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Adorável aventureiro

Ladie’s man

Raye Morgan

As carícias estonteantes de Ames vencem
as dúvidas e temores de Patrícia quanto as
conseqüências dessa louca paixão. Sim, ele
é um aventureiro, um conquistador
incorrigível...mas adorável!
E nada no mundo pode afastá-la de seus
braços nesse momento.
Digitalização: Carla Matos
Revisão: Nelma

Momentos Íntimos Edição de Férias nº. 10

Momentos Íntimos Edição de Férias nº. 10 – 3 histórias
Doce ameaça
Laura Leone
Adorável aventureiro
Raye Morgan
Flores da paixão
Sara Chance

LADIES' MAN
© 1990 Helen Conrad
Originalmente publicado pela Silhouette Books, Divisão da Harlequin Enterprises Limited.
ADORÁVEL AVENTUREIRO
© 1991 para a língua portuguesa
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob
qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited,
Toronto, Canadá.
Silhouette, Silhouette Desire e o colofão são marcas registradas da Harlequin
Enterprises B.V.
Tradução: Elaine Pinho
NOVA CULTURAL: Av. Brig. Faria Lima, 2000
3º andar — CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento no Círculo do Livro S.A.

CAPÍTULO I

Patrícia franziu o cenho, surpreendida pelo que acabara de ouvir. Então,
balançou a cabeça e soltou urna sonora gargalhada. — Engraçadinha! — disse,
carinhosa, para a irmã. Apoiando o fone no ombro esquerdo, continuou a arrumar as
notas fiscais e os recibos espalhados sobre a mesa. — Mamãe jamais faria uma coisa
dessas. Ela ainda está casada com papai, lembra-se?
— Eu falo sério, Pat!
— Escute, Shelley, tenho muito o que fazer agora. A loja está cheia de
fregueses, e daqui a pouco o meu principal fornecedor virá entregar uma remessa
enorme de mercadorias...
— Esqueça o trabalho um instante — a outra a interrompeu, ríspida. —
Mamãe está mesmo tendo um caso. Eu vi o sujeito.
Patrícia impressionou-se com o tom grave da irmã e por isso nem cogitou em
contrariá-la.
— Está bem. Conte-me tudo.
O ruído de Shelley mordendo uma suculenta maçã precedeu então sua voz
úmida e aguda:
— Como eu ainda não tinha me encontrado com mamãe depois que ela
chegou de viagem, resolvi ir ao seu apartamento para conversarmos um pouco.
Seu apartamento... Patrícia sempre ficava deprimida quando ouvia essas
palavras. Há seis meses o casamento dos pais tinha se desfeito, porém até então ela
não se conformara com o fato. Cortava-lhe o coração ver duas pessoas, que outrora
se amavam tanto, vivendo agora afastadas. E Patrícia se aborrecia ainda mais ao
perceber o tempo passando, sem que nenhum sinal de reconciliação despontasse no
horizonte.
— Bem — Shelley prosseguiu —, toquei a campainha, e então... ele abriu a
porta. — Depois de uma breve pausa, exclamou: — Pat, era um homem lindo!
Quisera eu conhecer alguém como ele!
Embora a novidade contada pela irmã fosse intrigante, Patrícia se recusava a
acreditar totalmente nela.
— Shelley, só porque um homem foi visitar mamãe, não significa que...
— Eu não diria que se tratava de uma simples visita. — A jovem abafou o
riso. — Ele estava sem camisa, Pat!
Patrícia interrompeu o que fazia no mesmo instante, procurando uma

explicação lógica para aquela chocante revelação.
— Devia ser... o encanador, que estava lá para consertar algum vazamento.
Ou, quem sabe... alguém da companhia de dedetização.
— Por acaso essas pessoas costumam se despir na casa dos clientes?
— Não, mas... — Confusa, Patrícia agarrou o fone. — O que ele disse?
— Primeiro, murmurou um olá para mim... com um sorriso tão sexy! Eu
quase perdi a fala! Depois, apanhou a camisa... Que, aliás, estava caída no chão —
acrescentou enfática.
Que absurdo!, Patrícia pensou. Não fazia sentido... Claro, ela sabia que o
relacionamento dos pais sempre fora difícil. Quantas vezes não os vira discutindo
porque ele passava mais tempo na fábrica do que em casa! Tom Becker era um
homem inteiramente voltado para o trabalho e parecia até esquecer que possuía uma
família. Isto irritava a esposa, mas Patrícia tinha certeza de que os dois nunca
haviam deixado de se amar. Mesmo após tantos meses de separação...
— E mamãe? — Patrícia apressou-se em perguntar.
— Não estava em casa. Pelo menos, foi o que ele informou. — E suspirou,
com languidez. — Ele tem cabelos negros, brilhantes... E é tão musculoso!
— Não consigo entender...
— Pois para mim está tudo muito claro: ele e mamãe...
— Não! — Patrícia gritou, revoltada. — Deve haver um bom motivo que
justifique a presença desse estranho no apartamento de nossa mãe!
— Pat — Shelley começou, um tanto impaciente —, acho que está na hora de
enfrentarmos a realidade. Mamãe abandonou papai. Desta vez ela não vai voltar.
Passando a mão trêmula nos cabelos, Patrícia respondeu:
— Não diga tolices. Eles vão reatar. É só uma questão de tempo.
— Já se passaram seis meses. Antes, mamãe não ficava fora de casa mais do
que três dias.
— É verdade, Shelley, mas não acredito que esta situação seja definitiva.
Papai e mamãe nasceram um para o ouro... Eles ainda se amam, eu sei! — E fez um
grande esforço para reprimir a vontade de chorar.
Por um instante, ambas se mantiveram caladas, pensativas. Patrícia tinha
consciência de que, por ser uma mulher de quase trinta anos, independente e
profissionalmente realizada, devia encarar a separação dos pais com maior
naturalidade. Afinal, casos como este ocorrem todos os dias. Entretanto, seu lado
emocional teimava em ofuscar a razão.

Foi Shelley quem afinal rompeu o silêncio:
— Esse é um problema que não nos cabe resolver. Nós não temos o direito de
interferir.
— Sabe de uma coisa? — Pat murmurou, sentindo um aperto no coração. —
Ainda tenho esperança de que, quando mamãe e papai se encontrarem novamente,
não hesitarão em fazer as pazes. E minha intuição diz que isso vai acontecer sábado,
durante a festa no clube de regatas.
— Pode ser... — Havia uma ponta de ironia na voz da irmã. — Tomara que
ela não apareça acompanhada do namorado, senão...
— Fale-me mais sobre o tal homem — Patrícia pediu, recuperando-se um
pouco do mal-estar causado pela simples idéia.
— Eu já disse, ele é muito atraente! Tem corpo forte, rosto másculo e um
olhar... que deixa qualquer mulher desnorteada.
— Sei, do tipo insinuante.
— Exatamente!
Patrícia mais uma vez recusou-se a considerar a possibilidade.
— Acho que estamos tirando conclusões apressadas. Eu não acredito que
mamãe tenha um caso com...
— ...alguém muito charmoso?
— Um playboy!
— Jovem e cheio de virilidade... — Shelley continuou, como se não tivesse
escutado.
— Jovem? — a outra repetiu, preocupada.
— Sim. Ele deve ter pouco mais que a metade da idade de mamãe.
— Bem, isso prova que você se enganou. Imagine se...
— Pat, nossa mãe é muito bonita. Ela tem estilo, inteligência e, apesar de seus
quarenta e nove anos, ainda desperta o interesse dos homens.
Diante de tão forte argumento, só restou a Patrícia concordar:
— Tem razão...
— Há evidências de sobra, você não acha? — Shelley deu mais uma mordida
na maçã, antes de concluir: — Por mim, ela que faça como achar melhor. É uma
mulher suficientemente madura para saber o que quer da vida.

Mas é nossa mãe!, Patrícia disse a si mesma, lembrando-se de que já estava
cansada de discutir com Shelley. A irmã parecia não dar a devida importância ao
fato!
— Vou até lá verificar com meus próprios olhos — ela então anunciou.
— Agora? E quanto à entrega do fornecedor, que você estava esperando?
— Pedirei a Anne Marie para conferir as mercadorias. Telefono assim que
voltar, ok? Até logo.
Depois de desligar, Patrícia ainda ficou alguns minutos sentada diante da
escrivaninha, que, de acordo com seus planos, deveria estar em ordem até o final do
dia. Porém, diante de tão grande contratempo, onde ela encontraria ânimo e
concentração para trabalhar?
O pequeno escritório, localizado nos fundos da loja, era um bom refúgio para
os momentos em que o burburinho causado pela freguesia chegava a incomodar. A
papelaria de Patrícia, Rosas de Papel, estava sempre cheia; funcionava há apenas
dois anos e já tinha se tornado um grande sucesso entre os estudantes daquele bairro,
graças à variedade e ao bom gosto dos produtos que vendia. As três experientes
balconistas muitas vezes tinham dificuldade para atender jovens e adultos, ávidos
pelas novidades. Patrícia sentia orgulho de seu empreendimento e a ele se dedicava
de corpo e alma. Mas nada, nem mesmo a Rosas de Papel, parecia-lhe mais
importante do que sua família. E, para que ela voltasse a ser unida, alguma coisa
devia ser feita...
Patrícia levantou-se, decidida a defender a felicidade de seus pais. Pegando a
bolsa, deu instruções para Anne Marie e saiu apressadamente.
A mãe de Patrícia morava no décimo andar de um edifício recém-construído,
no lado oeste da cidade. A fachada, que se destacava pelos amplos terraços e janelas,
seguia à risca o estilo ditado pela moderna arquitetura. Decorado com cores
contrastantes, o apartamento de Laura Becker também traduzia um espírito jovial e
arrojado, aliás, condizente com a mulher que ela se tornara nos últimos meses.
Lamentando o quanto sua mãe havia mudado, Patrícia atravessou o saguão do
prédio, rumo ao estacionamento.
Como o Buick prateado não se encontrasse na vaga costumeira, ela
considerou aquele um bom pretexto para ir embora e voltar outro dia. Mas resistiu à
tentação, lembrando que o veículo poderia ter sido deixado temporariamente na rua.
Assim, enquanto tomava o elevador, Patrícia mais uma vez preferiu acreditar que as
suspeitas da irmã não passavam de puro engano.
Quando enfim chegou ao silencioso hall, todo revestido de mármore, ela tinha
readquirido a confiança. Um homem sexy no apartamento de sua mãe... Imagine!,
pensou, divertida. Já era hora de Shelley crescer e acabar com essas brincadeiras
pueris!

Contudo, o sorriso de Patrícia se desfez logo que ela bateu à porta, pois, para
seu espanto, uma voz masculina respondeu lá de dentro:
— Um minuto, por favor!
A decepção foi mais forte do que Patrícia poderia suportar. Pálida, ela recuou
alguns passos, tencionando fugir. Mas uma grande revolta compeliu-a a ficar para
tirar toda a história a limpo.
Um poucos instantes, Patrícia viu-se diante de um moreno alto que aparentava
ter a sua idade. Vestindo uma camisa branca, totalmente aberta, ele exibia o peito
bronzeado e musculoso. A calça justa de brim amoldava-se bem ao contorno das
pernas, fortes como as de um atleta. O estranho estava descalço.
— Pois não?
Seu olhar de malícia embaraçou-a ainda mais. Displicente, ele segurava uma
colher e um pote plástico cheio de sorvete. Parecendo divertir-se com a hesitação
dela, ergueu de repente a sobrancelha, antes de insistir:
— O que deseja?
Patrícia agora compreendia por que Shelley fora embora depressa, sem
procurar saber o que aquele homem cínico e sedutor estava fazendo ali. Era quase
impossível encará-lo! Mas ela não agiria do mesmo modo, pois precisava descobrir
a verdade.
— Quero falar com Laura Becker — disse, afinal, resoluta.
— Ela não está.
Indecisa por um momento, Patrícia então foi tomada pela súbita esperança de
que sua mãe talvez tivesse sublocado o apartamento e decidido voltar para casa...
— Ela ainda mora aqui?
Meneando a cabeça afirmativamente, o desconhecido completou:
— Laura saiu, mas não deve demorar.
— Quem é você? — Estava desconcertada com a intimidade que ele acabava
de revelar.
— Meu nome é Ames Mason. Sou amigo de sua mãe.
A resposta viera acompanhada de um sorriso cordial, mas Patrícia não teve a
menor vontade de retribuí-lo.
— Como sabe que sou filha dela, se não lhe contei?
— Nem seria preciso. Há fotos suas e de sua irmã em cada canto do
apartamento. — Mas Ames sentiu um certo constrangimento ao notar que ela

continuava hostil. — Você... não gostaria de entrar e esperar?
Embora preferisse estar longe dali naquele instante, Patrícia forçou-se a
lembrar que tinha um objetivo a cumprir. E assim o faria.
— Obrigada. — Passou por ele sem olhá-lo, caminhando decidida até o centro
da sala.
De um dos quartos, chegavam os sons indistintos da televisão ligada. Havia
uma garrafa vazia de cerveja sobre o aparador que ficava junto à janela. Patrícia
franziu o cenho e então examinou ao redor.
Os únicos objetos que destoavam naquela atmosfera repulsiva eram os portaretratos de sua mãe. De vários tamanhos e formatos, eles enfeitavam quase todo o
ambiente, com fotografias de Laura Becker e das filhas. Em uma delas, Patrícia
aparecia de biquíni, segurando o timão de um barco. Seu sorriso refletia a alegria de
um longínquo e ensolarado fim de semana à beira-mar, com a família.
A recordação causou-lhe uma grande tristeza. Suspirando, ela afinal virou-se
para o homem, que, sentado no sofá, a observava.
— Qual das duas é você? — ele indagou, procurando ser agradável. —
Shelley ou Pat?
— Patrícia. — Ela resolveu alimentar a conversa a fim de obter mais
informações. — E você... Ames Mason, certo? Disse que é amigo de minha mãe?
— Isso mesmo. — Sabia muito bem o que ela pretendia, mas preferiu deixar
as explicações para outra hora. — Quer um pouco? — ofereceu, apontando para o
sorvete.
— Não, obrigada. — Patrícia mal conseguiu esconder o desapontamento.
Se ao menos soubesse o que havia de fato entre aquele estranho e sua mãe!,
pensou, impaciente. Não poderia acusá-lo de coisa alguma sem ter certeza!
De certa maneira, Patrícia não podia ignorar o quanto ele era atraente.
Insinuante, viril, parecia o tipo perfeito para quem desejasse experimentar uma vida
repleta de emoções. De repente, ela se viu imaginando como seria estar em braços
tão fortes, sentir seu calor, sua proteção... Mas logo tratou de afastar esses
pensamentos. E começou a caminhar de um lado para o outro, perguntando-se o que
iria fazer.
Ames Mason olhava para ela com interesse, enquanto continuava a tomar seu
sorvete tranqüilamente.
— Você veio matar a curiosidade?
— O que disse? — A voz grave e ressonante apanhara Patrícia de surpresa. —
Não entendi.

— Sua irmã esteve aqui hoje cedo. — Ele deu um sorrisinho. — Agora, você.
Será que vai aparecer mais alguém da família? Tomara que eu consiga agradar a
todos.
A ironia não passou despercebida por Patrícia, que, no entanto, decidiu fingir
o contrário:
— Não sei do que você está falando.
— Tudo bem, eu não me incomodo. — E deu de ombros. — Podem me
observar à vontade, pois nada tenho a esconder.
Como que por obediência, Patrícia pôs-se a admirá-lo, enquanto ele saboreava
o creme gelado com contagiante prazer. Tratava-se realmente de alguém marcante,
que esbanjava sensualidade! Quem, ainda mais nas condições em que sua mãe se
encontrava, resistiria a todo aquele charme? Mulheres frágeis e sozinhas como ela
com certeza seriam as primeiras a sucumbir...
— Por que não se senta? — Ames então sugeriu, em tom bem-humorado. —
Assim, você me deixa nervoso.
— Como se fosse possível — resmungou Pat, num leve murmúrio. Ela era a
única pessoa tensa naquela sala! Nem seria para menos... Parecia quase certo que
sua mãe estava tendo um caso; e, como se não bastasse, com aquele homem
provocante!
Quando ela enfim resolveu acomodar-se numa das poltronas, Ames colocou a
colher sobre a mesinha e cruzou as mãos atrás da cabeça. O olhar curioso e
insistente a incomodou. Ela sabia que, embora bem cortados, seus cabelos deviam
estar em desalinho; e que a maquiagem, usada para disfarçar as sardas do rosto, já
necessitava de retoques. Inexplicavelmente lamentou não ter vestido uma roupa
mais bonita. A jardineira azul-marinho e os sapatos baixos lhe davam um ar tão
colegial! Mas como poderia prever aquele encontro?
O silêncio tornou-se insustentável, enquanto Patrícia pensava num modo de
sondar Ames Mason. Precisava acabar de vez com aquela dúvida angustiante!
Diversas perguntas passaram em sua mente, tais como "Onde você e minha mãe se
conheceram?" e "Há quanto tempo você está em San Diego?". Todavia, como ele
nada fizesse para deixá-la à vontade, irritou-se.
— Você não trabalha?
Sem se abalar, Ames repousou um braço sobre o encosto do sofá e respondeu:
— Eu pedi demissão. Pretendo me dedicar a uma atividade diferente.
Imediatamente, ela se lembrou do que Shelley lhe dissera. Um gigolô... Não
era novidade que alguns homens viviam à custa de mulheres ricas e mais velhas, em
troca de certos favores como companhia, proteção. Teria sua mãe chegado a esse

ponto?
Patrícia sentiu um enorme mal-estar. Mas procurou manter a naturalidade,
ainda que isso parecesse impossível.
— Você sabe quando ela vai voltar?
Ames ergueu os ombros, em sinal de dúvida.
— Laura saiu logo após o café e não disse para onde ia.
— Espero que ela tenha lhe preparado um desjejum bem nutritivo — Patrícia
retrucou, quase perdendo a calma.
— Na verdade — um sorriso malicioso esboçou-se em seus lábios —,
comemos apenas uma omelete. Eu mesmo fiz.
Ela não se conteve:
— Cozinhar também faz parte de suas tarefas?
— Como?
— Nada...
A provocação desta vez o desagradou profundamente.
— E você, o que faz? — ele perguntou, sério. — Além de bisbilhotar a vida
alheia, claro.
— Bisbilhotar? Eu? — Patrícia mostrou-se ofendida. — Por acaso é crime
uma filha visitar a própria mãe?
— Claro que não. — O tom sarcástico não deixava dúvida de que Ames
conhecia bem suas intenções. — Aliás, acho o relacionamento familiar algo
comovente...
— Não estou interessada em saber o que você pensa!
Ames levantou-se indignado, deu dois passos em sua direção e então parou.
— Pois Laura está — retrucou, de modo enfático. — E é isso o que importa.
O ódio refletido naquele olhar intimidou Patrícia. Mas ela continuou
encarando-o, como se nada no mundo pudesse amedrontá-la.
A afronta durou apenas um instante, que, entretanto, pareceu eterno para
ambos. Aos poucos, o rosto de Ames foi se descontraindo, até que ele desatou a rir.
— Que tolos nós somos! Mal acabamos de nos conhecer e já estamos
brigando.
Patrícia ficou confusa diante de sua repentina transformação. E, apesar

daquela demonstração de simpatia, não conseguiu relaxar.
— É evidente que você não gostou de encontrar um estranho no apartamento
de sua mãe — ele comentou. — Acho sua reação natural. Mas garanto que estou
aqui por um bom motivo.
— Muito bem. — Segurou a bolsa sobre o colo, com toda a força. A hora da
verdade tinha chegado, afinal. — Pode me dizer que motivo é esse?
Ames percebeu a tensão que a dominava. Então explicou, delicado:
— Moro no andar de baixo, e houve um sério vazamento em minha cozinha.
Você sabe, encanamento de má qualidade. Aconteceu uma verdadeira inundação!
Então Laura gentilmente sugeriu que eu ficasse em seu quarto de hóspedes, até eles
ajeitarem tudo lá em casa. — Fez uma pausa e olhou-a, curioso. Depois, completou:
— Como vê, sua mãe e eu não estamos cometendo nenhum pecado.
Patrícia nada disse de imediato. Queria acreditar naquela história, mas ele não
lhe inspirava confiança! Quando enfim falou, foi com agressividade, embora não
tivesse tal intenção.
— Imagino que vocês tenham se conhecido no estacionamento do edifício...
— Não — limitou-se a responder, com semblante outra vez carregado. — Em
Aspen.
— Compreendo — murmurou, arrasada. Tudo estava claro, agora. Shelley e
ela nunca deveriam tê-la deixado ir àquela estação de esqui sozinha! O lugar é
infestado de instrutores jovens e galanteadores!
— Será que compreende mesmo? — ele a desafiou. — Eu acho que não...
Laura tem um bom coração. Ela é uma mulher excepcional, fique sabendo.
— Não precisa me dizer, eu a conheço melhor do que você. Mamãe é mesmo
muito generosa. Por isso algumas pessoas não hesitam em explorá-la.
Ao notar que o tinha insultado, Patrícia se arrependeu amargamente. Não era
o que pretendia. Queria apenas que ele esquecesse sua mãe, que desaparecesse de
sua vida.
— Então é assim que você me vê? Como um aproveitador? — Nervoso, deu a
volta, parando atrás dela. — Decerto também pensa que eu a seduzi. Ridículo!
Patrícia não encontrou palavras para reparar o erro que havia cometido,
acusando-o daquele modo. Ela nem sequer conseguia pedir-lhe desculpas.
— E se por acaso estivéssemos tendo um caso? O que você faria, Pat? —
Pronunciou seu nome com visível desprezo. — Laura e eu somos amigos. O que
acontece dentro deste apartamento, entre nós, não é da sua conta. Entendeu?

Diante da circunstância, não lhe restava alternativa. Levantando-se
calmamente, Patrícia caminhou até a porta. De repente, virou-se para ele e viu o
quanto seus olhos negros brilhavam de ódio.
— Por favor, avise-a de que estive aqui — atreveu-se a pedir. — Eu
telefonarei mais tarde.
Instantes depois, ela saía do elevador e atravessava depressa o saguão do
prédio, em direção à rua. Precisava fugir dali para bem longe. Que vergonha
passara! Se encontrasse com sua mãe agora, não saberia o que lhe dizer!
O tal homem existia, e era maravilhoso! Como suportar o fato? Patrícia
sentia-se arrasada. A união de sua família corria sério risco, portanto alguma coisa
tinha de ser feita. Podiam até chamá-la de conservadora ou imatura, isso não
importava. Ela lutaria até o fim pela felicidade das pessoas a quem mais amava.

CAPÍTULO II
Ames Mason esperou a porta bater e então suspirou, aborrecido. Não devia ter
agido daquela maneira, pensou. Fora infantil de sua parte. Mas, até então, mulher
nenhuma o havia tratado com tanto desprezo! Como poderia ouvir calado as
acusações de Patrícia?
Ames pegou a colher, o pote de sorvete e a garrafa vazios e levou tudo para a
cozinha. Depois pôs-se a contemplar o mar calmo e azul através da janela, com as
mãos apoiadas sobre o frio mármore da pia. O que fazia ali, afinal?, perguntou-se.
Talvez Pat estivesse com a razão... Por certo ele havia errado em deixar Aspen,
buscando um outro tipo de vida. Seu lugar era entre as montanhas nevadas do
Colorado.
Após flexionar os braços repetidas vezes, Ames colocou um pouco de água e
pó na cafeteira, ligando-a em seguida. Enquanto observava o líquido cair em gotas
dentro da jarra, ele ponderou sobre o que uma mudança significava realmente. Seria
dar adeus às garotas bonitas, à diversão? Bons tempos... que a cada dia pareciam
mais e mais distantes. — Você está crescendo — Clara tinha lhe dito, na tarde em
que ele tentara descrever seus sentimentos. — Já era hora de isso acontecer!
Mas, ao contrário de sua irmã, Ames não se achava muito diferente. No fundo,
continuava sendo o mesmo Ames Mason de sempre.
Sentiu então uma forte tensão ao escutar a porta se abrindo. Quem sabe

Patrícia teria voltado...
A voz de Laura não tardou a ressoar, causando-lhe um grande alívio.
— Estou aqui. — E foi até a sala, onde a encontrou carregada de pacotes. —
Estava fazendo compras?
— Não é o que parece? — respondeu, bem-humorada. Então livrou-se logo do
peso, pondo as caixas em cima do sofá. — Eu lhe trouxe meias de lã, botas novas
para esquiar e óculos de sol mais leves.
Ames ficou incomodado com aquele gesto. Havia algo em sua relação com
Laura que o desagradava. Ela era uma mulher poderosa. E quanto a Ames Mason?
Um mero professor de esqui. As implicações contidas nesse fato pareciam óbvias
demais para ele ignorar.
— Obrigado, mas prefiro que deixe essa parte por minha conta.
Ela o olhou, surpresa.
— Está bem. Acontece que, como você precisava dessas coisas, pensei em
aproveitar a viagem para comprá-las também. — E sorriu, com o intuito de afastar o
mal-estar súbito que havia se estabelecido entre eles. — Aliás, adoro ir ao shopping
center. É uma verdadeira terapia para mim. Só Deus sabe o quanto necessito de
ânimo e alegria para continuar a viver! Ainda mais agora, que teremos muitas
responsabilidades pela frente.
— Desculpe-me, Laura — Ames disse, reconhecendo que fora indelicado com
quem não merecia. — Mas faço questão de pagá-la. — Tirou alguns dólares do
bolso, depositando-os sobre a mesinha. Naquele momento, um aroma forte e
delicioso invadiu o ambiente. — Aceita um cafezinho? Vou buscar para nós.
Instantes depois, ele reaparecia com duas xícaras da fumegante bebida.
Entregou-lhe uma delas e sentou-se para saborear a sua.
— O que aconteceu, Ames? — Laura perguntou, antes de tomar o primeiro
gole.
— Nada. Por quê? — Tentou agir com naturalidade.
— Você está muito sério. Raras vezes o vejo assim.
Girando a xícara vazia sobre o pires, ele informou:
— Você teve visitas hoje.
— É mesmo? — Laura fez um ar de preocupação. — Quem?
— Suas filhas. Mas não vieram juntas.
— E o encontraram aqui — completou. Parecia mais relaxada.

Ames levantou-se para apanhar o porta-retrato que enfeitava o aparador.
Mostrando a garota de cabelos claros na fotografia, explicou:
— Esta chegou primeiro. Mas saiu depressa, como se estivesse fugindo.
Depois, esta. — Apontou para o rosto sorridente de Patrícia. — Obviamente, a irmã
lhe contou sobre mim, e ela resolveu vir checar. Não foi nem um pouco simpática
comigo. Pelo contrário, dirigiu-me algumas ofensas e então se retirou.
— Não acredito — Laura comentou, perplexa. — Pat não é disso!
— Bem... Devo admitir que a provoquei.
— Eu sabia! — ela riu. — Mas você não se apresentou a elas? Não explicou
por que o estou hospedando?
— Não consegui. Fiquei em dúvida se deveria mesmo fazê-lo.
— Entendo. Eu não tinha pensado nesse detalhe... — murmurou. — O que
vamos dizer a elas?
Calados, ambos se puseram a procurar uma solução para o problema. Ames
achava que a melhor saída seria contar a verdade. Usar de subterfúgios não
costumava dar certo, como ele próprio tivera a oportunidade de comprovar inúmeras
vezes.
Após alguma hesitação, Ames decidiu que por enquanto não lhe daria
conselhos de qualquer natureza. Aquela questão particular dizia respeito apenas a
Laura e sua família. Não era portanto adequado ele se intrometer.
Mesmo assim, considerou conveniente alertá-la:
— Suas filhas tiraram conclusões erradas sobre nós. Principalmente Patrícia.
E receio que minha atitude tenha contribuído ainda mais para isso acontecer.
Laura ficou apreensiva.
— Como assim? — indagou.
— Ela pensa que... — Para seu espanto, sentiu-se corar. — Bem, Patrícia
insinuou que não somos só amigos.
— Que absurdo! Imagine se eu... — E interrompeu-se com uma gostosa
gargalhada.
— Obrigado pela parte que me toca — ele fingiu-se ofendido.
— Por favor, não me interprete mal. Claro que o acho um homem atraente. E
você sabe disso. Todas aquelas garotas em Aspen não o perseguem à toa. Mas eu já
passei dessa idade. Só esperava que minhas filhas tivessem mais confiança em mim.
— Não as culpe — contemporizou. — Patrícia e Shelley preocupam-se com

você. Provavelmente imaginam que estou interessado em seu dinheiro, ou coisa
semelhante.
Laura compadeceu-se dele.
— Sinto muito, Ames. Eu não contava com tamanho transtorno. Você tem
sido maravilhoso. Se não fosse sua boa vontade em vir para San Diego e me ajudar a
abrir esse negócio! Mas tudo acabará bem, com certeza.
"Tomara que sim", ele pensou, inseguro.
— Já me decidi. Vou telefonar para Pat e contar-lhe a verdade. — Um
segundo depois, Laura perdia todo o entusiasmo. — Eu sei que não será fácil
convencê-la a aceitar nossos planos... Ela sempre defendeu o pai, e talvez isso lhe
pareça provocação minha. Bem — colocou o aparelho sobre o colo — é melhor eu
terminar logo com a agonia. — Após discar o número da filha e aguardar um
instante, desligou: — Ninguém atende. Tentarei mais tarde.
Olhando novamente para o lado, deparou-se com a expressão grave do amigo.
Mas, ainda que tivesse vontade de descobrir seus pensamentos, preferiu não lhe
perguntar coisa alguma dessa vez.
Naquele momento, Ames refletia sobre as palavras de Laura: "nossos planos'".
Pois sim! A idéia fora inteiramente dela. E não o agradava saber que alguém estava
comandando seus passos...
Entretanto, há muito tempo Ames se cansara daquela vida ociosa, sem
responsabilidades. E estava disposto a mudar. Mas o verdadeiro caminho surgira
com as propostas de Laura, que desde o início lhe despertaram um grande interesse.
Lá estava ele, agora. Até quando?
Ames virou-se para o retrato de família pendurado na parede a sua frente.
Fixou a atenção, primeiro no rosto delicado de Patrícia, passando em seguida para o
homem que a abraçava.
— Será que ele também vai aparecer? — murmurou.
Laura viu que Ames se referia ao seu marido. Então apressou-se em desviar os
olhos marejados, antes de responder:
— Não se preocupe. Tom é um homem ocupado demais para lembrar que eu
existo.
Ames percebeu a emoção contida de Laura. E chegou à triste conclusão de
que seus problemas estavam apenas começando.

Patrícia atravessou o pátio arborizado e, acenando para o guarda, entrou no
prédio de linhas arredondadas. Seu pai como sempre deveria estar no controle de

qualidade, e por isso ela seguiu direto até lá. No caminho, foi cumprimentando todos
por quem passava. Eram funcionários antigos da fábrica, que a conheciam desde
menina.
Patrícia encontrou o pai sozinho naquele setor. Minucioso, ele passava os
dedos sobre a superfície brilhante de uma prancha de surfe.
— Olá, papai. — Ela o beijou no rosto.
— Querida! — Tom Becker ergueu os olhos, sorrindo.
Os anos não lhe haviam tirado o ar juvenil que a filha costumava ver em suas
fotografias de rapaz. Naquela época, ele fabricara sua primeira prancha, com as
próprias mãos. Assim, dera início a uma pequena empresa, que mais tarde se tornaria
próspera no mercado de equipamentos náuticos esportivos. Tom Becker continuava
se vestindo como nos tempos em que surfava nos mares da Califórnia. Tênis,
bermuda e uma camisa leve de algodão formavam seu traje favorito, mesmo durante
os dias mais frescos de março.
— Quais são as novidades? — ele perguntou, voltando-se para o trabalho.
A importância do assunto que a trouxera ali não permitia rodeios.
— Não acha que está na hora de você e mamãe reatarem?
— O que disse sobre sua mãe?
Patrícia sabia que ele sempre fugia daquele assunto. Ela não costumava
insistir, mas aquele era um momento em que não podia deixá-lo fechar-se em si
como estava habituado a fazer.
— Vocês estão separados há seis meses.
— Já faz tanto tempo assim? — Virou a prancha para examinar do outro lado.
— Ora, papai! — Sua paciência tinha se esgotado.
— Você gosta desta tonalidade? Fechamos contrato com um novo fornecedor,
mas ainda estou em dúvida sobre a qualidade da resina...
— Quer parar com isso Um instante, por favor, e me ouvir? Papai, você vai
perdê-la para sempre!
Levantando a cabeça, Tom Becker finalmente olhou para a filha e falou:
— Como posso perder algo que nunca me pertenceu?
Tais palavras deixaram-na arrasada. Mas ela não podia aceitar que aquele
fosse o final de tudo.
— Vocês não poderiam discutir suas diferenças, entrar num acordo? Eu tenho
uma idéia. Vou convidá-la para jantar em minha casa, mas não direi a ela que você

também estará lá.
— Esqueça, querida. Laura e eu não temos mais sobre o que conversar.
— Papai — colocou a mão em seu ombro —, vocês foram casados durante
mais de trinta anos...
— De acordo com sua mãe, é tempo demais para uma pessoa suportar —
murmurou, como rosto contraído pelo ódio. — Laura me deixou, Pat. Eu não
desejava a separação.
— Mas ela já tinha ficado longe de você outras vezes.
— Nunca por mais de alguns dias. — Tom Becker enfiou as mãos nos bolsos
— E também nunca havia alugado um apartamento para morar.
Patrícia não se dava por vencida,
— Quem sabe se você falasse com ela, talvez acabasse encontrando um meio
de...
— Chega, Pat! — Descontrolado, esmurrou a mesa. A pancada, de tão forte,
fez saltar o coração da filha. — Sua mãe não me quer mais. Eu não vou me
humilhar, suplicando-lhe que volte! — E foi caminhando em direção ao escritório.
— Preciso trabalhar.
Patrícia o seguiu. Então, arriscou uma última tentativa:
— Ela está tendo um caso, papai. — Esperou, com grande receio, para ver o
que aconteceria.
Tom Becker diminuiu o passo, mas só enquanto dizia:
— Você acha que eu não sabia? — Depois, acrescentou: — Filha, você é uma
mulher feita, e Shelley já freqüentou a faculdade. Não dependem mais de nós.
Deixem as coisas como estão. Sua mãe e eu ficaremos bem, não se preocupem.
Ele entrou na saleta e fechou a porta, demonstrando assim que não desejava
companhia.
Patrícia parou no meio do corredor, triste e desenxabida. Uma lágrima rolou
em sua face. E agora?, indagou-se. Não podia permitir que essa situação
continuasse! Seu pai estava visivelmente deprimido. Sabe Deus até quando o pobre
homem agüentaria!
Mas ela não perdia as esperanças. Lutaria até o fim! Era preciso mostrar
àqueles dois teimosos que eles ainda se amavam.

CAPÍTULO III
Patrícia parou seu conversível branco à beira-mar, para espairecer um pouco.
Recostando a cabeça no banco, olhou a praia deserta, que já recebia as primeiras
luzes do entardecer. Nuvens gigantescas moviam-se no céu, impelidas pelo vento
vindo do oceano.
Patrícia suspirou. Por que não podia ser como elas?, perguntou-se.
Simplesmente vagavam pela imensidão azul, sem preocupações nem tristezas...
Há seis meses, Patrícia não fizera outra coisa além de lamentar a separação
dos pais. Quando conseguiria aceitar de uma vez a realidade e deixá-los viver suas
próprias vidas? Por acaso dependia da união familiar para tornar-se uma mulher de
verdade?
Sabia que não. Entretanto, doía-lhe ver se desmanchando um lar que durante
anos fora repleto de amor e felicidade. Como era difícil forçar o coração a esquecer
o passado! O grito rouco de uma gaivota então ressoou, causando-lhe um sentimento
de profunda solidão. Ela ligou o carro sem hesitar e partiu em alta velocidade.
Somente algumas quadras adiante percebeu que se achava nas proximidades
da rua onde sua mãe morava. "Já que viera até ali...", pensou, dobrando a esquina.
Patrícia imaginava que aquela visita também seria pura perda de tempo. Laura
Becker era tão orgulhosa quanto o marido! Mas não custava tentar... Ela estacionou
à porta do edifício e, antes ele descer, olhou no espelho para se pentear.
Desta vez, decidiu entrar pelo lado da piscina. Sua mãe adorava dar um
mergulho no final da tarde e poderia estar lá agora. Porém, ao passar os arbustos que
separavam a área de lazer, avistou Ames Mason, nadando sozinho. Ia se esconder
depressa na densa folhagem, mas ouviu-o chamar:
— Pat, espere! —Ames pulou para fora da água e caminhou até ela, deixando
pegadas por onde pisava.
Ela ficou sem ação momentaneamente e, quando ele se aproximou, teve de
recuar alguns passos para não se molhar.
— Você voltou? — Ames comentou, sorridente.
— Não para vê-lo.
— Eu sei. Posso lhe falar um minuto?
Patrícia estremeceu diante daquele corpo forte, quase nu. Ames usava uma
sunga minúscula, de cor vibrante, que lhe realçava o bronzeado da pele. Suas pernas

eram musculosas, e os ombros, cobertos de gotas reluzentes que escorriam dos
cabelos, reforçavam a idéia de força que ele passava.
— Seja breve — respondeu, seca, para ele não perceber que a perturbara. —
Eu tenho pressa.
— É só a mim que trata desse modo ou costuma ser indelicada com todo
mundo?
O comentário poderia ofendê-la, se ela não reconhecesse logo que havia
errado.
— Desculpe, não foi minha intenção. Estou um pouco nervosa...
— Por minha causa? — Desta vez, tinha se aborrecido. — Mas o que eu fiz?
Como Patrícia iria explicar que lhe era difícil manter-se indiferente na
presença de um homem sensual e provocante como ele? Ante o dilema, optou por
uma evasiva: Não está com frio? Assim, você pode se resfriar.
Ames deu um sorriso maroto. Depois, apanhou a toalha que estava sobre a
mesinha e jogou-a nas costas.
— Por que não nos tornamos amigos? — perguntou, de repente.
— Amigos? — ela repetiu, confusa.
— Seria bem mais agradável se pudéssemos conversar à vontade, sem
estranhamento, não acha?
— Impossível. Nós pertencemos a lados opostos.
Ames hesitou, mas acabou protestando:
— Sinceramente, não entendo por que você tem tanto ódio de mim. Eu
gostaria de saber o motivo.
— Não é isso. — A mágoa que Patrícia enxergava em seus olhos parecia
verdadeira e lhe causou uma grande compaixão. — Eu não o odeio. É que a
felicidade de minha mãe me preocupa.
— Venha comigo. — Ele a segurou pelo braço. — Há algo que precisa ser
esclarecido.
Patrícia deixou-se levar até um canto retirado, onde trepadeiras floridas se
agarravam a uma armação e enchiam o ar de perfume. Ames sentou-se em uma
espreguiçadeira, apontando-lhe a que ficava ao lado da sua. Esperou que ela se
acomodasse e só então declarou:
— Laura e eu não somos amantes, Pat.
O olhar penetrante de Ames hipnotizou-a. De repente, nada parecia ter mais

importância para Patrícia do que estar junto dele, sentindo-lhe o calor e extasiandose diante de tão extraordinária virilidade. Ela acreditou em suas palavras, mas, por
alguma estranha razão, viu-se impedida de dize-lo.
— Você me ouviu, Pat? — perguntou, incomodado com seu silêncio.
Patrícia moveu a cabeça de modo afirmativo.
— Ótimo. — E suspirou, aliviado. — A história é a seguinte: Laura e eu nos
conhecemos há dois anos, em sua primeira viagem a Aspen. Ela e minha irmã, Clara,
que é proprietária de um restaurante nas montanhas, tornaram-se grandes amigas.
Foram as duas que tiveram a idéia de me mandar para San Diego, a fim de ajudar
sua mãe... em um projeto idealizado por ela.
— Projeto?
Ames não tinha certeza se deveria revelar todos os detalhes e por isso limitouse a explicar:
— Laura me convidou para trabalhar com alguém que pretende abrir um
negócio. Na verdade, ela está apenas tentando me arrumar um emprego. — Ao notar
que Patrícia se mostrava interessada, prosseguiu: — Como eu já havia me cansado
de Aspen e do que fazia lá, resolvi aceitar. Então aluguei um apartamento neste
edifício e tive problemas com o encanamento. Sua mãe me ofereceu guarida,
conforme lhe contei hoje de manhã. Isso é tudo. Entendeu?
— Claro — ela murmurou, sentindo-se mais leve, como se tivessem lhe tirado
um peso das costas.
Agora que tudo estava claro, reconhecia o quanto fora tola, entrando em
pânico por influência de Shelley. Devia ter percebido desde o início que ele não era
um homem vulgar, mas alguém maravilhoso...
Olhando para os lábios bem contornados de Ames, subitamente sentiu uma
vontade imensa de ser beijada. E naquele momento daria tudo para que ele a
tomasse nos braços e a beijasse. Arrebatada pela idéia, Patrícia recostou-se na
espreguiçadeira, sem parar um só instante de encará-lo.
Ames gostaria de saber se ela havia mesmo entendido sua explicação.
Continuava tão calada! Mesmo que ele tentasse decifrar a expressão estampada
naquele rosto lindo e delicado, não conseguiria. Patrícia estava muito sedutora!
Como Ames sempre tivera um fraco por mulheres bonitas, precisou refrear o
impulso de abraçá-la para provar o gosto de sua boca tentadora. Se almejava mudar
de vida, e estava decidido a fazê-lo, teria de desenvolver o auto-controle, agir com
dignidade. Havia ainda outro motivo: Patrícia parecia uma garota diferente. Ames
não entendia por que, mas ela o assustava um pouco. Talvez fosse medo de não
poder esquecê-la depois do primeiro beijo... E o mais engraçado era que ele nunca
sentira essa inquietação antes!

A intrigante descoberta, porém, acirrou-lhe o desejo, em vez de desestimulálo. Não se perdem velhos hábitos da noite pura o dia... Ames fez das tripas coração e
desviou o olhar, reprimindo como pôde os apelos da natureza.
Patrícia então despertou do devaneio em que havia mergulhado. Onde fora
parar seu bom senso?, perguntou-se, embaraçada e confusa. Estava se oferecendo a
um estranho simplesmente porque não conseguia resistir ao seu charme! Mas o que
mais a irritava era o fato de Ames não se mostrar nem um pouco interessado... Ela se
levantou, mal suportando o constrangimento.
— Fique tranqüilo, Sr. Mason. Agora que tudo foi esclarecido, não vou mais
incomodá-lo. Até logo — disse, antes de se retirar.
— Pat... — Ames começou a segui-la, mas acabou desistindo.
Ao tomar o elevador, Patrícia tremia de ódio e arrependimento. Não podia
entender por que se comportara daquele modo inconseqüente. Sempre fora tão
ponderada! Chegando ao hall do décimo andar, esperou algum tempo até que se
sentisse mais calma. Só então bateu à porta de sua mãe.
— Olá, querida! — Laura recebeu-a com um sorriso e um abraço carinhoso.
— Entre. — Dando-lhe as costas, disse: — Você apareceu na hora certa. Não
consigo fechar este zíper. E já estou atrasada! Quer me ajudar, por favor? Ótimo...
Obrigada, Pat.
Ela virou-se outra vez para a filha. O rápido movimento fez com que sua saia
de tecido vaporoso se levantasse e exibisse pernas fortes e bem torneadas.
Patrícia olhou-a de alto a baixo, admirada. Laura estava linda naquele vestido
preto, de seda pura. Seu rosto irradiava jovialidade. Ainda era uma mulher atraente,
cheia de vida, e parecia bem capaz de arrebatar corações...
— Eu soube que você e Ames já se conheceram — ela comentou, percorrendo
a sala à procura da bolsa. — Por acaso não o viu na piscina?
— Sim — Patrícia murmurou, subitamente deprimida pela lembrança do pai.
— Ele é bonito, não acha?
— Muito...
— Que tal estou? — Laura não notara seu desânimo. — Vou me encontrar
com Bert.
Patrícia franziu o cenho. Bert Hunter e Tom Becker eram amigos há muitos
anos. Tinham surfado juntos durante toda a juventude e, mais tarde, fundado a
Becker's Sports. Bert cuidava da parte burocrática da firma, enquanto Tom
desenhava as pranchas e os demais equipamentos com o mesmo talento que o levara
a se tornar o melhor surfista de sua época. Há dois anos, porém, um ataque cardíaco
afastara Bert dos negócios, obrigando-os a desmancharem a sociedade. Laura nunca

simpatizara muito com seu jeito de playboy e não entendia o fato de que nunca
quisera se casar.
— Para que, mamãe? — Patrícia perguntou, perplexa.
— Preciso discutir alguns assuntos com ele — Laura explicou rapidamente,
caminhando até a porta. — Desculpe-me, filha, mas agora tenho de ir. Bert não gosta
de esperar, você sabe — acrescentou, com uma risada. — Passe aqui outro dia para
conversarmos com calma. Está bem?
— A senhora vai à festa no clube de regata, sábado?
— Claro. Nunca perdemos uma sequer, não é, querida? — Ajeitou o cabelo
diante do espelho. — Levarei Ames comigo. Quero apresentá-lo a algumas pessoas
da nossa roda. — E abriu a porta. — Você poderia lhe fazer companhia? Eu não vou
me demorar.
Patrícia não hesitou em fugir àquela terrível incumbência:
— Sinto muito, mãe, tenho um compromisso para daqui a pouco.
— Que pena! Bem, acho que Ames não se importará em ficar um pouco
sozinho. Vamos, então?
Patrícia seguiu-a até a rua, mas limitou-se apenas a escutar o que ela ia
dizendo no caminho. Não gostara de ver como sua mãe havia mudado. Por outro
lado, será que ela tinha o direito de interferir?
Após o Buick prateado partir, Patrícia ainda ficou alguns instantes parada na
calçada. Viera para falar com a mãe sobre sua separação, mas nem tivera a chance de
começar... Enquanto procurava as chaves na bolsa, indagou-se se na verdade não
abordara o assunto por saber de antemão qual seria a resposta. Então escutou alguém
chamá-la:
— Pat!
Antes mesmo de se virar pára, trás, Patrícia já havia reconhecido aquela voz.
— Nós precisamos conversar... — Ames começou, debruçando-se na grade
que circundava o edifício.
— Desculpe, mas estou com pressa. — Abriu a porta do carro e sentou-se ao
volante. — Adeus!
Ela partiu dali a toda velocidade. Depois da vergonha que passara, não teria
coragem de encará-lo tão cedo!

No dia seguinte, Patrícia conversava com Shelley em seu quarto, enquanto
escolhia um traje para a festa de sábado. Apanhando outro vestido, desta vez

estampado, colocou-o a sua frente e mirou-se no espelho. Então protestou:
— Eu, Shelley? Por que você não pode distrair Ames durante a regata?
— A idéia foi sua, minha querida. — Deitou-se na cama da irmã e cruzou os
braços. — Portanto, você terá de fazer o "trabalho sujo".
— Mas você enfrenta melhor do que eu essas situações. Afinal, com toda sua
experiência...
Shelley lançou-lhe um olhar desconfiado, ajeitando os óculos com o ar
afetado que sempre exibia quando Patrícia lhe falava daquela maneira.
— Posso saber o que você quer dizer exatamente?
— Ora, Shelley. Você sabe que é mais fácil para você lidar com esse tipo de
homem. — Sentou-se ao lado dela e olhou-a com um misto de afeição e rancor.
Desde pequena Shelley fora o cérebro da família e vivia às voltas com os
livros. Mas, apesar dos óculos, sempre tivera mais sorte com os rapazes. Nunca lhe
faltavam convites para sair, que ela aceitava sem parecer muito entusiasmada. E,
quanto mais demonstrava indiferença, mais o assédio masculino aumentava.
— Os homens que conheço não se preocupam com a aparência. — Patrícia
lamentou. — Estão sempre carregando pastas e, mesmo em um jantar à luz de
velas, parecem apenas interessados em números e cálculos. Nunca tomam táxi
porque é caro demais e, quando querem presentear uma mulher, o máximo que
conseguem imaginar é uma caixa de bombons.
Shelley conteve o riso e comentou:
— Não acho que sejam tão ruins assim, mas percebo aonde você quer chegar.
— Ficou pensativa por alguns instantes e depois balançou a cabeça, os longos
cabelos loiros contrastando com a pele bronzeada. — Sinto muito, Pat, não farei o
que me pede. É você quem quer tanto empurrar mamãe de volta para os braços de
papai, não eu. Por mim, cada um que siga seu próprio caminho.
— Mas você prometeu que ia me ajudar.
Shelley deu de ombros.
— Está bem. Concordo em vigiar mamãe durante a regata, mas não vou
flertar com Ames Mason. Essa será sua parte.
A regata era um evento tradicional, promovido pela família Bournane, que
mobilizava a alta sociedade da costa sul da Califórnia. A corrida propriamente dita
realizava-se entre a ilha Verde e o cais do Iate Clube. Ao final, oferecia-se um
banquete a todos os convidados. Os Becker compareciam há muitos anos, desde que
a fábrica de pranchas de Tom conquistara um lugar no mercado.

— Não vou conseguir — Patrícia murmurou.
— Deixe mamãe por minha conta. — O tom preocupado da irmã não parecia
afetá-la. — Você terá de atrair Ames e mantê-lo afastado. Quanto a mim, usarei de
toda a sutileza para juntar nossos pais, sem que desconfiem de coisa alguma.
— Pelo menos, esse encontro será num lindo lugar. Imagine as roseiras em
flor exalando seu perfume inebriante... As doces recordações do passado... Duvido
que eles resistam! — Suspirou, resignada. — E eu terei de distrair Ames , Mason!
— Não se queixe. — Shelley virou-se de braços, as mãos sob o queixo. —
Você ficou com a melhor parte. Ames é um dos sujeitos mais bonitos que já conheci.
Aproveite para se divertir um pouco. Patrícia retrucou, indignada:
— Não se pode usar alguém como se fosse um... brinquedo.
— Por que não? No fundo, todos os homens são apenas meninos crescidos.
As duas então mergulharam num profundo silêncio. De repente, o rosto
sedutor de Ames invadiu a mente de Patrícia, ocupando todos os seus pensamentos.
Como ele reagiria a sua aproximação? Difícil imaginar. Quanto a ela, jamais
encontrara alguém que a fizesse perder o controle como Ames Mason. Estremecia só
em pensar que quase sucumbira ao seu másculo fascínio. Tinha de ser mais forte da
próxima vez.
Patrícia sentiu o coração disparar ao se dar conta de que o novo encontro não
tardaria. Mas precisava manter Ames Mason longe de Laura. Seus pais mereciam
uma chance de reconciliação. Nada, nem ninguém, poderia desviá-la desse objetivo.

Ames Mason vestiu o paletó e então fitou-se demoradamente no espelho.
Achava-se um tanto estranho naquele traje formal, embora o terno de linho bege e a
camisa, quase no mesmo tom, tivessem um corte impecável. Laura soubera escolher
muito bem!
— Nossa, que elegância! — Ela surgira na sala de repente. — Nunca imaginei
que por trás de todo esse bronzeado se escondesse um perfeito gentleman.
Ames forçou um sorriso. Sabia que era apenas brincadeira de Laura, mas de
qualquer modo aquelas palavras lhe causavam um certo desconforto. Até pouco
tempo atrás sua imagem de playboy o deixava orgulhoso. Entretanto, agora ele via
diante de si um homem bem diferente, mais maduro. O antigo Ames Mason parecia
nunca ter existido... Seria essa a mudança que ele tanto almejava?
Ames decidiu por enquanto não pensar no assunto. Era dia de festa; dia de
elevar o espírito, não de arrefecê-lo com preocupações.
— Acha que vou agradar seus amigos? — ele perguntou.

— Claro que sim. — Laura começou a passar batom vermelho nos lábios. —
Precisamos impressionar principalmente Bert.— Depois que vocês forem
apresentados, procure não ficar longe dele. Quero que Bert o veja bem. Mas seja
sutil, para não dar na vista. Entendeu?
— Certo, chefe. — Ames fez uma continência.
— Não sou seu chefe. — E completou, bem-humorada:
— Ainda...
Virando-se outra vez para o espelho, Ames ajeitou melhor o nó da gravata.
— E sua família? Também vai estar lá?
— Você quer dizer minhas filhas? — Pegou o xale de seda e jogou-o sobre os
ombros nus. — Elas não perderiam a regata por nada neste mundo! Nem meu...
Tom. Você vai conhecê-lo inevitavelmente.
— E os maridos de Shelley e Patrícia? Ou namorados? — Procurou dar um
tom desinteressado à pergunta. — Também irão, não?
— Elas não são casadas, Ames. — Após uma breve pausa, comentou: —
Aliás, acho estranho que ainda não tenham se preocupado com isso. Pat e Shelley
cresceram em um lar saudável, feliz... Claro, Tom e eu enfrentávamos problemas,
como todos os casais. Mas nós nos amávamos. — Laura suspirou, e seus olhos
perderam o brilho. — Era de se esperar que as duas seguissem o exemplo.
Entretanto, nenhuma delas parece entusiasmada com a idéia. Talvez não considerem
aqueles tempos tão bons assim...
Ele notou a tristeza da amiga e quis logo animá-la:
— Se eu fosse você, não perderia o sono por causa de suas filhas. Elas ainda
são jovens e têm a vida inteira pela frente. Veja Patrícia...
— Pat! — exclamou, indignada. — Essa me deixa ainda mais apreensiva.
Depois que abriu a papelaria, tornou-se igual ao pai. Só pensa em trabalhar! —
Então olhou para o relógio. — Estamos em cima da hora! Vamos? Quero chegar
antes de Bert.
Ames foi até a porta e lá esperou, enquanto ela procurava as chaves dentro da
bolsa. Não prestou mais atenção ao que Laura dizia, pois naquele momento só
conseguira pensar em sua filha mais velha. Estava ansioso para rever a garota cujos
lindos olhos verdes o haviam fascinado.

CAPÍTULO IV

Era uma manhã clara e ensolarada. Os galhos das árvores balançavam
suavemente, impelidos pela brisa morna que soprava da baía.
O Iate Clube tinha sido decorado com arranjos mistos de flores e frutas. Uma
pequena orquestra tocava no gramado, perto das mesas nas quais os convidados se
sentariam a hora do banquete. Colares de orquídeas, confeccionados no Havaí, eram
oferecidos a todas as mulheres presentes. Havia um aroma de champanhe no ar. "O
cenário perfeito para Laura e Tom Becker se reencontrarem...", Patrícia pensou, com
entusiasmo. "Seu plano tinha tudo para dar certo!"
Sentada em um banco oculto entre as roseiras, ela continuava vigiando o
portão de entrada do clube. Sua mãe e Ames Mason chegariam a qualquer momento
e deveriam ser separados no ato.
Shelley esperava do outro lado, junto à recepção, conforme elas haviam
combinado. Como sempre, estava cercada de rapazes, que, ávidos, disputavam a sua
atenção. Patrícia sentiu uma ponta de despeito. Jamais entenderia por que sua irmã
despertava tanto a curiosidade masculina mesmo mostrando-se indiferente aos
galanteios. Bastava um simples olhar através daquelas lentes para que os homens
ficassem hipnotizados!
Não que Shelley fosse feia ou desinteressante. Mas Patrícia, que também
possuía seus encantos, nunca atraía quem realmente a interessava. Às vezes ela
achava que, se tivesse tantos admiradores quanto a irmã, maior seria sua chance de
conseguir o companheiro ideal.
Companheiro ideal... Como se existisse alguém assim! Nem mesmo Shelley,
com todas as paixões que já provocara, podia se gabar de ter encontrado um.
Suspirando, Patrícia voltou a observar os veículos que esperavam para entrar.
Vestido com um uniforme branco, o recepcionista ajudava as senhoras a descerem
dos carros e depois os autorizava a seguir para o estacionamento. Um reluzente
Miúra azul-marinho surgiu então. Felizmente o motorista, Tom Becker, não reparou
em Shelley, parada a alguns metros dali.
Patrícia mantinha-se tão atenta à interminável fila de automóveis que não
notou uma pessoa se aproximando.
— Olá, querida.
Surpresa, ela ergueu os olhos e deparou-se com um rapaz baixo, de cabelos
encaracolados. Era Stevie Servig, apaixonado por Patrícia desde a época do ginásio.
Em todos aqueles anos, nunca havia perdido as esperanças de um dia ver o seu amor

correspondido. Stevie entrara em outra faculdade e depois servira algum tempo
como oficial da Marinha, deixando-a em paz durante esse período. Mas voltara,
mais obcecado por ela do que nunca.
— Como vai, Stevie? — ela o cumprimentou, com um sorriso forçado.
— Melhor agora. Você está linda! — Fascinado, examinou-lhe o vestido de
alças finas e tecido transparente, que a tornava extremamente sensual. Pertencia a
Shelley, e era ousado demais na opinião de Patrícia. Mas sua irmã insistira em
emprestá-lo, argumentando que a ocasião merecia um traje muito especial.
— Obrigada — respondeu, fria. Imaginava que depois desse tratamento ele
resolveria ir embora.
— Posso lhe fazer companhia?
— Se não se importa — Patrícia conteve-se para não expulsá-lo dali —,
prefiro ficar sozinha. Mas agradeço de qualquer forma.
— Está esperando alguém? —— perguntou, curioso. Ela ia negar, quando de
repente lhe ocorreu que aquela seria uma excelente oportunidade para tentar resolver
de uma vez por todas seu problema com Stevie.
— Bem, eu... O fato é que vou me encontrar com uma pessoa. Dentro de
poucos instantes — acrescentou, de modo enfático.
— Entendo. — Stevie nunca se zangava, nem demonstrava ciúme. Parecia
acreditar que, se tivesse paciência e não a forçasse, Patrícia um dia acabaria
admitindo que também o amava. — Quem é ele?
— Você não o conhece.
— Quer dizer então que... — Dando um passo à frente, olhou-a com tristeza.
— Devo perder as esperanças?
Patrícia hesitou antes de falar. Nunca houvera nada entre eles, a não ser na
imaginação de Stevie. Mas talvez fosse melhor desiludi-lo para sempre.
— Receio que sim, Stevie. Foi bonito enquanto durou.
Ele segurou sua mão e murmurou:
— O sujeito deve ser maravilhoso, para ter conquistado o seu coração.
— Na verdade, Stevie, eu...
— Não precisa se justificar — interrompeu-a, delicado. —— Só me interessa
vê-la feliz. Se você o ama, isso já me deixa satisfeito.
Patrícia não soube o que dizer. Por outro lado, de nada adiantaria tentar lhe
explicar. O mais importante era que Stevie parecia ter finalmente desistido dela.

— Você gostaria que eu ficasse ali, vigiando? — ele se ofereceu, de boa
vontade.
— Não há necessidade, Stevie. Muito obrigada.
— Então... Até logo.
— Conversaremos depois, está bem? — Pela primeira vez sentiu pena do
rapaz. E o observou afastando-se, cabisbaixo, até desaparecer no meio dos
convidados.
Laura Becker e Ames Mason tinham acabado de chegar. Mas Patrícia, que se
distraíra com Stevie, deu-se conta disso somente ao ouvir a voz de sua mãe,
cumprimentando Shelley. No mesmo instante, ela se encaminhou para lá. A irmã
lançou-lhe um olhar significativo e então levou Laura para o lado das piscinas.
Sabendo que Shelley ia dizer à mãe para não se preocupar com Ames Mason,
pois Patrícia lhe faria companhia, ela respirou fundo e foi ao seu encontro. Detestava
a idéia de seduzi-lo; ainda mais quando se lembrava de quase ter perdido a cabeça
por causa dele, dias atrás. Mas Patrícia não via outra saída. Precisava usar de todas
as armas para proteger a felicidade dos pais.
Ames havia estacionado em uma das vagas mais distantes. Patrícia esperou-o
trancar o carro antes de se aproximar.
— Olá — cumprimentou, fazendo charme. "Será que pareço vulgar?,
perguntou-se. Talvez.. Mas só a reação de Ames lhe diria. Ele se virou e pareceu
surpreso ao vê-la.
— Como vai? — O terno claro caía-lhe muito bem, realçando sua tez morena.
Os fartos cabelos tinham sido penteados para trás. Do rosto másculo, barbeado com
esmero, exalava uma fragrância suave e inebriante.
Patrícia ficou perturbada. Aquele homem a tirava do sério! Entretanto, ela
precisava ser forte. Pegando em seu braço, disse, num tom insinuante:
— Preciso falar com você. Que tal irmos para um lugar mais sossegado?
— Está bem... — ele respondeu, após alguma hesitação. — Mas, e Laura?
Ambos olharam ao redor. Shelley e a mãe já tinham desaparecido. Ames
franziu o cenho.
— Shelley queria muito conversar a sós com mamãe— Patrícia apressou-se
em explicar, tentando manter a naturalidade. — Encontraremos com elas depois.
Ames mostrou um ar desconfiado. Em seguida, começou a examiná-la de alto
a baixo, detendo-se por mais tempo nas delicadas curvas de seus seios e quadris.
Então sorriu, malicioso.

Arrependida de ter posto aquele vestido, ela refreou o impulso de se cobrir
com as próprias mãos. Sentia-se nua diante de Ames! Durante sua adolescência,
Patrícia sonhara em tornar-se uma mulher desejada, como as mais lindas e
provocantes estrelas de cinema. Agora percebia como era difícil representar tal
papel. Tomara que aquela farsa terminasse logo para ela voltar a ser a Patrícia de
sempre!
Todavia, o plano que havia traçado ainda estava em sua etapa inicial.
Dirigindo a Ames um olhar lânguido, ela sugeriu, quase num sussurro:
— Vamos?
— Claro. Você é quem manda. — E segurou com força a mão que o tocava.
O coração dela bateu alucinadamente.
Eles tomaram o caminho que levava ao bosque, mas precisaram esperar uma
multidão de convidados passar. Patrícia notou que Ames a observava, porém não
ousou encará-lo. Já estava farta de fingir-se sedutora! Só queria mesmo carregar
aquele homem para longe das vistas de sua mãe.
E o que aconteceria depois? Ela se arrepiou.
— Está com frio? — Mais do que depressa, Ames tirou o paletó e o colocou
sobre os ombros de Patrícia.
— Vista-o de novo, por favor. Alguém pode chamar sua atenção.
— Engraçado — comentou, irônico —, eu não posso ficar apenas de camisa.
No entanto, você, com esse vestido...
— O que tem ele? — Patrícia sentiu-se corar. — É tão feio assim?
— Pelo contrário. — Tornou a admirar-lhe o corpo bem-feito que a seda fina e
colorida deixava entrever. Comentou, para provocá-la: — Parece-se muito com o
que uma dançarina de strip-tease usava naquele filme... não me lembro o nome.
Furiosa, ela inclinou-se levemente para que o paletó caísse no chão. Mas
Ames apanhou-o a tempo e, com igual rapidez, agarrou o pulso de Patrícia.
— Muito bem, garota — disse, puxando-a para junto de si. — O jogo acabou.
Agora conte-me o que pretende.
— Eu não...
— Pensa que pode me enganar?
— Não sei do que você está falando!
— Pare de bancar a mulher fatal — ele retrucou, calmo. — Você não dá para
isso. Se bem que... — e mais uma vez passou a vista ao longo de seu vestido —

...tem um físico bastante apropriado.
A insinuação causou um grande embaraço a Patrícia, e ela não soube como
agir.
Com a outra mão, Ames ergueu-lhe o queixo e então olhou fundo naqueles
olhos assustados.
— Vamos, diga-me a verdade. Deve ser algo muito importante — murmurou.
— Por que está me tratando assim? Não sabe que é perigoso brincar com fogo?
Quando ele a tocou, Patrícia ficou completamente desnorteada. Ames estava
tão próximo que ela podia sentir seu calor. Tentou pensar em uma boa desculpa,
qualquer coisa convincente para dizer. Mas o contato com aquele corpo forte e
vibrante ofuscava-lhe a razão.
De repente, alguém chamou seu nome. Volvendo o olhar ainda magnetizado,
Patrícia viu Stevie Servig, que caminhava em sua direção.
— Então, foi ele quem ganhou a sorte grande? — o rapaz perguntou, sorrindo
para Ames.
— Como? — Patrícia mostrou-se confusa, mas logo entendeu: — Ah, sim...
Não!
Era tarde demais. Stevie já apertava a mão de Ames, com vigor e simpatia.
— Meu nome é Stevie Servig.
— Este é... Ames Mason — ela o apresentou, constrangida.
— Muito prazer. Eu gostaria de cumprimentá-lo. Ela é uma garota excepcional.
Parabéns!
Perplexo, Ames virou-se para Patrícia e outra vez para Stevie.
— Obrigado... — disse.
— Sei que vocês dois serão felizes. Se me permite dizer, nunca conheci uma
mulher tão maravilhosa quanto Pat.
— Tem razão — Ames admitiu, com um sorrisinho, enquanto a observava. —
Não duvido que ela possa me fazer muito feliz — acrescentou, enfático.
Patricia não gostou do tom de sua voz. Sem se atrever a olhar para Ames, ela
deu um passo à frente e beijou o amigo no rosto.
— Obrigado Stevie — murmurou.
— Sou eu quem tem de agradecer, pelo carinho que você me dedicou durante
todos estes anos — ele respondeu humildemente. — Mas agora você pertence a
outro homem. Adeus, Pat. — E se retirou, amargurado.

Ames voltou a segurar Patrícia pelo braço.
— Posso saber o que está acontecendo? — Tinha se irritado, afinal.
— Não se preocupe, — Ela tentou se soltar, mas foi em vão. — Stevie é muito
brincalhão. E quando bebe...
— Pois, para mim, ele parecia estar falando sério.
Naquele momento, outra pessoa chamou por Patrícia. Ela suspirou, aliviada.
Jerry Bates, fotógrafo do clube, correu ao encontro dos dois, a velha câmara
pendurada no pescoço e uma pesada maleta no ombro.
— Srta. Becker, acabo de ser informado. Parabéns pelo noivado! Por favor...
— Fez um gesto para que eles se aproximassem mais e então ergueu o flash. —
Assim está bem. Agora, se não se importa, senhor, que tal beijar a noiva?
Ames sorriu para Patrícia.
— Eu não sabia que íamos nos casar — sussurrou, com ar zombeteiro.
— Eu posso explicar...
— Depois, porque, neste exato instante, tenho algo mais interessante a fazer.
— Não é preciso, Ames! Não!
Alheio aos seus protestos, ele a enlaçou pela cintura e deu-lhe um beijo
ardente. Algo mágico aconteceu. Por mais que Patrícia tentasse imaginar o gosto
daqueles lábios, e o fizera muitas vezes em seus devaneios noturnos!, jamais
conseguiria adivinhar sem prová-lo. Tinham um sabor tão doce! Como as frutas que
sua avó lhe trazia do campo...
Ames finalmente afastou o rosto transtornado pelo desejo. E Patrícia, no mais
profundo êxtase, encostou a cabeça em seu peito, que vibrava com as batidas de um
desvairado coração.
— Puxa! — exclamaram em uníssono algumas pessoas que os cercavam,
enquanto outras aplaudiam.
— Vamos sair daqui — Ames disse para Patrícia, com um estranho brilho no
olhar.
De mãos dadas, eles atravessaram o bosque e desceram até a orla marítima. O
plano traçado por Patrícia havia tomado um rumo inesperado. Agora ela teria de
arcar com as conseqüências de sua própria invenção.

CAPÍTULO V

A marina estava deserta. Todos os convidados se achavam no alto da colina,
junto à sede do clube. O mar batia suavemente contra a amurada, provocando um
hipnótico balanço dos barcos. Um ruidoso bando de gaivotas sobrevoava o píer em
círculos que pareciam não ter mais fim.
Patricia encostou-se na cerca ao final da rampa e então perguntou-se o que
viera fazer ali. Os dois tinham corrido como loucos depois do beijo... Mas agora o
vento fresco, com cheiro de maresia, começava a trazê-la de volta à razão.
Patricia virou-se para Ames Mason. Parado alguns passos sua frente, mãos
enfiadas nos bolsos da calça, ele fitava o horizonte com uma expressão indecifrável
no rosto. A lembrança das emoções vividas momentos atrás, nos braços daquele
homem, perturbou-a.
Que confusão ela havia provocado! Como iria se explicar?
— Este é o cais do Iate Clube — começou, tentando diminuir a atmosfera de
tensão. — Bonito, não? Foi uma boa idéia termos vindo agora, que está tão quieto
por aqui. Mais tarde não será a mesma coisa. Vai haver um grande tumulto por causa
da competição. — E esforçou-se para sorrir, — Bem, acho melhor voltarmos...
— Espere —Ames disse, sério. — Para que toda essa pressa?
Patrícia não teve coragem de contrariá-lo. Ele hesitou por um instante e
depois olhou-a, pensativo. Não conseguia entender por que ficava inseguro daquela
forma sempre que estava na presença dela. Talvez fosse pelo fato de não saber ao
certo o que desejava de Pat... Ou o que ela desejava dele.
Aquele beijo... Inadvertidamente, Ames sentiu vontade de tocá-la outra vez e
se deleitar com a doçura dos lábios sedutores. Porém, conteve-se a tempo. Afinal de
contas, viera à festa com um objetivo bem diferente. Planejava mudar de vida, e lá
conheceria um homem que ia ajudá-lo. Mas até agora só fizera ceder aos encantos
femininos, como um adolescente! Que ótima impressão causaria ao tal Bert!
Entretanto, era muito difícil resistir ao forte poder de sedução que Patrícia
exercia sobre ele. Sua beleza e meiguice o atraíam como nunca lhe acontecerá antes
com nenhuma outra mulher... Se não tomasse cuidado, acabaria envolvido em sérios
problemas! Devia, portanto, aprender a se controlar.
— Não se esqueça de que você me deve uma explicação — ele enfatizou. —
É a primeira vez que fico noivo sem ser avisado.

Patrícia não sabia dizer se Ames estava furioso ou se divertindo com a
situação. Por outro lado, isso não faria a menor diferença. Chegara a hora de
esclarecer o equívoco. Ela não poderia mais continuar fugindo.
— Na verdade, foi tudo culpa minha. Eu só queria que Stevie me deixasse em
paz. Não agüentava mais ser perseguida por ele, entende?
— Sei. Você inventou nosso noivado para desiludi-lo definitivamente.
Ela balançou a cabeça de modo afirmativo.
— Sinto muito, Ames. Eu não esperava que as coisas chegassem a esse ponto.
— Não tem importância. Já fui noivo antes. Dá para suportar.
Patrícia surpreendeu-se com a revelação. Então caminhou devagar pela
plataforma, no sentido contrário ao da rampa de acesso para a sede do clube. Ames
seguiu-a, calado. Incapaz de conter sua curiosidade, ela voltou ao assunto:
— Então, você já esteve noivo:
— Digamos que... — Ames deu um sorrisinho — ...eu tenha pensado algumas
vezes em me casar. — Seu tom permanecia ambíguo.
— E nunca se entusiasmou com a idéia?
— Não — ele se limitou a responder.
Patrícia parou debaixo de uma árvore e pôs-se a contemplar o mar. Ames
encostou-se no tronco, junto dela, seus ombros quase se tocando. Foi o bastante para
ela estremecer.
Sem dúvida, Patrícia nunca conhecera alguém como Ames. Sentia-se estranha
ao seu lado... Mas aquela sensação era ao mesmo tempo tão agradável! "Ainda bem
que eu fui incumbida de mantê-lo ocupado", pensou, com humor. "Shelley fez o
certo, não aceitando a tarefa!"
Quando virou-se para olhá-lo, descobriu que Ames a observava. Finalmente,
sua expressão parecia ter-se abrandado. Ela respirou, aliviada. Quem sabe, agora que
o mal-estar terminara, os dois não poderiam até se tornar bons amigos? Bastaria que
ambos esquecessem para sempre as indisposições passadas e... aquele beijo.
— Quer dizer que Ames Mason, o maravilhoso homem das neves, tem medo
de assumir compromissos mais sérios — Patrícia brincou.
A provocação o fez sorrir.
— Você me acha maravilhoso? É bom saber... — Assumindo um leve ar de
seriedade, discordou: — Não se trata de medo.
— Eu sei. Nada é tão importante para você como a sua liberdade. — Então,

disse: — Fale-me sobre elas.
— Quem?
— As mulheres com quem você quase se casou. Preciso saber o que suas
noivas fizeram de errado para afugentá-lo.
Ames franziu a testa.
— Por que esse súbito interesse?
— Simples curiosidade — Patrícia respondeu, no mesmo tom de troça.
— Bem... Só conto se você me prometer que não sairá por aí comentando a
esse respeito.
— Palavra de honra. — Ergueu a mão, num gesto solene.
Ele olhou a sua volta, como se quisesse se certificar de que estavam sozinhos.
Em seguida, aproximou-se mais de Patrícia e confidenciou:
— Todas, sem exceção, tinham a mania de assobiar.
— Não me diga. — Ela abafou o riso.
— Você não imagina como é desagradável ficar em companhia de alguém que
passa o dia inteiro assobiando a mesma canção. É de enlouquecer! — E fez uma
pausa. — Por acaso você...
Adivinhando qual seria a pergunta, Patrícia se antecipou:
— Fique tranqüilo. Eu nem sei assobiar. Aliás, essa é uma de minhas maiores
frustrações.
— Ótimo. Vejo que não teremos problemas. E, por falar nisso, o que vamos
fazer, agora que somos noivos? Quais são nossos planos para o futuro?
— Não acredito que esteja disposto a abrir mão de sua preciosa liberdade —
ela retrucou, com ironia.
Ames passou um dedo no rosto de Patrícia, acompanhando lentamente seu
contorno delicado. Então murmurou, com aquele olhar que costumava enfeitiçá-la:
— Quem sabe desta vez não seja diferente? As pessoas mudam...
— Ora, Ames, deixe de bobagem. — Rindo, afastou-se depressa, antes que
fosse tarde demais. Não podia se esquecer de que ele era um playboy. A quantas já
não teria repetido aquelas mesmas palavras? — Você nunca se casará.
— Como pode ter tanta certeza?
— Você não seria capaz de amar uma única mulher, pois deseja apenas o

prazer passageiro que suas inúmeras conquistas oferecem. — Deu-lhe as costas e
recomeçou a caminhada.
Ele alcançou-a.
— E quanto a você, Pat? — indagou, agressivo. — Por que continua solteira?
— Bem — fora apanhada de surpresa e por isso não teve outra saída senão
usar da máxima honestidade —, o casamento é um passo importante, na minha
opinião. Seu êxito depende sobretudo da escolha do par. Eu simplesmente ainda não
encontrei o homem certo.
— Então, o amor por si só não basta?
Patrícia encarou-o, indignada. Como Ames se atrevia a contestar seu ponto de
vista? Logo ele, que jamais se entregara a um relacionamento mais profundo!
— Pode me dizer o que entende sobre esse assunto? Alguma vez apaixonou-se
de verdade?
— Você leva o casamento muito a sério — Ames comentou, em voz de
revidar. — O que é ele, afinal? Uma simples experiência. Duas pessoas tentando
viver juntas. Se der certo, ótimo. Se não, cada um terá o direito de seguir seu próprio
caminho.
Ames tocara na velha ferida. Patrícia sabia que ele estava se referindo à
separação de seus pais. Sentia uma grande vontade de argumentar, mas preferiu não
fazê-lo. Já havia mesmo se cansado daquela discussão inútil...
Eles chegaram ao final da plataforma. Patrícia olhou para a sua direita,
avistando o promontório situado além da baía. Naquele instante, vieram-lhe à mente
inúmeras recordações dos tempos de infância, e ela foi invadida por uma súbita
alegria.
— Quer conhecer um lugar mágico? — disse, virando-se para Ames.
— Do que está falando? — ele perguntou, confuso.
— Venha comigo! — Pegou em sua mão. — Shelley e eu brincávamos
daquele lado, quando éramos crianças, mas nunca mais voltamos ao local. — E foi
andando em direção à encosta que descia para a praia.
— Espere um minuto — Ames protestou, com um sorriso. — Não me diga
que pretende ir até lá de sapatos altos.
Patrícia descalçou-os sem hesitar. Depois de escondê-los em uma pequena
cavidade no barranco, ergueu um pouco a saia e começou a tirar as meias. Ames fez
uma expressão de espanto.
— Agora, você — ela comandou, apontando para seus pés.

Ames relutou antes de obedecer. Patrícia então ajoelhou-se e, enquanto lhe
arregaçava a barra da calça, explicou:
— É um estuário. Você vai adorar! Vive deserto, pois não se consegue
enxergá-lo da estrada. É como se você estivesse em uma pequena ilha, isolado do
resto do mundo! — Volveu para cima o rosto radiante. — Shelley e eu
costumávamos camuflar a entrada com ramos e pedras, para impedir que outras
pessoas a encontrassem.
Ele a observava, surpreso com a capacidade que Patrícia possuía de passar tão
depressa do ódio para aquela intensa euforia.
— Espero que não precisemos nos arrastar na lama, entre aranhas e outros
insetos — murmurou, preocupado.
— Covarde! — Ela levantou-se, rindo. — Vamos lá, você não vai se
arrepender. É um lugar maravilhoso! Há garças, rãs, tartarugas coloridas... Amoras
silvestres, ao longo das margens. Espero que estejam maduras!
Os dois percorreram a areia fina, evitando molhar os pés na espuma das ondas
que ali quebravam. Ames admirava-se cada vez mais com Patrícia. Tinha-a achado
diferente já no primeiro encontro, mas não esperava que fosse tão surpreendente!
Parecia uma garotinha a caminho de alguma grande aventura. "Por que razão sentia
todo aquele entusiasmo?", perguntou-se, intrigado. Acreditaria ser possível
ressuscitar o passado, voltando ao seu esconderijo encantado? Uma coisa era certa:
pelo que ele percebera, Patrícia devia estar sofrendo muito com a separação dos
pais. A idéia de rever o tal estuário certamente lhe suscitava a lembrança dos tempos
em que a família Becker vivia unida e feliz.
— Deve ser por aqui — ela lhe disse, quando chegaram ao cabo. Logo
começou a afastar alguns arbustos reunidos junto ao sopé do morro. — Pelo menos,
é onde imagino que seja.
Ao suspender um galho, Ames encontrou algo parecido com uma passagem,
entre duas pedras enormes.
— Por acaso não seria esta?
— Sim! — Patrícia exclamou, lá entrando sem qualquer hesitação.
Ames pôs-se a segui-la. Como ela, teve de entortar o corpo para não se
arranhar nas paredes ásperas do corredor escuro e estreito. A areia onde agora
pisavam era úmida, causando-lhes arrepios de frio. Patrícia segurou firme em sua
mão, e ele sorriu.
Então, a luz se fez novamente. Os dois saíram do outro lado, no alto da rocha
que ocultava o lugar idolatrado por Patrícia. Ela começou a descer com cuidado,
mas de repente virou-se para Ames, parado poucos metros acima. Pela expressão de
seu rosto, parecia querer avisá-lo de que alguma coisa estava errada.

Patrícia seguiu em frente e, quando chegou embaixo, ficou estarrecida. Não
havia garças, rãs ou tartarugas. Nem mesmo uma única amoreira para lhe matar a
saudade... O santuário de sua infância deixara de existir, pois estavam construindo
um conjunto habitacional bem ali!
Ela caminhou até o agrupamento de casas, como se precisasse tocá-las para
acreditar que eram reais. Suas portas e janelas já haviam sido colocadas, mas ainda
faltavam a pintura e o resto do acabamento. Olhando ao redor, Patrícia verificou
com tristeza que o antigo riacho fora aterrado para a abertura de duas estradas. Uma
delas ligava o condomínio à rodovia costeira, e a outra levava às montanhas mais
distantes.
Ames esperou-a voltar. Patrícia parou junto dele, volvendo então os olhos
marejados para a paisagem devastada. Ames sentiu muita pena dela, mas não sabia o
que fazer naquele momento. Ficou furioso consigo mesmo por não poder consolá-la
e também por ela ser tão vulnerável assim.
— Odeio mudanças! — Patrícia desabafou, com a voz entrecortada.
— Tudo na vida tem de se transformar ou morrer — argumentou Ames,
embora sua vontade fosse dizer a ela que encarasse a realidade como uma mulher
adulta.
— Transformação ou morte...—murmurou, amarga. — Parece tão dramático!
— Não concordo. É natural que todas as coisas sigam esse caminho.
— Certo. Mas não sou obrigada a gostar de certas leis da natureza. —
Enfatizou as últimas palavras com uma boa dose de desprezo.
— Não é mesmo. Você deve apenas aceitá-las.
— Nada disso — Patrícia teimou. — Eu vou aos jornais denunciar o que
fizeram com este lugar. Sou capaz até de processar os responsáveis!
— Por que não bombardeia o condomínio de uma vez e se poupa de todo esse
trabalho? — Ames sugeriu, zombeteiro.
Ela caiu em si. E disse, menos tensa:
— Você tem razão. Reconheço que estou sendo tola e infantil. Mas,
francamente, acho que nunca deixarei de detestar as mudanças.
"Pelo menos, ela voltou a sorrir", Ames pensou, satisfeito por ter-lhe aberto os
olhos.
— Elas são uma constante na vida das pessoas — insistiu. — Veja o nosso
relacionamento, por exemplo. Não fez senão mudar desde o primeiro momento.
Patrícia suspirou.

— E o que você pensa de tudo isso?
— O que eu penso não é importante agora, mas sim como os acontecimentos
vêm se desenrolando. No início, você desconfiava de mim. Depois, passou a me
odiar.
— Eu nunca o odiei!
— Está bem, fingiu que me odiava — ele corrigiu, com ironia. — Então
aquela tarde, na piscina — tocou-lhe o queixo e sorriu —,você me pareceu bem mais
receptiva...
— Aquilo foi uma bobagem. — Patrícia corou ante a inesperada lembrança.
Segurando uma mecha de seus cabelos, ele finalizou, malicioso:
— E hoje, tramou para que eu a beijasse.
— É mentira!
— Não fui eu quem inventou essa história sobre o nosso noivado, fui? — E
aproximou-se mais. O perfume de Patricia o inebriava. — Você conseguiu o que
desejava. Diga-me , meu beijo correspondeu às suas expectativas? Ou eu a
decepcionei?
— Ora... foi bom — ela admitiu, afinal.
— Só isso? Que tal tentarmos outra vez, para ver se alguma coisa mudou?
— Acho que não devemos. — Quis se desvencilhar daquele contato que fazia
todo seu sangue ferver, mas uma força maior a impediu.
— Posso saber por quê?
— E que... — como não encontrasse uma desculpa melhor para dar a ele,
respondeu: — Você beija de um modo engraçado.
— Engraçado? — Ames repetiu, desolado. Era óbvio que nenhuma mulher o
criticara assim antes. — Então você não gostou?
— Não é isso... — Às vezes Patrícia odiava-se por falar sem pensar. Devia
aprender a ficar calada! — Eu quis dizer que seu beijo me fez sentir... estranha.
Risonho, ele afagou-lhe o rosto e em seguida envolveu-a pela cintura.
— Querida, você acaba de me deixar lisonjeado. Patrícia preparou-se para o
inevitável: Ames ia beijá-la de novo. Seu coração disparou. Mas não estava iludida,
pois sabia que era apenas mais uma nos braços daquele playboy. Por outro lado, esse
detalhe não a incomodava tanto, agora. Fechando os olhos, decidiu abandonar-se ao
prazer indescritível que tivera a sorte de conhecer uma hora atrás.
Ames sorveu os lábios de Patrícia com tamanha voracidade que quase a

sufocou. Seu corpo másculo pulsava de desejo e volúpia. Cada carícia era um
convite para o mais louco delírio.
Quando eles se afastaram, Patrícia sentia-se como um nadador que finalmente
chegava à superfície para respirar. Ambos permaneceram em silêncio durante alguns
instantes, entreolhando-se, fascinados.
— E então? Consegui lhe causar a mesma sensação de antes? — Ames
perguntou. Seu tom, entretanto, não pareceu de zombaria.
Embaraçada, ela desviou o olhar.
— Não é da sua conta — murmurou, com voz trêmula.
— Quero fazê-la se sentir "estranha" sempre. — Deslizou as mãos ao longo
de suas costas macias. — Pat, eu quero...
Ela se soltou depressa, sem deixá-lo terminar. A simples idéia do que Ames
pretendia lhe propor a apavorava!
— Acho que está na hora de irmos embora — disse, sem ousar encará-lo. Em
seguida, tomou o caminho de volta, ignorando a monstruosidade que haviam
edificado no paraíso de sua infância.
Enquanto atravessava a pequena gruta com Patrícia, Ames indagou-se
diversas vezes por que lhe dera aquele beijo, em vez de simplesmente confortá-la
com um abraço amigo. Por que tinha de transformar tudo em sexo e romance
quando estava junto de uma garota bonita? Talvez fosse culpa de sua própria
incapacidade para enfrentar a tristeza e a miséria humanas... Como ele gostaria de
saber!
Entretanto, não negava que valera a pena beijá-la. Patrícia era tão doce! Um
raro tipo de mulher, que ele jamais sonharia em perder de vista.
Os dois seguiram pela praia calmamente, rindo e fazendo brincadeiras. É
verdade que o entusiasmo anterior havia desaparecido, mas se sentiam mais
próximos agora, e este sentimento causava-lhes um enorme bem-estar. Em tais
circunstâncias, parecia natural a Ames colocar o braço sobre os ombros de Patrícia,
assim que subiram na plataforma.
Os convidados começavam a se aglomerar na marina para receber os barcos,
que estavam prestes a chegar. Patrícia e Ames, entretanto, mal se deram conta do
tumulto, pois se achavam envolvidos demais em sua própria conversa.
Foi Shelley quem lhes chamou a atenção. Ela vinha em sentido contrário,
alegre e cheia de vida como sempre. Ao se aproximar deles, perguntou:
— Por onde vocês andaram?
— Fomos até o estuário.

Patricia já se preparava para contar sobre a maldade que tinham feito com
aquele lugar, porém Shelley nem lhe deu chance:
— Você cumpriu sua parte muito bem, Pat — ela disse, reparando nos pés
descalços da irmã e de Ames. — Mas Infelizmente foi trabalho perdido. O
relacionamento de mamãe e papai vai de mal a pior. Imagine que tiveram uma briga,
na frente de toda essa gente! Você precisa vir comigo, para ajudar a acalmar os
ânimos.
Patrícia teve uma grande decepção. Estava tão certa de que os pais fariam as
pazes no dia em que se reencontrassem!
Olhando para Ames, Patrícia foi surpreendida por seu ar desconfiado. Então
virou-se depressa para Shelley. Só lhe restava agora rezar para que ela não falasse
demais...
Mas a loirinha ignorou o olhar de súplica da irmã.
— Obrigada por ter colaborado, Ames. Patrícia se ofereceu para distraí-lo
durante algum tempo, assim nossos pais poderiam conversar sozinhos e talvez até
reatar. — Shelley soltou um suspiro. — Não funcionou. É a vida. Quem sabe da
próxima vez...
— Entendo — ele respondeu, perplexo com o que acabara de ouvir. Voltando
sua atenção para Patrícia, concluiu: — Era tudo uma encenação, desde o início. — E
deu um sorrisinho cínico. — Inclusive o beijo.
Ela ficou sem ação. Podia negar, se quisesse, dizer que Shelley havia
exagerado, ou mesmo pedir-lhe desculpas e se explicar. Afinal, que importância
tinha tudo aquilo? Seus pais continuavam separados!
— Ora — Patrícia então decidiu revidar —, que diferença isso faz para um
playboy como você? Aposto que se divertiu, e muito!
O semblante de Ames expressava um ódio profundo. Ele sabia o que
significava usar as pessoas. Já tinha cometido esse ato abominável uma vez. Mas a
idéia de ser enganado por Patrícia o enfurecia. Imaginara que ela o havia atraído até
a marina porque desejava sua companhia! Pior ainda era perceber o quanto fora
ingênuo, acreditando naquele olhar meigo, gentil!
— E pensar que por trás desse lindo rostinho — ele murmurou com desdém
— esconde-se uma mulher tão dissimulada... Quando ia me contar que eu tinha sido
somente um joguete em suas mãos? — E retirou-se, sem esperar uma resposta. Mas,
antes de desaparecer na multidão, virou-se mais uma vez para ela: — Não fique
chateada, Pat. Tenho um compromisso inadiável, agora. Obrigado pelo passeio, foi
muito divertido. Até logo.
Patrícia sentiu um estranho aperto no coração ao vê-lo se afastar. "Devia terlhe dito que lamento o transtorno provocado por meu plano cheio de boas

intenções", pensou, arrependida. Mas estava tão confusa com tudo o que acontecera!
No entanto, por que razão haveria de se preocupar com Ames? Decerto ele
esqueceria logo aquele mal-entendido. Afinal, o que poderia abalar um homem para
quem a vida não passava de uma brincadeira?
Encolhendo os ombros, Patrícia decidiu voltar ao problema que na verdade
mais a afligia; o casamento arruinado de Tom e Laura Becker. Naquele momento,
ela avistou sua mãe descendo a rampa, de braços dados com Bert. Então ocorreu-lhe
que o velho amigo da família talvez pudesse ajudar...
Um sopro de esperança reanimou-a. Depois de avisar Shelley, Patrícia subiu
até o toalete para calçar as meias e retocar a maquilagem. Ainda havia muito a fazer
em relação a seus pais. Nenhum esforço seria poupado. As pessoas que ela mais
amava precisavam se unir outra vez!

CAPÍTULO VI
— Pat, aquele sujeito sentado perto da janela continua olhando para você. Se
não estiver interessada, diga-me, porque eu vou flertar com ele!
Indiferente ao aviso, Patrícia manteve sua atenção voltada para a sobremesa
que o garçom acabara de servir. Sabia quem era o homem que a observava
insistentemente. Tinha-o visto logo ao entrar com Tina no restaurante quase cheio, e
por pouco não sugerira à amiga que almoçassem em outro lugar. Só decidira ficar
para que ele não percebesse o quanto ainda a perturbava, mesmo depois de todo
aquele tempo.
Quatro meses haviam se passado desde aquela manhã, no clube de regatas.
Desde então ela evitara encontrá-lo, o que se tornara complicado, pois Ames estava
trabalhando com sua mãe e Bert. Patrícia desconhecia a natureza do negócio. E não
gostava de falar, nem de pensar, nesse assunto.
A separação de seus pais parecia mais definitiva a cada dia, fato que ela
também preferia ignorar. Todas as suas tentativas para reverter tal situação tinham
sido infrutíferas. Por isso, Patrícia resolvera deixar as coisas correrem naturalmente,
esperando que os dois voltassem depressa à razão.
— Dê uma olhada, pelo menos — Tina disse, espiando o estranho por debaixo
da franja espessa, cor de ferrugem. — Ele é muito bonito. E tem um jeito tão sexy!

Patrícia não precisava vê-lo para conferir. Ela jamais esqueceria como Ames
era irresistível...
— Faça de conta que não é conosco — aconselhou-a, antes de levar à boca o
último morango com chantilly.
— Mas ele parece conhecer você. Por que não verifica de uma vez?
Certa de que a amiga não sossegaria até conseguir convencê-la, Patrícia virouse para Ames e o cumprimentou com um pequeno gesto de cabeça. Ele lhe sorriu,
erguendo a taça de vinho.
— Você o conhece! —— a outra exclamou, maravilhada. — Quem é ele?
Como se chama?
— Tina — Patrícia já previa a interminável seqüência de perguntas que a
amiga lhe faria, se ela não cortasse logo o mal pela raiz —, eu não quero falar sobre
isso.
— Por que não?
Patrícia hesitou. Como gostava muito de Tina, não suportava vê-la com aquele
ar aborrecido.
— Está bem, eu conto. Nós estivemos noivos... durante pouquíssimo tempo
— acrescentou, irônica. — Rompemos por força das circunstâncias.
— Que pena! — Tina lamentou. — Ele dá a impressão de ser...
— Se não se importa, eu prefiro mudar de assunto.
— Entendo. Imagino a dor que vai em seu peito! — Pegando a mão de
Patrícia, teve então uma idéia: — Talvez nem tudo esteja perdido. Eu posso ajudá-la,
servindo de intermediária entre vocês dois. Quem sabe, se eu conversar com ele...
— Por favor, Tina. — Precisou controlar-se para não perder a calma. —
Acabou, e é assim que deve ser. — E deu-se conta de haver usado as mesmas
palavras que sua mãe repetia quando ela tentava convencê-la a se reconciliar com o
marido. Mas, naturalmente, o caso dos pais em nada se parecia com o seu... — Bem,
preciso voltar para a loja — anunciou, levantando-se de repente. — Vamos receber a
visita de um novo fornecedor, e não quero passar essa incumbência a Anne Marie.
Ela já está ocupada demais, hoje.
Patrícia apanhou a bolsa e os pacotes, mal notando a expressão de
perplexidade, da amiga. Na verdade, preocupava-se em parecer o mais natural
possível naquele momento, pois Ames com certeza a estaria olhando....
Entretanto, ao virar-se para sair, teve uma grande decepção. Ames havia ido
embora, e o garçom já retirava de sua mesa o prato vazio e a taça de vinho. O medo
que ela sentira de encará-lo outra vez fora suplantado por uma tristeza sem igual.

Patrícia deixou o restaurante, inconformada com sua própria tolice.
Nas semanas seguintes, chegou a vê-lo algumas vezes, porém rapidamente.
Como certa tarde, em que o avistou da janela de sua mãe, enquanto Ames nadava na
piscina do edifício; ou ao passar de carro por ele e Stevie Servig, em Balboa
Boulevard. Ambos acenaram para Patrícia, que retribuiu ao cumprimento e seguiu
em frente, perguntando-se o que duas pessoas tão diferentes estariam fazendo juntas.
Ela só voltou a falar com Ames muito tempo depois, em uma reunião da
Associação Comercial. Chegando atrasada ao evento, em meio a um discurso,
Patrícia teve dificuldades para encontrar uma mesa vazia. E quando, enfim,
conseguiu se acomodar, reparou no orador. Era Ames! O choque da descoberta não
lhe permitiu sequer ouvir o que ele dizia.
Ames parecia outro homem, nada tinha em comum com o playboy irreverente
que Patrícia vira na primeira vez, no apartamento de sua mãe. A não ser a
sensualidade, o que, sem dúvida, ele jamais perderia... Este Ames mostrava mais
maturidade e auto-confiança, como um empresário bem-sucedido.
Sua apresentação então terminou. Todos aplaudiram e muitos se levantaram
para ir até ele, fazer-lhe perguntas. Patrícia permaneceu onde estava, apenas
observando.
De repente uma voz murmurou, próxima ao seu ouvido:
— Que homem!
Só então ela percebeu que havia se sentado perto de Brigite Holloway,
conhecida figura da sociedade e proprietária de uma grande agência de viagens. Era
uma mulher muito bonita, embora um tanto exagerada em sua maneira de vestir.
Brigite tocou no ombro de Patrícia. Com o movimento do braço, as medalhas
de sua pulseira de ouro produziram um sonoro tilintar. Ela disse, o olhar fixo
naquele que se tornara o centro das atenções:
— Preciso falar com aquele homem.
Patrícia virou-se para Ames e outra vez para Brigite Holloway. Nunca fora sua
amiga íntima, mas conhecia-a o suficiente para saber que ela costumava
conseguir tudo o que queria.
— Ele não é seu tipo — comentou, antes que tivesse tempo de ponderar se
deveria ou não fazê-lo.
— Você o conhece? — a outra voltou-se, interessada.
— Eu... Sim.
— Vamos até lá. — Brigite se levantou, puxando-a pela mão. — Apresenteme a ele.

Patrícia não pôde escapar ao seu inesperado impulso e, momentos depois, viuse atrás de algumas pessoas que esperavam para conversar com Ames.
"O que estou fazendo aqui, se não desejo falar com ele?", perguntou-se,
desesperada, procurando um meio de sair daquela situação. Brigite, porém, segurava
seu pulso com força e não parecia disposta a soltá-lo.
A vez de Patrícia então chegou. Ao se deparar com ela, Ames sorriu, surpreso.
— Olá, Pat.
— Como vai, Ames? — ela o cumprimentou, constrangida.
— Bem, obrigado.
— Acho que nem preciso perguntar sobre os negócios — Patrícia disse, após
um momento de hesitação. — Vejo que estão indo de vento em popa.
Ele moveu a cabeça, de modo afirmativo.
— Por que não aparece por lá, qualquer dia desses? Laura ficará feliz.
Patrícia afinal caiu em si. Já devia tê-los visitado há muito tempo! De que
adiantava todo aquele orgulho? Com certeza não ajudara em nada, pois seus pais
continuavam separados.
Subitamente curiosa por conhecer a empresa de sua mãe, ela decidiu marcar
uma data naquele mesmo instante. Mas Brigite deu-lhe um cutucão, demonstrando
impaciência.
— An... Ames, quero lhe apresentar Brigite Holloway, dona da agência
Wonderful World.
— É um grande prazer conhecê-lo. — A morena alta e exuberante pegou em
sua mão, como se nunca mais fosse largá-la. — Eu gostaria de colocar meus
serviços a sua disposição. Vou fazer-lhe uma oferta irrecusável.
— Bem — ele respondeu, com ar divertido —, não temos necessidade de um
agente de viagens. O volume de nossas vendas ainda é pequeno, eu mesmo cuido
dos pedidos externos.
— É o que todos dizem. Mas eu reconheço um vencedor de longe. Sei que
vocês vêm prosperando a cada dia. E, muito antes do que imaginam, acabarão
precisando de alguém para visitar os fornecedores, fazer novos contatos, participar
de convenções. É para isso que estou aqui. — Sorriu-lhe, lânguida. — Quando
podemos almoçar, para que eu lhe explique melhor os detalhes?
Ames notou o olhar hostil que Patrícia dirigiu a Brigite. Então respondeu:
— Que tal hoje mesmo? Não tenho nenhum compromisso.

— Ótimo! — Brigite exclamou, exultante. — Mal posso, esperar. Eu o apanho
em seu escritório às... — consultou o relógio — doze e trinta. Está bem?
— Perfeito. Agora, pode me dar licença um instante? — E foi conversar com
alguém que o havia chamado. Brigite inclinou-se para beijar Patrícia no rosto.
— Obrigada, querida. Não vou esquecer que estou lhe devendo um favor. —
Ela suspirou. — Tenho de ir correndo me arrumar. Quero ficar bem bonita para esse
almoço!
Patrícia sentiu-se arrasada. Não suportava imaginar aquela oferecida nos
braços de Ames! Sabia que não tinha o direito de reclamar. Entretanto...
Uma idéia lhe ocorreu. Seria um golpe sujo, mas não restava outra saída.
— Brigite — começou, em tom de confidencia. — Preciso lhe contar um
segredo sobre Ames Mason. Eu sei do que ele gosta em uma mulher. Há algo que, se
você fizer, o agradará profundamente.
— O quê?
— Assobie uma canção. Acredite em mim, ele não resistirá.
— Só isso? É fácil! Vou treinar durante o banho. Adeus. — Brigite acenou
para ela. — Deseje-me sorte.
Patrícia observou-a indo embora com aquele jeito vulgar que chamava a
atenção de todos. Maldita hora em que se sentara perto de Brigite Holloway!,
pensou, furiosa.
Ao se virar, Patrícia defrontou-se com Ames, parado logo atrás dela. Sua
expressão não deixava dúvidas de que ele havia escutado tudo. Patrícia corou de
vergonha e não teve outra escolha senão deixar depressa o salão.
Depois de analisar os fatos cuidadosamente durante dias, ela resolveu
telefonar para a irmã. Shelley vinha se encontrando mais amiúde com sua mãe e por
isso andava bem informada.
— Afinal de contas, Shelley, que tipo de negócio mamãe e Bert montaram?
— Você nunca esteve lá? — a jovem perguntou, admirada.
— Não. — Fez uma pausa. — É algo relacionado com esportes?
— Por que não vai ver com seus próprios olhos? É um projeto muito
interessante. Tenho ajudado os dois na contabilidade, sabe? Mamãe e Bert
arrendaram aquele edifício que fica na esquina das avenidas Balboa e Seascape. Vá
visitá-los uma tarde.
— Está bem, Shelley.

Havia alguma coisa naquela história que incomodava Patrícia, embora ela não
soubesse o quê. Laura e Bert... ultimamente eles formavam uma dupla inseparável.
Sua mãe parecia tão feliz com a sociedade que haviam fundado! Teria se
desinteressado de uma vez pelo marido? Será que não pensava mais em reconstruir
seu casamento?
Patrícia sentiu uma profunda mágoa ao se lembrar do pai. Tom Becker
também mostrava estar de bem com a vida, mas talvez fosse só fingimento. Como
ter certeza, se ele nunca se abria com a própria filha, se recusava a falar nesse
assunto?
Quanto mais Patrícia tentava entender a situação, mais confusa ficava. E
quando, num instante de sensatez, ela tomava como certo que seus pais não
tornariam a viver juntos, o mundo parecia desabar.
Algum tempo se passou. Certo dia, pela manhã, Laura ligou sugerindo que
elas almoçassem juntas. Patrícia encheu-se de expectativas, pois acreditava que a
mãe tinha boas notícias para lhe dar.
Laura esperou chegarem ao final da refeição para comunicar à filha sua última
decisão:
— Pat, já entrei com o meu pedido de divórcio. Eu sei que isso vai deixá-la
chateada, mas quero que você procure compreender minha atitude.
Patrícia ficou atônita, mas estava aprendendo a disfarçar seus sentimentos.
— Papai já sabe?
— Sim. Nós acertamos tudo.
— Mamãe — sua voz ameaçava fraquejar, mas Patrícia controlou-a a tempo
—, só lhe peço que pense muito bem no que está fazendo. Não se precipite.
— Escute, querida. Eu... — Laura interrompeu-se de repente, como se tivesse
desistido do que ia dizer. Então, balançou a cabeça e sorriu: — Você é tão obstinada,
Pat! Não sei a quem puxou. Já está na hora de entender que as mudanças fazem
parte da vida.
As críticas, embora feitas de modo carinhoso, deixaram-na ofendida. Já estava
sofrendo tanto com o que acabara de saber! Seus pais iam se divorciar! Seria o fim
de todas as esperanças para ela?
Patrícia despediu-se e foi embora, sentindo-se a mais infeliz das criaturas.
Afinal, nada poderia ser tão terrível quanto o esfacelamento de sua família!
Um novo encontro entre Patrícia e Ames Mason aconteceu poucos dias
depois. Ela havia saído bem cedo de casa, para praticar seu cooper. Tinha escolhido
a praia mais distante da cidade, cheia de surfistas desde o raiar do sol.

Patrícia nunca prestava muita atenção aos corajosos rapazes que deslizavam
sobre o mar, longe da rebentação. Mas, naquela manhã, notou duas figuras
familiares desviando-se do grupo, em direção a uma onda que depressa se
transformou num pavoroso vagalhão.
Horrorizada, ela viu uma das pranchas dar giros no ar, ao mesmo tempo em
que o surfista era jogado para o outro lado, desaparecendo em seguida nas águas
revoltas.
— Ames! — disse, incrédula, para si mesma. Estaria sonhando? Precisava ter
certeza!
Patrícia esperou com aflição ele voltar à superfície, sem perceber que seu
parceiro galgara habilmente a onda e agora saltava na areia, a poucos metros dali.
— Olá!
Patrícia virou-se, atraída pela voz. Era o antigo companheiro de escola, seu
eterno admirador.
— Stevie!
— Que surpresa encontrar você aqui! — ele comentou, ao se aproximar de
Patrícia.
— Por acaso Ames estava surfando com você? — Estava tão ansiosa que nem
o cumprimentara direito.
— Estava. — Stevie volveu os olhos para mar, protegendo-os da forte
luminosidade com uma mão. — Para onde será que ele foi?
— Não sei. Eu o vi cair e... Stevie, você tem de voltar lá para procurá-lo! —
pediu, desesperada.
— Olhe! — Ela apontou para a prancha de cores brilhantes que estava sendo
trazida pela maré. Então foi buscá-la.
Depois de um rápido exame, constatou: — É de Ames. Parece perfeita.
— Isso não me interessa! — Patrícia já pensava em arrancar seus tênis e
atirar-se na água. — Ele deve estar se afogando!
Stevie deu um sorrisinho.
— Não se preocupe. Ames tem pouca prática, eu sei, mas não é um
principiante.
Patrícia estava a ponto de estrangulá-lo, quando de repente avistou Ames,
nadando para a praia.
— É ele! — exclamou, aliviada. Sentiu uma súbita vontade de chorar, mas

conseguiu se controlar. — Graças a Deus nada lhe aconteceu!
— Viu? Você ficou nervosa à toa. — Stevie colocou a prancha de Ames ao
lado da sua. — Aliás, devo dizer que aprecio muito o que você tem feito por ele.
Patrícia olhou para o amigo.
— Do que está falando? — perguntou, confusa.
— Ora, você se privou de ver seu noivo durante todos esses meses. Raras
pessoas são tão compreensivas assim.
— Ele... — Admirava-se em saber que Ames continuara com a farsa do
noivado. — Explicou a você por que nos afastamos?
— Claro que sim. Ames precisava de tempo para se firmar na nova profissão,
e você não quis atrapalhá-lo.
Patrícia volveu a atenção para Ames, pensando no quanto ele era
surpreendente. Naquele momento, seu coração encheu-se de ternura.
Ames saiu da água fraco e ofegante. Seus olhos então se encontraram com os
de Patrícia.
— Ufa! — Ames deu um suspiro e caminhou lentamente até ela. — Esse
negócio não é brincadeira. Estou morto!
Patrícia sorriu.
— Mas, afinal de contas, o que vocês dois querem provar? — repreendeu-os,
de modo carinhoso. — Que são invencíveis?
— Estou ensinando Ames a surfar —— Stevie respondeu, enquanto despia
seu traje de borracha.
— Eu sei surfar — Ames resmungou. — Acontece que tive um pequeno
problema com aquela onda. Foi só isso.
— Pelo que vi — Patrícia conteve o riso —, você devia mesmo tomar
algumas aulas com Stevie. Ele é um dos melhores nesse esporte.
Stevie exibiu um ar presunçoso ao dizer:
— Ames pensa que pode ser tão bom surfista quanto eu, só porque é campeão
de esqui.
— Eu costumava surfar, na adolescência. Morei no Havaí durante anos ——
Ames se defendeu. —— Mas não me lembro de ter sido duro desse jeito.
— Dizem que nunca se esquece como andar de bicicleta. Talvez seja diferente
com o surfe.

Ames cerrou os punhos, e seu rosto se contraiu. Patrícia podia imaginar o que
aconteceria se ela não estivesse ali. Por via das dúvidas, colocou-se a sua frente,
oferecendo:
— Pode deixar, que eu o ajudo com essa roupa. — Mas arrependeu-se no
instante em que ele se aproximou, sorridente.
— Boa idéia!
Não havia como recuar. Evitando encará-lo, Patrícia começou a abrir seu
pesado colete de borracha. O peito largo e musculoso de Ames foi se revelando aos
poucos, como um segredo que ela já conhecia mas nunca se cansava de desvendar.
— Vou voltar para a caminhonete — Stevie avisou, pegando as coisas que lhe
pertenciam. — Espero vocês lá.
Os dois não pareceram ouvi-lo. Patrícia abaixou todo o zíper de Ames e então
disse, tensa:
— Pronto. Agora, você faz o resto.
— Qual é o problema? — ele retrucou, em tom de desafio. — Está com medo
de mim?
— Claro que não!
— Então ajude-me a tirá-lo.
Patrícia sabia que aquilo era um jogo, mas cedeu mesmo assim. Em menos de
um minuto, o traje molhado caía sobre a areia, deixando Ames vestido apenas com
um minúsculo maiô preto.
Antes que Patrícia tivesse tempo de dar um passo, ele a aprisionou em seus
braços.
— Obrigado — murmurou, com um inesperado brilho de afeição no olhar. —
Você foi muito gentil.
— Eu sou uma excelente pessoa — Patrícia brincou.
— E bonita... além de sexy — completou, malicioso. — Aliás, você merece
uma recompensa pela boa ação que acabou de praticar.
— Não... Por favor!
— Como não tenho nenhum dinheiro comigo, agora — ele continuou, sem
escutá-la —, terei de pagar com um beijo.
Patrícia tentou se soltar, embora não fizesse muito esforço para consegui-lo.
— Aqui não, Ames. Estão nos olhando.

Ele examinou a praia deserta, exceto pelos surfistas que se via ao longe, no
mar.
— Tem medo do que as gaivotas possam pensar? — E riu de sua careta. —
Ou será que você não gosta do meu beijo? Ainda o acha engraçado?
Patrícia moveu a cabeça, negando.
— Que bom! — Inclinou-se para beijá-la com suavidade no canto da boca.
Depois sussurrou: — Pensei que isto nunca mais fosse acontecer... — E tocou seus
lábios com a ponta da língua. — Tive muita paciência, sabe? Mas felizmente a longa
espera acabou.
A voz sensual de Ames arrebatou-a. Patrícia ouvia suas palavras, sem contudo
compreender-lhes o significado. Sonhava com aquele momento há tanto tempo!
Quanto não sofrera, tentando esquecê-lo! Fora um sacrifício inútil, e só agora ela
entendia por quê. Estava apaixonada...
Surpresa com a descoberta, Patrícia envolveu Ames pelo pescoço e se
entregou. Seu corpo inteiro suplicava por aquelas carícias ardentes, que pareciam
queimar-lhe a pele através da roupa.
Saciado o desejo, eles continuaram juntos durante algum tempo, tomados pela
mesma emoção. Ames então rompeu o silencioso êxtase:
— Vamos encarar os fatos. Daqui para a frente, teremos de nos ver sempre.
Ela afastou-se depressa, uma expressão de pânico em seu rosto ainda corado
pela paixão.
— É loucura! Não podemos...
— Por que não? — Ames pareceu desconcertado.
Patrícia não sabia o que dizer. Tinha medo de insultá-lo, se falasse à verdade:
que não confiava nele, que achava-o um conquistador incorrigível. Mas precisava
responder-lhe, de qualquer forma. E assim fez, com toda a sutileza:
— Você não é um homem... sério.
— Sério? — O sorriso voltou aos seus lábios. — Bem se vê que você não me
conhece...
— Além disso — tratou de apresentar outra desculpa, antes que sucumbisse
de novo àquele olhar —, você é contra a felicidade de meus pais. Não quer que eles
se reconciliem.
— Eu? — Deu de ombros. — Tanto faz para mim que fiquem juntos ou não!
— Mas você está ajudando a mantê-los separados.

— Patrícia, eu nunca me intrometi nesse problema. Apenas trabalho para sua
mãe. O que ela decidiu em relação ao próprio casamento não me diz respeito.
Mesmo considerando a resposta de Ames convincente, ela lançou mão de
mais um argumento, na ilusão de ainda poder dissuadi-lo:
— Você se sentiu ultrajado aquele dia, na regata.
— Não era para menos... — Subitamente, seu semblante tornou-se sombrio.
— Eu fui usado.
— Está enganado, Ames...
— Você quer que eu acredite que tudo não fazia parte de um plano para me
tirar do caminho de seus pais?
Patrícia hesitou.
— Nem tudo — disse afinal, olhando para o mar. — Nosso passeio ao
estuário deu-se por acaso. Eu o levei até lá porque tive vontade.
— Às vezes, os acontecimentos casuais são os que nos deixam as melhores
lembranças — Ames murmurou, virando o rosto de Patrícia novamente para ele.
Com certeza, Ames não estava se referindo àquela ocasião que tanto
significara para ela, Patrícia deduziu com pesar. Um homem como ele devia ter
momentos muito mais interessantes na vida para recordar...
A imagem de Brigite Holloway então surgiu-lhe à mente. Pensativa, Patrícia
começou a caminhar com Ames, que trazia a roupa de borracha pendurada em um
braço e a prancha sob o outro.
— E o almoço? — ela indagou de repente, sem poder mais conter sua
curiosidade.
— Que almoço?
— Com Brigite Holloway, a agente de viagem.
— Ah, sim. — Ames fez um ar divertido. — Foi ótimo.
— Vocês... entraram num acordo?
Ele deu uma risada.
— Por que não me pergunta logo o que houve entre nós, além de uma mera
discussão de negócios? Sei que você está louca para saber. Muito bem, eu vou dizer.
A resposta é: Pat nada tem a ver com esse assunto.
A brincadeira deixou-a furiosa, mas ela fez questão de mostrar indiferença:
— Tem razão. O relacionamento de vocês não me interessa mesmo.

— Por isso você mandou Brigite assobiar uma linda canção para mim. Certo?
Patrícia sorriu, embaraçada.
— Ela seguiu meu conselho?
— Ao pé da letra.
Os dois caíram na gargalhada.
— Foi um golpe muito sujo, Pat — ele comentou, com humor. — Agora vejo
do que você é capaz...
Eles estavam se aproximando de uma caminhonete branca, com estrelas
pintadas nas laterais e no capô, Stevie esperava, sentado ao volante.
Patrícia parou a poucos metros do veículo, para que o amigo não a escutasse,
e então retrucou:
— Você não tem moral para falar de mim, Ames. Eu sei que contou a Stevie
alguma coisa sobre estarmos separados para você poder se concentrar no trabalho.
— Isso é a pura verdade — ele admitiu calmamente. Depois, sério,
acrescentou: — Eu não costumo me afastar do que quero, a menos que seja por uma
necessidade muito forte.
Patrícia ficou confusa. Por que Ames lhe dissera aquilo? Apenas para seduzila, como fazia com todas as outras? Provavelmente...
— Que explicação eu deveria ter dado a ele, afinal? — Ames prosseguiu,
eliminando a tensão com um sorriso. — Que você estava livre de novo, pois
havíamos rompido nosso noivado? Gostaria que Stevie voltasse a cortejá-la?
— Desde quando vocês dois se tornaram amigos? — perguntou, interessada,
após um instante de silêncio.
— Stevie está trabalhando conosco. Um dia ele apareceu lá na firma,
oferecendo seus serviços. — E divertiu-se com o ar surpreso de Patrícia. — Stevie
tem sido útil demais para mim, sabe? Ele a conhece desde criança. Contou-me
muitas histórias sobre você, desde o jardim da infância até a formatura do segundo
grau.
— O quê?
— Em breve, saberei tudo sobre você... E então poderei usá-la para meus
próprios fins.
— Há de nascer o dia! — ela o desafiou, com o mesmo espírito de brincadeira
e malícia.
— De qualquer forma — Ames olhou ternamente para ela —, acho que você

não precisa mais se preocupar com Stevie.
— Por que não?
— Parece que ele vem dedicando todas as atenções a sua irmã.
— Shelley?
Ames assentiu com um movimento de cabeça.
— Stevie a persegue o dia inteiro.
— Quer dizer que vocês todos estão trabalhando juntos? — Patrícia sentiu
uma ponta de inveja, embora reconhecesse o próprio erro. Sempre se recusara a
conhecer a tal firma. E, graças ao seu orgulho tolo, ainda não sabia em que negócios
estavam envolvidos.
— Quando nos dará o prazer de sua visita, Pat?
O convite vinha bem a calhar.
— Muito antes do que vocês imaginam — respondeu, decidida a acabar de
uma vez com aquele mistério.
— Hoje?
— Hum... está bem.
Ames mostrou-se satisfeito.
— Combinado. — Então apontou para a caminhonete. — Quer uma carona?
— Não, obrigada. — Patrícia precisava de um exercício físico para relaxar,
após aquele encontro. — Bem, até mais tarde. — E começou a caminhar de volta
para a praia.
— Pat!
— Sim? — Ela se virou, atendendo ao chamado de Ames.
— Eu sei que você não está interessada, mas vou contar assim mesmo. O
assobio de Brigite me deixou com tamanha dor de cabeça que precisei ir embora
para casa depressa. Sozinho.
Patrícia deu-lhe as costas no instante em que ele soltava uma estrondosa
gargalhada. Mas, assim que havia se distanciado o suficiente, sentou-se na areia e
também desatou a rir.

CAPÍTULO VII

Patrícia evitou pensar no assunto até o momento em que ligou o carro e se
dirigiu ao local onde a firma de sua mãe estava instalada. O prédio era baixo e
amplo, típica construção destinada a fins industriais. O nome "Sol e Mar S/A" tinha
sido pintado diretamente na fachada, em enormes letras coloridas. Respirando
fundo, ela empurrou a porta de vidro e entrou.
À primeira vista, o lugar lembrava muito a empresa de seu pai. Shelley estava
sentada na recepção, lendo um livro com tal interesse que não a notou de imediato.
Patrícia aproveitou esse instante para estudar melhor o ambiente. Os sons, o cheiro
que ela sentia... tudo era tão familiar!
— Oi, Pat! — Shelley levantou-se da cadeira giratória para beijá-la. —
Finalmente você apareceu! Venha comigo. Mamãe e Bert estão lá no escritório. Eles
mostrarão a fábrica para você.
Patrícia seguiu-a por um corredor, perguntando-se por que a irmã parecia
perturbada. Seria o nervosismo de Shelley apenas fruto de sua imaginação?
Laura Becker recebeu a filha mais velha de braços abertos.
— Quem bom vê-la aqui, querida! Vamos, quero que você conheça nosso
pequeno empreendimento.
— Eu vim para isso — ela disse, num tom alegre. — Olá, Bert.
O velho amigo da família aproximou-se com um sorriso. Patrícia estranhoulhe o ar tenso, assim como a aparente ansiedade de sua mãe. Mas absteve-se de fazer
quaisquer comentários, pois ela própria não se sentia muito à vontade.
Laura e o sócio levaram-na até o andar inferior do edifício. Porém, não foi
preciso ela chegar à área de trabalho para fazer uma descoberta desconcertante:
aquele era o cheiro característico de uma fábrica de pranchas! Patrícia mal pôde
acreditar. Sua mãe estava competindo com o próprio marido!
Apesar do choque, ela os acompanhou ao primeiro setor, onde alguns homens
cortavam placas de isopor nos mais diversos formatos e tamanhos. Laura e Bert
falavam sem parar, mas Patrícia não conseguia prestar atenção ao que eles diziam.
Os três então percorreram as salas especialmente vedadas para a aplicação de
lã de vidro e de resina, passando em seguida pelo setor de acabamento. Patrícia ora
sorria, ora murmurava elogios. Procurava assim disfarçar a revolta que ameaçava
dilacerar seu peito.
Quando enfim voltaram ao escritório, ela olhou pela janela, avistando o

almoxarifado. Tinha de lhes dizer alguma coisa para aliviar um pouco aquela
angústia! Não imaginava que sua mãe fosse capaz de tanta crueldade! Já havia
abandonado Tom Becker, destruindo um lar; e agora queria privar o pobre homem
de seu sustento!
Ao virar-se para trás, ela teve outra surpresa desagradável. Bert colocara o
braço sobre os ombros de Laura e lhe acariciava o pescoço, demonstrando
claramente que o relacionamento entre ambos ia muito além da simples amizade.
Patrícia ficou furiosa. Que ingenuidade a sua não ter percebido tudo antes!
Então era isso, desde o início... Como poderia haver uma chance de reconciliação,
com Bert por perto?
Ela queria descarregar seu ódio, mas só conseguiu enaltecê-los ainda mais:
— Vocês me deixaram... impressionada. Eu não esperava encontrar um
negócio tão bem organizado, funcionando a pleno vapor.
Laura e Bert desataram de novo a falar, sem saber que Pat nem os ouvia. Seus
rostos resplandeciam de felicidade.
Pareciam aliviados, e Patrícia podia adivinhar o motivo. Em vez de recriminálos, como seria de se esperar, ela se mostrara satisfeita com tudo o que vira.
Orgulhoso, Bert então exibiu duas pranchas pequenas, de estilo e cores
arrojados. Uma era rosa-shocking, e a outra, azul brilhante.
— São lindas! — Patrícia disse, contrariando a própria vontade. — Tenho
certeza de que farão um grande sucesso entre os jovens. Quem está tratando da
distribuição? Vocês vão tentar lançá-las no mercado exterior?
O casal explicou seu projeto com entusiasmo, enquanto ela perguntava a si
mesma como ainda conseguia achar forças para fingir-se interessada. De repente,
Patrícia notou a presença de Ames. Ele a observava, sentado em um canto afastado
da sala.
Teria percebido toda a dor que ela sentia? Patrícia sabia que sim. Laura e Bert
a conheciam na intimidade, mas não eram capazes sequer de vislumbrar-lhe o
sofrimento, pois estavam cegos de alegria. Somente aquele par de olhos negros e
penetrantes enxergava a verdade através de sua frágil máscara.
Voltando-se para os dois, ela tratou logo de se despedir. Queria ir embora,
ficar sozinha.
— Vocês estão de parabéns, a fábrica é uma maravilha... Prometo que virei
visitá-los de novo. — E saiu depressa do edifício, antes que caísse em prantos.
Ames apareceu dê modo inesperado. Segurando Patrícia pela mão, levou-a até
seu carro.

— Não... — ela protestou, em tom de súplica. — Eu tenho de trabalhar.
— Preciso falar com você. — Ames mostrou-se irredutível. — Vamos fazer
um pequeno passeio.
Patrícia não estava em condições de conversar com quem quer que fosse. Só
desejava atirar-se em sua cama e chorar. Mas não teve forças para resistir ao
comando de Ames.
Depois de colocá-la no banco do passageiro, ele se sentou ao volante e ligou o
veículo. Dirigiu calmamente rumo, às montanhas, vez ou outra olhando-a de soslaio
sem que Patrícia percebesse. Ames pressentiu que aquele seria um novo teste para
ele: Um dia tentara consolá-la, mas havia fracassado. Conseguiria agora?
O silêncio entre os dois só foi interrompido no momento em que Ames
estacionou sob um carvalho, à beira da estrada deserta.
— Tudo vai terminar bem, Pat — ele disse, delicado.
— Eu... não sei do que você está falando. — Patrícia esforçou-se para manter a
voz firme.
Ames balançou a cabeça, sorrindo. Então aproximou-se e a tomou nos braços.
Patrícia sentiu um conforto tão grande junto ao corpo forte que no mesmo instante
começou a chorar.
Carinhoso, ele afagou-lhe os cabelos, enquanto sussurrava palavras doces ao
seu ouvido. Era a primeira vez que oferecia proteção a uma mulher, sem qualquer
intenção além de apenas ajudá-la. Esta nova e agradável sensação enchia-o de
orgulho.
A dor de Patrícia foi cedendo aos poucos, até que suas lágrimas finalmente
cessaram. Ames emprestou-lhe um lenço. Depois de enxugar o rosto, ela murmurou:
— Desculpe, eu não consegui me controlar... Mas já passou. Podemos voltar,
agora.
— Ainda não, Pat. — Ele a olhou com ternura. — Acho que devíamos discutir
esse problema.
Patrícia hesitou ante a idéia de se expor, de falar sobre os próprios
sentimentos com um estranho. Porém, logo lembrou que Ames fora o único a
entendê-la naquele momento, talvez o mais difícil de toda a sua vida.
— Muito bem. — Ela suspirou, antes de começar: — Antigamente eu
idolatrava meu pai. Ele era considerado o mestre do surfe. As pessoas o procuravam
para pedir conselhos, ver suas pranchas. Vinham de toda a costa, e até mesmo de
lugares mais distantes. Ele entendia tudo sobre o mar. Parecia um deus, com a pele e
os cabelos dourados pelo sol, o sorriso enigmático... Eu o adorava! A família inteira,
aliás. Dedicávamos nossas vidas a ele.

— E você acha que devia ser desse modo? — Ames perguntou, aproveitando
sua pausa prolongada.
Patrícia deu de ombros.
— Isso não importa, nós éramos muito felizes assim.
— Todos vocês?
— Está se referindo a minha mãe, não está? — De repente, Patrícia ficou
muito séria. — Você pensa que ela se sentia diminuída diante do carisma de papai?
Não. Ela sempre foi uma mulher forte, segura de si. — E calou-se por um instante.
— Não quero dizer que eles formavam o casal perfeito. Mas havia amor e respeito
em minha casa. E um senso incomum de união entre nós.
— Você teve sorte. Muitas famílias não são assim.
— Será que era tudo mentira? — Ela o olhou, com uma expressão triste. —
Apenas urna fantasia criada por mim?
— Se naquela época parecia real para você, nada mais interessa.
— Mas eu sofro tanto com a separação dos dois!
Enternecido, Ames começou a acariciar o rosto de Patrícia, que então colocou a
mão sobre a dele, cobrindo-a também de carinhos.
— Não precisa me dizer que sou adulta e independente e que não devo me
preocupar tanto com eles. Eu sei de tudo isso, Ames. Acontece que o coração fala
mais alto...
Ele apenas sorriu.
— Conte-me a verdade, por favor — Patrícia pediu. — Mamãe e Bert... estão
tendo um romance?
— O que você acha?
— Então meu pai é uma página virada do livro — comentou, amarga. — E,
para aumentar-lhe o tormento, ainda abrem um negócio que concorre diretamente
com o dele. Como podem ser tão cruéis?
Ames pareceu inquieto naquele momento.
— Não é bem assim, Pat.,
— Pois eu não vejo outra explicação para o que estão fazendo com papai.
Querem tirar seu ganha-pão, roubar o lugar que ele conquistou com sacrifício! — E
desviou o olhar, inconformada. — Eu gostaria de ajudá-lo nessa disputa, mas não
posso, porque também amo minha mãe.
Embora desejasse poupar Patrícia, que sofrera o bastante por um dia, Ames

decidiu contar-lhe tudo de uma vez. Mais cedo ou mais tarde ela teria mesmo de
saber.
— Se você se sente assim, Pat, acho que devemos falar com seu pai. Agora.
— Você pretende ir comigo? — Virou-se para ele, confusa. — Não tem medo
de ser mal recebido?
— Nós dois já nos conhecemos. Na verdade, Tom e eu conversamos quase
que diariamente. — Vendo sua perplexidade, acrescentou: — Ele está muito bem.
Vem se adaptando à nova situação sem nenhum problema.
— Eu não entendo...
— Se você conhece seu pai, sabe que ele adora as pranchas convencionais.
Tom tem fabricado as de estilo moderno para atender às exigências do mercado. Mas
é evidente que não se sente à vontade nesse campo.
— Você quer dizer que ele aceita a concorrência, contanto que mamãe e Bert
não copiem suas antigas pranchas?
Ames meneou a cabeça, confirmando.
— É difícil de acreditar — ela murmurou.
— Então vamos até lá. Deixe que ele mesmo lhe diga. — Girou a chave na
ignição e manobrou o carro, tomando o caminho de volta para a cidade.
Patrícia mergulhou em pensamentos. O que deveria fazer? Se houvesse
mesmo uma disputa e ela resolvesse tomar partido, já podia imaginar o que
aconteceria quando fosse oferecer ajuda ao pai. Como sempre, Tom Becker fingiria
não ouvi-la e continuaria seu trabalho calmamente.
Nesse caso, ela teria de lutar sozinha. Mas, para quê? De nada adiantaria
tentar manter em pé um castelo de areia, que há muito tempo tinha se
desmanchado...
Patrícia pôs-se a observar o perfil marcante de Ames, os cílios longos e
negros, o nariz reto, os lábios bem contornados. Ele parecia sempre tão seguro de si!
— O que você faz quando está nervoso com alguma coisa?
A repentina pergunta apanhou-o de surpresa.
—— Eu? — Ames ficou pensativo por um instante. — Depende. Se estou
perto da neve, vou esquiar. Afasto-me das pessoas o máximo que posso e depois me
exercito até cansar.
Patrícia não poderia seguir o exemplo de Ames, mas havia uma excelente
alternativa para o seu problema.

— Não quero visitar meu pai — ela declarou, de modo impulsivo. — Vamos
pegar nossas pranchas e...
— Você sabe surfar?
— Claro que sim. Esquece que sou filha de Tom Becker? Aprendi a me
equilibrar sobre as ondas muito antes de ir para a escola.
Obedecendo à luz vermelha de um semáforo, Ames parou o carro e volveu a
atenção para ela.
— Eu adoraria ver o seu desempenho no mar, Pat.
— Então, o que estamos esperando? — A idéia a excitava. — Vamos tirar o
dia para nos divertir! Você pode, não? Será maravilhoso esquecer os aborrecimentos
por algumas horas!
Ames continuou a dirigir, mas não lhe deu uma resposta. Patrícia achou que
ele não acatara sua sugestão. Já havia surfado naquela manhã. Além disso, precisava
trabalhar. Tinha perdido tempo com ela, tentando ajudá-la; e agora devia estar
atrasado para algum compromisso.
— Tudo bem, Ames — disse, quando estacionaram junto ao seu automóvel,
diante da Sol e Mar. — Surfaremos outro dia. Quem sabe no próximo fim de
semana...
— Nem pensar! — ele retrucou, sorrindo. — Nós vamos hoje mesmo. Quero
vê-la de biquíni, com os cabelos cheios de areia, o sol brilhando em sua pele
molhada. E, claro, quero ver se você é melhor do que eu sobre uma prancha.
Patrícia sentiu um frio no estômago, de prazer e medo.
— Eu não subo em uma prancha há muitos anos — avisou. — Espero não
decepcioná-lo.
— Stevie garante que é como andar de bicicleta.
— E olhe que ele sabe tudo sobre surfe! — Patrícia riu e então desceu do
veículo, apanhando na bolsa as chaves de seu próprio carro.
— Passarei em sua casa daqui à uma hora, está bem? Até logo.
Ao vê-lo partir, Patrícia indagou-se se seria mesmo certo ir à praia em vez de
ponderar sobre os últimos acontecimentos. Precisava traçar novos planos, pois fizera
descobertas muito importantes, que mudariam totalmente o rumo de sua vida. Não
podia portanto agir como se tudo estivesse na mais perfeita ordem.
— Ora, Pat, não seja tão exigente consigo mesma! — ela murmurou, voltando
a ficar entusiasmada. Por acaso também não tinha o direito de espairecer um pouco?
Surfaria com Ames, sim, e o resto que fosse para o inferno! Afinal de contas,

oportunidades como aquela não costumavam surgir todos os dias...
CAPÍTULO VIII

Sentando sobre sua prancha, Ames observava Patrícia deslizando velozmente
na crista de uma onda. Raras mulheres surfavam com tanta graça e agilidade. Ela
possuía um equilíbrio perfeito, um controle absoluto dos próprios movimentos.
Parecia um anjo, os braços abertos como se fossem asas, o olhar tranqüilo porém
atento aos impulsos do mar.
Não tinha sido fácil encontrar uma praia onde fosse permitido praticar esse
esporte à tarde, em especial quando não se desejava partilhar as águas com outros
surfistas. Entretanto, Patrícia conhecia um lugar pouco freqüentado, perto da
fronteira mexicana, e então sugerira que se dirigissem para lá. Depois de deixarem o
carro ao lado da auto-estrada, eles tiveram de caminhar dois quilômetros sobre
pedras, ao longo de uma ferrovia abandonada, descendo por fim a encosta de uma
montanha. Mas valera a pena. A pequena enseada, cercada por uma paisagem
deslumbrante, achava-se totalmente deserta.
Ames e Patrícia divertiram-se a valer desafiando as ondas, até que, exaustos,
estenderam uma toalha sobre a areia para se deitar. Ambos acabaram cochilando,
aquecidos pela brisa morna que soprava do oceano.
Ao acordar, Ames olhou para o rosto de Patrícia, delicado e sereno como o de
uma criança adormecida. Mechas secas de seus cabelos refletiam a luz dourada do
sol. Pequenas sardas cobriam-lhe a pele ligeiramente avermelhada dos ombros. O
maiô de duas peças que ela usava, mesmo não sendo tão pequeno quanto um biquíni,
revelava um corpo sensual e bem-feito.
Ames deleitou-se diante de sua beleza ao mesmo tempo delicada e sexy. Uma
voz parecia lhe dizer: "Vamos lá, Ames, não espere mais! Ela já deu provas de que
também o quer. Basta tocá-la, e a terá para si". No passado, Ames não hesitaria um
segundo em obedecer aos apelos da natureza. Mas desta vez algo estranho estava
acontecendo dentro dele, uma força contrária criava resistência a seus impulsos e o
confundia. Mas de uma coisa tinha certeza: esse novo sentimento ia muito além de
uma simples atração física.
Patrícia abriu os olhos e sorriu. Estava tão perto de Ames que podia enxergar
minúsculos grãos de areia presos em seus cílios.
— Eu tinha me esquecido de como surfar é gostoso — ela murmurou.
Os dois se entreolharam durante algum tempo. O prolongado silêncio
incomodou Ames, que ainda lutava contra seu sufocante dilema. Ele então virou-se
de frente para o mar e ergueu o tronco, apoiando-se nos cotovelos.
— Engraçado — disse, com falsa seriedade —, este lugar me deixa nervoso,

sabe?
— Por quê? — Patrícia se sentou para examinar ao redor. Depois brincou: —
Sente falta de suas admiradoras? Você gostaria que aqui estivesse cheio delas, não?
Ele balançou a cabeça, em sinal de contrariedade.
— Não é isso. Esta praia me lembra alguma coisa... Já sei! — Fez algum
suspense. — Pense nos filmes de ficção científica japoneses. Parece que, a qualquer
momento, um daqueles enormes monstros abissais surgirá das águas, lá no
horizonte.
— E se acontecer de verdade? — Fingiu estar em pânico. — O que será de
nós?
— Não tenha medo. Protegerei você até o fim. — E abraçou-a.
— Meu herói!
Ames beijou Patrícia com ternura, mas afastou-se em seguida. Continuava
dividido entre seu desejo e a estranha força que o reprimia. "Devo ter
enlouquecido!", pensou. "Estou diante de uma mulher maravilhosa, que parece
pronta a desfrutar os meus carinhos, e fico apavorado como um rapazinho! O que
está acontecendo comigo, afinal?"
Percebendo sua relutância, sem contudo compreendê-la, Patrícia recomeçou a
falar, no mesmo tom alegre de antes:
— Acho que os monstros andam ocupados demais, assustando as praias do
Japão, para se interessarem por este litoral. Não há com o que se preocupar, Ames.
Estamos sozinhos.
— Tem razão. Sabe, sinto como se o mundo tivesse acabado e nós dois
fôssemos os únicos sobreviventes.
— Então, a exemplo de Adão e Eva, vamos dar origem a uma nova raça
humana.
— Ainda bem que estamos noivos.
Ela parou de rir e resmungou:
— Essa história de noivado é uma pedra em meu sapato. Depois que Stevie
fez o favor de contá-la para o clube inteiro, durante a regata, tenho recebido uma
montanha de cartas e folhetos todos os dias. Você acredita? São bufês oferecendo-se
para organizar a festa de casamento, fotógrafos, músicos. Várias tipografias me
enviaram amostras de convites. Lojas especializadas em enxovais e vestidos de
noiva... Um absurdo!
— É o preço que você deve pagar por ter mentido. — Ames esboçou um

sorrisinho. — Pelo menos, está livre de seu antigo admirador.
Patrícia levantou os ombros, resignada.
Novamente eles trocaram um olhar demorado, intenso, que trouxe de volta a
Ames aquele estranho sentimento. Seu espírito parecia estar unido ao dela, numa
relação de profundo afeto, como se ambos já se conhecessem há anos...
Ela era de fato uma garota diferente. Frágil, mas ao mesmo tempo tão segura!
Tudo em Patrícia o impressionava, desde a delicada beleza até a forte e
surpreendente personalidade.
E foi pensando nisso que Ames de repente viu-se invadido por uma
necessidade premente, quase vital: ligar-se a Patrícia fisicamente também. Precisava
tê-la junto a si, descobrir por que ela lhe despertava tais emoções! Se não o fizesse,
com certeza acabaria perdendo o juízo!
Mas conteve-se a duras penas. Sabia que, antes de mais nada, deveria dizerlhe algumas coisas importantes. Por outro lado, não queria machucar Patrícia ainda
mais, pois ela já estava sofrendo muito com os problemas de sua família. Merecia
portanto ser poupada.
Volvendo a atenção para duas gaivotas que cruzaram o céu, Ames comentou:
— Você domina a prancha tão bem! Um dia eu gostaria de levá-la até as
montanhas geladas de Aspen. Já esquiou alguma vez?
— Sim, há muitos anos atrás. — Então olhou a sua volta. — Mas acho que
nasci para o surfe. Adoro sentir o sol e a areia em minha pele, este cheiro de
maresia...
— Diga-me — ele começou, procurando dar um tom natural à pergunta —,
por que você nunca se casou?
Patrícia surpreendeu-se com a súbita mudança de assunto. Mas, como aquele
era um ponto que não a preocupava, simplesmente explicou:
— Ainda não encontrei o companheiro ideal.
Ames permaneceu calado e indeciso durante um longo instante. Imaginava
qual seria a reação de Patrícia se lhe dissesse o que tinha em mente, mas... Quem
sabe não estava na hora de lhe abrir os olhos?
— Ou seja, até hoje não conheceu uma única pessoa que fosse igual ao seu
pai. Certo?
— O quê? — A expressão em seu rosto era de fúria, mas Ames não se deixou
intimidar.
— Convenhamos, Patrícia. Você sempre o idolatrou. Não acha que isso pode

afetar seu relacionamento com outros homens?
Ela ficou tão pálida que Ames arrependeu-se por ter falado demais. Seu
remorso, porém, foi logo vencido pelo desejo de ajudá-la.
— Não — Patrícia disse afinal. — Você está enganado.
— É muito difícil concorrer com o mito Tom Becker — ele insistiu.
— Eu... — Tentava parecer controlada, embora o ódio a estivesse
consumindo. — Nunca comparei homem algum com meu pai. Mesmo aqueles que
me interessavam.
— E por quantos já se interessou? — Notando-a hesitante, prosseguiu: —
Você morrerá solteira, se não reconhecer que ele é um simples mortal, cheio de
defeitos como todo mundo. — Depois de uma pausa, lembrou: — Você não quis
visitá-lo, hoje. Por acaso não estaria com medo de descobrir algo em Tom que
pudesse comprometer sua imagem?
Ames sabia que fora rigoroso demais com ela e encheu-se de compaixão.
Segurando Patrícia pelos ombros, puxou-a para si delicadamente.
— Querida — murmurou —, não tenho intenção alguma de magoá-la. Tento
apenas mostrar que seu pai é humano. — Beijou-lhe os cabelos com carinho. — Eu
o conheço bem, acredite em mim. Não resta dúvida de que é um surfista fantástico e
que fabrica as melhores pranchas deste Estado. Sem falar no profissional respeitado
que se tornou. Mas Tom está longe de ser perfeito, Patrícia. — Risonho,
acrescentou: — Por exemplo: cansei de derrotá-lo no squash. E aposto que Tom
também não teria a menor chance, se competisse comigo no esqui.
''Além disso, eu sei fazer uma mulher feliz", Ames pensou com orgulho. "O
que ele jamais conseguiu..."
Como se tivesse chegado à mesma conclusão, Patrícia começou a sorrir. Em
seguida, envolveu-o num forte abraço, oferecendo-lhe os lábios. Ames hesitou por
um instante, antes de sorvê-los com ardor.
O gosto doce daquela boca parecia embriagar Ames como uma bebida, que
aos poucos lhe ofuscava a mente e fazia todo o seu sangue ferver.
Dominada pela paixão, ela o empurrou lentamente com o próprio corpo até
Ames se deitar. Depois, colocou-se sobre ele e quase enlouqueceu de prazer quando,
incontinenti, Ames soltou o fecho do top e beijou-lhe os seios.
Com mãos ávidas, ele então a cobriu de carícias, arrancando-lhe sussurros,
entrecortados por gemidos roucos. Sabia que ela estava pronta para ser sua, mas algo
ainda o preocupava. Até que ponto os anseios físicos de Patrícia não eram movidos
pela vontade de aplacar o sofrimento?
Devagar, Ames girou com ela sobre a toalha e se levantou. A idéia de ser

usado como uma simples tábua de salvação doía-lhe mais do que manter-se longe de
Patrícia. Ele não podia continuar; mesmo que decidisse aproveitar aquela chance
apenas para se satisfazer sexualmente, sua consciência jamais o permitiria.
De repente, um brilho de decepção passou pelos olhos verdes.
Patrícia abriu os braços num gesto suplicante e o esperou voltar.
— Não, Patrícia — Ames disse, com voz firme. — Agora não.
— Por quê? — Atônita, sentou-se imediatamente. Então desabafou: —
Preciso muito de você, Ames! Por favor, ajude-me a esquecer a tristeza....
As palavras de Patrícia causaram-lhe um mal-estar ainda maior. Não obstante,
ele respondeu:
— Acho que este não é o momento certo. Eu gostaria que não fosse assim,
mas... Vamos deixar para um outro dia, está bem? — E ficou admirado com seu
autodomínio. Só ele sabia o quanto fora difícil, até aquele momento, controlar os
próprios instintos!
Patrícia encarou Ames demoradamente, sem saber se devia ou não odiá-lo.
Nunca pedirá a um homem que fizesse amor com ela. E, como se isto não bastasse,
também tinha de sofrer a humilhação de ser rejeitada!
— Desculpe-me se esperei demais de você. — Indignada, vestiu o top e
começou a arrumar sua sacola, sem olhar para ele. —Eu não imaginava que...
— Pat... — Ajoelhando-se depressa, calou-a com um beijo. Depois, indagou:
— Não percebe que me preocupo com você? Eu não posso tratá-la como as outras.
Você é diferente.
— Não sou virgem, Ames.
— Eu nem estava pensando nisso. Ouça. — Ciente de que o melhor seria falar
com franqueza, explicou: — Eu quero que você seja minha, mas não desta maneira.
Você tem de me desejar de verdade. E não apenas porque se sente magoada,
precisando de alguém para se consolar.
Patrícia não soube o que dizer. Ames fizera uma revelação inesperada. E a
sinceridade em seu olhar era algo comovente!
Terminando de se vestir, Patrícia ajudou-o a guardar as coisas para irem
embora. Mas, durante todo esse tempo, não conseguiu tirar da cabeça o: que acabara
de ouvir. Com algumas poucas palavras Ames tinha provado ser um homem digno.
Talvez o homem mais digno que ela já conhecera.

CAPÍTULO IX

Como sempre acontecia nas manhãs de segunda-feira, a papelaria de Patrícia
estava cheia de fregueses. Ela e as três funcionárias corriam de um lado para o outro,
atendendo os jovens estudantes. Muitos deles achavam-se acompanhados de suas
mães.
A sineta pendurada à porta então voltou a tocar, indicando que mais uma
pessoa havia entrado. Ao notar que todas as mulheres presentes de repente olharam
naquela direção, Patrícia nem precisou voltar-se para saber quem havia chegado:
Ames!
— Olá. —Sua voz grave ressoou pelo ambiente. Ele usava calça branca de
algodão e uma camisa azul-marinho, que o tornavam ainda mais irresistível.
— Oi — Patrícia retribuiu o cumprimento, sem sair de trás do balcão. —
Desculpe, mas estou ocupada.
— Eu sei. — Ames sorriu, compreensivo. — Só vim dar uma olhada em sua
loja. Não se preocupe comigo. — Enfiou as mãos nos bolsos e começou a caminhar,
enquanto examinava ao redor.
Uma a uma, as funcionárias da loja iam se revezando ao lado de Ames, para
lhe mostrar as mercadorias e fornecer as explicações necessárias. Queriam apenas
ser gentis com o visitante, mas mesmo assim Patrícia se ressentiu por não poder
acompanhá-lo pessoalmente.
Em vão ela tentou se concentrar no que fazia, pois a todo momento volvia os
olhos para observá-lo. Nunca mais vira Ames depois daquela tarde na praia deserta,
há quase duas semanas. E, desde então, não deixara um minuto sequer de pensar no
que lhe dissera. Durante todo esse tempo, porém, tivera uma só certeza: não
importava o que acontecesse dali para a frente, o fato era que Ames havia mudado
sua vida.
No dia seguinte ao último encontro, o coração de Patrícia fora premido pelo
rancor e pela tristeza. Shelley telefonara-lhe à noite, para saber como estava, mas ela
a tratara com aspereza.
— Mamãe e Bert planejam se casar?
Chocada, Shelley demorara um pouco para responder:
— Por que eu haveria de saber? Ela não falou sobre isso com ninguém, até
agora.

— Mas obviamente eles continuam juntos.
— Sim. E daí? — Após uma breve pausa, disse: — Está certo, eu admito que
seja difícil aceitar o namoro dos dois. Entretanto, ainda acho que mamãe tem esse
direito.
— Direito! Ela deixou papai para ficar com Bert, não foi?
Shelley então se cansara de seu mau humor.
— Pat, não existe apenas um responsável pelo que está acontecendo. Papai
também tem culpa, não importa o quanto você tente defendê-lo e finja que ele é
perfeito. — Antes que a outra pudesse se manifestar, completou: — Preciso desligar.
Stevie e eu vamos jantar em Laguna. Tchau.
Patrícia colocara o fone no gancho, imaginando se haveria no mundo algo tão
incomum. Sua irmã e Stevie. A intelectual e o surfista... Mas o que mais a
impressionava era a acusação de Shelley. Seria ela uma defensora realmente
exagerada do pai? Por que nunca se apercebera disso antes?
Aquela conversa cruzou-lhe a mente diversas vezes, enquanto ela observava
Ames circulando pela loja. Patrícia enfim pôde dispor de alguns minutos para falar
com ele e pediu a Anne Marie, sua funcionária mais antiga, que assumisse o caixa.
Ames estava cercado de adolescentes risonhas, mas deixou-as para trás assim
que viu Patrícia se aproximar.
— Então, você reapareceu — ela murmurou. Seu tom demonstrava o prazer que
a presença de Ames lhe causava. — Suponho que queira me dar mais conselhos,
em prol do meu próprio bem.
Ele mostrou um ar inocente.
— Na verdade, eu vim comprar alguns decalques. Como estes.— E mostroulhe os desenhos que estava segurando. — Pretendo redecorar meu apartamento. O
que acha?
— Boa idéia. — Patrícia conteve o riso. — Quais são suas cores preferidas?
Azul-claros rosa-bebê?
Ames representava muito bem. Sério, respondeu:
— Não. Amarelo e verde-água. Vou grudar estas tartarugas nos ladrilhos da
cozinha. As borboletas ficarão perfeitas na vidraça do banheiro. E os coelhos... na
porta no meu guarda-roupa.
— Se fizer isso, esteja certo de que nunca mais receberá visitas!
Ele fingiu preocupação, e ambos compartilharam de uma gostosa gargalhada.
— Por que não chama logo um decorador profissional? — Patrícia brincou.

— Você não entende de decalcomania!
— Que tal se você mesma explicasse para mim, em suas horas vagas?
— Isso não será possível, Ames. Sou uma pessoa extremamente ocupada.
Aliás — lembrou-se de que ainda tinha trabalho a fazer — preciso voltar para o
caixa. Não posso deixar tudo por conta de Anne Marie.
— Que pena! Então pedirei ajuda a outra pessoa.
Não faltavam candidatos. O movimento da loja havia diminuído, mas ainda
restava um grupo de jovens mães e seus filhos.
As crianças pareciam gravitar naturalmente em torno de Ames, cobiçando um
minuto de sua atenção. Algumas pediam conselhos, outras lhe davam sugestões.
— Vou levá-la para guardar minhas ferramentas, — Ele separou a caixa de
madeira entalhada que os pequenos admiradores tinham-no convencido a adquirir.
Patrícia acompanhava tudo de longe, com um sorriso nos lábios.
Finalmente ela teve chance de sair com Ames para um passeio. Os dois
compraram cachorros-quentes na barraca da esquina e foram comê-los em uma
pracinha que ficava bem perto dali.
Depois do lanche, sentaram-se à sombra de uma árvore, onde pardais e ticoticos se reuniam, criando um verdadeiro alvoroço. Ames pegou na mão de Patrícia,
antes de falar:
— Esperei duas semanas, mas você não foi me procurar. Está zangada
comigo?
— Claro que não! — Ela jamais conseguiria guardar rancor por tanto tempo.
Ainda mais em se tratando de Ames.
— Como você não apareceu, fiquei com medo de perdê-la.
— Eu pensei que você não quisesse mais me ver.
— Que absurdo, Patrícia! — Estava indignado. — De onde tirou essa idéia?
— Ora, aquela tarde você...
— Esqueça o que eu disse, está bem? Vamos começar do zero.
Ela o encarou, desconfiada, embora enxergasse um brilho de emoção em seu
olhar, que a intrigava.
— Certo — respondeu. — E o que você sugere?
— Primeiro, sairemos para jantar. Depois...

Patrícia esperou-o terminar. Sabia o que Ames tinha em mente, mas ele não
parecia muito à vontade para se declarar. Estava ansiosa e radiante de alegria,
pois também o desejava. Receber seus carinhos era tudo com o que mais
sonhava!
Ainda achava loucura apaixonar-se por Ames. Como poderia confiar em um
homem volúvel, um playboy? Não havia a menor possibilidade de ele se dispor a
construir uma vida a seu lado! Mas o que isso importava, se Ames agora a queria?
— Tudo bem. — Patrícia sorriu. — Vamos marcar um encontro.
— Esta noite? — Ames sugeriu imediatamente.
— Combinado. Esta noite.
Patrícia sentiu uma estranha inquietação. Seu destino estava selado. Talvez ela
se machucasse muito nessa aventura... Porém, onde arranjaria forças para desistir?
Amava Ames! E o amaria para sempre, mesmo que ele jamais ficasse sabendo disso!
Os cabelos de Patrícia estavam crescendo. Ela sempre os mantivera curtos por
uma questão de praticidade, mas agora pensava em mudar. Queria que Ames a
achasse sexy.
Suspirando, pois ainda demoraria meses para que ganhasse uma nova
aparência, Patrícia continuou a fazer sua maquilagem. Já havia colocado o vestido
negro de tafetá que comprara às pressas para o encontro com Ames. Até que lhe caía
bem! O decote era um tanto ousado, mas sem dúvida tornava o colo bastante
sensual.
Patrícia colocou os brincos, o colar de pérolas e passou um pouco de perfume.
Então olhou para o relógio. Ames viria apanhá-la em quinze minutos. Um misto de
entusiasmo e medo se apossou dela. Ia passar a noite nos braços daquele que amava.
Mas e depois?
Ela havia pensado muito no que Ames dissera sobre sua admiração doentia
pelo pai. Agora Patrícia reconhecia que ele estava certo. Só não conseguia entender
por que fora tão cega durante tantos anos.
Três dias antes, Patrícia tinha ido à fábrica de Tom Becker. Como de costume,
ele a beijara, retornando em seguida ao minucioso exame de suas pranchas. A filha
permanecera calada por um instante, enquanto observava o homem que ela
acreditava conhecer tão bem.
Seu pai estava envelhecendo... essa constatação partiu-lhe o coração. Patrícia
sentira uma grande tristeza ao pensar nos anos que haviam se passado sem que ele
tivesse feito outra coisa além de trabalhar. Entretanto, seria inútil tentar convencê-lo
a descansar um pouco, agora. Fabricar pranchas era tudo o que Tom Becker mais
desejava na vida.

Já teria ele percebido que Laura se ligara a seu ex-sócio? Patrícia estava
curiosa para saber, porém não achava certo interferir nesse problema, que cabia
apenas ao casal resolver.
Todavia, levantara outra questão. Rompendo o silêncio, perguntara ao pai
como ele via a concorrência entre a Sol e Mar e sua empresa.
Tom Becker parecera muito à vontade ao dizer:
— Estou abandonando a produção de pranchas pequenas, Pat. Quero me
dedicar apenas ao estilo convencional, que, você sabe, sempre foi minha verdadeira
paixão. Eles podem até dominar o mercado com seus modelos modernos. Eu não me
incomodo. — De repente, rira. — Laura e Bert fizeram bem em contratar Ames
Mason! Sua mãe é uma mulher inteligente, mas não tem tino comercial. Quanto a
Bert, trata-se de uma pessoa capacitada, sem dúvida; contudo, seu talento não se
compara ao de Ames.
Ela havia se surpreendido com seu bom humor. Tom prosseguira, sorridente:
— A empresa precisava de alguém como Ames Mason. Ele é ótimo em
marketing, tem idéias brilhantes. E o mais importante é que, ao contrário de mim,
não está preocupado em conservar as características tradicionais do esporte. Ames
vai conseguir tudo àquilo que eu sempre fracassei em obter.
Patrícia ficara contente em saber que os negócios de seu pai não seriam
afetados. E fora embora, sentindo-se bem mais leve. Finalmente ela começava a
encarar com certo otimismo os fatos que até então tinham lhe parecido
desesperadores.
Ames chegaria a qualquer momento. Patrícia indagou-se se alguma vez o
comparara a Tom Becker. Teria cometido essa tolice? Ambos eram diferentes.
Maravilhosos e apaixonantes, cada qual a sua maneira...
De repente, a campainha soou. Com o coração disparado, Patrícia examinouse novamente ao espelho e depois correu para abrir a porta.
A visão daquele homem fascinante nunca deixava de perturbá-la. Ames vestia
um elegante terno escuro e uma camisa branca que realçava sua tez morena.
Ele também ficara muito impressionado com Patrícia.
— Você está linda! — exclamou, exprimindo sua admiração com um forte
assobio que ecoou pelo hall inteiro.
— Ames! — Rindo, Patrícia puxou-o para dentro do apartamento. — Agora
os vizinhos já sabem que um homem veio me visitar. Como vou me explicar para
eles?
— Diga-lhes que sou um primo do interior. Um pouco espalhafatoso, mas
completamente inofensivo.

— Inofensivo? Você?— Ela fez um ar divertido, enquanto apanhava a bolsa
de cima do sofá.
Ames mostrou-se ofendido.
— Nossa, Pat. Parece que você me acha um monstro perigosíssimo!
— O monstro mais sedutor que eu já conheci em toda a minha Vida. —
Carinhosa, tocou a ponta de seu nariz com um dedo, como prova de que aquilo era
uma simples brincadeira.
Inesperadamente, ele abraçou Patrícia e beijou-lhe a boca, esquecendo-se
depressa de todo o resto.
— Não se inicia um encontro assim — ela murmurou, já trêmula.— As
pessoas costumam reservar essa parte para o final da noite.
— Aí está o pecado da humanidade.
— Na sua opinião, ela deveria beijar mais?
— Não. Apenas parar de deixar as coisas para depois.
— E ilustrou seu ponto de vista com outro beijo.
Ao saírem do apartamento, Patrícia e ele notaram que a vizinha da frente
espiava pela fresta de sua porta. Os dois se esforçaram para manter a naturalidade e,
quando entraram no elevador, desataram a rir.
Ames a levou para jantar no Sly Fox, um requintado restaurante à beira-mar.
Sempre atencioso, fez com que ela experimentasse vinhos caros e se divertisse
muito com suas histórias. Patrícia nunca se sentira tão estimada.
Eles foram dançar na Ricoco's e depois na boate Whahoo, famosa pelos shows
que apresentava à meia-noite. Em plena madrugada, caminharam de braços dados
pela praia, trocando segredos sob o luar.
Patrícia parecia estar vivendo num sonho. Ames era maravilhoso! À medida
que o tempo passava, mais intenso se tornava seu desejo. Este sentimento,
totalmente novo para ela, não lhe causava tanto medo quanto perplexidade. Homem
nenhum tinha sido capaz de provocá-la até então!
Finalmente Ames convidou Patrícia para tomar um último drinque em seu
apartamento. Embora tivesse esperado por isso a noite toda, ela hesitou, sem saber
por quê:
— Já bebi muito, hoje. Eu...
— Que tal um café irlandês? — Ames insistiu. — Com bastante creme e
raspas de chocolate?

Como Patrícia poderia resistir a uma proposta tão tentadora?
Ao contrário do que ela sempre pensara, Ames morava com simplicidade, mas
sem perder de vista o bom gosto. Os poucos ornamentos que existiam na sala
combinavam com a mobília moderna, de tons suaves. Apenas um quadro abstrato
cobria a parede em frente ao sofá, enquanto uma enorme escultura se destacava
perto da janela. Em vão Patrícia procurou algo que comprovasse ser aquele o
apartamento de um playboy,
Havia algumas fotografias, quase todas de duas belas jovens. Patrícia ficou
perturbada ao vê-las e tentou disfarçar. Mas Ames, que já tinha percebido sua
reação, perguntou, apanhando um dos retratos:
— O que acha delas?
— São lindas — Patrícia disse, seca, — Você sabe escolher muito bem suas
namoradas.
— Pat!— Estava decepcionado com sua falta de perspicácia. — Por que eu
guardaria fotos de ex-namoradas? — Ele apontou para a moça alta e sorridente. —
Esta é minha irmã, Clara. É casada e tem um restaurante em Aspen. Foi ela quem
tramou com sua mãe para que eu entrasse no negócio das pranchas. — E, referindose à outra, que tinha um olhar sonhador: — Dora, a caçula. É formada em
arquitetura, mas trabalha como aeromoça porque adora viajar.
Patrícia sentiu-se uma tola por não haver notado a semelhança entre elas e
Ames.
— E esta... — ele continuou, desta vez mostrando a fotografia de uma mulher
mais velha, com cabelos curtos e prateados — ...é minha mãe.
— Que bonita! Onde mora?
— No Havaí. — Ames hesitou, antes de acrescentar: — Ela lê cartas de tarô.
— Verdade? — Patrícia custava a crer que uma senhora com aparência tão
distinta se dedicasse àquele tipo de atividade.
— Eu reconheço que não seja uma maneira comum de ganhar a vida, mas
pelo menos ela descobriu sua vocação. — Ames deu de ombros. — Antigamente,
papai e ela mudavam de uma cidade para outra a cada seis meses, experimentando
todos os empregos que estivessem disponíveis.
— Você e suas irmãs já tinham nascido?
— Sim. Parecíamos uma família de ciganos. — Pensativo, deslizou o dedo
sobre a moldura envernizada.— Clara, Dora e eu tivemos uma infância bastante
agitada. Até que fomos morar com uma tia, em Boston. Ela nos proporcionou uma
vida mais normal. — Então riu e repousou a mão no ombro de Patrícia. — Confesso
que me senti entediado, algumas vezes. Mas também aprendi muito, como durante

os anos que passei junto de meus pais.
Enquanto escutava, Patrícia imaginou-o ainda menino, em constantes viagens
com a família pelo sul do país. Vivendo sempre novas emoções, o pequeno Ames
desconhecia a rotina diária que permeia a existência da maioria das pessoas. Sem
dúvida, tivera uma criação diferente. E se, por um lado, ela lhe causara alguns
prejuízos de natureza emocional, por outro tornara-o desde cedo um indivíduo
independente.
— Acredite ou não — Ames começou a acariciar seu pescoço —, sou
considerado o mais estável dos Mason. — E murmurou, bem-humorado: — Parece
que esse traço tem se acentuado muito em mim ultimamente...
Ao recolocar o porta-retrato sobre o móvel, ele esbarrou em outro, deixando-o
cair no chão. Patrícia abaixou-se para pegá-lo. Era uma foto de Ames com um
robusto bebê no colo.
— É Jimmy, o filho de Clara — ele explicou, sorridente. — Já está com dois
anos de idade. Garoto inteligente!
— Você gosta de crianças, não? — Patrícia comentou, notando o carinho com
que Ames falara do sobrinho.
— São monstrinhos adoráveis. Eu também fui, um dia. Aliás, há quem diga
que ainda sou.
Inúmeras coisas em Ames não correspondiam à imagem de um playboy...
Patrícia não resistiu e fez-lhe a pergunta, mesmo sabendo que poderia provocar uma
atmosfera desagradável entre eles:
— Você... pretende ter filhos?
Sério, ele se afastou de repente.
— Antes de mais nada, eu preciso me casar. Não é assim que as pessoas agem
normalmente? — Seu tom era leve, mas o brilho do olhar deixara transparecer que
algo o incomodava.
Patrícia sentiu Ames se evadindo, como naquela tarde, na praia deserta. Desta
vez, entretanto, não estava disposta a perdê-lo. Queria entender o motivo de sua
inquietação, e para isso seria necessário que ambos usassem de sinceridade,
Tocando-lhe o rosto de maneira afetuosa, ela disse:
— Por favor, não fuja de mim.
Ames estremeceu com seu doce pedido. Nunca esperara tanto tempo para ter
uma mulher que desejava. Por que ficava receoso diante de Patrícia? O que ela
possuía de extraordinário que lhe inspirava aquele respeito e instinto de proteção?

Ames tinha consciência de que o momento ideal jamais chegaria, se alguns
problemas não fossem discutidos com antecedência. Patrícia desconhecia seus
planos, mas ele era o único culpado. Faltava-lhe coragem para contá-los. Como
então evitaria que ela não se sentisse traída após entregar-se cegamente aos seus
carinhos?
— Pat... — Ames segurou a mão que o afagava. — Nós precisamos conversar.
— Você fala muito — ela sussurrou, sem poder se controlar mais.
Patricia envolveu Ames pelo pescoço e, erguendo-se na ponta do pé, beijou-o.
Seus lábios tinham um irresistível gosto de mel e conhaque. Ela queria se embriagar,
perder-se naquela suave corrente de volúpia.
Toda a indecisão de Ames desapareceu como que por encanto. Ele a abraçou
com tal ímpeto que lhe arrancou um gemido rouco. E, quando a fúria de seu ser já
ameaçava explodir, pegou Patrícia no colo, levando-a depressa para o quarto.
Depois de colocá-la delicadamente na cama, começou a desabotoar-lhe o
corpete. Seus dedos tremiam ao roçar o tecido sedoso. Patrícia então abriu os olhos e
se deparou com a expressão perturbada de Ames.
Parecia-lhe estranho que um homem com a experiência de Ames estivesse
nervoso, enquanto ela primava pela autoconfiança, pela certeza do que iria fazer. No
entanto Patrícia também tinha" algumas dúvidas. Conseguiria agradá-lo? Saberia
satisfazer seus anseios tanto quanto as outras?
Mas as preocupações de Patrícia eram insignificantes demais para perdurar.
Ames logo puxou o vestido, expondo seu corpo, que palpitava de prazer. Em
seguida, tirou-lhe o sutiã e a calcinha. Naquele instante, ficou extasiado.
O fascínio provocado pela nudez de Patrícia ultrapassava todas as suas
expectativas. Ele se despiu devagar, admirando a frágil silhueta, iluminada apenas
pela lâmpada do corredor. E finalmente deitou-se ao lado dela, sem suportar mais o
tormento daquela breve separação.
Ames sorveu o calor de seus seios, ao mesmo tempo em que, com mãos
hábeis, fazia-lhe delirantes carícias. De repente, levantou o rosto transtornado pela
paixão.
— Você é tão linda que fico até com receio de machucá-la... — murmurou.
— Não tenha medo, querido. Você jamais me maltrataria, eu sei. — E
suplicou, num sussurro: — Por favor, não espere mais. Eu preciso de você!
Como um servo fiel e apaixonado, Ames realizou seu desejo. Cobriu o corpo
tentador de Pat com o seu, e então os dois partiram numa viagem inigualável de
sensual magia.
Momentos depois, quando repousava nos braços de Ames, Patrícia disse,

sentindo-se segura e realizada:
— Vamos ficar assim para sempre.
— Sim, meu amor. Para sempre. — Ele se aconchegou em seu colo
perfumado e sorriu.

CAPÍTULO X

Fizeram amor novamente uma hora mais tarde, e depois, à primeira luz do
amanhecer. O encantamento nunca diminuía. A paixão de Ames mantinha-se sempre
forte como na primeira vez. Ele a desejava tanto quanto se sentia desejado.
Patrícia parecia estar vivendo um sonho. Recusava-se a acreditar que toda
aquela felicidade lhe fora concedida. Era bom demais para ser verdade!
Os dois se levantaram devagar, sem a menor pressa, mesmo sabendo que
precisavam ir para o trabalho. Patrícia vestiu uma camiseta de Ames, que mal lhe
escondia a parte superior das coxas, revelando a calcinha rendada quando ela se
movia. Ames regozijava-se ante tão sedutora visão.
Ele preparou torradas e uma deliciosa omelete para o desjejum, que ambos
saborearam com grande apetite, em meio a divertidas gargalhadas. Então, Ames
emprestou-lhe uma bermuda de náilon, para que Patrícia não chegasse em casa com
o vestido da noite anterior, chamando assim a atenção dos vizinhos.
Eles ainda riram muito ao se dirigirem para o bairro onde Patrícia morava.
Mas, no momento em que ela entrou no edifício, a expressão de Ames sofreu uma
profunda transformação. Seu espírito foi invadido por um mau pressentimento. Ele
sabia que não podia mais continuar omitindo-lhe a verdade.
Ciente dos problemas que isso acarretaria, Ames planejou revelar tudo durante
o almoço. Patrícia, porém, contou tantas histórias ocorridas na loja naquela manhã
que não lhe deu chance de fazê-lo.
Ames então decidiu conversar com Patrícia depois, quando fossem ao cinema.
Mas eles não saíram de seu apartamento. Estavam fascinados um pelo outro, e
passaram a noite inteira se amando intensamente.
Mais tarde, entretanto, enquanto ela dormia, Ames permaneceu acordado por
quase duas horas seguidas, velando seu sono tranqüilo na semi-obscuridade do

quarto e imaginando um modo de lhe falar. Mas de onde vinha aquele senso de
responsabilidade?
Ames estranhava a premente necessidade que sentia de ser honesto com
Patrícia. Até poucos meses atrás, tinha sido uma pessoa despreocupada e
inconseqüente. Nunca fizera planos para nada, preferindo que as coisas seguissem
sem rumo naturalmente. Fora uma existência inútil, não podia negar.
Agora não reconhecia mais o velho Ames Mason, pois tornara-se outro
homem, cheio de expectativas. Pela primeira vez tinha objetivos e estava
aprendendo a lutar para alcançá-los. Mas também começava a perceber que não se
travava essa luta sem obstáculos. Havia sempre um preço a pagar.
Olhando para Patrícia, Ames experimentou uma emoção diferente. Era isso o
que ele desejava de fato? E sua liberdade? Valeria mesmo a pena trocá-la por uma
nova vida? Tais perguntas nunca tinham lhe ocorrido antes. Com certeza, só o tempo
as responderia...
Patrícia acordou pela manhã, alegre e bem-disposta. Espreguiçou-se e então,
ao virar-se para o lado, descobriu que Ames a observava, sentado na cama, o queixo
apoiado em uma das mãos. Seu ar apreensivo assustou-a.
— O que foi? — Patrícia ergueu-se para abraçá-lo. — Você não dormiu?
— Espere um pouco, Pat. — Ele agarrou seu pulso. — Precisamos conversar.
A inesperada atitude de Ames arrefeceu-lhe o ânimo como um jato de água
fria. Um medo terrível então apossou-se de Patrícia, que se encolheu sob o lençol,
preparando-se para o pior. Já esperava por aquilo, mas, mesmo assim, alimentara
tolas ilusões! Ames ia dizer que fora maravilhoso, mas não daria certo por esta ou
aquela razão. Estava escrito em seus olhos...
— Qual é o problema? — Patrícia perguntou, embora não tivesse nenhuma
vontade de saber.
— Bem... — Nem imaginava por onde começar. A expressão atormentada em
seu rosto chegava a causar pena.
Patrícia queria confortá-lo, mas controlou-se a tempo. Não era hora de
sentimentalismos. Ela se encheu de coragem e o esperou falar.
Naquele instante o telefone tocou, deixando-os sobressaltados. Os dois se
entreolharam, hesitantes, e então Patrícia apanhou o aparelho do criado-mudo,
colocando-o no colo.
— Alô?
— Pat? — A voz anasalada de Stevie ressoou do outro lado da linha. — O que
está fazendo aí?

— O que você acha? — E arrependeu-se imediatamente de sua rispidez. —
Quer falar com Ames?
— Eu gostaria, mas... — Era clara a decepção do rapaz. — Tudo bem, eu ligo
depois.
— É alguma coisa urgente? — ela insistiu.
— Não. — Stevie deu uma risadinha. — Eu queria apenas desafiá-lo na
prancha. Hoje o mar está fantástico!
Patrícia pôs a mão sobre o bocal do fone e parafraseou:
— Stevie disse que há ondas incríveis. — E sugeriu, com vivacidade: —
Vamos nos encontrar com ele. Podemos surfar durante uma hora, antes de ir para o
trabalho. Que tal?
O olhar incerto de Ames não resistiu muito tempo ao seu entusiasmo
cativante.
— Claro — ele concordou, sorrindo. Levantou-se da cama e, ao se dirigir para
o banheiro, acrescentou: — Até que não é má idéia.
Patrícia sabia que estava sendo covarde. Ames tinha algo importante a lhe
dizer, mas ela não desejava escutar. O convite do amigo adiaria aquela conversa por
mais algumas horas... Agora só interessava desfrutar cada minuto de felicidade que
lhe restava.
— Combinado, Stevie — Patrícia informou ao rapaz. — Nos vemos no píer,
em quinze minutos.
Muitos dias se passaram, e o problema foi suspenso temporariamente. Como
Ames não tocasse mais no assunto, Patrícia nutriu uma leve esperança de que ele
jamais o faria. Os dois continuavam maravilhados um com o outro. E, quando
repousavam juntos depois do amor, ela achava difícil acreditar que algo pudesse
separá-los.
Ames e Patrícia aproveitavam seus momentos livres passeando no moderno
zoológico da cidade ou no parque de diversões. Às vezes, ela o convidava para
almoçar em seu apartamento e então preparava o prato preferido de Ames: macarrão
com molho branco. Nas noites de domingo, comiam pipoca enquanto viam um bom
filme na TV.
Em certa ocasião, foram assistir a uma competição de surfe. A praia de
Huntington achava-se como sempre repleta de lindas garotas de biquíni, mas Patrícia
ficou satisfeita em notar que ele só tinha olhos para os participantes da disputa.
Estava fascinado pelas ousadas acrobacias dos rapazes e não se cansava de elogiálos.
Os dois caminharam pela areia de braços dados, indicando os melhores,

tentando adivinhar quem seria o vencedor.
— Adoro isto! — ele exclamou em dado instante, ao mesmo tempo em que
apontava para o cenário a sua volta. — É simplesmente magnífico!
A declaração aqueceu o coração de Patrícia. Ames estava se referindo à sua
vida, a vida que ela conhecera desde menina. Se ele apreciava o mesmo que ela,
quem sabe não poderia amá-la também? Nem que fosse só um pouco. Era tudo o que
ela mais queria.
Patrícia apresentou-o a alguns surfistas, amigos seus. A maioria tinha em
média trinta anos de idade. Patrícia não conhecia os mais jovens, pois há muito
deixara de freqüentar aquela roda.
Entretanto, quando eles atravessavam a multidão para chegar perto da banca
julgadora, uma das maiores estrelas do surfe tocou o ombro de Ames. Era Sean
Gibbons, um homem com quem Patrícia nunca falara.
— Ames Mason! O que o trouxe a nossas praias? Por acaso a neve de Aspen
se derreteu?
Os dois se abraçaram, trocando brincadeiras, numa atitude típica de velhos
companheiros. Ficou claro para Patrícia que eles haviam esquiado juntos inúmeras
vezes. Loiro, alto e forte, Sean então convidou-os para tomar uma cerveja em sua
barraca e recordar com Ames mais um pouco do passado.
Patrícia impressionou-se ao ver que eles se davam tão bem. Gostou muito de
saber o quanto Ames era respeitado como esquiador. Mas, de repente, a conversa
tomou um rumo preocupante.
— Escute, Ames — Sean disse enchendo de novo seu copo. — Você devia
aprender a surfar. De verdade, entende? Tornar-se também um campeão e nos
acompanhar em nossa viagem.
Ames riu, seus dentes brancos contrastando com o bronzeado da pele.
— Não sou tão bom quanto você. Nunca serei — respondeu, com modéstia.
— Que bobagem! Um sujeito talentoso como você poderia entrar depressa
para o rol dos grandes. É só uma questão de tempo e dedicação.
Ames mostrou-se lisonjeado, porém manteve-se cético.
— Talvez eu já tenha passado um pouco da idade, Sean.
— Quem sabe? Esse esporte está sempre mudando e... Ei! Acho que há um
lugar para você na excursão preliminar que estamos organizando. — O rosto de
Sean iluminou-se. — Você nasceu para essa vida, amigo! Acredite em mim. — E
aproximou-se mais de Ames. — Preste atenção. Estou precisando de alguém para
gerenciar meus negócios. Que tal trabalhar comigo? Com a experiência que você

adquiriu nesse campo, vai ser fácil.
Patrícia sentiu um súbito mal-estar. Bastava olhar para Ames, que logo se via
o quanto ele ficara interessado.
Naquele instante, Patrícia rezou para que Sean não insistisse mais. Mas ele
não apenas reiterou a proposta como também ofereceu-lhe um vultoso salário. Ames
balançou a cabeça negativamente, embora fosse nítida sua vontade de aceitar.
Mais tarde, enquanto caminhavam outra vez sozinhos pela praia, Patrícia
indagou-se o que o levara a recusar uma oferta tentadora como aquela. Teria Ames
realmente se encontrado no dia-a-dia da fábrica? Amava tanto assim seu trabalho?
Ou será que renunciara a um futuro próspero e cheio de aventuras por causa dela?
Ames começou a assobiar uma canção havaiana, que devia ter aprendido
quando criança. Patrícia então lembrou-se do que ele lhe contara sobre sua infância:
as viagens constantes, uma emoção diferente a cada dia. Talvez Ames sentisse muita
falta disso...
Patrícia segurou com força em seu braço. E, quando Ames inclinou-se para
beijá-la, ela lhe sorveu os lábios de modo impetuoso.
— O que aconteceu? — Ames perguntou, curioso.
— Nada — ela murmurou, forçando um sorriso.
Na verdade, Patrícia queria dizer que o amava. Ames era a razão de sua vida.
Como desejava que os dois vivessem juntos para sempre! Mas essa confissão não
fazia parte das regras do jogo, e por isso ela continuou calada, olhando-o com falsa
alegria.
Ames deu-lhe outro beijo doce. Depois sugeriu que fossem embora.
— Sim, vamos — Patrícia assentiu prontamente. Não havia no mundo lugar
mais acolhedor do que sua casa...
Na manhã seguinte, Patrícia decidiu relaxar um pouco na banheira, antes de ir
para o trabalho. Tinha passado a noite sozinha, em seu apartamento, pensando no
que o futuro lhe reservava, e conseguira conciliar o sono apenas de madrugada.
Ainda dispunha de uma hora, tempo suficiente para se arrumar e concatenar
as idéias.
— Tem de dar certo — Patrícia disse a si mesma, enquanto a espuma morna e
perfumada penetrava em sua pele, diminuindo-lhe a tensão. — Ames deve ser aquele
tipo de homem que, cansado de sua vida desregrada, um dia resolve se assentar.
Casamento. Patrícia achava curioso que só agora essa palavra começasse a
soar bem em seus ouvidos. Ela lhe inspirava encantadoras imagens, como uma casa
cercada de flores, crianças correndo no gramado, viagens ao campo nos fins de

semana...
Por que se desgastara tanto com o casamento fracassado de seus pais, quando
na verdade deveria ter levado em conta a possibilidade de ela própria se casar?
Amava Ames loucamente! A todo instante lembrava-se de seu rosto másculo,
da voz grave que a seduzia, do corpo musculoso e protetor. Como poderia viver sem
o calor de seus beijos e carícias?
Patrícia apanhou a toalha, soltando um profundo suspiro.
— Eu sei que vai dar certo — repetiu, com novas esperanças. — Basta que eu
seja paciente. Mais cedo ou mais tarde Ames acabará percebendo que fomos feitos
um para o outro. — E enxugou-se devagar, ao sabor do prazer que a perspectiva lhe
dava.
Se ela tivesse se apressado para sair de casa, Shelley não a teria encontrado. A
irmã tocou a campainha no exato momento em que Patrícia se preparava para abrir a
porta.
— Eu sabia que ele causaria problemas! — Shelley desatou a falar antes
mesmo de haver entrado no apartamento. — Eu não te avisei? Lembra-se de quando
telefonei para você, dizendo que...
— Shelley! — Patrícia interrompeu, assustada. — Quer por favor se acalmar e
me explicar o que está acontecendo?
— Ele se demitiu. — Balançou a cabeça, olhando-a com um misto de ódio e
inconformismo.
— Quem? — Patrícia perguntou, embora quase pudesse adivinhar.
— O seu querido Ames Mason! Acho que não suportou receber ordens de
uma mulher. É um grande machista, isso sim! — E se sentou no sofá. — Fomos
tolas em confiar nele. Aquele sujeito nunca será capaz de assumir seriamente um
emprego.
— Por favor, Shelley. — Sentia-se mal, mas precisava ouvir os detalhes antes
de se deixar invadir pelas emoções. — Conte-me tudo desde o princípio.
A jovem cruzou os braços e então começou, com uma expressão dramática:
— Ames chegou à fábrica esta manhã às oito horas, como sempre; e mamãe o
chamou em seu escritório para dizer que discordava de alguma coisa... Não sei bem
do quê. Quando entrei na sala, ele estava dizendo: "Não adianta insistirmos mais,
Laura. Eu avisei que essa história de trabalharmos juntos seria perda de tempo. Eis a
prova. É melhor que eu vá embora agora mesmo".
— Ele desistiu — Patrícia murmurou, arrasada. — Meu Deus...

— É inacreditável! Depois de tudo o que mamãe fez por ele! Eu pensava que
Ames fosse mais leal. Até Stevie ficou chocado.
O mundo pareceu desabar diante de Patrícia. Ames não resistira aos apelos de
sua natureza. Tinha se cansado da rotina do trabalho muito antes do que ela
esperava! O sonho estava terminado.
— Sem ele, talvez mamãe não consiga manter os negócios no mesmo ritmo.
— Ainda lhe resta Bert — Patrícia comentou, despertando de seu angustiante
devaneio.
— Bert! — Shelley exclamou, com ironia. — Você o conhece. É cheio de boa
vontade, mas falta-lhe criatividade e também garra. Não, Ames tem sido o cérebro
da empresa. — Preocupada, acrescentou: — Espero que a Sol e Mar não se
prejudique demais com sua saída.
A atenção das duas foi então atraída por um vulto parado na porta, que
Patrícia se esquecera de fechar. Era Ames.
— Traidor! — Shelley acusou-o, levantando-se, furiosa.
— Calma. — Patrícia segurou-a pelo braço. — Vá agora, por favor. Quero
conversar a sós com ele.
Shelley atendeu ao pedido da irmã, mas somente depois de lançar outro olhar
rancoroso para Ames. Patrícia, porém, nada notou, pois o observava atentamente,
procurando em seu rosto sereno algum sinal que lhe reacendesse as esperanças.
— Você já sabe — ele disse.
— Sim, mas não consigo entender. — Patrícia fez um gesto nervoso com as
mãos.
Passando por ela, Ames caminhou até a janela, através da qual se via o mar
azul e espelhado.
— Eu já vinha meditando sobre isso há algum tempo, Pat — explicou, sem se
virar. — Esperava apenas uma oportunidade para lhe contar.
— Eu pensei que você estivesse feliz na fábrica. — Ela se aproximou. O
desejo de tocá-lo despertou no mesmo instante, mas ela lutou para se controlar.
Havia uma estranha atmosfera entre eles, que parecia não permitir o contato físico.
— E estava. Ou melhor, ainda estou. — Afinal encarou-a. — Meu trabalho é
ótimo. Ele me traz muita satisfação. O problema é... — Enquanto imaginava um
jeito de lhe falar, acercou-se mais de Patrícia, mas recuou imediatamente. — Sua
mãe e eu divergimos em certos pontos. Após várias negociações, consegui uma
chance de comercializar nossas pranchas na Flórida. Laura acha que ainda é cedo
para fecharmos grandes contratos. Ela prefere esperar. Quer primeiro firmar-se bem

neste mercado. — Com ar inconformado, completou: — Pena que Laura não tenha
um espírito arrojado!
— Você não pode voltar lá e discutir essa questão com ela? Decerto chegarão
a um acordo.
Ames moveu a cabeça, num gesto impaciente.
— Sua mãe é teimosa, não vai adiantar. E, depois, eu não mando na empresa.
Sou apenas um funcionário.
O argumento não convenceu Patrícia. Ela sabia que, se Ames quisesse manter
de verdade seu emprego na fábrica, não se deixaria desanimar por esse tipo de
problema. O fato era que ele não nascera para uma vida assentada. Mas, como fazêlo mudar?
— Eu tentei avisá-la para não esperar demais de mim — Ames continuou,
num tom áspero. — Sou o que sou, Pat. Não posso contrariar minha natureza.
— Você está fugindo — murmurou, amarga, embora soubesse que assim só
conseguiria irritá-lo ainda mais. Reconhecia que Ames tinha razão. Ninguém devia
ser forçado a se tornar outra pessoa. Ela própria jamais se modificaria. Sempre
almejara estabilidade, segurança. Ames queria apenas liberdade.
Ele riu com desdém e deu alguns passos até o centro da sala.
— Quais são seus planos? — Patrícia perguntou, sentindo-se desnorteada.
— Planos? — repetiu, como se nunca tivesse ouvido aquela palavra.
— Exatamente. — Desta vez era ela quem ficava mal-humorada. — Já que
desistiu de trabalhar com minha mãe, o que pretende fazer? Voltar para suas aulas de
esqui?
— Não sei. — Enfiou as mãos nos bolsos. — Talvez eu aceite a oferta de
Sean e o acompanhe na tal excursão. — De repente, olhou para ela e sorriu. — O
que acha da idéia, Pat? Você iria comigo? Não tem vontade de surfar em águas
australianas?
O coração de Patrícia foi invadido por um profundo pesar. Ela o amava tanto!
Queria gritar que sim. Que o seguiria a qualquer lugar, até o fim do mundo, se
necessário! E que, para estar a seu lado, não hesitaria em mudar de vida. Se esperara
isso de Ames, por que ela mesma não o faria?
Entretanto, agora que surgia o desafio, Patrícia descobriu o quanto era fraca
para aceitá-lo. Já tinha passado da idade e seus ideais estavam muito bem
sedimentados. Ela não poderia amoldar-se novamente, nem pelo amor de um
homem.
— Seja sincera — Ames aconselhou, notando-lhe o semblante atormentado.

— Não tente se enganar.
Mas Patrícia nunca se sentira tão indecisa. Se respondesse de modo
afirmativo, estaria contrariando seus próprios princípios. Se dissesse que não,
perderia Ames para sempre. Era uma prova terrível demais para ela suportar!
Ames observou-a durante alguns instantes, compreendendo o significado de
seu olhar. Então murmurou, com um triste sorriso:
— Acho que já sei qual é a resposta. — Chegou perto dela para tocar em seu
rosto. — Adeus, Pat. — E deu-lhe as costas, deixando-a sozinha no apartamento.
Patrícia passou o resto do dia em silenciosa agonia. Mas recusava-se a usar a
dor como um pretexto para faltar ao trabalho.
Ao entrar na loja, ela tratou Anne Marie rudemente. Depois isolou-se na sala
dos fundos, para não fazer o mesmo com os fregueses. Muitos documentos
precisavam ser arquivados, e Patrícia acreditava que, executando tal tarefa, manteria
sua mente livre de certos pensamentos. Mas isso era uma tola ilusão.
"Será que havia cometido um erro?", perguntou-se inúmeras vezes. Deixara o
homem que amava partir, sem ao menos lutar para que ele ficasse! Devia ser louca...
ou uma grande derrotista, para achar que não tinha a menor chance de prendê-lo a
seu lado.
Sempre que ela chegava a essa conclusão, ficava furiosa é batia as gavetas da
escrivaninha. Em dado momento, Anne Marie espiou pela porta para saber o que
estava acontecendo.
— Elas não fecham direito — Patrícia resmungou para a pobre funcionária.
— Cuide do seu trabalho e não se preocupe comigo!
A moca não hesitou em obedecer. Patrícia correu atrás dela para pedir-lhe
desculpas e então decidiu sair, espairecer um pouco.
Quando deu-se conta, já estava caminhando na praia. Esperava que o ruído e a
brisa do mar mitigassem seu ódio.
Primeiro, Patrícia se ressentia com Ames por tê-la desapontado e, em seguida,
voltava-se contra si mesma. Afinal de contas, já sabia como ele era antes de se
apaixonar. Se realmente desejasse um homem sério, estável, com certeza o teria
escolhido dentre os milhares que lhe apareciam à frente, todos os dias. Porém,
nenhum deles a cativara como Ames, com seu olhar penetrante e aquele sorriso
cheio de malícia...
De repente, Patrícia sentiu que precisava conversar com sua mãe. Nada se
igualava às reconfortantes palavras maternas! Sem pensar mais, ela voltou até o
carro e seguiu direto para a Sol e Mar.
A recepção estava deserta. Patrícia olhou ao redor, apreensiva. Ao que tudo

indicava, sua mãe e Bert já começavam a sentir os efeitos da saída de Ames.
Atravessou o corredor e desceu as escadas que levavam às oficinas. Não havia viva
alma aonde quer que fosse.
Porém, ao espiar por uma porta entreaberta, Patrícia viu uma sombra mover-se
entre as estantes.
— Mamãe? — chamou, entrando na sala. Bert surgiu de trás de uma delas,
sorridente.
— Olá, Pat. Laura saiu, mas não deve demorar. Sente-se e fique à vontade.
Ela hesitou. Bert sempre fora um grande amigo de sua família. Não havia
portanto razão alguma para tratá-lo com antipatia.
— Obrigada — Patrícia acomodou-se em uma cadeira perto da janela. —
Como vão os negócios?
— Bem. Estou feliz por ter voltado a trabalhar. Laura é uma mulher
excepcional. Não sei o que seria de mim sem sua ajuda. Ela me tirou daquela
horrível depressão, oferecendo-me esta oportunidade. Sou muito grato a ela!
A inegável afeição de Bert por sua mãe só podia deixá-la satisfeita. "Talvez
ela estivesse precisando justamente disso, após tantos anos de convivência com um
marido indiferente", Patrícia pensou. Como todo mundo, Laura merecia atenção e
estima. Que direito tinha a própria filha de lhe obstruir o acesso à felicidade?
Laura Becker logo regressou. Abraçando Patrícia, levou-a em seguida para o
andar superior.
— Que surpresa encontrá-la aqui, querida! — disse, ao chegarem ao
escritório. — Eu queria mesmo lhe falar. Há certas coisas que você deve saber.
Patrícia encarou a mãe com ar preocupado.
— Sei que lhe causei um grande choque separando-me de seu pai. E, depois,
minha relação com Bert... — Laura começou. Segurando-lhe a mão, então,
perguntou: — Você sabia que éramos namorados antes de eu conhecer seu pai?
Surpresa com o que acabara de ouvir, Patrícia apenas balançou a cabeça. A
mãe prosseguiu, visivelmente saudosa:
— Bons tempos aqueles! Bert e eu fazíamos parte de uma turma alegre e
muito unida. Passávamos o dia inteiro na praia, surfando. E, à noite, acendíamos
fogueiras enormes para assar batatas, enquanto conversávamos ao som de violão. —
Acrescentou, com um sorriso: — Nós íamos nos casar.
Patrícia continuava perplexa. Por que ela nunca lhe contara aquilo antes?
— A história de como seu pai apareceu, carregando uma longa prancha

embaixo do braço, você já conhece. Sério e compenetrado, ele não olhava para os
lados, mas apenas na direção do horizonte. E, quando entrava no mar para deslizar
sobre as ondas, ficávamos hipnotizados! Ninguém conseguia superá-lo!
— "O deus das águas" — a filha murmurou, referindo-se à manchete de um
jornal esportivo, que certa vez lera na infância.
— Na época, Bert era um rapaz inconstante, mudava a todo momento. Mas
Tom Becker, que diferença! Tinha uma personalidade inabalável. Pediu-me em
casamento, e eu... bem, optei pelo equilíbrio, pela segurança.
"Então, durante todos esses anos..." Patrícia estremeceu ao pensar nas
emoções ocultas por falsos sorrisos. Como ela fora ingênua, não percebendo o que
de fato se passava entre os dois! Tudo estava tão claro, agora! Uma união sem amor
não dura para sempre!
— Bert e eu nunca fizemos ou dissemos qualquer coisa que pudesse nos
comprometer enquanto estive casada com seu pai. Respeitei Tom até o dia em que
decidi deixá-lo. Patrícia nem cogitou em duvidar de sua palavra.
— Vocês pretendem se casar?
— Claro que sim! — O rosto de Laura iluminou-se, e Patrícia achou curioso
que a resposta não a machucasse, como seria de se esperar.
— Pat, eu gostaria de lhe dar um conselho. Siga o seu coração, querida. Não
tome nenhuma atitude sem antes consultá-lo.
Momentos depois, Patrícia partiu, ainda mais confusa do que quando chegara.
Quantas revelações haviam sido feitas! Ela precisava meditar e escolheu novamente
a praia como refúgio,
Caminhou pela areia durante quase duas horas, refletindo sobre tudo o que
Laura lhe contara. Então resolveu visitar o pai. Era fundamental que agora ela
ouvisse a sua versão dos fatos.
Como de costume, a simpática recepcionista de Tom Becker recebeu-a com
um sorriso. Ele se achava em seu escritório, sentado à mesa, lendo alguns papéis.
— Olá, doçura — Tom cumprimentou a filha, levantando-se para beijá-la.—
Qual é o problema, desta vez? — perguntou, bem-humorado.
Patrícia mostrou-se indecisa.
— Eu... Bem, Ames e eu...
— Ora, ora! — Ele deu uma risadinha. — Estava mesmo na hora de você se
interessar por alguém. Vão se casar?
Aborrecida, Patrícia retrucou:

— Não quero falar sobre o meu romance e sim sobre o seu.
— Mas não estou tendo nenhum romance — Tom retrucou surpreso.
Suspirando, ela sentou-se na cadeira a sua frente.
— Por favor, papai, converse comigo. Preciso saber a verdade.
Tom Becker olhou para Patrícia por um longo momento e então moveu a
cabeça afirmativamente.
— Meu casamento com sua mãe terminou.
A declaração, embora fosse esperada, quase fez Patrícia chorar. Ela conteve as
lágrimas com grande esforço. A fase das lamentações já tinha seus dias contados.
— Entendo...
— Quer dizer que não vai mais insistir para que nós reatemos?
— Exatamente, papai.
— Que alívio! — Tom brincou. — Seja como for, Laura voltou para os braços
de Bert. De onde ela nunca deveria ter saído, aliás.
— Imagino que isso magoe o senhor.
— Engana-se, Pat. Não me causa o menor dissabor. — Todavia, era evidente
que ele sentia um certo desconforto ao falar no assunto. — Sou um solitário por
natureza. Talvez nunca devesse ter me casado. Mas admito que fomos felizes
durante algum tempo. E ganhamos duas lindas filhas. — Sorriu-lhe de modo doce.
— Por esse motivo apenas, eu repetiria tudo.
"Teria mesmo valido a pena?" A incerteza consumia Patrícia.
— Afinal de contas, por que vocês se casaram?
— Eu amava sua mãe — Tom respondeu sem hesitar. — Não podia viver
longe dela. — Depois de uma pausa, em que notou-lhe a admiração, completou: —
Mas aos poucos nos desligamos um do outro. Nenhum de nós teve culpa, Pat.
Simplesmente aconteceu.
— Adoro você, papai. — Comovida, ela o abraçou.
— Também te adoro, querida. Você sabe.
Patrícia nunca havia duvidado.
Ao sair da fábrica, ela percebeu algo muito importante. A vida continuava. As
mudanças eram inevitáveis. Mas eram as pessoas que construíam a sua própria
felicidade. O futuro estava dentro delas. Cada qual tinha o direito de transformar o
seu como bem entendesse...

Tom Becker e Laura haviam conseguido resgatar o sentido de suas vidas. Por
que ela não poderia fazer o mesmo?

CAPÍTULO XI

Patrícia passou a noite toda em claro, só conseguindo pegar no sono pouco
antes da alvorada. Quando acordou, o sol já estava alto, mas uma névoa úmida
turvava a paisagem marinha que se via da janela. O outono havia chegado.
A manhã cinzenta combinava com seu estado de espírito. Ela encheu uma
xícara de café bem forte e foi se sentar no terraço, para admirar o espetáculo
plúmbeo da natureza.
Ao voltar para a sala, notou sobre a mesa a correspondência que tinha
recebido na véspera. Abrindo o envelope maior e colorido, encontrou uma fotografia
dela com Ames, tirada durante a regata, os dois se beijando apaixonadamente. Havia
ainda duas cópias e um recado anexo, que dizia: "Aos noivos, com votos de
felicidade eterna".
Patrícia tornou a examinar uma das fotos. Que belo casal!... Pareciam feitos
um para o outro. A magia estava em seus rostos. Ela fechou os olhos. Podia senti-la
agora, quase que com a mesma intensidade.
Deus, como o queria! Não suportava ficar longe de Ames. Todas as alegrias
que tivera ao longo dos anos pareciam tão ínfimas, agora! Sem Ames, nada fazia
sentido.
Uma grande revolta de repente se apossou de Patrícia. Por que entregar os
pontos daquela maneira? Se precisava de Ames para readquirir o gosto pela vida,
então deveria , aceitá-lo como ele era, um aventureiro nato. O que valia mais a pena:
estar ao lado de quem amava ou continuar sofrendo, sozinha?
Imbuída dessa certeza, que lhe renovava os ânimos, vestiu depressa um
conjunto de jeans e desceu até a garagem, onde seu carro estava guardado.
Minutos depois, chegando ao apartamento de Ames, Patrícia bateu várias
vezes na porta, tocando ao mesmo tempo a campainha. Mas foi em vão. Ele não se
achava em casa.
— Procura pelo Sr. Mason? — uma mulher que saía do elevador naquele

instante lhe perguntou. — Eu o vi caminhando para a praia, com uma prancha
debaixo do braço.
Patrícia agradeceu a informação e deixou depressa o edifício. Como será que
Ames a receberia? Nem podia imaginar. Por ora, interessava apenas saber se ela teria
a chance de voltar para junto do seu amor.

Ames olhou para um ponto do horizonte, onde a neblina havia se dissipado
momentaneamente. Um grupo de golfinhos surgiu na superfície do mar, seus dorsos
lisos e brilhantes refletindo a luz prateada do céu.
Os cabelos de Ames, assim como sua roupa de borracha, estavam cheios de
areia. Mas isto só lhe trazia satisfação, O que mais poderia querer além de sentar-se
na praia, com a prancha do lado, e sentir a espuma das ondas em seus pés? Pobres
eram aqueles homens de terno e gravata que passariam o dia inteiro trancados no
trabalho! Ele, sim, tinha sorte, pois dera um basta na vida entediante que levava.
Sem compromissos, nem chateações... Surfaria até se cansar e depois partiria para as
montanhas.
Ames sorriu ao pensar no quanto se divertia em Aspen. O desjejum reforçado
no chalé, a alegria de esquiar com os amigos e, à noite, os jantares regados a vinho,
na taberna de Glen. Patrícia adoraria conhecer o lugar...
A repentina lembrança tirou-lhe o sossego no mesmo instante. Ames precisava
esquecê-la para sempre! Patrícia fazia parte do passado. Aliás, como todas as
mulheres com quem ele já se envolvera.
Tentando desesperadamente afastá-la da memória, Ames procurou se
concentrar no que ainda devia ser feito antes da viagem. Primeiro, o apartamento.
Com certeza pagaria uma multa, pois ia rescindir o contrato de aluguel. Ele também
teria despesas com o transporte aéreo de seus objetos.
Será que sobraria dinheiro para comprar um carro novo?
Havia outro detalhe a considerar. A Sol e Mar precisava enviar o cheque ao
fornecedor de resinas, pela última entrega efetuada. A secretária de Ames tinha
guardado a fatura, mas não conseguira encontrá-la no dia anterior. Ele incluíra o
problema em sua lista de prioridades, porém acabara se demitindo. Decerto Laura
nem se daria conta do caso. Talvez fosse melhor ir até lá para checar...
Toda aquela preocupação com a empresa deixava-o perplexo. Estaria sentindo
falta de seu trabalho? A verdade era que sim. E, mais que tudo, de Patrícia...
A vida sem ela não tinha o mesmo sabor. Patrícia morava em seu coração.
Impossível tirá-la do pensamento! Ames sofria Com a idéia de nunca mais revê-la.
Que saudade tinha de seus beijos!

— Eu a amo tanto! — ele disse em voz alta. Um rapaz que ia passando olhouo, surpreso. — É isso. Eu amo aquela mulher — Ames repetiu. E ficou maravilhado
com a descoberta.
Ele poderia retomar os velhos hábitos, voltar para suas aventuras, mas jamais
seria feliz longe de Patrícia. Necessitava mais dela do que da própria liberdade!
Ames levantou-se, no calor da euforia. Por que não procurá-la para pedir uma
nova chance? Claro! E também trataria de conversar com Laura, propor logo sua
readmissão na companhia. Não fugiria mais, como Patrícia muito apropriadamente o
acusara de estar fazendo.
Sua atenção fixou-se nas imensas ondas. Ele então decidiu desafiá-las outra
vez, antes de se empenhar na luta pela conquista da felicidade, Sorrindo, pegou a
prancha e entrou no mar.
O edifício em que Ames residia ficava a poucos quarteirões da praia, mas o
percurso pareceu longo demais para Patrícia. Ela mal conseguia controlar sua
ansiedade. Não suportava esperar nem mais um minuto para revê-lo.
Ouviu uma sirene, e logo a ambulância passou por ela em alta velocidade. Era
a equipe médica que dava plantão no posto do salva vidas.
Subitamente Patricia teve um mau pressentimento. Quem viria à praia naquela
manhã cinzenta a não ser os surfistas? Suas mãos começaram a tremer, mas ela
seguiu em frente sem hesitar.
Parando o mais próximo possível da areia, saltou do carro e precipitou-se em
direção à multidão que havia se formado ali perto.
— O que aconteceu? — perguntou, já temendo o que iria ouvir. — Quem se
machucou?
Um jovem alto virou-se, com ar chocado.
— Um surfista. Eu não o conheço. Parece que foi atingido na cabeça pela
própria prancha. Estava desmaiado quando o tiraram da água.
Ames? Ele não tinha muita experiência no surfe... Deus, não!
— Será que ele está bem?
— Quem pode garantir? Um sujeito fez respiração artificial no pobre coitado,
e os médicos logo chegaram.
— Como ele era?
— Difícil dizer, pois estava todo molhado. Usava um colete preto de borracha.
Aquela é sua prancha.
Patrícia olhou para a pequena placa de isopor, pintada em cores luminosas.

Ames tinha uma exatamente igual a ela.
— Para onde o levaram? — Desesperada, ela agarrou o braço do rapaz.
— Hospital Central de Balboa, eu acho. — E gritou para Patrícia, que já
corria de volta ao carro: — Vou pedir para o salva-vidas guardar a prancha!
Ela nem sequer o escutou.
Enquanto dirigia no trânsito intenso, ultrapassando os veículos sempre que
encontrava uma chance, Patrícia ia rezando para que Ames nada tivesse sofrido. O
que faria se ele estivesse gravemente ferido?
Depois de estacionar junto ao pronto-socorro, ela atravessou depressa o
corredor que terminava na recepção.
— Estou procurando por Ames Mason — disse, ofegante.
— Onde posso encontrá-lo?
— Não temos nenhum paciente com esse nome — a funcionária informou,
checando o fichário mais uma vez.
— É um surfista. Acabaram de trazê-lo para cá. Ele se feriu com a prancha.
— Ah, sim. Levaram-no para aquele lado. Ei, você não pode... Senhorita!
Patrícia não lhe deu ouvidos e foi direto para a ala de emergência. Entrou em
um sala cheia de camas, separadas entre si por divisórias.
Passando por uma enfermeira, indagou:
— Ames Mason?
— Estou aqui — uma voz familiar respondeu, atrás de Patrícia.
Voltando-se bruscamente, ela o encontrou deitado e ainda vestido com o
colete de borracha, o cabelo desgrenhado pela água do mar. Seu semblante parecia
tranqüilo.
— Ames! — Patrícia o tocou, aliviada. — Como se sente?
— Ótimo. Não aconteceu nada comigo. Eu só ajudei um rapaz acidentado a
recobrar a consciência.
— Oh, Ames! — Abraçou-o, e então lágrimas começaram a brotar em seus
olhos. —: Senti tanto medo...
Ele segurou firme a mão de Patrícia.
— Você está bem mesmo, Ames? Não tem nenhum ferimento?
— Só em meu coração — murmurou, com um sorriso embaraçado.

Seu tom não deixava dúvidas. A emoção que Ames sentia em estar outra vez
com ela era verdadeira. Se fora ou não um conquistador inveterado, isso não
importava mais. Ele agora lhe pertencia.
— Querido... — Patrícia sussurrou, enternecida. — Vamos para casa.
No caminho para o apartamento de Ames, enquanto Patrícia dirigia, ele
contou como tudo havia acontecido. Depois de cair da prancha e levar uma pancada
na cabeça, o jovem desaparecera dentro da água.
— Mergulhei várias vezes até encontrá-lo. Então, agarrei-me a ele e o puxei,
com toda a minha força. Deu trabalho reanimar o pobre rapaz, mas felizmente
consegui. Ele já tinha voltado a respirar quando os médicos chegaram. Disseram que
vai ficar bom.
— Você o salvou.
— Qualquer um o faria, naquelas circunstâncias.
Mesmo assim, Ames continuava sendo um herói para Patrícia. Ela o ajudou a
descer do carro e, logo que os dois entraram no apartamento, foi até a cozinha para
lhe preparar um chá.
Após um rápido banho, Ames reapareceu na sala, de robe branco atoalhado.
Eles se sentaram lado a lado no sofá, cada qual com sua xícara. Tomaram a bebida
aos poucos, partilhando de um harmonioso silêncio. Não precisavam de palavras
para se comunicar, pois a alegria que sentiam lhes bastava.
— Como você descobriu onde eu estava? —ele perguntou, de repente.
— Sua vizinha me informou. Eu tinha vindo procurá-lo.
— Para quê?
— Eu queria lhe mostrar isto. — Patrícia tirou da bolsa. o envelope contendo
as fotografias. — Jerry Bates, o fotógrafo, mandou-as para mim. Achei que você
gostaria de ver.
Ames olhou as cópias demoradamente, e então pediu: — Posso ficar com
uma?
— Claro.
Ele caminhou até a estante. Removendo a foto de um dos porta-retratos,
introduziu aquela que Patrícia acabara de lhe dar.
— Pensei que não guardasse fotografias de suas ex-namoradas — ela
comentou.
— Você não é uma ex-namorada. — Voltou para junto de Patrícia e pôs o
braço em seus ombros. — É minha mulher. Só minha. — Depois de beijar-lhe os

lábios com ternura, suplicou: — Por favor, diga que me quer.
O coração de Patrícia parecia pequeno para abrigar toda aquela felicidade.
Extasiada, ela se apressou em responder:
— Desejo você mais do que tudo na vida, Ames! Eu morreria se não tornasse
a vê-lo!
— Tive tanta saudade, querida... — Acariciou seus cabelos, sorrindo,
satisfeito. — Não me rejeite mais, como fez aquele dia.
— Só se eu perder o juízo! — E o envolveu pela cintura de modo
intempestivo, como se Ames ameaçasse fugir.
Beijaram-se com um ímpeto avassalador, seus corpos ardendo de
sensualidade. Com mãos apressadas, Ames desabotoou-lhe a blusa e em seguida
empurrou Patrícia delicadamente, até que ela se deitasse no sofá.
— Pat, Pat... — murmurou, sorvendo o calor de seus seios firmes. — Você me
deixa louco.
Naquele momento, ela se sentiu a mais cobiçada de todas as mulheres. Os
carinhos de Ames abriam-lhe as portas de um universo onde a volúpia era o único e
incontestável guia.
Patrícia terminou de se despir, ajudada por ele. Depois, desamarrando o cinto
de seu robe, deleitou-se com a visão daquele físico forte e vibrante.
— Eu te amo — Ames sussurrou, deitando-se sobre ela.
Patrícia sorriu, e então ambos se entregaram ao eletrizante fascínio da paixão.
Quando a fúria do desejo foi enfim saciada, eles se abraçaram e assim
permaneceram durante algum tempo. As três palavras mágicas que Patrícia escutara
ainda há pouco ecoavam em seus ouvidos. Num impulso de lhe proporcionar a
mesma emoção, repetiu-as para Ames:
— Eu te amo.
Ele a encarou, sério:
— O suficiente para se casar comigo?
— Casar! — repetiu, surpresa com a pergunta.
— Sim. Não quero e nem posso me arriscar a perdê-la, Pat. Se isso acontecer,
a vida não terá mais o menor sentido para mim.
— Mas eu pensei que você jamais fosse...
— Ligar-me a uma só mulher? — completou, com um sorrisinho maroto. — De
fato, um playboy não costuma incluir o casamento em seus planos. Mas você me

fez mudar de idéia. — E deu-lhe um pequeno beijo na ponta do nariz. —
Lembra-se do dia em que me levou ao seu esconderijo secreto e descobriu um
condomínio sendo construído lá? Eu nunca tinha ouvido uma garota falar com
tanta honestidade sobre os próprios sentimentos! Acho que comecei a me
apaixonar por você naquele momento.
Lágrimas de nostalgia e felicidade surgiram nos olhos de Patrícia.
— Então todo aquele sofrimento valeu a pena, Ames. — Havia algo
importante que ela precisava lhe dizer: — Eu acreditava que nunca abdicaria dos
meus ideais por um amor. Porém, quando me dei conta de que viver sem você seria
muito pior, decidi abandonar tudo e...
— Você se sacrificaria por mim?
— Eu faria qualquer coisa para tê-lo ao meu lado.
Ele afagou-lhe os cabelos.
— Pat, querida. Sua renúncia não será necessária. Estou pensando em
conversar com Laura. Quero voltar para a Sol e Mar.
— Verdade? — A novidade deixou-a exultante.
— Sou capaz de qualquer coisa em prol da nossa felicidade.
— Até mesmo abandonar suas atividades de playboy! — ela brincou.
Ames suspirou, fingindo-se preocupado.
— Vai ser difícil, mas eu tentarei. — E logo se desmentiu: — Não será, não.
Agora que tenho você, posso dar a busca por encerrada.
— Duvido! — ela retrucou, bem-humorada.
Os dois riram com vontade. Então tornaram a se beijar, reavivando
rapidamente a chama do desejo.
— Ficaremos juntos para sempre — Ames prometeu, enquanto explorava
aquele corpo que exercia um impressionante magnetismo sobre ele.
— Sim. Para sempre.
Patrícia viu o rosto de Ames iluminado pelo amor e naquele instante todas as
suas incertezas se dissiparam, como a neblina ao receber o calor do sol.

EPÍLOGO

Patrícia olhou seu ventre volumoso e sussurrou, carinhosa, para o bebê que,
com movimentos bruscos, mostrava sua ansiedade de conhecer o mundo.
— Calma, meu bem. Espere mais um pouco. Pelo menos, até que a cerimônia
de casamento de vovó e Bert tenha terminado.
Parecendo atender-lhe o pedido, a criança se aquietou.
— Que amor de nenê! — ela elogiou. — Se você for comportado assim
depois de nascer, me deixará muito feliz!
— Conversando de novo com ele? — Ames entrou no quarto e aproximou-se
de Patrícia, que terminava a maquilagem naquele momento. —Dê lembranças
minhas a ele. — E tocou-lhe a barriga. Então sorriu, ao sentir o filho se mexendo. —
Esse garoto deve ter pernas bem compridas. Será um surfista, com certeza.
— Uma surfista — Patrícia o corrigiu, com humor.
Ames abaixou-se para encostar o ouvido no ventre da esposa.
— Como você sabe o que vai ser? —perguntou, intrigado.
— Eu não sei. Só estou dizendo isso para lembrá-lo de que as meninas
também são interessantes.
— Interessantíssimas! —— Ele a beijou no pescoço. — Aliás, o sexo
feminino é uma das coisas que mais me agradam.
Patrícia riu.
— Ajeite a gravata, querido. O presidente da Sol e Mar deve ir impecável ao
casamento dos fundadores da companhia, você não acha?
Ames mirou-se ao espelho e fez o que ela aconselhara.
Patrícia observou o marido com amor. Tudo estava correndo tão bem em sua
vida que era difícil acreditar. Será que ela merecia toda essa felicidade? De qualquer
modo, esperava que Deus a conservasse...
Bert e Laura iam se casar. Finalmente! Dois anos já haviam se passado desde
que a empresa fora criada.
— Por que eles não se decidem logo? — Ames vivia lhe indagando.
Patrícia não sabia o motivo e nem se atrevia a especular. Ames e ela tinham
planejado para si próprios uma cerimônia discreta, mas, por obra de sua mãe, quase

trezentos convidados haviam comparecido. Laura gostava de festas. A recepção de
hoje prometia ser bastante concorrida!
— Descanse um pouco, Pat. — Ames consultou o relógio. — Sairemos daqui
a meia hora. Vou aproveitar para dar alguns telefonemas. — Antes de fechar a porta,
acrescentou, brincalhão: — Cuide bem do Júnior, hein?
Ela deixou escapar um longo suspiro. Dezenas de recordações passaram em
sua mente naquele instante, trazendo-lhe um sorriso aos lábios.
E pensar que considerara Ames um eterno playboy... Quantas vezes o achara
irrequieto demais para se assentar na vida! Jamais imaginara que ele se tornaria um
excelente marido e pai.
— Como fui tola! — murmurou, sentando-se na bergère, que ficava junto à
janela.
Aquele velho Ames agora pertencia ao passado. Em seu lugar surgira um
homem inacreditavelmente caseiro.
Quando se lembrava de tudo o que havia acontecido nos últimos dois anos,
Patrícia ficava surpresa com o fato de já ter se passado tanto tempo...
No dia em que Ames fora pedir para Laura e Bert o readmitirem, ambos não
apenas o tinham recebido de braços abertos como também lhe haviam feito uma
maravilhosa proposta: assumir a indústria, enquanto eles estivessem realizando um
antigo sonho de viajar juntos pela Europa.
Ames nem hesitara em aceitar a oferta. Ao regressar, o casal encontrara os
negócios tão bem administrados que decidira entregar-lhe a presidência. Ele
assumiria o controle total da empresa, deixando a cargo de Laura e Bert
responsabilidades menores.
O arranjo tinha sido perfeito. Ames produzia pranchas disputadas no mercado.
A Sol e Mar era uma das companhias mais lucrativas da Costa Oeste. E Laura e Bert
exultavam de alegria, pois podiam viajar quando quisessem.
Até mesmo Tom Becker estava feliz. Ele havia transferido a fábrica para
Carmel, onde vivia como um ermitão," criando suas longas pranchas e ignorando o
resto do mundo.
Patrícia fechou os olhos e começou a sonhar com o futuro. O sol morno batia
em seu rosto através da vidraça, causando-lhe uma imensa paz. Ela acariciou a
barriga. Mal podia esperar para ter aquele pequenino ser em seus braços...
Ames reapareceu, trinta minutos depois, para chamá-la.
— Vamos, Pat? — Vestiu o paletó e depois ajudou-a a se levantar. Só então
notou-lhe o ar preocupado. — O que foi?

— Acho que poderemos ir ao casamento, mas... não tenho certeza quanto à
festa — ela respondeu, com voz enfraquecida.
— Meu Deus! — E colocou-lhe a mão no ventre, que se apresentava bastante
rígido.
Eles se entreolharam, maravilhados.
O sonho que Patrícia nutria a vida toda de formar uma sólida família seria
realizado, afinal. Ela respirou fundo e viu seu reflexo no espelho. Estaria pronta para
esse desafio?
Virando-se outra vez para Ames, que a apoiava pela cintura, Patrícia sentiu-se
confiante como nunca. Para que ter medo, se ele estava ao seu lado? Sempre
estaria...
— Eu te amo — murmurou, orgulhosa.
— Também te amo, querida. Você e essa criança que daqui a pouco virá ao
mundo. Vocês dois são a razão da minha existência.
Esta era a chave de tudo. Ainda bem que Patrícia a tinha encontrado.