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ARDILOSO AMOR

A Little Magic
Rita Clay Estrada

Darling nº 39
Um encontro apaixonado, uma cilada do acaso!
É uma noite mágica, vibrante, sensual! Marissa deita-se ao lado de
Adam e lhe acaricia a nuca, os ombros musculosos, o peito largo e
moreno, provocando-lhe arrepios de prazer. Geme de excitação quando
ele desliza as mãos sobre suas coxas, em direção ao ventre, e deixa em
seus seios uma trilha de beijos tórridos. Marissa e Adam não sabem,
porém, que esse instante de louco delírio terá conseqüências
inesperadas... Ao descobrir a surpresa que o destino lhes preparou, ela
fica feliz. Mas ele imagina ter caído na armadilha de uma chantagista
vulgar!

Digitalização e revisão: Nell

Digitalização e revisão: Nell
Copyright © 1987 by Rita Clay Estrada
Publicado originalmente em 1987 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial,
sob qualquer forma.
Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer outra semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera
coincidência.
Título original: A little magic
Tradução: Sílvia Liz Engelhardt
Copyright para a língua portuguesa: 1992
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Al. Ministro Rocha Azevedo, 346 — CEP 01410
São Paulo — SP — Brasil Caixa Postal 9442
SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO ASSINANTE
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Al. Ministro Rocha Azevedo, 346 — 4? andar CEP 01410 — São Paulo
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

CAPÍTULO I
Marissa Madison olhou para a xícara de café à sua frente como se esta
fosse uma bola de cristal contendo as respostas de que necessitava tão
desesperadamente. Ela ignorava o vaivém constante diante da lanchonete
situada no maior shopping center da cidade. De vez em quando levantava a
cabeça, tentando descobrir Adam Pierce no meio da multidão. Não o vendo,
voltava a olhar para a xícara de café sobre a mesa. Estava com medo de vê-lo e,
ao mesmo tempo, temia que ele pudesse não aparecer.
Mentalmente ficava formando as frases que iria dizer a ele.
Está lembrado da festa de formatura em abril, quando por fim você
percebeu a minha existência e me levou para a cama? Então, adivinhe só?
Não.
Lembra-se de como nos divertimos na festa de formatura, há três meses
atrás? Pois bem, agora é hora de pagar a conta. Literalmente.
Também não!
Uma bonita senhora entrou no café conversando com a filha adolescente,
e o coração de Marissa se apertou. Sua mãe. Como iria contar a sua mãe e
encarar o desapontamento em seus olhos? Tendo crescido no seio de uma
família sem pai, Marissa deveria saber como era difícil para uma mulher criar
sozinha uma criança, assim como sua mãe havia feito.
E seu padrasto? Como poderia explicar-lhe que, mesmo depois do
exemplo de seus próprios pais, havia cometido o mesmo erro? Por um breve
momento havia pensado, com ingenuidade, que não corria os perigos aos quais
as outras pessoas estavam sujeitas; afinal, estava apaixonada, e só fora uma vez.
Eles ficariam tão magoados...
Sentiu-se tomada de pânico novamente, como já vinha acontecendo com
freqüência no último mês e meio. Virou-se para apanhar a bolsa. Não podia

levar seu plano adiante. Tinha de sumir de lá, esconder-se em algum lugar.
Encontrar alguma outra solução.
Lágrimas subiram-lhe aos olhos, e ela tentou controlar-se para que não
rolassem. Não era hora. Quando chegasse ao seu apartamento, aí sim, poderia
chorar à vontade.
— Olá, Marissa.
Já segurando a bolsa, ela levantou a cabeça devagar e deparou-se com
Adam Pierce, que sorria. O sorriso dele partiu o coração de Marissa. Havia
desejado e esperado por esse sorriso durante três anos. E agora seria pura tortura
observá-lo desaparecer para dar lugar à raiva que, ela sabia, demoraria muito
para passar, se um dia passasse.
— Olá, Adam.
Usando um sofisticado terno cinza, ele tinha uma aparência tanto
imponente quanto elegante. Sentou-se na cadeira à frente de Marissa, e ela se
maravilhou com a graça de seus movimentos. Adam Pierce era bonito e rico.
Que combinação fatal! Com certeza isso o impediria de acreditar que o que
Marissa tinha a lhe dizer não era uma armadilha. Ela acompanhou o movimento
da cabeça dele quando se virou para pedir uma xícara de café à garçonete.
Quando Adam tornou a virar-se, sorriu de novo, dessa vez com o indício
de uma interrogação no olhar. Ela abaixou a cabeça, torcendo para ter coragem
de ir adiante. Que outra escolha tinha?
— Seu chamado parecia urgente. O que houve, Marissa?
— Você tem visto Elizabeth ultimamente? — ela perguntou, tentando
ganhar tempo.
Elizabeth tinha sido a companheira de Adam durante os últimos três anos.
Haviam se separado pouco antes da festa de formatura.
A garçonete trouxe o café e lançou um olhar demorado a Adam,
demonstrando claramente que gostava do que via.
— Eu a vi na semana passada — respondeu ele assim que a garçonete se

afastou. — Por quê? — acrescentou, em tom cauteloso.
— Só queria saber.
Adam tomou um gole da bebida fumegante, observando-a, e Marissa
rezou para que a maquiagem conseguisse esconder os sinais de choro e
preocupação em seu rosto. As marcas da tentativa de encontrar uma solução
inexistente...
— Se você queria me convidar para sair, Marissa, tudo o que tinha a fazer
era passar em meu restaurante ou ligar para o meu escritório. O que significa
tudo isso, afinal?
Meu restaurante. Meu escritório. Não, assim era melhor. A lanchonete era
um local público, e Pierce não iria fazer uma cena, porque havia gente demais
por perto.
Ela levantou o queixo e declarou:
— Estou grávida, Adam.
As mãos dele pararam no ar. Nem um músculo se moveu, apenas os olhos
cinzas adquiriram uma tonalidade azulada, fria. As mãos de Marissa, ao
contrário, tremiam tanto que ela foi obrigada a colocá-las sob a mesa e prendêlas entre as pernas.
— Quantos meses?
Ela engoliu em seco.
— Três.
— Você tem certeza?
Marissa assentiu, o olhar desviando-se do de Adam. Não podia suportar a
rejeição, a ausência de emoção nele. Não era a única culpada pela situação.
Eram necessárias duas pessoas para se estabelecer um relacionamento, mesmo
que fosse só de uma noite. Ela ergueu a cabeça.
— Sim, tenho certeza. A médica confirmou há um mês.
Os olhos dele se estreitaram.
— Por que está me contando isso? — perguntou com brandura.

Ela aceitou a questão como o desafio que era.
— Porque você é o pai.
— Quem disse?
— Eu.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Que prova você tem?
O olhar de Marissa penetrou o de Adam, demonstrando franqueza.
— Minha palavra, Adam. Se preferir podemos fazer um teste de
paternidade, mas você terá que esperar até que o bebê tenha nascido. Pelo que
eu sei agora existe um método com noventa e nove por cento de precisão. Não
houve ninguém antes nem depois de você. — A voz suave mostrava convicção.
O olhar dele percorreu-lhe todo o corpo, até se deter nos olhos.
— Você não era virgem, Marissa.
— Não — ela repetiu, com doçura. — Eu não era virgem. Mas não me
relacionei com mais ninguém desde o colegial.
— Desde o colegial? — O olhar dele era incrédulo. — Que lindinha,
como é inocente!
O tom sarcástico de Adam provocou-lhe um arrepio na espinha, deixando
os nervos à flor da pele. Ela deveria saber que ele reagiria assim. Afinal, tivera
mais de um mês para se ajustar à novidade, e Adam soubera há apenas dois
minutos. Ora, a quem estava tentando enganar? Mesmo sabendo já há um mês
ainda não havia se acostumado à idéia!
Inspirou profundamente.
— Sei que é um choque para você, Adam. Para mim também é. Ambos
sabemos como são feitos os bebês, e mesmo assim caímos na mais velha
armadilha do mundo: sexo, puro e simples.
Ele a encarou.
— E agora você espera que eu pague por isso pelo resto de minha vida,
certo?

— Não — ela negou, rápida, sacudindo a cabeça de um lado para o outro.
— Estou pedindo que me ajude apenas pelos próximos seis meses, com
hospital, médico e demais despesas, e pelos primeiros seis meses após o
nascimento do bebê. Depois disso não vou mais incomodá-lo. Eu prometo.
Adam Pierce inclinou-se para a frente, uma mecha do cabelo preto
caindo-lhe sobre a testa. Seus olhos se estreitaram, encarando-a, as palavras
enchendo-a de culpa, colocando o dedo na ferida já tão dolorosa.
— Como é que eu vou saber se você cumprirá sua parte no trato? Só
porque está dizendo que sim?
— Assinarei um contrato. Para dizer a verdade, até prefiro que seja assim.
Só o que estou pedindo é uma ajuda financeira, não sua vida.
— Vai entregar o bebê a uma agência de adoção? — Ele recostou-se na
cadeira, mas continuou a observá-la.
Ela baixou o olhar e deu um riso seco.
— Pode acreditar, cheguei a pensar nisso. Mas eu quero ficar com o bebê.
— Você acha que pode ser mãe solteira, mesmo sendo professora? —
perguntou, Adam.
Marissa titubeou. Pelo menos ele se lembrava de sua profissão.
Ergueu o queixo, orgulhosa.
— Este é um problema meu. Encontrarei uma solução.
— Então isto não é um pedido de casamento? — zombou ele.
— Não.
— Só uma extorsão?
Ela titubeou novamente, mas recusou-se a fraquejar e entrar no jogo de
Adam Pierce.
— Sim.
Ele tomou de um gole o resto do café e colocou a xícara de volta no pires.
— Quanto?
Ela pareceu confusa, a cabeça zonza por causa de toda a emoção pela

qual estava passando.
— Eu... eu não sei.
— Você não pensou muito a respeito, não é?
Adam não se moveu, mas Marissa sentiu-se como se ele tivesse lhe dado
um soco no estômago, tirando-lhe o fôlego.
— Ou você imaginou que poderia receber uma quantia maior se deixasse
que eu estabelecesse o valor? — prosseguiu ele, em tom seco.
Marissa balançou a cabeça, negando a acusação. Seus olhos eram
grandes, e ela sabia que Adam estava vendo as lágrimas que continuavam
ameaçando rolar. Não tinha mais habilidade para tentar escondê-las.
— Dê-me pelo menos uma noção aproximada — ele sugeriu, em tom
menos ameaçador.
— As contas médicas não devem passar de mil dólares, meu seguro de
saúde cobre o resto. Preciso de cerca de quinhentos dólares antes do bebê
nascer. Estarei recebendo meu salário até agosto. Mas não terei condições de
lecionar no segundo semestre... — ela hesitou, passando as mãos trêmulas pelos
cabelos cor de ébano. Tentou reunir as idéias fragmentadas e recompor a linha
de raciocínio. — Precisarei de cerca de seiscentos dólares por mês após o
nascimento do bebê.
— Vai dar algo em torno de cinco mil dólares — Adam murmurou.
Ela tomou um susto ao ouvir a soma total. Não havia feito as contas
ainda, mas tratava-se de quase um terço de seu salário anual. Talvez conseguisse
reduzir um pouco. Mas como?
— Eu posso tentar dar aulas particulares antes do bebê nascer...
— De qualquer forma, é um preço alto a pagar por uma noite em um
quarto de motel com uma mulher que eu praticamente nem conhecia. Uma cara
lição de vida.
A garganta dela se contraiu com as lágrimas contidas.
— Para ambos.

Empurrando a xícara para o lado, ele se debruçou sobre a mesa.
— Se eu concordar com o que me pede, as cartas serão dadas por mim,
Marissa. — Seu tom intimidou-a mais do que seus atos. — Você quer que eu lhe
dê cinco mil dólares, e isso me dá certos direitos.
O olhar dela não conseguiu se desviar do de Adam enquanto encarava o
que devia ser a entrada do inferno. E o inferno era frio, não quente.
— Que direitos? — sua voz não passava de um sussurro confuso.
Ele recostou-se novamente na cadeira e ela deixou escapar um suspiro de
alívio.
— Ainda não sei. Eu aviso você.
— Quando?
— Logo. — Adam não deixou de fitá-la enquanto tirava uma
cadernetinha de dentro do bolso
— Me dê seu telefone e endereço.
Marissa forneceu os dados com voz trêmula. A situação teria sido
engraçada, se não fosse tão trágica. Ela estava grávida de um homem que sequer
sabia como entrar em contato com ela.
Adam colocou a agenda de volta no bolso.
— Por quê? — ele perguntou, calmo. — Por que você foi para a cama
comigo?
Porque eu te amo. Ela balançou a cabeça.
— Não sei. Simplesmente não sei. — Seus gestos eram hesitantes,
enquanto levava a xícara aos lábios que praticamente se recusavam a mover. —
Por que você me levou para a cama?
Adam ficou em pé, e sua sombra encobriu Marissa. Pegou a pasta que
trouxera consigo e jogou com displicência uma nota de cinco dólares sobre a
mesa. Os olhos estavam gelados, da cor do aço.
— Você estava à disposição, garota.
A dor intensa que percorreu todo seu corpo chegou a paralisá-la. Fechou

os olhos. Quando tornou a abri-los, Adam Pierce já se fora.
Deixou os ombros caírem. Apoiou a cabeça nas mãos e chorou lágrimas
silenciosas.
Apenas vários minutos mais tarde foi que percebeu que ainda não sabia o
que Adam pretendia fazer. Ele jamais dissera que iria ajudá-la.
Adam dirigiu-se ao estacionamento do shopping. Seus passos eram firmes
e decididos, mas a mente estava mergulhada no caos. Ele ia ser pai e sequer
soubera o endereço e o telefone da futura mãe de seu filho até dez minutos atrás.
Maravilha! Seu pai iria adorar a notícia. Pelo menos sua mãe não estaria
presente para assistir à cena... Ela sempre considerara casamento a solução
perfeita para todo e qualquer problema. Mas por quê, se o marido dela a havia
traído praticamente com todas as mulheres disponíveis de Houston? Se não
servira para outra coisa, pelo menos o casamento de seus pais lhe ensinara o que
era monogamia e como isso era raro na vida real, nada mais que um mito, uma
fantasia na qual a maioria das mulheres acreditava e na qual a maioria dos
homens acabava sendo presa. Aprendera isso quando menino, sentado nos
joelhos do pai.
Tinha sido uma lição bem aprendida até então. Quando era adolescente e
não discriminava as mulheres disponíveis, Adam havia imaginado se alguma
vez cairia no “golpe da gravidez”. Programara sua vida muito bem, e tornara-se
cuidadoso neste sentido. Sempre fora precavido, até uma certa noite em que
bebera demais e tivera juízo de menos. Havia sido pego, e esse erro iria mudar
toda sua vida. Não era uma questão de dinheiro, mas de auto-imagem.
Marissa... Marissa carregava no ventre um filho seu! Adam estava
estupefato com a enormidade da conseqüência de seus atos numa noite de
loucura há três meses atrás.
Depois de terem vivido juntos por três anos, Elizabeth e ele haviam se
separado por causa de uma tremenda briga exatamente a esse respeito. Ela

queria casar e ter filhos. Adam não. A desculpa perfeita para terminar um
relacionamento desgastado! O problema era que Elizabeth havia tomado a
iniciativa de romper a relação entre ambos. E o rompimento acontecera poucos
dias antes da infeliz festa de formatura... e de Marissa.
Adam Pierce estivera trabalhando dia e noite em um projeto que, se
tivesse dado certo, o teria tornado três vezes mais rico do que já era. Em vez
disso, tudo dera errado na semana anterior à festa, e ele quase fora à falência.
Seu ego ficara arrasado, tanto por causa do rompimento com Elizabeth quanto
pelo fato de ter tomado decisões totalmente erradas no negócio. Então surgira a
doce Marissa, pronta para afagar-lhe o ego e lhe dar o momento de paz de que
tanto necessitava antes de começar a recolher e colar os cacos de sua vida
despedaçada.
A partida de Elizabeth havia ferido seu orgulho mas, à medida que os dias
foram passando, Adam fora esquecendo que tinham morado juntos. Nada mais
de bagunça pela casa ou de festas que era obrigado a dar. Nada mais de contas
exorbitantes de supermercado e outras ainda mais exorbitantes de roupas. De
fato, um mês após a separação ele pudera constatar que estava adorando viver
em paz. A raiva desaparecera rapidamente. Não havia amor envolvido;
Elizabeth e ele apenas haviam se habituado um ao outro, e esse hábito tinha sido
difícil de quebrar.
No entanto, menos de uma semana após a separação, bem no período de
crise nos negócios, acontecera a festa de formatura... e a noite com Marissa. Ela
era a Pequena Irmã em uma fraternidade à qual Adam pertencera nos tempos de
faculdade. As Pequenas Irmãs ajudavam na organização de festas e arrumavam
pares para os rapazes que não eram muito versados em assuntos sociais. Apesar
de sempre ter encontrado Marissa nas confraternizações anuais, Adam, de
propósito, sempre se mantivera afastado da moça. Ela era muito doce, muito
bonita, muito jovem, e não merecia ser usada ou magoada. Mas as boas
intenções de Adam tinham ido parar na lata do lixo há três meses atrás.

Mesmo detestando ter de admitir tal coisa, mais de metade da culpa pelo
que acontecera naquela noite era dele. Encontrava-se zangado e frustrado com o
mundo em geral. E alguns drinques a mais apenas haviam aumentado a pena
que sentia de si mesmo. Se estivesse em seu estado normal, teria tomado as
precauções habituais, mas como é que poderia ter adivinhado que Marissa não
era sexualmente ativa e não estava consciente da responsabilidade necessária?
Todas as outras mulheres que conhecera sempre haviam sido precavidas!
Ele não duvidou em momento algum que era o pai da criança. Relembrou
a cena; vários alarmes haviam soado em sua mente na noite fatídica mas,
carente, preferira ignorá-los.
Seguiu dirigindo seu Alfa Romeo com a imagem de Marissa dançando
em sua cabeça. Os olhos castanhos da jovem eram grandes, sedutores. O corpo
magro continuava esbelto, apesar de estar carregando um bebê. E, durante todo
o tempo em que conversaram, as belas e delicadas mãos não haviam parado de
tremer um segundo sequer.
Marissa Madison podia ser a mulher mais desejável do mundo, mas
mesmo assim Adam Pierce não estava interessado em uma esposa. Aliás, sentiase ligeiramente desconfortável em relação a este assunto; Marissa não lhe havia
pedido que se casasse com ela. Apenas pedira ajuda financeira, e a quantia não
era exorbitante.
Deu meia volta. Precisava conversar com seu advogado. Talvez Mike
pudesse aconselhá-lo quanto ao próximo passo. Havia tantas respostas de que
precisava e tanta coisa a ser feita...
Marissa entrou em seu apartamento e deu graças a Deus por ter um
condicionador de ar. Era começo de julho e o sol já estava forte. Além do calor
ainda havia a náusea constante, que contribuía para que se sentisse arrasada. A
médica lhe garantira que com o tempo isso passaria, mas até agora nada!
Se pudesse voltar atrás, teria evitado a gravidez, mas já que isso não era

possível... Chegara a considerar a hipótese de entregar o bebê para adoção,
porém a descartara de imediato. Tratava-se do seu filho, e ambos iriam ficar
juntos custasse o que custasse.
Recostou-se no pequeno sofá em sua minúscula sala de estar e rezou para
que o estômago se acalmasse. Este ataque de náuseas, em particular, podia ser
atribuído ao recente confronto com Adam.
Adam...
Como fora ingênua! Adam Pierce tinha visitado a fraternidade uma vez
ou outra durante o tempo em que ela morara lá e, desde o começo, sempre tivera
uma queda por ele. Guardara na lembrança cada sorriso, gesto ou palavra que
ele lhe dirigira, como se fosse um tesouro.
E ele sequer notara sua existência até aquela noite, há três meses atrás.
Marissa o vira sentado a um canto, bebendo, ignorando os amigos com os quais
normalmente confraternizava. Corria o rumor de que acabara de se dar mal em
um grande negócio envolvendo petróleo. Sua aparência era tão infeliz que ela
tomara coragem, enchera um copo de tônica com limão e o levara até ele,
torcendo para que não percebesse a falta de álcool. Em vez disso, Adam
percebera sua presença. E quando o fizera, ela fora louca o suficiente para achar
que tinha encontrado a porta do paraíso.
Agora estava grávida e prestes a perder o emprego de professoraassistente de ciências humanas num colégio de segundo grau. Nenhuma escola
iria aceitar que lecionasse estando grávida sem ser casada. Afinal, era
exatamente esse o estado em que se encontravam algumas de suas alunas. Que
brilhante exemplo seria para elas! Assim que o bebê nascesse iria se mudar para
outro distrito escolar e fingir que era divorciada, mas por enquanto sabia que
teria de se resignar.
Seu estômago estava embrulhado e ela inspirou profundamente, fechando
os olhos, tentando aliviar a tensão. Aos poucos, foi relaxando...
A campainha do telefone assustou-a. Levantou-se depressa, e seu

estômago revoltou-se de novo.
— Alô?
— Marissa? É Adam. — A voz era fria e impessoal. O homem de
negócios, sempre. — Para quando você espera o bebê?
Nada como ir direto ao assunto!
— Vinte e oito de dezembro, mais ou menos — respondeu, cansada. —
Por quê?
— Se eu sou o pai, tenho o direito de saber.
— Sim, tem toda razão. Desculpe-me.
Ela ouviu uma voz baixa falando algo perto de Adam. De quem seria?
Elizabeth? Depois escutou a voz dele com clareza:
— Você vai se mudar na semana que vem. Escolha o dia.
O estômago de Marissa se contraiu de novo.
— Não, eu não vou me mudar. Vou ficar exatamente onde estou. O
aluguel é barato e o apartamento fica perto do meu trabalho — ela respondeu,
firme. — Não tente se apropriar de minha vida, Adam. Diga apenas se vai ou
não me ajudar.
— Você adoraria que eu dissesse que não, aposto! Então poderia me
processar e provar que sou o pai de seu filho, assim eu teria de pagar uma
pensão para a criança pelos próximos vinte e um anos. — Sua voz soava
amargurada. — Além do mais, Marissa, você não tem mais emprego, está
lembrada?
— Minha memória é muito boa, Adam. Como eu poderia esquecer aquela
noite de prazer, por exemplo? — ela respondeu, irritada. — Prazer seu, não
meu, devo acrescentar.
A tensão de Marissa aumentou, contraindo todo os músculos de seu
corpo. Sua ira passou, mas sabia tê-la transferido para Adam, pelo silêncio do
outro lado da linha. Sentiu-se compelida a preenchê-lo.
— Não estou pedindo que nos sustente por vinte e um anos, mas por um

ano apenas, e depois estará livre de mim. — Seu estômago se contraiu com
violência. Cobriu a boca com a mão.
— Oh, Deus, não! — murmurou, deixando o telefone cair no sofá e
correndo para o banheiro.
Pôde ouvir Adam gritando seu nome, mas não havia nada que pudesse
fazer.
Quando os espasmos acabaram e ela terminou de lavar o rosto, cinco
minutos haviam transcorrido. Cautelosamente pegou o telefone.
— Alô?
— Marissa?
— Sim.
— Aqui é Mike Butler. Sou o advogado de Adam. Você está bem?
Ela deu uma pequena risada.
— Sim, está tudo bem, foi apenas meu estômago se manifestando.
— Compreendo. — Ele estava embaraçado, mas ela estava cansada
demais para se incomodar. — Bem, Adam deve estar chegando aí. Ele achou
que alguém pudesse ter invadido seu apartamento.
Quando Mike acabou de falar isso, Marissa ouviu alguém bater à porta.
— Marissa? Você está aí? Abra a porta! — Ele gritou tão alto que
provavelmente o prédio inteiro devia ter ouvido. — Marissa!
— Adam chegou — ela disse ao aparelho. — Espere só um momento.
Adam parecia em pânico e mais que ligeiramente irritado.
— Que diabo aconteceu com você? — ele perguntou, dando quatro
vigorosos passos sala adentro e parando, surpreso, ao perceber que mais um
passo o levaria à menor cozinha do mundo, depois de ter atravessado a menor
sala do mundo.
Virou-se e apontou para o telefone:
— É Mike?
Ela fez que sim com a cabeça, fechando a porta e se recostando contra a

madeira fria. Estava cansada demais até para mover-se de volta para o sofá.
Observou Adam através dos olhos semicerrados enquanto ele falava e depois
ouvia a resposta do advogado. Aparentemente a conversa era a seu respeito, mas
o cansaço era maior que o interesse.
Seja lá o que tenham conversado, quando Adam desligou já estava mais
calmo.
— Sente-se, antes que caia — ele ordenou, mas a voz era suave.
Por mais que quisesse, ela não conseguiu se mover. Esperava tudo dele:
raiva, irritação... Mas a atitude de consideração pegou-a de surpresa, mexendo
com seus nervos. Durante os últimos três meses ninguém se importara com ela.
Adam aproximou-se de Marissa, ajudando-a a sentar em um canto do sofá
enquanto se sentava no outro, dizendo:
— Você está se pondo doente.
Ela teve de rir ao ouvir tal declaração.
— Não — respondeu. — É o bebê quem está. Mas a médica me garantiu
que tanto a depressão quanto a náusea vão passar...
Através de uma cortina nublada ela ouviu Adam discar um número de
telefone e conversar com alguém. Então tudo ficou quieto...
Adam olhou para a mulher que dormia. Ela parecia uma criança
vulnerável. Tantas emoções o assaltaram que ele não conseguiu distinguir uma
da outra. Mas não era bem verdade. Uma emoção estava mais clara que as
outras: vontade de protegê-la.
Elizabeth tinha uma elegância clássica, possuía a perfeição de uma
estátua de mármore ou uma de uma aquarela fria. Mas Marissa era bonita,
também, de uma forma diferente. Era dona de uma beleza saudável. A pele clara
do rosto apresentava sardas próximas ao nariz. Os cílios eram longos e curvos.
Os lábios cheios contribuíam para dar-lhe um ar de vulnerabilidade. Ela não
possuía nada da sofisticação que as outras mulheres que ele conhecia usavam

como uma manta protetora. Droga! Só de olhar para Marissa, deveria ter
adivinhado que meter-se com ela significava encrenca.
Adam fitou o ventre de Marissa como se pudesse ver o bebê lá dentro.
Um blusão preto e uma calça da mesma cor escondiam qualquer sinal de
gravidez. Ela estava com a mesma aparência de três meses antes, com exceção
das olheiras escuras.
Mike dissera que Marissa vomitara. Recostando-se no sofá, Adam correu
a mão pelos cabelos dela. Tinha de descobrir a melhor forma de protegê-la
durante o próximo ano.
Seu olhar percorreu o minúsculo apartamento. Eventualmente ela
precisaria se mudar dali. E, já que era proprietário de dois prédios de
apartamentos, além de um condomínio de alto luxo, não deveria ter problema
para encontrar um lugar para Marissa. Afinal, a situação econômica em Houston
estava tão ruim que ele só estava conseguindo manter setenta por cento das suas
propriedades ocupadas.
Levantou-se, recusando-se a pensar em qualquer outro problema até que
Marissa acordasse e ele pudesse falar diretamente com a mulher que tivera a
coragem de invadir sua vida e virá-la de cabeça para baixo.
Mike estava redigindo o contrato que Marissa teria de assinar antes que
eles prosseguissem com a farsa. Isso tudo era para ver que tipo de mulher seria a
futura mãe do seu filho. Se Adam gostasse dela, seria generoso. Se não gostasse,
bem, daria um jeito. E se ela simplesmente não prestasse, tiraria o filho dela e o
criaria sozinho. Não que soubesse qualquer coisa a respeito de crianças, mas
podia ao menos tentar ser um bom pai...
Casamento estava fora de questão, não só do seu ponto de vista, mas
aparentemente do de Marissa também. Graças a Deus! Permanecera solteiro por
trinta e dois anos e pretendia continuar assim. Nada que houvesse visto no
relacionamento de seus pais ou nos casamentos de seus amigos contribuía para
fazê-lo mudar de opinião.

Adam deu uma olhada no quarto de Marissa, que não continha muita
coisa. Uma cama de solteiro, uma cômoda que obviamente fora pintada por ela
mesma e uma pequena escrivaninha coberta de papéis e livros eram os únicos
móveis, mesmo porque não caberia mais nada lá dentro. Mas o ambiente em si
era agradável, com as paredes forradas de pôsteres de plantas e paisagens. Ele
olhou para a cama estreita. Parecia que o que Marissa dissera sobre não ter tido
outro homem era verdade, já que não cabiam duas pessoas ali com um mínimo
de conforto. É claro que ela podia ir ao apartamento do amante, mas...
Não tinha importância. Continuava acreditando, lá no fundo, que era o pai
da criança. Agora devia assumir. E tinha a impressão de que o preço seria bem
mais do que cinco mil dólares.

CAPÍTULO II
Marissa inclinou-se para a frente e ficou cara a cara com o homem mais
cabeça-dura e obstinado que jamais conhecera.
— Leia meu lábios. Eu... não... vou... me... mudar — disse ela,
pausadamente.
Seus olhos castanhos emitiam chamas douradas. Adam era bem mais alto
que ela, que media um metro e sessenta, e sua cabeça doía de ficar olhando para
cima, mas recusou-se a retroceder em sua atitude desafiadora.
— Meu aluguel está pago até o final do mês e não tenho dinheiro feito o
senhor para ficar me mudando, Sr. Pierce.
Ele levantou a sobrancelha, indagador, aparentemente não se deixando
pertubar pela explosão de Marissa.
— Não acha que é um pouco ridículo tratar-me por “senhor”, agora?
— Amá-lo é conhecê-lo? — O tom dela era doce, mas irônico.

— Não foi amor, foi sexo — ele retrucou, seu autocontrole finalmente se
esvaindo. — E aparentemente só trouxe satisfação a um dos lados, como você
deixou bem claro.
Reprimindo o sorriso de satisfação ao ouvir que sua provocação havia
atingido o alvo, ela sacudiu a mão pequena no ar, como que apagando as
palavras dele.
— Nada disso importa agora. O que realmente interessa é que você está
tentando assumir o controle da minha vida. E isso, Adam Pierce, eu não vou
admitir.
Adam cruzou os braços e olhou para ela como se se tratasse de uma
formiga invadindo seu piquenique.
— E como você pretende me deter? Tem contas a pagar e um bebê para
cuidar, para não falar em cuidar melhor de si mesma. Sem a minha ajuda, o que
pretende fazer?
Ele viu um lampejo de medo escurecer os belos olhos de Marissa. Quis
sorrir em triunfo, mas sabia que era cedo demais.
Ela se empertigou.
— Não sei — admitiu, finalmente. — Mas eu o procurei porque precisava
que me ajudasse, e não que tomasse conta da minha vida. Se for necessário,
pensarei em algo.
— Desistir do bebê, por exemplo?
Adam a estava provocando e sabia disso. Simplesmente não conseguia
evitar. Marissa era muito decidida e ele não estava acostumado a ter outra
pessoa dando as cartas do jogo. Em geral ele dava o tom da conversa ou então
se retirava. No entanto, estava se divertindo com a briga.
— Você gostaria disso, não? Seria o fim de sua responsabilidade, e o seu
dinheiro estaria a salvo! — indignou-se Marissa.
Adam segurou o riso. Ela agia como se estivesse pedindo uma fortuna. E
provavelmente era, para ela. O último pensamento fez com que sua vontade de

rir se apagasse.
— Escute aqui, mocinha, você me procurou e eu lhe disse na hora que,
caso concordasse em ajudá-la, tudo seria feito à minha maneira. E esta é a
minha maneira.
— Você quer dizer que não vai me ajudar a não ser que me mude? — ela
o encarou, incrédula.
Adam aquiesceu.
— Mas que loucura! Iria sair caro eu me mudar! O aluguel seria mais
alto, o condomínio idem, o telefone teria de ser relocado. E tudo isso custa
dinheiro. Além da mudança em si, que também é cara.
— Eu posso cuidar do assunto.
— Fora os cinco mil dólares? — A voz de Marissa era um gemido.
— Sim. E posso dispensá-la do pagamento da taxa de condomínio, já que
você vai se mudar para um apartamento de minha propriedade.
De repente tudo começou a fazer sentido. Ela se mudaria para um dos
apartamentos de Adam. Fora tola em não ter percebido isso antes, mas não
vinha pensando com muita clareza ultimamente. Podia apostar que ele daria um
jeito de descontar essa despesa do imposto.
— É claro — murmurou Marissa, subitamente doce. Seu olhar encontrou
o dele. — Ok, eu desisto. Quando é que vai acontecer a tal mudança?
— Amanhã.
— Mas amanhã é domingo! Nenhuma transportadora vai querer fazer
uma mudança num domingo.
— Essa fará.
O tom de voz lhe deu a pista.
— Não me diga — ela disse, virando-se e se deixando cair sobre o sofá.
— Você possui uma companhia de mudanças.
Adam deu de ombros, sentindo-se constrangido.
— Com tantos apartamentos, foi um bom negócio. E, para sua

informação, muitas pessoas se mudam durante o final de semana porque
trabalham nos dias úteis.
Ele olhou ao redor, examinando o apartamento pequeno, parcamente
mobiliado, apesar do bom gosto.
— Você tem certeza de que quer levar os seus móveis? Podemos alugar
uma mobília nova, se preferir.
— Essa aqui é minha, comprada e paga — disse Marissa com firmeza. —
Eu a levarei comigo.
Pela primeira vez desde que entrara no apartamento, Adam sorriu ao
declarar:
— Está certo. Eu apenas perguntei.
— Para onde estou me mudando?
— Torres, 222.
— Eu não posso! — A voz dela soou apavorada.
Ele a encarou, a testa enrugada.
— O que quer dizer com “não posso”? Eu pensei que tínhamos acabado
de resolver o assunto.
— Os apartamentos Torres custam mais em um mês do que um ano de
aluguel deste apartamento. Você estará perdendo dinheiro ao me colocar lá.
O sorriso que Adam tentara reprimir anteriormente voltou a aparecer.
— Saberei aceitar a perda com elegância.
Marissa estava mais preocupada com as finanças de Adam do que ele
mesmo. Era estranho. Será que tudo não passava de um jogo?
— Vá se arrumar — ordenou ele. — Vamos até lá agora mesmo, assim
você pode conhecer o lugar. Depois disso iremos jantar.
— Não.
Ele olhou para ela, fazendo esforço para permanecer calmo.
— Não? Como assim?
— Eu quero dizer que adoraria conhecer o apartamento, mas não vou

jantar com você esta noite.
— Por quê?
— Porque não tenho a intenção de ficar em sua companhia por horas a
fio. Quero vir para casa e ser eu mesma por algum tempo.
Tais palavras foram ditas com suavidade, mas os olhos revelaram o resto.
Ela estava exausta.
Ele suspirou.
— Tudo bem, então vamos.
Marissa apertou o cinto de segurança e tentou apreciar a paisagem,
decidida a não olhar para o homem que estava sentado a seu lado. O nó em sua
garganta indicava-lhe que queria chorar; engoliu em seco para desfazê-lo.
— Você está bem? — perguntou Adam, antes de dar partida no Alfa
Romeo.
— Sim — ela conseguiu pronunciar.
O confronto desta tarde com Adam tinha sido um inferno. Fora o
suficiente para um dia... uma semana... uma vida. Queria que ele a deixasse em
paz. Por outro lado, também desejava que ele a tomasse em seu braços, a
segurasse próximo ao coração e acalmasse seu espírito, persuadindo-a de que
tudo estaria bem e que ficariam juntos para sempre. Suas emoções conflitantes
não faziam o menor sentido, e a confusão só lhe aumentava a depressão,
enevoando sua mente.
Desceram por uma rua elegante. Os olhos de Marissa observavam tudo
com interessa. Jamais admitiria, mas estava curiosíssima para conhecer o
condomínio Torres 222. Já ouvira falar nele, como todo mundo. Era um dos
melhores endereços da cidade. Seu coração bateu mais forte. Pelo visto, a
curiosidade era um forte estimulante.
Adam saiu da avenida principal e entrou em uma pequena rua lateral,
repleta de árvores. O condomínio Torres ocupava todo um quarteirão do lado

esquerdo. Adam dirigiu-se à garagem subterrânea. Na entrada, passaram por um
guarda que os saudou e abriu o portão para que passassem. As paredes da
garagem eram coloridas: verdes, azuis, cor-de-laranja, vermelhas e amarelas.
Aparentemente, as diferentes cores serviam de orientação aos moradores do
prédio.
— Em geral as pessoas inserem o cartão naquela fenda da parede e o
portão se abre automaticamente. O guarda só está aqui para o caso de acontecer
algum problema — comentou Adam.
— Claro — murmurou Marissa, torcendo para que ele não percebesse seu
espanto.
Eles pararam ao lado do elevador, em uma vaga na qual estava escrito
“Reservado”.
— Você irá deixar o carro em uma dessas vagas reservadas, e não na área
comum do prédio — ele disse.
— Por quê?
— Precisa questionar tudo o que digo?
— Só quando você dá ordens, esperando que eu as cumpra — ela
advertiu. — Não farei nada sem saber do que se trata, Adam.
Ele suspirou profundamente, escondendo que sua paciência estava quase
chegando ao fim.
— Estacionar aqui significa que você não vai ter de andar até o elevador.
E se o seu carro estiver cheio de compras, você nem deve entrar na garagem.
Pare na área circular em frente ao prédio, os funcionários do condomínio se
encarregam tanto das compras quanto de estacionar o carro.
— Está bem.
Marissa saiu do automóvel antes de Adam conseguir dar a volta para
abrir-lhe a porta, torcendo para que ele entendesse a mensagem de que ela
preferia ser uma mulher liberada, que não precisava de sua ajuda.
O olhar dele deixou claro que, apesar de não ter dito nada, não

concordava com tal atitude. Ela suspirou. Não iria ser fácil. Mas já devia saber
que nada que tivesse a ver com Adam Pierce seria fácil.
Adam enfiou um cartão magnético em uma fenda na parede do elevador e
a porta se fechou, conduzindo-os ao vigésimo oitavo andar. Saíram para o hall,
amplo e decorado com elegância, com dois sofás e algumas mesinhas, uma
delas contendo um belíssimo vaso chinês repleto de delicadas flores de macieira
feitas de seda.
Marissa seguiu os passos de Adam através do carpete bege até o final do
corredor. Câmeras de vídeo giratórias estavam dispostas em pontos estratégicos
das paredes, garantindo a segurança até mesmo nos corredores. Alcançaram a
última porta. Ele enfiou a chave na fechadura e as portas duplas se abriram
sozinhas.
Marissa surpreendeu-se mais uma vez. Será que tudo no prédio se abria
automaticamente?
As portas abertas revelaram uma parede de tijolo à vista que garantia a
privacidade do ambiente.
— Este é um apartamento de dois dormitórios — explicou Adam,
contornando a parede, que formava a parte de trás de uma lareira.
Sem permitir que Marissa parasse ele a guiou até a espaçosa sala de estar.
À esquerda, subindo-se um degrau, ficava a sala de jantar. Uma das paredes era
espelhada, de forma a refletir o espetáculo providenciado pela parede oposta,
composta exclusivamente de janelas. O centro de Houston, com seus prédios
modernos, projetava-se contra o horizonte; a construção imponente do Centro
Médico do Texas ficava à direita e, mais próximo ao condomínio, estava o
elegante shopping center onde haviam se encontrado à tarde. Adam dirigiu-se
para o lado esquerdo da sala, ignorando o nervosismo que tomava conta de
Marissa.
— Aqui ficam cozinha, copa e área de serviço. E daquele lado —, ele
apontou para as portas do lado direito da sala —, estão os dois quartos. Entre

eles há um banheiro. Atrás da sala de jantar há um lavabo.
A respiração dela se acelerava cada vez mais. Isso era demais! Jamais se
acostumaria a um lugar tão luxuoso.
Inspirando profundamente, Marissa encarou Adam.
— Não posso me mudar para cá.
— Por que não? — Os olhos cinzas dele a encaravam e ela deu um passo
para trás.
— Porque o apartamento é... Quero dizer... — Não conseguia encontrar
as palavras apropriadas.
— Muito pequeno? Muito grande? A cor não lhe agrada?
— É demais!
Ele franziu o cenho.
— Demais o quê?
Ela deu de ombros.
— Demais... tudo.
Adam deu um passo à frente.
— Marissa, olhe para mim — pediu, calmo, mas a voz estava fria feito
aço.
Mesmo contra a vontade, ela obedeceu.
— Não há nada de errado com este apartamento. Não há nada de errado
em você morar aqui. — argumentou ele. — Na realidade, é a única forma de eu
saber que você está a salvo e bem cuidada. Um restaurante, localizado no último
andar do prédio vai enviar-lhe comida quando e se você não estiver se sentindo
bem. O restaurante menor, no primeiro andar, vai lhe servir café da manhã
quando você quiser. Uma equipe de guardas irá garantir sua segurança entre o
carro e o apartamento. Além disso o condomínio possui uma sala de ginástica
completa, piscinas, sauna e quadra de squash, assim você pode se manter em
forma. Há mensageiros à sua disposição no lobby, para que você não se canse
carregando alguma compra, ou mudando um móvel de lugar. — Ele hesitou e

depois continuou em um tom mais brando: — E eu moro na cobertura, em caso
de emergência.
Marissa preferiu abster-se de comentários.
Do quarto maior, abria-se uma porta para um terraço amplo e agradável.
— Lindo — murmurou ela quando Adam a guiou através de um dos
maiores banheiros que jamais havia visto.
Em um dos lados havia uma pia dupla com espelho e um enorme boxe de
vidro, mas o ponto alto do aposento era a banheira de hidromassagem. Ficava
sobre uma plataforma, em frente a uma janela de vitral, que espalhava pontos de
luzes multicores por todo o ambiente. O efeito era de delirante e decadente
intimidade.
— Perfeito para Nero — ela murmurou.
— Você quer dizer para uma orgia? — ele sussurrou, provocante, em seu
ouvido.
— O que eu quis dizer foi que essa banheiro foi projetada por uma mente
depravada.
Marissa torceu para que ele entendesse a indireta.
— Obrigado.
O outro quarto era menor, mas ela decidiu que “menor” era um conceito
relativo, já que o quarto era quase do tamanho do seu antigo apartamento
inteiro.
Adam a conduziu para fora do quarto, em direção à entrada.
— A turma da mudança vai estar em seu apartamento amanhã às nove
horas — ele disse, fechando as portas do apartamento e andando com ela até o
elevador.
— Mas eu não vou conseguir empacotar tudo até amanhã cedo!
— E nem precisa — ele assegurou, calmamente. — Eles cuidarão de tudo
por você, incluindo a louça e suas roupas. Só o que você tem a fazer é observálos trabalhando.

O lobby era todo de mármore castanho-dourado, mobília cara e tapetes
orientais. Um guarda, a um canto, observava vários monitores de TV pequenos,
que mostravam todos os corredores do prédio. Do outro lado, um mensageiro
separava a correspondência.
— Pete, Arnold, quero que conheçam a nova inquilina, Marissa Madison.
Ambos foram educados e respeitosos, mas olharam para ela com
indisfarçável curiosidade.
— Jesse me contou que o senhor estava aqui, Sr. Pierce, mesmo antes de
eu vê-lo no monitor. — Pete disse, depois que a apresentação foi concluída. —
Ele me pediu para lembrá-lo de que o pessoal da mudança vai precisar de
algumas informações.
Os dois homens trocaram um olhar e Adam fez que sim com a cabeça.
— Está bem. — Adam olhou para o homem mais novo. — Arnold, se
você vir a Srta. Madison com pacotes ou qualquer outra coisa que não deveria
estar carregando, você deve interceder de imediato. A mesma coisa com as
entregas. Leve-as para cima, ao invés de avisar a Srta. Madison pelo interfone.
— Sim, senhor.
Somente quando já estava no carro, voltando para casa, Marissa se
lembrou de fazer uma pergunta.
— Você não tem apartamentos menores, Adam?
— Um ou dois. — A voz era cautelosa.
— Eu não podia ficar em um desses?
— Não. Quando o bebê chegar você vai precisar de espaço, e eu pretendo
estabelecer algumas regras no que diz respeito à vida dessa criança.
— Até agora é só o que tem feito — ela disse em tom aborrecido,
querendo brigar, mas ao mesmo tempo sentindo-se cansada demais para isso.
— É melhor assim.
Apesar da exaustão, Marissa não conseguiu conter a ira.
— Eu não sou nenhuma dondoca carente, que tem necessidade de

depender de um homem, Adam Pierce. Nunca fui assim e me recuso a começar
com isso agora!
Ele levantou a sobrancelha.
— Eu fiz algo de ruim para você?
Ela sacudiu a cabeça.
— Eu tentei prejudicar você ou o bebê de alguma forma?
Novamente ela sacudiu a cabeça.
— Obrigado. Então, por favor, fique quieta. E se tiver algo a dizer,
Marissa, é melhor que seja uma crítica construtiva ou uma opinião sincera. O
que você disser só para me provocar, será considerado uma declaração de
guerra.
Ela fechou a boca. Não sabia como agir. Preferiu pensar no que
aconteceria no dia seguinte, após uma boa noite de sono.
A manhã seguinte foi como outra manhã qualquer. O despertador tocou às
sete horas e Marissa levantou-se enjoada.
Recusou-se a pensar em Adam, em como ele era bonito. Para começar,
fora isso que a colocara nesta confusão. Além do mais, ele não estava
interessado nela. Disse a si mesma que seria suficiente se ele fosse amável e a
ajudasse... Mas, lá no fundo, sabia que queria mais.
Seu estômago se manifestou, e Marissa fez sua primeira visita do dia ao
banheiro. Tomou banho, vestiu-se. Logo chegou a turma da mudança que Adam
mandara.
— É só isso, dona? — O encarregado olhou em volta como se não
houvesse nada na sala.
Ela acompanhou o olhar do homem.
— É, sim. Por quê?
Ele continuou olhando para a ordem de serviço e de volta para o
apartamento, como se não conseguisse acreditar nas instruções que recebera.

— Nós trouxemos um caminhão enorme, dona.
Marissa tomou um gole de café, ignorando o insulto implícito. Com a
melhor imitação que pôde fazer de uma dondoca, deu um sorriso e sentou-se
com as pernas cruzadas no sofá.
O encarregado se resignou e disse.
— Ok, rapazes, peguem as caixas e comecem a empacotar tudo.
Adam tinha razão. Os homens sabiam o que fazer. Levaram menos de
uma hora para empacotar as coisas e quarenta minutos para carregar o
caminhão. Marissa ficou parada na calçada, olhando para o caminhão, tentando
conter as lágrimas. O fruto de todo seu trabalho nos últimos quatro anos estava
lá dentro. Era a soma total de sua vida, tudo empacotado por causa de um erro
cometido há três meses atrás...
— Já está com saudade? — Adam estava em pé ao seu lado e ela sequer
notara sua chegada.
Sentiu um arrepio na nuca, mas ignorou a sensação, jogando a culpa no
estado emocional em que se encontrava nos últimos dias.
— Só estou observando o trabalho. Você me disse que era só o que eu
podia fazer.
Adam Pierce lhe lançou um olhar indefinido.
— Que garota obediente...
Marissa deu de ombros, enterrando as mãos nos bolsos de trás do jeans.
— Você falou com o proprietário do apartamento? — indagou ele.
Ela fez que sim com a cabeça, dizendo:
— A partir de amanhã minha correspondência será repassada para o
condomínio Torres, e meu telefone também será transferido. Já cuidei de todo o
resto, também.
— Ótimo. — Ele a segurou pelo cotovelo e conduziu-a em direção ao seu
Alfa Romeo. — Vamos.
— Para onde?

— Comer alguma coisa e depois verificar como ficou o apartamento
novo.
— Mas eu tenho de ir ao supermercado — ela protestou, parando de
andar. — E não posso deixar meu carro aqui.
— Não tem problema. Ajudo você com as compras e depois nós
almoçamos no restaurante do condomínio. — Ele virou-se em direção aos
homens que já estavam fechando o caminhão. — Ei, Smitty! Leve o fusca
amarelo.
— Pode deixar, chefe. Onde estão as chaves?
Relutante, Marissa deu as chaves para Adam, que as entregou a Smitty.
Ela suspirou ao sentar-se no assento de couro claro do Alfa Romeo, observando
Adam contornar o carro. O que mais podia fazer nesse momento, senão seguir
as ordens dele? Podia argumentar que preferia dirigir o fusca ela mesma, mas
não chegaria a lugar nenhum. Adam estava no comando, e ainda não
compreendera sua hesitação em deixá-lo conduzir sua vida. Além do mais,
havia outros pontos mais importantes a serem discutidos, e Marissa lembrou-se
do conselho de sua mãe: às vezes é melhor perder uma batalha, para ganhar a
guerra.
Adam sentou-se no assento do motorista e colocou a chave na ignição.
Deixou a mão cair sobre a perna.
— Marissa?
Um par de grandes olhos castanhos, repletos de confusão, voltou-se para
ele, fazendo com que seu estômago se contraísse com a emoção que sentiu.
Esticou o braço passando a suavemente a mão no delicado pescoço feminino.
— Tente não se preocupar demais. Vai dar tudo certo.
— Eu jamais deveria ter pedido sua ajuda — ela sussurrou.
— Por quê?
— Porque você parece um furacão que invadiu minha vida, deixando-a de
cabeça para baixo. Quando você for embora, não vou nem saber onde estou ou o

que devo fazer a seguir. Você está me engolindo viva, Adam. E eu não sei o que
fazer a esse respeito.
Ele acariciou-lhe o rosto.
— Detenha-me.
Ela sorriu, triste.
— Pare com isso, Adam. Você está se apropriando da minha vida, das
minhas decisões.
Ele recostou a cabeça no encosto do banco.
— O que você não quer que eu faça? — indagou ele, continuando a
acariciar-lhe o rosto.
Marissa tentou ignorar o gesto, concentrando-se em suas palavras.
— Pare de tomar decisões por mim. Pergunte se quero que alguém dirija
meu carro. Pergunte se quero tomar café, almoçar ou jantar. Pergunte-me se
pode ir ao supermercado comigo.
— Posso pedir para Smitty dirigir seu carro?
Ela assentiu.
— Você está com fome? Gostaria de comer alguma coisa antes de irmos
verificar se sua mobília chegou em ordem ao apartamento novo?
Seu estômago roncou em resposta e ela riu, arrancando também um
sorriso de Adam.
— Sim, por favor, eu adoraria.
— Se você não se importar, eu teria também imenso prazer em levá-la
para conhecer as lojas e farmácias do bairro, para que não se sinta perdida
quando sair sozinha.
— Eu gostaria muito.
Ele reparou nas pequenas covinhas que Marissa tinha nos cantos da boca
e que lhe iluminavam o sorriso. Estranho. Não havia notado isso antes.
— Então está combinado — Adam concluiu, afastando a mão do rosto
dela. — Não vejo o porquê de tanta discussão, Marissa, se no fim você acaba

concordando com tudo, mesmo.
Ela sorriu enquanto ele ligava o carro.
— Mas o senhor não sabia disso antes de me perguntar, Sr. Pierce.
Ele manobrou o automóvel, sua mente em turbilhão. Quando Marissa o
confrontara com o problema deles ficara atônito, mas o choque logo se
transformara em culpa. Como ela pedia tão pouco, resolvera ajudá-la em tudo o
que fosse possível. Até alguns momentos atrás sentia-se bastante orgulhoso pela
forma como vinha lidando com tudo. Agora já não sabia se devia ter feito algo
além de lhe dar o que pedira.
Tinha a impressão de que Marissa Madison iria mudar sua vida muito
mais do que sonhara ser possível. E esta era a origem do seu problema. Deveria
se sentir aflito por ela virar seu mundo de cabeça para baixo. Em vez disso,
estava reagindo a algo que jamais deixara de empolgá-lo: a iminência de um
desafio.

CAPÍTULO III
Marissa fechou os olhos e encostou o corpo na parede do elevador
enquanto subia até seu andar. O gesto tinha mais a ver com a presença de Adam
do que com o fato de estar cansada.
Quando as portas se abriram, eles caminharam juntos em direção ao seu
apartamento.
Quando chegaram lá tomaram um susto. Os poucos móveis de Marissa
não eram suficientes para preencher os ambientes espaçosos.
— Já vi que vou ter muito trabalho essa semana comprando alguns
poucos móveis, tapetes e plantas, para dar um ar mais habitável a isso aqui... —
murmurou Marissa.

Como não sabia bem como agir, ela foi até a cozinha para descarregar as
compras e ignorou Adam por completo.
Percebeu direitinho quando ele a seguiu e parou à porta, mas recusou-se a
quebrar o ritmo de sua atividade.
— Marissa — ele chamou, num tom autoritário.
— Sim?
— Será que não podemos encontrar uma forma de lidar com a situação
sem ferir nossos sentimentos o tempo todo?
Ela balançou a cabeça, o cabelo negro caindo para o lado.
— Não sei. Podemos?
— Tentarei, se você também o fizer.
Marissa aquiesceu.
— Está bem, Adam. Mas de agora em diante nada será feito ou posto em
andamento sem meu conhecimento ou minha permissão, combinado?
Ele levantou a mão em sinal de paz, afirmando:
— Dou minha palavra de honra.
Ele afastou-se da porta, dando dois passos em direção a Marissa.
Estendendo a mão, afastou-lhe uma mecha de cabelo negro e sedoso do rosto,
num gesto insinuante.
— Então acho que está tudo resolvido — ela sussurrou, perguntando a
seguir, hesitante: — Qual o verdadeiro motivo de você ter ido para a cama
comigo?
Os lábios de Adam comprimiram-se em uma linha reta, dura.
— Nós temos mesmo de falar sobre isso agora?
— Acho melhor — ela disse, dando um passo para trás, apoiando-se no
balcão que dividia a cozinha ao meio.
O coração batia forte em seu peito, não sabia se pela proximidade de
Adam ou se era porque estava com medo de ouvir a resposta à sua própria
pergunta. Inspirou profundamente.

— Não consigo entendê-lo, Adam. Às vezes é frio, insultuoso, outras
vezes é meigo, fazendo de tudo para me ajudar. E agora está dando em cima de
mim.
Os olhos dele se estreitaram.
— Você é sempre assim tão direta?
Uma covinha apareceu no canto direito da boca de Marissa.
— Prefiro dizer que sou honesta.
Adam passou a mão pelos cabelos, depois sentou-se à mesa da cozinha.
Fez-se silêncio enquanto ele olhava para as próprias mãos, antes de erguer os
olhos para encarar Marissa. A respiração dela ficou presa na garganta.
— Está bem, tem razão — admitiu Adam, por fim. — Eu não sei porque a
levei para a cama. Acho que no fundo você me intrigou desde a primeira vez em
que a vi, numa festa de formatura. Você estava preparando sanduíches, cortando
fatias de pão em formato triangular. Sua boca delicada, de lábios bem
desenhados, me chamou a atenção. Fiquei imaginando o quanto seria gostoso
beijá-la.
Ela arregalou os olhos.
— Sério? Pensei que você nem tivesse me notado!
— Mas eu notei, sim. Enquanto você cortava pão, eu observava seu corpo
sensual. Depois, um de meus amigos me disse que você era a nova Pequena
Irmã, e preferi me afastar. Afinal, um lobo mau como eu não deveria se meter
com ovelhas inocentes como você.
Marissa afastou-se do balcão. Sentou-se à mesa também, de frente para
Adam, e pediu:
— Conte-me mais.
— Não há muito que contar. Apesar de achá-la linda, resolvi não me
aproximar. Você parecia jovem e ingênua demais. — Ele olhou novamente para
as próprias mãos. — Então, há três meses atrás, foi você que tomou a iniciativa
de se aproximar. Eu estava morrendo de pena de mim mesmo naquela noite, e

você foi tentar me consolar. — Ele deu de ombros. — Quando fomos para a
cama, esqueci de tomar qualquer precaução.
— Ambos esquecemos — ela admitiu. — Minha mãe sempre me disse
para manter distância de homens como você, mas eu tenho uma certa fascinação
pelo seu tipo: feito uma criança, querendo tocar o fogo, sem pensar que pode se
queimar.
Ele balançou a cabeça, os olhos cinzas demonstrando curiosidade.
— Sua mãe já sabe que vai ser avó? Nunca ouvi você mencionar sua
família.
Marissa desviou o olhar, embaraçada. Quando tornou a encarar Adam, viu
que ele a observava com interesse, aguardando uma resposta.
— Minha mãe casou-se com meu pai porque estava grávida de mim. —
ela disse, após um momento de hesitação. — Vi de perto o sofrimento que uma
gravidez indesejada aliada a um casamento forçado pode provocar, e jurei a
mim mesma que isso jamais aconteceria comigo. Quando fiz quinze anos, já
sabia tudo sobre gravidez, aparelho reprodutor feminino e métodos
anticoncepcionais. Naquela época, mamãe e eu já vivíamos sozinhas há um bom
tempo. Foi então que ela conheceu meu padrasto, Gar, a quem eu considero meu
verdadeiro pai. O primeiro casamento de Gar foi com uma mulher que também
engravidou sem querer, e que por causa disso ficou com uma raiva irracional
dos homens. Ela acabou pedindo o divórcio. Mamãe e Gar, porém, casaram-se
levados pelos motivos certos: amor, respeito, companheirismo e interesses
comuns. Pela primeira vez formamos uma família completa... E foi desse modo
aprendi os prós e os contras do casamento, do amor e do sexo.
— E mesmo assim caiu na armadilha mais antiga do mundo — comentou
Adam, em tom gentil.
Ela concordou com um gesto de cabeça e acrescentou:
— É verdade. O problema é que eu sabia tudo sobre fazer sexo, mas não
sabia que o desejo podia ser mais forte que a razão.

— Fazer amor, não sexo. — corrigiu ele com voz firme.
— Nós não fizemos amor, Adam — retrucou ela com uma ponta de
amargura na voz. — Você mesmo já reconheceu isso.
— Sim, nós fizemos amor, Marissa. Eu menti. Se o amor foi uma emoção
passageira ou duradoura, não importa. O que interessa é que agimos movidos
pela emoção.
— Pela atração física, você quer dizer.
A irritação invadiu Adam.
— Não! Pela emoção!
— Por quê está defendendo o que fizemos?
Ele suspirou.
— Não sei — admitiu, finalmente. — Mas sei que você parece exausta.
Que tal dar uma cochilada? Posso vir buscá-la mais tarde para jantarmos fora.
— Obrigada, prefiro comer aqui mesmo. Preciso de um tempo para me
acostumar ao novo lar. — Ela olhou ao redor. — Que engraçado, sempre pensei
que se me mudasse novamente seria para uma casa pequena, com balanço e
caixa de areia no quintal. Todas as crianças precisam de espaço para correr e
brincar. E de raízes, para que possam se sentir seguras.
— Você preferiria uma casa em vez do apartamento?
Um sentimento de desesperança tomou conta de Marissa. De que
adiantaria uma casa? Continuaria não sendo um lar completo, não sem amor.
Deu de ombros.
— Um lugar é tão bom quanto o outro.
Os olhos de Adam se estreitaram. Ele se pôs de pé, dizendo:
— Preciso ir, agora. Vejo você mais tarde.
— Hoje não. Quero verificar se os rapazes da mudança arrumaram as
coisas dentro dos armários do jeito que eu pedi.
— Está bem — ele concordou. — Mas prometa tomar café comigo no
restaurante, amanhã.

— Prometo.
— Por volta das oito horas?
A voz dele estava rouca, o que mexeu com os sentimentos de Marissa.
— Combinado.
Ela o acompanhou até a saída. Esperou que as portas automáticas se
fechassem e encostou a testa na madeira fria, pensativa.
Adam entrou em seu apartamento e jogou as chaves sobre a mesa da sala.
Só quando já se encontrava na cozinha, preparando um café, foi que percebeu
que estava assobiando uma melodia alegre desde que saíra do apartamento de
Marissa.
Gostara bastante de passar o dia com ela, tinha de admitir. Quando fora
buscá-la, de manhã, havia esperado lágrimas, recriminação e desespero, típicas
chatices de mulher. Em vez disso encontrara uma doce feminilidade, que
misturava em doses iguais comentários cortantes e bom senso. Não estava
habituado a mulheres que agiam assim, e apreciara a novidade. A menos que a
atitude independente de Marissa fosse apenas uma representação, que acabaria
ruindo com a pressão...
O café ficou pronto. Adam serviu-se de uma xícara. Dirigiu-se ao bar da
sala de estar e acrescentou uma dose de conhaque à bebida fumegante. Sentou
no sofá, olhando para o terraço. De repente, deu um soco no braço estofado do
móvel.
Precisava aprender a se controlar! Por um breve momento ficara a
imaginar como seria morar em uma casa com um quintal imenso, onde o
barulho de crianças brincando era a alegria dos pais.
Casas sempre o haviam intimidado, dando-lhe a sensação de prisões
enraizadas no chão. Podia trocar de apartamento com facilidade quando não
estava satisfeito, mas uma casa implicava permanência. Era engraçado perceber
que outras pessoas consideravam justamente a idéia de permanência o máximo

da felicidade...
Recostou-se no sofá e fechou os olhos, quase com medo de analisar a
satisfação que sentia por saber que Marissa se encontrava apenas dois andares
abaixo do seu. Havia tantas coisas novas a serem assimiladas! Seria pai dentro
de seis meses. Deveria ser um pai ativo, envolvido na criação do filho, ou
simplesmente sumir e deixar tudo por conta de Marissa? Adam imaginou a
criança fazendo perguntas sobre o pai e Marissa tentando responder, evasiva.
Não, não poderia ser assim. Era melhor participar na educação do filho.
As explicações de Marissa sobre sua vida haviam respondido a várias
perguntas que ele já se fizera. Não era de se espantar que ela não quisesse casar
por causa da gravidez; afinal, sentira na própria pele os efeitos de uma união
forçada. Isso significava que um dia encontraria um homem a quem iria amar e
com quem se casaria por livre e espontânea vontade, não por obrigação. Tal
pensamento fez mal a Adam.
Ele abriu os olhos e sorveu um gole de café.
Deveria dar um passo após o outro, com muito cuidado. Neste momento
Marissa estava sob sua proteção, e ele sabia muito bem que não queria dividi-la
com ninguém. Ela teria de se acostumar a vê-lo a seu lado, e aí sim ele
mostraria quem dava as cartas.
Marissa estava parada à porta, dando uma última olhada no apartamento,
com a lista de compras na mão, antes de encontrar-se com Adam no restaurante.
Ele estava sentado a uma mesa para dois ao lado de uma enorme janela
com vista para os jardins do condomínio. Sua cabeça pendia sobre um maço de
papéis. Isso a lembrou de como ele estava envolvido em um bocado de
negócios.
— Oi — ela cumprimentou, ao chegar à mesa.
Adam levantou a cabeça e seus olhares se encontraram, deixando Marissa
sem ação por um momento. A despeito, de tudo, ele era o homem mais sensual

que jamais conhecera.
— Oi. — Ele sorriu, apontando para a outra cadeira. — Como está se
sentindo esta manhã?
— Bem. — Ela pegou o guardanapo. — Apenas o enjôo habitual ao
acordar, mas já passou.
Ele suspirou, exasperado.
— Isto é besteira. Por que não liga para sua médica e pede um remédio
para esse mal-estar?
— Não é mal-estar, e sim um bebê. Minha médica sabe que não tomo
remédios se não for absolutamente necessário.
— Ok, ok — ele concordou, ao ver Marissa erguer o queixo, o que
pressagiava uma discussão sem chances de ser vencida. — Mas peça algo
substancial para o desjejum, assim terei certeza de que você está bem, agora.
Após fazer o pedido ela recostou-se na cadeira, observando-o juntar os
papéis que estavam a sua frente.
— O que é isto? — indagou, curiosa.
Adam olhou para ela e depois de volta para os papéis.
— Meu advogado os mandou hoje de manhã — começou a explicar. —
Trata-se de um acordo entre você e eu, que ambos devemos assinar.
As sobrancelhas de Marissa se ergueram.
— É a respeito do bebê — completou ele.
Adam estendeu os papéis em sua direção e ela os pegou, relutante, lendo
com atenção o documento. Franziu o cenho.
— Você não acredita que vou manter minha palavra? — perguntou, por
fim.
Ele sacudiu a cabeça.
— O contrato não significa que desconfio de você. Ele apenas assegura
que nós dois vamos manter o combinado e também especifica o que esperamos
um do outro.

— Eu pedi cinco mil dólares, aqui diz quinze mil. Também diz que o
apartamento é meu, sem nenhuma despesa, e que você tem direito a visitas
ilimitadas. — O queixo de Marissa se ergueu novamente. — Não foi esse o
nosso acordo.
— Mas agora é — ele afirmou, categórico. — Nós não tínhamos nenhum
acordo, antes. Você pediu minha ajuda, e isso é o que eu quero em troca.
Ela o ignorou.
— Não vou assinar este contrato, Adam.
— Vai sim, afinal o filho também é meu.
Lágrimas começaram a se formar nos cantos dos olhos de Marissa, mas o
ressentimento prevaleceu.
— Eu jamais negaria os seus direitos de pai. Mas visitas ilimitadas dão a
você o direito de quebrar a rotina da criança sempre que quiser, e isto eu não
posso permitir.
— Escute — ele falou, tentando conter a irritação. — O acordo é justo
para nós dois mas, se preferir, peça a um advogado de confiança para examinálo.
— Não preciso dos conselhos de um advogado. Sei que não quero o
apartamento, e você não terá direito a visitas ilimitadas. — Ela cruzou os
braços. — Na verdade, prefiro sumir a assinar este acordo que não me dá o
mínimo controle sobre meu próprio filho!
— Foi você quem me procurou! — ele exclamou, contendo-se a custo. —
Estava apavorada e disposta a concordar com qualquer coisa que eu dissesse há
apenas dois dias atrás!
Ela inclinou o corpo para a frente.
— Eu estava desesperada e fui pedir sua ajuda, sim! Mas isso não
significa que eu aceitaria um acordo destes!
O garçom chegou com a bandeja do desjejum.
Marissa e Adam esperaram em silêncio que a refeição fosse servida,

aproveitando a chance para acalmar os ânimos.
— Eu pedi para você me ajudar, e não para assumir minha vida — disse
ela, assim que o garçom se afastou. — Portanto, sugiro que esqueçamos este
acordo absurdo agora mesmo.
A expressão dele se tornou dura feito pedra.
— Levarei você aos tribunais, Marissa.
— Terá de me encontrar, antes! — retrucou ela.
Pegou o garfo e começou a cortar, furiosa, os ovos com bacon que pedira.
Iria necessitar de muita energia...
— Quais seriam os seus termos? — perguntou Adam, de repente.
Ela o encarou e descobriu um leve indício de recuo. Muito leve, já que ele
não era de entregar os pontos com facilidade.
— Você pode ficar com o apartamento, e terá direito a visitas préestabelecidas como todos os pais divorciados, durante finais de semana, feriados
e férias de verão.
— E quanto à pensão da criança? — Ele estava recuperando a
agressividade.
Marissa suspirou, largando o garfo.
— Se for algo razoável... Você não vai poder “comprar” nenhum de nós,
nem terá permissão para mimar a criança em excesso, dando-lhe coisas que não
queira ou precise.
— Desejam mais café? — o garçom reapareceu com o bule na mão.
— Sim — responderam ambos em uníssono, e sorriram ligeiramente um
para o outro.
Mais tarde, quando entrou em seu carro, Marissa estava pensativa.
Adam podia ser teimoso, mas era um homem justo. Ela só precisava
tomar cuidado para que ele não se apropriasse de sua vida e da do bebê.
Sentia-se triste. Passara três anos imaginando amá-lo, e agora que tinha
certeza desse amor estava impossibilitada de fazer qualquer coisa.

Se apenas... Recusou-se, porém, a ficar sonhando com coisas impossíveis,
e concentrou-se nas compras que pretendia fazer.
Encontrou uma floricultura e comprou belos vasos de plantas e maços de
flores. Em um bazar, achou tapetes e passadeiras em liquidação e comprou
alguns, graciosíssimos, que certamente combinariam com o ambiente de seu
novo lar.
Voltou para o apartamento com o carro carregado, sentindo-se cansada
mas satisfeita. Cochilaria um pouco, depois cuidaria da instalação do telefone e
de outros detalhes.
Sozinho, Adam tomava outra xícara de café enquanto olhava através da
janela do restaurante. Estava irritado consigo mesmo. Deixara que Marissa
tomasse conta da situação, fazendo-o de bobo.
Como conseguira ignorá-la por três anos? Sabia que era bonita e
inteligente, duas qualidades suficientes para chamar-lhe a atenção.
Não era capaz de aceitar que ela houvesse invadido sua vida e o
desafiado, como só havia sido desafiado antes por homens de negócios.
Mas Marissa era diferente. Aproximara-se dele por compaixão, ofereceralhe consolo sem esperar nada em troca. E só voltara a procurá-lo porque
precisava de ajuda.
Não tinha pena dela, apenas um forte desejo de protegê-la. Estava irritado
porque Marissa não queria fazer o que ele achava melhor, e frustrado porque,
ainda assim, a desejava. Acima de tudo, porém, sentia-se confuso por ela não
agir da forma como estava acostumado a ver as mulheres agirem.
E quando ela estava por perto, sentia-se contente...
O garçom aproximou-se com um telefone sem fio na mão.
— Seu advogado, senhor.
— Obrigado. — Tentou concentrar-se antes de atender. — O que há,
Mike?

— Conseguiu fazê-la assinar os papéis?
— Ainda não.
— Eu tinha certeza! Acho que finalmente encontrou alguém tão cabeça
dura quanto você, meu amigo!

CAPÍTULO IV
Quando Marissa voltou ao seu apartamento, depositou os pacotes e as
plantas no meio da sala, sentindo-se exausta.
Havia driblado os guardas, subindo diretamente da garagem para o
apartamento, e agora se arrependia do gesto de independência. Esperar um bebê
era bem mais cansativo do que imaginara.
Deixou tudo como estava e dirigiu-se ao quarto, bocejando, a fim de tirar
uma bem merecida soneca. Deitou-se de lado e deixou que o sono a envolvesse.
Já estava entardecendo quando acordou, ainda zonza, mas sentindo-se
mais disposta a completar as tarefas que impusera a si mesma. Acima de tudo
devia manter-se ocupada, pois quando estava ocupada não tinha tempo para
pensar.
Os vários vasos de plantas e os tapetes coloridos colocados em pontos
estratégicos fizeram diferença na decoração. Em vez de parecer grande e vazia,
a sala dava a impressão de ser espaçosa mas aconchegante. As novas aquisições
transformaram o enorme ambiente em vários outros, menores.
Ainda estava admirando o efeito final de seu trabalho quando percebeu o
telefone sobre a mesinha próxima à lareira. Cuidadosamente, tirou o fone do
gancho. Ouviu o som de discar. Ainda não tinha tido tempo de pedir a instalação
do aparelho. Como...? O espanto transformou-se em raiva. Discou de imediato o
número do escritório de Adam. Tamborilando os dedos no tampo da mesinha,

aguardou até que tivesse tocado umas quinze vezes. Como ninguém atendesse,
desistiu. Mais tarde cuidaria do assunto, sem falta!
Dirigiu-se, irritada, até a cozinha. Menos de quinze minutos depois o
telefone tocou e ela gelou ao adivinhar quem era.
Só Adam podia saber seu novo número.
Atendeu mal-humorada, sem dar tempo a Adam para dizer o que queria.
— Droga, Adam! Pare de fazer tudo por mim. Eu sei muito bem procurar
um telefone sozinha!
— Puxa, Marissa, eu só estava querendo agradar. — ele argumentou. —
Você está grávida e...
O tom de voz conciliador e paternal fez com que ela se sentisse ainda
mais irritada.
— E gravidez por acaso é sinónimo de idiotice?
Adam devolveu a ironia.
— Às vezes é difícil saber.
Ela respirou fundo, forçando-se a ficar calma o suficiente para responder
à altura.
— Vá cuidar da sua vida e me deixe em paz, Adam Pierce — disse com
voz firme, e recolocou o fone no gancho com mão trêmula.
Uma taça de vinho ocasional era tudo que a obstetra lhe permitia, e
Marissa jamais precisara tanto de uma bebida como agora. Ela estava em pé no
terraço, deixando que o calor envolvesse todo seu corpo, fingindo que as
lágrimas não estavam querendo rolar pelo seu rosto. Suas mãos cobriam o
ventre ainda liso, como se estivesse abraçando o bebê.
Quando a campainha soou, procurou ignorá-la. Desde que essa roda- viva
começara ainda não tinha tido tempo de dizer aos amigos onde estava morando,
de forma que a pessoa lá fora só podia ser Adam Pierce.
A campainha soou novamente. Ela tomou mais um gole de vinho.
Pela terceira vez ouviu a campainha soar.

Forçou-se a olhar para baixo, observando o trânsito de fim de tarde.
Não escutou nenhum ruído, mas seu corpo inteiro pressentiu a presença
de alguém dentro do apartamento. Virou-se, a raiva estampada no olhar.
Deparou-se com Adam parado à porta do terraço, um enorme buquê de rosas
vermelhas nas mãos. Ele parecia quase humilde. Quase.
Marissa não pôde evitar um sorriso, mas recusou-se a ser a primeira a
falar.
Adam suspirou e declarou:
— Peço desculpas. Reconheço que errei, mas só estava tentando ajudá-la.
— Eu sei — ela disse com voz tão doce que mais parecia um sussurro.
Aproximando-se de Adam, ela observou seu rosto. Estava marcado pela
fadiga, mas também havia ternura em sua expressão, o que a encheu de
felicidade.
— Estas flores são para mim?
Ele sorriu, arrependido, e as linhas do rosto mudaram completamente.
— Só se você prometer não jogá-las fora.
— Eu prometo — ela respondeu, solene, tomando as rosas nos braços e
aspirando-lhes a delicada fragrância.
Adam tocou o lado do pescoço de Marissa, o polegar acariciando-lhe a
pele em torno da orelha.
— Eu não quis deixá-la zangada. Sinto muito.
A voz era rouca, deixando-a arrepiada de excitação.
— Eu sei. Você achou que estava me fazendo um favor ao assumir o
controle da minha vida.
— Achei, sim.
Ela franziu a testa ao tentar explicar seu ponto de vista:
— Gosto de fazer as coisas à minha maneira, Adam. Gosto de tomar
minhas próprias decisões a respeito do meu futuro.
Os dedos dele brincavam com uma mecha do cabelo de Marissa.

— Sei que demorou um pouco, mas acho que você me convenceu,
doçura.
Ele inclinou a cabeça e presenteou-a com um beijo carinhoso no rosto.
— Paz? — ela sussurrou.
— Paz — respondeu ele, em tom gentil.
Com um suspiro de prazer, Adam passou os braços em torno dos ombros
de Marissa, puxando-a para mais perto de si. Seus lábios cobriram os dela,
provocando-os com seu calor. Ela mal conseguiu pôr as rosas de lado a tempo,
salvando-as do esmagamento.
A boca de Adam tornou-se rude em razão do desejo que o invadia, do
medo de que Marissa pudesse desaparecer de repente. Só agora percebia o
quanto precisava dela.
Ele sentiu um tremor percorrer todo seu corpo enquanto a abraçava com
mais força. Sua língua explorava o calor da boca de Marissa com urgência.
Incapaz de se controlar, gemeu baixinho quando ela correspondeu timidamente
aos seus carinhos.
As mãos dela rodearam o pescoço de Adam, acariciando-lhe a nuca. Ele
pensou que fosse explodir de tanto desejo.
Tinha de tocar, explorar o corpo de Marissa, sentir-se seguro em seus
braços. Fechou os olhos e gemeu de novo quando seus dedos roçaram
sensualmente a maciez dos seios dela.
Marissa deteve, porém, os dedos exploradores.
— Não — ela sussurrou, sua mão cobrindo a dele.
Fazendo um grande esforço, Adam reabriu os olhos. Sua respiração
estava acelerada, o coração disparado.
Ambos se encararam, parecendo congelados no tempo e no espaço.
— Não — ele repetiu num tom triste, lutando para recuperar o
autocontrole.
Em seus trinta anos de vida, jamais se entregara com tanto abandono à

emoção. Afastando-se de Marissa, passou a mão pelos cabelos num gesto
nervoso.
— Sinto muito — disse. — Isto não vai acontecer de novo.
Ela tocou-lhe o rosto, acariciou-lhe o queixo.
— Ambos erramos, Adam. A situação simplesmente escapou de nosso
controle.
Ele podia sentir os dedos de Marissa tremerem. O que ela temia? Teria
ficado abalada também, por causa do beijo?
Adam ainda estava assustado com a enormidade da emoção que o
dominara há poucos instantes. Virou-se em direção à porta, o medo de uma
confrontação forçando-o a fugir do objeto de seu desejo: Marissa.
Marissa ouviu o barulho da porta se fechando. Seu coração quase parou
de tanto pesar. Adam saíra.
Deveria ter imaginado. Era só dizer “não” e ele ia embora. Não havia
mudado de idéia ou de sentimentos a respeito dela. As palavras de Adam
durante o encontro no shopping center voltaram-lhe à mente. “Você estava
disponível”...
Ele tinha razão. Ficara à disposição dele. Mas seus motivos para ir para a
cama com Adam eram totalmente diversos, nada tinham a ver com
disponibilidade.
Mas como ele poderia saber? Certamente não através de seu
comportamento agora ou no passado! Talvez pensasse que por ter ido para a
cama com ela uma vez, poderia fazê-lo sempre que quisesse. Afinal, o pior já
havia acontecido. Ela estava grávida.
Marissa pegou um pote vazio de geléia e começou a enchê-lo de flores,
concentrando-se no trabalho, procurando reprimir as lágrimas que ameaçavam
escorrer-lhe pelo rosto.
Tudo que podia fazer era manter-se o mais longe possível de Adam. Não,
isso também não estava certo... Apenas não devia estimular avanços sexuais,

embora soubesse que era mais fácil falar do que fazer.
Adam encaminhou-se diretamente ao bar em seu apartamento. Sabia que
não era a melhor hora para beber, mas pouco se importava.
Serviu-se de um copo de uísque e sentou-se no sofá. Droga! Acabara de
fazer papel de idiota, e pela primeira vez na vida não sabia como agir a seguir!
Sua consciência lhe disse que já pedira desculpas, mas sabia que não era
suficiente. Palavras contavam muito menos que atos, e sabia que havia se
queimado com Marissa.
Mas o que o apavorava era a perda total do auto-controle. Jamais agira
assim antes! Mesmo quando era jovem e se julgava apaixonado, nunca
experimentara uma emoção tão forte, um desejo tão intenso quanto o que sentira
por Marissa.
A situação toda estava escapando ao seu controle.
Por quê? Por causa do bebê, é claro. Queria-o tanto por ser seu filho
quanto por aquilo que representava: lar, amor, família, paz, alegria, riso... e
jamais sentir-se só novamente. Engraçado, mas sequer havia percebido o quanto
se sentia só até Marissa aparecer. Ela lhe ensinara o que era ter alguém, mesmo
quando a pessoa não estava presente.
— Maldita seja! — gritou Adam para si mesmo, a voz ecoando através da
sala vazia.
Marissa havia invadido sua rotina, seus sentimentos, seus pensamentos,
sua vida, enfim. E ela já ameaçara desaparecer se fosse pressionada demais...
Ele não podia deixar que isso acontecesse!
Subitamente, Adam percebeu que a desejava com uma paixão que beirava
a obsessão. Queria tê-la em seus braços, em seu coração, em seu poder. Mas
estava bem claro que ela não compartilhava seu desejo.
Depositando o drinque intocado sobre a mesa, ele pegou o telefone e
discou rapidamente alguns números.

— Alô! Judi? Tente me arrumar um vôo para Dallas ainda esta noite. A
seguir, marque uma reunião com Harrigan para amanhã de manhã. Quero
resolver logo o problema do leasing.
Despediu-se, desligou o telefone e dirigiu-se para o quarto, o drinque
abandonado na torrente de ação que ia fazê-lo esquecer seus problemas
momentaneamente.
Arrumou a mala em tempo recorde. Deu mais um telefonema à secretária
para confirmar o vôo e partiu.
Parou na entrada do prédio, rabiscou um bilhete, colocou-o dentro de um
envelope e o entregou a Arthur.
— Por favor, entregue isto a Marissa Madison — pediu por cima do
ombro, já indo embora.
— Sim, senhor — o rapaz respondeu.
Adam percebeu que conseguira arranjar para si mesmo o tempo de que
precisava para pensar antes de se confrontar com Marissa novamente. Três
longos dias de separação...
— Ele não parece ter uma boa opinião sobre as mulheres em geral —
disse Marissa, recostando a cabeça no sofá.
Estava sentada no chão, com as pernas cruzadas, usando sua roupa
preferida para ficar em casa: um camisão azul, velho, e calças de moletom
surradas. Segurava um xícara de chá nas mãos.
— E você lhe perguntou o motivo? — indagou Becca, sua melhor amiga
e companheira de profissão. — Será alguma fraqueza dele? Ou será que Adam
está tão acostumado a ter um monte de mulheres a seus pés que é só estender as
mãos e pegar uma quando quer?
O cabelo castanho-claro de Becca brilhou sob a luz de final de tarde
quando ela projetou o corpo para a frente para enfatizar o que dizia. Estava
sentada na mesma posição que Marissa, só que usava como apoio para as costas

a pequena poltrona estofada de segunda mão que a amiga comprara naquela
tarde. Seu olhar atento percorreu a sala.
— Do modo como Adam é rico... — murmurou Becca.
— Acho que é esse o problema — Marissa comentou. — Adam pensa que
todos estão atrás do dinheiro dele, especialmente as mulheres.
A expressão de Becca era séria ao fazer a pergunta seguinte.
— Você já contou aos seus pais?
Marissa olhou para a xícara, lembrando-se do tom preocupado da mãe ao
telefone, quando haviam conversado pela manhã. Ela não havia feito nenhum
comentário desaprovador, embora Marissa com certeza merecesse. E isso só fez
com que se sentisse ainda mais culpada.
— Falei com eles hoje cedo, logo depois de ter ligado para você.
— E como sua mãe reagiu?
— Ela virá me ver dentro de duas semanas, com meu padrasto. Disse que
me apoiará em qualquer decisão que eu tomar. — Engoliu em seco. — E Garner
disse a mesma coisa.
— Você realmente vai ter o bebê, Marissa? Não vai ser difícil para você?
Quero dizer... — Becca parou, sem graça.
— Vou tê-lo e ponto final. — Os olhos de Marissa se estreitaram. — E
não será tão difícil assim. Principalmente se Adam Pierce não interferir demais.
— Ele vai continuar ajudando você?
— Vai depender de chegarmos a um acordo. No último contrato enviado
por seu advogado, Adam aceita que o número de suas visitas seja limitado, e
oferece mil dólares por mês para o sustento da criança.
Os olhos já grandes de Becca ficaram ainda maiores.
— Mil dólares por mês? Doze mil por ano? Meu Deus!
Marissa assentiu e acrescentou:
— E eu poderei continuar morando aqui sem qualquer despesa.
— Mas isso é fantástico!

— Não. É chantagem. Não posso continuar morando aqui e esperar
encontrar trabalho neste distrito escolar. Todos me conhecem e sabem que não
sou casada.
— Mas você poderia lecionar em outro distrito aqui perto.
— Talvez. De qualquer jeito, ninguém me contrataria para o segundo
semestre, agora. Ninguém se arriscaria, sabendo que o bebê pode nascer antes
do final das aulas.
Apesar da situação difícil, Marissa não estava descontente. Nesse
momento só o que importava era o bebê. Seu bebê.
Imaginava uma criancinha cheirando a talco, com cabelos negros
ligeiramente encaracolados e grandes olhos cinzentos, uma covinha no queixo e
sobrancelhas bem desenhadas. Igual a Adam...
Seria uma menina. Podia sentir. Doce. Carinhosa. Alguém que recebesse
todo seu amor sem reservas.
— Marissa, se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-la, me
avise. Se não tiver para onde ir, meu apartamento está a sua disposição. Adam
me parece um sonho de homem, mas não quero que você fique com ele só por
achar que não tem mais para onde ir.
A sinceridade de Becca tocou-a de uma forma inesperada. Segurou a mão
da amiga e lhe deu um beijo.
— Obrigada, vou me lembrar disso — prometeu com doçura.
Ambas permaneceram em silêncio, observando o lindo espetáculo do pôrdo-sol.
Marissa não conseguia tirar Adam da mente. E se ele a amasse como ela o
amava? E se...
— Você fica para o jantar? — perguntou a Becca, determinada a afastá-lo
do pensamento.
— Não, obrigada — a amiga disse, relutante, enquanto levantava e se
espreguiçava. — Fiquei de me encontrar com alguns amigos para comermos

uma pizza, e não quero me atrasar. Escute, por que não vem comigo?
— Boa idéia — Marissa respondeu. Seria uma boa forma de espantar a
depressão. — Você espera eu trocar de roupa?
— Claro, mas não demore.
Em cinco minutos estava pronta. Vestira calça jeans e uma camisa
esportiva.
Adam estava sentado em frente a Jeff Harrigan no bar do hotel, tentando
descobrir o que estava fazendo em Dallas. Havia se encontrado com Jeff
naquela manhã, e juntos haviam discutido todos os assuntos pendentes, não
faltando ser dito mais nada. Começaram então a conversar sobre o que
dominava a mente de Adam nos últimos dias: Marissa. Adam jamais fora do
tipo de se abrir com os outros a respeito de sua vida particular, mas nesse
momento estava precisando de alguém que o ouvisse.
— Que tal a garota da mesa ao lado? — Jeff perguntou, brincalhão. —
Ela está dando a maior bola para você, meu chapa.
— Eu passo.
Jeff recostou-se na cadeira, olhando atentamente para Adam.
— O que está acontecendo, afinal? Você está esquisito desde hoje cedo.
Se eu não o conhecesse tão bem, diria que tem outra coisa em mente além de
trabalho.
— Como o quê, por exemplo? — Ele tomou um gole do seu Jack
Daniel’s, procurando ganhar tempo.
— Mulheres.
— Uma mulher — Adam corrigiu com um suspiro, erguendo o copo de
uísque. — A futura mãe do meu filho.
Os olhos de Jeff se arregalaram em sinal de descrença.
— Você é casado e nunca me contou? — perguntou, ainda sem poder
acreditar no que ouvira. — Nós somos amigos há tanto tempo, jamais imaginei

que você faria algo tão drástico sem me contar.
— Eu não sou casado com a garota — confessou Adam, embaraçado.
— E mesmo assim ela vai ter um filho seu?
Adam concordou.
— Sim, em dezembro, pouco antes do ano-novo.
— E você quer o bebê?
— É meu filho. Eu o quero, sim. — respondeu com uma nota de
determinação na voz.
Sorriu. Pela primeira vez desde que Marissa lhe dera a notícia, admitia o
quanto o bebê significava para ele.
Jeff inclinou o corpo para a frente, o rosto mostrando a expressão
inocente que costumava usar ao fazer uma pergunta matreira.
— E a mãe, o que ela quer?
— Ela quer o bebê, mas não necessariamente o pai — Adam afirmou,
tomando outro gole de uísque.
Maldita Marissa! O que havia de errado com ela? A maioria das mulheres
faria o impossível para ter o que ele podia oferecer, mas ela o jogara na lista dos
solteiros antes mesmo que tivesse oportunidade de pedi-la em casamento! Adam
lembrou-se da tarde anterior, quando tinham se beijado. Ainda estava assustado
com sua própria reação. E as emoções de Marissa haviam ficado evidentes, pelo
brilho diferente em seu olhar. Ela o desejara também, estava certo disso.
— O que você quer? — Jeff perguntou.
— Quero meu filho.
— E o que me diz da mãe?
Adam sorriu tristemente.
— Quero a mãe também, mas ela é temperamental, teimosa e
independente demais.
A risada alta de Jeff ecoou pelo bar.
— Exatamente a mulher de que você precisava! Alguém com coragem

para enfrentá-lo! Acho que eu gostaria de conhecê-la.
— Mas não vai. Marissa não quer nem saber de mim. Não quis sequer
assinar o contrato.
— Contrato? — O sorriso abandonou o rosto de Jeff.
— Mike redigiu um contrato estipulando que eu pagaria uma boa pensão
para a criança e lhe daria mais alguns extras em troca de algumas pequenas
concessões.
— Tipo?
— Visitas sem limite de horário ou de dia.
— E ela não mordeu a isca?
— Não.
— É, meu amigo, a parada vai ser dura! — exclamou Jeff, voltando a rir.
— Não ria, por favor, o assunto é serio — reclamou Adam.
Ele sequer tinha certeza de poder enfrentar o desafio que tinha pela
frente... Terminou de tomar o drinque e depositou o copo sobre a mesa. Ficar
sentado em um bar em Dallas não iria resolver seus problemas. Era hora de
voltar para Houston e tentar se entender com Marissa.

CAPÍTULO V
Marissa entrou no apartamento sem se dar ao trabalho de acender as
luzes. Já passava da meia-noite; o luar atravessava a porta de vidro do terraço,
iluminando ligeiramente a sala de estar.
Com um suspiro pesado, Marissa deixou a bolsa cair no chão, sentou-se
em um canto do sofá e olhou através da janela para a cidade imersa em sombras.
Mesmo rodeada de amigos, jamais sentira-se tão sozinha em sua vida
como nesta noite.

— Ficar fora até tão tarde não é bom para a saúde do bebê.
Seu coração disparou e ela pulou de susto ao ouvir a voz de Adam.
Acendeu a luz imediatamente.
— Morrer de susto também não — respondeu, os olhos se estreitando
enquanto olhava para o bonito rosto másculo.
Adam Pierce estava em pé perto da janela e os olhos escurecidos traíam
sua raiva.
— Onde diabo você estava? — perguntou ele.
— Saí com alguns amigos. Onde diabo estava você?
Adam afastou-se da janela e enterrou as mãos nos bolsos.
— Precisei ir a Dallas, a negócios. Com que tipo de amigos saiu?
Homens? Mulheres?
— Ambos — respondeu, irritada.
— Quer dizer que é só eu dar as costas para você sair?
A raiva tomou conta de Marissa. Por acaso ele pensava que só porque
pagava seu aluguel também era seu proprietário?
— Fui tentar me divertir um pouco, por acaso isso é proibido?
Adam se aproximou, tirando as mãos dos bolsos para repousá-las com
delicadeza nos ombros de Marissa, uma expressão de arrependimento no rosto.
— Desculpe-me. Tenho sido um canalha com você, não é?
Incapaz de responder por causa do nó que se formara em sua garganta, ela
fez que sim com a cabeça.
Um ligeiro sorriso iluminou o rosto dele.
— Eu gostaria de ter uma explicação lógica para o meu comportamento
mas, para dizer a verdade, não tenho. Só o que posso dizer é que sinto muito.
Os olhos de Marissa procuraram pelos de Adam, medo e esperança se
fundindo.
— Aceito suas desculpas — disse ela por fim, calmamente.
As mãos dele acariciaram-lhe os ombros.

— Obrigado. Por que não nos sentamos um instante, quietos? Depois vou
embora e deixo você dormir. Prometo.
A ausência de arrogância na atitude de Adam a surpreendeu. Mas também
a assustou. O que acontecera a ele desde que o vira pela última vez? Marissa
virou-se, fugindo do magnetismo de Adam. Retornou ao seu cantinho no sofá e
pediu, fria:
— Quando você sair, pode deixar sua cópia da chave sobre a mesa?
Adam soltou um suspiro de cortar o coração e sentou-se perto dela,
dizendo:
— Está certo. Nada mais justo. Eu apenas quis verificar se estava tudo
bem com você.
— Aprecio sua preocupação, mas sou bastante capaz de me cuidar
sozinha.
Ele pegou a mão de Marissa, colocando-a sobre sua perna.
— Gosto de sentir seu toque — admitiu, terno. Abraçou-a e puxou-a para
si, sussurrando-lhe ao ouvido: — Relaxe. Não vou mordê-la, só quero ficar
junto de você por alguns instantes.
O corpo dela foi se descontraindo lentamente. Bocejou. Adam acariciavalhe o cabelo, fazendo com que se sentisse mimada.
— Deu tudo certo em sua viagem? — perguntou Marissa, a voz sonolenta
rompendo o silêncio que tomava conta do apartamento.
— Deu. E você, divertiu-se esta noite?
— Sim — disse ela, movendo a cabeça para apoiá-la melhor sobre o
ombro de Adam. — Fui comer uma pizza com alguns professores colegas meus
e ficamos conversando até agora.
— Parece divertido.
— Sim, foi gostoso. São todos muito dedicados à profissão, e têm
histórias interessantes para contar...
Os olhos de Marissa fecharam-se pesadamente. O ombro de Adam era tão

confortável... Com um suspiro, ela adormeceu.
Adam continuou sentado no pequeno sofá, no escuro, relutante em deixar
Marissa, adormecida. A cabeça dela estava apoiada em seu ombro, os cabelos
longos espalhados sobre seu peito. Ele engoliu em seco, tentando dissolver o nó
em sua garganta. A futura mãe de seu filho estava a salvo e a seu lado. Isso era
tudo que importava.
Antes de sair de Dallas, havia ligado para o apartamento de Marissa e
ninguém atendera. Tomara o primeiro vôo disponível para Houston, chegando à
cidade em menos de uma hora. O tempo que passara no apartamento,
aguardando a chegada dela, parecera-lhe uma eternidade. Ficara imaginando um
possível acidente, uma tragédia qualquer.
Sabia que estava se apaixonando por Marissa, e a dor era insuportável.
Ainda mais por saber que seu comportamento em relação a ela não tinha sido
dos melhores até então, e agora podia custar-lhe sua amizade, sua confiança...
seu amor.
Marissa suspirou, movendo-se ligeiramente. Ela era tão pequena, tão
frágil... E tão lutadora!
Adam estendeu a mão livre e gentilmente tocou-lhe o ventre.
Seu bebê. O bebê de ambos. Um milagre que desejava muito. Queria os
dois, mãe e filho.
Teria de encontrar uma forma de convencer Marissa a ficar com ele. Teria
de provar que podia ser bom pai e marido. Tê-la como sua esposa seria a única
forma de recuperar a paz perdida.
A voz sonolenta de Marissa interrompeu-lhe o devaneio.
— Adam?
— Sim, amor? — ele murmurou, acariciando-lhe a testa com os lábios.
— Você deveria estar na cama. Deve estar exausto por causa da viagem.
A voz dela soou bem mais baixa que o habitual, quase um sussurro

apaixonado.
— Não tive coragem de deixá-la. Você dormia tão tranquila — ele
respondeu, carinhoso.
Marissa se recostou no sofá, e bocejou, dizendo:
— Pode ir. Eu preciso dormir.
Adam afastou-se, relutante. Depois, movido por um impulso, deu-lhe um
beijo na testa. A seguir, levantou-se.
— Nos vemos amanhã cedo, no café da manhã?
Marissa sorriu.
— Sim.
Ele a deixou a sós. Enquanto caminhava pelo corredor cantarolava uma
balada romântica. Segurava nas mãos a chave do apartamento de Marissa.
Marissa acordou e estranhou por não estar se sentindo enjoada. Fechou os
olhos e sorriu. Adam ficara enciumado na noite anterior. Mas teria sentido
ciúmes dela como mulher ou como futura mãe de seu filho? Seu instinto lhe
dizia que o segundo motivo era mais forte, e decidiu que era melhor parar de
fantasiar.
Por outro lado, Adam ficara com ela por um bom tempo, abraçando-a
com muito carinho. E este era o problema: ele gostava dela, mas não a amava.
Já era um bom começo, porém. Se começassem a confiar um no outro,
talvez pudessem se tornar amigos. Marissa refletiu sobre o passado. Se seus pais
houvessem sido amigos, sua infância não teria sido tão difícil...
Sorriu, sonhadora. Seu bebê teria a vantagem de possuir pais que, se não
podiam se amar, no mínimo teriam uma relação de amizade. Isso era o mais
importante.
De repente, seu estômago se manifestou e ela pulou da cama. O bebê
acabara de acordar.

Adam estava em frente ao espelho, arrumando a gravata mais uma vez.
Naquela manhã havia mandado flores para Marissa com um cartão que dizia
“Temos negócios a tratar”, esperando despertar sua curiosidade.
Se tudo desse certo, pretendia pedi-la em casamento.
Depois de tê-la segurado em seus braços por boa parte da noite, sabia que
não podia deixá-la. Estava apaixonado e a única coisa que podia fazer era tomar
uma atitude drástica: casar com ela. Talvez assim conseguisse se concentrar nos
negócios novamente pois, no momento, Marissa invadia seus pensamentos a
todo instante, deixando-o maluco!
Lançou mais um olhar ao espelho e afastou-se. Estava ansioso por
encontrá-la. Seu estômago se contraiu só de pensar nela. Era tudo o que jamais
havia encontrado em uma única mulher: honesta, graciosa, espirituosa,
encantadora.
E teimosa, também! Não importava o que ele fizesse para conquistá-la ou
intimidá-la, Marissa simplesmente não concordava em assinar o contrato porque
não o considerava bom para a criança. íntegra era uma boa palavra para
descrevê-la.
Minutos mais tarde, impaciente, Adam tocou a campainha do
apartamento de Marissa. E se ela não aceitasse seu convite para sair? Tal
possibilidade não lhe ocorrera até então, mas agora o assustava. Assim que a viu
abrir a porta, teve certeza de que ela iria recusar.
— Oi — cumprimentou-o Marissa, sorrindo. Ela usava uma elegante
túnica verde, longa, que lhe caía perfeitamente bem. — Você não quer entrar?
Recebi seu bilhete, mas já havia convidado uns amigos para jantar. Como você
não ligou e eu não tenho o número do seu telefone, não tive como avisá-lo.
Ele havia esquecido o principal. Droga! Dera-lhe todos os números para
contatá-lo, menos o de seu apartamento.
— Você poderia ter deixado um bilhete com o porteiro — argumentou
Adam, tentando controlar a irritação.

Ela lhe dirigiu um sorriso encantador.
— Tem razão. Pena eu não ter pensado nisso antes — concordou. —
Bem, já que está aqui, por que não entra? Vou lhe apresentar meus amigos.
Não havia alternativa senão aceitar a sugestão.
Na sala havia um rapaz moreno, usando camiseta pólo e calça jeans,
sentado na poltrona próxima ao terraço, um drinque na mão, olhar perdido no
horizonte.
— Ted? Quero que você conheça Adam Pierce. Adam, Ted é professor de
inglês na escola onde eu lecionava — disse Marissa.
Ted levantou-se. Os dois homens se olharam com desconfiança enquanto
trocavam um aperto de mãos.
— Será que ouvi vozes? — perguntou Becca saindo da cozinha e
entrando na sala. — Você deve ser Adam Pierce, eu suponho — disse,
estendendo a mão. — Eu sou Becca Hines, também professora.
De repente ele sorriu, encantador.
— É um prazer enorme conhecê-la, Becca.
Adam havia percebido a jogada das duas amigas; Becca permanecera na
cozinha para fazer com que ele pensasse que Marissa e Ted tivessem alguma
coisa. O que elas não sabiam, porém, é que um terceiro elemento podia entrar
nesse jogo.
— Você também trabalhava com Marissa, Becca? — indagou ele, num
tom galante.
Adam continuou flertando com Becca, para desespero de Marissa, que
não conseguiu suportar por muito tempo a cena e os interrompeu bruscamente.
Ao sentir o clima pesado, Adam preferiu se retirar.
— Acho melhor eu ir andando — disse, sem graça.
— Mas você foi convidado para jantar! — exclamou Becca, e depois
olhou para a amiga. — Você o convidou, não é mesmo?
Marissa assentiu.

— Convidou? — Adam perguntou, na dúvida.
— Sim. Ou melhor, eu ia convidá-lo, mas você não me deu tempo de
falar — explicou ela.
— Se é assim, então eu fico.
O jantar foi mais calmo e agradável do que Adam imaginara. Os
convidados de Marissa eram bem-humorados e inteligentes. Ele discutiu com
Ted os novos testes para professores que estavam sendo exigidos no Estado do
Texas e conversou com Becca sobre todos os barzinhos de Houston que
tocavam jazz. Ficou de olho em Marissa, enquanto ela servia todo mundo. A
comida estava deliciosa: frango ao molho pardo, legumes com queijo e salada.
O vinho era um suave Côte du Rhône. Para finalizar, café irlandês, servido com
biscoitos amanteigados. Se não estivesse tão ansioso por arrastar Marissa para o
altar — e para sua cama — Adam gostaria que a noite demorasse a terminar.
Mas ele a queria muito, e logo. Toda vez que olhava para ela sentia um
arrepio de desejo percorrer-lhe o corpo todo. De vez em quando Ted olhava para
Marissa de um jeito especial ou fazia alguma brincadeira com ela, e Adam,
enciumado, tinha de se segurar para não puxar briga com o rapaz. Talvez por
isso tenha preferido conversar mais com Becca, mantendo-se longe de Ted.
Quando Becca e Ted se despediram, Adam colocou um braço em torno
dos ombros de Marissa. Ela era sua, e os colegas dela podiam ir se acostumando
com isso. Talvez até espalhassem a notícia entre o resto dos amigos.
— Pode ir tirando o sorriso satisfeito do rosto e acabar com a farsa —
disse Marissa livrando-se do abraço assim que Becca e Ted foram embora. —
Você já foi bem-sucedido em seu esforço para me fazer parecer sua amante.
Os olhos de Adam se estreitaram. Onde fora parar a mocinha doce que
estivera rindo e brincando com as visitas até instantes atrás?
— Por que está tão brava? — indagou, confuso.
— Você se apropriou de mim, como se eu lhe pertencesse — ela disse,
desgostosa, cruzando os braços como se esperasse por um pedido desculpas.

— É mesmo? Pois fico contente em saber que fui bem-sucedido. Odiaria
saber que seus amigos são tão burros a ponto de não constatarem o óbvio, e...
Marissa esperou que Adam concluísse o pensamento, mas ele parou de
falar e a encarou, esperando para ver qual seria a reação dela.
Marissa foi assaltada por emoções conflitantes. Não sabia se ficava
zangada com Adam ou simplesmente esquecia o acontecido. Indecisa, virou-se
na direção da janela.
Adam percebeu que ela estava perto de começar a chorar. Com passos
cautelosos, aproximou-se e abraçou-a carinhosamente por trás, envolvendo-a
com seu calor.
— Sinto muito — ele murmurou, acariciando-lhe os cabelos.
Ela encostou a cabeça contra o peito dele e suspirou.
— Não, não sente — objetou, desanimada. — Você fez isso de propósito.
Apenas não pensou que fosse me deixar embaraçada. Ainda não percebeu que,
em vez de me sentir segura por você querer cuidar de mim, eu me sinto vulgar e
usada!
Adam virou-a de frente para poder olhar para ela. A expressão no rosto de
Marissa assustou-o. A coragem que sempre admirara tanto desaparecera. Ele a
havia roubado. Era o que quisera desde o começo, mas agora percebia que
cometera um erro. Desejava Marissa como era antes, brigona e decidida.
— Tem razão — disse ele, devagar, como se estivesse revelando um
segredo. — Por favor, me ensine a compreendê-la. Você é um mistério para
mim e, por mais que eu tente, não consigo desvendá-lo. Me ajude.
Ela balançou a cabeça, pesarosa.
— A situação é bastante simples, Adam. Você não pode me possuir,
alugar ou comprar. Eu posso me entregar, mas você não pode me tomar à força.
Não sou uma propriedade sua. Sou uma pessoa com idéias e sentimentos
próprios. Meus sonhos são tão importantes quanto os seus.
Ela sondou-lhe o olhar em busca de compreensão, mas o que viu foi

confusão.
— Se você estivesse quase conseguindo fechar um negócio importante e
um concorrente atravessasse seu caminho, o que faria, Adam?
— Eu o eliminaria — ele respondeu, não entendendo onde Marissa queria
chegar com tal analogia.
— Muito bem, pois você está atravessando o meu caminho. O que devo
fazer? Eliminá-lo de minha vida ou ficar quieta e deixar que me domine?
— Eu não vou sair de sua vida, Marissa — argumentou Adam, e suas
mãos se crisparam nos ombros dela.
— Você acha isso justo? — ela perguntou com brandura. — Por que eu
não posso cuidar de minha própria vida?
— A sua gravidez também me diz respeito.
Ela sorriu, triste.
— E isso nos leva de volta aos “negócios a tratar”...
— Nós somos duas pessoas com algo mais em comum além do bebê ou
de negócios, Marissa, não importa o que você pense.
— Não! Foi você quem quis assim. Eu tentei ser sua amiga, mas não deu
certo. Amigo não tira vantagem de amigo, e você fez isso comigo várias vezes
esta noite!
— Eu só queria que...
— Você queria que todo mundo ficasse sabendo que eu sou sua
propriedade privada! — Marissa completou.
Aos poucos, Adam começou a compreender o que ela dizia. De repente,
sentiu seu coração ficar pesado como chumbo.
— Marissa...
Ela se afastou, dizendo:
— Um momento, por favor.
Com passos rápidos ela entrou em seu quarto, reaparecendo a seguir com
um papel na mão. Entregou-o a Adam.

— Aqui está o contrato que você queria que eu assinasse. Está feito, está
entregue. Agora é melhor você ir embora.
A voz dele ameaçou tornar-se um grito:
— Espere um minuto, droga! Precisamos conversar!
— Não. Eu estou exausta e quero que você vá embora. Se tiver algo a me
dizer, ligue amanhã à tarde. Pretendo dormir a manhã inteira.
Ele não soube o que dizer. Sem mais uma palavra virou-se e saiu,
deixando seu coração nas mãos de uma mulher que dava todos os sinais de
detestá-lo.

CAPÍTULO VI
— Pelo que conheço de você, minha filha, sei que jamais teria ido para a
cama com um homem que não amasse.
A mãe de Marissa estava sentada sobre a cama, com as pernas cruzadas,
os olhos negros observando o turbilhão de emoções que modificava
constantemente a expressão da filha.
Exceto pelo fato da mãe de Marissa ser bem mais alta, as duas eram
muito parecidas. Ambas usavam jeans com camiseta folgada e tinham cabelo
preto e comprido, só que os de Jessica Pace estavam presos em um rabo de
cavalo.
Haviam se retirado para o quarto há mais de meia hora, a fim de
discutirem o assunto, deixando Garner Pace sozinho na sala.
Apesar de Marissa tentar esconder seus sentimentos por Adam, era- lhe
quase impossível não deixá-los transparecer.
— Por que você sempre vai direto ao ponto, mamãe? — perguntou,
fingindo-se de brava.

Jessica segurou a mão da filha entre as suas.
— Nós duas sabemos que eu também já passei pela mesma situação,
querida, e tentei transmitir minha experiência a você. Talvez tenha exagerado.
O olhar surpreso de Marissa encontrou-se com o da mãe.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que existe uma diferença entre amor e luxúria, e pela
expressão no seu rosto eu diria que encontrou o amor. Você passou pela fase da
luxúria sem se deixar levar. Agora está apavorada com essa gravidez porque
sente medo do amor. — Jessica acariciou a mão de Marissa. — Não deixe o
medo atrapalhar sua felicidade, querida.
— Tem certeza de que não está dizendo isso só por estar com vergonha
da minha gravidez, mamãe? — A voz de Marissa estava cheia de receio e
esperança.
Jessica balançou a cabeça.
— Fico triste por você e lamento o caminho que escolheu. Eu escolhi a
mesma coisa para mim há mais de vinte e quatro anos, e já conheço alguns dos
problemas que vai enfrentar. Mas eu jamais teria vergonha de minha própria
filha. Eu te amo muito, Marissa. Sei que as decisões a respeito de sua vida têm
de ser tomadas por você, porque é você quem vai ter de assumir as
conseqüências, não eu.
Marissa tentou sorrir, mas não com muito sucesso.
— O problema é que não estou muito segura de estar fazendo a coisa
certa, mamãe.
— Você tem certeza de que Adam não ama você?
Marissa balançou a cabeça afirmativamente.
— Adam tem se mostrado muito interessado, preocupado e gentil, mas já
deixou claro, desde o começo, que não quer se casar. Ele deseja apenas ter livre
acesso ao filho. — Ela inclinou a cabeça, o cabelo comprido cobrindo-lhe um
lado do rosto. — Além do mais, eu sei como seria um casamento nestas

circunstâncias. Eu não quero isso para mim, mãe. Já foi difícil demais ver como
você e papai viviam.
— E por estar preocupado, apesar de não amá-la, Adam fez você mudar
para cá e assinou um contrato praticamente lhe dando este apartamento, além de
estipular uma mesada e garantir o direito de visitar o filho... Tudo isso por causa
de um bebê que ainda nem nasceu! — Jessica constatou, pensativa. — Querida,
ele não precisava ter feito contrato nenhum. Teria conseguido tudo isso em
qualquer tribunal, com muito menos trabalho!
Marissa levou as mãos à cabeça, como que tentando apagar a dor que
parecia ter se instalado nela permanentemente.
— Não sei de mais nada, mamãe. Estou tão confusa!
Jessica segurou-a com carinho nos braços, como fazia quando a filha era
criança. As lágrimas finalmente rolaram.
— Não se preocupe, querida. — Jessica a consolou. — Tudo vai dar
certo.
— E tem outra coisa, também — Marissa resmungou. — Eu passo o dia
inteiro chorando!
— Isso é perfeitamente normal, por causa da gravidez. Você vai passar
mais um mês chorando e vai chorar à toa de novo depois que o bebê nascer.
Jessica se levantou da cama e Marissa mais uma vez se espantou com a
expressão de permanente felicidade no rosto bonito da mãe. Essa felicidade toda
se devia ao marido de Jessica, Garner. Marissa também adorava Gar, como se
ele fosse seu verdadeiro pai.
— Agora lave o rosto e venha para a sala, querida — a mãe ordenou,
docemente. — Tenho certeza que Gar está bastante preocupado. Ele estava
querendo matar Adam... Não vamos lhe dar mais motivos para se preocupar.
— Já estou indo — Marissa prometeu, dirigindo-se ao banheiro.
Lavou o rosto, olhou para seu próprio reflexo no espelho.
O que você quer da vida, afinal?, perguntou a si mesma, mas não teve

coragem de responder. Sabia muito bem o que desejava: o amor de Adam. Mas
não havia como ter certeza de tal amor. Jamais saberia se os sentimentos de
Adam por ela eram sinceros ou apenas uma forma de ter acesso à criança que
ainda estava por nascer.
Começou a chorar novamente.
Só conseguiu se recuperar meia hora depois. Ao entrar na sala, deparouse de repente com uma cena chocante. A expressão de espanto em seu rosto fez
com que todos se calassem na mesma hora.
Sua mãe estava sentada no sofá, uma xícara de chá na mão. Gar estava
em pé ao lado da porta de vidro que dava acesso ao terraço, o cabelo grisalho
brilhando sob o sol. E Adam estava com ele. Os dois davam a impressão de
terem se tornado ótimos amigos.
O sorriso de Adam sumiu-lhe dos lábios enquanto caminhava na direção
de Marissa, estendendo as mãos para segurá-la pelos ombros.
— O que aconteceu? Você não está se sentindo bem?
— O que está fazendo aqui? — perguntou Marissa, pálida de raiva. —
Não me lembro de tê-lo convidado!
— O segurança me disse que sua mãe e seu padrasto estavam aqui, e eu
não queria que você tivesse de enfrentá-los sozinha — ele respondeu baixinho,
para que só ela o ouvisse.
— Quanta consideração — ela sussurrou de volta. — Mas não precisava
ter se incomodado, eu não estou enfrentando a Inquisição Espanhola! Trata-se
apenas da minha família.
Ele sorriu.
— Você está sempre me recriminado, Marissa Madison. Poderia me
explicar por quê?
Ela o ignorou e afastou-se.
— Eu suponho que vocês já se apresentaram uns aos outros — disse
Marissa, por fim, para quebrar o silêncio que tinha se instalado no ambiente.

— Nós nos apresentamos e conversamos — disse Gar, olhando para
Jessica em busca de aprovação.
— E agora que vocês conheceram o pai do meu bebê, qual é o veredicto?
— perguntou Marissa, sabendo que estava se comportando feito uma criança
mas incapaz de agir de outra forma.
— Marissa... — a voz de Gar continha uma reprimenda.
Adam aproximou-se um pouco dela, declarando:
— Jessica e Gar concordam comigo, acham que nós temos chance de
fazer um bom casamento.
As palavras de Adam tiveram o efeito de uma bomba.
— Eu não acredito! — Marissa exclamou após recuperar-se do espanto,
os olhos arregalados de raiva.
Sua mãe e o homem que aprendera a amar como pai não iriam fazer isso
com ela. Não podiam pressioná-la contra sua vontade!
— Marissa... — começou Jessica.
— Não! — gritou Marissa virando-se para a mãe e o padrasto, a dor que
sentia transparecendo no olhar. — Vocês concordam com Adam? Por Deus, não
posso acreditar! Depois de terem sofrido tanto no passado por causa de uma
situação igual à minha, querem que eu cometa o mesmo erro?
— Queremos que você faça o que achar melhor, minha filha —
argumentou Jessica. — Mas Adam nos confessou que a ama, e você acabou de
admitir para mim, lá no quarto, que também o ama. Por acaso é errado Gar e eu
querermos que você seja feliz?
Adam começou a se mover, depois parou como se não tivesse certeza de
ter ouvido direito.
— Você me ama, Marissa? — ele indagou, a voz trêmula de emoção.
Ela ergueu o queixo em sinal de teimosia.
— Leia meus lábios, Adam! Nós... não... vamos... nos... casar!
— Por quê?

A boca de Marissa se abriu, depois fechou e abriu novamente. Ela não
sabia o que dizer.
Gar segurou o braço da esposa, murmurando:
— Acho melhor deixá-los a sós, Jessica. Por que você não me leva para
conhecer o resto do apartamento
Assim que ficou sozinho com Marissa, Adam tocou-lhe o rosto com a
ponta dos dedos, acariciando a pele molhada de lágrimas.
— Eu te amo, Marissa.
— Verdade? — Ela queria acreditar nele, mas sabia que era só um sonho.
— Desde quando?
— Não sei. Só sei que te amo.
Os dedos dele percorreram-lhe os lábios. Sua respiração estava quente, o
olhar mais quente ainda. O coração dela quase se desintegrou. Aquilo era olhar
de desejo, não de amor.
— Mentira! Você quer é me levar para a cama, para ver se me faz mudar
de opinião em relação às suas habilidades como amante. Você quer meu filho,
que também é seu. Mas isso não significa que você me ama, Adam! —
argumentou ela com voz triste.
— Mas eu te amo — insistiu ele num tom doce e meigo.
— Então por que ficou tão aliviado quando percebeu que eu não estava
lhe cobrando casamento? Por que fez o contrato? Por que moramos em
apartamentos separados? — Ela continuou a falar antes que ele pudesse elaborar
desculpas. — Você apenas acha que casar é a coisa certa e apropriada a ser feita,
especialmente por ter conhecido mamãe e Gar e percebido que formamos uma
família simpática!
— E o que a faz pensar que eu não te amo? — ele perguntou, tentando
manter o tom de voz mais controlado possível.
— Porque se você me amasse teria percebido antes. Iria querer se casar
comigo desde o princípio. A sua atitude de agora é apenas uma reação natural à

paternidade. Vai passar logo, pode apostar!
— Desde quando você se tornou a Srta. Freud? — provocou Adam.
Marissa afastou a mão dele de seu rosto, irada.
— Pare de agir como se fosse meu pai!
— Eu não me atreveria a tanto. — Estendeu a mão direita, tocando-lhe o
ventre. — Mas este bebê é nosso. Eu plantei a semente quando fizemos amor.
Nós dois fomos necessários para concebê-lo, e vamos continuar sendo
necessários para educá-lo. Eu quero você e o bebê. O que há de errado nisso?
— Você não percebe? — Marissa apoiou a mão no peito dele. — Eu
preciso ser amada, também. Talvez não por você, mas por alguém que me
considere única. E o homem com o qual me casarei terá de me provar isso com
palavras e atos.
Adam suspirou profundamente, puxando-a para perto de si.
— Eu não demonstro que te amo — ele disse, transformando a pergunta
em uma afirmação.
— Não — ela sussurrou.
— Um dia ainda provarei que meus sentimentos são verdadeiros, Marissa
— ele prometeu.
Em seguida, sua boca cobriu a dela devagar mas com firmeza,
envolvendo-a com seu cheiro, sabor e textura. As mãos de Marissa
escorregaram do peito másculo para o pescoço, enlaçando-o num abraço.
Adam afastou-se com relutância, quase sem fôlego diante da intensidade
do beijo trocado.
— Você já admitiu que me ama. No que me diz respeito, isso já é
suficiente para um casamento dar certo.
Marissa fez menção de interrompê-lo, mas ele pressionou os dedos contra
os lábios rosados, delicados, e prosseguiu:
— Eu estou disposto a fazer o que for necessário para convencê-la de que
a amo. Por isso esteja preparada, Srta. Madison!

Ela afastou-se de Adam, caminhando para o outro lado da sala enquanto
argumentava:
— Por favor, tente encontrar outro alguém com quem brincar. Quando a
criança não for mais uma novidade e sim uma peça do cotidiano, quando você
começar a perder o interesse, quem vai sofrer sou eu.
— Droga! — praguejou ele. — Você é a mulher mais teimosa que já
conheci! — Caminhou até a porta de entrada. — Isso é só o começo, Marissa.
Prepare-se!
E com esta promessa ou ameaça, ela não sabia muito bem, Adam se foi.
Marissa sentou-se no sofá, desnorteada. Seu mundo estava de pernas para
o ar. Se a situação não fosse tão trágica, teria caído na risada.
O homem a quem amava há mais de três anos, o pai de seu filho, acabara
de pedi-la em casamento. E ela recusara por causa de sua própria insegurança.
Tentou relaxar e ouviu sua mãe e seu padrasto conversando
tranqüilamente no quarto. Onde quer que estivessem, Jessica e Gar sempre
tinham prazer com a companhia um do outro. A proximidade de ambos
enfatizava ainda mais a solidão de Marissa.
— Mãe? — chamou ela, com voz tristonha.
— Já acabou? — Jessica colocou a cabeça para fora do quarto, sorrindo
para a filha.
— Acabou o quê? — perguntou, cansada.
— A terceira guerra mundial.
— Não, mas a bomba de hidrogênio acaba de partir.
A mãe aproximou-se dela e lhe deu o abraço confortador de que
necessitava.
— Querida, Adam te ama. Não há nada de errado nisso.
— E como você sabe que não são só palavras que ele usa para conseguir
o que quer?
— Como é que eu posso saber? Mas ele está fazendo de tudo para

conquistá-la, isto eu posso dizer. E esta não é uma forma de amar?
— Eu sempre amei meus gatos, mas jamais pensei em me casar com um
deles — Marissa respondeu de pronto, arrependendo-se ao perceber que
magoara Jessica. Tocou-lhe a mão, de leve, em sinal de desculpa.
— Sinto muito. Não sei de mais nada, mãe. Simplesmente não sei.
Jessica se recostou no sofá, olhando para a filha.
— Você está muito confusa — comentou. — Lembre-se só de uma coisa.
Adam veio até o seu apartamento sabendo que estávamos aqui. Para isso foi
necessária muita coragem. Ele também disse a Gar que queria que você se
casasse com ele.
— Mamãe, você só está me deixando ainda mais confusa! — lamentouse. — Você é uma romântica, que acredita que o amor sempre triunfa no final.
— Vá com calma, Marissa — a mãe disse gentilmente, ignorando o
comentário. — Não vire as costas a alguém que talvez possa lhe trazer muita
felicidade. Não seja tão teimosa.
Marissa soluçou. Quantas vezes já ouvira este conselho quando era mais
nova?
— Tentarei, mamãe, eu prometo.
— Posso entrar? — O belo rosto do padrasto apareceu à porta.
— Sim, acho melhor, Gar. Você deve estar com os ouvidos cansados de
ficar tentando escutar a conversa à distância — brincou Jessica.
Marissa desejou poder dar um abraço gigante nos dois. Apesar de todos
os problemas, ainda era a garota mais feliz do mundo por ter Jessica e Gar a seu
lado.
Adam recostou-se na cadeira, olhando para a caneta sobre a mesa à sua
frente. Havia assinado os papéis que a secretária lhe trouxera sem ao menos lêlos, coisa que jamais fizera antes. Há três meses atrás, quase havia perdido tudo
o que possuía, e tivera de dar duro para recuperar seu patrimônio.

Mas agora não conseguia se concentrar em nada que dissesse respeito a
trabalho, e sabia o motivo: seus pensamentos estavam completamente voltados
para Marissa. A cena dessa manhã não lhe saía da mente. Quase enlouquecera
ao ouvir que ela o amava, mas agora se surpreendia por não ter adivinhado a
verdade desde o começo. Marissa não era o tipo de mulher que dormia com um
homem sem sentir nada por ele.
Adam havia preferido ignorar isso porque não quisera encarar seus
próprios sentimentos em relação a ela. Mas agora já tinha dito tudo. Queria que
Marissa fosse sua esposa e iria tê-la, nem que fosse a última coisa que fizesse!
Se ela admitira seus sentimentos, ou se Jessica o fizera por ela, dava na mesma.
Sabia que Marissa o amava. Não fazia sentido esperar que ela confessasse este
amor uma segunda vez!
O devaneio de Adam foi interrompido pelo som de passos determinados
que se aproximavam de seu escritório. Não precisou erguer a cabeça para saber
quem era: seu pai.
— Que história é essa de você engravidar uma dona por aí? — o pai
perguntou-lhe de cara, antes de acabar de entrar na sala.
O olhar desaprovador que lançou ao filho foi quase cômico.
— Se pretende se intrometer na minha vida, pelo menos feche a porta —
Adam pediu, calmo.
O Sr. Pierce fechou a porta com estrondo, indagando:
— É verdade, filho?
Adam olhou com firmeza para o homem que só lembrara que era seu pai
quando ele começara a ser bem-sucedido nos negócios.
— Sim.
— O que ela quer? Dinheiro? Casamento? Ambos?
— Por que quer saber? Trata-se do meu dinheiro e do meu estado civil,
não do seu!
Adam não conseguiu manter a voz num tom civilizado. Sendo seu pai ou

não, ele não gostava das atitudes do homem mais velho com relação à vida em
geral e às mulheres em particular.
O pai o encarou, desafiador, e Adam notou que usava um terno novo. A
cor cinza, combinada com a gravata vermelha, ia muito bem com o cabelo
grisalho, conferindo-lhe um ar distinto. Era um mulherengo nato. E Adam com
certeza receberia a conta do terno no mês seguinte.
— Não faça nenhuma bobagem, filho. A garota vai arrancar o seu couro e
fazer com que passe o resto da vida pagando dívidas.
— Não se preocupe, papai. Ela não quer meu sacrifício. Pelo contrário,
me quer fora da vida dela e da do bebê.
O Sr. Pierce relaxou visivelmente.
— Ótimo, pelo menos você não vai ter de se preocupar em dividir sua
vida com ela e entregar-lhe sua alma só por causa de uma criança chata.
— Eu também era uma criança chata? — indagou Adam, de repente, num
tom perigosamente suave.
Surpreso, o Sr. Pierce levou algum tempo para se recompor.
— Escute, filho, eu sei que não fui um pai muito atuante enquanto você
era criança, mas bebês são feitos para as mulheres tomarem conta e os homens
sustentarem. Quando você cresceu, porém, eu agi certo com você.
— Que filosofia sensacional — Adam comentou, seco, mal disfarçando o
desapontamento com o homem que se dizia seu pai.
Jamais haviam sido chegados um ao outro. Somente quando Adam fizera
fortuna é que o homem mais velho lembrara que tinha um filho.
— Você me levou a um prostíbulo quando fiz quinze anos para ter certeza
de que eu aprenderia tudo sobre sexo. Você me ensinou a beber, a falar
palavrões e a apreciar os pontos mais interessantes do corpo feminino. Só! —
Adam deu um soco no tampo da mesa. — Você fez da nossa vida doméstica um
inferno. Mamãe sempre sofreu por sua causa!
A imagem de Garner e Jessica Pace invadiu-lhe a mente. O amor deles

não era uma farsa encenada para o benefício de outro alguém. Eles realmente se
amavam e também amavam Marissa, sem tentarem dominá-la, explorá-la. Adam
invejava o relacionamento deles...
A voz do pai o trouxe de volta ao presente.
— É, filho, só que era bem difícil agüentar a sua mãe. Ela passava o dia
sonhando acordada, incapaz de encarar a realidade nua e crua. Você acha que
era fácil conviver com isso?
Adam levantou-se, incapaz de discutir a personalidade de sua mãe com o
homem que considerava culpado pela morte dela.
— Agora chega, papai! Eu tenho um compromisso, de forma que teremos
de conversar sobre o assunto uma outra hora qualquer.
O pai também se levantou. Eles se encararam, separados não apenas pela
mesa, mas também por um abismo de trinta e dois anos.
— Só não se deixe fisgar, filho. Não quero que estrague o resto de sua
vida só por causa de um pequeno erro. Não é justo.
— Eu também fui um erro, papai? Foi isso que aconteceu com você e
mamãe?
O homem mais velho balançou a cabeça grisalha.
— Não, filho. Mas quando eu percebi que havia cometido um engano me
casando com sua mãe, ela já estava grávida e não tive outra escolha. Agora é
diferente, você nem sabe se o bebê é seu.
— Onde você obteve essa informação?
— Tenho minhas fontes.
— A secretária de Mike? — Pelo rubor no rosto do pai, Adam percebeu
que acertara. — Ela não é um pouco nova demais para você?
— Ela tem trinta e sete anos.
— E você tem sessenta e cinco.
— Não é da sua conta.
Adam passou a mão pelo pescoço.

— Tem razão. Não é da minha conta. Assim como meu relacionamento
com Marissa também não é da sua conta.
Adam pegou o paletó e vestiu-o, ignorando o homem parado, indeciso, no
meio do escritório.
— Vejo você outra hora, papai — disse ele, saindo da sala.
Adam entrou no carro abafado, mas não deu partida imediatamente.
Como sempre acontecia após uma discussão com o pai, seu primeiro
pensamento foi para a visão deturpada que este tinha sobre a educação de uma
criança. Mas foi o segundo pensamento que deteve seus movimentos.
Seria um pai melhor para seu filho? Saberia preocupar-se com o que
realmente fosse importante? Conseguiria guiar seu filho até a idade adulta sem
provocar-lhe traumas? Não podia responder, só rezar.
Jessica e Gar, que moravam na cidade de Shreveport, partiram na manhã
seguinte. Assim que eles saíram, Marissa começou a fazer faxina no
apartamento. Era o que sempre fazia quando tinha um problema.
A atividade febril mantinha sua mente afastada dos pensamentos
perturbadores que a assaltavam.
Garner e Jessica tinham sido excelentes. Eles estavam preocupados,
Marissa sabia, mas jamais iriam abandoná-la por ter cometido um erro. Se
precisasse de ajuda sabia que sempre poderia contar com eles.
Não. Eles não representavam problema algum. Adam, por outro lado...
Agora que sabia que ela o amava, faria o impossível para conseguir o que
desejava. Ele queria o bebê a qualquer custo, e poderia muito bem fazer
chantagem emocional com ela...
Marissa lavou a cozinha e o banheiro, espanou os móveis, limpou todo o
apartamento, até não sobrar mais nada a fazer. E ainda assim não encontrou
alívio para suas dúvidas.
Amava Adam e sentia-se uma idiota por estar tão apavorada com o que

ele lhe oferecia. Será que sua mãe estava certa?
Deixando-se cair no sofá, afundou o rosto numa almofada. Não aceitaria
a proposta de Adam, mesmo sabendo que ele iria repeti-la. Algo lhe dizia que
Adam podia pensar que a amava agora, mas mais tarde iria achar que tinha
caído em uma armadilha e passaria a odiá-la.
Isso seria pior para ela do que simplesmente jamais experimentar a
concretização de seu amor.
Adam, na certa, não gostaria de sua decisão. Apenas mais tarde daria
razão a Marissa, quando caísse em si e percebesse que assumir uma família era
muito mais do que apenas sustentá-la. Uma família significava preocupar-se
quando alguém adoecia ou tinha algum problema, quando o bebê se resfriava...
Significava também oferecer constante suporte emocional à esposa e aos filhos.
E isso era o mais importante para Marissa, já que seu verdadeiro pai jamais
havia feito tal coisa.
Pronto, estava resolvido o dilema. Não aceitaria a proposta de Adam e
ponto final!
Após tomar tal decisão, sentiu-se melhor. Ignorou o vazio que tomou
conta de seu coração, sabendo que seria mais fácil suportá-lo do que a dor que
sentiria se Adam a abandonasse mais tarde. Embora ele não soubesse, no fundo
ela estava lhe fazendo um favor.
Enquanto Marissa fazia faxina e pensava em seus problemas, Adam fazia
uma visita a uma loja de artigos para bebês.
Olhou em volta, perdido. Não tinha a menor idéia de por onde começar.
— Olá. Posso ajudá-lo? — perguntou-lhe uma gentil senhora de meiaidade.
— Eu quero saber o que é necessário para montar um quarto de bebê.
— Até que preço?
— Não estou preocupado com preços.

A vendedora sorriu. Adam percebeu que ela estava tão excitada quanto
ele estava confuso.
— Que tal começarmos pelo berço? — sugeriu a mulher.

CAPÍTULO VII
O mês de julho logo acabou. Agosto, com seu calor quase insuportável,
demorou a passar. Finalmente chegou setembro, e os dias e as noites tornaramse mais frescos e agradáveis. Logo após a visita da mãe e do padrasto, Marissa
encontrara um emprego de meio período, quatro vezes por semana, em uma
pequena corretora de seguros perto de onde morava. Escrever à máquina e
organizar arquivos não eram suas ocupações preferidas, mas ainda era bem
melhor do que ficar trancada entre quatro paredes, imaginando o que Adam iria
inventar a seguir.
Desde a visita de Jessica e Gar, Adam havia mudado por completo,
tornando-se doce e gentil.
Uma vez a cada seis dias Marissa recebia ramalhetes de rosas, tão lindas
que jamais tinha coragem de recusá-las. Pelo menos duas vezes por semana
Adam mandava entregar o jantar no apartamento dela, escolhendo sempre
pratos deliciosos. Ocasionalmente ele ligava e se convidava para visitá-la.
Nestas ocasiões dava-lhe um ou dois beijos, mas nunca a forçava a aceitar
carícias mais íntimas.
Em certas noites Adam não aparecia, e Marissa passava o tempo inteiro
imaginando onde e com quem ele estaria, ao mesmo tempo em que dizia a si
mesma que isso não era de sua conta.
Sentia falta dele quando não aparecia para vê-la, e o temia quando
estavam juntos. O poder ilimitado de Adam sobre sua felicidade semeou medo

em seu coração. Estava se acostumando a tê-lo por perto, acostumando-se ao
fato de Adam pensar tanto nela quanto ela nele, acostumando-se aos seus beijos
e carinhos. Mas ele não dissera mais uma palavra sequer sobre casamento, e
Marissa estava arrasada por causa disso.
Milhares de dúvidas assaltavam-na quando estava em um de seus dias de
baixo-astral. Ela se encontrava muito vulnerável emocionalmente, passando por
crises de insegurança que jamais havia experimentado. Estaria muito feia por
causa da gravidez avançada? Teria perdido a arte de conduzir uma conversa
agradável? Estaria Adam sentindo a responsabilidade da paternidade, sentindose feliz por ela não ter aceito sua proposta original de casamento?
O interfone tocou e Marissa atendeu, desanimada.
— Tem uma entrega grande aqui, Srta. Madison — disse Arthur, da
recepção. — Estou mandando três carregadores subirem.
— Entrega? Eu não encomendei nada.
— Foi o Sr. Pierce quem encomendou.
Outro jantar? Mais flores? Não adiantava tentar adivinhar. Veria logo de
que se tratava.
— Obrigada por avisar — agradeceu.
Ao abrir a porta, não acreditou no que viu. Os três homens estavam
carregados de caixas.
— Vocês têm certeza de que é para entregar tudo isso aqui?
O primeiro carregador sorriu ao observar a barriga de Marissa. Já fazia
duas semanas que ela estava usando roupas de grávida.
— Sim, dona. Nós somos da loja de móveis para bebês — disse o
homem.
Os olhos dela se arregalaram enquanto escancarava a porta e os conduzia
até o quarto destinado ao bebê.
Em seguida encaminhou-se diretamente ao telefone. Foi difícil conseguir
discar o número de Adam, pois seus dedos não paravam de tremer. Quando a

secretária lhe informou que ele havia saído, ficou mais nervosa ainda.
— Por favor, peça a ele para me ligar assim que chegar — conseguiu
falar, forçando as palavras através do nó que lhe fechava a garganta.
— Pode deixar, Srta. Madison. Ele me cortaria o pescoço se eu não o
fizesse — a mulher mais velha respondeu.
Quando os carregadores se foram, ela entrou no quarto da criança.
Lentamente foi se acalmando.
A mobília era linda, laqueada de branco e verde-água. Havia uma caixa
cheia de palhaços multicores segurando balões, que depois poderiam ser
pendurados nas paredes para enfeitá-las.
Ela cobriu o ventre já bastante volumoso com a mão.
— Maldito seja, Adam Pierce — disse, extravasando a emoção que a
dominou. — Maldito seja por ser tão legal!
Menos de uma hora depois Arthur interfonou novamente, avisando que o
jantar estava a caminho: camarão ao molho de queijo fundido, de um dos
melhores restaurantes da cidade. O prato favorito dela.
Marissa esperou que Adam aparecesse para lhe fazer companhia durante
o jantar, mas acabou se conformando em comer sozinha, sendo forçada a
admitir que sentia falta dele.
Enquanto saboreava os camarões, ficou imaginando o que Adam estaria
fazendo e com quem...
Adam virou-se para atravessar mais uma vez a piscina olímpica, antes de
sair da água. Não havia mais ninguém no ginásio do condomínio Torres àquela
hora. Eram todos sensatos o suficiente para estarem em seus apartamentos,
jantando com suas famílias.
Exceto Adam.
Estava nadando para se cansar bastante e não ter forças para revidar o
ataque de Marissa. Não queria discussões. Rezava para que a fúria dela se

aplacasse pelo menos um pouco, para que pudesse visitá-la mais tarde. Havia
até encomendado o jantar para ela na tentativa de melhorar-lhe o humor.
Mas bem podia imaginar como Marissa devia estar brava com ele por ter
escolhido sozinho a mobília do bebê. Com certeza ela teria gostado de dar sua
opinião, mas este pensamento só ocorrera a Adam quando os móveis já estavam
encomendados.
Ele não havia levado em consideração o gosto e os sentimentos de
Marissa ao comprar a mobília, só pensara em contribuir para o bem-estar da
criança. Não estava habituado a pensar nos outros no que dizia respeito a
negócios, e sua decisão a respeito dos móveis mostrava que estava indo pelo
mesmo caminho no campo dos relacionamentos pessoais.
Inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos, boiando no meio da piscina.
Marissa... Durante o último mês Adam a mimara de todas as formas possíveis,
esforçando-se para torná-la feliz. Sempre que dizia ou fazia algo que a
agradava, ela dava um sorriso e ele sentia-se recompensado. Havia notado até
uma diferença no temperamento dela. Estava bem mais calma e controlada do
que quando se mudara para o condomínio.
“Encare a realidade, Adam Pierce, você não consegue parar de pensar em
Marissa”, refletiu, ansioso como um adolescente.
Afundou a cabeça na água. Sempre que pensava na possibilidade de que
Marissa pudesse simplesmente desaparecer, ficava apavorado. Este pensamento
começara a tomar forma quando conhecera Jessica e Gar. E se Marissa fosse
embora? E se fosse para a casa dos pais ao invés de ficar sob sua proteção?
Tal idéia o apavorava. Era esta a principal razão de estar se mantendo
relativamente afastado da vida dela. Não queria forçá-la a fazer alguma loucura.
Nadou sem pressa até a escada e saiu da piscina. Era hora de encarar seu
medo de frente. Não podia fugir de Marissa por muito tempo. Tinha de enfrentála se pretendia conquistá-la algum dia.
Conhecido por sua persistência no mundo dos negócios, Adam decidiu

que era hora de aplicar a mesma tática em sua vida pessoal. E podia muito bem
começar esta noite.
A cadeira rangeu quando Marissa se levantou para atender à campainha.
Não havia percebido até aquele momento que estivera sentada no escuro.
Acendeu as luzes enquanto girava a chave na fechadura.
As portas se abriram e ela pegou-se olhando para o objeto de seus
pensamentos.
— Olá, tudo bem? — disse Adam, a voz grave envolvendo-a docemente.
— Olá.
— Pensei que você podia estar querendo companhia. — Ergueu uma
garrafa no ar. — Que tal tomarmos um pouco de vinho branco?
— Excelente sugestão. — Ela moveu-se para o lado, percebendo de
repente que ainda usava o robe cor-de-damasco que vestira após o banho. — Me
dê um minuto para trocar de roupa.
Ele pegou-a pela mão.
— Por favor, não troque de roupa. Prometo que não vou jogá-la sobre
meus ombros e levá-la à força para a cama.
Ela se sentiu perdida nas profundezas da voz terna.
— Como quiser — respondeu, engolindo em seco.
Virou-se em direção à cozinha para ir buscar os copos. Precisava de uma
desculpa para afastar-se de Adam. Quando entrou na sala novamente, ele a
aguardava de pé ao lado da porta.
— Tudo bem com você, Marissa?
— Tudo.
— E o bebê?
— O bebê está ótimo.
— Fico feliz em saber — ele disse, dando o assunto saúde por encerrado.
Abriu a garrafa e serviu o vinho. Depois olhou para Marissa e ergueu sua
taça, propondo um brinde:

— A uma vida nova, cheia de felicidade!
Ela assentiu e tomou um gole de vinho. O líquido gelado, meio doce,
ajudou a acalmar seu nervosismo.
Como de costume, Marissa sentou-se num canto do estreito sofá e Adam
acomodou-se a seu lado, virando-se para fitá-la. Ela o olhou de esguelha,
esperando que ele começasse a falar sobre a mobília do bebê. Não estava
disposta a iniciar uma discussão esta noite. Não por iniciativa própria.
— Como vai seu trabalho? — perguntou Adam, tentando manter uma
conversação leve.
Marissa ergueu as sobrancelhas. Era a primeira vez que ele mencionava
seu trabalho desde o dia em que a aconselhara a não aceitá-lo e ela lhe explicara
com todas as letras o que devia fazer com o conselho oferecido.
— Vai bem.
— Ótimo — ele disse, com um pequeno sorriso nos lábios.
— Eu gosto do que faço — comentou ela. — Sinto-me útil, produtiva,
apesar de ser você quem está providenciando quase tudo de que necessito. Aliás,
tenho economizado bastante dinheiro ultimamente. Nem com comida estou
gastando muito, já que você manda me entregar jantares deliciosos quase todos
os dias.
Adam estendeu a mão e acariciou-lhe o cabelo.
— Apenas lhe dei um lugar para morar, Marissa. O apartamento estaria
vazio sem você.
Quis acrescentar que seu coração também estaria vazio sem ela, mas as
palavras se recusaram a sair.
— E os jantares? As flores?
Ele olhou em volta.
— Onde estão?
Ela riu, divertida.
— Os jantares todos eu já comi, é claro. O último arranjo de flores está

sobre a mesa da cozinha. As rosas na mesinha perto da entrada são da semana
passada.
— Você gosta de receber rosas? — indagou ele, seus dedos agora
acariciando-lhe a nuca.
— Adoro.
Porque vêm de você, completou Marissa em pensamento.
— E eu adoro enviá-las. Tento escolher uma cor diferente a cada semana,
para não me tornar repetitivo.
— Não é a sua secretária quem encomenda as flores?
Ele negou com um gesto de cabeça, sorrindo. Em seguida, a conversa
terminou em um silêncio agradável.
Tornando a brincar com o cabelo de Marissa, Adam aguardou que o
assunto mobília viesse à tona. Neste exato momento, não se importava que ela
estivesse brava com ele; estava em sua companhia, tocando-a, e nada poderia
fazer com que ficasse mal-humorado ou zangado.
Os segundos se transformaram em longos minutos. Marissa olhava na
direção do terraço e Adam não parava de acariciar-lhe o cabelo longo, sedoso,
perfumado.
— Marissa — ele sussurrou por fim, com voz rouca.
Ela virou a cabeça lentamente e viu o rosto de Adam a apenas alguns
centímetros do seu. Os olhos cinza brilhavam de desejo.
Marissa estremeceu. Sabia que devia controlar-se, resistir, mas no fundo
estava ansiosa por tocar Adam, sentir-lhe a textura da pele. Seus lábios se
separaram em antecipação. Seu olhar permaneceu preso ao dele. O coração
disparou dentro do peito.
— Minha querida — murmurou ele, em tom carinhoso, alguns segundos
antes de se apossar dos lábios rosados, macios.
O beijo de Adam foi como uma descarga elétrica que lhe percorreu todo o
corpo. As mãos dele rodearam-lhe os ombros, puxando-a mais para perto, num

gesto possessivo. A vontade férrea de Marissa, que sempre fora sua marca
registrada, estava derretendo feito gelo. Não havia um único pensamento
coerente em sua mente quando aceitou o abraço de Adam, buscando a
proximidade dele sem nem se dar conta disso.
Marissa gemeu quando Adam pegou-lhe a mão e colocou-a sobre seu
peito largo.
— Toque-me, querida... Toque-me como você fez naquela noite... — ele
pediu num murmúrio.
Ela arranhou o tecido macio da camisa com a ponta das unhas.
Quando Adam a segurou pelos quadris, puxando-a para mais perto ainda,
Marissa suspirou de prazer. Inconscientemente havia esperado tanto por este
momento... Cada dia passado sem os carinhos de Adam havia sido uma
decepção. Ela o amava demais, e no entanto não podia jamais tocá-lo ou
permitir que ele a tocasse. Neste exato instante, porém, sentia-se incapaz de dar
ouvidos à voz da razão, de resistir ao impulso de expressar seus sentimentos.
Com dedos trêmulos, Marissa abriu os dois primeiros botões da camisa de
Adam e escorregou a mão sob o tecido para sentir-lhe os batimentos do coração,
o calor da pele, a maciez dos pelos que lhe cobriam o peito.
Ela soltou um gemido de excitação quando Adam acariciou-lhe os seios
sensíveis, o ventre crescido. Um movimento súbito dentro de seu corpo fez com
que Marissa arquejasse e Adam levasse um susto.
— O que foi isso? — ele perguntou, preocupado.
— E o bebê se mexendo — explicou ela, com um sorriso embaraçado.
Os olhos dele se arregalaram em sinal de surpresa, depois seguiram o
caminho que sua mão havia percorrido sobre o ventre de Marissa. Ela sentiu-se
corar. Jamais deveria ter permitido que Adam chegasse tão longe, jamais...
— Será que vai acontecer de novo, agora? — ele perguntou, maravilhado.
— É possível.
Na mesma hora um pequeno golpe atingiu a mão de Adam, fazendo seus

olhos se arregalarem ainda mais, como se acabasse de presenciar um milagre.
— Oh, meu Deus! — exclamou, emocionado.
— Você achava que eu tinha engolido um caroço de azeitona, por acaso?
Apesar de tentar fazer graça, a voz de Marissa soou rouca de emoção.
Adam estava tão impressionado e comovido com os movimentos do bebê
quanto ela, e essa descoberta fez com que o amasse ainda mais.
— Você é tão pequena, Marissa... Parece impossível que exista dentro do
seu corpo um ser humano em miniatura... Veja, nosso filho está chutando a
minha mão, outra vez!
Ela inspirou profundamente; sentiu a pressão do bebê logo abaixo do
peito, e depois deu uma risada meiga.
— Oh, eu não tenho problemas para me lembrar de que estou grávida,
Adam. O bebê não me deixa esquecer sua presença. Minhas roupas não me
servem mais, ando com apetites estranhos, meu horário de sono ficou todo
desregulado.
— Tudo isso a incomoda muito? — ele perguntou.
— Não, de jeito nenhum — Marissa respondeu. — Pelo contrário! Gosto
de sentir o bebê crescendo.
Adam respirou fundo e fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, havia
um brilho diferente neles.
— De quantos milagres você precisa para me aceitar, querida? Não foi
um milagre a circunstância que nos uniu para que eu pudesse plantar a semente
que está crescendo dentro de você? Não foi um milagre que fez com que a
semente germinasse e crescesse, nos unindo novamente?
— Adam... — ela começou, afastando-se.
— Não. Você não vai fugir desta vez, Marissa. Nós pertencemos um ao
outro. — Ele inspirou profundamente, suas mãos segurando as dela, impedindo
que se afastasse. — Eu te amo, Marissa. E amo nosso bebê. Case comigo.
O medo tomou conta dela ao ouvir tais palavras. Soltou-se das mãos de

Adam e levantou-se, dando-lhe as costas.
— Não, Adam. Por favor... não.
Marissa estava ficando cansada de combatê-lo. Será que ele jamais
entenderia sua relutância?
— Não? Por quê? Você me ama, eu sei — insistiu Adam.
— Mas você não me ama, e um casamento forçado me tornaria uma
pessoa amarga. Não daria certo — ela argumentou, voltando-se para ele,
implorando por compreensão. — Você não vê, Adam? Provavelmente
estaríamos divorciados dentro de um ano, e eu teria de recolher os cacos de um
amor frustrado para poder recomeçar minha vida. Você, por outro lado, não teria
esse problema. Tudo que precisaria fazer seria enterrar-se no trabalho e seguir
em frente assim como sempre fez. — Marissa abaixou a cabeça, enquanto
tentava transformar a profunda emoção que sentia em palavras. — Mas não
seria assim tão fácil para mim. Eu saberia que falhei naquilo que mais queria.
Eu olharia para nosso filho e me lembraria de você brincando com ele,
lembraria de nós como uma família.
— Não precisa ser assim, você sabe. O casamento pode dar certo, e então
ambos seremos felizes — disse Adam, procurando convencê-la.
— É verdade, nós poderíamos ser felizes... Até que você encontrasse
outra mulher e se apaixonasse por ela, realmente se apaixonasse, em vez de
sentir-se no dever de assumir um compromisso só porque cometeu um erro.
Assim que essa outra mulher aparecesse, você me deixaria. E eu não suportaria
ser abandonada.
— Quer dizer que acha melhor viver sem amor do que correr o risco de
amar sem se sentir segura? — A voz dele era amarga, a frustração evidente. —
Ninguém pode garantir que um relacionamento vai durar para sempre, Marissa.
Pode-se apenas esperar e lutar para que dure.
— Não é suficiente — ela respondeu, toda a tristeza de sua decisão
transparecendo no olhar.

Ele levantou-se.
— Você quer uma vida sem sofrimento, mas isso não existe. Ninguém
pode viver sem assumir alguns riscos.
Marissa piscou várias vezes, tentando conter as lágrimas. Queria encostar
a cabeça no peito de Adam, abraçá-lo. Queria ir em frente e ignorar a dor que
sentiria quando ele realmente se apaixonasse por uma outra mulher e a
abandonasse. Mas não podia. Sabia que não era a mulher certa para Adam. Ele
precisava de uma mulher bonita, elegante, que combinasse com a vida
sofisticada que levava, e não de uma simples professora que preferia ser mãe e
ficar em casa, cuidando da família.
— Tem medo de que alguém se aproxime de você, não é? — disse Adam.
— Nunca pensei que fosse tão covarde, Marissa.
— Por favor, vá embora — ela pediu, com voz sufocada.
— Prefiro ficar.
— Não! — gritou ela, em pânico.
— Marissa, já utilizei todos os argumentos possíveis para convencê-la de
que a amo, menos fazer amor com você. Pois agora vou mostrar- lhe o que sinto
com meu corpo. E quando estivermos deitados, juntos, você me dirá palavras
ternas e amorosas...
— Não!
— Sim! — Os olhos de Adam se estreitaram. — Não foi isso que
aconteceu na primeira vez em que fizemos amor? Você pensou que eu estava
dormindo, mas eu ouvi as coisas que sussurrou para mim.
— Você ouviu? — perguntou Marissa, corando até a raiz dos cabelos.
— Sim, apesar de ter achado que estava sonhando — ele respondeu,
implacável. — E vou ouvir novamente, nem que seja a última coisa que
arranque de você!
Ela abriu a boca para protestar, e Adam calou-a com um beijo. Ele não a
tocou em nenhum outro lugar além dos lábios, mas todo o corpo de Marissa

ardeu de desejo no mesmo instante.
Suas línguas se encontraram, movendo-se lentamente, sensualmente.
Marissa recordou-se da primeira vez que Adam a conduzira pelos caminhos do
amor, até que ela não conseguisse sequer raciocinar direito. A lembrança a fez
estremecer.
Gostaria tanto de poder sentir o corpo de Adam novamente junto ao seu...
O que havia de errado em procurar a felicidade, afinal? Por mais forte que fosse
a dor que sentiria mais tarde, não se importava, desde que pudesse ter Adam
agora, mesmo que por pouco tempo.
— Adam... — sussurrou, enquanto a magia dele a envolvia.
— Sim, Marissa... Oh, sim... — ele sussurrou de volta, finalmente
tomando-a nos braços e segurando-a junto ao peito.
Ela podia sentir o calor da paixão que ardia no íntimo de Adam, e se
sentia protegida agora que parara de lutar contra ele.
— Você me pertence... Você ainda não se deu conta disso, mas será minha
para sempre, Marissa! — declarou ele, baixinho.
Ela suspirou, enlevada. Oh, como era bom estar junto de Adam! Tinha
vivido tão sozinha e solitária nestes últimos cinco meses, sentindo-se presa sob
uma redoma de vidro, isolada do resto do mundo...
Ele a pegou no colo, carregou-a até o quarto e, deitando-a gentilmente
sobre a cama, ajudou-a a tirar a roupa. Em seguida, despiu-se. Promissor e
provocante, seu olhar encontrou o dela. Um arrepio percorreu-lhe o corpo da
cabeça aos pés, em antecipação aos prazeres que experimentaria em companhia
da mulher que amava.
Adam deitou-se ao lado de Marissa, abraçando-a, beijando-lhe o pescoço.
Ela gemeu, excitada, ao sentir o contato dos lábios quentes contra sua pele. Mas
quando ele acariciou-lhe um dos seios, ela se afastou subitamente, com
vergonha de seu corpo disforme.
Ele tornou a puxá-la para junto de si, murmurando num tom

compreensivo:
— Não, Marissa, não sinta vergonha. Você é parte de mim, e o bebê
também é. Saiba que amo vocês dois.
— Eu estou tão gorda — ela disse, embaraçada.
— Bobagem! Você é tão pequenina que poderia caber no meu bolso, com
ou sem a criança.
— Eu me sinto...
— Medonha? Bonita? Gorda? Sensual? A mulher mais amada do mundo?
Eu voto na última alternativa — brincou Adam, arrancando um risinho
encabulado de Marissa. Em seguida, ficou sério. — Eu não vou machucar você
ou o bebê, vou?
— Não — ela respondeu, terna.
— Há tantas coisas que eu preciso aprender com você, querida... Pelo
visto minha educação foi um tanto falha em certas áreas.
Ele parecia tão preocupado com a possibilidade de fazer algo de errado
que Marissa riu, sentindo-se mais calma. Comentou, bem-humorada:
— Você não machucará o bebê, mas é bom tomar cuidado para não levar
um chute. Nosso filho anda um tanto agitado ultimamente!
Adam sorriu e a beijou de novo na boca. Em seguida, deslizou a língua
pelo pescoço de Marissa e depois concentrou-se nos seios que ansiavam pelo
toque de seus lábios. Lambeu-os demoradamente, arrancando profundos
suspiros de Marissa.
— Um dia, meu amor, eu farei isso e experimentarei seu leite. O leite que
alimentará nosso filho — disse ele, emocionado, virando o rosto para fitá-la.
Ao imaginar a cena, Marissa sentiu um arrepio de prazer percorrer-lhe o
corpo inteiro. Sem ter consciência do que fazia, segurou a cabeça de Adam e
aproximou-a novamente de seus seios. A língua de Adam voltou a acariciar-lhe
os mamilos rijos de excitação, fazendo-a soltar gemidos e suspiros de êxtase.
— Você está gostando? Quer que eu continue? — ele perguntou,

ofegante.
— Sim, por favor... Continue...
Quando Marissa achou que ia enlouquecer em razão das sensações
alucinantes que Adam estava lhe provocando, ele parou de acariciá-la e mudou
de posição, ficando atrás dela.
— O que vai fazer? — ela indagou, levemente assustada.
— Sshhh — ele sussurrou, mordiscando-lhe as costas. — Está tudo
bem... Eu só mudei de posição para diminuir as chances de machucar nosso
bebê. Confie em mim...
Ao terminar de falar, Adam penetrou-a devagar, com cuidado, procurando
pelo calor de sua intimidade.
— Querida, você é tão doce... — ele gemeu, enquanto aumentava o ritmo
do movimento dos quadris.
— Adam... É tão bom estar com você...
Trocando palavras de carinho, entregaram-se de corpo e alma àquele
instante mágico de completa união. Gemendo, ofegando, atingiram juntos o
êxtase máximo do amor. Foi com dificuldade que voltaram novamente à
realidade, abandonando o paraíso de sensações que haviam alcançado pouco
antes.
— Tão doce, tão gostosa... — sussurrou Adam cobrindo a nuca de
Marissa de beijos ternos, enquanto continuava a acariciar-lhe os seios e o ventre
com as mãos. — Tão perfeita...
Ela adormeceu envolvida pelos braços dele. Sentia-se completa, satisfeita
como nunca. Seu último pensamento antes de pegar no sono foi que seria bom
ter Adam sempre assim, a seu lado.
Algum tempo mais tarde a cama balançou ligeiramente, acordando
Marissa. Abrindo os olhos com dificuldade, observou Adam sair do quarto.
Ainda com sono, ela se enrolou nas cobertas tentando adormecer de novo.
A preocupação, porém, não a deixou dormir. Por que Adam estava

demorando tanto a voltar para a cama? O primeiro pensamento que lhe passou
pela cabeça foi que ele não havia gostado de fazer amor com ela, mas logo
abandonou tal linha de raciocínio. Adam dormira abraçado com ela depois de
compartilharem o momento de intenso amor, e não teria feito isso se tivesse
ficado insatisfeito ou aborrecido.
Intrigada, levantou-se e vestiu o robe que deixara ao lado da cama pela
manhã. Foi até o banheiro. Adam não estava lá.
Ouviu, então, um leve ruído no quarto do bebê. Entrou de mansinho no
aposento. O luar atravessava a vidraça da grande janela na parede do fundo,
iluminando o ambiente. Adam estava inclinado sobre o berço, arrumado com
lençóis enfeitados por desenhos coloridos. A claridade da Lua iluminava-lhe as
faces molhadas de lágrimas.
Descalça, Marissa aproximou-se dele. Abraçou-o por trás e encostou a
cabeça nas costas largas, musculosas. Esfregou o rosto contra a pele quente, que
exalava o perfume másculo de que tanto gostava.
Adam não se mexeu, mas Marissa sentiu seus músculos se retesarem.
— Você devia estar na cama, sob o calor das cobertas — disse ele, com
voz rouca.
— Senti sua falta e vim procurá-lo. Adam... Por que não divide suas
emoções comigo? Deixe-me ajudá-lo — ela murmurou, com doçura.
— Estou bem, não precisa se preocupar comigo.
— Tem certeza?
Ele suspirou e virou-se para envolvê-la em seus braços, murmurando:
— Nós vamos ter um bebê...
— Sim, eu sei.
— Isso é um milagre, Marissa! Nós fizemos algo que milhares de outras
pessoas também já fizeram, mas desta vez é diferente. Trata-se do nosso bebê!
— É verdade...
— E você será uma ótima mãe, tenho certeza. Mas... Fico imaginando se

também serei um bom pai. Tornar-me pai é uma responsabilidade enorme, o
maior desafio da minha vida.
— Nós vamos cometer erros na educação da criança, Adam, é claro.
Afinal, não somos perfeitos. Mas faremos uma porção de coisas certas, também.
O abraço dele tornou-se mais apertado.
— Gosto de ouvi-la falar assim. Você demonstra ser uma pessoa realista,
não é do tipo que enfia a cabeça na areia como um avestruz e finge que a vida é
maravilhosa...
Ela levantou a cabeça, compreensiva, percorrendo o contorno dos seus
lábios com os dedos.
— Você já viu alguém fazer isso?
Adam fixou o olhar num ponto distante no horizonte.
— Sim, uma mulher que conheci. Uma mãe que vivia em um mundo
próprio, de fantasia. Eu costumava olhar pela janela das casas das outras
crianças e sabia que jamais viveria em um lar igual ao deles porque suas vidas
eram diferentes, melhores que a minha. Quando fiquei mais velho, percebi que
jamais quisera realmente uma casa porque tinha medo de não encontrar nela o
que os outros encontravam.
Ele suspirou, acariciando as costas de Marissa, enquanto tentava colocar
o passado de volta no lugar ao qual pertencia. Prosseguiu:
— Se nosso apartamento estava limpa era sinal de que as pessoas que
moravam lá eram limpas. Se o jantar estava perfeito, então é lógico que as
pessoas que o comiam não tinham problemas. Tudo tinha de parecer certo, sem
necessariamente estar certo.
— Pobre mulher!
As sobrancelhas de Adam se ergueram, numa expressão indagadora.
— Por que “pobre mulher”? Por que não ter pena daqueles que viviam
com ela?
— Porque ela escolheu fingir uma vida perfeita muito mais do que viver.

Morar em casa ou apartamento, isso não importa. O que realmente importa são
as pessoas que lá vivem. Eu jamais farei isso, Adam. O chão, em meu lar, estará
sempre cheio de brinquedos, e quando você vier visitar o bebê encontrará a
maior bagunça, nada parecido com um palácio de cristal.
Adam olhou com carinho para Marissa.
— Fico feliz em saber — disse, apenas. — Não poderia ter escolhido uma
mãe melhor para meu filho. — Abraçou-a calorosamente, cobrindo-lhe o rosto
de beijos. — Graças a Deus...
O coração de Marissa se apertou. As palavras que acabara de ouvir
deixavam claro porque não podia se casar com Adam. Ele a queria por todos os
motivos certos, menos por um: apesar de ter feito amor com ela, não a amava
com loucura e paixão, para sempre. Em compensação, a considerava uma
mulher ideal como esposa e mãe. Droga!
Agora era sua vez de derramar lágrimas.

CAPÍTULO VIII
— Venha deitar-se — sugeriu Marissa, conduzindo-o de volta para o
quarto, procurando ignorar as sensações que o corpo forte, cheio de músculos,
lhe provocava. — Você precisa dormir, Adam — ela insistiu, em tom carinhoso.
— Hummm — resmungou ele, enfiando-se sob as cobertas e virando-se
para tomá-la nos braços. — Eu adoro a sua cama, sabia? Acho que vou trocar a
minha, de casal, por uma de solteiro, assim você será obrigada a dormir sempre
pertinho de mim... — murmurou baixinho antes de fechar os olhos e adormecer.
Os olhos de Marissa, porém, recusaram-se a fechar. Ela ficou deitada,
quieta, enquanto a mente estava em plena atividade. A mulher de quem Adam
falara era obviamente sua própria mãe, o que explicava muitas coisas sobre sua

atitude em relação às mulheres em geral. Ele havia tido uma boa educação, mas
ninguém se incomodara em dar alguma atenção às suas emoções. A não ser que
o pai dele... Marissa ouvira dizer que a mãe de Adam morrera e que o pai
dependia financeiramente do filho. Fora isso, pouco sabia.
Ainda dormindo, Adam moveu-se para ajustar-se melhor às curvas do
corpo de Marissa. Ela prendeu a respiração, desejando que ele acordasse com a
mesma intensidade com que desejava que continuasse adormecido.
A verdade é que não sabia mais o que queria. Adam a havia
desequilibrado de tal forma que tinha medo de tomar uma decisão movida pela
emoção e não pela lógica. No estado confuso em que se encontrava, qualquer
decisão podia ser um erro.
Só tinha certeza absoluta de duas coisas: amava Adam e queria o bebê.
Devagar, seus olhos se fecharam e ela adormeceu, sentindo-se protegida
pelo calor de Adam.
Quando acordou, estava sozinha. O sol iluminava o quarto e também seu
rosto, indicando-lhe que já devia ser quase meio-dia. Bocejou e rolou para o
lado, tentando fugir dos raios solares, mas foi em vão. A cama inteira estava
banhada pelo sol.
O som abafado de palavras filtrou-se através da porta fechada do quarto.
Marissa enrolou-se no robe e sentou-se na cama.
Obviamente Adam estava na sala, falando ao telefone. Se fosse até ele, o
que iria dizer? Não tinha a mínima idéia.
Enrubesceu ao lembrar-se da noite de amor que acabara de ter. Grávida
de cinco meses e agindo feito uma adolescente inconseqüente... Deus, o que
Adam não estaria pensando dela? E ele tinha sido tão terno, tão encantador, tão
maravilhoso...
— Já acordou, preguiçosa?
Marissa levantou a cabeça e deparou-se com Adam parado à porta, uma
xícara nas mãos e um sorriso nos lábios.

— Achei melhor deixá-la dormir, afinal, você foi deitar tarde a noite
passada. Aceita um pouco de chá?
Ela olhou para a xícara, estendendo as duas mãos para pegá-la. Forçou-se
a olhar para qualquer coisa que não fosse aquele homem tão sedutor à sua
frente.
— Como está seu estômago? — perguntou Adam com voz doce.
Marissa levou alguns segundos para entender a pergunta.
— Oh, tudo bem — disse, por fim, surpresa ao perceber que era verdade.
Não sentia náuseas. — Talvez os enjôos matinais tenham passado de vez.
— Talvez, mas levante-se com cuidado. Não quero vê-la passando mal.
Fez-se silêncio e ela tomou o chá. Não sabia o que falar. Subitamente
sentiu-se uma menina de quinze anos.
— Marissa, temos que conversar.
Lá vem, pensou ela. Tomou mais um gole da bebida quente.
— Conversar? Sobre o quê? — indagou, num tom inocente.
— Sobre nós.
— O que há conosco?
Adam estava em pé bem ao seu lado. Se ela olhasse para o lado daria de
cara com o zíper da calça dele. Um estranho calor a invadiu com esse
pensamento.
— Olhe para mim, Marissa.
Era uma ordem, e ela obedeceu, fitando os olhos cinzentos, da cor do
anoitecer.
— Com relação ao nosso casamento... — começou Adam.
Ela pousou a xícara no pires.
— Não quero falar a respeito, Adam.
A expressão dele endureceu.
— Mas é preciso! Nós vamos nos casar e você não terá argumentos
contra, entendeu? Na noite passada, ao se entregar a mim, você assumiu um

compromisso. De agora em diante, somos um casal.
— Não é justo — sussurrou Marissa. — Não faça isso, Adam. Por favor.
— Ela se levantou, andando para longe dele. — Você falou que eu assumi um
compromisso com você, mas não disse que assumiu um compromisso comigo.
Ele caminhou até ela, tocando-lhe os ombros, como se quisesse forçá-la a
ouvi-lo até o fim, sem fugir.
— Vamos nos casar e seremos uma família comum. Nunca lhe darei
motivos para me deixar, Marissa. Meu compromisso com você será tão grande
quanto o seu comigo. Eu prometo.
Ela levantou o queixo e tentou acalmar o pânico que crescia dentro do
peito.
— Nada mais de mulheres? Nada mais de noitadas com outros homens?
Nada mais de jogos, ou bebidas, ou viagens por todo o país a cada instante?
Um músculo começou a tremer no canto da boca de Adam. Ele colocou
uma mão sobre o coração e ergueu a outra como quem faz um juramento.
— Nada mais de mulheres, nem de noitadas. Nada de jogatinas, e só
beberei em companhia de minha esposa. Quanto às viagens, não posso garantir
que ficarei em casa o tempo todo, mas posso arrumar minha agenda de modo a
viajar o menos possível.
Ela mordeu os lábios, para impedi-los de tremerem. Maldita vontade que
sentia de chorar!
— Acho que não posso acreditar em você, Adam.
A voz dele soou firme.
— Jamais menti para você, Marissa. Além do mais, você não tem escolha.
Sou eu quem dá as cartas.
O pânico a dominou novamente. Ela tinha de fazer alguma coisa para
impedi-lo de cometer o maior erro de suas vidas. Um segundo erro não corrigia
o primeiro. Ela devia saber; havia visto o sofrimento de seus próprios pais...
Ergueu o olhar, implorando:

— Por favor... Adam...
Em um piscar de olhos Marissa estava nos braços de Adam. Ele a levou
para a cama e deitou-a.
— Você está se cansando demais — disse, fingindo-se de bravo. — E
ainda nem comeu nada, hoje! Eu lhe disse que tomaria conta de você, não é?
Fique aqui que vou buscar algo para comer.
— Não, espere — ela pediu, a mão roçando o peito dele, onde a camisa
de cambraia azul estava desabotoada. Adorava a textura da pele quente, a
maciez dos pelos encaracolados...
— O que houve, amor? Quer que eu chame um médico? — Adam
perguntou, preocupado, enquanto pousava a mão na testa dela tentando tomarlhe a temperatura.
A febre era interna. E o remédio era ele. Mas Marissa não podia admitir
isso em voz alta.
— Estou bem, só um pouco tonta — conseguiu dizer, e não estava
mentindo.
Sempre que Adam estava por perto sentia-se meio zonza. Era uma reação
automática à presença máscula, sensual.
— Fique aqui — ele ordenou, saindo do quarto.
A tensão que a dominava evaporou assim que ele saiu. Segundos mais
tarde ela ouviu o barulho de potes e panelas na cozinha. Não estava com fome,
mas isso não tinha importância. Teria algum tempo sozinha para pensar sobre o
que fazer, enquanto Adam cozinhava. Mas seus olhos se fecharam e ela caiu em
um sono leve.
Algo ou alguém fez com que acordasse e se sentasse, confusa. Adam
estava aos pés da cama.
— Acordou? Fiz uma sopa e sanduíches. É melhor comer enquanto está
quente.
Ela balançou a cabeça. Era esse o mesmo homem que a tinha pedido em

casamento há apenas alguns minutos atrás? Era difícil dizer. A atitude dele
agora era fria e concentrada. Ela passou a mão pelos cabelos, jogando-os por
cima dos ombros.
— Obrigada. — agradeceu, num tom formal.
Ele estendeu a bandeja em sua direção.
— Coma tudo. Voltarei em um instante.
Adam saiu antes que Marissa pudesse levar a primeira colher de sopa à
boca. Ela suspirou, sentindo-se vazia. Ele tinha estado com ela por quase vinte e
quatro horas, apenas, e já se acostumara a tê-lo ao seu lado. Não era justo!
Distraidamente brincou com a comida no prato, comendo apenas o necessário
para evitar uma discussão; depois deixou a bandeja sobre a cama e caminhou
até o banheiro.
O banho quente estava tão bom que reavivou seu bom humor, e
conseguiu até rir da situação em que se encontrava. Adam a pedira em
casamento. Tentara dizer “não” e ele não quisera ouvir, e agora ela aguardava
uma chance para poder dizer “sim”. Queria falar com Adam, rir, estar em sua
companhia para sempre. Até recentemente não havia percebido que ele tinha um
senso de humor tão desenvolvido. Queria continuar explorando as outras facetas
da personalidade daquele homem tão fascinante.
Ela vestiu uma calça de gestante que comprara na semana anterior e um
confortável camisão verde. Olhando-se criticamente ao espelho, notou que não
estava tão gorda e desajeitada quanto pensava. O camisão não era para gestantes
e ainda assim ficava bem nela. Prendeu o cabelo em um coque e deixou alguns
fios soltos. Um pequeno toque de maquiagem e estaria pronta para enfrentar a
fera...
Adam encontrava-se sentado no sofá, olhando com ar distraído para a
lareira. Ao ouvir passos, levantou o rosto toldado por uma expressão sombria e
muito triste. O coração de Marissa se apertou. Será que ele se arrependera do
que dissera? Será que iria sumir, agora que conseguira o que queria, ou seja,

levá-la para a cama? Tal pensamento doeu demais.
— Sente-se, Marissa.
Ela se encolheu em um canto do sofá, juntando as mãos como se
estivesse orando.
— Eu sei — disse, num tom inexpressivo. — Eu compreendo.
Ele ergueu as sobrancelhas, intrigado.
— Compreende o quê?
Marissa deu um risinho sem graça.
— Meu corpo não está muito sensual, reconheço. Não precisa se
desculpar por ter se decepcionado comigo.
Adam murmurou um palavrão e deu um soco no braço do sofá.
— Mas o quê, afinal, eu vou ter de fazer para que acredite em mim? —
ele gritou em seguida, claramente frustrado. — Já disse várias vezes, já tentei
demonstrar de milhares de maneiras que eu te amo! Por que não acredita?
Ela não conseguiu responder. Sua mente parecia incapaz de trabalhar.
Adam se aproximou.
— Diga-me, Marissa. Explique-me, como posso convencer uma mulher
tão cabeça-dura quanto você de que falo a verdade?
Ela olhou para as próprias mãos. Tinha medo de provocar ainda mais a
fúria de Adam, mas precisava fazer essa pergunta.
— Por favor, seja sincero. Você me amaria mesmo se eu não estivesse
esperando um filho seu?
— Sim.
A resposta foi clara e definitiva.
Marissa levantou a cabeça, sua vulnerabilidade e insegurança expressas
em seu olhar.
— Então por que não me procurou depois da noite que passamos juntos?
Onde passou os três meses seguintes? Você nem sequer me telefonou!
Ele se sentiu arrependido. Aquela única ação, ou falta de ação, era a razão

de seu problema. No fundo já sabia disso, mas não conseguia explicar sua
atitude.
Estendeu as mãos, segurando as de Marissa, puxando-a para perto de si,
até que estivesse sentada em seu colo. Um forte desejo de proteção o dominou.
Na verdade, tal desejo parecia estar sempre presente quando tinha Marissa por
perto, crescendo a cada dia, da mesma forma que seu amor.
Ela recostou a cabeça no ombro dele enquanto esperava pela resposta. O
mais triste era que não importava o que Adam dissesse, por mais frias ou cruéis
que fossem suas palavras, continuaria a amá-lo com loucura.
Ele suspirou.
— Menos de uma semana antes de fazermos amor pela primeira vez, eu
tinha acabado de perder quase toda a minha fortuna por causa de um negócio de
petróleo que acabou dando para trás. Eu não sabia se iria conseguir escapar da
falência. Estava deprimido, confuso, e não conseguia pensar com clareza.
Ele a segurou com firmeza em seu colo. Era um doce conforto. Em
seguida, continuou a falar.
— Então você chegou e me fez sentir íntegro novamente. Não estava
interessada em meu dinheiro, mas em mim. Depois da noite que passamos
juntos, contudo, fiquei com medo. Ou melhor, fiquei apavorado por causa de
uma mulher que parecia jovem demais, de espírito independente e coração
generoso. — Adam fez uma pausa, os dedos se movendo sem sossego entre os
dela. — Eu havia acabado de terminar um relacionamento que durou três anos,
e também me sentia inseguro por causa disso. Eu não queria começar outra
relação destinada ao fracasso.
— Eu sabia sobre Elizabeth — Marissa sussurrou. — Ela queria filhos e
você não.
— Errado. Eu também queria um bebê, mas não queria que fosse ela a
mãe de meu filho.
— Você também não queria que fosse eu.

— Eu não conhecia você muito bem, no início. Sempre procurei por uma
mulher em quem pudesse confiar, com quem pudesse dividir minha vida, mas
simplesmente não tinha consciência disso. Queria alguém que se importasse
comigo, e não com os dólares em minha carteira. Eu não imaginava que um dia
conheceria uma mulher assim, Marissa. Foi então você entrou em minha vida, e
me apavorei. Acordei na manhã seguinte à festa e percebi que não me sentia tão
bem assim fazia muito tempo. Você havia colocado uma toalha úmida em minha
testa, deixado uma aspirina com um copo de água na mesinha de cabeceira, e
depois se deitara toda enrolada ao meu lado, feito uma gatinha. Tudo sem pedir
ou esperar algo em troca.
— Apenas quis ser gentil com você, Adam. Não há nada demais nisso.
— É aí que se engana. Nem todo mundo se preocupa em ser gentil com
os outros. Foi por causa disso que comecei a pensar mais em você. E se no fim
você acabasse me pedindo alguma coisa? Todas as minhas ilusões iriam por
água abaixo. E não havia nada que eu pudesse lhe dar naquela época. Estava
confuso demais para saber como lidar com a situação, envolvido demais com
meus problemas, disposto a reconquistar minha fortuna. Então fugi.
— E aí eu liguei pedindo que fosse se encontrar comigo... Você achou
que eu iria pedir o pagamento? — indagou Marissa, olhando para ele.
— Sim. Mas não me importei. Eu já havia trabalhado duro durante três
meses, e isso tinha trazido muito bons resultados para os negócios. Além do
mais, eu vinha pensando em você há tanto tempo que queria vê-la de novo.
Precisava saber se você era realmente tão incrível quanto eu achava que era. —
Ela a segurou com mais força. — E então você me contou sobre o bebê.
— Você reagiu com tanta frieza...
— Eu fiquei atônito. — Adam baixou a cabeça, arrependido do que tinha
feito. — Não podia sequer imaginar que você iria me procurar porque estava
grávida. Nós havíamos tido uma noite tão perfeita... Eu sonhava procurá-la
outra vez assim que tivesse reconstruído minha vida. Quando você ligou, achei

que estivesse com saudades. Em vez disso, você me confrontou com sua
gravidez e ainda disse que poderia muito bem ter passado sem essa experiência.
— Não foi isso o que eu quis dizer — Marissa objetou.
— Mas foi o que eu ouvi — afirmou Adam.
— Eu me senti magoada. Você se mostrou tão frio, tão distante! Eu estava
morrendo de medo da sua reação. Havia ensaiado a cena mentalmente centenas
de vezes. Tinha medo que você jogasse algumas notas de cem dólares em cima
da mesa e me mandasse fazer um aborto...
Ele lhe deu um rápido beijo nos lábios.
— O que você teria feito se eu tivesse sugerido um aborto? — perguntou,
curioso.
— Teria procurado minha mãe e Gar para pedir ajuda. Sabia que eles
ficariam do meu lado, mas eu queria que nós dois estivéssemos envolvidos com
nosso filho. Juntos. — Os olhos dela assumiram uma expressão ferida. — Fui
criada por uma mãe que se importava comigo e por um pai ausente. Por esse
motivo, eu queria algo melhor para meu filho. Queria que você desejasse o bebê
tanto quanto eu, assim poderíamos criá-lo, educá-lo e amá-lo juntos. Mesmo
que não nos amássemos, achei que poderíamos nos entender nesse sentido.
— E então, para sua surpresa, encontrou um homem louco para dividir
sua vida com você. Mas preferiu recusá-lo....
Marissa olhou bem dentro dos olhos dele.
— Adam, se ainda quer se casar comigo, eu aceito sua proposta, mas com
uma condição.
— Qual?
— Que tenhamos um longo noivado. Devemos provar um para o outro
que o casamento irá funcionar.
— Você está falando em quanto tempo? Querida —, ele disse, a mão
cobrindo-lhe ternamente a barriga —, você já está grávida de cinco meses. Não
acha que seria bom já estar casada quando o bebê nascer?

— Acho melhor ainda não casarmos se não ficar provado que o
casamento pode dar certo. Não quero me divorciar dentro de um ano ou dois.
Quero que nosso casamento seja para sempre.
— Você não se importa que o bebê não tenha um sobrenome?
— Ele terá um sobrenome. O meu.
Adam suspirou. Marissa era tão bonita, espirituosa, meiga... e teimosa!
Sabia que acabaria aceitando as regras dela, mas não podia se entregar assim,
sem luta.
— Eu também tenho uma condição a impor.
Os olhos dela se arregalaram.
— Que condição? — perguntou, desconfiada.
— Que você não coloque uma barreira entre nós dois. Quero conviver
com você sem obstáculos, para que realmente possamos nos conhecer melhor. E
que o noivado seja anunciado formalmente e seja levado tão a sério quanto o
casamento.
— Só isso? — perguntou Marissa, irônica.
— Também desejo que nos casemos antes do Natal. Até lá você já vai
saber se vale a pena ficarmos juntos ou não.
Ela virou a cabeça e o cabelo escorregou por cima do ombro.
— Por quê?
— Porque quero estar casado no Natal. Quero guardar lembranças felizes
dessa linda festa para o resto de nossas vidas.
— Natal — ela falou, devagar, depois balançou a cabeça, concordando.
— Ok, trato feito.
Adam abaixou a cabeça e beijou-a apaixonadamente.
Segurou-a junto a si, desejando nunca mais se separar dela. Só de sentir o
perfume da pele de Marissa, sentia-se envolvido por uma onda de sensualidade
e desejo. A paixão que o dominava fazia com que experimentasse um calor
gostoso no ventre. Adam sabia que Marissa já devia ter notado sua ereção, e

quando tocou-lhe os seios com a ponta dos dedos percebeu que ela também
estava tão excitada quanto ele. Os mamilos rijos queimaram-lhe a pele,
aquecendo-o por dentro feito uma bebida forte. Ele se afastou.
— Você sempre sela um acordo desta maneira? — Marissa perguntou,
sem fôlego.
— Não, esta é a primeira vez — ele admitiu, com voz rouca.
Um sorriso se formou nos lábios de Marissa, e Adam não resistiu à
vontade de beijá-los novamente.
Ela se levantou do sofá e puxou-o pela mão, dizendo:
— Venha, vou lhe mostrar o melhor lugar para concluirmos a
negociação...
Marissa o conduziu através da sala e do quarto, só parando, insegura,
quando chegou perto da cama. Ele a fitou, segurando-lhe o rosto de formato
oval entre as mãos.
— O que foi, querida?
Ela enrubesceu.
— Eu queria seduzi-lo, mas temo não estar em forma para isso —
confessou, finalmente.
A risada de Adam ecoou pelo quarto.
— Até agora você fez um ótimo trabalho, Marissa. Não tenho do que me
queixar... —ele observou, acariciando-lhe o cabelo.
Adam soltou um profundo suspiro antes de tornar a beijá-la, dando início
a mais um doce momento de intimidade. Ah, como era grande o amor que sentia
por Marissa! Ela não podia deixá-lo. Não agora. Não quando ele tinha a chance
de ter o único tipo de felicidade que jamais conhecera. Deus não seria tão
cruel...
Passaram os dois dias seguintes juntos, trancados no apartamento de
Marissa. A vida lá fora não lhes dizia respeito.

Adam deu alguns telefonemas à sua secretária, pedindo que dissesse a
quem o procurasse que estava viajando. Judi ligou para ele no dia seguinte para
dar os recado mais importantes. Marissa preparou todos os pratos preferidos de
ambos. Assistiram filmes antigos e românticos em vídeo. Adam viu um jogo de
futebol enquanto ela fazia um bolo que espalhou um aroma delicioso pelo
apartamento inteiro.
Conversaram bastante sobre política, religião, problemas pessoais.
Nenhum assunto era proibido, e um procurava aceitar a opinião do outro.
Deram-se a chance de discordar sobre algumas coisas e acabavam as discussões
com beijos intermináveis.
Quando Adam finalmente teve de retornar ao mundo dos negócios,
sentia-se como se tivesse tirado férias durante meses, e mesmo assim queria
mais.
Ele estava relutante quando voltou ao seu apartamento. Tudo continuava
do jeito que havia deixado, os mesmos móveis, o jornal dobrado sobre a
mesinha de centro, a mesma solidão.
Vestiu um terno e saiu para ir ao escritório, forçando-se a seguir de
elevador até a garagem, sem parar no andar de Marissa para dizer-lhe “até
logo”. Sorriu ao lembrar-se da despedida durante a manhã. Marissa estava na
cama, sentada, com os braços envolvendo os joelhos e o cabelo espalhado em
torno dos ombros feito uma nuvem negra.
— Eu estive pensando no jantar de Ação de Graças — ela havia dito. —
Eu gostaria de fazer algo especial.
— Tenho certeza de que adorarei, seja lá o que você fizer.
Os olhos dela tinham brilhado, e uma risada gostosa escapara-lhe dos
lábios.
Adam demorou pouco para chegar ao escritório, já que havia saído de
casa mais tarde que o habitual e não precisara enfrentar o trânsito congestionado
das oito horas. Viu nisso uma ótima desculpa para sempre sair de casa atrasado.

Teria mais tempo para ficar com Marissa...
Estava se tornando um hábito para ele assinar papéis sem tê-los lido.
Ainda bem que podia confiar no trabalho da secretária.
— Judi —, disse ele ao entregar o último documento assinado. — acho
que está na hora de você receber um aumento.
— Eu aceito — ela respondeu de imediato, enquanto pegava a
correspondência. — Quanto?
— Seu salário está compatível com o de mercado?
— Para dizer a verdade sim, mas eu não dispensaria um extra.
— Que tal dez por cento?
— A partir de quando?
— Agora.
Judi encostou o quadril avantajado na mesa de mogno do patrão.
— Me dê quinze por cento e eu prometo que dispensarei todos os chatos
que lhe telefonarem e não deixarei ninguém se intrometer em sua vida
particular.
Adam não pode deixar de rir.
— Dez por cento e você fará a mesma coisa.
Judi deu de ombros, sorrindo para o chefe.
— Está bem, mas com certeza não terá tanta graça.
— E ligue para a joalheria, avisando que quero comprar um anel de
noivado. Passarei por lá hoje à tarde.
— Certo — disse Judi, cruzando a sala em direção à porta. Quando já
estava saindo, voltou-se de novo para o patrão. — A propósito, seu pai esteve
aqui duas vezes e disse que passou uma vez em seu apartamento. Eu diria que
ele vai encontrá-lo mais cedo ou mais tarde, portanto não adianta fugir... — ela
anunciou antes de fechar a porta.
— Só me faltava essa — Adam murmurou para si mesmo, antes de dar
alguns telefonemas urgentes.

Tinha muitos negócios importantes a resolver, não queria ter de se
preocupar com o pai.
Ligou para Marissa e levou meia hora para convencê-la a passar em seu
escritório no final da tarde. Precisou ameaçar nunca mais vê-la para que ela
aceitasse ir escolher o anel de noivado em sua companhia.
Trabalhou em ritmo alucinante durante o dia todo. Às cinco horas, estava
terminando de pôr tudo em ordem quando Marissa apareceu, o cabelo escuro
brilhando, o rosto iluminado por um sorriso e o andar... simplesmente demais.
— Cheguei cedo?
— Não. Veio na hora certa. — ele disse, contornando a mesa para abraçála.
Tinha necessidade de tocá-la, certificar-se de que realmente estava ali.
Havia pensado em Marissa uma centena de vezes enquanto trabalhava. Beijoulhe o pescoço, a orelha, e sentiu seu aroma.
— Hum, você está cheirando bem.
— É cheirinho de banho — ela esclareceu, rindo, enlaçando-o pelo
pescoço.
— É cheirinho de Marissa — ele corrigiu, beijando-lhe o rosto todo. — E
eu estou ficando viciado nela.
Abraçou-a como se não a tivesse visto por um ano. Mais uma vez
espantou-se ao perceber que estava realmente viciado nela.
Marissa se afastou, os lábios vermelhos e inchados de tantos beijos
recebidos.
— Não seria melhor irmos andando? — perguntou, com voz rouca.
— Você está com medo de quê?
— De que sua secretária entre aqui e me encontre deitada no chão com a
saia levantada até a cabeça — ela respondeu, corando.
Havia algo em no olhar de Marissa que indicava que estava mesmo com
medo. Adam recusava-se a acreditar que a razão de tanto medo fosse ele. Já

havia visto este olhar amedrontado vezes demais nas últimas semanas, quando
estavam juntos. Tentara descobrir o motivo, mas Marissa ainda não parecia estar
pronta para falar a respeito. Só o que Adam podia fazer era esperar
pacientemente que ela confiasse nele o suficiente para se abrir.
— Tem razão. Temos um compromisso importante, e eu não vou perder a
cabeça só porque você resolveu exercer seu poder de sedução feminino sobre
mim — ele disse por fim, afastando-a com relutância. — Você vai ter de esperar
até chegarmos em casa...
Saíram de mãos dadas dá sala.

CAPÍTULO IX
O anel de noivado que Adam escolheu coube perfeitamente no dedo de
Marissa. Ela não pôde evitar de olhar para a jóia pelo menos umas cem vezes
durante o caminho entre a joalheria e um pequeno bistrô próximo ao
condomínio Torres.
Adam segurou-lhe a mão, traçando o contorno do anel com a ponta do
dedo. Tratava-se de um solitário de design moderno e elegante. Custara uma
fortuna. Marissa reclamara do preço, mas Adam recusara-se a comprar-lhe outro
mais barato.
— Feliz? — perguntou ele.
Ela sorriu, adorando ver o carinho com que ele a fitava, mandando
silenciosas mensagens de amor que aqueciam seu corpo.
— Sim. Muito!
Adam parou no estacionamento do bistrô e virou-se para ela, a expressão
do rosto ao mesmo tempo terna e decidida.
— Marissa — disse devagar, estendendo a mão para brincar com uma

mecha do cabelo dela. — Não sei o que se passa na sua cabeça, mas quero me
casar com você o mais cedo possível. Se ainda tem dúvidas a nosso respeito,
precisa conversar comigo a respeito. Não as guarde para você, pensando que
irão desaparecer por obra do acaso.
— Eu sei — ela murmurou, tocando o rosto dele.
Desejara tê-lo por tanto tempo que parecia impossível acreditar que
estava realizando sua fantasia. Sentia-se apavorada. Nada que fosse tão bom
assim podia durar por muito tempo...
— Apenas dê-me um pouco tempo para que eu me acostume com a idéia
de formarmos um casal de verdade — acrescentou.
Ele suspirou.
— Está bem, mas quero que nosso filho, ao nascer, tenha o meu
sobrenome.
— Eu sei — Ela abriu a porta e saiu do carro, antes que ele tivesse tempo
de protestar. — Vamos comer alguma coisa. Estou morrendo de fome.
O restaurante era pequeno, mas elegante; o jantar, delicioso. Marissa
adorava crepes desde que era adolescente e teve a maior dificuldade para
escolher o que mais lhe apetecia entre quinze diferentes opções.
Ao final da refeição tomaram café, sentindo prazer com a companhia um
do outro.
Adam sorriu, satisfeito, recostando-se na cadeira.
— Nunca jantei tão cedo por tantos dias seguidos — confessou ele.
— É bom para você — Marissa provocou. — Se comer e a seguir fizer
um pouco de exercício, não ficará gordo.
— É por isso que você sempre janta cedo?
Foi a vez de Marissa sorrir.
— Eu janto cedo porque me habituei a isso quando estava dando aulas. A
maioria das escolas serve o almoço às onze, e quando são quatro horas da tarde
já estou faminta de novo.

— Então é mais uma questão de sobrevivência do que vontade de se
manter saudável...
Ela deu de ombros, abrindo um sorriso maroto.
— Temo que sim.
— Muito bem, Srta. Madison, que logo será Sra. Pierce, nada mais de
ficar faminta ou se preocupar. Tomarei conta de sua dieta de agora por diante.
— Oh, eu... — ela começou, mas foi interrompida por uma voz de
barítono.
— Finalmente encontrei você, meu filho! Deixei um milhão de recados
com aquela sua secretária ineficiente, ela não lhe disse nada?
— Olá, papai — Adam cumprimentou, calmo. — Recebi seus recados,
sim.
Marissa olhou curiosa para o homem mais velho parado ao lado da mesa.
A cabeça totalmente grisalha balançou em sinal de irritação.
— E quando você estava planejando me procurar, filho?
— Assim que tivesse tempo.
— Você tem tempo para ela, mas não consegue arrumar uns minutos para
ligar para seu pai, é isso? — o homem perguntou, indignado.
Não foram as palavras dele que machucaram, foi a expressão em seus
olhos: fria, cheia de desprezo, cortante.
Marissa pegou a bolsa, tremendo. É claro que o pai de Adam sabia quem
ela era; por quê, então, se mostrava tão grosseiro?
— Com licença — disse ela, tentando aparentar calma.
Levantou-se e caminhou para os fundos do restaurante, ignorando os
chamados de Adam. Precisava sumir. Depressa.
Entrou no banheiro, fechou a porta com dedos trêmulos e encostou-se
contra a parede, olhando para a sua figura refletida no espelho.
Humilhação era um sentimento novo para ela. Até então tinha sido
poupada disso porque só se encontrara com amigos e parentes, pessoas que a

compreendiam e sabiam que não era uma vagabunda só porque estava grávida e
era solteira.
Mas aos olhos do pai de Adam ela era uma golpista, a fim de conquistar
riqueza através da gravidez. E não havia dúvidas em sua mente de que boa parte
dos amigos de Adam pensaria da mesma forma.
Começou a chorar, incapaz de deter as lágrimas. Olhou para o anel que
brilhava em seu dedo. O anel de Adam, que jamais teria usado se não tivesse
ficado grávida...
Deu um pulo de susto quando ouviu uma batida na porta.
— Marissa, abra — Adam pediu, e ela olhou para a porta sem saber o que
fazer. — Marissa! Abra esta porta antes que eu chame o gerente para abri-la!
Pensou em resistir, mas de quê adiantaria? Iria apenas fazer papel de
idiota.
Com dedos trêmulos, girou a chave, mas não teve tempo de virar a
maçaneta. A porta se abriu antes disso.
O rosto de Adam estava tenso. Ele entrou no banheiro minúsculo e fechou
a porta, encostando-se na superfície de madeira enquanto fitava o rosto de
Marissa para avaliar o quanto ficara magoada. Ela ergueu o queixo num gesto
de desafio, disposta a brigar para se defender.
— Meu pai é um imbecil.
Os olhos dela se arregalaram. Tal declaração era a última coisa pela qual
esperava. Adam enxugou gentilmente uma lágrima que lhe escorria pelo rosto.
Depois outra. Sorriu, triste.
— Papai realmente é um imbecil, por isso não tente me dizer que devo
respeitá-lo. Ele só está preocupado com nosso relacionamento porque teme que
você feche o banco.
— Banco? Do que é que está falando?
— Eu sustento meu pai. Ele teme que eu me case com uma mulher que
não seja rica e goste de esbanjar dinheiro. Tem medo de que não sobre nada

para ele. Agora mesmo estava atrás de mim para que eu pagasse as dívidas de
jogo dele.
— Oh, Adam — ela murmurou, sentindo tanta pena e amor misturados
que não resistiu e o abraçou com força. — Sinto muito — fungou.
Adam deu uma pequena risada e retribuiu o abraço.
— Se isso fizer você sair deste banheiro, prometo lhe contar toda a
história — ele disse.
Marissa levantou a cabeça e olhou para ele, adorando vê-lo sorrir
novamente.
Balançou a cabeça, pensativa, e sugeriu, por fim:
— Talvez, se convidássemos seu pai para o jantar de Ação de Graças, ele
veria que não estou atrás do seu dinheiro, e...
— E então poderíamos nos casar com permissão e a bênção dele?
Ela assentiu.
O doce sorriso de Adam desapareceu.
— Temo que não irá adiantar nada, querida. Minha família não é nem um
pouco parecida com a sua. Não existe amor a nos unir, como existe na sua. Só o
que interessa é dinheiro.
— Quem sabe, se você tentasse... Afinal, ele é seu pai!
— E quanto ao seu pai, Marissa? — perguntou Adam, e pelo olhar dela
percebeu que a tinha ferido. — Desculpe-me. Isso é assunto seu.
Ela lhe fez um carinho no queixo.
— Não, você tem razão. Eu raramente penso em papai, desde que mamãe
se casou com Garner. Você está certo. Não são todas as pessoas que nascem com
instinto paterno.
Assustaram-se ao ouvir alguém bater à porta. Adam soltou Marissa com
relutância e sorriu, rompendo a tensão de instantes atrás. Abriu a porta e deu de
cara com uma senhora de casaco de pele, que aparentemente havia perdido a
paciência fazia algum tempo.

— Ridículo! — exclamou a mulher, franzindo a testa num gesto de
desaprovação. — Você e sua namorada não podiam ir se divertir em um motel?
— Excelente idéia — murmurou Adam, enquanto conduzia Marissa para
fora do banheiro. — Agradecemos a sugestão, senhora.
Depois de terem pago a conta saíram do restaurante, rindo. Era uma
maneira fantástica de terminarem o dia e se prepararem para a noite.
Uma semana antes do dia de Ação de Graças, no final de novembro, as
lojas já estavam todas enfeitadas para o Natal, na esperança de forçar as pessoas
a gastarem mais do que pretendiam.
Marissa cantarolava uma canção natalina enquanto fazia compras,
examinando o preço de cada artigo como se estivesse com o dinheiro contado,
quando na verdade Adam fizera questão de pagar tudo. A contribuição dela seria
na hora de cozinhar.
Uma mulher que fazia compras acompanhada de duas crianças pequenas
aproximou-se dela.
— Para quando é o bebê? — perguntou, apontando para a barriga
crescida.
— Eu o espero para o período entre o Natal e o Ano Novo — Marissa
respondeu sorrindo, as mãos cobrindo o ventre.
— É o seu primeiro?
— Sim.
A outra mulher sorriu-lhe de volta.
— Bem, boa sorte. Os três primeiros anos são os mais tranquilos, pelo
que dizem. Meu marido, Jim, sente saudades do tempo em que não tinha filhos.
Ele chegava do trabalho e podia descansar, em vez de precisar consertar logo
tudo que as crianças passaram o dia destruindo.
— E você? — Marissa não pôde deixar de perguntar, olhando para o bebê
de oito ou nove meses no carrinho.

A criança segurava um biscoito, possessiva, enquanto exibia um brilhante
sorriso.
A mulher suspirou, tirando um lenço do bolso para limpar a boca da
criança.
— Pode me chamar de louca, mas eu não queria que fosse de outro jeito.
Gosto dos meus filhos como são.
— Foi o que imaginei.
Marissa sorriu, pensando que as mães podiam até se queixar de seus
filhos, mas a expressão de amor no olhar sempre as delatava.
— Você vai ver logo como é — a outra mulher avisou num tom cansado,
mas ao mesmo tempo sorrindo. — Boa sorte.
Marissa ficou observando a mulher encher o carrinho com comidinhas de
criança. Quando chegasse a sua vez, ficaria perdida ao ter de escolher entre
tantos tipos e marcas diferentes.
Depois de fazer as compras, Marissa voltou ao condomínio e aceitou de
bom grado a ajuda de Pete para levar os pacotes para cima.
Enquanto Pete descarregava o carro, Adam apareceu. Estava com o
cabelo molhado e vestia uma camisa de algodão e calça jeans, que lhe realçava
as pernas longas e musculosas. Sua aparência era divina. Não importava a roupa
que usasse, sempre chamava a atenção.
Adam riu quando viu as sacolas no banco de trás do carro.
— Comprou todo o supermercado, querida?
— Quase, mas lembrei de deixar alguma coisa para os outros.
Marissa sentiu vontade de se esticar toda para beijar-lhe o rosto, sentir-lhe
o cheiro da loção pós-barba, tocar-lhe os músculos do braço e do peito... Mas
não com dois funcionários do condomínio observando tudo e trocando
sorrisinhos entre si!
O olhar de Adam, acompanhado de um sorriso maroto, indicou que ele
estava lendo os pensamentos de Marissa.

Pete foi buscar um carrinho para carregar as compras e encheu-o com a
ajuda de Adam.
— E eu, não faço nada? — reclamou Marissa. — Isso é discriminação!
— Errado. Trata-se de uma divisão de tarefas. Você compra, eu carrego.
Cinco minutos depois que eles chegaram ao apartamento, o interfone
tocou. Adam foi atender no corredor.
Marissa continuou a cantarolar a canção natalina enquanto guardava as
compras.
Talvez fosse a combinação da conversa sobre filhos com a mulher no
supermercado e o fato de Adam tê-la ajudado a carregar as compras que a fez,
de repente, sentir-se realmente esposa e mãe pela primeira vez. Esposa de
Adam... Maternidade era algo com que se acostumara nos últimos meses, mas
ser esposa era algo novo e assustador, algo que não havia tido vontade de fazer
até então. Até conhecer o homem certo...
Agora sabia que a vida sem Adam era o tipo de vida mais solitário que
existia.
Quando Adam entrou na cozinha, Marissa abraçou-o, beijando-lhe o
rosto.
— Está tudo bem?
— Sim, está tudo em ordem — ele respondeu, os braços se fechando em
torno dela. Inspirou profundamente. Depois, devagar, ele a soltou. — Mas eu
preciso fazer uma visita. Estarei de volta dentro de uma hora, mais ou menos.
Não precisa cozinhar. Eu encomendei comida italiana.
— É um desperdício, já que eu estou com a despensa cheia.
— Não cozinhe!
Tratava-se de uma ordem, e Marissa obedeceu.
O dia de Ação de Graças amanheceu claro e ensolarado, com uma
temperatura bastante amena.

Adam havia passado a noite anterior em seu apartamento, tendo descido
apenas para jantar antes de desaparecer novamente para tratar de negócios.
Usando calça de gestante e uma larga malha azul, Marissa começou a
preparar o peru. O pai de Adam viria, mesmo que de má vontade, para o jantar,
e ela estava contentíssima. Podia até não conseguir conquistar o velho, mas pelo
menos teria feito o possível.
O peru e os molhos já estavam no forno, as batatas cortadas, os legumes
prontos para o microondas. Marissa queria deixar tudo encaminhado para
quando Adam e o pai chegassem.
Havia preparado também pão doce, bolo de cenoura e torta de abóbora.
Verificou novamente sua aparência, pondo-se diante da parede de
espelhos da sala. Apesar de o médico ter-lhe dito que havia engordado menos do
que a média, não estava contente com sua aparência. Do pescoço para cima
estava bem, mas o corpo parecia uma bola.
Tentou encolher o estômago, e olhou novamente para o espelho. Agora
eram as bochechas que estavam inchadas, e o rosto adquirira uma tonalidade
vermelha. Não adiantava. Estava grávida de oito meses e não tinha como
esconder.
Sentou-se no sofá, emoções diversas se agitando dentro dela. Embora
estivesse descontente com seu corpo, Adam lhe havia repetido inúmeras vezes
que não estava feia nem gorda, mas linda. E devia ser isso mesmo, pois ainda
podia se lembrar do brilho de desejo no olhar dele.
Sentia-se mal por ter se tornado desajeitada; tinha dificuldade para pegar
algo no chão ou amarrar os cordões dos tênis. Tudo isso lhe lembrava que seu
corpo estava mudado. Não se sentia tão segura de si quanto costumava ser, mas
também nunca tinha estado grávida antes.
Depois de muita indecisão, estava preparada, agora, para assumir o
compromisso final com Adam. Talvez mais tarde, após o jantar, depois que o pai
dele tivesse ido embora e ambos estivessem abraçados no sofá em frente à

lareira, ela explicasse porquê havia se mostrado tão relutante em se casar com
ele.
Um pequeno sorriso curvou seus lábios quando pensou na cena e em
como terminaria.
Eles tinham sido tão felizes durante os últimos meses, partilhando tudo,
se amando! Tão felizes...
A campainha soou e Marissa deu um pulo. Haviam chegado! Caminhou,
decidida, até a porta.
Quando viu Adam e seu futuro sogro, porém, teve a impressão de que seu
coração falhava uma batida. Nenhum dos dois parecia contente. Os lábios de
Adam estavam pressionados em uma linha fina, e os olhos cinza pareciam mais
escuros que o habitual. O pai de Adam também exibia uma expressão
descontente.
Marissa respirou fundo e forçou-se a sorrir, determinada a fazer da noite
um sucesso.
— Sejam bem-vindos — disse, afastando-se para que pudessem entrar. —
Fiquem à vontade.
— Olá, querida — Adam cumprimentou-a, após seguir o pai até a sala de
estar.
Ele abaixou-se e depositou um beijo rápido na testa de Marissa, de modo
mecânico.
Ela tentou ignorar a tristeza que ameaçava tomar conta de seu coração e
caminhou até a mesinha de centro, que servia de bar.
— Vocês gostariam de tomar um drinque? Sr. Pierce? Adam?
— Deixe que eu prepare as bebidas. — Adam aproximou-se da mesa. —
Você pode cuidar da comida. — Sua voz soou fria, reservada.
Marissa olhava de Adam para o pai dele, que estava parado em frente à
porta do terraço, olhando para fora, os músculos das costas tensos de... Raiva?
Não saberia dizer. A única explicação plausível para tanto mau-humor era que

ambos deviam ter discutido por causa de um assunto qualquer.
Silenciosamente, ela foi para a cozinha. Deu uma olhada no peru, ainda
no forno, e constatou que poderia servir o jantar em menos de uma hora. Ainda
bem. Não tinha certeza se poderia sobreviver a muito tempo de guerra fria. Uma
pequena dose de esperança lhe disse que as coisas poderiam melhorar. Talvez o
Sr. Pierce percebesse que ela não pretendia atacá-lo ou ficar aborrecida com sua
atitude e começasse a relaxar.
Uma hora mais tarde Marissa percebeu que não adiantava sonhar. A
situação não havia melhorado, pelo contrário, estava pior. O problema não era
tanto o Sr. Pierce, e sim o próprio Adam. Ela queria confortá-lo, ser confortada
por ele, mas temia ser repelida. Desse modo, preferiu manter um falso sorriso
no rosto enquanto por dentro sentia-se cada vez mais triste.
— Alguém quer mais salada de milho? — perguntou, vivaz, erguendo a
travessa.
— Não, obrigado — Adam respondeu, espetando um pedaço de peru com
o garfo.
Estava brincando com esse mesmo pedaço de carne desde o começo do
jantar.
O Sr. Pierce simplesmente não respondeu ao oferecimento. De fato, não
dissera mais do que três palavras desde que entrara no apartamento. Com
exceção de longos olhares de antipatia lançados na direção de Marissa, ele
estava conseguindo fazer com que ela se sentisse invisível.
Subitamente, Marissa começou a sentir uma raiva incontrolável. Os dois
homens a estavam enlouquecendo. Contou até cem para tentar acalmar-se,
quase não conseguindo conter as palavras que ameaçavam escapar-lhe dos
lábios. Sua cabeça doía com o esforço de permanecer em silêncio.
Perdeu todo o auto-controle, porém, quando o Sr. Pierce pegou a travessa
de salada de milho que ela acabara de oferecer e serviu-se sozinho.
Ela apoiou as mãos sobre a mesa.

— Droga! — exclamou, empurrando a cadeira com violência para trás e
indo para a cozinha, para longe dos dois homens, antes explodir de vez.
Caminhou com dificuldade para fora da sala. Quando chegou à cozinha,
apoiou o ombro na porta e a testa na parede, ofegante de raiva.
— Eu pedi a você que fosse gentil — Adam ralhou com o pai.
— Marissa não tem a classe de Liz — retrucou o Sr. Pierce, num tom
grosseiro.
— Esqueça Liz, papai.
— O peru está seco, sem gosto. Liz o teria servido do jeito certo, ela sabe
como preparar pratos sofisticados.
— Eu não ligo a mínima para as qualidades de Elizabeth, papai. Vou me
casar com Marissa, e nada que você disser ou fizer vai mudar minha decisão. É
bom ir se acostumando com isso!
Marissa, que ouvia a conversa da cozinha, prendeu a respiração. A dor
que sentiu no peito era muito forte para que conseguisse respirar. Elizabeth! A
mulher com quem Adam havia morado durante três anos! Pelo menos ele não
havia defendido a ex-namorada na frente do pai. Pelo menos...
— Não foi o que me pareceu ao ver você com Liz ontem e agora há
pouco, filho. Para falar a verdade, você estava até rindo — comentou o Sr.
Pierce.
— Já chega, papai.
— E quando você a beijou, eu poderia jurar...
— Chega! — Adam bateu com a mão fechada na mesa.
Mas o Sr. Pierce continuou a falar:
— Será que essa vagabundinha sabe que você provavelmente irá pedir o
divórcio assim que tiver conseguido dar seu sobrenome a essa criança que você
parece desejar tanto? Será que ela sabe que Elizabeth não vai se incomodar de
esperar por você?
A dor se alastrou do peito de Marissa para o resto do corpo,

transformando seus braços e pernas em pedaços inertes de chumbo. O Sr. Pierce
mal dissera uma palavra em sua presença, mas assim que ela saíra da sala
aproveitara a chance para deixar bem claro o que pensava. E Adam não fizera
nada para defendê-la!
Marissa forçou-se a andar, devagar mas com determinação, para fora da
cozinha, em direção à mesa de jantar. Deveria ter sido mais esperta, antes de se
entregar a um homem...
— Você já conseguiu o que queria, agora sugiro que suma daqui, antes
que eu o jogue pela janela — Adam disse ao pai, num tom frio, as mãos
cerradas sobre a mesa.
Marissa ignorou a discussão dos dois homens. Firmou as mãos no
espaldar da cadeira onde havia estado sentada e ordenou, furiosa:
— Quero vocês dois fora daqui agora mesmo! E não voltem a pisar aqui,
nunca mais!
A expressão no rosto de Adam era de dor. Mas o sorriso do Sr. Pierce
exprimia felicidade por ter alcançado um triunfo. Marissa sabia que o homem só
dissera tudo aquilo para que ela ouvisse, mas não importava. Queria vê-los fora
de seu caminho. Inspirou profundamente.
— Eu disse saiam! Agora! — gritou.
Adam levantou-se, caminhando em sua direção.
— Marissa, querida...
Ela levantou a mão, fazendo sinal para que se calasse.
— Não quero ouvir nada. Saia, Adam. Agora!
Ele deveria ter percebido antes a tensão à qual ela estava sendo
submetida. Hesitou por um instante, depois estendeu a mão para acariciar-lhe o
cabelo.
— Não me toque! — gritou Marissa, empurrando-o com tanta força que
acabou perdendo o equilíbrio.
Precisou segurar-se na borda mesa para firmar-se, o rosto mais pálido do

que antes.
— Agora sumam daqui, os dois!
O Sr. Pierce levantou-se, colocou o guardanapo sobre a mesa e dirigiu-se
para a porta.
O rosto de Adam assumiu uma expressão tempestuosa.
— Vamos conversar sobre o que aconteceu mais tarde, assim que eu me
livrar deste homem que se diz meu pai, Marissa!
— Não! Está tudo acabado entre nós. — Ela tirou o anel de brilhante do
dedo e estendeu-o para Adam, fitando-o com um olhar totalmente inexpressivo.
— Adeus.
Ele ignorou o gesto de Marissa.
— Não vou aceitar o anel de volta! Nós ainda não terminamos. — Viroulhe as costas e tomou o mesmo caminho que o pai havia tomado.
— Estarei de volta dentro de cinco minutos. Espere por mim!
Novamente ela se sentiu tomada pelo ódio.
— Dane-se, Adam Pierce! — gritou e atirou o anel em suas costas,
atingindo-lhe o ombro.
Ele parou por uma fração de segundo, depois continuou em direção à
porta sem sequer olhar para ela, para não provocar ainda mais sua ira.
Ao ouvir o barulho da porta se fechando, Marissa perdeu a força. As
pernas dobraram-se sozinhas e ela caiu de joelhos no chão. As lágrimas,
contidas pela raiva, escorriam livres, agora.
Soluçando, enterrou o rosto nas mãos.
Fechou os olhos, desesperada. Teria de aprender a encarar o futuro
sozinha, de novo, sabendo que essa era a única forma de poder continuar
vivendo.
A fantasia havia terminado. A realidade se abatera violentamente sobre
ela. A solidão estava a seu lado, de braços abertos para recebê-la. Mas pelo
menos sabia o que esperar do futuro, só o que tinha a fazer era se acostumar.

Outra vez.

CAPÍTULO X
Os punhos de Adam estavam cerrados. Ele entrou no elevador e ficou
olhando para a parede, incapaz sequer de encarar o pai.
— Você vai desaparecer — ordenou, tentando manter a voz calma. — Vai
sumir deste prédio e da minha vida para sempre.
— Espere um minuto, meu filho. Eu não tenho culpa de nada! A sua
namoradinha ia acabar descobrindo mais cedo ou mais tarde que Elizabeth
ainda está na jogada.
— Para mim, Liz está morta! Você sabia disso, mas resolveu usá-la para
atacar Marissa!
— Mas por que decidiu que não quer mais nada com Liz? — O pai
segurou-o pelo braço. — Por quê, se ela tem quase tanto dinheiro quanto você?
Ela gosta das mesmas coisas, conhece as mesmas pessoas que você! Ela até
quer ter um filho seu!
Adam sacudiu o braço para livrar-se da mão do pai.
— Adam, escute-me — pediu o homem mais velho. — Você poderia se
casar com Liz, e se essa vagabundinha grávida significa tanto assim para você,
poderia continuar a vê-la de vez em quando. Afinal, está pagando pelo
apartamento em que ela mora e por quase tudo que compra.
As palavras do pai foram um duro golpe para Adam, pois deixavam a
verdade às claras. Havia tirado a independência de Marissa, forçando-a a
confiar nele, apenas para atirar-lhe seu amor e confiança de volta na cara, pela
forma como agira hoje. Sempre havia tirado algo de Marissa, e jamais lhe dera
nada exceto dinheiro. Vinha agindo feito uma cópia de seu pai, fazendo as

mesmas coisas que tanto criticara no passado.
Desde quando Adam podia se lembrar, seu pai só havia dado dinheiro
para a mãe e para ele, em vez de amor. E agora fizera exatamente a mesma coisa
com Marissa.
Ela o amava o suficiente para desistir de sua independência por causa
dele, e havia provado isso várias vezes nos últimos meses. Mas Marissa ainda
estava com medo; Adam podia ver isso em seus olhos quando ela não percebia
que estava sendo observado.
Seu coração bateu, ansioso. Tinha de voltar e conversar com Marissa para
explicar-se.
Encarou o pai com um olhar mais frio que gelo, dizendo:
— As contas que você me trouxe essa tarde são as últimas que pagarei
para você. Se quer gastar dinheiro, é melhor aprender a ganhá-lo. Não quero
mais saber de discussões como a que tivemos antes de chegarmos ao
apartamento de Marissa. Não quero mais ouvir falar em você, nunca mais!
O elevador parou no térreo e as portas se abriram. Adam permaneceu
parado, duro, olhando direto para a frente.
— Adeus, papai.
— Meu filho, deixe-me...
— Adeus!
O Sr. Pierce saiu do elevador, virando-se mais uma vez na direção do
filho. As portas do elevador se fecharam e Adam apertou o botão com o número
do andar de Marissa. Ele precisava vê-la, falar com ela e convencê-la da
sinceridade de seu amor.
Adam não quisera que o pai participasse do jantar de Ação de Graças, e
culpava Marissa, em parte, por ter insistido tanto em convidá-lo. Os dois
haviam acabado de ter uma briga tremenda por causa do estilo de vida
esbanjador do homem mais velho, e Adam deveria ter adivinhado que o pai
aprontaria alguma durante jantar. Fora estúpido ao permitir que o pai tivesse

acesso a Marissa naquelas circunstâncias. O comentário sobre Elizabeth fora
feito apenas para que Marissa o ouvisse e ficasse com raiva de Adam.
A dor insuportável que transparecera no olhar dela não lhe saía da cabeça.
Maldito fosse seu pai!
Assim que o elevador parou, Adam seguiu impaciente para o apartamento
de Marissa. Mas não adiantou nada bater à porta ou apertar a campainha. Ela
não atendia. Finalmente procurou pela cópia da chave em seu bolso.
Será que Marissa estava machucada? Será que o desentendimento havia
provocado alguma conseqüência maior? Fez uma prece rápida e abriu a porta,
chamando por ela.
A mesa ainda estava posta, e a pia da cozinha cheia de louça por lavar.
Chamou de novo.
— Marissa! Onde está você?
Ele foi ao quarto do bebê, mas não a encontrou. Foi ao quarto dela e
parou, assustado. Viu algumas roupas jogadas sobre a cama, sapatos espalhados
pelo chão, portas de armário abertas.
— Oh, Deus, não! — gritou, desesperado.
Correu de volta até os elevadores, mas só o que viu foi algo brilhando no
chão. Parou e recolheu o anel de brilhante que dera a Marissa como presente de
noivado. Tudo o que a jóia representava passou por sua cabeça com a rapidez de
um raio. Carinho, sorrisos cúmplices, paixão. Amor. O filho deles.
Apertou o anel com força na palma da mão e dirigiu-se ao térreo. Marissa
devia ter tomado um elevador para descer, enquanto ele subia pelo outro. Tinha
de alcançá-la. Marissa não podia fugir achando que ele mentira para ela.
Precisava saber que ele a amava!
Quando finalmente chegou à garagem, Adam correu para fora do
elevador. Praguejou em voz alta. O carro dela não se encontrava lá. A vaga
estava vazia.
Chorou de dor. Maldizia-se por ter calado, quando devia ter falado.

Precisava preencher o enorme vazio que invadira sua alma. Preenchê-lo com
Marissa. Com seu filho.
Tinha de fazer alguma coisa. Dirigiu-se até seu carro.
Não sossegaria enquanto não encontrasse Marissa e a trouxesse de volta.
Quisesse ou não, ela iria morar aqui, em seu prédio, sob sua proteção. Ele lhe
devolveria a liberdade, permitiria que fizesse o que bem entendesse, sem
intervir.
Era a única coisa que ainda tinha a oferecer. A agonia de perder quem
mais amava não lhe dava outra alternativa.
Mas primeiro teria de encontrá-la, depois precisaria convencê-la de que o
prometido seria realmente cumprido.
As duas semanas após o dia de Ação de Graças foram as mais duras que
Marissa jamais vivera. Ela havia pensado que contar a Adam que estava grávida
tinha sido a parte mais difícil, mas isso não era nada comparado às emoções
pelas quais vinha passando ultimamente.
Todas as manhãs acordava no apartamento de Becca e ficava imaginando
o que faria para o dia passar mais rápido. Todas as noites deitava-se sabendo
que iria sonhar com Adam e com a felicidade que haviam compartilhado nos
últimos meses. Por algum tempo mentira a si mesma, fingindo que Adam a
amava e desejava ambos, mãe e filho. Mas a falta de compaixão que ele
demonstrara na noite do jantar de Ação de Graças e a própria atitude do Sr.
Pierce, condenando seus atos, tinham-na trazido de volta para a realidade.
Deveria ter sido mais cuidadosa; não fora, porém, e agora amargava as
conseqüências.
Desistiu do trabalho de meio período na seguradora. Adam iria procurála, pois queria o filho, e ela não desejava ser encontrada. Se achasse que corria
algum risco na casa de Becca, fugiria para a casa dos pais. No fundo, rezava
para que ele desistisse da busca e a deixasse em paz. Queria juntar os cacos de

sua vida e colá-los da melhor maneira possível.
Durante a semana Marissa passeava por lojas e shopping centers,
misturando-se à multidão que fazia compras de Natal. Todos os dias, fazia os
exercícios que a médica lhe recomendara para facilitar o parto. Sentia
dificuldade para respirar, parecia que o bebê estava acomodado exatamente em
cima dos seus pulmões, de forma que tinha de parar constantemente para
respirar fundo. Duas noites por semana frequentava as aulas sobre cuidados com
recém-nascidos. Precisava manter a mente ocupada.
Nunca havia notado a tristeza da época das festas de final de ano, antes.
Mães acompanhadas pelos filhos percorriam, cansadas, as lojas, à procura de
presentes que não estourassem seus orçamentos. Algumas contavam e
recontavam o dinheiro, outras tentavam se lembrar do limite do cartão de
crédito. E outras ainda, feito Marissa, tentavam entrar no espírito natalino, mas
sem muito sucesso. O Natal era uma ocasião muito solitária quando não se tinha
com quem partilhá-la.
À noite, Marissa costumava andar de um lado para outro no corredor do
apartamento de Becca, enquanto a amiga corrigia provas na mesa da cozinha.
Quando a hora avançada interrompia a atividade, ela se deitava e começava a
noite da mesma forma como iria terminar: revivendo mentalmente, vezes sem
fim, os meses anteriores.
As lágrimas sempre estavam próximas, assim como a tristeza, que a
envolvia feito uma segunda pele.
— Você precisa parar com essa mania de andar de um lado para outro
como um leão enjaulado — Becca disse, um dia, afastando um maço de provas
já corrigidas para o lado. — Isso não é bom para você e muito menos para o
bebê.
Marissa riu, mas a tristeza ainda estava presente em seu olhar.
— Não use o bebê como argumento, Becca. A médica disse que andar
fazia bem.

— Não se você anda até ficar com bolhas nos pés!
— Eu estou bem.
Becca ficou de pé.
— Mentira! Você está um caco, e eu não vou ficar quieta observando
você se destruir por causa de um homem.
Marissa forçou uma expressão neutra.
— Eu não estou um caco. Estou grávida, é Natal, e sinto saudades de
minha família.
— Você sente saudades de Adam — Becca corrigiu, não permitindo que a
amiga se iludisse. — E ele é um idiota por ter continuado a se encontrar com
Elizabeth enquanto estava com você.
— Bobagem! Afinal, Elizabeth estava na jogada muito antes de... de
Adam notar minha existência — observou Marissa.
Uma tristeza inacreditável se apoderou de sua alma, e ela teve de desviar
o olhar de Becca até que conseguisse se controlar.
— Marissa... Preciso lhe contar algo. Ontem apareceu um cara lá na
escola, e... Ele disse que estava tentando encontrar uma professora chamada
Becca por causa da herança de uma tia. Acontece que eu nunca tive tia
nenhuma.
Marissa arregalou os olhos.
— Meu Deus! Você acha que...
— Eu acho que o cara era um detetive particular. Shirley, a secretária, deu
meu sobrenome a ele e pediu que enviasse uma carta para o endereço da escola.
Ela se negou a dar meu endereço particular.
Marissa foi dominada pelo pânico. Virou-se rapidamente, seguindo em
direção ao quarto.
— Sinto muito, Becca. Agradeço a hospitalidade, mas tenho de ir embora.
— Ei! — Becca exclamou. — Você não precisa sair assim, correndo!
Tarde demais. Marissa já estava com a porta do quarto fechada,

arrumando a mala.
Levou meia hora para arrumar tudo, a meia hora mais longa de sua vida.
Chorou o tempo todo, enxugando as lágrimas que retardavam sua fuga. Quando
acabou sentou-se na cama, pensando no que iria fazer a seguir. Seus pais.
Tomaria o próximo vôo para Shreveport e ficaria com eles.
Tentou convencer a si mesma que esse pesadelo logo acabaria e aí
poderia retomar uma vida normal, voltar a lecionar e cuidar de seu filho. Até lá
já teria se conformado com a solidão e só sentiria saudade de Adam
ocasionalmente. O tempo se encarregaria de curar-lhe as feridas. E se isso não
acontecesse, ela seguiria em frente do mesmo jeito. Afinal, amara Adam por
mais de três anos sem que ele soubesse, e havia vivido normalmente durante
esse tempo. Poderia fazê-lo de novo.
Uma batida na porta interrompeu seus devaneios. Ela levantou-se e abriu
a porta.
— Sim, Becca? — perguntou, cansada.
Mas quem entrou no quarto foi Adam, com seus olhos cinza, penetrantes.
Ele olhou para a imensa mala em cima da cama.
— Vai fugir outra vez, Marissa? Será que ainda não percebeu que eu a
encontrarei em qualquer parte do mundo?
Ela engoliu em seco, o corpo todo percorrido por um arrepio gelado. Não
conseguia encontrar as palavras certas para pedir a Adam que saísse de sua vida
e a deixasse em paz.
— Você acreditou nas mentiras de meu pai, não foi? — perguntou Adam,
com voz macia.
— Vai me dizer que ele estava mentindo, por acaso? — indignou-se
Marissa, recuperando a fala, por fim. — Vai me dizer que ele não o viu em
companhia de Liz? Que você não a estava beijando? Que você não seria capaz
de tudo para ter o nosso filho a seu lado?
— Não.

A última chama de esperança se apagou.
— Então não temos o que discutir.
Adam cruzou os braços e recostou-se na porta, impassível.
— Sim, temos. Você vai voltar comigo para o seu apartamento e nós
vamos passar por cima disso tudo, juntos.
— Leia meus lábios, Adam Pierce: a resposta é N-Ã-O!
O silêncio tomou conta do ambiente. Adam fechou os olhos por um
instante. Quando tornou a abri-los, eles apresentavam um brilho de
determinação.
— Se você vier comigo e me ouvir, Marissa, prometo não interferir na
sua decisão, mesmo que você resolva me abandonar de vez.
— Que generoso! Mas não precisa me fazer promessa nenhuma. Eu já me
decidi. Quero você fora da minha vida para sempre!
— Não! Irei segui-la para onde quer que vá, até que me dê atenção e me
ouça. Se escutar tudo o que tenho a dizer, então sumirei da sua frente de uma
vez por todas.
— Proposta recusada, Adam!
— Marissa, se não me der essa chance, não espere que eu a deixe em paz.
Se for preciso, apelarei para o jogo sujo. — ele disse, devagar. — Posso fazê-lo,
e você sabe muito bem disso.
Ela teve a impressão de que seu coração iria se partir em pedaços. Algo
em sua mente lhe dizia que Adam não teria coragem de arruinar sua vida dessa
forma, mas não estava disposta a arriscar-se.
— Conversaremos aqui mesmo — exigiu, beligerante.
— Não.
Marissa foi vencida pelo cansaço.
— Está bem, Adam, você venceu esta batalha. — Acrescentou,
levantando-se para pegar a mala: — Mas quando nossa conversinha terminar,
quero estar pronta para partir imediatamente.

— Como quiser, querida. Vamos?
O tom meigo de Adam deveria ter deixado Marissa ainda mais alarmada,
mas ela estava nervosa demais e sequer prestou atenção nisso.
A despedida de Becca foi pretexto para mais lágrimas. Era nessas horas
difíceis que se provava o verdadeiro valor dos amigos, e Becca tinha sido uma
amiga e tanto.
Adam carregou a mala até o carro. O caminho até o condomínio foi
percorrido em silêncio. Nenhum dos dois falou uma palavra sequer. A tensão foi
se tornando insuportável.
Uma vez no apartamento, Adam depositou a mala no chão da sala e ficou
parado com as mãos na cintura, como que temendo que Marissa dissesse
alguma coisa.
Mas ela não disse nada. Sentou-se na poltrona e apoiou a cabeça no
encosto, fechando os olhos. Devia ter cochilado por alguns segundos, pois só se
deu conta de que Adam se aproximara quando sentiu- lhe o cheiro da loção de
barba e a maciez dos lábios quentes em seu rosto.
Abriu os olhos. O coração pulou de felicidade com a expressão de amor
que viu nos olhos de Adam, até que se lembrou da série de acontecimentos que
a mente entorpecida pelo cansaço havia preferido esquecer por alguns instantes.
— Eu te amo. Te amo muito — murmurou ele.
Ela tornou a fechar os olhos e engoliu em seco.
— Você tem um senso de humor macabro, sabia?
Ele riu e declarou, imitando o tom de Marissa:
— Você é a graça, a vida e a felicidade de que preciso, sabia?
Ela forçou-se a responder.
— E Elizabeth, é o quê? Um hábito agradável?
— Liz morou comigo por três anos e, sim, era um hábito agradável. Só
que eu não a amava. Nos separamos como amigos e ainda somos amigos. Mas
não somos namorados, e não temos mais nada um com o outro desde uma

semana antes da noite que você eu passamos juntos. Acontece que, além de ter
sido um hábito agradável, Liz também é uma das melhores cabeças para
negócios imobiliários que conheço, e eu tinha um negócio urgente a tratar com
ela na noite em que meu pai nos viu juntos.
— Que conveniente para você. — disse Marissa, num tom doce.
Adam ignorou o sarcasmo e prosseguiu:
— Na noite anterior ao dia de Ação de Graças, Liz teve a confirmação do
preço de um terreno que eu queria comprar. Tentou me contactar no escritório,
mas Judi não me passou o recado, pensando que fosse assunto pessoal.
Finalmente Liz telefonou para meu pai, que a trouxe até meu apartamento.
Fechamos o negócio e ela me deu um simples beijo de despedida quando partiu.
— É claro — Marissa debochou. Céus! Por que Adam a torturava desse
jeito? — Isso explica porque você se mostrou tão rude comigo durante o jantar
de Ação de Graças.
— Eu estava com a cabeça cheia por causa da compra do terreno. — Ele
passou a mão pelo pescoço e suspirou profundamente, antes de acrescentar: —
Ou melhor... Eu estava furioso com você por ter insistido para que eu
convidasse meu pai para jantar conosco. No fundo, eu teria preferido passar a
noite sozinho com você. Para completar, tive uma discussão violenta com meu
pai alguns minutos antes de entrarmos em seu apartamento. Depois, ele disse
tudo aquilo para que você ficasse com ódio de mim. E conseguiu...
Adam passou a mão pelo pescoço novamente, tentando aliviar a tensão
nos músculos, e acrescentou:
— Não são todas as pessoas que têm instinto paterno, Marissa. Você
deveria saber disso. Meu pai, por exemplo, é um tremendo egoísta, nunca se
preocupou comigo, com minha felicidade. Foi por isso que tentou nos separar.
Ela estava confusa e irada demais para distinguir a verdade da ficção.
Levantou-se e caminhou até a cozinha com o pretexto de tomar um copo de
água, a fim de ganhar tempo.

— Marissa.
O copo parou a meio caminho da boca.
— Meu pai estava mentindo. Não tenho intenção de deixá-la. Nem agora,
nem nunca. — Adam andou em sua direção, parando bem perto dela. — Fique.
Deixe-me provar que a amo. — A voz era um sussurro de súplica.
Ela virou-se e pousou o copo com cuidado sobre a pia.
— Não, Adam. Nós tivemos tempo suficiente para ver se nosso
relacionamento dava certo. Infelizmente, não deu.
Ele apoiou as mãos nos ombros de Marissa e apertou-os de leve. Ela
desejou poder encostar a cabeça no peito forte, ao menos por um instante, mas
reprimiu a vontade.
— Por favor — insistiu Adam. — Depois que o bebê tiver nascido, se
você decidir partir, eu entenderei. — Fez uma pausa. — Sua médica tem
consultório aqui, em Houston. O bebê deve nascer em menos de um mês e tudo
já está arranjado, inclusive o hospital.
Lágrimas subiram aos olhos de Marissa. Adam estava pedindo,
implorando para que ficasse, mas lá no fundo sentia que jamais daria certo.
Suspirou.
— Está bem. Ficarei até o nascimento do bebê. Com duas condições.
— Quais? — indagou ele, ao mesmo tempo aliviado e tenso.
— Que você não continue a usar meu apartamento como um segundo lar.
E que assine um contrato se comprometendo a deixar meu filho e eu em paz
após o Ano Novo.
O silêncio tomou conta da cozinha. Marissa baixou a cabeça enquanto
esperava pela decisão de Adam. De qualquer forma estaria livre. De qualquer
forma estaria solitária...
— Eu concordo — foi a resposta. — Você não vai se arrepender,
prometo.
— Ótimo. Agora, por favor, vá embora.

Ela não podia mais agüentar a presença dele. De repente sentiu-se
exausta, como se tivesse corrido uma maratona. E seus músculos doíam, todos.
— Eu... Está bem — disse, Adam devagar, a voz um mero sussurro. —
Vou sair agora, mas passarei por aqui de vez em quando para ver se está tudo
bem com você.
Ela assentiu, cansada demais para discutir.
— Ok, venha às terças-feiras, depois que eu voltar das consultas com a
obstetra.
— Combinado.
Adam saiu, deixando-a sozinha, debruçada sobre a pia, quando na
verdade ela queria estar nos braços dele, ouvindo juras de amor tão fervorosas
que a teriam convencido de qualquer coisa. Mas cansara-se de acreditar em
mentiras. Aprendera da forma mais dura a conviver com a realidade.
Sentindo-se a criatura mais miserável da face da Terra, ela foi para o
quarto. Ligaria para Becca mais tarde. Na verdade faria tudo que fosse
necessário mais tarde. Agora só queria dormir.
Era quase meio-dia quando acordou, no dia seguinte. Não se sentia tão
bem disposta há anos! Tocou o ventre, imaginando se tal bem-estar não seria a
energia que a maioria das mulheres adquiria pouco antes do parto. Ao olhar para
o calendário, concluiu que não. Ainda faltavam duas semanas para o nascimento
do bebê.
Preparou café descafeinado e depois seus olhos se estreitaram ao ler o que
escrevera na agenda. Terça-feira, dia dezoito. Tinha uma consulta marcada com
a médica dentro de uma hora.
Terminou de tomar o café antes de voltar para a sala e olhar ao redor,
como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Era Natal, e não tinha feito
nenhuma decoração especial para celebrar a data!
Transbordava de energia ao tomar banho e lavar o cabelo. Pôs um vestido
de gestante azul com gola vermelha. Havia passado duas semanas inteiras sem

fazer mais nada senão sentir pena de si mesma. Estava na hora de tomar uma
atitude.
Com ou sem Adam, era Natal, e tinha de fazer algo a respeito. O bebê deu
um leve chute, como que concordando com a idéia.
A obstetra confirmou o que Marissa já sabia: o bebê não havia mudado de
posição. Só para o caso de algo não estar de acordo com o previsto, a médica
pediu que fizesse uma ultra-sonografia.
Marissa deitou-se sobre uma mesa de exames e a enfermeira esfregou
uma substância gelatinosa em sua barriga. Uma máquina pequena, acoplada a
um monitor de quatro polegadas estava a seu lado.
De olhos arregalados, Marissa observou a enfermeira passar uma espécie
de cilindro sobre seu ventre. Na tela do monitor apareceu a imagem perfeita de
uma criança.
— É o meu bebê? — perguntou, maravilhada.
— Sim — respondeu a enfermeira. — Quer ver se conseguimos descobrir
o sexo?
— Você pode fazer isso?
— Vamos ver se dá.
Marissa olhava para a tela, sem poder acreditar no que via.
A enfermeira moveu o cilindro conectado à máquina, captando várias
imagens. Apertou um botão e as imagens da tela foram reproduzidas em filme,
em negativo.
— Ela é uma belezinha, não? Eu diria que tem uns três quilos e meio e
cerca de quarenta e cinco centímetros. Está na posição certa, pronta para o
grande dia, e é perfeita.
— Ela?
A enfermeira assentiu, o olhar fixo na tela.
— Eu diria que com noventa e nove por cento de certeza. A foto está
perfeita e ela está em uma ótima posição. E além do mais ela é muito bonita

para ser um menino desengonçado.
Marissa riu.
— Ela... Eu vou ter uma menina!
— E pelo que parece vai ser um presente de Ano Novo. A não ser que
desça mais um pouco nos próximos dias.
Mas Marissa não se importava com os detalhes. Deus havia ouvido suas
preces: o bebê era perfeito, e era isso que importava. Mais duas imagens foram
reproduzidas e entregues a Marissa. Ela não conseguia desgrudar os olhos dos
filmes em negativo enquanto se vestia. Eram as primeiras imagens de sua
filhinha!
Quando deixou o consultório, com receitas de dietas e exercícios, sentiase nas nuvens.
De repente, as canções natalinas passaram a ter um significado especial.
Sua filha iria nascer logo depois do Natal. Sentia-se feliz como não acontecia há
anos.
Foi às compras. Encheu o porta-malas do carro de presentes, papéis de
embrulho com desenhos do Papai Noel, fitas de cetim e, por fim, uma árvore de
Natal. O pequeno pinheiro com certeza iria perfumar o apartamento todo com
seu aroma silvestre.
O último lugar em que parou foi no supermercado, onde comprou
ingredientes para preparar vários tipos de biscoitos e pães doces. Afinal, esse era
o espírito do Natal. A única coisa que a deprimia um pouco era o fato de passar
a data sozinha, mas consolou-se ao pensar que a partir do próximo ano teria a
filha para lhe fazer companhia.
Já estava escurecendo quando chegou ao condomínio e pediu ajuda para
carregar as compras. Devia estar transmitindo inconscientemente a alegria que
sentia, pois Pete fez várias brincadeiras sobre o Natal e riu com ela enquanto
subiam pelo elevador.

Adam observou o pôr-do-sol através da janela do terraço, com um
drinque na mão. Depois começou a andar de um lado para outro, impaciente.
Por onde será que Marissa havia andado a tarde inteira? Ela saíra no começo da
tarde para ir à obstetra, e só havia retornado há cinco minutos! Sabia disso
porque tinha pedido ao porteiro que o avisasse quando Marissa chegasse.
Sentiu vontade de ir procurá-la e pedir uma explicação, mas não teve
coragem. Temia perdê-la novamente, e com isso descobrira seu ponto fraco:
Marissa. Ela havia conseguido mudar todo seu modo de pensar, agir e viver.
No íntimo, Adam sentia uma dor, uma angústia, que só passava quando
estava com ela, vendo um sorriso maroto curvar-lhe os cantos da boca,
observando-lhe a luz dourada do olhar.
Quase perdera Marissa definitivamente, e não queria arriscar-se a fazê-lo
de novo provocando uma discussão. Por esta razão permaneceu no terraço,
pensativo, observando as luzes da cidade.
O que Marissa queria que ele ainda não lhe havia dado? Já declarara seu
amor por ela e pelo bebê, esperando que ela acreditasse que estava sendo
sincero. A única coisa que não mencionara ainda era o negócio do qual
Elizabeth estava encarregada e que seria o presente de Natal de Marissa.
Parou de andar de um lado para outro, o olhar perdido na distância. De
repente, fez uma descoberta óbvia: não era ele o problema. Abriu um sorriso,
depois caiu na gargalhada. O problema não era ele!
Como não percebera antes? Marissa fora a causa de um casamento
forçado e devia ter sofrido muito com a experiência, carregando cicatrizes
emocionais com as quais ele sequer podia sonhar. Ela havia tido um pai que a
culpara por ter arruinado sua vida e por fim a abandonara, deixando-a sozinha
com a mãe. Adam podia apostar que quando Marissa era criança tentara de
todas as formas conquistar o amor do pai, mas sempre em vão. E agora tinha
medo de passar por uma experiência semelhante, por outra desilusão. Estava tão
apavorada que não conseguia sequer se dar conta de seus próprios sentimentos,

que dirá dos sentimentos dele!
Adam lembrou-se da noite em que haviam feito amor e concebido a
criança. Marissa havia se entregado a ele sem reservas, abrindo-se como
provavelmente jamais fizera antes, só para vê-lo sair de sua vida mais tarde,
sentindo-se mais uma vez abandonada.
— Droga! — gritou Adam, querendo dar um soco em si mesmo por ter
sido tão idiota.
Na ocasião, fugira de Marissa com medo de se comprometer. Mas isso
havia mudado. Ele havia mudado. Era interessante pensar que sempre se
considerara um homem já amadurecido, para de repente descobrir que
amadurecer era um processo contínuo... e dificílimo.
Agora, porém, sabia o que queria. Só o que tinha a fazer era provar a
Marissa que jamais a deixaria novamente. Nunca mais.
Adam olhou para o relógio. Esperaria uma hora ou duas e depois daria
uma passada casual pelo apartamento dela para perguntar o que a médica
dissera. Não iria pressioná-la e, talvez, se deixasse um pouco de espaço para que
Marissa se sentisse livre, ela o veria como o homem por quem havia esperado a
vida toda.
Quando tocou “Noite Feliz” no rádio ligado na sala, ele fez uma prece
para que sua noite também fosse feliz... e mágica.

CAPÍTULO XI
Marissa cantarolava músicas natalinas enquanto misturava a massa do
biscoito. Havia colocado uma das imagens em filme de sua filha sobre a mesa
da cozinha e olhava para ela o tempo todo, com um sorriso transbordante de
felicidade.

O pequeno pinheiro já estava decorado, ao lado da lareira acesa, e enchia
o apartamento com sua fragrância fresca, silvestre.
Alguém tocou a campainha. Marissa foi atender, ainda pensando na filha.
Adam estava parado à porta, seus olhos cinza implorando por um convite
para entrar.
— Olá, Adam — disse ela, tentando manter um clima agradável.
— Olá, Marissa — ele respondeu no mesmo tom, enquanto seus olhos a
percorriam de cima a baixo. — Você parece tão... dona de casa.
Ela olhou para baixo, só então percebendo a enorme mancha de farinha
na frente do vestido.
Enquanto Marissa tentava limpar a mancha, Adam aproveitou para entrar
no apartamento. A menos que ela quisesse fazer uma cena, teria de se conformar
em tê-lo como companhia. Além do mais, havia prometido que ele poderia vê-la
após as visitas à obstetra.
— Teve um dia muito ocupado? — Adam perguntou, curioso.
— Bastante. Você quer um biscoito?
— Adoraria.
Ele começou a segui-la na direção da cozinha, mas parou no caminho.
Marissa também parou e percebeu que Adam fitava o pinheirinho todo enfeitado
de laços de fita vermelhos e outros adereços.
— Sei que parece meio infantil, mas é assim que eu gosto — disse,
embaraçada, e depois ficou com raiva de si mesma; por que estava se colocando
na defensiva?
— Os pirulitos e pipocas são de verdade? — Adam perguntou, incrédulo.
— São. E as correntes de papel colorido foram feitas pelos meus alunos
há dois anos. Cada um me deu uma.
— É uma árvore muito especial — ele disse, por fim.
Adam tinha razão. Cada um dos ornamentos tinha um valor especial para
ela, incluindo o que enfeitava o topo do pequeno pinheiro: uma bola prateada

imensa, com um laço dourado enorme, onde estava escrito o nome “Jessica”.
— Jessica? — indagou Adam, intrigado, ao prestar mais atenção à bola
prateada.
Marissa fez que sim com a cabeça, exclamando:
— Este será o nome de minha filha! Eu o escolhi para homenagear minha
mãe.
— Você parece convicta de que será uma menina.
Ela não conseguiu conter o riso.
— Eu tenho certeza. — Foi até a cozinha pegar a imagem obtida durante
a ultra-sonografia e voltou. — Quer ver sua filha? — perguntou, meiga.
Ele olhou para a imagem.
— Meu Deus... — sussurrou, comovido — Como é possível? É quase
uma fotografia!
Marissa riu.
— Parece um milagre, não é mesmo? Ela não é adorável? Veja, a
mãozinha está sobre o coração, como se estivesse fazendo um juramento solene.
Os olhos de Adam não desgrudavam da imagem.
— Mas como você sabe que é uma menina?
Marissa riu mais alto.
— Da maneira tradicional, Adam.
— Você quer dizer...? — Ele olhou com mais atenção para a imagem. Seu
rosto ficou vermelho. — A obstetra tem certeza?
Ela balançou a cabeça afirmativamente.
— Noventa e nove por cento de certeza.
Dando um passo para trás, Adam se deixou cair sobre o sofá, aturdido, a
imagem na mão.
Marissa foi para a cozinha, deixando Adam sozinho para ir se
acostumando com a idéia de ser pai de uma garotinha. Preparou café, colocou
alguns biscoitos recém-assados em uma travessa e voltou para a sala.

Adam ainda estava olhando para a imagem da filha. Ao sentir a presença
de Marissa na sala, começou a falar.
— Eu... — Pigarreou, para clarear a voz. — Eu... sou o pai desta criança,
e quero ajudar a criá-la. Ela é tão minha quanto sua... O que pode ser mais
mágico do que isso?
Como ele podia dizer uma coisa dessas justo quando ela estava tão
vulnerável?
— Maldito seja, Adam Pierce — murmurou Marissa, comovida.
Ele estendeu a mão e tocou-lhe o braço, acariciando-a com a ponta dos
dedos como se ela fosse uma peça de porcelana, declarando:
— Estou sob o efeito de um feitiço desde o dia em que a vi pela primeira
vez, Marissa. Eu a queria, precisava de você desde a época em que ainda não
fazia parte de minha vida.
Ela sentou-se, quieta, o olhar aprisionado pelo dele. Depois balançou a
cabeça, quebrando o encanto.
— Você logo verá que ser pai não é o paraíso que está imaginando.
Depois que a euforia passar, você voltará ao seu ritmo de vida normal. Terá seu
pai para ocupar-lhe a mente e Elizabeth para ajudá-lo a esquecer as
preocupações.
— Eu não ligo a mínima para Elizabeth, e meu pai é assunto do passado.
Além do mais não estou falando em “brincar de boneca”. Pretendo ser um pai
atuante. Quero estar presente quando minha filha der seus primeiros passos,
disser a primeira palavra, cair da bicicleta pela primeira vez e chorar a perda do
primeiro namorado. Quero estar presente nas boas e nas más horas.
— Veremos — murmurou Marissa, olhando para o vazio ao se lembrar de
outro homem que jamais estivera presente quando a filha precisara.
— Nós não vamos ver nada! Eu estava falando de amor, me declarando, e
você desviou o assunto para nossa filha, que ainda nem nasceu! Você já me
condenou ao papel de vilão da história, não é mesmo? E nem ao menos levou

meus sentimentos em consideração! — Ele estava descarregando todo o
ressentimento acumulado. — Eu a deixei fazer o que quis por tempo demais,
agora é minha vez de bater o pé. Você vai se casar comigo no dia de Natal,
Marissa, conforme havíamos combinado! Não estou interessado em seus
argumentos. Chamarei seus pais, para que possam participar da cerimônia
íntima que será realizada aqui no apartamento.
— Não!
— Sim! Se não concordar, vou mandar vigiá-la até o bebê nascer, e
depois lutarei pela custódia da criança! — Uma expressão demoníaca tomou
conta do rosto de Adam. — Tenho muito mais dinheiro que você, Marissa.
Quem você acha que vai vencer a batalha judicial?
— Está me chantageando, por acaso? — ela indagou, chocada, mal
acreditando no que acabara de ouvir.
— Estou! Sinto muito, querida, mas já tentei de tudo para convencê-la de
que a amo, mas não adiantou nada. Não sou eu que estou com medo de um
compromisso, é você. E o único jeito de ajudá-la a superar esse medo é arrastála para o casamento, para fazê-la perceber que realmente nascemos um para o
outro.
— Você é louco!
Ele riu.
— Até agora eu permiti que tomasse decisões sozinha, mas você
confundiu tudo, deixando-se levar por emoções que nada têm a ver com nós
dois. Agora sou eu quem decide as coisas, e vamos tratar de arrumar essa
confusão antes do nascimento de nossa filha. Talvez dentro de quinze ou vinte
anos você finalmente acredite em mim e me aceite com eu sou... um homem
apaixonado pela esposa e pelos filhos.
Marissa arregalou os olhos.
— Filhos?
— Claro — disse Adam, calmo. — Tenho certeza de que teremos outros

bebês. Você é muito meiga e carinhosa para se contentar com um só. Além do
mais, somos ambos filhos únicos e posso apostar que nenhum de nós gostou da
experiência. Não vamos querer que Jessica tenha o mesmo destino.
Ela passou a mão na testa.
— Eu estou ficando maluca. Isso não está acontecendo...
— Vamos nos casar dentro de uma semana, Marissa. Está decidido. Eu
cuido de tudo — afirmou Adam, decidido. — E prometo que nunca farei nada
que a magoe. — Ele tomou as mãos dela, trêmulas, entre as suas. — Eu te amo,
Marissa, e acho que esse é o único jeito de provar o meu amor. E você também
me ama, eu sei.
— Não vai dar certo — ela respondeu, tensa.
— Vai, sim. — Ele levantou-lhe o queixo com o dedo. — Mas, querida,
não existem garantias definitivas. Ambos teremos de fazer um esforço para que
nosso casamento dê certo.
Marissa fechou os olhos, sem saber o que fazer ou dizer. Havia pensado
que conhecia Adam! Que ele pouco se importaria com um filho! Era tudo tão
estranho... Havia esperado que ele se comportasse como seu pai, fugindo de
compromissos. Como se enganara! Quanto mais tentava fugir do casamento,
mais ele insistia em tê-la como esposa. E já estava cansada de repelir o homem
a quem amava, por não ter certeza do amor dele...
— Marissa? — a voz de Adam estava meiga quando ele se ajoelhou
diante dela, sem soltar-lhe as mãos. — Você está bem?
Ela fez que sim com a cabeça. Abriu os olhos para fitá-lo.
— Você venceu, Adam. Não posso mais lutar contra você.
— Eu sei, querida. E isso é bom, não acha?
Ela suspirou. Havia perdido a batalha, mas de repente sentiu-se como se
um grande peso tivesse sido retirado de suas costas.
— Você vai continuar a ver Liz após o casamento?
— Não.

Marissa acreditou na resposta.
Adam voltou a sentar-se no sofá e a tomou nos braços.
Marissa suspirou. Era uma delícia estar junto a Adam. Não iria mais lutar
contra ele. Talvez com o tempo ele aprendesse a amá-la do jeito que precisava
ser amada. Sim, Adam tinha dito que a amava, mas na verdade só queria o bebê.
Já era um começo, pelo menos...
Ela suspirou e fechou os olhos, deixando-se levar pelo embalo dos
carinhos de Adam, até adormecer.
Adam observou-a dormir, tentando descobrir uma maneira de provar-lhe
o quanto a amava. Antes de Marissa lhe mostrar a imagem de sua filha, não
tinha tido necessidade de acuá-la dessa forma contra a parede. Mas depois de
ver a imagem, percebeu que não havia outro jeito de lidar com uma cabeça-dura
feito ela. Iria forçá-la a casar-se, e depois talvez fosse mais fácil convencê-la de
que seu amor era sincero.
Abraçou-a com mais força. Faltavam sete dias para o Natal. Sete longos
dias... E de algum jeito teria de provar nesse curto espaço de tempo que ela era a
mulher de seus sonhos.
Marissa se virou e ele colocou uma das mãos sobre o ventre dela, num
gesto protetor e possessivo. Ali estava sua filhinha...
Os seis dias seguintes foram cheios de atividades para Adam. Conseguiu
um juiz que os casasse na manhã de Natal no apartamento de Marissa, conforme
havia decidido. Havia encomendado as flores e os doces e contratado um
cozinheiro para preparar o almoço leve que seria servido aos poucos
convidados. Falara com os pais dela ao telefone e fizera os arranjos para que
viessem a Houston para assistir ao casamento. Encontrar uma costureira que
fizesse o vestido de noiva de Marissa em tão pouco tempo não foi fácil, mas
finalmente o dinheiro falou mais alto e Adam encontrou alguém.
Marissa concordava com tudo que ele sugeria, o olhar inexpressivo, a voz

sem vida. Ela aceitava tudo, mas uma parte dela havia mudado. A parte de que
ele mais gostava. Marissa era normalmente tão animada e espirituosa... Tão
vivaz! Adam torcia para que ela voltasse logo a ser como antes, mas às vezes
achava melhor que continuasse assim, nessa letargia, até que estivessem
legalmente casados.
Na tarde da véspera de Natal ele tocou a campainha do apartamento de
Marissa, carregando uma caixa quase do seu tamanho. Era o seu presente de
casamento, um presente que achava que ela ia adorar e que lhe mostraria o
quanto a amava.
Os olhos de Marissa se arregalaram quando ela viu Adam. Seu rosto
iluminou-se por um breve momento, antes de reassumir a expressão passiva dos
últimos dias. Silenciosamente, moveu-se para o lado para deixá-lo entrar.
— Feliz Natal — ele murmurou, dando-lhe um beijo na testa.
— Feliz Natal — ela repetiu.
A caixa teve de ser posta ao lado do pinheirinho, já que era grande demais
para ficar embaixo dele. Marissa olhou o pacote e perguntou:
— Devo abri-lo agora ou mais tarde?
— Mais tarde. Estou com sede, gostaria de beber algo. Você me
acompanha?
— O vinho está na geladeira, pode se servir à vontade. Eu prefiro não
beber.
Com as mãos na cintura, Adam encarou-a em silêncio por alguns
segundos antes de indagar:
— Você está preocupada com o casamento?
— Não.
— Contente?
— Não.
— Amedrontada?
— Sim, muito.

— Por quê?
— Não é todo dia que uma mulher é obrigada a casar-se porque o fruto de
uma única noite de amor precisa de um sobrenome. — respondeu, amarga.
— Isso acontece com muito mais frequência do que imagina — Adam
argumentou. — Mas não é por esta razão que estamos nos casando, e sim
porque quero tê-la como esposa.
— E como mãe de sua filha legítima.
Ele balançou a cabeça, concordando.
— É verdade. Mas, torno a repetir, esta não é a razão principal.
Marissa virou-se e caminhou até o sofá. Sentou-se, cabisbaixa, e ajeitou
as pregas do vestido azul-claro que usava, folgado mas de corte elegante.
Adam sentou perto dela e acariciou-lhe os ombros. Marissa era a mulher
mais bonita que já conhecera... Sem dizer uma palavra sequer, sua boca desceu
em direção à dela. Talvez por ter sido pega de surpresa, Marissa correspondeu
ao beijo espontaneamente, sua língua acariciando a de Adam, exploradora. Ele a
manteve junto de si, sentindo-lhe o calor gostoso do corpo, suspirando quando
os braços dela finalmente o envolveram em um abraço. Era a primeira vez,
desde o dia de Ação de Graças, que ela o abraçava. Adam sentiu vontade de
chorar de emoção diante da beleza deste momento. Sem se dar conta, havia
ansiado pelo toque, pela atenção, pelo carinho de Marissa. Estivera definhando
sem isso. Mas agora voltava à vida, explodindo de felicidade graças à ternura
que ela lhe dedicava neste instante.
Adam dirigiu uma prece silenciosa ao céu, agradecendo por poder segurar
Marissa assim novamente.
As luzes da árvore de Natal piscavam, colorindo todo o teto.
— Adam, eu...
— Sshhh — ele sussurrou. — Estamos juntos, é o que importa. Nós
pertencemos um ao outro. Para sempre...
Ela aquiesceu, contente por ter conseguido encontrar ao menos um

momento de paz e felicidade junto a Adam.
Mais tarde, naquela noite, Adam sentou-se no chão com um cálice de
conhaque na mão. Marissa tentava adivinhar o conteúdo da caixa grande ao lado
da árvore de Natal. A letargia que a dominara nos dias anteriores desaparecera,
dando lugar à vivacidade da qual Adam tinha sentido tanta falta. Seus olhos
castanhos emitiam um brilho de curiosidade enquanto fazia uma pergunta após a
outra.
— É um camelo?
— Não.
— Um elefante?
— Não.
— Móveis para o terraço?
— Não.
— Um conjunto de eletrodomésticos?
— Não.
— Uma babá eletrônica?
Adam riu.
— Não, você está longe de acertar!
— Não seria melhor eu abrir logo o pacote, para acabar de uma vez com
esse suspense desesperador?
— Eu não estou desesperado — zombou Adam.
Ela aproveitou-se da gravidez para argumentar:
— E nem deveria me deixar desesperada, afinal, encontro-me em
condição delicada.
— Condição delicada?
Marissa lançou-lhe um olhar divertido.
— Sim, delicada — afirmou, enfática, antes de voltar-se para o pacote,
rasgando o papel.

Abrir a caixa foi mais difícil.
— Espere um pouco — ele disse, levantando-se. — Isso é trabalho para
um homem.
Ela sorriu.
— Uma mulher tem cérebro e um homem tem músculos? Concordo.
Adam riu alto da brincadeira, mas quando olhou para Marissa a risada
morreu na garganta, transformando-se em desejo. Bastava estar perto dela para
que sua mente começasse a fabricar as mais loucas fantasias eróticas... Mas
agora não era o momento mais adequado para tais tipos de pensamento.
— Feliz Natal, futura Sra. Pierce — ele disse, a voz rouca de emoção,
limitando-se a dar-lhe um beijo na ponta do nariz.
— Feliz Natal — ela repetiu, beijando-o de leve nos lábios.
Adam começou a abrir a caixa.
Marissa olhou o conteúdo do imenso pacote, curiosa.
— O que é isso? Uma casa de bonecas?
Ele removeu as partes laterais da caixa para que ela pudesse ver o objeto
por inteiro.
— Sim, essa casinha de brinquedo é para Jessica. A casa verdadeira,
réplica desta, fica há cerca de oito quilômetros daqui e é para a mamãe e o papai
de Jessica.
Marissa olhou de Adam para a casinha, da casinha para Adam. Seus olhos
se arregalaram. A casa de bonecas era alta, com a frente em estilo georgiano. A
parte de trás era toda avarandada, parecendo mais uma sede de fazenda. A
mistura de estilos formava um conjunto original, interessante, agradável.
— A verdadeira... réplica desta...? — repetiu, atônita.
Adam observava a reação de Marissa com a respiração contida.
— Comprei a casa no dia de Ação de Graças. Achei que seria do seu
agrado, mas pode fazer as reformas que julgar necessárias, se quiser. E então,
gostou?

Ela virou-se para encará-lo, lentamente, como se estivesse em transe.
— Você a comprou com a ajuda de Elizabeth?
Ele fez que sim com a cabeça, sentindo o coração se apertar dentro do
peito. Não iria funcionar... Marissa não via sinais de seu amor por ela no
presente, via somente sua ligação com Liz.
Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Marissa, e Adam teve
vontade de abraçá-la para dizer que estava tudo bem. Mas não podia se arriscar.
Ela iria querer matá-lo, sem dúvida.
— Era esse o negócio imobiliário que você tinha a tratar com ela?
— Sim.
— Adam, eu... — ela começou, depois soluçou.
— Você não gostou?
— Eu adorei — ela sussurrou, por fim, acariciando-lhe o rosto. — Eu te
amo, sabia?
Fez-se um profundo silêncio na sala. Adam não conseguia pensar em
nada para dizer. Sua respiração ficou presa na garganta; o coração começou a
bater tão forte que parecia que ia explodir.
— Pode repetir isso?
A voz era um pedido. Uma súplica.
Marissa sorriu, e ele sentiu-se iluminado pelo sorriso.
— Eu te amo, Adam. Amo tanto que chega a doer.
— Meu Deus... — ele suspirou, tomando-a nos braços, como que para ter
certeza de que jamais a perderia novamente. — Esperei tanto tempo para ouvila admitir que me ama!
— Eu havia admitido — ela disse, esfregando o rosto na curva do
pescoço de Adam. — Quando meus pais estavam aqui.
— Não — ele corrigiu. — Eles admitiram em seu nome. Você se recusou
a dizer as palavras, apesar de eu ter tanta necessidade de ouvi-las.
— Eu estava com medo.

— Eu também.
Marissa jogou a cabeça para trás.
— Você, com medo? Imagine! Você foi um fanfarrão durante todos esses
meses passados!
— Agi como um maluco porque essa foi a única forma de mantê-la a meu
lado até que criasse juízo e percebesse que eu era o único homem no mundo
para você.
— Seu doido!
— Sua Teimosa!
— Monstro de arrogância!
— Minha querida...
Marissa riu.
— Não vou contestar isso.
Ele riu também.
— Adam? — disse ela, quando pararam de rir.
— O que é?
— Quando poderemos nos mudar para a casa nova?
Ele sorriu.
— Assim que você quiser.
— Na próxima semana?
— Não seria prudente esperarmos mais um pouco? Não acho
aconselhável uma mudança na última semana de gravidez.
Ela tornou a rir.
— Não, hoje é meu último dia de gravidez. Você vai receber um lindo
presente de Natal ainda esta noite.
Adam fitou-a, os olhos arregalados de espanto.
— Esta noite?
Marissa assentiu.
— Eu não quis dizer nada antes, mas... As contrações já estão com um

intervalo de sete minutos.
A partir daquele momento, tudo transcorreu como em um sonho, rápido
demais e ao mesmo tempo em câmera lenta. Adam fez o que Marissa pediu;
pegou a valise já arrumada com as coisas do bebê, mandou que o carro fosse
tirado da garagem e avisou a obstetra e o hospital que já estavam a caminho. No
meio dessa confusão toda, Marissa parecia calma e determinada.
À uma hora da manhã do dia de Natal, Jessica Madison Pierce nasceu.
Pesava três quilos e oitocentos gramas, e media quarenta e sete centímetros.
A mãe da criança achou que ela era a cara do pai; o pai achou que ela era
simplesmente perfeita, igualzinha à mãe.
Às três horas da manhã, enquanto Marissa e Jessica dormiam, Adam
agradeceu a Deus lhe ter dado a única coisa que sempre desejara, mas sempre
temera ter: uma família adorável.
Para certificar-se de que suas preces realmente tinham sido ouvidas,
porém, no mesmo dia Adam chamou o juiz de paz ao hospital e casou-se, tendo
a mãe e o padrasto de Melissa como testemunhas.
E este era só o começo de uma vida inteira de felicidade...

CAPÍTULO XII
MARISSA MADISON — Professora recém formada. Durante seus três
anos de faculdade foi apaixonada por um ex-aluno da faculdade, Adam Pierce.
Filha única, seus pais casaram-se porque a mãe a estava esperando. Foi uma
união infeliz, tendo o pai culpado a ambas por tudo. Seus pais se divorciaram e
a mãe encontrou a felicidade com Garner Pace, que tinha um passado parecido.
ADAM PIERCE — Jovem de classe média, cujo pai só queria saber de
mulheres. A esposa, infeliz, passara a viver em um mundo próprio, até que

faleceu. Muito cedo, Adam se meteu no mundo dos negócio, tendo conquistado
fortuna e posição social invejáveis. O pai passou a viver a suas custas.
ELIZABETH — Ex-namorada de Adam, tendo vivido com ele por três
anos. Separaram-se uma semana antes da festa de formatura de Marissa.