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Plano Diabólico

Doreen Owens Malek

Angela poderia amar um homem que mentiu para entrar na sua
vida?

"É tudo mentira!", Angela diz para si mesma, inconformada. "Brett não passa de um
espião, que para alcançar seu intuito não hesitou em me seduzir!"
"Como pude me apaixonar por um homem sem caráter, cuja única tarefa era me
conquistar, me possuir?"
Sem dúvida, ele é uma pessoa fascinante! Um amante ardente e charmoso! Mas
como compactuar com uma trama tão sórdida, tão diabólica?

Digitalização: Simone Ribeiro
Revisão: Madalena

Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72

CAPÍTULO I
Brett Devlin cruzou os braços e fixou a atenção no grupo de alunos que chegava ao
prédio da faculdade de Direito. De acordo com as informações contidas no dossiê, Ângela
Patrian passaria por ali, a fim de assistir às aulas daquele dia.
Impaciente, endireitou o corpo e acendeu um cigarro, na expectativa de ver a figura
da sobrinha de Frank Patrian, de quem deveria aproximar-se com toda habilidade
possível.
Para passar despercebido entre os jovens universitários, Brett usava jeans e camisa
de algodão listrada, que lhe caíam muito bem, amenizando a diferença de mais de dez anos
que tinha em relação à maioria dos alunos do campus. Apesar de sua discrição, porém, não
pôde evitar os olhares insinuantes das moças sorridentes que se encantavam com seu belo
porte atlético.
Contudo, sem se deixar abalar, Brett dispensou o flerte das jovens para se ater
apenas a uma delas, que inexplicavelmente demorava a chegar.
De repente, retesou o corpo, jogando a ponta do cigarro no chão e esmagando-o
com o bico do sapato. Lá estava Ângela Patrian. Reconheceu-a de imediato, pois já a tinha
visto várias vezes em fotografias.
Sem maquilagem nem batom, a aparência delicada não denunciava os vinte e cinco
anos de vida. Para alguém que não a conhecesse, ela passaria facilmente por uma garota
de dezenove anos.
Tanto na altura como na cor dos cabelos, Ângela destacava-se dos colegas, os cachos
ruivos quase alcançando sua cintura. Perfeitamente dentro da moda jovem, usava jeans,
botas e um suéter verde, com gola role.
O olhar aguçado de Brett acompanhou a figura esguia que subiu os degraus com
desenvoltura, desaparecendo no interior do edifício. Então, com passadas seguras e
suficientemente rápidas para não perdê-la de vista, ele a seguiu.
Sem se fazer notar, entrou no prédio, misturando-se ao fluxo de pessoas que se
dirigiam ao piso superior, sabendo que a aula seria ministrada no segundo andar. Fez uma
pausa diante da sala B-12 e, com um rápido olhar, percorreu o interior do aposento.
Mas Ângela não estava ali. Soltando um suspiro, Brett deu uma olhadela ao longo
do corredor. A sobrinha de Patrian devia estar cabulando a aula, e certamente num lugar
não muito longe dali.
Ao ver uma grande porta de vidro no final do corredor, concentrou-se para saber
que compartimento seria aquele. Repassando mentalmente a planta do prédio, lembrou-se
de que era a biblioteca. "Um lugar ótimo para quem quer fugir de uma aula indesejada",
pensou.
Apesar de se tratar de um ambiente amplo, arejado e claro, o trabalho de busca de
Brett foi dificultado pelo grande número de pessoas existentes ali.

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Momentos Íntimos 72
Finalmente, ele a encontrou no setor de publicações periódicas, sentada a uma
pequena mesa com a cabeça inclinada sobre ura exemplar volumoso, os cabelos ruivos
caindo sobre os ombros como uma cascata flamejante.
Aproximou-se mais, avançando em direção à sua presa.
Aquela garota a poucos passos de distância seria seu passaporte para entrar no
mundo de Frank Patrian!
De repente, porém, parou atônito, percebendo que Ângela chorava. Enquanto fingia
ler, lágrimas cristalinas corriam por suas faces pálidas e rígidas.
Brett recuou, perturbado. Passou por detrás das estantes de livros e colocou-se
diante da janela, contemplando o lindo dia de outono com ar pensativo. Alguma coisa
naquela jovem solitária, chorando silenciosamente, lhe tocara o coração, provocando-lhe
uma onda de simpatia.
Ângela Patrian, com todo o dinheiro sujo que possuía, não estava feliz e ele ficou
surpreso ao descobrir o quanto isso o incomodava. Resmungando contrariado, afastou os
bons pensamentos da mente. Provavelmente, ela devia ser tão desonesta quanto seu
notório tio.
Ângela Patrian enxugou as lágrimas com as costas das mãos e soltou um profundo
suspiro. Arriscou uma olhadela ao seu redor e constatou que ninguém a observava. Fechou
o livro à sua frente e pegou um lenço de papel dentro da bolsa, juntamente com um
telegrama, o qual ficou observando com ar de profunda tristeza.
Aquele pedaço de papel trazia-lhe notícias de seu tio Frank, que dizia não poder
voltar tão breve de Hong Kong como havia prometido, por causa de negócios importantes.
Há algum tempo Ângela vinha sendo vítima de ameaças anônimas contra a sua
vida. Eram provavelmente feitas por algum inimigo de seu tio, que era um famoso homem
do mundo dos negócios, principalmente na importação de objetos de arte do Oriente. Ela
era a única parente ainda viva de Frank e, com certeza, aquele era o meio mais eficaz que o
ameaçador anônimo encontrara de chegar até o milionário.
O que mais a entristecia, porém, era o fato de o tio ter pedido ao advogado da
família, Harold Simmons, que contratasse um detetive particular para protegê-la, em vez
de vir pessoalmente lhe dar o apoio de que tanto necessitava.
Frank Patrian era tudo o que ela possuía. O pai morrera num acidente de
automóvel, juntamente com a mãe, quando ela tinha apenas dez anos. Ângela passara
então a morar com o tio. Porém, ele quase nunca estava em casa devido às constantes
viagens de negócio e, para enchê-la de carinho e atenção, contratara uma criada, Josie
Clinton.
Josie não fora apenas uma empregada para Ângela, mas sim a figura materna que
ela não tivera durante todos aqueles anos. Seu tio Frank, no entanto, era apenas uma
quantia generosa de dinheiro que se fazia presente nos feriados e aniversários,
dispensando qualquer tipo de afeição. Era verdade que o famoso empresário pagava todas
as suas contas e, assim, achava que cumpria seu dever. Mas será que ele não imaginava o
quanto ela sentia sua falta? Contratar um "pistoleiro" para segui-la por toda parte não era
uma substituição para a presença de alguém que se importasse realmente com ela.

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Ângela fungou e endireitou os ombros. Depois, consultou o relógio, deduzindo que
fora uma infantilidade de sua parte cabular a aula de tributação estadual somente para se
entregar à auto piedade. Ainda teria mais duas aulas e duzentas páginas para ler sobre
patentes e direitos autorais. Portanto, deixaria para se preocupar com Harold Simmons e
seu guarda costas mais tarde.
Brett e Harold Simmons caminhavam lado a lado na direção da casa de Frank
Patrian. O céu estava estrelado e as ruas de Manhattan iluminadas por inúmeros painéis
de neon.
— Lembre-se — o advogado disse a certa altura, um tanto nervoso —, a garota não
sabe de nada. Ela pensa que você está aqui para protegê-la.
— Conheço o meu trabalho — Brett retrucou num tom insolente, encarando o
advogado que entregara o próprio cliente e colega, Frank Patrian, à Justiça, em troca de
imunidade. — Nosso trato consiste em atenuarmos a sua sentença se você nos ajudar a
pegar Patrian. Portanto, é só me colocar dentro da casa dele que eu me preocupo com o
resto.
Brett precisava do advogado, o único representante local da organização mundial de
Frank Patrian, para penetrar na rede internacional de tráfico de drogas, a fim de conseguir
boas evidências contra o milionário.
Harold passou as palmas das mãos nas calças, enxugando-as, e Brett sorriu de leve.
O advogado tinha boas razões para estar nervoso. Havia participado, juntamente com o
Departamento Federal de Narcóticos e Substâncias Perigosas, para o qual Brett
trabalhava, do plano das falsas ameaças de morte contra Ângela. E, se Frank descobrisse a
trama antes de terem completado a missão, a vida dele não valeria um tostão furado.
— É melhor você ter cuidado — Harold preveniu-o. — A garota é muito esperta.
Brett parou de andar.
— Se ela é tão esperta assim, como é que não sabe que o tio faz contrabando de
drogas, usando como fachada a importação de objetos de arte orientais?
— Você não a conhece. — Simmons evitou encará-lo. — A moça adora Frank por ser
ele seu único parente há anos. E jamais poderia imaginar que o tio está agindo contra a lei.
Brett analisou a situação e foi atingido mais uma vez por uma onda de simpatia pela
garota. Se o que o advogado dizia era verdade, Ângela buscara proteção e orientação nos
maiores vigaristas do mundo, que eram seu tio Frank e Harold Simmons.
No entanto, ele não estava totalmente convencido da inocência dela. Harold poderia
estar mentindo para proteger a sobrinha do milionário ou, até mesmo, estar mal
informado. O que o incomodava, porém, era o fato de Ângela estar estudando advocacia.
Isso era muito conveniente e o objetivo principal poderia ser o de manter o tio longe das
grades.
Ao se aproximarem da casa, Harold adiantou-se, subindo as escadas e tocando a
campainha. Brett desviou o olhar com raiva, evitando encarar o homem que não passava
de um delator. Mas, quando Ângela atendeu à porta, não pôde deixar de admirá-la, com
uma certa afeição.

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Ela usava um vestido de linho azul-marinho e sandálias de salto alto. Com os
cabelos luxuriantes presos num coque atrevido no alto da cabeça, parecia bem mais
madura do que no campus da faculdade. Pérolas delicadas enfeitavam-lhe as orelhas e um
toque leve de maquilagem realçava-lhe as feições de mulher.
Assim que entraram no living todo revestido de mármore, Brett relanceou o olhar
pelo ambiente. O hall de entrada da casa era iluminado por um imenso lustre de cristal e
candelabros do mesmo material, presos às paredes forradas de seda. Um carrilhão, em
cerejeira, juntamente com um porta chapéus e uma escrivaninha de tampa corrediça
ocupavam toda a extensão de uma das paredes. Havia um vaso da dinastia Ming cercado
por uma cúpula de vidro, sobre um pedestal, e uma delicada aquarela pintada em papel de
arroz, que se destacava em meio a tanta sofisticação. "Sem dúvida", Brett pensou, "Patrian
importara alguns objetos para si próprio." Todo o ambiente exalava dinheiro!
Brett voltou o olhar para Ângela. Ela não era propriamente bonita. Os olhos cor de
avelã eram um tanto grandes, os lábios, carnudos, e o corpo, um pouco mais magro do que
o da maioria das mulheres. Mas a forma com que se movimentava era tão graciosa, que a
tornava uma mulher extremamente atraente.
Ângela cumprimentou Harold e voltou-se para o seu guardião. Esperava conhecer
alguém do tipo conservador, usando um terno cinzento, como os de seu tio ou do próprio
advogado, já que por ordem de Frank Patrian nenhum homem abaixo dos cinqüenta tinha
permissão para se aproximar dela. Por isso, foi com surpresa que analisou a figura jovem e
máscula diante de si.
O agente devia ter cerca de trinta anos. Seus cabelos eram espessos e negros como o
carvão e o rosto, de traços retos e atraentes. Os olhos tinham uma cor diferente e curiosa,
um castanho bastante claro, quase de um âmbar dourado. A testa era larga e a boca grande
e bem talhada.
"Com toda certeza, seu tio não tomara parte naquela escolha", Ângela pensou,
divertida.
— Ângela — Harold chamou —, este é Brett Devlin, da Agência de Detetives
Somerton. Brett, esta é Ângela Patrian.
— Prazer em conhecê-lo, sr. Devlin — ela murmurou, imobilizada por um olhar
felino, fixo em seu rosto.
Brett fez um gesto cortês com a cabeça, porém não sorriu. Apertou-lhe a mão com
firmeza, soltando-a em seguida.
Impressionada, Ângela continuou a encará-lo. Ele era alto e bonito, do tipo que
dava a impressão de ser magro quando vestido. Entretanto, devia ser muito sexy quando
despido.
Corando diante do pensamento íntimo, ela desviou o olhar. No entanto, não resistiu
à tentação de observar mais uma vez aquele corpo forte e atraente. O guarda costas estava
usando jeans e sapatos esportes. O paletó de veludo cotelê, aberto na altura do peito,
revelava uma bela camisa. E sua única mochila estava no chão aos seus pés.
Ângela engoliu em seco, prendendo a respiração. Aquele homem é que iria ser seu
guarda costas?

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— Espero que se sinta confortável em nossa casa, sr. Devlin — ela ouviu-se dizer,
num tom marcadamente frio.
— Tenho certeza de que me sentirei — ele respondeu, a voz rouca e baixa.
— Essa é toda a bagagem que trouxe? — Ângela indagou, apontando para a sacola
de lona.
— Costumo viajar com pouca coisa — Brett retrucou, olhando-a fixamente.
— Bem, se me derem licença — Harold interrompeu apressado, parecendo um tanto
nervoso —, vou me retirar agora. Assim vocês terão a oportunidade de se conhecer melhor.
— Harold deu uma olhada ao redor e perguntou: — Onde está Josie?
— Ela saiu mais cedo — Ângela informou. — A filha dela não estava se sentindo
muito bem e ela foi verificar o que houve.
Bastante distraído, Harold fez um gesto de desânimo com a cabeça.
— Boa noite, então, Angie. Estarei em contato com vocês. — Dirigiu um olhar
significativo a Brett e, desviando-se rapidamente, saiu.
A sós com Brett Devlin, Ângela não tinha a menor idéia da forma como deveria
tratá-lo. Se como um convidado ou como um empregado. Suas boas maneiras inatas,
porém, fizeram com que optasse pelo primeiro caso.
— Posso oferecer-lhe algo, sr. Devlin? Um drinque? Alguma coisa para comer?
Ele recusou com um gesto de cabeça.
— Mas gostaria de fumar, se não se importa. Ângela pegou um cinzeiro da mesa de
centro da sala de estar. Era uma linda peça em mármore veneziano e ela observou Brett
virá-lo na mão, admirando-o, antes de retirar o cigarro do maço e acendê-lo. Ele deu uma
longa baforada e passou a olhá-la com um ar pensativo.
O olhar fixo fez com que Ângela se sentisse nervosa.
Quer tirar o paletó? — perguntou rapidamente, tentando disfarçar o embaraço.
— Sim, obrigado.
Brett depositou o cigarro no cinzeiro, retirou o blazer e estendeu-o a ela. Ângela
aproximou-se para pegá-lo, mas parou de repente. Percebendo que ela ficara perturbada
com a arma que carregava num coldre, preso na altura da axila por uma tira de couro que
lhe cruzava as costas, ele informou, num tom neutro:
— Isto é necessário, srta. Patrian.
Ela assentiu com um gesto lento de cabeça e, pigarreando, disse:
— Vou guardar o paletó. Se vier comigo, poderá ver seu quarto que fica do outro
lado do hall.
Brett acompanhou-a, esperando enquanto ela pendurava o casaco no armário do
living e depois se dirigia para a suíte de hóspedes.
— Achei que você gostaria de ficar próximo da saída — Ângela explicou. — Meu... os
outros quartos ficam no andar de cima.
— Este aqui está ótimo — Brett retrucou, observando os móveis claros de carvalho e
o espesso tapete chinês.
Todas as providências tinham sido tomadas para que ele se sentisse confortável.
Havia cobertores extras dobrados ao pé da cama e uma pilha de toalhas sobre a cômoda
entalhada. E uma chave, na fechadura da gaveta superior.

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Brett voltou-se para Ângela a fim de agradecer-lhe a hospitalidade, mas, naquele
exato momento, um baque esquisito se fez ouvir nas proximidades da porta de entrada.
Todo o sangue das faces de Ângela desapareceu e, numa reação instintiva, ela se
atirou nos braços do seu protetor.
Brett abraçou-a, alarmado. Ela parecia aterrorizada, o corpo trêmulo, a respiração
entrecortada. Imaginou que talvez essa fosse a razão do choro daquela tarde na biblioteca,
assim como o motivo da dependência afetiva demonstrada naquele instante. Então sentiuse envergonhado pelo papel que exercia na maquinação que provocara todo aquele medo.
Segurou-a com força, e o único grampo que prendia o coque dela desprendeu-se,
esparramando as mechas espessas avermelhadas sobre suas mãos. O perfume suave e
fresco, com um leve toque de limão, atingiu-lhe as narinas. Sem poder se conter, Brett
deixou que seus dedos deslizassem, dos ombros delicados até a cintura fina. Aquela jovem
mulher era terna e dócil, suave e convidativa. Num instante, despertou completamente sua
masculinidade.
Quando Angela moveu o corpo para se equilibrar melhor, seus quadris tocaram as
coxas musculosas dele. Ela perdeu o fôlego ao sentir a rigidez do membro másculo a
queimar-lhe a pele sob o tecido fino do vestido. Perplexa, jogou a cabeça para trás e
encarou-o com os olhos arregalados e os lábios entreabertos. A respiração que estivera
suspensa por um instante tornou-se terrivelmente audível.
Confuso, Brett constatou que, assim como ele, ela ficara abalada com aquela
proximidade. Nervoso, soltou-a imediatamente e virou-se para o outro lado da sala. Tinha
que se controlar, pois estava ali apenas para provocar a destruição do tio dela. Ângela
mesma podia ser parte do submundo do império de Patrian. E, mesmo que não fosse, ele
precisava manter uma distância profissional, caso contrário poderia se autodestruir.
— S.sinto muito — ela gaguejou. — Acho que não estou conseguindo me controlar,
pois a cada barulhinho fico fora de mim.
— Vou até a porta ver o que houve — ele disse abruptamente, a mão
automaticamente se aproximando do revólver. Embora o perigo que ela temia não
existisse, o surgimento de outros tipos de ameaças desconhecidas era comum naquele tipo
de trabalho.
Dirigindo-se para a entrada, Brett abriu a porta com cuidado. O causador daquele
ruído fora um jornal, arremessado com muita força pelo entregador. Apanhou-o e voltou
para dentro, entregando-o a Ângela, sem dizer nada.
Ela fitou o jornal demoradamente. Então, ergueu os olhos e encarou-o.
— Sinto-me ridícula — disse com calma. — Tenho exagerado as coisas ultimamente.
— Você tem motivos suficientes para estar nervosa — Brett retrucou, pegando o
cinzeiro de mármore e acendendo outro cigarro. — O que vai fazer o dia todo amanhã?
Preciso saber, pois deverei acompanhá-la a qualquer lugar que vá.
Ângela pensou um pouco antes de responder.
— Bem, costumo correr um pouco pela manhã, antes de ir à faculdade. Depois das
aulas, voltarei para casa, pois tenho que preparar um trabalho.
Ela o encarou por alguns instantes, depois desviou o olhar e fez menção de retirarse, mas subitamente Brett agarrou-a pelo braço.

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— Solte-me! — ela ordenou, num tom cáustico.
Ele a libertou prontamente, informando com calma:
— Eu não estava tentando agarrá-la. Apenas queria evitar que tropeçasse na
mochila. — Brett apontou para sua bagagem bem próxima dos pés dela.
Ângela sentiu-se novamente ridícula; a segunda vez naquela noite.
— Obrigada e desculpe-me. Pratico o cooper às sete horas. Está bem para você? —
falou apressadamente, querendo sair dali o mais rápido possível.
— Não precisa modificar seus horários por minha causa, srta. Patrian. Faça tudo o
que estiver acostumada, e eu me ajustarei ao seu cotidiano.
— Então, até amanhã.
Ângela só se sentiu à vontade quando fechou a porta do quarto atrás de si e se viu
longe daquelas mãos tentadoras.
Sentou-se diante do toucador e começou a prender os cabelos novamente. Mas seus
dedos tremiam tanto que desistiu da idéia, deixando-os soltos sobre os ombros.
Olhou-se no espelho, fitando as faces pálidas e assustadas. Era estranho! Philip
Cronin, gerente de vendas de seu tio, a perseguia há seis meses e nem o abraço mais
apertado dele lhe despertara a emoção avassaladora que sentira diante do breve toque de
Brett Devlin.
Balançou a cabeça, mal conseguindo acreditar no que estava acontecendo. Acabara
de conhecer aquele homem; contudo, no momento em que se viu enlaçada por seus braços
fortes, fizera um esforço enorme para não enterrar o rosto naquele peito largo e sucumbir
ao seu fascínio.
Não pôde deixar de sentir uma ponta de vaidade ao se lembrar de que ele
demonstrara que a desejava com a mesma intensidade. E, como num passe de mágica, o
sentimento aflitivo cedeu lugar à autoconfiança e à impetuosidade.
No andar de baixo, Brett acomodou-se numa poltrona na sala de estar, diante da
ampla janela. Pegou mais um cigarro e o acendeu naquele que acabava de fumar. Sem
dúvida alguma estava em apuros. Tinha uma missão a cumprir e havia se deixado levar
pelas emoções logo na primeira noite.
Apoiou a cabeça no encosto da poltrona e fechou os olhos. Tinha que admitir para si
próprio que se sentira fatalmente atraído pela sobrinha de Frank Patrian. Ângela não era a
mais bela mulher que já conhecera, mas havia algo naquele corpo esguio e nos olhos cor de
avelã que o abalara desde o primeiro instante em que a vira.
Ergueu a cabeça e analisou o cigarro que queimava entre os dedos. Precisava se
controlar, pois, apesar do ar de inocência, Ângela podia perfeitamente ser tão suja quanto
seu tio Frank. Mesmo que essa não fosse à verdade, não devia misturar trabalho com
prazer.
Ângela acordou às cinco horas e não conseguiu mais conciliar o sono. A presença de
Brett naquela casa a incomodava. Permaneceu na cama por quase uma hora, observando o
dia clarear e imaginando como lidaria com mais esse problema. Estar na presença dele
todos os dias iria tornar sua vida um tormento.

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Suspirou profundamente e levantou-se, metendo-se num agasalho esportivo. Fez
alguns exercícios de alongamento, depois consultou o relógio. Eram seis e trinta.
Brett já estava sentado na sala, lendo o jornal entregue na noite anterior, quando ela
desceu. Ele usava jeans e um blusão com capuz, fechado por um zíper. Assim que a viu,
colocou-se de pé e esperou até que ela se aproximasse.
— Pensei que ainda estivesse dormindo, sr. Devlin — Ângela comentou com ironia.
— Ora, não iria fazê-la esperar — ele rebateu, no mesmo tom.
Os dois se entreolharam.
— Bem — Ângela forçou um ar despreocupado —, vou pôr água na cafeteira e o café
estará pronto quando retornarmos.
Brett deu de ombros, demonstrando que não se importava.
— Onde você costuma correr? — indagou minutos depois, quando já deixavam a
casa.
— Ao longo do canal, ida e volta. São cerca de três quilômetros no total.
O Sol acabara de nascer e um nevoeiro obscurecia o calçamento. Ainda estava frio e
o vapor proveniente das grades de escoamento ao longo das ruas misturava-se com a
neblina da água do mar, transformando os arredores de Manhattan num mundo de sonhos
coberto de nuvens e luzes opacas dos antigos lampiões.
— Não é lindo? — Ângela comentou com suavidade. — Eu adoro esta cidade, antes
de ser invadida pelo barulho do tráfego e pela agitação de um dia de trabalho. Posso quase
imaginar que sou a única pessoa existente na face da terra.
Um tanto curioso Brett olhou-a de soslaio, porém nada comentou. Quando ela
começou a correr devagar, postou-se ao seu lado, pronto para escoltá-la.
Por algum tempo, os dois correram em silêncio. Então, Ângela relanceou os olhos
na direção do guarda-costas e verificou que ele contemplava as coisas ao seu redor com
tranqüilidade e que não aparentava o menor cansaço.
— Você pode ir mais depressa, se quiser — sugeriu. — Eu o alcançarei.
— Não. Ficarei ao seu lado. — Os olhos dele fixaram o rosto delicado. — Você está
num ritmo bom. Tudo bem para mim.
Ela resolveu não insistir, tomando o caminho costumeiro ao longo do canal e
parando para descansar ao se aproximarem do embarcadouro, embaixo de uma ponte.
Brett jogou-se no chão de concreto, o corpo apoiado nos cotovelos, e ficou
observando o mar. Ao notar, porém, que Ângela estremecia à medida que seu corpo
esfriava, tirou o blusão e estendeu-o para ela. Mas a oferta foi recusada com um gesto de
cabeça.
— Você vai sentir frio, só de camiseta.
— Eu não sinto frio — ele retrucou num tom de impaciência. — Ande, pegue logo
isto!
Ângela o vestiu e ele se levantou para ajudá-la a fechar o zíper e enrolar os punhos
das mangas, longas demais. Então, voltou-se de novo para o mar e acendeu um cigarro.
— Como você pode fumar tanto e correr tão bem? Os cigarros não lhe fazem mal?
Brett ergueu os ombros com indiferença.

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— Parece que eles não me afetam, pelo menos por enquanto — informou, num tom
passivo.
Contemplando a figura forte e saudável de Brett, Ângela notou o emblema da
camiseta de malha que ele usava. Havia a inscrição "Lake Placid, 1980" abaixo do
emblema das Olimpíadas, os cinco círculos interligados.
— Você participou dos jogos olímpicos? — perguntou, curiosa, apontando para o
peito largo.
— Oh, não — ele respondeu após olhar para o símbolo. — Meu irmão mais novo era
reserva do primeiro time de hóquei. Ele me deu esta camisa de presente.
— Como deve ter sido emocionante para ele! — Ângela exclamou, suspirando. — Eu
chorei quando eles ganharam a medalha de ouro.
Brett torceu os lábios.
— Chorou mesmo?
— Chorei sim. Não entendo nada de hóquei, mas não consegui desgrudar os olhos
da televisão. Achei maravilhoso ver aqueles garotos emocionados. Riam, choravam... Não
sei como conseguiram aguentar a emoção. Senti pena do time adversário. Quando se está
na idade deles, a vitória é algo muito importante. — Ângela fez uma pausa e continuou
entusiasmada: — E pensar que todos diziam que eles não tinham qualquer chance de
vencer! Eles mostraram ao mundo o que um grupo de garotos americanos pode fazer.
Fiquei muito orgulhosa deles!
Brett encarou-a, imaginando se ela estava fingindo ou se era assim tão ingênua
quanto parecia.
Percebendo a análise intencional, Ângela mordeu o lábio inferior, corando.
— Acho que estou sendo um tanto tola, não é?
— Não mesmo. — Ele suspirou. — Depois da vitória deles, minha mãe pendurou a
bandeira americana na varanda e a deixou lá um mês inteiro.
— Onde fica ela?
— Quem?
— A varanda de sua mãe.
— Em Kansas. — Brett sorriu. — É lá que estão meus pais e meus seis irmãos.
— O que seu pai faz?
— Planta milho — ele informou num tom irônico. — É o que a maioria das pessoas
em Kansas faz. . .
— Uma fazenda em Kansas e com todos esses irmãos! — Ângela disse num tom
ávido e melancólico. — Parece ser tão maravilhoso. . .
— Você não diria isso se precisasse esperar na fila do banheiro todas as manhãs. E
isso durou até que eu completasse dezoito anos. — Brett jogou o cigarro fora. —
Brigávamos por tudo. Por roupas, comida, para decidir quem ia dormir perto da porta, de
quem era a vez de alimentar os cavalos. Isso sem falar que minhas duas irmãs sempre
estavam penduradas ao telefone!
— Puxa! Coitada da sua mãe! Sete filhos! — Ângela exclamou, incrédula.
— Minha "pobre" mãe, com sessenta e dois anos, é tão forte que pode erguer nós
dois juntos do chão.

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— Como você escolheu esta profissão? — Ângela inquiriu. — Quero dizer, parece
uma escolha um tanto estranha para um garoto que viveu numa fazenda em Kansas
durante toda a infância e adolescência.
Brett deu-lhe as costas abruptamente. Estava com raiva de si próprio, pois não
costumava falar tanto de sua vida particular. Embora as informações reveladas fossem
completamente inofensivas, ele estava se aventurando demais e poderia entrar num
campo perigoso. Consultou o relógio e sugeriu:
— Não acha melhor voltarmos agora? Vai se atrasar para a primeira aula.
Ângela percebeu logo a mudança de humor e se desculpou num fio de voz:
— Não pretendia me intrometer na sua vida, Brett. Sinto muito.
— Esqueça — ele disse num tom baixo e rouco, arrependido pela rispidez
instantânea.
Brett saiu correndo na frente e Ângela não teve condições de alcançá-lo. Minutos
mais tarde, entravam em casa, sem terem dito uma única palavra durante o percurso.
Ângela foi direto para a cozinha e serviu-se de um pouco de café. Depois, dirigiu-se
às escadas, informando por sobre o ombro:
— Estarei pronta em vinte minutos.
Brett contemplou a silhueta graciosa até que ela desaparecesse no andar superior.
Então, retirou-se para seu aposento, a fim de tomar uma ducha e se vestir.
Já no quarto, removeu a arma do cós do jeans, jogando-a sobre a cômoda,
contrariado. Não estava nada satisfeito com o rumo que as coisas estavam tomando.
Pensou em chamar a agência de detetives e pedir para ser transferido, mas desistiu da
idéia, pois Ângela poderia suspeitar de algo. Aquele tipo de trabalho era mais indicado
para alguém idoso, alguém que possuísse netos e que não tivesse vontade de arrastar sua
cliente para a cama mais próxima toda vez que a visse. Além do mais, ele não estava
gostando nada de ter que mentir para ela.
Tentando não pensar mais no assunto, Brett apressou-se, chegando à cozinha antes
de Ângela. Disposto a remediar a situação anterior, resolveu preparar um delicioso
desjejum. Encontrou todos os utensílios e ingredientes necessários dentro do armário, mas
não conseguiu salvar nem as torradas nem os ovos. Torceu a boca, contrariado, e, ao
erguer os olhos, deparou-se com Ângela, encostada à porta.
— Tentei preparar o café da manhã, mas falhei — informou desolado.
— Estou vendo. — Ela controlou o riso.
— Eu não sei cozinhar.
— Não precisará fazer isso no futuro — ela assegurou, rindo. — Josie costuma estar
em casa a esta hora, porém, hoje atrasou-se por causa da filha. Geralmente, é ela quem
prepara as refeições por aqui.
— Que alívio! Que tal jogarmos tudo isso no lixo e comermos algo no caminho? —
ele sugeriu, colocando café numa xícara e sorvendo o líquido fumegante lentamente.
— Para mim tudo bem — ela falou, erguendo os ombros com indiferença.
— Como vai explicar aos professores sobre a minha presença na sala de aula?

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
— Eu direi a eles que você é um visitante. Tenho certeza de que eles não se
importarão com a sua presença, desde que não atrapalhe. Você está planejando ficar
quietinho, não é?
— Invisível — ele corrigiu, depositando a xícara suja sobre a pia.
Enquanto Ângela pegava os livros na biblioteca, Brett percorreu a escadaria com o
olhar, medindo a distância entre suas acomodações e o andar superior. Sentia-se tentado a
subir e dar uma olhada nos aposentos da casa.
No entanto, sabia que tinha de esperar várias noites até que Ângela se acostumasse
a tê-lo em casa, antes de ousar fazer uma busca.
— Estou pronta — ela anunciou, sem deixar de notar o ar pensativo do guarda
costas, observando o saguão superior.
— Existe um terceiro andar? — ele indagou.
— Sim. Vou lhe mostrar mais tarde. Imagino que você deva querer se familiarizar
com toda a casa. Meu tio usa o piso do alto como escritório. Na realidade, trata-se de um
sótão com uma clarabóia.
Era exatamente isso o que ele queria saber! Mas, para que Ângela não visse seu ar
de triunfo, Brett girou o corpo e avançou para a porta de saída.
Ângela costumava ir de táxi para a universidade, mas informou ao detetive que, se
ele quisesse,' poderiam usar a limusine que o tio mantinha na garagem.
Brett, porém, achou melhor seguirem o hábito dela, considerando o prazer
temporário que o crime pode proporcionar.
No caminho para a faculdade pararam numa lanchonete e tomaram um reforçado
desjejum, depois seguiram juntos até a sala de aula. Ângela ocupou um assento na última
fileira para que Brett passasse o mais despercebido possível. No entanto, ela não pôde
deixar de notar os olhares femininos, curiosos, que se fixaram nele durante toda a aula.
Como se tratava de uma matéria que não conseguira cursar no semestre anterior, ela não
possuía amigos naquela classe. Precisava explicar ao seu guardião que não aconteceria o
mesmo com as aulas normais, quando eles encontrariam seus colegas mais chegados.
Assim que o professor começou a falar, Brett puxou um jornal do bolso e começou a
ler. Ângela tentou ignorá-lo e concentrar-se no aluno que estava apresentando um
seminário, mas descobriu que era uma tarefa bastante difícil, estando tão próxima dele.
Ângela e Brett retornaram para casa ao final da tarde e encontraram Josie na
cozinha, fazendo o jantar.
O dia havia sido um sucesso. Ângela apresentara Brett para seus colegas como
sendo um primo distante. E a única pessoa para quem contara a verdade fora para sua
amiga Holly, que sabia tudo sobre as ameaças de morte que vinha recebendo.
No trajeto de volta, Holly analisou o agente com um ar preocupado, não deixando
de notar a tira de couro do coldre que o casaco deixava visível.
— Você não tem medo dele? — perguntou a Ângela, quando Brett estava um pouco
mais distante, caminhando alguns passos atrás delas.
— Por quê? Você acha que eu deveria ter?
— Não sei. Ele parece tão... malvado. Ângela suspirou.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
— Holly, desde que ele me proteja, evitando que eu seja morta, pode parecer-se até
com Jack, o Estripador!
— Até que ele é bastante atraente, não é? Isto é, se você gosta desse tipo de
homem...
— Que tipo?
— Rude e disponível. Sabe do que estou falando. Ele tem um corpo formidável!
Ângela não pôde deixar de rir.
— Pensei que você tivesse dito que eu deveria ter medo dele.
— Mas esse é o ponto — Holly retrucou com satisfação, fitando a amiga com um ar
triunfante.
Embora tendo compreendido perfeitamente a mensagem, Ângela não fez qualquer
comentário, despedindo-se de Holly para pegar o caminho de volta para casa.
Assim que os viu, Josie abraçou Ângela afetuosamente e, a seguir, lançou um olhar
interrogativo para Brett.
— Josie, este é Brett Devlin, o detetive particular contratado por Harold para cuidar
de mim. Devlin, esta é Josie Clinton, minha empregada e amiga — Ângela apresentou-os.
Após cumprimentá-la com um aperto de mão, o guarda-costas pediu licença e
retirou-se para o quarto.
Ângela esperou pela reação de Josie, mas, como a criada nada disse, continuando a
untar o assado que estava no forno, indagou:
— Então, o que achou dele?
Josie encarou-a, indo, como sempre, diretamente ao assunto.
— Acho que não é exatamente o tipo de homem que seu tio Frank gostaria de ver
por aqui — ela disse maliciosa.
— É, sei disso — Ângela comentou um tanto infeliz.
— Entretanto, parece uma pessoa perfeitamente capaz de cuidar de você e de toda a
população desta cidade. Nisso eu tenho que ser sincera — a empregada acrescentou.
— Fico imaginando como Harold Simmons o escolheu. — Ângela murmurou, quase
para si própria.
Josie franziu o nariz, pois não morria de amores pelo advogado.
— Nem posso imaginar — comentou num tom azedo.
— Os trabalhos daquela mente desonesta são um mistério para mim.
— Como está Maria? — Ângela preocupou-se em saber.
— Oh, minha filha está com uma gripe muito forte, porém sobreviverá. — Josie
consultou o relógio. — O jantar ficará pronto em dez minutos. — Fez um gesto de cabeça
na direção do quarto de hóspedes e perguntou:
— Ele janta com você?
— Se ele quiser... Harold disse que casa e comida fazem parte do contrato.
— Tenho de ir ao supermercado amanhã cedo — Josie informou. — Precisaremos de
mais mantimentos. Com aquele tamanho todo, ele deve ter um apetite de lobo.
Ângela baixou o olhar, desconsolada. Percebendo-lhe. a expressão, Josie enlaçou-a
pelo ombro, confortando-a:

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Momentos Íntimos 72
— Não fique assim, minha querida. Eles prenderão quem está fazendo essas
ameaças com você e tudo ficará bem.
Ângela concordou com um gesto de cabeça e dirigiu-se para o quarto em silêncio.
Brett esperou uma semana a fim de começar as buscas. Todos os dias acompanhava
Ângela durante suas atividades costumeiras e todas as noites planejava a maneira mais
eficaz de mantê-la a salvo. Quando ela lhe mostrou a casa, fez algumas anotações
cuidadosas sobre a disposição de todas as dependências e notou que a porta do escritório
de Frank estava trancada, possuindo, além da fechadura normal, um trinco extra.
Ele, porém, já estava acostumado com essas barreiras e, previdente, não se
esquecera de trazer a caixa de ferramentas específicas, usadas por assaltantes, boas o
suficiente para abrir até um cofre de banco!
A primeira coisa que precisava fazer era investigar a biblioteca do segundo andar,
que ficava em frente ao quarto de Ângela. Lá havia várias escrivaninhas e compartimentos
ideais para se esconder documentos importantes.
Na quinta-feira, às duas horas da madrugada, Brett subiu as escadas
sorrateiramente, parando à porta do quarto de Ângela. Girou a maçaneta com cuidado e
penetrou no aposento.
Uma réstia de luz do luar permitiu-lhe vislumbrar os cabelos avermelhados de
Ângela, espalhados sobre o travesseiro. Suas mãos estavam cerradas, agarrando a colcha
como se estivesse em busca de proteção, e a camisola transparente que usava revelava os
ombros delicados e a sombra escura dos mamilos rosados.
Brett contemplou aquela figura angelical por um longo instante, sentindo um desejo
enorme de acariciá-la. Depois saiu e fechou a porta, encostando-se na parede do corredor
para recuperar o fôlego e a estabilidade do pensamento. Então, movendo-se na direção da
biblioteca, invadiu o aposento, acendeu o abajur de uma das escrivaninhas e fechou a
porta. E, metodicamente, começou a examinar cada uma das estantes.
O tempo passou e ele continuou absorto em sua tarefa, não se dando conta de que
os minutos escoavam. Estava de pé, com um livro nas mãos, folheando-o com calma,
quando a porta se abriu e a luz foi acesa, cegando-o momentaneamente.
— O que você está fazendo aqui? — Ângela indagou, confusa.

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CAPÍTULO II
Assustado com a súbita entrada de Ângela na biblioteca, Brett bateu o cotovelo
numa pequena escultura de cristal que ficava sobre a escrivaninha, derrubando-a no chão
de madeira.
Ângela deu um grito de lástima ao ver os estilhaços do precioso objeto.
— Perguntei o que você está fazendo aqui — voltou a insistir com curiosidade.
— Eu não conseguia dormir e resolvi vir até aqui para pegar alguma coisa para ler —
ele retrucou, mostrando o livro que segurava nas mãos.
Ao vê-la abaixar-se para recolher os cacos do cristal, ele imitou-lhe o gesto, mas
Ângela recuou inadvertidamente, o que ocasionou um pequeno corte no dedo delicado. O
sangue brotou do ferimento de imediato.
Brett largou o livro, agarrou a mão dela e levou-a à boca, sugando o corte com
carinho, os lábios úmidos e gentis umedecendo a carne ferida.
Hipnotizada pelo toque sensual, Ângela puxou a mão abruptamente, mantendo-a às
suas costas.
— Pare com isso! — gritou. — O que está tentando fazer?
— Estava querendo tirar algum fragmento que pudesse ter permanecido no
ferimento — Brett retrucou. — Você não vai querer ter uma infecção, não é?
Ele estendeu o braço e aguardou até que ela recolocasse a mão machucada sobre a
dele. Então, deslizou o dedo indicador pelo corte e repetiu a carícia anterior.
Por um instante seus olhares se encontraram e os lábios carnudos tocaram a pele
sensível do pulso dela.
— Não! Por favor — Ângela conseguiu dizer, retirando a mão num gesto súbito. —
Você está brincando comigo e eu não posso suportar isso — informou.
— É o que você pensa de mim? — Brett segurou-a pelos pulsos.
— E o que mais eu deveria pensar? — ela revidou, encarando-o com raiva.
— Já entendi — ele afirmou num tom neutro, os olhos frios e insensíveis. Soltandoa, fez um gesto com a mão, apontando para a peça quebrada. — Por favor, verifique o
preço que eu pagarei pelo estrago.
. — Isso não será necessário.
— É só me dar a conta — ele insistiu com energia.
— Está bem — Ângela concordou num tom distraído. — Vou dar uma olhada na
relação que está no cofre do meu tio.
— Ótimo.
— Talvez seja melhor deixar esses cacos por conta de Josie, sr. Devlin — ela disse,
caminhando em direção à porta. — Certamente ela tem mais prática nesse tipo de serviço
do que qualquer um de nós. Ah! A propósito. . . aconselho-o a não se deixar enganar pelo
meu comportamento desta noite. Eu não tenho intenção de lhe servir como distração,

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Momentos Íntimos 72
tornando a sua estada menos monótona aqui. Imagino que seu trabalho seja um tanto
maçante, entretanto, não pretendo me transformar no seu parque de diversões.
Dito isso, Ângela saiu apressada da biblioteca, atravessou o corredor na direção do
quarto e jogou-se na cama. Ficou imóvel durante alguns segundos, antes de se sentar na
beirada do colchão e pressionar os dedos sobre as têmporas. Ficou imaginando a razão de
ter sido tão rude com Brett, já que ele não fizera nada de tão grave para merecer suas
palavras.
Não precisou analisar muito a situação para chegar à conclusão de que sentira um
medo terrível de não controlar o desejo que a invadiu no momento em que ele a acariciou.
Sua explosão de raiva fora um meio de se defender contra os próprios sentimentos que
aumentavam à medida que a convivência com Brett Devlin ia se intensificando.
Ângela contemplou o dedo machucado por alguns instantes e pôs-se a imaginar se
deveria procurá-lo para se retratar. Mas mudou logo de idéia, achando que seria melhor
evitá-lo sempre que pudesse.
Tentando acalmar-se, pegou uma fita cassete e inseriu-a no aparelho de som.
Estendeu-se na cama e deixou-se levar pelo ritmo agradável da música.
Na manhã seguinte, Philip voltaria de Tóquio e ela se esqueceria de Brett. Escondeu
o rosto sob o braço dobrado, não muito certa de que conseguiria dormir.
No andar térreo, Brett jogou-se na cama e deu um soco violento no travesseiro.
Ângela o pegara desprevenido e ele nem notara a sua presença, senão quando ela já estava
dentro da biblioteca, bem junto dele.
Agradeceu aos céus por ter sido surpreendido ali e não no escritório de Frank
Patrian e tentou imaginar o que ela estaria fazendo, perambulando pela casa aquela hora
da noite. Quando subira ao andar superior, fora até o quarto dela verificar se estava
acordada e vira-a dormindo profundamente...
Brett gemeu de raiva por ter sido tão descuidado.
Droga! Aquela mulher o estava deixando completamente aturdido! Em vez de
planejar seus próximos passos, ficava a maior parte do tempo pensando nela.
Descobrira que o namorado de Ângela iria voltar na manhã seguinte. Ele fizera duas
chamadas internacionais para ela e mandara um presente na última terça-feira. Era um
porta jóias de jade que, sem dúvida, devia ser tão caro quanto o objeto de cristal que ele
acabara de quebrar na biblioteca.
Esse pensamento levou-o a analisar o modo como ela agira ao se retirar do
aposento. Imaginou que, por mais longe que tivesse ido, Ângela poderia tê-lo afastado com
um simples gesto desencorajador. No entanto, sua reação fora muito exagerada para o tipo
de provocação que lhe fizera. Desde o instante em que pusera os pés naquela casa, vinha
lutando arduamente para controlar o desejo que crescia dentro de si. Um deslize tão
pequeno não justificava aquele sermão!
Ouviu o som da música que tocava no andar superior. Era suave e baixa, e havia
uma vibração sensual que penetrava pelas paredes, fazendo com que os adornos de vidro
sobre a cômoda estremecessem.

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Momentos Íntimos 72
— Ângela... — murmurou, antes de adormecer. Como ela agiria sem a proteção do
tecido transparente da camisola?
Na manhã seguinte, como de hábito, Ângela e Brett foram correr pelo canal,
retornando para tomar o café da manhã sem que, ao menos, tivessem trocado dez
palavras.
Brett comeu apenas uma torrada e tomou uma xícara de café. Depois, com um
simples "obrigado, sra. Clinton", deixou a cozinha, apressadamente.
Ângela observou-o o tempo todo e, quando ele saiu, ficou brincando com o
pãozinho que estava no prato, esfarelando-o, sem vontade de comer. Por fim, empurrou o
prato para longe e serviu-se apenas de café. Levantou da cadeira e pegou uma pilha de
roupas que havia sido deixada por Josie sobre o móvel.
O blusão que Brett lhe emprestara no dia anterior estava no topo da pilha. Ela
carregou as peças até a sala de estar, onde normalmente o guarda costas lia o jornal
matutino.
— Josie lavou isto para você — disse, estendendo-lhe o blusão.
Ele o pegou sem qualquer comentário.
— Não vou assistir à primeira aula hoje — ela continuou. — Philip chegará no
primeiro vôo e planejou passar por aqui.
Brett virou-se e começou a caminhar na direção do quarto. Preocupada, Ângela
correu e postou-se diante dele, impedindo-lhe a passagem.
— Você não vai, nem ao menos, falar comigo? — perguntou, um pouco irritada.
Balançando os ombros num gesto de indiferença, ele respondeu:
— O que há para dizer? Acho que você esgotou o assunto ontem à noite.
— Ouça, a respeito de ontem... Ele ergueu a mão, interrompendo-a.
— Você não precisa esclarecer mais nada. Já percebi tudo. — Atravessou o hall,
acrescentando por cima do ombro: — Estarei no meu quarto se precisar de mim!
Ângela apanhou um par de meias enrolado como se fosse uma pequena bola e
arremessou com violência contra a porta que se fechou diante de seus olhos. O projétil
chocou-se contra a madeira e pousou no chão, porém sem qualquer ruído, deixando-a
desconcertada.
Frustrada, depositou a pilha de roupas ao pé da escada de serviço e dirigiu-se à
cozinha a fim de ajudar Josie com a louça.
Philip chegou uma hora mais tarde, carregado de presentes e cheio de novidades
para contar. Ângela ouviu-o atentamente, fazendo apenas algumas perguntas, quase não
tendo tempo para contar o que fizera na ausência dele. Tocou no assunto do detetive, mas
Philip não deu muita importância ao fato.
No entanto, essa indiferença não durou muito tempo. Ambos estavam sentados na
sala de estar e Philip estava discorrendo sobre suas negociações com um atacadista
japonês, quando a porta do quarto de Brett se abriu e ele apareceu.
O guarda costas vestia uma calça clara e uma camisa xadrez azul-marinho e violeta
que, sem dúvida, acentuavam-lhe a beleza morena. Ele se dirigiu para a sala e parou,
esperando que Ângela os apresentasse.

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A expressão do rosto de Philip transformou-se completamente. Os olhos
estreitaram-se, fixando-se no estranho. Então, ele se voltou, fitando Ângela de modo
inquiridor.
Ela respirou fundo e limpou a garganta.
— Philip, este é Brett Devlin, o detetive particular que tio Frank contratou. Brett,
este é Philip Cronin.
Enquanto os dois homens apertavam as mãos, Philip examinou o guarda costas com
um ar contrariado, os lábios apertados numa linha fina.
— Eu fui contra a idéia de contratá-lo, sabia? — disse, soltando a mão de Brett o
mais rápido possível.
— É mesmo? — ele comentou brandamente.
— Sim. Se alguém planejar matar Ângela, esse alguém o fará. Nem minha presença
ou a sua impedirá que isso aconteça.
— Estou contente por saber que tem tanta confiança em mim — Brett retrucou num
tom irônico. Então, voltou-se para Ângela e disse, antes de se retirar: — Você tem uma
prova oral as onze e trinta. Não acho aconselhável que perca essa aula!
— Quem, diabos, ele pensa que é? — Philip perguntou, indignado, ao ver-se sozinho
com Ângela.
Bastante tensa, ela entrelaçou os dedos num gesto nervoso ao constatar que o
namorado não gostava do guarda costas.
— Ele tem razão — afirmou. — Se eu perder essa chamada oral, vou prejudicar todos
os meus colegas que estão fazendo um julgamento simulado. Verei você na hora do jantar,
está bem?
— Ótimo — Philip animou-se. — Fiz uma reserva para as oito horas lá no Lutece.
— Philip! — Ângela esfregou a fronte lentamente. — Eu não posso sair. O guardacostas quer que eu permaneça em casa ou, então, saia acompanhada dele.
Philip abriu a boca, surpreso.
— Não venha me dizer que está sob as ordens desse estranho! Ele não é o Deus
Todo Poderoso, Ângela!
— Philip, se eu não seguir o conselho dele, não vejo nenhum propósito em tê-lo aqui
me protegendo. Tio Frank deve estar pagando uma fortuna para mantê-lo junto de mim. O
mínimo que posso fazer é obedecê-lo. — Ângela baixou o tom de voz e admitiu: — Eu me
sentirei mais segura tendo-o por perto.
— Está bem, amorzinho — Philip cedeu. -— Tenho uma idéia. Por que não o
levamos conosco? Chamarei Henri e pedirei para reservar uma outra mesa bem junto da
nossa.
— Mas, você não acha que ele vai se sentir pouco à vontade? — ela indagou,
surpresa.
Philip ergueu as mãos num gesto exasperado.
— Eu não ligo a mínima se "ele" não se sentir à vontade. Quero que você jante
comigo para comemorar o meu regresso, e, se esse for o único modo de conseguir isso, vou
aturar a presença desse homem. O que me diz?
— Está bem, se ele concordar.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
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— Ele não tem escolha, Ângela, está sendo pago para isso. __ É suponho que você
tenha razão — ela concordou, sabendo que Philip sempre fazia tudo a seu próprio modo.
— Agora sim você está sendo a minha garota — ele exclamou, satisfeito com a
vitória. Pegou o casaco e encaminhou-se para a saída. — Não se esqueça de dizer a Josie
que pode tirar folga esta noite. — Fez uma pausa, encarando a porta do quarto de
hóspedes. — Avise-me se ele a incomodar.
— Philip, não seja ridículo! Ele não faz nada mais do que a obrigação dele.
— Não gosto de tê-lo nesta casa, junto com você.
— E de que outra forma ele poderia me proteger? Reservando uma suíte no hotel
mais próximo?
— Está bem. Está bem — Philip concordou, arqueando as sobrancelhas. — Virei
buscá-la às oito. Diga para o detetivezinho de araque que esteja pronto no horário.
— Até logo — ela disse, fechando a porta com mais força do que o necessário.
Assim que Philip saiu, Ângela dirigiu-se para o quarto de hóspedes a fim de
comunicar ao seu protetor o programa de logo mais à noite.
Brett recebeu a notícia sobre o jantar sem qualquer reação, limitando-se apenas a
perguntar se deveria vestir paletó e gravata, com o que ela prontamente concordou.
Depois de mais um dia de companhia mútua, Brett e Ângela foram se preparar para
o "jantar de boas-vindas" a Philip.
Às oito em ponto, quando descia as escadas, Ângela viu Brett sair de seus aposentos
e ficou encantada com a sua elegância. Ele trajava um terno cinza de corte clássico,
gravata do mesmo tom e camisa branca.
Ela também havia se esmerado bastante. Seu vestido era preto, cintilante, cujo
modelo deixava à mostra um dos ombros. Seus cabelos estavam presos à altura da nuca,
realçando os brincos de brilhantes que herdara da mãe e que, por serem muito valiosos,
ficavam sempre guardados no cofre do tio.
De repente, Ângela sentiu as mãos se umedecerem. A sensação que tinha era de que
iria sair com Brett e não com Philip. Tentando disfarçar suas emoções, apanhou o casaco
de pele que estava sobre o sofá, jogou-o sobre os ombros e foi se juntar a ele no saguão.
Brett observou-a enquanto ela se encaminhava na direção dele, analisando-a de alto
a baixo.
— Você está linda — comentou com um brilho estranho no olhar, afastando-se
rapidamente.
— Obrigada — Ângela agradeceu, morrendo de vontade de se atirar nos braços dele.
Para evitar qualquer diálogo, Brett postou-se diante da janela e ficou olhando para
fora, até Philip chegar.
Os dois homens se cumprimentaram com um gesto de cabeça, sem proferir uma
única palavra, e Ângela constatou que sua noite não seria tão agradável quanto havia
suposto.
Ao chegarem ao restaurante, ela e o namorado ocuparam a mesa de costume,
enquanto Brett sentou-se a alguns metros, do outro lado do corredor.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Conservando-se aparentemente indiferente à presença do indesejável
acompanhante, Philip tentava cercar Ângela de toda a atenção possível. Enquanto isso, ela,
disfarçadamente, atentava para as ações de Brett, que comia pouco e fumava bastante.
— Você não gostou da vitela? É o seu prato preferido! — Philip comentou a certa
altura, notando sua dispersão.
— Está ótimo, como sempre. Apenas não estou com muito apetite.
— E nem o seu amigo. — Ele fez um gesto de cabeça na direção do guarda costas. —
No entanto, parece que está com bastante sede. Acho que vai ficar bêbado.
— Não me surpreenderia nada — Ângela retrucou, surpresa por não ter percebido
que Philip se mantivera atento a todos os movimentos de Brett. — Não deve ser muito
divertido para ele.
— Sim, porém não será um guardião eficiente se ficar embriagado. Se isso
acontecer, eu o despeço hoje mesmo!
Ângela apertou os lábios, contrariada.
— Ora, nem todos são como você que se apaga com apenas dois drinques, Philip —
comentou, num tom meloso. — Talvez ele tenha mais capacidade de suportar a bebida.
— O que quer dizer com isso?
— Nada... — Ângela murmurou, enxugando os lábios com o guardanapo. Evitando
encontrar o olhar de Philip, tomou um gole de vinho.
— Sabe que esta noite você está agindo como uma megera?
— Bem, e o que esperava de mim? Fui ameaçada de morte e não posso jantar fora
sem um guarda costas a tiracolo. Peço desculpas por estar um tanto nervosa.
— Está bem — ele suspirou, resignado. — Sei que deve ser difícil agüentar tudo isso.
Quer mais alguma coisa?
— Não. Gostaria de ir embora, se estiver bem para você.
Quando Philip pediu a conta, Ângela sentiu uma súbita onda de simpatia pelo
namorado. Afinal, ele queria que aquela noite fosse muito especial e ela arruinara tudo.
Assim que chegaram em casa, Brett foi para o quarto e Philip voltou-se para ela com
um ar de alívio.
Graças a Deus nos livramos dele — comentou. — Quer um conhaque?
Angela concordou com um gesto de cabeça. Mas foi com espanto que percebeu que
estava louca para que o namorado resolvesse ir embora logo.
Brett afrouxou a gravata, puxou-a com força e atirou-a no chão com raiva. Que
noite! Estava ensopado de suor, tentando controlar a vontade de avançar em Philip e
socar-lhe o nariz.
Jurou que jamais sairia para algum lugar com aquele deus grego que lhe lançava
sorrisos de escárnio. Diria a Ângela que era muito difícil protegê-la num lugar público.
Inventaria qualquer coisa para não ter que aguentar aquele loiro adulador, segurando as
mãos dela, tocando seu rosto suave, fazendo-lhe carícias amorosas.
Despiu-se rapidamente, jogando as roupas na cadeira, e olhou para a própria
imagem refletida no espelho. Não tinha nada em comum com Philip Cronin, aquele
"almofadinha" que mais parecia ser um modelo de propaganda de loção para bronzear.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
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Franziu o nariz, contrariado. Se aquele rapazola bonito era o tipo que agradava a Ângela,
ele não tinha a menor chance com ela.
Subitamente, Brett se deu conta de que deveria se concentrar no trabalho,
afastando aqueles pensamentos absurdos da mente. Em algum lugar daquela casa havia
um cofre e tinha que planejar um modo de fazer com que Ângela o abrisse para ele. Essa
inclusive era uma boa forma de esquecer que ela estava sozinha com Philip Cronin na sala
de estar.
Assim que conseguiu, Ângela livrou-se de Philip. Disse a ele que teria um aula logo
cedo, o que era verdade, e que estava com muita dor de cabeça, o que era mentira.
Felizmente, o namorado se retirou meia hora mais tarde, sem exigir dela as
costumeiras carícias que precediam todas as suas despedidas.
Ângela tirou os sapatos e ficou imaginando por que motivo não conseguia gostar de
Philip. Ele era bonito, charmoso, e tinha um futuro brilhante pela frente. Qualquer outra
mulher certamente gostaria de estar no seu lugar. Ela, porém, nem cogitava da hipótese de
se casar com ele.
Seu único amante, um colega que a rejeitara no instante em que o apresentara ao
tio, mal lhe fornecera uma iniciação no mundo da paixão física. Mas o problema não era
esse. Na verdade, não amava Philip. Aceitara namorá-lo porque ele a perseguia há muito
tempo e porque seu tio Frank via esse relacionamento com bons olhos.
Se o seu comportamento vinha sendo esse desde o começo, ela tinha agora um
motivo muito forte para mudar. E esse motivo era o homem alto e forte, de cabelos negros
e olhos cor de topázio, que estava do outro lado do hall.
Carregando os sapatos numa mão e o casaco de pele na outra, Ângela subiu as
escadas para ler trezentas páginas sobre revisão de leis de direitos autorais.
Brett abriu a porta do quarto ligeiramente e observou o exterior. O andar de baixo
estava deserto, completamente na penumbra.
Descalço e vestindo apenas um jeans, encaminhou-se para a cozinha, pé ante pé, e
abriu o refrigerador. Encheu um copo com suco de laranja e gelo e já estava voltando para
o quarto, quando Ângela apareceu à porta, vestindo um robe longo de veludo.
— Pensei que já estivesse dormindo — comentou, embaraçado.
— Tive que estudar um pouco. E você?
— Não consegui dormir — ele retrucou, secamente. Ângela quis evitar olhar para
Brett. Entretanto, a visão do corpo bem-feito e musculoso a hipnotizou. O jeans estava
abaixo dos quadris e ela observou que os pelinhos escuros do tórax cobriam todo o peito
largo, descendo numa linha estreita e aveludada até o ventre.
— Pegarei um copo de leite e irei dormir — disse, enrubescendo.
— Não há pressa, já estou saindo.
Brett afastou-se para lhe dar passagem e Ângela não pôde deixar de notar-lhe uma
cicatriz grande e feia abaixo da costela esquerda, estragando a simetria do corpo perfeito.
— Você foi ferido? — perguntou, suavemente.

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— Não. Fui apunhalado — ele respondeu num tom de voz rouco, procurando
manter-se indiferente à proximidade de Ângela.
— Deve ter sido sério — ela prosseguiu, passando um dedo sobre a cicatriz e
deixando atrás de si uma trilha flame jante.
Por um instante, Brett ficou petrificado. Sentiu o peito quase estourar e afastou-se
num gesto impulsivo.
— Por Deus, Ângela, pare! — o suco derramou sobre a mão dele quando depositou o
copo com força sobre a pia.
Ela o encarou, assustada. Era a primeira vez que Brett a chamava pelo primeiro
nome.
Por um longo tempo, eles ficaram se olhando, olhos nos olhos, até que Brett
balbuciou algo e, num impulso, tomou-a nos braços.
Ângela entregou-se ao abraço, esfregando o rosto no peito largo e beijando cada
centímetro da pele morena.
— Eu estava ficando louco naquele restaurante — Brett sussurrou-lhe ao ouvido. —
Queria que estivesse comigo.
— Mas eu estava — Ângela murmurou. — Oh, Brett, eu estava. — Ela deslizou as
mãos pelas costas rígidas, saboreando a sensação do corpo másculo.
Agarrando-a gentilmente pelos cabelos, Brett forçou-lhe a cabeça para trás,
enquanto aproximava sua boca em direção aos lábios dela, esmagando-os num beijo
apaixonado. O corpo dela ainda exalava o perfume francês. Louco de desejo, ele então
percorreu-lhe o pescoço suave com os lábios, afastando a gola do robe.
A língua úmida e experiente tocou o colo acetinado de Ângela, fazendo-a estremecer
de prazer. Brett desfez o laço que mantinha o robe fechado e insinuou os dedos sob o
tecido fino da camisola, detendo-se à altura dos seios.
— Foi um castigo para mim ficar sentado lá, observando você na companhia
daquele homem — ele murmurou numa voz quente e sensual, erguendo a cabeça para
beijá-la de novo.
— Tudo bem — ela sussurrou, lábios nos lábios. — Eu sei que isso faz parte do seu
trabalho.
Subitamente, Brett retesou o corpo, afastando-se dela. Atordoada, ainda dominada
pelas emoções, Ângela endireitou-se, piscando os olhos, surpresa.
— O que houve? — indagou.
— Ângela, sinto muito — ele retrucou, passando os dedos pelos cabelos, num gesto
nervoso, imaginando como pudera se esquecer de que estava ali a trabalho. — Isto não
poderia ter acontecido. Temos que esquecer este momento.
Ângela abaixou a cabeça, perguntando-se como poderia esquecer tudo aquilo. Na
verdade, se lembraria das cadeias de Brett pelo resto da vida.
— Não vou tirar vantagem de uma situação que poderá levar nós dois ao
arrependimento — ele continuou. — Vá dormir e esqueça-se disso para sempre. — Dandolhe as costas, ele caminhou para o quarto, fechando a porta atrás de si.
Ângela soltou um soluço, sentindo-se completamente humilhada, pois, quando, por
fim, deixara claro o quanto o desejava, ele a rejeitou.

22

Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Afastou uma mecha de cabelo com os dedos trêmulos. Como poderia voltar para
Philip depois daquele beijo?
Duas semanas inteiras arrastaram-se lentamente. Brett e Ângela continuaram a agir
como de costume, porém, debaixo daquela camada de civilidade, ecoavam as emoções do
relacionamento desejado por ambos.
Brett já não suspeitava de Ângela. Ela era uma estudante de leis, que desconhecia as
atividades desonestas de seu único parente vivo. A única coisa de que precisava ter certeza
era de que ela não interromperia suas buscas noturnas. Para tanto, providenciara algumas
pílulas para dormir, completamente inofensivas, que depositava sorrateiramente todas as
noites no cafezinho dela, após o jantar.
Mas, apesar de todos os seus esforços, Brett não conseguiu descobrir nada nas
últimas buscas. Quando finalmente entrou no escritório de Frank Patrian, viu que era um
aposento simples e inócuo como cela de um mosteiro. Havia armários de aço contendo
arquivos com duplicatas e contas a pagar, que indicavam ser apenas papéis normais de um
simples escritório de importação. Não encontrou o cofre em lugar nenhum.
Harold Simmons também não lhe servira de nada. Entrara em contato com ele duas
vezes e acabara descobrindo que o advogado sabia muito menos do que ele próprio.
A única fonte de informação que ainda lhe restava era Ângela. Embora não se
sentisse bem em dopá-la, achou que seria pior pressioná-la a fim de obter o que desejava.
Tinha de agir com sutileza, pois, embora ela fosse inocente, não era nada tola.
Ângela também não se sentia feliz, limitando-se a prosseguir com sua rotina diária,
já que nada mais tinha para fazer. Porém, o modo frio como Brett a tratava fazia com que
se sentisse angustiada. Ele pouco lhe dirigia a palavra, mantendo-se sempre a distância,
como se houvesse um anel de fogo separando-os.
Philip viajara de novo, esquecendo-se completamente do aniversário da namorada,
deixando-a sozinha. Apenas Josie havia se lembrado da data e, assim que Ângela entrou
na cozinha para tomar seu desjejum naquela manhã, recebeu da criada e amiga um
embrulho com um cartão.
Brett, que chegou logo depois, observou Ângela desembrulhar o presente e arregalar
os olhos, extasiada com o xale de crochê, especialmente feito por Josie. Para uma garota
que estava acostumada com o luxo, era surpreendente ver como ficou emocionada com
uma lembrança tão singela.
— Suponho que irá se encontrar com seu namorado nesta noite — observou num
tom lacônico.
— Não. Philip viajou de novo — ela informou com um olhar cândido, enquanto
Josie parava de misturar o mingau que estava preparando naquele momento.
— Parece que ele não costuma ficar muito tempo por aqui — Brett comentou, azedo.
— Philip é um homem muito ocupado — Ângela esclareceu, provando o xale de
novo.
— Deve ser mesmo — ele completou.
Josie voltou-se para encará-lo. No entanto, Brett estava concentrado na xícara de
café que acabara de se servir.

23

Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
— Esta noite, deixarei um prato preparado para você no forno — Josie disse para
Ângela. — Tenho uma reunião de pais na escola de Maria.
— Tudo bem — a estudante concordou, esfregando o rosto na lã macia do xale.
Brett analisou aquela conversa em silêncio. Estava acostumado a associar
aniversários com bolos, velas acesas, presentes e refeições fartas que levavam à hilaridade.
O jantar de Ângela, preparado pela criada e deixado no forno, pareceu-lhe uma
comemoração um tanto solitária.
— Você recebeu mais alguma daquelas ameaças de morte? — Josie perguntou a
Ângela por acaso.
— Não. — Ângela encarou Brett.
— Então, acho que não vai mais precisar de um guarda costas, não é? — Josie
comentou, olhando para ele.
— Talvez não — Brett retrucou num tom neutro, depositando a xícara vazia sobre a
pia e deixando a cozinha a seguir.
— Por que você tinha que dizer isso? — Ângela lançou um olhar de censura na
direção da criada, assim que ele desapareceu pela porta.
Josie fez um gesto indiferente com os ombros.
— Não vejo motivo algum para ele continuar por aqui, principalmente porque
percebi que sua presença a faz infeliz.
— Não sei do que você está falando, Josie. Será que não lhe ocorreu que nada me
aconteceu durante todo esse tempo, precisamente porque Brett está conosco? Será que,
para provar isso a você, devo despedi-lo e ser atingida por uma bala no dia seguinte?
Josie agarrou-a pelos ombros com carinho.
— Ei, calma, querida! Eu não disse isso para lhe aborrecer. A verdade é que eu
observo o que acontece ao meu redor e não me privo de pensar que, talvez, você se sentisse
bem melhor guando ele não estava aqui. Não tenho nada contra esse homem, e acredito
que você também não. Muito pelo contrário.
Ângela fingiu não entender a mensagem.
— Somente estou preocupada devido àquelas ameaças, Josie. — Ela consultou o
relógio e anunciou: — Tenho que ir embora. Obrigada pelo presente. Eu o adorei.
— De nada — a criada respondeu, balançando a cabeça desconsolada, enquanto
observava Ângela retirar-se.
A caminho da universidade, Ângela pediu a Brett para que parassem numa
floricultura. Holly faria aniversário no próximo fim de semana e ela queria enviar à amiga
algumas flores.
Enquanto ela escolhia o arranjo floral, Brett avistou um vaso com flores
multicoloridas que lhe chamou a atenção. Aproximando-se, acariciou as pétalas delicadas
com os dedos. Uma etiqueta estava colada na base, onde se lia: "Amaryllis".
Com um olhar rápido, percebeu que Ângela estava distraída, encomendando o
presente de Holly. Então, acenou para o balconista e, depois de escrever algumas palavras
num cartão, pediu que o arranjo maravilhoso fosse enviado para o endereço rabiscado no
papel naquela mesma noite.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Quando Ângela se voltou, ele já estava calmamente esperando por ela, de braços
cruzados.
Um tanto ansioso, Brett aguardou que a campainha da casa soasse a qualquer
instante. Como Ângela estava falando com o tio que acabara de telefonar para lhe
cumprimentar, temia que ela não pudesse atender a porta caso alguém chegasse.
Perambulou pela cozinha, observando a comida que Josie preparara para ambos e
que estava sendo requentada no forno.
Quando ouviu o som da campainha, seguiu Ângela, que caminhava em direção à
porta.
Ela ficou extasiada com o imenso arranjo. Arregaçou o celofane e aspirou o perfume
das flores.
Veja — comentou. — São todas creme e cor de pêssego. Sinta as pétalas... parecem
de cetim. E que lindo nome: "Amaryllis". — Ela se apressou em colocar o vaso sobre a
mesinha alta, exclamando: — Não foi maravilhoso Philip se lembrar do meu aniversário?
Quando Ângela se voltou, o aposento estava vazio. Brett «avia se retirado. Intrigada,
ela removeu o cone de celofane que envolvia as flores, pegou o cartão e leu em voz alta:
"Feliz aniversário. Brett".
Ficou completamente paralisada, a mão erguida no ar. Esperou até recuperar o
controle e dirigiu-se para o quarto de hóspedes, batendo à porta, sem receber resposta.
— Ande, Brett — ordenou num tom áspero e sonoro. — Abra essa porta, por favor.
Quero falar com você.
Brett abriu a porta recuando para deixá-la entrar.
— Por que não me disse logo? -— ela indagou, agitando o cartão no ar.
Girando o corpo para se afastar, Brett não respondeu. Ângela agarrou-o pelo braço.
— Ouça-me, Brett. Eu jamais o magoaria deliberadamente. Ainda não percebeu
isso? Como poderia adivinhar que as flores eram suas? Mal falou comigo todos esses dias.
Era natural que eu deduzisse que Philip se lembraria do meu aniversário!
— Oh, pode ficar tranquila que ele se lembrará — Brett comentou num tom
sarcástico. — Vai lhe enviar uma tira de brilhantes, um casaco de mink, um castelo da
Alemanha. Não acho que arranjos de flores combinem com o tipo dele.
— Mas combinam com o meu — Ângela disse gentilmente. — O que o levou a
comprá-lo?
Brett fez um gesto vago com as mãos.
— Eu vi o arranjo e me lembrei de você. Alto, esguio e exótico. Os tons das flores são
exatamente da cor de seus cabelos quando iluminados pelos raios do sol. — Ele enterrou os
dedos nas mechas avermelhadas, deixando Ângela sem fala, completamente imóvel. —
Jamais vi cabelos tão bonitos! — Então, num movimento impulsivo, puxou-a para si e
enlaçou-a pela cintura, afundando o rosto nos fios sedosos.
Quase soluçando de alívio, Ângela verificou que era correspondida em seus
sentimentos. Podia sentir toda a ternura contida nas carícias que Brett lhe fazia.
Afrouxando momentaneamente o abraço, arriscou um começo de diálogo:
— Por que...

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Momentos Íntimos 72
Num gesto negativo de cabeça, Brett silenciou-a, pondo um dedo sobre os lábios
delicados.
— Não me faça perguntas, pois eu não poderei respondê-las — afirmou num tom
rouco, pegando-a no colo e levando-a para a cama.
Gemendo de satisfação ao sentir os beijos ávidos de Brett em suas faces e cabelos,
Ângela entreabriu os lábios num convite mudo para que suas bocas se unissem num longo
beijo.
Quando as mãos experientes deslizaram por debaixo do seu suéter, em busca do
fecho do sutiã, ela prendeu a respiração. Brett libertou-a por alguns instantes, apenas o
tempo suficiente para livrá-la da malha e da pequena peça de lingerie e, quase que
simultaneamente, apossou-se de um de seus seios, sugando-o com ternura.
Ângela agarrou-se ainda mais a ele, numa incontida sensação inebriante.
— Tire sua camisa, quero senti-lo também — sussurrou, puxando o tecido com
força.
Ele inclinou o corpo para trás ligeiramente, livrando-se da peça de roupa, que logo
foi lançada ao chão. E, ao sentir o toque suave dos lábios de Ângela no tórax musculoso,
gemeu de prazer e disse com a voz pastosa:
— Quero você, Ângela. Desde que a conheci não penso em outra coisa.
— Eu também te desejo, Brett.
Àquela revelação, ele não se conteve mais. Livrou-a rapidamente do restante das
roupas e contemplou o corpo feminino e maravilhoso, coberto apenas por um minúsculo
biquíni de rendas. Depois, inclinando-se para ela, a respiração entrecortada sibilando
entre os dentes, pressionou a boca carnuda contra o ventre acetinado.
— Ângela... — murmurou rouco. — Você é tão doce, tão suave! Você é linda...
Ângela.
Quando Brett já estava prestes a desvencilhar-se das próprias calças, ela estendeu
os braços de forma convidativa, levando-o a espremê-la de encontro ao peito.
— Tem certeza de que é isso mesmo o que você quer, querida? — ele perguntou,
num sussurro.
— Sim, tenho. Eu confio em você, Brett.
Aquelas palavras, porém, funcionaram como um balde de água fria sobre ele, que
não teve mais coragem de encará-la.
— Você confia em mim? — Brett repetiu, automaticamente.
— Claro que sim! — ela confirmou, ofendida. — Por quê? Você acha que eu não
deveria confiar?
Brett levantou-se da cama com tal violência que Ângela foi jogada para o lado.
Furioso, ele chutou a base da cômoda, arrancando lascas de madeira.
— Oh, Deus! Ângela, saia daqui — implorou. — Afaste-se de mim!
— Mas por quê? O que há de errado?
— Quero apenas que se vá — ele respondeu, a voz trêmula de emoção. — Por favor,
quer ir embora?
— Por que está fazendo isso comigo? — ela sussurrou, esforçando-se para controlar
as lágrimas que a sufocavam. — Está tentando me humilhar?

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Momentos Íntimos 72
— Não — ele declarou, ainda evitando encará-la.
— Então, o que houve? — ela gritou, furiosa. — Você me leva a isso duas vezes, e
então... simplesmente me afasta sem qualquer explicação. Não sabe o que este
relacionamento significa para mim? Pensa que faço isso todos os dias?
__. Jamais pensei isso, Ângela. — Brett encarou-a finalmente.
__ Ninguém jamais me tocou, nem me beijou desse modo. Nem mesmo Philip. Ele
quer... mas.
As mandíbulas de Brett se retesaram.
— Eu o matarei se ousar pôr as mãos em você.
— E "eu" matarei você se me tocar novamente — Ângela gritou, quase chegando à
histeria. — Fique bem longe de mim! Entendeu?
— Entendi — ele respondeu, petrificado. Constrangida, Ângela começou a se vestir
como um autômato, enfiando o sutiã dentro do bolso do jeans. Quando avançou para a
porta, Brett tentou impedi-la, porém, ela puxou o braço abruptamente e saiu do quarto
sem olhar para trás.
Pelo menos sob um aspecto ela estava aliviada: não revelara a ele o quanto o amava.

CAPÍTULO III
No dia seguinte Ângela nada comentou sobre o acontecimento da noite anterior,
mas tratou Brett com uma polidez tão cáustica que nem por um segundo ele se esqueceu
do fato.
Ao anoitecer, o guarda costas mais parecia uma fera enjaulada perambulando pela
selva com um espinho cravado na pata, caminhando de um canto ao outro da sala, abalado
pela dor.
Aguardando uma oportunidade para estabelecer um diálogo menos frio entre eles,
Brett aproveitou o momento em que Ângela dirigia-se para a escada que levava ao quarto
para lhe barrar o caminho.
— Gostaria de saber quanto devo por aquele objeto que quebrei. Você ainda não me
disse o preço.
Contrariando as próprias expectativas, ela não discutiu, simplesmente puxou o
braço, libertando-se.
— Está bem. Volto logo.
Assim que Ângela se afastou, Brett correu para o quarto de hóspedes e acionou o
botão do amplificador que estava ligado ao minúsculo microfone de escuta, um simples
disco de metal, implantado no escritório de Patrian, numa das suas buscas noturnas.
Prendendo a respiração, redobrou a atenção quando ouviu o clique do trinco da
porta sendo aberta. Fechou os olhos e forçou os ouvidos, visualizando a disposição dos
móveis do aposento.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Ângela cruzou a sala e o ruído dos saltos altos se tornou audível quando ela saiu do
tapete, passando a andar no chão de madeira corrida.
Tentando discernir os sons que ouvia, Brett chegou à conclusão de que ela estava
abrindo uma gaveta. Imaginou que o controle do cofre devia estar dentro da escrivaninha.
Por esse motivo, não conseguira encontrá-lo.
Novamente ela se pôs em movimento, desta vez na direção da porta, parando antes
de alcançá-la.
Concentrando-se nas imagens que guardara na mente, Brett lembrou-se de que ali
havia uma parede limpa. Resolveu então que retornaria ao aposento mais tarde, a fim de
fazer uma operação pente-fino. Talvez algum detalhe lhe tivesse passado despercebido.
A sofisticada aparelhagem permitia a ele seguir de longe todos os movimentos de
Ângela. Quando finalmente ouviu a porta do cofre bater, fechou com a palma da mão a
gaveta que continha o amplificador, trancando-a a seguir.
Agora ele tinha algumas pistas para encontrar o contrabando, entretanto ainda
precisava descobrir como abrir o cofre. Tamborilou os dedos sobre a madeira brilhante da
cômoda, pensando: "Tenho que encontrar uma maneira de voltar àquele escritório".
Sem perder mais um segundo, correu para o pé da escada, onde devia estar quando
Ângela retornasse.
Instantes depois, ela desceu a escadaria e o encarou. São três mil e duzentos dólares
— anunciou, séria.
— Três "mil" e duzentos dólares? — Brett repetiu, incrédulo.
— Exato.
E melhor que você tire a primeira gota de sangue agora. — Ele estendeu os braços,
um tanto desconsolado.
Ângela mal se recordou de que estava zangada com ele e quase sorriu. No entanto,
conseguiu controlar-se, mantendo-se impassível.
— Acho que terei que pagar com prestação de serviços — Brett acrescentou.
— Estou certa de que meu tio não se importará. Falarei sobre o assunto com ele na
próxima vez em que entrar em contato comigo. — Ela girou o corpo e subiu.
Quando Brett teve certeza de que Ângela já tinha se instalado para estudar, dirigiuse ao porão e desconectou o cabo telefônico da extensão que ficava no quarto dela. Então,
postou-se no hall perto do telefone, de onde poderia controlar todos os movimentos da
casa. Como sempre, ao executar uma tarefa que não lhe agradava, acendeu um cigarro
para a seguir discar o número desejado.
— O pessoal da casa já está achando que minha presença aqui é desnecessária —
informou para a pessoa do outro lado da linha. — Faça uma outra chamada para convencêlos do contrário.
Brett deu uma longa tragada "no cigarro enquanto ouvia a resposta de seu
interlocutor misterioso.
— Isso mesmo — retrucou. — Às oito horas. Recolocando o aparelho no gancho,
voltou ao porão a fim de religar a extensão.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Ângela abandonou o caderno no chão e mastigou a tampa da caneta. Não conseguia
se concentrar no que lia sabendo que Brett estava no andar de baixo. Embora tivesse sido
repelida duas vezes num momento de grande intimidade, o desejo que sentia por ele era
quase insuportável.
Rolou no tapete felpudo e, encarando o teto, ficou imaginando como seria a vida
dele fora daquela casa. Apesar do tipo de trabalho que ele desenvolvia o obrigasse a
permanecer constantemente ao seu lado, Brett certamente devia ter uma vida social,
amigos, mulheres...
O som estridente do telefone ressoou pelo quarto, interrompendo-lhe os
pensamentos. Ângela esperou pelo segundo toque para tirar o fone do gancho. Ouviu por
alguns segundos a mensagem do outro lado da linha e, engolindo em seco, desligou o
aparelho.
Então, como uma figura purificada, saiu do quarto, fazendo uma pausa no corredor
superior.
— Brett! — chamou com a voz esganiçada. — Brett! O guarda costas apareceu ao pé
da escada.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa?
Ângela tentou responder, porém não conseguiu. Em vez disso, se apoiou contra a
parede, inclinando o corpo para a frente, as mãos segurando o estômago.
Preocupado com o estado dela, subiu os degraus de dois em dois e tocou-lhe o
ombro. Ela se voltou e fitou-o com o olhar turvo.
— Foi outra chamada telefônica — sussurrou. — Oh, Brett, outra ameaça. Eu
pensei... que eles tivessem desistido.
Estreitando-a nos braços, Brett odiou-se pelo que estava fazendo. Afagou-lhe os
cabelos com carinho, mas, ao perceber que estava presa nos braços dele de novo, Ângela
enrijeceu o corpo e recuou de imediato.
— Eu estou bem. Não se preocupe — disse, num tom firme.— Estou perfeitamente
bem.
— Conte-me exatamente o que lhe disseram — ele ordenou, resolvido a
desempenhar seu papel até o fim.
Angela relatou palavra por palavra daquele telefonema sinistro. Brett ouviu-a com
atenção, procurando não denunciar seus próprios sentimentos.
— Foi uma simples ameaça — disse, confortando-a. — Eles não fizeram nada até o
momento e agora é que não farão mesmo. Sei que não será muito fácil para você, porém,
procure não se preocupar.
Assentindo com um gesto de cabeça, Ângela virou-se e caminhou de volta para seu
quarto, em companhia do detetive.
Parando à porta, Brett encostou-se no batente e relanceou o olhar pelo ambiente,
analisando a decoração. Era a primeira vez que via o quarto de Ângela sob a luz do dia. Um
pôster de James Dean, que estava pendurado na parede, chamou-lhe a atenção. O astro
vestia um blusão de couro e segurava um cigarro aceso entre os dedos. Recordando-se do
filme Juventude Transviada, encarou-a e perguntou, fazendo um gesto em direção ao
painel:

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Momentos Íntimos 72
— Você gostou do filme?
— Eu gosto de rapazes bonitos, usando jaquetas de couro — ela retrucou, num tom
suave mas um tanto desaprovador, começando a fechar a porta.
Brett enfiou o pé no vão, impedindo-a de completar a ação.
— Juventude Transviada é um filme sobre pessoas rebeldes, que não estão
satisfeitas com a vida. Você tem algo em comum com essa filosofia de vida?
Ângela ergueu o queixo e encarou-o.
— Você está preocupado com os meus sentimentos ou meu estado de espírito é
apenas um assunto que desperta sua curiosidade?
— Desculpe-me por ter perguntado. — Ele suspirou, imaginando que Ângela seria
uma boa advogada, já que não perdia a chance de virar a mesa. — Boa noite. Chame-me se
precisar e... se o telefone tocar de novo, deixe que eu o atendo.
Brett já estava prestes a sair quando ouviu uma voz. suave chamá-lo.
— Brett.
— Sim?
— Estou contente por você estar aqui.
A porta do quarto se fechou ao som das últimas palavras, deixando-o sem ação.
Sem vontade de ir para cama, ele se dirigiu para a sala de estar e sentou-se perto da
janela avarandada para colocar os pensamentos em ordem.
Algumas horas mais tarde, Ângela desceu, surpreendendo-se com a presença dele
na sala.
— Por que você está sentado aqui no escuro? — indagou.
— Vai a algum lugar? — Brett quis saber ignorando-lhe a pergunta, atento apenas ao
casaco que ela trazia na mão.
— Preciso ir à biblioteca.
— Faltam quinze minutos para a uma da manhã — ele comentou espantado.
— A biblioteca de advocacia fica aberta durante toda a noite — Ângela explicou,
num tom neutro. — Acabei de descobrir que deixei de ler sobre um assunto do seminário
que apresentarei amanhã. Sinto muito, mas isso é necessário para que eu me saia bem
nessa matéria. Suponho que vá querer vir comigo.
— Certamente — Brett comentou, pondo-se de pé num gesto obediente.
— Acha que seria melhor pegarmos o carro de tio Frank? Creio que não vai ser
difícil encontrarmos um táxi a essa hora.
— Você tem razão — ele concordou contrariado, admitindo que Patrian deveria ter
uma vida bem estruturada para ter um veículo daquele tipo à disposição durante as vinte e
quatro horas do dia.
Brett ficou abismado ao verificar o grande número de alunos circulando pela
universidade àquela hora da noite.
Ângela dispensou o motorista, pois não sabia até quando ficaria ali, e dirigiu-se para
a biblioteca, seguida por seu belo protetor.
Já com o material de pesquisa nas mãos, sentou-se a uma das mesas e, com um
suspiro profundo, falou:

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Momentos Íntimos 72
— Brett, tenho que selecionar alguns desses livros e isso vai demorar. Se quiser se
entreter com algo, tem algumas revistas na sala de entrada...
— Prefiro ajudá-la — ele cortou solícito.
— Não é necessário — ela respondeu ríspida.
— Eu sei. Entretanto, gostaria de ajudá-la.
— Não acho que será possível.
— E por que não? Eu sei ler.
— É um assunto muito maçante.
— Não pode ser tão ruim assim.
— Está bem — ela concordou, afinal. — Você pode ler os resumos dos trabalhos
publicados e selecionar aqueles que abordam o assunto em que estou interessada.
Os dois trabalharam juntos, conversando pouco, até que Ângela, inclinando a
cabeça para trás, soltou um suspiro de satisfação.
— Está ótimo. Já tenho o que preciso para fazer um bom trabalho. Não vai levar
mais do que uma hora até que eu organize tudo. Vamos fazer um intervalo para um
cafezinho? Há uma lanchonete no andar de baixo.
— Eu acho ótimo — Brett concordou, ajudando-a a se levantar.
No salão do andar térreo havia máquinas de servir café, refrigerantes e lanches. A
luz neon iluminava alguns jogos de fliperama e vídeo games. Uma moça dormia num
banco forrado de vinil, com a cabeça apoiada nos braços cruzados, e dois rapazes
sonolentos sorviam lentamente uma xícara de café.
— Puxa, este lugar parece uma estação rodoviária às quatro da manhã! — Brett
comentou, divertido.
— Isso não é nada. Você precisa ver como fica em época de prova.
— Nunca pensei que fosse preciso trabalhar tanto para se tornar um advogado.
Você, na realidade, estuda bastante.
Ângela observou-o enquanto a servia de café, adicionando uma camada de creme,
antes de estender-lhe o copo de papel.
— Brett, você não estudou quando estava na escola? — indagou.
— Não tanto quanto você. — Ele fez um gesto indiferente com os ombros. — Eu
cursava Economia e as únicas vezes em que me debruçava sobre os cadernos era para
planejar as tabelas de fluxo de caixa.
— Onde ficava sua escola?
— Em Georgetown. — O tom de voz era lacônico. — Quer alguns biscoitos para
acompanhar o café?
— Não, obrigada — Ângela retrucou, percebendo que mais uma vez Brett estava se
esquivando de falar sobre sua vida particular.
Ambos se acomodaram numa mesinha de canto, e seus olhares se encontraram.
— Você me ajudou bastante esta noite, Brett. Sem o seu auxílio, teria levado quase a
noite toda. — Ela desviou os olhos.— Obrigada.
— Foi um prazer. — Ele sorveu um longo gole de café e fitou-a ininterruptamente,
calado.

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Ângela brincou com a colherinha e com os envelopes de açúcar por alguns
instantes. Quando ergueu a cabeça, percebeu o olhar insistente.
— Desculpe-me pelo que eu disse ontem à noite quando estávamos no seu quarto —
ela disse, de repente. — Não tive a intenção de magoá-lo.
— Sei disso — ele replicou com suavidade, depositando o copo sobre a mesa.
— Na realidade não falei a sério quando o ameacei de morte se ousasse me tocar. E
a prova disso é você estar são e salvo depois de me abraçar quando recebi aquele
telefonema.
— É, aqui estou eu — Brett concordou num fraco fio de voz.
— Eu estava zangada. Você me magoou e eu queria feri-lo como desforra.
— E feriu.
Ela lançou-lhe um olhar súbito e, antes que tivesse chance de falar, alguém lhes
interrompeu a conversa.
— Ângela Patrian, você era a pessoa que eu estava procurando — anunciou uma voz
esganiçada.
Era Virgínia Davenport, uma colega de classe, cujos cabelos negros reluziam por
causa da luz, dando à jovem universitária um ar elegante e sofisticado.
— Ângela — Virgínia continuou num tom infantil —, quem poderia imaginar que eu
precisaria encontrá-la por acaso, bem no meio da noite, para poder conhecer o seu primo
tão famoso! Por que não nos apresenta?
Surpresa com aqueles comentários vindos de uma colega a quem se dirigira uma
única vez para pedir uma borracha emprestada, Ângela mal conseguiu articular uma
palavra. Fez um gesto simples e completou:
— Virgínia Davenport, Brett Devlin.
Assim que Brett se levantou, Virgínia lançou-lhe um sorriso satisfeito, pondo à
mostra os dentes alvos e brilhantes.
— Olá, Brett. Seu nome é bastante diferente — comentou. — De onde você veio?
— Kansas.
— Tão longe! O que faz lá?
Dirigindo um olhar divertido a Ângela, ele satisfez a curiosidade da recém-chegada.
— Planto milho.
— Você é fazendeiro? — a jovem indagou visivelmente estarrecida.
— Sim, senhora. Cultivo milho, soja, trigo e... alfafa também.
— Alfafa? — Virgínia repetiu num fio de voz. — Diga-me, Brett, o que faz para se
divertir lá em Kansas? — continuou, desviando o assunto.
— Bem... eu... vou às festas da igreja, canto no coro da sociedade dos amigos do
bairro e... espanco abelhas.
Surpresa, Ângela engasgou com o último gole de café.
— Hum... — a garota murmurou. — Espanca abelhas. Que interessante... Bem,
preciso ir embora. Tenho muito o que fazer e não posso gastar todo o tempo aqui. Até
loguinho.
Brett encarou Ângela e ambos explodiram numa gargalhada.

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Momentos Íntimos 72
— Mal posso acreditar que ela não tenha percebido que você estava zombando dela.
— Ângela perdeu o fôlego, enxugando as lágrimas. — Por que disse aquilo?
— Sobre as abelhas?
— Sim.
— Porque achei que ela sairia correndo, achando que o Kansas é o fim do mundo. —
Brett parou de rir. — Eu logo percebi que Virgínia não era sua amiga, ela só...
— Estava perseguindo você — Ângela completou. — Acontece muito? Quero dizer,
você é sempre assediado pelas mulheres?
— As mulheres que eu quero não fazem isso — ele respondeu, fitando-a
intensamente.
Ângela corou e, num único movimento, pôs-se de pé e amassou o copo de papel.
— É melhor voltarmos para a biblioteca. Quero terminar o meu trabalho para
podermos dormir um pouco — disse.
Às quatro horas da madrugada o trabalho de Ângela estava pronto. Ao saírem da
biblioteca, ela sugeriu:
— Estou com fome. Há um restaurante grego do outro lado da rua. A comida é boa e
não fecha nunca. Vamos até lá?
Brett estendeu os braços diante do corpo, como um sonâmbulo.
— É só me virar para a direção certa — brincou.
O restaurante tinha o formato de um vagão de trem e o interior estava impregnado
de um cheiro de gordura. Uma garçonete com os cabelos tingidos de amarelo encaminhouos para um compartimento no fim do corredor.
— Puxa! Que lugar! Parece que foi construído em 1929 — Brett comentou. — Tem
certeza de que não seremos envenenados?
— Já comi várias vezes aqui e sobrevivi.
— Jamais esperaria ver uma pessoa como você neste lugar.
— Alguém como eu?! — Ângela perguntou, intrigada.
— Rica e privilegiada. Lutece combina mais com o seu tipo.
— Lutece é o lugar que combina com Philip. Brett estreitou o olhar.
— Você já o trouxe aqui?
— Não. Philip ficaria petrificado só de passar pela porta.
— Ótimo. — Brett relaxou.
Ângela analisou-o demoradamente. Uma mecha dos cabelos negros estava caída
sobre a testa larga, combinando com as sobrancelhas e cílios espessos e escuros. O rosto
marcante já aparentava uma mancha azulada de barba por fazer. Os olhos obscurecidos
evidenciavam fadiga e sono. Brett parecia exausto, mas continuava lindo.
— Você está me examinando, srta. Patrian — ele comentou, num tom suave.
— Estou.
— E o que você vê?
Ângela desviou o olhar, incapaz de falar.
— Você tem razão — ele quebrou o silêncio. — Não responda. Imagino como posso
estar às cinco horas da manhã. Acho que assustaria até o homem mais valente! — Brett

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Momentos Íntimos 72
levantou-se para tirar o casaco, porém desistiu da idéia, lembrando-se de que o coldre
ficaria à mostra.
— Você gosta de ser detetive particular? — Ângela perguntou, subitamente.
— Tem seus bons momentos. — Ele desviou o olhar.
— Nunca pensou em fazer outra coisa?
Antes que ele próprio tratasse de cortar o assunto, a garçonete poupou-lhe o
trabalho, depositando dois copos de água sobre a mesa, sem qualquer delicadeza.
Aliviado, Brett lançou um olhar soturno à moça magra e pálida, sugerindo:
— Pode nos trazer uma xícara de café, enquanto esperamos os sanduíches?
Ela não respondeu, afastando-se com passos rápidos, a sola de borracha chiando no
chão encerado.
— Acho que ela é muda — Brett comentou.
— Você só está zangado porque ela não está ligando para você.
Brett olhou para Ângela, surpreso, e ela riu baixinho.
— Não me olhe com esse ar de inocente. Já observei você lançando seu charme para
as mulheres ao seu redor. Você consegue mais com um olhar insinuante do que os outros
homens com os mais extravagantes elogios.
Ele corou.
— Que engraçadinho! Ficou constrangido?
— Talvez eu não fale muito por não saber o que dizer
— Brett revidou, voltando a encará-la. — Sou bastante diferente do seu amiguinho
Cronin, que nunca se perde com as palavras e sabe sempre o que dizer.
Ângela prendeu a respiração, atônita, pois Brett achara que ela estava zombando
dele, comparando-o a Philip.
— Brett, espere um minuto...
— Desculpe-me — ele disse, levantando-se de supetão.
— Preciso comprar cigarros.
O café chegou enquanto Brett estava ausente e Ângela imaginou que logo teria uma
camada de fumaça ao seu redor, com o guarda costas descontando todo o nervosismo,
acendendo um cigarro atrás do outro. Com a universidade, as ameaças de morte e o
comportamento imprevisto de Brett, era preciso um transplante de coração para que ela
sobrevivesse!
Como ela previra, Brett voltou e pôs-se a exalar fumaça feito uma chaminé.
— Fumar tanto poderá acabar com sua saúde — alertou, com ternura.
— Eu morro do meu modo e você morre do seu — ele retrucou, brusco.
O comentário fez com que Ângela se lembrasse da situação em que se encontrava e,
sem pensar, ela revidou:
— Só que o meu fim pode estar bem mais próximo do que o seu.
A atitude de Brett mudou de imediato.
— Ei, esqueça-se disso. Eu cuidarei para que nada de mau lhe aconteça.
Ela esboçou um sorriso amarelo.
— Por que sempre acredito em você quando me diz essas coisas?
— Porque é verdade, ora!

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Momentos Íntimos 72
A garçonete serviu-os e Ângela empurrou as batatas fritas para a beirada do prato.
— Pensei que você tivesse dito que estava com fome _— Brett comentou.
— Parece que perdi o apetite.
— Ande, coma. — Ele apontou para o sanduíche de hambúrguer cercado de fritas. —
Não quero ser responsabilizado por você morrer de fome.
— E por que você seria o responsável? — ela perguntou, preparando-se para comer.
— Sei que fui o causador desta greve de fome. Deixei-a aborrecida me comportando
como um estúpido.
— Se sabe de tudo isso, por que continua se comportando assim?
— Porque não consigo suportar ouvir você dizer que não sou tão refinado quanto
Philip. Acabou com o meu dia.
Ângela depositou o sanduíche no prato e levantou o dedo em riste, zangada.
— Não foi "isso" o que eu disse. Eu estava tentando lhe fazer um elogio e você o
tomou como um insulto.
Brett ficou boquiaberto.
— Elogio?!
— Sim. Eu afirmei que você não precisava falar, bastando apenas olhar para uma
mulher para que ela visse em você um homem... eloquente. — Ângela se acovardou. Na
realidade, o que queria dizer era "sensual". — E você é um idiota se pensa o contrário! —
acrescentou, lançando o guardanapo na mesa e pondo-se de pé.
Brett também se levantou, agarrando-a pelo braço. Ambos ficaram petrificados,
sem conseguir falar, até que finalmente ele pigarreou e aconselhou:
— Ê melhor você comer, senão vai esfriar. Mortificada, Ângela retomou seu lugar
sem conseguir encará-lo. Comeu em silêncio, lentamente, enquanto Brett devorava seu
sanduíche com três dentadas. O sol já despontava e o céu estava avermelhado, quando
deixaram o restaurante. Um policial passou por eles com calma, trotando num cavalo.
— Que animal lindo! — Ângela exclamou, virando a cabeça para vê-lo melhor.
— É um cavalo alazão — Brett comentou. — Garanto que ele está estranhando o
movimento de Nova York.
— Meu tio pagou quarenta mil dólares por um cavalo — Ângela afirmou. — Ele está
num estábulo, em Connecticut.
— Brett parou de repente e deu um assovio.
— Está falando sério?
— Sério. É um garanhão árabe, puro-sangue.
— Com esse dinheiro todo eu escolheria um cavalo alado, o Pégaso!
— É pena que não sei montar — Ângela lamentou-se, sonhadora.
— Você não sabe andar a cavalo? — Brett encarou-a, surpreso.
— Não havia ninguém que pudesse me ensinar. Você entende?
— Claro. Eu cresci numa fazenda, por isso aprendi a cavalgar. Quer que eu a ensine
a montar?
Ângela parou de andar.
— Faria isso mesmo?

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Momentos Íntimos 72
— Claro! E por que não? Poderíamos aproveitar o dia de hoje que você só tem duas
aulas para ir até Connecticut. Quanto tempo levaremos para chegar lá?
— Cerca de uma hora.
— Então teremos tempo suficiente. Mas... que tal nos livrarmos primeiro da
limusine? Esse carro me faz sentir como um sultão da Arábia.
Ângela riu baixinho.
— Está bem. Mas teremos que alugar um outro.
— Concordo plenamente. — Brett fez uma pausa. — Entretanto, é melhor
escolhermos algo mais de acordo com meu modo de vida. Que tal um fusquinha?
— Não se menospreze desse jeito, Brett. Você faz as pessoas se sentirem seguras.
Proteger aqueles que precisam é um trabalho muito importante — Ângela afirmou.
Ele contemplou-a enquanto falava, sem poder acreditar que sensualidade e
ingenuidade pudessem se combinar tão bem numa pessoa.
— Ângela, você é demais!
Sem compreender qual o real significado daquelas palavras, ela se limitou a entrar
na limusine, sem pedir maiores explicações.
Ao chegarem em casa, ambos pararam no hall de entrada, combinando os afazeres
para o dia que estava prestes a nascer.
— Minha aula será às dez horas. Vou programar o relógio para as nove. Descanse
despreocupado que eu o acordarei no horário.
— Pode estar certa, descansarei.
— E, antes que eu me esqueça, obrigada por ter-me ajudado com a pesquisa. Não
conseguiria terminá-la a tempo sem o seu auxílio.
— Estarei sempre à sua disposição.
Ângela mordeu o lábio inferior, indicando que tinha mais alguma coisa a dizer, e
Brett aguardou.
— Fiquei contente por ter-se oferecido para me dar aulas de equitação — ela falou,
por fim. — E quero que saiba que não vou tirar conclusões erradas. Você já deixou bastante
claro que não quer se... envolver... comigo, e eu aceito sua decisão. Continuaremos
amigos?
— Sem dúvida alguma, Ângela. Acredite em mim.
— Acredito sim. — Ela sorriu.
Sentindo-se aquecido por aquele sorriso, Brett retirou-se para o quarto.
Ângela dirigiu-se para a cozinha e, ao ver Josie com a cabeça quase enfiada na
geladeira, consultou o relógio, espantada.
— Você chegou cedo hoje!
— Acertou, mocinha — a criada concordou num tom azedo. — Em tempo de vê-la
chegar a essa hora da madrugada com aquele homem.
— O que você esperava? Tinha um trabalho para fazer na biblioteca da
universidade. Suponho que, como meu guarda costas, era dever de Brett me acompanhar.
— E o que você tem a me dizer da cena que vi ali no hall?
— Você estava nos espionando?

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Momentos Íntimos 72
— Não estava, não. Mas aquele tom baixo e íntimo com que ele fala com você me
revelou tudo. Com os outros ele é tão arisco, distante.. .
Ângela gostaria que aquilo fosse verdade, pois assim ainda teria esperanças de que
algo viesse a dar certo entre eles.
Josie interrompeu-lhe as divagações, tocando-a no ombro.
— Ângela, escute-me. Sempre fui como uma mãe para você, por isso me preocupo.
Alguma vez ele já lhe prometeu alguma coisa, algo para o futuro?
— Não, mas...
— Mas o quê? Não é não!
— É o jeito como ele age, Josie. Sei que há algo mais, só que eu não sei o que é.
Alguma coisa o está impedindo de entregar-se a mim.
— Como uma esposa e filhos? — Josie indagou, num tom sarcástico.
— Não seja ridícula! Ele é solteiro e parece... ter ciúme de Philip.
— E qual é o papel de Philip nisso tudo?
— Nenhum. Nós não somos casados, nem mesmo noivos.
— E você pretende continuar o namoro com ele mesmo sabendo que não vai dar em
nada?
— Eu darei uma festa aqui em casa, no Dia das Bruxas. Depois da recepção, falarei
com Philip.
— Falar com ele! E o que vai lhe dizer, Ângela? — Josie fez uma pausa para verificar
o efeito de suas palavras e continuou: — Diga-me a verdade. Você está apaixonada por
Brett Devlin?
— Estou — ela respondeu, sem pestanejar.
— Deus, dai-me forças! Você já se declarou a ele?
— Não. Disse apenas que quero ser sua amiga. Brett é o tipo de homem que não
pode ser pressionado. É independente e forte. Não consigo controlá-lo. A única coisa que
quero que aconteça é receber amor em troca. E conseguirei!
Ângela proferiu aquelas palavras num tom de voz entrecortado, porém
determinado, o que emocionou Josie.
— Querida, seja cuidadosa. Não quero vê-la sofrer. — A criada abraçou-a com força.
Ângela afastou-se, fitando-a diretamente nos olhos.
— Sei que você não tem raiva dele, Josie.
— De fato não tenho. Mas, se estivesse no seu lugar, só lhe entregaria meu coração
quando tivesse absoluta certeza dos sentimentos dele.
Angela assentiu com um gesto de cabeça.
— Está bem, Josie. Vou me lembrar disso. Agora vou dormir, pois estou caindo de
sono.
Ângela dirigiu-se para a porta da cozinha e fez uma pausa, voltando-se para Josie.
— Por favor, não diga nada a Brett. Sei que você sempre cuidou de mim. Entretanto,
agora sou uma pessoa adulta e saberei como lidar com tudo isso. Está bem assim?
— Concordo. — A criada pressionou os lábios, contrariada, recebendo em troca o
sorriso radiante de Angela.
— Obrigada, Josie. Boa noite.

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Momentos Íntimos 72
Brett aguardou até que Josie saísse da casa para fazer compras Observou-a através
da janela e, ao verificar que a criada levava o carrinho de feira consigo, soube que teria
tempo suficiente para fazer algumas buscas.
Abriu a porta do quarto de Ângela com cautela e constatou que ela dormia
profundamente. Ao fechá-la, colocou uma lingueta de plástico no trinco, emperrando-o.
Assim, se por acaso ela acordasse antes da hora, não conseguiria sair. Depois, se fosse
necessário, diria que a fechadura estava quebrada.
Em silêncio, pegou as ferramentas e dirigiu-se para o escritório de Frank Patrian.
Tentou recompor na mente os passos de Ângela e a atitude levou-o para diante de uma
escrivaninha. Abriu a gaveta e tentou encontrar o controle escondido. Tratava-se de um
botão no fundo da gaveta, que estava parcialmente disfarçado pelos contornos da madeira.
Ao pressioná-lo, a parede às suas costas deslizou lentamente para a esquerda, revelando
uma pequena alcova construída ao lado do armário do quarto vizinho, onde ficava o cofre.
Brett aproximou-se rapidamente e fez anotações sobre o nome do fabricante e o
código de fabricação inscrito numa pequena placa de metal. Então, transferiu o minúsculo
microfone de escuta para a parte posterior do disco de combinação do cofre. Na próxima
vez em que Ângela o abrisse, o microfone acionaria o aparelho que se encontrava na gaveta
da cômoda de seu quarto e gravaria a ação dos tambores de esferas e da alavanca
basculante do mecanismo da fechadura. Daí, era só enviar a fita gravada e os dados sobre o
fabricante para o escritório, e o pessoal especializado do departamento descobriria a
combinação.
Tudo pronto, fechou o painel e saiu do escritório, sem deixar qualquer vestígio atrás
de si. Foi também até o quarto de Ângela e retirou o filamento de plástico da fechadura.
Já de volta ao quarto de hóspedes certificou-se de que o gravador estava em ordem.
Colocou as ferramentas na gaveta da cômoda, trancou-a e recolocou a chave no bolso.
Depois estendeu-se na cama e fechou os olhos. Seu próximo passo seria induzir
Ângela a abrir novamente o cofre. Precisava daquela combinação, já que nada mais
poderia ser feito sem que estivesse com ela nas mãos.
Apertou os olhos com força, desejando que aquela missão terminasse logo, pois não
suportaria ter que continuar enganando Ângela por muito tempo.
Sua ida com ela a Connecticut não era aconselhável, porém a tentação fora mais
forte. Quando entregasse Frank Patrian à justiça, talvez jamais a visse novamente.
Imaginando aqueles olhos castanhos encarando-o com raiva, ou, ainda pior,
arregalados e feridos pela perplexidade diante de sua traição, Brett sentiu o coração se
apertar.
Gemendo como um animal atingido pela dor, girou o corpo para o lado, tentando
dormir um pouco, antes que ela o chamasse para irem à universidade.

CAPÍTULO IV
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Momentos Íntimos 72
Ângela saiu-se bem na apresentação do seminário e foi cumprimentada pelo
professor e pelos colegas.
Brett havia alugado um pequeno carro para a viagem a Connecticut e ambos se
dirigiram para o estacionamento assim que as aulas terminaram.
O tempo previsto para a viagem alongou-se um pouco mais do que o previsto, pelo
fato de Ângela ter errado o caminho por duas vezes.
— Quanto tempo faz que você esteve por aqui? — Brett indagou.
— Uns seis meses mais ou menos. Foi na época em que tio Frank comprou Duna.
Acho que não prestei muita atenção no caminho.
— É melhor verificarmos que direção tomar — ele sugeriu num tom gentil.
— Acho que sim. Sinto muito por ter-me perdido.
— Não precisa pedir desculpas. Estou apreciando a paisagem. Só não quero fazer
parte dela permanentemente.
Ângela lançou um sorriso ao guarda costas, imaginando o quanto Brett era
agradável. A paciência era parte integrante de sua personalidade calma e equilibrada. Se
fosse Philip, certamente estaria berrando com ela, àquela altura.
Pararam num posto de gasolina e o atendente indicou-lhes a estrada a tomar.
Chegaram quinze minutos depois.
O haras de Frank Patrian ocupava uma área de três acres de campos cobertos de
relva. Avistaram um imenso estábulo capaz de alojar vários cavalos, uma pastagem
cercada, uma pista de saltos e várias trilhas que cortavam a paisagem ao redor.
A casa do criado da estrebaria estava localizada diante do portão principal. Ângela
bateu à porta e foi atendida pela sra. Colebrook.
— Em que posso servi-la? — a mulher perguntou.
— Sra. Colebrook, não se lembra de mim? Estive aqui com meu tio Frank durante a
primavera, na época em que ele comprou Duna. Sou Ângela Patrian.
O rosto da mulher iluminou-se.
— Oh, é claro! Sabia que não me era estranha. Como tem passado?
— Bem. Gostaria de saber se seu marido permitiria que visitássemos os estábulos.
Estou com um amigo e gostaria que ele conhecesse Duna. Também planejamos algumas
aulas de equitação.
— Tudo bem. Vou chamar Harry. Ele está lá atrás. Ângela fez um sinal para que
Brett saísse do carro. Desmanchando-se em sorrisos, Harry Colebrook apareceu pela
lateral da casa, acompanhado da esposa.
— Srta. Patrian, por que não nos avisou que viria? Poderíamos ter ficado esperando
pela senhorita.
— Oh, não se preocupe, Harry. Tudo o que queremos é passar algumas horas com os
cavalos. Pode nos acompanhar até lá?
— Claro! — O velho lançou um olhar inquiridor na direção de Brett.
— Harry, este é Brett Devlin, um amigo nosso. Os homens apertaram-se as mãos e,
a seguir, o empregado conduziu-os até uma estrutura parecida com um celeiro, cujo
interior estava dividido em baias.

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Ângela caminhou na direção da última divisão à esquerda, completamente isolada
das demais. Dentro dela estava um magnífico cavalo reprodutor árabe, todo negro, com as
patas brancas e uma estrela na testa da mesma cor. Ao avistá-los, o animal relinchou e
agitou a cabeça.
— Este é Duna — ela anunciou para Brett. — O que você acha?
Ele aproximou-se e afagou o focinho do cavalo. A resposta imediata do animal foi a
batida violenta com uma das patas dianteiras contra a lateral da baia.
Brett pegou Ângela pela mão e afastou-a da baia com cuidado.
— Acho que ninguém conseguirá montar este cavalo assim tão cedo — comentou,
num tom seco,
— Acertou. — Harry saiu. — Duna precisa de exercício diário. O garoto que sempre
o leva para dar uma volta chegará um pouco mais tarde. Depois disso, ele ficará mais
calmo.
— Espero que sim — Brett retrucou. Harry sorriu novamente.
— Fique calmo — disse. — Ele não é usado em monta-rias. Apenas permitimos que
saia para correr duas vezes por semana, guiado por um jóquei profissional que o sr.
Patrian contratou. Só aquele rapaz consegue controlá-lo.
— É um lindo animal! — Brett exclamou, admirado.
— Na aparência, sim — o criado retrucou. — Mas muito indócil para esse tipo de
raça. Valeria muito mais se pudéssemos correr com ele profissionalmente. — Harry fez
uma pausa. — Ou mesmo se pudéssemos cruzá-lo com éguas mais dóceis e eliminar sua
maldade, nas gerações futuras.
— Falando de éguas mansas... — Brett disse. — Precisamos de um cavalo calmo para
Ângela montar, algum que não seja muito tímido, mas também não muito rebelde.
— Você parece entender do assunto — o homem comentou. — Você monta?
— Costumava. Entretanto, acho que me lembro o suficiente para dar umas aulas a
Ângela.
— Então não vai precisar de mim? — Diante do gesto negativo de Brett, Harry
apontou para a baia do outro lado do estábulo. — A Viçosa servirá. É a égua mais dócil de
todas. Parece um bichinho de estimação.
— Para mim, parece ótimo — Ângela manifestou-se. Os dois homens riram e Harry
perguntou:
— Está nervosa?
— Determinada — ela retrucou. — Afinal, há vinte anos que espero por este
momento.
— Fico imaginando por que nunca quis montar antes — Harry comentou.
— Nada mais nada menos do que falta de coragem — Ângela respondeu, erguendo
os ombros.
— Porém, quando seu amigo está por perto o medo desaparece — o criado
acrescentou num tom de malícia, apontando para Brett.
O comentário foi seguido por um longo silêncio, só quebrado pelo guarda costas
alguns segundos depois:

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— Bem, vamos começar. Onde estão os equipamentos? Harry acompanhou-o até a
parte posterior, enquanto
Ângela aguardava no estábulo, um tanto nervosa, o nariz cocando devido ao cheiro
do feno e estéreo misturado ao da carne morna dos animais. Brett retornou alguns
minutos mais tarde, anunciando:
— Harry voltou para casa. Poderemos ficar aqui o tempo que desejarmos. Só nos
pediu para avisá-lo quando formos embora, para que tranque tudo. Acho que ele está com
medo de que Duna, o cavalo de quarenta mil dólares, fuja.
— E eu também. É melhor prestarmos atenção ao trinco da porta antes de sairmos.
Brett pendurou o equipamento num prego e deslizou para dentro da baia da Viçosa.
Dirigindo-se à égua num tom carinhoso, enfiou o cabresto pela cabeça do animal e
conduziu-o para fora.
— Ê uma doçura — disse, sorrindo e dando palmadinhas no flanco aveludado. — Ela
já está apaixonada por mim. — Voltando-se para Ângela, pediu: — Abra a porta. Vou testála para ter certeza de que não vai lançar você ao chão quando montar.
— Acho bom — Angela retrucou, enquanto observava
Brett sair do estábulo com o animal.
— Feche a porta — Brett instruiu. Ângela obedeceu, e depois pôs-se a contemplar a
dupla, ficando extasiada ao ver Brett dar um impulso e arremessar-se para o dorso da
égua.
Viçosa dançou um pouco e, então, ficou completamente imóvel.
— Boa garota! — ele cantarolou em voz baixa, inclinando-se para a frente a fim de
falar ao ouvido da égua, afagando-lhe o pescoço peludo para acalmá-la.
— Você monta em pêlo? — Ângela indagou.
— É como aprendi — ele retrucou, cutucando os flancos de Viçosa com os pés
calçados. Ela marchou comodamente. — Muitos animais preferem ser montados assim,
sem aquele amontoado de apetrechos. Os indígenas sabiam disso. Quando posso, evito os
arreios e, sem dúvida, a nossa Viçosa não precisa deles.
A égua galopou em círculos, completamente feliz. — Vou correr um pouco para ela
me conhecer melhor. Espere aqui que eu não demoro.
Ângela assentiu com um gesto de cabeça e apoiou-se na porta, observando Brett
conduzir Viçosa para uma das trilhas, trotando na direção do bosque.
Quando a égua aumentou a velocidade, tomando o caminho conhecido, ele se
segurou com firmeza e curvou o corpo. Homem e animal pareciam um só, como se já se
conhecessem há muito tempo.
Brett voltou alguns minutos mais tarde, depois de confirmada sua primeira
impressão:
— Nenhum problema. Ela é muito sólida. Não tropeça nas raízes das árvores e não
empaca diante dos buracos. É um carneirinho.
— Ótimo! Deixe-me tentar — Ângela pediu.
Brett pegou a sela e os arreios e, falando suavemente com Viçosa, preparou-a para
mais um passeio. Era óbvio que o animal confiava nele, permanecendo quieto enquanto
ele acrescentava sobre seu dorso cada peça do equipamento.

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— Aí está, Ângela. Ela fará com que você saiba se está agindo certo ou não.
— Estou pronta. — Ângela ergueu os ombros, decidida.
Brett ajudou-a a montar. Viçosa relinchou e recuou ligeiramente. Ângela agarrou-se
à beirada da sela com medo.
— O que houve? — indagou em pânico. — Ela não fez isso com você!
— Fale com ela, faça-lhe um carinho — ele instruiu. — Você está sendo muito tímida
com o animal. Ande.
Ângela deu umas palmadinhas na crina com extremo cuidado, fazendo de tudo para
se acalmar.
— Ótimo. Agora pegue as rédeas. Não puxe com força, senão irá machucá-la.
— Você está mais preocupado com a droga desse animal do que comigo! — Ângela
exclamou ofendida.
Para aumentar-lhe a contrariedade, Brett gargalhou.
.— Vamos, Vossa Majestade, endireite o corpo e relaxe os músculos das costas.
— Como é que posso ficar ereta e relaxar os músculos das costas ao mesmo tempo?
— Assim. — Ele se aproximou percorrendo-lhe a espinha dorsal com as mãos e
indicando a posição dos ombros. — Sentiu a diferença?
— Sim — ela respondeu num tom teimoso, reconhecendo que Brett realmente
entendia do assunto.
— Agora, mantenha as rédeas soltas, mas firmes o suficiente para controlar o
animal, sem lhe forçar a boca para trás. — Ele esperou até que Ângela ajustasse as rédeas e
prosseguiu: — Agora vou dar um tapinha na anca de Viçosa e ela começará a andar. Não se
preocupe que estarei ao seu lado.
Quando ele deu a palmada, a égua começou a trotar. Ângela inclinou-se para a
frente, preocupada.
— Não fique pulando sobre a sela. Sente-se sobre ela com firmeza.
— Como? — Ângela indagou. — Ela me sacode a cada passo.
— Mantenha os joelhos apertados nos flancos do animal. Não muito forte, só para
se apoiar.
Quando Ângela se aprumou Brett deu um sorriso largo, correndo atrás de ambas.
— Posso andar mais depressa? — ela perguntou mais animada.
— Claro! Cutuque-a com os calcanhares e ela começará a correr.
Quando Viçosa disparou, Ângela quase caiu da sela e lutou para readquirir o
controle à medida que o instrutor lhe dava orientação em voz alta. Finalmente, ela fez o
animal parar e se voltou para Brett.
— Quer parar de gritar comigo? Estou fazendo o melhor que posso.
— Você está se saindo muito bem, ninguém afirmou o contrário.
Ângela encarou-o.
— É verdade que estou indo bem?
— É claro — Brett afirmou, afagando o focinho de Viçosa. — Estava apenas
querendo evitar-lhe problemas. Você está ansiosa, querendo ir além do que é capaz. — O
olhar cândido fixou-se no dela. — Você não é covarde, Ângela.
— Que ótima coisa para se ouvir — ela comentou, depois de alguns instantes.

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— É verdade. Você estava com medo de montar, entretanto, mesmo assim, foi em
frente. Coragem não é ausência de medo. Agir assim seria estupidez. Coragem é ter medo,
porém ir adiante quando se acredita que se tem mesmo que realizar algo. Todos na face da
terra sentem medo pelo menos uma vez na vida.
— Você tem medo de alguma coisa, Brett? — Ângela perguntou, tentando tirar dele
mais alguma informação sobre sua vida particular.
-— Tenho medo de perder a confiança de uma certa moça de cabelos avermelhados
— ele respondeu, sem encará-la.
Ela prendeu a respiração, esperando que ele prosseguisse. No entanto, ouviu-o
dizer:
— Algumas voltas mais pelo pátio, por sua conta. Então, deixaremos Viçosa
descansar. Na próxima vez, desceremos pela trilha, assim poderei pegar um outro cavalo e
caminhar ao seu lado.
Ângela cavalgou feliz. Entretanto, nuvens negras acumularam-se no céu, pondo um
ponto final ao passeio descontraído. Ao passar por Brett, ele comentou em voz alta:
— Apresse-se. Vai chover!
Encantada com a proeza do que já conseguira, ela ignorou o aviso, continuando a
trotar até que grossos pingos de chuva começaram a cair.
— Está vendo? — Brett gritou. — O cavalo vai pegar um resfriado!
— O cavalo vai pegar um resfriado — ela imitou-o num tom de voz zangado. — E eu
posso pegar uma pneumonia, que você nem vai ligar!
Ângela puxou as rédeas, parando diante de Brett, que, segurando a sela, ajudou-a a
desmontar.
Ao escorregar do cavalo, Ângela ficou por um instante colada ao peito másculo do
seu guardião, sob a chuva que aumentava substancialmente.
Brett colocou um dedo sob o queixo dela e ergueu-lhe o rosto para que o encarasse.
— Você é uma amazona ensopada — afirmou, com suavidade. — Vou levar você e
esta égua, já não tão viçosa, para a estrebaria a fim de se secarem.
Ângela puxou o trinco da porta, abrindo-a, e o guarda costas entrou com o cavalo.
— Preciso dar uma boa esfregada nela — ele informou. — Caso contrário, ficará
doente. — Analisou Ângela de alto a baixo, que não estava em melhor estado, e disse: —
Deixe-me ver se acho alguma coisa para você vestir. Suas roupas estão encharcadas.
O interfone soou e, enquanto Brett saía à procura de algo que ela pudesse vestir,
Ângela conversou com Harry, que estava preocupado com eles.
— Quem era? O Harry? — ele quis saber, ao retornar com um pacote na mão.
— Sim. Eu disse a ele que cuidaríamos de Viçosa. Perguntou se precisávamos de
alguma coisa e eu disse que não havia necessidade de se preocupar.
— Você até que poderia usar alguma roupa da mulher dele. Isto foi tudo o que
consegui encontrar. — Ele estendeu-lhe um cobertor de cavalos, todo desfiado e velho.
— Não queria incomodar a sra. Colebrook. Está chovendo muito e ela se molharia
vindo até aqui.
Brett ergueu os ombros num gesto indiferente.

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Momentos Íntimos 72
— Você é quem sabe. Enrole-se nisso e estenda suas roupas em um daqueles fardos
de feno para que sequem.
Ângela afastou-se para se despir e minutos mais tarde aproximou-se de Brett
enrolada no cobertor.
— Como se sente? — ele perguntou enquanto esfregava Viçosa.
— Maravilhosa. Só estou um pouco cansada.
— Amanhã você estará com o corpo todo dolorido — ele preveniu.
— Que ótima notícia! — Ângela disse, sentando-se num fardo próximo e bocejando
de sono.
Houve um longo silêncio enquanto Brett enxugava o animal, friccionando-o para
esquentá-lo. Em pouco tempo, o esforço físico o fez sentir calor, e ele se livrou da camisa
úmida. Ao terminar a tarefa, serviu água e alimento para a égua e foi juntar-se a Ângela.
Encontrou-a dormindo profundamente, o cobertor áspero deixando à mostra um
ombro acetinado e os cabelos espalhados sobre o feno como um leque vermelho e sedoso.
"Atividade demais para quem dormiu tão pouco a noite anterior", pensou.
Ele também estava bastante exausto, pois dormira menos ainda do que ela.
Caminhou até uma pequena janela e constatou que a chuva continuava a cair como um
lençol de cristal, limitando a visão a apenas alguns metros. Não seria possível voltarem à
cidade sob aquele temporal.
Voltou para perto de Ângela e achou que seria melhor deixá-la dormir. Contemplou
o movimento ritmado dos seios sob o cobertor e suspirou, imaginando como gostaria de
tê-la sempre junto de si.
Passou a mão pelos cabelos espessos e teve vontade de se deitar ao lado dela no
monte de feno. Afinal, deduziu, não havia mal nenhum em abraçá-la novamente. Além
disso, isso lhe faria um bem enorme.
Lentamente, se ajoelhou na palha, e se deitou com todo o cuidado, deslizando o
braço por baixo dos ombros de Ângela, acomodando-a aos contornos de seu próprio corpo.
Ela se mexeu, balbuciou algo incoerente e relaxou novamente, voltando a dormir no
instante em que ele conseguiu se cobrir com o mesmo cobertor.
Um tanto zonza, sem ter noção de onde se encontrava, Ângela acordou uma hora
mais tarde. Erguendo-se um pouco, analisou o próprio corpo e recordou-se da tempestade
e do motivo de sua nudez. Só não conseguia se lembrar de quando Brett se juntara a ela.
Ele ainda dormia, os cabelos negros salpicados de palha, os lábios entreabertos.
Cerrou o punho, tentando controlar a súbita necessidade de tocá-lo. Entretanto, rendeu-se
ao impulso e acariciou-lhe o rosto com ternura, afastando-lhe as mechas de cabelo sobre a
testa larga.
Brett se mexeu e suas pálpebras ergueram-se lentamente. Ele analisou-a por entre
as pálpebras semicerradas, a expressão neutra, os olhos ainda sem foco por causa do sono.
Ângela não disse nada, apenas acariciou-lhe a face com a mão, percorrendo os
contornos do rosto bonito até a boca, onde se deteve para explorar as linhas firmes dos
lábios. Quando Brett os entreabriu, ela pôde sentir-lhe a língua quente e úmida
acariciando seus dedos.

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Momentos Íntimos 72
O desejo se apoderou de Brett, que, enlaçando a cintura delicada, puxou Ângela
para cima de si, beijando-a, a medida que seus corpos se aproximavam.
O cobertor escorregou, pondo à mostra os torsos nus. Correspondendo avidamente
aquele contato de amor, ela curvou-se para a frente e agarrou-se aos ombros rígidos.
Brett deslizou as mãos pela pele acetinada, esmagando os seios alvos contra o peito
largo.
— Não se afaste — pediu, quando ela ergueu a cabeça. — Volte para mim.
Derrotada pela onda de paixão, Ângela entregou-se as carícias de Brett, que, num
movimento instintivo, rolou o corpo pesado para cima dela.
A boca carnuda deslizou na direção do mamilo sensível e ela gemeu de prazer ao
senti-la sobre o bico rosado, sugando-o ternamente.
Enterrou os dedos nos cabelos negros, puxando a cabeça do guarda costas para trás
e beijando-o com ardor, enquanto enlaçava-lhe os quadris com as pernas nuas.
— Eu não me importo — Brett sussurrou quase sem fôlego, tomando o rosto
delicado entre as mãos e beijando-lhe o nariz, as faces, o queixo. — Nada mais me importa
senão este momento com você.
Ângela suspirou profundamente, correspondendo as carícias como uma flor em
busca da luz do Sol, sem contudo compreender o significado daqueles murmúrios.
As mãos másculas tocaram-lhe as nádegas e ela ajeitou o corpo para sentir Brett
mais intensamente junto de si.
— Você está me pondo louco. — A respiração dele era pesada e entrecortada. — Você
tem feito isso desde o momento em que a conheci. Mas a tortura vai terminar agora.
Num gesto súbito, ele se afastou e, pondo-se de pé, começou a desafivelar o cinto
das calças. Seus olhares se encontraram, sugestivos. O único som que se ouvia era o de
suas próprias respirações.
De repente, Brett congelou ao ouvir uma batida na porta, seguida por uma voz
masculina.
— Há alguém aí?
Rapidamente, ele recolheu o cobertor do chão e jogou-o para Ângela, gesticulando
para que ela se escondesse no canto de uma baia. Pegou a camisa e vestiu-a, antes de se
encaminhar para a porta.
Ao abri-la, um homem baixinho e jovem surgiu à sua frente.
— Quem é você? — o estranho perguntou.
— Sou Brett Devlin, um empregado do sr. Patrian. Estava cuidando de Viçosa. Eu a
cavalguei hoje. E você, quem é?
— Sou Joe Thornton. Estou aqui para exercitar Duna, entretanto, acho que as
trilhas estão muito encharcadas. Queria falar com Harry e, quando vi a luz, pensei que ele
estivesse aqui.
— Ele está na casa. Por favor, avise-o de que já estou levando a srta. Patrian de volta
e que ele pode trancar o portão de entrada.
— Srta. Patrian?! — Joe indagou, tentando olhar para dentro.
Brett deu um passo à frente, bloqueando-lhe a visão.

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Momentos Íntimos 72
— Isso mesmo — informou ríspido. — Obrigado por dar o recado e até logo. —
Fechou a porta e chamou Ângela em voz alta. — Vista-se! Nós já vamos partir.
Enquanto ele abotoava a camisa, Ângela permaneceu completamente imóvel, sem
conseguir compreender o comportamento dele.
— O que foi que disse? — indagou.
— Vista-se! Ele chegou bem em tempo — Brett respondeu num tom cáustico,
enfiando a fralda da camisa para dentro das calças com raiva.
— Em tempo? — Ângela perguntou, num lamento. — Em tempo de quê? — insistiu,
não acreditando que Brett estivesse novamente fazendo aquilo com ela.
— Ande. — Ele pegou o suéter e jogou-o na sua direção. — Vista-se e vamos embora.
— O que houve, Brett? — Ângela perguntou o lábio inferior trêmulo. — O que há de
errado comigo?
Brett fechou os olhos.
— Não há nada de errado com você! — Fez um gesto impaciente. — Ângela existem
fatos que você desconhece, coisas que você não compreenderia.
— Diga-me quais são — ela ordenou, a voz entrecortada. — Diga-me por que não
quer fazer amor comigo.
— Não. posso.
Lágrimas quentes rolaram pelas faces afogueadas de Ângela. Ela enxugou-as
rapidamente para que ele não as notasse.
Brett deu um passo à frente, a mão estendida, e, então, deteve-se.
— Por favor, Ângela — implorou, num tom agonizante. — Por favor, não chore.
— Eu não estou chorando — ela retrucou, fungando alto. E, como se respondesse a
algo que ele tivesse dito, anunciou: — Está bem. Já percebi. Você não precisa se incomodar
mais comigo. Nunca mais vou me atirar nos seus braços.
-— Você não tem se atirado nos meus braços...
— Não me venha com essa agora, sr. Devlin. Não tente poupar meus sentimentos.
Isso não fará qualquer diferença.
Ele abriu a boca para protestar, porém, desistiu.
— Ah, o homem de poucas palavras resolveu não falar, como de costume — ela o
provocou, num tom sarcástico.
— Uma decisão brilhante. Como eu estava lhe dizendo, nunca na minha vida tinha
sentido como é degradante implorar por um pouco de amor, como é se fazer de idiota.
— Ângela, por Deus!
— Cale-se! — ela esbravejou furiosa. — Agora, vou me vestir e não quero tocar neste
assunto nunca mais!
Brett ficou de costas, enquanto ela lutava para colocar as roupas úmidas e
pegajosas. Quando ficou pronta, o seguiu, mantendo-se num silêncio sepulcral.
A atitude de Ângela em relação a Brett mudou drasticamente após aquele dia. Ao
ressentimento pela rejeição anterior ela acrescentou uma nota de tristeza derrotista. Brett
aguardou ansiosamente que ela abrisse o cofre, porém já estava prestes a montar um
esquema para levá-la a agir quando o destino interveio, auxiliando-o.

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Momentos Íntimos 72
Ângela estava arrumando a fantasia que usaria na festa do Dia das Bruxas e
resolveu experimentar um par de brincos que estavam trancados no cofre.
Brett perambulou pelo saguão até que ela retornasse ao quarto com a caixa de
veludo na mão, e então correu para a. cômoda para ver se o gravador tinha funcionado. O
contador do aparelho havia rodado. Após rebobinar a fita, ouviu o som do mecanismo
sendo movimentado e o "clique" das engrenagens encaixando-se.
Para ele, aqueles ruídos não diziam nada. Entretanto, para os especialistas do
departamento, eram a chave do quebra-cabeça. Assim que lhes enviasse a fita e a descrição
do cofre, receberia a combinação. E logo tudo estaria terminado.

CAPÍTULO V
Brett recebeu o número da combinação do cofre um dia antes da festa do Dia das
Bruxas. Assim que Josie foi embora, drogou o café de Ângela, esperando que aquela fosse
a última vez. E, quando ela caiu num sono profundo, penetrou no escritório e abriu o
cofre.
Observou o cubículo repleto de arquivos de papelão e caixas de jóias. Pegou a
primeira pasta e começou a ler. Pegou uma segunda e, na terceira, jogou os papéis no
chão, contrariado.
Nada havia ali senão anotações sobre impostos e cópias de apelações judiciais. Há
anos a tributação federal procurava encontrar evidências contra a sonegação de impostos
por parte de Patrian, sem qualquer sucesso!
Depois de gastar mais alguns minutos vasculhando cada pasta com método e
precisão, desistiu, certo de que nada havia nelas que pudesse lhe interessar. Não ligou para
as jóias de Ângela por não apresentarem nada de extraordinário. E a pilha de documentos,
dívidas, testamentos e certidões também não o ajudou. Examinou todo o conteúdo do
cofre, item por item, até que a única coisa que restou foram três cilindros de metal.
Abriu um deles com cuidado e dentro havia um rolo de microfilme. Esperando ter
encontrado a informação que buscava, tentou analisá-lo, olhando contra a luz. Entretanto,
os caracteres estavam tão miniaturizados que era impossível decifrá-los sem lhes
aumentar o tamanho. Recolocou o filme no tubo e, decidido a enviá-los ao departamento
para estudo, colocou-os no bolso, retornando ao quarto de hóspedes, planejando sair no
dia seguinte, quando Ângela estivesse ocupada com os convidados.
Ângela passou a manhã inteira se preparando para a recepção. Quando Brett saiu
do quarto por volta do meio-dia e observou o movimento constante da casa, verificou logo
tratar-se de uma festa suntuosa, regada a champanhe e caviar, e não de uma simples
comemoração tradicional do Dia das Bruxas.

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A bela estudante percorria a mansão de alto a baixo e, ao observar-lhe a habilidade
em lidar com floristas e carregadores, notou que ela estava caminhando em território
conhecido, pois deveria ter feito isso para o tio diversas vezes. Logo percebeu que seria
uma grande conquista para Cronin tê-la como mulher. O rapaz tinha outros interesses,
além do dinheiro e dos negócios de Patrian, e Ângela seria uma perfeita esposa e anfitriã
diante da alta sociedade.
Olhando Ângela pendurar algumas lanternas coloridas no teto, Brett imaginou qual
seria a reação dela ao descobrir que, naquela mesma manhã, enquanto ainda dormia, ele
saíra de casa e entregara os microfilmes para um mensageiro especialmente enviado pelo
departamento de polícia.
Naquele instante, Ângela voltou-se para arrumar algumas flores que estavam numa
jarra grande e vistosa e percebeu que ele a contemplava. Uma expressão velada
obscureceu-lhe o olhar e ela pareceu recuar. Estava agindo desse modo, ultimamente.
— Tudo sob controle? — Brett perguntou, puxando conversa.
— É claro — ela retrucou com suavidade, inclinando-se para aspirar o perfume das
rosas, como se não necessitasse dele por ali.
Adivinhando-lhe a intenção, Brett dirigiu-se para a cozinha, onde Josie estava
enfeitando diversas bandejas com canapés variados.
A criada ergueu a cabeça para observá-lo, parado à porta.
— Está pensando em alguma coisa, Brett?
— Toda esta festa é para aquele "almofadinha". Por que ela está fazendo isso? —
perguntou, de repente.
As mãos de Josie continuaram a tarefa rotineira. Entretanto, houve uma ligeira
modificação na expressão da criada, que Brett não notou por estar preocupado demais.
— Porque meses atrás ela prometeu a Philip que o faria — respondeu.
— Ela sempre se encarrega dos compromissos sociais dele?
— Que eu saiba, esta é a primeira vez — a mulher respondeu num tom suave,
observando-o mexer-se com impaciência, pegando uma maçã da fruteira e jogando-a para
o alto diversas vezes.
— Ela está apaixonada por Philip? — Brett finalmente indagou.
— Isso você terá que perguntar a ela — Josie retrucou, imaginando quando aquele
detetive idiota perceberia o quanto Ângela o amava. Pegou duas travessas e colocou-as no
refrigerador. Voltou-se novamente para ele. — Brett, o que está acontecendo? Pode confiar
em mim.
O guarda costas balançou a cabeça em negativa, sem encará-la.
— Estou percebendo que alguma coisa o incomoda — a criada insistiu com carinho.
Ele permaneceu calado.
— Brett, posso lhe dar um conselho? Você me ouvirá?
— Tentarei, sra. Clinton — ele assegurou, lançando-lhe um sorriso amarelo.
— Se você gosta de Ângela, diga isso a ela. Já vivi bem mais do que você para saber
que não podemos perder as chances que se apresentam. Elas são tão raras!
— Tenho certeza de que são — ele comentou, um tanto infeliz.

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— Nada é mais importante do que a felicidade, não importa o que você tenha de
fazer para encontrá-la.
Brett assentiu com um gesto lento de cabeça, e falou:
— Gostaria que fosse assim tão simples. Mas infelizmente não é.
— Você não quer falar sobre o assunto?
Ele inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos.
— Não, senhora. Eu não "posso" falar sobre o assunto. Cada linha do corpo ereto e
rígido demonstrava um ar de derrota. Josie deu uma palmadinha no braço dele e ficou
atônita ao vê-lo tomar-lhe a mão é nela depositar um beijo, abandonando a cozinha a
seguir.
"Ângela, querida", implorou, em silêncio, "não deixe que ele se vá."
Ao entardecer daquele mesmo dia, Ângela estendeu o vestido que usaria à noite
sobre a cama. A fantasia era verde água, em estilo grego, presa à cintura e ao pescoço por
cordões dourados. Ela estaria fantasiada de Cassandra, a profetiza que foi sentenciada por
Apolo a fazer predições de desastres que ninguém acreditaria, até que o pior acontecesse.
Ângela retorceu os lábios ao acariciar o tecido de seda do traje longo. Não precisava
ser Cassandra para prever que aquela noite pareceria mais uma tortura. Os nervos de
Philip estavam em frangalhos, devido à preocupação e à ansiedade por querer ver seus
amigos importantes e prósperos bem impressionados com a mansão e a sobrinha de
Patrian. E Brett tinha perambulado pela casa o dia todo, como se fosse uma bomba prestes
a explodir. Teve ímpetos de pedir a ele que permanecesse em seus aposentos durante a
recepção, entretanto, deduziu que ele jamais concordaria.
Uma leve batida soou na porta do quarto e Ângela abriu apenas uma fresta.
— Sou eu — Holly informou, entrando no quarto feito um furacão; trazendo sua
fantasia num cabide, envolta por uma capa de plástico.
— Que bom que você chegou — Ângela disse feliz.
— Seu próprio guarda costas abriu a porta para mim. Ele está fumando lá na sala de
estar, vestido com um agasalho que parece um trapo.
— Holly, ele está impossível. Gostaria de poder trancá-lo num armário até que tudo
terminasse.
— Nada mudou entre vocês? — a outra perguntou, num tom suave.
— Não. E não quero falar sobre esse assunto agora. Já tenho muito com o que me
preocupar esta noite.
1— Está bem. Não precisa responder desse jeito. — Holly soltou o lenço da cabeça e
começou a retirar os bobes. — Anime-se. As coisas vão melhorar. O que você acha do meu
traje?
Tratava-se de um vestido de cintura alta, decote franzido à altura do pescoço e
mangas bufantes na parte superior, que se estreitavam abaixo do cotovelo. Um chapéu de
meia aba completava sua fantasia de Jane Austen, a famosa heroína do romance de Emily
Bronte.
— Maravilhoso — Ângela comentou. De repente, Holly mudou de assunto:
— Você acha justo continuar vendo Philip enquanto está apaixonada por Brett?

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Momentos Íntimos 72
— Não sei. Já nem sei mais o que é justo ou não. Tudo o que sei é que Philip me
quer e Brett não.
— Mas ele age como se a quisesse — a amiga observou. Ângela meneou a cabeça
numa expressão infeliz.
— Eu também pensava assim. Holly ergueu as mãos para o alto.
— Então, vou dizer-lhe o que nos espera esta noite. Brett acenderá um cigarro atrás
do outro e lançará olhares dardejantes na direção de Philip.
— Espero que fique só nisso.
— Não se preocupe. Ele sempre mantém um ar distante, mal se fazendo notar. Tudo
vai dar certo.
— Tomara que sim. Bem, preciso me arrumar antes que os convidados comecem a
chegar.
— Deixe-me ver a revista da qual você falou. Não conseguirei penteá-la sem olhar o
modelo. — Holly consultou a gravura e ficou pensativa. — Não sei se vou conseguir.
— Consegue sim. Você trouxe o adorno dourado que eu lhe pedi?
— Cada item que você encomendou — Holly informou começando a passar a escova
nos longos cabelos avermelhados.
Ângela fitou-se no espelho e comentou:
— Você reparou nestes círculos escuros ao redor de meus olhos? Pareço um
guaxinim.
— Não parece não. Fique quieta que eu "preciso me concentrar.
Ângela acomodou-se e deixou a amiga fazer-lhe o penteado.
Duas horas mais tarde, Ângela estava pronta. Mirou-s no grande espelho e
acrescentou um fio dourado ao cabelo. Os braceletes na parte superior do braço
combinavam com -os do punho e os brincos rebrilhavam com a luz do quarto.
— Você está linda! — Holly afirmou, enquanto arrumava o grande laço do chapéu
sob o queixo.
Ângela consultou o relógio.
— É melhor eu descer. Tenho certeza de que ainda existem mil detalhes finais para
cuidar.
— Irei junto para ajudá-la — a amiga anunciou, agarrando a pequena bolsa de
malha e metal que completava a sua fantasia. — Também já estou pronta. Vamos!
Brett já as aguardava na sala de estar. Ele usava uma calça de veludo cotelê cinza
azulado, complementada por um suéter de tricô cinza aperolado. Sem nem mesmo ligar
para Holly, os olhos velados moveram-se lentamente, analisando Ângela de cima a baixo,
para depois encará-la.
— Dê só uma olhada para ele — Holly disse num tom suave e baixo, dirigindo-se à
amiga. — Como você pode aguentar, tendo esse homem sob o mesmo teto todo o tempo?
Eu não conseguiria manter minhas mãos longe dele.
— Fui avisada de que teria esse tipo de problema — Ângela respondeu com ironia.

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Quando Brett aproximou-se, os olhos ainda fixos nos de Ângela, Holly aproveitou
para escapar, deixando-os a sós. Ele parou diante de Ângela, as mãos enterradas nos
bolsos da calça, e indagou:
— Quem é você?
— Cassandra.
— E Cronin?
— Apolo, o deus grego.
— O amante de Cassandra suponho. — Brett retrucou zombeteiro. — Estão
encenando os seus próprios papéis?
Ângela perdeu a paciência.
— Quer saber de uma coisa? — disse, num tom cortante. — Eu não consigo
compreender você. Por que tanto ressentimento contra Philip? Você age como se ele
estivesse invadindo o seu território. — Baixou os olhos. — O que não significa que você não
tenha tido a sua chance. A expressão de Brett endureceu-se, mas ele nada disse. Ângela
conhecia bem aquela reação e prosseguiu furiosa: — Ah, já entendi. Nada de palavras.
Você deveria sempre carregar uma plaquinha escrita "mudo" ao redor do pescoço. Dessa
forma, nunca teria que se comunicar com as pessoas.
O detetive dirigiu-se ao bar próximo à lareira e, servindo-se de uma dose de uísque,
tomou-a de um só gole.
— Isso. Comece a se embebedar — ela o reprovou, com impertinência.
Brett depositou o copo sobre o móvel com tal força que Ângela deu um salto. Ele a
analisou, o olhar frio e distante, e disse lentamente:
— Para alguém que parece uma bonequinha numa caixa de música, você às vezes
sabe dizer coisas cruéis. — E, passando por ela, trancou-se no quarto.
Ângela andou com passos cambaleantes até a sala de jantar e fechou as portas atrás
de si. Cobrindo a boca com a mão e inclinando-se para a frente, apoiou-se no console estilo
imperial.
Ao entrar no aposento alguns minutos depois, Holly encontrou-a na mesma
posição.
— Ângela, o que está fazendo aqui? Os convidados vão chegar a qualquer instante!
— Aproximou-se para observar a expressão da amiga sob a luz pálida de um candelabro. —
O que houve com você?
— Acabei de ter mais uma briga com Brett. — Ângela piscou os olhos, tentando
refrear as lágrimas teimosas.
— Nós dois estamos nos tratando como gato e rato e eu não suporto mais isso.
Amanhã vou telefonar para Harold Simmons e pedir-lhe para que contrate um outro
guarda-costas.
— Oh, Ângela, sinto muito — Holly comentou bastante preocupada. — Mas você o
ama e...
— Meus sentimentos por esse homem não vão mudar, quer ele esteja aqui ou não.
Cheguei à conclusão de que, só porque estou apaixonada por ele, não posso obrigá-lo a me
amar. Já fiz de tudo. Me humilhei e me expus a ele de um modo tão aberto que fico
constrangida só de pensar. Nada deu certo e a situação chegou a tal ponto que não

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suportamos mais a presença um do outro. Ele precisa ir embora, já que não consigo pensar
em outra solução.
Colocando as mãos sobre os ombros trêmulos de Ângela, Holly tentou confortá-la.
— Está bem. Está bem. Agora, tente se controlar, pois em trinta minutos esta casa
estará cheia de gente. Deixe esse assunto para mais tarde, quando todos já tiverem ido
embora.
Ângela concordou com um gesto de cabeça e endireitou o corpo, perguntando:
— Como está minha aparência?
— Maravilhosa! Vamos, ande!
Quando ambas saíram da sala de jantar, a campainha soou e Ângela apressou-se em
receber os primeiros convidados.
Philip foi o primeiro a chegar. Parecia uma escultura dentro de uma túnica branca
que lhe chegava à altura dos joelhos, e com uma coroa de louros na cabeça.
Logo depois, os outros convidados começaram a aparecer, vestidos com fantasias
caras e criativas. Philip convidara todas as pessoas que lhe interessavam diretamente e, em
poucos instantes, a casa estava repleta de políticos, empresários e autoridades locais.
Uma vez iniciada a recepção, Ângela descobriu que conseguia se distrair com sua
tarefa de anfitriã, sem pensar em Brett. Conversava alegremente com os convidados que
conhecia, sempre tomando as providências necessárias para que não faltasse comida nem
bebida durante a festa.
Algumas horas se passaram até que avistou Brett conversando com a acompanhante
do senador Hathaway, uma bela morena do sul, vestida de Scarlett O'Hara, a heroína de...
E o Vento Levou. A moça estava pendurada no braço do detetive, rindo feliz e dirigindo-lhe
olhares insinuantes.
Ângela observou-o desculpar-se com a morena e se dirigir para ela.
— Bela festa — ele comentou. — Todos aqui parecem embalsamados.
Ângela engasgou com o drinque que tomava. Com a tensão das últimas semanas,
quase se esquecera do senso de humor do guarda costas que, como todo bom vinho, era
raro e seco. Controlou o riso e retrucou:
— A maioria das pessoas com quem Philip se relaciona é bem mais velha do que
nós.
— Já deu para notar — ele respondeu, percorrendo o ambiente com o olhar.
— E claro que existem exceções — ela acrescentou. — Sua amiguinha, por exemplo.
Brett deixou passar o comentário e indagou:
— Falando de amigas, onde estão as suas?
— Holly veio — Ângela respondeu um tanto constrangida.
— É a única e está aqui para lhe ajudar. — Brett afirmou.- — Você não pôde
convidar seus próprios amigos para a sua recepção?
— Esta festa é para Philip. Ele fez a lista de convidados.
— É óbvio. São todos tão desagradáveis quanto ele.
— É mesmo? Parece que Scarlett O'Hara animaria qualquer grupo. Aonde ela foi?
— Refazer a maquilagem.

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— E aí vem ela, fresca e renovada — Ângela comentou ao ver a moça se encaminhar
até eles.
— Todos estão se divertindo, não? — a morena disse com a fala arrastada, num
sotaque sulino exagerado.
Ângela não pôde notar o sorriso largo de Brett, pois já se tinha retirado. Josie
interceptou-a à porta da cozinha.
— Todos estão sendo servidos? — indagou.
— Parece que sim.
Aquela resposta teve como fundo o riso feliz de Philip, que se encontrava entre os
convidados no outro aposento.
— Ele está se divertindo de verdade — Josie comentou, laconicamente.
— Bem, estou contente que ele esteja feliz com a recepção. — Ângela suspirou.
— Algum problema na festa? — a criada perguntou num tom inocente, embora já
soubesse o motivo.
— Não, não. Todos compareceram e estão se embebedando. Parece que, para os
padrões de Philip, isso pode ser considerado um sucesso.
— Então, o que há?
— Oh, eu não sei. — Angela ergueu os ombros num gesto indiferente. — Acho que é
muito espalhafato para um punhado de pessoas com quem nada tenho em comum.
— Case-se com Philip e já sabe o futuro que a espera — Josie afirmou, num tom
soturno.
— Você "realmente" sabe como me animar — Ângela comentou, lançando um olhar
fulminante para a criada antes de sair.
Josie sorriu, cantarolando baixinho.
Quando o baile começou ao som do conjunto musical que Philip contratara, Ângela
e Holly se refugiaram na despensa. Holly tirou os sapatos e fez exercício com os dedos dos
pés.
— Puxa! Assim está melhor.
— Obrigada por ter vindo me ajudar — Ângela agradeceu.
— Ah, não se preocupe. — Holly fitou a amiga, desviando o olhar em seguida. —
Você tem certeza de que o autor das ameaças não está entre seus convidados?
— Philip conhece todo mundo, até os músicos. Duvido que algum de seus antigos
amigos do peito se revele um assassino.
— Brett não deve estar muito satisfeito com essa recepção.
— Ele não está satisfeito com nada ultimamente. — Angela esboçou um sorriso. —
Nesses últimos dias, tenho estado tão aborrecida com ele que até me esqueci de que gosto
dele.
Holly arqueou as sobrancelhas.
— Acho que usaria uma palavra mais forte do que "gostar" para descrever esse
sentimento — comentou num tom seco.
— Eu sei, eu sei... — Ângela ergueu a cabeça e fechou os olhos. — O que devo fazer?
Algum doido me ameaça de morte, meu tio não dá sinais de que vai regressar, e estou

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
prestes a expulsar da minha vida o homem que amo porque ele está me pondo maluca.
Como fui me meter nisso tudo?
— Não sei. Ângela sorriu levemente e endireitou o corpo.
— É melhor voltar para a festa, caso contrário Philip sairá à minha procura.
— Você se importa se eu ficar aqui mais um pouquinho?
— Fique à vontade, Holly. Tudo já foi servido, agora é só manter os copos sempre
cheios. Até mais tarde.
A primeira coisa que Ângela viu ao retornar à sala foi Brett dançando com a moça
do sul. Teve ímpetos de voltar para a despensa, entretanto Philip já se aproximava e,
enlaçando-a pela cintura, deu-lhe um beijo no rosto. Ela retesou o corpo de imediato.
— Você está bem? — ele indagou.
— Ótima.
— Bem, é uma festa e tanto. Não poderia ter exigido mais do que isso. Você fez um
trabalho maravilhoso.
— Estou contente que esteja gostando — Ângela comentou num tom neutro.
"Scarlett" riu gostosamente, chamando a atenção de várias pessoas que se voltaram
para fitar o casal. Philip franziu a testa, contrariado.
— Olhe só para aquele tipo. Jamais conseguirei entender o que as mulheres vêem
nele.
— Não, você não entenderia. — Ângela retrucou, com calma.
Philip encarou-a de imediato, tentando consertar o que dissera:
— Bem, eu... O que eu quero dizer é que ele deveria estar protegendo você e não
passando a noite toda perseguindo a acompanhante de Jerry Hathaway.
— Será que precisamos falar sobre ele?
— Não. Claro que não! — Philip voltou a encará-la, preocupado. — Tem certeza de
que está bem? Você está tão estranha.
— Estou bem. Vou circular entre os convidados.
— Está bem — Philip disse feliz, encaminhando-se para um grupo de pessoas.
Ângela procurou Brett com o olhar e verificou que ele continuava dançando com a
mesma moça. Então, girou nos calcanhares e foi para a cozinha. Mal abrira a torneira para
encher um copo com água, ele apareceu à soleira da porta.
— Senti sua falta — informou.
— Não parece. — O tom de voz dela era áspero.
— Vamos dançar?
— Por que não dança com a senhorita sulista?
— Já dancei. Agora quero dançar com você. Ângela girou o corpo para encará-lo.
— Esqueça.
Quando ela passou por ele, porém, Brett agarrou-a pelo braço, dizendo:
— Espere um pouco...
— Espere um pouco você! Está negligenciando o seu trabalho e não estou gostando
nada disso. Afinal de contas, para que meu tio está lhe pagando? Eu poderia ter sido
baleada cinco vezes enquanto você dançava com aquela... aquela... sirigaita!
Os olhos de Brett se arregalaram.

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Momentos Íntimos 72
— Sirigaita! Do que você está falando? Nesses últimos dias você tem me tratado
como se eu fosse um leproso, e agora me vem com esse sermão porque dancei com uma de
suas convidadas! "Você" me disse para não ficar plantado pelos cantos, olhando para
todos. "Você" me disse para me misturar com as pessoas e agir como uma delas. "Você"!
Ângela avançou para ele com um olhar ameaçador.
— Não comece a jogar minhas palavras no meu rosto! Você sabe que odeio isso!
Ambos se entreolhavam com um ar furioso, exatamente no momento em que Holly
apareceu à porta da cozinha. A moça deu uma olhada e, percebendo a situação, girou o
corpo para outra direção, afastando-se com rapidez.
— Holly! Volte aqui! — Ângela berrou.
A amiga deteve-se instantaneamente e marchou de volta para a cozinha.
— O que é? — perguntou num tom assustado, fitando Ângela com preocupação.
— O nosso sr. Devlin quer uma parceira para dançar. Por que não faz a vontade
dele? — Ângela ergueu a barra da saia e abandonou o ambiente às pressas.
Brett colocou os dedos na parte superior do nariz e apertou os olhos. Depois de
alguns instantes, disse a Holly num tom de voz controlado:
— Pode me dizer o que há de errado com ela? Holly analisou-o através das
pálpebras semicerradas.
— Você não sabe mesmo? — indagou num tom cortante, seguindo os passos da
amiga e deixando-o sozinho no aposento.
Brett se sentou à mesa e acendeu um cigarro. Ângela o estava deixando doido.
O último convidado saiu por volta das três da madrugada. Àquela altura, Ângela
estava descalça, sem o cordão dourado na cintura. Perambulava pelo ambiente esvaziando
os cinzeiros com gestos mecânicos, enquanto Josie recolhia os copos e Holly passava o
aspirador de pó no tapete felpudo. Philip, que mudara de roupa e agora usava um traje
esportivo, congratulava-se consigo mesmo pelo sucesso da recepção, à medida que sorvia
um licor de cerejas. Brett havia desaparecido.
Desligando o aspirador, Holly informou, voltando-se para Ângela:
— Já fiz o que pude. Acho que você agora vai precisar chamar o pessoal
especializado para limpar os tapetes. Já consegui retirar a maioria das cinzas de cigarro e
os tocos, mas as manchas não saíram.
— Deixe isso de lado, Holly — Ângela retrucou. — Vá para casa que você parece
exausta.
— Acho que posso dizer o mesmo de você. O resto das minhas coisas estão no seu
quarto?
— Sim. Vou chamar o chofer, enquanto você se apronta.
Ângela estava desligando o telefone, quando Holly retornou vestida num jeans,
trazendo nas costas o cabide coberto com plástico.
— Onde está Brett? — a amiga perguntou num sussurro. — Você ainda vai pedir
para Simmons substituí-lo?
— Holly, são três horas da manhã e não sei bem o que quero a esta altura. Vou
pensar no assunto amanhã.

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Momentos Íntimos 72
— Está bem, conte-me o que tiver decidido.
— Contarei sim.
Ângela esperou até que o carro tivesse partido e, ao ver que Josie já havia recolhido
toda a louça e se dirigia para a cozinha, pegou-a pelo braço:
— Vamos deixar o restante para amanhã, Josie. Mal posso olhar para tudo isso.
— A sujeira estará grudada nos pratos até então. Ajude-me a passar um detergente
antes e cuidaremos do resto amanhã.
As duas mulheres trabalharam em silêncio por um longo tempo, até que Josie
indagou:
— Onde está Brett?
— Deve estar no quarto, evitando nos ajudar com a limpeza. Eu sempre disse que
ele é bastante esperto.
— É mais provável que esteja evitando você. Pelo modo como o tem tratado
ultimamente, eu não o culparia.
— O modo como "eu" o tenho tratado? Mal posso acreditar que estou ouvindo isso
de você.
— Não me venha com esse ar inocente, mocinha. Conheço-a a muito tempo. Você
pensa que não enxergo o que se passa ao meu redor? A maneira fria como você tem se
dirigido a Brett, falando com ele somente quando necessário, fingindo que ele não está na
sua frente... Só porque ele não diz nada não quer dizer que não se incomoda com esse
tratamento.
— Veja só! Quem ouvir você falando vai achar que está do lado dele.
— Não sabia que havia lados para escolher. Tudo o que vejo é que você está fazendo
de tudo para ignorá-lo. Como acha que ele deve estar-se sentindo?
— Espero que esteja se sentindo ferido e rejeitado, pois é como me faz sentir o
tempo todo! — Ângela explodiu, jogando o prato na pia e fugindo dali.
Josie seguiu-a, porém se deteve quando a viu juntar-se a Philip, na sala de estar.
Teria que adiar aquela discussão.
— Quando Josie vai embora? — Philip sussurrou a Ângela, fazendo um gesto na
direção da cozinha.
— Daqui a pouco. Está terminando algumas coisas.
— Ótimo! — Ele piscou o olho. — Gostaria de ficar mais um pouco com você, a sós.
Ângela sentiu um aperto no coração. O que menos precisava agora era ver Philip
amoroso por causa do êxito da festa.
— Philip, eu estou exausta. Gostaria de ir para a cama.
— Era o que eu tinha em mente — ele informou suavemente, enquanto a abraçava
pelos ombros. — Não acha que já esperamos muito?
Ângela controlou a vontade que teve de gritar naquele instante.
— Philip, não posso. Foi um dia longo e cansativo e há estranhos por aqui...
— Ao diabo com Brett! — Philip retrucou. — Quem se importa com ele? De qualquer
modo, é um inútil que sempre mete o nariz onde não é chamado.
Josie saiu da cozinha com pressa e aproximou-se do armário do hall em busca do
casaco.

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Momentos Íntimos 72
— Eu disse ao chofer para vir buscá-la assim que deixasse Holly — Ângela informou,
evitando encará-la. — Ele vai levar você para casa.
— Obrigada. Quero continuar aquela conversa amanhã cedo com você.
— Está bem — Ângela disse num tom relutante. — Obrigada por tudo. Boa noite.
No instante em que o motorista chegou e a porta se fechou atrás de Josie, Philip
tomou Ângela nos braços.
— Philip, eu disse não. — Ela tentou se libertar. Ele a segurou com firmeza,
obrigando-a a encará-lo.
— Sabe que não consigo compreendê-la? Quanto tempo ainda acha que vou resistir?
Não sou um monge, sabia? Sou um ser humano e estou cansado de ser tratado como um
universitário imaturo. Acho que não estou exigindo demais. Já estamos saindo juntos há
tempos...
— Philip, será que precisamos tratar desse assunto neste instante?
— Quando é que falaremos então? Você tem evitado qualquer abordagem há
semanas. Para dizer a verdade, desde que esse tal de Brett apareceu, você tem agido como
se fosse uma pedra de gelo. Não que antes você fosse propriamente apaixonada, mas...
— Brett não tem nada que ver com isso!
— Não estou bem certo.
Ângela livrou-se das mãos do namorado.
— Philip, estou tão exausta que mal consigo manter os olhos abertos. Não é hora de
discutirmos o nosso relacionamento. Por que não vai para casa e deixamos esse assunto
para amanhã? Tudo parecerá mais claro.
— Pare de falar como se eu fosse um garotinho! — Os lábios dele formaram uma
linha fina e rígida. — Já aguentei muito as suas evasivas e desculpas. Você trabalhou com
afinco para preparar esta festa e eu estou me sentindo muito bem porque tudo deu certo.
Quero apenas partilhar este sentimento com você.
— Levando-me para a cama! — Ângela afirmou num tom sarcástico.
— E por que não?
— Porque "eu" não quero. Isso é tudo!
Philip segurou-a novamente, desta vez com garras de aço.
— Bem, mas eu quero! E não vou aceitar um "não" como resposta agora. — Ele
puxou-a para junto de si, tentando beijá-la.
— Solte-me! — Ângela gritou, virando o rosto.
— De modo algum. Pare de lutar comigo.
— Deixe-me em paz — ela implorou, batendo os punhos cerrados no peito dele.
— Você ouviu a moça — Brett falou com um tom baixo e ameaçador logo atrás deles.
— Solte-a!
Sobressaltado, Philip libertou-a e Ângela correu para longe dele.
— Veja só quem está aí — Philip disse, sarcástico. — O homem sem função. O
guarda costas que não faz nada, além de ser inconveniente.
— Vá para casa, Cronin — Brett afirmou, sério. — Ângela não quer você aqui.
— Que tal deixar que ela resolva isso? — Philip zombou..
— Não enquanto eu estiver nesta casa.

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Momentos Íntimos 72
— Não ficará aqui por muito tempo se eu resolver falar — Philip retrucou.
— Você nada tem a dizer. Agora, pare de forçar uma mulher que quer vê-lo a
distância. — Brett deu um passo à frente, com uma expressão ameaçadora no olhar.
— Você não tem o direito de me expulsar desta casa! — Philip disse, ultrajado.
Brett ergueu o punho.
— Isto me dá o direito.
Nervosa, Ângela postou-se entre os dois homens.
— Philip, vá embora. Não quero vê-los brigar.
— Então, por que não diz a esse punhado de músculos para calar a boca? Ele é que
está ameaçando agir com violência.
— Porque você não sabe agir como um cavalheiro — Brett interrompeu-o.
— Veja só quem está me dando lições de boas maneiras — Philip provocou-o com
um sorriso cruel. — Seu cretino. Você não passa de um pistoleiro contratado, um
amontoado de músculos tão ignorante que não tem sequer uma profissão decente. Tudo o
que sabe fazer é mostrar a sua força. Pois saiba que não tenho medo de você. Se eu quiser
beijar minha namorada, eu a beijarei, e você não tem nada a ver com isso! — Agarrou
Ângela de novo e ela saiu tropeçando para longe dele.
Brett fez um movimento brusco e rápido. Com um dos braços afastou Ângela para o
lado, e com o outro deu um soco em Philip, que foi jogado para trás, aterrissando sobre a
mesa, após derrubar um pote de cerâmica.
Ângela gemeu, fechando os olhos.
— Levante-se — Brett ordenou. — Levante-se e me enfrente, seu idiota.
Um tanto cambaleante, Philip conseguiu colocar-se de pé e, enxugando o sangue
dos lábios com as costas da mão, recuou, olhando para o detetive como um animal acuado.
— Você vai me pagar por isso — sibilou entre os dentes. — Você me agrediu. Vai ter
notícias dos meus advogados.
— Estou morrendo de medo. — Brett pegou o casaco e a fantasia embrulhada de
cima da cadeira e jogou-os para Philip. — Não se esqueça dos seus trapos, garoto.
Por instantes, Philip hesitou. Entretanto, quando Brett deu um passo à frente, ele
agiu com rapidez, colocando o paletó e dirigindo-se à porta.
— Vou embora porque não quero aborrecer Ângela — afirmou, já colocando a mão
na maçaneta. E, olhando para ela, acrescentou: — Telefonarei para você amanhã.
— Não precisa se preocupar — Brett provocou-o, sorrindo.
— Você tinha de dar um soco nele? — Ângela indagou num tom de voz cansado, no
instante em que a porta foi fechada.
Brett encarou-a, atônito.
— E o que esperava que eu fizesse? Deixá-lo estuprá-la?
— Como foi que resolveu aparecer? Pensei que já tivesse tido muito por uma noite.
— Ouvi você tentando se livrar dele e achei melhor ajudar.
— Acho que deveria agradecer-lhe por isso.
A expressão de Brett transformou-se completamente.
— Não precisa gastar sua saliva comigo — informou num tom áspero.
— E não o farei mesmo! — Ângela berrou.

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— Ótimo. Então não faça! — Brett desabafou chutando um caco de cerâmica que
deslizou para longe, no chão encerado. — Eu deveria ter deixado Philip dominá-la. De que
adiantou eu intervir? Você continua me tratando como se fosse superior e eu, um
desqualificado.
Os olhos de Ângela se encheram de lágrimas.
— Não sei do que você está falando e não me preocuparei em pensar. Estou muito
cansada e quero ir para a cama. Boa noite! — Ela agarrou o tecido da saia com ambas as
mãos e disparou pelas escadas, rumo ao quarto. Assim que bateu a porta atrás de si,
apoiou-se nela, o coração disparado.
Brett ficou imóvel por alguns segundos, os braços caídos ao longo do corpo, e, de
súbito, avançou para a escadaria galgando os degraus aos pares. Sua expressão era de
determinação.

CAPÍTULO VI
Brett se deteve diante dó quarto de Angela e bateu à porta com força.
Ela deu um salto e afastou-se dali, como se a madeira estivesse em chamas.
— Está me ouvindo, Ângela? — ele berrou. — Ouça-me. Eu sei que não tenho tanto
dinheiro quanto Philip Cronin... — A voz de Brett falhou e Ângela prendeu a respiração,
sem compreender do que se tratava. — Jamais serei rico de verdade! Porém, serei capaz de
ganhar algum dinheiro, se você considera isso tão importante.
Ângela aproximou-se da porta, intrigada pelo que viria a seguir.
— O que estou tentando dizer é que não acredito que você ame aquele cara estúpido.
Tenho quase certeza de que você me ama e...
Ângela arregalou os olhos, o coração disparado. Então, girou a maçaneta com a mão
trêmula e escancarou a porta, deparando-se com Brett a poucos centímetros de distância.
— O que você está tentando dizer, Brett? — ela indagou num tom suave.
Como resposta, ele tomou-lhe o rosto entre as mãos com ternura, correndo os
polegares sobre os lábios carnudos. O toque era infinitamente gentil e tudo o que ele sentia
estava expresso nos olhos ávidos de paixão.
Invadida por um sentimento de alívio e felicidade, Ângela soltou um suspiro longo e
estremecido.
— Diga — sussurrou. — Você verá que não sofrerá nada ao dizer o que eu preciso
ouvir.
— Eu te amo, Ângela — ele afirmou num tom baixo e rouco, enlaçando-a pela
cintura.
— Esperei tanto por ouvir isso! — ela suspirou, cravando as unhas nos ombros
largos. — Pensei que jamais diria!

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Brett tomou-a nos braços e carregou-a para a cama, depositando-a na beirada do
colchão.
— Você ficará comigo desta vez? — Ângela indagou, aflita. — Não vai me
abandonar?
— Ele caiu de joelhos ao lado dela, abraçando-a pelos quadris.
— Não desta vez, querida — afirmou, num tom de voz embargado, sufocado pelo
desejo. — Nunca mais!
Feliz, Ângela puxou a cabeça de Brett para junto de seus seios, deixando que a boca
carnuda buscasse seus mamilos sob o tecido fino de seda. Depois, arqueando o corpo de
prazer, ela enterrou os dedos nos cabelos espessos. As mãos fortes e ágeis responderam de
imediato, abaixando-lhe o zíper da fantasia.
Por alguns instantes, Ângela observou Brett arrancar o suéter cinza. E, ao constatar
que ele nada usava por baixo, estendeu os braços de modo convidativo, ansiosa por sentir
a pele morena e quente contra a sua. Quando o guarda costas a abraçou, ambos se jogaram
no leito, sedentos de amor.
Fazendo uma força enorme para controlar a paixão, Brett beijou-a com ardor. Não
queria assustá-la, entretanto as longas semanas de privação fizeram com que seus desejos
se exacerbassem, tratando-a com aspereza, quase com desespero. Tentando acalmar-se,
sentou-se na cama de repente.
Ângela fez o mesmo, roçando os lábios contra a pele do braço dele.
— O que houve? — perguntou num sussurro. — O que foi?
Ao sentir o toque suave que enviava mensagens urgentes para todo o seu corpo,
Brett fechou os olhos.
— Ângela, você não sabe o que está fazendo comigo.
— Sei sim. Pelo menos, espero que sim — ela murmurou, beijando-o repetidas vezes
no peito largo.
Brett gemeu, pegando-a pelos cabelos e obrigando-a a encará-lo.
— Quero ser carinhoso com você, Ângela. No entanto, estou perdendo o controle e
não sei se vou resistir por muito tempo.
Ângela agarrou-se ainda mais a ele e disse, lábios nos lábios:
— Não se controle, querido. Estou sentindo o mesmo que você.
Deslizando as mãos pelos quadris arredondados, Brett colou-se a ela, balbuciando
com uma voz quente e áspera:
— Eu te amo tanto... tanto. Sinto tê-la magoado, mas não foi minha intenção.
— Silêncio! Nada mais importa neste instante. Nós estamos juntos e isso é o que
vale — ela retrucou, gentil, beijando-lhe as faces.
Brett afastou-se um pouco e com gestos experientes removeu as últimas peças de
roupa que ainda os separavam, observado pelo olhar ávido de Ângela que, impaciente,
tremia de desejo.
Quando voltou a se deitar, beijou-a com paixão, deslizando os lábios pelo colo
macio, traçando uma linha de fogo até alcançar o vale profundo dos seios e se apossar dos
mamilos intumescidos.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
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Apesar de afoito, Brett mantinha-se calado, não dirigindo a Ângela nenhuma
palavra de ternura, revelando apenas com as mãos e a boca o quanto a desejava e a amava.
Afagando as coxas rijas, ele deslizou os dedos por entre as pernas bem feitas, acariciandoa, até levá-la à loucura.
Ao cravar as unhas nas costas dele, Ângela pôde perceber a tensão daquele corpo
másculo, que se controlava ao máximo para conter o prazer final. Agarrando-se a Brett
com as duas pernas, puxou-o para perto de si e forçou-o para baixo. Um suspiro de
satisfação escapou-lhe dos lábios, quando sentiu o contato do membro rígido.
— Me possua, querido. Agora! — implorou, os olhos turvos pelo desejo. — Preciso
de você.
Prendendo a respiração por alguns instantes, Brett então apoiou-se nos braços,
encarou-a ternamente e penetrou-a com um único movimento, profundo e preciso.
Ângela jogou a cabeça para trás, completamente sem fôlego. Abraçou-o com mais
força, inflamada pelo desejo, enquanto a boca sedenta percorria-lhe o corpo, aumentandolhe o delicioso tormento.
Brett segurou-a pelas ancas, preparando-se para o último degrau que os
transportaria para a união tão esperada. E Ângela gemeu baixinho:
— Diga que me ama. Fale outra vez para eu me certificar de que não estou sonhando
— implorou.
— Eu te amo — ele balbuciou, sem conseguir respirar. — Estou apaixonado por
você. E isso não mudará, aconteça o que acontecer.
Em qualquer outra situação, Ângela poderia ter notado o significado daquelas
palavras, o aviso implícito contido nelas. Entretanto, tudo o que conseguiu captar foi uma
declaração de amor do homem que amava.
Atingiram o clímax juntos, transportados para um mundo de prazer, êxtase e
paixão.
Sentindo-se segura nos braços de Brett, Ângela entregou-se ao sono, enquanto ele
permaneceu acordado, encarando a escuridão. Agira contra os princípios de seu
treinamento, rendendo-se aos próprios sentimentos. Porém, não estava arrependido.
Nenhuma força terrestre poderia tê-lo impedido de fazer amor com Ângela naquela noite.
"Eu a tenho e pretendo mantê-la", pensou, com decisão.
No entanto, não conseguia conciliar o sono.
Quando Ângela acordou horas mais tarde, estava sozinha na cama. Deslizou para o
chão e vestiu um robe de chenilha azul, relanceando o olhar pelo ambiente à procura do
amante. Estava prestes a descer, quando notou uma réstia de luz no terraço do lado de fora
do seu quarto.
Brett estava sentado numa espreguiçadeira, fumando. Vestido somente com suas
calças, observava o movimento noturno.
— O que está fazendo aqui, sozinho? — perguntou, num tom reprovador.
— Pensando — ele respondeu, puxando-a para junto de si.
— Sobre o quanto você me ama? E que não pode viver sem mim?

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— Vamos com calma, garota — ele retrucou, rindo.
— Já imaginava. Você não pode viver um minuto, sem pensar em mim. — Ela o
enlaçou pelo pescoço.
— Você está certa, querida. Mais do que pode imaginar. Ângela não pôde deixar de
perceber a mudança no tom de voz dele.
— Brett, está tudo bem agora, não é? Quero dizer, nós estamos juntos e tudo dará
certo, não é verdade?
Como ele nada respondesse, Angela sentou-se para encará-lo na penumbra da
noite.
— Querido, por que você lutou tanto contra isso? Se você me amava, por que evitou
se envolver comigo por tanto tempo? Não pode me contar?
— É muito complicado, Angela.
— Eu pensei que as coisas tivessem mudado — ela disse, num tom triste. — Agora
que... que tudo está bem entre nós, achei que se abriria comigo.
— Ângela, não é fácil para mim. Por um longo tempo, fui uma pessoa solitária.
Jamais pensei encontrar alguém especial como você nessas circunstâncias.
— Você se refere às ameaças?
— Sim.
— Mas não me importo com isso. Sei que você me protegerá. O mais importante é
que nos encontramos e nos apaixonamos.
— Oh, querida, sua visão da realidade é muito infantil. Acha que seu príncipe
encantado apareceu, e que tudo dará certo até o fim, vivendo com ele feliz para sempre. É
isso o que pensa da vida? Tudo tão simples assim?
Ângela retesou o corpo e, quando voltou a falar, sua voz soou baixa e controlada.
— Está querendo me dizer que não haverá futuro para nós? Por isso é que você está
tão estranho?
Brett tomou o rosto delicado entre as mãos e beijou-a.
— Quero uma vida futura com você mais do que qualquer coisa no mundo. Jamais
duvide disso.
Ângela suspirou aliviada e o corpo livre da tensão.
— Então, não consigo compreender.
— Tudo o que você precisa compreender é isto. — Brett beijou-a ternamente, e, a
seguir, pôs-se de pé e entrou no quarto, carregando-a nos braços e levando-a até a cama. —
Desta vez eu vou fazer amor com você como se deve — murmurou, arrancando o robe azul
com gestos gentis.
Ângela suspirou, aconchegando-se ao peito largo e forte.
— Você se recorda daquela noite em que chegou aqui e o entregador jogou o jornal
contra a porta me assustando? — indagou ela.
— Sim.
— Quando você me abraçou, pude sentir seu calor, seu perfume másculo, seu
coração batendo junto ao meu. Eu não queria que você me soltasse mais. Senti e soube
desde aquele instante que você cuidaria de mim. Que eu poderia confiar em você. Brett

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sentiu uma pontada de remorso, fechando os olhos. — Acho que esperei por este momento
desde então — ela concluiu, sorrindo.
— E Philip? Por que você jamais se entregou a ele?
— Porque nunca estive apaixonada por ele. E, depois que conheci você, tive certeza
de que jamais o amaria.
— E antes dele?
— Houve um colega da universidade. Foi um erro. — Ela fez uma pausa e ergueu o
rosto para encará-lo. — Mas acho que não devemos nos preocupar com o que aconteceu no
passado.
Como Brett continuasse calado, Ângela continuou:
— Eu fiquei com ciúme daquela mulher durante a festa.
— Oh! Ficou com ciúme de Eunice? — Ele meneou a cabeça, sorrindo. — Tudo o
que ela fez foi pendurar-se em mim como se fosse um quadro na parede.
— Eu percebi. No instante em que ela o viu, esqueceu-se completamente de
Hathaway. O que aquela moça fazia aqui com ele? Ela tem idade para ser filha dele!
— Eunice trabalha para a campanha eleitoral do senador Hathaway.
— Boa desculpa. Que tipo de campanha ela poderia fazer?
— A garota me pareceu bastante agradável e eficiente — ele retrucou, provocando-a.
— Estou certa de que ela foi bastante "agradável e eficiente" com você.—- Ângela
falou num tom ríspido, afastando-se.
— Você está sendo ridícula! — Brett sussurrou-lhe junto ao ouvido. — Todo o tempo
em que estive com Eunice fiquei desejando que fosse você que estivesse no lugar dela.
Para provar com atos as palavras que acabara de pronunciar, Brett baixou a cabeça
e apossou-se de um dos mamilos rosados, sugando-o gentilmente.
Ângela fechou os olhos, a respiração acelerada, e aconchegou-se mais no corpo dele.
Circulando o mamilo enrijecido com a língua, Bret intensificou as carícias até que ela
gemesse de prazer, contorcendo-se sensualmente e puxando-o para cima de si.
— Ainda não, doçura — disse, começando a sugar a outra auréola, levando-a a um
ponto tão intenso de desejo que ela começou a arranhar-lhe as costas com as unhas.
A boca carnuda, então, deslizou para o ventre macio, depois para as coxas roliças,
até encontrar o sexo quente e úmido. Quando isso aconteceu, Ângela contorceu o corpo e
gemeu alto, emaranhando os cabelos dele com suas mãos ávidas.
Sentindo-a cada vez mais excitada, Brett repetiu as carícias até que ela o agarrou
firme pelo pescoço, tão ansiosa por possuí-lo que escorregou o corpo para baixo, na ânsia
de encontrá-lo.
— Você me quer? — ele indagou, num tom ofegante.
— Sim, sim — ela respondeu, avançando mais.
— Então, diga que você me deseja, que quer fazer amor comigo.
Fitando-o diretamente nos olhos, ela balbuciou:
— Eu quero fazer amor com você, Brett. Sempre quis.
Depois beijou-o com paixão, gemendo baixinho no instante em que ele a penetrava,
com as mãos firmes prendendo-lhe os braços contra o colchão. Ângela enterrou os
calcanhares nas nádegas firmes, forçando-o a penetrá-la ainda mais fundo.

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— Calma, querida. — Ele recuou um pouco. — Desta vez nós iremos mais devagar.
Quero que você saboreie comigo todas as delícias deste momento.
Ângela acordou na manhã seguinte quando o sol já estava se infiltrando pelas
frestas das persianas. Sorrindo satisfeita, rolou o corpo para o lado e examinou Brett que
ainda dormia a seu lado.
Ele estava de bruços, o dorso nu evidenciando-lhe todos os músculos. Percorreu os
dedos pelas costas bem desenvolvidas. O detetive se mexeu, mas não acordou.
Ângela levantou-se, escolheu algumas roupas e dirigiu-se ao banheiro a fim de
tomar uma ducha. Trinta minutos mais tarde, retornou ao quarto com uma bandeja
contendo café, biscoitos e o jornal da manhã.
Rolando o corpo na cama, Brett piscou diante da claridade do dia, mas, quando a
figura de Ângela se definiu diante de si, sorriu.
— Bom dia! — ela cumprimentou, inclinando-se sobre ele e depositando-lhe
pequenos beijos no pescoço firme.
— Hummm... Você vai correr ao longo do rio hoje?
— Hoje é domingo. Não haverá exercício algum.
— Ótimo. —- Ele agarrou-a pela cintura e deslizou a mão por baixo do tecido da
blusa, buscando-lhe os seios macios.
Ângela riu, lutando para se afastar.
— Não faça isso. Hoje está um lindo dia e, embora a idéia me agrade muito, não
pretendo passá-lo na cama com você. — Pegou o jornal e brandiu-o diante dos olhos dele.
— Porém, li algo muito interessante aqui. Adivinhe aonde vamos hoje?
Brett jogou-se na cama, gemendo.
— Não tenho a menor idéia, porém estou certo de que você já decidiu.
Ângela riu.
— Vamos até o cine Odeon para assistir a um filme com Gregory Peck e Audrey
Hepburn. Já o vi na televisão algumas vezes — informou, entregando a ele uma xícara de
café.
— E sobre o que é esse filme tão maravilhoso?
— Bem, é sobre uma princesa... Brett soltou um suspiro profundo.
— Vai me deixar continuar ou não? — ela indagou.
— Eu não disse nada!
— Entretanto, suspirou ruidosamente. Bem, é a história de uma princesa que
resolve escapar de sua vida rotineira por alguns dias enquanto está em Roma.
— E então?
— Ela conhece Gregory Peck, que é um repórter. Todavia, não sabe que se trata de
um repórter e ele mantém isso em segredo para poder obter uma boa reportagem sobre a
princesa.
Brett sentiu um calafrio.
— Quer dizer que ele a engana? — indagou.
— Isso mesmo.

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Momentos Íntimos 72
— E... o que acontece depois? — ele perguntou interessado, — Bem, eles se
apaixonam e, no fim, ele resolve não escrever a história. Ela volta para a família e, numa
recepção, o repórter devolve-lhe as fotos que havia tirado dela para publicar no jornal.
— Quer dizer que a princesa o perdoa? — ele arriscou, atento à expressão de Ângela.
— Sim, porque ela sabe que o repórter realmente se preocupa com ela. É uma linda
história.
— Já percebi por que você gostou do filme — ele comentou, colocando a xícara na
bandeja e dando palmadinha no lado do colchão vazio. — Venha até aqui.
Ângela enlaçou-o pelo pescoço e, jogando a cabeça para trás, suspirou satisfeita.
— Brett, nem posso acreditar que você esteja aqui comigo — comentou, num tom
suave.
— Mas estou — ele respondeu colocando a mão no botão de pressão do jeans que ela
usava. — Deixe-me provar-lhe isso novamente.
E foi o que ele fez.
Não levou muito tempo para Brett descobrir por que Ângela gostara tanto do filme.
Tratava-se de uma história de amor, altamente emocional. Um "água com açúcar" escrito
para agradar a alguém com uma imaginação romântica bem desenvolvida. Quando o filme
terminou, Ângela enxugou as lágrimas com as costas das mãos.
— Não foi lindo? — indagou, sorrindo.
— Muito bom — ele respondeu, depositando-lhe um beijo na testa.
Ambos saíram de mãos dadas. Já na calçada, Ângela apontou para o outro lado da
rua, informando:
— Vamos até a Cidade do Cinema. Ela fica aberta aos domingos.
— E posso perguntar o que é a Cidade do Cinema?
— É uma loja de curiosidades, onde vendem pôster de artistas de cinema.
— Como aqueles que estão pendurados na parede do seu quarto? — ele disse, rindo.
Ângela sorriu e eles atravessaram a rua correndo, para comprar mais uma foto
romântica para a sua coleção.
Ângela estudou até depois da meia noite, pois queria compensar o tempo perdido,
enquanto Brett lia um livro, no andar inferior. No final, a fadiga acabou por dominá-la e
ela cochilou sobre o amontoado de papéis.
Um pesadelo a agitou. Ela estava sentada à escrivaninha estudando, quando uma
sombra passou diante das portas da varanda. Assustada, gelou instantaneamente,
observando a figura invadindo o quarto através das imensas portas, deixando atrás de si
um rastro de vidros quebrados.
Dando um salto, ainda inconsciente, gritou desesperada, invadida pela sensação de
horror provocada por aquele sonho.
A porta do quarto se abriu com violência e Brett entrou, tomando-a nos braços em
poucos segundos.
— Há alguém do lado de fora — ela balbuciou, dominada pela histeria. — Um
homem atravessou a porta e quebrou os vidros.

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Momentos Íntimos 72
— Não... não... — Brett acalmou-a. — Você estava dormindo. Foi apenas um sonho.
Olhe, não há vidro algum quebrado no chão.
Ângela relanceou o olhar pelo ambiente, tentando compreender o que havia
acontecido, e relaxou o corpo, aliviada.
— Foi tudo tão real! — sussurrou.
Brett agachou-se no chão junto a ela e beijou-a repetidas vezes, embalando-a nos
braços.
— Está tudo bem agora. Estou aqui com você. Ângela agarrou-se a ele e, de repente,
o abraço protetor começou a se transformar. As tentativas de confortá-la passaram para
uma carícia de desejo e suas bocas se encontraram num beijo apaixonado.
Brett pegou a mão de Ângela e conduziu-a na direção de seu membro, permitindo
que ela sentisse toda a força de sua masculinidade. Os dedos delicados o envolveram,
fazendo-o gemer de prazer.
Sem esperar mais um segundo, ele começou então a se despir e, antes que
terminasse a tarefa por completo, Ângela aconchegou-se no peito largo e ambos rolaram
pelo chão. Com movimentos rápidos e experientes, Brett livrou-a do robe de veludo e da
camisola fina, e ficou a admirá-la no conjunto.
Completamente nua, Ângela manteve os braços estendidos acima da cabeça,
esperando que seu amado tomasse a iniciativa de possuí-la. Como isso, porém, estivesse
demorando muito a acontecer, ela inclinou o corpo para a frente e deslizou os lábios
úmidos pelo peito rígido, esfregando a face na densa camada de pêlos negros e
percorrendo a linha escura e aveludada até a altura dos quadris.
Quando o rosto delicado voltou-se para o membro viril enrijecido, Brett estremeceu,
quase perdendo o fôlego. Num movimento rápido, afastou-se, desafivelou o cinto com as
mãos trêmulas, livrou-se da calça e carregou-a para a cama.
Ângela gritou ao sentir o sexo poderoso e intumescido penetrar em si. Apreensivo,
Brett ergueu a cabeça e perguntou:
— Eu machuquei você?
— Não, você jamais me machucaria — ela gemeu, arqueando o corpo para colar-se
ao dele.
Notando-lhe o arrebatamento, Brett prosseguiu com o ato numa onda avassaladora
de prazer, aumentando o ritmo de seus movimentos com uma força possante e
estimuladora. Assim que tudo terminou, os dois deixaram-se cair sobre a cama, entregues
e exaustos, uma camada de suor cobrindo-lhes o corpo.
— Você está bem? — Brett murmurou por fim, mexendo-se e puxando o lençol
sobre eles.
— Sim — ela respondeu, ainda trêmula.
Cobrindo o rosto com as mãos, ele soltou um gemido surdo.
— Sinto muito. Não pretendia fazer isso. Prometi que deixaria você trabalhar e que
ficaria no andar de baixo. Em vez disso, acabei invadindo o seu quarto e... — Fez um gesto
na direção da cama desarrumada e molhada de suor. — Que droga!
— Não foi culpa sua — ela retrucou, beijando-lhe o tórax de músculos firmes. —
Você veio me salvar de um pesadelo.

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— Será minha culpa se você não conseguir se sair bem nos exames — ele murmurou,
contrariado. — Sou mesmo um bruto e você é tão... delicada.
— Eu não sou delicada. — Ângela sorriu com ternura. — Eu estava querendo
participar. Portanto, pare de agir como se estivesse se aproveitando de mim. Se não tivesse
feito o que fez, eu estaria implorando. Estou certa de que você sabe que as mulheres
também sentem o mesmo que os homens. A única diferença é que somos um pouco mais...
discretas. Brett sorriu.
— Assim está melhor — ela comentou, satisfeita, aconchegando-se nos braços
fortes.
Ele se mexeu sobre o leito para acomodá-la melhor e bateu com o cotovelo na
mesinha de cabeceira que foi empurrada para o lado.
Ângela riu baixinho.
— Por favor, não quebre mais nada. Primeiro a estatueta de cristal, depois o vaso de
cerâmica na cabeça de Philip... Quando meu tio voltar para casa, você já terá derrubado
quase tudo.
A menção do nome do rival trouxe-o de volta à realidade.
— Ângela, o que você vai fazer em relação a Philip?
— Havia uma mensagem dele na secretária eletrônica — ela respondeu, suspirando.
— Vou telefonar para ele amanhã cedo e pedir que venha até aqui à noite.
Brett ficou em silêncio, pensando no outro homem. Embora desejasse imensamente
prendê-lo juntamente com seu empregador, o departamento não conseguira estabelecer
ligação nenhuma entre Philip e o negócio de drogas de Patrian. Na realidade, o único dos
empregados de Frank que estava envolvido nas atividades ilegais de narcóticos era Harold
Simmons. O restante parecia ver o tio de Ângela como um real importador de arte.
— Um tostão pelos seus pensamentos — Ângela comentou de repente,
sobressaltando-o.
— Oh, só estava divagando.
— Brett, você acha que tudo isso vai terminar logo? Ele retesou o corpo, alarmado.
Então, deduziu que Ângela se referia às ameaças de morte que sofrerá.
— Não pode durar muito — retrucou. — Seu tio está pagando a uma série de pessoas
para cuidar do caso. Eu sou um entre muitos. Frank Patrian sabe como fazer as coisas.
— Espero que sim, pois quero que saiamos disto com vida — Ângela comentou num
tom de voz sonolento, preparando-se para dormir.
Brett esperou até que ela adormecesse para sair da cama. Vestiu as calças, pegou o
restante das roupas e foi direto para o andar de baixo. Retornou minutos mais tarde.
Enfiou a lingueta de plástico na fechadura do quarto, como já fizera antes, e desceu
novamente para pegar os instrumentos necessários para recolocar o microfilme no cofre.
O departamento já possuía uma cópia.
Durante a noite, Brett retornou ao quarto de Ângela e, na manhã seguinte,
enquanto ela tomava um banho, aproveitou para telefonar ao escritório central, pois Josie
ainda não tinha chegado.

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Conforme esperava, o microfilme continha informações valiosas. Contudo, ainda
havia algo para ser feito. Parecia que o último item de informação necessário para fechar o
cerco encontrava-se num cofre de segurança, num dos bancos locais. Era uma sucursal
pequena, onde não faziam perguntas e o portador da chave poderia abrir o cofre sem ter
necessidade de se identificar.
O escritório central já tinha entrado em contato com o guarda do banco e ele se
recordava de ter visto uma moça por lá, com as mesmas características de Ângela, pedindo
para abrir uma das caixas de segurança. Ele também informou que, normalmente, não
costumava prestar atenção às pessoas que o procuravam, pois sabia que seus patrões
gostavam de privacidade. No entanto, não podia se esquecer da moça bonita, alta e esguia,
de longos cabelos avermelhados, que ia até lá de vez em quando.
Brett praguejou em silêncio. Aquele sujo do Patrian estava usando Ângela como
mensageira especial. E, sem saber de nada, ela transportava as informações, colocando-as
no cofre do banco.
Patrian conhecia muito bem a sobrinha. Sabia que ela confiava nas pessoas e jamais
questionaria o que ele lhe pedisse.
Furioso, Brett deu um soco na parede acima do telefone. Teria imenso prazer em
jogá-lo na prisão por, pelo menos, cem anos!
Entretanto, precisava primeiro daquela chave. E era Ângela quem a possuía.

CAPÍTULO VII
Josie notou que alguma coisa havia mudado, no instante em que colocou os pés
dentro de casa e avistou Angela radiante e corada de tanta felicidade.
- Acho que fui embora cedo demais no sábado — comentou, num tom irônico. —
Deveria ter ficado por aqui e observar os acontecimentos que se seguiram.
Ângela sorriu embaraçada, sem fazer qualquer comentário.
— Bem, tudo o que posso dizer é que, graças aos céus, a tensão que reinava nesta
casa parece ter desaparecido — a empregada acrescentou.
— Eu que o diga — Ângela comentou, secamente.
— E Philip?
— Virá aqui esta noite.
— Parece interessante...
— Por favor, por ora não quero pensar nesse assunto. Brett entrou na cozinha e
parou de repente, corando violentamente. As duas mulheres olharam para ele e a cor
normal voltou-lhe às faces lentamente.
— Olá, sra. Clinton.
— Olá. Sente-se e coma um pouco. Deve estar precisando recuperar as forças. Tenho
certeza de que o fim de semana foi muito cansativo.

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Brett encarou Ângela e depois desviou o olhar para Josie. Ambas lançaram-lhe um
sorriso amplo.
— Parece que vocês estão tremendamente satisfeitas — observou.
Elas riram com mais vontade ainda.
— Ah, o amor! — Josie suspirou. — Faz muito tempo. Porém, ainda me recordo bem
desse sentimento. Ande Ângela. Pegue o café. Você não deve estar assim tão cansada.
Enquanto a criada ria para si própria. Angela obedeceu, dando uma olhadela na
direção de Brett.
Ele piscou um olho e ela teve certeza de que conseguiria se livrar de Philip e de tudo
o mais que se colocasse no seu caminho.
Holly voltou a expressar os mesmos sentimentos de Josie naquele dia, um pouco
mais tarde, quando contemplou Ângela sair da sala de aula acompanhada do guarda
costas, que a segurava pelo ombro carinhosamente.
No instante em que depararam com Holly, Brett deixou que sua mão escorregasse
ao longo do corpo de Ângela disfarçadamente.
— O que está acontecendo? — a amiga sussurrou ao ouvido de Ângela ao se
afastarem para um canto. — Brett parece nervoso.
— Acho que deve estar preocupado com sua reação quando souber da novidade.
— Que novidade? — Holly encarou-a diretamente, adivinhando o que acontecera. —
Ah, não. Mal consigo acreditar. — Abraçou Ângela impetuosamente. — Que bom! Ele é
maravilhoso e só Deus sabe o quanto você merece ser feliz. — Fez uma pausa e resolveu
indagar: — Mas por que Brett está preocupado com o que eu possa pensar?
Ângela ergueu os ombros, num gesto indiferente.
— Você é minha amiga e eu me importo com a sua opinião. Acho que ele também.
— Vocês não poderiam ter me dado melhor notícia. Pedindo licença a Ângela, Holly
caminhou na direção do detetive e, com um sorriso matreiro nos lábios, ficou na ponta dos
pés e beijou-o no rosto. Brett olhou para Ângela, constrangido.
— Eu sabia que você ainda a conquistaria — Holly comentou, num tom de
conspiração. — Seu demônio!
Pela segunda vez naquele dia, ele corou.
— Divirtam-se, vocês dois! — Holly exclamou, se despedindo com um aceno de mão.
À hora do jantar, um tanto pensativa, Ângela brincava com a comida no prato,
temendo o encontro com Philip, que estava prestes a chegar.
Josie trocou vários olhares significativos com Brett e, por fim, disse:
— Penso que seria melhor você ficar fora disso esta noite.
— Farei o que Ângela quiser — ele retrucou.
— Gostaria de resolver este assunto sozinha — Ângela comentou, intervindo.
— Então, estarei no quarto, caso precise de mim — Brett remendou.
— Por que você não sai para dar um passeio? — Josie aconselhou. — A última coisa
que um namorado rejeitado precisa é do rival vitorioso se gabando à sua volta.
— Não estou me vangloriando de nada.

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— Ah, não? — a criada perguntou num tom áspero. — Você me parece um tanto
presunçoso.
— Por que você está me provocando, Josie? Quer complicar a minha vida? — Brett
murmurou, enquanto se levantava da cadeira para cortar mais uma fatia de carne assada
que estava sobre a pia.
— Não é isso, não — a criada respondeu. — Só quero ter certeza de que não vai
complicar a vida de Ângela.
Brett colocou a faca sobre o balcão e ergueu as mãos.
— Estou fora disso, está bem? Mas, se aquele sujeitinho ousar dizer ou fazer algo
que possa magoar Ângela, não vou ficar quieto!
Sabendo da batalha travada entre os dois homens na noite da festa, Josie cruzou os
braços e fitou-o diretamente nos olhos.
— Ótimo! — exclamou. — Talvez assim tenhamos mais um episódio como aquele em
que você quebrou o vaso de cerâmica. Estou certa de que, no dia seguinte, o vaso estava
em melhores condições do que Philip.
— Parece que você está com pena dele, Josie — Ângela interveio.
— Não desperdice suas emoções com aquele palhaço — Brett esbravejou num tom
irado, jogando a cadeira para trás e saindo da cozinha com passos duros.
Ângela estava prestes a segui-lo, porém desistiu.
— Parece que mexi com os brios de seu querido guarda costas — Josie disse,
recolhendo o prato dele.
— Você está com pena de Philip? — Ângela insistiu.
— De um certo modo, sim. Ele não teve qualquer chance desde o instante em que
Brett passou pela porta de entrada desta casa.
— O que quer dizer? Josie ergueu os ombros.
— Brett é charmoso, querida. Ele não precisa nem se esforçar para encantar todo o
mundo.
Ângela não disse nada. Não havia o que discutir sobre isso.
— Agora está se sentindo culpada por colocar um ponto final nesse relacionamento,
não é? — a criada indagou e Ângela assentiu com um gesto de cabeça, sem esconder a
tristeza que sentia.
— Eu sei que enganei Philip. Eu não o amava, no entanto, deixei-o aproximar-se de
mim só porque fui covarde o suficiente para não discutir o assunto antes. Porém, quando
conheci Brett...
— Não conseguiu mais continuar a encenação, pois viu o quanto os dois homens
eram diferentes.
— Como é que você sabe de tudo isso? — Ângela perguntou, sorrindo amarelo.
— Conheço você muito bem e sei que jamais magoaria uma pessoa
intencionalmente.
— Mas tenho de fazer isso com Philip.
— É claro. Seria bem pior para ele se você o deixasse acreditando que ainda há
esperanças.

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— O problema não é só isso, você sabe. Ele tinha grandes planos quanto aos
negócios de tio Frank. Seria muito interessante para ele se casar com a filha do patrão. No
meu caso, a sobrinha. E receber tudo de mão beijada, num lindo pacote embrulhado para
presente.
— Ângela, você nunca pára de me surpreender. Eu sabia que você conhecia as
intenções de Philip, mas não pensei que as tivesse analisado tão friamente.
— Pensei bem em cada item. Por isso achei Brett tão atraente. Desde o início ficou
bastante claro que ele não se interessava pelo dinheiro de tio Frank. — Ângela riu. — Ele
até acha a limusine obscena!
— Ah, então foi isso? — a criada disse num tom divertido. — Pensei que tivesse se
apaixonado por ele por causa dos belos olhos cintilantes e do sorriso insinuante.
— Isso também.
A criada riu e Ângela pôs-se de pé, incapaz de continuar comendo.
— Não estou com apetite — informou. — Acho que só vou me sentir melhor quando
esclarecer tudo com Philip. — Colocou os pratos na pia, ajudando Josie na arrumação.
Brett pescou o molho de chaves da bolsa de Ângela, enquanto ela se preparava para
receber Philip. No instante em que Josie foi embora, enfiou o chaveiro no bolso e dirigiuse para o quarto de hóspedes.
O escritório central fornecera-lhe um pouco de cera para fazer cópia das chaves.
Entretanto, não estava certo de que a quantidade enviada seria suficiente para copiar
todas. Examinou atentamente cada chave, enumerando aquelas que já vira Ângela usar.
Finalmente, restou uma, bem pequena, do tipo que poderia perfeitamente abrir uma caixa
de segurança. Imprimiu-a na cera, imaginando que aquela seria a única maneira de ter
acesso ao conteúdo daquele cofre no banco.
Minutos mais tarde, ouviu a campainha soar, anunciando a chegada de Philip
Cronin, e colocou-se junto à porta do quarto, deixando-a entreaberta, para ouvir cada
palavra.
"Se aquele almofadinha causar problemas a Ângela, ficará arrependido para o resto
da vida", pensou inquieto.
Ângela deu um passo atrás, dando passagem a Philip, que se inclinou para beijá-la
na boca. Porém, com o seu desvio, o beijo foi dado na face. Imediatamente, ele a pegou
pelos ombros, obrigando-a a encará-lo.
— Há alguma coisa errada? O que houve?
— Philip vamos até a sala de estar. Quero conversar com você sobre algumas coisas.
Ele a seguiu com uma expressão preocupada. Notou que havia algo no ar; no
entanto, resolveu esperar para ver o que era. Sentou-se numa banqueta diante da lareira,
sem desviar os olhos da namorada por nem uma fração de segundo.
— Bem, o que é? — indagou, quando ela ocupou o lugar à sua frente.
— Philip, acho melhor não nos vermos mais. Nosso relacionamento não está dando
certo e, naquela noite, deduzi que seria injusto ocupar o seu tempo. Ainda não estou
preparada para enfrentar um compromisso mais sério.

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Philip entreabriu os lábios, surpreso, e pela primeira vez Ângela percebeu a mancha
arroxeada que tinha no canto da boca, vestígio do último encontro com o rival.
— Você quer dizer que está tudo terminado entre nós? — ele perguntou atordoado.
— Acho que assim será melhor para nós dois.
— Ouça Ângela. Sei que fui precipitado e quis forçar as coisas naquela noite, e a
cena com seu guarda costas não foi muito agradável... — Philip parou de repente, a
expressão transformando-se. — Então é isso! É aquele gorila que seu tio contratou para
segui-la por todos os lados. Ele é a razão dessa sua conversa!
Ângela não negou e Philip pôs-se de pé, andando de um lado para o outro.
— Ângela, você deve estar brincando — afirmou atônito. — Aquele sujeito... ele é um
oportunista, um caça dotes estúpido, isto é o que ele é!
— Não penso assim.
— Ah, claro que não! Na certa, ele disse que a amava.
— Disse sim.
— Ele ama a fortuna do seu tio!
— Acho que essa acusação serve muito mais para você, Philip — Ângela afirmou,
num tom calmo.
Ele deixou passar o comentário. Sentou-se ao lado dela e, pegando-lhe as mãos
entre as suas, falou com sinceridade:
— Ângela, você está cometendo um terrível engano.
— Acho que terei que me arriscar.
— Mal posso acreditar que você tenha se deixado influenciar pelo jeito dele.
— Que jeito, Philip?
— Oh, aquele jeitão silencioso, aquele ar de "machão" dos tempo de John Wayne.
Não acha que ele está fora de moda?
— Lamento muito que você ache Brett um dissimulado. Entretanto, nem todos
falam como você, Philip. Sei que muitos homens não expressam seus sentimentos, mas
isso não quer dizer que sejam imunes a eles.
— Contudo, ele não precisa falar muito na cama, não é? — Philip retrucou, num tom
pedante. — Estou certo de que ele é bem expressivo nessas condições.
Ângela pôs-se de pé de imediato.
— Acho melhor você ir agora.
— Então, eu acertei, não é? Você me manteve a distância todo esse tempo e bastou
esse sujeito surgir para conquistá-la no mesmo instante.
— Já chega, Cronin — Brett anunciou da porta. — Por que não vai para casa?
— Ah, aí está o homem que aparece quando não é esperado — Philip disse,
voltando-se para encará-lo.
— Brett, eu pedi para você ficar fora disso — Ângela implorou num tom
desesperado.
— Eu ouvi quando ele berrou com você, Ângela, e não pude me conter. Não vou
suportar os desaforos desse palhaço!
Philip cerrou os dentes, erguendo o queixo em desafio. Ângela sentiu um aperto no
coração.

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— Por favor, Philip — pediu. — Prolongar tudo isso, com vocês dois se insultando
deste jeito, não vai mudar meu modo de pensar.
Philip mediu Brett de alto a abaixo, como se avaliasse se deveria atacá-lo ou não.
Por fim, para alívio de Ângela, ajeitou a lapela do paletó e passou por ela como um raio,
ignorando o guarda costas.
— Vou embora — anunciou, num tom ríspido. — E nunca mais porei os pés aqui!
Não me telefone, Ângela, quando chegar à conclusão de que se meteu numa enrascada! —
Escancarou a porta e bateu-a com força ao sair.
Ângela sentiu-se desfalecer. Porém, Brett já estava ao seu lado, amparando-a com
sua força.
— Foi horrível — sussurrou, fechando os olhos.
Ele massageou-lhe as costas com as palmas das mãos.
— Eu sei — disse, tentando acalmá-la. — Entretanto, tinha de ser feito e agora já
está tudo terminado.
— Eu o magoei. Por isso ele foi tão cruel comigo. Philip sempre reage assim quando
sofre.
— Você é incrível — Brett disse, balançando a cabeça, admirado. — Aquele sujeito a
insultou e ainda assim você está preocupada com os sentimentos dele!
— Não é fácil ver todos os seus planos futuros destruídos em questão de minutos —
ela retrucou.
— Suponho que ele realmente pensava que se casaria com você.
Mantendo-a bem junto de si, Brett pensou no que Ângela acabara de fazer. Ela agira
daquela forma baseada na suposição de que ele era um detetive particular que, seguindo os
rumos do destino, provocara mudanças radicais em sua vida. Será que se arrependeria
quando descobrisse a verdade?
— Philip encontrará alguém mais — Ângela disse, interrompendo-lhe os
pensamentos. — Uma pessoa que o ame de verdade. — Ergueu os olhos para Brett. — Da
mesma maneira que eu amo você.
Ele intensificou o abraço, aconchegando-a mais em seu peito largo.
— Não o odeie, querido. Eu não odeio Philip. Tudo o que aconteceu foi mais por
minha culpa do que dele.
— Bem, pelo menos ele deixou de conhecer algumas verdades sobre você.
Ângela afastou-se um pouco, fitando-o diretamente nos olhos.
— Que verdade?
— Se Philip chegasse a morar aqui, descobriria que você corre para o banheiro a
cada cinco minutos para escovar os dentes. Isso sem mencionar o fato de que você gosta de
ouvir rock a todo o volume.
Ângela encarou-o com uma expressão exasperada. No entanto, sabia que ele estava
agindo desse modo para animá-la, para fazê-la se esquecer da cena com Philip, e o amou
ainda mais por isso.
— E o que há de errado com a música?
— Todas parecem iguais.
— E você parece um velho fóssil. De que tipo de música você gosta?

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— Country. Willie Nelson é o meu cantor preferido. — Ele sorriu abertamente.
— Ah, espere aí. — Ângela estava horrorizada. — Aquela música caipira do oeste
cantada ao som de um violão fanhoso?
— Claro!
— Não acha que elas também parecem todas iguais? Os dois se entreolharam por
um longo instante e então caíram na gargalhada.
— Está bem — Ângela cedeu. — Vamos fazer um trato. Eu escolho um dos meus
discos de rock predileto e você o ouve até o fim. E, na próxima vez, eu ouço um dos discos
de Willie Nelson, especialmente escolhido por você. O que acha?
Brett estendeu-lhe a mão e ela a apertou, selando o pacto. Subitamente, porém, ele
a pegou no colo e encaminhou-se para o quarto, murmurando baixinho:
— Vamos celebrar o nosso trato?
Brett e Ângela se amaram como nunca. Acariciando-se mutuamente, explorando o
que de melhor tinham para se dar.
Quando terminaram, ela se agarrou a ele, deslizando as mãos pelos cabelos escuros,
pelos ombros grandes, como se não pudesse mais parar de tocá-lo.
— Quero voltar a Connecticut — informou, de repente. — Quero montar Viçosa
novamente e quero que você faça amor comigo naquele celeiro, onde fomos
interrompidos.
— É disso que eu gosto, de uma mulher que sabe o que quer — Brett brincou,
movendo-se para pegar o maço de cigarros do bolso da camisa que repousava no chão.
Ângela relanceou o olhar pelo ambiente, enquanto ele riscava o fósforo e dava a
primeira tragada, e notou que a chave da gaveta superior da cômoda não estava na
fechadura.
— Querido, por que você mantém a gaveta de cima trancada? — quis saber.
Brett retesou o corpo, alarmado. A seguir, controlou-se, tentando relaxar.
— Guardo meu revólver e a munição lá dentro. Parece mais seguro. Não gostaria de
ver alguém ferido por uma displicência minha.
— Mas somente eu e Josie estamos aqui, Brett. Ele fez um gesto indiferente com os
ombros.
— É um procedimento normal lá no departamento, Ângela. Faz parte do nosso
treinamento. — Ele deu uma longa baforada, atento para verificar se a tinha convencido.
— Oh, sim. Só que achei um tanto estranho.
Naquela noite, enquanto Ângela dormia, Brett fez várias impressões da chave que
selecionara, recolocando-a no chaveiro e devolvendo-o ao lugar de onde o tinha pego.
Na manhã seguinte, enviaria as impressões para o escritório central, onde a chave
seria duplicada. E o próximo passo seria a visita ao banco.
Naquele fim de semana, eles retornaram à fazenda de criação de cavalos e Ângela
teve sua segunda aula de equitação. Já tinha melhorado bastante, mantendo-se firme na
sela e não entrando em pânico a cada novo movimento.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Depois de uma longa cavalgada, eles se dirigiram ao celeiro e fizeram amor, como
ela pedira.
A caminho da cidade, pararam num restaurante no campo, onde Ângela se
recordava de ter estado uma vez com o tio. Ele ficava localizado às margens do rio
Connecticut e tratava-se de uma construção histórica que, cinqüenta anos atrás, havia sido
convertida em hotel. Agora, os quartos estavam fechados e a única parte em
funcionamento era o salão transformado em restaurante e uma imensa cozinha na parte
posterior.
Uma garçonete vestida a caráter acompanhou-os até uma mesa de carvalho
redonda, iluminada por um lampião de latão. Tapetes gastos estavam espalhados pelo
chão de tábua corrida e as paredes de tijolo aparente, enfeitadas com recordações da
guerra revolucionária, desde bandeiras até quadros bordados em ponto de cruz. Quando
estavam pedindo as bebidas, uma voz ao som do violão vinda da sala anexa chegou até
eles.
— Entretenimento? — Brett indagou.
— Parece que sim.
— Sem pífanos e tocadores de tambor?
Ela o chutou por debaixo da mesa, comentando:
— Você está com ciúme porque a única coisa que vocês têm no Kansas é trigo.
— Está enganada, mocinha. Temos muitos lugares históricos, especialmente
monumentos referentes à Guerra Civil.
— Você sente falta de casa, Brett? — Ângela perguntou, enquanto a garçonete
servia-lhes o vinho.
O olhar dele focalizou-se a distância, trazendo-lhe de volta as memórias do passado.
— Algumas vezes. É realmente muito bonito quando as plantações estão prontas
para serem colhidas. Você sempre zomba de mim a respeito das "ondas cor de âmbar",
mas é exatamente o que elas parecem. Quando a brisa sopra nos campos de trigo, eles
parecem um oceano de ondas douradas.
Ângela baixou a cabeça, comovida, e disse num tom suave:
— Gostaria tanto de vê-los!
— Você verá — Brett assegurou-lhe, cobrindo-lhe as mãos com as suas.
As portas que separavam os dois ambientes foram abertas e a música tornou-se
mais audível. Uma voz melodiosa de tenor cantava bem afinada. A letra retratava com
bastante similaridade a situação que eles viviam naquele instante e Brett remexeu-se na
cadeira, pigarreando para afastar o constrangimento.
— Não gostou da canção? — Ângela indagou.
— Acho que sim — ele respondeu, brincando com o drinque.
— Muito real, não é? — ela insistiu.
— Eu acho que a garçonete está esperando que façamos o pedido — Brett retrucou
num tom decidido, deixando o assunto indesejado.
Preocupada, Ângela escolheu o prato mecanicamente. Estava atordoada com as
mudanças de humor do amante e não pôde deixar de notar que algo o incomodava, e
muito.

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Momentos Íntimos 72
Pouco conversaram enquanto comiam e, depois de pagar a conta, Brett tomou o
café lentamente, como se evitasse a hora de partir.
— Você gostaria de dar uma olhada na varanda da parte posterior? — Ângela
indagou. — Ela dá para o rio e tem-se uma vista linda de lá.
Ele sorriu de leve, concordando, e ambos se dirigiram para os fundos do edifício,
por uma passagem estreita. Eles foram os únicos fregueses que se aventuraram a observar
a paisagem.
— Não é maravilhoso? — Ângela perguntou, deslumbrada.
— É sim. Quando era pequeno, minha avó tinha uma varanda igual a esta na casa da
fazenda.
Ângela ficou em silêncio, pois era raro ouvi-lo falar da família.
— Nas noites de verão, ela se sentava numa cadeira de balanço e nos contava
histórias incríveis — ele prosseguiu. — Ainda posso ouvir a voz dela. Ela tinha sotaque
escocês e costumava falar sobre fantasmas, o que nos deixava a todos de cabelos
arrepiados. — Riu baixinho.
— Minha avó gostava mais de mim do que dos outros, porque fui batizado com o
seu nome de solteira: Brett.
— O tom de voz dele mudou. — Deus, como senti a falta dela quando morreu.
Ângela abraçou-o pela cintura, pressionando os lábios na base firme do pescoço.
— Querido, o que houve? Alguma coisa o preocupa e gostaria de participar de seus
problemas. Você está fumando demais e parece exausto. Posso ajudá-lo?
Brett simplesmente lhe colocou a mão na nuca macia, segurando-a gentilmente,
sem responder.
— Você não está feliz? — ela continuou, com tristeza. — Pensei que o faria feliz.
— E me faz sim, me faz muito feliz. — Ele roçou os lábios nos cabelos avermelhados,
desesperado.
— Algo está errado, Brett. Eu sinto isso. O que é? — ela insistiu.
Intensificando o abraço, Brett suspirou profundamente.
— Está bem — Ângela concordou, por fim. — Não posso forçá-lo a falar. Entretanto,
sei que não se trata somente do seu trabalho. Você é perfeitamente capaz de cuidar de mim
e não é isso o que o preocupa.
— Ângela, por favor. Não me pressione. Não estou no banco dos réus.
Ela tentou se afastar, porém ele a segurou depressa.
— Ângela, Ângela... — falou, num tom de agonia.
— Eu te amo tanto. Amo você mais do que qualquer coisa no mundo. Você acredita
em mim, não é?
— É claro que eu acredito. Entretanto, gostaria de saber o que o aflige. Estou
pedindo demais?
Ela ergueu o olhar e viu o queixo determinado, a boca firme, os olhos velados e
incomunicáveis. Aquele homem jamais falaria, nunca conseguiria persuadi-lo. Um tremor
percorreu-lhe o corpo e Brett sugeriu:
— Vamos embora? Você está ficando com frio.

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Momentos Íntimos 72
Naquela noite, enquanto faziam amor, havia uma espécie de pânico dominando
Brett. Era como se ele quisesse marcá-la, colocar um rótulo indelével, estabelecendo que
ela era dele para sempre não importando o que viesse a acontecer.
Muito tempo depois, ainda acordada, Ângela ficou imaginando o que significava
aquele silêncio determinado e se seu sonho de uma vida em comum ainda teria chances de
ser realizado.
Na manhã seguinte, quando voltaram das aulas, Brett esperou até que Ângela
entrasse em casa para retirar a cópia da chave que o escritório central havia deixado num
imenso vaso de plantas à entrada da mansão, um lugar previamente combinado. Então,
aguardou até que Josie saísse para sua tarde de folga e drogou o café de Ângela. E, assim
que ela adormeceu, saiu de casa, chamando um táxi.
Conforme esperava, o guarda do banco não lhe pediu para que se identificasse,
perguntando apenas o número da chave para conduzi-lo até o interior do aposento fechado
por uma porta eletrônica. Uma caixa foi posta em suas mãos pelo guarda, que um segundo
depois o deixou sozinho.
Brett inseriu a chave no orifício e teve dificuldade em girá-la por ser bastante nova.
Ao erguer a tampa com dobradiças, avistou um pilha de duplicatas, fotocópias e originais
que mais pareciam ser ordens de compra. Pegou um dos papéis e leu. No instante
seguinte, agarrou todo o conteúdo do cofre e meteu-o dentro do bolso interno do paletó.
Ali estava a prova. Patrian usava Ângela para manter o arquivo de suas ordens de
embarque, todas trazendo o título com o conteúdo dos contrabandos. Um sistema simples,
porém eficiente. E teria continuado tranquilo, e indefinidamente, com sua inocente
mensageira especial, se ele não tivesse se infiltrado no âmago daquele santuário.
Ao sair do banco, Brett ficou em dúvida se deveria procurar Ângela antes de
completar sua missão. E se ela lhe implorasse para não delatar o tio? Talvez não resistisse
ao apelo e... "Não", pensou com amargura. Iria fazer exatamente o que tinha sido
estabelecido desde o começo. Nem seu grande amor por uma linda mulher, inteligente e
carinhosa, poderia desviá-lo do propósito de retirar Frank Patrian de seus negócios
escusos.
Jogou o toco do cigarro pela grade do esgoto e se afastou. Alguns quarteirões
abaixo, parou num telefone público e fez uma chamada. Depois, erguendo a gola do casaco
para aquecer-se, permaneceu de pé na calçada até que um carro comum encostou no
meio-fio, à sua frente.
Brett retirou os documentos do bolso e entregou-os ao passageiro, sentado no banco
de trás.
— Isso é tudo? — o homem perguntou.
— Sim.
— Você vem comigo?
Brett meneou a cabeça, em negativa.
— Voltarei para casa. Ainda tenho uma coisa para resolver e não quero que entre em
contato comigo até que eu dê notícias. Está claro?
O mensageiro ergueu os ombros com indiferença.

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— Você é quem sabe — disse. — Seu trabalho já está terminado. — Fez um sinal para
o motorista e partiu noutra direção. Queria estar em casa quando Ângela acordasse.
Ângela acordou completamente desorientada. Raramente dormia à tarde e sua
cabeça parecia recheada de algodão. No instante em que se sentou, avistou Brett numa
cadeira do outro lado do quarto.
— Está acordada? — ele indagou.
Afastando os cabelos do rosto, Ângela assentiu com um gesto de cabeça.
Ele se pôs de pé e caminhou até ela, o olhar nublado, a voz calma.
— Ótimo. Tenho algo importante para lhe contar.

CAPÍTULO VIII
Angela levantou-se da cama e dirigiu-se para o toucador, a fim de escovar os
cabelos.
— O que foi, Brett? Você parece preocupado. Aconteceu alguma coisa? — indagou,
com um ar intrigado.
— Por favor, Ângela. Vamos descer. Precisamos conversar — ele falou calmamente,
encaminhando-se para a porta.
Um calafrio percorreu a espinha de Ângela ao segui-lo pela escadaria. A expressão
de Brett nada denunciava, mas o tom de sua voz mostrava que alguma coisa de errado
havia acontecido.
Uma vez na sala de estar, ele se aproximou do bar e preparou duas doses de uísque.
Ângela aceitou o copo que lhe foi oferecido, mas ficou intrigada por Brett ter-lhe servido
um drinque, já que ele sabia que ela não bebia.
— Acha que eu vou precisar disso? — indagou, num tom suave.
— Talvez — ele respondeu, depois de ter tomado a bebida de um só gole.
— Você ainda não me disse o que está acontecendo. Houve alguma outra ameaça de
morte, é isso?
Brett suspirou, os olhos cor de âmbar fixos nos dela.
—- Ângela, as ameaças "não existem". Nunca existiram. Foi tudo uma invenção para
eu poder entrar na sua casa.
— O que quer dizer? — ela o encarava confusa. — Recebi as cartas, eu as li. E as
chamadas telefônicas? Eu ouvi a voz me ameaçando. Você não poderia adivinhar...
— Ângela, "eu sei". Tudo foi arranjado para que Harold Simmons pudesse me
indicar como seu guarda costas. — Ele desviou o olhar. — Você nunca esteve em perigo.
— Harold Simmons? Do que você está falando? O que ele tem que ver com tudo
isso?

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— Foi tudo planejado por ele.
— Planejado? Brett é melhor se explicar. Já estou ficando amedrontada.
Ele tornou a encher o copo, tomou um gole e depositou-o sobre o móvel.
— Minha organização procurou Harold apontando as evidências que tínhamos
contra ele. Então, fizemos um trato para que Simmons colaborasse conosco em troca de
imunidade durante o julgamento.
— Vocês tinham acusações contra o advogado do meu tio?
— Tínhamos.
— E você está me dizendo que tudo foi forjado... os telefonemas, tudo?
— Tudo. — Os olhos aflitos piscaram ligeiramente.
— E você sabia de tudo desde o início?
— Desde o início.
Ângela tomou um gole de uísque, a fim de acalmar a onda de nervosismo que a
dominou.
— Mas, por quê? Por quê?! — exclamou.
— Para que pudéssemos conseguir provas contra seu tio...
— Meu tio?! — Ângela piscou, atônita.
— Exato.
— E que provas vocês poderiam conseguir contra ele? O que vocês acham que ele
fez?
— Há cerca de oito anos, seu tio Frank vem contrabandeando drogas para dentro do
país. Elas vêm escondidas nas peças de arte que ele importa para vender. Já faz algum
tempo que estamos tentando pegá-lo e, quando os métodos convencionais falharam,
usamos a nossa criatividade.
Ângela começou a rir.
— Narcóticos! É um absurdo! Jamais ouvi coisa tão maluca na minha vida.
— É a verdade, Ângela.
— Brett, meu tio tem um negócio de importação legítimo. Eu sei, pois eu mesma o
aconselhei em alguns itens legais. Está tudo sob controle e é negócio limpo, posso lhe
garantir.
— Ele cuida dos negócios genuínos a maioria do tempo, concordo plenamente. No
entanto, de vez em quando, um pacotinho extra é introduzido atrás da tela de um quadro
ou escondido na tampa de um turíbulo. Tudo que seu tio lhe permitiu examinar é
absolutamente legal, tenho certeza.
— Você está louco. — Ela tomou mais um gole do drinque, ignorando-o.
Brett aproximou-se e ao colocar as mãos sobre os ombros frágeis notou que Ângela
estava rígida como uma pedra.
— Querida, ouça-me. Não há dúvidas quanto ao contrabando. Estamos investigando
Frank Patrian há muito tempo e nós temos provas contra ele.
— Quem é "nós"? — Ela ergueu os ombros, afastando-lhe as mãos.
— O Departamento Federal de Narcóticos. Ela o encarou, atônita.
— Quer que "eu" acredite que os agentes federais mantinham um olho em meu tio e
que, depois, você foi enviado até aqui só para obter provas dos seus negócios ilegais?

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— Foi exatamente o que aconteceu. — Ele baixou o olhar.
— E devo acreditar que isso é o que você é? — Ela estreitou os olhos, encarando-o.
— Não é um detetive particular, mas uma espécie de agente, como nas novelas e filmes de
suspense?
— Exatamente. — Ele ergueu a cabeça, voltando a encará-la com determinação.
A expressão de espanto no rosto de Ângela começou a se transformar, a descrença
desvaneceu-se e uma certeza horrível tomou conta de sua mente.
— Quer dizer então que você não está brincando e que agiu por detrás das minhas
costas o tempo todo?
— Sim.
De repente, todo o corpo delicado relaxou e Ângela sentiu-se desfalecer, como se os
cordões que até então estivessem segurando uma marionete tivessem se soltado.
— Você me usou — ela sussurrou. — Me fez acreditar que estava em perigo,
permitindo que eu vivesse atemorizada.
Brett ouvia-a em silêncio.
— Agora começo a compreender — ela continuou, num tom pensativo. — Por isso
encontrei você na biblioteca... Você estava revistando o local!
A cabeça baixa foi a única resposta de Brett.
— A preocupação, a tensão, as mudanças de humor. A exaustão. Você quase não
dormia, não é mesmo? Você revistava a casa durante a noite, não é?
Ele a encarou.
— Sim.
— Não consigo compreender como dormi sem perceber seus movimentos. Tenho
um sono leve e teria percebido algo... — A voz de Ângela falhou no instante em que foi
invadida por uma suspeita.
— Eu lhe dei um sonífero para ter certeza de que não acordaria. Era um sedativo
inócuo, sem efeitos posteriores — Brett informou.
— Você me drogou?!
— Eu não podia me arriscar a ser surpreendido por você — ele informou, num tom
insensível.
Ângela jogou o uísque no rosto de Brett e caiu em prantos.
—- Como pôde fazer isso comigo? Como pôde? — indagou.
— É o meu trabalho, Ângela — Brett retrucou num tom angustiado. — Foi a razão de
eu ter vindo até aqui. Eu não sabia que nós nos envolveríamos emocionalmente.
— Pare! — ela implorou, sem fôlego. — Como pude ser tão estúpida? Nem mesmo
suspeitei do que você fazia.
— Você não foi estúpida. Apenas confiou em mim. Ângela fez um gesto de cabeça,
concordando, e ergueu o dedo indicador no ar, enquanto afirmava, ainda se debulhando
em lágrimas:
— E esse foi o meu primeiro erro. Foi por isso que eles enviaram um homem jovem
e bonito? Para ter certeza de que eu morderia a isca?
— Não, droga, não! O que aconteceu entre nós não fazia parte do plano.

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— No entanto, como você é um espião eficiente, estou certa de que se agarrou à
primeira oportunidade que surgiu. — Ângela avançou para ele, o olhar torturado.
— O que você pensava enquanto me abraçava, me beijava, fazia amor comigo? O
que você dizia a si próprio quando me penetrava? — indagou, com a voz embargada.
— Vou lhe dizer o que você pensava: "Sua idiota, idiota, idiota, idiota..."
— Ângela, não faça isso — Brett implorou, desviando o olhar úmido. — Não faça isso
com você só para me magoar. Você sabe que não está dizendo a verdade.
— Como pode falar sobre a verdade? Você tem representado tanto que a mentira já
faz parte de sua vida. — Ângela jogou a cabeça para trás e fitou-o com um ar de
objetividade. — Agora, eu diria que você não é um "tira" qualquer, um vasculhador em
busca de pistas num monte de lixo. Garanto que é um sujeito importante, um policial
graduado. Acertei?
— Sou chefe de seção.
— Era o que eu suspeitava! E deve ganhar muito bem, não é?
— O suficiente.
— Eu deveria ter suspeitado desde o início. Como um mero detetive particular
poderia usar tênis caríssimos e fumar cigarros importados? No entanto, eu estava cega de
amor, maravilhada o suficiente para engolir todas as histórias de fadas que você inventava,
não é verdade?
Desesperado, ele a agarrou pelos ombros.
— Ângela, nada do que eu sinto por você mudou.
Ela deu um passo atrás e o empurrou com violência.
— Que tal pensar no que "eu" sinto por você? Você está metendo meu tio na cadeia!
Brett bateu o punho cerrado sobre o bar, exasperado.
— O lugar de seu tio "é" na cadeia! Você sabe o que acontece com as drogas que ele
traz para dentro do país? Elas vão para as mãos de crianças inocentes, de doze anos, que
vivem no Harlem e no sul do Bronx. Ele é o responsável por mais sofrimento e desgosto do
que você possa imaginar.
Ângela colocou as mãos nos ouvidos, desesperada.
— Não quero ouvir mais nada. Meu tio é bom, sempre cuidou de mim.
— Ângela, ele pode ter sido bom para você, seu único parente. Entretanto, isso não
altera os fatos sobre os "negócios" dele e os horrores que eles causam.
— O governo está atrás de titio há anos, devido ao imposto de renda — ela recitou,
como se tivesse sido decorado. — Eles jamais conseguiram provar que havia algo de
errado. Então, agora, resolveram fabricar essa estória monstruosa, só porque a importação
poderia servir de camuflagem para contrabando.
— Alguma vez você viu as anotações dele sobre impostos?
— Não, mas...
— Não, porque Simmons vinha adulterando os livros há anos, evitando pagar os
impostos. Nunca lhe passou pela cabeça que era um tanto estranho você não ser
consultada? Afinal, você está se formando em advocacia.
— Simmons cuidava de tudo.

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— Estou certo de que sim. Foi isso que nos levou a agarrá-lo e obrigá-lo a entregar
seu tio.
— Tudo muito arrumadinho, não é? — ela disse num tom de escárnio, subitamente
disparando para o telefone. — Não acredito em você e vou chamar meu tio, preveni-lo do
que vocês estão tentando fazer.
Brett tirou o receptor da mão dela e o recolocou no gancho.
— É tarde demais, Ângela. As evidências foram reunidas. Ele será indiciado assim
que os papéis forem estudados. Não há mais nada que você possa fazer. — Fitou-a
diretamente nos olhos e prosseguiu: — Você está se deixando levar pela raiva e não está
conseguindo raciocinar direito. Se parar para pensar em tudo o que eu lhe disse, se
analisar as coisas como elas realmente aconteceram, verá que estou falando a verdade.
— Você não tem o direito de usar essa palavra. É a pessoa menos qualificada para
isso.
Brett colocou as mãos no rosto afogueado e Ângela evitou o contato, virando a
cabeça para o lado.
— Não me toque!
— Ângela, eu te amo.
Cega de raiva, ela o esbofeteou.
— Não ouse mentir para mim. Você ama seu trabalho sujo!
Brett recuou, atordoado, diante da energia daquela resposta.
— Seu nome verdadeiro é Brett Devlin? — ela perguntou, sarcástica. — Ou aquela
história encantadora sobre ter recebido o nome de solteira de sua avó foi uma outra
invenção?
— Brett Devlin é o meu nome verdadeiro — ele informou, a voz se abrandando.
— Ê mesmo? Bem, pelo menos, é bom saber que há alguma coisa de verdadeiro em
você.
Brett cerrou os punhos, mas desistiu de lutar, erguendo as mãos espalmadas,
tentando encerrar o assunto. Ângela o encarava com uma expressão rígida e impassível,
sem se render.
— Querida, quero me casar com você.
Ela começou a rir. Um som áspero, desagradável, quase histérico.
— Mal posso acreditar. Você está trancafiando meu único parente na cadeia e me
propondo casamento ao mesmo tempo?
— Não foi assim que planejei tudo. Entretanto, quis que você conhecesse toda a
história antes de pedi-la em casamento.
Ângela encarou-o, abismada.
— E acha que depois de ouvir as novidades eu sairia correndo com você para a igreja
mais próxima? Diga-me uma coisa, por que voltou para me contar tudo pessoalmente? Por
que não foi embora?
— Já lhe disse. Quero que venha comigo.
— Vá para o inferno, Brett Devlin.
— Ângela, por favor, eu tinha de seguir ordens. É o meu trabalho. Não podemos
fazer as malas agora e ir embora?

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— "Você" faz as malas e vai embora daqui.
— Ângela, não será fácil para você na hora em que os jornalistas surgirem e a
televisão ficar sabendo. É melhor se afastar até que os primeiros acontecimentos
explodam.
— Não acha um tanto tarde para demonstrar preocupação comigo?
— Não quero que você saia mais ferida do que já está desta história toda.
— Que consideração! Agora, saia! E volte para pegar as suas coisas quando eu
estiver na universidade. Não quero vê-lo nunca mais. Josie deixará você entrar.
— Já arrumei minhas coisas enquanto você dormia.
— Ah! Então sabia como eu iria receber sua revelação dramática?
— Ângela, por favor...
— Afinal, como é que você chegou ao posto de espião?
— Fui requisitado quando estava na universidade, em Washington, assim como na
agência também.
— Muito conveniente.
— Eunice foi recrutada da mesma forma.
— Eunice? — Ela perdeu o fôlego. — A mulher vestida de Scarlett O'Hara na festa?
— Sim.
— Deus, vocês estão em toda a parte. Como ela conseguiu entrar?
— Ela se engraçou com Hathaway. O departamento estava vigiando o senador, e,
quando eles descobriram que ele viria à recepção de Philip, pareceu-lhes uma boa
oportunidade para trocarmos informações.
— Espero que você tenha anotado o telefone dela, assim poderá chamá-la quando
sair daqui.
— Não quero ninguém a não ser você, Ângela.
— Que azar.
Brett esqueceu-se por um momento da dor e do sofrimento de,Ângela para assumir
o papel de homem rejeitado. Puxou-a para junto de si e beijou-a com paixão.
Ângela lutou por alguns instantes, mas acabou entregando-se, incapaz de evitar as
emoções que aquele toque lhe provocava. Quando ele a soltou, colocou as mãos sobre o
rosto, envergonhada.
— Você me ama — Brett anunciou, num tom triunfal. — Isso você não pode negar.
Nunca!
— Vá embora daqui! — ela explodiu.
— Eu irei, porém voltarei.
— Não vou recebê-lo.
Pela última vez, Brett foi até o quarto de hóspedes e recolheu suas coisas. Quando
Ângela o viu com a mesma sacola na mão, não pôde deixar de notar que ele estava
exatamente igual ao dia em que chegara naquela casa. Alto, forte e capaz de solucionar
qualquer problema. Só que desta vez o problema era insolúvel. Ele próprio o criara.
— Eu não vou desistir — Brett informou, olhando-a fixamente.
— Não me importo com o que você fará.

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Ele colocou a mão na maçaneta e se voltou para observá-la. Contemplou-a de alto a
baixo, querendo absorver todos os traços, um por um, imprimindo-os na memória, que era
tudo o que lhe restaria a partir daquele momento. O lábio inferior de Ângela estava
trêmulo devido ao esforço para manter o controle. Os olhos, úmidos de lágrimas e o olhar
parado no tempo.
— Adeus — murmurou.
No instante em que Brett fechou a porta atrás de si, Ângela caiu em prantos.
Soluçando desesperadamente, dirigiu-se para a sala de estar, se jogando na banqueta
diante da lareira.
— Dane-se — sussurrou como se ele ainda pudesse ouvi-la. — Oh, dane-se, Brett
Devlin.
Chorou copiosamente, as lágrimas deslizando pelas faces e chegando até os lábios
trêmulos. Sentindo o sabor salgado do próprio sofrimento, ela deduziu que não
conseguiria agüentar aquela noite sozinha. Levantou-se do assento como um raio e
agarrou o telefone, automaticamente discando o número de Josie.
A filha da criada atendeu ao primeiro toque.
— Maria, é Ângela Patrian. Sua mãe está em casa?
— Não, mamãe tirou a tarde de folga para ir buscar o vestido para o chá de cozinha
da minha prima, lembra-se?
— Oh, é claro! Eu tinha me esquecido. Não precisa dizer nada a sua mãe, pois ela
deverá voltar tarde da festa. Falarei com ela amanhã. Obrigada, Maria. Até logo.
Ângela desligou o aparelho e, imaginando que Holly deveria estar em casa, voltou a
pegar o receptor.
— Alô.
— É Ângela. Você está ocupada?
— Não muito.
— Você poderia vir até aqui?
— Puxa, não sei. Harry deve chegar a qualquer instante e minha casa ainda está
uma bagunça. Ele ainda não jantou.
— Você não poderia deixar um recado para seu marido? Preciso de você aqui. De
verdade. — Mal conseguindo chegar ao fim da frase, a voz falhou e ela afastou o receptor,
soluçando.
— Ângela, você está chorando? — a amiga indagou, preocupada. — O que
aconteceu?
— Oh, por favor. Será que você não poderia vir já?
— Estarei aí em alguns minutos. Pode esperar. — A linha ficou muda.
Ângela foi até o lavabo e molhou o rosto com água gelada, evitando olhar para a
imagem refletida no espelho, os olhos inchados e vermelhos. Encaminhou-se para uma
cadeira próxima à lareira e aguardou a campainha tocar.
Deu um salto quando isso aconteceu como se voltasse à realidade. No instante em
que a porta foi aberta, Holly passou por ela como uma bala.
— O que foi? O que houve? — perguntou, perscrutando-lhe o rosto. — Onde está
Brett?

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— Ele se foi.
— Foi para onde? Ele não deveria estar com você todo o tempo?
Ângela esboçou um sorriso amargo.
— Não há mais necessidade dos serviços dele. Na realidade, eles nunca foram
necessários.
Holly suspirou e curvou os ombros, desconsolada.
— Está bem, é melhor você me contar tudo.
— Sente-se que vai levar muito tempo.
Ângela relatou todos os acontecimentos, enquanto Holly a ouvia num silêncio
crescente, um tanto atordoada. Quando, por fim, parou de falar, a amiga foi até o bar e
consumiu dois dedos de vodca pura.
— Não é de admirar que você estivesse tão abalada ao telefone. Não consigo
acreditar no que acabo de ouvir — Holly sussurrou.
Ângela fez um gesto de desânimo com as mãos.
— Como você acha que eu me senti ao tomar consciência do fato? Ainda não
consegui pensar direito de tão atordoada que fiquei.
— Você acha que poderia ser verdade? Quero dizer, seu tio é mesmo um
contrabandista?
— Espere aí, Holly. Você o conheceu. Ele lhe pareceu um gangster?
— Quem sabe? — Holly ergueu os ombros. — Você quase nunca o vê. Ele poderia
estar fazendo qualquer coisa e você nem ficaria sabendo.
— Eu não acredito.
— Mas você alguma vez leu os papéis que levava para a caixa de segurança? Você
examinou os livros dele ou prestou atenção na correspondência?
— Não, claro que não! Por que deveria? Nunca suspeitei de meu tio. Na verdade, já
estou preparando uma denúncia dolosa contra esses federais.
— Ângela, lamento o rumo que as coisas tomaram entre você e Brett — a amiga
comentou num tom suave.
— Sei que você sente. Ele foi um excelente ator. Eles o treinaram muito bem.
— Você ainda o ama?
Por um longo instante, Ângela não respondeu. Então, derrotada, confessou:
— Gostaria tanto de dizer que não. Você poderia achar que todos esses
acontecimentos deveriam acabar com meu amor por ele, entretanto, mesmo sabendo
quem ele é e o que fez, tive de fazer um esforço enorme para mandá-lo embora. Depois,
tive que me controlar para não implorar que ficasse.
— O amor não acaba assim tão facilmente — Holly observou com simpatia.
— Minha vida se transformou num caos. Sinto-me uma idiota.
— Você não é nenhuma tola, Ângela. Qualquer mulher nas mesmas condições teria
se apaixonado por Brett, Afinal, trata-se de um homem que faz a gente derreter só com um
simples olhar. Você é humana, só isso.
— Acho que foi por esse motivo que o enviaram aqui. Eles sabiam que bastaria ele
levantar um dedo que eu me entregaria, que acreditaria em cada palavra que ele dissesse.

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— Eu não iria tão longe. — Holly pôs-se de pé. — Provavelmente, eles o escolheram
por ser um homem capaz e por conhecer seu trabalho.
— Eu bati nele — Ângela informou, quase falando para si própria.
— Você o quê?
— Joguei bebida no rosto dele e depois dei-lhe um tapa. Bati tão forte que as marcas
dos meus dedos ficaram na face dele. Jamais pensei que agrediria alguém.
— Eu faria mais do que isso — a amiga comentou num tom seco. — O que
acontecerá com seu tio agora?
— As autoridades tentarão prendê-lo se ele voltar, e pedirão extradição para julgálo, se ele não voltar. Nas duas circunstâncias, eles o agarrarão. Ele será julgado, seus bens
serão confiscados e não poderá ser libertado sob fiança.
— Isso quer dizer que você vai ficar sem dinheiro? — Holly indagou, preocupada.
— Tenho minhas economias e acho que serão suficientes para eu viver pelo menos
até terminar meus estudos. Depois de formada, conseguirei um emprego. De qualquer
forma, já tinha planejado trabalhar após ter o meu diploma. — Ela baixou o olhar. — Pelo
menos esses planos não despencarão como um castelo de areia.
O telefone tocou.
— Eu atendo — Holly informou. — Deve ser o Harry. Eu lhe deixei um cachorroquente e um recado, dizendo onde estava. Agora, na certa, ele quer saber onde está a
mostarda.
Imersa em seus pensamentos, Ângela não prestou atenção à conversa, contudo, não
pôde deixar de notar a expressão da amiga quando ela se voltou.
— O que foi? Não era o seu marido?
— Era Harry, sim. Ele queria me contar que um homem chamado Brett Devlin
telefonou, querendo falar comigo.
Ângela retesou o corpo, remexendo-se na cadeira.
— Ele deixou um recado. Pediu para que eu viesse até aqui e lhe fizesse companhia,
pois acreditava que você estava muito aborrecida. Foi tudo o que ele disse.
Ângela permaneceu calada.
— Ângela — Holly chamou num tom carinhoso —, um oportunista sem coração que
usou você e se afastou sem olhar para trás não age deste modo.
— Quer dizer que ele está se sentindo culpado. E o que isso prova? Ele deveria
mesmo se sentir assim.
Holly controlou-se para não tentar conciliar as coisas. Com o estado de espírito em
que se encontrava Ângela não ouviria nada. Tudo o que ela precisava naquele instante era
de uma amiga e não de um pequeno sermão.
— Você já jantou?
— Não. — O estômago de Ângela se revirou só em pensar em comida.
— Ótimo! Então vamos até a cozinha que eu vou preparar alguma coisa leve.
— Não consigo comer, Holly. De verdade.
— Mas eu consigo. Vamos, faça-me companhia.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Frank Patrian foi preso três dias mais tarde no porto de Nova York. Ele já estava
preparado para o que viria, pois Ângela falara com ele por telefone e o informara de que
havia uma intimação para prendê-lo. Afirmando ser inocente, ele se rendeu sem lutar.
Depois disso, o milionário passou a ser o assunto predileto de todos os jornais. Até
mesmo o Times dedicou uma página frontal para descrever os negócios de Frank e as
acusações contra ele. Foi através desse artigo que Ângela descobriu que a polícia tinha sido
avisada de que uma grande quantidade de drogas deveria chegar junto com o último
embarque das antigüidades do tio.
Quando os entorpecentes não foram encontrados na carga desembarcada, houve
um grande rebuliço, tanto no submundo do crime como na polícia. O desaparecimento das
provisões foi ligado à recente prisão de Patrian e agora comentava-se que seu tio tinha
escondido o carregamento para utilizá-lo no futuro.
Contrariada, Ângela jogou o jornal no chão. Desconectou o fio do telefone para
evitar os repórteres e parou de assistir à televisão, a fim de não observar o rosto de Frank.
Como se tornara impossível para ela continuar assistindo às aulas, obteve a permissão da
universidade para adiar as provas. Dadas as condições fora do comum, todos concordaram
sem discussão.
Ângela chegou até a pensar em sair da cidade. Entretanto, mudou de idéia. A
decisão tomada não lhe pareceu muito adequada quando se viu encurralada dentro de
casa, sem poder sair. Josie ia e vinha como de costume e Holly aparecia regularmente.
Contudo, ela começou a se sentir como um eremita, um pária da sociedade.
Quando a campainha soou naquela noite, uma semana depois de Frank Patrian ter
sido acusado, ela nem mesmo consultou o olho mágico para verificar de quem se tratava.
Josie já tinha ido embora e ela abriu a porta, pronta para enfrentar qualquer coisa.. .
Menos Philip Cronin.
— Você me procurou para dizer "eu não lhe disse"? — Ângela indagou, desanimada.
— Não.
— Nesse caso, pode entrar.
Philip dirigiu-se para a sala de estar e aguardou Ângela, dividindo com ela a
banqueta diante da lareira. Ele estava lindo como sempre, o que não melhorou o ânimo da
estudante.
— Como você está? — ele indagou.
— Dá para suportar, se levar em consideração as circunstâncias.
— O que acha de tudo isso?
— Nem sei o que pensar. A princípio, tinha certeza de que era tudo mentira.
Entretanto, quando o pedido de liberdade sob fiança foi negado, percebi que eles
consideram esse caso muito importante.
Philip assentiu com um gesto de cabeça.
— Philip, você trabalhou para meu tio durante três anos. Você acha que é possível
ele estar fazendo contrabando?
— Se estava, eu não fiquei sabendo.
— Tenho certeza de que, se soubesse, estaria fazendo companhia para meu tio na
prisão.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
— Tudo o que posso dizer é que, com o tipo de coisas que ele importava, tudo era
possível. O que não significa que ele seja um traficante. Sei que seu tio tinha um negócio e
que era legal. Entretanto, desconheço muitas coisas sobre as atividades dele.
— O que você tem feito desde que tudo veio à tona?
— Nada. Até agora, está tudo parado. As transações foram suspensas, os depósitos e
os escritórios estão infestados de tiras, agentes federais, pessoal especializado em
narcóticos, todo o mundo que você possa imaginar. — Ele se voltou para encará-la. — Eu vi
Brett Devlin.
— Não quero falar sobre ele. — Ângela pôs-se de pé.
— Ele é um figurão da alta esfera do governo — Philip continuou, como se ela não se
tivesse manifestado. — Ele dá ordens e todos obedecem como ratos.
— Estou certa de que sim — ela retrucou num tom amargo. — Desta vez, ele pescou
um peixe bem grande, com a ajuda da "sempre sua, com amor".
— Bem, as pessoas o tratam como se ele fosse o encarregado das investigações —
Philip declarou com um certo respeito.
— E ele está se vangloriando do triunfo?
— Não parece. Ele não é um homem feliz, Ângela. Ela olhou para Philip, atônita.
— Por que você se preocupa com a felicidade dele? Você está falando do sujeito que
lhe deu um soco na boca há não muito tempo, lembra-se?
— Sei disso. Entretanto, ele fez algo que me surpreendeu e que, de alguma forma,
me fez mudar a opinião a respeito dele. Brett Devlin me procurou para pedir que eu ficasse
atento, cuidando de você. Afirmou que sabia ser uma persona non grata nesta casa.
Contudo, achou que você não se recusaria em me ver. Queria ter certeza de que você estava
bem.
Ângela fixou o olhar em Philip, lentamente.
— Não deve ter sido fácil para ele, Ângela — Philip prosseguiu com calma. — Ele
teve de engolir o orgulho e me pedir um favor, mesmo sabendo que não podemos nem
olhar um para o outro. Mas assim mesmo ele o fez, por você.
Ângela balançou a cabeça, abismada.
— Todos que conheço estão ficando completamente "malucos". Você não veio até
aqui para defender os interesses de Brett Devlin, veio? — De súbito, ela foi assaltada por
outro pensamento. — Ele não o obrigou a isso não é? — indagou, num tom suspeito.
— Não, não. Se ele ouvisse esta conversa, estou certo de que eu receberia mais um
soco. Mas tenho pensado sobre a conduta dele naquela noite da festa. Ele queria me matar,
ao me ver tentando beijá-la. Ele estava com ciúme. Ciúme porque queria você para ele.
— Philip, não posso jamais esquecer que Brett Devlin veio para esta casa sob um
falso pretexto.
— É duro ficar desapontado com alguém com quem a gente se preocupa — Philip
comentou pensativo.
— Acho que sabe disso tanto quanto eu. Sinto muito pela maneira como eu o tratei,
Philip. Não fui justa com você. Porém, não poderia enganá-lo por mais tempo. Não estava
apaixonada por você.
— Você ainda o ama, não é verdade?

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Momentos Íntimos 72
— Não importa se o amo ou não. O fato é que não quero vê-lo nunca mais!
— Oh, Ângela. Tão teimosa como sempre. — Ele balançou a cabeça lentamente.
— Não comece a se repetir, Philip!
— Você tem razão. — Ele deu um sorriso largo. — Não vim até aqui para discutir
com você. Vim para fazer um trato. Se você se esquecer da minha saída tempestuosa,
poderei me esquecer de que você me deu o fora por causa daquele sr. Devlin, tão
enigmático e impetuoso.
Ângela sorriu, estendendo-lhe a mão.
— Sempre precisarei de um amigo — comentou.
— Ótimo! — Philip voltou-se para ir embora, mas deteve-se, encarando-a. —
Provavelmente encontrarei com Brett Devlin de novo, Ângela. Quer que eu lhe diga
alguma coisa?
— Não, nenhuma palavra.
— Está bem. — Ele suspirou. — Tenho pena dele, sabe? Perder você não é nada fácil.
Ângela ficou admirada com a força da personalidade de Brett. Ele chegara até
mesmo a conquistar seus antigos inimigos. Acompanhou Philip até a porta, imaginando se
conseguiria se esquecer de um homem com tal poder de persuasão.

CAPÍTULO IX
Dez dias mais tarde, a campainha soou por volta das quatro horas da tarde e Josie
foi atender. Era Brett Devlin.
— Posso entrar? — ele indagou sério.
Josie deu uma olhada na direção das escadas. Ângela não estava por ali.
— Venha até a cozinha — ordenou.
— Você já sabe de tudo? — Brett perguntou, encarando-a.
— Sim, Ângela me contou e, depois, começaram todos aqueles noticiários sobre
Frank. Parecia um carnaval!
— Já soube o que "eu" fiz? — ele insistiu, fitando-a intensamente.
Josie sentiu uma onda de simpatia por ele. Entretanto, manteve-se impassível.
— Sei o que Ângela me contou. Você, na verdade, é um agente do departamento de
narcóticos que fingiu ser um guarda costas para poder juntar provas contra Patrian.
— Ele é culpado, sra. Clinton, juro.
— Ângela não pensa assim.
— Agora ela me odeia — ele observou, angustiado.
— Ela está tentando convencer a si própria de que o odeia, o que é uma coisa bem
diferente.
— Eu a amo, sra. Clinton — Brett disse desesperado, a expressão tão veemente
quanto a voz.

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— Eu sei que a ama e acho que já é hora de você começar a me chamar de Josie.
Por um instante, ele ficou perplexo, empalidecendo. Então, sorriu satisfeito.
— Obrigado. É tão bom saber que alguém acredita em mim!
— Não é a mim que você tem de convencer sobre os seus sentimentos. Você magoou
Ângela de verdade Brett e ela é uma pessoa terrível quando resolve guardar rancor.
— Você acha que ela não mudou o modo de pensar a meu respeito?
— Penso que ela está mais apaixonada por você do que antes. Entretanto, também
acho que ela não precisaria arruinar a vida de vocês, recusando-se a perdoá-lo. — Diante
da expressão desolada do agente, Josie continuou, num tom mais suave. — É o jeito dela,
Brett. Você a enganou e ela jamais se esquecerá disso.
Brett calou-se por alguns instantes e, de repente, olhando na direção da criada,
perguntou:
— Por que você ainda está aqui, Josie? Quem está pagando o seu salário?
— Ninguém. Ângela quis fazê-lo. No entanto, achei que ela devia manter o pouco
que tem.
— Você ficou por causa dela, não é Josie?
— Sempre fiquei aqui por ela. Não gostava muito de Frank. Sei que não é assunto
meu, mas não posso dizer que estou surpresa por ele não valer nada. Entretanto, ele era
muito bom para Ângela, isso não se pode negar.
— Por isso é que estou tendo problemas com ela. Se ele era bom para ela, não pode
aceitar nada que destrua a imagem que tem dele.
Josie assentiu com um gesto de cabeça.
— Ela está lá em cima? — ele indagou.
— Está.
— Vou até lá para vê-la.
— Ângela vai chutar você para fora.
— Vou tentar assim mesmo.
— Não quero ver você magoado novamente, Brett. — Josie preveniu-o.
— Nada pode ser pior do que o que tenho passado nestas últimas semanas sem a
presença de Ângela. Tenho que tentar.
— Está bem. Pode subir. Ela ficará uma fera comigo por tê-lo deixado entrar, mas
poderei agüentar.
— Obrigado, Josie. — Brett apertou o braço da criada, num gesto de carinho, e saiu.
Josie fechou os olhos por segundos, logo se sentando à mesa para esperar.
Brett subiu as escadas com calma, como fizera muitas vezes no passado. Só que
desta vez o que estava em jogo era a oportunidade de reconquistar Ângela.
Antes de abrir a porta, aguardou por um instante, pensando no que diria a ela.
Porém, como não conseguia pensar em nada, prendeu a respiração e entrou.
Ângela estava deitada na cama. Usava um robe curto de algodão, os ombros
cobertos pelos cabelos úmidos do banho. Estava de bruços, o braço apoiado
displicentemente sobre o travesseiro, e parecia dormir.

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Momentos Íntimos 72
Brett entrou e trancou a porta. Tirou o casaco e a camisa e os lançou ao chão. Se
havia uma coisa que ele sabia fazer bem era seduzi-la.
Caminhou lentamente até a cama, sentando-se na beirada do colchão para tocá-la
no ombro. Ela se mexeu, rolou o corpo e sorriu quando o viu.
Então, ao despertar melhor, se sentou rapidamente, com os olhos arregalados.
— O que você está fazendo aqui? Eu não quero... Brett silenciou-a com um beijo. Ela
lutou com fúria por alguns segundos, mas por fim acabou cedendo, correspondendo ao
beijo, gemendo sob seus lábios.
Somente quando percebeu que Ângela queria continuar foi que Brett se afastou,
virando o rosto para o lado. Ela avançou ansiosa, querendo recapturar-lhe a boca.
— Você sentiu minha falta? — ele sussurrou, mantendo-a a distância.
— Sim, sim — ela retrucou, jogando-se contra ele.
— Quer que eu a ame, querida? — ele indagou, roçando os lábios nos dela.
O apertão dos dedos finos nos ombros largos foi a resposta. Ângela esperou,
cerrando os olhos com força, até que ele a cobrisse de pequenos beijos. Então, entreabriu
os lábios e quase perdeu o fôlego diante do contato delicioso e insuportável da boca
carnuda. Sedenta de amor, enterrou os dedos na massa negra de cabelos espessos.
Puxando-a para junto de si, Brett deslizou suavemente a mão por dentro do robe e
acariciou a pele aveludada dos seios alvos, desenhando círculos com as pontas dos dedos.
Ângela contorceu-se, frustrada, inclinando-se para a frente. E, quando o polegar
firme roçou o bico intumescido, suspirou em resposta, apertando fortemente a mão dele
contra seu seio. Brett recuou, mas, faminta, ela agarrou-o pelo pescoço e murmurou algo
ininteligível com a respiração entrecortada.
— O que você disse? — ele perguntou, induzindo-a.
— Toque-me — ela implorou. — Parece uma eternidade desde a última vez que o fez.
Brett apossou-se do seio redondo, desta vez com mais firmeza, livrando-a,
finalmente, do robe e pressionando-a contra o colchão.
Ângela afastou-se um pouco e começou a beijá-lo no pescoço, nos ombros e no
peito. Brett jogou a cabeça para trás e deliciou-se com aquele contato quente e sensual
sobre sua pele morena. Por fim, ela se deitou sobre os lençóis macios, os braços largados
acima da cabeça, num convite mudo.
Pondo-se de pé, Brett livrou-se do restante das roupas e, ajoelhando-se no chão, ao
lado da cama, apossou-se dos mamilos enrijecidos, sugando-os com avidez. A boca
experiente deslizou para baixo, saboreando cada reentrância do corpo delicado até que,
não mais podendo suportar, Ângela gritou para que ele a penetrasse.
Brett estirou-se no leito e, abraçando-a, puxou-a para cima de si, guiando-a para o
membro viril.
Estremecendo de desejo, Ângela espalmou os dedos sobre o peito másculo e
começou a se movimentar instintivamente, mergulhando num mundo de prazer, além da
razão, até que juntos escalaram as alturas, atingindo o clímax.
Inteiramente saciada, Ângela aconchegou-se nos braços possantes, descansando o
rosto no tórax musculoso. Não havia qualquer ruído no quarto, a não ser o som de suas
próprias respirações, que aos poucos voltavam ao normal.

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Muitos minutos se passaram até que Brett falou, num tom suave:
— Foi um inferno ficar longe de você.
Ela se sentou na beirada do colchão com cuidado, agarrou o robe e colocou-o, sem
responder.
— Ei! — Brett chamou-a com carinho, roçando-lhe a face com o dedo.
Ângela desviou o rosto e ele analisou o perfil de pedra, esmorecendo no instante em
que ela percebeu o que acontecera. Dominada pelo amor e pelo desejo, Ângela tinha se
entregado apenas ao prazer corporal. Para ela, ele ainda continuava sendo um embusteiro,
um trapaceiro, um impostor. O homem que fizera do seu tio uma vítima inocente!
Frustrado, Brett saltou da cama e vestiu-se com raiva, mantendo-se em silêncio.
Agarrou o casaco e, quando estava pronto para ir embora, voltou-se para ela.
— Está bem, Ângela -— disse, numa voz dura e controlada. — Já tive o suficiente. Na
próxima vez em que nos encontrarmos, estarei com as provas da culpa de Frank Patrian
nas mãos.
Dito isso, girou nos calcanhares e desapareceu.
Ângela abaixou a cabeça, consternada, porém estava decidida a não chorar.
Como já fizera outras vezes, Ângela tentou ver o tio. Contudo, os federais
recusaram-se a lhe conceder permissão para a visita. Frank enviou-lhe uma mensagem
ordenando que não o procurasse, pois não queria envolvê-la em seus negócios, e ela nada
pôde fazer, senão obedecer.
Alguns dias após a partida abrupta de Brett, Ângela recebeu um pacote retangular
achatado, embrulhado em papel marrom e amarrado com barbante. Curiosa por saber o
que ele continha, dirigiu-se para a cozinha para cortar os fios grossos. E, no instante em
que o invólucro caiu, ela percebeu do que se tratava. Era um pôster do filme Romeu e
Julieta, o mesmo que dissera a Brett não ter conseguido encontrar.
Piscou os olhos nublados pelas lágrimas ao observar os dois astros vestidos com
roupas medievais, as fisionomias como símbolo do eterno renascimento do amor. Não
podia imaginar onde Brett conseguira encontrá-lo e deduziu que não fora tarefa fácil, pois
ela mesma já tinha tentado diversas vezes. Estava finamente emoldurado e havia um
cartão enfiado na parte inferior esquerda da moldura.
Ergueu a dobra do cartão e leu a mensagem: "Je reviendrai", que em francês queria
dizer: "Eu voltarei".
Certa vez, dissera ao amante que considerava a língua francesa uma das mais
expressivas e emocionantes do mundo. E ele se recordara disso. Como não falava francês,
encontrara alguém para traduzir a frase.
Ângela admirou o quadro por alguns instantes. Então, pegou o papel do chão e já
estava prestes a jogá-lo no lixo, quando um outro objeto caiu, resvalando no seu pé.
Era uma fita cassete. Recolheu-a do chão e examinou a lateral, que indicava ser uma
seleção de músicas de Willie Nelson.
Brett era um homem atencioso. Sempre se lembrava das coisas, por menores que
fossem. Ele sabia exatamente como desarmá-la.

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De súbito, Ângela foi dominada por uma onda de raiva e resolveu não se importar
com aquelas gentilezas. Estava decidida a jogar tudo no lixo para nunca mais ver nada que
lembrasse Brett. Nada daquilo apagaria o que ele lhe fizera.
No entanto, de repente, ela se viu carregando o quadro e a fita para o quarto.
Pendurou o pôster na parede, num local privilegiado, bem à vista. E, a seguir, inseriu a fita
cassete no gravador, estendendo-se na cama para ouvi-la.
Deduziu logo o motivo de Brett gostar tanto daquele cantor. Ele cantava a solidão e
a ansiedade inarticulada, parte importante da personalidade do detetive. Enquanto ouvia
as notas musicais melancólicas e pungentes, Ângela recordou-se dele acariciando Viçosa,
inclinando-se para falar junto à orelha do animal, bem ao estilo dos temas das músicas de
Willie Nelson.
Brett, porém, fora selecionado no campus da universidade para percorrer uma
outra trilha. Aquela que provocara o encontro entre ambos. Houve momentos em que
Ângela desejou ardentemente que ele tivesse permanecido no Kansas. Provavelmente não
teria sofrido tanto.
Na tarde seguinte, enquanto Josie tirava o pó do quarto de Ângela, ela se dedicava à
arrumação dos armários.
— Notei que você tem um pôster novo — a criada falou num tom casual. — Não se
trata daquele que você não conseguiu encontrar em lugar algum?
— Sim.
— Foi Brett quem o enviou, não foi?
— Deve ter sido. Ele era a única pessoa, além de você, que sabia o quanto eu o
queria — Ângela disse, suspirando.
— Veio algum bilhete junto?
— Só um cartão, com um "Eu voltarei" escrito em francês.
— Aquele rapaz não desiste facilmente — Josie comentou, esfregando uma mancha
na porta do armário. — E você também não desiste, não é? Sabe que o ama.
— Depois do que ele fez!? — Ângela voltou-se para a criada, a expressão tornandose hostil.
— Não precisa ficar zangada comigo. Só estou tentando fazer você ver que se
colocou numa posição difícil. Está infeliz e desconsolada por sentir falta de Brett e, ao
mesmo tempo, seu orgulho não a deixa perdoá-lo por tê-la enganado. Você está encalhada
no meio do caminho.
— Ele fez muito mais do que simplesmente me enganar. Acho que não preciso
lembrar a você o modo como ele me ludibriou. Você foi testemunha de tudo.
— Testemunhei tudo sim, mocinha. Tudo. E o amor que sente por você foi um
assunto sobre o qual ele jamais fingiu.
— Não se mente a quem se ama!
Josie jogou o pano de limpeza no balde com força.
— Você parece tão cheia de razões, e tão imatura! O que teria feito se ele lhe tivesse
contado a verdade antes de terminar a missão?
Ângela permaneceu em silêncio, brincando com a beirada da blusa que ia guardar,

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— Ele tinha alguma chance ao chegar aqui? — a criada prosseguiu. — Você não
notou que o motivo de ele ter tentado resistir a você por tanto tempo é porque não queria
que tudo terminasse do jeito que terminou? — Josie cruzou os braços. — Eu vi o quanto ele
lutava para se controlar. E você está agindo como se Brett tivesse entrado nesta casa como
uma lufada de vento, levado você para a cama e a deixado de lado quando não precisava
mais. — A criada inclinou-se para Ângela, a voz tornando-se mais suave. — Não foi assim
que as coisas aconteceram, menina, e, se a sua memória está falhando, a minha está
perfeita.
— Oh, ele conseguiu colocar todo mundo na palma da mão. Até você — Ângela disse
num tom amargo.
Josie ergueu as mãos para o alto.
— Está bem. Faça como quiser. Porém saiba que está magoando a si própria. E a
Brett também, é claro. Mas é óbvio que você não se importa com ele. — A criada pegou o
frasco de limpa móveis. — Não sei como me envolvi nisso tudo. Prometi a mim mesma que
ficaria de fora e que manteria a boca fechada.
— Já seria um bom começo — Ângela provocou-a, esboçando um sorriso.
Josie não respondeu e elas continuaram a trabalhar.
Brett apertou o botão do sexto andar do edifício Chrysler.
— O dossiê de Frank Patrian já chegou? — indagou ao colega no instante em que
abriu a porta do escritório.
O outro homem, aparentando a mesma idade de Brett, estava sentado atrás da
escrivaninha, os pés apoiados no tampo, saboreando um copo de café. Ele meneou a
cabeça numa negativa, com uma paciência exagerada.
— Eu preciso de uma cópia do indiciamento e também das evidências e acusações
do advogado.
— Vai conseguir no final.
— No final é muito tarde!
Matt Hendley analisou o amigo com uma expressão preocupada. Desde que se
envolvera no caso Patrian, Brett estava irrequieto, uma pilha de nervos.
— Vou tirar um xerox do processo assim que chegar — Brett informou.
— Você sabe que não poderá fazer isso, Brett — Hendley acomodou-se melhor na
cadeira, mantendo-se ereto.
— Aquele material é estritamente confidencial. Não poderá ser retirado deste
escritório até depois do julgamento e do veredicto final.
— Quero que você me ajude. Há alguém que precisa conhecer o caso Patrian
imediatamente.
— Por acaso seria a sobrinha de Frank?
Brett relanceou o olhar na direção do amigo, desviando-o a seguir, sem dizer nada.
— Era o que eu imaginava — Hendley comentou. — Vi as fotos dela nos jornais.
Muito bonita. E vocês ficaram juntos naquela casa o tempo todo, não é?
Brett encarou-o, sério.

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— Deixe-me adivinhar — Hendley prosseguiu. — Ela é uma advogada e você está
tentando convencê-la de que o tio é realmente culpado. A moça acha que o tio é tão puro
quanto um santo. Certo?
Brett retirou um cigarro do maço no bolso interno do paletó.
— Tudo o que Ângela sabe é o modo como o tio a tratou e acha que ele é um homem
bom. Não quer acreditar que é um criminoso.
— E você acha que não terá chances de discutir o assunto com ela, senão com as
evidências concretas?
— É isso mesmo. — Brett acendeu o cigarro, dando uma longa tragada.
— Você está fumando demais — o amigo comentou.
— Obrigado por me dizer. Não sabia disso. Hendley terminou o café, amassou o
copo de papel e jogou-o no lixo.
— Está bem. O que quer que eu faça?
Brett fitou-o diretamente nos olhos e sorriu lentamente.
— Preciso de alguém que fique vigiando enquanto eu faço as cópias daquele
material. Faremos isso durante a noite, quando todos tiverem ido embora. Quero um par
de olhos e ouvidos extra. É só uma questão de segurança, no caso de alguém aparecer.
— Não pode esperar até o julgamento?
— Vou perdê-la se esperar — ele respondeu, simplesmente, soltando uma coluna de
fumaça.
— Então, considere feito — Hendley retrucou, erguendo os ombros.
Brett, que nunca se sentia à vontade ao demonstrar suas emoções, colocou a mão no
ombro do colega e deu-lhe um ligeiro apertão. Depois, passando por ele, saiu do escritório.
Ângela bateu à porta do apartamento de Holly, estremecendo diante do vento
cortante que soprava da baía.
A amiga atendeu, mordiscando uma maçã.
— Oi! Que bom que você veio! — Ela arqueou as sobrancelhas. — Você ainda está
parecendo um defunto ambulante.
Ângela cruzou os braços diante do corpo e percorreu o pequeno ambiente com o
olhar. Embora mobiliado com peças que não se harmonizavam, era um lugar bastante
agradável.
— Oh, eu estou bem — retrucou, laconicamente.
— Estou vendo — Holly respondeu num tom seco, dirigindo-se para a sala de
visitas, onde já tinha deixado preparado um bule de chá. — Vi o novo advogado de seu tio
na televisão ontem à noite — informou, enquanto se sentavam.
— É. Ele está realmente contratando os grandes figurões. Aqueles sujeitos devem
custar uma fortuna.
— Bem, seu tio é bastante rico e pode pagá-los.
— Eu me ofereci para ajudar no caso, mas tio Frank não permitiu. Estou começando
a ficar maluca. Não consegui visitá-lo e não tenho qualquer pista do que está acontecendo.
— Você teve notícias de Brett? — Holly perguntou num tom casual.
— Ele apareceu lá em casa uma noite dessas. Holly sentou-se, atônita.

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— E então?
— Eu praticamente o estuprei. Me sentia num monumento de força de vontade, mas
bastou ele me tocar para que eu me atirasse nos braços dele.
Os olhos da amiga tornaram-se ternos.
— Você o ama, Ângela. O que podia esperar?
— Que eu me controlasse. Mas não. Um simples beijo e pronto. Me entreguei. —
Angela esfregou a testa com as costas das mãos. — Depois disso, demonstrei claramente
que não queria vê-lo nunca mais. Ele deve estar achando que estou louca.
— Ângela, você não está grávida, não é? Ela negou com um gesto de cabeça.
— Não que nós tivéssemos feito alguma coisa para prevenir. É muita
irresponsabilidade, eu sei. Mas Brett sempre foi tão... impulsivo, espontâneo... — A voz
falhou e Ângela começou a soluçar.
Holly ergueu-se e foi buscar uma caixa de lenços de papel.
— Obrigada. — Ângela secou os olhos e assoou o nariz. — Devo estar horrível.
— Você está ótima.
Ângela deu um suspiro profundo e começou a tomar o chá que a amiga lhe servira.
A porta se abriu e Harry apareceu com alguns pacotes nas mãos.
— Olá, meninas — cumprimentou-as. — O jantar está chegando.
— Vamos lá. — Holly pôs-se de pé. — Estou morrendo de fome.
Ângela seguiu-os até a cozinha lentamente.
Ao sair do apartamento de Holly, às dez horas da noite, pegou um táxi até sua casa.
Já não conseguia usar a limusine desde que Brett fizera comentários contrários ao veículo.
Pagou o motorista e subiu os degraus, desconsolada, pensando o quanto ele tinha
invadido sua vida. Estava vasculhando a bolsa à procura das chaves, quando de repente foi
agarrada violentamente pelas costas, uma mão de aço cobrindo-lhe a boca com força.
Incapaz de gritar, lutou, enquanto seus pulsos foram amarrados às costas.
Dois homens, um de cada lado, conduziram-na até a calçada, os pés mal tocando o
solo. A rua estava deserta e Ângela não pôde produzir nenhum som, fazer um único gesto
para chamar a atenção de alguém.
Um carro freou rapidamente bem diante deles e ela foi jogada no banco traseiro,
sem qualquer cerimônia. Sentou-se, atirando a cabeça para trás, a fim de afastar as
mechas de cabelo que estavam sobre os olhos, deparando-se surpreendentemente com o
olhar aterrorizado de Philip Cronin.
Seus raptores saltaram para o assento da frente e o motorista acelerou, o ruído dos
pneus desvanecendo-se no silêncio da noite.
O dia já começava a clarear e Brett, ainda sentado numa lanchonete da Broadway,
lia o dossiê que conseguira copiar com a ajuda de Matt Hendley. Fumava um cigarro após
o outro e tomava seguidamente diversas xícaras de café enquanto devorava com os olhos o
relatório. Terminada a leitura, recostou-se na cadeira e relaxou pela primeira vez em
vários meses.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Quando lesse tudo aquilo, Ângela teria que acreditar nele. Ela era uma boa aluna de
advocacia e saberia interpretar as evidências e tirar conclusões lógicas.
Após pagar a conta, Brett pôs-se de pé. Ao sair, chamou um táxi, dando o endereço
de Ângela para o chofer.
Josie atendeu a porta e ele percebeu que havia alguma coisa errada no instante em
que viu a criada.
— Ângela? — indagou, passando o olhar pelo interior da casa.
— Oh, Brett! — Josie agarrou-lhe o braço, nervosa. — Que bom que está aqui. Estou
tentando entrar em contato com você há horas, entretanto, não consegui encontrá-lo.
— O que aconteceu?
— Ângela não voltou para casa ontem à noite. Ela desapareceu!

CAPÍTULO X
Brett seguiu Josie até o saguão de entrada e, colocando as mãos nos ombros da
criada, fez com que ela o encarasse.
— Acalme-se, Josie. Pense um pouco. Diga-me exatamente o que aconteceu.
— Bem, quando cheguei aqui pela manhã e não a encontrei em casa, achei que havia
saído para poder espairecer. Mas depois pensei que, mesmo que resolvesse ir a algum
lugar, ela jamais o faria sem me avisar. Ângela não me daria essa preocupação.
—- Sei que não daria — Brett concordou. — Já entrou em contato com Holly? Ou até
mesmo com Philip Cronin?
— Não consegui falar com eles. Além do mais, o escritório de Patrian está um caos
no momento, você sabe.
— Não há qualquer mensagem, um bilhete. Nada?
— Não. E toda a roupa dela está intacta. — A criada fitou-o com um olhar
desesperado. — Oh, Brett, estou tão preocupada. Ângela jamais agiria desse modo.
— Eles a pegaram — Brett admitiu por fim. — Os homens de Frank a agarraram.
Devem pensar que ela sabe alguma coisa sobre os narcóticos.
— Você quer dizer que os homens de Frank acham que ele os enganou? Que Ângela
sabe onde tudo se encontra?
— Exatamente.
— Oh, Brett. Estou aterrorizada.
— Eu também — ele confessou, sinistro, retirando um bloco do bolso e rabiscando
um número. — Aqui está o meu telefone de contato durante as vinte e quatro horas do dia.
Se alguém, ou até mesmo Ângela, der notícias, telefone-me imediatamente.
— Aonde você vai? — Josie indagou, agarrando-o pelo braço.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
— Vou procurá-la.
— Prometa-me que terá cuidado. E me avise assim que descobrir algo.
— Não posso lhe prometer nada, Josie, mas pode estar certa de que farei tudo para
salvar Ângela. — Brett inclinou-se para beijar a fronte da mulher preocupada ao mesmo
tempo que retirava os papéis do bolso interno. — Guarde isso para ela.
— O que é?
— As provas de que Frank Patrian é culpado. Eu queria mostrá-las a Ângela,
entretanto, a esta altura, acho que ela não tem mais dúvidas a respeito. — Ele meneou a
cabeça, culpando-se pela própria estupidez. — Até o momento, nunca tinha passado pela
minha cabeça que eles pudessem agarrá-la. Eu devia ter pensado nisso.
— Você não é responsável por tudo e por todos — Josie comentou, num tom gentil.
— Mas sou responsável por Ângela — Brett retrucou. — Mantenha-se calma. Adeus
— acrescentou, desaparecendo pela porta.
Josie permaneceu à entrada, observando-o descer até a calçada. A seguir, apertou o
pacote contendo os documentos contra o peito e fechou a porta lentamente.
Afastando os cabelos dos olhos, Ângela se sentou na cama de lona. Percorreu o
olhar pelo ambiente vazio e percebeu que não se tratava de um pesadelo.
Não tinha a menor idéia de como fora parar ali. Não vira Philip desde o instante em
que chegaram àquele local. Sabia apenas que estavam no campo, já que a viagem fora
longa e podia ouvir o canto dos pássaros, assim como o som de vários animais.
Embora o quartinho em que se encontrava possuísse uma pequena janela, não
podia alcançá-la, pois estava no alto, mal deixando penetrar a luz. Tinha certeza, porém,
de que havia um guarda do outro lado da porta. Por várias vezes conseguira perceber que
ele conversava com alguém. Provavelmente, com um outro vigia postado à porta que dava
acesso ao resto da casa.
Ela fora interrogada diversas vezes desde que chegara. O procedimento era sempre
o mesmo. Era levada para uma saleta não muito grande e colocada sobre uma cadeira de
lona dobrável. Então, um homem de cabelos escuros com um sotaque que ela não
conseguia distinguir indagava sobre os negócios de seu tio, tentando tirar conclusões, com
uma série de perguntas e comentários a respeito dos narcóticos desaparecidos do último
suprimento de Frank Patrian.
Ângela deduziu que eles não acreditavam nela quando dizia que nada sabia, e pôsse a imaginar até quando esperariam para recorrer à violência.
Deduziu que poderia ser morta no instante em que eles percebessem que não tinha
nenhum envolvimento com o contrabando. E o mesmo poderia acontecer com Philip, que
obviamente fora trazido para lá pelo mesmo motivo.
Ângela apoiou-se contra a parede e fechou os olhos. Por que não acreditara em
Brett, que tentara fazê-la entender quem era seu tio? Ele estava certo o tempo todo, e ela
completamente cega e teimosa para admitir o contrário.
Sua infantilidade a levara para onde estava, ou seja, um local afastado, no meio de
uma floresta, nas mãos de perigosos inimigos.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
Ela balançou a cabeça, reprovando a si própria. Não deveria se atormentar com
aqueles pensamentos. Deveria, sim, concentrar-se ao máximo para manter-se viva o
quanto pudesse.
Talvez estivesse destinada a nunca mais ver Brett, no entanto, não conseguia
entender por que era importante manter-se viva.
No instante em que Brett entrou no escritório, lançou o olhar na direção do homem
de cabelos grisalhos, chefe da equipe. Matt Hendley estava sentado junto a ele, assim como
Dave Marchetti, outro dos investigadores que estavam atuando no caso Frank Patrian.
Todos os três tinham um ar sombrio.
— Está bem, Brett, o que houve com a garota Patrian? — o homem de meia-idade
indagou.
— Ela desapareceu e tenho todos os motivos para acreditar que os próprios homens
de Patrian a agarraram — disse, sucintamente.
— E então?
— Quero que a equipe a encontre.
O chefe meneou a cabeça numa negativa.
— Absolutamente. Não concordo. Já temos o que queremos e não podemos arriscar
mais nada nesse caso. Preciso de todos vocês para tentar localizar o carregamento
desaparecido, e já soube que você contou a Hendley que a moça não está a par de nada.
Brett, cuja paciência estava por um fio, tentou se controlar.
— Nós a colocamos em apuros. Nada disso teria acontecido se não tivéssemos
entrado na casa dela sob um outro pretexto.
— Não fale besteira, homem — o chefe interrompeu-o.
— A moça estava envolvida. Afinal, Patrian é o tio dela e alguma coisa poderia vir a
acontecer, mais cedo ou mais tarde.
— É nossa culpa se ela está em perigo, senhor — Brett anunciou, os dentes cerrados.
Verificando que o colega estava a ponto de explodir, Hendley interveio.
— Eu falarei com ele, senhor. Acho que ele está muito cansado com o excesso de
trabalho nos últimos tempos. O caso Patrian foi bastante difícil.
Brett lançou um olhar dardejante na direção de Matt, demonstrando que não
conversaria com ninguém. Entretanto, aproveitando as palavras de Hendley, o chefe deles
levantou-se.
— Tire alguns dias de folga para descansar de tudo isso — disse, voltando-se para
Brett. — Depois então você poderá tentar localizar o embarque desaparecido. — O velho
encaminhou-se para a porta e fez uma pequena pausa antes de sair. — A garota Patrian
não lhe diz mais respeito. Concentre-se naquilo que lhe pagam para fazer.
No instante em que o homem saiu, Brett voltou-se para Matt.
— Matt, desde o começo você e Dave estão juntos comigo nesse caso. Vocês
andaram por todos os lados e conhecem a gangue de Patrian, seus métodos e seus
esconderijos. Quero que venham comigo para salvar Ângela.
Os dois colegas se entreolharam, e Hendley ergueu os ombros sem esperanças, sem
dizer uma única palavra.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
Momentos Íntimos 72
— Vocês ouviu o que o velho disse? — Marchetti indagou, num tom incrédulo. — Se
fizer alguma coisa por conta própria será despedido. Ouviu bem? Você perderá seu
emprego.
Brett encarou-o pela primeira vez desde que seu chefe saíra do aposento.
— Você acha que eu estou muito preocupado com a droga deste emprego? —
esbravejou. — Aqueles patifes pegaram a minha garota. Eles estão com Ângela!
Marchetti olhou para Hendley, as sobrancelhas arqueadas.
— Ouçam — Brett continuou, checando a arma e recolocando-a no coldre. — Sei que
vocês têm família e que estão preocupados com suas carreiras. Se não quiserem se
envolver, eu compreenderei. Mas irei sozinho.
— Não seja louco! Você será morto se fizer isso, Brett — Hendley falou, levantandose. — Um homem sozinho não tem qualquer chance.
Brett olhou para os dois homens com um ar inquiridor.
— Como é? Vocês vêm comigo ou não vêm?
— Vamos — Marchetti informou, colocando as mãos nos quadris e suspirando
profundamente.
Brett agradeceu aos dois com um sorriso.
— O que faremos em primeiro lugar? — Hendley indagou.
— Antes, quero visitar o tio de Ângela — Brett avisou.
Frank Patrian estava sob custódia da polícia, protegido por um esquema de
segurança rigoroso, pois corriam boatos de que seus antigos comparsas poderiam atentar
contra a sua vida.
Quando foi conduzido por uma passagem estreita até o pequeno aposento destinado
aos interrogatórios, Brett ficou imaginando que era um milagre estar ali. Contara um
monte de mentiras ao delegado distrital a fim de conseguir aquela entrevista e esperava
não ser descoberto antes que tudo tivesse terminado. Fingira estar seguindo ordens de seu
chefe com o intuito de localizar os narcóticos escondidos e queria que o encontro
terminasse o mais breve possível.
Usando um uniforme de presidiário, Patrian estava sentado à cabeceira de uma
longa mesa, no meio da sala de interrogatórios. Assim que Brett entrou, ele ergueu a
cabeça e o examinou atentamente.
Era difícil verificar qualquer semelhança entre a beleza de Ângela e aquele velho
gordo e atarracado. Frank era calvo, tinha um nariz grande e o fitava com um olhar astuto
e inteligente.
— Sou Brett Devlin.
Patrian piscou os olhos, e então um sorriso lento lhe iluminou o rosto rechonchudo.
— Bem, aí está o rapaz que me meteu neste local — comentou, com uma voz de
barítono.
— Exatamente.
— E fez com que minha linda sobrinha o ajudasse — Frank acrescentou com um
brilho malicioso nos olhos castanhos.
Brett lutou para controlar a raiva crescente.

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Momentos Íntimos 72
— Estou aqui por causa de Ângela. Preciso de sua ajuda.
Patrian encarou-o com um ar incrédulo e caiu na gargalhada.
— Você é um garoto muito engraçado — disse, esfregando os olhos. — Escolheu a
profissão errada. Deveria ser comediante.
— Não tenho nada a perder com você. Não estou aqui para obter qualquer
informação sobre o contrabando escondido. Sei que foi isso o que disseram a você,
entretanto minha única preocupação é Ângela.
Patrian semicerrou os olhos.
— O que há com Ângela?
Brett estava certo. Se aquele homem tinha um ponto vulnerável, sem dúvida
tratava-se da sobrinha.
— Ela desapareceu e eu penso que seus homens a levaram.
Frank empalideceu e Brett aguardou até que o homem recobrasse o autocontrole.
— O que o leva a achar que foram meus homens?
— Porque faz sentido. Sua sobrinha não sairia de casa sem dar qualquer notícia, e
todos sabem que eles estão malucos para descobrir o esconderijo das drogas. Você jamais
imaginou que poderia estar pondo Ângela em perigo?
— Ela não sabe de nada. Não está envolvida em meus negócios.
Brett desferiu tamanho golpe na mesa que Patrian deu um pulo.
— "Você" a envolveu! Estou tentando salvar a vida dela, e, se você se importa com o
que possa acontecer à sua sobrinha, pare de brincar de bandido e mocinho comigo e me dê
a informação de que preciso.
Patrian engoliu em seco e, então, estreitou os olhos para encarar Brett.
— Você a ama, rapaz?
— Sim.
— Então, está bem. — Frank suspirou, resignado. — Pergunte o que precisa saber.
— Para onde eles podem tê-la levado? Conhecemos alguns de seus esconderijos
passados, entretanto não temos tempo de investigá-los um por um. O relógio está contra
nós, pois não levarão muito para descobrir que Ângela não sabe de nada. Não acho que a
vida dela valerá alguma coisa depois que eles descobrirem isso. Estou certo?
— É verdade.
— Então, onde ela pode estar?
Frank fez um gesto na direção do bloco de anotações que Brett trazia no bolso.
— Darei as instruções para chegar a dois lugares afastados de Nova York. Pode ser
qualquer um deles, talvez nenhum. No entanto, é tudo o que posso lhe fornecer. Tony
provavelmente escolheria Saugerties, porém também poderia decidir-se por Peekskill. — O
velho começou a desenhar o mapa e Brett inclinou-se para ouvi-lo, enquanto explicava
como chegar aos dois locais.
Feito isso, fez algumas anotações e rumou para a porta.
— Ei, rapaz — Patrian chamou-o. — Boa sorte! Brett assentiu com um gesto de
cabeça e abandonou a sala.

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Ângela acordou de um sono agitado, quando Philip foi subitamente empurrado para
dentro do quartinho. Ele tropeçou, perdeu o equilíbrio e, finalmente, caiu no chão, perto
da parede. A porta foi fechada com um estrondo.
— Philip, você está bem?
— Oh, acho que sim. E você?
-— Estou bem. Estou aqui neste lugar há tanto tempo que já perdi a noção das
horas. Sabe que horas são?
— Não tenho a menor idéia. Eles a interrogaram? Ângela assentiu com um gesto de
cabeça.
— Eles acham que você sabe onde estão aquelas drogas.
— Estive pensando seriamente em inventar uma estória qualquer só para ganhar
tempo — ela informou. — Mas eles acabariam descobrindo de qualquer modo e poderia ser
pior.
— Que enrascada, não, Ângela?
Ela não respondeu e Philip continuou, num tom reprovador:
— E eu achei que era muito esperto. O brilhante executivo preparando-se para o
futuro. Veja onde fui parar.
— Eu também não sabia nada mais do que você — Ângela confortou-o.
— Isso quer dizer que ambos somos uns tolos?
— Talvez. Já não sei de mais nada.
— Por que você acha que nos puseram juntos?
— Para que começássemos a conversar. Talvez eles pensem que um de nós pode
induzir o outro a falar. —-Ângela fez uma pausa e indagou: — Você acha que alguém
poderia estar à sua procura?
— Quem sabe? — Philip ergueu os ombros. — Não acha que Brett poderá estar
procurando por você?
— Só se ele perceber que estou desaparecida. Se ele não for até em casa, jamais
saberá. E, além do mais, depois do modo como o tratei da última vez em que nos vimos,
não ficaria surpresa se ele levasse bastante tempo para me procurar. Se é que vai me
procurar. — Ângela deu um suspiro e perguntou: — Você tem idéia de onde estamos?
— Penso que eles se dirigiram para o norte da cidade. Suponho que estamos numa
zona rural.
— Mesmo que alguém esteja à nossa procura, jamais nos encontrará — Ângela
lamentou-se, num tom desesperado.
— E não há qualquer chance de escaparmos. Estamos bem vigiados e a casa é
pequena. Mesmo que saíssemos, nunca conseguiríamos fugir. Tenho certeza de que
estamos num local isolado e morreríamos de fome e sede antes de chegar a algum lugar.
— Sendo assim, tudo o que nos resta é ficarmos aqui, sentados, esperando para ver
se vão nos matar ou não.
— É o que eu acho — Philip concordou, cabisbaixo. De repente, a porta foi aberta de
supetão e um homem loiro, com cerca de vinte anos, agarrou Ângela pelos braços,
erguendo-a da cama de lona e arrastando-a para fora. Philip observou a cena com
apreensão, enquanto ambos desapareciam pela porta.

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Plano Diabólico – Doreen Owens Male
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A fazenda abandonada em Peekskill provou ser o que realmente era, ou seja, um
lugar abandonado, sem uma viva alma por ali.
Brett praguejou baixinho e chamou Marchetti e Hendley pelo radiotransmissor.
— Ninguém aqui. Já vou para aí.
Ligou o carro e dirigiu-se para a estrada cantando os pneus.
Marchetti e Hendley estavam esperando por ele na encruzilhada da estrada
empoeirada que levava a Saugerties.
— Eles estão aqui! — Brett exclamou quase sem respirar, assim que desceu do carro.
— Há somente uma cabana de caça a cerca de um quilômetro e meio estrada acima.
Avistamos carros e uma camioneta do lado de fora. Não pudemos chegar muito perto, mas
acho que a moça está lá — Hendley informou.
— Quantos são? — Brett indagou.
— Vi dois sujeitos do lado de fora. Quantos há dentro não dá para saber. O que
faremos? — Marchetti perguntou.
Arqueando as sobrancelhas, Brett analisou a situação. Por fim, disse:
— Acho que é hora de enganá-los. Eu tenho um megafone no porta-malas do carro.
Poderemos nos esconder entre as árvores para não sermos vistos e anunciar quem somos e
que eles estão cercados. Eles podem acreditar e se render.
— E se eles resolverem atirar? — Hendley indagou.
— Então, estaremos em maus lençóis — Brett confessou.
— Vamos subir a estrada e olhar mais de perto — Marchetti sugeriu.
Brett concordou com um gesto de cabeça e eles entraram no carro.
Vinte minutos mais tarde, já estavam em suas posições, entre as árvores, não muito
longe da cabana, todos empunhando suas armas e Brett carregando o megafone.
Ele olhou para os companheiros, prendeu a respiração e começou a falar:
— Aqui fala Brett Devlin, do Departamento Federal de Narcóticos. Vocês estão
cercados. Aconselho-os a largar suas armas e a sair da casa com as mãos para o alto. Não
machuquem os reféns. Saiam daí com as mãos para o alto!
Todos no interior da cabana gelaram ao ouvir a voz do policial. Ângela ficou
novamente sozinha, deitada na cama de olhos fechados, rezando para que tudo desse
certo.
Houve um rebuliço entre os raptores, que começaram a correr pelos aposentos,
comunicando-se em voz baixa e apressada. Deviam estar decidindo o que fazer.
Os minutos se passaram e Ângela nada pôde ouvir. Aterrorizada, esperou pela
saraivada de balas, mas continuou tudo em silêncio.
De repente, a porta do pequeno quarto foi aberta e Brett surgiu diante de seus
olhos, banhados de lágrimas. Ele não disse uma única palavra, apenas correu em sua
direção e a tomou nos braços.
Como num sonho, Ângela agarrou-se a ele, enterrando o rosto no peito largo,
saboreando o milagre da presença do homem que amava. Finalmente, afastou-se o
suficiente para encará-lo.
— Você estava certo sobre tudo — murmurou. — Sinto muito.

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— Não fale nada... — Ele beijou-lhe as faces. — Nada mais tem importância agora.
Tudo o que importa é que você está bem.
— Você ainda me ama?
— Bem, terei de pensar um pouco sobre isso. Talvez deva procurar uma mulher sem
relacionamento com o mundo do crime.
— Não acho isso nada divertido. — Ela gemeu, se sentando na cama.
— Desculpe-me.
— Philip! — Ângela exclamou, de súbito. — Philip também está aqui.
— Já o pegamos. Estava num outro aposento e está bem.
— Você prendeu aqueles... homens que nos raptaram?
— Sim. Estão sob custódia.
Marchetti apareceu à porta, analisando-os.
— Ela está bem, Brett? — perguntou, fazendo um gesto na direção de Ângela.
— Estou ótima — Ângela respondeu, encarando-o.
Ele a saudou batendo continência, a mão ainda segurando o revólver, e a seguir se
retirou, com um sorriso largo iluminando-lhe o rosto.
— Quem é ele? — Ângela quis saber.
— Dave Marchetti, um ótimo amigo. Ele veio para me ajudar a salvá-la e é um dos
possíveis desempregados quando voltar para Nova York.
Matt Hendley foi o próximo a aparecer.
— Pegamos todos, Brett — informou. Ângela fitou Brett diretamente nos olhos.
— O que você quis dizer com "desempregado"? Hendley analisou-a de alto a baixo,
dizendo:
— Então, essa é a famosa Ângela Patrian. Puxa! Esse sujeito é apaixonado mesmo
por você, sabia?
Brett fuzilou-o com o olhar.
— É verdade — Matt prosseguiu, imbatível. — Brett estava prestes a ficar maluco
quando o velho se recusou a lhe dar permissão para procurá-la.
Ângela arregalou os olhos.
— Então, por que vocês estão aqui? — Voltou-se para Brett. — Oh, já percebi. Essa
viagem foi uma excursão custeada por vocês.
— Foi exatamente o que aconteceu — Hendley confirmou, alegremente.
— Cale a boca, Matt — Brett gemeu.
— Está bem. — Hendley riu. — Nós temos todo um grupo para levar conosco. Dave e
eu podemos fazer isso com a ajuda de Philip Cronin. Por que você e Ângela não vão no
outro carro?
— Boa idéia — Brett informou, acenando para o colega que já desaparecia do
quartinho.
— Ele parece muito feliz para uma pessoa que acabou de jogar a carreira pelo esgoto
— Ângela comentou, num tom sonhador.
— É porque ele acha que o velho irá nos perdoar quando verificar o que fizemos
num único dia de trabalho. Três gorilas de Frank Patrian... Quem diria!
— É verdade mesmo? Vocês serão perdoados?

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— Quem sabe? Quem se importa? — Ele tomou-a nos braços, beijando-a no
pescoço.
— Brett, estou imunda.
— Ora, querida, para mim, você continua linda como sempre — ele afirmou, os
lábios deslizando pelo colo macio.
O som do motor de um carro sendo ligado foi seguido pelo ruído de pneus sobre o
chão poeirento.
— Eles já se foram. Estamos a sós, agora — Brett informou, os dedos ágeis
desabotoando-lhe a blusa.
— Brett, não acho que este seja o local apropriado para o que você tem em mente —
Ângela começou a protestar. Porém, logo cedeu, intoxicada pelos lábios sedentos em sua
boca.
— O que você estava dizendo? — ele indagou, afastando-se por um minuto.
— Nada de importante — ela murmurou, enlaçando o pelo pescoço.
— Tem certeza? — Brett sussurrou, deslizando a mão pelas coxas bem torneadas.
— Nunca estive tão certa de alguma coisa, meu amor. — Ângela retrucou, feliz.

FIM

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