Curioni Tradução das poesias: Dora F. Elisabete Oréfice e Helaine L Viotti Capa de Luis Díaz ESTRUTURA DA LíRICA MODERNA (da metade do século XIX a meados do século XX) Hugo Friedrich 1 J Tradução do texto: Marise M. SaIles. da Silva •• ! ! I I1 1 [fi] [fi] Livraria Duas Cidades .Equipe de realização: Assessoria editorial de Mara VaIles Revisão de Valéria C.

71. 90.. A idealidade vazia. Novalis sobre a poesia futura. Rua Bento Freitas. 64.~ 8audela1re. 55. 35. I DEDALUS . 75. Abstração e arabesco. Irrealidade sensível. 49.São Paulo 1991 9 13 15 35 36.. 47. 44. Rimbaud .. Características preliminares.. O Romantismo francês. "Lettres d'un voyant" (transcendência vazia.Acervo .. Concentração e consciência da forma: lírica e matemática.. C--. Ruptura dos limites. 69... Prelúdios teóricos no século XVIII: Rousseau e Diderot. Dinâmica do movimento e magia da linguagem. 84.. I111111111111111111111111111111111111111111111111111111I111I11111 21100028582 2~ Edição Direitos para a língua portuguesa reservados por Livraria Duas Cidades Ltda. 59... 57. 77.•. Do prefácio à primeira edição Prefácio à nova edição . Ruptura da tradição. Magia da linguagem. 38. 45. Intensidade do feio. . I 11. Perspectiva da lírica contemporânea: dissonâncias e anormalidade. 1956 Sumário (5LJ 1. 158 . 93. 15. Categorias negativas.. 19. 81. Decomposição e deformação. I I .. 60. 27.. "Les Illuminations". Poesia abstrata...... 79.. 30.PROBLEMAS ATUAIS E SUAS FONTES Direção de Ernesto Grassi 3 Originalmente publicado sob o titulo de Die Struktur der Modernen Lyrik na série "Rowohts deutsche enzyklopadie" Editor geral Ernesto Grassi © Rowohlt Taschenbuch Verlag GmbH.. 87. 42. "música" dissonante). 66. O poeta da modernidade. Tempo final e modernidade. 53... 23. Insurreição contra a herança cristã: "Une Saison en Enfer". 45. Realidade destruída. Modernidade e poesia da cidade. 90. a desumanização.. Fantasia criativa. Perspectiva e retrospecto . Julgamento final.... Cristianismo em ruína.) .. Hamburgo. "O prazer aristocrático de desagradar". 73. Poesia em forma de monólogo. O eu artificial. "Le bateau ivre". 83. 32.. Fantasia ditatorial.. Despersonalização. 66. 61.. A teoria do grotesco e do fragmentárió. Desorientação.. I. 59 .. anormalidade desejada. Técnica da fusão.FFLCH-GE j 111. Estética do feio.

O Nada e a forma.. o "humorismo". não compreensível. . Interpretação de três poesias: "Sainte". Realidade.. . . 141 6 Apêndice Apêndice I -Poesias 11 - do século XX 213 Quatro interpretações .Cronologia da lírica moderna. 147.. esquema ontológico. 143. Técnica da fusão e metáforas. 193. 97.. alguns recursos estilísticos. A função indeterminada dos determinantes. Obscuridade. 115. . Apêndice 111 . confronto com Góngora. ... Bibliografia lndice de autores .. 116. 178. A lírica européia no século XX Observações metodológicas. 112. Poesia alógica. 206. 110.. Evolução do estilo. 194.. "Poésie pure". A dissonância ontológica. Mallarmé)" e "Surgi de Ia croupe".. . Ungaretti. PQesia sugestiva. . . 113. 162. . . Fantasia ditatorial.. 187. ApoIo em lugar de Dioniso.IV.. como trabalho e como jogo.0 aniversário 2 de maio de 1967 .. O absurdo. . . 128. 145.. . . 182. 108. . 119. Eliot.. O estilo incongruente e a "nova liguagem".. . Mallarmé '. 134. 122.. Característica preliminar. Saint-John Perse. GarGÍa Lorca. Dupla relação para com a modernidade e a herança literária. Ulteriores considerações sobre a "nova linguagem". 190. Duas reflexões sobre a lírica: Apollinaire e GarGÍa Lorca. 203. "Ses purs ongles".· 149. Os efeitos da fantasia ditatorial. 195. 287 305 311 143 A Ernesto Grassi em seu 65. Amor e morte são desumanizados. S. 135. Magia da linguagem -e sugestão. . 200. Ocultismo. 141. 95 V. Obscuridade. 153. 197. Fantasia ditatorial. "Festa do intelecto" e "derrocada do intelecto". 210. . . magia e magia lingüística. . 173. Desumanização. . . . "Romance sonâmbulo". "I!ventail (de Mme. 118. A proximidade do silêncio. 13&1O estar só com a linguagem. A lírica espanhola do século XX. 95. 165. Isolamento e angústia.. 202. . 138. Conclusão. 121. "Hermetismo". .. 160. 130. . T. 184. A lírica como oposição. Jorge Guillén. Paul Valéry. Dizer o que nunca foi dito. abstração e "olhar absoluto".

Mas. . após Rimbaud. Esta deve ser decifrada a partir de uma linguagem que só é escrita por este autor. E. sugestionabilidade em vez de compreensibilidade.é terreno. falava ironicamente de sua própria pessoa. Característica preliminar A lírica de Mallarmé não parece comparável à de nenhum de seus predecessores ou contemporâneos. que deformava tanto o mundo quanto o eu. assumiu com coragem e pressentimento do futuro aquela "brutal luta espiritual" da qual ele próprio falava e que foi o destino de seu século. teve caráter suficiente para emudecer. IV. Este silêncio é um ato de sua própria existência poética. era repleto de bondade. tanto lógicas como afetivas. ruptura com a tradição humanística e cristã. ainda mais ousado que a turbulência de Rimbaud. evidencia-se que também a lírica de Mallarmé pertence a uma estrutura poética cujas articulações isoladas têm sua origem no Romantismo e que foi se definindo cada vez mais a partir de Baudelaire. vieram ainda poetas líricos cuja obra demonstra que nem tudo havia sido feito para se converter em linguagem a alma moderna. 94 O leitor que até aqui seguiu nossa exposição poderá se orientar se indicarmos em fórmulas em que consiste esta pertinência. Rimbaud. fantasia guiada pelo intelecto. aniquilamento da realidade e das ordens normais.que provocou. A grandeza de Rimbaud consiste em haver trasladado o caos . quando ainda não serviam para nada". r j. Mallarmé Quando ele chegou ao limite no qual sua poesia. Muitos poetas posteriores. predominando nesta as categorias negativas. contudo. que foram mais desencaminhados do que guiados por seu exemplo. doravante. manejo das forças impulsivas da língua. com apenas dezenove anos. É a lírica de um homem cuja vida percorreu trilhas burguesas normais e que. Como Baudelaire. O que antes havia sido extrema liberdade na poesia. ao contrário. relação dupla para com a modernidade. consciência de pertencer a uma época tardia da cultura. as coisas voltam a evidenciar-se com aquela liberdade terrível que possuíam. poderiam ter aprendido dele que· teria sido melhor para eles permanecerem calados. O mundo volta a mergulhar em seu caos originário. converteu-se. Mas na calmaria desta vida seu espírito trabalhava muito lentamente em uma poesia ou em um pensamento que é. isolamento que t-:m consciência de ser distinção. 95 . não demonstrava qualquer amargor e. Temida e famosa é a obscuridade de sua lírica. Também em Mallarmé constatamos: ausência de uma lírica do sentimento e da inspiração.em uma linguagem de perfeição misteriosa e de tê-Io dominado artisticamente. por haver fracassado ante este "desconhecido" . em liberdade da poesia. nivelamento do ato de poetar com a reflexão sobre a composição poética. apesar de ter sofrido muito. com suas abstrações. começou a destruir a si própria. para substituir o "desconhecido"..

experimentam agora com ele uma transfiguração e profundidade que.li I . Valéry. Ili til I . pois esta poesia quer atuar em primeiro lugar sobre o ouvido. Sua lírica servese de objetos simples: vaso. fundamenta ontologicamente a obscuridade do poetar assim como seu afastamento de uma compreensibilidade limitante. um sintoma da situação na qual se encontra a poesia moderna em geral. Mas encontra sua configuração verdadeira na poesia. O leitor pode perguntar-se: Esta poesia ainda é lírica? Por que Mallarmé não 97 96 1 1 ) . mesmo que esta seja conduzida ao desconhecido. O primeiro texto é "Sainte" (p. apesar de toda a complexidade do resultado. de formar a realidade. Justamente sua invulgaridade o recomenda a espíritos que estão cansados daquilo que é habitual. mas perceptível. fechado em si mesmo. esteticismo ou algo semelhante. Da poesia de Mallarmé resultou um novo tipo de lírica moderna. Por certo não é uma altura feliz. fase que começa em 1870. São. O curso de sua criação poética e de seu pensamento não deriva do mundo empírico ao ontologicamente universal mas. E justamente por não se utilizar de conceitos. Eis por que sua poesia é lírica: é canto do mistério com palavras e imagens. antes de mais nada. pois aquela corrente invisível de tensão incorpora-se a eles. a última das quais se perde em possibilidades de sentido mal compreensíveis. é continuamente interpretado de novo. Referimo-nos . S. Cada poesia isolada tem várias camadas de significação que se sobrepõem uma às outras. Mallarmé aperfeiçoa a concepção. pelas quais se pode perceber a vinculação de MaIIarmé ao caráter geral da poesia moderna. em sentido inverso. assim como as poesias seguintes. Demonstram-no os nomes europeus de George.apenas à segunda fase de sua poesia. Penetra-os a tal ponto que os objetos simples de nossO mundo vêm colmados de mistério até seu âmago.opsiderável na produção de outros poetas. nasce da mais alta aspiração que um poeta possa ter. :É um paradoxo semelhante àquele observado em Rimbaud que também esta obra enigmática e isolada de Mallarmé exerça uma influência c. r'. espelho.exprime suas reflexões ontológicas numa exposição conceitual inequivoca? Talvez se possa responder à última pergunta: não o faz porque fixá-Ias numa exposição inequívoca implicaria a perda do misterioso e o que lhe importa é justamente aproximar-se o mais densamente possível deste. Guillén. Eliot. Aconselhamos ao leitor familiarizado com o francês que leia o original a meia voz. O solitário. Swinburne. mas por imprimir de modo profundo o Ser absoluto. é ouvido. esta agita-se num espaço quase carente de ar. atrai discípulos e os torna mestres. para a representação eles estão presentes. conhecida desde Baudelaire. discreta. sim. Além disso. Sua obra não é ócio literário. Mallarmé)" e "Surgi de Ia croupe" Como introdução a este difícil autor. E vêm substituir todo o real que os circunda. mediante seus estímulos sonoros entrelaçados. este pensamento se manifesta nos ensaios de Divagations e em algumas cartas. Isto não deve ser mal-entendido.como também no correr desta exposição . Mallarmé torna-os enigmáticos a nossos olhos e consegue obter o sentido de mistério essencial nas coisas familiares. faltam-lhe os deuses. é verdade. a lírica é transportada a uma altura que nunca havia atingido na literatura posterior à antigüidade.':1 Interpretação de três poesias: "Sainte". suscita inquietação. Todavia. Teórica . Estas características. a poesia quer ser o único lugar no qual o absoluto e a linguagem podem se encontrar. cuja versão definitiva é de 1884. "~ventail (de Mme. vai do ontologicamente universal ao mundo empírico. como se se tratasse de uma poesia doutrinária. três de suas poesias embora. graças à palavra que os nomeia. falta-lhe a transcendência verdadeira. T. o Nada. Ao contrário. pois a união entre idéia artística e reflexão sobre a arte é agora exaltada nele por um pensamento que gira em torno do Ser absoluto (equiparado ao Nada) e em torno da relação deste para com a linguagem. Assim. é oportuno analisar. Tudo isto se explicará melhor mais adiante. cuja percepção faz a alma vibrar. ··1 I n 1.e sempre prudentemente -. consolo. Por outro lado. que a fantasia artística não consiste em reproduzir de forma idealizadora mas. 53). e tornam-se veículos de uma corrente invisível de tensão. Mallarmé foi ouvido e sua poesia frutificou. leque. ao fazê-lo. Ungaretti. nos objetos mais simples. transportados à ausência. Suave. em si. Ele a perfeiçoa dando-lhe um fundamento ontológico. Antes de mais nada é preciso indicar em que residem as singularidades de Mallarmé. são perfeitamente inteligíveis e lógicas. adquirindo um insólito acréscimo de sentido. a íntima percepção de seu conteúdo anormal. a fim de preparar. este fato é. desconcretizados. não se possa evitar certo pedantismo.

um instrumento velho de madeira de sândalo. a linguagem. Desta poesia existe uma versão que remonta a quase vinte anos atrás. musicista do silêncio. portanto. dá lugar a um modo de falar murmurante. ainda que se necessite um pouco de tempo para encontrar a solução.A Ia fenêtre recelant Le santal vieux qui se dédore De sa viole étincelant Jadis avec flute ou mandore. a seguir.. portanto. não apenas metáfora. . pelas orações se98 1I f cundárias da terceira e quarta estrofes. em verdade existente. É asa e harpa. A transição está constituída por aquela harpa que é. Intitulava-se: "Sainte Cécile. portanto o mais geral e o mais indeterminado. elle balance Sur le plumage instrumental. mas apenas lingüisticamente: Flauta e mandara (uma espécie de alaúde) só existem na lembrança do "outrora". o afastar-se das coisas propaga-se cada vez mais. metricamente impecável. consistindo em elementos não interpretáveis ou em uma identidade irreal de coisas diversas. Mas tange afinal? Seria melhor dizer que permanece em silêncio. est Ia Sainte. consta de um período único. que o objetivamente presente é mínimo. terminação adverbial. asa de anjo. Sua tessitura. uma redoma de ostensório. mas ide~tidade procedimento este que já conhecemos em Rimbaud. . mas elítico em si mesmo. Seria uma metáfora para indicar a asa do anjo? Mas. ou seja: "À Ia fenêtr~. mostrando O velho livro que se desdobra Do Magnificat jorrando Outrora segundo vésperas. um livro com o texto do Magnificat. A santa tange sem o velho sândalo. Vê-se. parece ser de novo uma harpa. tirando-lhe toda limitação inequívoca. não existe objetiva. uma identidade irreal. nem sequer terminado. Está a Santa pálida. em uma breve oração principal. A aposição ("À ce vi· trage") paira no ar. A poesia move-se em um âmbito onde as diferenças reais são suprimidas e onde tem !. O velho livro com o Magnificat. sem o velho sânclalo E o velho livro. . a partir da terceira estrofe. O movimento do período. uma harpa. não pode ser mais simples. À ce vitrage . jouant sur l'aile d'un Chérubin". mas tão-só. étalant Le livre vieux qui se déplie Du Magnificat ruisselant Jadis selon vêpre et complie: A ce vitrage d'ostensoir Que frôle une harpe par I' Ange Formée avec son vol du soir Pour Ia délicate phalange Du doigt que.ugar um múltiplo transmudar de uma coisa n:: ocrt::a. A harpa da terceira estrofe é "formada com o vôo vespertino de um anjo". Santa A janela O velho Da viola Outrora que esconde sândalo de ouro desmaiado cintilante com flauta ou mandora. finalmente. De todo o título restou apenas: "Sainte". seria difícil imaginá-Ia. Enquanto provoca este afasta99 . Est Ia Sainte pâle. Nenhum acontecimento objetivo. Mas mantêm uma relação enigmática entre si ou nem sequer estão presentes como objetos. com o mais ameno dos verbos ("est").. tampouco pertence ao presente: suas notasdimanavam "outrora". E todo o resto é uma ausência definitiva. ao mesmo tempo. pelas integrações análogas a orações' secundárias da segunda e. " Consiste em uma de. Musicista do silêncio. com suas pormenorizadas qualidades. longe de toda ostentação oratória. No poema existem alguns objetos. nenhuma ação da "santa" leva isso a efeito. A desrealização apoderouse também do título. ela balança Sobre a plumagem do instrumento. as orações que seguem não mais se arredon· dam num quadro expressivo terminado. Mas. pelo aniquilamento e relegado à ausência e ao silêncio. uma janela. sem o velho livro. completas: A esta vidraça de ostensório Que a harpa do Anjo aflora Formada com seu vôo vespertino Para a delicada falange Do dedo que. no limiar do silêncio (aliás nomeado na última palavra). Todavia esta tessitura fundamental está oculta pela inserção da primeira estrofe. A viola é "ocultada" pela janela e. em verdade simples. sans le vieux santal Ni le vieux livre. em uma aposição como que retardada. Mas ocorre algo mais. no aberto. a redoma do ostensório parece ser uma aposição explicativa à janela. uma plumagem que serve como instrumento musical. o texto. Do ponto de vista sintático. Então aredoma seria o mesmo que a janela? Segundo a ordem normal das coisas. porém deixam o todo correr livremente. para ser arrastado. Musicienne du silence. finalmente..

no jogo de suas tensões abstratas. que é a mandara. têm-se provas suficientes que se deve entender esta hora tardia de modo absoluto. ainda que referidas a um tempo passado. poesia de vivência. Mas o que ocorre com esta música? A santa não toca. por sua vez. Além disso. talvez. usado quatro vezes. do ano de 1887 (p. análoga às cadeias de fórmulas de matemática. não é uma determinada hora do entardecer na qual se deveria imaginar a existência da santa. solitário. f: necessário percorrer um longo caminho para se reconhecer tudo isto. ausentes ou irreais. O segundo texto é o soneto "f:ventail (de Mme. mas na linguagem. aparece. apenas partindo do pressuposto de um espaço vazio de objetos. por sua vez. a linguagem confere ao mesmo tempo ao aniquilado uma existência na linguagem. Aniquila os objetos para elevá-Ias a essências absolutas. da categoria temporal adequada ao afundar-se e ao aniquilar-se. Pois tal lírica nada mais tem a ver com poesia de sentimento. Precisa-se. Na perfeição de seu metro. com a substancialidade do entardecer e com o afastamento dos objetos. tornadas absolutas. assim como a peça de antiquário.no caso. Mas com o perceptível realiza-se uma transformação rumo ao insólito e provavelmente também ao inquietante. cria uma luz mortiça. constituem a substancialidade do tardio e do antigo . Numa harmonia irreal com a ausência. "Vésperas" e "Completas". considerando-se o "velho".. Graças a isto. A poesia é um processo não nas coisas. torna-se completamente livre. desprendem-se deles. tem uma existência espiritual na linguagem. nossa percepção visual e. uma relação desvinculada de toda a ordem real.uma substancialidade que. Trata-se de uma presença espiritual e. livre das sombras do real. mas com uma música que se impõe silenciosamente. onde o espírito. ela fala a partir de um espaço interior incorpóreo. na pureza de seu murmu-. Os objetos concretos estão aniquilados. vôo este que também é subtraído ao tempo empírico. uma das mais belas e puras que escreveu. olha-se a si mesmo e experimenta. Tendo como por linguagem Apenas um adejar no espaço O futuro verso se liberta Da preciosa morada 100 . pois nada mais têm a ver com o mundo empírico. A viola está oculta pela janela. rar sonhador. certamente. Estes objetos rejeitados estão presentes exclusivamente na linguagem. uma satisfação de dominar. Por que existem. De forma estranha. apagando-se. também acústica. as determinantes de tempo. Mallarmé) Esta poesia de Mallarmé. Trata-se. Avec comme pour langage Rien qu'un battement aux cieux Le futur vers se dégage Du logis tres précieux Aile tout bas Ia courriere Cet éventail si c'est lui Le même par qui derriere Toi quelque miroir alui Limpide (ou va redescendre Pourchassée en chaque grain Vn peu d'invisible cendre Seule à me rendre chagrin) Toujours tel il apparaisse Entre tes mains sans paresse. acentuam a impressão do entardecer. que lhe pareciam inerentes. I' r Leque (de Mme. ainda que seja "apenas" na língua? São instrumentos musicais. A música é silêncio mas. Todavia. O ouro da cor do sândalo. pura e simplesmente. entre eles. realiza atos anormais. do tardio absoluto. Tais objetos ocultos. tanto mais absoluta quanto mais os objetos são suprimidos em sua existência empírica. portanto. também relega os objetos de sua presença. que subsistem muito mais definitivamente na linguagem. uma atmosfera crepuscular. agora clara. sonora -: a música. flauta e mandara são evocadas só lingüisticamente. como a harpa irreal. por assim dizer. ocupa. de uma temporalidade do entardecer. 101 . e apenas nela. poesia de experiência. Mallarmé)".mento e. Isto já se mostra desde o início do poema. do "vôo vespertino" da terceira estrofe. daqueles "óculos cerebrais" de que Maurice Barres falava ironicamente quando criticava Mallarmé. Esta impressão se acentua na designação. Ele ocorre num momento particular que. as indicações de tempo. aniquilamento dos objetos. na realidade. é verdade. é uma substancialidade que. 57). com o Nada. justamente por isso. são sustentáculos de uma substancialidade .

com a cinza futura. como aliás sempre em Mallarmé. O fragmento que restou tem significação 102 mais geral. Uma cinza invisível cairá no espelho. A poesia não tem pontuação. Não existem sentimentos ternos nem galanteios neste texto. Estas categorias dominam também a conclusão da poesia. A tessitura da frase está dilatada ao extremo e provoca a mesma ambigüidade que o conteúdo. Não se refere. o texto fala do leque.palavra esta que. de novo. por exemplo: passado. com o brilhar antigo. na segunda. Também se tem dificuldade em reconhecer a tessitura da oração. tradicional. também a locução adverbial "tout bas" é tratada ousadamente como evocação. o leque de uma senhora. à poesia ideal ("le futur vers"). mas um movimento de afastamento dele. Mallarmé expressa o mesmo que Rimbaud: "Uma tempestade abre brechas nas paredes. 103 . metaforicamente. "quelque miroir" . o que está expresso nesta forma. mas irradiem de si próprias suas muitas possibilidades de sentido. de difícil explicação sintática. A partir da segunda estrofe. observada já na maneira de tratar a linguagem. tornado ausente. de modo diferente. também ela. um objeto hipotético que está em ligação misteriosa com o espelho antigo. a incompreensibilidade. hipotético. estão relacionados. não no sentido das palavras em primeiro plano. Tradicional (mesmo se usado raramente na França) é a forma inglesa do soneto. já não está presente. contudo. porém. Tem-se de reparar nestes versos. não tem lugar a representação de um objeto. Chama-se. ela própria. trata-se de evocações.. a poesia galante dos séculos anteriores gostava de coisas deste gênero. o artigo da indeterminação. Este verso da segunda estrofe é um exemplo do estilo tardio de Mallarmé que deseja que as palavras não falem mediante relações gramaticais. como um terceiro artigo. ao leque mas. Após as palavras do verso inicial. é o processo de desconcretização. É suficiente que a cinza exista lingüisticamente. em todo o caso. para a idealidade. de significação apenas "battement" . "Cet éventai1. é invisível. e como. mas esta interpelação é tão insignificante quanto os resquícios de sinais humanos. Neste espelho. na leitura. A poesia dirige-se a um tu. o texto afasta-se de imediato deste objeto preciso. dispersa os limites das moradias" ("Nocturne vulgaire"). só virá e será. de forma alguma.talvez seja o cabelo encanecido da pessoa a quem se dirige o poema? Mas esta dúvida deve permanecer em suspenso. portanto. Porém. toujours tel il apparaisse". quanto ao espelho: este "brilhou" através do leque. Mas o arco formado por estes dois grupos de palavras abrange tantas inserções que. ocorre algo que cria uma nova não-presença. o leque é. se faz sentir para depois. hipótese. L I f I l' Poder-se-ia dizer à primeira vista: um motivo tradicional na forma tradicional.constitui algo que nada tem de tradicional. •. Com seu modo sereno. quase fútil. não é o objeto que se torna nítido.. de mais a mais. O início da primeira e da segunda estrofes é de uma densidade concisa de difícil penetração. como a "cin: za" e como a "tristeza". Isto se repete. nítido.. pelo menos a partir da segunda estrofe. indo muito além de seu âmbito verbal relacionado a "leque". ~' Embora o título nomeie o leque. parece que uma realidade. mas nas categorias com as quais a linguagem maneja o concreto. Não existe como objeto. "perseguida em cada grão". O leque deve permanecer sempre assim: um adejar para o alto. quase nada é o movimento fútil de um simples adejar no espaço. não é. A única indicação tipográfica sobre uma articulação de sentido são os parêntesis na terceira estrofe. futuro. indeterminação. e esta poesia se afasta de tudo o que é habitual e cômodo ("se dégage .. ademais. à poesia futura. Até mesmo a dor é desvinculada do sentir. . já na primeira estrofe. Não ficamos sabendo o que é a cinza .um pronome que Mallarmé utiliza muito amiúde. Tradicional é o motivo. portanto.Asa em surdina mensageira Este leque se é ele O mesmo pelo qual atrás De ti brilhou algum espelho Límpido (onde vai deslizar Perseguida em cada grão Um pouco de invisível cinza Única a me entristecer) Sempre assim ele apareça Em tuas mãos sem preguiça. acolhe de seu círculo. à poesia. não contribui muito para a compreensão mas. para o alto. delineada nos mais delicados perfis. O tema da primeira estrofe pode ser interpretado assim: a poesia futura não tem linguagem no sentido habitual. se tem a sensação de uma oração elíptica. ou seja. este motivo objetivo se entrelaça com um tema ideal . por que foi escolhido este leque tão sem importância. imediatamente relegado ao indeterminado. É verdade que o leque é nomeado. tem apenas" algo de semelhante" a uma linguagem que. "). Todavia se faz a restrição "se é ele".é apenas um fragmento: a expressão completa deveria ser "battemenli d'ailes" (bater de asas). O que impressiona o leitor. Portanto. ser afastada. ausência. não interrompe o constante murmúrio sonhador da linguagem que também aqui se volta a ouvir. enfim. de forma alguma.

convertendo a potencialidade infinita da linguagem no verdadeiro conteúdo de suas poesias. Sempre foi privilégio da lírica deixar oscilar a palavra em seus múltiplos significados. Só pode ser um adejar. Sem adornar a vigília amarga. o propósito desejado na estrofe inicial: "desvincular-se do lar". Este aparece ° I I I •• 105 . Le pur vase d'aucun breuvage Que l'inexhaustible veuvage Agonise mais ne consent. só ao se anularem possibilitam o nascimento. de suas forças essenciais puras. A primeira estrofe contém o movimento do surgir que é interrompido de súbito. na linguagem. se expresse também na linguagem. 74): Surgi de Ia croupe et du bond D'une verrerie éphemere Sans fleurir Ia veillée amere Le col ignoré s'interrompt.e diz as mais enigmáticas. Mallarmé leva esta possibilidade ao extremo. O texto inicia no indeterminado e no genérico toda vez que se trata de objetos. porém. Tamais à mesma Quimera. Surgir de quê? De croupe (garupa. mediante o total afastamento do familiar. eles existem apenas na linguagem. Te crois bien que deux bouches n'ont Bu. como em Baudelaire e em Rimbaud. Snfo deste gélido teto! O puro recipiente de bebida Senão da viuvez incansável. Enquanto a poesia realiza esta subtração. Nem seu amante nem minha mãe. mas definido tão genericamente que não se pode. Estão subtraídos de sua comodidade habitual. :É possível aproximar-se do poema. que se preserva de toda interpretação única de sentido. na terceira estrofe. redondez) e bond (salto). por outro lado. um soneto sem título. Consegue. desta vez também numa sintaxe que só levemente se afasta do normal. como quase toda a lírica de Mallarmé. só pode ser uma linguagem irreal ("eine Als-ob-Sprache"). observando as fases de seus movimentos. 104 alguma Ingênuo beijo dos mais fúnebres! A nada expirar anunciando Uma rosa nas trevas. depois de completada a desconcretização. Mas o que existe de formalmente correto. até o ponto em que a decifração volte a ser percepção auditiva e aquilo que se descobriu por meio da reflexão possa de novo cantar e perder-se no incogniscível. I Creio que duas bocas não beberam. comparece nome exato do objeto de cristal: "o recipiente puro". uma atmosfera de sentido com muitas irradiações. enquanto conservam sua presença real. um conteúdo absolutamente obscuro. O colo ignorado se interrompe. Isto é congruente com a seqüência gradual da exposição. A linguagem coloca no mesmo plano um valor espacial (redondez) e um valor dinâmico (salto). um objeto. por certo. Este procedimento é intencional. o terceiro texto. nada é limitação. l. interpretada ontologicamente. Também aqui a ausência dos objetos possui um nível superior à sua presença. cumpre. uma poesia sobre a criação poética. assim. Agoniza mas não consente. Pertencem ao "vidro efêmero". Moi. confrontada à linguagem corrente. de 1887 (p. Estas duas coisas são ainda desconhecidas. ni son amant ni ma mel'e. apresenta. E. também no sentido de suas três orações estarem distribuídas segundo o preceito da articulação clássica do soneto: enquanto os dois quartetos consistem de dois períodos distintos. transformando sua linha estática em um "salto". são impuros. os tipos de movimentos que. Temos de decifrá-Ia acuradamente. ":Éventail" é. eu. os dois tercetos se fundem num período único. Este é. a princípio. por fim. da mesma forma. Nalf baiser des plus funebres! À rien expireI' annonçant Une rose dans le ténebres. Sylphe de ce froid plafond! Surgido da garupa e do salto De um vidro efêmero. além disso. Tamais à Ia même Chimere. se tem de aceitá-Io como desconhecido. na qual tudo é movimento. Tal linguagem. envolvem o próprio objeto. O esquema ontológico impõe-se: os objetos. Precisos são. Só mais tarde. A linguagem se apresenta como se dissesse as coisas mais óbvias . J . ela própria. não-absolutos. uma linguagem transcendente. O soneto é severo na forma. mas permite que a transcendência vazia. ordenando coisas heterogêneas juntas. um sentido de mistério que não só liberta da realidade opressiva.Domina uma frieza tranqüila que elimina tanto o real como o humano. identificá-Io e.

fala algo semelhante a respeito de Poe). Mas o verso evita a palavra mais natural e coloca em seu lugar a palavra oposta .entre outras coisas .. base).ser apenas uma qualificação formal. 107 . a mais forte das quais é o fato de o colo ser ignorado: a haste da flor . Mallarmé comenta uma de suas poesias e observa: "O sentido . O texto evita estas duas palavras que se nos ocorrem facilmente. porém. Inequívoco é. está próximo da morte. O texto aproxima-se meramente um pouco mais do objeto concreto. p. do ponto de vista objetivo. Ilusionismo e magia da linguagem. que ocasionalmente também escrevia poesias. por certo.admitindo que seja ela . como a seu túmulo e à poesia em geral. a imagem da flor . "Redondez" (mais exatamente: garupa) e "salto" são. Designam negatividades. "amargo". caído embaixo por um desastre obscuro". só por um instante.não existe. se o estilo de Mallarmé. mas não o fixa solidamente. Cícero. 96). IIl.nascendo. como toda flor. A significação de "flor". Mallarmé. Numa carta anterior. mas usa-as como impulso para palavras de sons semelhantes . Teria sido mais natural "astro obscuro" (já que Mallarmé.Mallarmé respondeu: "Versos não se fazem com idéias. 1. Apresenta uma analogia com o procedimento geral de sua lírica que experimenta todas as singularidades para despertar os espíritos dormentes da linguagem. haste de uma flor. de novo.a versos nascidos de um jogo secreto de combinações da linguagem. pois não se pretende um sentido inequívoco nas coisas concretas. Aquele que fala. Mallarmé conhece tal significação (p. De orat. uma destas palavras é fleurir (adornar com flores). B provável que deva surgir esta imagem. Tudo o que chegamos a saber dele é que seus pais não amaram (note-se a inversão da ordem normal: "nem seu amante. pouco contribui para tornar o recipiente visível. de antemão. mas com palavras". no jogo de ilusionismo da linguagem que desta vez apresenta outra variante. Notem-se palavras como "efêmero". B muito provável. 18 de julho de 1868). Quem é que salta e se interrompe de pronto? "O colo ignorado. agora. com este conceito . "sem". acrescenta: "Todo o segredo está aí". mesmo se o leitor chega a descobrir o truque. A rosa. o recipiente só é visível a muito custo. Esta serve para evocar. 106 t. mas não incontestável. No soneto.porém. A palava evitada (astre) foi a que deu origem àquela que existe atualmente (désastre). Esta magia deve atuar também no primeiro verso do soneto.é evocado por um reflexo interior das próprias palavras" (a Cazalis.puro de todas as imisções que alterem a forma) por . Mallarmé gostava de falar do "ilusionismo" da arte. isto é." Talvez se trate do colo do recipiente. encontram-se também coupe (taça) e lond (fundo. assim. um grande jogo. designações para indicar o volume do recipiente e a linha movimentada de seu perfil. Estas negatividades estendem-se. na poesia. p. Quem se acostumou a interpretar a poesia de Mallarmé compreenderá esta expressão: também o silfo não existe. croupe e bando O ilusionismo tem um certo sentido profundo que o sorriso característico de Mallarmé apenas encobre ironicamente. porquanto este poetar joga. Além do mais.ex. atrás do véu de movimento . remonta a uma expressão da retórica antiga para uma figura da linguagem artística (fios orationis. por sua vez. "interromper-se". Valéry. Entramos. com o efeito desejado do insólito. visto que no último verso da poesia figura "uma rosa" que. se reflete agora no colo. outro fato. nem minha mãe"). se queixou de que lhe ocorriam idéias em excesso ameaçando destruir seus poemas. está imbuído da convicção de que as palavras encerram forças mais poderosas que as idéias. Surge a suspeita de que elas poderiam ter outra origem que não se referisse às coisas. como a maioria dos líricos modernos. é símbolo da palavra poética. mesmo se só secundariamente. que conta este fato em seu livro sobre Degas. Com estes termos. de qualquer forma. São todavia insólitas para o sentido lingüístico francês. Quando o pintor Degas. O recipiente contém o vazio. este fato não prejudica a dignidade do verso. e o final significa: o recipiente vazio no qual tudo é fracasso. nem sequer consente a palavra libertadora que ainda assim seria redentora. mesmo se fosse nas trevas 1.conseguindo um expressão de sentido profundo para a poesia. "ignorado". O verso refere-se tanto a Poe. um ser mÍtico (que se encontra na obra de Paracelso). não permitindo que nada que viesse a anunciar uma "rosa nas trevas" se exale. i Voltemos a nosso soneto. não se esforçasse por fugir da designação normal dos objetos e não estivesse absolutamente conforme o anseio de afastar-se da objetividade normal. 70). quer dizer que uma palavra pode estender sua significação para outras palavras que nada têm a ver com ela. como equivalente de palavra poética. é um silfo.e a reflete sobre o "colo": colo de uma flor. em Mallarmé. O emprego do impulso da palavra não seria possível. 828). Mas também poderia ser algo diverso.supondo que a poesia o contenha . em sua prosa. com a mesma constância que em "Sainte" e em "Bventail". O adjetivo pur (que com característica de ambigüidade significa tanto "simplesmente" como "puro" . Referia-se. No âmbito de significado de vase. No epitáfio de Poe figura um verso semelhante: "calme bloc ici-bas chu d'un désastre obscur" ("bloco sereno.

no conjunto. Como em Baudelaire. como Les Fleurs du Mal. uma obra-prima da prosa francesa ainda pouco apreciada. as frases para exercícios que havia preparado para suas aulas de língua inglesa: aforismos maliciosos no lusco-fusco de uma profundidade de pensamento burlesco. A temática fragmentária. como em Baudelaire. pois nem mesmo esta palavra chega à "rosa" libertadora. contra uma insônia de origem neurastênica que o atormentou durante anos. da idealidade pura. Tal poesia ainda é possível. J I \ O que. o mundo dos objetos concretos. Pode-se observar este fato com ajuda das diversas redações de suas poesias. de modo incompleto. está presente o negativo. Porém não chegou a ser. Aquilo que fracassa ante a aspiração ontológica. As curvas dos períodos transformamse em frases atomizadas. Todavia. além deste texto. de modo inverso. se um objeto havia aparecido primeiro em sua totalidade simples e costumeira. desaparece. o vazio do recipiente. o negativo é entendido comO essência categórica em geral que tem uma amplitude maior do que a de seus vetores empíricos. Toda nota demasiado forte. como no de Baudelaire. Onde originariamente os versos contavam. ao absoluto converter em linguagem do Nada. Um exemplo moderno são as oito litografias de touros de Picasso (1945/46). não chegou a compor um livro organicamente estruturado. No caso de Mallarmé. Levou a cabo sua obra. portanto dirígiam a atenção para um conteúdo limitado. Mas sua linguagem é um mistério que canta e protege o pensamento ontológico do desgaste.C> soneto é uma poesia das negatividades. Ou. cada vez mais anormal. Tem-se de agir com cautela na análise destes textos que ele próprio considera obras secundárias. Porém. por restos de representações. na qual sua obscura arte poética se distende na alegria da fábula. l! um desenvolvimento da dimensão interior. " I I Pode-se comparar este processo de reelaboração poética com hábitos afins de pintores de estilo vigoroso. Na palavra que expressa algo de objetivamente ausente. triunfa como poesia. está comprimido nas poesias em elevadas tensões de energia nas mais restritas áreas lingüísticas. para a essência da linguagem. lutando tenazmente contra uma profissão. brilhem por si próprias. Mallarmé estava seguro de ter em mãos as linhas de sua obra futura. nesta poesia. De EI Greco. converte-se em palavra: precisamente. A obra deveria. As palavras estereotipadas cedem às que têm valor de raridade. impôs-se um labor não inferior ao de uma disciplina ética. O desenvolvimento ulterior consistiu numa reelaboração múltipla dos primeiros esboços. as muitas cartas em rima e. Evolução do estilo Mallarmé procedeu lentamente. à lei de um estilo que transformou figuras e objetos. Enquanto as duas primeiras mantinham ainda uma certa proximidade à natureza. Em primeiro pJanc. A poesia fala por palavras e. faz-se em estilhaços nas redações posteriores. Por amor desta obra. por fim. a fim de que o início esteja livre para uma expressão alheia ao objeto. de modo que as palavras. Só aquilo que não consegue transformar-se em linguagem absoluta. também nele os temas fundamentais aparecem logo.da qual não gostava (era professor de ginásio). não exterior. mencionado no início de um poema. O que nos deixou. um florescer e respirar. há os muitos versos de ocasião. porém de tal forma que as transforma em sinais para a essência do negativo. descreviam. é removido para um trecho posterior. contra uma pobreza às vezes grande. empalidecendo-os e que agora desvia o olhar do tema para endereçá-Io à sua própria grafia. mas de um ideal sobre-humano. O objeto. por completo.estas se referem ainda li objetos: a flor que não existe. encontram-se agora versos que dirigem a atenção para si mesmos. foi um fluir caudaloso. não se pode falar de esterilidade. de seu instinto ao jogo que transforma todas as realidades e brotam da mesma raiz que a gravidade obscura de suas obras principais. em detalhes isolados. 108 não é conseqüência de uma falha pessoal. portanto. suspeita de ser oratória. não se precipitou. A redação definitiva de cada uma das poesias se estendeu muitas vezes por um' período de vinte. sentiam. cada vez mais sem peso e. estendendo-os exageradamente. O fato de ser fragmentária. suas partes isoladas repousam num fundamento sólido. Mas. o silfo que não existe. plurivalentes. na autêntica fertilidade de Mallarmé.>. e até mesmo trinta anos. São o transbordar brincalhão de sua fantasia. tornando-os longilíneos. Como já se pode depreender de uma carta de julho de 1866. dispostas com a maior independência sintática possível. Os textos que escreveu ao lado das obras principais afastam tal julgamento. No mais profundo desta poesia de Mallarmé domina a clareza. é obra construída e não acúmulo de detalhes. 109 . O número dos temas torna-se cada vez mais reduzido. a terceira obedece. A eles pertencem Contes Indiens (escritos em torno de 1893). tão-só porque algo tão abstrato como a essência do negativo tem de apoiar-se na palavra. há três versões de uma Expulsão do Templo. tornar-se um todo arquitetônico. na qual pensava e pela qual escrevia. fragmentariamente.

naquela época. Também aqui é o estilo metamorfoseante que tem de ser. sim. Hérodiade. Este é um princípio fundamental da lírica absoluta. desde os trovadores até à época anterior ao Romantismo. o equívoco de alguns historiadores da literatura. por exemplo. Junto com Rimbaud. cujo som não mais parece provir de nenhuma boca humana. Assim. "Igitur". uma intimidade total. a qual abrange tanto as forças pré-racionais quanto as racionais. ele próprio muito emotivo. personificada. a esta desumanização corresponde o afastamento da natureza vegetativa. de sentimentos pessoais. e terminam COm uma. por Verlaine. mas são flores cultivadas. A jovem. 111 . Há. Desumanização Um traço fundamental da poesia moderna é seu afastamento cada vez mais decidido da vida natural. fala certa vez que lírica é algo consideravelmente distinto de entusiasmo 110 . em suas poesias. Como em Baudelaire. porém. e de delírio. sabemos que excelente pessoa era MalIarmé: afável. Ele próprio aludiu amiúde a este ponto.uma fórmula na qual é de se notar a ausência de qualquer conceito normal para indicar a alma ou algo similar. cortês. no trecho em prosa. levado em consideração. B verdade que também a lírica anterior. de um pesar que cada um compreende. com grandeza. Certa vez. 552). Nenhuma das poesias de Mallarmé. fez com que se considerasse a lírica. expressões mais simples. 333). os aromas e as estrelas. depois. . 386) . e não o objeto metamorfoseado. mesmo se por razões de curiosidade e comodidade este tipo de análise tenha sido tentado repetidas vezes. passam depois a uma redução anatômica e. "A literatura consiste em eliminar 9 senhor fulano de tal que a escreve. morre menina. 657) Escrever poesia é "aniquilar um dia da vida ou morrer um pouco" (p. realiza um ato espiritual. desse modo. MalIarmé continuou o caminho que Novalis e Poe tinham recomendado. poderia ser interpretada biograficamente. quando um visitante lhe perguntou ingenuamente: "Mas o senhor nunca chora em seus versos?". Mallarmé introduz o mais radical abandono da lírica baseada na vivência e na confissão. símbolos inaturais da palavra poética. respondeu prontamente: "E nem assôo o nariz". analisadas acima. em seu conjunto. MalIarmé compõe suas poesias a partir de um centro para o qual é dificílimo encontrar um nome. Em outra ocasião. portanto. je ne veux rien d'humain" ("De resto. seus instintos. em forma de diário. a lírica antiga. "Du reste. Se quisermos designá-lo de alma. só ficou a suavidade. porque o tem dentro de si.\' ~ I Já nas primeiras poesias pode-se observar esta desumanização como. mas também a humanidade normal. cubista do animal. pode-se fazê-lo com a reserva de que com esta palavra não se pretende abarcar os sentimentos diferenciáveis mas. à base de variações artísticas sobre o geral. cujo único sofrimento continua sendo o de não poder tender ainda mais ao alto. o de ser um ente da idealidade pura. A lírica moderna exclui não só a pessoa particular. A cena dialogada. De tudo isto. Por contemporâneos do poeta. o caminho que conduz do sujeito poético a uma neutralidade suprapessoal. só raras vezes é comunicação. contagiados pelo Romantismo. primeiro. Ainda assim. objetos de quarto ou semelhantes. parecendo-se a um homem. tanto estados de ânimo oníricos quanto abstrações ferrenhas. de um tipo de poesia que ainda estava. MalIarmé chama o espírito poético de "centro vibratório de uma espera indefinida" (p. na qual Mallarmé trabalhou desde 1864 até o final de sua vida. nem penetrar em ouvido humano algum. imagem linear. descobre seu destino. e é antes uma elaboração precisa das palavras a fim de que se tornem uma "voz que oculte tanto o poeta quanto o leitor" (p. 410). a lírica estilizada. e que permaneceu como fragmento. numa espiritualidade que mata a vida. sem ser um homem. Do mesmo modo como em Mallarmé. a auto-anulação no absoluto do Nada." (p. e cuja unidade é perceptível nas correntes de vibrações da linguagem poética. totalmente incorpórea. assustando-se com seu corpo. ou seja. transfere um processo espiritual para a Salomé bíblica. Salomé recusa-se à natureza. nada quero de humano"): este verso pronunciado por sua boca poderia constituir o lema de toda a poesia de MalIarmé. O título (uma conjunção latina) indica um fantasma artificial que.-d. significa "consagrarse a uma tarefa singular completamente diversa de tudo quando tenda à vida" (p. As poucas coisas de que se serve a lírica de seus últimos tempos são quase sempre criadas artificialmente. se movia dentro do círculo que era familiar ao homem. B verdade que ainda há flores. esboçado em 1869. só em alguns casos recorre a vivências. o famoso falar em voz baixa de que gostava também na conversação mas não sua humanidade emotiva. já apenas figurativa. entra na "noite branca de gelo e neve pavorosa". Mas tampouco há alguma poesia que se possa interpretar como linguagem de uma alegria que todos nós conhecemos. compassivo para com as inquietações dos demais.Começam com uma representação fiel do natural.

mas apenas uni. sem dúvida. da qual surge agora uma série inteira de imagens do fogo. Por outro lado. o sentido interior do poema liberta o sentimento amoroso de sua essência. ao contrário. ruína. do início do século XVII. Não se pode pensar nos dois autores sem pensar no Romantismo. 53). que não lhe permite voltar ao mundo humano natural. É a opção pelo ·não comum. no mesmo plano de temas como o vaso vazio. A lírica como oposição. muito amplos. Mas atrás destas imagens ocorre algo de todo diverso. Segundo a lei do estilo barroco (com a qual Mallarmé tem. apenas na superfície. duvidosa resignação ao finito. Confrontando-se as poesias de Mallarmé sobre a morte com as de outros líricos. o amor. mas sem pretensões. arrebatado pelo pensamento de que também a alma morre com a morte. "naufrágio" etc. à Th. e é este o acontecimento autêntico: esperança na mais alta idealidade. publicação póstuma em Toute Ia Lyre. isto é. a qual só agora que o homem se extinguiu. o único campo em que se pode llj . 1887) de Mallarmé. Um. Até mesmo uma poesia mantida no plano da homenagem tradicional à mulher. uma dupla desumanização. A primeira versão da poesia de Mallarmé. O que acabamos de dizer pode tornar-se evidente mediante confronto da poesia de Mallarmé com uma poesia temática e artisticamente afim. "Mentre che Ia sua donna se pettina". de 1895. que a superposição de uma situação espiritual à amorosa se apresenta do modo mais claro. contemporâneas. se tem formação literária) pode-se orientar nesta poesia. não usual. uma explicação completa do soneto de Mallarmé não é possível. um parentesco). um luto alentado por recordações do poeta da amizade de outrora e embelecido com imagens do além. também o italiano sobrepõe ao acontecimento objetivo (a amada penteia seu cabelo). permanece humanamente próximo. e daí. o cabelo. Não há um tu. a fim de que permaneça aquele resto de plurivalência. ou seja. plenas de eficácia oratória. de relações ontológicas. a experiência fundamental de Mallarmé. Soltam-se de sua motivação concreta. não há mais pontes .. é contemporânea à poesia de Victor Rugo. o cálice ou a cortina de rendas. enquanto em Mallarmé se trata. porque tem um ponto de apoio em· seu repertório conhecido de imagens que o poeta combina e varia.. exclusivamente de um acontecimento aparente (o cabelo que cai sobre a fronte). eis aqui o acontecimento sensível da poesia. emerge um eu. Ela é impedida. Aqui. de propósito.. e sim unicamente partindo da obra completa do próprio Mallarmé. "navio". Entre suas duas poéticas. O soneto move-se numa altura na qual as palavras deixam muito atrás o objetivo terreno do falar. 1888) de Victor Rugo e "Toast funêbre. B no soneto "Lá chevelure vol d'une fIamme . em primeiro plano. O leitor de então (como o atual. " (p. O outro foi seu herdeiro decadente. se liberta em sua impessoalidade desejada . luto pelo morto. cabelo sobre uma fronte. tornam-se independentes e alcançam âmbitos que nada mais têm a ver com o cabelo da amada. como o esplêndido soneto "O si chere de loin . " (p. em vista da qual se destacam como símbolos. Lá.. foi um de seus fundadores e o tinha aperfeiçoado. do ponto de vista ideal. Porém pode-se decifrar esta complexidade pois os meios que emprega consistem num patrimônio metafórico corrente (sobretudo "mar" = cabelo. o morto é impelido a uma distância inacessível. O jogo de metáforas liberta o objeto concreto. o de ser comunicação numa tessitura clara de frases.portanto. 61). uma densa moldura metafórica que procede de maneira muito complicada. como trabalho e como jogo Mallarmé estava firmemente convencido de que a poesia é uma linguagem insubstituível. de 1887. o tema primordial de toda a lírica. Gautier" (última redação. mas que também nele comprova sua insuficiência. as metáforas já não são compreensíveis a partir de uma tradição. Gautier" (1872. se afasta do sentimento amoroso natural mediante uma linguagem difícil e deixa transparecer. Tome-se "Tombeu de Th. que o beijo mudo diz mais que a palavra. num lugar de todo secundário. na experiência sutil. chega-se a resultados análogos. à primeira vista difícil. Outra diferença reside em que Marino compõe o poema sobre um efetivo acontecimento exterior (o pentear-se).Amor e morte são desumanizados Mallarmé conhece. mas este se transforma metaforicamente numa chama.. de sua matéria. do italiano Marino. Só fugazmente. o qual se bem que tenha desaparecido. Resulta da poesia de Marino um sentido simples: o amante contempla como a amada se penteia e toma consciência de seu amor dolorosamente feliz. Mas no soneto 112 de Mallarmé. Todavia a situação amorosa é pretexto para exprimir atos espirituais.). que a palavra só descobre seu destino de ser "logos" no limite do silêncio. já em idade avançada. inconscientemente. (que procede tematicamente como a última). de forma refinada. atrás do qual se desenvolve um processo de tensão abstrato que não se refere a contato humano algum.

que são induzidos pela massa a dar a cada coisa seu traço comum" (p. iludindo. Sua lírica observa as convenções das leis métricas. no "rio da banalidade". o poeta. a força e o perigo do jornalismo. a transitoriedade daquilo que é alcançado em face à gravidade da tarefa.de um técnico da intelectualidade e da magia da linguagem. sendo difíceis e impopulares. É a forma. num pensamento análogo. de forma paradoxal. o "enfermo" eleito mas. se chamam "hostis" (p. Também quem pronuncia tal palavra. também o que está em condições de manejar as substâncias extremamente explosivas. I I' técnico .o isolamento do discurso funcional. d . produz" de vários vocábulos. no julgamento vulgar. É o "lamentável" aos olhos da gente do cotidiano. palavra por palavra" (p. Para sua própria obra. 535). pura e simplesmente) era para ele criação que "vence o acaso. com a verdade. tanto mais devemos ligá-los em versos claramente marcados. Fala de seu "laboratório". se permite indicar o sentido da poesia com conceitos que. 368) . Esta convicção assumiu por vezes formas de culto. está isolado. tem as mãos simples" (p. ao separar-se do mundo comercializado. conduziu a poesia à oposição contra a sociedade comercializada e contra a decifração científica do mistério do universo. deixa atrás de si o homem natural. Mas o ponto principal consiste nos significados não populares de tais conceitos. Mas este rigor formal contrasta com os conteúdos oscilatórios. Este trabalho tende e tenta chegar àquela ambigüidade da palavra que . nascido de tal trabalho. do início do século XIX. Também neste aspecto . em Mallarmé. encontradas em seu trabalho solitário da palavra. também na pretensão de domínimo do espírito alheio à natureza. O contraste entre o "adelgaçado" (imaterial) do conteúdo e o vínculo da forma é o contraste entre perigo e salvação. uma palavra nova. inclusive liberdade absoluta do espírito criativo. às vezes. apesar de menos extremo. "Quanto mais estendemos nossos conteúdos e quanto mais os adelgaçamos. vigia seu poetar' altamente especializado com a responsabilidade de um 114 i ".além de outros motivos . Já tínhamos observado algo parecido 115 . tudo isto significa um esforço do mais tenaz trabalho. por esse motivo. para assegurar nesta o "isolamento da linguagem" (p. trata-se da simplicidade da abstração que. explicando que o simples acha-se livre de todo compromisso. O verso. "De que serve tudo isto? A um jogo" (p. Mallarmé não gostava de travar polêmicas. inesquecíveis". Às vezes. 276) e a nivelar o fato singular com um modo de escrever desembaraçado e rápido para satisfazer as necessidades cotidianas. Mas o poeta possuía suficiente bom gosto para chamar à ordem seus jovens admiradores quando estes lhe tributavam incenso demais. em conjunto. Mallarmé. uma ilha de pureza espiritual livre de um objetivo preciso. no caminho trilhado desde Rimbaud: a poesia deve ser a anormalidade que virou as costas para a sociedade. Porém. poderiam ser a sentença de morte da mesma. "mentira".pertence Mallarmé à ditadura da poesia moderna. 647).I l A elaboração poética de Mallarmé consiste também em trabalhar na precisão formal do verso. De resto. Seria insensato menosprezar semelhante atitude como sendo apenas de cunho literário. a estreiteza e a indignidade do real. a ambicionada irrealidade de suas criações e ambos os conceitos. significam. "Aos olhos dos outros. "Acaso" é uma palavra-chave. Demonstrava antipatia pelos "repórteres. É evidente que toda esta atitude é um passo ulterior para o alto. com muitos contemporâneos. o Nada e a forma . "Jogo" significa liberdade com respeito ao funcional. Ghil. diz em um trecho. moderna apenas como tensão. total". "Quem pensa. o oposto daquela necessidade que só sente o espírito quando obedece a sua lei própria. Nada de inspiração que para o poeta equivale à subjetividade prejudicial. Também estes conceitos jogam. portanto. ou: "esplendor da mentira" (numa carta). de uma insatisfação ante o mundo que sempre se manifestou nos espíritos superiores. mostrou seu desagrado sobre o ruído da publicidade. já descrita a propósito de Rimbaud. 387). justamente. como outrora tinha se expressado Schelling. por sua vez. Por certo. minha obra é o que são as nuvens no crepúsculo e as estrelas: inúteis. Seu canto é a obra de uma maestria fria que trabalha em condições que.suprimir por completo a causalidade. Ao contrário. tangíveis. escreve numa carta de 7 de março de 1885 a R. Reconheceu. 358) Mallarmé continua aquele processo que. da técnica da rima e da estrofe. aquele culto do isolamento deve ser entendido como um esforço de preservar. o "girar sobre si mesmo do corpo universal da linguagem poética". o livro (entendido como a obra espiritual. da "geometria das frases". se poderia chamar de ambigüidade que é oportuna." (p. 412).porquanto é entendida como marca coercitiva de tensões irreais -. jogam. A modernidade é extrema. por ironia. para indicar a simples realidade e.

numa. Porém. iniciada no século XVIII. de modo que ambos. . ao mesmo tempo em sua acepção normal e também como derivação de livres. 14). Em lugar de seguir as sucessões temporais e lógicas nas coisas e nos temas. com a capacidade de entrelaçar uma linha de pensamentos numa segunda linha. como rima (p. particípios segundo o modelo do ablativo absoluto latino. aparecem livres e délivres. que aniquila toda realidade. :Ê verdade que tais pensamentos já tinham sido expressos antes dele. As preposições têm. Para Mallarmé. de maneira que nesta expressão "livros" e "livrar" se reúnem no significado de "livrar dos livros" (cf. tais recursos aparecem em Divagations. Suas reflexões giram em torno da idéia que se tem de restituir à linguagem aquela liberdade na qual ela fica aberta aos "raios pri116 ILl mitivos da lógica" (p. . Sua poesia. inversões gramaticalmente injustificadas. muito mais· que na lírica. pela beleza modeladora da linguagem. 162). A fundamentação ontológica da forma de Mallarmé será abandonada. a linguagem torna-se o receptáculo salvador do que é nulo. fique impedida de retomar aos caminhos do habitual. Mallarmé deseja a palavra poética não mais apenas como grau mais alto e mais seguro da linguagem compreensível. entende-se délivres rimando com livres. Mas na lírica contemporânea . também as formas da poesia são fenômenos do "logos".admitindo-se que contasse com leitores. da poesia moderna.permaneceu o fato de que uma poesia de extrema abstração e ambigüidade exige a ligação da forma. poetar significa renovar tão radicalmente o originário ato criativo da linguagem que o dizer seja sempre dizer o que não foi dito até então. p. através U7 •. Gottfried Benn falará reiteradas vezes da "potência do Nada que exige uma forma" (614. 206. como caminho e medida para seu canto poético. tornou-se definitiva. ainda numa carta a Cazalis. Em uma quadra dedicada a uma biblioteca. só mais tarde tornado explícito) relaciona o Nada (o absoluto) com o "logos": o "logos" é a sede onde o Nada nasce para sua existência espiritual. mais tarde. A frase de Mallarmé pode ser entendida a partir daqui. mesmo se extremo. Ele mesmo contava apenas com estes poucos . Este processo tem grandes similitudes com a música sobretudo porque. objetivamente falando. artigos indeterminados de gêneros novos e assim por diante. por assim dizer. escreveu uma frase alusiva ao fundamento ontológico a que o papel da forma está relacionado em sua obra: "Depois de ter encontrado o Nada. Dizer o que nunca foi dito. ainda não gasta por nenhuma finalidade de comunicação e ainda não cristalizada em clichês que impediriam a poesia e o pensamento de se exprimirem como algo completamente novo. O esquema ontológico de Mallarmé (naquela carta apenas intuído. A técnica mais importante é a que funde o significado de uma palavra no da palavra que lhe está próxima: "As palavras resplandecem em seus mútuos reflexos". O mesmo se verifica nas relações métricas. Assim se encontram verbos no infinito absoluto (em lugar da forma conjugada que seria de se esperar). deve-se reconhecer que não se trata de um fenômeno isolado. p. às vezes até vários pensamentos.leitores que terão a paciência necessária para decifrar a linguagem insólita de Mallarmé. da dignidade da essência humana não se extingue. alteração da ordem normal das palavras. e contanto que satisfaçam às mais altas exigências. supressão da diferença entre singular e plural. eterna não assimilabilidade por parte da compreensão limitante. várias significações. Mallarmé realiza a tentativa quase impossível de expressar algo de simultâneo e até fora do tempo. alguns recursos estilísticos Serão sempre poucos os . clama bem mais fortemente pela "beleza". Em julho de 1866.. segundo a técnica citada. cada uma a seu tempo e simultaneamente. de modo programático (p. por meio do desdobramento forçosamente temporal da linguagem. falem ao mesmo tempo. De qualquer forma que se queira julgar este modo anormal de dificultar a linguagem..em Valéry. como apoio num espaço sem coisas concretas. Os meios de semelhante linguagem poética têm de ser insólitos.em Baudelaire. 9 e ss.- . volume IV. Todavia. que possui um fundamento lingüístico-filosófico. justamente esta beleza da forma absoluta oferece a garantia de que nem sequer ante o Nada. a fim de que. A interpretação que Mallarmé dá às formas confirma que a separação entre beleza e verdade. mas ele osJeva tão longe . em muifas reflexões. como afirma certa vez. prosa contrapontística cheia de sutilezas intrincadas. Guillén e nos poetas afins a estes . o esplendor do "logos". Podemos aqui apenas fazer referência a eles. Mallarmé. em dar fundamento à sua linguagem singular. encontrei a beleza".teórica e praticamente que a primeira formulação verbal do não dito deve conservar seu caráter originário. Segundo uma antiga idéia românica. 366). emprego do advérbio como adjetivo. mas como dissonância insolúvel a qualquer normalidade.). 386). Em 1921. Mallarmé esforçou-se. No conceito de beleza deve-se incluir também a beleza das formas metricamente perfeitas.

o real e sua expressão lingüística normal são eliminados por um mundo muito distante de representações originalmente criadas e por uma trama arabesca de frases ricas de curvas pouco transparentes. O soneto "Salut". O isolamento de Mallarmé é um isolamento completo e intencional. É a proximidade do silêncio. Por causa de sua obscuridade. cada vez mais concisa quanto ao vocabulário. O silêncio penetra em suas poesias por meio das coisas "caladas" (porquanto abolidas) e por meio de uma linguagem que se tornou. 0:'0 confronto com Góngora O isolamento de Mallarmé confirma-se também quando se compara o poeta aos líricos de épocas anteriores. sobretudo aqueles que servem à inversão ou ao entrecruzamento das ordens objetivas e à desconcretização do real. O fragmento adquire a categoria de símbolo da perfeição que se acerca: "Os fragmentos são manifestações nupciais da idéia" (p.da contemporaneidade de várias linhas de pensamento. corresponder a uma profunda tendência do modernismo. Em sua totalidade. cada vez mais suave quanto à musicalidade. e é também parecido o objetivo de sua técnica poética (por este motivo. Todavia não se devem perder de vista as diferenças. de metáforas e vocábulos estranhos. e este ·efeito é também pretendido). Nestas frases retoma o pensamento místico para o qual a insuficiência da linguagem resulta da experiência do transcendente. assim como em ~audelaire e em Rimbaud havia se convertido numa mística da transcendência vazia. é comparado amiúde com um dos mais obscuros poetas europeus precedentes. o "silêncio" constitui um dos conceitos mais freqüentes. de um falar no limite do impossível. tanto no aspecto sintático quanto nas perífrases ocultas. e seu texto. comparável ao efeito auditivo sintético de um período musical contrapontístico. em branco" (p. valoriza a obra. recife (contra o qual naufraga). empregando argumentos que já haviam sido sempre usados por autores e teóricos da poesia obscura: a obscuridade protege dos olhos vulgares. Deve. uma "evanescência" (p. 387). 367). Por enigmática que seja a poesia de Góngora. para adestrar o espírito. A poesia de Góngora destinava-se a uma elite na qual o poeta podia pressupor o conhecimento de seletos estímulos estilísticos. Verbalmente. con119 . 409). justaposição em lugar de conjugação de elementos: são os sinais estilísticos de uma descontinuidade interior. de veladas alusões e de subterrâneas associações de idéias. do silêncio Mallarmé conhece e quer a proximidade do impossível. ele próprio reconheceu: "Minha obra é Um beco sem saída". as traduções espanholas de Mallarmé do século XX recordam tanto Góngora. por exemplo. estilisticamente afins a ele. 385). que serve de introdução a seu volume de poesias. Para ela. Assim. surge uma síntese em movimento que se sobrepõe a cada uma das linhas de pensamento como uma formação em si. Nas reflexões de Mallarmé. Da mesma forma que Rimbaud. É significativo que isto só seja possível por meio da desintegração da frase em fragmentos. é um encanto que só se percebe por completo quando as palavras se tiverem perdido de novo no "solitário concerto tácito" do qual vieram (p. e estrela (a idealidade inacessível que é a causa de tudo). ele se tornou em Mallarmé uma mística do Nada. O singular é que este processo se repete várias vezes na poesia do século XX. a poesia se oferece como oportunidade deleitável de resolver enígmas eruditos. também ele impele sua obra até aquele ponto em que se anula a si própria e anuncia o fim da poesia em geral. Os recursos estilísticos de Mallarmé se propõem a criar. A proximidade Obscuridade. ela se serve de um material simbólico e mitológico que era patrimônio comum tanto do autor como de seus leitores. estes recursos estilísticos não poderiam ser adotados por ninguém. o espanhol GÓngora. De fato. 118 ri Mas Mallarmé sabia que a proximidade do impossível era também o limite de toda a sua obra. Todavia. Também em Góngora. Também neste aspecto se confirma a não-assimilabilidade de Mallarmé. em oposição à pressa moderna ao ler. uma esfera em que a palavra é restituída à sua originalidade e consistência. embora por caminho distinto. ambos assemelham-se em muitas particularidades. Descontinuidade em lugar de ligação. Também este é um princípio fundamental da estética moderna. nomeia as três forças fundamentais de sua lírica e de seu pensamento: solidão (a situação primordial do poeta moderno). portanto. O próprio Góngora havia dito tudo isto. A poesia ideal seria "o poema calado. com os anos. poesia quer dizer "vôo tácito ao abstrato" (p. Só alguns destes meios voltam a aparecer na lírica posterior. 380).

ed. p. Ademais. Baudelaire tinham expressado a exigência de uma poesia obscura. porém. Novalis. como o especialista para seus textos especializados. iniciada com Rimbaud. . O estilo simbólico moderno que transforma tudo em sinais para expressar outra coisa. não compreensível t'_ Nesta poesia. 283).). a linguagem não é mais comunicação. por exemplo: vidro. 261 e ss. Este fato adquire. 372). O leitor não deve decifrar. respondeu: "Espere ao menos até que eu tenha introduzido ainda um pouco de obscuridade". 796). atingiu com MalIarmé um grau de premeditada obscuridade a que nenhum lírico. Todavia nem por isto ela é menos isolada. Com estas palavras se quer dizer que obscuridade não é arbitrariedade poética. mas necessidade ontológica. a simbólica de MalIarmé é autárquica. 382 e ss. deve ser susceptível de esclarecimento.). mas sim chegar ele próprio ao enigmático. 81 e ss. Este procedimento manifesta-se em MalIarmé de forma totalmente diversa.no melhor dos casos . Um visitante que queria saber se um soneto aludia ao vermelho do entardecer ou ao vermelho da manhã ou ao absoluto.criar seu leitor. deve-se colocar o conceito da infinita possibilidade de sugestão. como em outros aspectos. Isto sucederá porém em detrimento da multiplicidade de referências em que vive a poesia. A ambigüidade da lírica malIarmeana exerce um efeito imperioso sobre o leitor.firma o liame com uma aristocracia social ou espiritual. Em comparação com a radicalidade agora' alcançada. MalIarmé deriva a poesia obscura daquela obscuridade que reside no fundo primordial de todas as coisas e que só se "ilumina um pouco na noite do escrever" (p. Deve. '" ! mesmo tendo preparado a evolução que. enquanto as insólitas atrações musicais encantam seu ouvido. onde. pertencem à tradição mais recente (Baudelaire). caso se renuncie ao conceito usual de compreensão. porém. não é destinada a um leitor predisposto a aceitá·la. Solicitado impacientemente por um jornalista para entregar um manuscrito. MalIarmé pensa num leitor "aberto à compreensão múltipla" (p. quis ou pôde aspirar. Poesia sugestiva. portanto. De fato. mesmo se restrito em número. Aqui. não tolera a aproximação do leitor. nem mesmo no século XX. sem assegurar esta outra coisa numa tessitura de sentido coerente. p. sua lírica excita o leitor também a continuar o ato produtivo inconcluído que nela se realiza. só se estende ao leitor na medida em que ela o impele a uma potencialidade interpretativa de significado da mesma forma infinita.como: cisne. só e:x:teriorização de si mesma. mediante uma atividade produtiva ulterior a qual evita uma conclusão repousante da mesma forma que a poesia o evita. . "A obra é impessoal e. tão logo se separa dela. apesar de não menos anormal. Mille y Giménez. E finalmente. A lírica madura de MalIarmé ainda mais que os versos de Rimbaud. Na autoparódia (da qual só são capazes espíritos soberanos). geleira. num fato que se pode formular de maneira aguçada: ele fala para não ser compreendido. Uma carta de Góngora diz tudo quanto é necessário a respeito (em Góngora. seja sintática ou semântica. De tal forma que a obra subsiste completamente de per si: criada e existente" (p. ou mais precisamente. e até mesmo. àquelas exigências apresentam-se modestas. 120 r:_ . Aqui. revela-se uma força desta poesia obscura: sua liberdade de jogar e sua consciência de ser provisória. Esta poesia pode ser parodiada também por seu próprio autor. O deciframento das obscuridades de Góngora exige em essência are· construção de sua sintaxe e a redução de SUas perífrases a seu conteúdo efetivo. em 171. A desumanização destrói o triângulo autor-obra-Ieitor e separa a obra das duas referências humanas. Em seu lugar.) são um exemplo de tais autoparódias de MalIarmé. intuin121 . A evolução de significado de uma poesia de MalIarmé pode. à minha cômoda". se havia sempre pensado nó contato com um grupo de leitores. Madrid. 1943. um aspecto um pouco menos absurdo. dardo. janela. cabelo -. A infinita potencialidade na qual esta linguagem se move. Os poucos símbolos que não derivam dele mesmo . Várias vezes chamamos a atenção para o papel que o absurdo desempenha na poesia moderna. As missivas rimadas (p. a maior parte deles são instituídos por ele próprio e podem ser compreendidos só a partir de si. O intérprete de MalIarmé move-se neste espaço intermediário entre o entender e o reduzir. azul. A linguagem de MalIarmé é. Obras Completas. Está presente também em MalIarmé. não há tradição alguma que venha em ajuda na decifração. Diderot. Só em sua obra juvenil entendia a obscuridade como proteção de uma indesejável popularidade (1862. Comunicação pressupõe comunidade com aquele a quem se comunica. deve necessariamente trabalhar com símbolos autárquicos que permanecem subtraídos a uma compreensão limitante. recebeu a seguinte evasiva: "Não. Também esta é uma notável diferença com respeito à poesia obscura de tipo antigo.

aqui também metais. A estes acrescentou-se agora a crescente influência da literatura naturalista. A maestria artística de Mallarmé consegue reunir o esquema ontológico e a palavra poética naquela esfera de som vibrante e de fascinante plenitude de mistério que sempre foi o terreno da lírica. Mas Mallarmé estende todos estes motivos à profundidade. Como de uma grande distância. para ser. ou evitando-se a univo123 . 869). Para indicar este contato já tão tênue com o leitor. Numa outra passagem: "nomear uma coisa significa tirar três quartas partes do prazer de uma poesia. sua essência lírica.do decifrações. já que devemos avaliá10 como sintoma do modernismo e não como realização filosófica. Há muitas frases programáticas que provam seu objetivo artístico. E também se relaciona com os mesmos motivos históricos que explicam Baudelaire e Rimbaud . Uma passagem em prosa contém. Daí seu papel na Hérodiade como equivalentes daquela fase mortificante da vida à qual se eleva a virgem. Todavia sempre se deve insistir que a lírica não perde com tal pretensão. eis a meta" (p. Porém a desrealização mais intensa realiza-se ou através da já várias vezes mencionada transferência do concreto à ausência. 647). daquela distância. Dos textos analisados no início deste capítulo se pôde deduzir que um dos atos fundamentais da poesia de Mallarmé consiste em transferir o objeto concreto à ausência. a ela se podem acrescentar apenas invenções materiais. em resumo. jóias. talvez excessiva. sendo peculiar a este o emprego simbólico de formas inorgânicas. é "evocação. caso contrário. Daí o carinho com o qual Mallarmé descreve trajes de luxo e jóias na revista de modas La Derniere Mode.motivos que já discutimos nos capítulos precedentes. pode até mesmo pensar em possibilidades de interpretação da poesia que talvez nem sequer figuravam no plano do autor. Neste ato se manifesta. da ruptura . a seguinte ordem de idéias: a natureza existe. ferrovias. reconheceu que o elemento comum dos estilos modernos reside no fato de que seu "idealismo evita as matérias naturais e também. Este esquema pode perceber-se pelo fato que os mesmos atos fundamentais voltam a aparecer sempre nas mais diversas poesias dando aos motivos. por demasiado brutal. antes de tudo. mas . As provas teóricas podem ser encontradas nas Divagations e em algumas cartas. de novo à lírica. expressará mais tarde esta idéia na frase: "Meus versos têm o sentido que se lhes dá". A eliminação do real positivo e a intrúdução da fantasia criadora estão relacionados. o maior discípulo de Mallarmé. mesmo se em proporções mais limitadas.não as concluindo prematuramente.e de trasladá-Ia. é significativo que seja mantida a única ponte com o leitor no efeito sugestivo da poesia. como se lê mais adiante. cidades. alusão" (p. graças a uma interioridade que se estende por apreciação própria sobre o mundo e o simplifica. Seu conteúdo. toda interpretação seria deveras sem sentido. entre realidade e linguagem. é o contrário da descrição objetiva. Para Mallarmé como para quase toda a lírica vinda depois dele. consiste em dar uma interpretação ontológica às experiências fundamentais do modernismo . o mesmo anseio de fugir da realidade que nas teorias de Baudelaire e na poesia de Rimbaud. Todavia uma união com o leitor não mais se realiza. Mas esta cognição não é mais forçada. redigi da por ele. A sugestão não oferece a um possível leitor nada mais que uma possibilidade de experimentar juntos uma vibração qualquer. 73). este prazer consiste em adivinhar pouco a pouco. evita um pensamento exato que os ordene". pedras preciosas convertem-se em sinais da espiritualidade superior à natureza. Falamos várias vezes do esquema ontológico de Mallarmé.experiências da paixão frustradora pela transcendência das incoerências. Istú não exclui que o leitor reconheça os temas fundamentais decifráveis da lírica de Mallarmé e os siga até ao ponto em que eles se perdem no não interpretável. Mallarmé. simples sugestão. Valéry. "Exclua de teu canto o real pois é vulgar" (p. Este cbnstitui o fundo verdadeiro de Sua lírica madura. Esta. Como em Baudelaire. Este conceito deriva em essência de Baudelaire que já o havia empregado em relação ao conceito de magia. 365). absolutamente original. num ensaio escrito em 1896. ao invés. Mallarmé usou o conceito de sugestão. e assim criação poética é: "criar a palavra para um objeto inexistente" (p. mas a verdadeira liberdade consiste em captar relações recônditas. rege a evolução da poesia de tal modo que esta se converte na execução de um processo ontológico. o esquema ontológico a) O afastamento do real. entendida ontologicamente. O isolamento da poesia obscura não se elimina por vontade própria. sugerir a coisa. Este fato conduz na poesia a um procedimento múltiplo. A desrealização aparece nele como conseqüência de uma incoerência. Não é necessário empreender 122 aqui um exame crítico deste esquema. às palavras e imagens mais simples uma dimensão que não seria explicável por si mesma.

o Ser puro e o Nada puro tornam-se idênticos (como em Hegel). lugar e coisa. difíceis de deslindar. que assim se chama porque deve ser desvinculado de tempo. Os fragmentos de Igitur (1869). Schelling. isto é. Com este. "o absoluto" e "o Nada" . aqui. tbdas as outras designações positivas da idealidade permanecem imprecisas. o absoluto mesmo. Mallarmé é cauteloso o suficiente para não se aventurar em especulações acerca do Nada. em sua intenção estilística de suprimir a realidade. Esta direção de baixo para cima tem. são um texto fUndamental. porém. cessou o tempo e tudo o que há no tempo. e sublinhar o fato que nUm ápice da poesia moderna se anuncie com tanta insistência o mais negativo de todos os conceitos. O que preocupa Mallarmé é a insuficiência de todo fato real. como um valor qualificativo. o Nada. é removido tão alto que nenhuma definição mais o toca e permanece na indeterminação pura. uma vez consumada a desvinculação. "sonho". :e uma perífrase para indicar as velas. de pensar no absoluto como a essência pura (livre de todo conteúdo) do Ser e de aproximar-se. vaidade. onde a cera chora uma lágrima estranha no ouro vão. o absoluto. Como este último. no entanto. Neste aspecto Mallarmé parece aproximar-se ao modo de pensar platônico. Só a designação negativa cria um conceito mais preciso: le néant. Trata-se de um conceito ontológico de origem totalmente idealista. Não podemos aqui nem sequer considerar as possíveis influências. em pormenores.cidade lingüística. de 1865 em diante. Porém estes objetos limitados são superados por muitas referências simbólicas: choro. Nasce de uma deliberação quase sobre·humana da abstração. Assim poderia ser interpretada uma frase sua em prosa: "A transposição divina. Diz numa carta de janeiro de 1866: "O Nada é a verdade". desce às tumbas junto ao mar. há dois versos que dizem: "Acenda as luzes. Aqui Mallarmé. de uma poesia em que a própria linguagem torne presente o Nada. a qualidade de ser uma força da transcendência que domina e sobrepuja o espírito como um castigo. Só cabe fazer algumas indicações. por causa da qual o homem existe. De toda forma. talvez Fichte) e da teologia negativa. às velas. apreciar o papel eminente que este conceito desempenha em sua lírica. chamar-se-á o Nada. "ideal". mas de radicalizá-Ia no Nada. aos temas fundamentais de Mallarmé. os caminhos pelos quais Mallarmé chegou a este conceito dó Nada. 125 . a quem b fato real é comparado. com palavras como "azul". Mas vai mais além e se serve da perífrase para reduzir o objeto a qualidades que pertencem a esferas interiores. Não se pode analisar aqui. cómpletou-se o passo ulterior e mais extremo na linha que pudemos seguir de Baudelaire em diante sob a fórmula de transcendência vazia. O primeiro indica uma idealidade da qual se eliminaram 124 todas as "casualidades" empíricas. mas também a morte. pela renúncia do habitual. chama-se então. De modo muito evidente Mallarmé. mas à situação interior daquela que fala e. Estas formam o conteúdo verdadeiro dos versos e já não se referem. o preciosismo. assim como do desgaste de seu termo habitual. Esta insuficiência só se pode sentir dentro de uma concepção idealista. Pode-se falar de um niilismo idealista. aproxima-se a particularidades da literatura barroca e de sua subespécie francesa.. tem-se que evitar o equívoco de entender-se o Nada. o absoluto. Partindo dos esboços que Baudelaire traçou da idealidade vazia. da filosofia alemã (Hegel. O niilismo de Mallarmé pode ser entendido como conseqüência de um espírito que esvazia todo real para satisfazer sua liberdade criativa. Da mesma forma. Ao anseio de fugir da realidade corresponde o anseio de encaminhar-se rumo a uma idealidade. no estilo. também em Mallarmé a perífrase tem o significado de aliviar uma coisa de sua materialidade brutal. deriva a vontade de deixar não só vazia a transcendência (como fizeram Baudelaire e Rimbaud). em textos anteriores. o caráter muito pouco platônico visto que o "ideal" (designado aliás com uma palavra muito vaga) não possui existência metafísica alguma. Portanto. o Nada. na medida em que este pode realizar-se mediante o aniquilamento do real. a figura alegórica que dá título ao texto. Em Hérodiade. assim concebido. O caminho rumo ao absoluto passa pelo "absurdo" (note-se a repetição desta palavra fundamental do modernismo também em Mallarmé). Mas é preciso. do natural e vivente. Mas quando o idealmente acessível. joga os dados. o Nada. Mallarmé transmite ao Nada. já mencionados. por exemplo. mais além. Um meio para obter este último efeito é a perífrase. do niilismo moral. O de não ter mais originariamente fé e tradição alguma. também nós devemos abster-nos de qualquer especulação. Do destino comum a toda a poesia moderna. "Igitur". levando consigo o frasquinho de veneno" que contém a gota de Nada que ainda falta ao mar". junto ao fogo ligeiro". só resta o espaço vazio. introduz o "Nada" naquelas passagens de suas poesias cujos mesmos temas tinham sido expressos. b) A idealidade. 522). a vida. o Nada. Mostram o papel complementar dos dois conceitos. de forma alguma. forçosamente. vai do fato rumo ao ideal" (p. Porém. estranheza. e quando estes param. experimentalmente.

de toda realidade em geral. chama-se flor. sem que. à relação entre o Nada e a linguagem. extinção. ela se eleva cantando. Desde estes autores a fantasia tinha sido introduzida de forma cada vez mais resoluta como força superior à realidade. definidas ontologicamente. amiúde variada também em nomes isolados de flores (rosa. aqui. Só me cabe aceitar os desenvolvimentos absolutamente necessários. porém. porquanto se pode depreender qual caminho percorreu o conceito de fantasia desde fins do século XVIII e com que peso foi transmitido ao século XX. O que é anulado objetivamente pela linguagem quando esta expressa seu estar ausente recebe na mesma linguagem. Confronte-se o que dissemos mais acima a respeito de fantasia em Rousseau.. revivem resquícios da idéia grega de "logos". querendo ser um processo para se entender de um ponto de vista ontológico. e. sua existência espiritual. Rimbaud. escreve numa carta a Cazalis: "Sou agora impessoal. A formulação é um pouco descuidada. E agora. uma questão vital. se dela não nascesse . sim. Os dois nomes já tinham sido usados muito antes dele. isto é. Ainda uma frase do ano 1895: "À nossa raça (= à humanidade) coube a honra de acolher em seu âmago o medo que a eternidade metafísica e claustral tem de si mesma mas que o sente de outra forma que não como consciência humana" (p. ditatorial. se aclaram muitos enigmas de sua poesia. Ambas encerram o pensamento que. a passagem fundamental: "A que serviria a transformação de um fato natural em seu quase total desaparecimento mediante o jogo da linguagem. que parece positiva. precisamente. quase como sinônimos. não sou o Stéphane que conhecestes mas sim uma capacidade do universo espiritual.. enquanto este. possível que Mallarmé tenha pensado assim de forma autônoma e conduzido ao extremo as inspirações da teoria lingüística romântica . Esta é. encontra seu nascimento espiritual. A palavra preferida por Mallarmé para indicar aquele afastamento do objeto concreto é: abolitíon. e só aqui. Numa carta de 1867 a Lefébure. para indicar a liberdade criativa. O fato decisivo é que Mallarmé não entende estes movimentos como subjetividade arbitrária. A coerência com que tudo deriva de estágios anteriores é surpreendente e confirma de novo a unidade estrutural da poesia moderna e do pensamento moderno sobre a poesia. Ao redor desta. éo fato criativo do espírito puro.. e até mesmo. para encontrar nela a sede de sua aparição pura. se possa distinguir qualquer contato com o grecismo.). branco. no homem. lírio etc. Mallarmé havia assumido este traço. Designa simbolicamente a linguagem como característica essencial do homem. Baudelaire. entendido como o Nada. para que o universo encontre neste eu sua identidade (identíté)".c) o Nada e a linguagem. O absoluto. pode dar também o nome de "fantasia". à ausência. a maior força da linguagem é a poesia. Esta transposição significa muito mais que uma condenação artística da realidade. portanto. esta frase quase 127 . Pertence 126 '. Na velada linguagem figurada desta frase reside o complemento às palavras daquela carta. É.livre da proximidade concreta . Em suas respostas. mas como acontecimentos ontológicos que têm sua necessidade em si mesmos. a moderna hegemonia da palavra. ao espírito absoluto. São as palavras-chave negativas de sua poética e poesia.1 '" ~ a seu caráter de absoluto não mais levar em consideração o real empírico mas. O fato de que apareçam também em Mallarmé é importante para nós. Em maio de 1867. Partindo deste pensamento que Mallarmé exprime não muito amiúde (mas o exprime). o pensamento grego sobre a linguagem. Ainda antes de encontrar o fundamento ontológico. Mallarmé a eleva a um posto ainda mais alto. gravitam palavras afins: lacuna. 391). Apesar disso. mas também de "sonho"." (p. Uma outra. assim concebida. ausência. 368). poder abandonar-se a seus próprios movimentos. aquele processo mediante o qual a linguagem confere à coisa aquela ausência que a iguala. para o poeta. sobretudo a transposição da coisa concreta. 492) Porém. e não aparece em nenhum ramalhete?" (p.ignorando que nestas ressoa. A palavra.a idéia pura. no entanto. linguagem. muito longe. ao absoluto (ao Nada) e que possibilita sua mais pura presença (livre de todo o concreto) na palavra. A questão ontológica fundamental de Mallarmé se refere. com uma alusão a Dante: "A destruição transformou-se em minha Beatrice". concebendo-a como a sede que o Ser absoluto exige para sua existência espiritual. por via ontológica. convoca a língua e "logos" ("le verbe") -. Diderot. na medida em que ele é intelecto e. quando esta o nomeia. mas também da fantasia ilimitada. todavia seu sentido deveria ser claro: em lugar do eu empírico sucede um eu impessoal. Assim está fundada. declara haver criado sua obra só com a destruição e haver penetrado cada vez mais profundo na experiência das "trevas absolutas". através do que foi meu eu. cumpre-se o Ser absoluto. uma flor. Após o exposto até aqui. abolição. Ademais o conceito de fantasia de Mallarmé legitima ainda uma vez o traço fundamental desta arte poética: a destruição da realidade. vazio. de ver-se e de desenvolver-se a si mesmo e. "A apreciação da palavra significa glorificar na linguagem o mais verdadeiro e íntimo de nossa raça em sua florescência. categoricamente. que é a sede onde o "universo" realiza sua identificação espiritual. sem dúvida.

o ptyx é mencionado de 129 . não é recolhido por ânfora alguma. 68). O que exprime nas camadas mais profundas de suas significações são figuras abstratas e tensões de ambigüidade ilimitada. Mas esta "idéia" não pode existir em lugar algum a não ser na palavra poética. " (p. Elle. encor Que. défunte nue en le miroir. como uma essência. um quarto sem ninguém dentro. mesmo não tendo a finalidade de introduzir um certo colorido local mas sim de prover o texto com uma potência lingüística surpreendente. em parte de origem grega. aqui. completando este pensamento com o outro de que tal aniquilamento acontece porque o objeto deve tornar-se na palavra "idéia pura". no salão vazio: nenhum ptyx Adorno esquecido de sonora inanidade (Pois o Mestre prantos foi colher no Styx Com o único objeto de que o Nada se honra). no original. L'Angoisse. Apesar da primeira redação (1868) conter outras palavras. Suas puras unhas alto dedicando o ônix. um salão vazio. meia-noite que sustém a lâmpada. dizendo: "Tiro o soneto de um estudo projetado acerca da palavra. ampliando a "arabesco total" que logo depois volta a chamar-se "cifração melódica silenciosa" (p. Mesmo aparecendo numa espécie de figura alegórica. do ponto de vista de temas e motivos. em si. em 1955). uma janela aberta. . com alguns atributos. um ouro que agoniza.Ses purs ongles tres haut dédiant leur onyx. Este comentário é válido também para a última redação. I J 128 Ouvem-se. rimas de um fascínio bizarro. Em 1887. au salon vide: nul ptyx. de vida. e esta é a razão de que a "flor falte em todos os ramalhetes" (Note-se que também esta frase. como esta última.. Mallarmé redigiu a versão definitiva de um soneto sem título que começa com as palavras: "Ses purs ongles" . Tanto sonho da tarde. Consiste. Por exemplo: uma janela noturna aberta. no máximo com o matiz de consolos vagos e um espelho pendente e agonizante ao fundo que. Sur les crédences. dans l'oubli fermé par le cadre. solitária. Mallarmé interpreta poesia como aniquilamento do objeto concreto. um espelho. na angústia. essência espiritual. Aboli bibelot d'inanité sonore. Ademais há aí a noite. uma noite formada de ausência e interrogação. Ainda uma vez. já se desenvolvia. Reproduzimos. Mallarmé comentou-a então numa carta a Cazalis (18 de julho). une a casa abandonada ao céu". em branco e preto e se presta a uma água-forte à base de sonho e vazio. consumida nuvem ao espelho. na tradução) é o vocabulário. soutient. figurou no Catálogo da exposição parisiense de Picasso. necessita. Em que consiste? Em primeiro lugar. 648). Mais proche Ia croisée au nord vacante. lampadophore. A Angústia. Maint rêve vespéral brulé par le Phénix Que ne recueille pas de cinéraire amphore não precisa de explicação. pungente. tanto quanto possível. portanto. (Car le Maltre est allé puiser des pleurs au Styx Avec ce seul objet dont le Néant s'honore). O conceito de arabesco que já se encontra em Baudelaire apresenta-se. ce minuit. Domina a poesia toda. Há porém. um ouro Agoniza talvez segundo o ornato De unicórnios incendiando a ninfa. Que não recolhe funerária ânfora sobre "Ses purs ongles" Credências. se fixe De scintillations sitôt le septuor. mesmo que seja só na linguagem. junto com a de Rimbaud. refletindo a Ursa Maior. também em Mallarmé. queimado pela Fenix. irradia seu jogo de sonho e seu som mágico num mundo aniquilado. a poesia a título de esclarecimento daquele procedimento de sua lírica que objetivamente nega e lingüisticamente cria. Ela. Singular (quase impossível de se reproduzir. O "sonho da tarde" é "queimado". algo mais. ainda Que no esquecimento fechado pelo quadro O séptuor de cintilações logo se fixe. constelada e incompreensível. A poesia torna-se uma ação que. aqui citada: Mas junto à janela vazia ao norte. sem móveis. un or Agonise selon peut-être le décor Des licornes ruant du feu contre une nixe.

Como o título constituiu-se num verdadeiro quebra-cabeça. uma presença quase só induzida. sem importância (aboli bibe~ 10t. podemos chamá-Io de fracasso subjetivo). Pois através desta tessitura corre uma ruptura. Se quisesse assumir plenamente o absoluto da ausência de tempo e da ausência do concreto. que impregna os poucos objetos que restam tornando-os inquietantes e tornando sua inquietação ainda mais inquietante graças à ausência dos demais. objetivo. harmonizamos até aqui a tessitura de seu pensamento um pouco mais do que seria permitido em geral. inutilidade. assim como só pode tocar as ausências (o Nada). Esta tese vem confirmada pelo fato de que a poesia é composta de estrofes hínicas de quatro versos e de que na segunda estrofe também consta a palavra hymme. queda. No esforço de 130 Mallarmé de encontrar tal fundamento. deve-se ver o sinal da profundidade que esta ruptura alcança. porquanto o pensamento não pode escapar aos "acidentes" (da linguagem e do tempo). A dissonância ontológica Deve-se agora observar que. pois insuficiente. porém. várias vezes. o Nada se "honra": o Nada alcança a honra precisamente no objeto anulado. faz ressaltar a eterna inferioridade da linguagem que agora. onde é ainda possível criar o espaço em que o Nada pode sobrevir. Nos outros objetos consuma-se o aniquilamento com o contemporâneo renascimento na linguagem. por sua vez. Aqui sua introdução é acompanhada da angústia. como veículo ou morada. Todavia este fracasso pode expressar-se também sem estas palavras. Mallarmé fez dela uma dissonância ontológica. Mas ela já é agora fundada ontologicamente. Entre os objetos que permanecem presentes. com ele. É a mesma que se pôde notar em Baudelaire e Rimbaud: a ruptura entre linguagem e idealidade. um lugar vazio. Ultrapassando Igitur. naufrágio. espécie de poética versificada. o que nela acontece não pode desenrolar-se em nenhum mundo real. mas não a alcança. adorno abolido) que só existe enquanto sonoridade. Nas poesias repetem-se palavras como: recife. porquanto não existe.porém com a vantagem de que no próprio fracasso está garantida a existência invisível da idealidade. sendo de dois tipos: fracasso da linguagem frente ao absoluto (simplificando. tornando o sentido enigmático. o "espírito de luta" que é inerente à obra (alude-se à dissonância entre vontade e meta) deve perdurar como consciência dolorosa de que "aquela terra existe" (a terra da idealidade). nasce puro na palavra que o nomeia. O esboço ideal da obra. só nos acontecimentos simbólicos da poesia. transformar-se-á em ausência de tempo: está para transformar-se nela. designamos como soberania da dissonância. entre aspiração e meta. Depois o arco desce: a obra só pode sorrir à sua meta.forma negativa (nu1 ptyx) e segue o verso significativo que fala sobre este objeto esquecido. 2. no empenho de introduzir o leitor a este difícil autor. Assim. A ninfa da terceira estrofe é uma "nuvem consumida". 371). em si. fala-se da "contaminação recíproca da obra e de seus meios" (p. impede a este elevado projeto de chegar à perfeição. do absoluto frente à linguagem. Numa outra passagem lemos: "tudo o que se oferece à idealidade. "hino". No final. já nas duas primeiras estrofes. "Prose pour Des Esseintes" (p. Já citamos vários exemplos do primeiro e os integraremos em poucas palavras. significa. é considerada o ápice da incompreensibilidade e pode ser entendida a partir deste tema da insuficiência da linguagem 2 • As dez primeiras estrofes contêm o apelo à poesia que tende a uma meta suprema e giram ao redor da possibilidade de sua criação. São palavras-chave do fracasso. A linguagem se detém no limite extremo. mas também a fracassar . Uma das frases de Igitur diz o seguinte: "Escolho a palavra para imergi-Ia de novo em sua inutilidade" (p. afogar-se. subsistir como poesia _ não seria. um passar da presença à ausência. o pensamento correspondente e sua aparição na poesia se evidenciam como sintomas do espírito moderno. 469). entre outras coisas. indicaremos que Prose deriva do latim eclesiástico Prosa e. O "Mestre" (que mestre?) foi-se e levou consigo aquele objeto do qual agora se diz que. mediante anulação dos objetos na própria palavra que os nega. mais que um silêncio. É esta que pode estender-se. Tudo isto é. a obra tardia Un Coupe de Dês (impressa segundo uma disposição contrapontÍstica das frases) tem como tema o fato de que nem mesmo o Nada é alcançado. e que obrigará sempre a poesia a elevar-se até ela. A poesia. 451). e outro. ou seja. a janela e o espelho são símbolos mallarmeanos para indicar a penetração do olhar no infinito da transcendência. entre querer e poder. não poderia. percebe-se então que o cintilar das estrelas "logo" se fixa: o tempo. O poema inteiro é um extinguir-se. obra da linguagem. precisamente por sua elevação. e precisamente daquela sua característica que. 131 . A poesia pode e quer tocar o absoluto só no futuro e de forma hipotética. o homem é chamado de: "príncipe amargo do recife" (p. a contradiz". de forma alguma. então. embora sonoridade inane. 55). e logo depois. noite. o qual.

O Nada. diz o poeta: irrompe um soluço que expira na dúvida é um soluço meu ou do pássaro. Não só a linguagem é insuficiente. cala-se.l I A segunda poesia é o soneto "Petit Air 11" (p. mediante esta dissonância ontológica. sem caminho" rumo ao alto. seu "beijo" não encontra o espírito que deveria acolhê-Ia. Só uma coisa permanece: "as margens rosadas. de novo duplo. Uma profunda resignação atravessa a poesia bela e obscura. 58). Jean Paul escreveu em sua Vorschule der Asthetik acerca do "atual espírito da época que aniquila egoisticamente o mundo e o todo" para criar "ao redor de si só um espaço livre no Nada". pode-se dizer que o simboliza. em lugar de um contato realizável entre homem e transcendência. O processo é. idêntico àquele espiritual. mais como um pressentimento de que tudo poderia ser assim do que um saber que é assim. O que é também um fracasso. a desumanização tornou-se tão extrema que ele transfere a origem última do poetar e do pensar para longe do homem. Depois. A primeira intitula-se "Autre éventail" (p. mesmo se integrado no aspecto ontológico. Ela o exprime de maneira muito pacata. não deixa de receber. para indicar o contato não alcançado entre o absoluto e o homem. porque não ouvi sua voz. a consciência do fracasso duplo. enlouquecido de. parece um pressentimento da poesia moderna. em seu isolamento próprio. Pois só o canto alusivo e suave pode impedir que a quase inconcebível tragédia do Ser se desgaste e caia no esquecimento por culpa de uma compreensão limitadora. Seja como for que se queira julgar esta fundamentação. vai contra a construção analítica da frase francesa. que se encontra no captíulo sobre os "niilistas poéticos".Tudo isto está sempre na linha de Baude1aire. Eis por que o leque se fecha. mas só a apresentar um acontecimento simbólico com muitas possibilidades de interpretação. Mas o "espaço" . à idealidade que se estende até ao infinito. Mas. não atinge pessoa alguma. silencioso. Em Mallarmé. 133 .que representa a idealidade . em último caso. no dourado dos entardeceres" o vislumbre do absoluto. Ressoa no mesmo instante em que "minha esperança" (a vontade de aproximar-se do absoluto) levanta vôo. Embora a poesia continue sendo. A linguagem simbólica da última estrofe exprime este conceito do seguinte modo: "l! ele. mas permanece também como imortalização graças à palavra que tentou o impossível. apaixonada e silenciosa. colocando advérbio. Mallarmé teve de pensar e poetar também a dissonância do espírito moderno como propriedade do próprio Ser absoluto. a total ausência de contato. porque não chegou até mim. colocou assim. 132 I . nem seu soluço. por insuficiente que seja. Semelhante lírica deve ser necessariamente difícil e obscura. quando deve fazer nascer espiritualmente o absoluto. um concreto e outro espiritual. de novo. recai sobre si mesma e não conserva mais que o "sorriso sepultado". Também o absoluto sofre de isolamento. também o absoluto só pode dobrar-se à linguagem de forma insuficiente. também daquela de Mallarmé . de qualquer forma. Quer dizer: no leque vive "a delícia pura.assim como no Roquairol do Titan. o máximo grau de dano. Mas uma razão de sua existência reside em sua coerência interior. jamais chegará a ser plena luz."estremece como um grande beijo que.a voz do absoluto. Portanto. A frase. l! escrita numa sintaxe excessivamente dilatada. O primeiro é o mais simples que se possa imaginar: um leque aberto é agitado e. um fracasso deliberado. aposição antes do sujeito da frase. Uma voz "indomável" ressoa do alto. O que é bem sucedido na poesia é a palavra. nascer para ninguém. fechado. Mallarmé não se atreve a usar uma expressão unívoca. Ao chegar ao limite extremo de sua poesia.rna e a realizou artisticamente. A diferença está. o isolamento do absoluto. logo. À primeira leitura poder-se-ia pensar que a "arieta" não trouxesse nada mais que um idílio doloroso. Uma breve referência a duas poesias servirá para provar o que acabamos de dizer. De modo mais vigoroso que em seus demais temas. Permanece no duplo sentido da palavra: não avança. ao invés de imitar a natureza. tão bem foi sucedido Mallarmé em fazer coincidir o ato ontológico com o processo figurado. tranqüilas. ao Ser absoluto. Todavia a expressão paira no ar. porém. Também a vontade de ascender malogra. a mais alta possibilidade no âmbito do insuficiente. Ocorre um processo duplo. para Mallarmé. no fato que. Como se pressionado por uma força coercitiva. Mas agora se acrescenta outra integração muito diversa. não pode surgir. constrangida e perdida. abnegado. em Mallarmé. apesar de todo o seu urgir. pois deve ficar claro que estas palavras exprimem o essencial. Jean Paul antecipou Baudelaire. Em 1812. este branco vôo fechado que apóias junto ao fogo de um bracelete". tem uma sede provisória na palavra. é o pássaro que "jaz lacerado em alguma vereda" o absoluto que não alcançou a perfeita existência espiritual. meditou em todas as suas conseqüências sobre a situação negativa destinada à poesia mode. linguagem e Ser absoluto. o "egocentrismo" cedeu lugar a uma independência do espírito fundada ontologicamente. nem alcançar a paz". verbo.. resta apreciar a honradez com que este homem tranqüilo. l! a voz do "pássaro que só se ouve uma vez na vida" . estão sujeitos à lei do fracasso. O que resta deste fracasso. 66). Os dois extremos.

pôde reter justamente os "versos estranhos" de Mallarmé. assim como Mallarmé o usou e o transmitiu à época sucessiva: o prescindir de matérias da experiência cotidiana. Mallarmé nutriu vivo interesse pela literatura ocultista. tão sonoros de Mallarmé . como na execução tateante dos dedos. E. 134 f { I Neste contexto. Significam sempre "puro de alguma coisa". que aparecem amiúde em Mallarmé. famosa a frase de Mallarmé} "O poeta cede a iniciativa às palavras que são colocadas em movimento pelo embate de sua disparidade" (p. ao fato de ele estar livre de imisções que o atrapalham. "Magie". até mesmo. 61). Outra frase diz: "O ritmo do infinito. Mas se insere algo de diverso que mais nada tem a ver com o espaço. e reelaborado várias primeiras versões deixando-se levar ainda mais intensamente por este impulso. A magia lingüística pode manifestar-se na força sonora dos versos. refere-se à pureza de sua essência. Seguem depois conceitos como fada. Uma poesia. jamais diretas". usado ocasionalmente por Sainte-Beuve. Esta experiência se pode estender a numerosos líricos do século XX e constitui. alquimia etc. Também todas as demais características da lírica moderna reúnem-se neste conceito. charme (no sentido latino de fórmula de magia. portanto: "evocar o objeto calado numa obscuridade propositada. já mencionada anteriormente. designa uma doutrina poética que se baseia em Mallarmé (e nos "simbolistas"). em todas estas afirmações se manifesta mais a convicção da correspondência entre poesia e magia que uma efetiva filiação a círculos ocultísticos. correntes sob o nome de Hermes Trismegisto. Quando Mallarmé chama um objeto de puro.). mas estridentes -. Num ensaio. No século XX. por meio de pelavras alusivas. Pois o que atua não é esta cadeia.. São conceitos privativos. 366). Mantinha correspondência com V. A magia lingüística de seus versos constitui muito particularmente o meio para exercer. começa: "O si chere de loinet proche et blanche . entre as teclas do piano verbal. esta convicção tornou-se mais rigorosa. mas também num impulso das palavras que dirige a criação poética. Porém. às vezes. Este é um pequeno exemplo entre os muitos que não precisam ser discutidos aqui. chegou a conhecer os escritos de Eliphas Lévi (= Abbé Constant). em Mallarmé. mago. O pressuposto da pureza poética moderna é. Mallarmé participa da necessidade que a poesia moderna sente de unir uma poesia altamente refletida a estratos da alma mágico-arcaicos. de verdades práticas. no uso das palavras apropriadas e. na França. Poésie pure "B. "Blanche" não pertence a um encadeamento de representações dispostas segundo uma ordem objetiva. Baudelaire e outros e que aparece também em Mallarmé. 648). Michelet. O próprio Mallarmé admitiu ter escrito partindo do impulso da língua. Uma carta fala dos" alquimistas. uma designação de cor (blanche). "B. "hérmetisme" significa preponderantemente ocultismo. mas a própria língua. como mais tarde entenderá também Valéry dando o título de Charmes à sua coletânea de poesias).). De um parágrafo de uma carta de 1891. o único critério para julgar se uma poesia tem valor. Sem dúvida. como no mesmo impulso. de sentimentos corri135 . Não obstante já defendida por poetas anteriores. tomando-se por base a significação das palavras "puro" e "pureza". que se fixa na memória mesmo que seu significado escape. 399 e ss. e o poeta é "o mágico das palavras" (p. portanto. aquela sugestão com a qual o poeta gostaria de haver substituído a compreensibilidade simples. recomendando que fossem acolhidas na poesia (Ainda hoje. " (p. redunda. para as quais empregou o nome "hermetismo".. magia e magia lingüística se o impulso empreendido quisesse apreender uma ulterior representação espacial. escreve: "Existe um parentesco secreto entre as antigas práticas e a magia que atua na poesia". têm uma força insistente. quando chama de puras as representações "nas quais não se encontra nada que pertença à sensação". Valéry confirmou este fato quando escreveu que sua memória fraca. muito particularmente o meio para escrever. deve-se voltar a considerar o conceito de poésie pure. é oportuno fazer notar que os versos. nossos antepassados". que difundia as doutrinas ocultistas da antigüidade tardia. de conteúdos didáticos ou outros utilitários. poetar significa. proche) e. Pode-se reconhecer o que este conceito quer dizer. O verso contém duas designações de distância (loin. Por mediação de amigos. que lhe tornava impossível aprender qualquer coisa de cor.mesmo quando não trabalham com um som harmonioso. deduz-se o que pode significar pureza para sua lírica em geral: "Descompor e desgastar os objetos em nome de uma pureza central". A razão de ser de "blanche" reside no som ch de "chere" e "proche" que se estende com som autônomo e exige uma palavra que o complete. semelhantes àqueles usados por Kant. a desconcretização.Ocultismo. Mallarm~ aceitou esta sugestão. triviais" (p.

Mas. Em sua esfera de significado aparece. Algumas de suas expressões deste tipo serviram. 304). taça. Esta afirmação parece platônica. No jogo das forças lingüísticas que se encontram abaixo e acima da função de comunicação. a rua antecede o acontecimento e este. mais tarde. esta fantasia procede muito mais silenciosamente que na de Rimbaud. De resto. além disso. em que lemos o seguinte: "A dançarina não é uma mulher que 136 ~. o equivalente teórico poético do Nada. e não dança. a junção irreal de cor e movimento). que é perceptível mais pelo ouvido interior que pelo exterior. O pensamento desemboca de modo nada platônico no sujeito que vê e não percebe formas objetivas primordiais mas. só. queiros. não mais interessa ao poeta. como algo de todo secundário. fixando-as nas aparições. aparece antes dos chapéus. é o teor de uma comparação significativa. ver formas primordiais através de sua aparição empírica. deixam-se encantar pela música. Assim escreveu A. cantar" (224.. olhar absoluto. Este ver realiza-se partindo de um "olhar impessoal. é bem sucedida a sonoridade dominadorae desvinculada de significado que confere ao verso a força de uma fórmula mágica. em lugar dos objetos. Fantasia ditatorial. Mas a seu lado. Mas seu operar tranqüilo tem o peso de um ato fundamentado ontologicamente. Observar uma dançarina significa. na generalidade daquele vôo negro (que é. mas também a pintura abstrata que. Na poesia de Mallarmé. Todavia. Também Mallarmé gosta de acercar e juntar as coisas mais distantes. exposta ao vôo negro dos chapéus" (p. Neste ponto reside . mas o final do ensaio diz: "A dançarina. antes. 306). Mais além. coloca uma tessitura de tensão de linhas puras. uma visão normal perceberia primeiro os chapéus . fulgurante e absoluto" (p. 65). como em Novalis e em Baudelaire. Como seus predecessores. Com a exclusão de tais elementos.dança. uma vibração também dos conteúdos intelectuais da poesia e de suas tensões abstratas. através do último véu que sempre permanece. à maneira da técnica de fusão de Rimbaud. vão ao teatro. mas jogo da linguagem e da fantasia. também nele suas imagens tomam o lugar de uma realidade que.porém aqui estão no final. em realidade. Também em Mallarmé tem-se de falar dela. É o verso que nada mais quer dizer mas. para a definição da poésie pure. flor. nos seus ordenamentos objetivos. "produtivo". abstração e "olhar absoluto" Nos capítulos anteriores. descrita acima. O ensaio sobre o balé é a justificação mais decisiva que a poesia ilimitadamente criativa encontrou até então. em 1944: "Poésie pure é o momento culminante em que a frase esquece. O início de seu ensaio "Plaisir sacré" (também seus ensaios são poesia) contém uma expressão que. não é uma mulher. p. não se deve entender por música apenas o som harmônico da linguagem mas. Mallarmé falou amiúde da proximidade entre poesia e música. o conceito de poésie pure se insere de forma coerente na disposição fundamental da lírica mallarmeana. te confia a pureza de tuas idéias e registra silenciosamente tua aparição. O "olhar absoluto" pode ser. as formas primordiais de seu próprio espírito. mas metáfora que resume um dos aspectos elementares de nossa natureza: espada. Berne-Joffroy.. tínhamos falado várias vezes da fantasia ditatorial. Aludiremos ainda a alguns exemplos. segundo o significado grego da palavra. transforma-o e o subtrai à ordem normal objetiva de espaço e tempo. "Estritamente imaginativo e abstrato. 544). portanto. a poesia torna-se livre para deixar dominar a magia lingüística. na forma de um sinal que é a própria dançarina". de modo harmônico. " (p. As aparições despojadas de seu empirismo são dominadas pelo olhar absoluto. depois de Mallarmé. em Mallarmé mesmo.não obstante a diversidade de motivação . portanto. da embriaguez do coração. O que se entende com ele se depreende do ensaio "Ballets" (1891). traduzi da em linguagem normal (e.o parentesco estrutural com Rimbaud. O fato de chapéus negros voarem pela rua torna-se: "a rua. o texto diz: o vento impele ao retorno do horizonte à cidade. os parisienses regressam da caça. Na medida em que a poesia de Mallarmé roça ainda O mundo fenomenológico. portanto poético"(p. por sua vez. quer dizer também "criador". na qual "poético". soaria assim: no outono. que é endereçado a seu próprio sujeito e as pode usar apenas como linguagem simbólica livremente disponível para indicar os movimentos deste sujeito. 202). este conceito conserv~ sua validade para toda a lírica que não pretenda ser sentimento e reação aos conteúdos do mundo. mantido como fórmula para indicar a poesia abstrata de Mallarmé e de seus seguidores. portanto. seu conteúdo. É. aparece outro conceito: regard absolu. o conceito de abstração. cores e formas. em seu significado privativo. naturalmente desfigurada). em torno do qual ela gira. sim. o pano de boca se levanta sobre a magnificência deserta do outo137 . mas sugere com uma escrita corporal aquilo que um texto poderia exprimir apenas com paráfrases em prosa dialogada e descritiva . transformando-as em sinais deste espírito.

a uma figura mítica. Nate· se como o outono aparece primeiro numa transposição metafórica. não das figuras. certamente. vazio. de forma apenas muito alusiva. Decorreu a um tempo remoto. procura "cifrar meiodica e silentemente" (p. 277). do acidental sobre a coisa. Nela tem sua pátria e sua liberdade. Mallarmé não teria provocado tanta veneração. em todo o caso. o símbolo de um canto no qual poesia e pensamento. reflete-se no poço da orquestra (p. nem literária. sabe estar só: "o poeta não tem outra coisa a fazer senão trabalhar misteriosamente. aludindo à origem mítica mais longínqua da poesia. que se pode reconhecer aqui. 683). em: "Um anjo se encontra na nudez de sua espada" (p. o esvoaçar do movimento. / " (p. quando se fala de teatro ("poço") e do diretor de orquestra ("jogo dos dedos"). Talvez o fizesse porque percebia um parentesco com a arte poética órfica. 648) o espaço infinito. enfim.e. da qual despontam um sorriso e braços abertos com o peso do urso" (p. A realidade é sentida como algo insuficiente. Não se origina de uma "ecepção de impressões. contra a janela pálida / mais flutu[ que a envolve.no. é outra característicà . O concreto sucumbiu completameue às volutas de movimento em que a fantasia que tudo abstrai a transformou. 664). as dançarinas aparecem apenas num atributo parcial e nesta se funde o atributo de outro ser. com uma cortina de rendas. humanística.-···1 1 \ 139 . a transcendência como o Nada. um palhaço. p. Também a anteposição. mas de: "palidez evasiva de musselina. Proíbe a si mesma qualquer intromissão do presente. Os acidentes se desprendem das figuras e se fundem em imagens irreais. Quando lhe pergun~aram o que havia antes de Homero. outono e teatro. estão fundidas numa unidade que. Erigida sobriamente com poucos materiais. Sua obra é. se nos concentrarmos na qualidade da espada.do estilo irreal. Uma poesia tardia começa. ciência e mistério são uma sÓ coisa. O anjo com uma espada desnuda se converte. Mallarmé declarou certa vez. Se esta não fosse a situação primordial da poesia moderna. ou seja. :riadas num material já completamente desrealizado. Repele o leitor e se recusa a ser humana. ou seja. que a poesia perdeu o caminho a partir da "grande aberração de Homero". de futuro . numa conversação. Como acontece muitas vezes. não se deveria chamar este procedimento de impressionista. 74). do jogo dos dedos que impõe silêncio às folhas. 388). 28). ao 138 . a relação entre uma e outra como uma dissonância insolúvel. Por si só bastariam para firmar seu princípio de que a poesia é uma construção de per si. estar só com a linguagem Estes poucos exemplos nos conduzem à personalidade artística de Mallarmé. respondeu: Orfeu (191. do absoluto na linguagem das coisas terrenas. A lírica de Mallarmé encarna o isolamento total. a segunda estrofe diz então: "Este unânime conflito branco / de uma guirlanda consigo mesma. Também com respeito ao futuro. com o risco de que tanto o possam entender ou não. tendo em vista o jamais" (p. ou talvez também porque a primordialidade desejada de sua própria linguagem lírica o impelia a torná-Ia compreensível. O poeta está só com sua linguagem. As duas esferas. é agora mais que uma simples metáfora. do detalhe sobre o todo. a tal ponto que se tem dificuldade em ver o que é este. a mais de per si que já foi construída pela lírica moderna. Mallarmé fala de um grupo de dançarinas. O que permanece? Um dizer que tem sua evidência em si mesmo. Não sente necessidade alguma da tradição cristã. mas é ele próprio impressão de figura.