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A Força da Sedução

Carolyn Andrews

A FORÇA

DA

SEDUÇÃO

Carolyn Andrews
O ÚLTIMO SOLTEIRO
0 delegado Mac Delaney não acreditava que tivesse perdido os companheiros de pôquer!
Todos os solteiros da cidade de Barclayvile estavam se rendendo às tentações do matrimônio.
Mas não Mac. Nunca Mac. Afinal, sendo o único representante da lei na cidade, não tinha tempo
para se apaixonar. Até conhecer aquela encantadora mulher!
Linda, sensual e provocante, Francesca Carmichael era a mulher perfeita para fazer do
último solteiro da cidade um cidadão de família. Mas será que Francesca era a pessoa certa para
seduzi-lo? Ela sabia que sim! Só precisava convencê-lo de que a vida a dois podia ser repleta de
paixão!

Digitalização: Néia
Revisão: Maria Inês

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Momentos Intimos 056

A Força da Sedução
Carolyn Andrews

CAROLYN ANDREWS diz que o que ela faz melhor na vida é escrever histórias
de amor. Isso porque, segundo ela, se inspira na própria vida. Ela e seu marido vivem
em eterna lua-de-mel. Claro que eles têm suas diferenças, mas com muito amor todas
elas são resolvidas.

Querida leitora,
Sua história de amor vale ouro! Você já está sabendo do nosso concurso?
Estarnos comemorando 20 anos de Romances Nova Cultural. E para comemorar,
estamos lançando um concurso. Veja o anuncio de como participar nas últimas páginas
deste livro.
Estou aguardando sua história de amor, porque ela vale ouro!
Janice Florido
Editora Executiva

Copyright © 1998 by Carolyn Hanlon
Originalmente publicado em 1998 pela Silhouette books, divisão da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá. Silhouette, Silhouette
Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera
coincidência.
Título original: The last bachelor
Tradução: Cláudia Riccetto Editor: Janice Florido Chefe de Arte: Ana Suely Dobón Paginador: Nair Fernandes da Silva
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10e andar CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil
Copyright p a r a a língua portuguesa: 1999 Editora N o v a C u l t u r a l Ltda.
Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

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A Força da Sedução
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CAPÍTULO UM
Frankie corria há muito tempo. No entanto, não alcançava o carro. Estava
escuro. As luzes traseiras dos automóveis a ajudavam a seguir o caminho. A chuva
caía, incessante, e isso não a incomodou até que a longa saia grudou em suas pernas.
Aflita, segurou-a nas mãos, procurando desvencilhar-se do incômodo.
O estrondo dos trovões não a assustavam. Foi só quando os carros pararam de
passar pela rua escura que o medo a dominou. Acelerou o passo e chegou a
escorregar ao desviar de uma grande poça d'água. Controlando o pânico, caiu sobre a
grama.
Mas levantou-se e continuou a correr. Mais uma vez, ficou aliviada ao ver os
faróis de um automóvel, mesmo distantes. O vento bateu-lhe no rosto, fazendo-a
recuperar as forças. Procurou acelerar ainda mais o ritmo. Precisava alcançar o carro.
Precisava impedir que levassem Suzana embora.
Não conseguiu impedir o choro compulsivo. Entre lágrimas, soluços e o som de
chuva, pôde ouvir o motor do automóvel distanciando-se.
Buscando ar, Francesca Carmichael sentou-se na cama. Tremia de frio. A
camiseta estava úmida. E o telefone... não estaria tocando? Depressa, procurou pelo
aparelho na mesa de cabeceira, mas tudo o que ouviu foi o som contínuo. Teriam sido
seus gritos que a tiraram do pesadelo?
Colocou o fone no gancho. Encolheu as pernas e abraçou-as. Em um minuto
estaria bem. Tudo o que tinha a fazer era respirar devagar. Com uma das mãos,
enxugou as lágrimas do rosto. Fazia quase um ano que não tinha aquele pesadelo.
Desde que saíra de Syracuse e mudara-se para Barclayvile. Por que tudo voltara
naquela noite?
Aos poucos, tomou consciência do cheiro de baunilha, do som do relógio e das
gotas de chuva. Tudo era real.
Abriu os olhos e forçou-se a concentrar-se em objetos que lhe eram familiares. A
brisa soprava nas cortina de organdi do quarto e a luz do luar se refletia no chão.
Levantou-se, foi até a janela e passou o dedo no vidro, que ainda tinha algumas gotas
de chuva.
Talvez o temporal tivesse provocado o pesadelo. Ou talvez ele tivesse sido
causado porque, na semana seguinte, o suicídio de Suzana Markham completaria um
ano.
Lembrou-se da promessa que fizera a si própria quando se envolveu com os
problemas de Benny Wilsom. Não a cumprira. Mas não havia outra escolha. Não com
Katie Delaney no caso.
Sorriu, enternecida, ao pensar na criança bonita, com traços irlandeses e uma
determinação sem igual. Mas o sorriso desapareceu ao relembrar o dia em que Benny
e Katie se ofereceram para limpar as folhas secas do jardim. Quando Benny tirou a

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camisa... Frankie ainda podia ver com clareza as marcas nas costas do menino e o
olhar de Katie, implorando para ajudá-lo.
Ela não tinha outra escolha.
Procurando afastar tais imagens do pensamento, Frankie forçou-se a lembrar a
tarde que passou com Benny em seu novo lar. Os primos, Jim e Nancy, adoraram tê-lo
em casa. Será que esse fora o fato causador do pesadelo? Ajudar Benny fez com que
seu subconsciente a torturasse com o fracasso do caso de Suzana? De repente,
Frankie estremeceu.
— Pare com isso — disse, afastando-se da janela e andando na direção do
guarda-roupa. Com anos de estudo no curso de especialização, aprendera que uma
psicanalista que tentava se auto-analisar devia se tratar o mais depressa possível.
Livrando-se da camiseta úmida, vestiu um blusão do time de basquete da
universidade de Syracuse. O grande S estampado na frente a fez pensar mais uma vez
em Katie Delaney. A pequena era fã do time e dedicada torcedora, mesmo quando ele
perdia.
"Aprenda uma lição com Katie", pensou enquanto descia a escada. "Pense
positivo. Você ajudou Benny Wilson e fez tudo o que foi possível por Suzana."
Se a mãe da menina a tivesse ouvido... Ou mesmo a polícia...
Tinha feito tudo para conscientizar a mãe de Suzana, assim como tentara
explicar a situação para a polícia, que na opinião de Frankie não merecia o título de
defensora da lei.
Deveria distrair-se e não reviver o passado. Pegou a correspondência e foi para
a cozinha. Precisava de uma xícara de café e de uma noite tranqüila. Um catálogo que
recebeu oferecia uma maravilhosa visita ao mundo da fantasia. Leu o encarte e concentrou-se em uma lista de roupas. Compraria por telefone algo para substituir os
jeans, blusões e camisetas que usava desde que se mudara para Barclayvile. Algo que
agradasse até sua mãe. Voltar a dormir estava fora de questão. Sabia, por expe riências
anteriores, que o pesadelo sempre voltava.
Estava entrando na cozinha quando viu a luz da secretária eletrônica piscando.
Então o telefone havia mesmo tocado! Não fora um sonho. Quando ia apertar o botão,
para ouvir a mensagem, hesitou. Seu número não estava na lista e nenhum dos
diretores da estação ligaria àquela hora da noite. O pai nunca telefonava, a não ser no
Natal. Só podia então ser a mãe, dra. Cecília Carmichael, famosa bióloga que só se
lembrava da filha quando queria dar sermões.
Após um suspiro resignado, Frankie pressionou o botão. No mesmo instante, um
sussurro rouco invadiu a sala.
— Vá embora antes que outra criança desapareça. Vá embora imediatamente!
Ela ficou paralisada, olhando para o telefone e sentindo medo. Não poderia estar
acontecendo de novo. Não tinha recebido nenhum telefonema ou ameaça desde que
chegara a Barclayvile. Como a encontraram? Tomara tanto cuidado... Nem mesmo
Benny ou os primos, os Wilson, sabiam quem ela era de verdade. Por quase um ano,

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Frankie conseguiu viver em paz, construindo uma nova vida. Não poderia estar acontecendo tudo de novo!
Atordoada, passou pela bancada que separava a sala da cozinha e acendeu
todas as luzes. Decidiu fazer café. Não, não deixaria que tudo se repetisse.
Da outra vez, fugira. Mas agora não cometeria o mesmo erro, nem chamaria a
polícia. Não obtivera ajuda em Syracuse. Pesquisaram seu passado e resolveram
condená-la.
Construiu uma nova vida em Barclayvile e não deixaria que ninguém lhe tirasse o
que conseguira.
— Tess, não precisa entrar em pânico.
Mac Delaney segurou com menos força o fone e tentou seguir seu próprio
conselho. A sobrinha, Katie, tinha fugido. Estava desaparecida havia horas.
Desaparecida, não. Tinha discutido com a mãe e saído de casa com a bicicleta. Um
temperamento explosivo era parte da herança Delaney. Assim que se acalmasse,
voltaria para casa. Mac respirou fundo e devagar. Passara muitos anos procurando
pessoas desaparecidas no departamento de polícia de Nova York. Tinha que brecar sua
imaginação.
— Acho que eu deveria fazer algo — disse Tess. — Talvez, se eu fosse até a
delegacia...
— Não. Katie estará de volta a qualquer momento. Não quer que ela encontre a
casa vazia, quer?
— Claro que não. Lembra-se de mais alguém a quem eu possa ligar?
Esfregando a testa com uma das mãos, Mac ouvia a irmã repetir a lista de
conhecidos com quem entrara em contato, procurando alguma informação.
Preocupado, andava de um lado para outro no corredor que levava às duas únicas
celas da delegacia.
De volta à sua sala, olhou para o baralho que deixara preparado e para a garrafa
térmica cheia de café. Tinha comprado até alguns salgadinhos. Todo o esforço foi em
vão, porque os parceiros habituais dos jogos de terça-feira à noite tinham cancelado o
programa.
Mas Mac não reclamou. Durante o jogo, Grant não perderia a chance de dizer
que ele seria o próximo a entrar na igreja de Barclayvile e ajoelhar-se diante do altar.
Era necessário muito mais que um amigos casamenteiros e traidores para que
isso acontecesse. Mesmo evitando a hipótese de casamento, ele se lembrou mais uma
vez da mulher com vestido branco e cabelos negros que vira na mansão Barclay. Nas
duas últimas semanas, surpreendeu-se várias vezes pensando nela. E sonhando com
ela. Um dos sonhos foi tão real que...
Mac não se recordava de ter tido tantas fantasias com outra mulher. Tinha até
dado um apelido à desconhecida. Não, ela não era dele e nunca seria.
Voltou a olhar para o baralho. Não acreditava em encantos ou feitiços para unir
pessoas no matrimônio. E o mais importante de tudo, não acreditava em casamentos.

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Sentou-se na cadeira giratória e encostou-se. Virando-se para a janela, ficou
olhando a rua. O casamento fazia o homem criar raízes e ele decidira que não tomaria
parte nisso desde a noite em que saíra da fazenda Delaney e se afastara de todas
aquelas mentiras.
Não ficaria na cidade por muito tempo. Até mesmo o trabalho de delegado era
temporário. Talvez já estivesse na hora de novas mudanças. Estava cansado da vida
monótona de delegado de uma pequena cidade onde nada acontecia.
O livro que iria começar ainda estava sobre a mesa. Passou os dedos pela capa,
que tinha estampada uma gota de sangue pingando de uma faca de prata. Mac não
conseguiu evitar um sorriso. Fora Katie quem o escolhera, para que ele tivesse o que
fazer nas noites de plantão. Dividia com a sobrinha o amor por livros. Lembrava-se bem
de como ela costumava ficar horas sentada, fitando-o, ouvindo histórias.
Seu sorriso desapareceu. Katie tinha fugido de casa e ele não fazia idéia de
onde ela poderia estar. Sentiu um nó na garganta.
— Mac, o que você acha?
— De quê? — Mac voltou a atenção para a irmã, que continuava do outro lado
da linha.
— De ligar para Martha Bickle?
Ele achou graça. Martha Bickle era uma das maiores fofoqueiras da cidade.
— E sempre mais eficiente que qualquer anúncio no jornal — comentou ele.
— Tive outra idéia que pode lhe parecer meio maluca... Talvez ela tenha ido
visitar o pai. Pode estar em um trem ou em um ônibus, indo para Nova York.
Era uma possibilidade em que Mac já havia pensado quando Tess contou-lhe os
detalhes da discussão. Katie descobrira a verdade sobre o pai: que ele estava vivo, não
morto. E que a mãe havia mentido.
Dez anos de experiência trabalhando no departamento de pessoas
desaparecidas ensinaram Mac a importância de tentar imaginar o que se passa na
cabeça do fugitivo. Nesse caso, era fácil. Ele sabia exatamente o que Katie sentia.
Tinha quase dezoito anos quando soube que o homem que chamara de pai
durante toda a vida era na verdade seu tio. Podia se lembrar da raiva que sentiu, da
desilusão que lhe cortou o coração, porque as mentiras foram ditas por pessoas que
amava.
Uma vez superada a raiva e o ressentimento, Mac ficou muito curioso a respeito
do pai verdadeiro, mesmo sabendo que ele havia morrido anos atrás.
O pai de Katie estava vivo. Se estivesse no lugar da sobrinha, seu primeiro
impulso seria visitar o pai.
— Entrei em contato com um amigo meu, colega da polícia, o detetive Logan
Campbell. Ele me ajudou em alguns casos e está vigiando a casa de Thorne. Enviei
também, por fax, uma foto de Katie, para que outros investigadores procurem por ela
nas estações rodoviárias e ferroviárias.

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— Então não acha que é loucura minha? — indagou Tess. Sorrindo, Mac
encostou-se na cadeira.
— Acho-a meia destrambelhada desde que éramos crianças.
— Estou falando sério!
— Acho que nós dois nos preocupamos demais. Katie está brava e magoada.
Porém, é uma garota esperta e a ama. Assim que se acalmar, voltará para casa.
— Vou tentar convencer-me disso. Já conseguiu descobrir algo sobre a tal dra.
Frankie? Katie tinha tanta certeza de que ela a compreenderia... Talvez tenha entrado
em contato com a terapeuta.
— Estou fazendo o possível — respondeu Mac, olhando para o arquivo que
começara a pesquisar quando Tess o informou do sumiço da filha. A última coisa que
queria era que a irmã soubesse de tudo sobre a famosa psicanalista que tinha um
programa de rádio. — Estou esperando uma ligação a qualquer momento.
— Não deixe de me informar assim que tiver novidades.
— Katie já estará em casa quando o relatório chegar. Mac ergueu as
sobrancelhas ao desligar o telefone. Estava muito preocupado. Durante os anos em
que passara procurando pessoas desaparecidas, os casos com crianças sempre o
abalaram mais.
Levantou-se, andou pela sala e foi até o quadro de avisos, perto da máquina de
café. Três retratos estavam colocados no mesmo lugar desde que ele chegara a
Barclayvile, três anos antes.
As fotos mostravam crianças desaparecidas. Jannie Coulter, uma jovem de
dezoito anos que sumira de uma loja de conveniência nos arredores da cidade. Casey
Matheus, um menino de três anos que foi visto pela última vez em um parque. Lisa Ann
Walters, de dez anos, que andava de bicicleta em uma rua do subúrbio e nunca chegou
a seu destino.
Foi na última foto que o olhar de Mac se concentrou por mais tempo. O rosto de
Katie parecia estar ali. Katie Delaney, onze anos, um metro e quarenta de altura,
cabelos avermelhados, encaracolados, e olhos verdes.
Não. Forçou o olhar na direção da cafeteira. Encheu uma caneca e tomou alguns
goles. Estava exagerando de novo. Precisava manter-se calmo, objetivo. Katie tinha
discutido com a mãe. Não se tornaria mais uma criança desaparecida no estado de
Nova York. Não a sobrinha, para quem lera histórias e a quem ajudara a dar os
primeiros passos.
Via as imagens passando com nitidez em sua mente. As bochechas
arredondadas, cabelos cacheados, uma criança linda que ele jamais esqueceria.
Mas a preocupação o fez voltar à realidade. Não conseguia imaginar a sobrinha
em um ônibus, sozinha. E o fato de a menina ter procurado a dra. Frankie também o
incomodava.
Voltando para a mesa, pegou as fichas sobre a dra. Francesca Carmichael. A
última frase de Katie, antes de sair de Casa, tinha sido:

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— A dra. Frankie teria me compreendido!
Se ela tivesse algum envolvimento com o sumiço da menina, teria que se
explicar.
Apesar de nunca ter ouvido o programa "Pergunte à dra. Frankie", ele sabia que
todas as crianças entre oito e dezoito anos do Estado já o tinham feito. O rapaz da
estação de rádio explicou que a audiência era alta. E deu uma breve biografia da
terapeuta.
Era considerada boa profissional. Filha de dois biólogos conceituados,
Francesca Carmichael se especializou na área infantil aos vinte e seis anos e passou
um ano trabalhando na Clínica Summerhaven, um centro de tratamento para crianças
com traumas que ficava em uma das cidades perto de Kinger Lakes. Após a demissão
da clínica, ela começou a apresentar o programa de rádio, dando conselhos aos jovens
duas vezes por semana e, depois, todos os dias.
O que o rapaz da rádio esquecera-se de mencionar era que Francesca tinha a
ficha suja. Fora a polícia federal que enviara a informação. Tinham relatórios desde a
época em que ela fora presa, havia mais de um ano, por ter seqüestrado Suzana
Markham, uma menina de onze anos.
Mac reviu mais uma vez as anotações que fizera durante a conversa com o
oficial que prendera a dra. Frankie. Sua opinião sobre a psicanalista infantil não era das
melhores. Mais de uma vez vira aqueles "especialistas" deporem e fazer com que
crianças voltassem para lares violentos, ou com que fossem levadas para outros
lugares, que não podiam ser considerados ideais.
O fracasso do sistema legal em ajudar as crianças foi um dos motivos pelos
quais Mac deixou o departamento de polícia de Nova York. Por que procurar crianças e
adolescentes que fugiam de lares problemáticos para depois fazê-las voltar para o
pesadelo de onde tentaram escapar?
A polícia de Syracuse não tinha uma opinião muito favorável sobre a dra.
Carmichael. Suzana Markham fora paciente dela, em Summerhaven. Pouco tempo
após ter sido deixada sob os cuidados dos pais, a menina fugiu, para encontrar-se com
a dra. Frankie. A boa psicóloga mentiu várias vezes para a polícia e tentou esconder a
garota em seu apartamento por mais de uma semana.
A acusação de seqüestro foi retirada assim que os pais ganharam a custódia da
menina. Porém, a história não terminou ali Menos de um mês mais tarde, Suzana
Markhan cometeu suicídio.
Mac estava preocupado com as informações. Colocou os papéis sobre a mesa e
ficou pensativo. Afinal, acreditava que quando psicanalistas e psicólogos começavam a
mexer com a cabeça de uma criança, conseguiam às vezes fazer tanto mal quanto
bem. E se a dra. Frankie tivesse feito algo que prejudicasse Katie?
Foi nesse momento que o aparelho de fax começou a funcionar. A polícia de
Syracuse tinha prometido encontrar o atual endereço da médica.
Mac ficou apreensivo no instante que viu a folha de papel. O telefone era
daquela região, e a rua ficava a menos de dois quilômetros dali, na estrada que dividia

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Masons Corners de Barclayvile. Olhou para o mapa pendurado na parede atrás da
escrivaninha. Katie não demoraria mais do que meia hora para ir até lá de bicicleta.
Enquanto Mac continuava a olhar para o mapa, tentou decifrar as emoções que
o dominavam. Ciúme? Raiva, por Katie ter procurado alguém estranho? Relutante,
deixou os sentimentos de lado. Não havia lugar para essas reações no trabalho de um
policial.
A menina devia ter ido falar com a médica. Ele tinha de se dar por satisfeito. Era
provável que a sobrinha estivesse lá, o que devia deixá-lo aliviado. Então, por que não
se sentia assim?
Se Katie a tivesse visitado, a dra. Frankie teria ligado para Tess, avisando onde a
filha estava. Mas talvez ela tivesse como hábito manter as crianças longe dos pais.
Uma segunda folha do aparelho de fax. Levando-a até sua mesa, ele se viu
frente a frente com a foto de Francesca Carmichael. Era a mesma mulher que
encontrara na festa de casamento de Jack Hathaway.
Ela não parecia com uma seqüestradora de crianças nem mesmo uma
psicanalista suspeita.
Mais uma vez, Mac a observou. Mesmo naquela reprodução fotográfica de baixa
qualidade, os olhos da doutora eram fascinantes.
De repente, ele percebeu que queria ver Francesca Carmichael mais uma vez. E
não só porque havia a possibilidade de encontrar a sobrinha. Queria descobrir se eram
apenas fruto de sua imaginação os efeitos causados pelo encontro na porta da mansão
Barclay. Era como se ele tivesse sido atingido por um raio e aquilo não poderia
acontecer de novo.
De forma alguma! Não se deixaria enganar nem ser apanhado em uma
armadilha. Tinha negócios a tratar com a dra. Francesca Carmichael. Com sorte,
conseguiria resolver dois problemas de uma só vez. Encontraria a sobrinha e
descobriria por que a terapeuta o intrigara tanto.
Pegou as chaves de cima da mesa e saiu da delegacia. Se a boa samaritana
decidira manter Katie afastada da família, iria surpreendê-la.
Forte. Foi a primeira impressão de Frankie ao ver um homem alto descer da
picape estacionada em frente à sua casa. A lua cheia iluminava o gramado.
O segundo pensamento foi o desejo de saber quem ele era. A pessoa que
deixara o recado na secretária eletrônica? Seu instinto dizia que não. O visitante
demonstrava muita confiança. Não se esconderia atrás de um telefonema anônimo.
Ele usava a jaqueta jeans aberta, deixando aparecer a camiseta branca e o cinto
com fivela prateada. A calça jeans era um pouco justa e as botas eram de couro
marrom. Devia ser um cowboy. Só estava faltando o chapéu.
Quando ele chegou perto do portão, Frankie o reconheceu. Era o homem que
encontrara na festa de casamento. O mesmo que...
Naquelas duas semanas após o encontro, não conseguira diagnosticar o que lhe
acontecia. Talvez a culpa fosse do olhar do estranho. Era tão intenso que por um

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momento ela acreditara que sua alma tinha sido vista. O fato podia explicar por que se
sentira quase nocauteada. Mesmo ali, vendo-o a poucos metros de distância, teve uma
estranha sensação. Era como se ele a tocasse com o olhar. Ridículo, disse a si mesma,
voltando a atenção para as batidas à porta.
Não se moveu. Precisava respirar primeiro e acalmar-se. De repente, lembrou-se
da outra razão que a fizera fugir da festa de casamento. Ele era o delegado. Desde que
se mudara para Barclayvile, fizera questão de manter-se no anonimato. Fora para a
festa apenas por causa da insistência de Jim e Nancy Wilson. Queriam que visse
quanto Benny estava feliz. E ela decidiu ir embora assim que foi possível. Se alguém
soubesse que a dra. Frankie era na verdade Francesca Carmichael, a mulher que fora
presa sob a acusação de ter seqüestrado Suzana Markham e de ser a responsável por
seu suicídio, ela perderia o programa de rádio. Que pais permitiriam que seus filhos
seguissem os conselhos de uma pessoa como ela?
A última coisa de que precisava era de um delegado investigando seu passado.
Ele bateu mais uma vez à porta. O som era seco e determinado. O homem não
iria embora. E por que o faria? Em vez de esconder-se quando o carro chegou, ela
permanecera em pé atrás da fina cortina de voal, como uma adolescente.
— Dra. Carmichael?
A voz tinha um tom amigável. E ele sabia seu nome verdadeiro. Frankie
aproximou-se, mas não colocou a mão na maçaneta.
— Sim?
— Sou Mac Delaney, o delegado de Barclayvile. Nós nos encontramos, ou
melhor, tentei me apresentar a você no casamento de Jack Hathaway. Sinto incomodála tão tarde. É sobre minha sobrinha, Katie.
— Katie?
Sem tirar a tranca, ela abriu um pouco a porta.
Mac viu pela abertura de poucos centímetros a mesma mulher de traços
delicados com quem sonhava ultimamente. Porém, dessa vez, ela estava com os
cabelos soltos.
Usava moletom e um perfume com agradável aroma de flores. Mac não
conseguiu evitar a imagem de tê-la nos braços em uma noite fria, acariciando-a na
frente de uma lareira.
O que estava acontecendo com ele? Precisava afastar tais pensamentos. Em
outras circunstâncias poderia até arriscar uma aventura, mas estava ali a trabalho.
Precisava encontrar Katie. E a suspeita de que a dra. Frankie poderia ajudá-lo ficou
ainda mais forte ao vê-la junto à janela, como se esperasse alguém no meio da noite.
— Katie está aí? — indagou Mac.
— Não.

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— Tem certeza? Ela tem onze anos, aproximadamente um metro e quarenta e
cabelos ruivos encaracolados. Discutiu coma mãe por volta das seis horas e saiu de
bicicleta.
Enquanto falava, ele analisava a terapeuta com mais objetividade. A
preocupação crescente nos olhos dela parecia verdadeira. No entanto, ainda não tinha
tirado a tranca da porta. E mentira para a polícia de Syracuse por quase uma semana.
Mac não poderia saber se a sobrinha estava lá dentro se continuasse do lado de
fora. Colocando a mão no bolso, decidiu uma nova abordagem. Sorriu.
— Aqui está minha identidade. Sou mesmo o tio de Katie. Posso entrar por
alguns minutos?
Frankie olhou rapidamente para o documento com capa de couro que ele
segurava. A foto não fazia justiça aos olhos nem ao sorriso charmoso, mas o distintivo
era verdadeiro. Ao tirar a tranca, ela deu um passo para trás.
Todas as luzes estavam acesas, da cozinha até a sala de estar. A cafeteira
estava quase cheia sobre o balcão que dividia os dois ambientes.
— Está esperando alguém? — perguntou ele, seguindo-a até a cozinha.
— Não. É que tive um pesadelo e acordei. Se tentasse dormir, tenho certeza de
que ele voltaria. Aceita um pouco de café?
— Sim.
— Por que veio procurar Katie aqui? — indagou Frankie enquanto enchia a
caneca.
— Ela está desaparecida desde as seis horas.
— Desaparecida? — O olhar dela desviou-se para a luz ver melha da secretária
eletrônica. Sem conseguir evitar, derrubou café sobre o balcão. Pegou uma toalha de
papel e limpou a sujeira. — Não pode ser. Ainda é muito cedo para ela ser considerada
uma pessoa desaparecida, não é?
— Tem razão. A polícia do Estado não classificaria o caso antes de quarenta e
oito horas. Mas, como tio, tenho um ponto de vista diferente.
— Talvez ela esteja na casa de alguma amiga.
— Gostaria que fosse verdade, mas minha irmã, Tess, ligou para todo mundo.
Conhecendo Barclayvile, todos já sabem do ocorrido e mesmo assim ainda não tivemos
notícias de Katie, — Mac encarava Frankie e percebeu algo no olhar dela, algo que
podia jurar ser medo.
— Talvez Katie queira ficar sozinha por algum tempo, para colocar os
pensamentos em ordem. Não existe um lugar onde ela costuma refugiar?
Mac sorriu e colocou a caneca sobre o balcão.
— Sabe, tive a mesma idéia. E é por isso que estou aqui. Frankie franziu a testa.
— Mas eu já lhe disse que Katie não está, e não a vejo ou falo com ela há uma
semana.

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— Você é boa, doutora. Em outras circunstâncias, eu agradeceria e iria embora.
Mas acho que deve ter sido muito convincente também quando disse à polícia de
Syracuse que não sabia onde Suzana Markham estava.
Frankie não disse uma só palavra e não moveu um músculo. Mas o olhar de
repente ficou triste, e Mac percebeu. Ela fora surpreendida e estava sem defesas. Com
um repentino desconforto, ele olhou pela sala. Tudo estava limpo e arrumado, nada fora
do lugar. Nada indicava que Katie houvesse estado ali.
Olhou para a lareira. Era toda feita de pedras, assim como a parede do fundo.
No sofá cinza havia almofadas vermelhas que combinavam com os laços que prendiam
as cortinas.
Vermelho não era uma cor que o atraísse, mas o contraste com o tecido cinza e
as pedras da parede tornavam a decoração agradável e de bom gosto. Surpreso, ele
percebeu que, se acaso se sentasse no sofá, ficaria mais à vontade:
Devagar, voltou o olhar para Francesca Carmichael. Era evidente que o sofá
fazia parte dos truques de qualquer bom psicanalista.
Frankie aproximou-se e só parou quando estava frente a frente com Mac
Delaney. Por um ano vivera em paz, no anonimato, sem ter que responder a perguntas
sobre Suzana Markham. Mas não tinha medo de enfrentá-las. Não deixaria que
ninguém a intimidasse.
— Compreendo por que veio até aqui. Suspeita que eu esteja ajudando Katie a
se esconder. Porém, está seguindo o caminho errado. Suzana Markham não tem nada
a ver com sua sobrinha.
— Ambas se relacionavam com você. E as duas desapareceram.
— Não!
No momento em que Frankie notou como sua voz estava alta, procurou recobrar
o controle. Ainda conseguia ouvir a mensagem deixada na secretária eletrônica. 'Vá
embora, antes que outra criança desapareça." Será que devia contar tudo a Mac
Delaney? Analisou-lhe a expressão por alguns segundos. Se rodasse a mensagem, ele
não acreditaria. Além do mais, aquela história não tinha relação alguma com Katie.
Segundo Mac, a menina saíra de bicicleta muito antes daquele telefonema. Frankie
respirou fundo e disse devagar, procurando convencê-lo:
— Suzana não estava desaparecida. Ela fugiu da casa dos pais e foi me pedir
ajuda. Eu...
— Você a escondeu em sua casa e mentiu para a polícia.
— Era uma situação diferente — explicou ela, erguendo o queixo. — Suzana era
minha paciente. Katie não é.
— Katie disse à mãe que você a compreenderia. E essas foram suas últimas
palavras antes de sair de casa. Isso indica que de alguma forma ela confiava em você.
— Mas não era minha paciente. Não cliniquei mais desde que Suzana... — Os
olhos de Frankie ficaram mais apertados. — E não pretendo voltar a trabalhar em
consultório.

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Mac ficou em silêncio por algum tempo. Por um lado, queria acreditar no que
ouvia. Mas ela mentira uma vez. Frankie deixou escapar um suspiro de frustração.
— Sei que não consegue deixar de pensar como policial. No entanto, peço que
agora seja só o tio de Katie. Não sei onde ela se encontra. Você está perdendo tempo.
Devia procurá-la em outro lugar.
Mac olhou-a com atenção.
— Você não sabe mesmo onde ela está, não é?
— Não. Eu nem mesmo estava em casa no final da tarde. Quando foi que ela
pegou a bicicleta e saiu? As seis? — Quando Mac assentiu com um gesto de cabeça,
ela continuou: — Saí um pouco antes, para jantar com Benny Wilson e sua nova
família. Pode checar com eles. E só voltei às nove. Katie sabia do meu compromisso.
Mac franziu a testa.
— Vocês são assim tão íntimas?
— Não. Katie é amiga de Benny. Foi por isso que a conheci. Ela o ajuda a
entregar o jornal Barclayvile Ranner todas as terças-feiras. Passam aqui por último e
acabam tomando suco ou refrigerante.
— Hoje é terça? Ela ajudou Benny?
Frankie balançou a cabeça.
— Não foi necessário. Katie sabia que eu iria jantar com ele e que o levaria para
casa.
— Sinto muito se fui um pouco rude. Eu esperava que ela estivesse aqui.
— Eu também sinto muito. — Frankie teve vontade de tocá-lo, confortá-lo. Mas,
em vez disso, foi sentar-se no sofá. — Sobre o que Katie discutiu com a mãe?
— Sobre o pai. Frankie ficou confusa.
— Eu achei... que o pai dela havia morrido.
— Katie lhe falou sobre ele?
— Não. Foi algo que ela disse a Benny certa vez que me fez pensar nisso.
Comentou o fato de os dois não terem pais. Talvez eu tenha entendido mal.
Mac observou-a com atenção ao vê-la sentada, com as pernas cruzadas. Não
parecia uma pessoa que escondia crianças fugitivas. Havia calma e sinceridade nela, e
isso o convidava a deixar a desconfiança de lado.
Mas Mac não se deixou convencer. Como policial, conhecia bem a técnica. Ficou
quieto e a deixou ir em frente com a história. Era difícil, para ele, encarar o fato de que
tinha algo em comum com uma psicanalista. E ainda mais complicado confessar que só
queria conversar com Frankie.
Talvez a preocupação dela com Katie fosse verdadeira. Ou talvez ele precisasse
dividir sua aflição com mais alguém, além de Tess. Qualquer que fosse a razão, Mac
viu-se dando um passo à frente.

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Momentos Intimos 056

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— Você não compreendeu mal. O problema é que o pai está vivo e Katie, não sei
como, descobriu isso. — Aproximando-se ainda mais, Mac começou a contar tudo o
que acontecera naquela tarde. — Tess disse que Katie estava furiosa com a mentira,
com a oportunidade que lhe foi negada de conviver com o pai durante todos esses
anos. Tinha até o endereço dele em Nova York. Foi nesse momento que Tess perdeu o
controle. Sempre escondera o fato da filha, evitando que conhecesse o pai, Dexter
Thorne. Um homem sem caráter. Tess o conheceu quanto tinha dezoito anos, assim
que foi para Nova York fazer a faculdade de artes plásticas. É escultora, e das boas.
Dexter tinha muitos contatos e conhecia bem o meio. Prometeu organizar uma
exposição em uma galeria. E ela se apaixonou. Uma estupidez, não acha?
— Não. Quando achamos que estamos apaixonados, agimos como se
usássemos uma venda nos olhos.
Mac a fitou e por um instante percebeu algo no olhar de Frankie. Não era só
compreensão, mas dor. Foi quando percebeu estar sentado ao lado dela no sofá.
— O que aconteceu a Tess? — perguntou, curiosa.
— Acho que ela descobriu quem era Thorne quando ele lhe entregou o cheque
para o aborto. Minha irmã recusou e a situação ficou pior. Dexter chegou a ameaçar
arruinar-lhe a carreira. Era rico o bastante, e influente, para fazer isso. Mas não foi por
esse motivo que Tess não disse a verdade e manteve o segredo por todos esses anos.
Ele deixou muito claro que não queria nem conhecer a criança, e minha irmã não quis
que Katie vivesse tal rejeição.
— É compreensível.
— Sim, mas posso entender o ponto de vista de Katie também. Descobrir que
tudo em que acreditava ser verdade era mentira...
Frankie o estudou por um momento. As emoções eram fortes. Sentia medo e
simpatia ao mesmo tempo. E alguma coisa mais. Algo dizia que o fato de ele estar ali
não envolvia apenas a tentativa de localizar a sobrinha. E foi o instinto que a fez tomarlhe as mãos.
Ambos estremeceram. A reação de Frankie foi aparente e mostrou tanta
vulnerabilidade que Mac sentiu o corpo responder ao estímulo. Os joelhos estavam se
tocando. Apesar de saber que seria um erro, olhou-a nos olhos. Neles não viu calma e
sim a promessa de uma paixão devastadora.
A pele alva e delicada o atraía. Tinha vontade de tocá-la. E os lábios bem
delineados a apenas alguns centímetros...
Mac devia afastar tais pensamentos. Fora até ali só para procurar por Katie.
Devagar, puxou a mão, levantou-se e andou até a lareira. Aquela mulher fazia
com que revivesse emoções há muito enterradas. Por isso, pensava em tê-la nos
braços. Desde que a conhecera. Um certo desprezo por si mesmo tomou conta de Mac,
que voltou a se preocupar com a sobrinha.
— Katie nunca lhe falou nada disso?
— Não... bem, não exatamente.

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Com as mãos cruzadas, Frankie tentou coordenar os pensamentos. Naquele
instante, só conseguia perceber a presença de Mac Delaney e o desejo de tocá-lo.
Queria ser beijada, sentir os braços fortes a seu redor e um corpo pressionando o outro.
O simples fato de tocar um homem nunca a deixara tão perturbada. Continuava com
desejo de senti-lo. Olhou para baixo e focalizou as próprias mãos. Se ele não se
afastasse...
— O que quer dizer com "não exatamente'? — perguntou Mac.
Relutante, Frankie concentrou-se no assunto.
— Uma vez Katie ligou para a rádio. Não se identificou, mas reconheci a voz.
— E mencionou o pai?
— Não. Disse que alguém em quem confiava mentira e queria saber o que fazer.
— E o que disse a ela? Frankie encarou Mac.
— Disse que, se amava mesmo essa pessoa, devia dar-lhe a chance de se
explicar.
Mac sentiu-se culpado. Conseguia ouvir Tess repetindo a mesma frase quinze
anos antes. Ele estava no quarto, arrumando a mala. Ele e o pai... Não, ele e o tio, Tom
Delaney, tinham discutido porque Mac queria deixar a fazenda e ir para a faculdade.
— Os Delaney devem ficar juntos às suas terras! — gritara o tio.
E, no auge da discussão, Mac soube a verdade sobre o pai. Era o irmão mais
novo de Tom, e morrera pouco antes de o filho nascer. Tess implorou para que ele
ficasse, e que não saísse dali com raiva. Porém, Mac a ignorou e partiu sem falar com a
mãe e com o... tio.
De olhos fechados, ele virou o rosto para a lareira. Sabia exatamente o que Katie
estava sentindo. Ele não tinha seguido o conselho de ninguém. Não quisera
explicações. Só desejou fugir. Mas tinha dezoito anos, e não onze. Sabia que os
perigos para uma criança eram muito maiores.
Forçou-se a abrir os olhos e viu uma caneta fina, dourada, sobre o aparador.
Havia dado a peça a Katie menos de um mês atrás, no dia do aniversário da sobrinha.
Pegou-a e virou-se para Frankie. Estava cometendo o pior erro que um policial poderia
cometer. Deixara que as emoções interferissem no caso. E parte do problema era a
mulher sentada no sofá.
Uma mulher encantadora, mas que um dia mentira.
— Esta caneta é de Katie.
Frankie concordou com um gesto de cabeça.
— Ela deixou aqui na semana passada.
— Incomoda-se se eu der uma olhadela na casa?
Mac encontrava-se no meio da escada quando Frankie repetiu:
— Katie não está aqui.

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A menina não estava no cômodo em que ele entrou, um escritório muito bem
decorado. Havia um computador conectado a um aparelho de fax, um armário e uma
confortável poltrona, colocada na frente da janela que dava para o quintal. O closet
estava cheio de caixas, todas muito bem-arrumadas.
O segundo cômodo também se encontrava em ordem, exceto pela roupa de
cama. Ela dissera que não conseguira dormir, mencionara um pesadelo. Embaixo da
cama, Mac encontrou um par de chinelos que mais pareciam bichos de pelúcia. Do
lado, havia uma cadeira de balanço branca. Na cabeceira ficava o telefone, um pote de
chocolate e uma vela com cheiro de baunilha.
Em cima da cômoda não havia nada além de um vidro de perfume. O aroma o
fez lembrar-se de Frankie. No closet, sentiu o mesmo cheiro. Ignorando os próprios
pensamentos, mexeu nas roupas penduradas com cuidado. Nada de Katie. Estava
quase na porta quando viu uma maçaneta atrás da cadeira de balanço. Foi até lá e
abriu uma pequena porta, mas o lugar estava vazio.
— Eu não disse? — desafiou Frankie quando Mac desceu a escada.
Sem falar nada, o policial foi até a porta dos fundos e a abriu. Se Katie estivesse
lá quando ele chegara, teria tido tempo suficiente para sair pela janela do escritório. No
momento em que alcançou o portão do quintal, viu a bicicleta de Katie encostada no
muro. Virou o rosto e encontrou Frankie bem atrás.
— Você mentiu. Ela estava aqui — afirmou ele, segurando a pelos ombros. —
Diga-me onde minha sobrinha esta agora.
— Eu não sei.
Mac podia jurar que Frankie dizia a verdade. Ficara surpresa, e até mais pálida
que ele, ao ver a bicicleta. Hesitou por um instante antes de tirar as algemas do bolso e
prendê-las no punho de Frankie. Porém, a dúvida o fez ficar ainda mais furioso.
— Você tem o direito de permanecer em silêncio e chamar um advogado —
informou, guiando-a até a porta.
Junto à saída, ela desvencilhou-se das mãos de Mac e virou-se para encará-lo.
— Por que está me prendendo?
— Suspeita de ter seqüestrado minha sobrinha — declarou ele, sério,
conduzindo-a para fora da casa e levando-a até o carro.
CAPÍTULO DOIS
Frankie recostou-se na parede de cimento e olhou ao redor, através das barras
de ferro. A cadeia era pequena mas bem-equipada. No fim da sala ficavam os arquivos
e, ao lado deles, uma mesa com a cafeteira e o aparelho de fax. O baralho e vários
pacotes de salgadinhos não lhe passaram despercebidos.

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Acima da mesa, um quadro de avisos cheio de fotos e notas. A escrivaninha era
antiga e não muito conservada, mas estava limpa, só com um livro, um telefone e um
velho computador sobre o tampo. E, à frente, encontrava-se o delegado.
Frankie tentou ignorá-lo. Percebeu que a cama da cela era estreita. Porém,
parecia confortável. Se não tivesse a certeza de que o pesadelo voltaria, teria se
deitado e tentado dormir até o dia clarear, para chamar o advogado.
Apesar de todo o esforço em contrário, olhou mais uma vez para Mac. Ele não
dissera uma palavra desde que a colocara na cela. E, na última meia hora, parecia
ocupado, colocando um tipo de pó na bicicleta de Katie e procurando por impressões
digitais.
Devagar, Frankie se aproximou das barras que a separavam do resto da sala.
Viu-o mexer na bicicleta como se tivesse toda a noite para se dedicar a isso. Observou
as mãos grandes, fortes. Podia até vê-las segurando uma espada com a mesma
desenvoltura com que seriam capazes de tocar piano. Graciosas e másculas, moviam o
pincel com exatidão, primeiro no lado direito do guidão e depois no esquerdo. Não era
difícil imaginar aqueles dedos tocando gentilmente o corpo de uma mulher... Frankie
sentiu um frio na espinha e se arrepiou. Surpresa com a própria reação, arregalou os
olhos. O que estava acontecendo com ela? O fato de ter ficado abalada ao ver Mac
descer da caminhonete já era preocupante. Agora, trancada na cadeia, parecia não ter
nada melhor a fazer do que fantasiar e imaginar-se sendo tocada por ele...
"Tome jeito!", pensou, furiosa consigo mesma.
Virou-se e encostou-se nas barras. Deveria estar pensando na própria situação,
não em Mac Delaney. Estava presa mais uma vez, acusada de ter seqüestrado uma
garota. A história se repetia.
Tudo o que fizera naquele ano, desistir de atender seus pacientes, mudar-se
para uma comunidade rural, limitar-se a lidar com crianças através de um programa de
rádio, tinha sido em vão. De nada adiantara.
Poderia alegar não estar pessoalmente ligada a Katie, mas a bicicleta da menina
tinha sido encontrada no seu quintal. Isso significava que a garota havia estado lá,
decerto procurando por ajuda, e não a encontrara.
Mac percebeu quando Frankie parou de fitá-lo e virou-se. A sensação de
desconforto cessou, mas os nervos permaneciam à flor da pele. Encostando com
cuidado a bicicleta na parede, pensou que nenhuma outra mulher o atraíra tanto.
Havia algo muito especial em Francesca Carmichael. Tinha que tomar cuidado
com esse tipo de armadilha.
Fora rude demais ao colocar-lhe as algemas e levá-la para a cadeia. Esse não
era seu estilo habitual. Sentiu-se mal pela forma como agiu. Ela parecia tão solitária e
indefesa, ali... Talvez estivesse livre se ele não se tivesse deixado dominar pela raiva ao
encontrar a bicicleta de Katie no portão dos fundos.
Por outro lado, não podia sentir-se culpado. Não quando havia evidências de que
aquela mulher mentia. Afinal, as impressões digitais haviam sido retiradas da bicicleta.
Um trabalho de profissional.

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Emoções não podiam ter lugar no trabalho policial. Deveria lembrar-se disso se
quisesse ter Katie de volta, sã e salva, ou se pretendesse fazer com que a dra.
Francesca Carmichael relaxasse e confiasse nele.
Aproximou-se da cela.
— Onde está Katie, doutora?
Frankie virou-se para encará-lo.
— Eu não sei.
— Não encontrei nenhuma impressão digital na bicicleta. Alguém teve o cuidado
de retirá-las.
— Não toquei nela e não sei como foi parar no meu quintal — afirmou ela,
colocando as mãos na grade. — Quanto mais demorar a acreditar em mim, mais tempo
levará para descobrir onde Katie está.
Mais uma vez ela atingira o âmago da questão. Era uma mulher brilhante.
— Sabe, doutora, uma parte de mim quer acreditar em você, mas outra parte
suspeita que, se fosse para ajudar Katie, mentiria sem pestanejar. — Sorriu. — Não
estou certo?
Por um momento, Frankie o estudou sem nada dizer. Ele tinha o sorriso mais
encantador que já vira. Segurava-lhe uma mecha de cabelo e a desafiava. Ela chegou
mais perto.
— E agora, delegado? Está tentando fazer com que eu admita algo que me
incrimine? Pode me manter aqui por quanto tempo quiser, mas acho que deve
investigar outras possibilidades.
— Relaxe, doutora. Já tomei as devidas providências.
— Mesmo? — Os olhos de Frankie ficaram um pouco mais apertados. — E
melhor que nada de importante passe despercebido.
Ele riu.
— Mais alguma coisa, minha senhora?
— Não estou brincando. Você comentou que Katie disse à mãe saber onde o pai
mora. Já entrou em contato com ele?
— Está tudo sob controle — afirmou Mac. — Você não é minha única suspeita. É
só a única que está na minha delegacia.
— Esta cela é o fim da linha.
— Talvez sim. Foi o que pensei enquanto procurava as impressões digitais. E
sempre que eu chego ao final da linha, em uma investigação, sabe o que tento fazer?
— Vou me odiar por perguntar, mas o quê?
— Encontrar outra saída. Você não é exatamente o que eu esperava, e cheguei
a achar que talvez tivesse uma boa razão para mentir para a polícia, no caso de
Suzana Markham. Talvez a garota não devesse ter sido enviada para a casa dos pais.

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Trabalhei no departamento de pessoas desaparecidas da polícia de Nova York e
tenho alguma experiência com crianças que não conseguem viver bem com os pais.
Bem, agora você se encontra em um dilema semelhante. Pode estar mentindo sobre
Katie porque a quer proteger da família. Mas pensa assim porque não conhece Tess
nem a mim. — Deu um leve sorriso. — Sem mencionar, claro, a má impressão que teve
esta noite. Gostaria de mudar seu ponto de vista.
— Deixe-me adivinhar... Fazer o papel do policial durão não deu certo, e então
agora decidiu bancar o bom samaritano. Acertei?
— Não exatamente — declarou, olhando para o relógio. — Acho que ainda
temos umas quatro ou cinco horas até que possa chamar seu advogado. Muito tempo
para poder me conhecer melhor.
— E tenho certeza de que tem uma sugestão para que possamos fazer isso.
O sorriso de Mac ficou mais largo.
— Há uma cama ali. — Diante da expressão de Frankie, ergueu as mãos. —
Não é nada do que está pensando, dra. Francesca. Só estou sugerindo que finjamos
ser a cama um divã. Vou deitar-me ali. Pode perguntar o que quiser.
Frankie encarou-o, incrédula.
— Está esquecendo de que eu não atendo mais nenhum paciente? É uma pena,
porque seria um belo desafio, delegado. Entretanto, tenho outra alternativa. Vamos
jogar pôquer.
— Pôquer?
Frankie ficou muito satisfeita ao ver a expressão confusa de Mac. Sorriu com
doçura.
— Tive um professor na faculdade, um psiquiatra, que acreditava que a forma
mais rápida de se conhecer uma pessoa era jogar com ela — informou, apontando para
a mesa. — Não pude deixar de reparar que você tem tudo de que precisamos. Que tal?
— Quer jogar pôquer comigo? — perguntou Mac.
— A não ser que esteja com medo de jogar com uma mulher...
Algumas horas mais tarde, Mac reconheceu que o professor de Frankie tinha
certa razão. A verdade era que conseguira conhecer um pouco aquela mulher. Em
primeiro lugar, soube que ela gostava de comer lanches e petiscos. E era boa jogadora,
e se divertia com o pôquer. Não parecia preocupada em vencer, mas era parte da
estratégia. Após três horas, continuava ganhando.
Tudo naquela mulher o intrigava. Por que o surpreendia o fato de ela ser uma
astuta observadora da natureza humana? Era parte do trabalho de uma psicanalista,
não era? Embaralhando as cartas, recostou-se na cadeira. E percebeu olheiras escuras
no rosto de Frankie.
Não era para menos. O sol estava começando a raiar. O relógio marcava sete
horas. Precisava voltar à perseguição. Colocou o baralho na mesa e perguntou:

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— E então? O que descobriu sobre mim? Apoiando os cotovelos na mesa,
Frankie encarou-o.
— Você gosta de vencer. Não só por causa do dinheiro, mas por estar
interessado em seu oponente. É cauteloso ao apostar. Arriscaria tudo que tem, mas
prefere ter certeza de que as chances estão a seu favor. Eu diria que sua precaução é
de grande utilidade no trabalho com a lei. Com certeza é corajoso e sabe exercer sua
autoridade. Não tem medo de enfrentar o perigo, mas antes chama reforço e checa se
o revolver está carregado. — E, colocando a mão no estômago, continuou: — E não
gosta tanto de salgadinhos como eu. Deixou que eu comesse quase tudo.
— Bem, agora que nos conhecemos um pouco melhor, por que não me fala a
respeito de Suzana Markhan?
O primeiro impulso de Frankie foi levantar-se e virar-se. Sair correndo. Precisou
de esforço para sentar-se ereta enquanto analisava o oponente. Viu nos olhos do
delegado a mesma determinação e confiança que costuma notar nos de Katie. Mac
Delaney não desistia facilmente.
Juntando as mãos sobre a mesa, começou a contar a história.
— Suzana Markhan era uma das minhas pacientes na clínica Summerhaven. Ela
e a irmã mais velha sofreram um acidente automobilístico, e Suzana sobreviveu.
Summerhaven foi o terceiro lugar para onde os pais a mandaram. O pai era um
empresário bem-sucedido para quem a maior parte dos problemas podem ser
resolvidos com dinheiro. A mãe... bem, era uma dessas mulheres que, ao se casar com
um homem rico, tentam se definir como mães em tempo integral. Ambos estavam
desesperados. Queriam que a vida voltasse à normalidade. A mãe queria a filha como
era antes do acidente e o pai, a rotina que tinha no passado. Isso significava que
Suzana precisava ser a mesma menina de antes da morte da irmã.
— É muita carga sobre os ombros de uma criança — comentou Mac.
— Exatamente. As outras clínicas para onde Suzana havia sido mandada
usavam medicamentos como parte da terapia. Mas, para os Markhan, a filha não
estava "normal" o bastante com remédios. E concordei com eles nesse ponto. Foi então
que a enviaram para Summerhaven. Retirei os remédios e estávamos começando a
fazer progressos. Quando os pais foram visitá-la e viram um pouco da Suzana que
tanto queriam, em vez da criança apática que haviam deixado lá, insistiram em levá-la
para casa. Avisei que ela ainda não estava pronta para nos deixar, tentei de todas as
formas convencê-los, Suzana implorou para ficar, mas não me deram ouvidos. Fui falar
com o dr. Stanton, o administrador da clínica, e pedi-lhe que interviesse. Ele me ouviu e
achei que o tinha convencido.
— E o convenceu?
— Não. Naquela mesma noite, eu estava trabalhando em meu consultório
quando ouvi barulho do carro. Fui até a janela e vi James, isto é, o dr. Stanton, levando
Suzana para os pais.
— E o que aconteceu? — perguntou ele, aproximando-se e segurando-a pelos
ombros.

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— Eles a levaram embora.
— Não. O que aconteceu agora? O que viu pela janela, uma vez que olhava
fixamente para a rua?
— As luzes do carro se afastando da clínica. Ainda sonho com aquela noite...
Corro atrás de Suzana mas nunca consigo alcançá-la.
— Tem pesadelos? Com qual freqüência? — perguntou Mac.
— Agora melhorou. Achei que tinham parado. Eu... falhei com Suzana.
— Não. — As mãos de Mac a seguraram mais forte. — Para mim, foram os pais
que falharam. E o tal Stanton. O que o fez agir daquele forma? A promessa de novas
obras na clínica?
Frankie suspirou.
— Algo parecido. Eu devia ter desconfiado.
— Não foi culpa sua.
— Ainda não contei tudo. Mais tarde, quando Suzana fugiu de casa e foi me
pedir ajuda, falhei mais uma vez. Tinha pedido demissão da clínica e sabia que não
podia hospedá-la em meu apartamento para sempre. Então, voltei a Summerhaven e
pedi ajuda a James. Achei que daquela vez ele conversaria com os Markhan e os
convenceria a deixar a filha na clínica. Era evidente que ela precisava de ajuda.
— E Stanton traiu-a pela segunda vez — concluiu Mac.
— Chamou a polícia, para que eu fosse presa antes de ligar para os Markhan e
contar onde Suzana estava. Tinha medo de ficar a meu lado. Se eu não tivesse sido tão
inocente e confiado nele...
— Como poderia saber? Não conseguiria detê-lo.
— Você não compreende. Achei estar apaixonada por James, e esse sentimento
me deixou cega. Se eu tivesse sido mais objetiva...
Mac ficou perplexo com o que sentiu. Raiva? Desejo de protegê-la? Ciúme?
— Mesmo assim, não seria capaz de evitar que os pais destruíssem a filha,
assim como não conseguiria parar o carro, se o tivesse alcançado. Não pode salvar
todo mundo, doutora. Se não foi objetiva o bastante na época, então seja objetiva
agora. Fez o melhor que pôde e não falhou com a garota. Foram eles.
Frankie já repetira essa mesma frase milhares de vezes, mas ouvi-la de Mac
Delaney e ver-lhe o olhar compreensivo... De repente, achou que devia recuar. Estavam
muito próximos. Sentia a pressão dos dedos fortes, que irradiavam calor por todo o seu
corpo. Mas ficou curiosa para saber o que aconteceria se chegasse ainda mais perto.
Decidiu então não se mexer. Os lábios tentadores, entreabertos, sopravam um ar
quente que lhe provocavam arrepios.
"Ela não me deteria se eu a beijasse", pensou Mac.Era o que ele queria. Porém,
não gostava de agir por impulso. Preferia agir devagar, com cautela. Mesmo assim, a
idéia de beijá-la era tentadora.Concentrou-se nos lábios de Frankie, que pareciam

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macios. Pôde imaginar o gosto e a sensação de tê-los junto aos seus. Tinha vontade de
abraçá-la, explorar cada centímetro daquele corpo. A força do desejo era enorme, mas
ele se conteve. Não se moveu.
Foi só depois da terceira chamada do telefone que Mac soltou Frankie e foi até a
mesa, para atender à chamada.
— Delaney — disse. — Logan? Encontrou algo? Sim, compreendo. Mas ainda
tem alguém vigiando o escritório de Thorne? E na rodoviária e na estação ferroviária?
Não, aqui não há novidades. Sim, eu sei. Ela pode aparecer a qualquer momento. Tem
o número do meu celular, caso eu não esteja na delegacia? Certo. Até mais.
Mac Delaney olhou para o telefone, desanimado. Frankie se aproximou.
— Ela ainda vai aparecer. Se estava planejando ir ao escritório do pai, deve
saber que só pode ir após às nove horas, quando tudo abre.
— Sim, é claro.
— Mas essa não é sua opinião, certo?
— Como minha sobrinha pôde pegar um ônibus ou um trem se deixou a bicicleta
na sua casa? E por que teria retirado as impressões digitais?
— Eu não...
— Acredito em você — interrompeu ele. — O problema é descobrir quem foi e
por quê. — Após suspirar, passou as mãos no rosto. — Acho que precisamos de um
tempo. — Mac saiu de trás da mesa e riu ao ver que Frankie recuara. — Relaxe,
doutora. Eu só ia sugerir um bom café da manhã. A menos que só coma salgadinhos e
lanches rápidos. — Do lado de fora, veio o som de um carro estacionando. O sorriso de
Mac ficou ainda mais largo ao olhar pela janela. — Foi só falar que o café da manhã
chegou!
Uma senhora de idade, com cabelos curtos e grisalhos, vestindo um conjunto de
saia e blusa bege, entrou. Foi até a mesa de Mac, onde colocou uma grande cesta de
vime.
— Eu estava indo para a fazenda. Martha Brickle passou a noite inteira
espalhando a notícia sobre Katie. Assim que soubemos, George achou que você
precisaria de comida. Foi bom tê-los visto pela janela. — Ao virar-se, parou, surpresa,
olhando para Frankie. — Você não é Tess.
— Esta é a dra. Francesca Carmichael — apresentou Mac.
— Doutora, esta é Ada Mae Snyder. O marido dela é o dono do restaurante
George's.
— A senhora é a dra. Frankie? — Diante da confirmação, Ada Mae pegou-lhe as
mãos. — Sei que não gosta que os outros saibam disso. Jim e Nancy Wilson me
disseram, caso contrário eu teria ido falar com você no casamento de Hathaway. Fez
um ótimo trabalho com Benny Wilson. Gostamos de resolver nossos problemas aqui
mesmo, mas nenhum de nós percebeu o que estava acontecendo. Deveríamos ter
prestado mais atenção, mas o problema passou-nos despercebido. Somos todos muito
gratos.

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— Katie sabia — disse Frankie. — Foi ela que me contou. Ada Mae concordou
com um gesto de cabeça.
— Eu sempre a achei muito esperta. Foi muito bom ter vindo até aqui, para
ajudar o delegado a encontrá-la. — Por um momento nem Frankie nem Mac disseram
uma só palavra. Diante do silêncio, Ada Mae os provocou com o olhar e disse:
— Você está, ou não, aqui para ajudar?
Mac sentiu-se como se estivesse na quinta série, quando Ada era sua
professora.
— A doutora não veio por vontade própria. Eu a prendi. Ada Mae fez uma
expressão de reprovação.
— Achei que você fosse bem mais esperto, Mac. Vai soltá-la ou terei que
contratar um bom advogado para tirá-la de trás das grades?
Mac levantou as duas mãos, num gesto de rendição.
— Eu a soltei. Ela está livre para ir embora.
— Ainda bem que ainda tem um pouco de juízo, e seria muito mais esperto se a
contratasse para ajudá-lo. Pelo que vi, a dra. Frankie estava fazendo o seu trabalho
quando tirou Benny Wilson da casa daquele tio. Merle Tucker é que deveria estar na
cadeia, não a doutora.
— Espere um pouco! — Mac olhou para Ada Mae e depois para Frankie. —
Talvez uma de vocês queira me explicar por quê eu deveria prender Merle Tucker...
— Porque ele costumava bater muito em Benny — explicou a antiga professora.
— Sempre que bebia um pouco além do normal. Eu devia ter percebido que ele não
prestava, quando a mãe de Benny morreu e Merly decidiu se mudar para a casa do
sobrinho. A história que ele contou no funeral era mentirosa. Disse que a irmã lhe pedira
que cuidasse de Benny. Ah! A única pessoa com quem Merle se preocupou durante toda
a vida foi com ele mesmo. Morar com Benny deu-lhe a chance de tomar conta da
fazenda da irmã e obrigar o sobrinho a trabalhar. Mac virou-se para Frankie.
— Ela está falando a verdade? Merle bate em Benny?
— Não mais — disse Frankie.
— Vou até lá agora mesmo.
— Não é preciso — interrompeu Ada Mae. — A dra. Frankie tomou conta de
tudo. Não sei de todos os detalhes, mas o sr. Garrison disse que, graças à dra. Frankie,
Benny agora vive com os primos, Jim e Nancy Wilson. E estão tentando tirar Merle da
fazenda.
— E Katie sabia de toda a história? — Mac perguntou a Frankie.
— Sim, e por isso sempre ajudou Benny a entregar os jornais. O tio batia nele se
chegasse atrasado para os deveres da fazenda — informou ela.
— Por que ninguém...

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Momentos Intimos 056

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Mac parou de falar na hora em que ouviu o barulho dos freios de um carro. Ao
virar-se, viu pela janela uma picape. Apressada, a irmã entrou.
— Tem alguma novidade? — indagou ele. Tess balançou a cabeça.
— Não. E você?
— Ainda não.
— Encontrei algo — informou ela, erguendo um caderno. — Este é o diário de
Katie. — Em seguida, olhou para as outras pessoas da sala. — Estou interrompendo?
— Claro que não — disse Ada Mae. — Já vou sair. O restaurante está cheio. —
Parou perto da porta e segurou a mão de Tess. — Tente acalmar- se. Seu irmão
conseguiu uma ótima pessoa para ajudá-lo.
Tess virou-se para Frankie e Mac fez as apresentações.
— Dra. Francesca Carmichael, esta é a mãe de Katie, Tess Delaney.
— Doutora? — Tess aproximou-se devagar. — Deve ser a dra. Frankie. Sabe
onde Katie está? Chegou a vê-la?
Frankie olhava para uma mulher alta, magra, com o mesmo cabelo encaracolado
e ruivo de Katie.
— Não — respondeu, segurando a mão de Tess. — Sinto muito.
— Foi gentil de sua parte ter vindo aqui para ajudar — agradeceu Tess, tentando
sorrir. Com a mão livre, ergueu mais uma vez o diário. — Tenho certeza de que Katie
está com o pai. Encontrei isso na mochila dela na noite passada, mas só pensei em ver
o que estava escrito esta manhã. Katie não só sabia o endereço do pai como também
tinha o número do telefone e do fax. — Abriu o caderno e apontou para uma das
páginas. — Encontrei até a data do nascimento dele. Em algumas páginas, ela escreve
sobre quanto gostaria de conhecê-lo. Talvez tenha ido visitá-lo, não acha? — sugeriu,
olhando para Frankie e Mac.
— Conversei com Logan Campbell, o policial de quem lhe falei. Ele está vigiando
o escritório de Thorne, assim como o apartamento e as estações de trem e de ônibus.
Até agora, Katie não apareceu por lá.
— Bem, a viagem para Nova York demora um pouco. — Fechando o diário, Tess
começou a andar de um lado para outro. — E Katie precisava descobrir uma forma de
chegar até o apartamento do pai. Porém, ele pode não estar lá. Viaja muito a negócios
e... — A frase foi interrompida de repente, quando ela viu a bicicleta de Katie. Virou-se
para encarar o irmão. — O que esta bicicleta está fazendo aqui? Isso significa que...
que vocês a encontraram, não foi? E ela...
— Não, não a encontrarmos — declarou Mac. Mas foi Frankie quem tocou o
braço de Tess e conduziu-a até a cadeira.
— Eu não entendo — disse Tess. — Você encontrou a bicicleta dela!
— Mac achou-a no meu quintal — explicou Frankie. — Mas não sei como foi
parar lá. Não vejo Katie desde a semana passada.

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Tess colocou o caderno no colo e cruzou as mãos sobre ele.
— Quando encontrei o diário, tive certeza de que ela fora procurar o pai —
comentou, olhando para Frankie. — Mas, se a bicicleta estava em sua casa, como
minha filha pode ter pegado um ônibus ou o trem?
— Não sei o que aconteceu. — Frankie procurava consolar Tess, colocando as
mãos sobre as dela.
— Existe algo que não estão querendo me contar?
— A bicicleta está sem impressões digitais — disse Mac. — Alguém se
preocupou em limpá-las.
Lágrimas encheram os olhos de Tess.
— Então... Acha que alguém a levou?
— Não sei — respondeu o policial. Frankie levantou-se e foi até a bicicleta.
— Há um ponto que não consideramos. Suponhamos que Katie tenha ligado
para o pai, dizendo que iria vê-lo. Ele pode estar envolvido com tudo isso. E se também
quisesse ver a filha, mas preferisse que ninguém soubesse que ela está lá?
— O pai não quis conhecer Katie — disse Tess.
— Onze anos é muito tempo. Ele pode ter mudado de idéia — argumentou
Frankie. — São conhecidos os casos de pais que seqüestram os próprios filhos.
— Mas Katie podia ter pedido... — Tess parou de falar e sua voz ficou mais fraca.
— Ela pediu. Enquanto estávamos discutindo. Eu me sentia tão triste e com tanto medo
que lhe disse jamais permitir que visse o pai.
Mac chegou perto da irmã e tomou-lhe as mãos.
— Vou fazer uma visita a Thorne. A polícia estadual pode me emprestar um de
seus helicópteros. Estarei lá em menos de uma hora. Se encontrar Katie, trago-a de
volta ainda hoje.
— Vou com você. — Tess levantou-se da cadeira.
— Não, vai ficar aqui — disse Mac. — Quero que volte para a fazenda. E se ela
estiver com alguma amiga que não conhecemos? Alguém precisa ficar em casa, caso
Katie telefone. Talvez até apareça na escola.
— Você está certo — concordou Tess. — E que é muito difícil ficar esperando.
Seria melhor se eu pudesse fazer algo.
Mac sorriu.
— Está bem. Olhe, você encontrou o diário. Talvez haja algo mais no quarto dela,
na escrivaninha, dentro de algum livro, que possa nos ajudar.
Tess o analisou com desconfiança.
— Isso parece um plano para me manter ocupada.

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— E por que eu sugeriria que minha irmã fizesse algo desnecessário? Como
pode acusar-me de tal absurdo?
— Esqueceu-se de quando me convenceu a costurar uma roupa para o
espantalho do jardim da mamãe só para poder ir pescar sozinho?
Os dois acharam graça. Enquanto observava Mac acariciar a cabeça da irmã,
Frankie experimentou uma sensação agradável. Era um homem gentil, sensível.
Mesmo preocupado com a sobrinha, procurava fazer a irmã sorrir.
Quando Mac a fitou, ela sentiu o sangue correr mais rápido e um calor intenso
por todo o corpo. Desejava-o. Ao perceber isso, ficou confusa e sem forças. Precisava
evitar tais emoções. Tinha que fazer com que a razão fosse mais forte que a emoção.
Era uma batalha com a qual fora obrigada a conviver desde cedo. Porém, não tinha
certeza se dessa vez conseguiria bons resultados.
— Minha irmã a levará para casa. Ligo para dar notícias. Frankie concordou com
um gesto de cabeça. Não confiou na própria voz e preferiu ficar em silêncio. Seguiu
Tess até a caminhonete. Precisava acalmar-se.
— Pronta? — perguntou Tess.
"Não", pensou Frankie, começando a descer a escada.
Não estava preparada para os sentimentos que Mac Delaney lhe provocava.
Queria evitá-los. Acomodou-se no banco da frente da picape e colocou o cinto de
segurança. No mesmo instante outra preocupação voltou à sua mente.
E se Katie não estivesse com o pai, em Nova York? E se Mac voltasse sozinho e
lhe pedisse ajuda para encontrar a sobrinha?
Frankie ficou olhando para a frente, paralisada. Tudo o que havia conquistado
em Barclayvile podia ser destruído se não encontrasse uma forma de dizer "não" a Mac
Delaney.
CAPÍTULO TRÊS
Mac virou o carro na estrada Barclayvile Masons Corner e dirigiu-se para o chalé
de Frankie Carmichael. Queria pedir-lhe um favor. Mas não era só. Na verdade,
desejava revê-la.
Logan Campbell e seu pessoal continuariam vigiando o escritório e a casa de
Dexter Thorne, pai de Katie. Ainda havia uma chance de a garota aparecer por lá. Ela
não tinha ido à escola ou a qualquer outro lugar.
Precisava manter um fio de esperança. Mas, como tio de Katie, não acreditava
que a menina, por vontade própria, ficasse fora de casa por tanto tempo. Como policial,
também não. "Katie Delaney está desaparecida."
Tais palavras pareciam martelar a mente de Mac desde que ele saíra do
apartamento de Thorne. Durante o vôo, as imagens das três garotas desaparecidas o
perseguiam e deixavam-no amedrontado.

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Pelo bem de Katie, precisava manter o controle. Tinha que raciocinar como
policial, e a única forma de conseguir isso era entregar-se aos seus deveres. Era o que
fazia havia duas horas.
Sua primeira parada foi a fazenda, para ver Merle Tucker. No entanto, encontrouo adoentado e sem poder falar. De acordo com a esposa, ele não parara de beber
desde quando Benny partira. A parada seguinte foi a casa de Jim e Nancy Wilson. Não
esperava encontrar nada lá, mas precisava verificar a possibilidade de Benny ter
ajudado Katie a se esconder. Os dois lhe garantiram, porém, que o menino não sabia
de nada que pudesse ajudar a localizar a amiga.
Frankie andava da sala para a cozinha. Andar a ajudava a pensar. Um olhar
rápido ao relógio a fez ver que já era uma e meia. Isso queria dizer que tinha menos de
trinta minutos para resolver seu debate interior antes de sair para Syracuse. Parou e
olhou para o telefone, desejando ouvi-lo tocar, rezando, como fizera durante toda a
manhã, para que Mac ligasse dizendo que encontrara Katie no apartamento do pai.
Frankie pegou o telefone e desistiu no mesmo instante. Não poderia ligar para
Mac. Se o fizesse e ele pedisse ajuda, o que faria? Talvez devesse contar sobre a
mensagem gravada na secretária eletrônica. Era estranho o fato de o desconhecido ter
ligado na noite em que Katie desaparecera. Talvez fosse a mesma pessoa que jurara
não deixá-la em paz, para evitar que outra criança sofresse. Era um maluco, que
chegara a segui-la a Syracuse e que tentara atear fogo em seu apartamento.
Frankie parou de andar. Não havia como usar um covarde que fazia ligações
anônimas como desculpa para não ajudar Mac. Havia outra razão, muito mais forte: a
atração que sentia por ele. Entretanto não queria apaixonar-se mais uma vez, não
queria sofrer ou ser enganada. Também não podia deixar a história se repetir. Não
permitiria que outra criança fosse prejudicada.
Com um suspiro, jogou-se no sofá. Ansiosa, levantou-se minutos depois e
começou a andar de novo. Devagar, e sem resistir ao impulso, olhou para o telefone.
Piscou, tentando evitar as lágrimas. Se Katie estava mesmo desaparecida, como
poderia dizer não a Mac? Mas... e se cometesse outro erro? E se causasse a morte de
mais uma criança? Será que tinha o direito de arriscar?
O som do freio de um carro chamou-lhe a atenção. Olhou pela janela e não teve
forças para evitar a agradável sensação que sentiu ao ver Mac.
Foi até a porta e abriu-a antes que ele tivesse tempo de tocar a campainha. Pela
expressão sombria do policial, percebeu que as notícias não eram boas. Puxando-o
pela mão, conduziu-o para dentro do chalé.
— Você não a encontrou, certo?
— Certo.
— Mas encontrará. Ele sorriu.
— Você está ótima — elogiou Mac, detendo-se no cabelo solto de Frankie, caído
sobre os ombros. A calça jeans preta e a blusa de seda vermelha davam-lhe um ar
sensual. — Tem café? — indagou, olhando para a cozinha.

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— O que tenho são vinte e cinco minutos antes de sair para Syracuse.
— Sem problemas. É tempo suficiente para preparar um pouco de café.
Em poucos segundos a água e o café estavam na cafeteira. Krankie pegou as
xícaras e, ao tentar fechar a porta ao armário, sentiu que a mão de Mac a bloqueava.
Os corpos se tocaram ligeiramente quando ele pegou uma caixa de bombons cobertos
de açúcar cristalizado.
Ela só conseguiu respirar ao ver que Mac se afastava. Seus olhos se
arregalaram, porém, quando Frankie percebeu que o policial tinha aberto todos os
armários.
— Precisava fazer isso?
— Estava procurando algo para comer, mas não há nada aqui. Nem mesmo
panelas. Como é que cozinha?
Frankie cruzou os braços.
— Não cozinho. Como algo na rua depois do programa.
— Não sabe cozinhar? Sua mãe não a ensinou?
Pelo tom de voz, Mac demonstrava incredulidade. Frankie não conteve o riso.
— Minha mãe também não cozinhava — explicou, servindo o café. — Contratou
um cozinheiro francês e se dedicou integralmente às pesquisas. E Antoine não tolerava
uma mulher na cozinha.
— Antoine era um tolo — opinou Mac, dando um gole no café.
— Por que não me conta o motivo que o trouxe aqui?
— Preciso de sua ajuda. Frankie balançou a cabeça.
— Você precisa é da ajuda da polícia federal.
— Os federais só se envolverão se for feita a queixa do desaparecimento.
Enquanto isso, a polícia estadual estará cuidando do caso. Já começaram as
investigações.
— Pelo que vejo, já tomou todas as providências. Não sei em que posso ajudar.
Mac colocou a xícara sobre o balcão.
— Você tem mais do que bons olhos, doutora. Tem uma cabeça boa, é esperta e
astuta. Eu deveria ter desconfiado desde o princípio que Dexter Thorne podia estar
envolvido com o desaparecimento de Katie. Mas nem pensei no assunto.
— Teria pensado mais tarde.
— Tempo é algo que não podemos desperdiçar. Katie sumiu há quase vinte e
quatro horas.
— Não posso ajudá-lo. Quando me envolvi com Suzana, cometi um erro que lhe
custou a vida. Prometi a mim mesma que nuca mais faria isso.

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— E quanto a Benny Wilson? Também se envolveu com ele. Chegou até a
enfrentar Merle Tucker.
— Como soube? — Frankie afastou-se do balcão. — Está investigando os meus
passos? Ainda não o convenci de que não estou mentindo a respeito de Katie?
— Relaxe, doutora. Eu só queria saber o porquê. O que a fez voltar atrás em sua
promessa, quando se envolveu com Benny Wilson?
— Não voltei atrás. Quando descobri que o tio de Benny o espancava, Katie me
colocou em contato com a diretora da escola. A sra. Garrison foi quem falou com Jim e
Nancy Wilson e fez todos os arranjos.
Mac deu um passo à frente.
— Mas você foi falar com Merle Tucker. — Mac queria se aproximar ainda mais,
pegá-la pelos ombros e fazer com que fosse mais sensata. — Foi sozinha conversar
com um bêbado violento que pesa três vezes mais que você. Por que fez tamanha
loucura?
Frankie respirou fundo.
— Vi os machucados de Benny. Ele tinha se oferecido para ajudar-me a limpar o
jardim. Quando tirou a camisa, vi as marcas das agressões. Fiquei com muita raiva e
quis ter certeza de que o sr. Tuker nunca mais chegaria perto de Benny. Se ele não
tivesse desmaiado, eu... eu...
Mac pegou-lhe as mãos.
— Imagino o que poderia ter feito. Não sou um psiquiatra, mas acho que essa
reação sugere um envolvimento emocional, estou certo?
— Não! Quero dizer, sim...
Frankie não terminou a frase ao ver o sorriso largo estampado no rosto de Mac.
Antes que pudesse pensar em qualquer coisa para dizer, ele olhou para o relógio.
— Acho que meus vinte e cinco minutos se esgotaram. Por que não adiamos
nossa discussão até sua volta? Se não formos embora, chegaremos atrasados.
—Nós não chegaremos atrasados a lugar nenhum — corrigiu Frankie, pegando
as chaves do carro. — Sou capaz de ir até a rádio sozinha.
— Não duvido. Mas quero poupar-lhe tempo, já que minha caminhonete está
bloqueando a saída de seu carro.
Frankie virou-se para encará-lo. Desde criança sabia a hora de deixar a teimosia
de lado e ceder diante do inevitável.
— Promete não usar todo esse tempo extra tentando me persuadir a ajudá-lo?
— Palavra de honra. — Mac esperou até entrar na estrada para dizer: — Tess
gostaria que você fizesse só um favor. Se quiser, claro.
— Você não vai desistir, não é?
— Não. Mas é apenas um favor para Tess. Não vai se envolver, prometo.

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— O que é?
— Existe um centro para crianças desaparecidas não muito longe daqui. Um dos
voluntário entrou em contato com Tess e sugeriu que ela desse um número de telefone,
para conseguir informações de todos os lugares. Eles doaram os equipamentos, o
aparelho de fax e tudo o mais. A companhia telefônica prometeu deixar tudo
funcionando ainda esta tarde. As pessoas fariam ligações gratuitas para dar
informações. Ajudaria muito se pudesse anunciar o número no seu programa. Isso é
tudo o que precisa fazer, e a estação onde trabalha também não se envolverá. As
ligações irão todas para a fazenda.
— É uma ótima idéia. É possível que um de meus pequenos ouvintes tenha visto
algo.
— Exatamente. — Mac diminuiu a velocidade no e aproximar da saída de
Barclayvile. — E, para mostrar que ltenho palavra, vou mudar de assunto. Está vendo
aquela mansão?
— Não foi lá que nos conhecemos? Onde houve a recepção do casamento?
Mac concordou com um gesto de cabeça.
— Acredita que é assombrada?
— Não.
— Mas é. Impossível você viver há um ano em Barclayvile e nunca ter ouvido a
história do fantasma de Whitaker! Relaxe, pois é uma longa história...
Foi divertido ouvir Mac durante o percurso, concluiu Frankie ao acomodar-se na
cadeira e ajustar o microfone. Era impressionante como toda a cidade se convencera
de que era vítima de um fantasma que determinava os casamentos. Abrindo uma
gaveta, pegou uma prancheta e um lápis.
Sorriu enquanto testava o microfone. Sabia, por experiência no trabalho, que
crenças e expectativas influenciavam o comportamento das pessoas. O caso do
"fantasma" era fascinante, e merecia ser estudado.
— Frankie? Dez segundos. Apressada, ela colocou os fones no ouvido.
— Quatro... três...
Um estudo daqueles exigiria tempo e intimidade com os moradores de
Barclayvile. Seria a única forma de ganhar a confiança deles.
— Dois... um...
Frankie respirou fundo e começou:
— Aqui é a dra. Frankie, falando para o estado de Nova York direto da WNYT,
em Syracuse. Durante a próxima hora e meia, estarei respondendo às suas perguntas.
Agora, quero falar-lhes sobre Katie Delaney, uma de minhas ouvintes, que mora em
uma fazenda de Barclayvile. Ela desapareceu de casa. Está fora desde as seis horas
da tarde passada.

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Enquanto contava o resto da história, Frankie concentrava-se em relaxar. Isso a
ajudava a manter-se calma e fria ao descrever Katie em detalhes. Mesmo depois de ter
dado o recado e o número de contato, não conseguiu se livrar da tensão. Sentia um nó
no peito, porque sabia que Mac Delaney a observava. Não precisava olhar pelo vidro
para confirmar. Simplesmente sabia.
Naquele momento, um ouvinte telefonou. Frankie pressionou o botão à sua
frente para responder.
— Olá. Aqui é a dra. Frankie. Qual é o seu problema?
— Meu nome é Billy Roberts. Sinto muito sobre Katie. Espero que ela volte logo
para casa.
— Eu também, Billy. Existe mais algum motivo para você ter ligado?
— Ah sim! Quase me esqueci. Meu cachorro, Buster. Tem alguma coisa errada
com ele. Não come mais. O que devo fazer?
Dentro da cabine à prova de som, Mac gargalhava, enquanto Frankie, séria,
procurava mais informações sobre o caso. Soube que novos vizinhos haviam chegado
e que também tinham um cachorro. Quando ela sugeriu que Buster fosse alimentado
com o outro animal, Billy Roberts ficou eufórico, ansioso por desligar e contar a idéia
para a mãe. Mac ainda sorria quando virou-se para Kyle, o engenheiro de som.
— Ela é boa mesmo no que faz, não acha?
— É uma mulher surpreendente. Tem o maior índice de audiência da rádio. Estou
tentando convencê-la a entrar em rede nacional.
— Presumo que nem todos os casos sejam sobre animais...
— As crianças ligam com todos os tipos de problemas: brigas com os pais,
namorados, amigos e professores. — Kyle apertou alguns botões. — Desculpe-me por
alguns instantes.
Mac encostou-se de novo na cadeira e assistiu o engenheiro lidar com os botões
do painel. Após o intervalo, Frankie voltou ao ar.
Outro chamado relatava o problema entre um menino e uma menina. Mac
pensou que, se estivesse no lugar dela, não conteria o riso. A voz de Frankie, porém,
não demonstrava nenhum sinal de humor. Ouvia com atenção e tomava nota no papel
que tinha sobre a mesa. Cada pessoa que ligava recebia o mesmo tipo de tratamento.
Frankie não interrompia as crianças, e quando o fazia era porque precisava de
dados importantes para elucidar o caso. Francesca Carmichael era uma profissional
equilibrada, que dava o melhor de si para quem precisasse. Mac voltou-se para Kyle.
— Alguma vez ela teve algum problema realmente sério, algo que precisasse
notificar à polícia?
— Em geral, quando o caso é complicado, Frankie me dá um sinal. Coloco
alguma música enquanto ela conversa em particular com a criança. Mas nunca chama
a polícia. Sei disso porque sou eu quem faz as ligações. Ela costuma contatar advogadas ou assistentes sociais. Certa vez, uma juíza de Utica foi acionada.

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Mac voltou a olhar para Frankie através do vidro. Ela podia não querer se
envolver pessoalmente nos casos, mas não conseguia ficar alheia ou distante.
Preocupava-se com seus jovens ouvintes e compreendia como a mente deles
funcionava.
O problema era convencê-la a cooperar com ele. Mac começou a formular um
plano enquanto a via trabalhar. Percebeu como estava tensa. E cansada. Parecia ter
dor de cabeça também.
A atenção de Mac desviou-se para a voz ao telefone.
— Dra. Frankie, eu a vi. Acho que vi Katie.
— Qual é o seu nome? — perguntou Frankie. — E onde a viu?
— Sou Johnny Taylor. Estudo com Katie. Tenho certeza que era ela. Em um
carro verde sem capota.
— Um conversível?
— Sim, isso mesmo. O rosto dela estava virado para a janela, eu a vi muito bem.
Dentro da cabine, Mac tomava nota de tudo. Listou os detalhes que o garoto
deu, um a um. O carro tinha só dois bancos, e Katie estava dormindo.
"Dopada?" Mac escreveu a pergunta na lista, tentando não dar atenção às
emoções que o dominavam. Procurou ignorar o fato de que tudo levava a crer que Katie
fora seqüestrada.
Não conseguiram a placa do carro, mas o cruzamento onde ele foi visto era o
mesmo por onde ele e Frankie passaram, a caminho de Syracuse. Apressado, pediu a
Kyle uma linha no telefone externo e discou os números da polícia estadual.
Não era dor de cabeça, disse Frankie a si mesma ao desligar o microfone. Nada
que doesse tanto podia ser chamado de mera dor de cabeça. Parecia que seu cérebro
ia explodir.
Não se surpreendeu ao ver Mac a seu lado. Já estava se acostumando com a
forma de ele se aproximar sem pedir licença. Não fez objeção quando, tomando-lhe a
mão, o policial a conduziu para fora da rádio.
O número de repórteres e fotógrafos que a esperavam a surpreendeu. Uma
explosão de flashes fez com que a dor de cabeça ficasse ainda mais forte. Uma bela
mulher se colocou à sua frente e a encarou.
— Qual é o seu verdadeiro envolvimento com o desaparecimento de Katie
Delaney, dra. Carmichael?
— Não estou envolvida. Mac passou à sua frente.
— A dra. Frankie gentilmente se ofereceu para anunciar o número que recebe
ligações gratuitas instalado em minha fazenda, para quem tiver informações sobre
Katie. Graças a ela, a polícia estadual tem agora uma pista.
— E quem é você? — uma repórter indagou.
— Sou o tio de Katie. Delegado de Barclayvile. Outro repórter:

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— Isso quer dizer que prendeu a dra. Carmichael?
— É claro que não!
— E sabe que ela já foi presa por ter seqüestrado Suzana Markhan? — gritou
outro. — Soubemos que está envolvida também neste caso.
Mac abriu mais o sorriso.
— Pelo que sei, todas as queixas contra a dra. Carmichael foram retiradas. E
tenho certeza de que estão preocupados com o desaparecimento de Katie Delaney. Ela
estava andando de bicicleta quando sumiu, há vinte e quatro horas aproximadamente.
Acabamos de receber notícias. Um de seus colegas de classe a viu em um carro verde
conversível, no cruzamento da saída para Utica. Não sabemos nada sobre o motorista
nem o número da placa. Vocês ajudariam muito se divulgassem essas informações.
As palavras de Mac foram ditas em voz baixa e com calma, o que aquietou a
todos os membros da imprensa. Muitos anotaram o número de contato e duas câmaras
de televisão focalizavam a foto de Katie, que Mac mostrava. Logo depois, todos
correram para seus carros e o caminho ficou livre.
Uma vez dentro da picape, Frankie encostou a cabeça no banco e fechou os
olhos. Não disse nada e ficou muito grata por Mac ter permanecido em silêncio. Não
demorou muito e ele desligou a ignição. Estavam em frente a uma loja de conveniência.
— Vou pegar algo para você comer — disse ele, descendo e fechando a porta.
Frankie não tinha forças para protestar.
"Pense positivo", recomendou-se, repetindo o conselho que sempre dava aos
pacientes.
Agora, ao menos, eliminara o maior problema que tinha. Não precisava mais se
preocupar em proteger seu anonimato. Estava tudo descoberto. Poderia fazer as malas,
deixar a cidade e procurar outro lugar para recomeçar.
Isso a ajudaria a eliminar o outro problema. A pessoa que fizera as ligações
anônimas devia estar radiante.
Apesar da dor de cabeça, ela teve vontade de rir. Foi quando percebeu que Mac
começava a influenciá-la. Estava começando a ver a vida com outros olhos, de uma
forma bem-humorada. Agora só precisava encontrar a maneira certa de lidar com ele.
E, por falar em Mac, ali estava ele, sentado a seu lado. Frankie sentiu o cheiro
de pizza, mais um copo descartável lhe foi colocado numa das mãos. O líquido era
quente. Ela ouviu o ruído de papel rasgado e em seguida sentiu as pílulas na palma da
mão livre.
— Aspirina extra-forte para sua dor de cabeça — explicou ele. Frankie olhou
para o copo, e o ligeiro movimento a fez estremecer de dor.
— O que é isso?
— Capim fervido, mas eles chamam de chá de ervas para que possam aumentar
o preço — informou Mac, ligando o motor. — Confie em mim, vai ajudar.

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— Obrigada — disse pouco antes de tomar o medicamento e beber o chá quente
e forte. Quando terminou, a dor de cabeça já começava a melhorar. Virou-se para Mac.
— Eu gostaria de agradecer pela forma como lidou com os repórteres. E pela aspirina.
— Não precisa, doutora. O que fiz foi proposital. Usei aqueles repórteres para
divulgar a foto de Katie e a descrição do carro verde. A polícia estadual já está
trabalhando no caso. E, se lhe dei a aspirina, é porque ainda temos muita coisa para
decidir. E isso ficará bem mais fácil se você não estiver com dor de cabeça.
— Acho que não podemos adiar essas decisões, certo? Mac sorriu ao desligar o
motor do carro na frente do chalé.
Olhou para ela.
— A pizza que comprei estará fria até lá.
— Adoro pizza fria — murmurou Frankie, abrindo a porta para sair.
Ela parecia melhor, pensou Mac enquanto a observava do outro lado do balcão
da cozinha. Se ao menos não parecesse tão vulnerável...
Ele precisava pensar em Katie. Haviam chegado à casa de Frankie a tempo de
ver o noticiário de um dos canais de Syracuse, dando notícias da região de Barclayvile.
O desaparecimento de Katie era comentado por todos.
Mac ergueu um pedaço de pizza e colocou-o sobre o prato. Tinha um plano para
fazer com que Frankie o ajudasse. Precisava fazê-lo funcionar.
Cobrindo a boca com os dedos, Frankie tentou esconder um bocejo.
— Por que não fala logo o que está planejando, delegado?
— Preciso de sua ajuda. Frankie cruzou os braços.
— Fiz tudo o que pediu.
— Ouça, preciso de sua experiência e astúcia. Acredite, nunca achei que
admitiria isso a uma psicanalista. Quando Tess contou-me a seu respeito e sobre o seu
programa, sabe qual foi o meu primeiro pensamento? Que Frankie deveria ser o apelido
de Frankenstein. Achei muita graça e não a levei a sério porque, na minha honesta
opinião, psiquiatras e psicólogos são capazes de criar monstros em vez de curar.
— Se está tentando me convencer com falsos elogios...
— Não funcionaria com você. Vou convencê-la pela lógica. Tive bastante tempo
para planejar minha estratégia. E sabe o que descobri? Temos muito em comum. Oh...
Também nunca achei que fosse dizer isso a uma psicanalista.
— Não estou entendendo.
— Nós dois queremos que Katie seja encontrada e nenhum de nós quer se
envolver emocionalmente, porque emoções nos levam a cometer erros. Não posso
errar e sei que você também não pode. Tomarei todas as decisões. Assim, tudo o que
acontecer será de minha responsabilidade. Não se culpará por nada.
— Não sei nada sobre procurar uma pessoa desaparecida.

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Momentos Intimos 056

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— Mas eu sei. Você entende de crianças e sabe muito sobre as pessoas. Temos
arquivos com suspeitos e condenados por seqüestro infantil. As polícias estadual e
federal mandaram informações por fax durante todo o dia. Preciso de sua ajuda para
analisá-los. E, se não estivermos lidando com seqüestradores, você sabe o que pensa
uma menina de onze anos. Consegue entender o que se passa na mente delas. Eu a vi
fazendo isso na estação de rádio. Quero que me ajude dessa forma. Assim, poderemos
encontrar Katie.
Como recusar? Ela estava com os lábios entreabertos, pronta para concordar,
quando o telefone tocou. Frankie sentiu um frio na espinha.
— Não vai atender? — perguntou Mac.
— E muito provável que seja um engano — respondeu, olhando para o aparelho.
— O número não está na lista telefônica.
Após algumas chamadas, a secretária eletrônica atendeu. Frankie esperou a
mensagem:
— Eu a vi no noticiário da televisão. Você devia ter ido embora. Eu a avisei.
Agora outra criança desapareceu! Dessa vez não deixarei que cause mal a outro
inocente. Vá embora!
O som da respiração ofegante ainda ecoava pelo ar quando Frankie levantou-se.
Só percebeu que se inclinava para trás quando sentiu a parede junto às costas. Um frio
percorreu-lhe todo o corpo. Era uma sensação que sempre experimentava nos pesadelos, quando queria alcançar Suzana e nunca conseguia. Usando a parede como
anteparo, procurou forças para lutar contra o medo.
Concentrou a atenção em Mac. Viu-o correr e pegar o fone. Em vão. Irritado,
olhou para o aparelho, tentando acalmar-se. Pressionou o botão da secretária para
ouvir de novo a mensagem. Várias perguntas passavam-lhe pela cabeça. Quem fizera
aquilo? Por quê?
— Esse covarde já ligou antes? Quando? — indagou, virando-se para encarar
Frankie.
Imediatamente, deixou as questões de lado. Ela estava pálida demais.
Preocupado, aproximou-se. Frankie não teria aparecido na televisão se ele não a
tivesse convencido a ajudá-lo. E se o covarde ligasse quando ela estivesse sozinha?
Não queria nem imaginar. Ao alcançá-la, percebeu que, por trás da aparente fragilidade,
havia uma mulher forte. Abraçou-a, tentando protegê-la, e percebeu que queria muito
mais do que abraçá-la. Queria beijá-la. Conseguia imaginar como seria, um contato
cheio de paixão...
Mas Katie era prioridade e ele precisava da ajuda da doutora. Se deixasse sua
atração vir à tona, as investigações seriam prejudicadas e Frankie poderia assustar-se.
Era melhor esperar. Mais lógico. O problema era que o corpo de Mac não parecia
obedecer às ordens do cérebro. Suas mãos acariciavam devagar as costas de Frankie
e gentilmente a puxavam para mais perto. E, no momento em que as curvas dela se
uniram a ele, Mac percebeu que a realidade era muito mais deliciosa do que a fantasia.

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Momentos Intimos 056

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Frankie não encontrava forças para empurrá-lo, não enquanto as mãos de Mac
subiam e desciam por suas costas. Tinha sentido medo há poucos minutos, mas
naquele momento viu-se recuperada. Só conseguia pensar em Mac e senti-lo. O rosto
encostado de leve em seus cabelos, o coração batendo acelerado e os carinhos
provocando arrepios por todo o corpo...
Quando Mac a olhou nos olhos, os lábios de Frankie se entreabriram. Em
protesto ou num convite? Ela não tinha certeza de nada. No momento em que os lábios
de Mac tocaram os seus, foi impossível resistir.
A atração do primeiro encontro explodiu. Ela nunca havia experimentado algo tão
forte, e a constatação a chocou. Mas, mesmo assim, passou os braços pelo pescoço
largo e abraçou-o desejando ainda mais.
Beijá-la era muito melhor do que havia imaginado. Nada tinha lhe dado tanto
prazer. Acariciando os sedosos cabelos e sentindo os corpos juntos, Mac teve vontade
de levá-la até o sofá vermelho e fazer amor ali mesmo.
Tudo estava indo depressa e cedo demais. Desejava Francesca Carmichael, e
disso tinha certeza. Não queria interromper aquele momento, porém ambos logo se
afastaram ligeiramente. Ficaram parados e em silêncio.
— Eu quero me sentar — disse Frankie.
— Sim, é claro. — Atordoado, ajudou-a e sentou-se ao lado dela.
Ela não disse nada. Ficou olhando para a lareira. Depois disse, com vagar:
— Isso foi um erro. Mac tentou sorrir.
— Não, isso não. Um erro não consta da minha lista.
— Vai interferir em nosso trabalho. Precisa dedicar total atenção em achar Katie
o mais rápido possível. E pediu que eu o ajudasse. Isso... — Frankie ergueu a mão e
logo deixou-a cair sobre as pernas. — Eu não posso, não vou me envolver com você.
Já cometi esse erro com James.
O sorriso de Mac desapareceu. Segurou-lhe as mãos.
— Eu não sou James.
— Não é. Não parece em nada com ele. A situação é que é parecida. Katie
desapareceu. Não conhecemos os riscos por que ela está passando. Não sei nem
como pudemos pensar em... — Fez uma pausa e pigarreou. -— Precisamos nos concentrar em Katie. Quer que eu o ajude a ser objetivo. Como poderei, se nós... o que
quero dizer é que...
— Você está gaguejando, doutora. — Mac estava menos tenso. Soltou a mão
dela e sorriu. — Nunca pensei em ver uma estrela de programa de rádio sem palavras.
Mas concordo integralmente com o que tentou me dizer.
Frankie o analisou.
— Eu queria dizer que, se fizéssemos amor, nenhum dos dois seria capaz de
pensar objetivamente.

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O riso de Mac ficou ainda mais largo, até que uma gargalhada escapou.
— Mas não pense que tudo terminou. Estamos apenas adiando o que vai
acontecer mais tarde — declarou, passando o dedo pelo rosto de Frankie. — Aí então
não será um problema.
— Não?
— Como?
Ele não achava que seria um problema? Será que não se sentira como ela? Seu
coração ainda batia acelerado, e não tinha certeza se conseguiria andar sem ajuda. E
ainda tinha vontade de beijá-lo.
— Ao menos não para nós — continuou ele. — Somos adultos. Temos desejos e
não precisamos nos entregar a eles. Ficarei longe. Mas esse beijo não pode ser
esquecido. A espera tornará tudo muito melhor.
Frankie desejou que ele não fosse tão determinado e racional. Mac não se
envolveria fisicamente até encontrar Katie. Depois disso, ela escaparia. Partiria, iria
embora para sempre.
— Eu...
— Claro que não posso jurar que não pensarei em tê-la nos braços — ele a
interrompeu. — Se quiser, eu a deitarei neste sofá e dividirei minhas fantasias com
você.
Frankie mordeu o lábio inferior para não deixar escapar uma gargalhada. Em
seguida estreitou os olhos.
— Para um homem que diz ter muito preconceito contra psicanalistas, você
parece fascinado demais por um sofá.
— Isso porque ele tem muitos outros usos além da psicanálise, doutora.
Frankie não se conteve e riu, concordando.
— Trato feito. Seremos parceiros, certo?
Quando Mac estendeu a mão, ela correspondeu, firmando o acordo.
— Agora, conte-me sobre o telefonema.
— Deve ser algum louco.
— Ele disse "eu avisei". Então esta não é a primeira vez que liga, certo?
— E assim que lida com suspeitos? Faz com que eles riam e relaxem para
depois obrigá-los a dizer o que quer saber?
— Não está respondendo à pergunta.
Mais do que qualquer coisa, Frankie queria levantar-se e andar, mas ele ainda
segurava-lhe as mãos.
— Ele costumava ligar após o suicídio de Suzana Markham. Chamava a si
mesmo de anjo vingador e dizia ter a missão de evitar que eu causasse danos a outra

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criança. A mensagem era sempre a mesma: "Vá embora". A polícia não parecia querer
ajudar, e então saí de Syracuse.
— O que mais ele faz além de telefonar?
— Como sabe que...
— Já lidei com outros malucos. Sei como agem. Ele a seguiu?
— Acho que sim. Nunca o vi de perto. As vezes era só uma sensação.
— O que mais?
— Ele chegou a colocar fogo no meu apartamento.
— E mesmo assim a polícia não fez nada? — perguntou Mac.
— Nada. Não simpatizaram muito com o meu problema. Eu não tinha cooperado
quando estavam procurando por Suzana. Não me deram importância quando os
chamei.
Mac suspirou, inconformado.
— E agora esse louco sabe onde você está, graças à sua aparição na televisão.
— Ele se culpava por isso.
— Ele sabia onde eu estava antes dos noticiários. Chegou a ligar no dia em que
Katie desapareceu.
— E por que não me contou nada?
— Por que deveria? Você é um policial e também suspeitava de mim. Além do
mais, achei que pudesse lidar com o fato sozinha.
— E o que ele disse? Tente lembrar das palavras exatas.
— "Vá embora antes que outra criança desapareça. Vá embora agora".
— Tem certeza de que ele não disse o mesmo de hoje? Que outra criança
desapareceu?
Frankie negou, balançando a cabeça.
— Não. Nunca esqueço o que ele diz. Não acha que ele possa ter algo a ver
com o desaparecimento de Katie, acha?
A expressão de preocupação de Mac ficou mais evidente.
— Não sei, mas não gosto do fato de ele ter ligado de novo. Aqueles repórteres
disseram que receberam uma ligação anônima. Será que não foi desse homem?
Frankie ficou pensativa por um instante.
— É claro! Se ele quer que eu fuja de novo, essa foi a forma de atingir seu
objetivo. Não terei muitos ouvintes após descobrirem que fui presa por seqüestro.
Mac olhou ao redor.
— Bem, não vai fugir, doutora. Vai passar outra noite na cadeia.
— Ei, espere um pouco...

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— Relaxe. Não estou prendendo ninguém. E que aquele monte de fichas de
seqüestradores que está sobre a minha mesa vai nos deixar ocupados por toda a noite.
Se precisar dormir um pouco, pode se trancar em uma das celas. — O riso desa pareceu. — Já dei minha palavra de que não vou tocá-la. Adiamos o que vai acontecer
entre nós. Mas só temporariamente.
"Permanentemente", repetiu Frankie para si mesma várias vezes, enquanto
seguia Mac até a porta.
CAPÍTULO QUATRO
Ao abrir a porta da caminhonete, Frankie parou
— Espere. Preciso fazer uma coisa antes de partir.
Mac ergueu as sobrancelhas, curioso.
— O que é?
Virando-se, Frankie olhou para o jardim.
— Foi mais ou menos neste horário que Katie chegou, de bicicleta. Oh, prometa
que não vai rir.
— Palavra de escoteiro.
Ela recuou e subiu os degraus da escada.
— Quero imaginar como foi para Katie, no que pensava e o que sentia. Ela sabia
que eu ia jantar na casa de Benny. Porém, como discutiu com a mãe, talvez não tenha
se lembrado. Ou talvez tenha vindo preparada para esperar até que eu voltasse. Bem,
ela desce da bicicleta, bate na porta e senta-se para esperar. — Frankie sentou-se no
primeiro degrau.
— Diga-me, esse é um procedimento comum no seu trabalho?
— É o meu procedimento. Se quer minha ajuda, vai ter que aceitar. Quando
estou trabalhando, tento me colocar no lugar dos adolescentes e agir como eles
agiriam.
— Não se ofenda, doutora — disse Mac, sentando-se ao lado dela. — Um bom
policial faz isso também, antes de deixar a cena do crime. Estou furioso comigo mesmo
por não ter pensado nisso antes.
Frankie pegou a mão de Mac e apertou-a.
— É difícil imaginar Katie como vítima de um crime.
As palavras e o pequeno gesto de conforto fizeram com que a irritação fosse
embora e ele sorrisse de novo.
— E é mais difícil ainda pensar que uma psicanalista e um policial possam ter
algo em comum.

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— Uma conclusão assustadora — comentou ela, olhando para a estrada. — Não
há muito movimento a esta hora.
— Suponhamos que Katie tenha visto que alguém a seguia e veio para cá
procurando refúgio. O que acha?
— É uma possibilidade. Se eu estivesse aqui... Mac cobriu as mãos de Frankie.
— Você não poderia saber.
— Katie levou uns vinte minutos para chegar.
— Se ela estava tentando se livrar de alguém, não teria tempo de limpar da
bicicleta. Aposto como iria para a porta dos fundos, fingindo morar aqui. Você costuma
deixar a janela em cima da porta aberta?
— Sim, e Katie sabia disso. O quarto fica muito quente se eu a fechar.
— Conhecendo Katie, acho que, se ela tivesse a menor desconfiança de que
estava sendo seguida, teria deixado a bicicleta nos fundos, subiria em um desses
pilares e tentaria chegar até a janela. O que acha, doutora?
Frankie o estudou por um minuto.
— Acho que está certo. Ela é uma garota esperta. Muito esperta. — Olhou para
a estrada. — Voltemos ao primeiro cenário. Katie está aqui, esperando por mim, e um
carro esporte verde, conversível, aparece em frente de casa.
— Minha sobrinha provavelmente ficou curiosa, mas ficou relutante em falar com
um estranho. Tess a alertava muito sobre isso.
Frankie apertou as mãos de Mac.
— Mas seqüestradores de crianças cativam, têm carisma e são muito espertos.
Sabem chamar a atenção de uma criança, ganhar a confiança delas. E não há sinal de
luta. Então, acho que Katie sentou-se aqui e conversou com essa pessoa.
Os dois ficaram em silêncio. Frankie imaginou a cena que acabara de descrever.
O carro se aproximando, o motorista descendo e fazendo algo que chamasse a atenção
de Katie, atravessando em seguida o gramado e aproximando-se da casa.
Baixou os olhos e percebeu um letra riscada no pó do primeiro degrau à direita.
O parapeito da janela a havia protegido da chuva. E próximo a ela havia um galho.
— Olhe!
Mac abaixou-se junto à marca do chão.
— Ela estava riscando algo...
— Um S! Pode ver?
— Pode também ser uma linha torta — disse Mac. Frankie apoiava-se no degrau
para olhar de perto o desenho.
Foi quando a mão escorregou por debaixo do tapete e ela sentiu algo. Ao puxar,
encontrou um chaveiro com um S gravado sobre o emblema da Universidade de
Syracuse.

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Momentos Intimos 056

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— São suas as chaves?
— Não. Dei um desses chaveiros a Benny e outro a Katie há mais ou menos um
mês. Ela é fã do time de basquete de Syracuse. Chegou a comentar que gostaria de ir
a um jogo na próxima temporada.
— Prometi comprar os ingressos... — explicou Mac, triste. Frankie procurou
consolá-lo segurando-lhe as mãos.
— Nós vamos encontrá-la. Fitando-a, ele procurou animar-se.
— Sim, vamos. — Em seguida, tirou o próprio chaveiro do bolso e comparou
com o que Frankie segurava. — Esta é a chave da casa da fazenda. Por que Katie a
deixaria aqui?
— Para que soubéssemos que esteve aqui — opinou Frankie. — E escondeu
para que o motorista do carro não visse.
— E acha que desenhou um S no pó para...?
— Deve ser uma mensagem — sugeriu Frankie. — Coloque-se no lugar de
Katie. Talvez não tenha tido tempo para escrever mais nada. — Cruzando os braços,
procurou concentrar-se. — Se ela falou mesmo com o motorista do conversível verde,
algo deve ter acontecido para fazê-la suspeitar do que estava acontecendo. Talvez
soubesse que seria seqüestrada. — Pegando o galho da mão de Mac, Frankie passouo sobre o S desenhado no chão. — Katie poderia ter feito isso sem dificuldade
enquanto estava sentada aqui.
— Certo. Vou concordar com parte do que está dizendo. Porém, Katie também
poderia riscar algo para passar o tempo. Mas por que o S?
— Ela deixou a chave — lembrou Frankie. — Há outro S no chaveiro.
— E o emblema da Universidade de Syracuse.
— Mas Katie teve o cuidado de escondê-lo debaixo do tapete. Acho que tentou
deixar-nos uma mensagem sem o motorista perceber.
— Droga! Um S pode sugerir muitas coisas. Pode se referir à universidade, a
Syracuse, ao nome de alguém ou até mesmo nada. — Mac sentiu-se furioso diante da
própria impotência.
Não conseguia deixar de lado a imagem de Katie sentada no degrau, talvez
sabendo que corria perigo, com medo. Foi quando sentiu mais uma vez o toque de
Frankie em suas mãos.
— Está pensando na situação como tio.
— E você, como psicanalista. Como policial, gosto de lidar com fatos.
— Ótimo. Então pense como policial.
Mac deixou os sentimentos de lado e concentrou-se na mulher à sua frente.
Havia um toque de impaciência na voz, e pela primeira vez ele percebeu raiva no olhar
de Frankie.

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— Estou pensando como um policial. Gosto de evidências e você só me oferece
teorias.
— Nunca parte de pressupostos? Acho que Katie queria dizer algo. Nosso
trabalho é descobrir o quê. Pode ser uma letra da placa do carro. E mais fácil identificar
um conversível verde com um S na placa. A polícia pode verificar. Se Johnny Taylor
olhar as fotos dos automóveis, aposto como é capaz de reconhecer o tipo ou a marca.
Isso reduz ainda mais o número de carros suspeitos. Se essa for mesmo uma
mensagem de Katie, ela está esperando nossa ajuda.
Mac fitou Frankie. Havia mais do que raiva naqueles olhos. Havia paixão. Ela
estava certa.
— Cuidado, doutora. Está começando a pensar como um policial.
Mac acordou devagar, relutante, dividido entre os sonhos e a realidade. A dureza
do chão sob as pernas, o frio metal junto às costas e a agradável sensação de uma
mulher dormindo em seus braços o fizeram abrir os olhos devagar.
Apesar do pescoço dolorido, não se moveu. Sabia exatamente onde estava.
Sentado no chão da delegacia, encostado na mesa. A seu lado, ainda dormindo, com a
cabeça acomodada em seu ombro, encontrava-se Frankie.
Virou-se e a contemplou. Tinha sonhado o tempo todo com ela, nua e em seus
braços. Observou-lhe os lábios, a poucos centímetros de distância, e teve vontade de
tornar o sonho realidade. Mas, se a beijasse, não conseguiria parar. Foi quando ela
abriu devagar os olhos e em silêncio o fitou.
A admiração de Mac por Francesca Carmichael crescia a cada instante. Ela
sempre o surpreendia. Durante a noite, constatara não só a inteligência brilhante como
também a capacidade de manter-se fria e objetiva enquanto liam as fichas de mais de
cinqüenta condenados por molestar crianças. Homens que já estavam soltos, andando
pelas ruas do Estado de Nova York e da Pensilvânia.
Ela deveria saber, pelo trabalho que exercia, a respeito das estatísticas: cada
molestador abusava de mais ou menos sessenta crianças antes de ser preso. E, se
fosse condenado, poderia pegar uma sentença mais leve que um ladrão que tivesse
roubado cem dólares de uma loja qualquer.
No final, reduziram a lista de possíveis suspeitos para meia dúzia de homens.
Dois tinham a letra S no início do nome. Não levaria muito tempo para a polícia
investigá-los.
A eficiência de Frankie também o surpreendeu. Foi por sugestão dela que leram
as fichas juntos. Achou que assim poupariam tempo, e foi o que aconteceu. Foi por isso
que terminaram sentando-se no chão, frente à mesa, e acabaram adormecendo.
Por mais alguns momentos, Mac ficou imóvel. A tentação de beijá-la era grande
demais. Em outro momento, não ligaria para as conseqüências e arriscaria tudo. Mas
encontrar Katie era sua prioridade. Além disso, dera a palavra a Frankie de conter-se.
Mas não seria por muito tempo.

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O som de um carro estacionando na frente da delegacia quebrou o silêncio. Mac
sorriu.
— Você acorda depressa, doutora. Muitos policiais rezam para ter um reflexo
como o seu.
Frankie correspondeu ao sorriso e ajeitou as duas pilhas de papel que estavam à
sua frente. Por um momento, teve certeza de que seria beijada e de que não resistiria.
O que estava acontecendo com ela?
— Desculpe por ter dormido. — Frankie surpreendeu-se com a própria voz.
Achou que o som não saíra claro.
— Não há problema. Também adormeci. Estávamos cansados. — Mac ofereceu
a mão para ajudá-la a levantar-se, e em seguida pegou os papéis. — Bem, já temos
algo para a polícia estadual investigar, e conseguimos nos levantar antes que Ada Mae
entrasse e começasse a suspeitar de algo.
— Suspeitar de quê? — indagou Ada Mae ao abrir a porta da delegacia. —
Venho até aqui duas manhãs seguidas e encontro os dois juntos. Por que eu deveria
suspeitar de algo? — Ao colocar a cesta sobre a mesa, a senhora virou-se e olhou para
Frankie. — Ele a prendeu de novo?
— Não. Estou aqui para ajudá-lo a encontrar Katie. Há café na cesta?
Com as sobrancelhas erguidas, Ada Mae concentrou sua atenção em Mac.
— Ele ainda não preparou o café? Isso sim, me deixa desconfiada! — Andando
até a cafeteira, foi tentar remediar a situação. — Martha Bickle não soube de nenhum
suspeito ainda, pelas ligações. Ela passou a noite inteira tentando conseguir mais
informações sobre o conversível.
— Pelo menos uma vez ficarei muito grato a Martha — disse Mac, sorrindo.
— Odeio admitir, mas eu também — concordou Ada Mae, ajeitando as canetas
na bandeja.
Após olhar de relance para Mac, Frankie virou-se para a simpática senhora.
— Acho que Katie tentou deixar-nos uma mensagem. Mac não concorda. Porém,
acredito que ela desenhou um S perto do degrau de minha casa. E deixou a chave
embaixo do tapete. No chaveiro também há um S. Essa letra diz alguma coisa a você?
Ada Mae ficou pensativa enquanto servia o café.
— A primeira palavra que me vem em mente é St. Louis School, o nome da
escola dela. Talvez Katie também tenha amigos cujos nomes comecem com a letra S.
Tess poderia aju-darnos. Ou talvez vocês possam passar na escola e perguntar aos
colegas. — Ada olhou para Frankie e depois para Mac. — Dei aulas para a quinta e
sexta séries por trinta anos. As crianças não acham interessante falar com policiais,
mas se sentiriam muito mais à vontade se conversassem com a dra. Frankie. —
Entregou as canecas aos dois ao dirigir-se para a porta. — Mesmo contra minha
vontade, vou até a casa de Martha Bickle levar notícias sobre o S.

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Segundos mais tarde, o carro dela desapareceu nas ruas. Mac olhou para
Frankie. Parecia exausta. E frágil. Estava pálida e com olheiras. Ele tomou um gole de
café e sentou-se.
— Quero agradecer-lhe a ajuda. Não conseguiria olhar tudo isso sozinho —
disse, referindo-se aos papéis analisados.
Frankie colocou a caneca sobre a mesa.
— Se minha opinião ajudar, acho que nenhum desses homens levou Katie.
— Provavelmente não. Pode muito bem ter sido alguém sem ficha na polícia.
— Não era isso que eu estava pensando. Tenho outra teoria. Existe a
possibilidade de Katie ter sido levada por alguém que conheça.
Mac ergueu as sobrancelhas.
— Quero mais fatos, doutora.
O tom e a expressão dele fizeram com que Frankie erguesse o queixo.
— Não sou um policial. Quer minha experiência, não é? — Após uma pausa,
começou a andar de um lado para outro. — Não consigo deixar de imaginá-la sentada
naquele degrau, conversando com alguém. Não acho que estivesse assustada no
começo, caso contrário deixaria mais do que apenas um S. E, se fosse um estranho,
acho que teria tomado cuidado. Você mesmo disse que ela iria para os fundos e
tentaria subir as pilastras para alcançar a janela. Katie sabia que o quarto estava
aberto. — Como Mac nada comentou, ela aproximou-se mais. — Goste ou não, é assim
que eu penso.
— Vamos supor que esteja certa e que Katie não tenha ficado alarmada no
princípio, porque era alguém que conhecia. Pelo que sei, ninguém em Barclayvile dirige
um conversível verde, mas a polícia pode verificar o fato. Vamos também conversar
com Tess sobre esse assunto. Ela pode saber melhor como Katie teria reagido. — Mac
pegou uma mecha do cabelo de Frankie e colocou-o para trás. — Depois, vou levá-la
para casa, para que possa dormir um pouco.
Pela primeira vez, Frankie notou quanto Mac estava cansado.
— Você acha que deve levar-me para casa, mas não vai. Quero acompanhá-lo à
escola.
Mac ergueu as sobrancelhas.
— Mais algumas teorias, doutora?
— Dessa vez vou dar-lhe fatos, delegado. Número um: Ada Mae acha que
precisará de minha ajuda na escola. Número dois: você é meio tirano.
— Tirano, eu? Essa é uma opinião profissional? Se for, acho que deveríamos
estar usando um divã ou uma cama.
— Só nos seus sonhos, delegado.
Sem resistir, Mac passou a ponta do dedo pelo rosto feminino.

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— Você já está nos meus sonhos, doutora. E começo a achar que não
conseguirei mudar isso — declarou, sério. — Sonho com você até quando estou
acordado. Imagino minhas mãos acariciando-lhe os cabelos, desabotoando sua blusa...
onde estaremos quando fizermos amor pela primeira vez... Não me preocupo com o
tempo, pois sei que será logo.
Frankie não se moveu. No momento em que foi tocada, seu coração disparou.
Não poderia culpar a cafeína por isso. Foram as palavras que a seduziram. Teve
vontade de beijá-lo, e só precisaria dar um passo à frente para experimentar a explosão
de desejo e de prazer. Ficou chocada ao ver quanto o queria. Não se lembrava da
última vez que precisara conter-se tanto para manter o controle.
— Estou começando a me arrepender de ter prometido não tocá-la até encontrar
Katie — disse Mac. — E minha filosofia sempre foi achar que a vida é muito curta para
arrependimentos.
— É uma ameaça? Mac sorriu.
— Um aviso.
Frankie respirou fundo. Não queria analisar se a própria reação mostrava alívio
ou desapontamento. Era mais confortável e muito mais seguro concentrar-se na
arrogância de Mac Delaney.
— Não recomendo a você um sofá, e sim uma cela. Trancada a sete chaves.
Mac gargalhou.
— Ponto para você. Agora ficarei o resto do dia pensando no que você e eu
poderíamos fazer dentro de uma cela. Acho até que existem mais possibilidades de que
num sofá. Vamos!
— Passou o braço pelo ombro de Frankie. — Vamos parar em sua casa para que
possa tomar um banho e se trocar, enquanto telefono para a polícia estadual e
transmito nosso trabalho desta noite. Depois, vamos até a fazenda falar com Tess.
A casa da fazenda fez com que Frankie se lembrasse de uma movimentada
estação de trem. No momento que ela e Mac abriram o portão, várias pessoas entraram
e saíram apressadas, algumas levando comida, outras se oferecendo para atender aos
telefonemas. A maioria se reunia na cozinha.
Mac apresentou Frankie a uma mulher bonita de cabelos alaranjados e entregoulhe uma xícara de café.
— Lily Clemson, gostaria que conhecesse a dra. Francesca Carmichael. Lily é
irmã de Ada Mae. Faça com que ela coma algo, por favor. A doutora ficou acordada a
noite inteira, trabalhando comigo. — Em seguida, virou-se para Frankie. — Vou
procurar Tess antes de tomar banho e me trocar.
—Volto logo. — Lilly bateu de leve no braço de Frankie e desapareceu no meio
da multidão que enchia a cozinha. Quando voltou, alguns minutos mais tarde, trazia um
prato nas mãos.
— Espero que goste de bolo de chocolate. Fique aqui. Vou ver o que mais
encontro — explicou, voltando para a cozinha.

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Momentos Intimos 056

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— Isso está ótimo, obrigada.
— Está perdendo tempo. Lilly adora alimentar os outros.
— Como?
Frankie virou o rosto e deparou com um homem bonito e alto, com um sorriso
charmoso, carregando uma menina de jardineira jeans, que dormia sobre seus ombros.
— A menos que seja naturalista, vai adorar esse bolo. Foi minha esposa quem
fez. Sobremesas são a especialidade de Mattie. A propósito, sou Grant Whitaker. E
essa aqui é minha filha, Mattie Terceira. Meu filho, J. D., deve estar na cozinha fazendo
o que mais gosta, isto é: comer.
— Francesca Carmichael — apresentou-se ela, estendendo a mão e sorrindo.
— Já soube quem é. Todos estávamos ansiosos para conhecer a famosa dra.
Frankie. Como Mac está nas investigações?
— Muito concentrado em encontrar Katie. Se força de vontade ajudasse, ela já
estaria aqui.
— E você o está auxiliando?
— Sim. — Os olhos de Frankie encontraram os de Mac. Ao vê-lo caminhando em
sua direção, ela percebeu pela primeira vez quanto estava envolvida.
— Deve ser difícil conviver com ele. Mac não gosta muito de psicanalistas.
Frankie ergueu o queixo.
— E eu não gosto muito de policiais. O sorriso de Grant ficou mais largo.
— Que maravilha! Olhe, depois de encontrarem Katie, por que não convence
Mac a levá-la até a Mansão Barclay para jantar conosco?
— Não dê atenção a nada do que ele diz — advertiu Mac, aproximando-se,
abraçado a Tess.
— Eu só estava convidando vocês para um jantar na mansão — explicou Grant.
— Lá em casa.
— O quê?
Mac tomou o café e engasgou. Grant ria sem parar enquanto batia nas costas do
amigo.
— Nunca o vi recusar um jantar grátis. Após respirar fundo, Mac olhou para
Frankie.
— Enquanto troco de roupa, Tess vai mostrar-lhe o pomar. Grant despediu-se de
Frankie e saiu com o amigo.
— Grant e Mac freqüentaram a escola juntos — explicou Tess enquanto se
dirigiam para o jardim. — Compreende então por que o humor deles seja meio
adolescente? Desde que Grant e a esposa retornaram à antiga mansão, muitas
pessoas da cidade acreditam que a tia-avó de Grant, Mattie, tornou-se um fantasma
casamenteiro.

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— Deixe-me adivinhar — disse Frankie. — Grant gostaria que Mac fosse
"fisgado" e acabasse no altar.
— Isso mesmo — confirmou Tess com um sorriso. — E, sendo a Mansão Barclay
o lugar onde as pessoas se apaixonam e acabam se casando, Grant faz de tudo para
que ele apareça por lá acompanhado.
— Obrigada pelo aviso — disse Frankie. — Mas foi lá mesmo que conheci Mac.
Esbarrei nele quando estávamos saindo do casamento de Hathaway.
Tess lançou-lhe um olhar curioso.
— Não diga nada a Grant, ou sua esposa vai começar a fazer o bolo de
casamento.
— Ele acredita mesmo no poder da tia-avó?
— Ah, sim. E faz de tudo para convencer os outros. Vamos cortar caminho por
trás dos celeiros.
Por alguns momentos, andaram por de um corredor estreito. Ouviram apenas o
zumbido de alguns insetos ou o latir dos cachorros. Subiram um pequeno morro e
chegaram ao pomar. Havia macieiras em todos os lados. À esquerda, um riacho com
água clara e limpa.
Frankie deliciava-se com a beleza da paisagem e não conseguiu pronunciar uma
só palavra. Era uma sensação forte e estranha.
— É maravilhoso! — exclamou por fim.
— Sim — concordou Tess. — Hoje cedo pensei em como eu e Mac pudemos
fugir daqui. Assim como fez Katie.
— Mas os dois voltaram. Katie vai voltar também. — Como Tess não
respondesse, ela continuou: — Por que você e Mac fugiram?
Tess suspirou.
— É uma velha história. Nossos pais tinham planos para nós, e eram diferentes
dos nossos. Eu queria ser escultora. Quando ganhei uma bolsa de estudos em Nova
York, meu pai quase me deserdou. Mais tarde, tive Katie fora de um casamento, e tive
orgulho demais para voltar.
— Deve ter sido muito difícil cuidar de Katie sozinha.
— Poderia ter sido, mas Mac sempre esteve a nosso lado. Policiais não têm
muito tempo livre, e Mac passava cada minuto de suas folgas conosco. Esteve a meu
lado até mesmo na sala de parto.
— Foi por isso que ele deixou a fazenda? Para ficar com você?
— Não. Mac fugiu porque descobriu que estavam mentindo para ele. E era meio
rebelde. Queria ir para a faculdade e meu pai estava determinado a fazê-lo ficar,
administrar a fazenda. Acho que Mac teria cedido à pressão se não fosse pela mentira.
Ainda me lembro da noite em que descobriu tudo. Eles discutiam, e na confusão meu
pai disse a Mac que ele não era seu filho legítimo. O verdadeiro pai era Mac Delaney, o

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Momentos Intimos 056

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tio que tinha o mesmo nome. Minha mãe se apaixonara por ele e, quando enviuvou,
casou-se com o irmão mais velho do pai de Mac, meu pai e tio dele. — Tess olhou para
Frankie. — Não acha que eu deveria ter aprendido a lição? Em vez disso, repeti o
mesmo erro com minha filha, mentindo sobre o pai dela.
Frankie segurou as mãos de Tess.
— Ela vai voltar. Assim como você e Mac fizeram.
— Acredita mesmo no que diz, não é?
— Sim, acredito.
— Você me promete uma coisa? — Quando Frankie concordou com um gesto de
cabeça, Tess continuou: — Quero saber de tudo o que descobrirem. Qualquer coisa.
Mac vai tentar proteger-me, mas quero a verdade. Não importa qual seja.
— Está prometido.
— Ouvi seu programa ontem. Pela primeira vez. Fico feliz que esteja ajudando
Mac.
— Não acho que Mac esteja feliz. Ele não gosta muito dos profissionais da
minha área.
— Meu irmão não teve uma experiência muito boa com um deles — informou
Tess enquanto voltavam para casa. — Seu último caso, no departamento de polícia de
Nova York, foi com uma menina de doze anos, que fugira de casa. Sofria abuso sexual
por parte do pai. Mac pagou um advogado com dinheiro do próprio bolso para
convencer o juiz a tirar a guarda dos pais. Porém, eles contrataram uma psiquiatra, que
convenceu o juiz que a menina era desequilibrada e inventava histórias. Foi aí que Mac
saiu do departamento e voltou para casa.
Frankie balançou a cabeça.
— Não é de admirar que ele reaja de forma negativa sempre que sugiro uma
teoria nova.
— Fale-me sobre elas. — Tess então ouviu um resumo da história. — Não
consigo lembrar de alguém que Katie conheça e que tenha um conversível verde.
— A pessoa pode ter alugado ou pedido emprestado — sugeriu Frankie. — Mac
solicitou que a polícia estadual investigue a possibilidade.
— Mas deixar uma mensagem, um S... esse comportamento é típico de minha
filha. Desde pequena, adorava livros de mistério. Ela e Mac costumavam lê-los em voz
alta, juntos. — Tess ficou pensativa por alguns segundos. — Katie tem uma amiga na
escola chamada Sally. Foi a primeira pessoa que procurei quando percebi a demora de
minha filha. Não acha que ela poderia ser... Não, não faz sentido. Por que Katie dei xaria
uma mensagem sobre Sally?
— Vamos passar na escola quando sairmos daqui. Vou falar com Sally. Ada Mae
disse que crianças não gostam de conversar com policiais.
— Diga-me tudo — pediu Tess. E Frankie revelou seu plano.

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Mac saiu pela porta da cozinha e atravessou o quintal. Frankie estava longe
havia menos de meia hora e ele... estava sentindo falta dela. Era ridículo.
Colocou as mãos no bolso, impaciente. Foi quando a viu, passando ao lado do
celeiro, e percebeu que a tensão que sentia desapareceu.
Quando ela se aproximou, de braço dado com Tess, Mac sentiu-se bem e
seguro, em família. Há muito tempo não se sentia assim.
A constatação o deixou abalado.
Assim que tudo terminasse, que encontrassem Katie, Frankie deixaria
Barclayvile. No entanto, não queria que ela fosse embora.
— Ofereço um dólar por seus pensamentos — disse Grant, abrindo a porta e
entregando a Mac uma xícara de café. — Apesar de já desconfiar em quem está
pensando. Gostei dela. Vocês passaram a noite juntos?
— A negócios.
Grant ergueu as sobrancelhas.
— Está perdendo o jeito.
— E você está prestes a perder os dentes — respondeu Mac.
— Ei, calma. Não quis ofender ninguém. Se eu não fosse um homem casado e
feliz, acharia que está com ciúme, e querendo manter-me afastado.
— Não! Quero dizer... — Mac franziu a testa. — Quero dizer que isso é diferente.
— Você está repetitivo e confuso! — exclamou Grant, gargalhando.
Foi quando Frankie riu de algo que Tess estava dizendo e fez com que os dois
homens olhassem para elas.
— Frankie é diferente — afirmou Mac. Grant passou o braço pelo ombro do
amigo.
— Primeiro fica confuso e agora diz que ela é diferente. Estes são os primeiros
sintomas, meu caro. Espere até eu contar a Mattie.
— O quê?
— Que foi atingido pela "maldição" do casamento. A próxima etapa é ouvir a
harpa tocando a Marcha Nupcial de Mendelssohn. Guarde minhas palavras.
Mac o fitou, atônito. Tinha conhecido Frankie na mansão Barclay, e ouvira a
harpa tocando...
Não! Não podia ser. E como não ouviria a Marcha Nupcial? Aquela era uma
cerimônia de casamento.
— Mac?
— O quê? — Deixando de lado os pensamentos, ele virou-se e viu Tess e
Frankie no jardim.

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Momentos Intimos 056

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— É melhor ir logo, se quisermos passar na escola antes do meu programa —
avisou Frankie. — Tess e eu temos um plano.
— Não, a idéia é de Frankie, mas achei maravilhosa — corrigiu Tess.
Mac estudou as duas por um minuto.
— Não tenho certeza se quero ouvir — brincou.
— Tess acha que Ada Mae tem razão — explicou Frankie, subindo à cozinha. —
Se você for até a escola pedir informações às crianças, pode assustá-las. Achamos que
deve falar com a diretora, sra. Garrison, e pedir uma assembléia.
— Esperem um pouco. Estão sugerindo que eu fale com toda a escola de uma
só vez? Como eles poderão sentir-se mais à vontade?
— Só vai explicar a situação de Katie, enfatizar a importância de encontrá-la o
mais depressa possível. Depois delegará a responsabilidade a todos, nomeando-os
seus ajudantes. Trabalhando para você, eles podem falar diretamente conosco, usar o
número da fazenda ou mesmo o programa no rádio. Irão se sentir importantes.
— Não é má idéia — concluiu Mac, olhando para as duas. Tess sorriu para
Frankie.
— É um enorme elogio, vindo dele. Mac dirigiu-se para a caminhonete.
— Só saberemos se vai funcionar se vocês não ficarem conversando o dia todo.
Frankie foi para o carro. Antes de fechar a porta, sorriu, confiante, para Tess.
CAPÍTULO CINCO
Foi uma ótima idéia", pensou Frankie ao ver Mac falando para todos os
estudantes da escola, dentro do auditório.
De onde estava, podia ver a expressão de algumas crianças. Era evidente o
entusiasmo por terem sido nomeadas ajudantes do delegado. Estavam orgulhosas de
suas responsabilidades.
Frankie também analisou Mac, que, sentado em um banco, parecia à vontade,
como se falar para um auditório cheio fosse algo que fizesse todos os dias. Porém,
havia um traço de tensão no maxilar e nos ombros. Cada vez que olhava para aquelas
crianças lembrava-se de Katie, sem saber quando a veria de novo. Frankie sabia o que
ele estava pensando porque as mesmas imagens lhe ocorriam.
Mac era um homem admirável. Apesar de preocupado, ao entrar no palco sua
primeira providência para deixar todos relaxados foi fazer algumas brincadeiras. Aquilo
não era parte de uma técnica para lidar com pessoas, mas sim uma verdadeira
preocupação com elas.
Frankie assustou-se consigo mesma. Estava bastante vulnerável em relação
àquele homem. A atração física era muito forte. Ao lembrar-se da história de Tess sobre
o fantasma casamenteiro, estremeceu. Não poderia ser.

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As vozes infantis trouxeram-na de volta à realidade. As crianças saíam do
auditório e ela apressou-se para alcançar Sally Cárter, a melhor amiga de Katie,
segundo a diretora.
— Sally? — No momento em que a menina virou-se, Frankie percebeu-lhe o
medo no olhar. — Não tema. Sou amiga de Katie. Sei que eram amigas também. A sra.
Garrison deixou que eu falasse com você. Podemos usar o escritório dela, se achar
melhor. Sei que não me conhece.
— Você é a dra. Frankie. Reconheci sua voz — explicou a garota, olhando-a por
sobre os óculos.
— Tem um bom ouvido. Gostaria de saber se pode me ajudar a descobrir algo.
Katie esteve na minha casa por algum tempo na terça-feira, dia em que desapareceu.
Estava me esperando e desenhou um S na escada. Tem idéia do que essa letra possa
significar?
Sally olhou para baixo.
— Eu a ajudei a encontrar os dados do pai e a localizá-lo pela Internet —
declarou, olhando em seguida para Frankie.
— Foi por isso que ela fugiu, não foi? Para ficar com ele. Foi tudo minha culpa. O
delegado vai me prender?
— Não. — Frankie segurou as mãos da menina. — Ele não pode prender você
por isso. Além do mais, Katie não fugiu para ficar com o pai. Então, não deve culpar-se
pelo que aconteceu.
— Tem certeza?
— Pode perguntar ao delegado — disse ela ao vê-lo em pé atrás da menina.
— Não existe lei contra localizar pessoas pela Internet — explicou Mac. — Você
deve ser muito boa com computadores.
— Gosto de brincar com eles.
— E procurou mais alguma coisa na Internet com Katie?
— Tentamos saber mais sobre a dra. Frankie, mas não conseguimos muita
coisa. Achamos o nome da estação de rádio e alguns artigos de jornal. A maioria era
sobre Suzana Markham.
— Sally virou-se para Frankie. — Katie disse que você só estava tentando ajudar
aquela garota. Então juramos não contar nada a ninguém.
— Katie estava certa. A dra. Frankie tentou ajudar Suzana — confirmou Mac. —
Há quanto tempo fizeram essa pesquisa?
— Alguns meses atrás.
— E Katie mencionou alguma coisa sobre fugir de casa para encontrar o pai?
Sally negou com um gesto de cabeça.

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— Quando ela desapareceu, eu achei que... bem, ela estava tão ansiosa para
vê-lo... Katie vai voltar?
— Vai — respondeu ele, abraçando a menina. — E você é uma ótima amiga,
Sally. Se lembrar de mais alguma coisa, por favor me avise. — Em seguida, colocou a
mão no bolso e pegou um cartão. — Aqui está o número do meu celular.
— Obrigada — disse Sally. Após dar um sorriso tímido para Frankie, virou-se e
correu para unir-se aos colegas de classe.
— O que acha? — perguntou Frankie.
— Com o pai, ela não está. Logan Campbell ainda está vigiando o apartamento.
Não vai demorar muito para descobrir se Thorne teve ou não acesso a um conversível
verde.
Instintivamente, Frankie pegou as mãos de Mac. Ambos estavam tensos.
— Nós vamos encontrá-la.
— Vamos? O tempo está passando, doutora. Este é o segundo dia de escola que
ela perde. Olhe para estas crianças e para este lugar! Gostaria que ela voltasse a andar
por aqui.
— Ela vai voltar — disse Frankie. — Estamos progredindo.
— E mesmo? Como chegou a essa conclusão?
— Já sabemos que Katie não se referia a Sally quando desenhou o S.
Mac respirou fundo e a conduziu pelo corredor.
— Você não vai desistir de investigar esse S, não é?
— Não posso ignorar pistas.
— E o que acha de impulsos? — indagou Mac, levando-a para dentro de uma
sala.
— Eu não acho... — Em um rápido movimento, Mac pressionou-a contra a
parede, e o resto da frase se perdeu. Frankie só conseguia sentir o coração disparado e
as pernas trêmulas ao ser beijada. — Nós não podemos — sussurrou enquanto ainda
tinha forças.
— Eu sei, doutora, mas não consigo resistir.
— Isso não vai dar certo. Mac achou forças para sorrir.
— Eu achei que estava indo tão bem...
— Sabe do que estou falando. Você deu a sua palavra.
— Doutora, eu precisava disso — declarou ele, brincando com uma mecha de
cabelo de Frankie. — Talvez você também.
— Nós não temos tempo para esse tipo de coisa.
— Está bem — disse Mac, erguendo as mãos. — Foi um impulso. Não me
contive.

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Ao desligar o microfone, Frankie encostou-se na cadeira e fechou os olhos.
Estava na hora do comercial, e ela não conseguia deixar de pensar na segurança que
sentira nos braços de Mac. Não se lembrava da última vez que tivera tal sensação.
— Frankie! Você está no ar.
Havia uma ligação, pronta para ser atendida.
— Vocês estão ouvindo a W.U.T.N em Utica. Aqui é a dra. Frankie. Tem alguma
pergunta para mim?
— Dra. Frankie, sou Kim Kelly. Acho que vi o carro de que falou ontem. Não sei
se era verde porque não enxergo muito bem. Chamei o meu pai e ele disse que era
mesmo verde. Disse também que era um Jaguar.
Dentro da cabine à prova de som, Mac tomou notas enquanto Frankie
continuava a interrogar Kim Kelly. Era a terceira ligação sobre o automóvel. As duas
anteriores eram questionáveis. Havia crianças rindo na primeira e nenhuma delas
fornecia informações novas.
Mas Kim parecia diferente. O fato de ele ter confirmado a cor com o pai antes de
ligar dava mais credibilidade. Além disso, a hora e o dia batiam com a informação dada
por Jonny Taylor.
— Meu pai acha que se lembra de dois números ou letras da placa, mas o carro
andava depressa demais e ele não tem certeza.
— O que ele viu? — perguntou Frankie.
— Um cinco ou um S. Também podia ser um dois ou um sete — respondeu Kim.
Mac ligou no mesmo instante para a polícia, enquanto Frankie fazia o garoto
repetir a história.
Entusiasmado, Mac fez sinal de positivo. Com a marca e uma provável letra ou
número ficaria mais fácil localizar o tal carro, talvez até mesmo o proprietário.
Foi quando uma voz distorcida começou a falar, em uma das ligações recebidas.
— Eu avisei. Não vou deixar que faça mal a outra criança. Vá...
Uma música substituiu depressa a voz, e Mac colocou os fones. Mesmo com a
distorção, percebia-se a fúria da pessoa do outro lado da linha.
— Vá embora. Antes que outra criança morra.
Mac procurou a identidade do ouvinte no receptador de ligações, mas não
conseguiu nada. O fato podia significar uma ligação de longa distância ou uma
chamada de celular.
Mantendo um dos fones pressionado contra um ouvido, Mac falava e segurava o
telefone do outro lado. No momento em que desligou, foi para junto de Frankie. Sem
dizer nada, tomou-lhe a mão.
— Alguém lá fora tem a mesma opinião que você sobre psicanalistas, delegado
— disse ela, tentando sorrir.

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— Percebi. Você está bem? — Frankie não parecia nada bem. Estava pálida
demais. Mac teve vontade de pegá-la nos braços e levá-la embora. — Vamos — disse,
puxando-a da cadeira.
— Não. Vou ficar. Ainda temos quarenta e cinco minutos de programa. Se eu for,
podemos perder alguma informação sobre Katie.
Diante de tanta determinação, Mac recuou.
— Está bem.
De volta à cabine de som, ele passou os quarenta e cinco minutos fazendo
planos para a noite.
— Frankie?
A voz parecia vir de muito longe e interferia em seu sonho. Ela e Mac juntos, de
mãos dadas... em uma igreja?
Frankie despertou, mas não abriu os olhos. Fingiu continuar dormindo. Sabia
exatamente onde se encontrava. Encostada no ombro de Mac, sentada ao lado dele na
picape. Dormir e acordar ao lado de Mac Delaney estava se tornando um hábito. E isso
precisava mudar.
Na carrocería, havia duas sacolas cheias de compras. Mac iria preparar o jantar
na casa dela. Aquilo devia fazer parte de um plano de sedução. Frankie decidiu que
colocaria um ponto final na história.
— Chegamos — ele avisou.
"Mac não pode entrar", disse a si mesma.
— Seria melhor que você fosse embora.
— Melhor para quem? — indagou ele, acariciando-lhe o rosto.
— Para aquele covarde que a assustou durante o programa? Pedi que
instalassem um rastreador de chamadas no chalé. A estação de rádio já tem um, e o
seu estará funcionando amanhã. Mas, se ele usar um celular, não vai adiantar. Porém,
precisamos tentar. Além do mais, vou preparar o melhor prato que já comeu. — Mac
abriu a porta e, após Frankie sair, pegou as sacolas e acompanhou-a para dentro de
casa. — A polícia está checando todos os dados. Vão ligar para o meu celular assim
que encontrarem algo. Nós dois precisamos comer. E dormir. Não posso deixá-la
sozinha. Temos, então, duas opções.
— Tirou do bolso uma moeda. — Se der cara, eu a levo comigo para a
delegacia. Se for coroa, você abre esta porta e vou ensinar-lhe como se faz um
verdadeiro talharine.
Frankie tirou a chave da bolsa.
— Você ganhou. Mas vai dormir no sofá. Mac sorriu.
— Onde mais um homem poderia dormir, passando a noite com uma
psicanalista?
— Ora!

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Ignorando-o, Frankie abriu a porta e o convidou a entrar. Mac colocou as
compras sobre o balcão da cozinha e foi até o telefone.
— Há duas mensagens na secretária — disse Mac. — Pronta?
— Sim.
— Francesca? Aqui é sua mãe. Se estiver em casa, atenda... Está bem, continue
teimosa, mas eu me recuso a ligar para o seu programa. James Stanton telefonou e
contou-me sobre o último escândalo em que se envolveu. Prometeu falar com você e
tentar fazê-la recobrar um pouco do juízo. Pelo amor de Deus, converse com ele!
Quando a mensagem terminou, Mac aproximou-se de Frankie e pegou-lhe as
mãos, enquanto ouviam a segunda gravação.
— Francesca, não acho nada divertida essa onda de publicidade. Já recebi três
ligações de repórteres. Está tentando destruir a reputação da Clínica Summerhaven?
Se isso é algum tipo de retaliação pelo fato de eu ter terminado o nosso noivado, sugiro
que faça uma terapia. Esse alvoroço pode aumentar um pouco a sua audiência, mas
não vai demorar muito para que os pais proíbam as crianças de pedir seus conselhos.
Seria melhor para todos os envolvidos no caso que você se afastasse. Que fosse para
bem longe.
Após o término da mensagem, Mac respirou fundo, tentando deixar de lado a
raiva que sentia. Mais tarde cuidaria desse assunto. Precisava cuidar de Frankie. As
mãos dela estavam frias e o olhar parecia perdido.
— Que pessoas agradáveis e gentis! Costumam ligar sempre?
— Não.
— Sorte sua. Vamos! — Mac a fez sentar-se em um banco junto ao balcão da
cozinha e pegou uma garrafa de vinho de uma das sacolas.
Frankie só conseguia fitá-lo. Estava esperando um interrogatório. No entanto, ele
parecia preocupado em abrir a garrafa e encher as duas taças que retirou do armário.
— A última chamada foi de James Stanton — explicou ela.
— Foi o que deduzi. Não disse que foram noivos.
— Um momento de loucura em minha vida — respondeu ela, preparando-se
mais uma vez para um batalhão de perguntas que não vieram. Mac ficou quieto, tirando
os produtos das embalagens.
— Agora vou dar-lhe a primeira aula de culinária.
E, para surpresa de Frankie, foi exatamente o que ele fez. Sentia-se à vontade
na cozinha.
— Isso deve ser mais difícil do que parece — comentou ela.
— Requer muita prática. Quer tentar?
— Não, obrigada. Contento-me em olhar.

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Quando Mac acabou de cortar os tomates e refogar os temperos, a casa estava
com um aroma delicioso. Frankie sentia-se bem e relaxada.
— Experimente o molho — pediu Mac, oferecendo uma colher.
— Sua mãe deve ter sido uma cozinheira e tanto! — exclamou ela, surpresa com
o gosto.
— Mamãe sempre ficava muito feliz na cozinha e insistia para que Tess e eu
aprendêssemos o fundamental.
Após um gole de vinho, ele fez a água do talharim escorrer e cobriu-o com o
molho.
— Se eu comer um quarto de tudo isso, não conseguirei nem subir a escada.
— Sem problemas — assegurou Mac, pegando um prato. — Você pode dormir
no sofá.
Frankie não conseguiu evitar o riso.
— Você nunca desiste, não é?
Inclinando-se sobre o balcão, Mac acariciou-a no rosto.
— Muito observadora. Agora pode comer.
Enquanto jantavam, Mac passava as informações que recebera da polícia. Três
dos cinco molestadores infantis que haviam selecionado na delegacia estavam presos.
Os investigadores tentavam localizar os outros dois.
— Então, tudo o que temos a fazer é esperar — concluiu Frankie ao cruzar os
talheres sobre o prato.
— A polícia trabalha devagar, mas com certeza e segurança.
— Tess contou-me por que você deixou seu emprego em Nova York e voltou
para Barclayvile. Mesmo assim, ainda é um policial. Por que tem tanta fé no sistema?
Mac ergueu os ombros.
— O truque está em manter o sistema trabalhando para você. Não é isso que
está fazendo?
— O que quer dizer?
— Você ainda exerce sua profissão, mesmo não tratando de pacientes e não
trabalhando em uma clínica. Mas, quando uma criança em apuros liga para a dra.
Frankie, você a ajuda e usa qualquer parte do sistema para fazer isso. Kyle contou-me
que entra em contato com uma advogada, uma assistente social e às vezes um juiz. No
caso de Benny Wilson, foi falar com a diretora da escola. — Ele ergueu o copo de
vinho. — Encare a verdade, doutora. Temos muito em comum. Somos dois fugitivos que
dão um jeito para sobreviver usando a fórmula que acreditamos correta.
Frankie ergueu a taça e aceitou o brinde.
— Preste atenção. O senhor está começando a se parecer com um psicanalista.

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Momentos Intimos 056

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— Bobagem. Estou é tentando descobrir como alguém como você se envolveu
nesse ramo.
Ela sorriu.
— Rebelião adolescente. Minha mãe ainda não aprova minha escolha.
— Mas aprovava seu relacionamento com James Stanton, certo? O sorriso de
Frankie desapareceu.
— Ela o adorava. As credenciais de James eram impecáveis, tinha amigos certos
na comunidade científica e ofereceu-me um emprego de prestígio. Mamãe chegou até a
fazer uma generosa doação à clínica.
— E você? Adorava-o também?
— Eu achava que sim — respondeu, olhando dentro dos olhos de Mac.
— Até que ele terminou tudo — concluiu ele.
— A memória de James é seletiva e não muito precisa. Fui eu quem terminou o
noivado, na noite em que ele entregou Suzana aos pais.
Mac lembrou-se da mensagem deixada na secretária.
— Então era ele quem poderia querer uma vingança...
— Vingança? — Frankie franziu a testa. — Onde quer chegar?
— O sobrenome dele começa com S.
Frankie balançou a cabeça, procurando entender.
— Você não pode estar falando...
— Sério? Sim, estou. É você que insiste em dizer que Katie desenhou um S
naquele degrau. Uma vez que adora se basear em teorias e hipóteses... Bem, às vezes
vamos a lugares interessantes com elas.
— E como Katie poderia saber sobre Stanton?
— Sally Cárter disse que teve acesso a informações sobre você. Suponho que
Stanton tenha dado várias entrevistas após o suicídio de Suzana.
Frankie abriu a boca e em seguida fechou-a. Por fim, disse:
— Não pode estar achando que ele tenha seqüestrado Katie.
— Não. — Mac deu mais um gole e colocou o copo sobre a mesa. — Mas acho
que ele pode ter alguma coisa a ver com as mensagens anônimas que anda
recebendo. Stanton tem motivos para querer que você vá para longe de Syracuse,
depois de tudo o que aconteceu. A clínica ficou muito exposta. Agora, que a imprensa
voltou a mencionar a história, tem mais motivos para livrar-se de você. Ou será que
percebi mal o caráter desse homem?
Frankie ficou pensativa.
— Não. James é capaz de deixar mensagens anônimas. Mas não acho que...

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Momentos Intimos 056

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— Só quero que pense na questão — interrompeu Mac, segurando-lhe as mãos.
— E bastante. Levante hipóteses, crie teorias e faça um levantamento das pessoas que
possam estar por trás desses telefonemas.
— Acha que já não tentei?
— Tente mais. E pare de proteger James Stanton.
O olhar de Mac continuava frio e direto, mas a forma como segurava as mãos de
Frankie deixava transparecer a revolta que sentia.
— Está bem. Suponhamos que James tenha feito as ligações. Mas por que teria
dito quem eu era aos repórteres, se quer evitar publicidade?
— Para certificar-se de que seu público saberá quem você realmente é — disse
Mac, levantando-se. — Para que fosse demitida. Você ainda está tentando protegê-lo.
Mac respirou fundo. Por um momento quase perdeu o controle, levado pela
revolta e pelo ciúme.
— Devemos nos concentrar em encontrar Katie.
— Sabe, doutora, existe uma teoria sobre a possibilidade de fazer as duas
coisas ao mesmo tempo. As vezes, é até mais produtivo. Você nunca se concentrou em
um ponto e de repente encontrou a solução de outro problema?
— É uma hipótese?
O sorriso de Mac ficou mais largo e espontâneo.
— Podemos fazer um teste. Procurar evidências e sustentá-las com fatos. Que
tal discutir o assunto ali no sofá?
— Você é louco, Delaney. — Mesmo sabendo ser um erro, Frankie não recuou
nem impediu que ele acariciasse seus cabelos.
— Está bem, então vamos começar sem o sofá.
Frankie colocou a mão no peito dele. Iria empurrá-lo, porém os dedos foram para
dentro da camisa.
— Só um beijo. Preciso desse tratamento, doutora. Não vou além disso.
Prometo.
Ela não poderia recusar, não quando tudo o que queria era sentir os lábios
daquele homem nos seus. Mas, se o deixasse agir, estaria perdida. Com as pernas
bambas e o corpo mole, não se conteve.
A boca de Mac tocou-a com delicadeza e carinho. O beijo mais parecia um
sonho, e as defesas de Frankie foram se dissolvendo.
Diante da reação receptiva, Mac sabia que tudo lhe estava sendo oferecido. Ela
não recuaria, e a tentação o fez puxá-la com mais força. Mas tinha pedido só um beijo,
e sabia que não deveria ir além. E não só porque prometera isso.

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Momentos Intimos 056

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Na verdade, queria muito mais, de Francesca Carmichael, do que um simples
momento. Queria tê-la... para sempre? A constatação o fez sentir um nó no peito.
Devagar, recuou.
Os olhos de Frankie ainda estavam fechados. Quando se abriram, ainda
demonstravam vulnerabilidade. Mac quis abraçá-la, mas não o fez. Colocou as mãos
nos ombros dela. Procurava equilibrar-se ou ampará-la?
— Algo está acontecendo aqui. Nunca senti nada parecido.
— "Porque nunca me apaixonei", pensou. Surpreso consigo mesmo, olhou para
Frankie. Devagar, respirou fundo e soltou o ar. — Doutora, preciso de sua ajuda.
— Minha ajuda?
— Profissional — assegurou ele. — Tess lhe contou algo sobre... Quero dizer, ela
explicou a razão de Grant oferecer-nos um jantar na Mansão Barclay?
— Sim, e acho essa história uma loucura — disse, afastando-se para pegar a
taça de vinho. Porém, ao perceber que estava trêmula, mudou de idéia. — Acho que
está confuso por falta de sono. Nós dois estamos. E existe uma solução bem simples
para esse problema. — Ao ver a expressão e o olhar com segundas intenções, ela
ergueu a mão, evitando ser interrompida.
— Fizemos um trato. Eu vou dormir no meu quarto e você, aqui no sofá. —
Virando-se, subiu a escada.
Mac esperou até que ela alcançasse o último degrau.
— Mais uma coisa, doutora. Se mudar de idéia, lembre-se de que há bastante
lugar para nós dois neste sofá.
CAPÍTULO SEIS
Foi o barulho do vidro quebrando que acordou Mac. Levantou-se correndo e
pegou o revólver que deixara sobre a mesa lateral. Depois viu a pedra sobre o chão,
embrulhada em um papel e amarrada por uma corda. Estava a poucos centímetros dela
quando ouviu o ruído de um motor e o cantar dos pneus no asfalto.
— Frankie! — gritou, correndo para a porta e destrancando-a. — Fique onde
está!
Ouviu a voz dela mas não distinguiu as palavras, pois já corria sobre o gramado.
Estava escuro. Só viu as luzes traseiras do carro, que logo desapareceu na estrada.
Apressado, dirigiu-se para a caminhonete e abria a porta quando sentiu cheiro de
fumaça.
Olhou para cima e viu chamas nas cortinas do quarto de Frankie. Assustado,
ficou imóvel por um segundo. Podia jurar que seu coração até parou de bater, e em
seguida disparou, em pânico.

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Momentos Intimos 056

A Força da Sedução
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— Frankie! — gritou, apavorado, voltando para a casa. Subiu a escada pulando
alguns degraus, sentindo o medo aumentar a todo instante. Foi quando a viu, no meio
do quarto, apagando as últimas chamas com um extintor de incêndio. Ao se aproximar,
ele pegou o extintor e examinou o resto do quarto. Não havia mais nenhum foco do
fogo. Só as cortinas haviam sido atingidas. A parede ficou um pouco chamuscada,
assim como o chão.
Colocando o extintor de lado, Mac puxou Frankie para junto de si. Se ela não
tivesse acordado... Com medo do que poderia ter acontecido, procurou acalmar-se e
levá-la para fora.
Foi quando viu uma flecha de madeira fincada no assoalho. Ainda com o braço
ao redor de Frankie, inclinou-se para pegá-la. A ponta era de metal, e bem afiada. Um
pedaço de pano queimado ainda estava preso a ela, e Mac sentiu cheiro de gasolina.
— Que droga... — Ele parou no meio da frase ao ver Frankie ter um acesso de
tosse. Pegando-a no colo, desceu depressa a escada e foi para o jardim. — Respire
fundo — orientou, erguendo-se. — Fique aqui. Continue respirando fundo.
Porém, ela se levantou e pegou-o pelo braço.
— Eu também vou. Preciso...
— Não precisa fazer nada — interrompeu Mac, fazendo-a sentar-se de novo. —
O fogo acabou. Vou abrir as janelas e preparar algo para você beber.
— Não compreende? Preciso fazer minhas malas. Tenho que ir embora.
Mac segurou-a pelo ombros e, encarando-a, procurou entendê-la. Frankie estava
pálida, com a respiração ofegante e o olhar determinado. Não era histeria que a
dominava. Ela sabia bem o que estava falando e Mac ficou com medo.
— Você não vai a lugar nenhum — ordenou ele de forma rude. — Podemos fazer
isso por bem, ou vou levá-la para o carro e trancá-la lá. De qualquer forma, vai ficar
aqui. Depois conversaremos.
— Você não está compreendendo! — insistiu Frankie, com os olhos cheios de
lágrimas. — Eu tenho que ir embora!
— Pare! — Mac passou a mão nos cabelos de Frankie. — Não chore. — Sem
saber ao certo o que fazer, abraçou-a e cobriu-lhe os lábios com os seus.
Frankie correspondeu ao abraço e puxou-o para mais perto, mas os lábios
estavam trêmulos. Mac afastou o rosto e acariciou-a. Através da camiseta, era possível
sentir a pele gelada. Abraçando-a mais uma vez, tentou aquecê-la.
Alguns minutos antes ela agira como uma guerreira, em pé no meio de toda
aquela fumaça, apagando as chamas até o fim, e naquele momento estava frágil,
procurando amparo nele como nunca fizera.
Ficaram ali, no jardim, por alguns minutos. Gradualmente, os tremores de
Frankie cessaram. Mac não conseguia identificar as diferentes emoções que o
dominavam. Só sabia que não a deixaria ir embora. Afastou-se e disse com calma:

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— Volto logo. Quero abrir todas as janelas e chamar a polícia estadual. Depois
vamos conversar.
Só quando Frankie concordou, Mac entrou no chalé.
Ela passou os braços ao redor de si mesma e abaixou a cabeça, apoiando-se
sobre os joelhos. Lembrou-se da flecha e da ameaça a Katie Delaney. Precisava
organizar as idéias e fazê-lo compreender o que estava acontecendo.
Forçou-se a respirar fundo, mas começou a tossir. A garganta estava seca e
dolorida, como se estivesse queimada pela fumaça inalada. Precisava dar um jeito em
Mac Delaney e ir embora. Precisava pensar. Essa era sua melhor arma.
Deveria convencê-lo de que a história estava se repetindo. Indo embora, evitaria
que a situação piorasse. Pelo bem de Katie e pelo próprio bem.
Virou-se no momento em que ouviu os passos de Mac. Ele trazia dois copos de
vinho, e, após colocá-los sobre o degrau, entregou-lhe um conjunto de moletom e um
par de tênis.
— Vista isso antes que comece a tremer de novo. Falei com Jack Maloy, um
amigo do departamento estadual de investigações. Logo estará aqui. — Enquanto
Frankie se vestia, Mac voltou para dentro do chalé. Poucos segundos depois retornava,
colocando a jaqueta jeans sobre os ombros dela. — Seu perseguidor anônimo deixou
uma pequena mensagem amarrada à pedra — disse ele ao sentar-se, colocando a
flecha e a pedra no degrau de baixo.
Frankie o observava enquanto ele tirava o papel com cuidado, segurando só
pelas pontas para abri-lo. Ouça: "Saia da cidade antes que seja responsável pela morte
de outra criança". Ele está começando a se tornar um pouco repetitivo. Tenho que
admitir que lançar a flecha pela janela deu um novo toque à situação.
Frankie balançou a cabeça.
— Está tudo igual. Nada é novo. A história está se repetindo.
— Espere. Você disse que ele colocou fogo no seu apartamento de Syracuse.
Está dizendo agora que ele também usou uma flecha com uma tocha, daquela vez?
— Sim. O fogo é o último passo. Depois do que aconteceu, o proprietário
cancelou o contrato e por isso...
— Não achou que o detalhe da flecha fosse importante? Por que não o
mencionou antes? Isso aqui é o Estado de Nova York, não o Velho Oeste.
Frankie ergueu o rosto.
— Você acha fácil, para mim, falar sobre o assunto? Fui presa por suspeita de
seqüestro, depois Suzana cometeu suicídio e comecei a receber as ligações anônimas.
Tentei deixar tudo de lado, mas, quando puseram fogo em meu apartamento, fugi. Acha
que tenho orgulho de tudo isso?
Mac apertou-a com mais força.
— Você não foi responsável pela morte de Suzana. Os pais dela sim, além
daquele seu antigo noivo. Desta vez, não vai fugir para lugar algum.

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— Eu preciso. — Frankie colocou as mãos no peito de Mac. — Pense um pouco.
Leu o bilhete. Se eu não for embora, posso ser responsável pela morte de Katie. Não
vou deixar que isso aconteça. Nem você.
— Algum covarde escreveu-lhe um bilhete anônimo e isso não a torna
responsável por Katie. São dois problemas distintos. E desta vez vamos... — Mac não
terminou a frase. — Espere um pouco. E se... Enquanto raciocinava depressa, olhou
para o degrau de baixo, onde estavam a pedra e a fecha. Evidências que pareciam
ajudar pouco. — A história se repetindo... — murmurou ele, virando-se para Frankie. —
E se não forem dois problemas separados?
— O que está dizendo?
— Foi você quem disse essa frase. E se esse covarde dos telefonemas estiver
ligado ao desaparecimento de Katie? Pense um minuto, doutora. Quando, exatamente,
ele ligou na noite em que Katie desapareceu?
— Depois que fui me deitar. Pouco antes de sua chegada.
— Então Katie já tinha desaparecido. Pode lembrar das palavras dele?
Frankie pensou por um instante.
— "Vá embora, antes que outra criança desapareça. Vá embora agora."
— Tem certeza de que ele usou "antes que outra criança desapareça'?
— Sim. Tenho a frase bem clara em minha mente, pois logo em seguida você
chegou, falando sobre Katie.
— Então, quando recebeu o telefonema, não sabia que Katie tinha fugido. E a
mensagem era diferente das outras, que vieram depois que o caso de minha sobrinha
se tornou público. Todas elas falavam sobre não prejudicar outra criança ou na
possibilidade da morte de uma delas, certo?
— Certo.
— Estávamos sentados aqui há algumas noites quando me falou como trabalha
um psicanalista. Agora, quero contar-lhe como um policial trabalha. Eu, ao menos. —
Mac apontou para a pedra e a flecha. — Uma das razões de gostar de evidências e
fatos é porque podemos unir os pedaços e reagrupá-los de formas diferentes, para ver
o que acontece.
Ao olhar para Frankie, que o escutava atenta, Mac desconcertou-se. Voltou a
desejá-la e liberou suas fantasias. Nada daquilo poderia acontecer, mas era
incontrolável. Com esforço, continuou:
— Bem, o que temos é uma criança desaparecida e telefonemas anônimos de
alguém com habilidade com arcos e flechas, e que deseja mandá-la embora da cidade.
É alguém que tem noção de tempo. É como se ele soubesse do desaparecimento de
Katie, um conhecimento que só o seqüestrador teria. E se na primeira mensagem ele
estivesse ameaçando pegar uma criança caso você não partisse?
Frankie balançou a cabeça.

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— Isso não faz sentido. Katie já tinha desaparecido quando ele ligou. Por que a
primeira mensagem não foi igual às outras?
— Ponto seu. Tem razão. Sabe, você seria uma ótima policial. Vamos tentar
analisar tudo por outra ótica. Suponhamos que ele tenha levado Katie. Em seguida, liga
para você e diz que, se não for embora, outra criança desaparecerá. Porém, sabe que
só depois de quarenta e oito horas a polícia consideraria Katie desaparecida. Se
conseguisse assustá-la nesse meio tempo, você seria a primeira suspeita do seqüestro.
— Está sugerindo que ele seqüestrou Katie por minha culpa? Por quê?
— Vingança. Obsessão, sei lá. Deve saber bem como esses loucos se
comportam, seguindo uma lógica diferente da normal. Você chamou a atenção dele
quando apareceu na imprensa, no caso de Suzana Markham.
Frankie levantou-se e começou a andar de um lado para outro.
— Você está certo. Assim, tenho mais um motivo para ir embora. Caso contrário,
Katie morrerá.
Mac depressa pôs-se ao lado dela.
— Não. Se eu estiver mesmo certo, você não pode ir embora. É a única ligação
que temos com o seqüestrador de Katie. Se fizer o que ele quer e fugir, pode ser que
nunca mais tenhamos notícias. Quero que jure que vai ficar até encontrarmos Katie.
Frankie encarou-o por um minuto. Ele tinha razão.
— Você é muito bom em seu trabalho, delegado. Fez a encenação de modo a
me fazer sentir culpada o bastante para ficar.
Mac ergueu os ombros e segurou-a pelas mãos com firmeza.
— Mais ou menos. Levantei uma hipótese que quero investigar — disse,
sorrindo. — E você ficou bastante intrigada. Pense em tudo o que o S pode sugerir.
Stanton, Summerhaven, Suzana. Farei o que for necessário para encontrar Katie. Qualquer coisa. Uso até os seus métodos.
— Está bem.
Mais uma vez Mac estava certo. Era impossível não se envolver com ele.
— Vamos manter nosso acordo. Você me ajuda e eu tomo as decisões. Dê-me
sua palavra, doutora. —Um carro de polícia estacionou na frente do chalé. Mac não se
distraiu. — Quero sua palavra.
— Está bem. Vou ficar até encontrarmos Katie.
Só então ele se virou para os policiais que cruzavam o gramado.
— Jack? — Mantendo um braço ao redor dos ombros de Frankie, levou-a para
cumprimentar o amigo. — Tenente Jack Maloy, esta é Francesca Carmichael. Jack e eu
estudamos juntos.
— Muito prazer. — Jack Maloy apresentou o companheiro. — Este é o oficial
Carlton.

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Após os cumprimentos, Mac levou-os para mais perto da casa.
— Tenho um bilhete, uma pedra e uma flecha. Com o sofisticado equipamento
de seu laboratório, terá mais chance de encontrar alguma impressão digital que nos
ajude a encontrar o culpado.
Algumas horas mais tarde, Frankie se encontrava na delegacia, exausta. Não
dormiram mais após o incidente e ainda tinham muito trabalho pela frente.
— E se não conseguirmos encontrar Katie? — perguntou ele por fim.
— Nós vamos encontrá-la — insistiu Frankie. — Nem ao menos pense na
possibilidade de não a achar. E, o que quer que faça, não crie fantasias. Quando
pensar em Katie, precisamos vê-la sorrindo, feliz. Temos que acreditar que ela voltará.
Mac estudou-a por algum tempo.
— Isso está me parecendo crendice, doutora. Frankie ergueu o queixo.
— Estou falando sério. Estudos foram feitos por professores universitários muito
respeitados e eles revelaram uma forte ligação entre o que você acredita ou visualiza
em sua mente com o que consegue fazer. E quero chamar a atenção para que, nessa
comunidade, crendices e resultados estão muito ligados. Foi você mesmo que me
contou que todos em Barclayvile acreditam em um fantasma casamenteiro, e que o
índice de casamentos chegou a aumentar. Esse fato daria ótimos estudos.
Mac sorriu.
— Concordo com você nessa questão. E acho que sua teoria sobre o que está
acontecendo em Barclayvile tem certa lógica. — Entregando uma caneca de café a
Frankie, ergueu a sua para um brinde. — Vou seguir seu conselho. Daqui em diante,
imaginarei Katie como a vi da última vez, alegre e sorridente.
Frankie viu-se imaginando a mesma cena enquanto tomava o café.
— O tenente Maloy não disse que havia passado um fax com a lista dos
conversíveis verdes? — perguntou Frankie, desviando a atenção de ambos para o
problema. O que temos nessa lista? — insistiu ela.
Mac entregou-lhe algumas páginas.
— Procure por nomes que lhe digam algo. Maloy irá checá-los, especialmente os
indicados por nós. Circule qualquer um que puder estar ligado a mim, Katie ou Tess. Ou
até mesmo a você. E certifique-se de que marcou os que começam com S.
— Então acha que eu estava certa, que Katie tentou deixar-nos uma
mensagem?
— Doutora, estou começando a respeitar suas teorias, porém acredito que o
homem que faz as ligações anônimas possa ser o mesmo que seqüestrou Katie. Assim
que verificarmos esses nomes, vamos fazer uma lista de todas as pessoas e lugares do
seu passado cujo nome comece com S.
CAPÍTULO SETE

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Frankie era uma mulher admirável. Em primeiro lugar, tinha a astúcia e
inteligência essenciais em investigações criminais. Fora ela que levantara a questão de
o Jaguar ter sido alugado. Logan Campbell poderia conseguir o nome desses
motoristas. Mas não era só o cérebro de Frankie que a ajudaria a ser uma boa policial.
Tinha também uma determinação invejável. Devia estar tão cansada quanto Mac, mas
concentrava-se no que fazia.
Também era muito corajosa. Uma verdadeira guerreira. Havia também o fato de
ter enfrentado um bêbado para defender uma criança, e de estar sempre disposta a
recomeçar sua vida. Sozinha.
Ela poderia considerar-se uma covarde por ter fugido. Entretanto, Mac conhecia
poucas pessoas com tanta coragem. Frankie só precisava enfrentar seus problemas e
parar de fugir.
Porém, será que ele não estava agindo da mesma forma? Nos dois anos em que
se encontrava em Barclayvile, recusara-se a aceitar qualquer proposta que
representasse sua permanência definitiva na cidade. Continuava sendo um delegado
interino, que a qualquer momento podia voltar para Nova York.
E Frankie continuava fugindo da Clínica Summerhaven e da culpa pelo suicídio
de Suzana. A nova vida que construíra era baseada no anonimato, que fora destruído
quando tentou ajudar Tess a encontrar Katie.
Quando se entreolharam e ela colocou o lápis sobre a mesa foi que Mac decidiu
que seus dias de fuga haviam chegado ao fim. Assim como os dela.
— Que tal um pouco mais de café? — perguntou. Frankie não respondeu. Ficou
em silêncio. Mas estava diferente, até na forma de sorrir. — Café? — repetiu ele,
erguendo a caneca.
— Não. Acho que já consumi cafeína demais.
— Está bem. Agora, conte-me o que achou.
— Não quero que pense que concordo com a sua teoria.
— Nossa teoria — corrigiu Mac, com sorriso ainda mais largo. — Sou o
responsável pela idéia de que o maluco do telefone seja a pessoa que seqüestrou
Katie, mas foi você que insistiu na hipótese de ela ter deixado uma mensagem com o S.
Frankie olhou para a lista. Era perda de tempo discutir com Mac. Embora
relutante, começava a concordar com ele. Não podia deixar suas emoções
atrapalharem as investigações.
— Número um: Stanton. Concordo que ele possa estar atrás das ameaças
telefônicas. Faria qualquer coisa para proteger a reputação de Summerhaven. E,
enquanto eu estiver na região, há sempre a possibilidade de a história de Suzana
ressurgir e prejudicar a clínica. — Fazendo uma pequena pausa, bateu de leve o lápis
na mesa. — James é capaz de ameaçar-me pelo telefone e até de incêndios, apesar de
eu ter um pouco de dificuldade para aceitar o fato. Mas... seqüestro? Nunca. Se fosse
pego, estaria arruinado. James tem medo de se comprometer.

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— Mas ele não poderia ter um cúmplice? Assim, não sujaria as próprias mãos. E
esse cúmplice poderia até ser considerado o único culpado, se algo desse errado.
Assim como aconteceu com você, no caso de Suzana. Isso sem mencionar que ele
pode esconder uma criança na clínica, e que Summerhaven começa com S.
Frankie olhou para as anotações. Tinha cogitado a mesma hipótese. Por isso
escrevera o nome da clínica logo abaixo do de Stanton.
— Que tal procurarmos provas? Acho que devemos visitar James e ver se
encontramos algo que sirva de suporte para nossas idéias.
Mac sorriu.
— É impressionante a forma como estamos seguindo a mesma lógica. E quem é
o próximo de sua lista?
— Os pais de Suzana. Stuart e Sylvia Markham.
— Nunca mencionou que o nome dos dois começa com S.
— Mas nunca cheguei a pensar na possibilidade de eles estarem envolvidos no
desaparecimento de Katie. Costumavam culpar-me pelo suicídio de Suzana. Acho que
não conseguiram conviver com a própria culpa. Cheguei a achar que faziam os
telefonemas. A polícia de Syracuse checou o álibi deles e não conseguiu nada. A mãe
estava internada na Clínica Summerhaven, por causa de uma forte depressão, e o pai
pescava.
— Summerhaven? Achei que eles só tratassem de crianças.
— Sim, mas James faz tudo por dinheiro, e descobri isso tarde demais. Fizeram
um acordo para o tratamento como uma forma de reparar tudo o que havia acontecido.
— Esse homem é surpreendente, e os álibis eram inúteis. Markham poderia ter
contratado alguém para fazer o serviço, ou poderia ter usado o telefone celular. Para
qual companhia ele trabalha? Você sabe?
Frankie negou, balançando a cabeça.
— Não me lembro. Por quê? Mac pegou a própria lista.
— Vou passar os nomes dessa companhias para Logan e pedir que ele verifique
os motoristas que alugaram um Jaguar. Vou checar qual o automóvel de Markham, bem
como o do pai de Katie. Até que a encontremos, todos são suspeitos. E a internação da
sra. Markham nos leva de novo a Stanton. Ela ainda está lá?
— Não sei.
— Mais uma razão para visitar a clínica.
— James não ficará feliz em me ver — disse Frankie. — Talvez ele nem deixe
que eu passe pelos portões.
— Então vamos surpreendê-lo. — Mac olhou para o relógio. — São três horas da
manhã. Ainda temos algum tempo, antes de partir. Vamos dormir um pouco. Você pode
usar a cama da cela do fundo. Eu fico nesta aqui. Não quero que passe a noite sozinha.

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Por um momento ficaram em silêncio. Mac limpava as canecas na pia. Frankie,
procurando ocupar-se, guardou na gaveta o bloco que usava. O telefone tocou. Era o
celular de Mac.
— Delaney — disse ele. — Tess? Não, ainda não tenho novidades. A polícia
estadual está investigando todas as possibilidades. Falei com Jack Maloy e ele me deu
a lista de todos os Jaguares conversíveis. — Passou a mão pelos cabelos enquanto
ouvia a irmã. — De manhã, vou ver se consigo mais detalhes com Logan Campbell. Por
favor, acalme-se. Precisamos manter o otimismo. Sabe como são essas médicas...
Agora, ela veio com uma nova teoria. Insiste em usar técnicas de visualização criativa.
— Sorriu e olhou para Frankie, tampando o fone. — Ela acha que devo levá-la mais a
sério. — Erguendo a mão, voltou a falar com a irmã. — Na verdade, concordo com ela.
Deixe-me explicar tudo...
Frankie o observou conversar com Tess. Ele a poupava de qualquer fato que
pudesse deprimi-la ainda mais. Havia muita generosidade em Mac Delaney, e ela
começava a amar cada particularidade daquele homem.
Amar?
A palavra deixou-a assustada, em pânico.
Não, ela o admirava, desejava-o mais do que tudo, mais do que já desejara
qualquer homem, e desde a primeira vez que o vira. Mas desejo não era amor.
Mac desligou o telefone e virou-se para ela. No momento em que os olhares se
encontraram, ficaram em silêncio.
Ao analisá-la, Mac achou-a mais encantadora do que nunca. Se a tocasse,
mesmo sem querer, não conseguiria manter o controle. Precisava sair daquela sala por
alguns minutos. Procurou algo para dizer, para quebrar a tensão que pairava no ar, mas
foi inútil.
Virou-se e tentou dar um passo em direção à porta.
— Aonde você vai? — perguntou Frankie.
— Tomar um pouco de ar aqui fora.
— Vou com você.
— Não. Prometi a mim mesmo que não a tocaria. Então vou ficar ali fora um
pouco, para que você vá se deitar.. E tranque a cela.
Frankie umedeceu os lábios.
— Fique — pediu.
— Doutora, se eu...
Ela tentou respirar fundo.
— Fique.
Mac tomou-lhe -as mãos e não a deixou terminar a frase.

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Compreendeu o que Frankie queria e, puxando-a para junto de seu corpo,
beijou-a com paixão.
Enquanto se deliciava com as sensações provocadas pelo beijo, acariciava o
pescoço, as costas, os seios e a cintura de Frankie, com movimentos firmes e
delicados. Com certa pressa, tirou-lhe a blusa.
Impaciente, ela ajudou-o a desvencilhar-se da camiseta.
— Toque-me — pediu, deliciando-se com a sensação de ter os seios beijados.
Devagar, passou os dedos o peito forte e másculo, como se quisesse memorizar
cada centímetro.
— Vamos para a cama — os dois falaram ao mesmo tempo.
— Isso é uma loucura — murmurou ele.
— Também acho — sussurrou Frankie, passando a ponta da língua pelo
pescoço forte e abrindo o zíper da calça dele. — Uma deliciosa loucura.
Frankie não sabia quanto tempo ficara deitada, sentindo o corpo de Mac junto ao
seu. Segundos? Anos? Ele ainda irradiava calor e o coração batia disparado.
Fizeram amor na cela da delegacia. Ninguém jamais a tocara daquela forma,
com tanto carinho, dando-lhe tanto prazer.
— Você está bem? — indagou Mac em voz baixa.
— Muito. Acho até que poderíamos fazer isso mais vezes. Ele achou graça e riu,
abraçando-a com ternura.
— A entrada é na próxima curva — informou Frankie. Mac diminuiu a velocidade.
— Tem algum plano para que consigamos entrar sem assustar Stanton?
— Sim. Se eu conhecer o guarda, daremos a impressão de que estamos sendo
esperados. Caso contrário, diremos que queremos conhecer a clínica porque nosso
filho precisa de tratamento. Diremos que foi indicação do dr. Banner.
Mac sorriu.
— Ótimo. Eu já disse que, na minha opinião, você seria uma ótima policial?
— Deixe os insultos para mais tarde. Vamos ver se o plano funciona.
— Relaxe, doutora — disse Mac, colocando a mão sobre a perna de Frankie. —
Tenho o pressentimento de que tudo dará certo.
Ela, nervosa, podia sentir o coração batendo acelerado. Mais do que uma vez
teve vontade de pedir a Mac que voltasse. Mas não podia. Ele estava certo. Se o
desaparecimento de Katie relacionava-se às ligações anônimas, precisavam investigar
James Stanton e Summerhaven.
Ao passar pela curva, Frankie avistou os altos portões de ferro. Quando Mac
parou junto à guarita, ela olhou para um senhor magro de cabelos grisalhos.

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— Callahan? — Abrindo a porta do carro, desceu, e segundos mais tarde
abraçava o porteiro. — O que está fazendo aqui? Não ia se aposentar?
— No ano que vem, com certeza. O que você está fazendo aqui? Será que
Stanton percebeu sua importância e decidiu chamá-la de volta?
Frankie balançou a cabeça.
— Acho que não. Porém, ele deixou um recado na minha secretária eletrônica.
Acho que quer falar comigo.
— Agora que está famosa, ele quer dividir as atenções.
— Famosa? — Frankie começou a rir, mas o homem a interrompeu.
— Não estou brincando, não. Todos aqui ouvem o seu programa. — Afastandose de Frankie, Callahan aproximou-se da caminhonete. — E o senhor, quem é?
Mac estendeu a mão.
— Mac Delaney. Um amigo da doutora.
Por um momento o vigia não disse nada. Ficou analisando o policial.
— Você é aquele delegado. Eu o vi na reportagem ao lado da dra. Carmichael.
Foi sua sobrinha que desapareceu, não foi?
Mac concordou com um gesto de cabeça.
— Espero que a encontrem logo — disse Callahan, andando para perto do
portão, a fim de abri-lo. — Boa sorte com Stanton — desejou, ao ver a caminhonete
entrar.
Mac passou por uma estradinha rodeada de flores silvestres. No alto de uma
colina havia uma grande casa com pilares brancos. Ao chegar na frente do prédio,
parou o carro sob a sombra de uma árvore.
— Fale comigo, está muito quieta. Se não quiser conversar com Stanton, eu
mesmo posso fazer isso. Espere-me aqui.
— Não se trata de James. É que... Você vai me achar uma tola.
— O que foi?
— É o lugar, a estrada. Não venho aqui desde que os pais de Suzana a levaram
embora. Eu parti na manhã seguinte. — Após uma pausa, olhou para a estrada. — No
meu pesadelo, estou correndo por aqui, sempre na chuva, com a roupa molhada. E
ouço o motor do carro cada vez mais longe. Aí escorrego e... Sei que fugir do que
temos medo é a pior atitude a ser tomada. Mas foi o que fiz e continuo fazendo.
— Uma vez ou outra todos nós fugimos, até descobrir que é hora de parar. —
Mac pegou-a pelas mãos e ambos saíram do carro pelo lado do motorista. — Vamos
fazer uma experiência. Olhe para tudo isso e veja a beleza do lugar. A estrada não está
molhada, está?
Frankie olhou para o caminho recém-percorrido.
— Não. Está seca.

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— Agora preste atenção no que ouve.
Frankie se concentrou por um momento e em seguida sorriu.
— Insetos barulhentos e um pássaro cantando.
— Excelente. Agora continue praticando. Acho que essa é a chave para
encontrar uma solução. Muita prática.
Frankie passou os dedos no rosto de Mac e percebeu que ambos se desejavam.
De olhos abertos, aproximaram-se para um beijo. Foi um leve toque de lábios, mas o
suficiente para afastar as imagens que a perturbavam.
Os dois riam enquanto subiam a escada que levava à porta da mansão.
— Lembra-se de nosso plano? — indagou Mac.
— Eu faço as perguntas que você sugeriu e tentamos deixá-lo sem defesas.
Enquanto andavam por um longo e largo corredor, Frankie percebeu que Mac
tentava tornar tudo mais fácil para ela. E conseguia, ajudando-a a ter forças para
enfrentar os fantasmas do passado.
Com segurança, entrou na saleta que antecedia o escritório de James. A séria e
competente secretária olhou para cima.
— Posso ajudar... Dra. Carmichael?
Frankie prendeu o riso diante da expressão de surpresa da sra. Trilby.
— Preciso falar com o dr. Stanton — informou Frankie.
— Vou ver se ele está desocupado.
— Então ele se encontra aí dentro?
Era tudo o que eles queriam saber. Passaram ao redor da mesa, em direção à
porta do escritório.
— Espere...
Frankie sorriu ao deparar com Stanton.
— James, vim responder a seus chamados.
— Francesca? — James Stanton levantou-se da poltrona. A expressão não era
apenas de surpresa, mas também de medo. Porém, ele logo se recompôs. — Que
chamado? De que está...
— Parou no meio da frase para olhar Mac.
— A mensagem que deixou em minha secretária eletrônica — explicou Frankie.
— Eu sabia que faria tudo para me ajudar.
— E, apontando para Mac, apresentou-o. — Este é o delegado Delaney, o tio de
Katie.
— Katie? Ah, sim, a menina desaparecida. Sinto muito. — Contornando a mesa,
os dois se cumprimentaram, apertando as mãos. — Mas não compreendo o que
querem. A menos que... — De repente, James pareceu entender a situação. — Ah!

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Claro! Quer trazer a menina para cá quando a encontrar, para darmos um suporte
psicológico. Nosso pessoal é muito bom. Francesca deve ter-lhe contado.
— Não foi por isso que viemos — disse Mac.
— Então por que estão aqui? — indagou ele, olhando para os dois.
— Viemos falar sobre uns telefonemas ameaçadores que a dra. Carmichael tem
recebido. Alguém quer que ela deixe a cidade — informou Mac.
— Não sei o que esperam de mim.
— Você quer que ela vá embora, não quer?
— Bem, eu... sim. Acho que seria melhor para todos se Francesca fosse para
longe por uns tempos.
Mac deu um passo à frente.
— As ameaças de nada adiantaram. Então resolveu encontrar outra forma de
mandá-la embora? Por que insistiu em assustá-la, colocando fogo na casa onde ela
mora?
— Colocar fogo? — A voz de Stanton ficou mais alta. — Não pode achar que
eu... Como ousa?
Frankie colocou a mão no braço de Mac.
— James não se envolveria em algo assim. Ele não é um criminoso. —
Colocando-se entre os dois, continuou: — James, por favor, desculpe o delegado
Delaney. Ele está muito nervoso com o desaparecimento da sobrinha. Por que não nos
sentamos e pede a sra. Trilby que nos traga uma xícara de chá?
Após alguns segundos de muita tensão, James sentou-se na cadeira atrás da
mesa e pegou o telefone.
— Sra. Trilby, por favor, traga três chás.
— Eu tomo um café — interrompeu Mac.
— São dois chás e um café — disse Stanton antes de colocar o fone no gancho.
Em seguida, pegou um lenço, passando-o pelo rosto e olhando para Frankie. — Talvez
possa me dizer agora por que estão aqui.
— O delegado Delaney acha que os telefonemas anônimos que recebi estão
relacionados ao desaparecimento de Katie. Talvez até ao suicídio de Suzana.
— Isso é ridículo.
Frankie concordou com um gesto de cabeça.
— Foi exatamente o que eu disse a ele. Mas o fato é que recebi o mesmo tipo de
telefonema após a morte de Suzana. Foi por isso que deixei Syracuse. Acho que é a
mesma pessoa que faz as ligações, e deixa sempre mensagens iguais: "Vá embora da
cidade antes que outra criança morra".
— É essa a mensagem? — perguntou Stanton.

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Momentos Intimos 056

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— Em geral, sim.
— Bem, continuo sem entender por que estão aqui. — James fez uma pausa
para que a secretária os servisse. Quando ela saiu, continuou: — Você esteve muito
exposta pela mídia quando escondeu Suzana em seu apartamento, e agora chamou a
atenção da imprensa de novo. E ainda dá conselhos em um programa de rádio! Sua
mãe está chocada.
— A sra. Markham ainda é paciente da clínica? — perguntou Mac abruptamente.
Stanton respirou fundo.
— Não chamamos ninguém aqui de paciente, e não vejo no que isso lhe diz
respeito.
— Posso conseguiu um mandado de busca. Stanton tremeu ao colocar a xícara
sobre o pires.
— A sra. Markham é nossa hóspede desde o funeral da filha.
— Gostaríamos de falar com ela — disse Frankie.
— De forma alguma! Mac levantou-se.
— Posso conseguir uma ordem judicial. Foi a vez de Stanton ficar de pé.
— E eu a bloqueio.
Frankie suspirou e balançou a cabeça.
— Será que vocês dois podem parar de ameaçar um ao outro como se fossem
adolescentes? Delegado, não creio que queira perder tempo esperando por uma ordem
judicial. E James, você também não quer recorrer à justiça. Pense na publicidade. A
Clínica Summerhaven estará nos noticiários mais uma vez. Será que podemos chegar
a uma solução amigável?
Por um momento, todos ficaram em silêncio. Por fim, James disse:
— Preciso pensar na minha paciente. Vê-los pode deprimi-la.
— Ela ainda não fez progresso algum? — indagou Frankie.
— É claro que sim — respondeu ele, depressa.
— Não queremos fazer mal algum a ela. Só queremos conversar.
— Acha que ela está ligada aos telefonemas anônimos?
— Não sei. Mas uma criança desapareceu e o delegado e eu vamos seguir
qualquer pista. Poderíamos deixar tudo por conta da polícia, que está investigando o
caso. No entanto, achei melhor e menos constrangedor que nós falássemos com a sra.
Markham.
— Tudo bem. Mas não hoje. Preciso conversar com o terapeuta que cuida dela e
checar se está preparada para a visita. Podem voltar amanhã, neste mesmo horário.
— Minha sobrinha desapareceu, Stanton. Não pode achar que esperaremos até
amanhã.

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— E se voltarmos após o meu programa de hoje à tarde? — interveio Frankie. —
Assim, terá bastante tempo para preparar a sra. Markham para a visita. E o delegado
não precisará acionar a polícia estadual.
— Está bem — concordou Stanton, contrariado. Frankie sorriu para ele.
— Eu sabia que você compreenderia. — Sem dizer nem mais uma palavra,
levantou-se e saiu da sala, acompanhada por Mac.
Quando estavam descendo os degraus da frente da casa, Mac mudou o
caminho.
— Aonde está indo? — perguntou Frankie, confusa.
— Quero dar uma boa olhada em todo este lugar. Além do mais, estou curioso
para saber o que Stanton vai fazer agora.
— Dirigindo-se para os fundos, ficou na varanda, observando o que se passava
no gramado que separava o lago do prédio principal. Um grupo de crianças brincava.
Uma bola chegou a cair perto de onde Mac e Frankie estavam.
— Se alguém nos vir — disse ele em voz baixa —, diremos a verdade. Eu a
convenci a mostrar-me a clínica antes de ir. O que há naquele outro prédio? — indagou,
apontando para uma moderna estrutura. — E aqueles dois ali?
— Os hóspedes moram naquele maior. O menor é o chalé do jardim, e o outro é
a casa dos barcos.
— E aqueles alvos?
— No verão, as crianças têm aulas de tiro ao alvo com arco e flecha, natação,
canoagem e artesanato.
— E você não achou importante mencionar o fato de que todos aqui têm contato
com arcos e flecha?
— A maioria das pessoas da clínica são pacientes — explicou Frankie.
— Hóspedes — corrigiu Mac. — Mas Stanton não é um deles.
— De repente, James apareceu no canto do prédio. Mac entrou pela porta da
cozinha e puxou Frankie, para que não fossem vistos. No entanto, ficaram observando
pela vidraça. — Vamos ver aonde ele vai — disse, observando-o andar na direção do
chalé.
— Curioso...
— A curiosidade matou o gato — disse uma voz por trás deles.
CAPÍTULO OITO
Mac virou-se e puxou Frankie para trás. A mulher de cabelos grisalhos carregava
só uma jarra de limonada.

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— Annie!
Frankie o empurrou para o lado e foi abraçar a antiga conhecida.
— Dra. Carmichael!
— Você está ótima!
— O que está fazendo aqui? — indagou ela após beijar Frankie no rosto. —
Espere até eu contar a todos!
Em algum momento, entre perguntas e abraços, Mac conseguiu pegar a jarra e
colocá-la sobre o balcão. Ao olhar pela janela, viu Stanton chegar ao chalé, bater na
porta e entrar.
— Então Stanton recobrou o juízo e decidiu chamá-la de volta... — comentou
Annie.
— Não — respondeu Frankie. — O delegado Delaney e eu viemos por outro
motivo.
— Delegado? — Mac viu-se observado por um par de olhos espertos e azuis. —
Sou Annie Jones, chefe da cozinha da clínica. É a sua sobrinha que está desaparecida,
não é? Então por que está aqui, delegado?
Mac analisou Annie por alguns segundos, e o olhar astuto o fez dizer a verdade.
— A dra. Carmichael tem recebido telefonemas anônimos e ameaças de morte
se não deixar a cidade. Achamos que pode ser a mesma pessoa que ligava logo após
Suzana Markham ter cometido suicídio. Viemos falar com a sra. Markham.
— Acha que a rainha pode estar ligada aos telefonemas?
— A rainha?
— Nós a chamamos assim pelo tratamento especial que recebe. Mora no chalé
do jardim porque não quer se misturar aos outros hóspedes. Faço comida especial e
entregamos lá.
— Então ela não se mistura aos outros? — indagou Mac.
— Ela participa do programa de recreação, mas, como é mais velha, passa a
maior parte do tempo sozinha.
— Nunca sai daqui?
— Não. — Annie franziu a testa. — A terapeuta a deixa passear pela praia. No
entanto, acho que ela sai da propriedade.
— E andar pela praia faz parte do tratamento normal? — perguntou Mac.
— Ah, não. — Annie serviu um copo de limonada aos dois. — E Stanton não
ficou satisfeito quando soubemos disso. Uma jovem estagiária estava trabalhando aqui
por uns tempos. Era uma boa menina, Melanie Henken. Um dia, foi levar a refeição da
sra. Markham. Ficaram se conhecendo durante as recreações. Uma noite, ela demorou
muito para pedir o jantar e Melanie, preocupada, foi verificar o que estava acontecendo.
Não havia ninguém no chalé. A menina foi direto contar a Stanton e ele disse que não

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havia motivo de preocupações, que o tratamento da rainha incluía passeios pela praia.
No dia seguinte, Melanie foi embora. Ouvi dizer que encontrou um emprego como
assistente de pesquisa na universidade em que estudava. A partir de então, é o próprio
Stanton que supervisiona o tratamento de nossa hóspede especial.
— Há quanto tempo foi isso? — perguntou Mac.
— Mais ou menos há um mês.
— Acha que ela pode ter ido além da praia?
— Não — respondeu Annie. — Pensei na possibilidade, mas este lugar é isolado
demais. É necessário um carro para alguém sair dos arredores.
— E de barco? — insistiu Mac.
— As canoas ficam trancadas na casa de barcos e há um guarda ali vinte e
quatro horas por dia.
— Ele mantém um esquema rígido de segurança para que nenhum paciente fuja
e prejudique a reputação da clínica — explicou Frankie.
— E a rainha tem acesso ao telefone? — indagou Mac.
— Os únicos aparelhos dos hóspedes são supervisionados — disse Annie. —
Está achando que ela está ligada ao desaparecimento de sua sobrinha?
— O que acha?
Annie balançou a cabeça.
— Bem, andar na praia não quer dizer que... De onde o senhor é?
— Barclayville. Fica a duas horas daqui.
— Como eu estava dizendo, ela precisaria de um carro.
— E se Stanton a ajudou? Annie ergueu as sobrancelhas.
— Stanton? Porque ele faria isso? Mac olhou mais uma vez pela janela.
— Ele está com a rainha agora. Acho que deveríamos ir até lá e perguntar.
Frankie puxou-o pelo braço.
— James está preparando Sylvia para nossa visita, mais tarde. Se formos até lá
agora, ele pode chamar os seguranças e mandar-nos embora. Ainda temos três horas
para o início do programa. Então, há tempo suficiente para tentar encontrar Melanie
Henken na faculdade — disse Frankie. — Se ela e Sylvia se davam bem, talvez possa
nos ajudar a descobrir o que aconteceu naquela noite.
— Você é muito boa nesse trabalho, doutora. Annie achou graça.
— É a melhor — comentou. — Vamos, vou levá-los até o carro. Se alguém
perguntar, eu os levei até a cozinha.
— Ela está atrasada — comentou Mac. — Ou então estamos no lugar errado.

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— Melanie disse que nos encontraria aqui durante o intervalo do almoço.
Acalme-se — aconselhou Frankie, vendo a garçonete se aproximar. — Quero um café
preto.
— São dois, então. — Mac estava ansioso. — Já é meio-dia e ela marcou às
onze e cinqüenta.
Melanie acabara de entrar no restaurante e acenou para os dois. Era uma jovem
bonita e usava um blusão laranja.
— Dra. Frankie, muito prazer em conhecê-la — cumprimentou, sentou-se. E,
virando-se para Mac, disse: — O senhor deve ser o delegado Delaney. Querem falar
comigo sobre Summerhaven?
— A sra. Jones nos disse que estava fazendo um estágio lá, mas que foi
interrompido de repente.
Antes que Melanie pudesse responder, a garçonete apareceu com o café e a
jovem pediu um sanduíche.
— Adorei trabalhar lá, mas o dr. Stanton conseguiu um emprego para mim como
assistente de pesquisa e não pude recusar.
— O dr. Stanton conseguiu o emprego para você? — perguntou Frankie.
— Sim.
— E quando ele lhe ofereceu o cargo? — indagou Mac.
— Na última noite que eu passei lá. Na manhã seguinte, me chamou e disse que
eu não precisaria voltar a Summerhaven.
Mac deu um gole no café.
— Então ele conseguiu-lhe um emprego na mesma noite em que você descobriu
que Sylvia Markham não estava no chalé...
— Sim — concordou Melanie. — Porém, ele explicou a situação da sra.
Markham e disse estar orgulhoso do meu trabalho na clínica. Por isso ofereceu-me o
emprego.
— A sra. Jones também mencionou que você e Sylvia se davam bem — disse
Frankie. — Qual é a sua opinião sobre ela?
— Era uma pessoa agradável — respondeu Melanie, pegando o sanduíche. —
Às vezes ficava triste, mas sempre melhorava de ânimo depois que tomava as pílulas.
— Ela usava medicação?
— Ah, sim. Do contrário, eu nem saberia que era uma das hóspedes.
— Por que não? — perguntou Mac.
— Era uma mulher muito mais velha. Além do mais, dava aulas de arco e flecha.
Também fazia parte da terapia, e ela é muito boa nisso. Foi o marido que a ensinou o
esporte, pois foi campeão na faculdade, e todo outono usava arcos e flechas para caçar
veados. Pode imaginar?

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— Muito primitivo. — Mac pegou um cartão do bolso e levantou-se. —Você nos
ajudou bastante, Melanie. Vou deixar o número do. meu telefone, caso se lembre de
mais alguma coisa.
— Obrigada, Melanie — disse Frankie, levantando-se também. Juntos saíram do
restaurante e foram para a picape.
— Vou voltar lá — afirmou ele, com as mãos na direção.
— Ainda não podemos.
— Olhe, temos dados que ligam Stuart Markham a você e aos incêndios.
Quantas pessoas conhece que tenham tanta habilidade com arcos e flechas?
— Isso não prova que ele tenha lançado a flecha no meu quarto.
— Sylvia deve saber de algo — afirmou Mac.
— Talvez. Mas, se aparecermos na clínica e a assustarmos, não falará nada. E
Melanie disse que está sendo tratada com medicação. Esta pode ser uma das razões
de James ter pedido tempo para prepará-la. Se não cooperarmos, ele nos mandará
embora e só conseguiremos entrar lá com ordem judicial. Vocês, policiais, não devem
recolher provas antes de considerar uma pessoa culpada?
Mac suspirou e encostou-se no banco.
— Você está ficando especializada em pensar como um policial. O telefone
celular de Mac tocou, interrompendo-o.
— Delaney? Logan.
Enquanto, conduzia o carro de volta para a estrada, Mac ouvia o amigo.
— Então Stuart Markham está com um Jaguar verde há dois anos? — Mac olhou
para o relógio. — Não, você chega lá mais depressa. Mantenha contato.
— Aonde ele vai? — perguntou Frankie assim que o delegado desligou o
telefone.
— Alugar um avião para encontrar Stuart Markham em Adirondacks, onde ele
está pescando. Pode ser que tenha levado Katie para lá. Logan foi até a casa dos
Markham, perguntou aos empregados sobre o Jaguar e soube que o automóvel está
guardado em alguma outra propriedade. Um policial está tentando encontrá-lo. Stuart
Markham saiu para pescar na terça-feira passada, numa região inacessível por terra.
Logan vai fazer uma visita surpresa. Após uma pausa, balançou a cabeça. — Se eu
fosse um criminoso, não desejaria ter Logan Campbel atrás de mim.
Frankie franziu a testa, pensativa.
— Acha mesmo que foi Stuart Markham que levou Katie? Por quê?
— A primeira vez que o descreveu, disse que ele queria a vida normal de volta, a
mulher e a filha esperando por ele no final da tarde...
— Mas não disse que seqüestrou uma criança. Ele é muito inteligente para achar
que não seria descoberto.

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— Deixe-me explicar uma coisa. A prisão está cheia de pessoas que acham que
podem esconder seus crimes. E, se você tivesse saído de Barclayvile com medo das
ameaças, seria a principal suspeita durante um bom tempo. Seria pouco provável que
os Markham fossem investigados.
Frankie balançou a cabeça.
— Tudo isso é uma loucura. Stuart Markham não é um homem louco, mas sim
um empresário muito bem-sucedido.
— O homem perdeu duas filhas em menos de um ano e a esposa está internada
em uma clínica. E se Sylvia não melhorar? De acordo com Melanie, ela precisa de
medicação para manter-se estável emocionalmente. E se Markham achar que a única
forma de fazê-la voltar ao normal é dando-lhe outra criança? Quanta pressão pode
suportar uma pessoa normal?
— E ele acha que Katie aceitaria essa situação? Que assumiria a personalidade
de Suzana? Pelo amor de Deus! Ele tentaria adotar uma menina.
— Não estou afirmando nada. Só estou levantando uma hipótese. Não é assim
que vocês trabalham? Por que não aceita os fatos e diz que é uma boa hipótese?
— Estamos invertendo os papéis. Sou eu quem deve levantar hipóteses. Você é
responsável pela investigação e pela busca de evidências.
Mac sorriu.
— Bem, tenho a prova de que Stuart Markham dirige um Jaguar conversível,
verde. É especialista em arco e flecha e a viagem para pescar coincide com a noite em
que Katie desapareceu. Além do mais, a casa dele fica só a três horas de Barclayvile.
Tem alguma hipótese melhor?
— Não — respondeu Frankie.
— Então...
CAPÍTULO NOVE
Aqui é a WNYT de Syracuse. Sou a dra. Frankie e estou pronta a responder a
suas perguntas logo após o intervalo.
Quando o comercial de um refrigerante entrou no ar, Frankie virou-se e olhou
para Mac, que andava de um lado para outro na cabine de Kyle. Estava falando com
Tess ao celular. Pela expressão, não tinham novidade alguma. Logan Campbell não
havia ligado para confirmar se Katie estava com Stuart Markham. Mac sentia-se
frustrado e impaciente, assim como ela.
Ambos sabiam que faltava pouco para encontrar Katie. Não podiam ficar
parados.
Ela fechou os olhos e imaginou a menina correndo para os braços da mãe. Não
sabia o que faria depois que Katie voltasse. Não queria ter sonhos para o futuro, pois

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não podia iludir-se com a possibilidade de um casamento, de uma vida estável e feliz.
Mac a fitou e sorriu, fazendo o sinal de positivo com o polegar. Estaria apaixonada por
ele? Ao analisar os sentimentos, foi obrigada a admitir que sim. A voz de Kyle assustoua.
— Ligação para você na linha três.
Frankie apertou o botão cuja luz piscava no painel.
— Olá, aqui é a dra. Frankie. Qual é a sua pergunta?
— Ainda está procurando pelo conversível verde? — A pessoa que falava estava
ofegante, nervosa. — Acabei de vê-lo.
— Como era ele? — perguntou Frankie, movendo-se na cadeira para que
pudesse enxergar Mac melhor.
— Estava com a capota abaixada. Eu a vi. A garota. Tinha o cabelo avermelhado
e estava na nossa frente no posto de gasolina. Minha mãe mandou eu entrar no
escritório correndo e procurar um telefone para ligar para você.
— Onde vocês estão? — De repente, um forte ruído atrapalhou a ligação e
Frankie olhou para Kyle, que ajustou o aparelho.
— Paramos no posto.
— Desculpe, mas pode repetir onde estão? Não ouvi a primeira parte.
O informante falou e mais uma vez a ligação sofreu interferência. A linha caiu.
Frankie correu para Mac, na cabine. Ele já estava ao telefone.
— Não me importa, Jack, quero que faça isso agora. Coloque guardas nas
saídas de Syracuse e Búfalo. Sim... — Após uma pausa, passou a mão pelo cabelo. —
Sei que podia ser um trote, tentei identificar a ligação mas não foi possível, mas até
agora a maioria das informações foi verdadeira. Katie pode estar naquele carro e não
podemos perder a chance de encontrá-la. Está bem. Encontro vocês lá. — Ao desligar,
virou-se para Frankie. — Jack vai bloquear algumas saídas. Se chegarmos a tempo,
poderemos pegá-los.
— Ainda acha que é Stuart?
— Não sei. Eu me sentiria melhor se tivesse identificado a ligação ou tivesse tido
informações de Logan. Mas, se Stuart ficou desconfiado das perguntas de Logan e
resolveu fugir, as informações estão coerentes.
— Então vá pegar Katie. Mac abraçou e beijou Frankie.
— E você fique aqui até eu voltar — disse enquanto andava até a porta. — Kyle
tem o número da polícia estadual.
— Aonde poderei ir sem o meu motorista? — brincou Frankie, vendo-o sair pelo
corredor.
— Quer que eu coloque alguma fita? — indagou Kyle, percebendo a vontade de
Frankie de ir atrás de Mac.

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— Não. Vou terminar o programa — afirmou ela, erguendo a cabeça. — Assim
talvez o tempo passe mais depressa.
— O delegado esqueceu o telefone celular.
— Atenda, se tocar. Estamos esperando uma ligação importante. De volta ao seu
posto, com os fones de ouvido, ela ligou o microfone. Pelas luzes no painel, viu que
havia uma ligação à espera.
— Olá, aqui é dra. Frankie. Qual é a sua pergunta?
— Francesca? Preciso falar com você em particular.
Ela demorou alguns segundos para reconhecer a voz de James. Ele parecia em
pânico. Sinalizou para Kyle colocar mais uma vez uma música.
— O que foi, James?
— Preciso que venha para Summerhaven imediatamente. Frankie olhou para o
relógio. Ainda tinha uma hora e meia
até o fim do programa.
— Sinto muito. Mac recebeu um chamado. Vamos até aí às cinco horas, após o
programa. E estou sem carro.
— Não está compreendendo. Não posso esperar até o fim do programa. Precisa
vir agora, e sozinha. E Sylvia. Eu avisei que ela poderia ter problemas ao saber que
esteve aqui. Ela...— A voz de James ficou fraca. — Não posso explicar pelo telefone.
Por favor. É uma questão de vida ou... .
Mais uma vez a ligação sofreu interferência. Pelo canto do olho, Frankie pôde
ver o esforço de Kyle para mantê-lo na linha.
— Vou assim que puder. James, pode me ouvir? James... Não houve resposta.
Frankie tirou os fones do ouvido e foi para a cabine. Era muito raro James Stanton
deixar transparecer emoções. Nunca o vira pedindo nada. O que tinha acontecido em
Summerhaven?
Só havia uma forma de descobrir. Pegou o telefone e discou os números da
clínica. No terceiro toque, uma mensagem gravada pedia que ligasse de novo, na
manhã seguinte.
Frankie colocou o fone no gancho.
— Você conseguiu identificar o número da última ligação? — perguntou a Kyle.
— Não. Aparece aqui como "não disponível".
— O que quer dizer?
— Que pode ter sido feita de um telefone celular ou de algum lugar distante,
servido por outra companhia.
Pensativa, Frankie andou de um lado para outro.
— Summerhaven é bem perto daqui.

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Momentos Intimos 056

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— Acho que esta última foi feita de um telefone celular.
— Por quê?
— Pela interferência. Ela não foi causada por nosso equipamento.
— Mas havia interferência na anterior, também. Naquele da garota que viu o
Jaguar verde.
— Acho que era de um celular também — respondeu Kyle.
— Mas ela disse que foi ao escritório do posto para usar o telefone. Por que
mentiria? A menos que...
O pensamento foi interrompido pelo som do telefone de Mac tocando.
— Alô?
— Quero falar com Delaney.
— Sou Francesca Carmichael. Ele precisou sair e esqueceu o celular aqui.
— Sei quem é a senhora. Aqui é Logan Campbell. Pode dar um recado a ele?
— Sim, claro. Encontrou Katie?
— Não. Estou ao lado de Stuart Markham e ele afirma que o carro está bem
perto de vocês. Durante todo este ano, ficou guardado na casa de verão da esposa, em
Seneca Lake. Ela costumava passar as férias com as filhas, e nenhum dos dois o
dirigiu desde o suicídio de Suzana.
— Sr. Campbell, poderia perguntar a ele onde fica a casa? Frankie esperou
enquanto Logan repetia a pergunta, mas já suspeitava de qual seria a resposta.
— Disse que fica a três quilômetros da Clínica Summerhaven. Diga a Mac que o
sr. Markham cooperou muito, deixando que eu revistasse todo o lugar. Katie não está
aqui. Diga também que posso ser encontrado na cidade ainda esta noite.
— Obrigada. — Várias imagens passaram pela cabeça de Frankie, que sentouse ao lado de Kyle. Sylvia Markham andando pela praia, entrando em sua propriedade
e dirigindo o carro. Com livre acesso ao automóvel, poderia ir e vir quando bem
quisesse.
Será que James descobrira toda a verdade? Por isso parecia tão assustado? Se
fosse assim, Katie poderia estar em Summerhaven. E, se Sylvia soubesse que ela e
Mac suspeitavam de algo, Katie estaria correndo um grande risco de vida.
Não podia consultar Mac sobre o que deveria ser feito. Precisava tomar a
decisão sozinha. Ir até a clínica ou esperar até que ele entrasse em contato.
Seria mais fácil esperar. Deixar que Mac assumisse a responsabilidade. Mas as
palavras de James não a deixavam em paz.
Não havia escolha. Não podia esperar.
— Pode me emprestar seu carro, Kyle? Não posso explicar tudo, mas Katie está
em Summerhaven e pode estar correndo perigo de vida.

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— Aqui estão as chaves — ofereceu Kyle.
— Vou pedir um aumento de salário para você — prometeu Frankie, já na
direção da porta. — Ligue para a polícia estadual, chame por Jack Maloy e diga a ele
que precisa entrar em contato com Mac, para que você possa contar aonde fui. Ah! Não
se esqueça de tocar a fita do programa de terça-feira. Se Mac estiver ouvindo, vai
desconfiar de algo e ligará para cá. Diga a ele que Sylvia Markham tem acesso a um
Jaguar verde e peça-lhe que me encontre em Summerhaven.
Ela precisava saber ao certo o que faria. Deveria afastar os medos do passado e
enfrentar a realidade. Respirou fundo ao parar na frente dos portões da clínica.
Precisava manter a calma.
Se Sylvia estivesse com Katie, não poderia ser contrariada. Era necessária muita
cautela. Era provável que estivessem no chalé, perto do lago. Pelo que Frankie se
lembrava, parecia uma casa de boneca. Havia uma pequena sala de estar, uma
cozinha no andar de baixo, e dois dormitórios com banheiro no de cima.
Era muito arriscado, para Sylvia, manter Katie no chalé. E se a menina
escapasse? E se a mulher perdesse o controle e prejudicasse a garota?
Frankie fechou os olhos. O passado não se repetiria.
Quando Callahan viu quem dirigia o carro, abriu o portão.
— Pode entrar — disse ele. — O dr. Stanton a esperava no chalé.
Nada na voz do guarda ou mesmo em suas atitudes sugeria que algo não ia
bem.
— Tentei ligar para cá, mas ninguém atendeu, só a secretária eletrônica.
— A sra. Trilby e a secretária saíram mais cedo — informou ele, olhando para o
relógio. — O doutor as liberou mais cedo.
Frankie ficou em dúvida se deveria ou não confidenciar seus receios a Callahan,
para que ele avisasse o pessoal da segurança.
Decidiu que, pelo bem de Katie, deveria tentar lidar com Sylvia sozinha. Envolver
um grupo de homens armados só pioraria a situação.
Passou pela estrada e pelo caminho que levava ao lago, apreensiva. Não havia
ninguém. As cinco horas, em geral, todos os pacientes aproveitavam o tempo livre,
esperando pelo jantar, que era servido às seis horas. Alguns ficavam na biblioteca,
outros jogando nos salões de recreação.
Avistou o chalé. Parecia calmo, como de costume. Talvez devesse ter esperado
por Mac. Ele já devia ter entrado em contato com Kyle. Porém, lembrou-se do pânico na
voz de James.
Precisava ter coragem e ir em frente. Muita cautela prejudicou Suzana. Dessa
vez, não iria falhar.
Sem hesitar, bateu à porta do chalé.
— Entre.

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Momentos Intimos 056

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Frankie reconheceu a voz imediatamente, mas ao abrir a porta não viu ninguém.
De repente, sentiu uma forte dor na cabeça e tudo ficou escuro.
Mac estava a vinte minutos de Syracuse quando começou a suspeitar que algo
estava errado. Não era só o fato de o programa de terça-feira estar sendo repetido. Era
um pressentimento estranho. Ele procurou o telefone celular, mas não o encontrou.
Lembrou-se de tê-lo deixado sobre o console de Kyle.
O primeiro impulso foi dar meia-volta, mas já estava quase chegando ao ponto
do bloqueio principal. Segurou firme na direção e acelerou.
Esperava que Frankie voltasse ao ar, mas a fita continuava. Sua angústia
aumentou. Como policial, aprendera a pensar nas piores hipóteses. Mas Frankie estava
segura, disse a si mesmo. O que poderia acontecer com ela na estação? Kyle e o
diretor do programa encontravam-se lá.
Quando a caminhonete começou a vibrar, por causa da velocidade, ele
desacelerou e tentou pensar em Katie correndo para os braços de Tess.
Foi quando viu um grande número de carros bloqueando a passagem. Isso
significava que o Jaguar verde ainda não tinha sido encontrado. Nem Katie.
Parou o carro e foi falar com os policiais. Precisava de um telefone.
A voz que a chamava parecia vir de longe. Ela lutou para abrir os olhos, pois
tinha uma importante missão. Alguém colocou um pano úmido em sua nuca, no lugar
onde doía. E a voz ficou mais clara.
— Acorde, dra. Carmichael. Precisamos conversar. Frankie sentiu as mãos
amarradas para trás, e uma corda na altura dos punhos. Havia também cheiro de gás.
Ela abriu os olhos e deparou com Sylvia Markham. Parecia excitada e preocupada ao
mesmo tempo.
— Estou feliz por ter vindo. Há muita coisa que preciso lhe dizer.
Atrás de Sylvia, Frankie pôde ver uma chaleira sobre o fogão, mas não havia
chama. Preocupada, tentou levantar-se.
— Sylvia, precisa desligar...
— Não! Fique onde está.
A mulher recuou e Frankie viu o revólver. Era uma arma pequena. Por um
instante, não soube o que fazer ou em que pensar.
— Ela vai nos matar — disse James. — Está louca.
— Cale a boca! — gritou Sylvia, virando o braço e apontando o revólver para
James, sentado do outro lado da mesa da cozinha. — Ouvi seu programa a tarde toda.
Agora quero falar com a doutora.
— Onde está Katie? — perguntou Frankie. Sylvia ficou com expressão de
surpresa.
— Katie?
— Lá em cima. Dopada — informou James.

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Momentos Intimos 056

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— O nome dela é Suzana. — Mexendo-se depressa, Sylvia pressionou a arma
contra a testa de James. — Suzana. Quantas vezes preciso dizer isso? Vamos! Repita.
— Suzana — disse Stanton com voz trêmula. — Suzana está lá em cima. E
está...
— Dormindo — adiantou-se Sylvia.
— Sim. — James pigarreou. — Sylvia usou a medicação que lhe dei para sedar
Suzana.
Devagar, Sylvia abaixou a arma. Estava com a voz suave e sorria quando
começou a falar.
— Ela fica muito mais feliz quando dorme.
— Sylvia, se quer falar comigo, precisa desligar o gás.
— Bobagem. Eu liguei quando a vi chegando. Teremos muito tempo para
conversar. Talvez até para tomar um chá. Depois, vamos dormir. — Calma e controlada,
pegou as xícaras. — Estive pensando muito desde que James ligou para você. Prefere
chá com açúcar ou limão?
Chá? Frankie achou estranho. A mulher do outro lado da mesa segurava um
revólver em uma das mãos e colocava chá na xícara com a outra. Enquanto isso, o gás
continuava a escapar. O cheiro ficava cada vez mais forte. O ambiente era pequeno, e
as janelas estavam todas fechadas.
Precisava pensar depressa. Tinha que encontrar uma forma de se soltar e
manter Sylvia falando. Seus punhos estavam amarrados no encosto da cadeira, mas a
mão esquerda parecia mais frouxa. Só precisava alcançar o nó.
— Limão ou açúcar? — Sylvia perguntou de novo.
— Ambos — respondeu Frankie. — Mas eu não quero...
— Vou soltar sua mão direita — aproximando-se, Sylvia colocou a arma sobre a
mesa e começou a desamarrar a corda. Em seguida, sentou-se no seu lugar e passou
a xícara para Frankie.
Quando ia beber o líquido, ela percebeu o olhar de James querendo dizer-lhe
algo. Ele mexia a cabeça. Haveria alguma droga no chá? A resposta veio quando o
revólver foi apontado para Frankie.
— Beba tudo.
Frankie fingiu dar um gole e colocou a xícara sobre o pires. Tentava conversar
enquanto soltava o nó.
— Sylvia, sobre o que quer falar comigo?
— Sobre as mentiras que me contou. Você e James. Devem ter achado que eu
era burra, mas não sou. Não é, James? Tenho enganado você há mais de um ano. —
Inclinando-se, Sylvia sorriu. — Ele nunca suspeitou que eu saía de Summerhaven, até
que aquela estagiária não me encontrou no chalé.

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Momentos Intimos 056

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Eu disse que estava andando pela praia e este seria o nosso segredo. Caso
contrário, contaria a todos sobre a falta de segurança da clínica. Eu sabia que ele ficaria
quieto e tomei mais cuidado com minhas saídas desde então.
Frankie olhou para James, esperando alguma reação, mas ele parecia meio
zonzo. Estava mais próximo do fogão. Apavorada, tentou respirar mais devagar. Não
podia inalar muito gás.
— Não adianta, não pode ficar sem respirar — disse Sylvia. — Beba o seu chá.
Vai ajudar a relaxar, assim como ajudou James.
Frankie pegou a xícara. Sua mão estava trêmula. Não seria difícil derrubar parte
no pires antes de fingir outro gole.
— Não quero adormecer antes de terminar nossa conversa. Disse que James e
eu mentimos para você. Não compreendi.
O sorriso de Sylvia desapareceu e ela segurou mais firme o revólver.
— Disseram que Suzana estava morta. Por um ano acreditei nisso. Sabe o que
uma mãe sente ao perder duas filhas? Elas eram a minha vida. Toda vez que eu olhava
para o lago, lembrava das vezes em que as levava lá. Ensinei as duas a nadar
naquelas águas, e a velejar.
Enquanto Sylvia continuava a falar, Frankie concentrava-se em soltar a mão
esquerda e em manter a calma.
— Foi culpa sua — disse Sylvia. — Se tivessem deixado Suzana em
Summerhaven, ela nunca teria morrido. Preciso ter certeza de que foi punida pelo que
fez. Beba o seu chá.
— Mas eu tentei mantê-la aqui — tentou argumentar Frankie, percebendo que
era inútil. — Então foi você quem fez as ligações anônimas tentando me mandar
embora da cidade? E foi você que lançou as flechas?
— Sim, e achei que tivesse ido embora. Mas, no dia em que ouvi sua voz na
rádio, percebi que não. Tentou me enganar, fazendo-me acreditar que Suzana estava
morta. Então descobri onde morava e fiz planos para puni-la. — Apontou a arma mais
uma vez. — Eu disse para tomar o chá. E dessa vez não adianta fingir que bebe. Tome
tudo.
CAPÍTULO DEZ
No momento em que Mac olhou para o muro de pedra da Clínica Summerhaven,
parou a picape no acostamento. Pegou o revólver e o telefone celular que pegara
emprestado da polícia estadual e acenou para os dois carros-patrulha que vinham logo
atrás. Eles esperariam meia hora; se Mac não fizesse contato, entrariam para resgatálo. Depois disso, pulou o muro e entrou na propriedade.

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Momentos Intimos 056

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Não queria que sua chegada fosse anunciada. Indo pela lateral, cortaria caminho
e não seria visto. Callahan podia ser amigo de Frankie, mas era leal ao patrão. E, como
não sabia o que estava acontecendo, era melhor não arriscar.
Além do mais, não queria fazer nada que alarmasse Sylvia Markham. Por isso
deixou os guardas de prontidão, mas fora da clínica.
Saiu do bosque e dirigiu-se ao lago. Pararia primeiro no chalé. Era o lugar mais
certo para procurar por Sylvia. Talvez Frankie e a própria sobrinha estivessem lá
também.
Não poderia deixar as emoções atrapalharem seu trabalho. Precisava manter-se
frio.
Então, pensou em Sylvia Markham. Uma mulher que culpara Frankie pelo
suicídio da filha, que tinha acesso ao carro e que poderia ter feito o que quisesse sem
levantar suspeitas. Uma mulher que seqüestrara Katie para jogar a culpa em Frankie.
Era uma pessoa inteligente e esperta. Era muito perigosa. Devia estar louca.
Olhou para o lago e avistou o telhado do chalé. Aproximou-se com cuidado.
Abaixado, foi para a porta dos fundos. A cortina estava fechada, mas não totalmente.
Com cautela, olhou pela fresta. Viu Stanton de costas para a porta, as mãos amarradas
para trás. Ao lado dele, uma mulher que devia ser Sylvia apontava uma arma para o
coração de Frankie.
Mac não podia entrar de repente. Precisava pensar. Não havia sinal de Katie.
Por um instante achou que Frankie o vira.
Mantendo-se abaixado, voltou para a frente do chalé. Abriu a porta devagar e
entrou segurando o revólver. O cheiro de gás o incomodou. Teve medo. Se Sylvia
disparasse um tiro, poderia haver uma explosão.
A porta da cozinha estava fechada e ele podia ouvir alguém falando. A voz era
firme. Frankie fazia com que a mulher conversasse para ganhar tempo. Era mesmo
muito esperta.
Sem fazer barulho, subiu a escada. Quando um dos degraus de madeira estalou,
parou e segurou a respiração. Mas a conversa na cozinha continuou.
No segundo andar, o cheiro de gás não era tão forte. Abriu a porta de um dos
quartos e entrou.
Katie estava deitada na cama, pálida e imóvel. Apavorado, ele aproximou-se da
menina, com medo de ter chegado tarde demais. Inclinou-se para a frente e sentiu a
respiração delicada. Tocou-a no rosto com carinho.
— Katie, querida, sou eu — sussurrou.
A garota abriu os olhos e fechou-os em seguida.
— Estou com sono...
— Tudo bem, meu amor, descanse. Vou tirá-la daqui.

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Ao puxar o cobertor, viu que a sobrinha tinha as mãos e pés presos na cama, e o
corpo frio. Há quanto tempo estaria ali? Precisava levá-la para fora, para que pudesse
respirar ar fresco. Depois voltaria para cuidar de Sylvia.
Do alto da escada, parou para ouvir o que se passava na cozinha. Havia ainda o
murmúrio de uma voz fraca. A doutora estava fazendo a sua parte. Agora Mac
precisava fazer a dele.
Confiante, desceu os degraus carregando Katie.
Frankie sentia-se zonza ao pegar a xícara de chá. Não podia beber nada. Talvez
devido ao efeito do gás, teve a impressão de ter visto Mac pela janela da cozinha.
Ao ser obrigada a tomar o chá, encheu a boca ao máximo e depois tossiu,
aproveitando para derrubar a xícara.
Mesmo com a confusão, ouviu um barulho diferente. O estalo do piso de
madeira. Seria Mac? Ou Katie? Não conseguiu evitar o medo.
Olhou depressa para Sylvia, mas a mulher estava preocupada em encher mais
uma vez a xícara de chá. De repente, a visão de Frankie ficou fora de foco. Conseguiu
desvencilhar-se da corda. Precisava manter Sylvia distraída, falando.
— Você ainda não me contou quando descobriu que Suzana estava viva —
disse, já com dificuldade, fazendo esforço para não se render.
— Ela estava esperando por mim, sentada na frente de sua casa. Fui lá para
puni-la pela morte de Suzana. Mas a encontrei. — Sylvia colocou a mão na testa. — A
princípio, não compreendi.
— O que não compreendeu?
— Como ela estava viva durante todo o tempo. Fui ao funeral. Pelo menos achei
que fui. Depois percebi que todos haviam mentido para mim. Minha filhinha não estava
morta. Estava viva e foi tirada de mim. É claro que no começo ela negou ser Suzana. —
Sylvia passou a mão mais uma vez no rosto. — Mas era Suzana. Uma mãe reconhece
sua filha.
Mais uma vez a visão de Frankie ficou fora de foco. Não conseguia mais ver
Sylvia. Desesperada, tentou recuperar-se.
Foi quando ouviu outro estalo. Era Mac. Precisava acreditar que era ele. Usando
toda a sua força, ergueu a cabeça e olhou para Sylvia. Aos poucos voltou a enxergar.
— Então levou Suzana?
— Eu queria ficar para punir você, por ter... mentido para mim. Como pôde ser
tão cruel? Fazer-me acreditar que minha filha tinha cometido suicídio? Eu estava com
um revólver naquele dia, podia tê-lo usado. Mas Suzana pediu que eu não a
machucasse. Contou-me quanto foi amável e carinhosa com ela. Então prometi que, se
viesse comigo, não tocaria em você. Eu sabia que, se a trouxesse a Summerhaven, ela
ficaria bem.
— Mas Suzana não está bem — disse Frankie com a cabeça pesada, olhando
para Sylvia. — Sei que a. ama. Mas em poucos minutos você e eu vamos desmaiar.

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Antes que isso aconteça, precisamos tirar a menina daqui. O gás vai chegar aos
quartos e ela não acordará nunca mais.
— Não, você não compreende. — Mais uma vez, Sylvia segurou firme o revólver.
— Ela tem que dormir. Nós todos precisamos dormir. É a única forma de ficarmos
juntas.
Um barulho no piso fez com que Sylvia se levantasse e fosse na direção da
porta.
Frankie levantou-se com dificuldade, sem conseguir equilibrar bem o corpo,
porém não caiu. Sylvia estava junto à porta, virando a maçaneta. Frankie tentou
alcançá-la, mas não conseguiu. Sylvia foi para a sala e gritou:
— Suzana!
O som fez Frankie estremecer. Ao prestar atenção à sua frente, viu Mac
carregando Katie. Sylvia apontou a arma para ele. Desesperada, Frankie jogou-se
contra a mulher.
Frankie não conseguia decifrar o que sentia. Dor pelo impacto, susto por causa
do disparo do revólver, depois o grito de Sylvia, que tentava enforcá-la.
Mal conseguia respirar. Com uma das mãos, pegou o punho de Sylvia e com a
outra empurrou-a.
— Conseguiu de novo me afastar de Suzana! — gritava ela.
Usando toda a força que lhe restava, Frankie tentava desvencilhar-se. Chegaram
a rolar pelo chão e a mesa da sala caiu, derrubando o abajur, mas todo o esforço foi
inútil. De repente, tudo ficou escuro.
Mac deixou Katie deitada sob uma árvore e voltou correndo para o chalé. Então
ouviu o tiro. Ao chegar à sala, viu Sylvia sufocando Frankie, batendo a cabeça dela
contra o chão. O revólver estava apenas a alguns centímetros.
Ele pegou Sylvia por trás. Os dois caíram mas a briga foi breve, pois Mac era
mais forte. Jogou-a para o lado e foi socorrer Frankie.
Inerte e pálida, respirando com força, tentando colocar ar nos pulmões. Estava
viva. Abraçou-a, aliviado.
— Você está bem?
— Sim — sussurrou ela. — E Katie?
— Ela está bem. Nada de grave aconteceu a vocês duas — disse, beijando-lhe o
rosto todo, como se precisasse desse contato para convencer-se de que aquilo não era
um sonho. De repente, Callahan chegou, seguido dos policiais.
— O que está acontecendo... Meu Deus!
— A sra. Markham tentou matar a dra. Carmichael — informou Mac. — Stanton
ainda está na cozinha, com o gás ligado. — Ao levantar-se, ajudou Frankie a fazer o
mesmo.

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— Vou até lá — declarou Callahan já à porta. — Pode deixar que cuido do sr.
Stanton. E vocês, tirem a doutora daqui.
Só mais tarde, sentado no gramado, com Katie no colo e abraçado a Frankie,
Mac sentiu a angústia começar a passar. Callahan conversava com os policiais na
frente do chalé, Stanton estava encostado em um dos pilares e Sylvia, no outro. Após
alguns minutos, as sirenes das ambulâncias puderam ser ouvidas.
Ao abrir os olhos, Katie estranhou a claridade do sol.
— Tio Mac?
— Estou aqui, minha querida. — Ele a abraçou com carinho. Fechando os olhos,
a menina se aconchegou no colo do tio.
— Eu sabia... que você viria. Eu... deixei uma pista. Mac olhou para Frankie.
— O S que você desenhou no degrau?
— Isso!
— Você é uma boa policial, doutora — elogiou Mac enquanto uma ambulância
parava a alguns metros de distância.
Frankie olhou ao redor da Mansão Barclay e teve certeza de que todos os
moradores da cidade tinham ido à festa. Cumprimentara cada um deles. A mobília fora
afastada para as laterais, de modo que sobrasse mais lugar para a dança.
As crianças faziam um verdadeiro interrogatório ao DJ Phil Anderson, da rádio de
Utica. Ada Mae e Lily Clemson colocavam mais comida na mesa do bufê. Todos
estavam alegres, dispostos a celebrar a volta de Katie.
E por que ela, Frankie, tinha vontade de chorar?
Não precisava consultar um psicanalista para saber a resposta. Quase não tinha
visto o delegado desde que mandaram Sylvia Markham para a clínica de doentes
mentais, dois dias antes.
Tess dissera que, na primeira noite após o incidente, Mac dividiu seu tempo indo
do quarto de Frankie para o de Katie. Quando ambas dormiram, saiu do hospital e
deixou Logan em seu lugar, com a missão de cuidar dela o tempo todo. Nos últimos
dias, Frankie vira mais Logan do que Mac. Houve um rápido encontro quando Katie foi
levada para casa. Os dois estavam de mãos dadas quando a menina correu para os
braços da mãe.
Foi exatamente como tinha imaginado.
— Dra. Frankie, precisamos de sua ajuda.
Quando ela se virou, deparou com Katie, Sally e Benny.
— O sr. Anderson disse que vai tocar música para que todos possam dançar —
disse Katie, fazendo uma careta. — Sabemos o que isso significa. São aquelas
canções lentas e chatas.
Atrás deles, Phil achava graça e ria.

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— Ele está brincando com vocês. Na verdade, aceita todos os pedidos.
— E você? — perguntou Katie enquanto as duas outras crianças saíam correndo
pelo salão. — Também aceita pedidos?
Frankie a fitou com atenção.
— Às vezes.
— Quero que fique em Barclayville.
— O que a faz pensar que irei embora?
— Ouvi o tio Mac dizer para mamãe que vai assumir o emprego que lhe foi
oferecido na Clínica Summerhaven.
— É um trabalho temporário, até que consigam alguém para substituir o dr.
Stanton. Ainda tenho meu programa na rádio. Então, ficarei aqui.
— Que legal! — Katie sorriu, alegre. Ao ouvir a música que Phil tocava, disse: —
Preciso ir. — E saiu correndo, para encontrar Benny e Sally na pista de dança.
Frankie olhou em torno mais uma vez, procurando Mac, mas ele ainda não tinha
chegado. Talvez fosse proposital. Queria evitá-la. Será que acreditava mesmo que ela
iria embora? O fato de estar apaixonada não significava que o sentimento fosse
correspondido.
— Trouxe um cálice de vinho para você — disse Tess, aproximando-se e
virando-se para ver Katie na pista de dança. — Ela está tão...
— ...bem! — concluiu Frankie.
— Sim. Isso se chamarmos todos estes rodopios de normal. Quanto a mim,
estou diferente, amedrontada. Amanhã ela quer ir de bicicleta para a escola e não tenho
coragem de deixar.
Frankie colocou a mão no braço de Tess.
— Não se preocupe. De certa forma, é mais difícil para você do que para ela.
Sylvia a manteve sob o efeito de sedativos. Para sua filha, os três dias passaram como
um longo período de sono. O último fato de que ela se lembra foi ter estado no carro de
Sylvia.
— Por que ela entrou? — indagou Tess. — Não quis perguntar. Não quero fazêla sentir-se culpada.
— Sylvia a dopou. Forçou-a a tomar algo sob a mira de um revólver. E lembre-se
de que Katie, assim que achou que estava em perigo, tentou deixar-nos uma
mensagem.
Virando-se para Frankie, Tess sorriu.
— Está bem. Então não devo me preocupar se ela sair com outra pessoa.
Preciso me preocupar só com fatos como... falar sobre o pai dela. Ainda não tive
coragem de tocar no assunto.
— Tenho certeza de que conseguirá.

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— Obrigada por me encorajar. — Tess aproximou-se mais e beijou o rosto de
Frankie.
Enquanto a observava afastar-se, Frankie percebeu lágrimas escorrendo pelo
rosto. Por que todos estavam tão empenhados em fazê-la sentir-se em casa?
— Um dólar por seus pensamentos, doutora. Frankie virou-se e encontrou Logan
a seu lado.
— Pensei que tivesse voltado para Nova York.
— Gosto de finais felizes, mesmo que eu não tenha nada a ver com as histórias.
Além do mais, estava curioso. Mac disse que este lugar exerce uma grande influência
na vida das pessoas.
— Finais felizes? — indagou Frankie. Em seguida olhou para o retrato acima da
lareira. — Ah! Está falando da história do fantasma que une os casais nos laços do
matrimônio?
— A senhora não acredita nessa história, não é?
— Bem... Não tenho certeza a respeito do fantasma. Mas há evidências que dão
suporte à teoria de que, quando as pessoas acreditam mesmo em algo, têm mais
chances de atingir seus objetivos.
Enquanto falava, Frankie olhava para Mattie e Grant Whitaker, que abriram o
hotel para a alegria das pessoas.
Pela primeira vez, não se sentia uma estranha. Olhou mais uma vez para o
retrato. Sim, sabia exatamente o que queria.
— Acho que posso usar seus serviços — disse a Logan. — Mac comentou que
pode encontrar qualquer pessoa. Que tal encontrá-lo para mim?
— Mac? — Logan limpou a garganta e olhou para o relógio. — Ele é esperado a
qualquer minuto. Teve um caso para resolver.
Mac entrou pelo portão da Mansão Barclay. De longe, antes mesmo de
estacionar o carro, podia ouvir o som da música. As paredes da casa pareciam vibrar.
Ao passar pelas portas, viu Katie e quase todas as colegas da escola dançando e
cantando. Em seguida viu Frankie e ficou parado, sem conseguir mover-se.
Estava linda. O coração de Mac disparou e a boca ficou seca. O vestido que ela
usava era branco, esvoaçante, exatamente como a imaginara. E se encontrava perto de
uma das portas, como no dia em que se conheceram.
Frankie virou-se e os dois se olharam. Ela aproximou-se.
— Precisamos conversar. Mac limpou a garganta.
— Frankie, eu...
— Sei que deve estar chateado comigo. E talvez tenha razão, mas quero
explicar tudo.
— Por que eu estaria chateado?

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— Porque decidi fazer com que Sylvia Markham tenha a melhor defesa possível.
Não acredito que ela precise ficar na cadeia. Sei que não concorda comigo e
compreendo seu ponto de vista. Passou os dois últimos dias recolhendo provas junto a
Jack Malloy para condená-la. Precisa fazer o que acha certo, assim como eu, que tenho
certa responsabilidade pelo seqüestro de Katie.
Mac deu um passo na direção de Frankie.
— Fico aborrecido ao ouvi-la dizer isso.
— Deixe-me terminar. Aceitei o cargo na Clínica Summerhaven porque achei que
falhei com Suzana. E fugi dos outros pacientes que estava tratando. Eu sabia que
James não dirigia a clínica de forma adequada. Ficando lá por um tempo, poderei
começar algumas mudanças, certificar-me de que Sylvia está tendo o tratamento
adequado. Gostaria que me compreendesse.
— Desde que você entenda que eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para
mantê-la presa por um bom tempo. Agora, se será num hospital ou na cadeia, não faz
diferença.
Frankie o analisou por algum tempo.
— Se não está bravo comigo por eu tentar ajudar Sylvia, então por que tem me
evitado?
— Estive ocupado.
— Ocupado?
Mac finalmente lembrou-se dos lírios que escondia atrás das costas e entregouos.
— São para você.
— Para mim? Por quê?
Frankie parecia surpresa e Mac sentia um nó no peito.
— Porque eu queria que este momento fosse perfeito. Frankie olhou as flores e
deu um passo à frente.
— Eu...
— Não! Fique onde está. Pedi lírios porque, quando imaginei esta cena, senti
esse cheiro. Queria que tudo fosse como em meu sonho. — De repente, ajoelhou-se.
— Talvez sua teoria esteja certa e exista mesmo uma relação entre o que as pessoas
acreditam e os resultados que conseguem obter. No caso de Katie, vê-la correndo para
os braços de Tess funcionou. Quero ter tudo o que sonho, sabe? O sonho em tê-la. Eu
a amo. Quer se casar comigo?
— Você me ama? Quer se casar comigo? — Frankie achou que estava
delirando, e chegou até a ouvir a Marcha Nupcial, de Mendelssohn.
Mac levantou-se.

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— Eu queria pedir sua mão no hospital, mas esperei por esta noite para que tudo
fosse perfeito. Nunca pedi uma mulher em casamento e não aceito negativa. Quero que
marque a data hoje.
Frankie sentiu vontade de rir.
— Que tal quatro de julho?
— Ótimo. Temos então... — Mac parou de falar de repente. — Quatro de Julho?
Já na semana que vem?
— Isso mesmo.
Mac abraçou-a, girando, sorridente.
— E por que quatro de julho?
— Para que não tenha tempo de mudar de idéia. E será uma data de que
nenhum dos dois se esquecerá com facilidade.
— Já lhe disse que gosto da forma como pensa, doutora? Frankie abraçou-o e
beijou-o com paixão.
Todos os moradores de Barclayville pararam de dançar e começaram a aplaudir
a cena. A Marcha Nupcial começou a tocar. E, no retrato acima da lareira, Mattie sorria.
FIM

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