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MÓDULO DIDÁTICO DE FILOSOFIA

I- Introdução: os significados do termo “ética”
Considere as seguintes frases:
1- Na ética japonesa, o suicídio é considerado uma atitude digna.
2- Sem Deus não há ética.
3- O aborto não é ético.
4- Na ética da Aristóteles a idéia de virtude é central, já na ética de Kant a idéia de lei ocupa o lugar mais importante.
5- A ética varia conforme as sociedades.
6- O Coringa carece de ética.
7- A ética se origina dos nossos sentimentos, não de nossa racionalidade.
Antes de continuar a leitura deste módulo, faça o seguinte exercício:
A) Procure identificar em que sentido o termo “ética” está sendo usado em cada uma das frases acima.
B) Agrupe as frases que estão usando o termo no mesmo sentido.
Vamos agora conferir o resultado de seu trabalho.
Na frase 1, “ética japonesa” refere-se ao sistema de normas e de valores que dirigem a
sociedade dos japoneses, assim “ética” quer dizer o que é estabelecido como correto ou incorreto
em determinada sociedade ou cultura. A frase 5 pode ser lida desta maneira, ou seja, afirma que
o “sistema de normas” varia com a sociedade (Vamos chamar este conjunto de conjunto X).
Já na frase 2, “ética” quer dizer “noção de certo e de errado” ou “idéia do bem e do mal”. Este é o
sentido que pode ter também a frase 7. A frase 5, embora já pertença ao conjunto X, pode ser
incluída também neste conjunto (conjunto Y).
Já nas frases 3 e 6, o termo “ético” quer dizer “correto”, “bom” ou “moralmente aceitável”
(conjunto Z).
Na frase 4, temos que “ética” significa um sistema filosófico de reflexão sobre a experiência da
moralidade, sobre o que é certo ou errado, bom ou mal.
Este pequeno exercício objetivou mostrar que o termo “ética” pode ter muitos sentidos, o que se
relaciona à própria complexidade do tema. Se a sua divisão não ficou exatamente igual à que
apresentamos acima, não quer dizer, necessariamente, que você esteja errado: você pode ter
interpretado os termos por outro ângulo.
C) Releia as frases acima e substitua o termo “ética” pelo termo “moral”. Houve mudança de sentido das frases?
Podemos notar que, em geral, as frases continuam tendo o mesmo sentido, quer usemos o termo “ética”, quer usemos os termo “moral”. Isto se
explica porque a língua portuguesa e outras várias outras línguas, herdaram um dos termos do grego (ética vem do grego éthos) e o outro do
latim (moral vem de morus) e ambos se referem aos costumes e maneiras de viver. Alguns filósofos modernos e contemporâneos propõem que
se distinga ética de moral, de modo a que cada um destes termos se refira a uma dimensão da experiência da moralidade. Por exemplo: há
aqueles que propõem que “moral” se refira à moral vivida, aos costumes e leis estabelecidos; já “ética” se referiria à reflexão filosófica sobre a
moral, perguntando por seus fundamentos e por sua justificação, ou seja, a “ética” pode fazer a crítica da moral. Outros utilizam “moral” para
falar da experiência subjetiva e “ética” para referir-se à vida moral em comunidade. Estas distinções são legítimas e muitas vezes úteis para
organização do pensamento, mas o importante é registrar que são apenas estratégias para a análise da questão, e que nenhuma delas é
universalmente aceita ou utilizada.
Para saber mais, leia o capítulo “Ética e Cultura” do livro Filosofia – Ensino Médio, de Celito Meier.

cidades. mas dependem do ser humano: podem ser ou não ser. mas àquilo sobre que pode deliberar um homem sensato. Assim. Outros acontecimentos. techné e práxis. não existem de forma necessária. Com efeito. logo. mas sempre acontecem do mesmo modo (. Nestas justificativas está sempre presente uma noção de bem: devo fazer X porque X é bom. Podemos até vencer a força gravidade fabricando um avião. do mais e do menos valioso ou importante. certo ou errado. Ora. Veremos algumas destas respostas a seguir. regra ou ação sejam bons ou maus? De onde vem a noção de bem e de mal? A moral é uma questão de sentimento ou de racionalidade? Existe algo que seja um bem acima de todos os outros bens? Temos razão em aceitar os costumes de nossa sociedade? As noções de certo e de errado são universais ou relativas aos costumes? Como devemos viver? Ao fazer estas questões. estamos na segunda dimensão da ética. ou esta é impossível a respeito de algumas? É de presumir que devamos chamar objeto de deliberação não aquilo que um néscio ou um louco deliberaria. que podem ser ou não ser.) como os solstícios e o nascimento das estrelas. e acontece necessariamente e independentemente de nós. com aquilo que é considerado certo e errado. Isto significa que nossa ação é dirigida por valores.O campo da ação A ética está fundamentalmente relacionada com as escolhas. no caso das coisas que dependem de nós. mas a decisões que envolvem a vida humana como um todo (o que é uma vida boa e justa e o que devemos fazer para viver esta vida) estamos no domínio da ética ou da práxis. leia o que Aristóteles escreveu o na em sua obra Ética a Nicômaco: “Mas delibera-se acerca de toda coisa. porém.A primeira aproximação que fizemos do termo “ética” mostrou que o campo da ética. do que acontece. um saber que pretende apresentar normas e direções para a ação. que podem acontecer ou não. ao que pode acontecer ou não dependendo das escolhas que são feitas. o saber da ciência. um saber agir. canções). Neste módulo vamos retomar algumas delas.). Muitas perguntas podem surgir a partir desta experiência: O que faz com que um costume. por exemplo. Mas o que pode ser objeto de escolha? Sobre isto. Isto pode ser dito de todos os objetos fabricados pelo ser humano (edifícios. tem a ver com as regras e os valores dos seres humanos. lembramos que chamamos o tipo de saber da ética de saber normativo. o sol faz com que a água evapore e “matéria atrai matéria na proporção direta das suas massas e na proporção inversa da distância entre elas”. sobre o universo material ou sobre a incomensurabilidade da diagonal com o lado do quadrado. nenhuma dessas coisas pode realizar-se pelos nossos esforços. já se distinguia entre o domínio da physis (ou natureza) e o domínio do ethos (ou do costume).. a natureza é o domínio do que é. de uma guerra ou da escolha de uma profissão ou de um modo de vida. a dimensão propriamente filosófica (filosofia moral). A ética diz respeito ao valor que as coisas têm para nós. do permitido e do proibido. (Ver sobre este assunto. O conhecimento das coisas que não dependem de nós é um conhecimento teórico. mas também das leis de um país. Estas são algumas das questões que os filósofos buscaram responder. é um saber descritivo. que se encontra na própria experiência vivida. . pois apenas nos diz como as coisas são. Os filósofos no passado apresentaram diferentes respostas para ela e o debate continua ainda hoje. mas de uma sabedoria prática. cabe então a pergunta: Devo fazer isto ou aquilo? Que idéias devem dirigir minha ação? A ética. desde os antigos. Em comparação com ele. o módulo “Natureza e Cultura”). Estes fatos não dependem de nós. como a descoberta de um tesouro. Esta seria uma primeira dimensão da ética ou da moral. se há coisas que não são necessárias. quer dizer.C. ou seja. Ora. como as secas e as chuvas. ou da moral. pelo que consideramos bom ou mau. é um saber que pretende orientar a ação humana e apresentar razões e justificativas para o agir. bom e mau e também com a idéia de que uma coisa pode valer mais do que outra.. mas que dependem da ação e da escolha humana. quando estas questões dizem respeito não apenas a decisões técnicas (como devemos fazer para construir um prédio. Chamamos a estes acontecimentos de contingentes. por exemplo). De forma que a questão “o que é bom?” ou “o que é o bem?” seja talvez a questão central de toda ética. e toda coisa é assunto de possível deliberação. ou seja. Desde os filósofos antigos. Como dizia Aristóteles (384-322 a. Em outras palavras. Para saber mais sobre os tipos de conhecimento em Aristóteles: teoria. conforme expressa a lei da gravitação universal. E nem sequer deliberamos sobre todos os assuntos humanos: por exemplo. O ser humano é um ser moral. O que essas ilustrações fazem pensar sobre os valores humanos? II. nem sobre acontecimentos fortuitos. que dependem da ação e da escolha do homem coloca-se a questão: isto deve ser feito? Como devemos agir? Como nos lembra Aristóteles. ou seja. ser mais importante do que outra. ver Orientação Pedagógica – Filosofia: A diversidade dos saberes II – Formas de racionalidade Estudo de texto Vimos que a ética diz respeito ao que depende das ações humanas. baseadas em uma concepção de bem ou de valor. em qualquer sociedade em que viva. Para concluir este tópico. nem a respeito de coisas que acontecem ora de um modo. ou seja. estamos refletindo sobre a moral vivida e procurando compreendê-la e fundamentá-la. Aqui precisamos não só de um saber teórico. tem uma noção do certo e do errado. sobre coisas eternas ninguém delibera: por exemplo. E tampouco deliberamos sobre as coisas que envolvem movimento. ora de outro. mas não podemos alterar o fato de que matéria atrai matéria da maneira acima. nenhum espartano delibera sobre a melhor constituição para os citas.

Elas perduram. a escolha é um desejo deliberado de coisas que estão ao nosso alcance.. p. mas sim de se eles correspondem ou não aos fatos. O princípio responsabilidade. Porque como causas admitimos a natureza. (. a crítica vulnerabilidade da natureza provocada pela intervenção técnica do homem – uma vulnerabilidade que jamais fora pressentida antes de que ela se desse a conhecer pelos danos já produzidos. nada menos que a biosfera inteira do planeta.) Sendo. no que diz respeito às proposições das ciências. E. após decidir em resultado de uma deliberação. Da época de Aristóteles até os nossos dias. Para pensar A partir da leitura do texto acima. mas. 32-). a mortalidade não se dobra à sua astúcia.Juízos de fato e juízos de valor. as que restam. ela é perene e incansável (. efetivamente.). o objetivo maior das ciências é propor uma compreensão do que é a realidade. hoje estão sob seu controle. enquanto os empreendimentos humanos percorrem efêmeros trajetos. por exemplo. no texto acima. porque. estamos descrevendo uma realidade ou dizendo como as coisas são. (. como grande alteração ao quadro herdado. pois sobre ela detemos poder. Todas as liberdades que ele se permite com os habitantes da terra. ARGUMENTE a favor da afirmação abaixo.) Tudo isso modificou-se decisivamente. Neste caso.) Tome-se.. (.. muitas coisas que pareciam estar para além da possibilidade da ação e da escolha do ser humano. mas com teorias. Questões de compreensão: 1. com o avanço das tecnologias. leia o texto abaixo: “Naquela época [os tempos antigos] o homem. Uma das discussões importantes da ética é a distinção entre juízos de fato e juízos de valor. Ética a Nicômaco. Livro III.. Já quando dizemos “Maria é uma boa mãe” e “A poligamia é errada” ou “Não se deve mentir” não estamos simplesmente descrevendo como as .. Editora PUC-RIO. Abril Cultural. É certo que não temos o poder de alterar as leis da natureza (como a lei da gravitação). (Sempre é bom lembrar que. e que um objeto de ordem inteiramente nova.Aristóteles afirma: “Deliberamos sobreas coisas que estão ao nosso alcance e podem ser realizadas”.. a moral se expressa em juízos ou proposições. Sobre este assunto. a verdade ou falsidade destes juízos não depende do que as pessoas pensam ou sentem. 2006. alguns exemplos de coisas sobre as quais não deliberamos. e também a razão e tudo o que depende do homem. Por exemplo. pois.IDENTIFIQUE. (. Elas não sofrem dano real quando.” (JONAS. hoje podemos modificar os processos naturais de reprodução (há a inseminação artificial e a clonagem.” (ARISTÓTELES. de suas grandes extensões. só podemos deliberar ou escolher coisas que estão ao nosso alcance. pois sabemos que as ciências não lidam com fatos simples. ou contra ela: “Nos dias de hoje. confrontado com os elementos. 3. Nenhum saque das suas criaturas vivas pode esgotar-lhe a fertilidade. Igualmente perene é o mar. III. ele recorta o seu pequeno reino. a necessidade. desejamos de acordo com o que deliberamos.. cap. Contraponto. São Paulo.) Por meio de seus efeitos. hipóteses e construções. “Maria mede 1 metro e oitenta”. de como as coisas são).). os seres humanos têm maior responsabilidade do que tinham na antiguidade”. do mar e do ar deixam inalterada a natureza abrangente desses domínios e não prejudicam as forças geradoras. e.. o acaso.. de Leonel Vallandro e Gerd Borheim. Trad. e essas são. Ação e responsabilidade Uma das teses mais aceitas em ética é que só somos responsáveis por aquelas ações que são fruto de nossa deliberação ou escolha. Quando dizemos “Esta maçã é vermelha”. 2.Deliberamos sobre as coisas que estão ao nosso alcance e podem ser realizadas. os navios que o cruzam não o danificam.. acresceu-se àquilo pelo qual temos que ser responsáveis. por exemplo) e podemos até mesmo alterar o ciclo das estações (é só lembrar o que está acontecendo no planeta com o efeito estufa).. Acontece que “o que está ao nosso alcance” muda com o passar do tempo. Rio de Janeiro. PROPONHA alguns exemplos de coisas que podem ser objeto de escolha. como vimos acima. Mesmo sendo assim.. Tradução de Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez. não importa para quantas doenças o homem ache cura. e o lançamento de rejeitos não é capaz de contaminar suas profundezas. 1973). “Algumas sociedades consideram a poligamia correta” ou “Matéria atrai matéria na proporção direta das suas massas e na proporção inversa da distância entre elas”. mais e mais coisas estão sob nosso poder. Podemos dizer que estamos pronunciando “juízos de fato”. a questão é bastante complexa. continua pequeno (. Ainda que ele atormente ano após ano a terra com o arado. Hans. o objeto de escolha uma coisa que está ao nosso alcance e que é desejada após deliberação. ela nos revela que a natureza da ação humana foi modificada de facto. ser e dever ser Do ponto de vista da linguagem.

4. mas tomo a liberdade de sugeri-la. Platão distingue dois tipos de assuntos. nas proposições abaixo. Platão (428-348 a.) fala da distinção entre os fatos e os valores numa passagem de seu diálogo Eutífron: “Sócrates – Mas quais. do mesmo modo. Para pensar É possível chegar a um acordo nas questões morais? De que maneira? Para saber mais. leia a Orientação Pedagógica “Ser e Dever Ser II: Hume e o problema do Ser-Dever ser”. Tomemos um exemplo: Quando se diz que “Pedro é um bom pai” não se está apenas descrevendo o que Pedro faz. dizendo que todos devem agir como Pedro. São Paulo.Subjetivismo e objetivismo. Edson Bini. Estudo de texto De uma forma diferente. Questões de compreensão: 1. C. Sócrates – Igualmente se viéssemos a discordar sobre o tamanho relativo das coisas. quanto a qual de dois números ser o maior – a divergência acerca desse ponto nos transformaria em inimigos e brigaríamos um com o outro? Ou pensas que rapidamente a resolveríamos e recorrendo à aritmética? Eutifron – Certamente. há muito desacordo em assuntos morais. que ele trabalha para sustentar seus filhos ou cuida da educação deles. In. quais delas constituem juízos de fato e quais delas constituem juízos de valor. EDIPRO. Não seria esse objeto o justo e o injusto.A temperatura hoje ficou acima dos 20 graus. são as matérias em que há divergência e que causam a inimizade e o ódio? Vejamos isto da seguinte maneira: se fosse o caso de tu e eu divergirmos a respeito dos números – suponhamos. ou seja. 3. 2008 – tradução modificada). universalismo e relativismo . Sócrates – Mas.” (Eutífron.No texto acima. o nobre e o vil. 6. Sócrates e acerca dessas coisas.Os seres humanos lutam por sua liberdade.O aborto é um crime. Eutifron – É claro. IDENTIFIQUE estes dois tipos. recorrendo às balanças decidiríamos sobre o que é mais pesado e o que é mais leve. qual seria o objeto de uma divergência que nos converteria em inimigos e pessoas que se odeiam.A Igreja condena o aborto. ou seja.coisas são. Trad. mas avaliando e prescrevendo. Atividade de compreensão IDENTIFIQUE. o bom e mau? Não são estas as questões cuja divergência. e outras pessoas. 1. tu e eu. Os juízos de valor sempre expressam o que os seres humanos anseiam. 2.EXPLIQUE porque. desejam. PLATÃO. consideram valioso ou recomendável. por exemplo. excelente homem. 2. depressa daríamos um fim ao desacordo recorrendo à medição? Eutifron – Isso mesmo. Juízos deste tipo são chamados juízos de valor. mas se está também aprovando e recomendando este comportamento.A escravidão é um mal.Devemos buscar a felicidade. nos leva. 5. dizendo como se deve agir e como as coisas devem ser. Sócrates – E. a se tornarem inimigas? Eutifron – É de fato esse o desacordo. quando somos incapazes de alcançar um consenso satisfatório sobre elas. se discordarmos e não pudermos chegar a uma decisão? Talvez não possas oferecer uma pronta resposta. segundo o texto acima. 7b-d. IV. Diálogos III.

Algumas OBJEÇÕES ao subjetivismo e ao relativismo são: O grande argumento contrário ao subjetivismo e ao relativismo é o de que eles nos obrigam a aceitar qualquer opinião como verdadeira. ou seja. pela força ou outras estratégias. encontramos.O subjetivismo e o relativismo favorecem uma postura de tolerância. pelos europeus. que afirma que as proposições morais exprimem o que é correto para uma cultura ou tradição. é o que para cada um parece verdadeiro. o subjetivista. será verdadeiro. nem possibilidade de debate ou de acordo. das culturas que colonizaram. em ética? Esta é uma discussão filosófica complexa. nem desacordo. De outro estão os que defendem que em ética só há opiniões pessoais. O sofista Protágoras defende a idéia de que “o homem é a medida de todas as coisas”. Sócrates responde que esta posição é contraditória. há uma grande diversidade de opiniões. foram impostas a outras culturas. Sócrates mostra que Protágoras. Trata-se do subjetivismo moral. um real desacordo entre as opiniões. a antropologia mostra que há muitas maneiras diferentes de ser um ser humano e que as práticas mais estranhas. pois se o opositor de Protágoras afirmasse que “o homem não é a medida de todas as coisas”. não existe. têm sentido no interior de uma sociedade. Sabemos que a idéia de “raças” e de “culturas” inferiores foi muito estimulada no período colonial e do imperialismo. que cada indivíduo é a medida da verdade. No entanto. Quem está certo: as culturas que permitem a mini-saia ou as que impõem a burca? Ou será esta uma questão não tem resposta correta e o que é certo ou errado é relativo às culturas? Em DEFESA do subjetivismo e do relativismo temos os seguintes argumentos: . Historicamente. nas quais protestantes e católicos se enfrentaram até a morte.De fato. no tempo e no espaço. o relativista radical teria de aceitar. já que ela também expressa o que alguém pensa. De um lado estão os que defendem que proposições como “A tortura é condenável” ou “A mentira é errada” podem ser verdadeiras independentemente do que pensam ou sentem as pessoas. Contra esta tendência. Ponderando o debate entre relativismo e universalismo De fato. Muitas idéias que foram consideradas como “universalmente verdadeiras”. surge. o mais famoso argumento apresentado contra o subjetivismo no terreno do conhecimento encontra-se no Teeteto (170c-171c).Dada a dificuldade do acordo em moral. cada um defendendo seu ponto de vista religioso. XVI a e XVIII. Assim. estamos em debate. motivada pelo terrível efeito das guerras de religião. já que uma expressa a opinião de Maria. O subjetivismo e o relativismo tornam. por exemplo) julga e condena o outro. . Estaríamos dispostos a aceitar isto? O relativismo radical enfrenta um impasse moral e parece conduzir ao conformismo. esta posição implicaria que não se pode julgar ninguém. que reagiu ao processo de desvalorização e destruição. na verdade eram convicções de culturas particulares que. a seguinte questão: serão eles verdadeiros ou falsos independentemente do que as pessoas pensam e sentem? Ou será a verdade em moral dependente das opiniões de cada um? Podemos chegar a um acordo. apontando na direção da idéia de que nem tudo deve ser aceito. a serviço do projeto de dominação dos povos da América e na Ásia. Protágoras teria que reconhecer esta proposição como verdadeira. ou o racista ou sexista que afirma que há seres humanos superiores e inferiores. o religioso que persegue a todos aqueles que não aceitam sua fé. válidas para todos). prestando atenção na experiência humana. uma grande diversidade de valores. então. quer dizer. não há certo nem errado. Ou seja. Enfim. (Ver Orientação Pedagógica: Universalidade e Relatividade dos Valores II). pois defendem as idéias de que ninguém tem o direito de julgar os valores do outro. XIX. Até hoje não temos um acordo sobre o certo e o errado em assuntos importantes. outra a opinião de João. de hábitos e de . Se tomada em sua forma extrema. se olhadas sem preconceito. Se Maria diz que é a favor da pena de morte e João diz que é contrário a ela. portanto. as experiências do nazismo e de outras práticas totalitárias colocaram em questão o relativismo. já que todas as opiniões têm o mesmo valor (pois todas expressam um ponto de vista de um indivíduo ou de uma cultura). No limite. o relativismo se opõe ao universalismo. a idéia de tolerância foi desenvolvida na Europa dos sécs. pelo menos mínimo. Esta posição pode ser denominada objetivismo ou universalismo moral (pois defende que há verdades objetivas em moral. Historicamente. Uma posição parecida com o subjetivismo é o relativismo moral. em nossa vida prática. e ambas valem igualmente. A convicção de que não se deve julgar o outro nem interferir em sua cultura ou crenças foi ainda mais reforçada pela antropologia cultural do séc. Voltando à História da Filosofia. nem uma cultura tem o direito de intervir em outra. do ponto de vista destas teorias. só uma mentalidade estreita ou movida por interesses outros (econômicos. O debate entre estas posições é intenso. por exemplo. cai em contradição consigo mesmo. costumes e valores no mundo. o grande ensino da antropologia cultural é que a humanidade é um fenômeno complexo e diverso. O subjetivismo se opõe ao objetivismo. o que significa que se algo parece verdadeiro a alguém. O diferente não é nem irracional nem inferior. para os juízos de valor. estamos todo o tempo confrontando visões e convicções em ética. nem mesmo aquele cujo costume é ser intolerante ou aquele que quer impor aos outros seus valores. fazem com que não seja possível o debate em ética. de aceitação da diferença e da diversidade. as avaliações morais seguem padrões que derivam da cultura. e nada mais que isso. a própria atitude crítica em ética impossível. a moral é o que vale “para cada um”.

com/ppt/relativismo moral. no caso.. não são imorais nem desumanos – embora possamos ainda considerar que é melhor não precisar praticar o infanticídio. O que reforça o relativismo. nem sempre é simples. Assim.. inclusive no nosso? Atividades: .) As meninas eram destinadas com mais frequência a estas práticas por duas razões. ao considerar as diferentes partes em conflito como seres racionais. Para saber mais. para além das diferenças culturais.idéias sobre o que é certo ou errado. de meninas.pps A busca dos universais Parece que. Primeiro. este costume que parece “bárbaro” mostra seu lado humano e racional.. Assim. por exemplo. compreendido de maneira crítica. porque o número de homens adultos que morriam prematuramente superava em muito o número de mulheres que morriam cedo. A aplicação destes critérios.. A idéia de “igualdade” foi se estendendo. Lá você encontrará as idéias de Montaigne sobre os canibais do Brasil. A explicação não é que eles não tinham afeição pelos filhos ou careciam de respeito pela vida humana. Elementos de Filosofia Moral.. Já o universalismo. (. apenas pessoas do sexo masculino e pertencentes a certos grupos (sociais ou étnicos) eram reconhecidos como sujeitos de direito (podiam usufruir de liberdade. como lembra Montaigne. se o relativismo ensina que aceitar o outro é uma atitude de respeito. Recentemente alguns teóricos têm se esforçado para encontrar alguns “universais” que possam reunir a diversidade das experiências humanas e mostrar que por trás da diversidade cultural e das mudanças históricas há constâncias e regularidades. a anatomia do cérebro humano é vista como a base para o desenvolvimento de aptidões presentes em todos os seres humanos. bastante diferentes em sua aparência. Tomemos a questão dos direitos humanos nas sociedades ocidentais: no passado. Em síntese. (. pode haver crítica e mudança em moral porque pensamos que nem tudo o que se julga bom é verdadeiramente bom. Parece. haver grande diferença entre os valores das duas culturas. pelo menos em algumas de suas formas. nos lembra que a moral é uma questão não apenas de hábitos ou opiniões enraizadas. ter o direito de propriedade. O direito à vida. Mas os esquimós vivem em ambiente hostil. embora diferentes. Para pensar: O que é mais grave: uma cultura praticar o infanticídio como meio para a sobrevivência da comunidade ou uma sociedade que tem recursos permitir que crianças pobres morram de fome. também expressa uma atitude de respeito. como o uso da linguagem (as línguas são diferentes. O texto abaixo é um exemplo deste ponto de vista: “Considere os esquimós. mas ser incapaz de fazê-lo. pais que matam filhos vão para a cadeia. p. se as condições o permitissem. pode ser visto como um critério de julgamento das práticas sociais. O relativismo nos abre para acolher o outro. que muitas vezes mudanças nas idéias e nas práticas morais ocorrem porque as pessoas são capazes de criticar o que é aceito como bom e correto em nome de uma idéia mais forte de bem.” (RACHELS. compreenderemos que os esquimós. o relativismo não pode ser levado às últimas conseqüências. Mas suponha que perguntemos por que os esquimós faziam isto. a prática do diálogo na busca de um entendimento comum sobre o que seja o bem e o valor. É preciso observar. como ocorre no caso de muitos países. O exemplo dos esquimós mostra que diferenças de costumes e práticas (no caso o assassinato das crianças) nem sempre revelam desacordo profundo de valores (os esquimós também amam e cuidam de seus filhos e valorizam a vida humana). 24-25). então. ou seja. porém. que matavam crianças perfeitamente saudáveis.) Uma família pode querer alimentar seus filhos. Há também a idéia de que costumes e opiniões. O relativismo nos adverte de que somos seres culturais. diz que não devemos fazer ao outro o que não queremos que nos seja feito. J. (. no qual a comida é pouca. depois. De forma que. Consulte também: www. mas todos os seres humanos são dotados da capacidade de falar) e mesmo a capacidade de fazer julgamentos morais. é preciso aprender tanto com o relativismo quanto com o universalismo. atingindo pessoas que antes eram excluídas. porque os homens eram os principais provedores de comida – eles eram caçadores. com ligeiras variações entre os povos. condicionados histórica e socialmente. Se o entendermos assim. etc). O que ocorre é que sobrevivência da comunidade depende da eliminação de alguns.. especialmente meninas. o diferente. do justo e do injusto. Nós não aprovamos tais coisas. não preconceituosa. Em nossa sociedade. leia e faça as atividades propostas no Roteiro de Atividades: “Universalidade e Relatividade dos Valores II: Diversidade cultural e etnocentrismo”. Pelo menos algumas normas e costumes devem ser julgados. na prática. mas de racionalidade: devemos – eu e o outro – dar razões para nossas ações e escolhas. no entanto. homens de vários grupos foram conquistando estes direitos e. como proibição do incesto ou a “regra de ouro”. Antropólogos apontam para regras que estão presentes de maneira universal nas sociedades humanas. em nome de valores que se colocam acima deles. Uma família esquimó protegeria sempre seus filhos. também as mulheres. e que muitas vezes confundimos o que é o hábito de nosso grupo com o bem em si – chamamos de “bárbaro” o que não é usual para nós. de desenvolver a noção do permitido e do proibido.) Segundo. podem encobrir semelhanças de fundo. talvez maior que a primeira. que. Teria isto acontecido se acreditássemos que todas as idéias em moral se equivalem? Assim. A biologia aponta cada vez mais para uma igualdade fundamental na estrutura do corpo e da mente humanas. Com o tempo.aarte de pensar.

para saber o que é a felicidade é preciso perguntar. julgando-o. ESCREVA um parágrafo propondo uma resposta para as questões formuladas ao final do trecho acima. não obstante. qual seria a realização da verdadeira natureza do ser humano? Primeiro. que ele não é o que deveria ser?”. Veremos aqui como pensaram dois dos maiores filósofos no campo da moralidade: Aristóteles (384-322 a.) e Kant (1724-1804). Assim. portanto. Não vamos tratar destas teorias morais em todos os seus aspectos. em busca de uma compreensão de felicidade que possa ser mais satisfatória que a diversidade das opiniões. No entanto. ou outra coisa qualquer? Desejamos a saúde. às ações humanas. ser um artista. . Aristóteles: a felicidade e a virtude O pensamento ético de Aristóteles está exposto principalmente em sua grande obra Ética a Nicômaco. O ministro das Relações Exteriores britânico. pessoas diferentes têm concepções também diferentes do que seja a felicidade. o “sumo bem” ou aquilo em vista do que desejamos todas as outras coisas e para a realização do qual se dirigem todas as nossas ações. O ponto final seria. mas se estiver impedido de agir (por causa de doença ou de pobreza) não será feliz. por exemplo. Se felicidade é realização. porém. Pensamos em modos pelos quais as coisas poderiam ser melhores e mais perfeitas e. o “fim que desejamos por ele mesmo”. quer dizer. Por exemplo. Por que é assim? De onde tiramos estas idéias que vão além do mundo que experimentamos e parecem colocá-lo em questão. informou hoje o jornal britânico ‘Times’. O ponto de partida da ética aristotélica é: todas as ações humanas têm uma finalidade. ou seja. a medicina visa a saúde e a engenharia visa a construção de prédios. muito embora discordem entre si.C. “o que é o ser humano”. Os primeiros pensam que seja uma coisa simples e óbvia. um porta-voz do Departamento de Estado condenou o apedrejamento como um ato ‘bárbaro’. Verbalmente. com a saúde quanto está doente.. como vimos no texto acima. I. dizendo que ele não é satisfatório. faz parte dos costumes apedrejar até a morte mulheres condenadas por adultério. e.) qual é o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação. ou seja. Cambridge University Press. o Irã anunciou que Sakineh Mohammadi-Ashtiani não será apedrejada até a morte por ter sido condenada por adultério. Cônscios da própria ignorância. quase todos estão de acordo. Mas o que seria este fim último? Como você responderia a esta pergunta? Leia o trecho abaixo para saber a resposta de Aristóteles: “Retomemos nossa investigação e procuremos determinar. portanto. 2. pois tanto o vulgo como os homens de cultura dizem ser este fim a felicidade e identificam o bem viver e o bem agir com o ser feliz. diferentes do que somos. que é o seu bem. para. não há sentido em perguntar: porque alguém quer ser feliz? A felicidade é. A embaixada da república islâmica em Londres divulgou um comunicado afirmando que. o ponto central do qual dependem todas as outras idéias sobre a moral. V. É fato. diferentes do que são e também em modos como nós mesmos poderíamos ser melhores.1. Em Washington. o comunicado não informa se a mulher será poupada ou acabará enforcada. a felicidade tem a ver com a ação. Diferem. quanto ao que seja a felicidade e o vulgo não o concebe do mesmo modo que os sábios. como o prazer. (Ética a Nicômaco. como o ser humano não é apenas um ser de desejo.Visões filosóficas sobre os valores Muitos filósofos tentaram responder de forma racional à pergunta: “o que é o bem?”. Aristóteles parte então. qualificou ontem a punição como ‘medieval’. porém.” ESCREVA um texto argumentando a favor da atitude dos que criticam a punição praticada no Irã ou contra ela.No Irã. Leia a notícia abaixo. O grupo pelos direitos humanos Anistia Internacional afirmou que a mulher foi condenada a cerca de quatro anos atrás e já havia recebido anteriormente 99 chibatadas. publicada no jornal Estado de São Paulo no dia 9 de julho de 2010 “Após receber críticas internacionais. portanto. o princípio fundamental da ética. William Hague. Aristóteles concorda com seu mestre Platão que a verdadeira natureza do homem está em sua racionalidade. assim como toda ação e toda escolha têm em mira um bem qualquer.Tradução de Telma Birchal). segundo o diário. Segundo ele. o bem supremo. segundo cada um deles.1. acrescenta o jornal. Ora. a noção de felicidade (ou eudaimonia. admiram aqueles que proclamam algum nobre ideal inacessível à sua compreensão”. [Sakineh] não será executada por apedrejamento’. isso causaria ‘desgosto’ e ‘terror’ no resto do mundo. p. 4). porque aqui se trata da felicidade para o ser humano.. (Christine KORSGAARD. No entanto. porém. ou ter uma família ou ser um artista? Será que os elos do desejo não têm um ponto final? Aristóteles acredita que sim. mas um ser que age. permite que ainda perguntemos: porque queremos estudar. a possibilidade de agir. que existem diferentes respostas para esta questão. Segundo. que significa realização) é central na ética de Aristóteles: queremos a felicidade por ela mesma e não em vista de outra coisa. . ou seja. Vimos que o filósofo distinguiu o saber teórico do saber prático. à luz desse fato de que todo conhecimento e todo trabalho visa a algum bem (. uma família. e com a riqueza quando é pobre. The Sources of normativity. e não raro o mesmo homem a identifica com diferentes coisas. obra) se suas ações forem dirigidas pela razão: “a função do homem é uma certa espécie de vida. e que por isto foi dito que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem” – escreve ele nas primeiras linhas de sua obra. antes. e esta vida uma atividade ou ações da alma que implica um princípio racional ” (EN I. poder realizar um projeto – ter uma profissão. Os Estados Unidos e o Reino Unido lideram as condenações globais à execução. ou uma nova casa. 1996. a riqueza e até as honras. 7). ‘de acordo com a informação de autoridades judiciais relevantes no Irã. Esta resposta. vinculando a ética à prática. o homem só realiza a sua função (érgon = tarefa. mas apenas concentrar-nos na questão do que é. Podemos então perguntar: por que desejamos a saúde. “Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação.Leia o seguinte trecho: “O fato mais marcante da vida humana é que temos valores. segundo o filósofo. Aristóteles fala mesmo que um homem pode ser bom (virtuoso).

Leia a resposta no trecho abaixo: “Neste mundo. nada é possível pensar que possa ser considerado como bom sem limitação a não ser uma só coisa: uma boa vontade. que é a própria pessoa humana e sua dignidade? Para saber mais. é o que realiza bem sua função de homem.. 1995. Primeira Seção. De modo que o ser humano é dotado da capacidade de ultrapassar seus desejos e inclinações imediatos ao representar o seu dever e também de liberdade para segui-lo. pois conhecem seu dever. possa servir também de regra a todos os seres humanos. riqueza. 8). não for boa. 1974). Loyola. sabem qual é a ação realmente moral. dão ânimo que muitas vezes por isto mesmo desanda em soberba. a ética aristotélica parece estar de acordo com a experiência humana: de fato. afirma Kant. Só assim a pessoa será capaz de ser feliz praticando ações justas. mesmo a saúde. por exemplo. O mesmo acontece com os dons da fortuna. G. mas também ao reino da liberdade. Cumprir o seu dever significa agir sempre de modo que você possa querer que a regra ou princípio que dirige sua ação (sua máxima) possa ser universalizável. Discernimento. Também é possível pensar que pessoas más ou egoístas podem ser felizes. Questiona-se se virtude e felicidade sempre coincidem: todos nós conhecemos pessoas boas que são infelizes e de pessoas más que se sentem felizes. mas nem por isto. acima da felicidade. O homem bom. ou seja. J. Tomemos o exemplo: Devo mentir para me livrar de alguma dificuldade? Para saber a resposta. Primeira Seção). temos o dever de sempre falar a verdade. a resposta para esta pergunta tem de ser negativa – então. A moralidade se define pelo que devemos fazer. moderado (temperante) e corajoso. sua natureza racional.São Paulo. Não devemos fazer exceções para nós mesmos. Não vamos tratar disto aqui. ele não pertence apenas ao reino da necessidade (ou das leis da natureza). O homem virtuoso. Assim. constância de propósito. ou em busca da felicidade ou de algum benefício para si ou para os outros. de forma absoluta. em obediência a lei que nos é dada pela razão prática. pois uma pessoa corajosa pode cometer um assassinato com maior facilidade que aquela que teme o perigo. e todo o bem estar e contentamento com a sua sorte. colocam-se para sua teoria. porém. decisão. eles conseguem distanciar-se de seus instintos e inclinações. Isso faz com que ao ser humano seja atribuído o mais alto valor. se alegra em praticar as ações nobres. a boa vontade é a única coisa que pode ser considerada. Assim. Isto. da compaixão.. Loyola. Trad. Enquanto os seres naturais simplesmente obedecem às leis do instinto. É pela razão prática que as pessoas sabem o que devem fazer. o valor se localiza não em algo exterior. a busca da realização e da felicidade faz parte da vida da maioria das pessoas e em função dela planejamos nossas ações. e não. mas se identifica com o próprio ser humano e sua boa vontade. . ao modo de tantos outros instintos. uma ação deve ser executada por senso do dever. então. fortuna. e não. o prazer é importante. leia sobre a ética de Aristóteles em BARNES.). O ser humano é constituído de duas naturezas: de um lado. Para o filósofo. ou ainda coragem. Ao partir da idéia de felicidade. agindo segundo a razão: “o homem feliz vive bem e age bem” (EN I. conclui Kant. Kant afirma que tudo o mais é relativo: virtudes como a coragem ou a moderação não são nem boas nem más. se não existir também a boa vontade que corrija a sua influência sobre a alma (. ou virtuoso. um bem. que nos levam a ajudar os outros. na ética aristotélica. Diferente dos outros seres da natureza. ou seja. a dignidade. Kant e a dignidade do homem É certo que desejamos a felicidade. a felicidade é o bem em si. REALE. os seus desejos e inclinações que o levam a obedecer suas paixões. aquilo que tem valor sobre todas as outras coisas. ou excelente.” (KANT. os seres racionais têm a capacidade de agir segundo leis morais. todo ser humano é um fim em si mesmo e não pode nunca ser tratado apenas como um meio para outros fins. capacidade de julgar e como quer que possamos chamar os talentos do espírito. ou seja. de obedecer à lei moral. não conta para a moralidade. sob o nome felicidade. A busca da felicidade é apenas um instinto natural que. temos. mas também podem tornar-se extremamente prejudiciais se a vontade. Outro grande questionamento à ética aristotélica foi feito por Kant: será mesmo a felicidade o bem supremo? Não haveria. argúcia de espírito. Volume 2.O conceito de felicidade de Aristóteles está intimamente associado ao de virtude. Assim. A razão prática nos mostra que o dever dos seres humanos se exprime da seguinte forma: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal” (FMC. e até também fora dele. segundo nossos desejos. basta pensar: eu gostaria que a máxima “todas as pessoas podem mentir para se livrar de dificuldades” se tornasse uma lei universal? Ora. porém. O imperativo categórico expressa a forma da ação correta ou o dever moral. É preciso aprender a ser justo. que são hábitos que se aprendem desde a infância. É preciso observar que nem todas as inclinações são egoístas. São Paulo. são sem dúvida a muitos respeitos coisas boas e desejáveis. de Paulo Quintela. História da Filosofia Antiga. Kant chamou esta lei de imperativo categórico porque ela vale absolutamente. assim a felicidade não é por si mesma um bem. Abril Cultural. mas nem todo prazer é bom ou está de acordo com a natureza racional do homem. com Kant. 2001. pelo que queremos fazer. que haja de fazer uso destes dons naturais e cuja constituição particular por isso se chama caráter. pois fica feliz ao agir corretamente. Poder. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Mas o que é a boa vontade? É a capacidade de seguir o dever. moderadas e corajosas. O que conta para a moralidade é a segunda natureza do ser humano. a realização. Aristóteles vai explicar melhor o que entende por virtude e como alcançá-la. as inclinações da simpatia. honra. como qualidades do temperamento. Já nas primeiras linhas da Fundamentação da Metafísica dos Costumes. não tem relação com a moralidade. Aristóteles. mas é importante lembrar que uma boa educação é fundamental para o desenvolvimento das virtudes morais. um bem maior. está sua natureza empírica. Alguns problemas. Kant se pergunta sobre o que seria o bem por excelência.

Trad. Para pensar: A moral kantiana fundamenta-se totalmente na razão. Lisboa. Antes. a razão é o instrumento de educação das paixões. A Arte de Pensar. de Paulo Quintela. Abril Cultural. os dois pensadores dão um lugar privilegiado à razão na moralidade: para Aristóteles. Editora Gradiva. Ética a Nicômaco. A discussão em torno dos fatos e valores e do objetivismo e relativismo visou introduzir a idéia de que a ética não deve ser vista nem como um assunto no qual “vale tudo” e no qual cada um tem sua opinião. Embora bastante diferentes entre si. Zahar Editora.São Paulo. Elementos de Filosofia Moral. RACHELS. J. Primeira Seção. Textos Básicos de Ética. 2005. 2007. São Paulo. na medida em que um acentua a busca da felicidade e outro acentua o dever. Aires (org. Belo Horizonte. para Kant. (trad. Danilo. (tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim> Säo Paulo. James. Ensino Médio. 1973 CORTINA. KANT. o livro de RACHELS. 1974 MARCONDES. Abril Cultural. Loyola. Rio de Janeiro. Adela e MARTINEZ. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Conclusão Alguns pontos das teorias morais de Aristóteles e Kant foram expostos com o objetivo de introduzir temas e conceitos importantes no debate ético. Filosofia 10º. Didática Editora. OPs e RAs sobre “Ser e Dever Ser” e “Universalidade e Relatividade dos Valores”. Ed. F. J. Site: http://criticanarede.Filosofia do Ensino Médio Autor(a): Telma de Souza Birchal Centro de Referência Virtual do Professor .SEE-MG / setembro 2010 . Cap. Filosofia. porém. a ética é um assunto de debate e investigação racional. PAX Editora Educacional. De Platão a Foucault. Ano. Ética. Volume 1. Bibliografia ALMEIDA. ARISTÓTELES. Lisboa. sempre em busca do aperfeiçoamento das normas e regras e da melhor forma de viver tanto para indivíduos como para as comunidades. (trad. deixando de lado os desejos e inclinações dos seres humanos.com/etica. ela indica aos seres humanos seu dever. nem como um saber que é de alguns e não de outros. Elementos de Filosofia Moral. não importa qual. EXPLIQUE sua resposta. Emilio. uma boa compreensão da moralidade? Ou os sentimentos de compaixão e solidariedade fazem parte da moralidade? Para saber mais. MEIER. 9 e 10 traz uma interessante discussão sobre a ética kantiana. Ed.html Módulo Didático: Os Valores Currículo Básico Comum .). Celito. Será esta. Azevedo Gonçalves). 2004. 2007. CENTRO DE REFERÊNCIA VIRTUAL DO PROFESSOR. 2010.Atividade VERIFIQUE se a máxima da ação “Faça promessas com a intenção de não cumpri-las” passa no teste do imperativo categórico. Silvana Cobucci Leite).