Nas asas do destino

On a wing and a prayer
Jackie Weger

Darling nº 03

A violência da tempestade de neve combina com o amor que os une
Parnell não consegue dormir, no quarto da cabana perdida em algum lugar.
Inquieto, levanta se e, na outra divisão, encontra Rebecca tomando banho
numa velha tina de madeira. Seu corpo nu brilha com pinceladas
douradas das chamas que ardem no velho fogão a lenha. O desejo explode!
Entregam-se a atração selvagem de seus corpos ansiosos e descobrem
juntos a paixão e o êxtase. Temem a volta à civilização; o que os une é
amor ou o desespero de dois seres perdidos no mundo?

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Título original: On a wing and a prayer
Copyright © by Jackie Weger
Publicado originalmente em 1988
pela Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá
Tradução: Sylvio M. Deutsch
Copyright para a língua portuguesa 1991
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3º andar
CEP 01452 — São Paulo — SP
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
impressão e acabamento no Círculo do Livro S.A.

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Capítulo 1

— Santee, dê a mão para o Nicholas — ordenou Rebecca, alinhando os cinco
órfãos junto à porta do hangar.
Aquele lugar imenso e escuro parecia ameaçador. A moça sentiu um tremor.
Desde o início estava com uma sensação estranha em relação àquela viagem. Achava
que no fim os órfãos se sentiriam decepcionados mais uma vez. Além disso, não sabia
se conseguiria, sozinha, controlar as cinco crianças. Elas pareciam ter uma incrível
tendência para se meter em encrencas.
— Estou com fome — disse Jonesy. — Devíamos ter parado numa lanchonete
para comer um sanduíche.
— Não há nenhuma lanchonete aberta a essa hora da madrugada. E, além
disso, você tomou um café bem reforçado.
— Estou com frio — reclamou Yancy.
— Fique se mexendo. Eu volto já. Não saiam daqui. Vou procurar o escritório.
"Na verdade não está mais quente dentro desse hangar, mas pelo menos eles
estão protegidos do vento", pensou Rebecca.
Voltando-se, ela examinou as sombras. Conseguia perceber o barulho do motor
de um pequeno avião e via o que parecia ser os pedaços desmantelados de um outro.
Lá no fundo do hangar havia luz em duas janelas. Depois de dizer mais uma vez para
as crianças não se moverem, ela caminhou até as janelas e olhou lá dentro.
Vendo o escritório da companhia de aviação, a sensação de mal-estar cresceu.
A sala tinha inúmeros móveis que não possuíam nada em comum uns com os outros, a
não ser a velhice e a poeira. Um aquecedor a óleo estava regulado tão no mínimo que
não causava nenhum efeito no gelo que se formava nos vidros.
Entre toda aquela confusão havia um homem dormindo numa cadeira. Tinha a
cabeça caída para trás, mostrando o maxilar coberto por barba rala, de alguns dias. Ele
parecia um ser composto por partes de vários outros; um excedente de guerra. Era a
negação viva da humanidade. Pelo menos na opinião de Rebecca, que era muito
intolerante com homens. Não havia nenhum homem em sua vida e ela não estava
ansiosa para que houvesse. E se isso significava noites de solidão... Bem, seus dias
eram muito agitados.
O que a entristecia era como a Fundação Tynan vinha agindo, implorando ajuda
para aqueles que pareciam ser os menos capacitados para prestá-la. Se tivesse um
mínimo de bom senso, o que faria naquele momento seria pegar as crianças e voltar
para o orfanato, dizendo à diretora que tinham perdido o avião. Poderia praticar o que
diria durante todo o caminho de volta a Boise, assim talvez não ficasse evidente em
seu rosto que estava mentindo.
Um grito ecoou na escuridão do hangar. Olhando para trás, Rebecca constatou
que as crianças já estavam discutindo entre si. Ela soltou um suspiro. Eles não
deixariam que a mentira desse certo. Munindo-se de coragem, bateu na janela e testou
a porta metálica, que não estava trancada.
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O homem acordou e piscou para afastar o sono. Ela esperou que os olhos
sonolentos a focalizassem, antes de falar:
— Estou procurando o sr. Stillman.
Imediatamente o olhar dele tornou-se atento e desconfiado.
— Você é uma cobradora?
— Rebecca Hollis, da Fundação Tynan. Abigail Tynan contratou um vôo na
viagem do correio. Para San Francisco. Sei que estamos um pouco adiantados, mas,
se me disser onde está o sr. Stillman, gostaria de avisá-lo de que estamos aqui.
— Capitão Stillman.
— Bem, então capitão Stillman.
O homem tirou os pés de cima da mesa, levantou-se e se espreguiçou.
— Você está olhando para ele, e eu não.
— Mas...
Rebecca se deteve antes de dizer que era impossível que fosse ele o piloto e
deu um passo para trás. De pé, o sujeito era mais alto do que parecia, mas o modo
como as roupas amassadas caíam em seu corpo faziam com que ficasse ainda menos
respeitável. O tipo de homem que alguém atravessaria a rua para não ficar perto ou, se
fosse uma pessoa bondosa, jogaria uma moeda em sua canequinha.
— Você não... O quê? — indagou ela, por fim.
— Não estava esperando por você.
— Então, não pode ser o capitão Stillman. Garanto que nós somos esperados.
— Você demora para compreender as coisas? Eu sou Stillman — afirmou ele,
perguntando-se por que aquela mulher sozinha falava no plural. — Nós. Quem são
nós?
— Eu e as crianças — respondeu ela, fazendo força para controlar a raiva que
sentia. — Da Fundação, o orfanato!
— Crianças! — gritou Parnell Stillman, pegando uma prancheta que estava
dependurada na parede e examinando rapidamente as páginas presas nela. — Tenho
anotado aqui um grupo de assistentes sociais, indo para uma convenção.
— Eu sou a assistente social.
— São seis de vocês.
— Não, há só uma assistente social. Tenho certeza de que Abigail não disse que
somos todos assistentes sociais — afirmou Rebecca, sabendo que na verdade era bem
possível que a diretora da Fundação tivesse confundido tudo com seu uso de gíria e
diálogo criativo.
Quando se tratava de pechinchar, Abigail usava toda sua criatividade. Mas,
pechinchar com alguém como Stillman?, pensou.

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Bem, sim, ela sempre afirmava que pechincharia com o próprio diabo, se isso
significasse algo de bom para as crianças.
Parnell Stillman continuava a folhear sua notas.
— Sua Abigail disse "pessoas importantes, grande favor, preço baixo". Eu anotei
tudo.
— Bem, somos nós — concordou a moça, sorrindo o mais amavelmente que
podia.
— Esqueça. Não vou levar vocês. E ponto final. Nada de mulheres ou crianças.
Elas fazem muita confusão. Todo mundo sabe disso. Eu nem mesmo gosto de ser
gentil com mulheres e crianças. Faz meu estômago doer. Você pode ir embora agora
mesmo. Diga a Abigail que o trato está desfeito. Eu só concordei porque ela disse que
era amiga do meu tio Henry.
Aquilo era exatamente a escapatória que ela estava procurando. Poderia voltar
para a Fundação e dizer a verdade a Abigail. Mas, por outro lado, aquele homem
estava sendo muito rude, e isso a enfureceu.
— Eu não vou embora. Você foi pago e concordou com o trabalho.
— Vou fazer meu contador devolver o dinheiro.
Havia algo no modo como ele pronunciou "contador". Rebecca olhou para as
pilhas desordenadas de envelopes fechados sobre a mesa, todos cobertos por muita
poeira, e concluiu que não havia contador algum. O tom com que ele falara era o
mesmo que Abigail usava quando prometia salários mais altos, enquanto sabia muito
bem que a conta da Fundação no banco estava no vermelho. Graças a esse treino ela
já conhecia o modo de agir para lidar com o piloto.
— Creio que isso não será possível. Preciso do dinheiro já, para pagar outra
companhia pelo vôo até San Francisco. A viagem é importantíssima.
— Não posso fazer o reembolso. É contra a política da empresa fazer
reembolsos em dinheiro. Além disso, não tenho dinheiro vivo aqui. É muito perigoso.
Posso ser assaltado.
— Me parece que você não se preocupa muito com a possibilidade de ser
roubado. O portão na entrada estava aberto, as portas destrancadas. E há um avião na
pista sem ninguém tomando conta. Quantas vezes você já foi roubado?
— Sempre há uma primeira vez.
— Nenhum ladrão respeitável iria sair com um tempo desses. E não existe uma
lei que diz que, se um passageiro não for transportado, a companhia aérea deve
reembolsá-lo em dobro?
A expressão beligerante no rosto de Parnell Stillman disse a Rebecca que tinha
acertado no alvo.
— Quem se importa com as regras do governo?
— Não precisa ser gentil conosco, capitão Stillman. Não quero ser a causa da
perfuração de sua úlcera. As crianças e eu estamos acostumados a nos virar sem
ajuda.
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Ele olhou para a moça e o modo como ela falara o fez lembrar de um erro que
cometera no passado.
— Uma vez fui casado com uma mulher como você. Ela passou todo o tempo
que estivemos juntos tentando fazer com que eu me sentisse mal.
Incrível como esse sujeito é convencido, pensou ela. Então, eu lembro a exesposa dele? Bom, ele me lembra um certo sujeito que era também muito convencido,
com cabeça e coração vazios!
Com os pensamentos fervilhando na mente, Rebecca atacou, irônica:
— É mesmo? E quanto tempo durou seu casamento, capitão Stillman? Vinte
minutos?
— Igualzinha a ela!
— Fico orgulhosa que pense assim — disse Rebecca, num tom que só poderia
indicar uma coisa: sarcasmo. Então, chamou as crianças e as fez sentar num banco
dentro do escritório. — Sentem-se aí. E não levantem. Vocês podem...
— Eu quero fazer xixi! — disse Molly.
O rosto da moça ficou vermelho. Sem outra saída, ela teve de se voltar para
Parnell.
— Onde fica o banheiro das mulheres?
Sentado detrás de sua mesa, ele apontou com a caneta, enquanto fazia força
para ignorar os passageiros não desejados. Mas, apesar disso, olhou com o canto dos
olhos enquanto Rebecca tirava o casaco e o gorro. Ela parecia jovem e vibrante com
os cabelos negros soltos, escorrendo ondulados até os ombros. E também suas formas
eram bem melhores sem o casaco. Muito melhores. Mulheres como ela sempre
tentavam usar as formas em proveito próprio. Mas ele não dava importância a isso. Os
contornos ou beleza de uma mulher não mais o atraíam. E já fazia anos.
Ele conhecia tudo sobre as estratégias femininas, aqueles jogos de provocação
de mostrar um pouquinho ali e outro tanto lá, que faziam um homem babar como um
bebê faminto. Uma vez se vira nessa situação. E prometera a si mesmo que isso nunca
mais aconteceria.
Na época em que ainda era ingênuo em relação às mulheres, ele estava na
Marinha, lotado na Pensacola Naval Air Station. A beleza que o capturara acabara se
revelando uma pobre viuvinha com duas doces crianças para criar. E só de pensar
nisso Parnell sentia um frio na boca do estômago. Acreditara em cada palavra doce
que ouvira e se casara com a mulher. Mas tudo que ela fazia era causar um escândalo
atrás do outro, enquanto as doces criancinhas não eram mais que pirralhos
especialistas em chantagem emocional.
O casamento perturbara os três últimos dos vinte anos que passara na Marinha.
Com trinta e sete anos e sem ter para onde ir, Stillman seguira para Idaho, onde seu tio
Henry tinha uma companhia de transporte aéreo. Dois anos depois o tio falecera.
Parnell notou que herdara a empresa. A empresa e todas as dívidas.
O que precisava, ele sabia, era de um secretário-contador esperto. Mas sabia
também que, com o que poderia pagar, um homem com família para alimentar nunca
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aceitaria o cargo. Havia a possibilidade de contratar uma mulher, mas isso ele não
podia se forçar a fazer.
Stillman situava a si mesmo no honrado grupo de homens que gostavam de
cachorros, eram gentis com os mais velhos e tinham grande controle sobre as
necessidades da carne. Tal controle era fácil. O casamento que falhara o deixara com
uma grande animosidade contra mulheres. Não queria ninguém de saias por perto,
fosse secretária ou passageira.
O celibato auto-imposto era estranho, mas não devastador. Nas poucas vezes
em que o desejo o fazia procurar uma mulher, ia àqueles locais onde conseguia o que
queria sem problemas, com piadas francas, risadas altas e conversa fiada. Se uma
mulher mencionava a palavra casamento, ele olhava feio. Se ela falasse em crianças,
ele desaparecia tão depressa quanto um avião supersônico. A viúva tinha sido atraída
pelas suas covinhas. Por isso ele mantinha a barba rala para escondê-las. E sabia por
experiência própria que não se pode ser bondoso com mulheres. Logo elas
transformavam seu sentimento revelado de forma não intencional em palavras ou
ações. Lá no fundo, ele achava que mulheres só existiam para causar a miséria dos
homens. Era irônico que Deus tivesse tirado uma costela do homem para fazer a
mulher. Parnell decidira há muito tempo que preferia a costela de volta.
Sua atenção foi chamada por dois garotinhos que se aproximaram da mesa. O
controle que possuía sobre a libido não se aplicava à disposição: irritava-se com a
maior facilidade.
— Saiam os dois daí!
— Nós somos órfãos — disse Jonesy.
— Sei.
— Com o que ele se parece? — sussurrou Nicholas.
— Com o vagabundo que a velha Abigail deixou dormir na cozinha, na semana
passada.
— Vagabundo! — exclamou Parnell, furioso. — Voltem para aquele banco,
pirralhos!
Jonesy não se moveu, continuando a olhar para o homem.
— Nicholas é cego — informou ele. — Não consegue ver nada além de
sombras.
— Isso é uma pena — disse Stillman, chocado mas tentando parecer firme. — E
eu não me pareço com um vagabundo. Sou um aviador.
— Posso tocar nas suas mãos e rosto? — pediu Nicholas.
— Que diabos! Não!
Jonesy abraçou de forma protetora o garoto menor.
— Vamos para San Francisco ver se lá encontramos alguém que queira nos
adotar. Vai haver uma daquelas reuniões de pessoas que pegam crianças com
defeitos.
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Parnell olhou bem para cada uma das crianças e, sem que notasse, a
curiosidade o dominou.
— E o que há de errado com você? — perguntou para Jonesy.
— Eu sou gordo. Ninguém quer um garoto gordo. A alimentação fica muito cara.
— E quanto a ele? — quis saber o homem, apontando para Yancy.
— Ele tem um amigo chamado Scrappy.
— E daí?
— Scrappy não é de verdade.
— Ah.
— E o Santee tem sangue índio. Ele não fica na cidade. Ninguém quer adotá-lo
porque ele foge e vai viver no mato. Molly é manca. Você tem filhos?
— Não e não quero ter... Vamos, voltem para o banco. Vocês não sabem
cumprir ordens?
— Nós nunca entramos num avião.
— Eu queria que vocês... — começou Parnell, e então uma idéia surgiu em sua
mente. — É mesmo? E você tem medo de voar?
Jonesy deu de ombros.
— Voar é perigoso? — perguntou Nicholas. — Como é que é? O que a gente
sente?
— Pode ser perigoso — afirmou o homem, com um sorriso. — Sim, pode ser
mesmo muito perigoso.
Olhando para os lados, Parnell concluiu que não teria nada a perder tentando a
idéia com a... Pegando a prancheta, ele conferiu o nome: Rebecca Hollis.
— Srta. Hollis — disse ele, assim que a mulher e Molly voltaram do banheiro —,
preciso explicar tudo sobre o vôo.
Dizendo isso, ele abriu dois mapas, um topográfico e outro meteorológico, sobre
a mesa.
— A viagem será muito difícil, muito frio, muitos sacolejos. Não haverá comida...
— Eu sei, trouxemos nossa comida.
Parnell evitou um suspiro.
— Você não está entendendo. Veja, olhe esse mapa. Aqui está o trajeto de
Boise a San Francisco. Vamos estar sobrevoando a área mais desolada do país...
— E daí? Não vamos fazer o trajeto a pé.
Stillman deixou-se cair na cadeira. Sua idéia não estava dando certo. Então,
tentou o ponto mais efetivo.
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— Isso é verdade, mas vamos pegar ventos de lado, talvez até neve. O tempo
não está bom...
— Você está cancelando o vôo?
— Não posso. Tenho de levar o malote do correio. Você conhece o velho ditado:
"Nem chuva nem neve o carteiro impede..."
— Se você acha que é seguro o suficiente para levar o malote...
— Sou pago para correr riscos.
— E também foi pago para nos levar à San Francisco. E para nos trazer de
volta.
Todos os palavrões que ele conhecia brilharam em seus olhos.
— Não quero uma mulher e crianças no meu avião. Mulheres dão azar e
crianças são problemas.
Rebecca fez Molly ir para o banco, onde não poderia ouvir a conversa. E baixou
o tom de voz.
— Tenho certeza de que já ouviu isso antes, capitão Stillman. Está agindo como
um idiota. Se não quer nos levar, basta me dar nosso dinheiro em dobro e vamos
embora. A verdade é que você não parece ser capaz de fazer voar nem mesmo um
aviãozinho de papel. E isso me deixa nervosa.
— Sua tonta! O que você sabe sobre aviões? Eu voava com jatos aos vinte e
dois anos! Fui criado num avião, literalmente. Não me diga que eu pareço incapaz de
pilotar um avião ou eu lhe digo o que você parece ser incapaz de fazer!
— Eu não pretendia insultar você — disse a moça com tal doçura que deixava
claro que o objetivo havia sido atingido.
— É claro que queria!
— Certo. Então, eu queria ofender você. Lamento. Vamos ficar aqui sentadinhos
até a hora de embarcar. Se você concordar.
A vontade dele era gritar que não concordava. Mas sabia que não tinha opção.
Voar era sua liberdade, era o que lhe dava dignidade. Mas também era o que o
afastava da parte de negócios da empresa. Sim, Parnell era um sujeito doce quando
queria, principalmente quando procurava conseguir trabalho como o do correio, mas
não gostava de papeladas. De algum modo, quando havia dinheiro em caixa, ele era
gasto em algo inútil. Como o pagamento da Fundação Tynan, que fora usado para
pagar o salário do mecânico que se negara a trabalhar se não recebesse.
Nunca devia ter permitido que aquela velha, a tal de Abigail, o convencesse a
levar seus "clientes". Mas ela disse ter sido grande amiga do tio Henry, abençoada seja
sua alma cheia de dívidas!, e que ele fizera muitos vôos para ela antes que vendesse a
fazenda e fundasse o orfanato. Conformou-se:
— Está bem! Eu mando alguém vir chamar vocês, quando for hora de embarcar.
Vão ter de carregar a própria bagagem. A Stillman não fornece esse serviço.
— Pode deixar que cuidamos das nossas coisas. Obrigada.
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Vestindo um blusão de couro forrado de pele de carneiro, Parnell deixou o
escritório.
— Aposto que ele vai decolar sem a gente — disse Santee.
— Não se preocupe, ele não vai não — garantiu Rebecca, sem saber por que
tinha tal certeza.
Então, ela notou que o rosto moreno-oliva do menino estava pálido. Sem dúvida
ele tinha medo de voar e fazia força para não mostrar isso.
— Ele não vai me obrigar a deixar o Scrappy aqui, não é? — perguntou Yancy.
— Não, claro que não. Vai haver espaço para o Scrappy. Rebecca sabia que
não deveria encorajar Yancy nessa história sobre Scrappy, mas achava que todo
mundo precisava de um amigo.
Cada uma daquelas crianças tinha sofrido pelo menos um golpe duro, que lhes
ensinara a passar sempre despercebidas, a manter a cabeça baixa. Naquele ano em
que vinha trabalhando na Fundação Tynan as crianças acabaram por confiar nela, até
onde se permitiam confiar num adulto. Para Rebecca, essa confiança era uma boa
medida de progresso.
Dedicou um pensamento à reunião em San Francisco. Tinha sido meses de
planejamento, telefonemas e cartas. Mais de cinco orfanatos do Estado e doze
particulares tinham reunido recursos para realizar o evento. Ela torcia para que desse
certo. Torcia para que... Olhou para as crianças... Rejeitadas pela sociedade, mancas,
cegas, sem amor.
Uma súbita seqüência de lembranças passou por sua mente. Sem amor.
Talvez minha afinidade com essas crianças venha do fato de eu mesma ter sido
rejeitada, pensou.
Mas ela aprendera a amar a si mesma. O que não fora fácil, pois muito cedo
descobrira que não havia nada a ser amado em si. E trabalhar com os órfãos tinha
preenchido certas necessidades, como troca de afeto, de ternura, de calor humano.
Assim que a Fundação encontrasse lares para essas cinco crianças, Abigail iria
fechar o orfanato.
É uma pena que eu não possa arrumar alguém para me adotar também, pensou
a moça. Depois de um ano trabalhando no orfanato iria ficar sozinha de novo. Sem
trabalho, sem casa, sem crianças.
E também sem nenhum homem em sua vida.
Mas eu não quero nenhum homem!, rebelou-se mentalmente.
A verdade era que sua determinação quanto a isso ficava cada vez mais fraca.
Principalmente nos sonhos. Mas encontrar aquele piloto aumentou suas forças. Ele era
o perfeito exemplo do sexo oposto: arrogante, egoísta, insensível. Rebecca vivia
dizendo às crianças para esquecerem o passado, para aprenderem a depender só de
si mesmas, a aceitarem a realidade. E agora concluía que tinha de seguir seu próprio
conselho.

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Abandonando os pensamentos, ela retornou à realidade. Santee estava
começando a ficar agitado, Rebecca lhe dirigiu um sorriso encorajador.
Um homem mais velho, com o rosto enrugado e todo encolhido por causa do
frio, entrou na sala.
— O capitão disse que vocês podem embarcar.
— Onde ele está?
— Fazendo as verificações antes do vôo.
— Bem, então lá vamos nós, crianças. Para nossa grande aventura!
— Scrappy está com medo de entrar no avião — disse Yancy.
— Ele pode ir comigo — disse Molly. — Eu não estou com medo.
— Ele não está assim com tanto medo — retrucou o menino. — Vai comigo,
mesmo.
— Com o que se parece voar? — quis saber Nicholas, ansioso.
Pegando o casaco, Rebecca começou a andar para a porta.
— Santee, ajude o Nicholas. Molly, Yancy, Jonesy, fiquem juntos.
O velho abriu e fechou a boca. Rebecca imaginou que ele queria oferecer ajuda,
mas tinha ordens para não fazê-lo. Assistindo, com ar embaraçado, ele manteve a
porta do hangar aberta enquanto os seis saíam.
O calçamento da pista estava escorregadio por causa da neve, e o vento forte
fazia com que ficassem sem ar. As luzes de pouso indicavam o caminho. Quando
chegavam à escadinha do avião, Molly escorregou, incapaz de manter o equilíbrio por
causa das botas corretivas que usava.
Parnell, que estava no avião, desceu a escada correndo e ergueu a menina
como faria com um saco de farinha, gritando:
— Eu não sou responsável por acidentes!
— Ninguém disse que é! — rebateu Rebecca, zangada. Lutando para manter-se
em pé, a moça olhou para Molly, que, nas alturas, sorria, gostando de ser o centro das
atenções.
Sem perceber a alegria da menina, Parnell murmurava para si mesmo, dizendo
que sem dúvida aquele vôo estava amaldiçoado. Provavelmente todas as crianças
vomitariam dentro do avião.
Todos subiram e o velho ajudante aproximou-se com o tratorzinho que puxava a
escada.
— Você tem certeza de que consegue voar com esse tempo? — perguntou
Rebecca ao piloto.
— Quer mudar de idéia? Vou chamar o Amos...
— Não! Se você vai voar, nós também vamos!
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— Preciso entregar as cartas.
Tinha assinado um contrato muito bom, para levar
correspondência para os militares do Pacífico. Se fizesse
pagamento da correspondência seria suficiente para tirar
Parnell fechou a porta de correr, trancou-a e olhou para
começou a doer.

o malote do correio e a
todos os vôos, apenas o
a empresa do vermelho.
Rebecca. Seu estômago

— Coloquem os cintos — comandou ele.
Enquanto se sentava na poltrona de pilotagem, ele decidiu que deixaria de ser
gentil com os mais velhos. Fora gentil com Abigail Tynan e ali estava o resultado.
Com tal decisão tomada, Stillman se concentrou naquilo que o fazia feliz: voar.
Examinou o plano de vôo e mapas, apesar de já ter há muito os dois na memória. O
primeiro motor começou a girar, sendo logo seguido pelos outros três. Recebeu o sinal
de que as travas das rodas tinham sido tiradas. Soltou os freios e levou as alavancas
de aceleração até o máximo. Mirou o bico do avião para o vento e começou a percorrer
a faixa escura da pista. Os limpadores de pára-brisa trabalhavam furiosamente, as
luzes da pista passando velozes pelas asas, sua luminescência desaparecendo sob a
neve.
O tempo não o preocupava. Conhecia bem, sua habilidade e sabia que era
capaz de voar através de qualquer coisa.
Parnell sorriu. Voar era maravilhoso!

Capítulo 2

Mas você não precisa sentar na janela, Nicholas — argumentou Jonesy. — Você
é cego! Não pode ver nada mesmo!
— Eu sentei aqui primeiro!
Rebecca interrompeu a discussão.
— Escutem aqui, vocês dois! Podem muito bem se revezar, de vez em quando,
não?
— Mas Nicholas pode sentar em qualquer lugar. Não vai fazer diferença
nenhuma!
— Ele tem tanto direito de sentar na janela quanto você.
— Todo mundo abusa de mim porque sou gordo — reclamou Jonesy.
— Eu não! — reclamou Nicholas. — Eu não posso ver que você é gordo. Estou
só cuidando de mim mesmo!
12

O avião tremeu e todos ficaram quietos. Rebecca suspirou.
A única luz na cabine era um brilho esverdeado vindo do painel de instrumentos
e o frio parecia se erguer do metal da nave. A moça ergueu a gola do casaco,
lamentando que tivessem de sentir tanto frio durante todo o vôo.
Era responsável pelo bem-estar e segurança daquelas crianças. E se uma delas
ficasse doente por causa do frio e acabasse ficando de cama durante a convenção?
Isso acabaria com ela. Afastando o pensamento, Rebecca se concentrou em Parnell,
aguardando o momento certo de se aproximar dele. Um pouco de calor humano não
faria mal a ninguém.
O trem de pouso penetrou no corpo do avião com um baque surdo. O piloto
falava no rádio. Quando pareceu que terminara a comunicação, a moça deixou seu
assento e se aproximou dele. Um jato de ar quente atingiu seu rosto. Perceber que ele
estava bem confortável no calor enquanto os passageiros congelavam a enervou.
— Há algum modo de nos aquecer lá atrás? Estamos todos batendo os dentes.
Parnell voltou-se na cadeira. Sabia que aquele vôo não seria dos mais
agradáveis. Mesmo a decolagem não fora fácil. Queria se concentrar no trabalho,
ignorando os passageiros.
— Sei! Daqui a pouco você vai perguntar quando as bebidas serão servidas.
A raiva dela cresceu. Já tinha suportado o suficiente da arrogância do sujeito.
— Ei! Tudo o que fizemos foi contratar você para nos levar a San Francisco.
Está agindo como se fôssemos criminosos ou algo do tipo. Está muito frio lá atrás. E
escuro. Duas das crianças têm medo do escuro.
— Eu sou um piloto, não uma babá — disse ele, mas girou um botão e uma
fileira de luzes fracas se acendeu no teto do avião.
— Obrigada. E quanto ao aquecimento?
— Você quer calor? Abra as saídas de ar ao lado dos assentos.
— Obrigada. E me desculpe por incomodar você.
De súbito o avião sacudiu e Rebecca caiu de joelhos, agarrando-se à poltrona e
às pernas do piloto.
Ela fora contra ir à convenção e perdera. Fora contra voar. Mas as neves de
dezembro impediam a passagem pelas estradas e isso era definitivo. Agora não tinha
nada a fazer, além de rezar. Um rápido olhar para trás mostrou as crianças sentadas
rígidas e quietas, com olhos assustados nos rostinhos pálidos.
— Me solte e vá se sentar — gritou Parnell, enquanto suas mãos andavam pelo
painel.
— Você é inacreditável!
Mas ela deu um jeito de se levantar e voltar para sua poltrona, considerando que
Abigail devia estar louca quando negociara com tal sujeito. Num breve momento de
estabilidade, encontrou a saída da ventilação e a abriu, mostrando como fazer para as
crianças.
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— Pergunte a ele onde estão os pára-quedas — sussurrou Santee.
— Não seja bobo. Estamos muito seguros aqui. Já voei várias vezes com tempo
pior que esse — afirmou Rebecca.
É claro que ela não conseguia se lembrar de quando fora isso. Recordava
apenas das aeromoças andando de um lado para outro, tranqüilizando passageiros, e
da voz do comandante no alto-falante, explicando o que estava acontecendo. Era
evidente que a atitude do capitão Stillman era do tipo "os passageiros que se danem!"
— Scrappy não gosta de voar — disse Yancy, abraçando o amigo imaginário. —
Ele está com medo de cair do céu.
— Bem, ele não vai cair e nós também não! — garantiu a moça, com voz forte,
tentando tranqüilizar tanto as crianças quanto a si mesma.
Quando por fim o avião parou de balançar, ela passou a distribuir sanduíches.
Então, a nave sacudiu e começou a deslizar de lado. Durante longos segundos
os motores trabalharam sob pressão. Os passageiros foram empurrados, sacudidos,
empurrados de novo. As crianças mais novas gritaram.
— Você pode sentar na janela agora, Jonesy! — guinchou Nicholas.
— Faça os pirralhos ficarem quietos — berrou o piloto. — Eles parecem
bezerros indo para o matadouro!
Rebecca olhou para a nuca de Stillman com hostilidade defensiva e ordenou:
— Leve-nos de volta para o aeroporto!
— Não posso voltar agora. Mas, se quiser, deixo vocês na primeira esquina!
A moça ouviu-o rindo da própria piada. Não se conteve:
— Você tem um senso de humor doentio!
Quando os motores voltaram ao normal, Molly tinha o rosto pálido. Rebecca a
fez baixar a cabeça e recomendou aos outros que fizessem o mesmo, caso se
sentissem mal.
Do lado de fora das janelas o céu escuro ficou cinzento, e eles tiveram alguns
minutos de tranqüilidade. Aos poucos as crianças ficaram melhor e comeram os
sanduíches. Rebecca distribuiu copos de suco, depois abriu sua garrafa térmica e se
serviu.
Parnell sentiu o cheiro de café. Então, lembrou-se de que pretendera tomar uma
xícara antes de levantar vôo, mas com toda aquela confusão na sua sala se esquecera.
Sentiu que não devia pedir, mas acabou concluindo que o cheiro estava ótimo.
— Ei! Você pode abrir mão de um gole disso aí?
— Na verdade, não. Mas se você quiser parar no próximo bar, não vamos
reclamar pela demora.
Stillman voltou-se para olhá-la.
— Certo, eu mereci essa. Estamos empatados.
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Rebecca chegou a abrir a boca para fazer outro comentário sarcástico, mas
resolveu se calar. Por que se rebaixar ao nível dele? Ainda assim, quando serviu mais
um pouco de café na tampa da garrafa que usava como xícara e a passava por sobre o
ombro do piloto, ela disse, sarcástica:
— Eu não sou uma aeromoça, você sabe.
— Vocês me perturbaram. Se não fosse por isso, eu não teria esquecido de
tomar meu café antes de subir.
— Foi você quem se distraiu. E essa cadeira vazia do seu lado? Um avião desse
tamanho não deveria ter um co-piloto? E se acontecer alguma coisa com você?
— Deveria ter se preocupado com isso antes de decolarmos.
O piloto esvaziou a tampa e a devolveu. Entraram numa nova zona de
perturbação, mas dessa vez Rebecca apoiou uma das mãos no teto baixo do aparelho
e se manteve firme.
— Há algo errado?
— Só turbulências. Eu avisei.
Mas o rosto de Parnell mostrava preocupação. O tempo estava pior do que o
boletim havia previsto. E o avião ganhava peso. Amos tinha tirado o gelo das asas, mas
era fácil perceber que novas camadas se formavam sobre o aço. Estavam perdendo
velocidade e o piloto acelerou os motores para compensar.
— Você não falou sobre perigo de verdade. Queria nos convencer a não voar
porque não gostou de nós.
— E continuo não gostando.
Apesar do comentário desagradável, Stillman estava preocupado era com a
condição do tempo, que piorava visivelmente. A tempestade avançava, penetrando no
curso que pretendia seguir. Era perigoso confiar na natureza e dessa vez ele fora
mesmo enganado. Uma expressão ainda mais sombria tomou seu rosto, o que não
passou despercebido por Rebecca.
— Você está preocupado, não está? Podemos voltar. Estou falando sério.
— Nada disso. Vamos voar direto através da tempestade. Estamos apenas a
vinte minutos de Reno. Podemos descer lá e esperar até o tempo melhorar. Depois
será fácil passar pela Sierra Nevada e descer em San Francisco.
Parnell iniciou a curva muito aberta que os colocaria no rumo sul.
— Vá se sentar e prenda o cinto — pediu ele.
Antes que terminasse a curva, o avião começou a vibrar. Rebecca perdeu o
equilíbrio e foi jogada no chão. As crianças emitiram um grito coletivo.
Parecia que o aparelho estava se desfazendo em pedaços.
A moça se levantou, sentindo o cotovelo como se tivesse sido picado por uma
centena de vespas. A dor fez sugir lágrimas em seus olhos, mas ela se agarrou à
cadeira do co-piloto.
15

— O que houve? — indagou, ansiosa.
Parnell segurava o controle do leme com tanta força que os nós dos dedos
estavam brancos. O modo como o avião se comportava confirmava suas piores
suspeitas.
— Umas das hélices perdeu uma pá — disse ele, diminuindo a aceleração
daquele motor e fazendo a vibração diminuir. Então testou os controles e sentiu o corpo
gelar: os ailerons e o leme não respondiam. O avião perdia altitude depressa. —
Parece que a maldita pá atravessou uma asa ou talvez tenha arrancado parte da
cauda.
Rebecca reprimiu o pânico que começava a sentir.
— O que isso quer dizer?
— Isso quer dizer que estamos perdendo altitude.
— Mas... você não pode ir para um aeroporto? Em algum lugar?
Com a perda dos ailerons e do leme era possível subir e descer, mas não dava
para terminar a curva, nem nivelar. Quanto mais alto pior o tempo e o peso do gelo os
puxava cada vez com mais força para baixo. Ele sentia que os outros três motores
rateavam por causa do ar rarefeito. O melhor que se podia esperar era uma descida
que não terminasse numa montanha.
— Vou ter de descer.
— Aqui nas Rochosas? — perguntou Rebecca, mal podendo acreditar no que
acontecia.
Parnell pensou em corrigir a mulher, dizendo: "não, na Sierra Nevada", mas em
vez disso colocou o fone e começou a chamar Reno. Tudo o que ouvia era estática,
mas ele forneceu sua posição e ângulo de descida. Se Reno o ouvia, a estática
encobria as resposta. Tentou Boise, depois Sacramento. Mas estavam fora do espaço
aéreo de Boise e baixo demais para falar com Sacramento, do outro lado das
montanhas.
Por um instante Rebecca ficou como que hipnotizada pela série de mostradores
verdes e luzes vermelhas. Então, afastou os olhos dos instrumentos.
— Não podemos jogar parte da carga fora? Talvez...
— Você anda vendo filmes demais. Se uma das portas de carga for aberta,
todos seremos sugados para fora.
— Você não pode chamar alguém?
Parnell quase riu.
— Claro, ligue 911 para ajuda.
Já estavam numa altura que impedia qualquer radar de localizar o aparelho.
— Pare com isso! Nós vamos morrer e você continua bancando o engraçadinho!
— Você acha mesmo que sua hora chegou?
16

— Vamos bater na encosta da montanha!
— Eu não acho que minha hora tenha chegado. Já passei por isso antes. Basta
ter fé.
— Em você? — perguntou ela, com ironia.
Ele sorriu, olhando rapidamente para Rebecca.
— Lamento, mas sou sua única chance. Agora vá lá para trás e faça os garotos
ficarem quietos, verifique os cintos e se prenda também. Todos com as cabeças
abaixadas. Deixe a direção comigo.
Parnell sabia que não havia como impedir o aparelho de descer. Se não fossem
detidos por uma montanha, teriam alguma chance.
A vontade de Rebecca era pegar cada uma das crianças no colo, confortar todas
elas.
Morrer daquele jeito, pensava ela, por causa do orgulho! "Meu maldito orgulho
que me fez tentar ser mais esperta que Parnell Stillman. E esse meu maldito orgulho
vai matar a mim e as crianças! E eles ainda nem tiveram chance de viver..."
— Crianças, vamos ter de pousar. Pode ser um pouco complicado, por isso
fiquem todos com as cabeças abaixadas.
— Nós vamos morrer? — perguntou Jonesy.
— Ninguém vai ter saudade da gente se morrermos — comentou Santee.
— Não vamos morrer! Vamos só pousar! E agora abaixem as cabeças ou vou
esquentar alguns traseiros!
Era uma ameaça bem difícil de ser cumprida, mas as crianças obedeceram a
ordem.
Estavam todos quietos e apavorados. Esperando, apenas esperando.
Parnell trabalhava nos controles. Depois de dois minutos o avião nivelou, os três
motores fazendo força para manter o pesado aparelho no ar. Ele definiu um ângulo de
descida e manteve firme o leme. O altímetro desceu abaixo da marca de dez mil pés. O
piloto acendeu as luzes de pouso e tentou enxergar o que vinha pela frente.
Rebecca e as crianças estavam imóveis, esperando tensos pela inevitável
batida. Acima do zumbido agudo dos motores, ela ouvia Parnell falando com o avião,
como se fosse uma mulher, uma fala doce que hipoteticamente poderia conseguir o
máximo esforço do aparelho. À certa altura ele suspirou como um amante saciado.
Pela janela Rebecca via árvores saindo da neve que cobria as montanhas. À
medida que o avião descia mais e mais, seu desespero aumentava. Começou a rezar,
implorando pelas crianças, murmurando palavras de conforto para elas, tão jovens!
— Por favor Deus, não as leve! — sussurrou, baixinho. Um medo terrível a
dominou, um medo que impedia qualquer pensamento.
— Olha só que beleza! — exclamou Parnell.

17

Tinha encontrado o que procurava quando fizera o avião penetrar num vale: um
terreno relativamente plano, coberto de neve. Seria uma aproximação do tipo ou vai ou
racha, sem trem de pouso. Não havia tempo de fazer a verificação formal para descida,
nem tempo para confortar Rebecca Hollis ou as crianças. Ele apenas gritou para que
todos mantivessem as cabeças abaixadas.
O mar de árvores desapareceu por baixo do nariz do avião. Agradecido por sua
percepção, Parnell desligou os motores e manteve a nave a pouco mais de vinte e
cinco metros do solo. Então o avião caiu, a parte de baixo tocando a neve, um pouso
de barriga capaz de gelar o sangue e fazer ranger os dentes. Pulou uma vez,depois
deslizou na neve, girando, ganhando velocidade, como se o fundo do vale fosse uma
grande pista de esqui.
Então, o cone formado pelo nariz da nave penetrou na neve, jogando-a nas
hélices e nas asas, até que todo o avião parecia ser uma gigantesca bola de neve. O
terreno terminava numa fileira de árvores. Parnell soltou os controles e ergueu as mãos
para proteger o rosto. Nunca decidira se era um presbiteriano ou episcopaliano. Ao se
proteger, chegou à conclusão de que era os dois. Rezou para que seus passageiros
sobrevivessem, torcendo para que Deus levasse em conta que na última vez em que
rezara fora para o bem dos outros, sem egoísmo. O nariz do avião levantou na
inclinação do terreno e, rabeando, o aparelho dirigiu-se para a floresta. Então a
velocidade diminuiu, a nave tremeu, rangendo, e parou. Stillman baixou os braços.
Um silêncio súbito engolfou o aparelho.
Santee foi o primeiro a reagir. Ele soltou a respiração, que soou muito alto no
silêncio.
Parnell voltou-se lentamente e olhou para Rebecca.
— Conseguimos.
— Graças a Deus! — respondeu ela. Molly vomitou.

Capítulo 3

— Nós estamos mortos? — sussurrou Nicholas.
Seus olhos, que não viam, estavam bem abertos, enquanto as mãos tocavam o
próprio nariz, boca, orelhas. Rebecca sentiu o rosto molhado. Era de lágrimas, estava
chorando.
— Não, não estamos — respondeu, dominando os soluços. Santee continuava
rígido, mas mantinha-se sentado durinho, com ar estóico, como Jonesy e Yancy.
— Algum ferido? — perguntou Parnell.

18

— Creio que não — respondeu a moça, fazendo seus olhos se encontrarem com
os dele.
O piloto recuperara parte de sua compostura e praticamente oitenta por cento de
suas pernas estavam sob controle e tremiam só um pouquinho... Todos seus sentidos
entraram em operação de emergência. Farejou fumaça e combustível.
A neve deve ter agido como retardador, ou então já deveríamos estar em
chamas, pensou ele.
A vontade de Rebecca era perguntar "e agora?", mas ela ficou quieta. De algum
modo lhe parecia suficiente que estivessem todos vivos. Então levantou-se e, se não
fosse Molly precisar de ajuda, teria sentado de novo.
Estava escuro ali dentro do avião. Com exceção das janelas da cabine de
comando, as outras estavam bloqueadas pela neve. Rebecca levou Molly para a parte
de trás. Tiveram de passar sobre alguns sacos de cartas que haviam caído, para
chegar ao banheiro. Não saía água da torneira, por isso ela usou apenas toalhas de
papel.
— Nós quase vimos Deus, não foi? — perguntou Molly.
— Quase — concordou Rebecca, surpreendida por sua voz soar normal.
— Eu queria que tivéssemos mesmo ido. Eu queria falar com Ele.
— Mas Ele ouve suas preces, sempre que você reza.
— Não, não ouve — declarou a menina com toda a decisão de crianças de cinco
anos que vêem tudo ou preto ou branco, sem nenhuma cor intermediária.
As crianças se dirigiram, uma a uma, para o banheiro. Rebecca deixou-os lá e
voltou para a frente do avião. Parnell estava tentando abrir a porta.
— Posso ajudar? — perguntou ela.
— Estou conseguindo, obrigado.
A porta se abriu um pouco e do lado de fora havia apenas neve. Rebecca
tremeu com o vento frio que entrou. O piloto foi até uma caixa presa à parede da
cabine e tirou de lá um machado-pá dobrável. Abriu a ferramenta e atacou a neve.
Levou dez minutos para abrir um buraco com tamanho suficiente para passar.
— Que droga! — exclamou Parnell.
Tinha descoberto que era péssima idéia passar com a cabeça à frente. A
camada superior da neve estava muito macia e ele escorregou cerca de sete metros
pela neve que se acumulara junto ao avião. De quatro, retornou para o alto, foi até a
asa e observou o rastro deixado pela aeronave no vale. Em alguns pontos haviam
manchas escuras, onde o avião havia tirado toda a neve, expondo terra.
Subitamente, uma vibração fez tremer o aparelho, seguida por um barulho de
rachar. Parnell perdeu o equilíbrio. Ficou caído na asa coberta de gelo, então ergueu a
cabeça. O solo por baixo da fuselagem estava rachando, se abrindo! Ele não
conseguia acreditar no que via. O buraco no chão aumentava, e começou, lentamente,
a engolir a cauda do aparelho.
19

— Para fora! Todos! — ele gritou.
— Mas... — começou a protestar a mulher.
Jonesy veio do banheiro.
— Tem água subindo pela privada — disse ele. O avião se inclinou e o garoto
caiu.
— Pousamos num lago gelado! O gelo está se partindo e o avião está
afundando!
Rebecca era quem estava mais próxima e Parnell a puxou para fora. Ela
escorregou pela neve, gritando:
— As crianças!
Stillman as puxou para fora tão depressa que umas caíam sobre as outras.
Jonesy foi o último a vir, rolando pela neve.
— Vamos, rápido! — gritou Parnell, pegando a criança mais próxima no colo e
correndo. — Até as árvores!
Todos correram até solo firme e ali pararam, sentindo as pernas tremerem.
O piloto fez a contagem. Satisfeito com o número final, ficou observando
enquanto cauda e fuselagem de seu avião afundavam na água escura, que subia pelo
buraco que tinha cavado na neve e penetrava na cabine. Ficou esperando que todo o
avião afundasse no buraco escuro, mas não foi o que aconteceu. Apenas três quartos
do aparelho afundaram. O cone do nariz ficou do lado de fora, como o focinho de um
tubarão prateado, mantido assim pelo ar que havia dentro ou então pelo fundo do lago.
— Esse é o fim da Stillman's — comentou ele.
Quando voltasse a Boise teria de suportar uma investigação e inspeção atrás da
outra, até que o governo decidisse se ele podia ou não fazer contratos de transporte.
Poderia levar anos. Ele dirigiu um olhar negro para a assistente social. Ela dava
mesmo azar. Se não tivesse permitido que a moça e aqueles mini monstros entrassem
em seu avião, àquela altura estaria pousando em San Francisco. De repente Rebecca
falou, zangada:
— É só nisso que você consegue pensar? Em você mesmo?
— Não fale comigo!
— Eu vou falar com você, sim! Estamos nisso juntos, quer você queira, quer
não. E, agora, quanto tempo vai passar até sermos resgatados? O que temos de fazer?
Não podemos simplesmente ficar aqui parados. Vamos congelar.
— Há um transmissor especial de localização na cauda do avião. Ele começa a
funcionar em caso de acidente. E os sinais são pegos pelo SARSAT, um satélite
colocado lá em cima exatamente para isso.
— Então, é como uma espécie de rádio que diz onde estamos?
— Algo assim. Se as baterias estiverem funcionando, se ele funcionar debaixo
d'água, se o sinal for forte o suficiente...
20

Parnell não mencionou que noventa e sete por cento desses sinais eram
alarmes falsos e, mesmo quando não eram, levava um bom tempo até se descobrir
qual avião, de que aeroporto, estava perdido. Se o sinalizador estivesse funcionando,
um grupo de terra conseguiria a localização exata fazendo medições a partir de
noventa quilômetros de distância, em condições ideais. Infelizmente nada nas
condições deles era ideal: nem o tempo nem o fato de a maior parte do avião estar
debaixo d'água. Mesmo com as melhores condições, levaria alguns dias para serem
coordenados os esforços de buscas. Examinando o terreno incrivelmente inóspito que
os rodeava, concluiu que se passariam muitos dias antes de saírem dali. Um olhar para
o rosto de Rebecca fez com que não mencionasse isso.
Levou alguns segundos até que ela compreendesse o que acabara de ouvir.
— Você quer dizer que ninguém sabe onde estamos?
— Não com precisão. Creio que estamos entre cento e cinqüenta e trezentos
quilômetros da rota. Mas podem conseguir nos localizar... eventualmente.
— Você sabe onde estamos?
— Mais ou menos. Posso dizer com a precisão de alguns graus. Estavam
provavelmente a sessenta quilômetros da civilização em qualquer direção. Que
naquele terreno poderia bem significar cento e cinqüenta. Ele olhou para o céu. A
abertura que antes havia nas nuvens tinha sumido. Estava frio. E ia ficar mais frio.
— Vamos para perto do avião — decidiu ele. — Caso o pessoal de Reno tenha
visto que desaparecemos do radar, eles vêm procurar a gente...
Yancy limpou o nariz que escorria na manga do casaco.
— Não faça isso — advertiu Rebecca, pegando um lenço no bolso e
entregando-o ao menino.
— Esse lugar é bom — declarou Santee.
— Fique onde eu possa ver você, Santee — Rebecca falou. Voltando-se para
Parnell, prosseguiu: — Vamos precisar de fogo.
Basta deixar que as mulheres dizem o óbvio, pensou o piloto.
— Certo. Você tem fósforos?
— Não. E você?
Stillman deu de ombros. Aquele não era mesmo o seu dia. Sabia que teria de
voltar à cabine do avião para recuperar mapas, sinalizadores, o kit de sobrevivência e
tudo o mais que pudesse ser útil. Murmurando uma série de palavrões, ele começou a
andar na direção do aparelho.
— Não use esse linguajar diante das crianças!
— Por Deus! Me desculpe! Você teria palavras melhores para a situação em que
estamos? Lhe digo uma coisa, moça! Se não fosse por você, eu já estaria saindo
daqui. Se não tivesse de me preocupar com sua segurança, teria tido tempo para
pegar o kit e meus mapas.
Rebecca abraçou Nicholas e Molly, enquanto explodia:
21

— Um comentário como esse não merece resposta. Se lhe servir de consolo,
não tenho idéia do que fiz para merecer o castigo de estar aqui com você!
— Bem, poderia ser pior...
— Não vejo como!
— A gente podia ter morrido! — lembrou Jonesy.
A verdade dessas palavras não podia ser contestada.
— Abotoe sua jaqueta — disse-lhe Rebecca, com dureza.
Jonesy trocou um olhar com os outros garotos, dizendo sem palavras: quem
entende os adultos?
A moça fechou-se dentro de si mesma, tentando imaginar como sair daquela
situação. Já sofrera reveses emocionais e financeiros durante a vida, mas tinham sido
nada se comparados com o que enfrentava naquele momento. Cada vez que respirava
o ar gelado era uma tortura para seus pulmões. A verdade era que suas vidas agora
dependiam de um sujeito desagradável e egocêntrico.
Parnell estava concentrado no lago gelado, sabendo que teria de mergulhar
para alcançar a porta. Teria de se concentrar muito para conseguir. Logo ele que
detestava banhos frios, mesmo no auge do verão! No extremo da percepção, sentiu os
olhos de Rebecca pousarem nele. Ela o olhava como se conseguisse perceber seus
pensamentos, o que provavelmente conseguia mesmo. "Com uma mulher você nunca
pode saber onde está o perigo", pensou, desanimado. Então, notou que ela o fitava.
— O que está olhando? — indagou, agressivo.
— Nada! Estava só pensando que você podia ter conseguido pousar o avião em
chão firme.
— A encosta da montanha teria sido sólida o suficiente para você?
— Eu queria que você parasse de interpretar mal tudo o que digo!
— Eu estou só ouvindo. Foi você quem falou.
— Então, ouça isso: não acha que devia parar de me agredir e começar a
pensar em como vamos fazer para sair desta enrascada!
Parnell bateu os calcanhares e fez uma continência.
— Claro, se é o que deseja, madame. Agora mesmo, madame. Deixe todos os
detalhes comigo. Vou assobiar e a Sétima Cavalaria desce por aquele lado ali. O que
você pensa que é isso? Um filme de John Wayne?
Rebecca fez força para controlar a vontade de esbofeteá-lo.
— Não vou me deixar levar pelo seu sarcasmo. Foi você quem nos fez vir parar
aqui. Agora, se não tem nenhuma idéia, pelo menos aponte a direção certa. Nós nos
viramos para sair daqui.
— Essa é a coisa mais estúpida que ouvi em toda minha vida. Olhe para o céu.
Essas nuvens estão se juntando para soltar mais neve do que você jamais viu. E esses
22

garotos não conseguiriam percorrer um quilômetro. Vocês todos iriam congelar. O que
sabe sobre sobrevivência?
— O suficiente para saber que não podemos ficar parados aqui discutindo.
— É verdade — concordou ele, encarando mais uma vez a água escura que o
separava do avião.
Considerou que provavelmente iria morrer e seria enterrado como herói, um
mártir, se os passageiros sobrevivessem para contar a história.
No entanto, se Deus pretendia levá-lo, não queria que isso acontecesse na
frente das crianças. Chamou o garoto que parecia ser o mais velho, menos assustado
e mais esperto.
— Qual é o seu nome?
— Santee.
— Você é meio índio, não?
— Sim. Tenho sangue sioux.
— Ótimo. Chegou a hora de fazer seus ancestrais se orgulharem de você. Está
vendo aquela árvore? Ande cem passos para longe dela, marque o lugar e, partindo
dele, ande cem passos e marque, depois volte a ele e conte cem passos de novo, e vá
repetindo, partindo sempre do mesmo ponto, como que fazendo os raios de uma roda
de bicicleta. Faça uns doze raios, junte as pontas com um risco, fazendo um círculo. Aí
faça todos pegarem lenha para uma fogueira. A madeira deve ser posta no centro do
círculo e ninguém pode sair do círculo, entendeu?
— Entendi, sim.
— As crianças podem se perder! — protestou Rebecca.
— Acabo de dizer o modo de isso não acontecer — falou o piloto, com um
suspiro.
— Eu sou responsável por eles!
— Há uma única pessoa responsável pelas pessoas aqui, e o responsável sou
eu — afirmou Parnell, enquanto pensava que continuaria sendo até o fim da aventura,
a menos que morresse.
— Eu sou mais capacitada para lidar com as crianças.
— Quer comandar? Certo, vou lhe dizer onde estão os fósforos e você vai
buscá-los.
— Farei isso com prazer.
Parnell apontou para o avião.
— Mas... não há como chegar lá.
— Há, sim. Nadando.
— Então, não posso ir. Não sei nadar.
23

— Creio que isso resolve a questão em definitivo, não é? Santee, faça o que eu
disse.
As crianças foram para perto da árvore, transformando a missão numa
brincadeira.
— Eu vou com eles — disse a assistente social, determinada.
Stillman segurou-a pelo braço. Rebecca soltou um gritinho.
— Você está machucada?
— Bati o cotovelo.
O piloto olhou-a, admirado, achando formidável ela não ter reclamado do
machucado. No entanto, achou que era tarde demais para começar a ser simpático.
— Mais tarde vejo como está seu braço — disse, seco.
Em seguida, contou a ela que pretendia recuperar no avião e disse o que devia
ser feito se ele não voltasse.
— Por favor, capitão, não tente ir se não tiver certeza de que vai conseguir.
A idéia de ficar sozinha com as crianças naquele lugar, de não ter um homem
para cuidar de tudo e salvá-los a deixou apavorada.
As nuvens escuras estavam baixando. Desviando os olhos do céu para
Rebecca, Parnell percebeu que de algum modo a preocupação dela lhe fazia bem.
Exceto o tio Henry, ninguém jamais se preocupara com ele.
— Se eu não voltar, lembre-se de que no máximo em uma semana o lago estará
congelado de novo. Então, você poderá simplesmente andar até o avião.
— Uma semana? Como vamos fazer para sobreviver uma semana?
— Bem, esse é o problema — disse ele, com um sorriso triste. O vento estava
ficando mais forte. A neve era carregada na direção do lago onde estava submerso o
avião.
— O que quer que eu faça, capitão?
— Quero que siga as ordens.
— Vou tentar.
— Tudo o que tem a fazer agora é ficar olhando para mim. E se... bem, diga ao
velho Amos que eu disse... Ah, que diabo!
Rebecca engoliu em seco. Mas sabia por puro instinto que não podia permitir
que a realidade a vencesse. Morte era uma possibilidade que não devia levar em
conta, nem a do piloto nem a sua nem a de nenhuma das crianças. Tinha de se agarrar
à idéia de que o resgate estava a caminho. Tinha de ser prática.
— Você quer roupas para trocar e um batom? O que preciso dizer para que
compreenda a seriedade da situação? — disse, brusco, para se livrar da emoção, e ela
percebeu isso.

24

— Há alguns sanduíches na minha sacola. E café na garrafa térmica.
— Certo — concordou ele, forçando-se a falar em tom normal. — Vou tentar
achar os sanduíches e o café.
Parnell andou até a margem do lago, sendo acompanhado pela moça.
A distância ouviram as vozes das crianças, comandadas por Santee.
— ...doze, treze, catorze...
Stillman começou a desamarrar as botas, depois abriu o zíper do casaco. Foi
entregando as peças de roupas para ela. Então, hesitou. Os dedos do pé já estavam
ficando azuis. Tinha manchas roxas por todos os lados. Se conseguisse voltar, ia
precisar do abrigo de suas roupas e meias de lã...
— Vire-se para lá.
— Você não vai...
— Preciso.
Enquanto se despia, ele voltou a olhar para o lago, torcendo para que fosse isso
mesmo e não um rio com corrente forte, que poderia arrastá-lo para debaixo do gelo.
Rebecca fechou os olhos e estendeu a mão para recolher a roupa de baixo dele.
Como a maioria dos pilotos, que eram românticos incuráveis, Parnell sonhara
várias vezes que estava realizando salvamentos. E, agora que a oportunidade se
apresentava, ele queria que tudo tivesse ficado nos sonhos. Enfiou a ponta do pé na
água, avaliando a temperatura. O frio intenso fez a respiração ficar difícil e o coração
acelerar. Mas era tarde demais para voltar atrás.
— Espero que meu nariz não congele — disse ele, e em seguida saltou na água
gelada.
O grito que se formou em sua garganta foi detido pelo frio, que fez todos os
músculos se contraírem.
Rebecca vislumbrou o corpo branco entrando na água, registrando de forma
quase subliminar que a pele do traseiro dele era um pouco mais clara que a das costas
e pernas, sem dúvida um resquício do bronzeado de verão. Manteve os olhos fixos no
homem, rezando desesperadamente para que ele conseguisse. Parnell batia os pés
com muita rapidez, erguendo uma nuvem de água, e batia os braços com força na
superfície. Achou que ele também não sabia nadar, mas então percebeu que, apesar
disso, avançava e que provavelmente toda aquela agitação servia para defendê-lo do
frio, fazendo o sangue circular. Ela se sentia impotente ali, parada na margem, sem
poder fazer nada.
Colocou o casaco dele nos ombros, agradecida pelo calor extra, depois se
sentiu culpada por ter aquele calor enquanto ele estava quase morrendo gelado. Então,
abriu o casaco e colocou a roupa de Parnell por dentro, considerando que isso seria útil
para quando ele as vestisse de novo. À medida que o frio foi deixando a malha, o
cheiro masculino de sabonete e óleo foi se impregnando nela.
A cabeça de Parnell sumiu na água e os braços pararam de se mover. Ele
afundou. Rebecca prendeu a respiração e, como ele não voltasse, ela gritou.
25

As crianças ficaram quietas, imóveis. Então, correram até onde ela estava e a
expressão assustada de seu rosto respondeu às perguntas deles.
A cabeça de Parnell reapareceu e eles ouviram os sons que fez quando voltou a
respirar. De forma impulsiva as crianças aplaudiram. Por um breve momento o capitão
voltou-se para eles. Então, apoiou uma das mãos no flap e se moveu ao longo da asa,
indo ficar junto ao corpo do avião. A água tinha entrado na cabine antes de o avião ficar
na vertical. E o gelo se formava por todos os lados. Só na segunda tentativa ele
conseguiu se erguer para a cabine.
Rebecca ficou imaginando que força ele não teria para conseguir fazer aquilo,
enquanto via o corpo nu tremer de forma incontrolável junto à porta da aeronave,
através da qual desapareceu.
— O que está acontecendo? — perguntou Nicholas.
— O capitão Stillman entrou no avião.
— Ele tirou as roupas — disse Molly. — E está azul!
Santee, lembrando-se de que era o chefe da brigada do fogo, ordenou aos
outros que voltassem ao trabalho.
— Há algumas árvores tombadas — disse ele para Rebecca. — Podemos
arrancar a casca e galhos delas.
— Ótimo, Santee.
— Quer que eu fique com você? — perguntou o menino.
— Não. Qualquer coisa, eu grito. Lenha para o fogo é mais importante.
— Vamos precisar de um abrigo, também — avisou, sério.
— Sim, é verdade. Mas temos de fazer uma coisa por vez. Vamos esperar até
que o capitão Stillman nos diga onde será melhor construir o abrigo. Creio que ele quer
que fiquemos perto do avião.
Santee correu para se juntar aos outros, enquanto a moça pensava que, pela
segurança que ele demonstrava, parecia saber exatamente para onde a vida o levava.
Molly e Yancy, os dois menores, trabalhavam mais lentamente que os outros. Mas pelo
menos tinham algo para fazer. Estavam participando da aventura. Invejando a atividade
das crianças, ela voltou a olhar para o avião, esperando que o piloto reaparecesse.

Parnell tinha água até as coxas. Tentou puxar um dos sacos de cartas, mas o
peso do papel enxarcado era demais para ele. Não podia alcançar o armário onde
estava a balsa inflável, com as bolsas cheias de latas de ração. E cada vez que
aspirava o ar, seus músculos se retesavam e os dentes batiam.
Concentre-se! Use a cabeça! O avião não vai embora. Fósforos. Não esqueça
dos fósforos. Mapas. A sacola.
Havia um mapa com moldura de madeira. Ele o pegou e levou até a porta.
Colocou as coisas sobre ele, então percebeu que estava cometendo uma asneira. Não
podia jogar o mapa do lado de fora.
26

Não estou conseguindo pensar direito. É melhor parar para planejar. Juntar tudo
na porta. Colocar a jangada improvisada na água e, então, pôr tudo nela, enquanto a
mantinha equilibrada com os pés. Isso funcionaria. Depois, empurraria a jangada e
desceria para a água por trás dela.
Por um instante seus olhos se fixaram em Rebecca, que andava de um lado
para o outro, impaciente. A distância, ele ouvia as crianças contando. Torceu para
conseguir voltar para perto deles. Mas, mesmo se não conseguisse, talvez a jangada
flutuasse até a margem, onde Rebecca poderia pegá-la. Seus dentes batiam a ponto
de doer.

O frio era quase insuportável, os dedos dos pés estavam tão gelados que ele
não os sentia mais. Qualquer movimento provocava dores. Mas voltou até a cabine,
pegando o restante dos mapas, o kit pessoal de sobrevivência e tudo o mais que
poderia ser útil.
Bateu o dedão em algum lugar. A princípio não sentiu nada, mas pouco depois a
dor era terrível. Ergueu a perna, perdeu o equilíbrio, caiu e começou a escorregar pelo
chão inclinado. O aço era cheio de irregularidade e cabeças de rebites, que
penetravam na pele de suas costas como pequenas lâminas. Escorregando, ele foi cair
novamente na água, batendo nas sacolas de cartas. Então, gritou. Tarde demais
percebeu a besteira que era fazer isso, quando a água fria entrou em sua boca e nariz.
Ergueu a cabeça, cuspindo, procurando respirar.
Ficou parado por um instante, sabendo que estava congelando.
Eu posso simplesmente ficar aqui, imóvel. Depois virão buscar meu corpo. Nu...
pensou e imaginou a cena.
Parnell não gostou da idéia. Era muito indigno. Morrer nu numa cama era uma
coisa, mas em qualquer outro lugar, um homem deveria estar vestido para morrer. Pelo
menos com as calças.
Pensou em Rebecca. Quando o lago congelasse de novo ela viria até o avião e
o encontraria. Nu e horrível. Nada disso!
Forçando-se a mover uma das mãos, agarrou o pé de uma das poltronas e
começou a erguer o corpo, saindo da água. Então, engatinhou até a cabine de
comando. Improvisou uma jangada com as almofadas dos assentos e colocou-as junto
à porta do avião, sobre a água. Pôs tudo que conseguira juntar sobre ela e empurrou-a
para longe com suavidade, para não virá-la quando saltasse.
Então, reunindo forças e coragem, saltou.
Engasgou, gemeu, rangeu os dentes, a água gelada castigando-lhe o corpo
dolorido, mas conseguiu nadar, empurrando a jangada à frente. O trajeto foi irregular,
pois não via para onde ia e de vez em quando tinha de parar, olhar e corrigir a direção.
Depois de uma eternidade sentiu uma suave batida quando a embarcação improvisada
tocou a terra.
Tinha conseguido! Uma sensação de alívio tomou conta dele e afundou.
Rebecca quase gritara quando vira o piloto reaparecer. Para ela, ele havia ficado
uma eternidade dentro do avião. Afinal, sua cabeça e ombros haviam aparecido pela
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abertura da porta. Ele colocara algo flutuante sobre a água, em seguida ajeitara várias
coisas em cima. Aí, saltara na água e desaparecera novamente, escondido atrás do
volume que empurrava.
Ela ficou imóvel, observando, enquanto a jangada improvisada vinha em sua
direção, lentamente.
Quando a estranha embarcação tocou a margem, esperou que o homem se
levantasse, mas não foi o que aconteceu. Por trás da jangada, viu-o afundar. Correu
para dentro do lago, sentindo um choque quando a água gelada penetrou pelo alto das
botas. Achou incrível ele ter conseguido suportar tanto tempo aquele frio intenso.
Então, segurou-o pelos cabelos e puxou, até Parnell ficar estendido na neve.

Capítulo 4

Rebecca não sabia o que fazer primeiro. O piloto estava caído na neve diante
dela, a pele com um esquisito tom azulado. Apesar da situação, ela não pôde evitar de
notar os músculos do homem, reconhecendo que ele tinha um belo corpo.
É um corpo que uma mulher...
Seu pensamento foi detido pelo frio intenso que sentia nos pés molhados.
Parnell precisava de ajuda, mas a jangada estava se afastando da margem.
Rapidamente a moça cobriu o piloto com o casaco dele e entrou de novo na água,
puxando a jangada.
Enquanto isso as crianças rodearam Stillman. Seus rostinhos, vermelhos de frio
e esforço, espelhavam espanto e medo. Ficaram olhando-o em silêncio, por algum
tempo.
— Ele está morto — disse Yancy, baixinho.
— Não está não! — gritou Rebecca, achando a própria voz estranha. — Santee,
descarregue a jangada. Procure o kit de sobrevivência e os fósforos. Você sabe fazer
fogueira? — Ao aceno positivo do menino, continuou: — Então, faça. Cuidado...
Tocando Parnell, ela constatou que o pulso estava lento, mas forte. Respirava
com regularidade. Precisava só de calor. Foi então que ela percebeu que a neve por
baixo dele estava ficando vermelha escuro.
— Ele está sangrando — disse Jonesy, assustado.
Com a ajuda do garoto, Rebecca virou o piloto de costas.
— Uauu — exclamou Molly.
— Vão os dois ajudar o Santee — disse Rebecca, quando conseguiu falar.
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Ajoelhando-se na neve ela, tentou vestir Parnell, sem, no entanto, conseguir.
Então percebeu que suas mãos trêmulas é que tornavam a tarefa difícil. Enrolou-o nas
roupas e deu um jeito de vestir as meias nos pés gelados. Mas ele continuava com as
pernas expostas. Abrindo sua sacola, pegou o pijama de flanela e usou-o para enrolar
nas pernas dele.
— Achei os fósforos! — gritou Santee, animado.
— Graças a Deus! — falou Rebecca, enquanto colocava uma das mãos de
Parnell nas de Nicholas. — Esfregue as mãos dele, Nicholas. Jonesy, você e Yancy
ficam cada um com um pé. Não parem. É importante manter o sangue circulando. Vou
ajudar Santee com o fogo.
— Eu não quero fazer nada, estou cansada — disse Molly.
— Sei que está, querida. Todos estamos. Mas você também tem de ajudar.
Esfregue a outra mão do capitão.
— Quando vamos comer? — quis saber Jonesy. — Eu estou com fome.
Comida. A imaginação de Rebecca produziu a imagem de todos eles reduzidos
a pele e ossos, famintos. Congelados, mortos, em poses grotescas. Havia apenas
alguns sanduíches e sete caixinhas de suco.
— Vamos comer depois de acendermos o fogo.
Nossa última refeição até sermos encontrados, pensou, angustiada. Em seguida
tratou de afastar aquela sensação ruim. A lenha reunida pelas crianças era
ridiculamente pouca.
— Tem uma árvore grande caída, podemos fazer um abrigo debaixo dela —
disse Santee, todo compenetrado.
— Embaixo da árvore?
— Ela não caiu até o chão, ficou apoiada em outra. Podemos encostar vários
galhos no tronco.
— Mostre-me essa árvore.
Para ela o lugar não pareceu promissor.
— Podemos fazer o fogo ali e posso cortar galhos com o machado para fazer o
abrigo — propôs Santee, solícito.
— Primeiro, vamos cuidar do fogo — decidiu Rebecca, sentindo vontade de ver
como estava o piloto.
Um floco de neve caiu em seu rosto, e Rebecca percebeu como a condição
deles era difícil.
Foi muito complicado fazer fogo. O garoto tirou um amontoado de galhinhos
secos do bolso.
— É um ninho de passarinho — contou ele com orgulho. — Está seco.
A moça sorriu. Sabia que o conhecimento do folclore indígena do menino vinha
dos livros, pois ele nunca estivera numa reserva. Gastaram quatro fósforos até
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conseguir acender uns galhinhos. Santee garantia que o fogo iria pegar. A neve ao
redor do buraco onde estava a fogueira começou a derreter. Os dois afastaram-na,
temendo que apagasse as chamas. E pensando em como o fogo era importante para o
ser humano, Rebecca viu como as pessoas levavam vidas privilegiadas, sem lhes dar
valor. Aí passaram-lhe pela mente imagens de homens e mulheres miseráveis,
enrolados em jornais e pedaços de papelão. Quanto a ela, tivera uma infância
agradável e toda a sua vida fora relativamente boa. Mas, sem motivo real, se deixara
tomar pela autopiedade.
Deixando o menino cuidar do fogo, ela retornou para a margem do lago. Molly
estava sentada, com o dedão na boca. Yancy conversava com seu amigo imaginário.
Parnell estava enrolado em posição fetal.
— Ele começou a gemer e ficou assim — disse Jonesy. — Não conseguimos
fazer mais nada.
— Ele disse que queria dormir — informou Nicholas.
— Ele falou?
— Sim.
A moça se ajoelhou e começou a chamar Parnell.
— Me esqueça — grunhiu ele. — E se salve.
— Estamos todos salvos. Nós acendemos o fogo. Você consegue andar? Os
olhos de Stillman pestanejaram e se abriram, mas mal conseguiram entrar em foco.
— Andar? Não...
— Só até perto da colina — encorajou a moça, passando o braço por debaixo
dos ombros dele e erguendo-o. — Crianças, peguem as coisas e vão para perto do
fogo. Eu vou ajudar o capitão a subir.
Havia muita neve caindo. O vento estava mais forte e mais frio, zunindo pelo
vale, sobre o lago gelado. Rebecca olhou para o avião, lamentando que não pudesse
usá-lo como abrigo. A paisagem era a mais desoladora possível. A mesma paisagem
que apareceria como algo belo num cartão de Natal. Sentindo-se muito pequena e
fraca, tratou de reagir contra o desânimo. Começou a desenrolar as roupas que
abrigavam Parnell.
— Ei! — exclamou ele, procurando escapar.
— Não consegui vestir as roupas em você. Vai ter de me ajudar!
O homem tentou protestar, mas tremia tanto que não podia nem mesmo ficar em
pé sozinho. Por isso teve de suportar a humilhação de ver Rebecca subir o zíper de
sua calça.
— Puxa, que droga! — exclamou Stillman, bufando.
A moça olhou-o e sorriu, depois examinou mais uma vez as costas dele. Os
ferimentos não eram sérios, mas deviam doer muito. Ela achava que nunca conseguiria
fazer o que ele tinha feito. Parnell arriscara a vida por eles.
— Nunca conheci um homem tão corajoso como você.
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Os lábios do rapaz, azuis de frio, subitamente readquiriram cor, assim como a
pele do rosto. Ninguém nunca o considerara corajoso antes, nem mesmo na Marinha.
Foi difícil calçar as botas. Em seguida ele teve de se apoiar em Rebecca para
subir a colina. E cada passo causava dor. Quando chegaram junto ao fogo, a testa de
Parnell estava coberta de suor. Deixou-se cair de joelhos, então deitou de lado,
apoiando a cabeça no braço.
— A verdade é que estou acabado — declarou, exausto.
— E eu estou cada vez mais faminto — disse Jonesy.
— Eu também — disseram os outros.
Santee tinha puxado um tronco para perto do fogo e Rebecca sentou-se nele.
Achava que era melhor esperar o quanto fosse possível antes de comerem o pouco
que havia. Assim todos dormiriam com o estômago relativamente cheio... Pegou um
pouco de neve e pôs na boca.
— Você não devia fazei isso — avisou Yancy. — Foi o Santee que disse.
— É verdade, a neve faz sua temperatura interna diminuir — explicou o garoto
mais velho.
— Bom, já temos fogo para nos mantermos aquecidos. É bom matarmos a sede
com neve derretida... — Rebecca disse, como se pensasse alto. Então, sentiu
agulhadas nos pés. — Agora, vamos tirar as meias molhadas e calçar meias secas.
Depois, temos de tratar de improvisar um abrigo, porque a neve já está começando a
passar pela folhagem da árvore.
— Nós podemos fazer um forte! — exclamou Nicholas, que gostava de assuntos
de guerra.
— Vamos comer primeiro — insistiu Jonesy, determinado.
— Vamos comer depois de termos um teto sobre nossas cabeças, e não antes
— ordenou Rebecca, firme.
Yancy mexia em suas coisas e constatou que estavam tudo molhado. Cada
criança tinha uma mochila ou sacola, com apenas uma muda de roupa.
— Será que todo mundo acha que morremos? — conjeturou Nicholas,
pensativo.
— E quem se importaria? — retrucou Santee, sério.
Rebecca pensava o mesmo. Tinha sido pouco mais que um incômodo para os
pais. Seu ex-marido era grato porque o casamento fora desfeito. Sabia quanto isso
doía e exclamou:
— Eu me importo! E Abigail também. Tenho certeza de que já estão nos
procurando. E vamos escapar dessa!
— Estou cansado de procurar coisas. E Scrappy também — disse Yancy,
largando a mochila.
— Alguém vem nos buscar antes de escurecer? — perguntar Molly, tirando o
dedo da boca.
31

— Não sei. Vamos torcer para que sim, mas temos de nos preparar para a
possibilidade de não sermos resgatados hoje. Tome Yancy, calce as minhas meias.
Santee, me ajude a rolar o tronco para mais perto do fogo. Assim secamos as roupas.
Depois de cuidar disso, ela tentou tirar o piloto do estupor em que se
encontrava, dizendo-lhe que se erguesse e andasse.
— Depois — resmungou ele, com voz rouca.
— Ei, capitão, você queria comandar tudo! Está na hora de levantar e fazer isso!
Ele fez que sim, mas não se moveu. Rebecca começou a ficar irritada
novamente. Estava com os pés e o cotovelo doendo, mas teria de construir um abrigo
enquanto ele dormia. E tudo que desejava era alguém que ficasse alucinado porque
ela desaparecera, alguém que se preocupasse com ela e que fizesse as autoridades
encontrá-la.
Rapidamente Rebecca deteve a linha de pensamento, percebendo que ia caindo
de novo na autopiedade. O que desejava era ser o centro da vida de alguém. Sim, era
isso!
Então, olhou para Parnell. Não, ele não era o centro de sua vida, aquele sujeito
magricela e egoísta! Enquanto se voltava para ajudar Molly com o sapato corretivo,
percebeu que havia algo de errado no pensamento: ele não era magricela. Na verdade
era... Ela se deteve novamente, considerando que não ia levar tal idéia em conta, nem
mesmo se aquele fosse o último homem no mundo!
Mas ele pode ser o último homem adulto que jamais verei. Para mim, ele pode
mesmo ser o último homem do mundo, pensou.
Tal idéia fez suas forças crescerem. E sentiu-se culpada por tentar acordá-lo. Ele
merecia dormir depois do que tinha feito.
Uma rajada de vento balançou as árvores e a neve caiu sobre eles.
— Está bem, crianças, vamos nos mexer. Temos de construir um abrigo.
Levou duas horas até que encontrassem galhos pequenos o suficiente para
serem cortados com o machadinho que possuíam. Rebecca se revezou com Santee no
trabalho de cortar galhos das árvores, que serviriam para fazer as "paredes". Em meio
ao trabalho encontraram arbustos que dariam um bom forro para o chão gelado.
Molly há muito desistira do trabalho e ficara perto do fogo, assim como Nicholas,
que não podia ajudar. Os outros estavam a uma boa distância quando Rebecca ouviu a
menina gritar:
— Não foi minha culpa!
A mulher largou os galhos que carregava e correu perto da fogueira. Parnell
estava de pé, ameaçador, junto das duas crianças.
— O que você está fazendo? — gritou a moça.
Com os olhos lacrimejantes, ele apontou para a fogueira, de onde subia fumaça.
— Eles colocaram aquilo no fogo!

32

— Não colocamos! — afirmou a menina. — Foi a Rebecca que pôs esse tronco
aí, para secar nossas meias!
— Eu poderia ter pegado fogo! — resumiu Stillman.
— E eu gostaria que pegasse mesmo! — Rebecca disse. — Você deixou que
fizéssemos tudo soz... oh! As meias queimaram?
Parnell estava bravo. A fumaça o acordara do melhor sono que tivera em anos.
Adormecera ouvindo Rebecca dizer que era corajoso e criara um sonho no qual era um
idolatrado herói. Aí acordara, atordoado. Ao levantar batera a cabeça no tronco da
árvore, caíra de quatro e se debatera para achar a saída da caverna de galhos, cheia
de fumaça. E ela pensava em meias!
— Podemos nos virar sem meias — grunhiu, notando que o casaco de Rebecca
estava aberto e a blusa rasgada, revelando uma visão de grande interesse estético.
Mas eu sou um homem capaz de superar essa armadilha!, pensou ele. E as
lágrimas também!
— Você diz isso porque suas meias estão secas. Mas as minhas não estão!
— Bem, fique com as minhas!
Dizendo isso ele se abaixou e de imediato desejou não ter feito aquilo. Suas
costas pareciam estar em chamas e Rebecca viu a dor passar pelo rosto do piloto.
— Fique com a porcaria das suas meias! — disse ela.
As crianças trocaram olhares cautelosos. Nicholas não podia participar desses
olhares, mas sentia a tensão no ar.
— Acho que estamos com problemas sérios — disse, baixinho, por entre as
mãos em concha.
— É melhor terminarmos o abrigo — lembrou Santee, fazendo os dois adultos
se calarem.
— Eu ajudo — prontificou-se a moça, animada.
— Eu também — afirmou Parnell, e foram ver o trabalho já feito.
— Vamos ter de começar tudo de novo. Vocês esqueceram a saída para a
fumaça.
— Tanto trabalho para nada! — reclamou ela, suspirando.
— Se quer fazer alguma coisa, é melhor fazer direito da primeira vez — disse o
piloto. — Era isso que meu tio Henry vivia dizendo.
— Nenhum de nós está interessado nos dizeres da família Stillman!
— É uma ingrata, sabia? Eu quase morri por você. Deixei boa parte de minha
melhor pele naquele avião. O que mais você quer?
— Estar em San Francisco seria ótimo.

33

— Aposto que durante toda a vida você ouviu dizer que não é uma pessoa
razoável.
— É verdade, e quem dizia isso eram malditos déspotas que sempre tentavam
me convencer de que estavam certos. Exatamente como você está fazendo.
O estômago de Stillman parecia queimar. Ele considerou que teria uma úlcera
supurada antes de conseguir levar aqueles seis de volta à civilização.
— Eu estou certo porque sei mais que você.
— Não é verdade!
— Vamos ver — disse ele, voltando-se, e começou gritar ordens para qualquer
das crianças que estivesse disposta a ouvir.
A vontade de Rebecca era praguejar, mas se controlou. Sua raiva diminuiu
quando olhou para as mãos, constatando que tinha todas as unhas quebradas. Mas
sua determinação continuava a mesma. Não ia permitir que nem o medo nem Parnell
Stillman lhe ditassem o que fazer.
O abrigo foi reconstruído, com um pequeno buraco no alto para deixar sair a
fumaça, e reuniram lenha para alimentar o fogo.
Por fim, com a tempestade à toda força em volta deles, não havia mais o que
fazer além de entrar no abrigo e se colocar junto ao fogo.

Era apertado e escuro dentro do abrigo, sendo as chamas a única fonte de luz.
Rebecca se sentia sufocada pela fumaça e galhos à toda volta. Pequenos galhos
abriam caminho entre a folhagem dos arbustos que forravam o chão e pinicavam-lhe o
traseiro. Estava sentada de pernas cruzadas, olhando desanimada para a pouca
comida que tinham.
— Está tudo completo — comentou, desalentada.
Parnell pegou um galho grosso e colocou-o perto do fogo, depois disse a ela:
— Ponha os sanduíches aí em cima. E vamos ficar vigiando, desta vez.
— Pare de me provocar! Queimamos as meias sem querer!
— Sei... Também foi sem querer que perdi o avião.
O piloto invejava a capacidade de Rebecca de ficar tanto tempo sentada de
pernas cruzadas, enquanto ele não conseguia agüentar os malditos galhinhos que lhe
espetavam o traseiro. As crianças se haviam acomodado no fundo do abrigo, restando
para ele o lado da entrada, que era o mais frio.
Rebecca tinha impressão de que envelhecera dez anos desde a manhã. Sabia
que deveria estar tão abatida e acabada como o piloto estava. E não ajudava nada
saber que a tempestade de neve impediria que fossem localizados. Ficariam presos ali
no mínimo enquanto aquela nevasca durasse. E, se queriam sobreviver, ela e Stillman
precisavam entrar num acordo.
Suspirou fundo e disse:
34

— Não acha que deveríamos parar de nos atacar? Eu sei que a queda do avião
foi um acidente. E... achei muito corajoso de sua parte ter nadado até ele para buscar
as coisas.
— Bem...
— E a verdade é que eu não teria reclamado tanto se você não fosse tão
cabeça-dura.
— Puxa, você tinha de dizer isso? Não consegue falar algo agradável sem
acabar com tudo depois. Está embirrando comigo de propósito!
— Nada disso! Você é que me persegue! E não vou ficar quieta agüentando o
tempo todo.
Passaram mais trinta minutos discutindo. As crianças ficaram olhando aqueles
adultos malucos com os rostinhos inexpressivos.
— Quando vamos comer? — perguntou Jonesy, com voz fraca, quando Parnell
parou de falar para respirar.
Com um último olhar raivoso para o piloto, ela virou-se e foi pegar os
sanduíches.
— Ainda não! — disse ele, segurando a mão dela.
— Não encoste em mim!
Stilman tirou um canivete do bolso, abriu-o e mostrou a lâmina.
— Não toque na comida.
— Imagino que quer tudo para você. Sobrevivência dos mais capazes e coisas
assim, não é?
— Precisamos matar a fome com o que temos aqui — explicou ele, cortando os
sanduíches em pedaços pequenos. — Por isso, coloque um pedaço na boca, conte até
dez e só depois mastigue. E mastiguem vinte vezes antes de engolir.
— Ele está certo — concordou Santee. — Isso faz a comida durar mais. Foi o
que li num dos meus livros.
— Eu não consigo ficar com a comida na boca — disse Jonesy. — Eu tenho de
engolir.
Parnell estendeu a mão e segurou a garganta do menino logo abaixo do maxilar.
— Vamos, conte! E mastigue... agora engula! O garoto começou a chorar
baixinho.
— Você tinha de fazer isso? — gritou Rebecca. — Não consegue ser delicado?
Essas crianças sempre foram maltratadas por adultos. Eles são órfãos!
— Eles podem ser órfãos vivos ou órfãos mortos. Escolha! E pare de falar
assim. Só porque alguém é órfão não é motivo para esperar que todo mundo tenha
pena! Um órfão precisa aprender a lidar com a vida. Eu sei... por experiência própria.
— Você... ficou órfão ainda criança?
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— Exatamente. E me virei muito bem.
— Entendo — disse ela, com vontade de falar mais, porém sabia que se o
fizesse passariam o resto da noite discutindo.
— Bom senso é tudo o que se precisa — declarou ele.
Rebecca assentiu. Colocou um pedaço de sanduíche na boca, contou até dez e
depois mastigou. O gosto era melhor do que qualquer outra coisa que já havia
experimentado.

Capítulo 5

Quando o sol se pôs, ou na hora em que Rebecca julgava ser o pôr-do-sol, já
que seu relógio tinha parado desde que o enfiara dentro da água para salvar Parnell, o
céu dava impressão de começar a abrir. Do lado de fora do abrigo a escuridão era
opressiva, a neve parecia ser púrpura e não branca. Estavam ali havia no máximo dez
horas, mas dava a impressão de dias.
Dentro do abrigo, todos se mantinham perto do fogo, muito juntos uns dos
outros, procurando se aquecer. Mas não era nada parecido com ficar na sala do
orfanato, depois do jantar. Não havia Abigail para conversar, nem televisão nem livros
ou brinquedos. Apenas as crianças falavam. E pelo tom das vozes delas Rebeca sabia
que consideravam aquilo tudo como uma grande aventura.
O excedente de adrenalina que a mantivera ativa até ali estava acabando.
Sentia-se cansada, queria dormir, mas não o faria antes das crianças. E nenhuma
parecia estar com sono.
— Eu quero ir ao banheiro — disse Molly, de repente.
— Eu também — falou Nicholas.
Parnell olhava o que havia no kit de sobrevivência, lamentando não ter
conseguido pegar o bote de borracha com suas latas de comida, água e o cobertor
isolante.
— Vocês deviam ter cuidado disso antes de escurecer e de a tempestade ter
piorado — resmungou, mal-humorado.
— E só agora você nos diz! — retrucou Rebecca, com sarcasmo.
— Pensando com mero bom senso...
— Eu não consigo usar nenhum bom senso! — gritou ela. — E quem poderia,
nesta situação?
— Droga. Não precisa ter outro ataque.
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Rebecca fez grande esforço para não retrucar.
— Eu preciso mesmo ir — avisou Molly.
Stillman se levantou, mantendo-se curvado para não bater a cabeça. Então,
olhou para fora. Com toda aquela neve, a visibilidade não era de mais de sete metros.
— Tá bem, tá bem. Então, se preparem. Será melhor irmos todos juntos,
— Vamos precisar de alguma privacidade — Rebecca falou.
— Mas que droga, isso aqui não é nenhum Hilton. Sigam-me e não se separem.
Conheci um sujeito que se perdeu na neve e morreu congelado a dois metros da porta
de casa.
Na verdade ele não conhecia ninguém com quem isso acontecera, mas... bem,
tinha ouvido ou lido isso em algum lugar.
— Eu retiro tudo de bom que falei sobre você — disse Rebecca, com raiva.
— Não tem problema. Eu não presto mesmo atenção ao que as mulheres
dizem...
Ele percebeu que fora atingido pelo tom com que ela falara. Ao nadar no lago
tinha agido de forma galante, sem egoísmo. E quase morrera congelado. A atitude
dela, agora, só vinha confirmar o que sempre pensara: as mulheres são rudes e sem
nenhuma sinceridade.
Rebecca e as meninas conseguiram alguma privacidade entre os arbustos da
floresta. Porém o frio era terrível.
A tempestade piorou, assobiando entre as árvores, e os galhos rangiam, acima
da cabeça deles.
— Amanhã dou um jeito de fazer algum tipo de privada — murmurou Parnell,
depois de voltarem para o abrigo.
— Eu agradeço — disse Rebecca. — E você acha que podemos tirar os sapatos
para dormir?
— Eu não recomendaria isso. Além do perigo de congelamento, pode acontecer
alguma coisa e termos de correr daqui, então, não haveria tempo para calçá-los
novamente.
Rebecca pegou Molly no colo e começou a soltar as botas corretivas,
considerando que não haveria problema algum em dar alguns minutos de alívio para a
menina.
— Scrappy! Eu esqueci o Scrappy! — gritou Yancy, passando por cima dos
outros em direção a saída.
Stillman segurou-o e contou as crianças.
— Mas estamos todos aqui.
— Scrappy não — disse Yancy. — Eu o amarrei num arbusto lá fora e...

37

— Quem diabos é Scrappy! — exclamou o homem. — Não, não precisa me
dizer. Vocês trouxeram um maldito cachorro ou algo assim escondido para o avião.
— Scrappy é... — começou a explicar Santee.
— Ele vai congelar! — desesperou-se Yancy.
— Eu lhe contei sobre Scrappy — disse Jonesy.
— Eu vou lá fora buscá-lo — ofereceu-se Santee.
— Nada disso! — contestou Parnell. — Eu é que vou.
Rebecca, só me diga uma coisa: o que tenho de procurar?
— Um... cavalo — disse ela com um suspiro.
— Um o quê? — exclamou o homem, certo de que não ouvira direito.
— Um cavalo.
Jonesy se aproximou e murmurou no ouvido de Parnell. O olhar do piloto fixouse na moça e ela rezou para que ele não contestasse a existência do animal.
— Está vendo por que não gosto de mulheres e crianças?
Apesar de seu tom de voz, lá no fundo da memória ele lembrava-se de sua
própria infância e do caubói que inventara como companheiro. Então, saiu do abrigo,
deu uma volta lá fora e voltou, passando as rédeas imaginárias para Yancy.
— Pronto, aqui está. No futuro... seja mais responsável. Diabos!
— Obrigada... — murmurou Rebecca, emocionada.
— Não me agradeça! Não gosto de fazer coisas pelas quais me agradeçam!
— Sim, capitão! — concordou ela com um sorriso, decidindo que não era assim
tão impossível gostar daquele sujeito.
Rebecca ficou olhando para ele por alguns segundos, considerando que
nenhum dos outros homens que conhecia teria saído num tempo desses para buscar
um animal imaginário, apenas para satisfazer uma criança. Concluiu que havia
gentileza nele, só que não de forma aparente. Na verdade, era um romântico e temia
que isso fosse descoberto.
— Do que você está rindo? — perguntou Parnell, agressivo.
— Quem, eu? Eu estava rindo?
— Sim, estava sorrindo. E era de mim.
— Me desculpe.
— Você parece feliz.
— Mas não estou. Me sinto miserável.
Por um instante ela pensou em falar que o compreendera, que vira o que havia
por detrás da fachada de durão. Mas resolveu que era melhor ficar quieta.
38

Por fim, embrulhadas nos casacos e umas encostadas às outras, as crianças
dormiram. O abrigo cheirava a fumaça.
Em outras circunstâncias, pensou Rebecca, o cheiro, com o crepitar do fogo e
as brasas vermelhas, seria agradável.
Stillman ainda estava acordado, com os olhos só um pouco abertos. Rebecca
percebeu que ele a olhava. Sentiu-se como quando se está no elevador com outra,
pessoa que fica nos olhando. E isso a fez pensar em como estaria sua aparência.
Pegando duas das caixinlias vazias de suco, ela as abriu no alto e encheu de
neve, colocando-as perto do fogo. Quando a neve derreteu, usou a água morna para
lavar as mãos e o rosto. Seus cabelos estavam desarrumados. Então, penteou-se.
Esse era um ato tão normal e cotidiano que ela nunca havia notado quanto prazer
podia dar.
Do outro lado do fogo Parnell a olhava com uma expressão tensa no rosto.
Observava a fluidez dos cabelos, tentava lembrar a cor dos olhos por debaixo das
pálpebras fechadas, via os seios que subiam e desciam com a movimentação do
braço. O modo como ela sentava, como se movia, revelava uma sensualidade que ele
não havia percebido antes. Um homem mais fraco não resistiria. Mas não ele.
Então, Stillman percebeu que prendera a respiração e que seu coração
acelerara. Antes que pudesse desviar os olhos, os dela se abriram e fixaram-se nele.
No mesmo instante Rebecca ergueu o queixo e desviou o olhar, pondo o pente de lado.
Antes que ele decidisse se a expressão dela era de convite ou desdém, Rebecca falou:
— Você não tem nenhuma mochila para usar como travesseiro, como as
crianças. Quer usar isto? — E passou para o rapaz algumas peças de roupa.
— Obrigado — agradeceu ele, aceitando sem muita vontade a oferta.
— Boa noite — disse Rebecca com suavidade.
— Pra você também — respondeu Parnell, decidindo que, da próxima vez que
ela tentasse fazer algo para ele, iria ignorá-la completamente.
Suas costas doíam, e ele agradeceu pela dor. Servia para distraí-lo do cheiro
feminino do travesseiro improvisado.

O barulho penetrou no sono de Rebecca. Prosseguiu durante certo tempo antes
que ela o notasse e aumentou, até perceber que se tratava de uma voz. Notou que
tinha dormido durante toda a noite, apesar de ter achado que nunca o conseguiria.
Teve consciência do frio e das dores por todo o corpo. O vento tinha parado.
O barulho começou de novo. Ela abriu os olhos na escuridão. As crianças
estavam deitadas lado a lado, todas dormindo. O barulho vinha de Parnell. Ele estava
de pé, virado para o outro lado. As brasas da fogueira forneciam pouca luz, mas era o
suficiente para que ela visse que ele estava com a calça abaixada e mexia na roupa de
baixo. E emitia gemidos.
— O que houve? — sussurrou ela.
39

Stillman se endireitou de um salto, batendo a cabeça no tronco.
— Oh, droga! Meta-se com a sua vida!
— Por que está com a calça abaixada? — perguntou ela, se sentando. — Está
fazendo algo vulgar?
— Eu podia passar sem essa — retrucou ele, deixando de lutar com as roupas e
se deitando de novo, cobrindo a cabeça com o casaco.
Os ruídos em sua garganta começaram de novo, um pouco abafados pelo
casaco. Rebecca foi até perto dele e ergueu o canto do casaco.
— Eu não queria te acusar de nada. Por que está fazendo esses barulhos?
— Me deixe em paz.
— Está sentindo dores?
— Estou bem — disse ele, num tom que denotava bastante angústia.
— Está gripado? O que houve? Deixe-me ver como está.
— Ei!
Mas Rebecca já tinha erguido o casaco. Havia pouca luz, por isso ela passou a
mão com delicadeza pelas costas dele. Quando o tocou sentiu os músculos de Parnell
se contraírem, o que provocou novo gemido.
— Sua roupa de baixo grudou na pele, com o sangue, e está machucando...
— Diga algo que eu ainda não saiba — resmungou ele.
— Quer parar de bancar o espertinho? Suponha que esses machucados
infeccionem e você morra?
— Tudo bem, morrer me parece uma boa.
— Oh, fique quieto e me deixe pensar. Vou aquecer água como fiz antes e
desgrudo os tecidos. Isso vai...
— Não.
A decisão dele era inapelável. Quando estava inconsciente, na beira do lado,
não tivera opção. Mas agora não permitiria.
— Ei, veja...
— Não quero você brincando comigo.
— "Brincando" com você? É mesmo o sujeito mais arrogante que já conheci. Eu
não me interessaria por você nem se estivesse barbeado e vestido de terno e gravata.
Parnell tentou desvendar a expressão de Rebecca, mas ela estava de costas
para o fogo.
— Mas talvez você mude de idéia. Pode acontecer, não?

40

— Eu não quero nem mesmo ser sua amiga! Tudo que desejo é que nos leve de
volta para Boise. E depois espero nunca mais voltar a vê-lo!
— Certo, então estamos combinados — disse ele, apoiando o rosto no
travesseiro improvisado, tentando ignorar o cheiro que vinha dele. — Tem uma pomada
na caixa de primeiros socorros. E tenha cuidado.
Rebecca alimentou o fogo, depois encheu as caixinhas com neve. A primeira
que derreteu eles dois beberam. A garrafa térmica não estava entre as coisas que
haviam sido trazidas do avião, e ambos lamentaram sua falta. Ainda havia muito café
nela.
Com a água aquecida, Rebecca foi soltando, pedaço por pedaço, a roupa
grudada na pele dele, enquanto Parnell mordia uma lasca de madeira para não gritar
de dor. A raiva que Rebecca sentia durou até ela ver o estado em que estavam as
costas e o traseiro dele.
— Vai doer um pouco — avisou.
— Eu agüento.
Ele começou a gemer de novo. Mas, pouco depois, algo nos gemidos fez
Rebecca parar. Os olhos de Parnell estavam fechados, os lábios sem a tensão que
tinham antes. A pomada era um anestésico misturado com antibiótico. Devia acabar
com a dor, mas, ainda assim... Testando-o, ela passou outra camada da pomada pelas
costas dele e perguntou, atenta:
— Está melhor agora?
— Maravilhoso.
— Eu poderia apostar que sim! Seu pervertido!
Os olhos de Parnell se abriram e ele olhou-a com ar de culpa.
— Era a dor indo embora! Eu juro!
— Homens! Vocês são todos iguais! Desafio você a se virar e erguer a calça,
agora mesmo!
Sem se mover, tudo que Stillman queria era ganhar tempo.
— Você tem uma mente suja! — tentou se defender, encabulado.
— Nada disso! Apenas sei quando um homem se assanha!
— O que temos para o café da manhã? — indagou ele de repente, pigarreando.
Rebecca olhou para trás. Estavam sendo observados por cinco pares de olhos
bem abertos. Ela ficou vermelha.
Parnell aproveitou a chance e ergueu a cueca e a calça, sem se virar.
Na caixa do kit de sobrevivência havia barras de chocolate amargo. Depois de
lavar as mãos com neve, ele partiu as barras e distribuiu os pedaços.
— Eu queria que a gente tivesse ovos fritos com bacon — disse Jonesy.

41

— Não imagine comida — avisou Santee. — Essa é a pior coisa a fazer quando
se está com fome. Além disso, querer qualquer coisa nunca nos ajudou em nada, não é
mesmo?
— Pare de ser tão cínico, Santee — advertiu Rebecca.
O pedaço de chocolate grudava em sua língua. Estava velho e tinha um gosto
horrível. Mas o efeito final, depois de tomar mais água de neve derretida, foi
satisfatório. Estendeu as pernas e o corpo num espreguiçar felino, relaxando, então
notou que Parnell tinha os olhos fixos nela. O nome que ela dava para a expressão que
via neles era: faminta!
— Tire essa idéia da cabeça — ordenou ela em tom firme.
Mas a verdade era que uma parte, lá no fundo de sua mente, lembrava como
suas mãos tinham tocado os músculos rijos das costas daquele homem. E como
gostara do contato físico.
Stillman olhou para outro lado, mas a imagem de Rebecca ficou em seus olhos.
Murmurando algo ininteligível, vestiu o casaco e saiu para o ar frio da madrugada.
— Vamos ser salvos hoje? — perguntou Yancy.
— Espero que sim... Acho, mesmo, que sim! — E a resposta de Rebecca era
quase uma prece.
— Uma pessoa esperta pode se virar muito bem por aqui — comentou Santee.
— Na floresta tem animais para pegar com armadilhas, depois tirar as peles e comer. E
deve ter peixes no lago...
Rebecca ia dizer que não estavam num acampamento de férias, mas ficou
quieta. Até que as idéias não eram más! O rosto de Stillman apareceu na entrada do
abrigo.
— Vamos, todos para fora. Parou de nevar. Podemos fazer um SOS no lago.
Dizendo isso, ele abriu a caixa de primeiros socorros e pegou a lata de aerossol
fosforescente, cor de laranja. Colocá-la no kit de sobrevivência fora idéia de tio Henry.
— Você acha que eles estão nos procurando? — perguntou Rebecca.
— Sei que estão. Só precisamos torcer para que se dirijam ao local em que nos
encontramos.
— E onde estamos?
— Vou descobrir isso mais tarde.
Todos saíram, indo em direção ao lago. O que não era fácil, pois a neve chegava
à altura do joelho de Rebecca, o que significava quase até a cintura das crianças
menores. Rebecca já tinha imaginado que mais cedo ou mais tarde teria de enxugar
todas elas. E Molly já começava a tossir.
Quando chegaram ao extremo da inclinação que levava ao lago, a mulher levou
um susto.
— Onde está o avião?
42

— A neve cobriu — respondeu Parnell, apontando para um proeminente monte
de neve.
Seguindo a direção que ele apontava, ela conseguiu ver a forma do aparelho,
coberto pela neve. O nariz era apenas um monte branco, as asas mal se notavam.
— Alguém conseguiria perceber que é um avião, olhando do alto?
A luz da madrugada dava tons perolados à pele da moça e seu cabelo solto
descia até os ombros. Havia uma expressão de grande vulnerabilidade em seu rosto.
Para Parnell, era uma novidade pensar numa mulher como alguém vulnerável. Mas
isso não o impediu de ver que ela estava pálida e assustada.
Quer ela quisesse quer não, precisava ser protegida. Da fúria da natureza e de
seus próprios medos, pensou ele.
— Do alto fica fácil perceber que é um avião — mentiu o piloto, respondendo à
pergunta.
Rebecca notou um elemento novo no tom em que ele falou. Olhou rapidamente
para Parnell, mas ele se virara e estava falando com as crianças.
— A inclinação vai nos ajudar — disse Stillman. — O SOS vai aparecer como
um cartaz de rua.
Nicholas continuava avançando, fora da trilha formada pelos outros.
— Ei, você! — gritou Parnell, segurando o garoto. — Onde pensa que vai?
— Bem, eu não posso ver, você sabe. Dê a bronca na Molly. Ela é quem está
me guiando.
— É melhor você não brigar comigo. Eu sou a menor de todos, e se fizer isso
vou chorar.
E foi exatamente o que a menininha fez. Sentando-se na neve, começou a
chorar.
— Ah, que diabos! — exclamou o piloto, voltando-se para Rebecca. — Será que
ela não vai parar com isso?
Rebecca fez que não ouviu e mudou de assunto:
— Bem, está muito frio. Não podemos fazer uma fogueira aqui?
Stillman avaliou o céu. Cinzento. Em algum ponto entre sul e leste os grupos de
resgate procuravam. A fumaça de uma fogueira pequena não seria percebida com
aquele tempo. E se passassem por ali sem vê-los, levaria dias para voltarem. O SOS
fosforescente poderia ser a única chance.
— Depois de escrevermos o SOS podemos fazer uma fogueira — disse ele, indo
até onde Molly ainda chorava. — Vamos, pare de chorar e volte para a fila. Se não,
você vai ganhar uma verruga na ponta do nariz.
As outras crianças riram. Molly chorou ainda mais. Rebecca desandou a criticar
Parnell por causa do modo que ele falara com a garotinha. Enquanto isso, Santee
ajoelhou-se ao lado da menina e conversou com ela, que acabou se levantando.
43

Quando o enorme SOS ficou pronto, o piloto pediu que todos ajudassem a
compactar a neve onde estavam desenhadas as letras, para que pudessem limpar o
local se nevasse de novo. Virou brincadeira pisotear a neve para firmá-la.
— Foi um bom trabalho — disse Rebecca mais tarde, quando todos se
esquentavam junto à fogueira que Stillman acendera. Colocando-se ao lado dele,
Rebecca tocou-lhe o braço, perguntando:
— E agora?
O peso da mão dela no braço de Stillman era nenhum. Mas ainda assim ele
sentiu um calor irradiar dali. De modo tão casual quanto conseguiu fazer parecer, como
se fosse a coisa mais natural do mundo, apoiou sua outra mão sobre a dela, enquanto
examinava o céu. Não havia nenhuma ave, inseto ou avião ali.
— Agora, só nos resta esperar...

Capítulo 6

— Sabe o que eu queria? — disse Jonesy. — Um cachorro-quente de um metro
de comprimento. Com muita mostarda e tanto ketchup que escorra pelos dois lados.
— Eu queria o meu com um pratão de batatas fritas! — completou Yancy.
— Meia dúzia de hambúrgueres para mim — imaginou Molly.
— Estou com tanta fome que comeria até mingau de aveia! — falou Nicholas. —
E olha que destesto isso!
Rebecca foi imaginando os pedidos. Sua garganta sofria movimentos de engolir
involuntários. A fome tornava-se um inimigo terrível. O almoço consistira apenas em um
pequeno pedaço do chocolate para cada um. E no jantar eles acabaram com o
chocolate. Para diminuir a sensação de fome, todos tinham tomado tanta água de neve
aquecida quanto agüentaram. Depois disso, Molly começou a reclamar e Rebecca
calculou que eram cólicas.
— Se você tiver linha de pesca — disse Santee para Parnell —, amanhã posso
fazer armadilhas para coelhos.
— Tenho linha, mas está no avião. Talvez pela manhã possamos ir até lá.
Rebecca não gostou da conversa dos dois.
— Com certeza vamos ser resgatados amanhã.
— Se o tempo permitir, e dependendo de como as buscas foram organizadas.

44

Stillman estudara seus mapas e tinha a terrível suspeita de que a tempestade os
levara muito mais para o sudeste do que imaginara. Sabia que as buscas começariam
pela rota que deveriam ter seguido. Mas pelo menos o dia ficara limpo durante todas as
horas de sol. A conclusão lógica era que tinham descido muito longe da rota, já que
não haviam visto ou ouvido nenhum avião.
O piloto suspeitava de que aquele lago era pouco mais que uma poça d'água,
seco em alguns anos, com água em outros, pois não havia rio algum que o
alimentasse. Não devia nem constar nos mapas.
Ele percebeu que Rebecca o olhava com ansiedade. Sabia que teria de contar a
ela qual era a situação, mais cedo ou mais tarde. Mas por causa da intensidade
emocional da expressão do rosto de Rebecca decidiu que era melhor deixar isso para
depois.
— Vá descansar um pouco — recomendou ele, com seu melhor sorriso. O
sorriso de Stillman surpreendeu Rebecca. Seu rosto deixava de ter o habitual ar
ameaçador, tomando-se aristocrático e sensível. Se ele fizesse a barba, poderia até
considerá-lo atraente.
— Papai Noel vai nos achar aqui — disse Molly. — Santee disse que ele vai ver
o SOS e trazer nossos presentes.
— Papai Noel! — exclamou a moça, abraçando a menina. — O Natal é daqui a
duas semanas. Vamos estar em casa bem antes disso.
— Mas se não estivermos...
— Vamos estar — garantiu Rebecca, erguendo os olhos para o piloto,
esperando que ele a apoiasse.
Mas Stillman ficou em silêncio. Rebecca, que não tinha nenhuma vontade de
dormir como faziam as crianças, foi ficar mais perto dele, junto ao fogo.
— Lá no orfanato — começou ela, puxando conversa —, se eu os mandasse pra
cama assim cedo, teria de dar pelo menos vinte bons motivos.
— Eles estão cansados.
— E você?
Durante todo o dia, Stillman e Santee tinham ficado de vigia perto do sinal
fosforescente. Ela e os outros haviam voltado para o abrigo quando a temperatura
começara a cair.
— Estou habituado a dormir tarde.
Ele estava derretendo neve nas caixinhas e se inclinou para virá-las com o outro
lado para o fogo. Tudo era complicado na situação em que estavam. Rebecca tentara
escovar os dentes com creme dental e neve, mas o frio doía muito. Haviam construído
um segundo abrigo, pequeno, para funcionar como banheiro, mas não tinham material
de toalete, além do pouco que ela levara para a viagem. E, pior que tudo, agora não
tinham mais nenhuma comida.
— O que vamos fazer? — perguntou a moça, num murmúrio, sabendo que sua
voz revelava o medo que sentia.
45

Parnell pegou a caixa de primeiros socorros e tirou dela uma garrafinha.
— Eu estava guardando isto, mas acho que você precisa de um gole.
Uísque! Ver a bebida trouxe à mente de Rebecca velhas memórias,
desapontamentos amargos. A indulgência do pai fora a marca registrada de sua
infância. Ele havia sido um bêbado charmoso, mas ainda assim um bêbado,
dependente dos outros.
— Se tivesse comida nessa caixinha — disse ela, em tom acusador —, se fosse
mais responsável... você teria...
Um estranho brilho de beligerância surgiu nos olhos dele.
— Não comece de novo. Há latas de ração no avião, mas não consegui pegálas. Esta lata aqui é, por assim dizer, meu kit de sobrevivência pessoal — explicou ele,
abrindo a garrafa e tomando um bom gole. — Não é dos melhores, mas vai ajudar a
dormir.
O silêncio se prolongou por alguns bons segundos antes de ele voltar a falar.
— Certo, se é comida que você quer, é comida que terá. Vou atrás da ração
amanhã.
— Você acha que o gelo do lago vai estar duro o suficiente para suportar seu
peso? — perguntou ela, sentindo a raiva se esvair.
— Espero que sim.
— Mas... não está pensando em nadar até lá de novo, não é? Está mais frio
agora do que quando nós... Suponha... Você não pode ir! Eu não vou deixar!
— Há algumas coisas que você pode me impedir de fazer, mas essa não é uma
delas. Vamos, tome só um gole disto.
— Não, obrigada.
— Certo, então se sirva se quiser — disse ele, colocando a garrafa no chão.
— O que mais você tem nessa caixinha?
— Pílulas analgésicas. E uma arma.
— Com balas?
— Não teria utilidade nenhuma sem balas.
— E para quê você a colocou aí?
— Medo do fogo, eu acho.
— Você está dizendo coisas sem sentido. Já está bêbado — disse ela,
lembrando-se de que Parnell não participara da divisão do último pedaço de chocolate.
— Você não devia beber com o estômago vazio.
— Rebecca, se você tem algum problema com bebida, não o descarregue sobre
mim.

46

— Eu não tenho problema algum — retrucou ela, ficando pálida. — Mas beber
nunca ajuda.
— Você teve um marido que bebia e batia em você?
— Não. Tive um pai que esteve bêbado durante meus primeiros doze anos de
vida.
— E então?
— Então, meu irmão nasceu.
— Desculpe, mas não entendo a conexão.
— Meu pai parou de beber porque tinha um filho para criar.
Ela nunca sentira inveja do irmão, mas ele crescera num ambiente saudável,
exatamente o oposto dela. Tudo que ele queria, conseguia. Ela só percebera como o
rapaz ficara possessivo depois que fora trabalhar com os órfãos.
— Sei. Seu pai não gostava de você. Ele feria seus sentimentos e você atribui
isso à bebida. Mulheres pensam de um jeito estranho... Mas você tem alguém em
Boise que poderia pressionar as autoridades para nos procurar?
— Só Abigail.
— Nenhum namorado... marido?
— Não. Já fui casada, mas ele era muito egoísta e me achava aborrecida. De
qualquer modo, está casado de novo. E nunca se preocupou mesmo comigo.
Provavelmente vai gostar quando souber que eu... desapareci. Fui seu maior erro na
vida, e ele não gosta de ser lembrado disso.
Surgiu uma expressão de satisfação no rosto de Parnell.
— Não acho que você seja aborrecida. Talvez um tanto briguenta.
Então, ela percebeu que tinha falado demais. Sua vida não interessava, àquela
altura.
— Estávamos falando da sua arma.
Stillman cruzou as pernas, fazendo uma careta, porque isso provocava um dor
aguda nos joelhos.
— Uma coisa que nenhum piloto quer pensar é na possibilidade de ficar preso
numa cabine em chamas. O fogo é terrível. Não é exatamente rápido, se entende o
que quero dizer. É por isso que tenho a arma.
Ele verificou a caixinha com água, bebeu um pouco e guardou o último gole para
Rebecca.
— Você está dizendo que guardava essa arma para se matar?
— Para terminar uma situação horrível, se fosse o caso.
Rebecca ficou olhando para ele por um momento. Não sabia se aquilo
significava força ou fraqueza.
47

— Suponha que o avião tivesse pegado fogo quando caímos?
— Não aconteceu.
— Mas, e se tivesse acontecido?
— Não aconteceu. E, de qualquer modo, não caímos no sentido literal da
palavra — disse ele, torcendo para que ela percebesse toda a habilidade que fora
preciso para isso. — Foi um perfeito pouso de barriga.
— Mas o avião afundou no lago.
Ela não percebeu, pensou ele, um tanto decepcionado.
— E no caso de você estar preocupada, saiba que nunca bebo demais.
— Acho que eu exagerei...
— Vou lhe dizer uma coisa, você é diferente.
— O que quer dizer?
— Você é a primeira mulher que conheço que quase se desculpa quando está
errada.
— Você é o primeiro homem que conheço que parece desleixado, mas não e...
ou quase.
— Comentários como esse deviam me levar a fazer a barba.
— E por que não faz?
— Não ia suportar as mulheres me perseguindo.
— Você é doente! Não passa de mais um macho arrogante. Precisa aprender a
ser humilde.
— E suponho que você seja a pessoa certa para me ensinar.
— Eu não! Não dou a mínima.
— Está partindo meu coração.
— Como se você tivesse um...
— Ei, essa machucou! Eu não disse que não me importava, não é? —
perguntou ele, estendendo a mão e colocando-a no ombro de Rebecca. Ela se
empertigou, mas não afastou a mão.
— Vamos, deite-se — falou Parnell, ajeitando os arbustos para ela. — Você está
sentindo frio. Pude ver que tremia.
— Estou bem.
— Você me parece um pouco esgotada. E, devo dizer, cuidou das coisas muito
bem, hoje.
O elogio foi tão bem recebido que ela não resistiu quando ele a fez deitar e a
cobriu com seu casaco. Enquanto isso, Stillman tentava descobrir de onde tinham
48

vindo aqueles gestos simpáticos que acabara de realizar. Nunca soubera que era
capaz disso.
— Como está o seu cotovelo?
— Meu o quê? Ah, está bem. E quanto ao seu... Está bem?
— Melhor, bem melhor.
Ele ficou esperando e quando achou que ela adormecera, deitou-se ao lado da
moça. Ela não se moveu, e Parnell sentiu um prazer absurdo. Esperou mais dez
minutos, então passou o braço por sobre o corpo dela, que parecia se encaixar
perfeitamente no dele, mesmo com todas aquelas roupas.
Mas que diabo, pensou, isso não quer dizer nada, a não ser que o uísque me
subiu à cabeça! E começou a se sentir excitado.
"Diabos! É a segunda vez em doze horas que ela mexe com a minha
sensualidade!"

Rebecca precisou de todo seu autocontrole para fingir que estava dormindo.
Não se arriscou a se mover, apesar de estar incrivelmente alerta. O fogo crepitava, as
crianças ressonavam. No alto, os galhos rangiam sob o peso da neve.
Ela sentia o cheiro doce de óleo e sabonete de Parnell, sentia o corpo cansado
tirar energia sabe-se lá de onde.
Não posso deixar isto continuar, pensou ela. Mas deixou, e com prazer.
Não conseguia entender como permitira que o piloto a manobrasse para se
deitar ao lado dele. Devia ser a necessidade muito humana de companhia durante uma
crise.
Não, isso era mentira. Gostava de ver que ele queria tocá-la, ficar perto dela,
que a desejava.
Mas que droga, pensou ela, à beira das lágrimas, toda minha vida, meus trinta e
dois anos, senti falta de afeição. Sempre. Esse é meu calcanhar-de-aquiles.
Desde o divórcio nunca encorajara a aproximação de nenhum homem. Talvez a
situação que estava vivendo fosse uma armadilha do destino.
"Preste atenção em si mesma, sua idiota! O que acontece com o cérebro
quando o corpo está sem alimento? Um estômago vazio provoca idéias malucas?"
Então, ela sentiu que Parnell estava excitado e controlou a exclamação que
cresceu em sua garganta. Como se já não tivessem problemas suficientes!
Loucura ou não, gostava de saber que ainda podia excitar um homem. Era bom
ser acariciada, protegida. Sentia os seios ficando rígidos, um calor entre as pernas.
Meu Deus, pensou ela, como eu preciso de alguém que precise de mim!
Como se estivesse se ajeitando durante o sono, ela pressionou o corpo contra o
de Parnell. Sentiu que ele se enrijecia, mantendo-se completamente imóvel, e que
prendia a respiração.
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Rebecca decidiu que, pela manhã, a primeira coisa que faria seria dar uma
olhada nos ferimentos dele. Era o mínimo que poderia fazer.

— Não, obrigado. Eu estou bem — disse Parnell, sem olhar para ela. — Mas
você podia me emprestar seu creme dental. Minha boca está com um gosto horrível.
— Não precisa bancar o tímido, você sabe — comentou ela, passando-lhe o
tubo de pasta.
Ele a olhou com suspeita, mas Rebecca continuou:
— Veja, o sol está brilhando. Eu mando os garotos para fora. Não vai levar mais
que um minuto. E se você tiver uma infecção?
Sim, claro, pensou ele, e se eu tiver alguma outra coisa, como um impulso
violento de abraçar uma mulher e...
Não, ele não podia correr o risco. Rebecca já estava provocando algo nele, algo
que nunca sentira antes. Agora, à luz do dia, lembrava que não gostava de mulheres. E
lembrava também do motivo disso. De qualquer modo, por causa dela a noite fora
miserável, aquele cabelo todo o tempo fazendo cócegas em seu nariz, aquele cheiro
de xampu misturado com fumaça, sem falar no modo como ela ficara mais e mais
encostada nele...
— Pode deixar, posso tirar e pôr a cueca sem problema. Não preciso de ajuda.
— Ei, Rebecca veja isso! — chamou Jonesy, agitado. — Eu tive de ajustar mais
o cinto. Estou emagrecendo.
— Não tem problema, Jonesy — disse Parnell. — Você pode mesmo perder uns
quilinhos.
— Encontrei pegadas de coelho saindo do nosso banheiro — informou Santee,
vindo dali guiando Nicholas. — Se conseguirmos a linha de pesca, eu faço uma
armadilha. Coelho assado parece uma boa idéia, não é?
— Qualquer coisa, assada ou não, me parece uma boa idéia — declarou
Jonesy. — Meu estômago está fazendo tanto barulho que eu poderia comer um cavalo.
— Não!! — gritou Yancy.
— Nossa, eu não estava pensando no Scrappy!
— Ninguém devia comer cavalo...
— Ei, alguém! — chamou Nicholas. — Meu zíper prendeu e meus dedos estão
gelados demais, não consigo fechar a calça.
— Minha garganta está doendo — reclamou Molly, chorosa.
— Me deixe sair daqui! — gritou Parnell, correndo tão depressa que derrubou
duas das caixinhas com água.
— Ei, olha o que você fez, seu trapalhão! — reclamou Rebecca.
Do lado de fora, o piloto colocou a cabeça pela abertura.
50

— Vamos ser resgatados hoje. Temos de ser! Mais um dia com vocês e eu
enlouqueço! Acalme esses monstrinhos antes que eles cheguem perto de mim de
novo.
Rebecca também saiu do abrigo e parou diante de Stillman.
— São apenas crianças! E boas crianças. Dificilmente reclamam. E de quem é a
culpa por estarmos aqui?
— Sua. Eu disse que você dava azar.
— Sabe? Não sei como pude pensar que você poderia ser outra coisa além
daquilo que parece ser: um maldito Neanderthal sem cérebro nenhum!
— Ah, vamos começar o jogo de adivinhação de novo! Bem, moça, também
tenho um nome para você: caçadora! Ficar se encostando em mim durante a noite! Sei
bem do que está atrás!
— Você não tem nada que me interesse. Eu já o vi todinho, lembra? Além disso,
foi você quem se deitou perto de mim.
— Foi um momento de fraqueza. Lamento por você.
— Então, vá para aquele lago e dê um jeito de se afogar!
— Deixa comigo!
Parnell se virou e afastou-se. Voltando-se, Rebecca viu as crianças paradas do
lado de fora do abrigo, olhando. Ela se sentiu culpada.
— Lamento, crianças. O capitão está nervoso. Todos pra dentro. Temos de
terminar a limpeza. Tenho certeza de que vamos ser salvos hoje. É bom ficarmos bem
bonitos.
Ela fez todos pentearem os cabelos e escovarem os dentes, trocarem as meias
de um pé com o outro, vestirem camisas limpas. Todos tomaram água quente e Molly
recebeu uma pílula da caixa de Parnell. A arma não estava mais ali. Ela considerou que
pelo menos ele não fora estúpido de deixar o revólver ao alcance das crianças. Mas
era estúpido em vários outros aspectos.
— Se nós já não estivéssemos perdidos — disse Yancy —, eu e Scrappy íamos
fugir.
— Eu queria que minha mãe estivesse aqui — declarou Molly.
— Ela está no céu, querida. Você sabe disso.
— É, eu sei que Deus a levou. Mas ele tem a mãe dele e podia devolver a
minha.
— Eu e o Jonesy podemos ir cortar lenha, Rebecca?
— Podem sim, Santee. Mas não vão longe. Não quero que se percam.
— Mas nós já estamos perdidos!
— Nada disso. Os homens que estão nos procurando sabem que estamos aqui.

51

— Não sabem, não. Eles devem é pensar que estamos mortos.
O modo como o garoto falava dava a sensação de que para ele não fazia
diferença se não fossem resgatados e passassem o resto das vidas ali.
— Bem, não estamos mortos nem vamos estar. Pare de falar assim. E, agora,
vão procurar lenha!
— Esse creme dental é bem gostoso — declarou Nicholas.
Rebecca manteve as crianças menores ao seu lado o quanto pôde. Mas a luz do
sol as atraía para fora. E quando saíram queriam era brincar, o que significava bolas e
bonecos de neve.
Parnell fizera uma fogueira em umas pedras perto da margem do lago. Apesar
de não querer a companhia dele, a mulher preferia ficar perto do fogo.
Stillman estava se costas para ela, consciente de sua presença, mas tinha
decidido que Rebecca é quem devia quebrar o silêncio. Ela o olhava pensando que,
apesar de tudo, seu medo diminuíra. O que significava que começava a confiar nele. E
talvez até estivesse se interessando por aquele homem, por mais absurda que fosse a
idéia. Tinha de ficar lembrando a si mesma que se encontravam juntos por mero acaso
e que a vontade de se ligar a ele era apenas natural.
Mas, e essa estranha sensação na boca do estômago?, pensou ela. Ora, isso é
fome!
— Você acha que eles virão hoje? — perguntou, incapaz de manter o silêncio.
— Os aviões de resgate?
Parnell voltou-se e olhou-a, sentindo sua determinação se esvair. Os olhos da
mulher eram grandes e o frio fizera suas faces ficarem vermelhas. Teve uma sensação
estranha no ventre e sabia que aquilo não tinha nada a ver com a fome.
— Você acha que nós vamos morrer, não acha? — insistiu ela.
— Não, não acho. E pode não haver aviões. Às vezes tudo é feito por
computador.
— O quê?
— Se o ELT estiver funcionando, eles fazem as leituras, calculam latitude,
longitude, e depois mandam uma equipe por terra.
— Por terra? Mas como? E quanto tempo isso pode levar? Parnell, nós estamos
famintos!
Ele não deixou de notar o uso de seu nome. E gostou disso. Para esconder o
prazer que sentia, olhou para cima.
— Pode levar alguns dias, porém é mais eficiente.
— E quanto às rações que estão no avião? E o gelo? Você verificou? Agüenta
seu peso?
— Ainda não. Talvez à noite.

52

O rosto de Rebecca empalideceu. Ela parecia muito pequena e frágil, parada ali
com neve pelos joelhos. Stillman não conseguiu se conter. Foi até ela e a abraçou.
Rebecca soltou o peso contra o homem, enterrando o rosto no casaco dele.
— Calculo que você está com pena de mim de novo.
— Bem, não — afirmou ele. — Não exatamente.
— Então, o que sente?
— Diabos, eu não sei. Acho que é sexo.
Ela se afastou com um empurrão.
— Mas você perguntou! — reclamou ele. — O que eu devia dizer?
— Nada.
— Droga! Você fica brava com qualquer coisinha! Seu eu fosse casado com
você, pediria divórcio. Faz um homem querer isso! Eu preciso de cooperação, não de
um pavio curto!
— Que coisa terrível de se dizer! Eu não afastei meu marido! Ele fugiu. Casou
de novo e já traía a segunda esposa depois de seis meses.
— Aposto que ela era igualzinha a você!
— Ei! Que golpe baixo. Mas era exatamente o que eu esperava de alguém do
seu tipo!
— E qual é o meu tipo?
— Pomposo, sem consideração, vazio.
— É óbvio que você só está olhando a superfície. Sou bem mais que isso.
— Mais "disso", você quis dizer. E pode saber que estamos terminados!
— Terminados? E quando começamos?
— Ora, não banque o ingênuo!
— Eu não disse nada! Disse alguma coisa?
— Linguagem corporal é muito expressiva.
O rosto dele se transformou. Os ossos ao redor dos olhos pareceram mais
proeminentes.
— Você me usou quando eu estava dormindo!
A acusação mentirosa deixou Rebecca sem fala.
— Ei, vamos lá! — prosseguiu ele. — Foi seu melhor golpe.
— Seu maldito gauche!
— Puxa! Não sei o que isso quer dizer.
53

— Um sujeito sem nenhum tato! Um... um grosseirão!
— Opa! Essa foi boa. Boa mesmo!
— Eu posso ver através de você, Parnell — disse ela, olhando-o de alto a baixo.
Stillman observou o sorriso de Rebecca. Olhar para aqueles lábios carnudos lhe
deu vontade de beijá-la.
— O que isso quer dizer?
— Nada.
Ele ponderou se devia usar a tal linguagem corporal. Seu estômago doía.
E, de qualquer modo, pensou o piloto, o que é que ela sabe sobre homens? O
pai foi um bêbado e o marido um mulherengo. Não saberia notar um bom homem,
mesmo se caísse em cima dela! Ela vê através de mim! Só porque minha sensualidade
se agitou um pouco, não perco a cabeça! E vou dar um jeito nessa mulher!
Nesse momento Jonesy saiu da floresta, correndo, e escorregou pela inclinação
até perto deles.
— Ei, Rebecca! Capitão! Encontramos uma casa!

Capítulo 7

— Estamos salvos! — exclamou a moça.
— Não fique tão certa — advertiu Parnell. — Pousamos praticamente na
varanda da casa. Você viu alguém vir ver o que tinha acontecido?
— Não seja tão pessimista! Sempre que acontece algo de bom você dá um jeito
de estragar tudo!
— E o que aconteceu de bom até agora? Você está falando em eu ter perdido o
avião? Ou do mergulho na água gelada? A fome? Encontrar você?
— Só pensa em você mesmo!
— Não é verdade. Sou responsável por vocês todos.
— Uma responsabilidade que você não precisa assumir!
— Não há pecado nenhum nisso. Eu gosto...
— Não quero ouvir isso — afirmou ela, dando a mão para Jonesy e subindo a
encosta, onde Santee os chamava.

54

— Eu só ia dizer que gosto de paz e tranqüilidade — disse Parnell, para
ninguém.
Molly se agarrou na manga dele.
— Você me carrega até lá em cima?
— Não. E me solte.
— Se você não me levar, eu vou berrar e chorar. Vou dizer pra Rebecca que
você bateu em mim.
— Não se atreva, sua coisinha de nada!
Logo depois ele chegava ao alto, com a garotinha, sorridente, nos ombros.
Ver os dois daquela maneira diminuiu a raiva de Rebecca.
— Uma casa! — exclamou ela quando Stillman a alcançou. — Oh, espero que lá
tenha café!
— Espero que tenha alguém que possa nos dizer onde fica a estrada mais
próxima.
Na verdade ele não esperava nada daquilo. Era possível que tivesse pousado o
avião numa reserva florestal e a casa seria algum tipo de posto de guarda. Nesse caso,
teria muitos cobertores e comida. Se fosse assim, poderia deixar Rebecca e as
crianças ali e sair atrás de ajuda.
E estariam todos salvos. A idéia o alegrava muito.
Santee, Jonesy e Yancy seguiam na frente, deixando pegadas na neve. Subiram
a encosta e, depois de andar bastante, Rebecca parou, cansada.
— Ainda está longe?
— Não, é ali atrás daquelas pedras — apontou Santee.
Lá chegando, todos pararam.
Parnell colocou Molly no chão e se aproximou de Rebecca.
— Bem, acho que não vai encontrar café ali — disse ele, observando a pequena
cabana que parecia muito velha.
— Não tem mais porta, nem parte do telhado — informou Jonesy, agitado —,
mas Santee e eu podemos consertar.
— Bem, vamos lá dar uma olhada — disse Parnell.
As crianças correram na frente.
— Puxa, eu estava com tanta esperança... — lamentou Rebecca.
O piloto hesitou. Considerava sua responsabilidade manter o moral elevado.
Mas não sabia o que fazer. Depois de um instante, passou o braço pelos ombros dela.
— Podemos achar algo útil, e esse barraco me parece bem melhor que nosso
abrigo.
55

— Puxa, quanto otimismo assim de repente!
Os dois começaram a andar e ele se surpreendeu ao ver que Rebecca não
repelia seu braço. Isso significava que ela começava a gostar dele. E, nesse caso...
Afastou a idéia e tirou o braço do ombro dela.
— É uma velha cabana de caça. Aposto que precisaram de uma dúzia de mulas
para trazer o material e construí-la...
Rebecca percebeu a mudança na voz dele e notou que Parnell lutava contra o
que sentia. Ela também. Como poderia se apaixonar por um homem que declarara
detestar mulheres e crianças? Tal idéia devia ser causada pela fome e pelo medo. Mas
ainda assim seu desejo era que algo de bom acontecesse.
Parnell tocou em seu braço.
— Você não ouviu uma palavra do que eu disse.
— Eu... eu estava sonhando com um café.
— Avisei pra você não se animar...
Além do fogão à lenha na primeira sala, havia uma lareira no pequeno quarto,
que tinha beliches em duas paredes. Junto ao fogão havia uma prateleira com latas
vazias, uma panela de ferro, um garfo com dentes tortos. E uma mesa com uma perna
faltando.
— Que bagunça — disse Rebecca. — E há um cheiro estranho.
— A senhora quer ver a outra casa que temos para alugar?
— Muito gozado!
— Bem, podemos mesmo consertar o teto. E vamos nos mudar para cá. Hoje à
noite vai esfriar, eu estou sentindo.
— E eu gostaria muito de comer alguma coisa — lembrou Jonesy.
— Mas para que vir para cá? — Rebecca indagou. — Vamos embora hoje ou no
máximo amanhã. E o trabalho...
— Veja, não tenho a menor idéia de quando seremos encontrados. Pode ser
hoje, pode ser daqui a uma semana. Além disso, se eu tiver de sair daqui para procurar
ajuda, vou me sentir melhor se vocês estiverem num lugar mais protegido do que
aquele abrigo frágil.
— Sair daqui? Não. Você não pode nos deixar! E se morrer? Ou for ferido?
— Você se importa?
— Se me importo com você? É claro que sim. Com todos nós.
Stillman não gostou da resposta. Era genérica demais.
— Mas ontem você disse que me achava agradável e...
— Não, não disse. Eu não disse isso!
— Disse, sim!
56

— Você entendeu errado.
— Está brincando demais comigo, moça!
— Sobreviver a uma queda de avião e estar perdida num lugar selvagem é uma
brincadeira?
— Agora, parece que quer brigar. Não entendo. Estávamos indo bem...
— Quando?
— Esqueça. Mas eu comando o grupo. Vamos mudar para cá.
— Certo, você manda.
— Muito bem. Então, esfregue o convés.
— Esfregar o quê?
— O convés. Como nos barcos. Quer dizer: limpe tudo.
— Você é terrível! E eu sou mais que uma dona de casa.
— É mesmo? Quer provar o que está dizendo?
— Pois não, capitão Stillman. Logo depois do chá.
— Droga. Não se pode nem fazer uma piada com você? Veja, eu sou o chefe,
por isso tenho de dizer a última palavra.
— Tá bem, então diga.
Ele não tinha nada a dizer. Estava concentrado mais uma vez nos lábios dela.
Eram maravilhosos. E pareciam cada vez mais distantes.
— Esqueça.
— Seu problema é que pensa que uma mulher tem de cair de joelhos quando
você abre a boca.
— Não acredito no que estou ouvindo! — afirmou ele, enquanto saía da cabana
à procura de Santee e Jonesy.
Nunca se sentira tão nervoso como naquele momento. Talvez porque fazia anos
que não passava tanto tempo junto com uma mulher. E ficava sonhando, imaginandose fazendo amor com ela. Tentou afastar a idéia.
Nicholas contornou o lado da cabana e colidiu com ele.
— Ei, garoto, veja aonde vai.
— Não posso.
— Oh, me desculpe.
— Tudo bem. Estou começando a me acostumar com a cabana. De que lado
estamos?
— Leste.
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— Então a porta fica a norte?
— Isso.
— E o banheiro?
— Fica a vinte e cinco passos encosta abaixo em diagonal a partir do canto
esquerdo da cabana.
— Entendido.
— Vamos, eu levo você.
— Não — disse o garoto, afastando-se dele. — Vou sozinho.
— Bancando o independente, hein?
— Bancando não, eu tenho de ser independente.
Nicholas foi até o canto da casa e começou a contar os passos. Parnell esperou
até que ele entrasse no banheiro, admirando o garoto. Diabos!, pensou ele, agora até
os garotos estão me atraindo! Então, foi procurar as outras crianças.

Enquanto a noite se aproximava, Rebecca imaginava, não pela primeira vez,
como as mulheres dos desbravadores do país teriam feito para se virar em tais
circunstâncias. Não lamentava tanto a falta de eletricidade e água encanada, mas sim
das pequenas coisas, como vassouras, pás de lixo e papel higiênico.
Um galho pequeno foi utilizado para tirar as antigas teias de aranhas dos cantos,
depois que o fogão foi aceso e as crianças se amontoaram diante dele. Santee saiu
com Stillman para buscar mais lenha.
E iam precisar. O fogo mal aquecia a sala e as nuvens haviam encoberto o sol.
Sem dúvida ia nevar. Mas o trabalho os fez esquecer que tinham fome. Já estava
escuro quando os dois retornaram. Parnell fechou a abertura da porta com uma série
de pequenos troncos de cedro, que conferiam um cheiro agradável ao lugar.
— Vimos um veado — disse Santee. — O capitão disse que talvez possa matálo com um tiro.
— Matar um veado? — disse a moça, não gostando da idéia.
— Ele parecia velho, mas não precisa se preocupar. Sou melhor piloto que
atirador — sossegou-a o capitão.
— E o gelo? Já cobriu o lago?
— Sim, mas ainda não está sólido. Creio que vou tentar ir até o avião daqui a
umas horas.
— Mas está escuro!
— Eu sei... Podemos fazer uma fogueira na margem...
O piloto sabia que se o gelo quebrasse estaria perdido. Mas também sabia que
todos eles estavam ficando fracos por causa da fome. As crianças estavam perdendo a
58

cor, como ele observou olhando para as menores, que já dormiam num dos beliches
junto da lareira.
Preocupada, Rebecca perguntou:
— Você tem certeza de que há comida no avião?
— Sim. Há tabletes de leite maltado, pasta de bacon, café instantâneo...
— Café? Mesmo?
Molly tossiu e Rebecca colocou a mão em sua testa.
— Ela está ficando com febre.
— Mantenha-a aquecida e seca. Principalmente os pés. Dizendo isso, ele
lembrou que seus pés também estavam molhados.
E considerou que teria de pedir suas meias, que estavam com a moça, para
tentar chegar ao avião. E naquele momento lamentou não a ter deixado cuidar de seus
machucados pela manhã. Sentia muitas dores agora.
Rebecca fez os mais velhos se deitarem. Santee reclamou, até que ela lhe disse
que o chamaria na hora de tentar a travessia do lago. Fechou a porta do quarto e
voltou para a sala. Parnell se curvava para desamarrar as botas e notou que ele sentia
dor nos pés. Isso foi decisivo. Reconheceu que estava ficando apaixonada por um
sujeito cínico, que ainda sofria por causa de um casamento terminado havia muito. Mas
sabia que, caso se tornasse meiga de repente, ele a rejeitaria. O único jeito era manter
a língua afiada até pegá-lo com a defesa baixa. E um desses momentos havia
chegado. Pensou depressa, arquitetando o plano de ataque.
— Deixe-me ajudar você — disse ela, se aproximando.
— Pode não ser uma visão das melhores — avisou ele, sem forças para recusar.
— Eu sei. Ajudei os meninos a secarem as meias e sapatos de tarde —
comentou ela. Mas quando viu os pés dele, que por estarem sem meia encontravam-se
completamente azuis, ela não agüentou: — Seu maluco! Não devia bancar o herói!
Pegando a camiseta que virara pano de chão, ela molhou-a na água aquecida
no fogão e começou a lavar e massagear os pés do piloto.
— Isso é embaraçoso — disse ele, sentindo também que era muito erótico.
Quando a sensibilidade voltou aos pés enregelados, ele soltou um gemido
involuntário. A primeira reação de Rebecca foi um olhar duro, mas então ela relaxou,
considerando que precisava usar toda chance para vencer a resistência dele. Suas
mãos subiram dos pés para a barriga da perna.
— Melhor?
— Puxa, isso é maravilhoso. Talvez fosse melhor você parar.
— Por que não tira a jaqueta e se deita de bruços?
— Pra quê?
— Para que eu faça massagem nos seus ombros e pescoço.
59

— E por que você quer fazer isso?
— Oh, só para passar o tempo, para me distrair da fome.
Considerando que aquilo poderia lhe fazer bem, ele se deitou e logo depois
estava mordendo a língua para se impedir de emitir exclamações de prazer. Rebecca
estava tão perto que ele sentia sua respiração no pescoço. Sentindo a excitação
crescer, ele forçou-se a lembrar quais eram os efeitos do amor: faz você se abrir para a
rejeição, sem falar na dominação. E quanto mais se ama, mais tais coisas ferem. Mas
então... droga! O que ela estava fazendo? Beijando sua orelha?
— Ei! — protestou ele. — Pare... com... isso...
Para Rebecca, o protesto pareceu mais um pedido para continuar. Sua língua
tocou a orelha dele.
— Você não gosta?
— Gosto, mas...
— Mas o quê?
— Estou ficando excitado. Uma certa parte de mim está a ponto de explodir.
— Tudo bem.
Parnell virou-se um pouco, apreciando a imagem da mulher iluminada em tom
vermelho pelo fogo. Olhando rapidamente para o resto da cabana, constatou que os
pequenos bárbaros estavam dormindo. Logo agora que ele não precisava de confusão!
— Escute — disse baixinho —, não acho que sua proposta seja ética. Não
nessas circunstâncias.
— Eu não estou propondo nada —- Rebecca falou, fingindo inocência. — Me
deixe levar...
— Sei... você estava era me estimulando...
— Não estava não — defendeu-se, ficando vermelha.
— Nada disso. Sei perceber muito bem.
— Bem, você tem de admitir que tem um corpo bonito. Aposto que já
experimentou muitas coisas...
— Bom, às vezes... Mas você não estava querendo me conquistar?
— Ah, não. Claro que não. Estava apenas admirando você.
— Então tudo bem — disse ele, com o ego inflado. — E você também não é
nada má.
Já convencida de que aquele era o homem certo para ela, Rebecca decidiu que
precisava deixar nele uma tal impressão que quando voltassem para Boise, Parnell não
deixaria de pensar nela.
— Bem, obrigada — agradeceu, começando a tirar as botas. — Acho que
precisamos descansar um pouco, não é?
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Parnell relutou em concordar. Se ela deitasse do seu lado, não iria conseguir se
controlar.
— Você não está pensando em tirar a roupa, não é?
— O que há com você, Parnell? Vou só secar suas meias! Você vai precisar
delas no lago. Eu tenho outras de náilon, que posso usar.
— Certo, eu só quero dormir um pouco.
— Tá bem. Vou deitar com Molly, assim ela fica mais aquecida. Você me chama
na hora de ir testar o gelo?
— Pode deixar.
Rebecca foi para o quarto e se ajeitou da maneira mais confortável possível, na
tábua dura do beliche, junto com a menina. Sabia que tinha chamado a atenção dele e
isso era bem mais do que esperava. Mas na verdade seria isso que queria, mesmo?
Sob pressão, com medo, a gente pode fazer coisas estranhas. Não seria esse o caso?
Ficou pensando em Parnell, até que adormeceu, sem mais prestar atenção nos ruídos
esquisitos produzidos por seu estômago vazio.

Deitado de lado, com a cabeça apoiada no braço, Stillman tentava encontrar um
motivo para o comportamento de Rebecca. Mas não conseguiu. Só sabia de uma
coisa: mulheres são os seres mais estranhos jamais inventados por Deus. Num
momento odeiam você, depois...
Só para passar o tempo, tentou imaginar como seria a sua vida ao lado de uma
mulher como Rebecca. Mas nenhuma imagem surgiu. A idéia era tão estranha, tão
distante da realidade, tão assustadora, que sua mente permaneceu em branco.
Então, decidiu que o melhor era ficar de olhos bem abertos. Qualquer mulher
que chamava sua atenção com algo mais que a vontade de passar um curto período
juntos, sem dúvida tinha alguma outra coisa em mente.
Especialmente se essa mulher se chamasse Rebecca Hollis!

Capítulo 8

Começara a nevar e não havia lua. Parnell andava na frente, curvado para se
proteger do vento, e Rebecca mal conseguia ver sua silhueta. Santee era o último da
fila.
Chegando à margem do lago, o piloto reavivou a fogueira nas pedras, mas o
calor das chamas era todo carregado pelo vento. Rebecca ficou sacudindo os braços e
pulando para tentar se aquecer.
61

— Estou congelando! — exclamou ela, tremendo.
— Eu avisei. Volte para a cabana.
— Não, eu vou ficar.
— Você não precisa ser corajosa a ponto de morrer.
— Eu não ia agüentar o nervosismo, se ficasse na cabana.
— E eu estou ficando acostumado com essa preocupação toda — comentou ele,
com um sorriso. — Bem, acho que está na hora de testar o gelo.
— Eu vou com você.
— Nada disso, Rebecca. E se o gelo não resistir?
— Dois terão uma chance melhor. Podemos ajudar um ao outro.
— Sim, mas se nós dois nos afogarmos, as crianças não terão nenhuma
chance.
— Então, vamos esperar até clarear. Não morreremos de fome se ficarmos mais
algumas horas sem comer. Estamos nos acostumando.
— A tempestade está piorando, Rebecca — lembrou ele, considerando que se
ficasse mais um pouco sem comer, isso o deixaria enfraquecido demais. — Eu vou.
— Espere! — gritou ela.
— Esperar o quê?
Rebecca se adiantou e abraçou-o.
— Boa sorte.
Parnell apertou-a ao peito por algum tempo, pensando que era ótimo ter alguém
que se preocupasse com ele.
— Vou estar bem. Vai levar só vinte minutos.
Rebecca e Santee o acompanharam com a vista durante parte do trajeto sobre o
gelo. E logo depois Stillman estava fora de vista, encoberto pela neve que caía. Ambos
retornaram para perto da fogueira.
A tempestade piorava e depois de meia hora os dois tremiam muito, com os
dentes batendo.
— Puxa, por que ele ainda não voltou? — Rebecca estava aflita.
— Acho melhor fazer outra fogueira — disse Santee. — Assim sentamos entre
as duas.
Não foi o frio em si que fez com que demorassem para juntar a lenha, mas a
fome. Rebecca tinha a impressão de que podia sentir o sangue correndo mais
vagarosamente nas veias.
Se eu mal consigo me mover, pensou ela, como estará Parnell?
62

Stillman soltou a respiração contida. Tudo bem: o gelo resistia.
O nariz do avião fora há muito coberto pela neve. Branco contra branco, era
difícil de ver. O piloto conseguiu encontrar a asa e seguiu-a para chegar ao corpo do
aparelho.
Um cheiro indefinido vinha do interior, mas ele não o identificou. Estava mais
preocupado em distinguir as formas na escuridão, lamentando não ter uma lanterna.
O gerador de emergência! Tateando até a cabine, ele sentiu os botões do painel
com dedos enregelados. As luzes se acenderam. Sentou-se por um momento na
poltrona de pilotagem, sentindo que era como voltar para casa. Testou o rádio, que não
funcionou. Então, as luzes começaram a piscar e diminuíram de intensidade, por isso
ele se apressou em procurar a comida.
Num dos assentos de passageiros, viu um par de luvas e a garrafa térmica.
Anotou o local, planejando pegá-las na volta.
Os sacos de correspondência encontravam-se jogados uns sobre os outros e os
de baixo estavam solidamente presos no gelo, encobrindo a parte de baixo da porta do
armário onde estava o bote com a comida. Levaria horas para remover os sacos e o
gelo. Lembrando que Rebecca e Santee estavam no meio da tempestade, que piorava
a cada instante, ele abriu os armários do alto. Encontrou papel higiênico, sabonetes,
uma chave de fenda e um vidro de tabletes de sal. Nada de comida. Mas achou
também sua sacola de viagem, conseguindo roupas limpas e sua escova de dentes.
Enfiou tudo na sacola, retornou à cabine, desligou o gerador auxiliar e estava à porta,
pensando se devia ou não fechá-la quando reconheceu o cheiro.

Ele tocou e balançou o braço de Rebecca. Ela não respondeu.
— Rebecca! — gritou, sacudindo-a.
— Me deixe em paz!
— O que você está tentando fazer? Se matar? Vamos, levante!
— Estou com sono.
— Você não devia ter se deixado dormir!
Fora mais fácil acordar Santee, talvez porque era mais jovem e o corpo reagisse
mais depressa.
— Vocês deviam ter mantido um ao outro acordados, cuidando do fogo!
— Nós não queríamos dormir. Tentamos só nos aquecer.
Parnell descobriu-se em pânico. Se Rebecca morresse... Ele tirou a neve do
rosto da moça e obrigou-a a se levantar.
— Eu estou com fome — gemeu ela.
— Eu sei. Vamos, ajudo você a andar. Santee, pegue aquela caixa.
63

Era difícil caminhar contra o vento. Parnell disse alguns dos piores palavrões
que sabia e com isso conseguiu alguma reação da moça, que começou a mover as
pernas. Levaram quase uma hora para chegar à base das pedras, e ali Santee caiu.
Stillman levou Rebecca para a cabana, deixando-a junto ao fogo, e voltou para buscar
o menino.
Retornando à cabana, ele colocou os galhos para fechar a entrada, sabendo
que a tempestade acumularia neve por todos os lados, isolando-os do mundo do lado
de fora.

Rebecca acordou de repente.
— O que houve?
Molly sentou-se ao lado dela e falou em seu ouvido.
— O capitão está furioso. Ele está tentando arrumar o fogão. Eu quero ficar
perto de você.
— Furioso? Com quem?
— Ah, então você resolveu finalmente acordar! — exclamou o piloto.
— Eu... bem... — balbuciou Rebecca, lembrando-se do que acontecera junto ao
lago. — Eu devo...
— Deve uma ova! Você dormiu no meio de uma tempestade. Isso é completa
falta de senso! Achei que tivesse morrido!
— E Santee?
— Está bem. Eu é que estou mal. Fiquei de babá e... droga! Você vai começar a
chorar de novo! — exclamou ele, ajoelhando-se diante da mulher. — Eu poderia bater
em você durante horas. Você me assustou demais!
Molly se afastou, sabendo que o melhor lugar era aquele onde o capitão não
estivesse.
— Parnell...
— Não me olhe desse jeito!
— Eu... eu sinto muito...
— Ainda bem! Não se pode ignorar os elementos. Se quer fingir, pelas crianças,
que isto é um passeio, tudo bem. Mas o perigo é real. Um movimento em falso e vamos
todos congelar até a morte. Não se esqueça disso.
— Não me esquecerei.
— Droga! — exclamou ele, se afastando rapidamente antes que cometesse
alguma loucura, como cobri-la de beijos.
Rebecca considerou que era bom mesmo Parnell ter se afastado, ou então teria
se pendurado no pescoço dele.

64

— Você conseguiu pegar as rações?
— Não, mas encontrei algumas maçãs. Alguém tinha enviado uma caixa delas
para Guam. Comemos duas cada um.
— Não! — disse ela e, sem conseguir evitar, começou a chorar.
— Droga! Eu sabia! — comentou Parnell, indo até o fogão onde deixara a
garrafa térmica em banho-maria para degelar. — Se as maçãs causaram esse efeito,
fico só imaginando o que isso aqui fará!
Dizendo isso ele serviu o café para Rebecca.
— Obrigada — disse ela, pegando a tampa da garrafa com mãos trêmulas.
Yancy levou duas maçãs para ela. Seguindo as recomendações do piloto,
mastigou devagar e recusou quando Parnell sugeriu que comesse uma terceira.
— Puxa, sinto como se tivesse comido um verdadeiro banquete... Parnell, você
salvou minha vida. A de todos nós, mais uma vez.
— Eu estava também salvando o meu pescoço — disse ele, com modéstia,
lembrando-se do momento em que encontrara a moça enrodilhada sobre si mesma,
congelando...
Uma emoção muito forte o dominou e ele considerou que então o que sentia por
ela era mais do que simples anseio de sexo.
Mas somos completos estranhos um para o outro, pensou. Quando isto acabar,
vamos cada um para seu lado, e eu seria um idiota se esperasse que ela fizesse outra
coisa.
— Bem, eu estava consertando o fogão e creio que é melhor terminar — disse
ele, subitamente distante. — Ah, sim, e quanto a salvar sua vida, agora estamos
empatados.
Rebecca ficou surpresa com a transformação súbita e, relutante, deixou-o ir.

A tempestade durou três dias. O vento zunia nos cantos da cabana, fazendo um
barulho constante.
Para tristeza de Rebecca, Parnell continuava a se manter a distância. Sem
saber o que tinha feito para causar aquela reação, tentou várias vezes puxar conversa,
mas tudo o que conseguiu foram respostas muito bem-educadas.
Quando a tempestade diminuía, ele saía sozinho para recolher lenha.
Precisavam comer algo quente e Rebecca cozinhou algumas maçãs, fazendo
um caldo, que eles tomaram na tampa da garrafa e nas latas que encontraram na
cabana.
Usaram os sabonetes trazidos por Parnell para se manterem relativamente
limpos, o que ajudou a passar o tempo.
As crianças pediam que o piloto lhes contasse histórias sobre aviões. A princípio
ele narrou acontecimentos sem muita graça, mas logo Stillman se viu descrevendo
65

como um avião é catapultado de um porta-aviões ou os perigos de voar num furacão.
Em pouco tempo, os meninos olhavam para ele como um herói, fazendo-o considerar
muito boa essa sensação nova, que quase o deixou de bom humor.
À certa altura, Rebecca viu-o olhando para ela e tentou se aproximar, mas ele se
levantou e foi ajudar Santee, que tentava melhorar o remendo no telhado.
A cada vez que se aproximava, Parnell encontrava algum motivo para se afastar.
E era tão educado que não havia dúvidas de que se comportava assim de propósito.
Rebecca considerou a possibilidade de usar o material de maquilagem que tinha
na sacola, mas calculou que isso ficaria óbvio demais. Ela também gostava das
histórias que o piloto contava e notava, com orgulho, como ele respondia com prazer
às perguntas das crianças. Mas se ela fizesse uma pergunta, Parnell não respondia, o
que a forçava a ficar quieta ou então ele se manteria em silêncio, privando as crianças
das histórias.
Na terceira noite de tempestade, o vento parou e o súbito silêncio a fez acordar.
Como de hábito, prestou atenção na respiração de Molly, que já estava quase boa.
Ninguém mais acordara. Os meninos compartilhavam dois beliches, para deixar um
para o piloto e outro para ela e Molly.
Porque considerava a coisa certa a fazer, e pelo aspecto de normalidade que
criava, ela insistira que todos usassem os pijamas para dormir. Os casacos eram
usados como cobertores. E, apesar da condição primitiva, a cabana era chamada de
"lar".
Criando coragem, levantou-se e foi colocar mais madeira no fogo. Foi então
fazer o mesmo com o fogão, na outra sala. Manter os fogos acesos era a segunda
tarefa mais difícil, perdendo apenas para a de conservar as crianças limpas.
Voltando para o beliche, sentou-se com as costas na parede, as pernas
dobradas sob o corpo e o queixo apoiado nos joelhos. Ficou imaginando se o mundo lá
fora já os dava como mortos ou se continuavam as buscas. Sentiu uma pontada de
fome, mas desviou a atenção, pensando que tinha grande vontade de tomar um bom
banho.

Parnell estava desperto. Curioso com a movimentação de Rebecca, ele se
colocou em posição para observá-la.
Já não usava as roupas dela como travesseiro. Mas o cheiro continuava em sua
memória. E, apesar do desejo sexual, a idéia de que estava apaixonado por aquela
mulher não deixava sua mente. Enquanto isso, observava-a mexer na sacola, depois ir
para o outro cômodo, sem nenhum ruído. E então teve uma boa visão das pernas dela,
iluminadas pela luz do fogo. Belas pernas.
Pouco depois ouviu barulho de água. Ele se levantou, querendo ver o que
estava acontecendo. Decidiu não falar com Rebecca, calculando que ela não
compreenderia que o que o movia era simples curiosidade. A porta do forno do velho
fogão estava aberta, e por ali saía luz. Ela deixava a água escorrer sobre o corpo,
usando uma latinha. Parnell inspirou rapidamente e sem querer murmurou o nome
dela.
Rebecca não se voltou, mas seu coração se acelerou.
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— Estou tomando banho. Não queria acordar você.
— Você não me acordou — afirmou ele, sentindo que seu desejo por ela crescia.
— Eu não conseguia dormir.
— É mesmo? — comentou Rebecca, desejando que ele desse algum indício de
que a desejava, enquanto procurava, tateando, o pijama que deixara ao lado.
— Você é linda! — disse Parnell, percebendo que não eram as palavras certas,
sabendo que ou fazia o que tinha vontade de fazer ou saía da cabana. Então, deu dois
passos e colocou a mão sobre a dela. — Não se vista...
Naquele instante a tensão entre eles era praticamente tangível. Rebecca sentia
a emoção como se fosse a calmaria antes da tempestade. A poça de água que fizera
no chão estava começando a ficar fria, mas ela mal notou. Em vez disso tocou o rosto
de Parnell com a ponta dos dedos. Os lábios estavam mornos e úmidos, a barba, agora
bastante crescida, lhe causou uma sensação de prazer.
Parnell ergueu a mão e tocou os cabelos dela.
— Eu quero você. Estou querendo você já faz tempo. E, a menos que vá para o
quarto, isso vai acontecer.
Rebecca não se moveu.
Os segundos passaram, marcados apenas pela respiração dos dois. Quando,
por fim, ela sentiu que Stillman encostava seu corpo ao dela, estava prestes a gritar.
Dominou-se.
— Um instante — pediu ele, indo ao quarto e retornando com seu casaco e
outras roupas, que estendeu no chão ao lado do fogão. — Deite-se aqui — murmurou
e ajudou-a a deitar.
— Talvez nós... — sussurrou ela. — E se uma das crianças acordar?
Ele estendeu a mão e tocou-lhe o rosto.
— Eles estão dormindo profundamente. Eu verifiquei. Vamos, se enrole nessas
roupas. Não quero que fique gelada.
— Eu não estou nem um pouco gelada. Pelo contrário!
O nível do desejo que a tomava era assustador. O sexo comandava seu corpo.
A princípio, Parnell apenas pensou em abraçá-la e em seus corpos se tocarem.
Isso era tudo que importava. Lentamente, ele passou a língua pelos lábios de Rebecca,
sentindo seu membro enrijecido e quente de encontro à coxa cálida, macia. Ela pensou
em beijá-lo, mas não ainda, não naquele momento. Então, as mãos fortes dele
começaram a explorar-lhe o corpo. Parnell acariciou-lhe os seios e qualquer tipo de
pensamento abandonou a mente de Rebecca.
A excitação crescia. Apesar de ter sido casada, ela não conhecera nada assim.
Nunca antes sentira o sangue correndo nas veias, o coração acelerado daquele modo.
Ele a penetrou. Rebecca ergueu os quadris, querendo senti-lo inteiro dentro de
si, e começaram a se mover no mesmo ritmo. Então, pelos movimentos
descoordenados dele, percebeu que estava chegando ao clímax muito depressa.
67

Do lado de fora, uma rajada de vento zuniu. Parecia o som de uma catarata a
distância. Rebecca reparou que o barulho era dentro de sua cabeça, pulsante.
— Parnell... — murmurou ela, entre gemidos.
Ela acelerou os movimentos. E juntos conseguiram alcançar o máximo do prazer
jamais imaginado.

A sensação de se descobrir apaixonado era demais para Stillman.
— Você me seduziu — acusou o piloto, de repente.
O tom de voz era tão triste que Rebecca percebeu que levaria algum tempo até
que ele se acostumasse com o que estava sentindo. Parnell lutava contra o destino e
ainda não descobrira que não poderia ganhar aquela luta.
— Gozado, não é? Por que só agora você está reclamando?
— Não podemos deixar isso ir mais longe. Você deve saber: sou um covarde!
— Há covardes e covardes — comentou ela, com um sorriso.
— E também não sou bom em jogos de palavras. Tudo que sei fazer é voar.
— Sim, você sem dúvida me fez ir muito alto.
— Eu fiz? Quer dizer, e daí?
— Daí, nada. Não precisamos fazer isso de novo.
A mão de Rebecca estava no peito dele e foi descendo, descendo, até acariciar
a parte interna da coxa de Stillman.
— Bom, então está bem — disse Parnell, com a garganta apertada.
— Além disso, foi só um acontecimento circunstancial. Somos adultos. Creio que
a tensão de estarmos perdidos e a fome nos atingiu — disse ela, enquanto passava a
acariciá-lo. — Agora acho que é melhor eu terminar de lavar o cabelo. Detesto quando
fica duro por causa do xampu.
Antes que ele pudesse fazer algo mais além de emitir um gemido, ela se
afastou, abriu a porta do fogão e colocou mais uma acha de lenha no fogo.
Parnell sentou-se. Seu sexo doía, esperando pela continuação das carícias que
ela começara. Desejava-a de novo. Mas como poderia admitir isso?
— Tem mais água quente, se você quiser tomar banho. É só ficar parado aqui.
Tem uma rachadura no chão, por onde a água escorre.
Então, ela vestiu o paletó do pijama e passou a enxugar o cabelo com uma
camiseta.
— Você está me provocando — acusou ele, sentindo que não conseguia mais
controlar o desejo.
— Nada disso! Estou apenas respeitando sua vontade.
68

— Detesto mulheres que fazem isso!
— Ah, é mesmo? Bem, então o que gostaria que eu fizesse?
— Nada — disse Parnell, considerando que não podia revelar seu ponto fraco,
ou então ficaria nas mãos dela.
As chamas devoraram a nova madeira, e com o súbito aumento da luz Rebecca
viu como ele estava excitado. Seu plano era usar um velho subterfúgio feminino, voltar
para a cama e deixá-lo com tanto desejo que não a esqueceria jamais. Mas não podia
fazer isso. Ajoelhou-se ao lado dele, que continuava deitado.
— Você gostaria que eu me sentasse em cima "dele" por um minuto? —
perguntou, com a voz muito suave, tocando-o.
— Você está me seduzindo de novo — murmurou ele, tentando não deixar
transparecer o prazer que sentia.
Rebecca respirou fundo.
— Essa vai ser a última vez. Eu prometo.
Então, ela o fez penetrá-la novamente.
Stillman sentiu o peso dela, percebia a contração dos músculos pélvicos da
mulher.
— Então... está... muito... bem... — gemeu ele.
Seus corpos se uniram, e agiram como por si só, no antigo ritual do amor,
criando aquele mundo mágico de sons e luzes ofuscantes que só os que amam
intensamente conhecem.
E ele não tinha nenhum controle sobre o modo como seu coração batia. Sabia
que o amor estava afetando-lhe o cérebro, o modo como via as coisas. Mas no dia
seguinte iria se purificar de certos impulsos. Então, voltaria ao normal.
Rebecca curvou-se para a frente e mordiscou a orelha dele. Parnell não
conseguiu pensar em mais nada.
A força atávica do amor, tão velha quanto a vida, prevaleceu.

Capítulo 9

Rebecca começou a dizer alguma coisa, mas Parnell não a deixou falar.
— Continue a tirar esses sacos de correspondência — disse ele, virando-se para
prosseguir com o trabalho de desobstruir o armário.
69

O barulho do machadinho quebrando o gelo ecoava pelo avião.
— Esse barulho machuca o meu ouvido — reclamou Molly. — Eu quero ir fazer
um boneco de neve.
Rebecca concordou e ficou olhando enquanto a menina caminhava com suas
botas corretivas pelo gelo, chegando à margem.
O vento tirara a neve solta de cima do gelo, que refletia a luz do sol. Os garotos
menores tiravam a neve de cima do SOS. Santee estava na floresta colocando duas
armadilhas para coelhos. O contraste entre as risadas dos garotos na margem e o
humor de Stillman era evidente. Não era de impressionar o fato de Molly querer
escapar dali. Desde que tinha acordado, Parnell exibia o olhar de alguém que sofrera
uma grande injustiça e não sabia quem culpar por sua desgraça.
A "Síndrome da Manhã Seguinte", pensou Rebecca. Eu só não sabia que um
homem também podia sofrer disso.
Vê-lo quebrar o gelo a fez perceber por que as roupas ficavam tão desajeitadas
nele. Parnell trabalhava com todos os músculos, fazendo a malha se enrolar no corpo,
a camisa sair de dentro da calça.
O pobrezinho está até com olheiras, pensou ela.
— Do que é que você está rindo, Rebecca?
— Estou feliz. Me sinto maravilhosa! Você não?
Ela está exultante!, pensou Parnell. Já fincou as garras em mim!
Na noite anterior, depois que Rebecca fora para o beliche que dividia com Molly,
Stillman se levantara e literalmente se arrastou até a cama. Tinha as pernas moles.
Ficou toda a noite pensando que ela dominara sua mente de um modo que não
conseguira fazer igual. O que aconteceu entre eles ficou preso na imaginação de
Parnell, fazendo-o imaginar que poderia viver para sempre com ela.
— Você devia estar pegando a correspondência e não ficar por aí, rindo.
— Certo — concordou Rebecca, mantendo o sorriso. — E se ninguém vier
buscar os sacos?
— Você não conhece os inspetores do correio. Qualquer coisa que tiver um selo
grudado acham que é propriedade deles.
— Será que pode ter mais comida nessas caixas aí?
— Se ficarmos sem comida de novo eu venho ver. Mas deixe-me dizer uma
coisa: vou tentar sair daqui, a pé, assim que puder.
— Não!
— Sim, eu vou.
— Você não pode nos deixar sozinhos!
— Vou procurar ajuda. Estamos aqui há seis dias. Não, sete. Você não percebe?
Eles pararam de procurar. Devem imaginar que não conseguimos sobreviver à
tempestade. E devem achar até que não sobrevivemos nem mesmo à queda do avião.
70

— Mas você disse...
— Agora estou dizendo outra coisa.
— É de mim que você está fugindo. É de mim que quer escapar.
Parnell não conseguiu pronunciar as palavras necessárias para negar aquela
verdade. Rebecca parecia fazer parte dele, apesar de ser irracional acreditar que
aquela relação pudesse continuar quando voltassem para Boise.
— Vou garantir que vocês fiquem com muita comida e lenha antes de ir.
— Mas se tivermos bastante comida e lenha podemos todos sobreviver aqui
durante muito tempo!
— Eu tenho uma empresa para cuidar, Rebecca. Somos prisioneiros aqui, não
desbravadores. Há uma diferença.
— A diferença é que você fez amor comigo. E agora gostaria de não ter feito!
— Eu me deixei levar. Se você não tivesse andado nua por aí, isso não teria
acontecido. Mas hoje pela manhã eu me lembrei por que não posso gostar de você.
Amar destrói um homem.
Rebecca não sabia se devia rir ou chorar.
— Você era um sujeito acabado quando o conheci. E ainda é. Fazer amor não o
mudou, em nada!
— É verdade. E vejo "aquela" expressão nos seus olhos. E está esperando a
chance para me mudar. Mas não vai ter essa chance.
— Acontece que gosto de você exatamente como é.
— Já ouvi essa história antes.
— Estou apaixonada por você.
Parnell ficou pálido e Rebecca percebeu que cruzara uma fronteira que ele ainda
não estava pronto para reconhecer.
— No entanto — prosseguiu ela —, isso é problema meu. E eu lido com ele. Os
psicólogos sem dúvida explicariam isso com grande facilidade. Fomos aproximados por
uma situação incomum, sem nenhuma privacidade... Mas vou logo avisando, eu não
sou um pequeno tropeço que você vai conseguir esquecer.
— Foi luxúria, pura e simples. Apenas isso.
— Dê o nome que quiser. Energia sexual, luxúria ou o que for. Nós dois
gostamos.
— Tenho de quebrar este gelo.
Dizendo isso ele se virou, mas antes de recomeçar o trabalho olhou-a. Ela
parecia mais desconsolada do que ele.
— E, se vai começar a chorar — disse ele —, vou avisando: te dou uma surra!

71

— E por que eu iria chorar? Não tenho por que chorar, a não ser que estar
perdida numa floresta, no inverno, com um completo idiota, seja motivo para chorar.
Vou ver como estão as crianças.
Aí está, pensou ele, olhando sem ver para o gelo. Ela não me ama de verdade.
Então percebeu que Rebecca, zangada, estava fazendo uso de alguns adjetivos pouco
gentis para classificá-lo.
— Pessoas apaixonadas não ficam brigando — lembrou ele.
— Quantos anos você tem, Parnell?
— Trinta e nove...
— Incrível!
Havia um olhar de compreensão nela que fez Stillman sentir que de algum modo
destruíra suas próprias defesas. Mas não sabia como. Então, pegou a garrafa de
uísque do bolso de trás e tomou um gole.
— Pronto — murmurou, desanimado. — Eu sabia! Ela já está me fazendo beber!
Rebecca chegou a abrir a boca para protestar, mas então imaginou que a bebida
poderia diminuir o impacto da verdade.
— Amantes podem sem dúvida brigar, discutir, se separar e começar de novo.
Sua idéia de amar e ser amado é uma ilusão. As grandes paixões não são como lemos
nos livros.
— Nisso você está certa. Elas sempre destroem os homens.
— Você tem de aprender muito, Parnell. Amor é o sentimento máximo dos seres
humanos. E você age como se fosse uma aflição terrível.
— Não estou interessado nessas tolas teorias femininas. Se um homem se
interessa por uma mulher, a primeira coisa que ela faz é dissecar cada palavra dele.
— É assim que você designa um pouco de atenção? Bem, creio que não pode
mesmo ver as coisas de outro modo e conservar a imagem que faz de si mesmo.
Ele se voltou e desceu o machado no gelo.
Rebecca se afastou, ponderando como ele desconsiderava detalhes
importantes, tal como o fato de que o sexo entre eles era ótimo. Mas não havia
exatamente o que se chama de total identificação mental. Não. Falar em "batalha" seria
mais adequado.
Bem, pensou ela, se eu tentar ver as coisas mais do jeito dele, talvez...
Já estava a meio caminho da margem quando parou e voltou para o avião.
— Vamos, me dê essa garrafa — pediu ela, estendendo a mão.
— Nada disso. Não temos Lei Seca por aqui, você sabe.
— Eu quero tomar um gole.
— É mesmo? E eu sou o piloto particular do presidente.
72

— É verdade. Eu quero. Quero ver o que vai acontecer com minha mente.
— Nesse caso... — concordou ele, destampando a garrafa e entregando-a para
Rebecca. — Sou a favor de qualquer iniciativa para desenvolver a mente feminina.
A bebida queimou ao descer-lhe pela garganta.
— O... obrigada.
— De nada. Já sentiu alguma melhora?
— Algumas — disse ela, sentindo os olhos lacrimejarem. — A principal é uma
clareza na mente. Agora vejo as coisas muuuuito mais claras. Você é desagradável,
insensível, egocêntrico. E se aproveitou de mim.
— Eu sabia que ia terminar assim! Por Deus, eu sabia! Isso não passou de
desperdício de bom uísque.
Rebecca olhou para ele por um instante e depois saiu do avião. Foi para a
margem, onde Molly e Nicholas faziam um boneco de neve, e seguiu com eles para a
cabana.

As rações encontradas continham coisas maravilhosas, indo de talheres a uma
frigideira.
Rebecca preparou uma verdadeira festa.
Havia leite em pó, café em pó e tubos de pasta de bacon. Tinha pacotes de
açúcar, sal, chocolate amargo e doce, fatias de carne-seca, tabletes de malte e várias
latas sem rótulo que ela deixou para descobrir o que eram depois. Havia apenas quatro
copinhos. Por isso ela tomava seu café com leite na tampa da garrafa térmica.
Parnell usava uma das latinhas. Desde a discussão ele estava silencioso,
enquanto ela parecia muito alegre, até ria.
Rebecca levou-lhe um prato e se sentou ao lado dele para comer.
— Não precisa sentar em cima de mim — reclamou o piloto.
— Se eu tivesse sentada em cima de você — comentou ela, com um sorriso —,
não estaria interessado na comida.
— Não é educado uma mulher ficar se gabando de suas proezas sexuais —
protestou ele, perturbado com a lembrança evocada pelo comentário dela.
Apesar de ter o rosto quente e vermelho, assim como estavam outras partes de
seu corpo, Rebecca sorriu mais e falou num sussurro:
— Você está dizendo que tudo bem falar sobre sexo enquanto fazemos, mas
antes ou depois não pode?
— Só certos tipos de mulheres falam...
— E qual é esse tipo?
— Você sabe.
73

— Não, não sei. Talvez você possa me explicar, depois que as crianças
dormirem.
Toda a prudência de Stillman não foi suficiente para impedir que respondesse.
— Está bem.
Cada bocado de comida era saboreado ao máximo pelas crianças.
— Creio que essa é a primeira refeição na nossa própria casa — comentou
Jonesy.
— Esta não é nossa casa, Jonesy — lembrou Rebecca. — Estamos apenas
emprestando essa cabana.
— Nós já decidimos — informou Nicholas. — Queremos ficar aqui.
— Sim — concordou Yancy. — Scrappy gosta daqui. Ele tem muito espaço para
galopar.
— Você pode ir buscar a Abigail, não pode Rebecca? — disse Molly. — Ela
vinha para cá e tudo ia ser perfeito. Ela não ia precisar mais se preocupar com
dinheiro.
— Estou orgulhosa de vocês — disse a moça, olhando para as crianças, muito
sérias. — Estão enfrentando a adversidade muito melhor do que eu imaginava que
fariam. Mas nós temos de voltar.
— Por que temos de voltar? — questionou Santee. — Nenhum de nós quer
voltar. Podemos ficar aqui. Podemos conseguir livros e estudar sozinhos. Podemos
viver da terra. Sei que podemos. Aposto que amanhã haverá coelhos nas minhas
armadilhas. E o veado continua por perto. Vi pegadas dele de novo.
— E eu estou me virando muito bem — disse Nicholas orgulhoso. — Já conheço
o caminho da cabana até o lago.
— E eu não molhei a cama nem uma vez desde que chegamos — lembrou
Molly.
Rebecca olhou para Parnell, pedindo ajuda, mas ele ficou ali sentado, fingindo
ser invisível. Apenas ergueu sua latinha um pouco, como num brinde.
Sim, ótimo!, pensou a moça. Sou a única aqui a conservar algum senso. Ele
espera que um romance seja um mar de rosas e, agora, as crianças estão vivendo um
conto de fadas!
— Escutem, todos vocês. Vamos voltar para Boise. Se não formos resgatados,
então vamos ter de dar um jeito de voltar sozinhos. O capitão Stillman está planejando
ir procurar ajuda. E nós vamos com ele.
— Não, vocês não vão — contestou o piloto.
— Você não pode nos impedir de ir! Vamos seguir você.
— Eu não vou a lugar nenhum antes de o Papai Noel chegar — afirmou Molly.
— Se ficarmos andando por aí, vai saber onde ele deixa os meus presentes! Santee
disse que se ele não enxergar o SOS, os anões dele vão ver.
74

— Vamos estar de volta a Boise no Natal — garantiu Rebecca. — E vamos ficar
todos juntos. Entramos nisso juntos e vamos sair juntos.
— Nós gostamos daqui — insistiu Santee, tristonho.
— Talvez a gente possa voltar depois — tentou Rebecca.
— Não podemos — disse Jonesy. — Eles não deixam órfãos fazerem reuniões.
Depois que formos separados, acabou-se.
No orfanato, Rebecca era a principal encarregada de quase tudo, mas na
verdade ela não era uma assistente social licenciada e sim apenas uma ajudante.
Estando naquele esquema há mais tempo, as crianças sabiam mais da mecânica do
processo que ela.
— Nessas circunstâncias, considerando tudo pelo que vocês passaram, essa
regra não se aplica.
— Quantos dias faltam para o Natal? — quis saber Molly.
Rebecca olhou para Parnell.
— Cinco — disse ele, pegando o rolo de mapas e cartas topográficas.
— Pensem em como Abigail deve estar triste — arriscou Rebecca, juntando os
pratos. — Não é legal da nossa parte em relação a ela ficar aqui um minuto além do
que for preciso. Imaginem como o Natal dela será triste sem a gente.
— Ela estava mandando a gente para encontrar novos pais, porque tem de se
livrar de nós. Ela não tem mais dinheiro para nos sustentar.
— Isso não quer dizer que ela não ame vocês.
— Ninguém ama a gente — garantiu Jonesy.
— Eu amo — Rebecca afirmou.
— Você recebe um salário para isso — rebateu Santee.
— Não, não recebo. Não se pode pôr um preço no amor.
— Bem, se você nos ama — observou Molly, com o dedo na boca —, vai deixar
que a gente fique aqui até o Papai Noel chegar.
Rebecca largou os pratos e pegou a menina no colo.
— Eu amo você. Se um dia eu tiver uma filha, quero que ela seja exatamente
como você. Ou talvez eu prefira que ela não seja tão emburrada.
— Você quer uma filha manca?
— Um dia suas pernas vão ficar boas.
— Você vai deixar ela chupar o dedo?
— Creio que sim.
— Ela vai ter de tomar cuidado. Não é muito bom ser a filhinha de alguém. Deus
pode levar a mãe da gente para o céu — disse a menina, triste.
75

Rebecca notou que sua dor de cabeça estava voltando. Disse:
— Deus sempre cuida de todo mundo que vai para perto dele. É um bom lugar
para se ficar. Existem lugares que não são bons...
Que desculpa mais esfarrapada, pensou ela, sentindo-se envergonhada.
— Sim — concordou a menina. — E um deles é onde não está o Papai Noel.

A mesa de três pernas agora tinha quatro, de tamanhos diferentes. Parnell
cortara todos os pés pelo meio e usara uma das metades como a quarta perna,
fazendo a mesa ficar digna de um restaurante chinês. Mas era uma superfície
adequada para abrir os mapas. As crianças reuniram-se a sua volta e o piloto
descobriu-se pensando em voz alta, por causa de Nicholas. Os outros seguiam sem
problemas o trajeto que fazia com o dedo no mapa.
— Onde é que nós estamos? — perguntou Santee.
— Em algum lugar por aqui, acima de quarenta graus de latitude e cento e vinte
graus de longitude.
Isso significava pelo menos trinta quilômetros da estrada mais próxima, em
terreno montanhoso, floresta, neve.
— Como você sabe que estamos mesmo aí?
— Não sei — confessou ele, fazendo o dedo descer pelas Sierras Nevadas até o
Desolation Valley.
Não, não podemos estar aqui, pensou ele. É muito para o sul.
— E como você sabe em que direção andar?
— Se eu for para sudoeste, acabo chegando a uma estrada. Norte me faria
entrar mais na floresta.
— Norte é onde eu queria estar.
Parnell se concentrou nos olhos escuros de Santee.
— Nem mesmo pense nisso. Quero que você fique com Rebecca até eu trazer
ajuda. Ela não iria conseguir sem você.
— Não quero voltar. Abigail não pode mais ficar com a gente. E eu fugi tantas
vezes que vão me mandar para um reformatório.
— Bem, Santee, chegou a hora de parar de fugir. Ei, quando sairmos dessa, eu
te ajudo, talvez até te ensine a voar. Sempre pensei em montar um negócio de
pulverização de colheitas, e você pode me ajudar.
— E depois?
— Depois, eu não sei. Ninguém pode predizer o futuro.

76

— Eu posso — disse Rebeca, levando Molly para a cama. — No futuro próximo,
todos vão dormir, menos os adultos. E o futuro distante é que nós todos vamos ficar
juntos, aqui ou indo embora.
— Rapazes, eu cuido disso — garantiu Parnell.
— Não vejo como — disse Jonesy. — Rebecca acha que ela é o chefe.
— Não seja bobo — contestou Yancy. — Se o capitão diz que vai cuidar disso,
então ele vai mesmo.
— Vou arrumar outra coisa para ela pensar — resmungou Parnell, os músculos
da face tensos sob a barba crescida.
Rebecca não tinha nenhuma intenção de debater qualquer coisa com o piloto
enquanto as crianças estivessem acordadas. Só uma hora depois estava pronta para
dar a ele a oportunidade de "arrumar outra coisa para ela pensar".
Enquanto esfregava os pratos com neve, à porta, ela percebia que o piloto a
observava.
Parnell estava cada vez mais impaciente. Rebecca lavou o rosto, escovou os
dentes, pôs neve para derreter e depois pegou seu pequeno estojo para manicure e
sentou-se, começando por lixar as unhas destroçadas.
Para ele o barulho era o mesmo de um giz raspando numa lousa.
— Você precisa fazer isso?
— Minhas unhas estão horríveis.
— Está me deixando maluco!
O desejo dele era de brigar, mas a expressão no rosto de Rebecca era de
inocência. Ou quase. Parnell baixou os olhos e quando os ergueu de novo ela o olhava.
Ele temeu que Rebecca fosse capaz de compreender inteiramente o que se passava
em sua mente. Ela colocou a lixa e o estojo de lado.
— Certo. Então, continue com a sua demonstração de heroísmo. É isso que
você quer?
— Eu só estava distraindo as crianças.
— Como vocês, homens, são indiferentes...
— Não sei do que está me acusando agora, mas, se quer brigar, então eu topo!
— Grite mais um pouco. As crianças ainda não acordaram.
— Eu vou procurar ajuda e você não vai junto!
— Só para ser bem-educada, eu vou ouvir seus motivos.
— Sozinho posso ir mais depressa. E você sem dúvida percebeu a neve. Está
em camadas, e é esse o tipo que causa avalanches. Quem sabe qual será o tamanho
das montanhas que terei de subir... A menina não iria conseguir.

77

— Você pode ir fazendo marcas pelo caminho e nós vamos seguindo, mais
atrás...
— É impossível convencer você seja do que for!
— Eu só acho que devemos ficar juntos. E temos de estar em Boise antes do
Natal.
— O que é o Natal? Só mais um dia, como os outros.
— Você me faz lembrar os meninos. Eles fazem assim, fingem que o Natal não
existe. Mas você precisava ver as carinhas deles na manhã de Natal, abrindo os
presentes. E a ansiedade antes de descobrir o que há nos pacotes!
— Não, isso não é comigo.
— Ah, eu acho que é, sim. Você quer essas coisas, mas tem medo de não
conseguir.
— Isso é loucura.
— Me conte, como foi que ficou órfão?
— Como muitos outros garotos. Meu pai morreu na Guerra da Coréia, minha
mãe continuou... seguindo as tropas, por assim dizer. Um dia ela foi e me deixou para
trás.
— Quantos anos você tinha?
— Treze.
— Lamento — disse ela, apoiando a mão no joelho de Parnell.
— Não lamente. Eu me ajeitei.
— Como?
— Caí na estrada. Naquela época era mais fácil. Sempre havia grupos de
hippies numa comunidade, ou algo assim, para ajudar a gente. Tio Henry ficou comigo
dois anos depois. Ele me ensinou a voar. Pulverizamos montes de plantações e
fizemos alguns shows aéreos. Eu queria mais que isso e me alistei na Marinha quando
tinha dezessete anos. Saí depois de outros vinte. E aí não tinha para onde ir, a não ser
procurar o tio Henry de novo. Ele morreu e largou e a empresa de transportes aéreos
nas minhas mãos.
— Largou? Você adora esse trabalho.
— Agora ela é propriedade dos credores.
A mão de Rebecca permanecia no joelho do piloto.
— Você pode sair dessa, se quiser mesmo!
— Ah, claro que quero! — confirmou Parnell.
E quero muito mais que aquele aeroporto, pensou olhando para a mão da moça.
Então, ergueu a dele e colocou-a sobre a dela.
O brilho no olhar de Rebecca indicava que sabia algo incrivelmente satisfatório.
78

— E se formos bater um papo na outra sala? — sugeriu ela.
— Sim, claro. Por que não?

Capítulo 10

Um dos itens mais úteis encontrados no armário do avião foi o cobertor térmico.
Parnell o havia pendurado no meio do quarto, a fim de conservar o calor do local. Outra
coisa importante eram os cobertores de lã. Eram suficientes para cobrir as crianças,
sobrando um para ele e outro para Rebecca. Naquela noite, fizeram uma confortável
cama com os cobertores no chão do que chamavam de sala. A porta do forno do fogão
deixada aberta fornecia uma luminosidade suficiente para se enxergarem.
— Você fica bem de barba — disse ela, acariciando-lhe o rosto.
— Droga! Barba não serve para nada.
— E estou vendo que há alguns pêlos brancos. Você não é daqueles sujeitos
que se incomodam em envelhecer, é? Acho que um homem com têmporas brancas fica
muito distinto.
Ele passou as mãos pelas costas nuas da moça. Estava maravilhado com o
corpo de Rebecca, fascinado com o modo pelo qual se encaixava no dele. Inclinou-se
para beijá-la na testa, murmurando:
— Você me enlouquece, Rebecca. Acaba comigo. Não consigo nem saber quem
foi que começou isto. Foi você?
— Acho que foi uma combinação — respondeu ela, beijando-o.
— Uma combustão, é o que você quis dizer. E me beijando desse jeito, tudo que
vai conseguir é me fazer começar de novo.
— É mesmo? E se eu fizer isso?
Então, ela tocou com a língua o peito de Stillman.
— Ei!
— Quieto. Você também fez isso comigo.
— Mas... aí, é diferente...
A idéia de ter tais estímulos, dia após dia, estava se solidificando na mente dele.
Ficava imaginando como ela não seria numa cama de verdade, com privacidade...
A boca ardente de Rebecca deslizou e Parnell sentiu a língua passar pelas
costelas. A mão que envolvia seu pescoço soltou-se, indo agir suavemente entre suas
pernas. Ele começou a gemer.
79

— Acho que isso é o necessário para trazer você de volta, Parnell.
— De volta?
— Você não estava aqui. Meu jeito de fazer amor o aborrece?
— Se me aborrece? Você é a coisa mais excitante que jamais me aconteceu!
— Então, no que estava pensando?
— Estava me perguntando quanto tempo eu ainda conseguiria agüentar.
— Bem, eu gostaria de agüentar tudo que você quisesse me dar.
— E se me desse inteira a você?
O estômago do piloto emitiu um sinal de alarme, contraindo-se. Aquilo era uma
questão de dois níveis. Preferia cortar a língua a admitir amar. Assim que
regressassem à civilização, ela voltaria para sua vida doce e ele para suas máquinas
cheias de óleo. E o que lhe aconteceria? Lá estaria, com o coração partido. E levaria
meses para controlar a sensualidade de novo.
— Então? Me res...
Ele a fez calar-se, puxando-a para si e beijando-a com paixão. Sentindo o
quanto ele estava ansioso, Rebecca ondulou o corpo, deslizando sobre os músculos
tensos dele e se fez possuir. Ofegante, Parnell imobilizou-se.
— Algo errado? — perguntou ela.
— Nada.
— Nós vamos sempre nos lembrar disto, não é?
— Eu não conseguiria viver o suficiente para esquecer.
— Eu amo você.
— Eu... eu... estava pensando nos meus machucados nos joelhos e cotovelos...
Ele parecia inseguro e vulnerável. Rebecca riu, e o som de sua risada, baixinha,
misturou-se ao crepitar do fogo.
— É mesmo? Coitadinho... Seu corpo realmente sofre mais... Quer parar? —
perguntou, marota, fingindo se levantar.
— Não brinque assim!
Ela contraiu os músculos, sentindo a resposta dele dentro de si, então se curvou
e beijou-lhe a orelha.
— Você é tão forte... E eu o quero tanto, Parnell!
— Pare. Fique parada.
— Mas eu te quero tanto... E se eu fizer assim?
— Oh, Deus — exclamou ele, e suas costas arquearam.
— Fomos feitos um para o outro. Você sabe disso, não sabe, querido?
80

— Eu não sei nada. Não consigo pensar.
— Talvez fosse melhor se eu o deixasse dormir...
— Se você sair daí eu quebro todos os seus ossos.
— Eu não sou uma pessoa violenta.
— Quer ficar quieta?
— Mas eu pensei que você quisesse conversar!
— O que eu quero é isto — disse ele.
E ele girou o corpo, levando-a consigo, fazendo-a ficar por baixo. Tudo o mais
desapareceu, a não ser o amor intenso, doce e ao mesmo tempo desesperado que os
unia.

Rebecca despertou lentamente. O cheiro de café espalhava-se pelo ar. Por um
breve instante ela achou que estava no orfanato, imaginou que ouvia as crianças
brincando lá em baixo, na grande cozinha da casa de fazenda. Imaginou que ouvia
Abigail repreendendo um dos meninos, ensinando bons modos à mesa. Então sentiu a
dureza do beliche. Mas o cheiro de café permanecia e a cabana estava em silêncio.
Quieta demais. Erguendo a cabeça, percebeu que se encontrava sozinha.
Vestíu-se, rápida, e ainda punha o casaco quando saiu. Era fácil perceber as
pegadas de Molly na neve, indo para o banheiro.
— Molly? — chamou, batendo na porta do banheiro.
— Vim aqui sozinha! — respondeu a menina, orgulhosa.
— Onde estão os outros?
— Não sei. Mas eles não me deixaram ir junto.
— O que o capitão disse para você?
— Ele disse para eu ficar com você, até que acordasse.
— E então?
— Então, eu quis vir ao banheiro.
— Há quanto tempo eles saíram?
— Não sei. Você vai me dar café, agora?
— Num minuto. Eu ajudo você a voltar para a cabana. Se os garotos
aparecerem, diga que é para esperarem até eu voltar.
— Eu não quero ficar sozinha. Um urso pode vir me pegar.
— Todos os ursos estão dormindo.
— O Santee disse que só as mamães-urso dormem todo o inverno.

81

— Bem, Santee não é um grande especialista em ursos. Agora, eu preciso ir
encontrar o capitão — disse ela, preocupada com a possibilidade de ele ter ido embora.
Levou a menina para a cabana e voltou para a porta.
— Um urso vai vir me pegar, eu vou morrer e você vai se sentir culpada.
Rebecca resolveu tomar um gole de café para rebater a ansiedade que começava a
sentir.
— Eu só vou até o lago e volto já — assegurou a moça.
A caminhada foi inútil. Não havia ninguém lá. A porta do avião estava fechada e
ela não conseguiu abri-la. E o SOS continuava brilhando solitário na neve.
Quando voltou à cabana, os garotos estavam lá. Só faltava Santee.
— Veja, Rebecca! — exultou Jonesy, mostrando a carcaça de um coelho sem a
pele no chão. — Santee deve ter pego esse coelho na armadilha.
— Onde ele está? E o capitão? Eles foram embora, não foram? E nos deixaram
aqui? — indagou ela, deixando-se levar pelos nervos.
— Santee disse que não ia voltar. Você vai ter de encontrar ele primeiro.
— E o capitão? O que ele disse?
— Que é melhor a gente obedecer você ou ele arranca nossas peles — disse
Jonesy, encostando a ponta da bota no coelho. — É assim que a gente fica sem a
pele?
— Ele disse que vai levar Scrappy para a fábrica de sabão se eu não for
bonzinho — informou Yancy.
— E que não tinha nada contra chicotear um menino cego — completou
Nicholas.
Rebecca imaginou o piloto alinhando as crianças e fazendo ameaças, com cara
de mau, depois indo embora e deixando-a com as conseqüências. A essa altura ele
devia estar rindo muito disso.
— Você sabe como cozinhar um coelho? — quis saber Jonesy, preocupado com
a fome.
— Não — respondeu ela, pensando furiosamente no que fazer.
— Ele tem proteínas. E você disse que nós precisamos de proteínas! — insistiu
o menino.
— Eu queria saber o que o Santee fez com a pele — disse Nicholas.
— Acho que ele vai fazer um casaco — arriscou Yancy.
— Pra um casaco precisa de mais que uma pele, estúpido!
— Parem com isso! — ordenou Rebecca, observando que o coelho tinha feito
Molly fugir para a cama, com o dedão na boca. — Ótimos pioneiros vocês iriam dar!
Nós vamos cozinhar esse coelho! E ele vai ficar ótimo, vão ver.

82

— Nos filmes de caubói eles sempre colocam o coelho em cima da fogueira,
enfiado num espeto e...
— Bem, nós não estamos num filme de caubóis. Estamos só perdidos. Estamos
perdidos e vamos permanecer perdidos. Nós vamos morrer! — gritou ela, fora de si,
não acreditando que aquela voz histérica, descontrolada, era a sua.
Então, sem conseguir se conter, chorou. Alarmados, os garotos se afastaram e
Molly cobriu o rosto. A custo ela parou de chorar e disse, tentando acalmar as crianças:
— Ei, não prestem atenção no que eu disse... É que só estou com medo. Não
sei como encontrar o Santee. E estou brava com o capitão por ter ido sem a gente.
— Ele vai voltar — garantiu Nicholas. — Ele gosta da gente.
— Espero que goste mesmo... — suspirou Yancy.
Por meia dúzia de vezes ela saiu para observar os arredores da cabana,
procurando encontrar Santee e chegou a ir até o velho abrigo, imaginando que ele
poderia estar lá. Mas a neve ao redor não tinha pegada alguma. Então, disse a si
mesma que ele voltaria quando escurecesse. Do lado de trás da cabana encontrou
pegadas que iam para o sul, e pelo tamanho eram de Parnell.
Sentia falta do piloto. Sentia que algo muito importante fora separado de si.
Ficou ali olhando as pegadas até que não as visse mais por causa da escuridão.
Estava apreensiva, mas não se permitiu pensar que tinha medo por Stillman. Ele devia
estar bem. Sabia se cuidar. Afinal, fora treinado na Marinha. A apreensão era por si
mesma e pelas crianças.
Abraçando a si mesma, parada ali sem saber o que fazer, só sentia falta dos
braços de Parnell apertando-a.
Tire a gente daqui, todos vivos, pensou ela, falando com Deus, e juro que nunca
mais vou reclamar, pelo menos não com Você. Quando eu encontrar Parnell Stillman,
de novo, vou cuidar dele sozinha!
— Nós vamos ficar bem — disse ela, voltando para dentro da cabana.
— E o Santee?
— Ele também vai ficar bem. É esperto. Pode se cuidar. E tenho certeza de que
aparece a qualquer hora, sabe que estamos preocupados com ele.
— E o capitão?
Rebecca testou o coelho com o garfo.
— O capitão? Ele é o sujeito mais estúpido que eu conheço! E vou dizer isso a
ele na primeira chance!
A primeira chance aconteceu quando ela estava examinando o coelho de novo.
Parnell entrou cabana adentro, trazendo pelo braço um Santee que não tinha nada de
alegre.
— Esse é o agradecimento que consigo! Prometi ajudar esse garoto, ensiná-lo a
voar! Ele me deu sua palavra de que não ia fugir. E fui encontrá-lo do outro lado do
lago.
83

— Eu estava seguindo o veado!
— Sei! Você estava era montando um acampamento.
— Diga a ele, Rebecca! Encontrei pegadas. Estava fazendo uma armadilha! Eu
disse pra Molly dizer que...
— Não jogue a culpa em mim! Sou pequena demais para lembrar de tudo. Só
tenho cinco anos.
Rebecca não podia falar, negar ou verificar fosse o que fosse. Sua garganta
estava totalmente contraída. O alívio a tomava, vindo de muito longe, como algo
estranho e novo.
Ela largou o garfo, que caiu dentro da panela do coelho.
— Oh! Vejam o que me fizeram fazer!
Observando-a, Parnell percebeu a preocupação em seu rosto, e viu também que
o coração dela estava acelerado. Passou o braço pelos ombros de Rebecca e levou-a
para um beliche.
— Ei, fique calma. Estamos todos bem.
— Não quero me acalmar! Eu achei que você tinha ido embora!
— Fui dar uma olhada acima da linha das árvores. íamos nos sentir muito idiotas
se descobríssemos que há uma estrada aqui do lado e nós não a vimos.
— E há alguma estrada?
— Não.
— Você disse que nós... Isso quer dizer que não vamos mais brigar sobre essa
história de você ir e a gente ficar?
— Você me convenceu. Ficarmos juntos é a melhor coisa a fazer.
Ficar juntos. Essas duas palavras ficaram ecoando na cabeça dele durante todo
o dia. Agora Rebecca era bem mais que um simples detalhe em sua vida. Olhando-a,
percebeu o contraste entre sua grande estatura e a pequenez dela. Teve vontade de
dizer-lhe isso, mas percebeu também as crianças sentadas em semicírculo, atentos a
cada palavra deles. Não podia se declarar diante de tanta gente. Além disso, Rebecca
não parecia no estado de humor adequado para apreciar o que ele tinha vontade de
dizer.
— Bem — disse, então —, estou faminto. O que temos para jantar?

Tenho uma escolha, pensou Rebecca. Posso começar uma briga e arruinar o
que pode ser uma boa noite ou posso apenas esquecer que fiquei brava.
A carne do coelho ficou um pouco sem sal, mas com a pasta de bacon melhorou
muito. Com ela, mesmo as bolachas duras e velhas ficaram ótimas. Não sobrou nem
um pedacinho. Parnell foi efusivo com os cumprimentos para Santee e Rebecca.

84

O garoto exultou com isso e acabou convencendo Parnell de que perdera a hora
fazendo a armadilha para o veado.
Depois que as crianças foram para a cama, o piloto voltou a estudar os mapas,
desenhando o melhor trajeto para sair dali, mas Rebecca percebeu que ele ficava
quase todo o tempo olhando para ela.
Estava impressionada com o modo cavalheiresco com que ele a tratava agora.
Mas continuava brava.
— Vamos, fale de uma vez — pediu Parnell, mantendo os olhos no mapa.
— Você quer mesmo saber?
— Eu perguntei, não foi?
— Estou brava, é isso.
— É mesmo?
— Você está sendo condescendente.
Stillman ficou quieto.
— Estou impressionada com sua atitude comigo e por você ter passado o dia
fora sem me avisar. Isso foi falta de consideração.
— Você estava dormindo.
— Podia ter me acordado.
— Eu tentei, mas você parecia tão...
— Tão o quê?
— Frágil, eu acho. E não espere que eu fique dizendo esse tipo de coisas.
Frágil?, pensou ela. Nunca me senti assim. Isso implicaria em que alguém
cuidasse de mim e sempre fui eu que cuidei de mim mesma.
— Fiquei preocupada. Saí para procurar você.
— Eu não estou acostumado a que se preocupem comigo.
Parnell ficou algum tempo olhando para o fogo, e Rebecca, de súbito, teve medo
do que ele diria a seguir. Então, ele ergueu os olhos e os fixou nela.
— Acho que eu conheço a cura para a preocupação.
— É mesmo?
— Vou fazer chocolate quente para nós.
Rebecca olhou-o com alguma decepção.
— Podemos tomar o chocolate lá — disse ele, apontando para a sala.
— Você só quer sexo! — reclamou, fingindo-se ainda brava.
— Quero fazer algo que alegre você.
85

— Certo... Eu também quero que você faça algo que me alegre, mas Parnell...
— Sim?
— Esqueça o chocolate.

Levou dois dias para que a viagem fosse preparada. Tudo que não conseguiam
carregar foi levado para o avião e guardado. As lancheiras e sacolas foram convertidas
em mochilas para transportar as rações. Foram preparados bastões fortes para todos.
O grande bote amarelo foi aberto na neve e cortado em quadrados, que viraram
ponchos. Parnell fez todos vestirem pelo menos duas peças de roupa, uma por cima da
outra. Deu suas meias novamente para Rebecca e protegeu os pés com uma camiseta,
dividindo-a em duas partes.
O sol era apenas um brilho laranja no céu quando o fogão a lenha foi alimentado
pela última vez. Stillman tomou o último gole de café e olhou para Rebecca. Não
estava de muito bom humor.
— Então, é isso... — disse ele, desalentado.
— De certo modo lamento ter de ir, agora que nos acostumamos com as coisas
aqui... — foi o comentário triste de Rebecca.
Santee pendurou suas armadilhas nos pregos da parede da cabana. Não tinha
pego nada naquela noite.
— Eu vou voltar aqui um dia — disse ele.
— Eu também quero voltar — afirmou Rebecca. — Talvez num verão...
— Se vamos mesmo, então tem de ser agora! — disse Molly. — Preciso estar
em algum lugar antes do Natal!
— Então, vamos! — gritou Parnell.
— Você precisa gritar assim? — reclamou Rebecca, com um sorriso. — Afinal,
nenhum de nós é surdo. E você, está bem?
— Sim, sinto-me ótimo. Vamos.
O piloto estava apreensivo. Achava que Rebecca iria vê-lo de um modo diferente
quando voltassem para a cidade, achava que ela não iria mais querer saber dele.
Durante a última noite sonhara todo o tempo com a moça, que a beijava, que dormiam
juntos. Sentiu que ela o olhava enquanto verificava os mapas dobrados, os fósforos no
bolso; a bússola, o machado e o revólver no cinto.
— O que você está olhando?
— Nada!
— Foi o que eu pensei.
— Por que quer brigar logo agora?

86

— Não, nada disso. Vamos, vamos embora. Santee, nós dois vamos nos
revezar na frente e atrás da fila. Você começa na frente. E vamos andar depressa.
Quero estar no alto da primeira encosta quando a noite chegar. Todos prontos?
— Eu pareço um boneco de neve com todas estas roupas — disse Rebecca. —
Me sinto ridícula.
— É, só uma mulher para se preocupar com sua aparência no meio do nada. Vai
agradecer pelo calor mais tarde.
Ele saiu da cabana, dizendo a si mesmo que teria de lidar com o que viesse a
acontecer.
Rebecca percebeu que havia algo se interpondo entre eles. Calculou que Parnell
estava considerando a possibilidade de mudar de idéia sobre ela. Então, voltou-se e
tocou na parede da cabana, uma parte terminada de suas vidas. Mas fora ali que
encontrara algo que sempre procurara. E não ia deixar que aquilo lhe escapasse sem
lutar.
Molly pegou a mão de Nicholas e enfiou o bastão na neve.
— Então, vamos — disse a menina.

Os quilômetros iam passando à medida que seguiam a trilha escolhida por
Santee, e para Rebecca parecia que tinham de parar a cada minuto para recuperar o
fôlego. Quando por fim Parnell anunciou uma parada, ela se deixou cair na neve e ficou
observando suas pernas, que tremiam. Stillman se ajoelhou ao lado dela e massageouas com vigor.
— Como se sente?
— Essa massagem é ótima! Se houvesse uma sauna aqui...
— Você gosta desse tipo de coisa?
— Se houver, é gostoso. Mas vivo bem sem isso. Por quê?
— Por nada. Só estou conversando.
— Economize seu fôlego.
Quando as sobrancelhas dele se ergueram, Rebecca começou a sorrir, mas
então decidiu não fazê-lo. Se Parnell estava mudando de idéia quanto a ela, podia
fazer o mesmo.
— Eu acho que vou me livrar do Scrappy — disse Yancy, com um longo suspiro.
— Ele é um cavalo e não posso nem mesmo montá-lo. Eu queria ter um cavalo de
verdade! Então, eu poderia andar bem depressa por essas montanhas!
— Scrappy sempre foi um bom amigo seu — disse Rebecca, com cautela.
— Eu sei, mas ele dá muito trabalho. E além disso ninguém o vê além de mim.
Abigail sempre diz que eu devia deixá-lo num pasto. Se eu ficar preocupado, posso ir lá
e falar com ele.
— Quando voltarmos você pode conversar com Abigail sobre isso.
87

— Eu quero só ver a cara dela quando nos vir vivos! — comentou Jonesy.
— Aposto que todo mundo pensa que estamos mortos! — disse Nicholas,
alegre.
— Se Papai Noel pensar que eu estou morta, ele vai dar meus presentes para
outra menina!
— Papai Noel é como Deus — disse Parnell. — Ele sempre sabe se você está
viva ou morta.
— Parnell! — exultou Rebecca. — Que coisa doce que você disse!
O rosto do piloto ficou vermelho."
— Eu só queria evitar choros. Vamos, todos de pé. Vamos continuar.
Depois de duas horas, Molly não conseguia mais andar. Stillman passou a
carregá-la nos ombros. Ao pôr-do-sol, todos tinham os rostos e mãos queimados pelo
vento e as orelhas tão geladas que só tocar nelas causava muita dor. Levou dez horas
para subirem a encosta que Stillman subira antes em quatro.
Encontraram abrigo embaixo de uma pedra grande do lado sul da montanha.
Não era bem uma caverna, mas o chão não tinha neve e estava cheio de galhos e
folhas secas. Havia um vago cheiro de animais.
— Um belo abrigo para passarmos a noite — gemeu o piloto, colocando Molly
no chão.
Entre "aaahhs" e "oooohs" todos se sentaram, largando a carga.
— Se eu me sentar, nunca mais me levanto — disse Rebecca.
— Eu posso fazer uma fogueira — propôs Santee, recolhendo os galhos.
— Meu nariz está gelado — anunciou Nicholas.
Stillman examinou o nariz do menino, depois os pés de Jonesy, que reclamava
muito.
— É... — declarou ele —, vamos ter de encontrar um modo melhor de nos
protegermos do congelamento.
— Meu nariz vai cair?
— Não, não vai não. Rebecca, você pode dar uma olhada nos pés de todos? As
bolhas podem ser tão perigosas quanto o frio.
— Eu não devia ter insistido para virmos todos — lamentou ela. — Estava
errada. As crianças não vão conseguir. É suicídio!
— Pare com isso, mulher! A decisão foi minha e só minha. Se eu achasse que
vocês não conseguiriam, não os teria trazido. Passe aquele anestésico nos pés de
todos.
— Mas veja como estamos!
— Vou imaginar alguma coisa, um modo melhor de viajarmos.
88

— Algo como prender uma maca no Scrappy? — ironizou Rebecca.
— Parece que você não está assim tão mal. Sua língua continua a mesma de
sempre! — zangou-se o piloto.
— A língua é sempre a última coisa a cair! — rebateu ela.
Stillman abriu a sacola e pegou as panelas e comida. Movia-se lentamente, seus
ombros doíam.
— Rebecca, descanse por uma hora. Eu preparo a comida.
Ela ergueu uma sobrancelha, mas chamou os menores para ficarem a seu lado.
O fato de não reclamarem da dureza das pedras tornava evidente o quanto estavam
cansados. Rebecca abriu o cobertor térmico e colocou-o sobre todos eles.
Acordou com Parnell sacudindo-a.
— Me deixe dormir.
— De jeito nenhum. Eu fiz isso uma vez e você me acordou. Agora, vá comer.
Passando pelas crianças que dormiam, sentindo dores em músculos que nunca
antes imaginara possuir, ela foi até a neve e a esfregou no rosto. Enquanto comia,
Parnell ficou olhando o fogo. Não parecia feliz.
— Você está preocupado, não é?
Ele não a olhou, sentindo vontade de se abrir com ela, só para ver o que diria.
Via-se com um pé no inferno e outro no paraíso, sem saber para onde pular. Mas
continuava a notar que a cada passo que os afastava da cabana Rebecca ficava mais
e mais parecida com aquelas mulheres que faziam seu estômago doer. Se conseguisse
ser mais direto... Mas esse não era seu jeito. Mesmo sabendo disso, não podia evitar
de ser atraído por ela. Sentia isso entre as pernas, na cabeça, no coração.
— Estava só pensando no avião.
— Ele não estava no seguro? Eu pensei...
— Posso substituí-lo, mas comprar um avião usado não é como ir à loja de
carros usados da esquina. E a Boeing não fabrica mais esse tipo de avião. O que é
uma pena. Amos e eu recondicionamos aquele aparelho.
Havia algo estranho no modo como falara. Rebecca tentou definir o que era,
mas não conseguiu.
— Sabe, estou um pouco assustada... sobre voltar.
— Por quê?
— Não vai haver entrevistas e coisas assim?
— À essa altura já somos notícias antigas.
— Seja prático. Cinco órfãos, uma mulher, um homem, passando duas semanas
perdidos...
— Se lhe perguntarem, concentre-se no básico. Não mencione...
89

— Não mencionar o quê?
Mas ela sabia o que Stillman queria dizer. Esquecer a relação que tiveram.
Esquecer que tinham se apaixonado.
— Entendo o que quer dizer, Parnell.
— Bom, não ia ficar bem, não acha? — disse ele, sabendo que não dava a
mínima se ela resolvesse gritar contando tudo a quem quer que fosse.
— Não. Não ia mesmo...
Os olhos deles se encontraram.
Rebecca ficou esperando que ele dissesse que não importava o que os outros
pensassem, que iam ficar juntos, que iam se casar.
Parnell ficou esperando que ela dissesse que o amava e não dava a mínima
para o que os outros achassem disso.
Ele ergueu os ombros porque sentia os músculos doloridos. Ela interpretou mal
o gesto e olhou para outro lado.
— Bem, então é isso.
A moça olhou para o prato vazio que tinha no colo. Comera sem sentir o gosto
de nada.
— Acho melhor eu cuidar dos meus pés também.
— Eu ajudo você — ofereceu Parnell.
— Não precisa.
— Eu não me importo.
— Não quero que você toque em mim!
— Tá bem, tá bem! Eu compreendo.
Está vendo?, pensou ele. Eu sabia. Amar sempre machuca!

Capítulo 11

O melhor modo de seguir viagem, na opinião de Parnell, era ele indo na frente e
escolhendo locais para o descanso do meio-dia e para o acampamento noturno.
Rebecca achava que ele só fazia isso para ficar longe dela, já que àquela altura eles
não se olhavam nem mesmo quando falavam.
—. Não gosto disso. E se alguém se ferir?
90

— Mande Santee me buscar.
— E se for o Santee quem se machucar?
— Mas que droga! Pare de inventar problemas. É só isso que vocês mulheres
sabem fazer? Está me dando a maldita dor de estômago, de novo!
Rebecca não gostava de ser comparada com as outras mulheres que ele
conhecera, mas forçou-se a manter a calma.
— Bem, espero que quando o alcançarmos você já tenha preparado o
acampamento, feito as camas e a comida. Vamos estar muito cansados, você sabe.
— Muito engraçado.
— Parnell, por que você está fazendo isso comigo... com a gente?
— Você quer voltar para Boise, não quer?
— Não é disso que estou falando.
— E do que é que você está falando, então?
— Você nunca me disse como se sente em relação a nada!
— O que eu sinto é vontade de sair daqui. Isso a satisfaz?
— Por que está sendo tão cabeça-dura, tão grosseiro?
— Quero dar o fora daqui.
A verdade, pensou ele, é que nunca antes quis dar tanto de mim a uma mulher.
E não só sexo...
E isso não se encaixava na imagem que ele tinha de si mesmo. Rebecca
considerava que dizer mais seria como implorar, coisa que fizera muito quando jovem.
Mas agora tinha auto-estima e não faria isso.
— Certo, Parnell, então vamos dar o fora daqui. Em que direção seguimos hoje?
Durante uma hora eles caminharam juntos, mas logo Molly ficou cansada e as
bolhas de Jonesy começaram a incomodar. Parnell seguiu adiante e Rebecca sentiu-se
abandonada.
Continuaram a seguir as pegadas dele. A paisagem era cada vez mais
impressionante. A certa altura chegaram a um ponto onde Stillman voltara e tomara
outra direção, desenhando uma seta na neve para indicar a direção a seguir. Tal gesto
fez Rebecca se sentir melhor. Pouco depois encontraram outra seta, apontando para
uma pequena caverna, onde Stillman deixara um pouco de lenha.
— Quem está com fome? — perguntou a moça, depois de acender o fogo.
Ninguém estava. Então, ela estendeu o cobertor térmico e todos se juntaram sob
ele.
Rebecca decidiu que assim que alcançassem o capitão não deixaria que ele
seguisse na frente de novo. Não se importava com independência e não conseguia
continuar estimulando as crianças todo o tempo. Não ligava mais para seu orgulho.
91

O fogo apagou. Usou o bastão para se levantar. Estava tão cansada que foi
Santee quem os conduziu adiante. Quando ficou escuro, ela achou que era melhor
pararem.
— Olhem! — disse Santee. — Ali! Um brilho. Aposto que é a fogueira do capitão!
— Eu ouvi vocês — disse Parnell, vindo da escuridão.
— Se você tivesse andado mais um quilômetro, nenhum de nós teria conseguido
— disse Rebecca.
— Encontrei uma estrada — declarou ele com a seriedade habitual, mas ela
percebeu uma agitação mal disfarçada.
— Bem... que ótimo.
Ficaram ali parados por um momento, então Stillman pegou Molly no colo e
seguiu para o acampamento.
— Ei, capitão — chamou Jonesy. — Você vai voltar para me carregar também?
— Amigo, acho que você vai ter de ir sozinho.
— Tá vendo? Ninguém gosta de um garoto gordo.
Todos os velhos medos estão voltando, percebeu Rebecca.
— Pode tirar os sapatos, Jonesy. Você não vai pegar pneumonia se andar até lá
descalço.
— Certo. Mas aposto que sou o único órfão do mundo que é corajoso o
suficiente para andar na neve com bolhas nos pés.
— É verdade. Para todos vocês, é verdade. Vivem uma aventura que outros
garotos dariam tudo para viver.
— É mesmo?
— Claro. Vocês são todos heróis.
— Ei! Talvez eles façam um filme sobre nós!
— Não, Nicholas, não chamamos tanta atenção assim.
Quando chegaram ao acampamento, Stillman cuidava do jantar. Fizera uma
pequena cabana, aproveitando o contorno de duas pedras, de modo a protegê-los do
vento. Rebecca derreteu neve para fazer chocolate quente.
— Parece os velhos tempos — comentou ela. — Foi assim que começamos:
derretendo neve. Creio que demos a volta completa.
— Você quer comer ou falar? — perguntou Stillman, estendendo o prato para
ela.
— Não fale comigo nesse tom. Não é minha culpa estarmos aqui.
— Parece que já ouvi essa música antes.
— Eu também — murmurou Santee.
92

— Fique fora disso — disse Parnell ao garoto, em tom ríspido.
— Por que vocês vão começar a brigar de novo? — perguntou Nicholas.
— Estamos só tendo uma discussão. E isso não tem nada a ver com vocês.
Mas, em nome da harmonia, o capitão e eu vamos conversar mais tarde, certo,
capitão?
— Está bem — concordou o homem.
Parnell colocou mais lenha no fogo, que cresceu a ponto de não poder mais ver
a moça do outro lado. Quando as chamas diminuíram, as crianças estavam dormindo
debaixo do cobertor térmico. Ao erguer a vista, Parnell deu com o olhar de acusação de
Rebecca.
— Não tente me fazer de bode expiatório — avisou ele, em atitude agressiva.
— Você está falando sobre a queda do avião?
— Eu assumo toda a responsabilidade quanto a isso. Mas não é do que estou
falando.
— Eu não vou mencionar nada, se você também não falar — declarou ela,
sentindo o peito apertado.
— Os garotos não notaram nada.
— Provavelmente não.
— Fomos discretos.
— Ah, fique quieto, Parnell! — pediu ela, a ponto de chorar.
Um suor frio surgiu na testa de Stillman. Sentia necessidade de abraçá-la, de
dizer coisas doces, de colocar a mão por debaixo da malha dela. Mas tinha de fazer
alguma coisa, então foi preparar a cama para Rebecca, ao lado de Molly.
— Você precisa dormir.
— Você também — disse ela, indo logo se deitar.
— Vou ficar cuidando do fogo mais um pouco — declarou ele, sentindo que era
melhor dar menos tempo para os sonhos, considerando que não havia sentido em se
deixar dominar por uma fantasia.
Mas logo a lua surgiu no céu e a fantasia veio de qualquer modo. Viu a si
mesmo acordando pela manhã, com Rebecca deitada na cama dele, seus corpos
perfeitamente encaixados. Só que provavelmente teria de casar com ela para realizar
esse sonho. Da primeira vez que se casara, não tivera tempo nem de pensar sobre o
assunto. Uma noite, Frieda disse que tinha conversado com o juiz e ele não teve nem
mesmo de buscar suas roupas, que já estavam, na maioria, na casa dela. No entanto,
não conseguia ver Rebecca tomando tal atitude. Não, com ela teria de ser uma decisão
conjunta.
Droga! Posso até me ver fazendo a pergunta!, pensou ele. "Querida, você
gostaria de se prender?" Não, isso é horrível! Talvez: "Bem, Rebecca, como já
estamos... você sabe... quer se casar?" Não, não é romântico, e as mulheres gostam
de romances. E "Meu amor...". Não, assim é demais!! Ela iria rir na minha cara!
93

Parnell olhou para as mãos. Estavam trêmulas. Então, olhou para a mulher que
dormia.
Não, a verdadeira fantasia foi o que vivemos naquela cabana...

O sol surgiu brilhante e alegre como se não houvesse miséria ou fome em
nenhum ponto do mundo. Rebecca olhou para o céu como se tivesse sido traída.
Quando voltou-se para Parnell, ele baixou a vista. O sono tinha renovado a coragem
dela e decidira que não o deixaria escapar assim fácil.
— Parnell, não vai funcionar fingirmos que não há nada entre nós.
— Não sei do que você está falando.
— Sabe sim. E é isso que quero provar.
— Essa idéia não é realista.
— Ah, então você pensou nisso? Bem, eu pensei. E o modo como nos
entregamos um ao outro, não a princípio, mas depois... Bem, tem de haver alguma
coisa...
— Foi como você disse. Fomos unidos por acidente. É só.
— Não, não acho. Mas não vamos brigar. Que tal nos encontrarmos para discutir
isso depois que voltarmos para Boise? Podemos sair para tomar um café ou algo
assim.
— Está bem — concordou ele.
Parnell não ia até Boise mais que cinco vezes por ano. Era Amos quem fazia
todas as compras. Mas, é claro, Rebecca não sabia disso. Os garotos vieram das
árvores, onde era o banheiro temporário.
— Molly está chamando você, Rebecca! — gritou Santee. — O zíper dela
prendeu e ela não quer me deixar ajudar. É melhor correr. Ela tem medo que um urso a
pegue enquanto estiver com as calças abaixadas!
— Um urso? — repetiu ela, começando a correr. — Nenhum urso que pense um
pouco iria se aproximar de mim hoje!
— Amém para isso! — disse Stillman, baixinho, mas ela ouviu.
— Parnell, não é sua vez de cuidar dos pratos?
— Sabe, tem mesmo ursos por aqui... — avisou ele.
— Ah, me ajuda muito saber disso! — zangou-se a moça.
Stillman ficou observando-a correr, gostando dos movimentos suaves do corpo
dela.
— Mas não nessa época do ano — sussurrou ele, para si mesmo, sorrindo.
— Do que você está rindo? — perguntou Yancy.

94

— De nada! Vamos, vista o poncho antes que eu separe sua cabeça do
pescoço.
O piloto julgava que aquela era uma ameaça das melhores. Nos últimos dias
aperfeiçoara várias delas, mas não funcionou: o menino nem se mexeu.
— Você é surdo ou algo assim? Vista isso! Vamos sair já daqui.
— Puxa! Eu odeio adultos. Eu queria continuar criança para sempre.
— Isso pode ser arranjado.
— Você é um velho bem esquisito.
Não foi o "esquisito" que o ofendeu, mas o "velho".
— Eu não sou velho!
— Parece. Tem rugas nos olhos.
— São causadas por risadas.
— Você não está rindo agora e as rugas continuam aí.
— Seu dia vai chegar. E espero que tenha um filho igualzinho a você.
— Eu nunca vou ter filhos. Os acasalamentos são um saco. E, além disso, é
preciso de uma garota.
— Acasalamento? Acasala!... Onde você aprendeu essa palavra?
— Na escola.
— Se tivéssemos sabão sobrando, eu ia lavar sua boca. Não se aprendem
essas coisas na escola!
— Se aprendem sim! Na aula de educação sexual.
— No meu tempo a gente aprendia essas coisas na rua!
— Eu falei que você era velho!
Parnell pensou em lançar uma série de palavrões um tanto desagradáveis, mas,
mal havia começado, Rebecca interferiu:
— Esse tipo de linguagem indica um vocabulário muito pobre — declarou ela,
chegando com Molly no colo. — Yancy, vista o poncho... — ordenou, calma.
O menino obedeceu, sem dizer nada.
Parnell estava furioso. Ter de agüentar aqueles fedelhos lhe faltando com o
respeito era demais! Isso sem falar nos ataques de Rebecca!
— É muito desagradável! Crianças desse tamanho falando em sexo!
Rebecca cobriu as orelhas de Molly com as mãos.
— Você ficou louco? Sexo não é assunto para eles, Parnell!
— Não? É só não falar, então. Basta você mostrar o que sabe!
95

— Você é pior que criança! Não fica feliz se não estiver brigando. Não agüento
mais isso! Quanto mais cedo nos separarmos, melhor! Me mostre onde fica a tal
estrada!
— Com prazer! — disse ele, curvando-se quase até o chão.

— Você disse que era uma estrada! — exclamou Rebecca, acusadora.
Na verdade, tratava-se de pouco mais que uma trilha, coberta pela neve na
maior parte.
— Mas é uma estrada. Eu não disse que era a Los Angeles Freeway. O que
você queria?
— Asfalto, com linha tracejada no meio, placas, carros, um hotel, um banheiro,
um telefone. Uma estrada de verdade. Não uma trilha no meio do nada.
— Caramba! Tem gente que nunca fica satisfeita, mesmo! Aquilo é uma estrada
de verdade. E provavelmente foi construída por uma empresa para transportar troncos.
— Pelo menos ela é plana — disse Jonesy. — Eu não ia agüentar subir mais
nem numa pedra!
— Bem... — começou Parnell — vamos ficar aqui conversando ou seguimos em
frente?
Puxando Nicholas, Santee foi até o meio da estrada.
— Pra que lado vamos?
— Vamos continuar seguindo para sudoeste — decidiu Stillman, apontando para
a esquerda. Ele foi pegar o braço de Rebecca mas se conteve. — Me dê sua sacola,
assim você fica livre para ajudar a Molly.
Era um oferta que Rebecca não pôde recusar. As alças finas estavam
machucando seu ombro, apesar do casaco.
O piloto observou o rosto dela, mas não conseguiu perceber nada. Se tivesse
certeza do que ela diria, então... mas e se a resposta fosse negativa?
Parnell tentou se tranqüilizar dizendo que costumava ter sorte, e as
probabilidades estavam do seu lado. Mas quem acreditava em probabilidades?
— Anime-se, Rebecca. Vai estar na sala de visitas de Abigail antes de perceber
o que está acontecendo. Diante daquela grande lareira...
— Parece que sim — concordou ela, mas ao mesmo tempo sabia que não era
no orfanato que pretendia passar o resto da vida. Abigail a acolhera quase como se
fosse uma órfã... — Mas não vou ficar lá muito tempo. Abigail está fechando o orfanato.
A Fundação não tem mais dinheiro.
— É mesmo? — exclamou ele, sentindo cada fibra de seu corpo ficar alerta. —
E o que você vai fazer?
— Procurar outro emprego.
96

O cérebro dele começou a funcionar à toda velocidade.
— E as crianças?
— O Estado vai encontrar lares adotivos para elas.
— Coitados...
— Você está querendo alguma coisa de mim, Parnell. Posso sentir.
— Não — garantiu, mas no íntimo agora ele tinha certeza de que aquela mulher
conseguia ler sua mente.
— Você quer que eu diga ao mundo como você foi um homem
maravilhosamente heróico.
— Claro que não!
Apesar de dizer isso, em sua mente apareceram manchetes como "Piloto salva
assistente social e cinco órfãos".
— Naquele dia em que entrei no seu escritório, lembra?, e encontrei você
dormindo, devia ter virado as costas e ido embora.
— Nesse caso eu estaria aqui sozinho.
— O que significa...
— Significa? O que significa? Como isso tudo aconteceu? — protestou ele,
girando sobre si mesmo, apontando para a paisagem ao redor. — Bem, eu queria que
você soubesse que gostei da sua companhia. Em parte do tempo...
— Isso me parece um bilhete dizendo um "obrigado", com alguma reserva.
— Uma pessoa não pode ficar cada segundo do dia ao lado de outra. Isso é
impossível.
— Eu não poderia concordar mais com você.
Quando a olhou novamente, Rebecca estava muito concentrada em seus
pensamentos, então tropeçou. Ele estendeu o braço, segurando-a pela cintura. Como
Rebecca não o abraçou, Parnell transformou o rosto numa máscara para encobrir o
prazer que sentiu com o contato.

Capítulo 12

A vantagem de seguirem pela estrada, além da certeza de encontrar a
civilização mais cedo ou mais tarde, estava no fato de poderem se ver uns aos outros
todo o tempo. Rebecca, com Molly e Jonesy, por causa das bolhas, ficaram para trás.
97

Por fim, Parnell declarou que era hora de parar. Todos se juntaram, relaxando os
músculos exaustos.
— Por que eles não nos encontraram? Por que não continuaram nos
procurando? — reclamou Rebecca, subitamente começando a chorar.
Stillman foi para o lado dela, procurando tranqüilizá-la.
— Vamos, calma. Você foi ótima. Eu só briguei com você para ter algo para
fazer. Para me assegurar de que você continuava ao meu lado. Agora, tudo que precisa
é mais um pouco de vontade para seguir em frente. Estamos perto do fim disto, eu
garanto.
— Está bem — concordou ela, por fim, já mais calma. — Mas não podemos
fazer uma fogueira? Só uma pequenininha?
— Bom, tudo bem. Mas não podemos fazer fogueiras em cada parada ou vamos
ficar sem fósforos.
Enquanto Stillman distribuía os últimos tabletes de malte, Rebecca reuniu galhos
e folhas. Pouco depois todos se reuniam ao redor da fogueira.
Ombros estavam machucados pelas alças das mochilas improvisadas, meias
estavam gastas e calças rasgadas. Jonesy tinha emagrecido tanto que até os sapatos
ficaram largos e as bolhas tinham piorado muito. Rebecca tirou as meias em trapos do
garoto.
— Ele pode ficar com as minhas meias — ofereceu Santee.
— E as minhas — disse Parnell.
Depois que Jonesy calçou as quatro meias, ficando com os sapatos mais
firmes nos pés, seguiram viagem.
— Já estamos chegando lá? — perguntou Molly.
— Lá onde? — quis saber Santee.
— Estamos numa estrada — declarou Parnell. — E cada quilômetro que
avançamos significa um quilômetro mais perto de alguém.
O almoço foi rápido, feito no meio da estrada. Depois, estenderam o cobertor.
Em cinco minutos as crianças e Rebecca dormiam profundamente.
Uma hora mais tarde Stillman acordava Rebecca.
— Temos de seguir. Vamos lá, garotos!
Voltaram a andar. A tarde caía, as sombras se alongavam. Depois de uma curva
as árvores se abriam um pouco, revelando um vale de colinas cobertas de neve. Meio
quilômetro e as árvores envolviam a estrada de novo.
— Crianças, fiquem longe dessa beirada! Droga! Só faltava alguém cair
montanha abaixo.
— Isso não deve ser muito pior que cair do céu — disse Rebecca.
— Continuem andando!
98

A estrada se estreitava e a neve se acumulava junto à encosta. Stillman olhou
para aquela parede de neve, o que fez um alarme disparar em seu cérebro.
Jonesy, parado a uma distância segura da beirada, emitiu um grito, que foi
ecoando pelo vale.
— Não faça isso! — ordenou Parnell com tal suavidade que alarmou Rebecca.
— O que houve?
— Não sei. Talvez não seja nada, mas não gosto da cara desta encosta — disse
ele, colocando Molly nos ombros.
Lá na frente, na estrada, à sombra das árvores, um movimento chamou a
atenção de Rebecca. Era um homem, agitando os braços e gritando.
— Oh! — gritou ela. — Fomos encontrados! Parnell! Fomos encontrados!
Os joelhos dela amoleceram, fazendo com que se sentasse. Stillman a ergueu.
— Continue andando!
— Tem de ser o grupo de resgate!
Mas Nicholas, que por ser cego tinha uma audição invejável, declarou:
— Ele está nos chamando de idiotas.
Um ressoar profundo chamou a atenção de todos. Parnell olhou para cima. Uma
grande parede de neve parecia começar a cair lentamente do alto da encosta.
Agora eram dois homens gritando para eles. Stillman empurrou Nicholas na
direção de Rebecca.
— Corram! Todos, vamos! Corram!
Santee pegou a mão de Yancy e os dois correram para a frente. O piloto
empurrou Jonesy com tanta força que o garoto foi jogado fora dos sapatos largos. A
princípio Rebecca ouvia sua respiração ofegante, os gritinhos de Nicholas, as botas
batendo no chão, mas logo um outro som foi crescendo rapidamente. Jonesy passou
por ela à toda.
Os homens vieram da floresta na direção deles, com as mãos para cima. Um
deles pegou Nicholas dos braços da moça, o outro a puxou. Atrás, o barulho era como
se o mundo estivesse acabando. Então ela caiu e ficou no chão, ofegante. Depois
ergueu a cabeça.
Parecia que a montanha inteira vinha caindo. Parnell corria a toda velocidade,
com Molly gritando nos ombros.
— Cara, ele não vai conseguir — disse uma voz grave acima dela.
Um pedaço grande de gelo veio rolando e bateu nas pernas de Parnell, que
caiu. Molly foi lançada para a frente e, então, a neve envolveu os dois. Levou quase um
minuto para Rebecca perceber que o grito que ouvia era seu mesmo. Forçou-se a
parar. Então, restou o silêncio.

99

O sujeito da voz grave fez um grupo de homens começarem a cavar. Rebecca
olhou para os trabalhadores, que agora eram pelo menos meia dúzia.
— Por que não chegaram antes? — gritou ela. — Cinco minutos antes?
O homem que a segurara balançou a cabeça e logo depois ela e as crianças
eram levadas estrada abaixo, onde havia uma perua rodeada por caminhões, imensos
tratores e removedores de neve. Completamente alheia ao que acontecia, Rebecca se
deixou levar para dentro da perua. Cobertores foram colocados ao seu redor. Alguém
apareceu com uma maleta de médico. Cortes e inchaços foram examinados, os pés de
Jonesy tratados. Na semi-inconsciência, Rebecca ouvia as vozes que falavam com ela.
Os homens eram de uma companhia de madeira, que abriam a estrada até um campo
no interior da floresta. Haviam provocado a avalanche, com dinamite. E, excetuando-se
a inesperada presença deles, fora um trabalho perfeito. Uma caneca de café com leite
e muito açúcar foi colocada nas mãos dela.
— Como vocês entraram na floresta? Não passa ninguém por essa estrada há
uma semana.
— Nosso avião caiu — respondeu a moça, tomando um gole do conteúdo da
caneca. — Não sei dizer onde. Estávamos tentando voltar.
— Por Deus! Quando foi isso?
— Bem... dia doze. Na manhã do dia doze.
— Vamos ter de levar vocês para as autoridades. Quantos são vocês? Espere!
Você é a assistente social com os órfãos, de Idaho, não é? Eu vi na televisão.
— Não queria sair daqui antes de vocês encontrarem a Molly e o capitão
Stillman. Não vou sair daqui.
— Nem nós — garantiu Santee. — Começamos isso juntos, e queremos
terminar juntos.
— Vamos esperar até escurecer — disse o homem. — É o que posso prometer.
Rebecca olhou para ele com um ar frio que tinha muito de hostilidade.
— Passamos por muita coisa juntos. Não vamos sair daqui sem Molly e o
capitão. Não podemos.
— Moça, você não entende...
— É você que não quer entender! Se não fosse pelo capitão Stillman, nenhum
de nós estaria vivo agora! E se ele...
— Não vamos abandonar ele ou Molly — afirmou Santee. — Ela tem medo de
estranhos.
— Tá bem, tá bem — disse o homem.
Afastou-se, gritando para que alguém arranjasse uns sanduíches. Rebecca se
recostou no assento. Os sanduíches chegaram e ela descobriu que não conseguia
engolir, nem se sentir em segurança e aquecida dentro do carro, com Molly e Parnell lá
fora, lutando por suas vidas.

100

Rebecca olhava todo o tempo para a escuridão, andando de um lado para outro
na estrada. Ouvia os homens que procuravam, gritando uns para os outros, mas não
os via. A escarpa de rocha que fora dinamitada agora parecia nua, sem neve. O medo
que a tomava concentrava-se como um nó na garganta.
Quando ouviu uma agitação vindo lá de baixo, na encosta, seu coração
acelerou.
Santee veio correndo em sua direção.
— É Molly! Eles a acharam. Está viva!
Molly estava algo mais que viva. Estava muito brava, furiosa. Rebecca pegou-a
no colo e voltou para a perua. A neve jogara a menina dentro de um buraco de onde
ela não conseguira sair. Ela gritara até ficar sem voz e agora reclamava, rouca:
— Não gostei disso. Fiquei sozinha e achei que um urso ia me pegar, minhas
roupas ficaram todas rasgadas e eu fiz xixi nas calças, mas eu não queria fazer.
— Está tudo bem, querida. Está tudo bem — assegurou Rebecca, olhando
agradecida para o homem que trouxera Molly do local onde fora encontrada.
Ele voltou a se unir aos outros, que procuravam Parnell. Santee mostrava-se
inquieto, estava pálido, nervoso. Rebecca entregou Molly para o garoto. Via que ele
precisava tocar a menina. Para ter certeza de que estava salva. Assim como ela
desejava tocar Parnell. Voltou a andar de um lado para outro na estrada.
O homem que primeiro falara com ela se aproximou. Rebecca sabia o que ele ia
lhe dizer. Queriam parar de procurar porque a noite estava fria, o vento ficando mais
forte.
— Se vocês pararem agora, vão matá-lo!
— Moça, não percebe que foi um milagre termos encontrado a menina? Mandei
um dos meus rapazes avisar as autoridades. Não temos uma única chance em cem de
encontrarmos seu amigo... Pelo menos, não o encontraremos vivo.
— Ele está vivo! Já passou por coisas piores. Voou por um furacão e
sobreviveu... Pousou em porta-aviões em todos os mares, fez pousos forçados e
desceu de barriga numa plantação de milho. Não me diga que Parnell está morto!
— Você está nervosa. E tem o direito de estar, considerando...
— Me dê aqui essa lanterna! Eu vou continuar procurando!
— Por Deus, moça...
Então, ouviu-se um grito vindo da encosta, bem lá em baixo. Logo conseguiu-se
entender o que gritavam, com as palavras ecoando na escuridão.
— Encontramos o sujeito! Ele está respirando!
— Eu sabia! — gritou ela, agarrando o casaco do homem. — Está vendo?
Em seguida, suas pernas não sustentaram mais o corpo e Rebecca se sentou
no chão, chorando.

101

— O motivo por que gosto do meu trabalho — disse o homem, para ninguém em
particular —, é que não há nenhuma mulher a menos de sessenta quilômetros de
distância.
Curvando-se, ele ajudou Rebecca a se levantar e ficou surpreso ao constatar
que ela sorria por entre as lágrimas.
— Conheço um homem que pensa exatamente do mesmo modo — afirmou ela,
com voz trêmula.

Capítulo 13

Molly saltava e dançava ao redor de Rebecca, como um cachorrinho agitado,
perguntando, sem parar:
— Há alguma carta para mim?
— Vamos ver.
— Deixe todas na mesa — sugeriu Abigail. — E vamos separá-las antes do
jantar.
— Você é pior que a Molly — disse Rebecca, rindo. — Não pode ver cartas sem
abrir!
A velha senhora sorriu e passou o braço pelo ombro da menina, perguntandolhe, enquanto acariciava a cabecinha:
— Quais são as palavras mais famosas do mundo?
— Papai Noel já veio? — disse a menina, rindo muito.
— Precisamos convidar aquela repórter para jantar um dia desses — comentou
Abigail. — A reportagem que ela escreveu conquistou muitos corações e tem nos
ajudado.
Rebecca balançou a cabeça, com ar de dúvida.
— Você não se incomoda que continuem explorando a situação das crianças?
— Me incomodar? Onde, minha jovem amiga, está seu senso de justiça? Aqui
estamos nós, a Fundação, sem dinheiro, tentando colocar as crianças em sabe Deus
que tipo de casas e então essa oportunidade cai do céu... Olhe para todas essas
cartas! Muitas delas contêm cheques. Há dinheiro para que Nicholas opere os olhos.
Você negaria a ele a chance de ver? É dinheiro para que Molly tenha as pernas
curadas. Dinheiro para comida e para a poupança de cada uma das crianças. Significa
estudo garantido para eles, até a faculdade. É o futuro deles!

102

— Eu sei, mas...
Rebecca recordava a agitação quando tinham chegado em Boise, todos aqueles
flashes espocando ao mesmo tempo, câmeras, microfones, perguntas gritadas de
todas as direções. E lembrava mortificada da foto de si mesma. O cabelo todo
desgrenhado, os olhos fundos, as roupas rasgadas. Tinha Molly no colo e um repórter
estava do lado de trás perguntando à menina como eles tinham celebrado o Natal na
floresta. A expressão chocada de Molly, suas agora famosas palavras tristes: "Papai
Noel já veio?", foram transmitidas pelas estações de tevê de todo o país. Aquilo fora no
dia seguinte ao Natal. A idéia de que os órfãos tinham perdido o Natal pegara a nação
pelo coração e abrira carteiras, enquanto a maioria das pessoas ainda estava envolvida
pelo espírito natalino.
Chegaram ofertas de adoção para todas as crianças. Mas Abigail encontrava
defeitos em todos os possíveis pais. A Fundação Tynan agora podia escolher.
Isso para não mencionar outros detalhes. De acordo com o Ato sobre Condições
de Tratamento para Crianças Indígenas, a adoção de Santee tinha de ser aprovada por
um Conselho Tribal, coisa que às vezes levava anos. E Abigail não admitia a idéia de
separar Santee e Molly. Ele sem dúvida teria de estar à cabeceira da menina quando
ela fosse operada, no verão seguinte. Nicholas iria passar por um transplante de
córneas. Abigail reservava para si mesma o prazer de mostrar a ele as belezas do
mundo. E não seria gentil tirar Jonesy e Yancy da família Tynan, enquanto todas essas
coisas excitantes aconteciam, não é mesmo?
— Você podia dar uma entrevista — arriscou Abigail, então.
— As crianças já disseram tudo. Eu só iria repetir.
Parnell também não queria dar entrevistas. Estava respondendo às
investigações da Agência Federal de Aviação e dos inspetores postais. Encontrava-se
inconsciente quando fora levado para a perua. Rebecca não o vira, nem tinha notícias
diretas dele desde que fora levado por uma ambulância. Sabia apenas o que lera nos
jornais. Ele tivera um ombro deslocado e algumas manchas roxas. Fazia quatro dias
que saíra do hospital. Tivera muito tempo para telefonar, mas não o fizera. E Rebecca
imaginara uma grande lista de motivos para isso.
Devia andar ocupado com os formulários do seguro. A AFA poderia estar nos
seus calcanhares. Ou então ele poderia estar com amnésia e nem se lembrava que ela
existia. Ou seu telefone fora desligado.
Com olhos sempre atentos, Abigail anotava cada expressão que passava pelo
rosto da amiga.
— Molly, minha querida, vou deixar para você o trabalho de separar a
correspondência. Coloque todos os envelopes com o seu nome numa pilha, depois eu
ajudo a abrir. Rebecca, venha aqui. Acho que está na hora de termos uma conversa.
Vamos tomar um chá junto à lareira.
A sala cheirava a crisântemos, que enfeitavam uma grande árvore de Natal,
presente de um doador. A posição dos móveis era a mesma havia quarenta anos. Os
velhos sofá e poltronas eram elegantes e confortáveis. E sem televisão. O ponto central
da sala era a grande lareira de pedra.

103

— Sempre gostei desta sala — comentou Abigail, passando a delicada xícara de
porcelana chinesa para a moça. — Sempre me pareceu o lugar certo para alguém falar
de seus problemas e ver tudo de uma perspectiva mais favorável.
— Eu não tenho problemas.
— Minha querida, Parnell Stillman é sem dúvida um problema. Conheço-o desde
que era adolescente. Claro, não o vi enquanto estava na Marinha, mas seu tio Henry
falava muito nele.
— Tenho certeza de que não lhe dei nenhum indício
— Rebecca, querida, você falou muito por omissão. Cada vez que o nome dele
é mencionado na tevê, você ficar olhando muito atenta. Cada vez que o telefone toca,
você fica tensa. Lê e relê cada reportagem feita sobre ele, depois fica com o olhar
perdido. Posso ser velha, mas meus olhos e ouvidos continuam muito bons. A principio
pensei que seu jeito se devia ao que tinha passado, mas à medida que ouvia o que as
crianças contavam, percebi que havia um sentido de aventura e encanto por trás das
coisas terríveis que aconteceram. Santee mal consegue ficar quieto, um
comportamento totalmente oposto ao que vinha tendo. Ele era quase um mudo, exceto
no que se referia a Molly. Agora fala, ri e se movimenta como as outras crianças. Mas
isso é passado. O que quero dizer é que você encontrou sua cara-metade em Parnell.
— Isso não quer dizer...
— Quer, sim. Você está apaixonada por ele. Os Stillman sempre foram sujeitos
difíceis. Parnell é igualzinho ao tio. E isso atrai as mulheres. E sem dúvida me atraiu,
confesso... O difícil é fazer um deles se casar.
Rebecca se deixou afundar no sofá e seu rosto formou um sorriso tímido.
— O que eu posso fazer?
— Eu o convidei para jantar.
— E ele aceitou? — exclamou ela, se empertigando.
— Não podia recusar. Afinal de contas, eu o contratei para levar vocês à San
Francisco. A mudança de rota não me agradou. Fiquei muito deprimida. Sem
mencionar o quanto fiquei assustada. Nunca pensei que pudessem estar mortos, mas
achei que estavam muito feridos. Ele está em débito comigo.
— Quando?
— Esta noite. Calculei que não seria um grande problema, agora que temos
dinheiro para contratar um cozinheira...
— Oh! — exclamou Rebecca, batendo a xícara ao colocá-la no pires.
— Querida precisa se lembrar de ter cuidado com essa porcelana. Era da minha
avô, você sabe. Insubstituível. — Depois disso, Abigail saiu da sala com um sorriso
maroto.

Tinha de estar com a melhor aparência possível, com o melhor cheiro, tinha de
usar a roupa de baixo mais jeitosa. Tinha de tomar banho e arrumar o cabelo. Escolher
104

o melhor vestido... Decidiu pelo vestido branco. Vestiu-o e constatou que faltava cor. E
era formal demais. Acabou escolhendo um suéter vinho de cashmere e calça
combinando. Pouca maquilagem: além do batom, apenas um leve toque de blush.
Soube que ele chegara quando ouviu os gritos animados das crianças. As
batidas à porta de seu quarto fizeram suas mãos ficar imediatamente suadas.
— Rebecca? — chamou Abigail. — O convidado chegou.
— Já estou indo — disse ela, enxugando as palmas. Estavam todos reunidos na
sala de estar. Mais lenha fora colocada no fogo. As crianças encontravam-se
espalhadas nas poltronas, sofá e no chão.
Parnell acomodara-se perto da lareira, com uma bebida na mão. Ergueu o rosto
quando ela entrou. Seus olhos se encontraram.
De súbito, Rebecca não conseguiu engolir, nem respirar. Não conseguiu nem
mesmo definir como se sentia.
— Oi — cumprimentou, absorvendo, examinando cada traço do rosto dele, que
era diferente da imagem que repassara vezes e vezes na memória.
Estava barbeado, mas deixara um bigode por sobre a boca sensual. Vestia terno
e gravata, perfeitos. Ergueu o copo em cumprimento, como se, ele também, não
conseguisse falar.
— Vocês já se conhecem — disse Abigail, só para quebrar o silêncio.
— Como vai, Rebecca? — perguntou ele, recuperando a voz primeiro.
— Bem, obrigada.
— Que conversa maravilhosa! — comentou Abigail, com um sorriso.
— Normalmente eles preferem brigar — disse Jonesy.
Rebecca via que Parnell tinha os olhos tão brilhantes quanto os seus. E tinha
medo de falar, apesar de sentir que a grande questão flutuava no ar enchendo a sala e
também a ela de tensão. Sentou-se no braço da poltrona ocupada por Santee,
subitamente fraca demais para permanecer em pé.
— Para a mesa do jantar, crianças! — disse Abigail. — Vamos deixar esses dois
conversando um pouco.
— Eu pensei... — protestou Rebecca.
— Você me trouxe aqui com o pretexto de um jantar — disse Parnell, em tom
agressivo, e seus olhos fixavam-se em todos, menos Rebecca.
— Eu ainda estou atendendo os pedidos das crianças. Por isso hoje eles vão ter
cachorros-quentes com chili — avisou Abigail. — E nós, adultos, teremos carne
assada. Em meia hora.
A senhora levou as crianças para o fundo da casa.
— Bem... — disse Rebecca.
— Preciso de uma bebida — declarou Parnell.
105

— Você está com um copo na mão.
— Bem, outra dose, então — corrigiu ele, puxando o nó da gravata com um
gesto selvagem.
— Eu sou uma companhia tão ruim que...
Ele passou os dedos pelos cabelos, despenteando-se. Rebecca não conseguia
afastar os olhos dele. Uma inspeção mais detalhada mostrava que as abotoaduras não
eram iguais e que faltava o botão do colarinho por debaixo da gravata. Era quase o
mesmo Parnell que ela conhecia e amava.
— Você não é má companhia. O que a faz pensar assim? É que... Você está
maravilhosa. E eu sabia que estaria. Sempre pensei em você como seda, imaginei
você...
Droga!, pensou ele, não devia ter dito isso!
— Mesmo? — exclamou Rebecca, sorrindo. Como Parnell permaneceu quieto,
ela procurou um assunto menos comprometedor. — Como está seu ombro?
— Não é nada que possa me afastar do trabalho.
— E como vai o seu trabalho? O campo de pouso?
— Estou enterrado em papéis. Vinte e cinto tipos diferentes de formulários para
preencher. Acho que nunca mais vou ter um avião.
— E você aceitaria alguma ajuda?
— Você? — indagou ele, rouco, sem conseguir dizer mais nada. Ela fez que sim.
Stillman olhou-a por um momento, então balançou a cabeça.
— Não acho que seja o tipo de trabalho que você iria gostar. Não é excitante.
Rebecca sentiu o coração acelerar. Ele não estava falando do trabalho, mas sim
da própria vida!
— Se você me dá licença, vou ver se Abigail...
— Espere!
Aproximando-se, Parnell pegou-a pelos braços. Então, lembrou-se de que se
prometera nem chegar perto. Agora estava sentindo o cheiro dela, sentindo a textura
da pele. O feitiço pegara de novo e, ofegante, sabia que não conseguiria escapar.
— Rebecca... — começou a dizer, e então seus braços estavam ao redor da
moça, apertando-a com força, com fúria quase selvagem.
Ela apoiou a cabeça no ombro de Stillman, fazendo nada além de absorver a
essência do homem, com medo de se mover, com medo de acordar e descobrir que
estivera apenas sonhando.
— Droga! Senti sua falta. Era como se eu tivesse deixado metade de mim
naquela floresta — murmurou ele, emocionado.
— E por que não me ligou, seu tonto?

106

— Por que você não foi me ver no hospital?
— Estava com medo.
— Medo? Você? De quê?
— Eu pensei que você poderia não querer me ver. O que fizemos, as
circunstâncias...
— Eu também. E você está cheirando tão bem que... Vamos, vamos sair daqui!
Eles saíram, parando apenas para pegar o capote dele e um casaco de
Rebecca.

Abigail ouviu a porta da frente bater, depois o motor do caminhão de Parnell
funcionar. Correu até a entrada da casa e olhou pela janela.
— Uma perfeita peça de carne assada desperdiçada — disse, com um suspiro.
Então, começou a pensar em toda a publicidade que o casamento entre os dois
não traria. Molly como dama de honra, Santee de padrinho. E também havia aquela
adorável oferta da revista, aquela carta que escondera no fundo da última gaveta. Não
que Rebecca e Parnell fossem concordar... Mas não lhes pediria permissão para
aceitar!
Abigail, querida, pensou ela, você é uma velha metida. Não. É melhor dizer: uma
velha romântica metida.
Um pouco de culpa pesava sobre seus ombros fracos quando voltou para a
cozinha, procurando algum castigo para tranqüilizar a consciência.
— Passe a mostarda, Santee — pediu ela. — Acho que vou experimentar um
desses terríveis sanduíches.

Capítulo 14

Ele acariciava o cabelo de Rebecca, seu rosto, beijava-lhe o pescoço, orelhas,
lábios, como se fosse morrer se não a tivesse. Não a deixara se afastar desde que
haviam entrado no trailer. Levara-a para o quarto, acendera a luz e tirara-lhe a roupa.
— Eu sabia que ia ser assim — disse Parnell, depois do amor. — Fiquei
sonhando sobre como seria numa cama, sem nos preocuparmos com que alguém
ouvisse. E você recuperou alguns quilinhos.
— Isso não é nada romântico — murmurou ela, passando o dedo pelo rosto
dele. — Não sabia que você tinha covinhas.
107

— Mantenho-as escondidas. Quando tudo o mais falha...
— E você pensava que ia dar certo?
— Eu não sabia o que pensar...
Ele parou de falar e começou a acariciá-la de novo, desta vez sem o desespero
da primeira. Queria que Rebecca não pensasse, que apenas sentisse e que o quisesse
com loucura.
Ela se afastou e ergueu um pouco o corpo, olhando-o, inteirinho, os ombros
musculosos, os quadris estreitos e a masculinidade pulsante, ardente contra seu
ventre, demonstrando o quanto ele precisava dela. Acariciou-o, de leve.
Parnell gemeu. Cobriu-lhe os lábios com beijos famintos. Ela estava tão sedenta
de amor quanto ele, e correspondeu, ardente e amorosa.
E vai ser assim para sempre, prometeu-se Rebecca.
Ela não sabia o que pensar depois da escapada rápida até o trailer. Parnell não
dissera que a amava. E ela também não. Mas naquele momento tudo o que importava
era estarem um nos braços do outro.
— Desligue a luz — pediu Rebecca.
— De jeito nenhum — contestou ele.
— Então, feche os olhos.
— Não consigo. Tenho medo de que você suma. Tenho de ficar com as mãos
em você. Tenho de... droga! Nunca antes precisei tanto de alguém!
Ele girou o corpo, fazendo-a ficar por baixo e separando-lhe as pernas com os
joelhos, mas penetrou-a com suavidade, devagar. Quando Rebecca sentiu que Stillman
detivera os movimentos, contraiu todos os músculos. Seus dedos e bocas
experimentavam, testavam, procuravam-se. Lábios e língua dele concentraram-se nos
seios dela, primeiro um, depois outro. Então, perderam a noção de tudo o mais fixandose em seus corpos unidos e no mar denso de prazer que os envolvia.
— Me abrace, Rebecca, me abrace! — implorou ele.

— Parnell, deixe-me levantar. Preciso me vestir.
Havia pouca convicção na voz dela, mas o piloto colocou seu robe nos ombros
de Rebecca.
— Odeio cobrir seu corpo, mas, está bem, vista isso.
— Não posso voltar para o orfanato, vestindo seu robe.
— Quero que fique aqui. Você foi raptada.
— Não brinque — disse ela, séria, mas vestindo o robe e amarrando o cinto.
— O que você acha do trailer?
— Tudo o que vi foi este quarto. A cama é ótima.
108

Ele a levou de compartimento em compartimento, terminando na cozinha,
surpreendentemente espaçosa.
— Então, o que acha?
— Maior do que eu esperava. E mais limpo também. Considerando a aparência
do seu escritório.
— Aqui é onde eu vivo. Você não ia querer que fosse tudo sujo.
— Detesto dizer, mas era o que eu esperava, sim. Mas por que quer minha
opinião?
— Você falou sério? Quero dizer, sobre me ajudar com a papelada?
Com um gesto casual, Rebecca abriu uma cortina e olhou para fora. Havia halos
de luz ao redor das lâmpadas que iluminavam o campo de pouso. Tudo o mais estava
escuro.
— Claro. A Fundação tem dinheiro agora. Abigail vai ter muita ajuda. Pode
passar sem mim. E eu posso continuar a ajudar, quando quiser, como voluntária.
— Ótimo. Preciso mesmo de um contador...
— Contador! Foi para isso que você me trouxe aqui?
— Você sabe que essa não é a única razão...
— Quer é uma garota disponível que faça também suas contas, não é? E o que
vai me oferecer? Ginástica sexual no quarto entre dois cálculos, créditos e débitos? Só
para adoçar a oferta?
— Sei o que você quer! Quer me amarrar! Me provocar uma úlcera! "Faça isso,
querido. Faça aquilo, querido." Não sou homem para entrar nessa!
— Oh, posso imaginar muitos nomes para usar com você além de "querido".
Tais como "mau-caráter", "duas caras"...
— Pare! Você é perfeita? Olhe como empina o nariz!
— Estou sentindo um cheiro ruim, é isso! Me desculpe, mas preciso me vestir!

O telefone tocou às duas da manhã. Ainda acordada, Rebecca correu para
atender. Abigail acendeu a luz da sala.
— Nós duas sabemos quem é — disse a senhora. — Atenda logo antes que ele
acorde a casa toda!
— Sou eu — disse Parnell. — Não consigo dormir.
— Por isso pretende fazer todo o resto do mundo ficar acordado também?
— Não quer saber por que não posso dormir?
— Não dou a mínima! — mentiu ela.

109

— Meu travesseiro ficou com o seu cheiro. Meus lençóis estão com o seu cheiro.
E isso está me enlouquecendo.
— Estou surpresa! Seu estômago não está doendo?
— Está sim. E muito. Eu queria que você visse o que mais está doendo
também...
Silêncio do outro lado do aparelho...
— Rebecca?
— Estou ouvindo.
— Não posso viver sem você.
— Não pode? — repetiu ela, sentindo as pernas moles, os pulmões vazios,
fazendo força para se obrigar a ficar calada.
— Droga! Eu te amo! Você me ouviu?
— Sim. E há mais alguma coisa?
— Mais? O que mais... oh! — exclamou ele, sentindo o coração batendo
descontroladamente. Então fechou os olhos, e teve certeza de que estava morto. —
Você quer... se casar comigo?
— Sim.
Parnell afastou o telefone do ouvido e olhou para ele, em pânico.
— Você disse sim? É isso?
— Um milhão de vezes: sim!
— Posso estar aí em quarenta minutos. Estou indo...
— Só há o sofá da sala, onde vamos ficar sentadinhos, bem-comportados... —
avisou ela.
— É melhor o sofá de Abigail com você perto do que minha cama sem você.

Abigail não admitiu que o casamento acontecesse no escritório do juiz de paz.
— Não! Vai ser aqui, na nossa sala. Eu me sinto responsável por esse
casamento. E estou certa de que meu velho amigo, o juiz Stanley, aceitará vir. Além
disso, não podemos deixar as crianças de fora. Eles fazem parte de tudo isso.
— Nada de repórteres, Abigail — declarou Parnell... — Sei como sua mente
funciona. Não vou deixar você transformar nosso casamento num espetáculo.
— Ah, só um fotógrafo! Vocês vão querer fotos, não vão?
— Claro que sim — decidiu Rebecca, passando seu braço pelo de Parnell.

110

A cerimônia foi rápida. O noivo parecia estar fora do ar, com uma expressão
parada, como quem não entende o que acontece.
— Não foi assim tão ruim, foi? — indagou a noiva.
— Até que não. E espero que o restante seja muito bom, porque vai ser para o
resto da minha vida...
— Da minha também... — murmurou ela.
O piloto passou um braço pela cintura de Rebecca.
— Vamos embora. Quero descobrir o que os noivos fazem na noite de núpcias.
— O que é, hein? — perguntou Jonesy que, como todos os outros, estava muito
elegante com as roupas novas.
— Você vai ter de crescer e descobrir sozinho, amigo — disse Stillman. — A
menos que continue a bisbilhotar, e, nesse caso, vai morrer.
— Hora de cortar o bolo! — cantarolou Abigail.
O bolo foi cortado, o champanhe servido, fotos tiradas, com Molly de algum
modo conseguindo aparecer em todas.
— Muito bem. A cerimônia está oficialmente encerrada. Vamos embora — disse
Parnell, começando a ficar impaciente.
— Não se apresse tanto — pediu Abigail. — Ainda não lhes dei meu presente de
casamento. Venho guardando isso para fazer uma surpresa.
Então, ela entregou ao piloto um envelope grande.
— Não vou aceitar nenhuma parte do saque, vou avisando!
— Não seja mal-educado, mocinho. Abra.
— Parnell! São passagens aéreas!
— Para o Havaí — adiantou-se a velha senhora.
— Quem pagou isso? — perguntou ele, olhando desconfiado para Abigail.
— Não seja curioso. E se apressem. O avião sai em duas horas. Vamos, vamos!
— Não podemos... — começou a protestar Stillman.
— Podemos sim! — disse Rebecca. — Você já preparou tudo para passar
quatro dias fora do trabalho. E eu fiz as malas. Minhas coisa estão prontinhas.
— As suas também, rapaz. — disse Abigail, alegre. — E eu pedi para o Amos
fazer as suas malas. Estão aí na entrada.
— Oh, Parnell, diga que sim! Pense. O sol, as praias... Olhe pela janela e quero
ver você dizer não! Do lado de fora nevava.
— Certo, vocês venceram!

111

— Eu já planejei tudo. As crianças e eu vamos nos despedir no aeroporto... —
explicou a velha senhora.
— Por que sinto que fui tapeado? — perguntou Parnell. — Estou com uma
sensação muito esquisita...
— Porque você acaba de se casar, meu rapaz — disse o juiz Stanley, dando-lhe
tapinhas nas costas. — E essa sensação não vai desaparecer nunca mais.
No aeroporto, o grupo atraiu uma multidão com o fotógrafo registrando as cenas
e as crianças jogando arroz no casal. Mortificado, Parnell correu quando soou o
chamado para o vôo e empurrou, apressado, Rebecca para a última fileira de poltronas
do avião.
— Até que enfim! — exclamou ele.
— Foi um casamento maravilhoso!
— Acho que o champanhe me deixou sonolento.
— Feche os olhos e durma, se quiser. Não me importo.
— Não vai achar que eu sou um cara chato?
— Querido, você é muitas coisas, mas chato, nunca! Não. Vou imaginar que
está se preparando para um passeio noturno na praia. Estou ansiosa. Vai ser tão
romântico! A lua, o mar, as ondas na areia...
— Hoje a noite vai ser romântica, mas garanto que não vou passar minha noite
de núpcias fazendo castelinhos na areia. E se você não me deixar tirar uma soneca, se
continuar falando, quando descermos do avião vamos ter de...
— Então, durma logo! — E Rebecca segurou, carinhosa, a mão do marido.
Enquanto os outros passageiros embarcavam, ela ficou olhando para Stillman e
pôs-se a imaginar. Quando chegassem à ilha teriam de comprar roupas de banho. Já
sentia o calor do sol no corpo. Parnell abriu os olhos na decolagem, mas logo dormiu
de novo. Rebecca passou o tempo lendo e olhando pela janela. Foi um vôo agradável.
Saber que era agora a sra. Stillman a aquecia tanto quanto imaginar o sol.
— Oi — disse uma vozinha ao lado dela.
Rebecca olhou para o corredor. Seus olhos se arregalaram.
— O que você está fazendo neste avião?
Molly soltou uma risada e explicou, toda alegre:
— Nós estamos na primeira classe, ali atrás...
Parnell abriu os olhos, não acreditando no que via. O fotógrafo se aproximou e
começou a bater fotos.
— Como você consegue ficar assim calma? A velha maldita nos enganou! "Claro
que o casamento vai ser aqui! Claro, sem imprensa. Só um fotógrado." Ela nos vendeu!

112

Rebecca foi até a janela do quarto do hotel e olhou para fora. A lua dourada
refletia-se nas águas do Pacífico e iluminava a areia da praia. Suspirou e começou a
falar, calma:
— Vamos passar a noite toda reclamando? Posso imaginar algo muito mais
interessante para fazer. E, de qualquer modo, Abigail estava pensando em nós. Ela nos
deu a viagem, não foi? Sem isso teríamos passado quatro dias num hotel de beira de
estrada.
— Deu? Ela vendeu a nós e as crianças para uma reportagem exclusiva! Foi daí
que veio o dinheiro. Eu devia ter imaginado. E você ouviu o que a Molly disse? "O
capitão tirou todas suas roupas, foi para o lago, machucou o traseiro e Rebecca teve
de passar remédio nele!" O que as pessoas vão pensar? Nossas fotos vão aparecer
em... Ei! O que está fazendo?
— Estou tirando a roupa...
— Que lua-de-mel! Um monte de crianças e um fotógrafo seguindo a gente por
todos os lados!
— Estão três andares abaixo. Você não ia querer que recusassem alguns dias
de sol, ia? As crianças também merecem alguma diversão. Abigail teve de batalhar
muito para conseguir permissão para eles faltarem nas aulas.
O vestido caiu no chão. O sorriso de Rebecca era maravilhoso.
— Ela devia ter pedido minha autorização! — resmungou ele.
— Você não teria concordado. Além disso, sempre encontra vinte e cinco
motivos diferentes como argumentos.
— Então, por que eu sempre perco?
— Você estava tão elegante no casamento — declarou ela, soltando a gravata
dele. — Aposto que a capa da revista vai ser uma foto sua. E eu serei invejada por
todas as mulheres da América!
— Eu nunca vou vencer uma discussão com você. Suas táticas, como essas
mãos descendo pelo meu corpo, são poderosas demais. O que eu estava dizendo,
mesmo?
— Você tem de se conter, moça. É muito assanhada!
Rebecca recuou dois passos em direção à cama.
— Devo colocar o vestido de novo?
Parnell avançou e enlaçou-a pela cintura.
— De jeito nenhum. Se for esse o modo que vai usar sempre para conseguir o
que quer de mim, creio que consigo suportar.
Os dois deram, juntos, os dois passos até a cama e deixaram se cair sobre ela.
— Será que depois de casados é diferente? — indagou Rebecca.
— Vamos verificar isso agora mesmo!
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Darling nº 04
NÃO PERCA A PRÓXIMA EDIÇÃO
UM AMOR EM AZUL
Vicki Lewis Thompson
Anna fugia do amor, até encontrar Sam Garrison...
Anna prende a respiração, sentindo a cabeça girar. Sam beijou-a e a sensação incrível
fluiu, incendiando-lhe o corpo todo. O devaneio criado pela luz azulada e o ritmo
sensual fazem Sam perder o controle. Enterra os dedos na carne macia, sussurrando o
nome dela. Este momento é para sempre! O pensamento cruza o cérebro dele como
um cometa, enquanto os gemidos de êxtase ecoam no azul. Sam não imagina que
Anna não pode pertencer a mais ninguém!

Darling nº 05
NÃO PERCA A PRÓXIMA EDIÇÃO
CASAMENTOS E DIVÓRCIOS
Pamela Roth
Ele quer provar que o amor não existe, só o sexo!
Quando os braços fortes de Ralf envolvem Willle, o mundo desaparece.
Seus beijos são toques de fogo e suas carícias enlouquecem... Mas a realidade se
Impõe: para Ralf o relacionamento entre um homem e uma mulher só pode significar
uma coisa: cama. E Willie sabe que não há futuro para eles enquanto Ralf não
conseguir se livrar dos fantasmas de seu fracassado casamento!

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