. Consegue voar! E mesmo sem dinheiro.) – um forte argumento nas fábulas clássicas. Quando Dilea Frate propõe uma nova fábula sobre a lebre e a tartaruga. Mas. rica. Podemos observar. Há coisas mais valiosas no mundo do que o dinheiro. Ao contrário. diferente da outra fábula. feroz e manso. A autora avança. mas sabe voar e valoriza esta sua característica – ele não tem dinheiro. Nesta fábula quem vence é quem é o 'mais fraco' porque possui uma outra qualidade que o torna superior à lebre. A tartaruga não se desvia da meta e assim a sua fraqueza é convertida em força. pode fazer algo que a tartaruga. A 'tensão' do enredo se concentra não numa disputa externa. neste contexto. a referência continua sendo a fábula de Esopo.quando resolve dormir. Como se percebe. que a tartaruga não deixa de se manter coerente em relação à fábula clássica: ela perseverou em seu objetivo. A tartaruga supera o seu conflito. Nesta fábula percebe-se outro movimento na construção do enredo que eliminou do conflito o caráter competitivo entre forças opostas (bem e mal. temos o pardal – que não tem dinheiro. perder toda sua riqueza. acaba emprestando dinheiro para a tartaruga. tais como: O dinheiro deve ser um meio para se ter o que deseja e não um fim em si mesmo. na primeira frase percebemos que não se trata da mesma fábula. Poderíamos depreender alguns valores desta fábula de Dilea Frate. . a tartaruga é rica e por isso crê que é possível conquistar qualquer coisa – ela passa a representar o lado forte! Do outro lado. Esta situação entre as personagens contribui para não haver uma competição entre eles. em que a lebre passa a ser simples coadjuvante e um novo personagem aparece para ajudar na construção de um outro conflito. Agora. neste caso. valeu a pena à tartaruga. fica feliz porque foi ele que possibilitou a realização do seu desejo. não foi lamentada pela personagem que termina a fábula feliz porque ganhou algo.. não houve uma competição – o pardal nada ganhou e nada perdeu com a pobreza da tartaruga. E a lebre – agora na versão brasileira transformada em coelho – a perdedora da outra fábula. ele mostrou a ela um outro valor. em desvantagem natural. – que são valores mais contemporâneos. sem se importar com o custo. conquistar a vitória. pelo seu compromisso com a corrida. mas ajuda a consegui-la etc. O conflito passa a ser apenas da tartaruga. ainda. não pode! Veja que o pardal não se sente intimidado ou inferior em relação à tartaruga. O dinheiro não traz felicidade. apresentando um novo episódio na vida da tartaruga. mas pode voar. Muito pelo contrário. pelo qual no final das contas. além do dinheiro. A perda.

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