Amantes Insaciáveis

Memories That Linger

Mary Lynn Baxter

Momentos Íntimos tarja nº 80
Com Andrew, o amor se tornava um verdadeiro delírio de prazer
Com o corpo arrepiado sob a roupa de ginástica, Marion voltou-se
devagar, quando o hálito quente de Andrew roçou de leve sua nuca; “Senti sua
falta, Marion, ele disse, com a voz torturada.
Não podia ser verdade. Depois de dois anos de suplício, em que tentara
esquecê-lo e àquelas semanas de loucuras à beira-mar, Andrew não podia
estar de volta! Especialmente agora, quando ele ia se casar com sua irmã, a
quem ela não queria magoar por nada no mundo.
Disponibilizado por: Cláudia
Digitalização e revisão: Nell

MEMORIES THAT LINGER
© 1984 Mary Lynn Baxter
Originalmente publicado pela Silhouette Books, Divisão da Harlequin Enterprises
Limited.
AMANTES INSACIÁVEIS
© 1986 para a língua portuguesa
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob
qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited,
Toronto, Canadá. Silhouette, Silhouette Intimate Moments e o colofão são marcas
registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Tradução: Sarah Martins
Nova Cultural — Caixa Postal 2372 — São Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda.
e impressa na Editora Parma Ltda.

2

CAPÍTULO I

Era uma manhã fria e úmida de inverno na baía de Galveston, litoral do Texas.
O silêncio dava à praia um aspecto desolador e sombrio.
Andrew Corbett respirou fundo e acelerou os passos da corrida, deixando que o
vento gelado afastasse as preocupações que o mantiveram acordado durante a noite.
Precisava ficar em paz consigo mesmo, mas os mesmos pensamentos teimavam em
trazer-lhe, uma vez mais, a dor e a amargura que gostaria de esquecer.
Se ao menos Kathy tivesse consentido que Jason viesse... Não! Não permitiria
que essas lembranças continuassem a torturá-lo.
As palavras de seu chefe e amigo no hospital lhe vieram à mente.
— Andrew, você está se acabando. Não quero me intrometer em sua vida
pessoal mas, como seu amigo, devo alertá-lo de que seus problemas particulares estão
interferindo na sua eficiência como cirurgião.
— Por favor, Todney, só preciso de um pouco mais de tempo. Kathy está quase
concordando...
— Ouça, Andrew, já resolvi. Quero que vá para a praia e não faça nada, além
de dormir, pescar e descansar por algumas semanas. O que estou tentando lhe dizer,
homem, é que você tem que refrescar a cabeça. Muitas pessoas dependem do seu
trabalho, como médico dedicado que sempre foi!
Andrew correu mais rápido pela areia. Aspirou o cheiro do mar, trazido pelo
vento, e ergueu os olhos para o céu infinitamente azul. Era um momento de
abençoada tranqüilidade, que ele gostaria de prolongar.
Ao olhar para a frente, porém, quase deu um encontrão numa jovem que
também corria pela praia, na mesma direção. Analisou o corpo esbelto e encantador.
Os seios redondos e firmes balançavam ao ritmo de movimentos graciosos,
magnetizando-lhe a atenção.
Seus olhares se cruzaram por um momento. Um breve momento, em que

Andrew viu-se mergulhado num rio castanho profundo. Observou as linhas delicadas
do rosto fino e notou que elas traziam um certo ar de tristeza.
Automaticamente, diminuiu a marcha. Não havia mais como ignorar aquela
presença.
A jovem o cumprimentou com um leve gesto de cabeça, salientando o brilho
natural de seus cabelos escuros, e ele respondeu, rapidamente, esboçando um sorriso:
— Bom dia!
Para sua surpresa, porém, a moça acelerou a marcha e saiu em disparada.
Olhou para trás e observou-a continuar a corrida pela praia deserta. Ela parecia
tão solitária, tão perdida...
O que, naquela mulher, o havia impressionado tanto, a ponto de deixá-lo
completamente perturbado, com o coração inquieto? Seria a tristeza, o olhar sombrio
de quem parecia ter perdido o gosto pela vida? Ou simplesmente o fato de ela tê-lo
ignorado?
Era um absurdo sentir-se amuado só porque uma estranha não se interessara
por ele. E absurdo ainda maior era sentir compaixão por alguém que nem sequer
precisava de sua piedade.
Andrew riu de si mesmo. Provavelmente, a moça era uma mulher bem casada,
cujo marido e filhos deviam estar esperando ansiosos por sua chegada. Além do mais,
já tinha problemas suficientes para ficar filosofando sobre a suposta tristeza de uma
desconhecida que encontrara na praia. Mesmo em se tratando da mulher mais linda
que já vira na vida.
Suspirou fundo e, melancólico, dirigiu-se para a enorme casa, silenciosa e
vazia, onde estava hospedado.
A aurora despontava sobre a baía, quando Marion abriu a porta e sentiu a brisa
fria do mar acariciando-lhe o rosto. Fechou a jaqueta do abrigo, cuidadosamente, para
proteger-se da umidade da manhã.
Essa era a primeira vez que voltava à casa da praia, desde a morte de Elliot, um
ano atrás. Precisava tomar algumas providências a respeito do lugar, embora relutasse
4

em desfazer-se dele. Na verdade, era o único esconderijo que possuía, onde podia
ficar em paz, longe dos olhos da irmã gêmea, Morgana, e dos bem-intencionados
amigos.
O frio da manhã a fez estremecer levemente. Marion esfregou os braços e,
sentando-se na escadinha da varanda, apertou o laço de um dos tênis, aproximando os
joelhos do peito e abraçando as pernas. Não conseguia se interessar por nada. O
desânimo aos poucos ia tomando conta de seu coração, por mais que tentasse lutar
contra ele.
Estava sozinha, era verdade, mas tinha que encontrar forças para prosseguir.
Afinal de contas, não era a única mulher no mundo a perder o marido. Precisava
reagir, fazer alguma coisa. Mas o quê?
Aos trinta anos de idade, devia haver alguma coisa útil com que pudesse se
ocupar. Se ao menos não fosse tão solitária, se ao menos tivesse tido o filho que Elliot
tanto desejara!
Nos quinze anos em que estiveram casados, ele nunca se conformara com o
fato de não terem tido um filho. E, agora, quem sofria era ela.
A própria irmã, um dia antes de viajar para a praia, discutira o assunto com ela.
— Que coisa, Marion! Por que você precisa ficar se punindo desse jeito? Elliot
se foi e nem você, nem ninguém, poderá trazê-lo de volta. Você deu tudo o que podia
a ele, era uma verdadeira escrava...
— Pare com isso, Morgana! Não gosto que você fale mal de Elliot. Afinal de
contas, ele era meu marido e eu apenas cumpri com a minha obrigação.
— Que bobagem! Você parece tia Sofia falando: o lugar da mulher é ao lado do
homem, para amá-lo e servi-lo. Credo!
Marion deixara que as lágrimas corressem soltas por suas faces.
— O que vou fazer? Sinto-me tão perdida...
— O que você deve fazer é esquecer o passado e pensar no futuro. Olhe-se no
espelho, Marion. Você está magra, pálida, sem vida... — Vendo que a irmã não parava
de soluçar, Morgana a abraçara. — Não acha que já chega de se culpar por não ter
dado um filho a ele?

— Oh, Morgana, se ao menos eu o tivesse amado, quero dizer, amado de
verdade, as coisas teriam sido diferentes!
— Seja realista, Marion. Elliot sofria de câncer e você não podia fazer nada a
respeito disso. Por dois anos, você cuidou dele com todo o carinho e dedicação. Fez o
melhor ao seu alcance...
— Como você pode ser tão insensível?
— Pelo amor de Deus, Marion! Alguém tem que fazer você enxergar as coisas,
claramente, antes que seja tarde demais!
Cansada de remoer o passado, Marion levantou-se da escada da varanda e
colocou-se em posição para iniciar seus exercícios matinais. Rindo, achou que devia
estar louca, acordando de madrugada para fazer ginástica e correr, apesar de, nos
últimos dias, isso estar sendo sua tábua de salvação.
Terminou os exercícios de aquecimento e iniciou a longa corrida pela praia
deserta. De repente, no meio do caminho, viu o homem que a cumprimentara no dia
anterior, correndo em sua direção. Desta vez seria obrigada a cumprimentá-lo.
— Droga! — exclamou, fechando os olhos e desejando que ele desaparecesse.
Mas, quando os abriu, nem a melancolia da manhã a havia abandonado, nem o
estranho desviara de rumo, passando por ela e sorrindo abertamente.
Assim que chegou em casa, Marion atirou-se numa poltrona e tentou relaxar.
Ainda podia sentir a atração que tomara conta do seu corpo quando ele lhe dirigira a
palavra. “Que voz agradável, grave, bonita!’’
Aquela, porém, não fora a primeira vez que o notara. Três dias atrás, enquanto
descarregava a bagagem do carro, ao chegar de viagem, uma silhueta alta e forte,
correndo pela praia, lhe chamara a atenção. E, embora não o tivesse examinado de
perto, não tinha dúvidas de que se tratava de um belo exemplar do sexo masculino.
Os músculos do tórax ressaltavam-se sob o agasalho de malha azul-clara,
contrastando com os cabelos escuros, revoltos pelo vento.
O que um homem como ele estaria fazendo na praia, sozinho, naquela época
do ano?, perguntou-se. Era bem provável que estivesse acompanhado.
Por outro lado, havia qualquer coisa nele que a intrigava. Parecia tão
6

abandonado, tão solitário...
Vê-lo de perto a deixara perturbada. Só o fato de saber que ele estava apenas
três casas abaixo da dela já a desagradava. Queria ficar sozinha, não desejava ver
nem falar com ninguém.
Massageou as têmporas doloridas, pressentindo mais uma onda de depressão
chegar. Por que aquele homem tinha que passear pela praia, instigando sua
curiosidade e fascinando-a ao mesmo tempo?
Irritada consigo mesma por estar tão abalada, Marion levantou-se da poltrona e
foi para o quarto, despindo-se pelo caminho.
Ora, não era a solidão dele que a preocupava, mas sim o incrível desejo que ele
havia lhe despertado. Desde muito tempo não sabia o que era estar nos braços de um
homem e isso acabara por deixá-la vulnerável.
Quinze minutos mais tarde, após um banho reconfortante, Marion saiu do
quarto, vestindo um jeans desbotado e uma camiseta branca. Seus cabelos castanhoescuros, quase pretos, soltos em ondas suaves, davam-lhe um ar belo e jovial.
Foi para a cozinha, quebrou um ovo na frigideira e ficou a observá-lo, distraída
em vê-lo estalar na manteiga. O som de batidas na porta da frente, porém, trouxe-a de
volta à realidade. Desligou o fogo e foi atender.
Presumindo quem poderia ser, girou a maçaneta devagar, o coração aos pulos.
Não se enganara: lá estava ele, o homem da praia, encostado timidamente no
batente da porta!
Por um momento, permaneceram parados, olhando um para o outro, como que
hipnotizados. Então ele falou:
— Sinto estar incomodando, mas...
Marion ficou sem graça, olhou para o copo que ele trazia numa das mãos,
depois tentou agir com naturalidade, mas não conseguiu se mover, impotente diante
da intensidade daquele olhar.
Ele era muito mais bonito do que podia se lembrar. Devia ter cerca de quarenta
anos, já com alguns fios prateados permeando os cabelos escuros, e seu olhar,
acentuado por rugas suaves em volta dos olhos cinzentos, era profundo, denunciando

algo mais que experiência.
Estudou os lábios grossos e bem-feitos, o nariz reto e a covinha apenas
sugerida no queixo firme e quadrado. Sim, realmente ele tinha tudo que podia desejar
num homem.
Ao fim de alguns segundos de hesitação, ela sorriu e perguntou:
— Você precisa de alguma coisa?
Ele esboçou um sorriso, enquanto seus olhos a devoravam, deslumbrados. O
timbre daquela voz tinha qualquer coisa que o seduzia, era um som rouco, grave e
quente, muito peculiar e que combinava com ela.
— Leite — respondeu. — Minha omelete não ficaria boa sem leite.
Apesar de desejar mantê-lo a distância, Marion não pôde ignorar o jeito
travesso com que ele lhe estendia o copo, ainda encostado no batente da porta.
— Entre, por favor. — Apanhou o copo com delicadeza. — Vou pegar o leite.
Jamais impediria um homem de preparar sua própria refeição.
Ele entrou e riu. Um riso gostoso e desinibido que a fez estremecer.
— Você está querendo dizer que os homens que conheceu não se interessavam
por culinária?
Marion mordeu o lábio inferior, perturbada pelo sorriso provocante que
acompanhara a pergunta, e desviou o olhar. Aquele homem lhe roubava a presença de
espírito, despertando-lhe uma atração tão forte e avassaladora que não tinha idéia de
como lidar com a situação.
— Eu... conheci poucos homens que gostavam de cozinhar — respondeu num
impulso, mas logo se arrependeu. Por que dissera uma coisa tão estúpida como
aquela? Além do marido, não houvera mais ninguém.
— Bom, eu, pelo menos, tento — ele sorriu. — Embora às vezes me sinta tão
desajeitado na cozinha quanto um hipopótamo numa loja de porcelana.
Ela achou graça na comparação e caminhou de volta para a cozinha. Ele a
seguiu com o olhar, acompanhando deliciado seu andar ondulante, e concluiu que ela
ficava encantadora quando sorria. Depois passeou o olhar em volta.
A sala era aconchegante. Do teto alto, revestido com telhas de vidro, pendiam,
8

como numa estufa, vários tipos de plantas, penduradas nas vigas para aproveitar a luz
do sol. A mobília era simples, mas de bom gosto, e consistia num sofá de cores vivas
com duas poltronas iguais, muito confortáveis, e uma mesinha de carvalho maciço,
dispostos em frente a uma lareira de pedra. Sobre o assoalho, claro e encerado,
estendia-se um grande tapete de sisal.
— Sua casa é muito gostosa — comentou, elevando um pouco a voz para que
ela pudesse ouvi-lo. — Faz tempo que vem aqui?
— Uns dez anos. Mas faz mais de um ano que não vinha para cá.
Ele entrou na cozinha e a encontrou encostada na mesa basculante, enchendo o
copo com leite. Dentro da frigideira, um ovo meio cru lembrou-o de que podia estar
sendo inconveniente.
— Por que não me disse que interrompi seu café da manhã?
— Mas você não... Bem, é verdade, mas não tem importância.
Marion sentiu-se tola por se contradizer, e calou-se, enquanto se instalava
novamente um silêncio constrangedor entre os dois.
Ele se adiantou:
— Vou só pegar o leite e ir embora, não quero ficar atrapalhando.
Seguiu-se novo silêncio. Depois ela sorriu e surpreendeu a si mesma,
estendendo-lhe a mão.
— Mas nós nem nos apresentamos! Sou Marion Stevens.
Ambos estremeceram ao contato físico, desejando que aquele momento se
prolongasse.
— Sou Andrew Corbett. Doutor Andrew Corbett — ele disse, mas arrependeuse imediatamente. O que estava tentando fazer, impressioná-la? Soava tão arrogante!
Marion, porém, não o achou convencido e, percebendo-lhe o embaraço, tentou
remediar a situação.
— Eu também, se tivesse esse título, sentiria muito orgulho em anunciá-lo.
Ele piscou, sentindo-se mais ridículo ainda, e aproximou-se dela para pegar o
copo de leite, enquanto tentava se justificar:
— Não costumo me gabar da profissão que exerço, mas foi automático, não sei

se você entende.
— Entendo perfeitamente, não precisa se desculpar.
Estavam tão próximos que Marion teve o ímpeto de se afastar. Mas não saiu do
lugar, achando que seria indelicadeza de sua parte. Depois, ele era tão bonito, tão
irresistível... Podia sentir-lhe o frescor da pele sob a camisa e o perfume sedutor da
loção pós-barba. Cheiro de homem.
Procurando dissimular o embaraço, dirigiu-se ao armário e apanhou duas
xícaras, para servir um café.
— O seu consultório é em Houston?
— Sim, no Centro Médico. Você também é de lá?
Percebendo que ele estava se interessando por ela, Marion ficou lisonjeada.
Como aquele estranho mexia com ela...
— É, também sou de Houston.
— De que parte? Vamos ver se conheço.
— De Memorial. Nasci e cresci lá.
— Gosto muito desse bairro, tanto que quase construí uma casa ali.
Andrew não fez nenhum esforço para esconder a amargura que aquela
lembrança evocava e Marion identificou-se com o sofrimento estampado em seu
rosto. Era como ver refletida a própria alma num espelho. Foi para a sala e sentou-se
no sofá.
Andrew a acompanhou, sentando-se na mesinha de carvalho, e desculpou-se
sorrindo:
— Perdão, parece que, por mais que se tente, não se pode apagar o passado,
não é mesmo?
Marion tentou sorrir, mas uma sombra de tristeza passou por seus olhos.
— Pensei que eu fosse a única pessoa que tivesse esse tipo de problema —
comentou. Depois, notando que a conversa poderia tomar um rumo depressivo,
resolveu mudar de assunto. — Você vem sempre para cá?
— Infelizmente, não. Já vim duas vezes, mas nenhuma delas espontaneamente.
A casa é de um amigo meu. E este amigo, que também é meu chefe no hospital, me
10

“intimou” a tirar essas férias.
Marion observou no rosto dele a mesma amargura de instantes atrás e esperou
que ele se explicasse, mas em vão. Em lugar disso, ele sorriu docemente, um sorriso
que a encheu de ternura.
— Mas, agora, fico feliz por ter vindo. Preciso de uma amiga, Marion Stevens,
e você me inspira confiança.
Uma onda de calor sensual a invadiu e ela deu-se conta, chocada, de que estava
se deixando envolver por aquele estranho. O que não era boa coisa pois, a julgar pelo
pouco que lhe havia dito, ele parecia ter mais problemas do que ela. E, pensando que
certamente isso tinha algo a ver com uma mulher, ficou com uma pontinha de ciúme.
— Que tipo de amiga você procura?
Andrew sentiu a excitação correr-lhe nas veias e baixou o olhar do rosto dela,
admirando-lhe os seios. Ela não estava usando sutiã e o formato dos mamilos grandes
deixava-se entrever através do tecido da camiseta.
— Que tal conversarmos e descobrirmos? — ele sugeriu, procurando parecer
sério, embora um riso provocante nos cantos dos lábios o traísse.
Marion, apesar de muito tensa, resolveu entrar no jogo e respondeu
calmamente:
— Não faço nenhuma objeção.
Andrew tomou um gole de café, enquanto Marion admirava-lhe as mãos
longas, os dedos finos e as unhas bem-feitas.
— E você? — ele perguntou. — Também está aqui passando férias?
— Mais ou menos. Estou aproveitando a calma do inverno para descansar um
pouco.
— Pensei que eu fosse o único maluco a procurar uma praia fora da temporada
para arejar a cabeça. Adoro ver as gaivotas mariscando na beira do mar e sentir o
vento frio no rosto.
— Eu também gosto muito de estar aqui nessa estação. Pescar, nadar e acordar
cedo para fazer ginástica me fazem muito bem.
— Mas você, com as formas perfeitas que tem, não precisa fazer exercícios.

Marion acompanhou-lhe o olhar sobre seu corpo e enrubesceu, inquieta.
— Não estou preocupada com isso. Faço ginástica porque me sinto bem.
Andrew arrependeu-se novamente de suas palavras inconvenientes e resolveu
mudar o rumo da conversa.
— Você trabalha?
— Não, por enquanto.
Ele olhou encantado o modo gracioso com que ela se ajeitou no sofá, sentandose em cima de uma das pernas.
— O que pretende fazer?
— Não sei, ainda estou indecisa. Tive muito tempo para pensar, mas pouca paz
de espírito. Surgiram alguns problemas...
— Por que não fala sobre eles?
— Eu... fiquei viúva. Na semana passada fez um ano que perdi o meu marido.
E até agora não me animei a reconstruir a vida.
Ele pareceu surpreso.
— Você o amava?
Foi mais uma pergunta inoportuna. Marion espantou-se com a espontaneidade
dele e sentiu novamente o rosto corar.
— Talvez não... como deveria. Nós nos casamos muito cedo e, no decorrer dos
anos, o relacionamento foi se desgastando. Depois, ele ficou doente...
Um nó na garganta não permitiu que ela continuasse. O que estava fazendo?
Por que estava abrindo a alma a um estranho, contando a ele coisas que não tinha
coragem de enfrentar, mesmo nas horas de solidão? Não podia acreditar no que
estava acontecendo.
Andrew, porém, não disse nada. Marion percebeu que um novo silêncio
constrangedor iria se interpor entre eles e retomou a conversa.
— Sua vez, agora.
— Como?
— Fale-me de você. Por que teve que tirar essas férias forçadas?
— É uma longa história, muito chata, na verdade. — A amargura voltou-lhe à
12

voz. — Não quero aborrecê-la. E, se não se importa, prefiro não falar de meus
desenganos.
Marion baixou os olhos, agora convencida de que havia mesmo uma mulher
envolvida. Ele apresentava todas as características de alguém recém-saído de uma
desilusão amorosa. Lembrava-se de sua irmã Morgana quando se separara do marido.
Levantou os olhos e o encarou. Era um homem tão másculo... Foi então que a
imaginação pregou-lhe uma peça: visualizou os dois nus, trocando carícias. Para
disfarçar a perturbação involuntária, ela começou a tagarelar.
— Você corre todas as manhãs? Faço isso, religiosamente, há seis meses, e é
incrível como me sinto. Nem pensaria em abandonar este hábito agora. Depois que
me livrei de algumas gordurinhas, então...
Andrew riu, colocando-a à vontade.
— Há anos que corro pela manhã e o que me incentivou, no começo, também
foi a presença de algumas gordurinhas. Acho que de medo que elas voltassem nunca
mais parei.
Marion continuou a falar sem inibições.
— Muitas vezes pensei em dar aulas de ginástica. Montar uma academia,
talvez. Ensinar outras mulheres a conservarem o corpo bonito e saudável. — Depois
fez uma pausa, constrangida. — Não devia ter falado nisso. Eu mesma acho uma
idéia maluca, embora, no fundo, gostasse de tentar.
— Pois para mim é uma idéia brilhante!
— Por favor, não... Eu jamais poderia... Estava apenas divagando... não era
nada sério... só um sonho.
Andrew sentou-se na ponta da mesinha para chegar mais perto dela.
— Por que você não tenta? Com o corpo que tem, pode ser um exemplo para
aquelas que não foram tão privilegiadas.
— Bem, vamos ver...
A expressão do rosto dele tornou-se séria e compenetrada.
— Não desmorone os sonhos que tem. — Ele alcançou-lhe uma das mãos e
afagou-a brevemente. — Vamos, prometa-me que vai pensar mais seriamente no

assunto.
Ela concordou com um gesto de cabeça.
— É assim que se faz. — Ele levantou-se e fez menção de se despedir. — É
melhor eu ir andando. Já amolei bastante.
— Por que não fica mais um pouco? — Marion tinha a respiração ainda presa
de emoção. — Ah! Não vá esquecer o leite!
Apressou-se a ir à cozinha, sentindo-se aliviada por ele ir embora, pois lhe
incomodava que ele em tão pouco tempo já soubesse tanta coisa a seu respeito.
Quando ela voltou com o copo, ele disfarçou o embaraço olhando para a porta.
— Obrigado. Se precisar de alguma coisa, estou às ordens.
Ela o acompanhou até a saída e convidou:
— Venha tomar um café, qualquer hora.
Mas arrependeu-se. Se fosse uma mulher sensata, não ficaria tão perto dele.
Aquele homem era um perigo para ela.
— Pode contar que eu venho. — Andrew deu outra olhada nos mamilos, agora
eretos, que se salientavam sob o tecido da camiseta e pensou em como seria beijar
aqueles lábios grossos e sensuais que pareciam tão macios e quentes... — O café
estava uma delícia!
— Obrigada. — Marion deixou-se ficar encostada no batente da porta
observando-o.
Andrew deteve-se no último degrau da escada da varanda como que para
retardar aquele momento e fitou fixamente os olhos dela.
— Passo aqui, qualquer dia desses, para irmos passear de barco, se você tiver
vontade, é claro.
— Será um prazer.
Ele olhou-a nos olhos ainda por um instante, que pareceu uma eternidade, e
murmurou:
— Até logo.
Depois, voltou-se e foi embora.
Marion mordeu o lábio e, com o coração apertado, reuniu todas as forças que
14

possuía para não chamá-lo de volta.

CAPÍTULO II

Marion passou o resto da manhã e os três dias que se seguiram numa ansiedade
crescente. Nenhuma atividade conseguia aplacar a inquietação que a dominava.
Tentou pintar um pouco, arrumou a casa, colocou as roupas em ordem, fez ginástica,
correu, saiu para longas caminhadas... sempre esperando que Andrew aparecesse de
repente, mas foi tudo em vão. Ele não voltou e nada podia abrandar o desejo de
estarem juntos.
Por fim, começara a se recriminar, culpando-se por seu comportamento
inconseqüente. Em vez de pensar em planos concretos para o futuro, o que fazia ela?
Passava a maior parte do tempo no mundo da lua por causa de um estranho! Um
desconhecido que não tornaria a procurá-la por mais que também desejasse revê-la.
Era evidente que ele se sentira atraído por ela. Estava escrito na expressão de
seu rosto, nos olhos, no modo inseguro com que ele se dirigira a ela. Entretanto, não
parecia ser um homem de se deixar levar pelos impulsos.
— Droga! — exclamou, depois de quase riscar um disco que acabara de
colocar no aparelho de som.
Estava com raiva de si mesma porque não podia esquecê-lo por um segundo. O
que havia de tão especial nele? Tivera tantas oportunidades de sair com admiradores,
desde a morte de Elliot, mas nunca aceitara nenhum convite. Por que agora estava tão
ansiosa para encontrar-se de novo com aquele estranho?
Por outro lado, não entendia o motivo de estar resistindo tão violentamente
àquela atração repentina. Por que simplesmente não se rendia? Seria porque ainda
sentia medo, lembrando-se dos comentários de Elliot que a diminuíram como

mulher?
“Não é esse o caso e você sabe disso”, uma voz lhe dizia em seu íntimo. “Seu
problema, Marion Stevens, é físico! É só a necessidade de sentir um corpo quente e
musculoso junto ao seu. Ignore-o e isso vai passar por si mesmo.”
Mas a imagem de Andrew não a deixava um minuto sequer, e cada vez que se
lembrava, involuntariamente, do corpo, do rosto, dos olhos daquele homem, mais o
desejo crescia dentro dela. Inutilmente tentava controlar a impulsividade que ardia,
queria, agoniava.
Por fim, concluiu que o melhor seria fatigar a criatura teimosa e caprichosa que
era seu corpo. Mais tarde iria correr alguns quilômetros para dar-lhe o que fazer.
Andrew andava de um lado para outro da sala. Sobre a mesa estava
esparramada a papelada da pesquisa que trouxera consigo. Embora não tivesse
qualquer intenção de estudá-la, nos últimos dias fora só o que fizera: dedicar-se ao
trabalho para esquecer aquela mulher. Mas a imagem dela teimava em ocupar-lhe a
mente.
Foi até a janela, entreabriu as cortinas e contemplou o cinza triste do céu.
Lembrou-se do castanho misterioso dos olhos de Marion, da graciosidade dos gestos,
da perfeição tentadora dos lábios. Estava fascinado, enfeitiçado por ela, obcecado
pela idéia de revê-la.
Encostou-se no beiral da janela. Que mal podia haver em encontrá-la uma vez
mais? Como uma amiga, apenas... Estar ao lado dela, desfrutar da delícia de sua
companhia serena poderia ser um bálsamo para seu coração ferido. Além disso,
enquanto estivesse com ela, esqueceria os problemas que o atormentavam.
Prometendo a si mesmo que seria só por aquele dia, tomou um banho
reconfortante, vestiu uma calça jeans desbotada, um pulôver azul e uma jaqueta
esportiva, fechou a: porta e saiu. Antes de dirigir-se à casa de Marion, hesitou por um
momento: ainda era tempo de voltar e continuar trabalhando. Mas a lembrança das
mãos delicadas, do pescoço nu se oferecendo sem saber, dos seios firmes e
tentadores, livres sob a camiseta, o impeliram para a frente.
16

Marion atendeu a porta, surpresa, e piscou várias vezes, como se tentasse
focalizá-lo melhor. Andrew reparou nos cabelos ondulados e no robe longo que
escondia tudo, embora lhe instigasse a imaginação.
— Você estava dormindo?
— Não, não estava — ela sorriu, procurando disfarçar o embaraço. Um rubor
inundara-lhe o rosto ao lembrar-se de que não vestia uma única peça de roupa por
debaixo do robe.
Andrew permaneceu calado, enquanto o sorriso dela desaparecia lentamente.
Não precisavam dizer nada. Os olhares trocados eram suficientes para traduzir o que
sentiam.
— O que você acha de fazermos aquele passeio de barco... agora? — ele
quebrou o silêncio por fim. E, percebendo a indecisão no rosto dela, insistiu: — Você
gosta de andar de barco, não gosta?
— Você acreditaria se eu lhe dissesse que jamais entrei num barco?
Andrew estava inseguro como um adolescente. Nunca se sentira tão atraído por
uma mulher nos seus quarenta anos de vida.
— Sempre há uma primeira vez... Por que não experimenta?
O coração de Marion quase parou com o sorriso dele.
— Não sei...
— A menos que tenha algo melhor para fazer... — Andrew se interrompeu a
tempo de disfarçar o tom suplicante da voz.
— Está bem, eu vou.
— Ótimo! Apanhe o casaco e um par de luvas, que eu espero você na frente de
casa. Arrumo tudo num minuto.
Marion foi tomada de um medo repentino, pois as coisas estavam acontecendo
depressa demais.
— E... e o que vamos comer? Ao menos me dê um tempo para preparar alguns
sanduíches.
— Excelente idéia.

Andrew pousou os olhos cinzentos nela por mais um instante e partiu
alegremente.
Em vinte minutos, Marion saía na direção da casa de Andrew, depois de vestir
uma calça jeans, um suéter, preparar alguns sanduíches, encher uma garrafa térmica
com café fresco e apanhar uma jaqueta e as luvas.
Encontraram-se no meio do caminho. Andrew voltava com rugas na testa,
demonstrando preocupação.
— Acho que não vai dar para sairmos de barco. O tempo não está bom e
poderia ser perigoso. Que tal se passeássemos um pouco pela praia, acendêssemos
uma fogueira e fizéssemos um piquenique? Quem sabe mais tarde o tempo melhore e
tomamos um pouco de sol.
— Por mim, está bem. Assim, poderei recolher algumas conchinhas.
Caminharam em silêncio pela praia, admirando a paisagem nua do litoral do
Texas e aspirando a maresia que impregnava o ar da manhã. Iam de mãos dadas,
como se fosse a coisa mais natural do mundo manterem os dedos entrelaçados,
enquanto passeavam sem dizer palavra, ouvindo o barulho das ondas quebrando na
areia.
De repente, Marion tropeçou e perdeu o equilíbrio, tentando não pisar numa
estrela-do-mar que jazia na areia úmida. Andrew quis ajudá-la, mas atrapalhou-se e,
para evitar que ela caísse, a enlaçou com os braços.
Ficaram com os rostos muito próximos, o vento soprando pelo vão estreito que
os separava. Os olhos de Andrew cintilaram, percorrendo as feições suaves de Marion
a sua frente. Aproximando-se lentamente, beijou-a nas pálpebras, na ponta do nariz,
nas faces, no queixo, no pescoço, voltando aos mesmos lugares e beijando-os de novo
e de novo.
— Meu Deus, Marion! — sua voz vibrava de emoção. — O que você está
fazendo comigo?
Numa resposta muda, ela levantou os cílios sedosos e percorreu-lhe o pescoço
másculo com as pontas dos dedos, embriagada pelo encanto daquele instante.
Andrew se afastou, passando a mão no cabelo, sem se preocupar em esconder a
18

inquietação.
— Marion! Não olhe para mim desse jeito!
Por seu lado, ela também esquivou-se, e não sabia como agir para dissipar o
clima tenso que se instalara entre eles.
Depois desse momento, não se deram mais as mãos, concentrando-se em
apanhar conchinhas. Marion concluiu que era melhor assim, pois temia que um
simples olhar apaixonado, ou um toque carinhoso, acendesse a chama do desejo que
procurava apagar dentro de si. Não sabia se estaria preparada para o que viesse
depois.
— Você não acha que já catamos o suficiente? — perguntou Andrew, depois de
algum tempo, apalpando os dois bolsos da jaqueta, repletos de conchas dos mais
variados tipos e tamanhos. — Estou morrendo de fome. E você?
— Eu também.
Uma rajada de vento gelado soprou na praia. Andrew parou e olhou ao redor,
depois encarou Marion, preocupado.
— Que acha de desistirmos do piquenique e irmos para sua casa? Poderíamos
saborear melhor a comida, aquecidos pelo calor da lareira, confortavelmente
instalados.
— Concordo. Está muito frio aqui fora.
Marion ainda sentia a forte tensão que pairava entre eles. Se fossem para casa,
o inevitável poderia acontecer, pois a atração era tanta que mal conseguiam manter as
mãos afastadas um do outro. Seria isso mesmo que queria, fazer amor com aquele
homem? Não, não era apenas atração física que sentia por ele, mas alguma coisa
muito mais profunda, que não podia explicar, como se o conhecesse há muito
tempo...
— Vamos indo?
Começaram a longa caminhada de volta. Por que ele a havia beijado? Por que
não pudera conter o impulso de seu corpo, agindo como uma pessoa sensata?
Marion teve vontade de voltar atrás, quando sentiu sobre os ombros o toque
suave do braço de Andrew. O silêncio ficava cada vez mais pesado entre eles.

Estavam quase chegando quando ela consultou o relógio. Eram quase duas
horas. Olhou para o céu cinza-chumbo e controlou-se para não ranger os dentes de
frio.
— Você deve estar congelando com este vento — Andrew observou e a
aconchegou em seus braços, consciente de que estava dando mais um passo em
direção ao abismo.
Contemplou os cílios espessos que filtravam o brilho dos olhos escuros, as
faces coradas pelo frio, a orelha delicada que ficara exposta quando ela afastara os
cabelos do rosto ao passar a chave pela fechadura. Desejou acariciá-la e sentiu o
corpo enrijecer dolorosamente. Havia encontrado uma mulher capaz de lhe aprisionar
o coração e não podia entregar-se a ela. O melhor seria desistir enquanto houvesse
tempo.
— Você não quer colocar lenha na lareira, enquanto preparo um café fresco? —
Marion interrompeu seus devaneios.
— Sim, lógico. Não se preocupe.
Ela foi até o quarto trocar de sapatos e, quando voltou à sala, encontrou
Andrew de joelhos, ajeitando a lenha com o atiçador.
— Lamento informar que não podemos mais sair de casa, pelo menos por
enquanto — ele sorriu, como a se desculpar, mas a expressão de contentamento
estampada em seu rosto traiu-lhe as palavras.
— Como assim?
— Não está ouvindo os pingos de chuva no telhado?
Marion correu à janela, afastou as cortinas e olhou para o céu escuro, vendo a
chuva espessa que caía. Seu coração disparou, ao se dar conta da intimidade repentina
que o acaso lhes havia imposto.
— Puxa! O tempo fechou em questão de minutos. Até parece que o sol nunca
mais vai brilhar.
Andrew sugeriu:
— Por que você não prepara o café enquanto eu vou tirando as coisas da cesta?
— Gostaria de experimentar uma dose de conhaque no café? — ela propôs. —
20

É uma delícia com esse frio.
— Parece que é exatamente o que precisamos para relaxar. Mas vá depressa,
que estou morrendo de fome!
Quando Marion voltou à sala com o café generosamente temperado com
conhaque, a mesinha já estava pronta para o lanche e, no centro dela, uma vela
espalhava um brilho dourado pela sala já escura àquela hora do dia.
Andrew fez um gesto teatral, passando a mão no carpete, e perguntou
solenemente, com um riso mal contido nos lábios:
— Sua alteza se incomodaria em sentar-se no chão?
— Naturalmente! — Marion continuou no mesmo tom de brincadeira,
encenando uma reverência. — Seria um imenso prazer comer sanduíches em tão
nobre acomodação!
Não era tão engraçado, mas bastou um olhar para o outro e ambos caíram
numa gargalhada que não conseguiram segurar.
O ataque de riso foi apenas o início de uma tarde deliciosa. Durante toda a
refeição, conversaram e riram a valer, falando de suas preferências literárias e
musicais, dos filmes e comidas de que mais gostavam e dos que detestavam. Não se
preocuparam mais com seus problemas particulares, indiferentes até à chuva que
investia cristalina contra a janela, tão imersos estavam um no outro.
Depois de saciada a fome e esvaziadas as xícaras, buscaram o conforto e o
aconchego do sofá. Sob o efeito do conhaque no café e o fogo gostoso da lareira, as
horas passaram despercebidas, diluídas em momentos de intensa paz.
Instintivamente, Andrew passou um dos braços em volta dos ombros de
Marion que, não só consentindo, também começou a afagar-lhe uma das mãos, com
muita naturalidade.
Totalmente à vontade, como uma gata que se aconchega ao dono, ela aninhouse ainda mais contra aquele peito atlético e, roçando o rosto no pulôver sentia-se tão
bem onde estava, alojada no peito dele, conversando descontraidamente, inalando o
delicioso odor masculino...
— Há quanto tempo não me sentia assim! — murmurou. — Estou tão leve que

mal consigo manter os olhos abertos.
Andrew mergulhou as faces em seus cabelos perfumados e macios e suspirou
fundo.
— Eu também.
Aquela cabeleira sedosa era como um ninho onde podia esconder seus medos e
fantasiar sonhos de delícias indescritíveis. Mas ele não tinha esse direito.
Num esforço sobre-humano, conseguiu vencer a tentação de entregar-se ao
deleite que aquele corpo oferecia e decidiu-se:
— Acho melhor eu voltar para casa e deixar você dormir em paz.
Marion arregalou os olhos, estática. Não conseguia acreditar que ele pudesse
deixá-la, depois das horas inesquecíveis que passaram juntos, trocando confidências e
carinhos. Embora ele não tentasse beijá-la, nem muito menos fazer amor com ela, a
despeito de tudo que pensara nos últimos dias, agora era ela quem estava pronta para
entregar-se. Então, qual era o problema, se ele demonstrava o desejo de beijá-la e de
perder-se em seus braços? Que segredos o detinham, que forças o impeliam a
controlar-se?
Depois de algum tempo em que nenhum dos dois rompeu o silêncio, Marion
afastou-se um pouco, mas só o suficiente para examinar-lhe as faces afogueadas, e
acariciou-lhe o cabelo em desalinho. Em seguida, deixando-se guiar pelo instinto e
disposta a chegar às últimas conseqüências, começou a percorrer os lábios grossos e
sensuais de Andrew com a língua, à procura da dele. Agia de uma maneira
deliciosamente inocente, mas consciente de quão tentadora estava sendo.
Andrew estremeceu, antes de protestar, num tom que denunciava todo o
sofrimento comprimido em seu peito.
— Marion... por favor... não faça isso... eu... — ele balbuciou, sufocando-lhe as
palavras. — Não, Marion... não devemos...
Não podia ceder aos desejos diante daquela mulher, pois qualquer
envolvimento maior seria um passo sem retorno e ele tinha medo de magoar e de ser
magoado. A única alternativa era voltar para casa, fazer as malas e fugir daquele
lugar, deixando as coisas como estavam, antes que cometesse uma loucura de que
22

pudesse se arrepender.
Sob a fraca luz que a lareira espalhava pela sala, Marion viu no rosto semiiluminado de Andrew o conflito de emoções que o perturbavam. Mas não lhe
importava mais desvendar a verdade naquele instante. Tudo o que pensava é que
morreria se não se consumissem um nos braços do outro.
Sem medir as conseqüências, pegou num impulso uma das mãos dele e a
colocou sobre um dos seios, por cima do tecido fino da blusa.
— Agora diga-me que não podemos.
Andrew sentiu-se como invadido por uma descarga elétrica, o resto de lucidez
se esvaindo pela mão em contato com o seio redondo e firme, cujo bico se enrijecia
ao ser tocado. Em vão tentou lutar para controlar a reação de seu corpo àquele
contato íntimo.
Fechando os olhos por um momento, enlouquecido de desejo, procurou os
lábios trêmulos de Marion, em paixão sôfrega, e apertou-lhe o seio volumoso,
intensamente. Depois, tocando-lhe os cabelos macios e a pele acetinada do rosto,
mergulhou na delícia do pescoço numa ansiedade violenta.
— Marion, você me deixa louco!
Incapaz de proferir uma palavra, ela passou os braços ao redor de seu pescoço,
acariciando-lhe os cabelos, e abriu os lábios voluptuosos, explorando-lhe a boca com
a língua rija, em movimentos sensuais e atordoantes.
Andrew insinuou uma das mãos por baixo da blusa dela e, afagando a pele
quente, submeteu-a a uma deliciosa tortura: enquanto pressionava-lhe mansamente o
mamilo entre dois dedos, com o polegar excitava a parte mais sensível. Depois, antes
que ela percebesse o que estava acontecendo, acabou por tirar-lhe a blusa, deixando
livres os seios vibrantes e os polpudos mamilos marrom-rosados à mercê de seus
olhos fascinados.
— Você é linda! — exclamou. — Muito mais do que eu havia imaginado.
Marion delirava de prazer. Escorregando uma das mãos por debaixo do pulôver
dele, perdeu-se na maciez peluda daquele peito largo. Queria-o dentro dela.
— Eu te quero, Andrew. Agora!

Ao ouvir aquilo, Andrew emitiu um gemido agoniado e, ansioso por satisfazerlhe o desejo, pegou-a no colo e a levou para o quarto, acomodando-a na cama.
Marion livrou-se da calça jeans com um movimento gracioso e já ia tirar a
calcinha, quando Andrew a deteve.
— Deixe que eu faça isso.
Ajoelhando-se, ele removeu vagarosamente a peça rendada, admirando as
coxas roliças e o corpo exuberante que desnudava devagar. Antes de voltar a deitá-la
sobre a cama, beijou-a mais uma vez ternamente.
Marion entreabriu os lábios e buscou-lhe a língua, correspondendo ao beijo de
maneira intensa. Queria tocá-lo e conduzi-lo ao mesmo estado em que ela se
encontrava. Enquanto ele continuava a devorar-lhe os lábios, acariciou, sobre o tecido
grosso da calça jeans, o membro retesado.
Andrew emitiu um gemido profundo e, temendo que tudo pudesse se acabar
antes que ele conseguisse tirar a roupa, despiu-se ao lado dela e começou a acariciarlhe cada refúgio do corpo. A pele era tão quente, tão aveludada...
Depois, parou por um momento e observou maravilhado o corpo feminino, que
ardia de desejo. Então, num movimento só, antes que ela percebesse o que ia
acontecer, penetrou-a totalmente.
Marion sentiu um espasmo de felicidade e gemeu, involuntariamente, quando
ele abocanhou-lhe um dos seios, enquanto continuava a adentrá-la. Depois entregouse às ondas de prazer imensurável, que vinham uma atrás da outra, até senti-lo
estremecer, caindo exausto em seus braços.

CAPÍTULO III

Daquele dia em diante, Marion e Andrew tornaram-se companheiros
24

inseparáveis. Corriam pela praia de manhã, passeavam de barco quando o tempo
melhorava, iam juntos pescar... e o mais importante: sentiam prazer em viver, coisa
que nenhum dos dois experimentava há anos.
À noite, eram amantes insaciáveis. Entregues à necessidade compulsiva que
sentiam um pelo outro, em pouco tempo libertaram-se de suas últimas inibições. A
cada encontro descobriam sempre novas delícias escondidas em seus corpos e
perdiam-se em carícias cada vez mais quentes e arrebatadoras.
Depois de três semanas, Marion não cabia em si de tanta felicidade. Jamais
tivera um período de sensações tão intensas e maravilhosas, mesmo juntando os anos
em que estivera casada. A cada dia, amava Andrew mais e mais.
Seu único contato com o mundo exterior fora um telefonema de sua irmã
gêmea, Morgana, numa manhã em que acabara de sair do chuveiro. Andrew já corria
na praia.
Ainda sorria ao lembrar a conversa que as duas tiveram, a irmã exclamando
curiosa do outro lado da linha:
— Marion, nunca vi você tão contente!
Sozinha no quarto, ela enrubescera, fitando a cama desarrumada onde estivera
fazendo amor com Andrew desde o romper da aurora.
— Bem... as férias estão me fazendo bem.
— Serão só as férias? Se eu não a conhecesse, diria que há um homem nessa
história.
— Mas que idéia, Morgana! De onde tirou isso?
— Sua voz está tão diferente... Bem, de qualquer jeito, fico contente que você
esteja aproveitando. Só telefonei mesmo para saber como estava passando.
— Não precisava se preocupar, Morgana, mas obrigada por ter ligado. Um
abraço. Logo nos veremos.
O comentário despertara Marion para o fato de que as férias estavam chegando
ao fim e ela não sabia o que ia ser dela e Andrew depois que partissem de Galveston.
Só se conheciam na intimidade do amor e ele, na verdade, era quase um enigma para
ela. Nunca se referia ao trabalho nem à sua vida particular e, embora ela tivesse

puxado o assunto várias vezes, tudo o que sabia é que ele estava se dedicando a uma
pesquisa.
Marion achara melhor respeitar-lhe a privacidade e decidira não cansá-lo com
interrogatórios. Afinal, se estavam felizes, tinham muito do que rir e carícias a trocar,
para que ficar procurando problemas na vida do outro?
Assim, enquanto viviam seu amor intensamente, a própria evolução dos
acontecimentos se encarregara de traçar uma linha divisória separando-os de suas
vidas fora de Galveston. E se não havia regras estritas no relacionamento deles pelo
menos nesse aspecto eram solidários: depois da primeira visita que Andrew fizera a
sua casa, nunca mais se referiram ao passado.
Agora que os dias estavam contados, Marion recusava-se a pensar que aquele
período maravilhoso teria um fim. Andrew não havia mencionado se continuariam se
encontrando fora de Galveston e ela, que chegara até a cogitar que ele era casado, não
sabia o que fazer.
Era exatamente sobre isso que pensava naquele momento, na casa de Andrew,
enquanto preparava uma salada e o molho para a carne. Ele tinha ido à cidade fazer
compras para o jantar e ela o esperava ansiosamente.
Não, ele não podia ter-se envolvido a tal ponto com ela sendo um homem
casado. Parecia tão sincero, tão honesto... Não seria capaz de enganá-la. Além do
mais, quando se conheceram, ele se comportara como um animal ferido à procura de
um lugar seguro para se esconder e essa não era uma atitude para um homem casado.
O fato de Andrew não querer falar a respeito de seus problemas não significava
necessariamente que ele poderia ter uma esposa e a estivesse traindo. Marion abanou
a cabeça, afastando esses pensamentos, e achou que estava procurando sarna para se
coçar. Não se contentava com tanta felicidade e precisava achar alguma coisa para se
afligir!
Estava dando os últimos retoques no molho, quando ouviu o barulho da chave
na fechadura. Virou-se para receber o homem amado com um doce sorriso.
Ele estava irresistível com uma calça jeans justa, apertada sobre as pernas
másculas que roçavam em suas coxas sedosas noite após noite, e uma camisa de
26

flanela amarela, que lhe acentuava o bronzeado.
Andrew colocou os pacotes em cima da mesa e comentou, adiantando-se para
beijá-la no rosto:
— Humm, o cheiro desta salada está me tentando.
Mas não era bem a salada que ele admirava, observando com avidez as formas
de Marion de alto a baixo.
— Ah, é uma salada simples, não tem nada de especial.
Antes que ela pudesse disfarçar as emoções, seus olhares se encontraram e não
se deixaram, mergulhando no poço escuro de sua paixão mal contida. Era sempre
assim: um olhar, um toque, por mais leve e acidental que fosse, podia transformar a
chama, sempre acesa do amor, em labaredas.
Marion baixou os olhos para a salada e, com mãos trêmulas, começou a cortar
um tomate que estava ali por perto. Meu Deus, ela o amava tanto...
— Quer que eu faça mais alguma coisa, antes de colocar a carne na grelha? —
Andrew perguntou.
— Não, obrigada. — Marion sorriu. — Está tudo encaminhado.
Andrew foi para o quintal, pensando na intensidade com que amava aquela
mulher. Ele a queria verdadeiramente, mais do que a qualquer outra no passado, e
sabia também que não conheceria ninguém como ela no futuro. Mas ela não lhe
pertencia...
Enquanto virava a carne na grelha, admitiu, com amargura, que aquele era um
amor impossível, que poderia levá-los a destruição. Não que se importasse com si
próprio, mas não achava direito envolvê-la na trama infeliz que havia feito da própria
vida. Não era justo... Não no pé em que as coisas estavam. Pelo menos, devia esperar
até que tudo se resolvesse.
Estava mergulhado na angústia que estes pensamentos lhe traziam, quando a
voz de Marion o trouxe de volta à realidade.
— Andrew?
Antes de voltar-se, apressou-se a dissimular do rosto os sinais da luta que se
travava em seu íntimo, exibindo-lhe um sorriso largo e alegre.

— A carne vai ficar uma delícia — comentou.
— Está com fome?
— Morrendo! Quanto tempo mais você vai me torturar?
— Aguente só mais um pouco. Minha obra-prima está quase pronta.
— O que mais admiro em você, Andrew, é a modéstia.
Ele experimentou o churrasco, fingindo ignorar a ironia daquelas palavras, e
piscou com ar de aprovação.
— Marion, você vai saborear a melhor carne grelhada de sua vida. Vamos, não
fique aí parada! Pegue um prato e leve-a para dentro, enquanto eu apago o fogo.
— Sim, senhor.
A comida ficou mesmo deliciosa e a conversa agradável contribuiu ainda mais
para o clima descontraído entre os dois. Andrew contou piadas engraçadas que
deixaram Marion com dor de estômago, de tanto rir. Parecia haver um toque de
mágica em tudo que faziam juntos.
Depois de esvaziarem uma garrafa de vinho, ela espreguiçou-se e sugeriu,
apoiando a cabeça no ombro dele:
— Por que não tiramos no palitinho para ver quem vai lavar a louça?
Andrew olhou-a intensamente nos olhos e falou com voz rouca:
— Sei de uma coisa muito melhor que lavar a louça...
Marion sentiu o corpo se incendiar.
— Bem, se você estava esperando que eu não tivesse pensado nisso, enganouse redondamente.
Os olhos de Andrew brilharam de paixão. Afagando-lhe delicadamente o rosto
com as mãos, colou seus lábios aos dela num beijo penetrante. Era uma pequena
amostra do que viria depois.
Já iam ceder ao convite do quarto em penumbra, quando a campainha irritante
do telefone interrompeu o silêncio carregado de paixão.
— Droga! — xingou ele, baixinho, retirando o braço do ombro de Marion e
levantando-se para ir até o aparelho.
Tomada de um medo intenso por um súbito pressentimento, Marion o deteve,
28

suplicante:
— Não atenda!
Andrew parou por alguns segundos e então, sem se voltar, disse, resoluto:
— Não posso. Tenho que ver o que é.
Marion teve vontade de gritar, vendo seu mundo de fantasia desmoronar sobre
sua cabeça, mas permaneceu imóvel, enquanto ele levantava o fone. Um nó de
incerteza e temor estrangulava-lhe o estômago.
Andrew ouviu, por um momento, o que alguém falava do outro lado da linha, e
então respondeu:
— Está bem. Estarei aí o mais rápido que puder.
Ainda segurando o telefone, voltou-se para Marion com uma expressão
torturada no rosto sem cor.
— Eu... eu preciso ir — ele declarou, os olhos mesclados de dor e
inconformismo. — Era... era sobre meu filho.
— Filho! Oh, não, meu Deus!
Marion levantou-se bruscamente e cobriu o rosto com as mãos. No ímpeto de
manter distância de Andrew esbarrou numa cadeira, que caiu no chão com
estardalhaço. Depois, ficou parada diante da janela, com as pernas bambas,
apreciando a noite enluarada.
Sentia a presença dele pelo odor másculo atrás de si, mas evitava encará-lo,
envergonhada por ter agido tão impulsivamente, e envolveu o corpo trêmulo nos
próprios braços como se preparando para o pior, que ainda estava por vir.
— Marion...
Ela virou-se e, encarando-o com firmeza, falou com a voz carregada de
amargura:
— Você é casado!
Ele reagiu como se tivesse levado uma bofetada no rosto e por um momento
ambos ficaram paralisados, o silêncio, os segundos durando uma eternidade. Andrew
tinha o rosto transfigurado e Marion esperava, arquejante, sentindo a crueza do
pânico rasgar-lhe as entranhas.

Ele hesitou antes de murmurar:
— Marion... eu...
— Por favor... não diga mais nada. Apenas vá. Volte para... sua esposa e... seu
filho.
— Eu posso explicar...
Ela não queria saber de nada. Estava magoada, revoltada e reagiu como uma
gata selvagem acuada.
— Você é casado! Não me venha com desculpas! — vociferou, dando-lhe as
costas e repousando a testa no vidro frio da janela. Precisava se conter a qualquer
custo ou iria desabar em prantos.
Andrew estava atordoado demais para se defender com palavras. Resistindo ao
impulso de chorar como uma criança, respirou fundo e apegou-se a uma última
tentativa de conciliação.
— Não posso ficar para discutir o assunto com você agora, mas volto depois
para conversarmos — prometeu, dando um passo em direção a ela.
Marion acompanhou o movimento dele e sentiu todos os seus músculos se
retesarem quando ele parou bem perto dela.
— Andrew, não! Por favor...
Tentou se esquivar, mas ele a segurou pelo braço.
— Não o quê, Marion? Não quer que eu explique ou que eu não volte mais?
— Você está me machucando! Quer fazer o favor de me soltar?
— Não!
— Por favor!
Andrew forçou-a a ouvir o que ele tinha para dizer.
— Há dois anos eu e Kathy não somos mais marido e mulher. Não vou mentir
para você e dizer que não fomos felizes no início do casamento. Mas, a partir de um
determinado momento, começamos a nos distanciar e a ter perspectivas diferentes de
vida. Eu mergulhei no trabalho e ela começou a beber e a ter uma vida social intensa.
Foi então que engravidou.
— Pare com isso! — gritou Marion, com lágrimas nos olhos e a voz
30

embargada. — Já não basta saber que você é casado e ainda tenho que ouvir que há
uma criança...
Ela não pôde mais se conter e rompeu em prantos. Andrew continuou:
— É por isso que não consigo o divórcio. Ela usa Jason para me culpar e, para
piorar a situação, ele está doente.
Andrew a soltou e, esfregando a palma das mãos na calça, prosseguiu:
— Droga! Será que é tão difícil entender o quanto você preencheu o vazio em
meu coração? Acredite que eu não queria que nada disso acontecesse. Só Deus sabe
como lutei. Mas não pude me conter. Quando tudo acabar, vou...
Não pôde completar a frase, pois um nó na garganta impediu sua voz de sair.
Marion estava tão transtornada que não conseguia entender claramente o que
ele tentava lhe dizer de modo tão desesperado. Na verdade, compreendera tudo às
avessas e, sentindo-se ferida, tentou atingi-lo também.
— Não se atreva a encostar em mim de novo! Como pude ser tão cega, tão
estúpida, a ponto de cair na sua conversa...
— Você está sendo injusta — Andrew a interrompeu muito sério. — Eu nunca
menti para você.
— Mas também nunca me contou a verdade!
Olharam-se nos olhos, por instantes.
— Não me lembro de que tenha perguntado.
— E não precisava perguntar, era seu dever me contar!
— Não estava certo de sua reação se eu lhe contasse que era casado.
— O quê? — Marion não podia acreditar no que acabara de ouvir.
— Desculpe, não era bem isso que eu queria dizer — Andrew corrigiu-se
imediatamente, percebendo a inconveniência das suas palavras. E continuou
tristemente:
— Sabe, pode parecer estranho, mas não me considero um homem casado. E,
se isso significa algo para você, quero que saiba que nunca toquei em outra mulher
desde que Kathy me abandonou, levando meu filho.
— Por favor... pare com isso!

Marion não estava mais disposta a se deixar iludir pelas palavras dele. Ele era
um homem casado e, fosse como fosse, possuía mulher e filho, uma família. Essa era
uma verdade da qual ele não poderia fugir.
— Marion... preciso de você.
— Não vai dar certo, você não percebe?
— Eu vou voltar. São só alguns dias. Por favor... espere por mim. E, então,
conversaremos melhor. Promete que vai esperar?
Marion lutava contra sentimentos contraditórios. Precisava pôr um fim naquela
história. “Agora, Marion! Faça isso já!”, uma voz ordenou no seu íntimo.
— Sinto... sinto muito.
Caminhou até a porta, decidida a sair por ali e apagá-lo de sua vida para
sempre. Andrew, porém, recusou-se a aceitar a partida dela tão facilmente e a puxou
para perto de si, perguntando-lhe com doçura:
— Você não quer pensar mais um pouco? Não estaria disposta a reconsiderar,
talvez, mais tarde...
— Não!
Aquela palavra definitiva deixou-o arrasado. Sabia que acabara de perdê-la
para sempre. E a culpa era toda dele.
Marion não conseguia se lembrar de como chegara em casa. A partir do
momento em que saíra pela porta da casa de Andrew o tempo parara de correr. Teriam
sido dias ou horas que passara jogada no tapete da sala, completamente entregue à
dor, à tristeza? Não tinha importância saber, estava tudo acabado. Agora era reagir ou
morrer.
Reunindo todas as forças, levantou-se do chão e começou a preparar as coisas
para deixar Galveston. Uma hora depois estava de malas prontas e com a casa
arrumada, entrando no carro para iniciar a volta ao mundo real.

32

CAPÍTULO IV

Marion percorreu com o olhar o salão de sua terceira academia de ginástica
aeróbica, observando o grande número de alunas que a olhavam atentamente. Lá fora,
os últimos raios de sol de primavera tingiam de rosado os edifícios de Houston. Dois
anos depois, Galveston ainda era uma lembrança perturbadora nos momentos mais
inesperados.
— Alguém quer fazer alguma pergunta antes de iniciarmos?
Como resposta, obteve sorrisos e resmungos brincalhões das gordinhas.
— Muito bem, meninas. Coloquem-se na posição inicial. Vou colocar três
músicas. Na primeira, faremos exercícios de aquecimento, na segunda, movimentos
mais pesados e na terceira passaremos ao relaxamento. A maioria de vocês já conhece
mas, se houver alguma dúvida, é só olhar para mim. Não se esqueçam de prestar
atenção à respiração, que é muito importante.
Sorrindo, Marion foi até o gravador e voltou para a frente da grande parede
forrada de espelhos, de onde conduzia os exercícios. O trabalho a envolveu
completamente, a partir de então.
Uma hora mais tarde, tudo voltava ao silêncio e só permaneciam no grande
salão ela e sua assistente Susan Jennings.
— Ufa! — exclamou Marion. — Estou ensopada de suor. É isso que dá ficar
algumas semanas sem praticar. Depois, para entrar no ritmo de novo...
Susan franziu a testa e a seguiu até a pequena copa da academia. Apanhando o
copo de chá gelado que Marion oferecia, comentou:
— Não devia dar aulas seguidas depois de ficar três semanas parada. Já lhe
sugeri para dividir as aulas comigo, até pegar o embalo de novo.
— Ah, Susan, você se preocupa demais! Eu prometi a essas garotas que abriria
a turma das cinco e meia e não gosto de faltar com a palavra. Na maioria são alunas
antigas, que se esforçam muito. Por que não facilitar a vida delas? Estavam

aguardando esse horário há seis meses. Além disso, você tem muita coisa para fazer e
eu não queria sobrecarregá-la.
— Não sei, Marion, às vezes acho que exagera. Qualquer dia tem um colapso.
Dê uma olhada em você: está pele sobre osso.
— Pode ser mas, se eu não trabalhasse desse jeito, nunca teria conseguido o
que obtive nestes dois anos.
— A vida não é só trabalhar. Há outras coisas boas para se fazer.
Marion olhou para os olhos verdes de Susan e declarou:
— Só me responda uma coisa: quantas pessoas você conhece que conseguiram,
em dois anos, começando do nada, montar três academias de ginástica promissoras,
escrever um livro sobre nutrição e exercícios aeróbicos, e ainda por cima ter a
perspectiva de estrear em um programa de televisão? Acha que obteria tudo isso
ficando de papo para o ar?
Marion encheu de novo os copos, em silêncio, esperando que Susan dissesse
alguma coisa. Dava muita importância à opinião dela. Susan não era apenas uma
assistente e secretária, mas também uma amiga. Haviam se conhecido numa aula de
ginástica, logo após Marion ter retornado da casa de praia de Galveston, e a amizade
nascera espontaneamente, desde a primeira vez em que se viram. Quando resolvera se
aventurar e montar sua própria academia, Susan a encorajara, não deixando que ela
desistisse. Nas horas difíceis, fora essa amiga, de cabelos ruivos e sardas no rosto,
quem lhe dera o apoio decisivo para que tivesse a coragem de transformar seus
sonhos em realidade.
Era bem verdade que, não fosse a generosidade de um amigo banqueiro,
Marion talvez jamais teria inaugurado a primeira academia. Mas devia
principalmente ao próprio empenho, e ao apoio incansável de uma amiga como
Susan, o fato de poder, depois de um ano, abrir mais duas academias e orgulhar-se do
sucesso de um livro que vendia como pipoca em porta de escola.
Susan debruçou-se sobre a mesinha da copa e cruzou os braços, com a testa
franzida.
— Marion, você sabe o quanto me preocupo com sua saúde, não sabe?
34

— Lógico que sei, Susan.
— Então vou dizer tudo de novo, mais uma vez: você precisa esquecer o
passado. Por mais que esse homem tenha significado para você, passar a vida toda
pensando só nele já é demais. Você está jogando fora todas as chances de se tornar
uma mulher feliz e realizada. Sei que Morgana esteve lhe dizendo as mesmas coisas,
mas...
— Ora, por favor, Susan, agora não... não hoje — Marion a interrompeu. —
Estou exausta, morrendo de vontade de ir para casa, tomar um banho e me enfiar na
cama. Acho que nem vou dar uma ligada para Morgana.
Sorriu ternamente para a amiga e abraçou-a rapidamente.
— Você é um amor. Prometo ouvir o sermão todo numa outra hora, está bem?
Susan concordou, mas ainda tinha a testa franzida e os olhos carregados de
preocupação.
— Prometa-me uma coisa, Marion. Que assim que puder você vai tirar alguns
dias para descansar.
— Outra vez? Mas acabei de chegar de férias!
— Pois eu acho que ainda está precisando de mais alguns dias, e você sabe
disso.
— Talvez, talvez... vamos ver. Agora deixe-me ir, porque estou muito cansada.
Boa noite e obrigada por tudo.
Inútil chegar em casa mais cedo para descansar. Inútil tomar um bom banho
para relaxar. Dava tudo na mesma: horas e horas rolando na cama, procurando
descanso para o corpo exausto e sem encontrar.
“Por que não mereço um sono reparador, como o resto dos mortais? Quanto
tempo mais isso vai durar?”, lamentou-se Marion virando-se de bruços na cama e
enterrando o rosto entre as mãos. Dois anos já haviam se passado e a imagem de
Andrew beijando-a e cobrindo-a de carícias continuava a assombrar-lhe as noites
insones.
Quando o dia raiou, desistiu de esperar o sono e sentou-se na borda da cama.

Ainda eram as lembranças de Andrew que lhe ocupavam o pensamento. O corpo
pesava, os olhos ardiam, e ela deu um suspiro sentido: “se ao menos...”
Se ao menos aquela desgraça daquele telefone não estivesse tocando! Que
barulho mais irritante! Olhou para a mesa da sala onde estava o aparelho e prometeu,
a si mesma, que iria mandar desligar aquela droga. Mas, como ele não parava de
tocar, não teve outro jeito senão ir atendê-lo.
— Alô!
— Ih, já vi que você levantou outra vez com o pé esquerdo.
— Puxa, Morgana, que mania você tem de ficar ligando de madrugada, hein?
A irmã gêmea riu do outro lado da linha.
— De madrugada? Pelo amor de Deus, já é dia claro. Os passarinhos até já
pararam de cantar. O que aconteceu, passou a noite acordada?
— Você sabe que não. Trabalhei muito ontem, só isso.
— Pois você devia trabalhar menos e se preocupar mais com a solidão de suas
noites.
Marion não quis fazer comentários. Uma palavra sua seria o suficiente para dar
oportunidade à irmã de tocar no mesmo maldito assunto, que já haviam discutido
umas quinhentas vezes. Era melhor mudar o rumo da conversa.
— Mas por que você está tão contente esta manhã? Aconteceu alguma coisa de
especial?
— Até que enfim! Pensei que você não fosse perguntar.
— Então diga logo. O que é? — insistiu Marion, preparando-se para ouvir
provavelmente os detalhes do último caso que a irmã havia tido.
— Gostaria que você viesse jantar comigo hoje.
Marion contou até dez.
— Morgana, você me telefonou a esta hora só para dizer isto?
A irmã riu de novo.
— Mas este é um jantar muito especial.
— Ah, é mesmo?
— Você está sentada? Se não está, é melhor fazê-lo.
36

Depois de uma pausa solene, continuou:
— Vou lhe apresentar o homem com quem pretendo me casar.
— O quê? Como? Quem? — Marion exclamou pasmada.
Do outro lado da linha, a irmã caiu numa gargalhada espalhafatosa que lhe
agrediu o ouvido. Afastou o fone e esperou até ela parar de rir.
— Oh, Marion, ele é uma graça, espere só para ver. Tão compreensivo, tão
generoso... Tudo que Stan não era. E muito mais.
Tomada de um contentamento repentino. Marion esqueceu-se até do cansaço.
— Oh, Morgana, mas isso é maravilhoso. Você me surpreendeu. Como foi que
aconteceu? Foi meio rápido, não foi? Quando saí de férias, três semanas atrás, você
nem estava se encontrando com alguém...
— É verdade, foi bem rápido. Mas não tem importância. Encontrei o homem
da minha vida e estou perdidamente apaixonada.
— Que incrível, Morgana! Estou ansiosa para conhecer esse homem fantástico!
— Então venha para o jantar. Mas venha cedo, porque temos muito o que
conversar. Quero que me conte tudo sobre suas férias.
— Pode estar certa de que irei. Não perderia esse jantar por nada deste mundo.
Há anos não a via tão contente!
— Acho que nunca estive tão feliz, Marion. Nem mesmo quando me casei com
Stan.
Marion hesitou.
— Detesto tocar neste assunto, Morgana, mas como Jay está aceitando as
coisas?
— Jay? E eu lá me incomodo com o que ele pensa? Jay é meu empresário e
não meu dono.
— Vamos, Morgana, todo mundo sabe que ele é apaixonado por você. E você o
andou encorajando um tempo atrás...
— Mas isto foi há muito tempo. Além disso, ele só pensa em dinheiro. Vive me
empurrando para qualquer tipo de trabalho que aparece.
— Mas você devia ficar satisfeita. Isto prova que ainda é uma modelo

requisitada.
— Não é verdade. Para mim só oferecem os trabalhos pequenos, os grandes
vão para as modelos mais novas.
Marion percebeu a amargura contida nas palavras da irmã e arrependeu-se de
ter tocado no assunto, que sempre a deixava aborrecida.
— Você não se valoriza, Morgana. Devia saber que é uma pessoa maravilhosa.
Adoro você.
Não agüentava ver a irmã sofrer. Tudo o que a afetava atingia a ela também.
Talvez pelo fato de serem gêmeas. Sempre se sentira responsável pela irmã, que era
mais desmiolada e impulsiva.
— Eu também adoro você. Apareça às seis, está bem?
— Às seis, pontualmente.
Depois de desligar o telefone, Marion sentiu vontade de voltar para a cama,
mas não podia. Tinha três aulas para dar e um almoço marcado com Tucker. Nem
dava tempo de ficar pensando na notícia surpreendente da irmã. Esperaria até depois
do jantar para tirar conclusões. Tomou duas aspirinas para aliviar a dor de cabeça que
estava prometendo incomodá-la o dia todo e suspirou fundo, pronunciando o nome de
Tucker.
Tucker Hammond começava a se tornar um problema, que ela não sabia bem
como resolver. Estava apaixonado e qualquer hora a pediria em casamento.
Não que ela evitasse compromissos, ao contrário. Quantas e quantas vezes
chegara em casa cansada e desejara encontrar os braços de um homem para aquecê-la
a noite e uma criança a engatinhar, contente pela chegada da mãe. Esse era um sonho
dourado, mas não para ser vivido com alguém que ela não amasse de corpo e alma. Já
passara por um casamento infeliz e, a menos que outro homem a fizesse sentir o que
Andrew havia provocado nela, preferia continuar sozinha.
Uma pontada de amargura atravessou-lhe o peito quando lembrou-se do
cirurgião. Nenhum homem teria seu amor de novo. Podia muito bem viver sem eles,
estava muito satisfeita com a vida que levava. Possuía uma casa bonita, roupas
maravilhosas, não lhe faltava dinheiro, nem amigos. Tinha uma irmã, que adorava,
38

além de uma carreira fascinante. O que podia querer mais? Isso já era suficiente.
Ou não era? Por um segundo, tudo lhe pareceu não ter o menor valor. Nem o
programa na televisão que estava para conseguir era suficiente para animá-la.
Tucker avistou Marion pela vidraça do restaurante logo que ela pisou na
calçada. O vestido branco de seda plissada esvoaçava ao sabor da brisa gostosa da
primavera e o sapato vermelho, de salto alto, combinando com a bolsa da mesma cor,
davam-lhe uma elegância indizível. Todos os homens voltaram-se para ela com
olhares de admiração.
A maneira com que Marion chamava a atenção provocava sempre um ciúme
dolorido em Tucker. Ela era só dele, ou pelo menos seria, em breve, como ele
esperava.
Não demonstrando o que sentia no íntimo, levantou-se e sorriu ao vê-la
aproximar-se da mesa.
— Você está linda. Como sempre, aliás.
Beijou-a docemente no rosto e ajudou-a a sentar-se, como se ela fosse uma
peça de porcelana preciosa.
Marion sorriu também. Para sua surpresa, estava feliz em vê-lo. Tucker, além
de ser um verdadeiro cavalheiro, era também um homem de negócios inteligente e
habilidoso. Estava impecavelmente vestido com um terno azul-marinho, gravata em
tons de vermelho e camisa branca, e seus cabelos grisalhos e olhos verdes, profundos,
davam-lhe um charme irresistível. Apesar dos cinqüenta anos, sua constituição física
robusta e o físico bem tratado não demonstravam a idade que tinha.
— Então, como foram as férias?
— Foram ótimas, um pouco longas demais, talvez. Não posso ficar muito
tempo fora de casa que as saudades me matam.
Tucker inclinou-se sobre a mesa e olhou atentamente para o rosto de Marion.
— A maquilagem não conseguiu disfarçar direito as olheiras, querida. Pelo que
vejo, dormiu pouco esta noite.
— É verdade, não dormi direito. Mas não pelos motivos que você está

imaginando.
Ele enrubesceu e aproveitou a chegada do garçom para mudar de assunto.
Também não queria se desculpar.
— O que você vai beber?
— Um gim-tônica, por favor.
— Dois — disse ele ao garçom. — Está com fome, Marion?
— Na verdade não, mas preciso comer alguma coisa.
— O que vai querer?
— Algo leve, vamos ver... Uma salada e um filé de peixe.
— Ótima pedida. Eu a acompanho.
Quando as bebidas chegaram, Tucker ergueu o copo num brinde.
— À sua estréia na televisão.
— Obrigada — ela agradeceu, sorrindo.
Depois de degustar o gim-tônica e examiná-lo cuidadosamente, perguntou:
— Você acha realmente que temos chance de fazer com que alguém invista na
produção do show? Depois, quem irá se interessar em vender o programa para os
canais de televisão? Francamente, isso tudo me deixa um pouco assustada.
— Você está se preocupando à toa. As chances são ótimas. Estou quase
convencendo um grupo de investidores.
— Oh, Tucker, não sabe o que isto significa para mim!
— Bem, eles ainda não deram o sim, mas estão tão próximos de concordar que
acho que já podemos comemorar.
O garçom chegou com a comida e eles permaneceram em silêncio até que ele
acabou de servi-los e se retirou.
— Quando você acha que teremos uma resposta definitiva?
— Em breve. E é bom que não demore, porque estou tão ansioso quanto você.
Confie em mim. Alguma vez já a decepcionei?
— É verdade, nunca. E sabe de uma coisa? Estou me sentindo ótima. Até a dor
de cabeça passou.
— Fico contente. Você sabe que faço qualquer coisa para vê-la feliz.
40

— Sei, sim. E agradeço-lhe de coração.
— Você sabe que não espero só gratidão...
Marion ficou um instante calada antes de declarar.
— Não posso lhe dar o que você está pedindo, Tucker. Não, agora. Talvez um
dia...
— Eu espero. Posso esperar a vida toda, se for preciso. Com você, tenho uma
paciência infinita. Já não lhe provei isto?
— Provou... Mas, Tucker... não vê que pode estar perdendo seu tempo...
— Não adianta, Marion, nunca vou aceitar isto.
Um silêncio pesado interpôs-se entre eles, até que Tucker desabafou:
— Você tem que tentar esquecer esse homem. Não faz sentido passar a vida
inteira lamentando um amor fracassado.
— É o que acha que estive fazendo todo este tempo? Acontece que não posso
esquecê-lo.
Marion, porém, não estava disposta a discutir o assunto com ele e se calou. Já
bastavam Susan e Morgana, que batiam incessantemente na mesma tecla.
Tucker percebeu seu ar de constrangimento e resolveu não contrariá-la.
— Está bem, não vou interferir nos seus sentimentos, mas lembre-se: estarei
sempre por perto, esperando você mudar de idéia.
— Você se importa se falarmos, de outra coisa? Estávamos comemorando,
lembra-se?
— É mesmo. Quando estou com você me esqueço de tudo. O desejo de vê-la
feliz, de tirar dos seus olhos lindos essa tristeza, faz qualquer coisa parecer sem
importância.
Emocionada, Marion pôs uma das mãos sobre a dele.
— Oh, Tucker, você sabe como fazer uma mulher se sentir especial.
— Por que não me dá uma chance de fazê-la feliz? Você nunca se arrependerá,
tenho certeza.
— Por favor, não insista, Tucker. Não quero dar-lhe esperanças e depois
magoá-lo. Você não merece.

Marion odiou-se naquele momento por não conseguir esquecer o passado e
deixar Tucker fazer parte de sua vida.
— Você tem algum compromisso esta tarde? — perguntou ele, depois de um
longo silêncio.
— Meu Deus! São quase duas horas! Puxa, ainda tenho mais aulas até a noite.
— Almoce primeiro. O mundo não vai acabar se você chegar um pouco
atrasada.
— Eu não vou chegar atrasada. Tenho ainda uns quinze ou vinte minutos. Sabe
aonde vou à noite?
— Ah, você tem um programa especial?
— Muito especial. Vou jantar na casa de Morgana. Ela me telefonou hoje cedo
e o que me contou quase me fez desmaiar de susto.
— É? E o que foi? Agora fiquei curioso.
— Ela está apaixonada!
— Outra vez?
Marion deu uma gargalhada gostosa.
— Foi exatamente o que pensei na hora, mas depois vi que a coisa era séria.
Você precisava ver o jeito dela.
— Então, você acha que desta vez é sério?
— Penso que é e, acredite, talvez seja porque desejo muito que isto aconteça
para ela. Embora livrar-se de Stan tenha sido uma bênção dos céus, nunca mais a vi
realmente contente.
Tucker segurou a cadeira para que ela se levantasse e a acompanhou até o
carro. Abrindo gentilmente a porta para ela, disse-lhe, num tom mais de afirmação
que de pergunta:
— Você e sua irmã são muito apegadas uma à outra, não?
Havia uma ponta de ciúme no que ele acabara de dizer? Marion não sabia ao
certo.
— Acho natural, já que somos gêmeas. Tudo que acontece a ela me afeta
também.
42

Acomodou-se à direção e Tucker fechou a porta, sorrindo para ela.
— Bem, então diga a Morgana que desejo-lhe felicidades. Quanto a você,
cuide-se bem, Marion. Telefono amanhã ou depois.
O trânsito estava péssimo no caminho da casa de Morgana, Marion detestava
se atrasar, e chegaria na hora, se não tivesse levado tanto tempo para se arrumar.
Demorara quase uma hora até se decidir por vestir uma calça jeans e um blazer sobre
uma camisa esportiva, depois de fazer uma maquilagem leve. É verdade que também
se retardara na academia, resolvendo com Susan alguns problemas de rotina, mas o
que se há de fazer...
Pensou em Morgana. A irmã se transformava, quando estava apaixonada. Era
tão bom que isto tivesse acontecido agora que sua carreira começava a declinar... Não
agüentaria vê-la passar sozinha pelo difícil processo de decadência que toda modelo,
mais cedo ou mais tarde, tem que enfrentar. Ela própria já estava se preparando para
quando chegasse o momento de consolar a irmã. Sempre fora assim entre elas,
quando uma atravessava uma fase difícil, a outra estava sempre se antecipando para
ajudar. Parecia que eram uma só pessoa.
Ultimamente, porém, embora não quisesse admiti-lo, sentia que a irmã estava
nutrindo uma ponta de inveja por seu sucesso e isso a magoava. Morgana é quem
havia sido sempre a mais exuberante, a mais talentosa, a que tinha o mundo a seus
pés. Agora isso não importava, nada poderia diminuir a afeição que tinha pela irmã.
Por outro lado, pensou, talvez Morgana estivesse buscando nesse homem um
substituto, um consolo para a carreira que estava chegando ao fim. Mas lembrou-se
de que, após o divórcio, a irmã havia tido inúmeros casos, vivido várias paixões, sem
nunca ter manifestado o desejo de se prender a alguém. Agora, se estava falando em
casamento, devia ser porque a coisa era para valer. O negócio era manter os dedos
cruzados para que tudo desse certo. Se dependesse dela, faria qualquer coisa para ver
a irmã feliz.
Morgana recebeu Marion com um abraço apertado.

— Sabia que você ia chegar atrasada! — disse em voz alta e rindo ao mesmo
tempo.
Marion sempre se perguntava como duas irmãs gêmeas podiam ser tão
diferentes em físico e temperamento. Morgana era explosiva e esfuziante, enquanto
ela era calma, sensata. E, embora ela fosse morena e de estatura média, a outra era
exatamente o contrário; alta, loira, de pele clara e com grandes olhos azuis.
— Desculpe, tive que resolver alguns problemas com Susan, e depois...
— Não tem importância. Entre.
O apartamento, que ficava num bairro aristocrático de Houston, era luxuoso,
espaçoso e fora decorado com muito bom gosto. Na sala, em que se destacava uma
imponente lareira de mármore branco, a mobília era em estilo contemporâneo e, com
exceção do sofá, de seda clara estampada, confeccionada em vidro e metal. As
paredes eram forradas de telas de pintores de vanguarda e por todo o canto,
espalhados com jeito, havia objetos típicos de vários países que Morgana visitara
como modelo famosa.
— Vamos até a cozinha, enquanto eu termino de preparar o jantar. Só dispomos
de meia hora antes do “príncipe” chegar. Oh, meu Deus!
Marion conteve um sorriso ao notar o nervosismo da irmã. Morgana,
charmosíssima num conjunto de calça e blusa de seda cor-de-rosa, corria de um lado
para outro na cozinha, tentando fazer dez coisas ao mesmo tempo e falando mais que
a boca. Por fim, quando ela lhe ofereceu uma bebida e a fez sentar-se, sugeriu
gentilmente:
— Por que não me deixa ajudá-la? Duas pessoas trabalhando terminam mais
depressa o serviço.
— Não, senhora, fique aí sentada. Está tudo sob controle, a única coisa que
quero que faça é que me ouça.
— Pois, então, fale logo. Estou morrendo de curiosidade.
— Bom, vou começar pelo nome dele.
— Puxa! Cheguei até a pensar que esse super-homem não tivesse nome.
— Pois enganou-se redondamente. E não me interrompa. O nome dele é...
44

Desta vez, foi a campainha que a interrompeu, Morgana entrou em pânico.
— Oh, Marion, é ele! Tenho certeza de que é ele. O que faço? Você não quer
atender a porta, enquanto dou um retoque na maquilagem? Olhe só para minha cara!
— Calma, mulher! — disse Marion, rindo. — Lógico que posso atender a porta
para você. Estou louca para conhecer esse galã. Corra, vá se pintar.
Com um sorriso simpático e espontâneo, Marion abriu a porta e começou a
dizer:
— Olá, sou...
Mas teve de apoiar-se na maçaneta para não cair, o sangue gelando nas veias
bruscamente.
— Você! — exclamou de olhos arregalados.

CAPÍTULO V

Se Marion ficara atordoada ao vê-lo, Andrew Corbett também parecia muito
surpreso, e por um longo tempo os dois permaneceram sem se mexer nem falar, com
a respiração suspensa. Enquanto ela, apoiada na maçaneta da porta, continuava a
encará-lo de olhos arregalados, ele piscava seguidamente, custando a crer que tudo
não passasse de uma miragem.
Mas logo concluiu, para seu desassossego, que ela era real. E estava mais
bonita do que antes. Embora não a tivesse visto por dois longos anos, a mágica do
tempo que haviam passado juntos ainda não o deixara. Não havia um único dia em
que não pensasse nela.
A vontade de tê-la a seu lado aumentara ainda mais nos últimos meses.
Quisera, desesperadamente, procurá-la para dizer que estava livre, mas algo o
detivera. Provavelmente fora o orgulho, pois, afinal de contas, voltara à casa da praia

com o coração na mão para se explicar e não encontrara nada, nem ao menos um
bilhete. Ou quem sabe o desprezo com que ela o olhara na última noite em que
estiveram juntos, lembrando-o de que não seria bem-vindo na vida dela, mesmo
depois de as circunstâncias terem mudado.
A sorte, porém, lhe sorrira e ali estava ela, em carne e osso. Ele ainda a amava;
agora que a havia reencontrado não a deixaria escapar.
Andrew foi o primeiro a se recompor, agindo como se estivesse em transe ou
como um cego que tentasse memorizar um rosto, estendeu a mão para Marion,
tocando-lhe as sobrancelhas, as maçãs do rosto, os lábios, o cabelo escuro, e
perguntou com a voz trêmula de emoção:
— É você mesma?
Marion continuava paralisada como uma estátua. Indecisa, em parte estava
indignada porque ele se atrevia a tocá-la, a despeito do passado e da situação pouco
propícia em que haviam se reencontrado, em parte queria pedir mais e perder-se nos
braços dele. Por fim, afastou sua mão, temendo que a irmã aparecesse.
Em questão de segundos, Morgana entrou na sala, e exclamou, radiante de
alegria:
— Ei, vocês dois! Por que estão aí, parados, olhando um para a cara do outro?
Pensei que fosse encontrá-los pelo menos com um copo na mão.
Marion reagiu e começou a interpretar como uma atriz, para proteger a irmã
que, como ela, era uma vítima inocente das circunstâncias. Não deixaria que ela
soubesse do seu passado com Andrew. Bastava um coração partido na família.
— Estávamos nos apresentando e conversando um pouco.
Olhou, apreensiva, para Andrew para ver se ele ia sustentar a mentira. Não
demorou muito para que ele dissesse:
— É isso mesmo, mas já estávamos entrando.
Se Morgana notou alguma coisa errada, não demonstrou. Passando o braço em
volta do pescoço dele, beijou-o ardentemente.
— Que bom que você pôde sair mais cedo da clínica hoje, amor. Queria tanto
que você conhecesse minha irmã gêmea, Marion.
46

Sem poder suportar a dor de ver os dois se beijando, Marion virou o rosto. Será
que ele havia correspondido ao beijo com o mesmo fervor? Que horror! Estava
sentindo ciúme da própria irmã. Como uma coisa dessas podia estar acontecendo?
Uma avalancha de perguntas desabou sobre sua mente, naquele momento. Será que
Andrew sabia que ela era irmã de Morgana? Se o caso deles estava no ponto em que a
irmã havia insinuado, isto é, se estavam pensando em se casar, como se explicaria o
fato de ela nunca ter mencionado seu nome para ele?
Marion sentou-se no sofá e Andrew ficou de pé, com um dos cotovelos apoiado
no mármore branco da lareira, enquanto Morgana foi preparar as bebidas. Do bar, ela
falou:
— Não sei se eu lhe disse, Marion, mas Andrew é médico. E um ótimo médico.
Cirurgião plástico.
Meu Deus! Ela nem sabia qual era a especialidade dele na medicina. Como
podia conhecer o corpo de um homem tão intimamente e não saber nem o seu campo
de trabalho? E ainda há pouco estava estranhando que a irmã não tivesse mencionado
seu nome para ele!
Não pôde disfarçar a mão trêmula, quando aceitou: a bebida que Morgana lhe
oferecia.
Andrew também recebeu o drinque sem dizer uma única palavra.
— Você está tão quieto, querido. Teve um dia muito difícil?
Andrew tentava disfarçar sua aflição. O que será que Marion estava pensando
dele? Morgana vivia falando na irmã, mas nunca mencionara seu nome, disso estava
certo, porque senão teria ligado uma coisa com a outra, imediatamente. Gêmeas! Era
impossível! Nem sequer pareciam irmãs, quanto mais gêmeas.
Para aumentar seu desespero, ainda havia o fato de que não sabia o que
Morgana havia contado a Marion sobre o relacionamento deles. Fosse o que fosse,
não seria toda a verdade.
Tinha vontade de atravessar a sala, pegar Marion nos braços, devorar-lhe os
lábios e implorar que o perdoasse por não tê-la procurado logo após o divórcio. Agora
o destino ria dele, colocando uma irmã entre os dois.

Engoliu a bebida com dificuldade. Ela estava lá, sentada como uma rainha,
com a graciosidade de uma ave exótica. Se ele ao menos pudesse tocar aquela pele
macia... Como esquecer aqueles seios que se intumesciam em sua boca, deixando-o
louco de desejo?
Percebendo que Morgana aguardava uma resposta, disse finalmente:
— Não, não foi um dia muito complicado. Só tive um pouco mais de trabalho
que o normal.
— Você ainda não provou minha comida, querido — disse Morgana rindo. —
Espere só para ver o que preparei para você. E, por falar nisso, por que você e Marion
não ficam conversando mais um pouco, enquanto dou os últimos retoques no jantar?
Imediatamente, Marion sugeriu o contrário:
— Não! Tenho uma idéia melhor. Eu vou para a cozinha e vocês ficam
conversando.
— Não, senhora! Não vou repartir a autoria do meu jantar com você. Já cansei
de ver gente passando o dia inteiro fazendo um bolo e o outro levar a glória, só
porque pôs uma cereja em cima.
E, dizendo isto, foi para a cozinha, sem esperar resposta.
A tensão tornou-se insuportável no momento em que se viram a sós na sala.
Andrew parecia ter envelhecido um pouco, as rugas tinham se aprofundado,
principalmente aquelas que lajeavam os lábios. Os olhos ainda possuíam aquela
beleza estranha, mas traziam a marca de um sofrimento profundo. O físico ainda era
o mesmo, rijo e bonito, que o tempo não conseguira modificar. Estava atraente com o
pulôver cinza e a calça larga, moderna, um pouco mais escura, combinando com a
tonalidade dos olhos.
E pensar que ele iria casar-se com a sua irmã! Virou o rosto, rezando para que
ele não descobrisse seus pensamentos.
Mas ele parecia perceber a inquietação dela.
— Enfim, sós! — exclamou, e tomando o último gole de aperitivo acrescentou,
com ansiedade: — Sabe que temos muito a conversar.
— Não... não temos nada... a conversar, na verdade.
48

Andrew olhou em direção à cozinha, antes de falar fervorosamente:
— Você não pode estar falando sério. Lógico que temos o que conversar!
Marion ficou assombrada com a ousadia dele. Será que ele não tinha o mínimo
de escrúpulos?
— Como você se atreve a falar comigo desse jeito, quando está prestes a se
casar com minha irmã? Ou sua ex-mulher está no meio desta união também?
— Como assim? O que significa isto? O que você está querendo dizer?
Não pôde obter uma resposta, pois Morgana apareceu na sala, de novo,
radiante de alegria.
— Que bom ver vocês conversando, animadamente! — Passou um dos braços
em volta da cintura de Andrew e acariciou-lhe o peito, fitando-o com adoração. —
Diga-me, querido, o que achou de minha irmã? Menti para você quando disse que era
bonita? Ela já lhe contou sobre as academias de ginástica que possui?
— Sua irmã é realmente bonita, Morgana, mas ela não me disse nada sobre as
academias.
Sentada no sofá, Marion estremeceu, ao detectar a ironia que pontuava cada
sílaba pronunciada.
Durante o jantar, por mais que tentasse, não conseguiu fingir a alegria que não
sentia. A comida que Morgana havia preparado com tanto carinho não teve gosto de
nada para ela.
Por sorte a irmã, mesmo que tivesse estranhado sua atitude, poupou-lhe das
críticas. A maior parte do tempo, Morgana tagarelou sobre assuntos diversos,
interrompida por Andrew de vez em quando. A certa altura, porém, um comentário a
tirou de seus devaneios e a deixou perplexa.
— O que você disse? — perguntou à irmã, não acreditando em seus ouvidos.
Morgana vacilou e procurou apoio em Andrew. Depois, erguendo o rosto
ligeiramente, numa atitude petulante que Marion estava cansada de conhecer,
respondeu:
— Disse que vou deixar Andrew fazer uma operação plástica no meu rosto.
Ouvindo isso, Andrew tentou falar com ela, pacientemente:

— Espere um pouco, Morgana, eu disse que...
— Eu sei, eu sei. Tudo depende de você conseguir me encaixar num horário e
pode demorar algum tempo... já sei o que vai dizer.
— Morgana, você perdeu a cabeça?
— Não adianta, já decidi e ponto final.
— Mas... mas é um absurdo! Você tem um rosto lindo, não precisa de uma
plástica! Você não esteve encorajando esta loucura, não é, Andrew?
— Lógico que não! Mas você já tentou argumentar com sua irmã quando ela
enfia uma idéia na cabeça?
— Ei, vocês dois ficam falando de mim como se eu não estivesse aqui!
Andrew continuou, ainda olhando para Marion:
— Acontece que sua irmã já se decidiu e, se eu não fizer a cirurgia, outra
pessoa a fará. Pelo menos se estiver em minhas mãos, sei que não vão estragar o rosto
dela. Existe um monte de picaretas por aí.
Marion voltou-se para a irmã.
— Quem colocou essa idéia maluca em sua cabeça? Ponho minha mão no fogo
como Jay Johnson está por trás disso.
— Bem, se você quer saber, conversamos sobre isto. Mas ele não tentou me
influenciar, deixou que eu me decidisse por mim mesma. E fui eu quem procurou
Andrew.
“Ah! Então foi assim que eles se conheceram!”, pensou Marion enquanto
Andrew dizia à irmã:
— Quero que tenha certeza absoluta do que vai fazer porque, de minha parte,
concordo plenamente com sua irmã; seu rosto é lindo e não há nada para arrumar
nele.
Marion não pôde deixar de sentir uma ponta de ciúme pelo modo com que ele
se preocupava com Morgana e pelo fato de ele ter mencionado que o rosto dela era
bonito. Que coisa ruim sentir ciúme da própria irmã.
— Oh, Andrew, você é maravilhoso. Mas o que acha de deixarmos esse
assunto chato para outra ocasião e irmos para a sala tomar café?
50

Vinte minutos mais tarde, após o café, Marion beijava o rosto da irmã para se
despedir. Não podia mais suportar aquela situação.
— O jantar estava maravilhoso, Morgana, mas preciso ir para casa descansar.
Tive um dia exaustivo.
— Mas é tão cedo... Por que não fica mais um pouco?
— Não é tão cedo assim e eu realmente preciso me deitar.
Andrew levantou-se e estendeu-lhe a mão.
— Muito prazer em conhecê-la, Marion Stevens. Espero vê-la de novo. E em
breve.
— Prazer em conhecê-lo, também, dr. Corbett.
— Pelo amor de Deus, Marion, chame-o de Andrew! — Morgana exclamou,
horrorizada.
Marion deu um sorriso sem graça e desapareceu porta afora.
A caminho de casa, os pensamentos pululavam em sua mente. Era difícil
acreditar que o homem que sua irmã declarava amar era nada mais, nada menos que
Andrew Corbett. O seu Andrew. Não! Precisava admitir que ele nunca havia sido
dela. E nunca seria, porque ela não o queria, nem desejava vê-lo de novo. Mas não
adiantava: nem ela acreditava nesta mentira.
Por que ele tinha que aparecer na vida dela de novo, justo quando conseguira
construir alguma coisa da qual poderia se orgulhar? A presença dele anulava o valor
de tudo, aumentava a solidão que ela tentava com tanto esforço superar.
Droga! Será que passaria o resto da vida procurando o calor do corpo dele no
meio da noite para encontrar um vazio em seu lugar? Não queria mais acordar com as
lembranças vivas dos dois fazendo amor, ou rindo a respeito de alguma bobagem...
Não, aquilo só servia para aumentar sua amargura e matá-la de saudade.

CAPÍTULO VI

Deitada em sua cama, Marion estava nua e sob as cobertas, olhando para o teto
do quarto, em desespero. Era impossível que ainda amasse aquele homem com tanta
intensidade. Queria fazer acreditar a si mesma que estava confundindo desejo com
amor. Mas no íntimo sabia que não era apenas atração física o que sentia. Uma
lágrima brotou em cada canto dos olhos.
Não conseguia parar de pensar em Andrew, por mais que tentasse. Desde o
momento em que abrira a porta da casa de Morgana para ele, a vida tornara-se,
novamente, um pesadelo.
— Maldito seja você, Andrew Corbett! — murmurou, entre dentes. — Como
pôde fazer isso comigo? E com Morgana?
Ao pronunciar o nome da irmã, começou a indagar-se, preocupada, se Morgana
sabia que o homem pelo qual se apaixonara era, provavelmente, casado. Estava certa
de que ele não havia se libertado da mulher, pois acalentara o tempo todo a esperança
de que, se ele obtivesse o divórcio, iria procurá-la.
Mas não seria ele o primeiro homem casado com quem Morgana se envolvera
desde a sua separação. Como eram diferentes na maneira de pensar... Jamais
continuaria tendo um caso com Andrew sabendo que ele era casado. Sentiria repulsa
de si mesma.
E nada havia mudado, pensou ela, sucumbindo a uma nova onda
desesperadora. Aquele homem ainda era um fruto proibido. Engoliu o gosto amargo
da dor e decidiu que não daria a ele o prazer de ver sua vida destruída, nem iria
competir com a irmã pela afeição de um homem, muito menos casado! Por estranho
que parecesse, a felicidade de Morgana era mais importante que a dela.
Marion ficou se revirando na cama, lutando contra a angústia que a devorava,
por um tempo que ela não saberia precisar, até que a campainha tocou. Mas quem
seria àquela hora da noite? Morgana?
— Droga! — exclamou, levantando-se e vestindo o robe. Nem se preocupou
52

em pentear o cabelo ou enxugar as lágrimas dos olhos. A campainha tocou mais uma
vez.
— Já vai, Morgana! Dê-me só um segundo.
Deu um laço apressado no robe e abriu a porta imediatamente. Pela segunda
vez, no mesmo dia, ficou totalmente sem ação.
Ele estava lá, penetrando-a com o brilho cinzento de seus olhos.
Com uma das mãos, Marion resguardou o peito com o robe, com a outra, quis
bater-lhe a porta na cara. Mas ele foi mais rápido.
— Oh, não, temos muito que conversar.
O que ela podia fazer, sabendo que ele era muito mais forte que ela e que não
conseguiria mover o pé que ele enfiara na soleira da porta, decidido a obter o que
queria? Marion largou a maçaneta e virou-lhe as costas, abraçando-se numa atitude
defensiva.
— Vá embora, Andrew. Não temos nada a dizer um ao outro.
O coração batia-lhe descompassado dentro do peito.
— Acho que temos, sim. Temos dois longos anos a esclarecer.
Ouviu-o fechar a porta atrás de si, consciente de que, a partir daquele
momento, estava sozinha com ele na sala. Não se atrevia a virar-se, temendo que as
pernas não a obedecessem. Tentando conter as lágrimas, falou com a voz embargada:
— Vá embora... por favor.
Ele estava bem atrás dela, o odor másculo de almíscar a embriagar-lhe os
sentidos. Teve a impressão de que ia ceder aos instintos.
Procurando amenizar o desespero, percorreu, com os olhos, as sombras que
dançavam nas paredes. A lua cheia e romântica lançava seus raios através da cortina
fina da sala.
Andrew aproximou-se mais um pouco e Marion sentiu o calor de suas palavras
roçar-lhe o pescoço, quando ele suplicou:
— Não me mande embora... por favor.
Ela deu um passo à frente, aumentando a distância entre eles.
— Estou falando sério, Andrew. Não quero você aqui.

Alcançou o abajur da sala e o acendeu. Como Andrew não se movesse, insistiu:
— Vá embora, por favor.
Estava magoada, confusa e com raiva de si mesma, lutando com sentimentos
contraditórios dentro do peito. Mas conversar com ele, dar-lhe uma chance para se
explicar não acrescentaria nada de bom à sua vida. Ele nunca a amara
verdadeiramente e o relacionamento deles nascera num ninho de mentiras. Enfim,
mesmo que ele a amasse, mesmo que isso pudesse ser verdade, significaria apenas
uma dor maior: havia Morgana agora. Não podia esquecer a imagem da irmã rindo,
radiante de felicidade, quando o beijara ardentemente.
— Não saio daqui enquanto você não ouvir o que tenho para lhe falar.
Para sua surpresa, Andrew atravessou a sala e parou perto da janela.
— O que você quer de mim? Naturalmente não pensa que pode continuar de
onde paramos há dois anos atrás.
Andrew olhou-a, procurando uma fagulha de esperança. Talvez nunca a tivesse
visto tão encantadora. Os cabelos estavam adoravelmente desalinhados e as curvas do
corpo pareciam mais perfeitas. Sabia que ela estava nua debaixo daquele robe e
fechou os olhos, brevemente, contendo um estremecimento provocado pela
lembrança do contato com aquela pele macia.
— Tudo! Quero tudo de você! — falou num sussurro veemente que não
deixava sombra de dúvida que estava sendo sincero. — Oh, Marion, o que estou
tentando dizer é que ainda a amo e quero me casar com você. Quero amanhecer todos
os dias a seu lado, quero vê-la carregar no ventre um filho meu. Quero...
— Pare com isso! — gritou ela e caminhou para a cozinha. Abrindo um
armário, pegou o pó de café. Precisava fazer alguma coisa para não cair em prantos.
Andrew a seguiu com um olhar brando e suplicante.
— Marion, ouça-me, por favor! Não sabe quantas vezes peguei o telefone para
ligar-lhe nos últimos meses. Se não disquei para você é porque tive medo. Isso
mesmo, medo! Sei que pareço ridículo, mas Deus é testemunha de que estou falando
a verdade.
Marion tinha vontade de avançar nele. Será que ele pensava que ela era tão
54

burra a ponto de acreditar em qualquer coisa que ele dissesse?
— Você... você... seu... Como tem coragem de vir aqui me dizer isto depois
de... depois de...
Andrew aproximou-se dela e a encarou com os olhos duros.
— Você não é a única que tem o direito de atirar pedras. Não se esqueça de que
tem parte da culpa nesta história. Por que não me esperou em Galveston? Sabia que
eu ia voltar.
— Ah, sabia? Você era casado! Levando em consideração este pequeno
detalhe, como poderia ter certeza de que voltaria?
— Porque eu a amava! Não era um bom motivo?
— Sinto muito, mas isso não era suficiente. Não tinha o hábito de andar com
homens casados. Aliás, não tenho e nem pretendo adquirir.
— O que quer dizer com isto?
— Você sabe muito bem, doutor!
— Não, não sei coisa alguma.
— Lógico que sabe, não se faça de desentendido.
Quase perdendo a paciência, Andrew segurou-lhe as faces entre as mãos e
aproximou o rosto do dela, tentando fazê-la entender o que ele queria dizer.
— Está bem, tenho que admitir que não fui honesto com você, mas agora tem
que acreditar em mim. Não sou mais casado e amo você, desesperadamente.
— Não quero mais ouvir falar nisso! — disse ela secamente.
Andrew estava com tanta raiva que tinha vontade de estrangulá-la.
— Você sente prazer em me tirar do sério!
Sentindo-se frágil diante da ira dele, Marion deu-lhe as costas e dirigiu-se a ele
num tom de voz indiferente, a raiva se transformando em fadiga, os ombros caídos,
vencidos:
— Agora não tem mais nenhuma importância, Andrew. Não sou a mesma
pessoa que você conheceu dois anos atrás. Eu mudei e você precisa aceitar isto. —
Fez uma pausa para colocar água na cafeteira elétrica e, em seguida, virou-se e
encarou-o: — O casamento deixou de ser importante para mim. Descobri que é bom

ser livre... ter uma carreira... Quanto a crianças, estou muito velha e impaciente para
criá-las.
Marion não sabia onde encontrava forças para simular aquela indiferença toda.
Só não tinha coragem de encará-lo de novo e ver, nos olhos dele, a mesma acusação
que estivera presente nos olhos do marido.
— Está bem, se você não quer crianças, posso aceitar o fato naturalmente.
Marion pensou em Morgana e no fato de ele não ter sequer mencionado o
nome da irmã até o momento.
— Como você teve coragem de vir até aqui para me dizer estas coisas? Não
tinha o direito...
— Você tem razão, eu não tinha esse direito — Andrew interrompeu-a,
desanimado e entristecido. — Mas eu não poderia continuar vivendo sem lhe dizer
tudo isso. Mais cedo ou mais tarde eu iria procurá-la.
Marion andava de um lado para o outro na cozinha, em passos nervosos e
impacientes.
— Quer parar um pouquinho e sentar-se? — ele explodiu. — Será que não
mereço nem o favor de ser ouvido uma única vez?
Ele estava novamente próximo dela, seduzindo-a com o odor de seu corpo.
Tentou escapar por um lado, mas ele a deteve, segurando-lhe o queixo, gentilmente, e
obrigando-a a encará-lo. Depois insistiu num murmúrio:
— Por favor.
Marion podia sentir a respiração quente dele numa das faces. Devia desviar o
rosto, mas um magnetismo impedia-lhe o gesto. Podia odiá-lo, maltratá-lo e fugir
dele. Mas não podia negar a atração que sentia por ele. Essa era a terrível verdade.
Concordou com um sinal de cabeça, já que não conseguiria mesmo pronunciar
uma palavra. Para seu alívio, ele deu um passo atrás e a deixou passar. Marion,
rapidamente, encheu duas xícaras de café quente e caminhou até a sala, acompanhada
por ele. Insegura e ansiosa, sentou-se no sofá, esperando que ele fizesse o mesmo.
Andrew não demorou a falar:
— Vou direto ao assunto. Quando voltei de Galveston, encontrei meu filho
56

internado na unidade de terapia intensiva de um hospital. Kathy, a mãe dele, estava
fora da cidade, com um de seus amantes. — Não havia mágoa em suas palavras. Os
sentimentos pareciam adormecidos. Ele prosseguiu: — Passei todo tempo que pude
com Jason. A única vez em que o deixei sozinho no hospital foi para ir a Galveston
explicar as coisas para você.
Se Andrew notou que Marion quase engasgara, fingiu não perceber.
— Você não pode imaginar os conflitos que vivi naquela época. Com um filho
no hospital, necessitando de amparo, só Deus sabe o quanto precisei do seu amor e o
quanto temi perdê-la.
Fez uma pausa para acender um cigarro. Marion notou um certo tremor
naquelas mãos grandes e bonitas. Andrew levantou-se do sofá e começou a andar de
um lado para outro.
— Kathy não queria consentir no divórcio, embora também não me quisesse.
Usou Jason para me segurar... Como você sabe, funcionou bem, até que...
Um nó na garganta embargou-lhe a voz. Parou e olhou para Marion,
estampando nas lágrimas que lhe corriam dos olhos a dor que sentia. Ela levantou do
sofá e caminhou até ele. Abraçou-o, ternamente, tentando confortá-lo. Ele chorava,
parecendo tão indefeso quanto uma criança.
— Jason morreu, Marion! Meu filhinho de três anos morreu, há seis meses,
devido a um problema cardíaco, e não houve nada no mundo que eu pudesse fazer
para impedir a morte dele.
Marion o abraçou mais forte e, tentando, em vão, dividir um pouco da dor que
continuava a torturar a alma dele, fechou os olhos e deixou as lágrimas rolarem livres
pelas faces. E pensar que, naquela noite, mesmo sabendo que o filho dele estava
doente não havia perguntado nada. Mas como poderia adivinhar que o estado dele era
tão grave?
— Marion, eu quis morrer junto!
Dizendo isto, com voz rouca e atormentada, ele entregou-se ao abraço e
enterrou o rosto nos cabelos dela, mergulhando naqueles braços que o amarravam,
macios como veludo. O contato do corpo delicado de Marion, em seus braços, bastou

para fazer evaporar toda a dor, toda a amargura da vida de Andrew.
Apesar da tristeza do momento, Marion sentiu a vida renascer dentro dela.
Aninhando-se no peito másculo, reconheceu que precisava dele com a mesma
intensidade que ele precisava dela.
Mal podendo acreditar que o momento tão esperado durante dois longos anos
havia chegado, ficaram abraçados em silêncio por muito tempo, até que a serenidade
transformou-se em desejo selvagem.
Andrew estremeceu violentamente, com um gemido agoniado, e abraçou
Marion tão fortemente que ela não pôde respirar, sentindo, pressionada contra o corpo
dele, a força do desejo. Naquele instante, os dois se retesaram.
— Marion! — ele murmurou com a voz rouca, uma pergunta ardendo em seus
olhos.
Pressionando os lábios dele com o dedo indicador, Marion silenciou-o, dandolhe a resposta sem precisar dizer uma palavra.
Andrew acariciou-lhe os lábios carnudos com os seus, saboreando a frescura de
sua boca. Então a beijou suavemente.
Marion, sentindo que ele estava se refreando, passou-lhe as unhas pela nuca e
buscou-lhe as profundezas da boca com a língua, em movimentos sensuais e
atordoantes.
Andrew soltou um gemido de prazer e beijaram-se com ardor, como se
quisessem sugar as energias um do outro. Mas, tão repentinamente quanto começou,
tremendo ainda de paixão, soltou-a e colocou-se a uma distância segura.
Sem entender o que estava acontecendo, Marion ficou a olhá-lo, cada vez mais
confusa, ao ver o sofrimento estampado naqueles olhos cinzentos, que imploravam
para que não fossem mais longe.
— Eu... não posso — ele disse finalmente. — Nós não podemos. Entenda...
não quero que você tenha pena de mim. Existem... existem barreiras dolorosas que
ainda temos que transpor.
Aquelas palavras trouxeram-na de volta à realidade. Era natural que ele
interpretasse a atitude dela como compaixão, afinal, como podia oferecer-se a ele
58

daquela forma depois de tudo o que havia lhe dito naquela noite?
E ele tinha razão ao afirmar que havia ainda muitos fantasmas assombrando o
relacionamento dos dois. E um deles era Morgana...
Com as emoções controladas, Andrew foi para perto da janela e, massageando
o pescoço, retomou o assunto de onde havia parado.
— Não havia nada a ser feito, era um defeito de nascença que não podia ser
corrigido.
Marion sentiu-se impotente ao perceber a dor que transparecia na voz dele.
Deixou-o prosseguir:
— Logo após a morte de Jason, Kathy concordou com o divórcio mas, naquela
época, meus nervos estavam em frangalhos e eu não podia enfrentar um novo
relacionamento. Quando, enfim, consegui me recompor, tive medo... como já disse a
você.
— Por favor, Andrew, não...
— Deixe-me terminar, Marion, por favor...
Havia súplica em seu olhar e ela não teve forças para recusar-se a ouvi-lo.
— O outro motivo pelo qual não a procurei foi meu trabalho.
— Seu trabalho? Não entendo.
— A cirurgia plástica embelezadora, para a qual, aliás, dedico pouco tempo, é
apenas um meio de conseguir dinheiro para um projeto que eu acho muito mais
importante.
— Que tipo de projeto?
— Uma pesquisa sobre defeitos faciais congênitos em crianças. Além de operálas, faço tudo o que posso para ajudá-las a levar uma vida normal.
— Puxa! É raro encontrar hoje em dia pessoas que se dedicam ao próximo
como você. Mas eu ainda não entendi...
— Na verdade, é muito simples. A pesquisa que desenvolvo num instituto é um
trabalho de equipe. A maioria dos fundos necessários para se levar adiante esse tipo
de pesquisa são provenientes de donativos. Sem os donativos, não poderíamos fazer
nada, pois uma cirurgia plástica do tipo que fazemos é caríssima. Ninguém poderia

pagá-la, na verdade. Isto faz com que eu precise ser muito discreto com a minha vida
pessoal.
— Acho que começo a entender agora. Você quer dizer que não pode se
envolver em escândalos porque senão os doadores recusariam o dinheiro para a
instituição. Por isso precisa ter uma conduta moral impecável.
Marion continuava em pé no meio da sala. Andrew aproximou-se dela.
— Correto, Marion. Mas, a despeito disso, não queria procurá-la sem ter nada
para lhe oferecer. — Fez uma pausa e acariciou-lhe as feições do rosto com a ponta
de um dedo, então prosseguiu: — Embora nunca tenha deixado de amá-la.
A dor que apunhalou-lhe o peito ao ouvir aquela declaração a fez cerrar os
olhos. E pensar em Morgana envolvida nesta história aumentava-lhe ainda mais o
sofrimento. Sentiu raiva dele por ter brincado com os sentimentos dos outros tão
levianamente.
— Agora é tarde demais! Um dia você me diz que é casado. Dois anos depois
me aparece, querendo recomeçar, como se pudéssemos apagar o tempo e continuar
nosso romance de onde paramos e, como num conto de fadas, ser felizes para sempre.
— Eu não disse isso. Disse que a amo e que quero me casar com você. Antes
não podia lhe oferecer casamento, agora posso.
— Mas será que você não pensa nem um pouco nos sentimentos de Morgana?
Andrew ficou impaciente.
— Mas o que a sua irmã tem a ver com nós dois. Dá para você me explicar?
— A sua falta de escrúpulos me assusta! Quer dizer então que estava
enganando minha irmã, fazendo-a pensar que estava interessado em se casar com ela?
Como pode ser insensível a esse ponto?
— Mas isso não existe! — exclamou ele. — Levei Morgana para jantar
algumas vezes e fui visitá-la também, mas, juro, nunca dei a ela motivo algum para
pensar que estivesse apaixonado por ela, nem ela deu demonstrações de amor. Se ela
sente alguma coisa por mim, não deve passar de empolgação. Pelo amor de Deus,
Marion, nunca dormimos juntos!
Teve vontade de acreditar no que Andrew dizia, mas lembrou-se dos beijos
60

trocados no apartamento de Morgana. Estava tão confusa diante de tantos
acontecimentos... O olhar suplicante de Andrew a deixava mais indecisa ainda. Não
lhe ocorreu a idéia de pedir um tempo para pensar, simplesmente, falou:
— Não... não posso dizer a você o que gostaria de ouvir. Nem agora... nem
nunca.
Andrew deu um passo para trás e contraiu o maxilar.
— Não posso aceitar o que disse. — Ele caminhou até a porta, abriu-a e
acrescentou antes de sair: — Estou indo embora, mas lembre-se de que sou tão
teimoso quanto você. Eu a amo e não vou desistir.
Marion permaneceu impassível ao vê-lo fechar a porta e partir. Segundos
depois, enterrou o rosto nas mãos e chorou amargamente.

CAPÍTULO VII

O telefone tocou bem cedo, na manhã seguinte. Era Morgana. Durante vinte
minutos, que lhe pareceram intermináveis, Marion ouviu-a falar de Andrew como de
um semideus e perguntar, centenas de vezes, se ela não achava que ele daria um
marido maravilhoso. A muito custo, conteve sua impaciência até que a irmã,
demonstrando finalmente estar satisfeita com as respostas, resolveu despedir-se. Não
sem antes marcar um almoço com ela, acrescentando antes de desligar:
— Agora tenho que me apressar. Andrew me aguarda no consultório dele,
dentro de meia hora.
Uma semana depois, Marion estava em pé à janela de uma de suas academias,
os olhos mergulhados na escuridão da noite. Por mais que tentasse, não podia acalmar
a turbulência de seus sentimentos.

Andrew não tinha dado sinal de vida, mas ela sabia que ele não iria desistir.
Provavelmente estava apenas dando um tempo para que ela refletisse melhor. Nada
porém, abalaria seu propósito de não mudar de idéia.
Se fosse honesta consigo mesma, tinha que admitir quanto desejava reaver
aquele amor. Mas uma parte dela zombava sarcasticamente, dizendo que só uma
mulher muito tola percorreria aquele caminho de novo.
Pensava que não estaria tão à mercê de seus tormentos íntimos, se não
houvesse trabalhado tanto naquele dia, quando foi interrompida pela voz suave de
Susan atrás de si.
— Quanto tempo mais deseja ficar parada aí pensando na morte da bezerra,
minha amiga?
— Oh, Susan, você me deu um susto tremendo. Pensei que já tivesse ido
embora.
— Na verdade, tinha ido mesmo, mas voltei para arrancá-la daqui. Não preciso
lembrá-la do dia extenuante que teve hoje, não é?
Marion sentou-se numa cadeira próxima à janela e massageou as têmporas.
— É, realmente foi um dia difícil. Você acha que fiz mal em acertar, por fora,
com a mulher, em vez de levar o caso à justiça? Tucker acha que agi mal.
— Lógico que não. Acho que você não poderia ter conduzido o assunto de
maneira melhor. E quanto a Tucker... você sabe, conservador, como ele é, não poderia
pensar de outra forma. Que reação esperava dele?
— Eu sei, mas sempre ouvi os conselhos dele e fiquei insegura desta vez por
ter decidido fazer o contrário do que ele me recomendou.
Uma aluna ameaçara processá-la por negligência, alegando ter sofrido lesões
corporais numa aula de uma professora que Marion contratara recentemente. Segundo
a queixosa, essa professora não estaria seguindo corretamente os cuidados a serem
tomados para que os exercícios, em vez de ajudar, não prejudicassem o corpo.
Entretanto, as outras alunas presentes na aula haviam feito um abaixo-assinado
inocentando a academia.
Como não havia provas de que Anne, a professora nova, não estava sendo
62

negligente, a mulher contratou um advogado ganancioso e inescrupuloso, que tudo
faria para projetar seu nome e ganhar rios de dinheiro, jogando o prestígio de Marion
na lama.
— Pense só em como um julgamento no tribunal poderia prejudicar o bom
nome da academia e o seu também — disse Susan. — Especialmente agora que seu
livro ficou famoso e o programa de televisão está para estrear em breve. Acho que
você não podia ter resolvido o problema de maneira melhor. Se bem que espero que
considere o episódio como uma boa lição.
— Com isso você não precisa se preocupar. Tucker jamais vai deixar eu me
esquecer deste caso. Acha que tenho o coração muito mole e isto não é a imagem
ideal para uma mulher de negócios.
— *Puh! O problema dele é que não suporta ver você solucionar os problemas
sozinha. Quer que você dependa dele.
— Bom, se é assim, vai cair do cavalo — Marion sorriu. — Nunca mais vou
depender de um homem para coisa alguma. De qualquer forma, estou contente por ter
me livrado do problema. E, já que tocamos no assunto, quero uma reunião com todos
os professores... deixe-me ver... quinta-feira de manhã. Acha que consegue passar
uma circular até lá?
— Vou rodá-la amanhã de manhã. É só me dizer o que quer escrever.
Vinte minutos depois, Marion estava sozinha novamente. Havia prometido a
Susan que sairia logo depois dela e tinha ido pegar a bolsa no escritório que mantinha
dentro da academia, quando ouviu o telefone tocar. Atendeu de má vontade.
— Alô!
— Ih, não vá me dizer que teve mais um daqueles dias!
— Morgana! Que horas você chegou em casa?
— Faz uma meia hora. Aliás, por falar nisso, não acha que é muito tarde para
você ainda estar aí?
— Está bem. Não precisa começar o sermão. Mas me fale do show. Você
gostou?
— Gostei, mas teria me divertido muito mais se Jay não tivesse ido junto.

— Ah! Não posso acreditar que vocês dois não tenham mudado nada nesses
anos todos. Brigam por nada, parecem duas crianças.
— Você não sabe, ele está muito, mas muito pior. Teimoso, chato, perde a
paciência por qualquer coisinha e... você não acredita como anda possessivo! Sintome sufocada. E ainda fala de Tucker! Jay é duas vezes pior! Não sei o que fazer!
— Você sabe muito bem o que está acontecendo com ele, Morgana.
— Não sei, não. O que poderia ser?
— Ele está se remoendo de ciúme.
— Bom, então é melhor ele parar com isso, porque eu já lhe disse que pretendo
me casar com Andrew Corbett. Se eu conseguir convencê-lo, é claro.
Embora Morgana falasse em tom de brincadeira quanto a persuadir Andrew a
casar-se com ela, Marion sabia que ela era bem capaz de conseguir.
— Marion! Você ainda está aí?
— Lógico que estou. Desculpe, estava meio longe. Tive um dia extenuante.
— Aconteceu alguma coisa?
— É uma longa história e já está tudo resolvido, não se preocupe. Conto tudo
para você amanhã. Não combinamos de almoçar juntas?
— Bem, foi para isto mesmo que telefonei...
— Ótimo. Então vejo você amanhã ao meio-dia no Benningan’s, está bem?
— Calma! Não me deixou terminar o que estava dizendo. Não posso almoçar
com você amanhã... Viajo para Paris, amanhã às oito horas.
— Paris!
— Pois é. Não é maravilhoso? Depois de tanto tempo, consegui um contrato de
primeira linha.
— Oh, Morgana, estou tão contente! Mas não faça suspense. Como foi que
conseguiu?
— Jay, é claro. Mas tem um pequeno problema. Se eu perder o avião, posso
perder o contrato. Só que...
— Só que o quê? Está louca Morgana? Eu não perderia uma oportunidade
desta por nada deste mundo.
64

— Nem eu pretendo perder. Por isso preciso de um favor seu.
— É só pedir. O seu desejo é uma ordem. E, antes que você diga, não se atreva
a criticar Jay na minha frente. Você devia ter vergonha!
— Eu sei. Mas não quero falar sobre isto agora. É simplesmente um alívio
saber que posso contar com você.
— Algum dia deixei você na mão? Então fale, diga o que você quer que eu
faça? Já estou ficando curiosa. Espero que não seja nada que exija um esforço mental
grande porque, do jeito que eu ando...
— Ah, é uma coisa muito difícil mesmo. Quero que vá se encontrar com
Andrew e participe de uma recepção em meu lugar. Que tal, acha que pode fazer isto?
Marion esperava tudo, menos aquilo. Da garganta não saía uma palavra, nem
mesmo uma pequenina, de três letras: não!
— Marion?
Precisava dizer alguma coisa rápido, senão Morgana poderia desconfiar.
— Eu... eu acho que Andrew não vai gostar disso.
— Calma, menina, não é nada que exija muito de você. É apenas um jantar
beneficente, em que Andrew vai falar um pouco do seu trabalho. Pediu que eu o
acompanhasse logo que nos conhecemos e eu já havia me esquecido. Só me lembrei
quando ele me ligou ontem à noite, pedindo-me que o apanhasse no aeroporto. De lá
iríamos direto para o hotel, onde vai se realizar o jantar. Se soubesse que iria para
Paris teria recusado, mas apenas hoje Jay me avisou da viagem.
— Por que não telefona para ele hoje? Ele pode tomar um táxi do aeroporto.
— Pensei nisso também, mas não sei onde encontrá-lo. Só você pode me
ajudar, Marion. Pode me fazer este favor?
Ela não tinha escolha. Era um beco sem saída. Não podia negar agora um favor
já que havia demonstrado tanta disponibilidade sem levantar suspeitas. Ao mesmo
tempo, sentiu-se tentada a aceitar, atraída pela idéia de ter a atenção de Andrew toda
voltada para ela e por uma noite inteira. Imaginou-se sentada numa mesa, na frente
dele, olhando para aqueles olhos cinzentos que sorririam quando os dois pensassem
nas carícias que gostariam de fazer um ao outro... Não era esse o caminho, não

tinham futuro. Precisava dizer alguma coisa, antes que Morgana desconfiasse que
havia algo errado com ela.
— Que bicho a mordeu? O gato comeu sua língua? — Morgana dava sinais de
impaciência. — Francamente, você está muito estranha. Qual é o problema?
— Morgana, já lhe ocorreu que...
— Não se atreva a me recusar este favor. Se você não fizer, nunca mais vou
perdoá-la. Sabe muito bem o quanto significa para mim agradar Andrew. Como pode
me deixar na mão numa hora dessas?
“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, pensou Marion e, fechando os
olhos, disse com uma voz ensaiada:
— Está bem, Morgana, acalme-se. A que horas chega o avião?
— Às seis horas. Vôo 407, de Nova York.
— Estarei lá. Vá sossegada para Paris.
— Você é um amor, Marion. Pode contar comigo quando precisar. É que eu
não queria que ele convidasse outra mulher. Sei que acha que estou ficando louca,
mas morro de ciúme dele. Não só ciúme, estou com muito medo também. Medo de
perdê-lo, antes de fazê-lo levar-me ao altar.
— Você se incomoda se conversarmos sobre isso mais tarde? Estou realmente
cansada, preciso ir para casa.
— Está bem. Obrigada, mais uma vez, por ter me ajudado. Sei que vou deixar
Andrew em boas mãos. Telefono para você quando voltar de Paris.
Marion despediu-se, colocou o fone no gancho e recostou-se na cadeira, o
coração apertado, segurando o pranto.
O avião de Nova York estava atrasado vinte minutos. Saber que tinha que
esperar apenas aumentava a ansiedade de Marion.
Uma dúvida a atormentava. Fora um beco sem saída mesmo, ou ela havia se
deixado convencer por Morgana porque, no fundo, queria ter Andrew como
companhia por algumas horas que fossem?
Quando pensara no que iria vestir dissera a si mesma que não deveria se
66

preocupar com a aparência, pois não queria impressioná-lo, mas desencantá-lo. Só
que, depois, entrara em contradição gritante quando demorara-se num banho de sais e
vestira-se com o maior esmero. Era uma questão de vaidade feminina, argumentara
tentando enganar-se ao escolher um vestido de seda preto que deixava nu um dos
ombros e descia em dobras insinuantes pelos quadris, até o joelho, salientando-lhe as
curvas sensuais.
Ao olhar-se no espelho, concordara que aquele era o vestido que lhe assentava
melhor. O negro realçava a perfeição da sua pele clara e destacava o brilho dos olhos
e os cabelos escuros e macios. Os brincos de brilhante e a correntinha delicada de
ouro branco que lhe adornava o pescoço cintilavam a cada movimento seu.
Eram as únicas jóias que possuía e a correntinha fora presente de Morgana.
Pelas paredes de vidro da sala de espera do aeroporto, Marion avistou o grupo
de pessoas que desembarcavam do vôo 407. Atrás de todos os passageiros, estava
Andrew. Sentiu o estômago contorcer-se de nervosismo quando ele entrou pela vasta
sala de espera e notou que parecia cansado, embora isso não lhe alterasse o charme.
Vestia um elegante terno cinza-claro, e os cabelos castanhos, espessos, estavam bem
penteados. Por baixo da roupa o físico musculoso se movia com uma graça
irresistível.
Marion ficou onde estava, branca feito cera, observando-o abaixar a cabeça
para passar a maleta e o jornal para a outra mão. Foi então que ele ergueu o rosto e a
viu.
O tempo parou para Andrew. Uma alegria imensa iluminou-lhe o rosto, os
olhos brilharam cheios de vida.
— Marion — balbuciou ele baixinho.
Para ela, que aprendera a ler em seus lábios, aquilo fora uma carícia.
No recinto lotado, todos riam e abraçavam os entes queridos, mas Marion e
Andrew estavam alheios a tudo. Continuavam imóveis, olhando um para o outro,
ambos com medo de dizer alguma coisa e quebrar a magia do momento.
Para Andrew, transcorrera uma eternidade desde que deixara a casa de Marion,
frustrado por não sabe como resolver o problema de Morgana e fazê-la entender que

pertenciam um ao outro. Desde aquela noite pensara e repensara no que havia
acontecido. Arrependera-se de ter dito algumas coisas e de não ter dito outras mas,
por mais que pensasse, não sabia como remediar as coisas.
Finalmente, depois de tantas noites maldormidas, decidira procurá-la, como
havia prometido. Mas o que impedira fora o receio de magoá-la, de machucá-la ainda
mais, e a necessidade de dar-lhe um tempo para pensar. Quanta agonia não havia lhe
custado aquela semana. Refrear-se da vontade de vê-la, de tocá-la, de acariciá-la.
Mas agora, para sua alegria, ela estava lá, na frente dele, como num sonho. A
menos que estivesse cometendo um grande erro de julgamento, estava lá por causa
dele. O que significava a presença dela ali? Não importavam os motivos, aquilo era
um presente dos céus.
— Andrew... eu...
Ela fez uma pequena pausa e passou a ponta da língua nos lábios pintados de
batom. Apesar da inocência do gesto, Andrew gemeu por dentro. Ouviu-a prosseguir.
— Quero dizer, Morgana teve que ir a Paris por causa de um contrato...
— Oh, Marion — ele sussurrou para que só ela escutasse —, o motivo da sua
vinda não importa. Estou tão feliz por você estar aqui! Não faço outra coisa senão
pensar em você dia e noite, dia após dia, noite após noite.
— Por favor, Andrew... Não é o que você está pensando. Apenas concordei em
vir porque Morgana não me deu outra escolha.
Vendo a aflição espelhada nos olhos dela, Andrew esboçou um sorriso forçado
para disfarçar o desapontamento que ameaçava consumi-lo e disse:
— Vamos indo, então?
Era o entardecer de um dia quente e abafado. Depois de pegarem a bagagem,
deixaram o aeroporto e caminharam até o carro, em silêncio. Andrew abriu a porta
para ela e sentou-se no banco do motorista. No caminho para o hotel a atmosfera
continuava tensa.
Marion resolveu iniciar uma conversa, para não se sentir tão constrangida.
— Onde vai ser o jantar?
— No Hotel Warwick. Pelos comentários que ouvi, vai haver um buffet de
68

frutos do mar antes da apresentação do meu trabalho para um grupo de importantes
executivos acompanhados das esposas.
— Humm, parece interessante. São os tais que contribuem com donativos para
as experiências do instituto?
— Exatamente. Preparei alguns slides dos casos mais típicos sob minha
responsabilidade. Espero comovê-los.
— Você realmente se interessa pelos seus pacientes, não é mesmo?
Marion lançou um rápido olhar para ele, que manteve-se pensativo, por alguns
instantes, para depois responder:
— É verdade. Muitas vezes esse envolvimento se estende às suas famílias e
acabamos amigos para toda a vida. Por isso não poupo esforços para ajudá-los.
— É uma qualidade cada vez mais rara no mundo de hoje.
Marion sentiu uma ponta de ciúme do entusiasmo dele no trabalho, que o
absorvia de corpo e alma, e pelo qual dava a vida. Tão diferente dela... Depois que
Andrew retornara à sua vida tudo parecia sem sentido: as academias, o livro, o
programa de televisão...
— Você ainda não me explicou exatamente como Morgana conseguiu
convencê-la a vir no lugar dela — ele comentou, enquanto estacionava o carro em
frente ao Hotel Warwick. Depois sorriu para ela, embora os olhos ainda escondessem
uma tristeza antiga. — Mas não importa. Esta noite, vou aproveitar cada momento
que estiver a seu lado.
Dizendo isto, admirou avidamente a maciez da pele de Marion exposta pelo
corte sedutor do vestido. Ela movia-se com uma graça que o deixava louco de desejo.
— Andrew... por favor... não me olhe assim. Eu... eu ainda não mudei de idéia.
— Não se preocupe, prometo me comportar. Mas, se não posso tocar em você,
deixe-me ao menos admirá-la.
O porteiro ajudou-a a sair do carro e ela ficou esperando por Andrew para
acompanhá-la até a porta de entrada do hotel. Depois de atravessarem a recepção,
percorreram um corredor e alcançaram um grande salão.
A elite da sociedade de Houston estava lá. A enorme mesa de banquete,

decorada com flores exóticas, estava rodeada de gente bonita. Pela riqueza do
ambiente, Marion calculou o quanto o dr. Andrew Corbett era importante. Estava
contente em ser, ao menos por aquela noite, parte do trabalho e da vida dele.
Em meio à multidão que enchia o salão, Marion sentiu o toque da mão de
Andrew em seu ombro. Aquele gesto era apenas uma maneira delicada de conduzi-la,
por entre as pessoas, até a mesa. Mesmo assim, ela sentiu um calafrio que a
atravessou desde a nuca até a base da espinha. No caminho, ouviu-o sussurrar em
seus ouvidos:
— Você é a mulher mais bonita da festa. Sinto-me orgulhoso de estar ao seu
lado.
Marion sentiu-se envaidecida, mas não podia encorajá-lo a prosseguir.
— Lembre-se do que prometeu!
— Desculpe. Vou me esforçar mais.
Mas nem a voz nem o olhar juravam sinceridade. Como se não bastasse,
quando virou-se para a frente, Marion sentiu os lábios dele acariciando uma de suas
orelhas. Respirou fundo, para não explodir.
— Pare com isso! — sussurrou entre dentes.
Marion ficou mais brava ainda quando viu que ele sorria, zombando da
irritação dela. Mas, antes que um dos dois pudesse dizer alguma coisa, foram
assediados por um grupo de pessoas.
Daquele momento em diante, Marion foi envolvida pela confusão e
apresentada a tanta gente que era impossível guardar os nomes. Finalmente
acomodaram-se em uma das mesas.
À esquerda de Marion sentou-se um homem grisalho, muito simpático, que se
apresentou como Rodney Cantrell, o chefe do hospital onde Andrew trabalhava.
— Diga-me, o que acha do nosso doutor, quero dizer, do trabalho que ele
desenvolve? — ele perguntou.
Marion olhou diretamente para os olhos azuis daquele homem, ao responder:
— Ele me parece uma pessoa de rara bondade, além de um profissional
dedicado.
70

O homem suspirou e franziu as sobrancelhas espessas, também grisalhas.
— É a minha opinião. E é exatamente o que faz dele um homem
imprescindível no nosso campo de trabalho. Há meses venho tentando convencê-lo a
aceitar as homenagens pelo pioneirismo de suas pesquisas, até que, finalmente,
concordou. Esta é uma noite especial para ele. Além de ser homenageado, vai receber
donativos generosos.
— Quer dizer que esta não é apenas uma reunião para angariar fundos? É um
jantar em homenagem a ele?
— Você não sabia? Andrew é tão modesto que nem comenta tal tipo de coisa.
Marion foi tomada por um profundo sentimento de culpa. Aquele era um
momento importantíssimo na vida de Andrew e não era ela quem deveria estar lá e
sim Morgana. Por outro lado, a irmã, que devia saber o motivo daquele jantar, optara
pela carreira, viajando para Paris.
Mas o entusiasmo daquela noite logo apagou-lhe o sentimento negativo. A
comida estava deliciosa e a conversa, agradável. Quando Andrew levantou-se para
fazer seu discurso, Marion retesou-se na cadeira, para não perder nenhuma de suas
palavras.
Depois de agradecer aos colegas e amigos presentes pela homenagem que
estavam lhe prestando e o quanto aquilo significava para ele, Andrew falou dos seus
pacientes, com muito carinho, explicando a ficha clínica de cada um e apresentando
slides impressionantes. Ao final, entre os aplausos de todos, não havia uma só pessoa
que não estivesse emocionada, inclusive Marion, que tinha os olhos marejados de
lágrimas.
Estava tão orgulhosa de Andrew que o coração parecia que ia estourar. E
aquele sentimento perdurou, mesmo depois das despedidas e de Andrew tê-la
acomodado no carro.
Quando ele se instalou no banco da direção e dirigiu-lhe um olhar cansado mas
esperançoso, Marion teve vontade de abraçá-lo e beijá-lo.
— Bem, o que você achou? — ele perguntou, despertando ondas ardentes ao
percorrer seu corpo com o olhar penetrante. Ela estava prestes a chorar de emoção.

— Acho você uma pessoa maravilhosa. Maravilhosa e especial.
— Oh, Marion! Você não sabe o que isto significa para mim.
— Andrew...
— Não diga nada, Marion, não agora. Podemos conversar em outro lugar.
Dizendo isto, deu a partida no carro.
— Não, Andrew... não posso. Por favor, leve-me para casa.
— Por quê, Marion? Dê-me ao menos uma chance! — Olhou para seu rosto
pálido, e abaixou o tom de voz: — Como pode jogar fora a oportunidade que o
destino nos trouxe de mão beijada?
Fez nova pausa e percorreu-a novamente com o olhar, parando sobre os seios
eretos que pareciam vibrar sob o tecido do vestido.
— Sei que ainda sente alguma coisa por mim e você sabe disso. Por que insiste
em negar? A quem está tentando enganar?
Ele estava certo, mas isto não facilitava uma decisão. Andrew, porém, uma vez
mais provocou-a, num sussurro:
— Quer mesmo que a leve para casa?
Marion continuou silenciosa por mais uns instantes, depois desviou o olhar e
murmurou, com um suspiro abafado:
— Está bem, Andrew. Você venceu.

CAPÍTULO VIII

A casa de Andrew era tão bonita por fora quanto por dentro. Embora fosse
noite, as alamedas que a circundavam estavam tão bem iluminadas que Marion pôde
ver que era revestida de tijolos vermelhos, uma solução simples mas de bom gosto.
Parou no hall e olhou em volta, curiosa. A direita, ficava a sala espaçosa de teto
72

alto e com amplas janelas envidraçadas, em cujo centro havia uma suntuosa lareira.
Um sofá e duas poltronas de veludo, móveis maciços trabalhados a mão e
objetos de porcelana fina dispostos em prateleiras davam ao ambiente um ar sóbrio,
que era quebrado, ao mesmo tempo, por uma infinidade de livros espalhados por toda
parte.
Gostaria de ver aquele lugar à luz do dia, com os raios de sol iluminando as
plantas que pendiam de cestos, de enormes urnas de barro.
Conduzindo-a pelo braço, delicadamente, Andrew disse com um sorriso:
— Fique à vontade, vou buscar uma bebida.
Marion sentou-se confortavelmente no sofá, em frente a uma mesa de centro
ornamentada com uma planta exótica. Pensou em descobrir, por um instante, que
espécie de planta era, mas não conseguiu se concentrar perturbada com o rumo das
coisas. Talvez não devesse ter ido lá.
Durante o silencioso trajeto do hotel até ali, pensara, várias vezes, em dizer a
Andrew que havia mudado de idéia. Mas não tivera coragem, e sabia por quê: estava
ainda totalmente enfeitiçada por ele.
O coração humano é incompreensível, refletiu ela. Esse homem havia
transtornado a sua vida e ela, ainda, só se sentia realmente viva quando estava com
ele. O coração dizia-lhe para ficar. A razão pedia que sumisse dali. Mas quem disse
que a razão é a senhora das emoções? Sabedoria no mundo não cura a ferida do
desejo humano.
Talvez, se cedesse aos desejos da carne, naquela noite, pudesse livrar-se, para
sempre, do fantasma de Andrew Corbett. Não precisava de um homem para sentir-se
realizada. Não havia provado isto a si mesma?
Marion despertou desses pensamentos, quando Andrew retornou à sala.
— Bem, o que acha da minha vivenda?
— É linda, mas você não precisa que eu lhe diga isto.
— A sua opinião é sempre importante para mim.
Os olhos dele brilharam ao pousarem no rosto dela.
— Há quanto tempo mora aqui?

Andrew ofereceu a ela um copo de vinho.
— Não faz muito tempo. Um casal de amigos se divorciou e teve que vender a
casa. — Tirou o paletó, a gravata e desabotoou o colarinho da camisa. Depois,
sentou-se ao lado dela, no sofá. — Agora posso relaxar!
Enquanto Marion levava o copo à boca, Andrew reparou como as mãos e as
unhas dela eram bonitas.
— Gostaria de saber o que você esteve aprontando nestes dois anos. Depois
quero mostrar-lhe o resto da casa.
Os olhos de Andrew se detiveram nos lábios macios de Marion.
— Na verdade, não tenho muita coisa para contar — ela disse.
— Ah, é? Não foi o que me contaram. Pelo que fiquei sabendo, você tem três
academias de ginástica aeróbica e um livro editado.
— É verdade. E estou para conseguir também um programa de televisão.
Andrew cruzou as pernas e apoiou um dos cotovelos no sofá.
— Quero que me conte tudo. Sobre o trabalho, sobre o livro, sobre o programa
de televisão...
Marion não estava disposta a falar sobre aquele assunto, mas entusiasmou-se
quando percebeu nele um interesse sincero. Contou-lhe tudo: o método que adotava,
suas teorias sobre nutrição e saúde, a luta para conseguir o programa. No final,
Andrew sorriu e fez um comentário.
— Você certamente é uma mulher muito capaz. Lembra-se daquele dia em
Galveston, quando discutimos seus sonhos?
Ao ouvir aquilo Marion sentiu uma pontada de dor. Nunca havia pensado
naquela promessa, enquanto buscava transformar seus sonhos em realidade. Por que
eram tão dolorosas aquelas lembranças?
— Bem, tudo o que posso dizer é que dediquei a minha vida ao trabalho e por
isso consegui o que queria.
Abaixando os olhos, Andrew esforçou-se por não demonstrar a decepção ao
sentir que a conversa de Galveston não tivera o menor significado para ela. Mas
deteve o olhar na pele clara e macia do ombro nu de Marion e teve uma vontade
74

irresistível de acariciá-la com os lábios, provar-lhe o sabor e tatear-lhe os seios.
A ardência do olhar não passou despercebida. Marion apanhou o copo de vinho
e o esvaziou num gole só.
Andrew, perturbado, levantou-se do sofá. Se permanecesse ali, acabaria
cedendo aos impulsos animais e, provavelmente, desperdiçaria a última chance de
ganhar a confiança dela.
— Vou buscar mais um pouco de vinho para você. Que tal, depois, darmos uma
volta pelo jardim? Eu gostaria de mostrar-lhe a piscina.
Enquanto Andrew ia até a cozinha, Marion levantou-se e começou a andar pela
sala para dispersar as emoções. Foi quando viu, em cima de uma prateleira, o retrato
de um bebê, de mais ou menos um ano e meio. Teve vontade de chorar.
Neste momento, Andrew voltava à sala e, notando que ela olhava o retrato, foi
para perto dela e comentou:
— Era um garoto bonito, não era?
— Era, sim. Oh, Andrew, como deve ter sido difícil para você... Perder um
filho...
— Às vezes, quando olho para este retrato, e na verdade vivo fazendo isto, não
consigo acreditar que ele tenha morrido.
Marion estava tão comovida que não sabia o que dizer. O melhor seria deixar
que ele falasse.
— O amanhecer é sempre doloroso. Sempre, quando acordo, penso que ele
vem me abraçar, me encher de beijos molhados, pular em cima de mim...
Um nó na garganta impediu-o de continuar. Virou-se e foi até a janela que dava
para o jardim dos fundos, onde apoiou um dos ombros.
Não queria a piedade dela. Se ela um dia o aceitasse, deveria ser
espontaneamente. Com os olhos rasos d’água, virou-se lentamente, para encontrá-la
também chorando.
— Desculpe-me, Andrew, eu não devia ter tocado no assunto, sei como deve se
sentir.
Andrew teve vontade de abraçá-la e aceitar o conforto que lhe oferecia, mas

deteve-se. Mais tarde, ela poderia pensar que ele havia usado a dor para reaver-lhe a
confiança. Não a queria por uma noite ou para ter um caso passageiro. Queria
compartilhar com ela o seu dia-a-dia, tê-la para toda a vida. Até que ela estivesse
pronta para dar este passo, faria tudo para não tocá-la.
— Sou eu quem devia me desculpar por perder o controle e fazer você chorar.
Mas...
— Não diga mais nada. Eu entendo. Talvez mais do que você possa imaginar.
Estavam tão próximos um do outro que começou a surgir uma intimidade que
nada tinha a ver com piedade.
Marion afastou-se um pouco, só o suficiente para quebrar aquele encanto.
— Se você quiser, podemos ir até a piscina.
Num gesto carinhoso, Andrew segurou a mão dela, mas não pôde dar um
passo. Não conseguia se mover. Estava preso na armadilha do desejo. Acariciou a
palma da mão dela.
Marion sentiu as pernas amolecerem. O corpo viril de Andrew enviava-lhe
mensagens sensuais que ela não podia deixar de corresponder. Com a respiração
suspensa, esperou que ele a tomasse nos braços, entreabrindo os lábios, levemente, e
esperando que ele a beijasse. Mas não foi o que aconteceu.
— Vamos indo, Marion.
Não foi fácil para ela superar a decepção. Com muito esforço, conseguiu
concordar com um gesto de cabeça e segui-lo até o jardim. Por que Andrew havia se
refreado? Seguramente sabia que ela não iria rejeitá-lo.
O imenso jardim circundava toda a casa. Os limites do terreno eram cercados
por árvores altas e por trepadeiras que subiam nas cercas de arame. No gramado liso,
candelabros iluminavam todo o deque da piscina. A água verde-azulada, cristalina,
refletia os raios de luar. Como a noite estava quente e abafada, teve vontade de tirar a
roupa e mergulhar nela. Mas limitou-se a perguntar:
— Você usa muito a piscina?
— Diariamente. Às vezes, duas vezes por dia. Inclusive no inverno, já que a
água é aquecida.
76

— Puxa, que delícia!
— Você gostou? Não sei se reparou, mas não tenho vizinhos por perto, o que
me deixa mais à vontade.
Marion ajoelhou-se e agitou uma das mãos na piscina.
— A água está uma delícia.
Andrew sorriu de leve e, quando ela se levantou, seus olhares se cruzaram,
bem próximos um do outro. Sem desviar os olhos dela por um segundo, ele levou a
mão dela à boca e sorveu dos dedos a água clorada.
— Humm, que dedos gostosos!
Sentindo uma onda de desejo que lhe retesou os seios, Marion sorriu e, não
sabendo o que dizer, sugeriu:
— Vamos caminhar um pouco.
Um silêncio sensual e envolvente os acompanhou no passeio pelo jardim,
atingindo desde as folhas entrelaçadas no alto das árvores até as flores que exalavam
um perfume embriagante. Enquanto caminhavam, tomavam cuidado para não se
tocarem.
Marion respirou fundo, sentindo que ia explodir a qualquer momento, e
reparou que Andrew estava tenso. O que o preocupava? Desejava tanto acariciá-lo!
Insinuar as mãos por debaixo da camisa, sentir os pêlos que lhe cobriam o peito e o
odor másculo de seu corpo. Tudo tinha gosto de fruto proibido.
De repente, ele parou e virou-se para ela, sorrindo.
— Será que você concordaria em fazer uma coisa audaciosa?
Marion surpreendeu-se com a súbita mudança de estado de espírito e
respondeu, com cautela:
— Bem, depende...
— Queria sugerir um banho de piscina. Que acha?
— Mas... mas eu não trouxe roupa de banho...
— Tenho um biquíni que poderia emprestar para você.
O que ele queria dizer, na verdade, é que ela não precisava de roupa.
— Como você sabe que vai servir?

— Não vai servir.
— Bem, então o que você sugere?
— Deixo isso com você.
— Então deixa pra lá...
— Deixa pra lá o quê? O banho ou o biquíni?
Marion cravou as unhas nas palmas das mãos.
— O biquíni.
Fechou os olhos, dizendo a si mesma que o que estava fazendo era certo. Era a
única maneira de livrar-se do passado. Embora não amasse mais aquele homem,
ainda o desejava.
Murmurando o nome dela num gemido, Andrew odiou-se por não ter mantido
a decisão de minutos atrás e, inclinando-se, pousou os lábios sobre os dela. Sentiu-a
refrear-se e, instintivamente, insinuou a língua entre os dentes dela e a beijou
intimamente, afagando-lhe os cabelos sedosos e perdendo-se na maciez e no calor
que eles exalavam. Com uma das mãos apertava-a na cintura, arqueando-lhe as
costas, enquanto com a outra excitava-a até a loucura em carícias cada vez mais
ousadas, demorando-se nos seios redondos e firmes.
Marion entregou-se a sensações que não experimentava desde a última vez em
que estivera nos braços de Andrew. Ele não havia mudado nada, ainda possuía aquele
mesmo jeito gostoso de acariciá-la, a mesma voz rouca e sensual, a mesma habilidade
em fazê-la obediente e receptiva.
Perdeu a noção da realidade quando ele, com os dedos longos e sensíveis,
tocou-lhe os mamilos rígidos e abriu o zíper do vestido com facilidade, deixando-lhe
as costas um pouco para olhar o vestido escorregar-lhe pelo corpo e ela, sem dizer
uma palavra, sentindo a brisa quente na pele, livrou-se da roupa íntima, que se juntou
ao vestido, no chão.
Andrew deu alguns passos para trás e admirou, fascinado, o corpo da mulher
que tanto amava. Ela era ainda mais bonita do que ele se lembrava.
— Não sabe quantas vezes sonhei com este momento! — exclamou
mordiscando-lhe um dos bicos dos seios crispados e depois o outro.
78

Marion quase desfaleceu de prazer, sentindo, depois, seus seios inteirinhos nas
palmas das mãos dele, sendo massageados.
Andrew afastou-se para tirar a roupa, sem desviar os olhos dela, e Marion, para
a surpresa dele, posicionou-se na beirada da piscina e deu um mergulho perfeito até o
fundo. Depois começou a nadar, de um lado para outro, em graciosas braçadas.
Andrew ajeitou a roupa na grama e caminhou até a borda da piscina. Marion
nadou até ele; os cabelos molhados a tornavam mais fascinante ainda.
— Você nada maravilhosamente bem, Marion.
— Obrigada. Mas você não vai entrar? A água está uma delícia.
— Num minuto.
A voz saiu-lhe rouca, sedutora, pois admirava-lhe as coxas roliças e o ventre
liso, enquanto ela se espreguiçava como uma gata, com os olhos fechados, para sentir
melhor a água acariciar-lhe o corpo.
Após um momento de silêncio, Marion abriu os olhos para encontrá-lo, ainda
de pé, olhando para ela. Seu porte musculoso a fazia lembrar um deus grego.
Netuno... Admirou os ombros largos, os pêlos que lhe cobriam o peito e escasseavam
através do abdômen, delineando um caminho que levava até o membro viril. Não via
a hora de tocá-lo. Tomou fôlego e mergulhou.
Andrew curvou o corpo e desapareceu dentro da água. No fundo da piscina
avistou as pernas dela movimentando-se um pouco acima dele e sentiu uma alegria
imensa. Sentia que ela estava cedendo e isto significava que aquela noite seria o
início de um relacionamento gratificante.
De brincadeira, segurou-a firmemente por um dos pés e sentiu-a espernear em
vão, tentando livrar-se dele, mas não a soltou. Puxou-a mais para o fundo, admirando
os cabelos escuros que se esparramavam na água. Depois, sorrindo, soltou-a.
Marion franziu a testa, em sinal de desaprovação antes de emergir.
— Você está se aproveitando da força que tem, Andrew Corbett!
Andrew sorriu e moveu-se ameaçadoramente em direção a ela.
— Eu sei.
— Não, não venha, afaste-se. Fique longe de mim!

Marion ria e nadava de costas procurando fugir. Mas logo ele a alcançou,
agarrando-a pela cintura, enquanto os dedos de uma das mãos espalhavam-se sobre as
coxas dela.
Marion arqueou o corpo instintivamente para o lado dele e seus lábios se
encontraram. Enquanto ele a beijava profundamente, ela escorregou a mão pelos
quadris de Andrew, sentindo-o rígido e liso.
“Isto não pode estar acontecendo”, pensou ela, feliz, tendo pressionado contra
as coxas o vigor da masculinidade de Andrew. Parando de beijá-lo, riu de maneira
exuberante. Nunca sentira-se tão viva em toda a vida.
Era inacreditável o bem que aquele homem podia fazer ao seu corpo e aos seus
sentidos.
— Você está contente?
— Estou achando tudo isto maravilhoso. Mas daqui a pouco vou ficar com a
pele toda enrugada.
— Adoro ver você assim tão livre e bem-humorada. — Andrew deu-lhe um
abraço espontâneo e cheio de afeição. — Isso só me faz gostar mais de você.
— Eu... eu nunca fiz nada assim com ninguém. E você?
— Você foi a única mulher a entrar nesta piscina, se isto responde à sua
curiosidade.
— Não acredito...
Andrew beijou-a docemente nos lábios molhados e sussurrou ardentemente:
— Quero você, Marion.
— Agora?
— Sim, agora.
— Aqui?!
— Aqui.
— Eu... não sei. Quando estou com você parece que não consigo me controlar.
— Ponha as pernas em volta de mim. Eu seguro você.
— Andrew...
— Faça como eu lhe peço. Relaxe. Só quero ser parte de você por um instante.
80

Faz tanto tempo que sonho com isso...
Antes que Marion percebesse, ele já a havia penetrado totalmente. Ela enlaçoulhe o pescoço e sentiu-o engolfar-lhe os seios, movendo-lhe os quadris.
Tudo acabou tão depressa quanto começou. Andrew desprendeu-se dela e a
ajudou a sair da piscina, desculpando-se depois.
— Espero... que você não tenha se importado. Sei que não foi bom para você...
mas... não pude esperar mais.
— Não se preocupe. Não tem importância.
Vinte minutos mais tarde estavam deitados lado a lado, envoltos em lençóis de
cetim.
Andrew começou a beijar-lhe os seios, procurou-lhe os lábios querendo-a de
novo, o corpo incendiando de desejo, como se fosse a primeira vez que a estivesse
beijando. Depois os lábios foram descendo suavemente, vagueando pelo corpo dela
até a excitação chegar a um limite insuportável.
Marion enlaçou-o com força e deixou que suas unhas arranhassem aquelas
costas largas, não podendo mais conter os gemidos de prazer.
— Oh, Andrew... Não me faça esperar mais...
Andrew deslizou uma das mãos pelo corpo dela em busca da parte secreta que
ela guardava entre as coxas e constatando, pelo tato, que ela estava pronta para ele,
preencheu-a devagarinho.
Marion ouviu-o gemer quando ela o ajeitou mais para dentro de si e seus
quadris se movimentaram cada vez mais rápido, até que, juntos, sentiram o prazer de
se amarem com loucura e paixão.
Passado o êxtase, Andrew deitou-se ao lado dela ainda inebriado com sua
beleza. Queria dizer-lhe o quanto a amava mas, receando que isto pudesse quebrar a
macia do momento, preferiu calar-se. Em vez disso, deslizou os dedos pelo pescoço
dela e afagou-lhe os cabelos, dizendo em pensamento: “Eu te amo”. Estava louco por
ela, não desejava outra coisa a não ser tê-la para sempre a seu lado.
Sentindo-o roçar-lhe o pescoço, Marion abriu os olhos e ronronou-lhe o nome,
sensual como uma gata.

Andrew, que não suportava a idéia de terminar aquela noite sem obter uma
promessa, arriscou:
— Precisamos ter uma conversa séria, Marion.
— Não... por favor. Não agora.
— Agora, sim, Marion. Eu a amo e sei que também me ama. Quero me casar
com você. Amanhã. Tenho certeza de que seremos felizes. Quero ouvir o barulho de
crianças brincando nesta casa.
Marion foi tomada de pânico ao ouvi-lo falar de crianças. Ele realmente queria
casar com ela mas ela não podia dizer-lhe sim. E não era por Morgana, nem pelo
desejo de dedicar-se à carreira, mas porque não podia dar-lhe o filho que ele tanto
desejava!
Levantou-se decidida e começou a vestir o robe. Andrew seguiu-a, exigindo
uma explicação.
— O que foi agora?
— Não... não daria certo.
— O que você quer dizer com isto?
Marion torcia as mãos, nervosamente.
— Eu já lhe expliquei uma vez.
— Então explique de novo, porque não entendi.
Ao dizer isto, os músculos da face se contraíram.
— Eu já lhe disse. Não quero nunca mais ser uma dona-de-casa. E... existe
ainda... Morgana.
— Diga-me, então, o porquê desta noite de sedução.
O sarcasmo na voz de Andrew doeu-lhe fundo. Marion estava insegura quanto
a contar-lhe a verdade ou não. Mas sabia que não agüentaria mais uma cena como
aquela que tivera com o marido há tanto tempo. Procurou evitar o olhar dele.
— Por dois anos... você esteve dentro de mim como um fantasma. Achei que...
se passasse uma noite com você... poderia tirá-lo de minha vida.
— Você o quê? Como teve a coragem de fazer uma coisa dessas?
Andrew mal pôde acreditar no que acabara de ouvir. Esperava tudo no mundo,
82

menos aquilo. Desesperado, foi até a janela, dando-lhe as costas. Sentia raiva e um
desejo imenso de vingar-se, e segurou os punhos para não batê-los contra a parede.
Mas, depois, achou que ela tinha razão. Não daria certo, porque viviam magoando um
ao outro.
Marion tentou dizer alguma coisa para defender-se, mas as palavras ficaram
presas na garganta. Queria contar-lhe que o feitiço havia virado contra o feiticeiro e
expressar-lhe o quanto o queria e o amava. Mas agora não adiantava mais, ele não a
ouviria.
Andrew virou-se para ela, com uma tristeza infinita nos olhos.
— Você tem razão, não daria certo. — Começou a se vestir e acrescentou: —
Vou levá-la para casa.
Marion achou melhor ficar calada. Ele estava magoado, com o orgulho ferido.
Embora se odiasse por ser a causadora do sofrimento dele, era melhor deixar as
coisas como estavam. Só o ódio dele poderia mantê-lo afastado dela.
A volta para casa foi um verdadeiro pesadelo. Andrew mantinha os olhos fixos
na estrada. No rosto, tristeza e desapontamento.
“Está tudo acabado”, Marion refletiu sozinha, deitada na cama, olhando para o
teto. Havia tirado, definitivamente, Andrew de sua vida. Mas não era isso mesmo o
que ela queria?

CAPÍTULO IX

Às cinco horas da manhã do dia seguinte, Marion acordou desnorteada,
morrendo de dor de cabeça. Foi direto para a cozinha comer alguma coisa e tomar
uma aspirina.
Vinte minutos mais tarde ela estava de volta à cama pensando no que fazer. Os

acontecimentos da noite anterior fizeram dela um farrapo humano. Precisava fazer
alguma coisa para não enlouquecer. Mas fazer o quê?
Envolveu o corpo nos próprios braços e mergulhou em seus pensamentos. Foi
então que teve uma idéia. Iria para Galveston. Lá poderia curtir suas férias sem que
ninguém a incomodasse. Decidida, levantou-se da cama, tirou da gaveta alguns shorts
e camisetas, apanhou duas sandálias e estava pronta para partir quando lembrou-se de
telefonar para Susan e avisar que iria sumir por alguns dias. Por fim, resolveu deixar
também um recado na secretária eletrônica de Morgana, dizendo a mesma coisa.
Às oito e meia, chegava à casa de praia de Galveston. Após ligar o arcondicionado, foi até a cozinha tomar um bom copo de água.
Apesar do verão, a praia onde ficava localizada a casa estava deserta. Havia
poucas casas na redondeza e a maioria pertencia a casais idosos que não costumavam
vir naquela época do ano. Marion gostava da tranqüilidade do local.
Depois de beber o copo de água, foi direto para o quarto esperando que um
bom sono a fizesse sentir menos infeliz.
Em meio ao sono pesado, ouviu um barulhão que não sabia dizer o que era.
Abriu os olhos e esperou um pouco. Então, ouviu de novo. Desta vez, não havia
dúvidas: alguém estava esmurrando a porta.
Xingando, virou-se na cama e procurou o relógio que estava no criado-mudo.
Seis horas! Não podia acreditar! Levantou-se o mais rápido que pôde e apanhou no
guarda-roupa um robe que lhe cobrisse o corpo nu. Não podia imaginar quem estaria
batendo na porta, pois Susan não diria onde ela se encontrava, a não ser que fosse
muito importante.
Mais uma vez ouviu esmurrarem a porta violentamente. Correu até lá, mas
perguntou antes, hesitando em abrir:
— Quem é?
— É Tucker. Abra a porta!
Ele parecia aflito, tentando girar a maçaneta.
“Tucker?” Marion abriu a porta, intrigada, e ele entrou na sala como um rojão.
— Você perdeu a cabeça?
84

Marion nunca vira Tucker Hammond tão furioso. O que ela havia feito? Sem
dar a ela a mínima chance de dizer alguma coisa, ele continuou:
— Que falta de responsabilidade! Não esperava nunca isto de você!
Indignada com o tom sarcástico e petulante da voz dele, Marion perdeu a
paciência.
— Olhe aqui, Tucker, se não parar de falar comigo desse jeito, vou ser
obrigada a pedir para você sair.
Pareciam dois galos de briga se defrontando. Tucker, porém, conhecendo
Marion muito bem, sabia que ela estava falando sério e resolveu acalmar-se.
— Desculpe, estou muito nervoso.
— Aceito suas desculpas. Agora faça-me o favor de dizer o que está fazendo
aqui e por que está tão exaltado. E sem gritaria, por favor, minha cabeça está
estourando.
Tucker sentou-se no sofá e tirou um cachimbo do bolso do paletó. Marion
sentou-se em uma cadeira em frente a ele e esperou. Ele acendeu o cachimbo, deu
algumas baforadas e, por fim, falou:
— Por que não foi à reunião de hoje? Tínhamos marcado um encontro com os
banqueiros para assinarmos o contrato para a produção do show de televisão. Você se
esqueceu? Não posso acreditar que você, simplesmente, resolveu não aparecer! Você
me pôs numa situação dificílima. Nem sequer mandou um recado!
Meu Deus, como ela podia ter se esquecido? Tucker tinha toda razão de estar
furioso. E o que iria dizer? Não tinha nenhuma desculpa para lhe dar! Não fosse a sua
obsessão por Andrew, aquilo não teria acontecido.
Tucker, que não despregara os olhos dela, observou o desespero estampado em
seu rosto e as lágrimas que rolaram silenciosas pelas faces dela, incapaz de proferir
uma palavra. Por fim ouviu-lhe a voz embargada:
— Desculpe... desculpe-me. Sei que não vai acreditar, mas esqueci-me
completamente da reunião.
Com muita paciência, Tucker tirou um lenço do bolso e o entregou a ela.
— Como você pode ter se esquecido de uma coisa tão importante para nós

dois? Você está doente? Ou aconteceu alguma coisa que fez com que você viesse para
cá se esconder do mundo? Acho que mereço uma explicação.
— Aconteceram muitas coisas... que me deixaram muito nervosa. Não foi só
uma... foram várias, entre elas um... problema entre mim e Morgana.
— Pelo amor de Deus, Marion! Pare de tratar Morgana como um bebezinho! Já
é hora de cortar o cordão umbilical e deixar que ela se vire sozinha. Toda vez que ela
lhe pede um favor... ela lhe pediu um favor, não foi?
Marion confirmou com um gesto de cabeça.
— Bem, acho que desta vez o egoísmo dela arruinou sua vida. Arruinar sua
vida não arruinou, só estragou um de seus planos mais preciosos.
— O que... o que eles disseram, quando eu não apareci?
— Que estão pensando seriamente em dar o programa para aquela artista de
cinema que esteve competindo com você desde o começo.
— Não! Eles não podem fazer isto comigo! Não depois de ter trabalhado tanto
para consegui-lo. Eu já estava contando com o programa. E tudo por culpa minha!
— Vamos, Marion, não fique tão nervosa. Acalme-se.
— Como pude fazer uma coisa dessas? Oh, Tucker, não posso perder tudo
agora! Não há nada que eu possa fazer para remediar a situação?
— No momento, não. Você está totalmente “queimada”.
— Tem certeza? Não pode me arranjar uma outra reunião?
— Isso está fora de cogitação. Mas estive pensando numa coisa, enquanto
vinha para cá.
— O que é, Tucker? Quem sabe dá certo.
— Dois dos banqueiros não foram tão categóricos em condená-la. Acho que
poderia convencê-los a irem conhecer suas academias. Quem sabe assim eles se
convencem do que perderiam se descartassem você. É uma oportunidade única, pois
os outros dois banqueiros vão sair de férias por alguns dias. Preciso falar com eles
neste fim de semana, se você concordar.
— Concordar? Farei tudo o que você mandar.
— É um tiro no escuro, não sei se vai dar certo.
86

— Acha... acha que eles poderiam reconsiderar?
— Honestamente, não sei. Só sei que, por duas semanas, não vão decidir nada.
Se o plano falhar, talvez encontremos outra maneira de pressioná-los.
— Oh, Tucker, como posso lhe agradecer?
— Não me agradeça. Não consegui nada, ainda.
Marion massageou os músculos tensos do pescoço,
— Bem, vou ao escritório na segunda-feira, providenciar os preparativos para a
visita dos banqueiros.
Tucker levantou-se e caminhou até a porta.
— Então, entro em contato com você na segunda.
— Tucker...
Ele parou e virou-se para ela, as sobrancelhas levantadas.
— Quero que saiba que, aconteça o que acontecer, sou muito grata a você.
— Acho desnecessário repetir que faria qualquer coisa por você, Marion. E
você sabe disso.
Sem olhar para trás, ele abriu a porta e saiu.
Três dias após a visita de Tucker, Marion resolveu voltar a Houston. O
domingo ainda não chegara, mas concluiu que de nada adiantaria ficar em Galveston.
Não conseguia comer nem dormir, ou pensar em outra coisa que não fosse Andrew
Cobertt. Quanto ao programa de televisão, sentia mais culpa que vontade de lutar por
ele. Voltar para Houston e enterrar-se no trabalho significava não deixar que o amor
que sentia por aquele homem a destruísse totalmente.
Só por educação Andrew Corbett não explodiu quando alguém bateu à porta de
seu consultório, insistentemente.
— Entre, por favor.
Rodney Cantrell, o médico-chefe do hospital, que também era um grande
amigo, entrou preocupado na sala.
— O que é que há, Andrew? Há uma semana que observo seu desânimo.

Andrew desviou o olhar para a janela.
— Problemas, Rodney, problemas...
— Há alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?
— Infelizmente, não. Do jeito que estou, ninguém pode.
Rodney examinou os papéis esparramados sobre a mesa.
— Problemas pessoais ou de trabalho?
— Ambos. E não adianta ficar tentando adivinhar.
Passando os dedos pelos cabelos grisalhos e, depois, coçando o queixo,
Rodney ofereceu-se:
— Bom, quanto ao trabalho posso lhe dar uma mão, mas quanto aos problemas
pessoais... eu seria um cego conduzindo outro cego.
— O que você quer dizer com isto? Você e Janet sempre se deram bem.
— É, mas ultimamente ela resolveu ressentir-se por eu me dedicar tanto ao
trabalho. Diz que eu sou casado com o hospital e não com ela.
— Quem me dera ter um problema tão fácil para resolver!
— É Marion, de novo?
Não havia nada que Rodney desejasse tanto, para o amigo, quanto vê-lo
encontrar a felicidade com aquela mulher, pela qual Andrew parecia loucamente
apaixonado. Depois de uma esposa tão egoísta e insensível quanto Kathy, achava que
ele merecia ser feliz.
— É, você acertou, é Marion.
— Ela não quer casar com você. É isto?
— Acho que ela não se casaria comigo nem que eu fosse o último homem da
face da Terra. É uma longa história e eu não vou incomodar você com detalhes. É um
problema que eu tenho que superar sozinho.
— Bem, estarei à disposição se você precisar de alguém para conversar. Mas,
se você quer um conselho de alguém mais velho, como eu, não desista, se realmente a
ama.
— Vou pensar.
Rodney deu-lhe um sorriso confiante e dirigiu-se para a porta. Antes de fechá88

la, porém, lembrou-se de perguntar.
— Ah, qual é o outro problema? Algum paciente? Posso ajudar de alguma
forma?
— Por enquanto não, quem sabe mais tarde. É Wanda Adams, um dos casos
mais sérios. Tem uma operação marcada para a semana que vem e tenho algumas
chapas para estudar.
— Se precisar de mim é só avisar.
— Obrigado, Rodney... por tudo.
— Amigo é para essas coisas.
Andrew ficou observando o tráfego pela janela do consultório. Uma
ambulância acabara de entrar. Antes de Rodney aparecer no consultório, estava
pensando em encerrar o expediente. Sentia-se um trapo. Estava terrivelmente sozinho
e precisava de Marion. Depois de tudo que havia acontecido, ele ainda alimentava a
esperança de que ela viesse a amá-lo um dia.
Não podia conceber a vida sem ela. Enquanto não esgotasse todas as tentativas,
não iria desistir do sonho de tê-la a seu lado.
Marion estava trancando a porta da casa da praia, quando levou um susto
imenso. O que Andrew estaria fazendo lá? Com o coração batendo descompassado ao
vê-lo sair do carro e caminhar em sua direção, pensou que ia desmaiar.
No pé da escada, Andrew hesitou por um breve momento, uma profunda
tristeza espelhada nos olhos cinzentos.
— Podemos conversar?
Engolindo em seco a angústia que lhe oprimia a garganta, Marion abriu a porta
e o convidou a entrar. Estava extremamente confusa. Se ele a havia procurado, era
porque estava disposto a perdoá-la, mas ela não podia trair Morgana.
— Eu a avisei de que não desistiria.
— Como você se atreve a vir até aqui para me dizer isso, depois de tudo que
me fez?
Andrew sentiu-se profundamente magoado com a reação dela. Tinha tanta

esperança de que ela estivesse sofrendo como ele! Depois atinou para o disparate que
ela estava dizendo.
— Como “depois de tudo o que fiz”?
— Por sua causa, eu perdi a chance de obter o show de televisão! Era a coisa
mais importante do mundo para mim!
Marion tinha consciência de que estava usando Andrew como bode expiatório
para seus próprios fracassos. Sabia que uma coisa nada tinha a ver com a outra, mas
não conseguia parar de acreditar naquela história ridícula. Começou a soluçar,
tomada pelo desespero.
Andrew não sabia o que fazer, vendo-a naquele estado.
— Por que você está jogando a culpa em cima de mim? Não tenho nada a ver
com isso.
— Lógico que tem! Se não tivéssemos passado a noite juntos nada disso teria
acontecido.
Andrew ficou furioso e respondeu com sarcasmo:
— Pelo que me consta, você não parecia estar comigo contra a vontade.
Foi a gota d'água para Marion, que não pôde conter os soluços:
— Oh, Andrew... você não vê? Toda vez que nos encontramos só nos
magoamos!
Andrew cobriu a distância que os separava e a alojou em seus braços.
— Marion, querida, você é quem não entende que eu quero ser magoado por
você.
— Por que... por que está dizendo isto?
— Pela simples razão que eu a amo.
— Oh, Andrew, o que vamos fazer?

CAPÍTULO X

90

Andrew estreitou Marion nos braços e acariciou-lhe a orelha com os lábios.
— Sabe o que quero fazer? — disse, num sussurro.
— O quê? — indagou ela, estremecendo ao sentir a respiração quente dele
roçar-lhe o pescoço.
Andrew afastou-se um pouco e fitou-lhe o rosto abrasado.
— Quero levá-la para a cama. Você vai me impedir?!
Torturada pelo calor que lhe corria nas veias, Marion não teve calma para
pensar em nada. Tê-lo dentro dela, rendendo-se à delícia e aos prazeres do amor, era
seu único desejo.
— Você sabe que não.
Foram para o quarto e ele a observava, imaginando as carícias que trocariam a
seguir. Ela retirou a colcha da cama, dobrou-a cuidadosamente e a colocou sobre uma
cadeira. Depois fechou as cortinas e o aposento ficou mais aconchegante, à meia-luz.
Enquanto Andrew caminhava lentamente em direção a ela, os olhos devorando
as curvas de seu corpo perfeito, Marion permaneceu imóvel, esperando por ele, com
um sorriso nos lábios e um olhar meigo e brilhante. A calça jeans marcava-lhe as
curvas dos quadris e os cabelos escuros caíam-lhe soltos nos ombros. Debaixo da
camiseta, o sutiã guardava os seios redondos, cujos bicos enrijecidos transpareciam
no tecido claro e fino.
Parado na frente dela, Andrew acariciou-lhe uma das sobrancelhas com as
pontas dos dedos, depois o queixo, depois os lábios, antes de sobrepor os seus aos
dela. Marion correspondeu à intensidade daquele beijo, sem medo nem inibição, e
então, colados um no outro, num abraço apertado, disseram com os lábios e a língua
o quanto se queriam.
Sem pressa, Andrew afastou-se um pouco e começou a tirar a roupa dela bem
devagar, abaixando-se para afagar-lhe a cintura. Depois abriu o zíper do jeans e
lentamente abaixou-lhe a calça e a calcinha, enquanto Marion apoiava-se docemente
em seus ombros. Em seguida tirou-lhe a blusa e o sutiã. Os seios firmes e redondos e

os bicos marrom-rosados libertos palpitavam de ansiedade.
— Eu a quero tanto... — disse com voz rouca. — Meu desejo só não é maior
que...
— Por favor... — Marion o interrompeu com um dedo em seus lábios. — Não
diga nada agora... só sinta.
Acariciando-lhe os lábios com a língua, ela estendeu a mão e alcançou-lhe a
fivela do cinto. A partir de então, foi apenas uma questão de segundos para que ele se
mostrasse nu diante dela. Belo e orgulhoso, como um deus grego.
Sem nunca se cansar de admirá-lo, Marion ergueu a mão e mergulhou-a nos
pêlos escuros e sedosos que cobriam-lhe o peito, percorrendo com o olhar o corpo
másculo, desde os ombros largos e os braços musculosos até o contorno másculo dos
quadris. Foi então que viu, salientando-se no triângulo escuro, a intensidade do desejo
dele.
— Oh, Marion! — ele gemeu quase fora de si. — O jeito como você me olha...
Sobre os lençóis limpos e perfumados, deitaram-se lado a lado. Não podiam
pensar em outra coisa, a não ser em viver intensamente aqueles momentos. Não
sabiam se haveria o amanhã.
Com a ponta da língua, Andrew começou a provocar o bico de um dos seios de
Marion, enquanto ela gemia e jogava a cabeça de um lado para outro. Depois, passou
ao outro, sem pressa nenhuma. Quando terminou, as pontas marrom-avermelhadas
estavam brilhantes, retesadas, mais tentadoras ainda.
Mas ele não parou por aí. Beijou-lhe o corpo inteiro. O ventre liso, os quadris,
as pernas, a parte interna das coxas... Depois, voltou aos seios de novo, percorrendo
cada milímetro deles com a língua.
Marion estava a ponto de gritar, atormentada por tanto prazer. Nunca fora
acariciada de forma tão maravilhosa, nem poderia imaginar que fosse possível sentir
tanto gozo.
Antes que não pudesse mais controlar o desejo, sentou-se ao lado dele e passou
a retribuir-lhe as carícias.
Correu os dedos pelo tórax largo e coberto de pêlos e começou a afagar-lhe o
92

corpo inteiro, primeiro só com as mãos, depois também com a língua. Ouviu-o gemer
quando levou a boca até os mamilos dele e o provocou. Em seguida, saboreou-lhe a
pele do ventre, para depois dedicar-se ao ponto mais sensível do seu corpo.
Quase à beira do orgasmo, Andrew a interrompeu e colocou-a por cima dele.
— Não posso esperar mais, meu amor — a voz saía-lhe rouca e quente, os
olhos brilhavam. — Quero entrar em você.
Sabendo que também não conseguiria mais se conter, Marion passou as pernas
em volta de seus quadris másculos e o trouxe inteirinho para dentro de si, movendose bem devagarinho, depois acelerando, até que, num ultimo gemido rouco, seu corpo
estremeceu, junto com o dele.
Marion descansou o corpo sobre o de Andrew, por um momento, e depois
virou-se, rolando-o consigo, para depois encará-lo, fitando-o nos olhos. Ele não
resistiu:
— Eu te amo — murmurou, sério.
Marion fechou os olhos.
— Eu também te amo.
Depois disso, não disseram mais nada. Adormeceram felizes.
Marion acordou no meio da noite nos braços de Andrew, que dormia com um
sorriso infantil nos lábios. O relógio no criado-mudo marcava nove horas da noite.
Continuou a olhar para ele, tentando enfrentar o sentimento de culpa que ameaçava
destruir sua felicidade. Não, não estava pronta para desistir dele. Não naquele
momento. Ainda faltavam algumas horas para o dia seguinte. Pensando assim,
adormeceu novamente.
Acordou um pouco depois, com Andrew acariciando-lhe levemente os seios, e
abriu os olhos, ouvindo-o dizer:
— Eles são lindos!
— Fico contente que você goste deles.
Andrew apoiou-se nos cotovelos e a beijou apaixonadamente. Depois beliscoulhe as nádegas e levantou-se, dizendo num tom brincalhão, antes de sair correndo

para o banheiro:
— O último a tomar banho vai ter que fazer o jantar.
— Assim não vale! — Marion gritou, correndo atrás dele. — Você não falou
“um, dois, três”! Além disso, você corre mais que eu. Não é justo!
Quando o alcançou, Andrew já entrava debaixo do chuveiro, sorrindo e
olhando de modo provocante, para os seios dela, que balançavam.
— Por que demorou tanto, querida?
Marion parou com as mãos na cintura.
— Ora, seu... seu...
— Nada de conversa fiada! — ele a interrompeu, o indicador em riste e
balançando perto do nariz dela. — Tome um banho e vá já para a cozinha.
Como ela tentasse dar-lhe um tapa, ele a pegou pelas mãos e a puxou
rapidamente para debaixo do chuveiro.
Riram como duas crianças, enquanto a água corria pelas faces dos dois.
Era a primeira vez que Marion tomava um banho acompanhada. Nos quinze
anos em que estivera casada, Elliot nunca a encorajara a dividir o chuveiro com ele.
Quanto tempo perdido!
— Ei, acorde, bela adormecida! — Andrew exclamou, percebendo que ela
estava no mundo da lua, e começou a ensaboar-lhe o pescoço.
Graciosamente, Marion enlaçou-o pela cintura e fitou-o com tanta paixão que
voltou a despertar-lhe o desejo.
Enquanto se beijavam, a água escorria-lhe pelas faces e cabelos.
Andrew passou a ensaboar-lhe as costas, para depois descer até as nádegas, e
em seguida abaixou-se e começou a lavar-lhe os pés, fingindo não notar o riso
excitado dela, enquanto acariciava o espaço entre os dedos.
— Pare de espernear e me deixe terminar!
— Não posso. Faz cócegas.
— Então, vamos tentar em outro lugar em que não sinta tantas cócegas.
Enquanto as mãos de Andrew passeavam pelo seu corpo, Marion contorcia-se
de prazer, não demorando muito para que seu quadril começasse a mover-se
94

ritmadamente.
Percebendo o estado em que ela se encontrava, Andrew emitiu um gemido
rouco e abaixou-se. Marion enterrou as unhas nas costas dele, não podendo mais
conter um grito de prazer: ele massageava delicadamente o ponto mais sensível de
seu corpo!
— Andrew... — pediu, agonizante. — Quero você... agora.
Com muito jeito, ele satisfez-lhe o desejo, entreabrindo-lhe as pernas e a
sentando sobre as suas. Com Marion quase fora de si, ele levantou-se, as pernas dela
em volta dos seus quadris, e apoiou-a contra os ladrilhos, a água rolando sobre os
corpos que se moviam ao ritmo do prazer.
Marion sentiu-se como se estivesse flutuando, quando uma sensação gloriosa
invadiu-lhe o corpo, espasmo seguido de espasmo. Andrew acompanhou-a, sentindo
o mesmo êxtase.
Como uma boneca de pano, pendendo sobre os ombros dele, Andrew carregoua até a cama, deitando-a sobre os lençóis desfeitos, e começou a enxugá-la,
carinhosamente, com uma toalha felpuda.
Depois de tê-la secado, sentou-se na cama ao lado dela e abraçou-a por um
instante.
Sorriram um para o outro e então Marion perguntou, quebrando a magia do
instante:
— O que você quer comer?
— Você.
— Vamos, fale sério.
— Estou falando sério.
— Andrew!
— Está bem. Eu a perdôo desta vez. Mas só se mantiver sua palavra e preparar
um jantar bem gostoso para nós.
— Isso não é justo, mas vou mesmo assim. É só desta vez, não vá ficar
acostumado.
Andrew permaneceu deitado, ouvindo o barulho de louças e panelas na

cozinha. Imaginou como seria bom passar a vida inteira com Marion a seu lado.
Depois desse dia, tinha certeza de que conseguiria convencê-la a esquecer a culpa que
sentia em relação à irmã e a aceitar seu pedido de casamento.
— Está precisando de ajuda? — ele perguntou, depois de um momento de
silêncio na cozinha.
— Não, obrigada. Quero que você descanse.
Enquanto grelhava um bife, Marion tinha os pensamentos voltados para
Andrew, procurando não se deixar influenciar pelo sentimento de culpa que
ameaçava invadi-la. Sabia que teria de enfrentar o remorso, mais cedo ou mais tarde,
mas naquela noite queria viver cada minuto de felicidade.
Despertou desses pensamentos, com Andrew abraçando sua cintura e
sussurrando-lhe ao ouvido:
— O quarto ficou tão solitário sem você... Humm, que cheiro bom...
— A essa altura, acho que até óleo de rícino cheiraria bem, não é verdade?
Andrew começou a beijar-lhe o pescoço e a apertar-lhe a cintura. Marion
tentou continuar cozinhando, mas em vão. Enfim, conseguiu alcançar uma concha e
ameaçá-lo.
— Se quer ficar na cozinha, comece a trabalhar. Pode cortar os tomates e lavar
as verduras.
Andrew pegou um pano de prato, colocou-o no braço e curvou-se,
solenemente.
— Como a senhora quiser, madame.
Conversaram animadamente, enquanto preparavam o jantar, e continuaram
assim durante toda a refeição, devorada com muito apetite. Evitaram, porém, falar
sobre o programa de televisão e... Morgana.
Depois de arrumarem a cozinha, os olhos de Marion começaram a querer
fechar e Andrew, percebendo o cansaço dela, ordenou:
— Já para a cama, princesa!
Antes que ela pudesse dizer uma palavra, pegou-a no colo e a levou para o
quarto. Nos braços um do outro, adormeceram sorrindo.
96

Marion acordou com o nascer do sol. A primeira coisa que fez foi olhar para o
lado. Andrew dormia como um bebê.
Lágrimas brotaram-lhe nos olhos quando lembrou-se de que precisava voltar
para casa, para a realidade, para o trabalho. O sonho havia acabado.
Andrew mexeu-se, reclamando sua atenção e ela ficou observando a respiração
dele, pelo movimento do peito peludo. De repente, sentindo o desejo despontar
violento, ao calor do corpo dele, resolveu acordá-lo de uma maneira muito especial...
Erguendo-se um pouco, sentou-se em cima dele, tendo, antes, o cuidado de
unir os dois corpos. Depois afagou-lhe os pêlos do peito, inclinou-se o máximo que
pôde e murmurou:
— Bom dia, querido.
Andrew abriu os olhos, estonteado por sensações indizíveis, e um gemido
rouco subiu-lhe à garganta. Maravilhado com a iniciativa dela, em vez de responder,
afagou-lhe os seios, apaixonadamente, ao mesmo tempo que procurava aprofundar-se
mais dentro dela.
Mas, então, a deliciosa surpresa aumentou, pois Marion começou a
movimentar-se vagarosamente.
— Case-se comigo — ele disse, arquejante.
— Você sabe que não posso.
— Eu lhe imploro!
— Não faça assim, Andrew, não agora.
— Mas eu te amo...
— Eu também amo você, mas...
— Mas o quê? Diga para mim, Marion!
Ela continuava a mover o quadril. Mal podiam falar.
— Então, prometa que vai pensar no assunto.
— Eu... eu prometo.
— Oh, Marion, se soubesse o que está fazendo comigo, movendo-se deste
jeito. Estou quase... explodindo!

— Você não quer?
— Só quando você estiver pronta.
— Mas... estou... pronta, Andrew. Agora... agora!
Andrew ficou parado, encostado no batente da porta do banheiro, observando
Marion dar os últimos retoques na maquilagem.
— Você... você estava falando sério quando disse aquilo? — perguntou.
Marion quis fingir que não sabia do que ele estava falando, e ficou em silêncio.
Embora tivesse dito aquelas palavras num momento de paixão, sabia exatamente o
que estava fazendo. Só que não podia sustentar aquilo agora.
— Marion, você sabe a que estou me referindo, não sabe?
Ela continuou sem dizer nada, mas as lágrimas em seus olhos expressavam a
dor que sentia.
Andrew suspirou fundo e sugeriu:
— Se eu lhe der mais um tempo e não forçar as coisas, você vai continuar
pensando no assunto? Venceremos todos os obstáculos se ficarmos juntos. Sei que
podemos.
— Andrew... eu... — ela balbuciou, mas não conseguiu continuar.
As palavras dele eram tão sinceras que a deixaram sem ação.
Andrew, por sua vez, percebeu que já havia dito o bastante e concluiu que
agora era dar tempo ao tempo. No entanto, ela continuava com uma expressão de
tristeza e ele, temendo que ela tomasse uma decisão precipitada, resolveu ajudar o
destino.
— Não. Não diga nada agora. Falaremos sobre isto mais tarde. Agora tenho
outra coisa em mente. Uma idéia maluca... não sei se você vai aceitar.
— Você e suas idéias... O que é?
— Um dia no parque de diversões. O que acha?
— Você deve estar brincando... Fala sério mesmo? Não acha que está um
pouco grandinho para ficar andando de carrossel?
Andrew riu, depois explicou:
98

— Trata-se de um parque moderno, você vai gostar.
— Mas eu estava planejando voltar hoje para trabalhar.
— Eu também, mas mudei de idéia. Afinal de contas, ninguém trabalha em fins
de semana.
— Realmente. Acho que merecemos mais um dia de descanso. Está bem, eu
topo!
Era muito cedo para ir ao parque e portanto resolveram tomar um café
reforçado, para repor as energias depois das atividades matutinas.
Conversaram sem parar, tentando esquecer que logo retornariam ao mundo real
e às decisões que precisavam tomar. Especialmente uma decisão que poderia mudar,
totalmente, o curso de suas vidas.
Quando Marion tomou o último gole de café, não pôde acreditar que estava
pensando seriamente na proposta de Andrew. Mas era o que fazia. Porque, naquele
momento, não estava disposta a abrir mão dele para ninguém... nem mesmo para
Morgana.
Notando que ela estava novamente imersa em pensamentos, Andrew levantoulhe o queixo, delicadamente, e disse:
— Você está fazendo isso de novo.
— O que... o que estou fazendo de novo?
— Fechando-se em si e me deixando do lado de fora.
— Oh, bem... eu... Esqueça isso, vamos embora. Vamos nos divertir!
No parque de diversões, eles se comportaram como duas crianças em
liberdade, longe da vigilância dos pais. Andaram de montanha-russa, navegaram no
túnel do amor, fingiram medo na casa do terror, comeram pipoca e amendoim,
lambuzaram-se com algodão-doce, maçã do amor e outras guloseimas.
No fim da tarde, ao comprarem outra vez ingressos para a roda-gigante,
Andrew passou os braços nos ombros de Marion e, trazendo-a para bem perto,
perguntou:
— Está cansada, moça?

— Nem um pouco. E você?
— Também não, mas acho que precisaremos ir embora depois da roda-gigante.
Parece que vai chover.
— Andrew! Não há uma nuvenzinha no céu!
Percebendo o sorriso cheio de segundas intenções, Marion insinuou uma das
mãos por debaixo da camisa dele.
— Humm — ele murmurou. — Se continuar com isso, pode esquecer a rodagigante. Arrasto você para casa, rasgo suas roupas e faço amor até me implorar que
pare.
— Bem, até que eu gostaria de andar de roda-gigante, mas não queria apanhar
chuva...
— Então, o que estamos fazendo aqui? Vamos embora!
Voltando para casa, no carro de Andrew, mal podiam esperar até que
chegassem, de tanta ansiedade. Marion mantinha uma das mãos sobre a perna
musculosa dele e só não o acariciava para não distraí-lo da direção. Além do mais, o
short não disfarçava o estado em que ele se encontrava.
Haviam acabado de abrir a porta, quando o telefone tocou. Marion correu e foi
atender.
— Alô?
Uma voz feminina entrecortada de soluços respondeu do outro lado da linha.
Era Morgana.
— Que bom que eu a encontrei, Marion! Passei o dia inteirinho tentando entrar
em contato com você.
— O que... o que aconteceu?
— Oh, Marion, estou tão nervosa...
— Tente se acalmar, Morgana. Assim não consigo entender o que você está
dizendo.
— Deu tudo errado! A viagem a Paris foi um desastre! Fui substituída por uma
modelo novata, que não sabia nem dizer qual era o pé direito e qual o esquerdo. E eu
não consigo encontrar Andrew! Estou precisando tanto dele...
100

Marion sentiu o estômago se contorcer. Morgana continuou:
— Você, por acaso, sabe onde ele está?

CAPÍTULO XI

Sem saber o que fazer, Marion fechou os olhos para afastar o desespero. A irmã
aguardava uma resposta, do outro lado da linha. E pensar que ela e Andrew tinham
voltado para casa para fazer amor... Precisava dizer alguma coisa, logo.
— Marion, está me ouvindo?
Olhando para Andrew, que estava visivelmente contrariado, Marion respondeu:
— Como vou saber, Morgana se... nem o conheço... direito?
— Eu sei que não faz sentido perguntar isto para você. Mas já o procurei por
todos os cantos e ninguém sabe o paradeiro dele. Sinto-me tão desamparada... Queria
tanto agradecer as rosas que ele me mandou em Paris...
Rosas! Andrew havia enviado rosas para Morgana! Não podia ser! Marion
ficou tão confusa que não sabia mais o que falava.
— Onde está Jay?
— Jay? Não me fale de Jay. Não quero vê-lo nem pintado de ouro. Ele não me
entende. Tivemos uma briga horrível e eu disse a ele que ia procurar um outro
empresário.
— Puxa, Morgana! Como você pode dizer uma coisa dessas, depois de tudo o
que ele fez por você?
— Depois de tudo que fez por mim... Ah! Mas não quero falar de Jay agora.
Quero Andrew!
Marion ficou muda enquanto ecoava em seu ouvido o jeito egoísta, de criança
mimada, com que Morgana havia dito: “Quero Andrew!” Depois entrou em pânico ao

ouvi-la continuar:
— Se eu não conseguir encontrá-lo vou descer até aí para ver você.
— Não! Quero dizer... Não vai ser necessário, porque eu estava planejando
voltar para Houston, hoje. Por que não vai ao meu apartamento, lá pelas oito horas?
Nesse momento, Andrew tentou interromper o telefonema, mas Marion não lhe
deu ouvidos. Ele não se conformava em vê-la deixar-se dominar pelo sentimento de
culpa em relação à irmã.
— Pensando bem, se eu não conseguir encontrá-lo, acho que prefiro curtir a
solidão na cama — Morgana continuou. — Em todo o caso, se eu não aparecer esta
noite, vejo você amanhã. Podemos almoçar juntas.
— Tem certeza de que estará bem?
— Não se preocupe, não vou cometer nenhuma loucura.
— Então, até hoje à noite, ou amanhã, Morgana.
Marion desligou o telefone e sentou-se no sofá, de cabeça baixa. Não queria
encarar Andrew, pensando nas rosas que ele havia enviado para a irmã. Que jogo
sórdido ele pensou que estaria fazendo com as duas?! Era provável que estivesse
mentindo, descaradamente, quando dizia que a amava e queria se casar com ela.
Quem lhe garantia que não havia dito a mesma coisa a Morgana? Ainda assim, havia
a possibilidade de ele estar sendo sincero, e de amá-la, verdadeiramente. Mas havia
Morgana nessa história... e a irmã precisava muito mais dele do que ela.
Andrew sentou-se ao lado dela no sofá, muito sério.
— Temos que conversar — ele disse com firmeza! “Temos que conversar!”,
pensou Marion. “Você quer dizer, tenho que levar você na conversa de novo.”
— Não temos nada para conversar — ela retrucou.
— Marion, ouça. Não vou deixar você fugir outra vez. Se não colocar um
ponto final nessa história ridícula, eu mesmo o farei.
— O que está dizendo?
— Você ouviu muito bem.
— Se você se atrever a dizer uma palavra a Morgana sobre nós dois, eu... eu...
eu nunca vou perdoá-lo.
102

— Com o tempo você vai mudar de idéia.
— Está redondamente enganado, Andrew. Você não me conhece!
Ouvindo isso ele perdeu a paciência e levantou-se do sofá, exasperado.
— Você sabe que a situação é absurda! Não tenho culpa se Morgana está
apaixonada por mim. É um entusiasmo passageiro, ela é incapaz de amar outra pessoa
a não ser a si mesma. E você sabe muito bem que eu não a amo!
— Eu sei... que você... não a ama — retrucou e quase perguntou: “Mas, então,
por que mandou flores para ela?” Em vez disso, declarou: — Mas o fato não muda
nada.
— Como não muda nada? Este é o ponto mais importante! Só falta você me
pedir para casar com ela para não magoar sua irmãzinha. Está sendo incoerente,
Marion. Isso não faz o menor sentido!
— Por favor, Andrew... Não adianta nada ficarmos discutindo. Como
poderíamos construir nossa felicidade à custa da infelicidade de Morgana?
— Sabe de uma coisa? Acho que você está usando sua irmã como desculpa. Na
realidade, você só está interessada em sua ascensão profissional e agora eu me tornei
um empecilho.
— Você sabe que não é verdade.
— Então, prove! Case-se comigo.
— Eu... não posso! Nem agora... nem, talvez, nunca. Você está me encostando
na parede. Pare com isso e deixe-me em paz, por favor.
Mais um longo silêncio instalou-se na sala. Embora tenso, Andrew tentou
refletir com frieza. Teria que engolir aquilo mais uma vez, se não quisesse perder
Marion. Precisava dar-lhe mais um tempo. Finalmente, esforçando-se por parecer
seguro, falou com voz controlada:
— Se quiser chegar em Houston antes das oito, é melhor irmos agora.
— Tem razão — Marion concordou, constrangida.
— É melhor nos apressarmos.
Ela o encarou, mas ele desviou o olhar.
— Vou levar a bagagem para o carro, enquanto você fecha a casa.

Quando Andrew saiu da sala, Marion deixou correrem lágrimas amargas e
silenciosas.
Marion passou os últimos dias do verão mergulhada na mais completa
atividade profissional. Entregou-se de corpo e alma ao trabalho, dedicando todas as
horas do dia e da noite aos seus diversos projetos.
Alguns dias depois que voltara de Galveston, conforme prometera, Tucker
levara os banqueiros para uma visita às academias. Apesar do incidente anterior, eles
a trataram com toda a consideração e ela, após acompanhá-los na visita, oferecera, a
cada um deles, um exemplar autografado de seu livro, que ocupava o primeiro lugar
da lista dos mais vendidos, na ocasião.
Depois disso, começara a pesquisar o material para seu próximo livro,
enquanto aguardava os resultados de uma reunião decisiva que tivera com Tucker e
os banqueiros, e continuava com suas aulas na academia. Entregou-se a essa frenética
atividade, e muitas vezes, às três da madrugada, ela ainda estava acordada, lendo e
fazendo anotações.
Entretanto, mesmo em meio a tanto trabalho, Marion ainda encontrara tempo
para ver Morgana, o que só a deixara mais deprimida e frustrada. A culpa que sentia,
por tê-la traído, corroía-lhe a alma.
Para piorar mais a situação, Morgana persistia na idéia da plástica e os
conselhos de Marion de nada adiantavam. Desde que voltara da Europa, abalada com
o fracasso profissional, ela não falava em outra coisa além de Andrew, é claro.
— Andrew tem sido tão paciente e compreensivo comigo ... — ela dizia. —
Embora não o veja muito, ainda me considero a mulher mais feliz do mundo por tê-lo
conhecido. Vive me mandando flores...
Toda vez que Morgana tocava no nome dele, Marion não conseguia deixar de
se sentir dividida entre a culpa e o ciúme. Embora a irmã não confessasse, ela estava
certa de que eles andavam se encontrando fora do consultório. Se com isso ele
tentava forçá-la a tomar uma decisão, provocando seu ciúme, estava quase
conseguindo.
104

Não havia um único dia em que ela não relembrasse os momentos
maravilhosos que passaram em Galveston. O corpo estremecia de desejo só em
pensar no modo selvagem e apaixonado de se amarem. E todas as vezes que lembrava
disto sentia os seios enrijecerem e as coxas em brasa, fazendo-a duvidar que poderia
passar mais um dia longe dele.
Uma noite, depois de horas de um treinamento exaustivo com os novos
professores, Marion encontrava-se sozinha na academia onde ficava seu escritório.
Todos já haviam saído, Susan estava de férias e ela não estava muito deprimida,
apenas um pouco cansada. Sentia-se tão bem que resolveu fazer alguns exercícios
antes de tomar um banho reconfortante e ir para casa. Parada no centro do salão
espelhado ergueu os braços para o alto, alongou os músculos do corpo e começou a
movimentar os quadris e as pernas, acompanhando o ritmo suave da música que
tocava.
Enquanto isso, um homem que caminhava pelo corredor que levava ao salão de
exercícios deteve-se em frente à porta, paralisado de emoção diante de seus
movimentos graciosos e cadenciados. Podia ver, através do collant de ginástica
listrado de roxo e amarelo, cada curva daquele corpo escultural e das pernas bem
torneadas protegidas por meias amarelas e polainas roxas. Os movimentos circulares
que ela fazia com o quadril eram perfeitos.
Pressentindo que havia mais alguém ali, Marion sentiu um arrepio na nuca e o
coração acelerado. Devia ter trancado a porta, logo após a aula. O medo era tanto que
não se atrevia a olhar para trás.
— Marion! — chamou uma voz masculina atrás dela.
Reconhecendo a entonação conhecida, ela começou a tremer de cima a baixo,
pressionando a palma úmida das mãos contra as coxas, mal podendo manter-se em
pé,
Andrew aproximou-se dela, falou bem junto à sua nuca, a voz rouca e
carinhosa desarmando-lhe as defesas:
— Senti sua falta, Marion.
Ela se arrepiou toda quando sentiu o hálito quente de Andrew acariciar-lhe a

pele sensível da nuca. Engoliu em seco e voltou-se devagar, olhando-o nos olhos.
— Também eu a sua — murmurou, sentindo um desejo intenso de aninhar-se
em seus braços.
Andrew fechou os olhos e, por um momento, afastou-se dela, passando os
dedos pelos cabelos. Queria demais abraçá-la e beijá-la, mas aquele não era um local
apropriado. Alguém poderia aparecer e não ficaria bem para ela.
— Vamos sair? — falou com a voz permeada pela incerteza.
— Bem... talvez — Marion respondeu meio decepcionada. — O que você
sugere?
— Se ainda não jantou, podemos ir a um restaurante.
— Por que não?
— Que acha de irmos a um restaurante mexicano? Ou está muito quente para
esse tipo de comida?
— É, está um pouco quente, mas adoro comida mexicana. Não me importaria
com isso. E você?
— Também não. Vamos direto ou você precisa passar em casa antes?
— Podemos ir direto daqui. Só preciso tomar um banho antes.
— Muito bem, eu espero.
Marion apressou-se o quanto pôde. Não queria fazê-lo esperar um segundo
além do necessário, nem desperdiçar um momento sequer que pudesse ficar com ele.
Não pretendia dormir tarde, pois no dia seguinte viajaria para Nova York para a
divulgação dos seus livros.
Secando os cabelos, rapidamente, vestiu uma camiseta justa, listrada de
vermelho e branco, e uma calça vermelha. Passou um pouco de maquilagem no rosto
e calçou sandálias de couro brancas. Estava pronta.
Os olhos de Andrew expressaram sua aprovação enquanto caminhavam até o
carro dele em silêncio. Antes de dar a partida, ele acariciou-lhe o braço e a fitou
longamente. Então, como em câmara lenta, puxou-a ternamente para junto dele.
— Eu preciso muito de você — murmurou, beijando-a carinhosamente, como
se tivesse nas mãos um objeto frágil. Mas, quando ele entreabriu os lábios, a
106

delicadeza cedeu lugar à paixão.
— Marion! — ele gemeu, afastando-se um pouco para poder respirar. — Se
não pararmos com isto, agora mesmo, não estarei em condições de sair deste carro e
entrar num restaurante.
Marion sorriu, docemente, para ele.
— Bem, neste caso, é melhor irmos andando. Além do mais, estou morrendo
de fome.
Alguns minutos depois estacionavam em frente a um casarão antigo, que fora
reformado para abrigar o simpático restaurante La Hacienda.
Logo que se acomodaram, Marion admirou, pela janela, o vasto jardim que
rodeava a casa. A noite estava muito clara e a lua cheia iluminava o gramado.
— Que lugar agradável! — exclamou.
— É o meu local preferido.
Andrew fez o pedido ao garçom, que aguardava ao lado, e assim que ficaram a
sós pegou a mão dela e perguntou, gentilmente:
— Marion Stevens, você se lembra de mim, de vez em quando?
— O tempo todo, se você quer saber.
— Gostaria de poder acreditar.
— Pois lhe asseguro que é verdade.
— Oh, Marion...
A partir daí conversaram sobre os mais variados assuntos, sem saber que
atraíam a atenção de um homem sentado a uma mesa próxima, de onde só ele podia
observá-los. O desconhecido não tirava os olhos deles, por um instante sequer,
concluindo, pelos gestos e olhares, que aqueles dois eram muito mais que simples
amigos. Então, sua curiosidade transformou-se em ira e desejo de vingança.
Esquecidos do mundo e, sem perceberem que estavam sendo observados,
Andrew e Marion existiam apenas um para o outro.
— Tem certeza de que não quer mais nada, querida? — Andrew acariciava-lhe
um dos braços e lançava olhares cheios de desejos.
— Não, obrigada. Estou satisfeita — Marion respondeu embaraçada, os bicos

dos seios retesados e o pescoço e o peito enrubescidos.
— Então, vamos embora. Vou pedir a conta.
Logo que Andrew trancou a porta de sua casa, abraçaram-se apaixonadamente,
por um longo tempo, antes que ele a levasse para o quarto. Na cama e, em meio a
gemidos, carinhos, beijos e abraços desesperados, livraram-se das roupas e deixaram
aflorar toda a paixão que sentiam um pelo outro.
Mais tarde, com Marion aninhada no peito dele, Andrew comentou, com a voz
embargada:
— Amo você, Marion. Se soubesse o medo que tive que tudo estivesse acabado
entre nós... Esperei um telefonema, o toque da campainha e, quando nada disso
aconteceu, eu não sabia o que fazer.
— Não foi só você, Andrew. Eu também não consegui tirá-lo da cabeça o
tempo todo.
— Case-se comigo, Marion. Amanhã.
Marion tocou-lhe o rosto emocionada.
— Sim e não.
Andrew piscou duas vezes, sem entender.
Marion continuou:
— Vou me casar com você. Só que não amanhã.
— Oh, Marion, pelo amor de Deus! Pare de brincar comigo.
— Andrew, meu amor, não é nada do que você está imaginando. É que amanhã
vou para Nova York, trabalhar na promoção do meu livro. Estava tencionando dizerlhe isto esta noite.
Andrew tomou-a nos braços e quase a sufocou com os beijos ardentes,
deixando-a tonta de desejo.
— Amo você, Marion, mais do que a própria vida.
— Eu também te amo, Andrew. Eu te amo!
Desta vez poderiam fazer amor sem pressa. O compromisso já estava selado.
Foi a noite de amor mais doce ao mesmo tempo a mais erótica que haviam tido.
108

Um pouco antes do romper da aurora, Marion acordou Andrew, acariciando-lhe
as costas com as mãos macias.
— Andrew, temos que conversar. E é melhor que seja agora, antes de eu ir para
casa fazer as malas.
— Eu sei o que a preocupa, não precisa me dizer. É sobre Morgana, não é?
Os lábios de Marion tremiam, ao responder-lhe.
— Temos... temos que contar a ela.
Andrew apertou-lhe a mão, para transmitir segurança.
— Vamos fazer isto, os dois.
— Oh, Andrew precisamos ir com cuidado. Ela está passando por uma fase
difícil.
— Por que protege tanto Morgana, Marion?
— A vida dela não tem sido um mar de rosas como todo mundo julga. Você
pode achá-la egoísta e ambiciosa... e, talvez, seja mesmo. Mas ela trabalhou duro para
chegar onde está. E não tem ninguém além de mim...
— Mas você também! E nem por isso é egoísta.
— Sim, mas não tive um marido bruto e violento, como Morgana. Pense na
desilusão de ser o saco de pancadas do homem que ama. Pouquíssimas pessoas
sabiam disso, pois ele era esperto o suficiente para não bater no rosto dela. Certa vez,
ele quase fraturou uma costela dela.
Os olhos de Marion encheram-se de lágrimas.
— Agora entendo. — Andrew baixou os olhos constrangido. — Se tivesse uma
irmã com os mesmos problemas, acho que me sentiria da mesma forma. Com a
diferença que, sendo homem, daria uma surra num canalha desses.
— É por isso que não posso suportar a idéia de fazê-la sofrer mais. Ela está
cansada de decepções.
— Não se preocupe, Marion, encontraremos as palavras. Por favor, entenda.
— Só se você me prometer que vai fazê-lo assim que voltar de viagem.
— Está bem. Prometo. É só por uma semana.

CAPÍTULO XII

Andrew estava entretido nos papéis espalhados sobre a mesa de seu
consultório, quando o interfone tocou.
— Qual é o problema, Débora? — atendeu contrariado. — Espero que você
não tenha se esquecido de que pedi para não ser incomodado, a não ser em caso de
urgência.
Houve um breve silêncio. Em seguida, a enfermeira falou:
— Tomei a liberdade de pedir um sanduíche e uma xícara de café para o
senhor, dr. Corbett.
— Mas eu disse que não queria...
— Por favor, doutor, não fique tão bravo. O senhor precisa comer alguma
coisa.
Agora, ele já havia perdido o fio da meada. Suspirou, resignado.
— Está bem. Pode trazer.
Andrew espreguiçou-se e foi até a janela, massageando os músculos do
pescoço. Estava exausto, mas isto não era desculpa para implicar com Débora, ou
qualquer outro funcionário.
Os últimos três dias haviam sido um verdadeiro tormento, sem Marion por
perto. Apesar de terem conversado por telefone, nas duas noites anteriores, não se
sentia satisfeito. Temia deixá-la muito tempo sozinha e ela se arrepender do
compromisso que haviam assumido.
Para piorar as coisas, tinha duas operações delicadas, marcadas para a semana
seguinte. Esta era a razão pela qual não queria ser incomodado. Havia chegado ao
hospital às quatro horas da manhã para trabalhar e, até aquela hora, não conseguira
fazer nem um terço do que planejara.
110

Um leve bater na porta despertou-o de seus pensamentos.
— Entre, por favor.
Débora Menter entrou com o lanche, colocando a bandeja em cima da mesa.
Era uma mulher esbelta, nos seus cinqüenta anos, que com seu sorriso amável e
inteligente havia se tornado uma segunda mãe para ele.
— Sei que não gostou de ser interrompido, doutor, mas um dia vai me
agradecer. Se ficar doente, aí é que não vai poder trabalhar mesmo — comentou, em
pé ao lado da mesa, com os braços cruzados, quase que intimando-o a comer.
— Sabe, Débora, às vezes você não só me lembra minha mãe como também
um sargento.
— Pode dizer o que quiser, contanto que coma.
Andrew deu uma mordida no sanduíche e, depois, tomou um gole de café,
rindo da audácia dela.
— Não tem medo de mim? Os outros funcionários me evitam, no corredor,
quando estou mal-humorado.
Débora revirou os olhos e olhou para o alto, debochando dele, e disse em tom
de brincadeira:
— Morro de medo. Vivo tremendo, não vê? — ela riu. — Bem, agora que está
de estômago cheio, vou deixá-lo trabalhar. Prometo não interromper mais.
— Vou me lembrar da promessa.
Meia hora depois, quando Andrew estava começando a encontrar o fio da
meada do trabalho interrompido, escutou conversas na recepção. Tentou ignorar o
barulho e concentrar-se, mas as vozes foram se alterando, transformando-se em
completa gritaria. Irritado, levantou-se da mesa para ver o que era e colocar um fim
na discussão. Mas não chegou ao meio da sala e a porta abriu, abruptamente.
Fora de si, lívida de raiva, Débora tentava bloquear a passagem, quando foi,
literalmente, empurrada e uma mulher alta e loira entrou furiosa na sala. Andrew
arregalou os olhos ao reconhecer Morgana.
— Desculpe, dr. Corbett — Débora dizia nervosa. — Esta mulher insistia em
entrar, dizendo que...

— Não preciso que você fale por mim! — Morgana gritou, com arrogância.
Débora inchou o peito e fez menção de enfrentá-la, mas Andrew resolveu
interferir.
— Não tem importância, Débora. Pode deixar.
Uma vez sozinhos, Morgana despejou sua ira.
— Como você se atreve a fazer isso comigo? — Andrew permaneceu em
silêncio, achando um absurdo o que ela estava dizendo. — Vamos, responda! —
Morgana levantou ainda mais a voz.
— Calma, Morgana, abaixe a voz. Não sei por que você está fazendo esse
escândalo, mas podemos conversar.
— Não vou me acalmar e nem abaixar a voz! Não sou uma criança, que você
pode enganar com mentiras. O que você fez, não se perdoa. Seu... seu canalha!
Totalmente fora de si, Morgana ergueu a mão para dar-lhe um tapa no rosto,
mas Andrew, percebendo a intenção dela, segurou-lhe o braço.
— Eu não faria isso, se fosse você.
Morgana puxou o braço, furiosa.
— Não se atreva a tocar em mim! — gritou, histérica. — Seu canalha!
Nunca Andrew sentira tanta vontade de tapar a boca de alguém, como naquele
instante. Tinha a certeza de que todos nos consultórios adjacentes estavam ouvindo
aqueles gritos. Tinha que tirá-la dali. Dentro em pouco, os pacientes chegariam e ele
não permitiria que presenciassem aquele escândalo. Controlando-se, ao máximo,
tentou explicar:
— Escute, em meia hora começarão a chegar os meus pacientes. Podemos
aproveitar esse tempo para conversar, está bem? Só que não aqui, no consultório.
Vamos sair um pouco.
— Não vou a parte alguma com você! Vai ouvir o que tenho a dizer, aqui e
agora!
Andrew a pegou pelos braços e a sacudiu, furioso.
— Pare com isso!
Sem se deixar intimidar, a única coisa que Morgana fez foi tentar se libertar.
112

Vendo que ela estava decidida a continuar o escândalo, Andrew declarou, com a voz
firme:
— Isto aqui é um hospital e você vai fazer o que eu disse. Entendeu bem?
Morgana ainda continuou a debater-se, sem que Andrew a soltasse, mas por
fim cedeu, vendo que não tinha outra saída.
— Está bem — falou com desprezo. — Vamos embora, então.
Enquanto passavam pela recepção e Andrew avisava Débora que voltaria
dentro em pouco, Morgana seguiu de nariz empinado. Quando ele tentou alcançá-la,
ela já estava longe, correndo para o estacionamento. Estava abrindo a porta do carro
dela quando Andrew conseguiu falar.
— Espere, Morgana. Não posso sair agora.
— Como? Qual é o problema? Está com medo de ser visto em público em
minha companhia?
Pelo tom de escárnio com que ela pronunciava as palavras, ele deveria ter
percebido, logo, o que havia de errado, mas precisou ouvir o resto.
— Ou não quer que minha irmãzinha querida nos veja juntos?
Andrew entrou em pânico. Alguém, além de Marion, devia ter contado a ela. E
agora, o que faria? Marion nunca o perdoaria, se não resolvesse bem aquela situação.
Mas como?
Morgana já havia ligado o carro e tencionava partir, sem ele. Mais que
depressa Andrew entrou no carro e, por um milagre, conseguiu fechar a porta, antes
que ela pisasse no acelerador. Saíram do estacionamento, em alta velocidade, e
entraram no tráfego.
— Morgana, quer parar com isso, antes que mate alguém?!
Sem dar-lhe ouvidos, ela comentou, com cinismo:
— Pensei ter ouvido que você não pudesse sair agora.
— Estava pensando em tomar um café, numa lanchonete ao lado do hospital.
Mas isso não tem importância agora. Preciso falar com você.
— É mesmo? Puxa! Agora que tocou no assunto, talvez eu esteja interessada
em saber que mentira você vai inventar.

Então, entrando em curva numa rua com o carro só em duas rodas, ela freou
abruptamente, parando num local onde era proibido estacionar. Desligando o carro,
virou-se para ele, com raiva:
— Pronto! Estou ouvindo.
— Nós... nós planejávamos contar a você.
— Quando?
— Tão logo Marion voltasse de Nova York.
— Como você pôde me trair dessa maneira? E com minha própria irmã! Eu o
amava, queria me casar com você e pensava que era correspondida.
Furiosa, bateu os punhos na direção.
— Morgana, eu não sabia que você gostava tanto de mim. Eu sempre a tratei
como amiga.
— Isso não é verdade! Você agia como se gostasse de mim!
— E gostava. Mas como amiga, não como amante.
— Eu me recuso a acreditar nisso!
Andrew desviou o assunto com cautela:
— Como você ficou sabendo que eu me encontrava... com Marion?
— Não é da sua conta. O importante é que tenho um relatório completo de
todos os seus encontros íntimos.
— Nós não queríamos que você soubesse por terceiros ou descobrisse por si
própria... Sabe, conheci sua irmã há dois anos e...
— O quê? Que papel de palhaça eu fiz!
Andrew media as palavras, cuidadosamente, sabendo que estava pisando em
terreno perigoso.
— É uma longa história... Não vou aborrecer você com detalhes.
— Faço questão de saber.
— Quando nos conhecemos, embora estivéssemos apaixonados, não pudemos
nos casar... eu não era um homem livre. Depois de dois anos, reencontrei-a naquela
noite em sua casa e, como ainda a amava, quis me casar com ela. Mas Marion não
aceitou. Lutou contra mim e contra os próprios sentimentos, porque não queria
114

magoar você.
— Não me venha com sentimentalismos.
O medo de que Marion se deixasse influenciar pela irmã, caso ela não
entendesse os fatos, o fez continuar.
— Só há três dias ela aceitou a proposta que fiz.
Morgana começou a chorar. Era mágoa, raiva e humilhação, ao mesmo tempo.
— Casar com você?
— Sinto muito...
— Sente muito?! Isto é tudo o que você tem a dizer, depois de me fazer de
palhaça e de destruir meus sonhos?
Desorientado, Andrew não sabia mais o que dizer. Só pensava em esganar o
desgraçado que havia contado tudo a ela. Ansioso por consolá-la, pôs uma das mãos
no ombro de Morgana.
No momento em que ele a tocou, Morgana virou-se para ele, os olhos banhados
em lágrimas.
— Deixe-me em paz! — gritou. — Eu odeio você! Está me ouvindo? Odeio
vocês dois!
Morgana deu a partida no carro e acelerou fundo. Tentando proteger-se, para
não bater com a cabeça no vidro da frente, Andrew segurava-se onde podia, e ainda
procurava falar com ela, até que viu surgir à frente uma enorme árvore. Pisando no
chão do carro, como se pudesse frear por ela, ele gritou:
— Vire a direção!
Tarde demais. Os gritos de Morgana e o barulho de vidros quebrados foram as
últimas coisas que pôde ouvir.
Três dias depois de ter chegado a Nova York, Marion começou a odiar aquela
cidade, sentindo-se uma prisioneira, trabalhando como uma louca e longe de Andrew.
Não podia esperar nem mais um minuto para viver ao lado dele para sempre. Estava
certa de que teriam uma vida maravilhosa e sentia-se tão feliz que nem mesmo o fato
de terem ainda que conversar com Morgana abalava sua alegria.

Ao descer do táxi, em frente ao estúdio de televisão, o seu empresário, Henry
Basham, já a aguardava.
— Bom dia — ela cumprimentou jovialmente. — Espero não estar atrasada.
— Não, está no horário. Eu é que estou adiantado — Henry deu dois passos
para trás e a observou dos pés à cabeça. — Você está maravilhosa, Marion.
Ajeitando o decote ousado do macacão de seda vermelha, que usava
acompanhado de sapatos de salto alto também vermelhos, Marion sorriu,
agradecendo o elogio.
— Você é muito gentil, Henry. Realmente, não sei o que faria, sem você, nestes
últimos dias.
Desde que ela desembarcara do avião, Henry a acompanhara em todos os
momentos, desde as compras e passeios pela cidade até as reuniões com os editores.
Além de ótimo empresário, provara ser um bom amigo.
— Você acha que eu iria desperdiçar a oportunidade de ficar ao lado de uma
mulher bonita como você? — disse Henry, sorrindo e oferecendo-lhe o braço para
entrarem no estúdio. — E, muito menos, perder a chance de fazer parte do programa
de televisão!
Enquanto caminhavam, Marion apoiava-se nos braços dele.
— Estou tão nervosa, Henry. Acho que, se ficar pensando muito nisso, vou
entrar em pânico.
— Bobagem! Pode ficar sossegada, você vai ser um sucesso. Seus livros são
muito admirados.
Enquanto aguardavam o elevador, Marion continuava impaciente.
— Não vejo a hora de encerrar logo essa entrevista e voltar a Houston.
— Sei como você se sente — disse Henry. — Estaria muito mais nervoso que
você se estivesse às vésperas do casamento.
Entraram no elevador e subiram em silêncio. Depois, enquanto caminhavam
pelo corredor que ia dar no estúdio onde a entrevista seria gravada, ele perguntou, um
pouco apreensivo:
— Mas você não vai parar de escrever depois que se casar, não é?
116

— Bem, não conversamos ainda sobre este assunto, mas Andrew sabe o quanto
a carreira significa para mim e eu não creio que ele faça objeções.
— Isso já me dá um certo alívio. Bem... chegamos! Está preparada?
— Estou. Vamos em frente!
Marion nunca imaginou que pudesse se sentir tão bem em uma entrevista. Toda
a equipe foi extremamente simpática com ela, deixando-a inteiramente à vontade.
Enquanto uma moça retirava-lhe o microfone da roupa, Henry veio ter com ela,
ofegante, demonstrando muita preocupação. Pressentindo algum problema, Marion
sobressaltou-se.
— O que houve? Você está branco como cera.
— É um telefonema urgente para você.
— Você sabe do que se trata?
— Não, mas sinto que as notícias não são boas.
Suspeitando que havia acontecido alguma coisa com Andrew, Marion correu
até o telefone.
— Alô?
— Marion, é você? Fale mais alto. Não estou escutando bem.
— Susan! O que aconteceu? Diga logo!
— Marion... — Susan começou, depois de um instante de silêncio. — Detesto
ter que lhe dar esta notícia... mas Morgana sofreu um acidente de carro... e está
passando muito mal.
Petrificada com a notícia, Marion mal conseguia parar de pé.
— Ela estava sozinha? Alguém mais estava com ela? ?
— Parece que sim, mas desconheço maiores detalhes, acabei de chegar ao
hospital. Tudo o que sei é que Morgana foi ao consultório de um tal dr. Corbett e fez
um escândalo lá. Desconheço os motivos. Depois saíram no carro dela e... acabaram
batendo numa árvore. O médico está bem, mas Morgana... é muito cedo ainda para se
ter um diagnóstico.
— Não!
Andrew e Morgana, juntos num acidente? Sentia-se culpada e tinha vontade de

morrer.
— Marion... por favor — Susan continuava do outro lado da linha —, venha
depressa para cá. Morgana precisa de você.
— Eu... eu vou pegar o primeiro avião.
Assim que colocou o fone no gancho, enterrou as faces entre as mãos,
soluçando desesperadamente.
Susan e Marion encontraram-se na sala de espera do aeroporto de Houston.
Deixando a bagagem no chão, Marion beijou o rosto da amiga e perguntou, as faces
banhadas em lágrimas:
— Como está ela?
— O pior já passou. Ela permanece inconsciente, mas os sinais vitais estão
preservados.
Caminharam em silêncio até o carro de Susan e puseram-se a caminho do
hospital. Passado um tempo, Marion perguntou:
— E... e o médico?
— Parece que não se machucou muito. Só alguns cortes, mas nada grave.
Pegando um lenço da bolsa, Marion enxugou as lágrimas. Estava contente por
saber que Andrew estava bem, mas ao mesmo tempo sentia uma imensa culpa por
Morgana.
— Foi tudo culpa minha! Tudo culpa minha!
— Como assim, Marion? Foi um acidente!
— Você não sabe, mas, no fundo, fui eu a responsável por esta desgraça.
— Marion! Não sei do que você está falando, mas tenho certeza de que você
não tem nada a ver com isso.
— Como você soube do acidente?
— Telefonaram do hospital. Chegando lá, a primeira providência que tomei,
depois de me inteirar do estado dela, foi procurar você em Nova York. Não pude vêla, naturalmente, mas conversei com o empresário dela, Jay Johnson. Por falar nisto,
ele estava desolado. Foi ele quem me informou do estado do dr. Corbett.
118

— Puxa, Susan, o que faria sem você?
— Por que não encosta a cabeça no banco e descansa um pouco? Estaremos lá
em quinze minutos.
Quando Susan estacionou em frente ao hospital, Marion inclinou-se para a
amiga e deu-lhe um abraço apertado.
— Muito obrigada por tudo, Susan.
— Tem certeza de que não quer que eu fique?
— Tenho, obrigada. Ligo para você mais tarde.
Não demorou muito para alcançar a recepção da unidade de terapia intensiva.
Como Andrew estava bem, sua única preocupação era Morgana. Falaria com ele
depois.
Estava extremamente nervosa. Temia ter chegado tarde demais. Foi com o
coração na mão que se dirigiu à enfermeira.
— Sou Marion Stevens, irmã de Morgana Grimes. Queria saber sobre o estado
dela.
— Sinto muito, o médico responsável não está no momento, mas depois irá
atendê-la. Não quer se sentar?
Os olhos de Marion encheram-se de lágrimas.
— Posso vê-la, por favor?
A enfermeira levou-a até o quarto. As pernas de Marion tremiam enquanto
seguia pelo corredor. Quando viu a irmã, inerte na cama, abafou um grito de horror.
Morgana estava coberta de ataduras e, se não fosse pelo movimento do peito,
seria difícil acreditar que ela ainda respirava.
Marion sentou-se ao lado da cama e chorou silenciosamente, por um longo
tempo, e ficou ali até sentir alguém tocar-lhe levemente os ombros. Era Jay Johnson,
que pediu-lhe para acompanhá-lo até a sala de espera.
Seguiram em silêncio pelo corredor. Então, para sua surpresa, Jay sentou-se ao
lado dela e começou a soluçar. Marion pousou uma das mãos nas costas dele,
procurando consolá-lo, e ele desabafou:
— Oh, Marion! Fui eu o causador de tudo isso.

Sentindo o sangue congelar-lhe as veias, Marion o encarou.
— Como assim? O que aconteceu?
Jay tentava conter os soluços.
— Eu não sabia que ela ia ter uma reação tão violenta, quando lhe contei que
tinha visto você com o dr. Corbett no restaurante. Queria vingar-me dela por ter me
trocado por ele. Estava louco de ciúme, queria tê-la de volta. Você sabe que sempre a
amei. Mas ela... se descontrolou e foi direto ao consultório dele para atacá-lo. E quase
matou os dois. Oh, Marion, nunca vou me perdoar por isso!
Abalada, Marion a princípio não conseguiu dizer uma palavra. Depois, com
raiva dele, levantou-se.
— Se você ama tanto minha irmã, como diz, então pare de ter pena de si
mesmo. Ambos somos culpados pelo estado em que ela se encontra, mas agora ela
não precisa de nossa fraqueza, precisa de nossa força!
— Você... você vai me perdoar algum dia?
— Não sei, realmente não sei.
Seguiu-se um momento de pesado silêncio entre eles. Depois Marion falou de
novo:
— Se você vai ficar com ela, gostaria de poder ir para casa tomar um banho e
trocar de roupa.
— Pode ir, eu fico aqui.
— Ligue para mim, se houver qualquer novidade.
— Está bem.
Em casa, Marion andava de um lado para outro, impaciente. Nunca se sentira
tão amedrontada; aquele havia sido o dia mais terrível de sua vida. Não havia nada
que pudesse fazer para ajudar Morgana, só o tempo podia decidir as coisas.
Pensando em aproveitar todos os minutos para ficar com a irmã, foi até o
quarto pegar a bolsa e voltar ao hospital.
Mal havia acabado de acender a luz, quando a campainha soou. Só podia ser
Andrew.
120

Pegando a bolsa, apagou a luz e foi atender a porta. No caminho, jogou-a sobre
o sofá da sala. Estava num estado de choque tão grande que nem sabia como iria
reagir na presença dele.
Finalmente, abriu a porta e ficou parada, olhando para ele, certificando-se de
que ele estava bem. Teve vontade de se atirar em seus braços e pedir-lhe que não a
deixasse ir, mas não o fez. A irmã gêmea, uma extensão de si mesma, encontrava-se
no hospital, com risco de vida, por causa do amor que sentia por aquele homem. Não
podia se esquecer disto.
Se ela se conteve, Andrew agiu de modo diferente. Passando pela soleira da
porta, abraçou-lhe o corpo trêmulo, como se tivesse medo de perdê-la.
— Marion! Sei como deve estar se sentindo, mas estou aqui para enfrentarmos
essa tragédia juntos.
Marion aninhou-se no peito dele, em busca de proteção. Quando ele a beijou,
sentiu as pernas moles, a mente parou de funcionar, o tempo parou de passar. Queria
ficar para sempre ali, envolta nos braços dele, sorvendo a doçura dos lábios dele.
Mas as coisas não poderiam ser mais tão simples - assim. A culpa e a vergonha
corroíam-lhe a alma. Desprendendo-se dos lábios dele, começou a debater-se para
livrar-se do abraço.
— Oh, Andrew... não podemos... não devemos...
Tomado de desespero, Andrew não resistiu e afastou-se dela, os olhos toldados
pela dor.
— Não me deixe agora, Marion! Precisamos estar juntos. Eu a amo demais
para viver sem você.
— Eu sei... Mas não podemos. Não vê que o único sentimento que tenho é de
culpa... e medo... e vergonha?
Lágrimas sentidas rolaram-lhe pelas faces.
— Meu Deus, Marion, e como acha que me sinto? Tentei falar com Morgana
da melhor maneira que pude, mas ela não me ouvia... Sei que ficará boa, você vai ver.
Antes de vir para cá, falei com o médico responsável pelo caso dela e ele me disse
que ela está começando a reagir. A enfermeira tem certeza de que a viu tentar abrir os

olhos. Ela vai se restabelecer, acredite.
— Se não acreditasse nisso, não conseguiria viver nem mais um dia.
— Deixe-me ajudar você. Não me abandone do lado de fora.
— Por favor, Andrew... dê-me um pouco mais de tempo. Preciso ficar sozinha.
— Não, Marion, vamos enfrentar juntos.
— Talvez... talvez, depois de Morgana se recuperar, eu tenha calma para pensar
em nós dois e... tomar uma... decisão.
— Não vou aceitar isto, Marion. Chega de usar Morgana como desculpa para
não assumir nosso relacionamento.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala.
— Como... como você pode dizer uma coisa dessas, com Morgana no hospital,
correndo risco de vida, por nossa causa?
— Isso não é verdade, não temos tanta culpa. Ninguém é tão poderoso que
possa controlar os atos e os pensamentos de outra pessoa. Além disso, como
poderíamos adivinhar que alguém iria contar tudo a ela?
— Foi... foi Jay Johnson, o empresário dela. Ele nos viu no restaurante
mexicano. Ele... ele sempre amou minha irmã e viu, em nós, uma chance de vingar-se
dela, por tê-lo magoado. — Marion começou a soluçar. — Você não vê? Nosso amor
só traz destruição!
— Não! Você nunca vai me convencer de que é errado nos amarmos! Nunca!
— Andrew... por favor... pare. Está complicando as coisas.
— Nós iríamos ter esta conversa mesmo que o acidente não tivesse ocorrido.
Eu não queria admitir mas, na verdade, Marion, você tem medo. Medo de confiar em
mim, medo de envolver-se em nosso relacionamento ou em qualquer outro. Você tem
medo de viver! — Fez uma pausa e, como ela não dissesse nada, prosseguiu:
— Também cheguei à conclusão de que você só se importa com sua
independência e sua carreira.
Desesperada, Marion tentou retrucar, mas as palavras ficaram estranguladas em
sua garganta. Tomada pelo pânico, começou a pensar se Andrew não teria razão.
Havia sido um fracasso como esposa e tinha medo de repetir o erro. Mas isto não
122

significava que não o amava. Apenas precisava de tempo para resolver seus
problemas.
Tomando o silêncio dela como resposta, Andrew concluiu, arrasado:
— Está bem, Marion, você venceu. Não vou mais incomodá-la. Finalmente,
conseguiu me convencer de que nosso relacionamento não tem futuro.
Cabisbaixo, caminhou até a porta e se foi, deixando Marion sozinha,
mergulhada na dor e no desespero.

CAPÍTULO XIII

A música vibrava nas paredes da academia, enquanto Marion ensaiava, mais
uma vez, o novo número de jazz. Pretendia trabalhá-lo bem, antes de introduzi-lo nas
aulas dos alunos adiantados. A concentração e o barulho a impediram de ouvir
alguém chamá-la pelo nome.
Só quando a música parou é que notou a presença de mais alguém no salão.
Enxugando o suor com uma toalha, caminhou até lá.
— Tucker! O que faz por aqui a esta hora? Aconteceu alguma coisa?
Tucker a examinou preocupado.
— Você tem se olhado no espelho, ultimamente?
— Por quê?
— Você está abatida!
— Obrigada. Você é encorajador.
— Desculpe, não quis ofendê-la, mas alguém tinha que lhe dizer isto. Estou
preocupado com você. Parece que, desde que Morgana recuperou a consciência, você
só pensa em trabalhar. Emagreceu, os olhos estão fundos...
— Tucker! Quer parar com isso? Não posso acreditar que veio até aqui só para

me dizer que estou horrorosa e trabalhando muito.
Por um momento, ele ficou desconsertado, mas depois voltou ao assunto.
— Você esteve doente?
Marion estava quase perdendo a paciência.
— Estive. Peguei uma gripe. Satisfeito, agora?
— Só se você estiver me contando a verdade.
— Por que iria mentir? Foi apenas uma gripe passageira.
— Você foi ao médico?
— O que é isso, Tucker? Um interrogatório? Se não disser logo por que veio
aqui, vou para casa jantar e me enfiar na cama.
Num gesto carinhoso, Tucker acariciou-lhe o queixo.
— Vim por um motivo muito especial mas, depois que a vi tão magrinha,
fiquei preocupado.
Tucker continuava a acariciar-lhe o rosto e ela começou a ficar irritada.
— Você sabe o que sinto por você, Marion... Case-se comigo.
— Por favor, Tucker, não estou disposta...
— Eu sei, não está disposta a conversar sobre isso agora e eu entendo. Mas
espero que não demore muito para me dar uma resposta. Talvez o que tenho a lhe
dizer a ajude a tomar uma decisão.
— Tucker, isto tudo não faz sentido.
O que ela queria, de fato, é que ele fosse embora e a deixasse em paz. Mas o
que aconteceu foi bem diferente: Tucker a tomou nos braços e começou a dançar com
ela, às gargalhadas.
Marion ficou pasmada. Nunca o havia visto comportar-se daquela maneira.
Aquilo não combinava nada com a sua personalidade. Tentando acompanhar os
passos desajeitados dele, perguntou:
— Que bicho o mordeu, Tucker? Ganhou na loteria?
Com os olhos brilhando de alegria, ele parou de dançar e respondeu:
— Não, mas quase. Consegui o contrato para o programa de televisão.
Marion sentiu uma mistura de surpresa e gratidão, mas não empolgação: aquela
124

vitória serviria apenas como mais um paliativo para afastar a saudade intensa de
Andrew. Mas não podia deixar que Tucker percebesse isso. Devia muito a ele para
decepcioná-lo.
Fingindo entusiasmo, deu-lhe um abraço apertado.
— Não posso acreditar! Como conseguiu convencê-los de que eu teria mais
audiência que uma artista de cinema?
Sem dar tempo para ele responder, conduziu-o até o escritório e sentou-se,
antes que não conseguisse mais se equilibrar sobre as pernas.
Não estava exausta só por ter dançado duas horas seguidas. Ultimamente,
cansava-se com qualquer coisa. E, também, não vinha se alimentando bem. Só o
cheiro de comida lhe dava enjôo. Talvez fosse melhor consultar um médico, apesar da
certeza que tinha de que ele iria aconselhá-la a trabalhar menos e descansar mais.
Sentando-se na frente dela, Tucker começou a explicar.
— Já lhe disse que, quando quero muito uma coisa, não descanso enquanto não
consigo. É claro que o fato de o seu livro estar na lista dos mais vendidos ajudou
muito.
— Bem, mas, de qualquer maneira, o que você fez foi um verdadeiro milagre.
Ainda custo a acreditar.
— Então trate de ir se acostumando, pois a produção começa em poucas
semanas.
Riram-se os dois. Em seguida, Tucker sugeriu;
— Vamos jantar em algum restaurante especial, para comemorar?
Marion sentiu desapontá-lo, mas só em pensar em comida ficava enjoada.
— Você vai ficar muito chateado se deixar isto para um outro dia?
— Você não se sente bem?
— Realmente, não. Mas acho que se for para casa e tomar um bom banho,
antes de ir para a cama, vou me sentir bem melhor.
Tucker levantou-se e, inclinando-se para ela, deu-lhe um beijo na testa.
— Neste caso, não vou tomar mais seu tempo. Cuide-se bem. Telefono para
você, amanhã, e conversaremos melhor.

— Mais uma vez, obrigada por tudo, Tucker.
Marion fez exatamente o que planejara. No momento em que trancou a porta,
começou a tirar a roupa e foi direto para o banheiro.
Uma vez na banheira, coberta até o pescoço pela água deliciosamente morna e
espumosa, fechou os olhos e entregou-se à dor que a perseguia dia e noite, sem parar.
A vida sem Andrew era como uma carga pesada a ser arrastada. Desde que ele
partira, um mês atrás, levara consigo a sua alma.
Embora dissesse a si mesma que fora melhor assim, sabia que estava se
enganando. A única coisa que a mantinha viva, nas noites de agonia e solidão, era
saber que Morgana caminhava para uma plena recuperação.
Sentindo que a água começava a esfriar, levantou-se e teve que se apoiar no
porta-toalhas para não perder o equilíbrio, atacada por uma forte tontura. Só depois
de respirar fundo várias vezes é que tentou dar um passo. A gripe a enfraquecera
demais. Iria marcar uma consulta com o médico, sem falta.
Às nove horas da manhã seguinte, Marion bateu, levemente, na porta do quarto
de Morgana, tendo nas mãos um buquê de rosas amarelas.
— Entre!
Marion deu um bom-dia à irmã e colocou as flores num jarro sobre o parapeito
da janela, tentando disfarçar o nervosismo que sentia sempre que ia visitar a irmã no
hospital.
Enquanto ela arrumava o jarro, Morgana anunciou, calmamente:
— Precisamos conversar, Marion.
Uma rajada de alegria invadiu-lhe o corpo. Finalmente, teria uma chance de
falar com ela e pedir-lhe perdão. Sentou-se na beira da cama, os olhos rasos d'água.
Olharam-se por um longo tempo, cada uma lutando contra as próprias
inseguranças, até que Morgana, sentando-se na cama, estendeu-lhe os braços
trêmulos.
— Perdão... perdão, Marion.
126

— Não, Morgana, sou eu quem deve lhe pedir perdão.
Sentindo a fragilidade do corpo da irmã em seus braços, Marion decidiu
controlar-se, pois ela não estava em condições de ter tantas emoções. Sorrindo,
afastou-lhe os cabelos da face molhada e a fez descansar a cabeça no travesseiro.
Depois, enxugando as próprias lágrimas com as costas das mãos, disse:
— Eu... eu devia ter lhe contado que...
— Talvez devesse... mas nada no mundo justificaria o que eu fiz.
— Por favor... Morgana. Não é necessário... Não sabe que eu entendo? Sempre
entendi você.
— Tenho que dizer isto, Marion, senão não serei capaz de conviver comigo
mesma. Por causa... do meu egoísmo, quase tirei a vida de uma pessoa!
— Mas, graças a Deus, não aconteceu nada. Tente descansar agora, Morgana,
senão você nunca vai ficar boa.
— Você... você um dia vai me perdoar pelo que fiz a você e Andrew?
Com o rosto coberto de lágrimas, Marion inclinou-se e abraçou a irmã, mais
uma vez.
— Só se me perdoar por ter traído você. Se tivéssemos sido honestas, uma com
a outra, desde o começo, nada disso teria acontecido.
Um sorriso iluminou o rosto pálido de Morgana.
— Que acha de esquecermos o caso e continuarmos nossas vidas como antes?
— Oh, Morgana, estava com tanto medo de que você não me perdoasse...
Aliviada, Marion tirou um lenço da bolsa, para enxugar o rosto. Depois, olhou
para Morgana com certa preocupação.
— Você está sentindo dor?
— Estou, mas não como pode estar pensando. Estou sentindo as dores do
crescimento, aos trinta e três anos. Um dia a gente tem que amadurecer. Mesmo que
Andrew faça um milagre no meu rosto, vou encerrar minha carreira de modelo.
Marion levantou-se e foi até a janela. Depois voltou-se, com o olhar inquieto.
— Não acha que está sendo precipitada?
— Acho que não me expliquei bem. O que devia ter dito é que não quero mais

ser modelo. Em vez disso, vou me casar com Jay.
— Como? Não acredito!
— Você ouviu bem. Jay finalmente convenceu-me a casar com ele. Ele se sente
culpado pelo que aconteceu.
— Eu sei, conversei com ele no dia em que voltei de Nova York. Acho até que
fui um pouco dura com ele, preciso pedir desculpas, na primeira oportunidade.
Depois de uma pausa, Marion perguntou:
— Você o ama?
— Acho que sempre o amei. Parece que todo mundo sabia, menos eu. —
Morgana ficou um longo tempo calada e depois continuou: — Marion, queria que
você soubesse que nunca amei Andrew. Acho que vi nele uma salvação para minha
carreira, pensando que tivesse o poder de devolver-me a juventude.
Morgana fez uma pausa e suspirou.
— Agora posso entender que o amor está acima das coisas materiais da vida.
Parece tão simples e natural e eu precisei de tanto tempo para compreender. Ah, e
quer saber de um fato engraçado? As flores que recebia não eram de Andrew e sim do
meu querido Jay. O que está próximo a gente não vê.
Marion sorriu tristemente. Toda vez que a irmã mencionava o nome de
Andrew, era como passar álcool numa ferida. Saber que ele nunca a havia traído,
mandando flores para Morgana, e que não guardava nenhum rancor, servia apenas
para aumentar-lhe o remorso.
Morgana pareceu adivinhar o que a irmã estava sentindo, pelo longo silêncio
que se instalou no quarto.
— Marion... eu odiaria pensar que você e Andrew se separaram... por minha
causa. Por favor, diga que isto não é verdade.
— Acabou... acabou, mas não foi... por sua causa.
— Então, por que foi?
— Foi... por minha causa — e, dizendo isto, começou a chorar. — Eu não
suportava a idéia de ver em Andrew a mesma decepção que notei durante tantos anos
nos olhos de Stan, porque... porque não podia ter um filho!
128

— Meu Deus, Marion... pensei que você já tivesse superado o problema.
— Eu também ... até que Andrew me fez ver a verdade.
— Tem... tem certeza de que está tudo acabado?
— Certeza absoluta. Se você visse a expressão do rosto dele na última vez que
falou comigo, não duvidaria do que estou dizendo.
— O que você vai fazer?
— Não quero que se preocupe comigo, Morgana. Pense em você e em Jay. Eu
estou bem. Não lhe contei ainda, mas finalmente consegui o programa na televisão,
graças a Tucker. Você pode imaginar o trabalho que me espera.
Morgana não pareceu convencida.
— Isto é maravilhoso, mas...
— A hora da visita terminou, preciso ir. Adoro você, querida, e estou contente
por ter me perdoado.
Marion vestiu-se e saiu de trás do biombo. Até que enfim a consulta terminara.
Depois de vacilar durante uma semana, decidira marcar uma hora e submeter-se a um
exame minucioso com o dr. Anderson. Agora, sentia-se aliviada por ter feito o que
devia e, assim, poder continuar a trabalhar mais sossegada.
O dr. Anderson fez um sinal para que ela se sentasse e em seguida também se
sentou e sorriu.
— Vou dar um puxão de orelha na senhora! — Colocara os óculos e olhou para
Marion com ar de seriedade. — A senhora anda brincando com a saúde. Os exames
irão comprovar, mas seus sintomas são de anemia profunda, e talvez uma infecção
nos rins, o que, no seu estado, não é nada bom.
O médico fez uma pausa e esperou o diagnóstico surtir efeito.
“No meu estado? O que ele está querendo me dizer?”, Marion se perguntou.
— O senhor está querendo me dizer que... eu estou doente?
— Bem, se a senhora considerar gravidez uma doença grave...
Marion teve a impressão de que ia desmaiar. Não podia acreditar no que estava
ouvindo.

— O senhor quer dizer que estou grávida?
— É exatamente o que eu disse.
— Tem certeza? Quer dizer, não pode ter havido um engano?
O médico sorriu, pacientemente.
— Certeza absoluta. Mesmo com a falha menstrual e os enjôos a senhora não
suspeitou de nada?
Suspeitar? Como poderia desconfiar de alguma coisa, quando tinha certeza de
que não podia ter filhos?
— A senhora está se sentindo bem?
— Sim, estou bem, apenas um pouco surpresa.
Percebendo a armadilha que o destino tramara para ela, Marion entrou em
pânico. Levantou-se abruptamente e quis ir embora para um lugar onde pudesse ficar
sozinha para pensar.
Nem soube como chegou ao estacionamento. Mas, no momento em que fechou
a porta do carro, apoiou os braços na direção e, abaixando a cabeça, começou a
chorar. O que iria fazer?
Um bebê! Carne da carne dela. Depois de todo esse tempo! De repente, as
lágrimas transformaram-se em alegria. Era um milagre, um verdadeiro milagre!
Enxugou o rosto e ficou olhando para o ventre, por um longo tempo, antes de colocar
a mão nele e render-se à felicidade que, no fundo, sentia.
Mas, tão de repente quanto chegou, a alegria se foi e deu lugar a angústia.
Estava sozinha. Não havia Andrew para dividir esta responsabilidade com ela. E o
programa de televisão? O que faria com ele? Dentro de algumas semanas
começariam as gravações. Como poderia fazer os exercícios pesados, estando
grávida?
Por um momento, foi tomada pelo desespero. Não conseguia ordenar as idéias.
Lágrimas rolaram-lhe pelas faces, enquanto mantinha-se paralisada como uma
estátua. Precisava, desesperadamente, falar com alguém. Morgana! Sim, Morgana
poderia ajudá-la.

130

Logo que saiu do elevador, no quinto andar do hospital, Marion foi direto ao
banheiro. Não queria que Morgana a visse com os olhos vermelhos.
Começou a retocar a maquilagem, mas logo viu que era inútil tentar esconder
as olheiras profundas que o sofrimento marcara. E ela tinha uma coisa muito mais
importante com que se preocupar. Jogou a maquilagem dentro da bolsa e dirigiu-se ao
quarto de Morgana.
Sem bater, empurrou a porta e entrou, cheia de esperanças. Deparou-se,
entretanto, com a frieza de um par de olhos cinzentos, que a fixaram com hostilidade.
— Co... como vai, Andrew? — foi tudo que ela conseguiu dizer.
Olhando-a com uma expressão de dureza, ele deu-lhe o silêncio como resposta,
e ela não sabia se ficava ou se saía, para voltar depois que ele se fosse.
Morgana foi quem quebrou o silêncio constrangedor que se arrastava entre
eles, rindo nervosamente:
— Oh, Marion, estava acabando de dizer a Andrew que você havia conseguido
o programa de televisão e que logo se tornaria uma artista.
Marion constatou a expressão de desprezo estampada no rosto dele e ouviu-o
dizer:
— Parabéns! Estou contente que finalmente tenha conseguido o que queria.
Os sonhos e esperanças de reconciliação, qual porcelana fina, despedaçaram-se
no chão.
O que ela esperava? Que ele voltasse correndo depois de tudo que fizera e
dissera? Como podia ser tão convencida? Ele não a queria mais, e tinha motivos de
sobra para agir daquela maneira.
Quando Marion tentou falar alguma coisa, ele não estava mais lá. Só ouviu o
bater da porta.
Morgana sentia-se responsável pela situação.
— Meu Deus, o que fui fazer! Desculpe-me, Marion, só tentei ajudar.
— Não tem importância. Ele iria saber. E, mais cedo ou mais tarde, eu teria
que enfrentar essa desilusão. Foi melhor que tenha sido agora.
— Não estou entendendo...

— Alimentei esperanças de que Andrew quisesse voltar para mim. Mas eu
matei o amor que ele tinha por mim. Agora não tem mais jeito.
Minutos depois, tomando o elevador para sair do hospital, Marion fechou os
olhos para controlar uma súbita tontura. “E agora? O que vou fazer?”
Decidiu, mais uma vez, juntar os fragmentos de sua vida e seguir em frente.
Estava tudo acabado entre ela e Andrew... embora o amor dos dois fosse deixar uma
lembrança sempre. Carregava no ventre o filho dele. Já não bastava? Não podia darse por contente?
Foi só no meio do caminho para casa que se lembrou de que não havia contado
a Morgana sobre o bebê.
Segurando com força um copo de uísque na mão, na casa de Marion, Tucker
dizia, furioso:
— Como, não vai fazer o programa? Que diabo você quer dizer com isso?
Mordendo os lábios, ela permaneceu em silêncio. Fazia duas semanas que
estava ensaiando para ter aquela conversa. E não podia adiar mais, pois, do contrário,
Tucker ficaria sabendo por terceiros. Havia contado a Morgana e ela a Jay. Susan
também estava a par. Era obrigação dela falar com Tucker.
Mas como dizer justamente a ele, que queria casar-se com ela, que estava
grávida de um outro homem?
— Tucker, sente-se, por favor.
— Sentar? É a última coisa que penso fazer. Tenho vontade de apertar seu
pescocinho delicado, por ter feito isto comigo.
— Eu... eu posso explicar...
— Explicar! O que quer fazer? Desmoralizar-me? Isto não é brincadeira. Você
vai cumprir o contrato e ponto final!
Marion sentou-se no sofá, os olhos marejados de lágrimas.
— Não posso! Estou grávida, Tucker.
Não moveu um músculo, enquanto esperava a reação dele.
— Mas... mas... como? De quem?
132

— Meu.
— Marion, pare de brincar comigo! Como acha que me sinto? Não sabia que
estava saindo com alguém! E por que não tomou cuidado para não engravidar, já que
tinha um contrato a cumprir?
— É uma longa história e explicá-la não muda os fatos. Desculpe-me, mas não
posso dizer quem é o pai.
— Não está pensando em levar esta gravidez adiante, está?
— Não tiraria esta criança por nada no mundo.
— Quero ser mico de circo, se vou ficar assistindo, de camarote, você destruir
sua carreira e sua vida.
— Tucker, você não percebe que não vai me fazer mudar de idéia?
— Puxa, Marion, depois de tudo que fiz por você... Sabe o que me custou
convencer os banqueiros a mudarem de idéia, depois da primeira que você aprontou?
— Sinto muito, Tucker, sou grata a você pelo tanto que me ajudou, mas não
posso fazer nada para remediar a situação, agora.
— Lógico que pode.
— O que você sugere?
— Pode fazer um aborto.
Por um momento, o choque roubou-lhe a voz. Depois, o sangue ferveu e ela
pulou do sofá, a fúria contorcendo-lhe as feições.
— Não se atreva jamais a repetir uma coisa dessas. Por mim, você pode pegar
este projeto do programa de televisão e fazer o que quiser com ele. Já tolerei os seus
abusos mais do que devia. Agora, saia da minha casa!
Tucker arrependeu-se.
— Oh, Marion, desculpe-me. Por favor, me perdoe. É que eu tinha tantos
planos...
— Oh, Tucker, sinto muito também. Também fiz tantos planos... Mas quero
esta criança, mais que tudo no mundo.
— E o pai, Marion, já contou a ele?
— Meu relacionamento... com o pai da criança terminou.

— Tem certeza? Não vai contar a ele?
— Sim, tenho certeza. E não quero que ele saiba sobre o bebê.
— Então, case-se comigo.
— Você... você se casaria comigo, mesmo sabendo que estou grávida de outro
homem?
— Quero você de qualquer jeito, Marion.
— Oh, Tucker, você é um homem muito bom e não sabe como me sinto mal
por tê-lo magoado... Mas não posso me casar com você. Não seria justo.
— Está bem, se você decidiu assim. Mas estarei sempre a sua espera.
Marion fechou os olhos e permaneceu em silêncio. Depois de algum tempo,
Tucker perguntou:
— O que vai fazer agora?
— Vou continuar escrevendo e supervisionando as academias.
Ele a fitou, por um momento, e disse em seguida:
— Se mudar de idéia, sabe onde me encontrar.
— Sim, eu sei.
Depois que Tucker foi embora, ela ficou parada, pensando no que ele havia
dito. Era uma pena que ela não amasse aquele homem.

CAPÍTULO XIV

Enquanto a brisa fria do outono varria o calor de setembro, o corpo de Marion
começou a desabrochar com os primeiros sinais da maternidade.
Ia diariamente ao escritório na academia, onde Susan cuidava para que ela não
levantasse nada mais pesado que um lápis. E o único exercício que fazia eram as
longas caminhadas, ao entardecer, antes de sentar-se para trabalhar em seu novo livro.
134

Tucker telefonava sempre e tornara-se um amigo constante. Por incrível que
parecesse, conseguira convencer os produtores do programa de televisão a adiar os
trabalhos para após o nascimento do bebê.
Marion, no entanto, não prometera nada. Passava muito tempo com Morgana e
Jay, que haviam se casado três semanas após a irmã deixar o hospital, e a felicidade
do novo casal a ajudava a enfrentar a vida.
Logo após o casamento, Morgana tentara convencê-la a contar a Andrew sobre
a criança, argumentando que, como pai, ele tinha o direito de saber. Mas Marion não
se deixara influenciar.
No decorrer dos dias e das noites, porém, não pudera evitar que a imagem dele
lhe invadisse o coração, forçando-a a relembrar seu sorriso, as mãos carinhosas, a
sensação de estar em seus braços. Eram recordações que deixavam um rastro de vazio
e dor.
As primeiras horas do dia eram sempre as mais difíceis para ela, quando
acordava e se via sozinha na cama imensa. A saudade doía-lhe fundo dentro do peito.
Apenas quando acariciava o ventre cada vez mais volumoso reencontrava a vontade
de viver.
Um dia, durante o banho, sentiu pela primeira vez o nenê se mexer em sua
barriga. A emoção foi tão grande que, junto com ela, veio também um sentimento de
culpa. Naquele momento deu-se conta de que estava roubando de Andrew o direito
àquela alegria. Tinha que contar a ele sobre o bebê.
Trêmula, sentou-se na beirada da banheira, os pensamentos voando. Não tinha
escolha. Mesmo que mais tarde isso significasse ter que lutar pela guarda da criança,
não iria mais esconder a verdade dele.
Decisão tomada, enxugou-se, vestiu o robe e foi para a sala descansar um
pouco no sofá, antes de preparar alguma coisa para comer. Ouvindo passos no
corredor, teve um pressentimento. O coração começou a bater forte. Seria Andrew?
Não, não podia ser. Consultou o relógio. Eram oito horas da noite. A campainha,
então, soou.
Levantou-se, com dificuldade, as pernas tremendo, e olhou pelo olho-mágico.

O pressentimento se confirmou: era ele!
Marion ficou paralisada. Decidir contar-lhe era uma coisa, mas enfrentá-lo, de
repente, sem estar preparada, era outra bem diferente.
Teve vontade de abrir a porta e atirar-se nos braços dele mas, ao olhar para a
barriga, pensou nos motivos daquela visita. Será que já sabia e, por isso, estava ali?
Estaria furioso? Ou estaria disposto a perdoá-la e a propor uma reconciliação?
— Marion, sei que você está aí. Abra a porta.
Ela abriu e ficou parada, matando a saudade do rosto dele, esperando que ele a
tomasse nos braços e dissesse que tudo estava bem, que ele a havia perdoado.
Encararam-se por um momento interminável em que a chama do desejo
parecia arder. Mas então os olhos dele tornaram-se frios e ele passou direto por ela, só
parando no meio da sala para dizer-lhe sarcasticamente:
— Como vai, Marion? Pelo que vejo, você está com uma aparência muito boa.
Desapontada, ela fechou a porta e caminhou em direção a ele. Não deu, porém,
dois passos.
Alguma coisa estava errada. Percebia, pelo tom da voz dele, pela rigidez do
corpo e pelos olhos: ele parecia uma cobra pronta para dar o bote. Quando o viu
aproximar-se, com o rosto marcado pela dor, mágoa e fúria, entrou em pânico. Então
ele levantou um dos braços e, de uma só vez, puxou-lhe o cinto do robe, deixando-a
nua diante de seus olhos.
Andrew ficou petrificado, incapaz de tirar os olhos dos seios volumosos e do
ventre redondo.
— Como você pôde fazer isto comigo? — murmurou, depois de um instante de
silêncio.
— Quem... quem lhe contou?
— Ora, que diferença faz? Isso é tudo o que tem a me dizer?
— Não... eu ia contar a você...
— Quando? Se não o fez até agora, como quer que eu acredite?
Marion suspirou fundo, para não chorar.
— Estava esperando criar coragem, Andrew. Por favor... acredite em mim.
136

— Gostaria... mas não posso.
Num soluço sentido, cortante, ela suplicou:
— Por favor, não me odeie. Não contei a você antes porque tive medo.
— Mas medo de quê?
— Eu pensei que não pudesse ter filhos. Meu... marido nunca se conformou
com o fato de eu ser estéril. Eu sabia que você queria muito ter outra criança e eu não
suportava a idéia de vê-lo desapontado... ou de ver seu amor transformar-se em ódio
— a voz tornou-se quase um murmúrio, enquanto as lágrimas rolavam-lhe pelas
faces. — E... quando descobri que estava grávida, eu... tive medo de que... você
quisesse a criança... mas não a mim.
Abaixando a cabeça, começou a chorar amargamente. De nada adiantava ter
falado tudo aquilo. Ele nunca iria perdoá-la.
Andrew envolveu-a em seus braços, apertando-a com força contra o peito
largo.
— Oh, Marion, como pôde pensar uma coisa dessas? Não sabe que, se não
tivéssemos filhos, isso não iria mudar o amor que sinto por você? — Erguendo-lhe o
queixo, fitou-a nos olhos, carinhosamente. — Eu te amo tanto... tanto... tanto...
Marion chorava de emoção, alegria, remorso.
— Desculpe-me... desculpe-me, Andrew, por fazê-lo sofrer tão inutilmente. Eu
te amo. Eu te amo...
— Agora chega de lágrimas, querida, estamos juntos de novo.
— Meu amor...
Os lábios se encontraram, famintos, e o desejo voltou a arder entre eles.
Sorviam, um da boca do outro, avidamente.
Para poder respirar, Andrew afastou os lábios e disse:
— Oh, Marion, sinto um desejo imenso de fazer amor, agora mesmo. Não sei
se devemos...
— Não há o que temer, está tudo bem, querido. Eu também quero.
Num movimento rápido, ele tirou-lhe o robe, deixando-a nua. Depois, livrou-se
de suas próprias roupas e ali mesmo, no sofá, seus corpos se uniram, numa explosão

de prazer.
— Então, é este o seu quarto! — Andrew disse, rindo maliciosamente.
Marion riu também e o provocou, brincalhona:
— Se você tivesse se interessado por ele, não levaria tanto tempo para
conhecê-lo.
Descansando, depois do amor, na cama de casal, Marion estava radiante.
Nunca se sentira tão feliz.
Andrew inclinou-se e com a língua fez um círculo em volta do bico rosado de
um dos seios dela. Em seguida, fez o mesmo com o outro seio.
— Ah, Marion, ficaram maiores e ainda mais bonitos, depois que você
engravidou.
Marion gemeu, sentindo, mais uma vez, o desejo queimar-lhe o corpo.
— Eu machuquei você, querida? — Andrew se interrompeu, preocupado.
— Não, seu bobo, estou bem.
— Se soubesse como sou grato a Morgana...
— Morgana! Então foi ela que lhe contou?!
Ele riu do espanto dela e acariciou-lhe o ventre, orgulhoso.
— Ainda bem! No dia em que ela foi ao meu consultório eu não podia estar
mais deprimido. Depois tive vontade de gritar de alegria. — Ele a olhou docemente.
— Mas você não foi me procurar e eu comecei a duvidar de Morgana, até que
não agüentei mais e vim ver, com os próprios olhos, se era verdade.
— Oh, Andrew, você acha que Morgana sabia que você viria me procurar?
— Tenho certeza. Foi a maneira que ela encontrou para remediar o mal que nos
causou.
— E aposto que ela sabia que eu nunca teria coragem de lhe dizer. —
Envolvendo-o em seus braços, Marion continuou: — Quanta coisa temos que
agradecer a Morgana, não?
— Pelo menos eu serei eternamente grato a ela. — Beijou-a docemente.
Depois, tomou-lhe o rosto entre as mãos e propôs: — Vamos nos casar amanhã?
138

— Bem... deixe ver... acho que dá para esperar até amanhã.
Marion passou os dedos entre os pêlos sedosos do peito dele e continuou pelo
ventre até senti-lo estremecer.
— Se você não parar com isso, não vou poder terminar o que queria dizer —
ele reclamou. — E o que eu tenho a dizer é muito importante.
— Vá em frente, então, estou escutando — ela disse, inocentemente, enquanto
continuava a acariciá-lo no lugar mais sensível do corpo.
Ele procurou se controlar e prosseguiu:
— É... hum... sobre seu trabalho. Quero que continue sua carreira, se você
quiser. Fiz uma promessa a mim mesmo de que, se conseguisse tê-la de volta, nunca
mais seria egoísta. Estou pronto para dividir com você a sua carreira e sua irmã. O
que a fizer feliz me fará também.
Marion sentia numa das mãos a força do desejo dele e continuava a acariciá-lo,
deixando-o ofegante de prazer.
— Minha felicidade vem de você e, agora, de meu filho também — Marion
respondeu, sentindo um calor derreter-lhe o corpo, enquanto Andrew acariciava-lhe
entre as coxas, devagarinho, certificando-se de que ela também estava pronta. —
Eu... eu finalmente aprendi o que é mais importante na vida, querido.
Andrew deitou o corpo cuidadosamente de lado sobre uma das pernas dela e,
passando a outra em volta de sua cintura, penetrou-a devagar. Depois, em
movimentos controlados, foi avançando devagar, até atingir o centro ardente do corpo
dela.
— Marion, Marion, eu te amo! — exclamou, beijando-lhe os seios quentes,
enquanto segurava-lhe os quadris. — Você é linda... — gemeu, acelerando o ritmo e
sentindo que ela o acompanhava.
— E... você... é... maravilhoso! — sussurrou ela, explodindo de prazer.
Ficaram abraçados, exaustos, por um longo tempo, até que Marion resolveu
quebrar o silêncio.
— Eu preciso lhe dizer que amo você, com todas as forças do meu coração.
— Oh, querida, você não sabe? Você é o meu coração.

Um romance real como a vida!
Edição 81
ESTRELA POR UM DIA
Jennifer West
Leila Farrar despe-se sob o olhar excitado de Lazlo Koltai. As chamas da
lareira iluminam seu corpo nu, aquecido pelo calor. O momento da entrega está
próximo...
“Venha, Leila! Venha sentir como nossos corpos precisam desse prazer...”,
Lazlo murmura.
Ela não tem dúvidas. Atira-se nos braços do homem que a chama, sabendo que
as conseqüências a levariam a um mundo de indefinições e inseguranças...

Edição 82
SEDE DE PRAZER
Brooke Hastings
As mãos quentes de Greg percorrem o corpo de Laura, acariciando cada curva
com avidez. Ela ama e deseja esse homem, mas teme que a frigidez que a atormenta
há anos a domine mais uma vez no momento da entrega total.
“Não tenha medo”, sussurra Greg. “Vou provar a você que sou capaz de fazê-la
alcançar as estrelas!”
Louca de paixão, Laura, então, entreabre os lábios, ansiosa para vê-lo cumprir
aquela doce promessa.

140