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UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ

MARIA ANTÔNIA DE SOUZA

ANÁLISE CRÍTICA DAS DECISÕES DO JUDICIÁRIO SOBRE A
EDUCAÇÃO SUPERIOR PARA BENEFICIÁRIOS DA REFORMA
AGRÁRIA

CURITIBA
2012

MARIA ANTÔNIA DE SOUZA

ANÁLISE CRÍTICA DAS DECISÕES DO JUDICIÁRIO SOBRE A
EDUCAÇÃO SUPERIOR PARA BENEFICIÁRIOS DA REFORMA
AGRÁRIA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao
Curso de Direito, da Faculdade de Ciências
Jurídicas, da Universidade Tuiuti do Paraná,
como requisito como obtenção do grau de
bacharel em Direito.
Orientador: Prof. Dr. Francisco Pinto Rabello
Filho.

CURITIBA
2012

TERMO DE APROVAÇÃO
Maria Antônia de Souza

ANÁLISE CRÍTICA DAS DECISÕES DO JUDICIÁRIO SOBRE A EDUCAÇÃO
SUPERIOR PARA BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA

Esta monografia foi julgada e aprovada para obtenção do diploma de bacharel em
Direito, Curso de Direito, Universidade Tuiuti do Paraná.

Curitiba,

junho de 2012.

Curso de Direito
Universidade Tuiuti do Paraná
___________________________
Prof. Dr. Eduardo de Oliveira Leite
Coordenador do Núcleo de Pesquisa da UTP

_______________________________________
Orientador: Prof. Dr. Francisco Pinto Rabello Filho
Faculdade de Ciências Jurídicas da UTP

________________________________________
Prof. MSc. Manoel Caetano Ferreira Filho
Faculdade de Direito – Universidade Federal do Paraná

________________________________________
Prof. Dr. Sérgio Said Staut Júnior
Faculdade de Ciências Jurídicas da UTP

bondade e gentileza para com as pessoas. Energia que me fez seguir até o fim do curso de Direito. aos cinco anos de idade. mesmo sem saber qual é o significado filosófico e histórico desses conceitos. que. demonstra respeito. por tanta energia destinada a mim. E. em meio a tantas outras atribuições.DEDICATÓRIA A todos os estudantes que se esforçam para ampliar a “sua caixinha de ferramentas do conhecimento”. . seguindo o exemplo de trabalho dos meus pais. tal como diz o educador Miguel Arroyo. meu filho. Aos trabalhadores que lutam cotidianamente na construção de um modo de vida melhor. por mais longo que seja o trajeto. Ao Cosmos. aprendi que não se deve desistir no meio do caminho. Ao Renan.

. pela confiança depositada na filha e pelo inesquecível ensinamento da dedicação ao trabalho. Ambas deram apoio irrestrito para que eu pudesse concluir o curso. em especial ao João e ao Renan. À Rosane Kolotelo. Como escreve Paulo Freire. Maria Arlete Rosa e à Doutoranda Maria Iolanda Fontana. pelo aprendizado possibilitado em suas aulas e na orientação deste trabalho. Esméria de Lourdes Saveli. Profa. Rejane Aurora Mion. Rabello. Agradeço. pela força e dedicação exclusivas para que a mãe. seja como aluna. Dra. À Miriam e Maria Porfíria. em especial à Profa. Aparecida e José. Márcia Barbosa da Silva Profa. portanto. À mãe e ao pai. O orientador é pessoa que faz o orientando caminhar para atingir um objetivo. Dra. Aos colegas da UEPG. Dr. o direito e a justiça. pela amizade e ajuda oferecida na realização da graduação. em especial à Profa. Dra. Tento fazer valer essa máxima no meu dia a dia na universidade. “ninguém educa ninguém. ao Prof. seja como professora. À família. esposa. pela colaboração. ninguém aprende sozinho”. Dra. professora e pesquisadora concluísse a sua “passagem” pelos bancos escolares.AGRADECIMENTOS A todos que contribuíram na materialização dos meus pensamentos sobre a educação. mesmo com tantas ausências às aulas. pelo apoio e incentivo. Aos colegas do PPGEd – Mestrado e Doutorado em Educação.

2002. 46-47) . positivamente ou negativamente.A Constituição representa um momento de redefinição das relações políticas e sociais desenvolvidas no seio de uma determinada formação social [..] A Constituição opera força normativa. os Poderes Públicos. vinculando. sempre.. (RABELLO FILHO. p.

História. saúde. A legalidade do curso foi questionada pelo Ministério Público Federal da Regional de Pelotas. Comunicação. As primeiras experiências de educação superior foram com a Pedagogia da Terra. Depois surgiram cursos de Agronomia. 3) o curso de Medicina Veterinária desenvolvido na Universidade Federal de Pelotas/RS. Esses cursos vinculam-se ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária. A hipótese inicial da pesquisa era de que o positivismo jurídico imperava nas decisões do Poder Judiciário. Direito. Neste trabalho selecionamos três casos para análise. por meio de ação civil pública. beneficiários da reforma agrária. Os três casos foram escolhidos em função das polêmicas geradas no âmbito judicial e pelo trâmite processual longo e denso de cada caso. com grau significativo de criticidade em relação a questões sociais brasileiras. Geografia. Entretanto. Medicina Veterinária entre muitos outros.RESUMO O objetivo deste trabalho é caracterizar as decisões do Judiciário sobre os cursos de educação superior para os beneficiários da reforma agrária no Brasil. também em parceria com o INCRA. Os princípios constitucionais presentes nas ações civis públicas são: legalidade. cuja legalidade foi questionada pela Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe. a saber: 1) o curso de Agronomia oferecido pela Universidade Federal de Sergipe em parceria com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). A investigação toma como referência as contradições inerentes ao modo de produção capitalista. nos respectivos estados. Os conceitos centrais são: princípios e princípios constitucionais. trabalho. isonomia (igualdade). luta pela educação no contexto da luta pela terra. 2) o curso de Direito ofertado pela Universidade Federal de Goiás em parceria com o INCRA. moradia. Palavras-chave: princípios constitucionais. Esses princípios recebem tratamento diverso no âmbito do Poder Judiciário. educação superior. proporcionalidade e razoabilidade. A legalidade e a finalidade do curso foram questionadas pelo Ministério Público Federal de Goiás. a exemplo da luta política (e de classe) travada na busca pela efetivação de direitos sociais (educação. A técnica central de coleta de dados foi o levantamento de documentos referentes aos três casos. alimentação). O tipo de pesquisa é descritivo. criado em 1998 junto ao Ministério de Desenvolvimento Agrário. ao final da pesquisa foi possível concluir que as características de positivismo jurídico são encontradas muito mais no Ministério Público Federal do que nas decisões do Judiciário. .

LISTA DE SIGLAS AEASE Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe AGU Advocacia Geral da União ANCA Associação Nacional de Cooperação Agrícola CEFFAs Centros Familiares de Formação por Alternância CONSED Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação CONTAG Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura CPT Comissão Pastoral da Terra CPT Comissão Pastoral da Terra FAPESE Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe FETRAF Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FUNAPE Fundação de Apoio à Pesquisa IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais MAB Movimento dos Atingidos por Barragens MDA Ministério de Desenvolvimento Agrário MMC Movimento das Mulheres Camponesas. MOBRAL Movimento Brasileiro de Alfabetização MPA Movimento dos Pequenos Agricultores MPF Ministério Público Federal MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra PJR Pastoral da Juventude Rural .

Alfabetização. SEB Secretaria de Educação Básica SECAD Secretaria de Educação Continuada. Diversidade e Inclusão SEED Secretaria de Estado da Educação SEESP Secretaria de Educação do Estado de São Paulo SESu Secretaria de Educação Superior SETEC Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica STF Supremo Tribunal Federal STJ Superior Tribunal de Justiça TAC Técnico em Administração Cooperativa TRF Tribunal Regional Federal TRF1 Tribunal Regional Federal da 1ª Região TRF4 Tribunal Regional Federal da 4ª Região TRF5 Tribunal Regional Federal da 5ª Região UFG Universidade Federal de Goiás UFS Universidade Federal de Sergipe UFPEL Universidade Federal de Pelotas UNDIME União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação . Alfabetização e Diversidade SECADI Secretaria de Educação Continuada.PROCAMPO Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo PRONERA Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária PROQUERA Projeto de Qualificação em Engenharia Agronômica para Jovens e Adultos dos Assentamentos de Reforma Agrária da Região Nordeste RESAB Rede Educacional do Semi-Árido Brasileiro.

.........LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 – CURSOS DE EDUCAÇÃO SUPERIOR PARA BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA .......42 FIGURA 2 – FORMATURA DA 1ª TURMA DE AGRONOMIA – UFS............. REFORMA AGRÁRIA.... 2/8/2008 ...........................66 .............49 FIGURA 3 – SÍMBOLO DO CURSO DE DIREITO DA UFG............

.ESTRUTURA FUNDIÁRIA E ÍNDICE DE GINI: 1992. 1998 e 2003 ..LISTA DE TABELAS TABELA 1 . 17 .

................................43 3 AÇÃO CIVIL PÚBLICA.......................................................................................................................25 2...........................38 2.........................................3 AS EXPERIÊNCIAS ESTUDADAS: Universidade Federal de Goiás (UFG)........25 2..................................................100 REFERÊNCIAS............................2 O PROGRAMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO NA REFORMA AGRÁRIA .........................................................................50 4 AÇÃO CIVIL PÚBLICA....................... Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e Universidade Federal do Sergipe (UFS) ........... DECISÃO JUDICIAL E PRINCIPIOS CONSTITUCIONAIS: O CASO DO CURSO DE AGRONOMIA...................................67 5 AÇÃO CIVIL PÚBLICA.........................................105 ..... DECISÃO JUDICIAL E PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS: O CASO DO CURSO DE DIREITO...1 A LUTA PELA EDUCAÇÃO ENTRE OS BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA..........................SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................85 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................12 2 EDUCAÇÃO SUPERIOR PARA BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA .... DECISÃO JUDICIAL E PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS: O CASO DO CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA .......................

2. são 40% as pessoas consideradas analfabetas funcionais. p.4% têm 3 anos e 10..7% de pessoas analfabetas no Brasil. um contingente de 14 milhões de pessoas. 10. A média de anos de estudo da população com 10 anos ou mais é de 8. Em 2009. Entre os moradores do espaço urbano. 138) A sociedade brasileira participou e provocou inúmeras mudanças na esfera dos direitos.385 milhões. Dessas pessoas. de leituras. O exemplo notório da ocorrência de mudanças na constituição e efetivação de direitos no Brasil é a educação.1% têm um ano de estudo. O total da população do país que possui idade de 15 anos ou mais é de 145. Entre os moradores do campo.12   1 INTRODUÇÃO “[.034 milhões de habitantes . Dentre os moradores do espaço rural.] Quem somos nós.7% de analfabetos funcionais. É bem verdade que o Brasil historicamente vivenciou lutas e tensões sociais decorrentes da expressiva concentração da renda e consequente desigualdade social. 3. Rui Barbosa foi um dos juristas e jornalistas que enfatizou a importância da educação e da escolarização para o desenvolvimento do país. quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências. Dos 23.5% não têm instrução. particularmente a partir da segunda metade do século XX. praticamente com o Ensino Fundamental concluído. No final do século XIX. o Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa (IBGE) registrou 9.3% têm 2 anos de estudo. 1990. essa média é de cinco anos de estudos. 4. são 16. de imaginações?” (Italo Calvino. de informações.5.6% têm 4 anos de estudo. o Brasil contava com 80% da população analfabeta. ou seja..

9%) possuem 11 anos de estudo (3° ano do ensino médio concluído). ora para a acusação de inconstitucionalidade dos mesmos. como escreve Arroyo (2012).”. como é o caso de José Martí em Cuba.13   que possuem idade entre 18 e 24 anos. Caput e Inciso I está expresso que “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola.]”. No artigo 205 do referido texto está disposto que “A educação. Esses dados revelam que a escolaridade ainda é um dos principais desafios da sociedade brasileira.. e inúmeras tentativas para mantê-los à margem da história. no artigo 206. direito de todos e dever do Estado e da família. E. 8. a exemplo do que defendia Paulo Freire e tantos outros educadores da América Latina. que a educação é um dos direitos sociais. Cria-se um conjunto de inferiorizados. Verifica-se a desigualdade gerada também pela fragilidade educacional. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade [.722 milhões (37. é fundamental que a formação educacional constitua elemento para a emancipação política e social de um povo. Entretanto. mais do que escolarizar. . Tomando como referência o texto constitucional e a emergência das experiências em Educação Superior construídas em colaboração entre Universidade e Movimento Social. no artigo 6°. Denomina-se polêmica jurídica o fato de princípios constitucionais serem utilizados ora para a defesa desses cursos. É fundamental que a educação seja um dos instrumentais para a transformação das condições de subalternidade e de desigualdades que historicamente marcam a sociedade brasileira. O texto constitucional da República Federativa do Brasil expressa. este trabalho dá ênfase às polêmicas jurídicas geradas em três cursos superiores para beneficiários da reforma agrária..

em parceria com o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). 37): . indiretamente. alíneas “a” e “b”. primeiramente. Num segundo momento da pesquisa. Uma teoria não é uma chegada. utilizado à luz do que escreve Rabello Filho (2002. à análise dos argumentos jurídicos utilizados pelo Ministério Público ao ingressar com Ação Civil Pública contrária aos cursos superiores para beneficiários da reforma agrária. por estar presente nos assentamentos de reforma agrária. tendo como referência o que escreveu Morin (1996. INCRA (governo federal). Essas ações questionam a legalidade dos cursos de educação superior destinados aos assentados. é a possibilidade de uma partida”. Os três cursos são desenvolvidos em universidade federais. e. Nessa mesma linha de polêmica jurídica. da referida lei. 335): “Uma teoria não é o conhecimento. a saber: 1) O conceito de princípio. tem sido o instrumental utilizado pelo MPF. A Ação Civil Pública. e no Rio Grande do Sul. A investigação foi desenvolvida com ênfase na perspectiva interdisciplinar. conforme Inciso I. p. ela permite o conhecimento. É o caso específico do ocorrido no Estado de Goiás. o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). por meio de convênios que articulam três partes: Universidade. de acordo com o artigo 5°. p. com o curso de Direito. e pelas Associações. disciplinada pela Lei 7. foi analisado o conjunto de argumentos jurídicos apresentados pela Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe contra o curso de Agronomia. com o curso de Medicina Veterinária. Inciso V.14   A atenção foi voltada. a atenção esteve direcionada à identificação dos princípios constitucionais utilizados pelos juízes na análise das Ações Civis Públicas.347/1985. Duas compreensões teóricas são importantes nesta investigação.

Com o pós-positivismo [.15   [. Normas da maior e mais alta eficácia. Primeiro.] os princípios ficaram postos em tão elevado pedestal que sua luz ilumina. em meio ao período ditatorial.. É possível afirmar que as lutas dos movimentos sociais resultam em mudanças no ordenamento jurídico. a partir das décadas de 1940 e 1950.] os princípios constitucionais têm posição preeminente. a exemplo do que ocorre com o reconhecimento de direitos sociais. ou o reconhecimento da união entre as pessoas que optam por relação sexual com indivíduos de mesmo sexo. sua supremacia em relação a todo o ordenamento jurídico é hodiernamente matiz que não se pode seriamente questionar. Posteriormente. Foram reivindicações pela construção de prédios escolares públicos. foi marcada por lutas populares urbanas.. sobranceira. dentre as quais a demanda pelo acesso e permanência na escola. Desenvolveu a concepção educacional dialógica que fundamenta a ação de diversos movimentos de trabalhadores. bem como professores com melhor formação e conteúdos com significado social. A . o país vivenciou dois tipos de movimentos educacionais... Nas décadas de 1960 a 1980. Para fins da contextualização do problema aqui investigado. mediante ações com vistas a um maior número de classes nas escolas. em especial a partir da década de 1930. não só em relação à própria Constituição como no que concerne a todo o sistema jurídico nacional. Paulo Freire estava à frente do debate educacional. todo o universo jurídico. no início de 1960. tal qual explícito no artigo 6° da Constituição da República Federativa do Brasil. faz-se necessária uma retrospectiva das práticas sociais geradoras de direitos. ocorreram lutas pela ampliação da oferta educacional. 2) Refere-se ao entendimento de que a luta pela educação e pela reforma agrária são formas de pressão dos movimentos sociais para a efetivação dos direitos. A história brasileira. ainda que com pequena repercussão para fins da “verdadeira” reforma agrária. ou também a definição da função social da propriedade rural.

portanto. houve a exposição de uma diversidade de direitos e garantias sociais. por meio de cartilhas. em relação aos outros textos constitucionais. em particular às demandas das classes trabalhadoras. com a Lei de Terras.16   educação seria uma das reformas de base a serem efetivadas em meados do século XX. Em 1850. ao passo que sua efetivação depende. A mesma linha de raciocínio pode ser desenvolvida sobre as lutas pela terra. somente seria proprietário de terra aquele que a . uma luta contra o latifúndio que constitui marca histórico-estrutural do Brasil. De Quilombo dos Palmares ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. No final do século XX. proliferou um processo de alfabetização mecânico em toda a sociedade brasileira. em muitos casos. Todos eles guardam relação com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e também demonstram “atendimento” às lutas sociais construídas durante todo o século XX. De fato. alguns movimentos tiveram destaque na conjuntura política. cujas características foram de “constituição cidadã” e “constituição social”. Entrou em cena um movimento conservador no plano educacional. pelo fim da ditadura. com o ingresso no período ditatorial. Segundo. O exemplo claro é o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). os direitos vão sendo positivados no texto constitucional. as reformas de base foram praticamente abolidas da pauta governamental. foi aprovada a Constituição da República Federativa do Brasil. em meio às lutas pela abertura democrática e. que. Em 1988. da forte atuação da sociedade civil organizada. como é o caso das greves dos trabalhadores das montadoras de automóveis. Assim. as ações do MST e as manifestações do Fórum em Defesa da Escola Pública.

255 pequenas propriedades.fct.br/nera/atlas/estrutura_fundiaria. a saber: Hhttp://www2. 1998 e 2003 1                                                              1 A tabela está disponível no site – Atlas da Questão Agrária. A propriedade da terra continuou concentrada em poucas mãos. assim. 20h. tendo a abolição dos escravos ocorrida em 1888.104 imóveis com mais de 2. . nesse período a sociedade era escravocrata.971. assim como nos dias atuais. a extrema concentração da terra no país. Aproximadamente 1% da população brasileira detém 46% das terras agricultáveis.htmH.unesp. O acesso foi em 30/10/2011. A sociedade brasileira conta cerca 33.17   adquirisse por meio da compra ou que tivesse a propriedade legitimada. Contudo.000 hectares e 3. expressando. TABELA 1 – Estrutura fundiária e Índice de Gini – 1992.

passando de 0.000 e 100. assim como muitos outros. mas o conjunto da área ocupada por eles sofreu leve acréscimo. o Estado do Paraná possui em torno de 330 assentamentos da reforma agrária. O Índice de Gini revela ainda a alta concentração da terra no país. 2 Em 2012. que produz 33% do arroz do Estado. município de Querência do Norte/PR. Neles estão localizadas 99 escolas públicas estaduais. Os processos de concentração da terra são responsáveis pela migração campo-cidade. haja vista a precariedade da oferta educacional por parte do Poder Público. Pequenos agricultores com dívidas oriundas da aquisição de maquinários agrícolas entregaram as terras ao setor financeiro. desse processo migratório. constata-se que o número de imóveis com área 6. desenvolvidas a partir dos anos de 1960 no Brasil. O estado do Paraná é exemplo. a juventude também deixa o campo em direção às cidades em busca de estudo. De outro lado. como é o caso do Assentamento Pontal do Tigre.18   Na Tabela 1. tanto quanto as políticas de “modernização da agricultura”. Alguns assentamentos são responsáveis por boa parte da produção alimentícia que chega às mesas dos brasileiros. os alunos têm que utilizar o transporte escolar e estudar nas escolas localizadas nos núcleos urbanos. no geral aumentou o número de grandes propriedades. o Estado do Paraná possuía um dos maiores latifúndios. A maior parte das escolas oferece os Anos Iniciais do Ensino Fundamental. .77% no ano de 2003. ou o                                                              2 Maiores detalhes são encontrados na dissertação de Jeinni Kelly Pereira Puziol (2012). As políticas de preços agrícolas são decisivas na saída dos trabalhadores do campo em direção às cidades. Para cursar o Ensino Médio. O número de imóveis pequenos aumentou.65% dos imóveis no ano de 1992 para 0. com cerca de 4 milhões de hectares de terra. Mas.000 hectares sofreu diminuição. Em 1991. em pagamento a essas dívidas.

como escreveu Sampaio (2010. Dez anos após as primeiras ocupações. que foi o responsável pelo crescimento da localidade a partir do final da década de 1990. em 1998. 404). Souza dá ênfase à construção das propostas e práticas pedagógicas do MST. na UNICAMP. no ano de 1978. surgem as primeiras ocupações do MST. cuja responsabilidade é a criação dos cursos para beneficiários da reforma agrária. a criação de uma articulação nacional de advogados simpatizantes da causa da                                                              3 Souza (2006a) em livro oriundo da tese de doutorado em Educação. Entretanto. que tem terra e trabalho coletivos e garante boa parte da produção de alimentos orgânicos na região. Na obra publicada em 2006. constantes desempregos e conflitos em torno da terra. pode ser citado o assentamento Ireno Alves. Os movimentos sociais do campo sempre geraram inquietação jurídica e política na sociedade.19   assentamento Santa Maria. Passados outros dez anos. o referido Movimento cria um Setor de Educação 3 . defendida em fevereiro de 1999. Também. por meio de convênios firmados entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. realizou-se em Luziânia a I Conferência Nacional Por Uma Educação Básica do Campo. que ficou responsável por fortalecer as lutas pela escola e pela continuidade dos estudos. migração de trabalhadores do campo em direção às cidades. da cooperação agrícola nos assentamentos e da luta por educação. universidades públicas e os movimentos sociais. com desapropriação de parte de um dos latifúndios improdutivos do Estado do Paraná. em 1987. mediante a tendência de serem descritos como “transgressores da ordem”. no município de Rio Bonito do Iguaçu/PR. A partir dos debates nesse espaço público – conferência − foi criado o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA). . traz a história do MST. p. No cenário de concentração da terra. no município de Paranacity/PR.

A justificativa para a escolha do tema e do problema ora investigado assenta-se nos seguintes fatores: . extrato.. Pedido de antecipação de tutela e o respectivo julgamento. As decisões proferidas nos Tribunais Regionais Federais. pois entende que a finalidade de seus autores não é a de esbulhar um legítimo proprietário. fornecido pelo Judiciário que demonstra o movimento dos processos. Pedido de suspensão da tutela antecipada e o respectivo julgamento. o documento. Atualmente a Justiça não mais enquadra essas ações como figuras delituosas..] jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça em relação aos crimes de ‘esbulho possessório’ e ‘formação de bando e quadrilha’. Para responder a questão central e atingir os objetivos propostos. mediante análise dos seguintes documentos objetos de investigação: Conteúdo das ações civis públicas. foi utilizada a abordagem qualitativa de pesquisa. Sentença proferida pelo Juízo em 1° Grau. É nesse cenário de lutas populares que está o problema e o objetivo geral deste trabalho de conclusão de curso.20   reforma agrária – Rede Nacional de Advogados Populares – contribuiu para a alteração da [. mas pressionar o governo pela execução da reforma agrária. b) Identificar os princípios constitucionais e os argumentos jurídicos que estão presentes nas ações civis públicas contrárias aos cursos de Educação Superior para beneficiários da reforma agrária. a saber: Quais são as decisões do Judiciário sobre ações civis públicas contrárias aos cursos de Educação Superior para os beneficiários da reforma agrária? Os objetivos específicos resumem-se no que segue: a) Caracterizar a origem de três experiências de Educação Superior ofertada aos beneficiários da reforma agrária. em que eram indiciados sistematicamente os organizadores das ocupações de terra. Por fim.

É o que se problematiza nesta pesquisa: a educação superior demandada pelos movimentos sociais do campo e ofertada pelas universidades públicas federais. embora haja espaço para discussão do Direito Agrário nos cursos de Direito. tenho investigado a educação escolar entre os beneficiários da reforma agrária. passei a participar efetivamente dos debates sobre educação do campo no Estado do Paraná e no Brasil. a temática e a problemática em questão articulamse com as pesquisas que desenvolvo na área educacional. de diversas áreas do conhecimento. Essa realidade é ainda presente na sociedade brasileira e muito expressiva nas áreas de assentamentos rurais. Entretanto. Desde 1989. É possível afirmar que. que até a presente data moram e trabalham com a terra. a problematização das questões agrárias e fundiárias deixam de ser articuladas aos direitos sociais. 2) Atuação profissional na área. enfrentando todas as intempéries climáticas e conjunturais. aposentados com salário mínimo. Assim. que afirmam que a reforma agrária somente será possível no Brasil quando estiver articulada com a efetivação dos direitos sociais. muito cedo se dedicaram ao trabalho agrícola. Eles não tiveram oportunidade de estudo numa época em que as escolas eram em número reduzido e muito distantes das localidades rurais onde moravam. Trata-se o direito agrário do ponto de vista da propriedade e da sua função social. demonstraram o baixo nível de escolaridade dos beneficiários da reforma agrária. sou filha de pequenos proprietários. moradia. realizado em 1996. como saúde. Pessoas como meus pais foram excluídas do processo formativo escolar. .21   1) Lacuna na área do conhecimento. Dados do I Censo da Reforma Agrária. A partir de 2002. trabalho etc. são inúmeros os autores. bem como a alta taxa de analfabetismo. 3) Interesse pessoal. Desse modo. educação. Mais do que atuação profissional.

o Ministro Relator Herman Benjamin pronunciou-se favorável à limitação dos efeitos da tutela antecipada pela Corte de origem. porque é observável uma divergência no âmbito do Judiciário no trato do problema em foco. Exemplo disso é a decisão proferida em 27 de abril de 2009. porque o Judiciário está envolto a diversos casos que têm em cena os beneficiários da reforma agrária e a luta pelo acesso à Educação Superior. analisando Recurso Especial. na área jurídica. Investigações de mestrado versando sobre o assunto. o Ministério Público Federal (MPF) foi o autor das ações civis públicas.22   Por que é importante investigar esse problema no âmbito do curso de Direito? Primeiro. Terceiro. o curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Pelotas. Segundo. voltou a funcionar. Ele indeferiu o pedido de suspensão de tutela antecipada de interesse do INCRA no que se refere ao funcionamento do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Pelotas. no STF. Por outro lado. Esses casos tiveram origem a partir das experiências de Educação Superior criadas na primeira década do século XXI. Nos Estados do Rio Grande do Sul e de Goiás. a Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe foi a responsável pela ação civil . Por fim. No Estado de Sergipe. Com essa decisão. ofertado aos filhos e beneficiários da reforma agrária. estão em andamento no Estado de Goiás e no Distrito Federal. no âmbito do STJ. porque praticamente inexistem estudos sobre este tema e problema. pelo Ministro Gilmar Mendes. respectivamente quanto aos cursos de Medicina Veterinária e Direito. que estava interrompido. cabe dizer que ações civis públicas têm sido elaboradas a fim de impedir o funcionamento dos cursos superiores para beneficiários da reforma agrária no Brasil. haja vista estarem vinculados ao PRONERA.

Serão evidenciados os princípios constitucionais que constituem fonte para a argumentação nas ações civis públicas. têm gerado polêmicas infindáveis e todos os argumentos. e não contra ela.347 de 24 de julho de 1985. A fundamentação teórica da pesquisa reside no âmbito do Direito Constitucional. nas decisões da justiça de 1° grau e de 2° grau. cenário em que se localiza o PRONERA e os cursos ora estudados. Dessa forma. a saber: O primeiro traz uma caracterização da educação do campo no Brasil. O terceiro capítulo traz a descrição da ação civil pública proposta pelo MPF de Goiás. Em face disso. Este trabalho está estruturado em quatro capítulos. justifica-se o presente trabalho pelo seu caráter inédito e por sua relevância para a problematização de dois condicionantes estruturais históricos que afligem o Brasil desde o seu “nascimento”. fazem uso dos princípios constitucionais para dizer da “legalidade” ou da “ilegalidade” dos cursos. também para os beneficiários da reforma agrária. é importante estudar o tema no Direito. tantos os favoráveis quanto os contrários. quando analisados sob a ótica da Justiça.23   pública contrária ao funcionamento do curso de Agronomia. apontando um quadro dos princípios constitucionais que fundamentam as ações. haja vista que a ação civil pública é para ser um meio de questionamento de direitos em prol da sociedade civil. bem como em questões que chegaram ao STF e ao STJ. conforme dispõe o artigo 1° da Lei n° 7. São eles: a baixa escolaridade do povo brasileiro e a alta concentração da terra no país. Esses dois problemas. O segundo descreve a ação civil pública proposta pela Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe e o trâmite no judiciário. contra o curso de Direito na Universidade Federal de Goiás e caracteriza o trâmite no judiciário. na Universidade Federal de Sergipe. indicando os princípios alegados nas .

352 de 4 de novembro de 2010. recursos e pedidos de antecipação de tutela.24   peças. uma verdadeira reforma agrária. O quarto capítulo apresenta a ação civil pública do MPF de Pelotas contra a UFPEL. com muita luta. que tenham continuidade na sociedade. É assim que o Decreto Presidencial de 2010 4 foi publicado com o intuito de dar consistência a uma política de Estado no âmbito dos assentamentos de reforma agrária e dos pequenos agricultores do país.                                                              4 Decreto n° 7. as considerações finais marcadas pela indicação de diversos questionamentos que perduram após o estudo de tipo descritivo. Espera-se que o trabalho possa suscitar o interesse dos profissionais do Direito que estão envolvidos nas ações civis públicas ou nos processos decisórios no âmbito do Judiciário. salientando os diversos princípios constitucionais arguidos em sede de ação. no futuro. Há que se pensar na consolidação de políticas de Estado. Importante destacar que a existência dos cursos superiores para os beneficiários da reforma agrária vem ampliar as possibilidades de o país ter. apelação. Até o presente momento. com ensaios analíticos. a sociedade brasileira. conseguiu que o Poder Público desenvolvesse programas ligados aos direitos sociais. contestação. . e o funcionamento do curso de Medicina Veterinária. e que a atenção esteja voltada à interpretação crítica das normas e princípios constitucionais. Por fim.

1 A LUTA PELA EDUCAÇÃO ENTRE OS BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA A compreensão da luta pela educação entre os beneficiários da reforma agrária passa pela análise das seguintes perguntas: 1) Como ocorreu a organização do MST? 2) Quais são os principais motivos que desencadearam a luta pela educação no contexto da luta pela terra? 3) Quais articulações e parcerias foram feitas durante a construção da então denominada educação do campo? 4) Quais são as conquistas e os desafios que acompanham as experiências educativas. em especial aquelas efetivadas no âmbito da educação superior? A resposta a tais questões implica uma retrospectiva no tempo. num primeiro momento. pelos trabalhadores rurais sem-terra. 2. . é fundamental uma breve menção à história da educação do campo no país que. por sua vez. retornando aos acontecimentos da década de 1980. dentro do qual têm sido efetivados cursos superiores para beneficiários da reforma agrária. emerge das lutas empreendidas. será descrita a emergência do PRONERA. quando diversas ideias sobre a escolaridade dos trabalhadores do campo estavam em debate. ver obra de Souza (2010). Para isso.25   2 EDUCAÇÃO SUPERIOR PARA BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA O objetivo deste capítulo é caracterizar a luta pela educação entre os beneficiários da reforma agrária no Brasil. 5 Posteriormente à menção da luta pela educação entre os sem-terra.                                                              5 Sobre o assunto movimentos sociais e educação do campo. para não dizer ao século XIX.

na . formação de professores. Os jovens foram os principais afetados. Com isso. pois. Os movimentos e as lutas sociais surgem para questionar processos de exclusão e desigualdade sociais. já havia invertido a realidade populacional brasileira. As escolas que eram isoladas e unidocentes foram fechadas e deram lugar à escola denominada nucleada. para ter acesso ao ensino de 2° grau (atual Ensino Médio).26   Na década de 1980. Essa experiência havia sido desenvolvida nos Estados Unidos. na década de 1960. muitas escolas públicas rurais (estaduais e municipais) foram fechadas sob a alegação de que o número de alunos não era suficiente para a manutenção das turmas e classes escolares. É o Setor de Educação que denuncia. Houve o início de um processo denominado nucleação ou consolidação de escolas rurais. por outro lado. Muitas escolas foram fechadas e não havia transporte escolar. a exemplo do que relatou Pereira (2002) a partir da sua tese de doutorado. processos de exclusão escolar marcaram a vida da população do campo na década de 1980. um acontecimento da década de 1980 que impulsionou a luta por educação do campo foi o fechamento das escolas. Se. por um lado. conteúdos escolares etc. a organização do MST era fortalecida. responsável pelo debate sobre a escola. conjuntura em que a migração campo-cidade. era necessário dirigir-se à escola da cidade. Será a partir do final dos anos de 1970 que um fenômeno político (fechamento e nucleação de escolas) impactará no estudo das crianças e jovens em idade escolar. muitas iniciativas políticas interferiram na então denominada educação rural. nessa mesma época. embora continuasse. em função da criação do Setor de Educação. A partir desse período.

feita com Erivan Hilário.432 escolas em 2002.o que permitiu a consolidação da pauta – o fechamento das escolas vai ao sentido contrário do que parecia cristalizado. significando o fechamento 24. existiam 107. duas estão reproduzidas . conforme reportagem a seguir: Mais de 24 mil escolas no campo brasileiro foram fechadas no meio rural desde 2002. o fechamento de escolas públicas localizadas no campo. O fechamento dessas escolas demonstra o drástico problema na vida educacional no Brasil. um campo sem cultura e sem escola. (MST. De acordo com o Censo Escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). por conseguinte. (MST. especialmente no meio rural. do Setor de Educação do MST. Em 2009. e o movimento contra o fechamento das escolas do campo iniciado em 2011.179 escolas municipais. O mesmo encontra-se disponível no site do MST (2011). revelam o panorama do atual momento pelo qual passa a educação do campo. Após décadas de lutas por conquistas no âmbito educacional. Os governos têm demonstrado cada vez mais a clara opção pela agricultura de negócio – o agronegócio – que tem em sua lógica de funcionamento pensar num campo sem gente e. cujas reivindicações foram atendidas em parte . sendo 22. embora tenha início na década de 1970 no Brasil. lutas e propostas.27   conjuntura atual. Nesse quadro. mas o Ministério da Educação também tem responsabilidade. relacionado às disputas de projetos de campo. o número de estabelecimentos de ensino reduziu para 83. Vale mencionar a entrevista publicada no site do MST. articular diversos setores contra esses retrocessos e denunciar a continuidade dessa política. o MST lançou a Campanha Nacional contra o Fechamento de Escolas do Campo. que pretende fazer o debate sobre a educação do campo com o conjunto da sociedade. do Ministério da Educação. Dentre as questões feitas ao representante do Setor de Educação do MST.396 estabelecimentos de ensino. que assim se refere ao fechamento das escolas: O fechamento das escolas no campo nos remete a olhar com profundidade que o que está em jogo é algo maior. 2011) Em 2011 foi lançado um manifesto de educadores brasileiros contra o fechamento das escolas do campo. 2011a) A política de fechamento das escolas localizadas no campo. Essas escolas foram fechadas por estados e municípios.036. apontando desafios.

Em síntese. foi aprovada a Constituição da República Federativa do Brasil. (MST. 2011a) Ainda. 2012). os camponeses e os pequenos agricultores têm resistido contra esse modelo que concentra cada vez mais terras e riqueza. os camponeses são considerados como “atraso”.28   adiante. em entrevista publicada no site do MST. no ano de 1988. com base na produção que tem como finalidade o lucro. Nesse sentido. dentre os quais a educação. E a Educação Superior. Os governos têm demonstrado cada vez mais a clara opção pela agricultura de negócio – o agronegócio – que tem em sua lógica de funcionamento pensar num campo sem gente e. de comunidades contra a lógica desse modelo capitalista neoliberal para o campo. a partir de 1987 o Setor de Educação do MST ficou responsável pela elaboração de muitos materiais pedagógicos e documentos que discutiam os princípios filosóficos e pedagógicos da educação para os assentamentos e . Nota-se que a educação do campo revela que existe um projeto de Brasil que inclui o campo do agronegócio. por conseguinte. Nessa lógica. E nesse projeto não estão incluídos os povos do campo. e nela foram expressos diversos direitos sociais. um campo sem cultura e sem escola. ao que o entrevistado responde: O fechamento das escolas no campo nos remete a olhar com profundidade que o que está em jogo é algo maior. lutar contra o fechamento das escolas tem se constituído como expressão de luta dos camponeses. é fundamental para ampliar o acesso ao conhecimento científico por parte dos beneficiários da reforma agrária. relacionado às disputas de projetos de campo. Por isso a importância política da discussão de um projeto popular. é importante recordar que. afirma que o “fechamento de escolas é atentado” (HAGE. cabe lembrar que o professor e pesquisador da Universidade Federal do Pará. em foco nesta pesquisa. um projeto de sociedade assentados nos interesses da maioria trabalhadora do país. Por isso. Diante das várias faces da exclusão e das lutas empreendidas pelos povos do campo. Foi-lhe perguntado sobre os motivos do fechamento das escolas.

sobre a educação em sentido amplo. em relação com as instâncias . as disposições sobre a educação rural sempre foram tímidas na legislação constitucional e educacional. é importante verificar como as lutas dos povos do campo. sobre as políticas educacionais e sobre um projeto de campo necessário àqueles que vivem e trabalham com a terra. e por meio dele constatou-se o elevado grau de analfabetismo e a baixa escolaridade entre os beneficiários da reforma agrária. Foram os movimentos sociais de trabalhadores rurais que trouxeram para o ordenamento jurídico-educacional (diretrizes. que favoreceram a organização de cursos de educação superior nas universidades públicas. Em 1997 foi realizado o I Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária. Até a década de 1990. ao lado dos percentuais também indicados pelo IBGE sobre a frágil escolaridade verificada entre os povos do campo. seguido da I Conferência Nacional: Por uma Educação Básica do Campo. decretos) a concepção da educação do campo. Toda essa experiência pedagógica fortaleceu a emergência de um movimento nacional da educação do campo e nele programas governamentais. oriundos da relação entre sociedade civil organizada e governos. portarias. Em 1996 foi realizado o I Censo Nacional da Reforma Agrária.29   acampamentos. impulsionaram a emergência do movimento da educação do campo. Esse fato gerou inquietações sobre as escolas localizadas nos assentamentos organizados no MST. Diante dessa constatação. dos povos do campo. em 1998. durante a década de 1990. Começou a ganhar expressividade um espaço público de debate. Foi assim que a concepção de educação do campo foi trilhada nos coletivos educacionais dos movimentos sociais. resoluções.

30   governamentais. abertura de cursos de Pedagogia (conhecidos como Pedagogia da Terra) destinados aos profissionais que trabalhariam nas escolas localizadas nos assentamentos da reforma agrária. 5) Lutar para que todo o povo tenha acesso à alfabetização. A emergência da educação do campo na década de 1990 coloca em foco o conceito de política pública como construção coletiva. 6) Formar educadoras e educadores do campo. (ARROYO. como fruto do debate no espaço público. cursos de especialização lato sensu aos professores das escolas do campo. 3) Valorizar as culturas do campo. a partir das experiências desenvolvidas junto ao PRONERA. 8) Envolver as comunidades nesse processo. Importante dizer que. a saber: 1) Vincular as práticas de educação básica do campo com o processo de construção de um projeto popular de desenvolvimento nacional. Da primeira Conferência realizada em 1998. 7) Produzir uma proposta de educação básica do campo. 1999). os participantes elaboraram uma carta contendo 10 desafios e compromissos da educação com a educação do campo. expressando as diversas lutas no cenário público das conferências e seminários estaduais e nacionais. 4) Fazer mobilizações em vista da conquista de políticas públicas pelo direito à educação básica do campo. 10) Implementar as propostas de ação dessa conferência. Nota-se que. a partir dos encontros e conferências nacionais. foram organizados projetos de educação de jovens e adultos. vinculado ao Ministério da Educação. foi gerado o Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo (PROCAMPO). 9) Acreditar na nossa capacidade de construir o novo. à . bem como da criação do PRONERA. FERNANDES. 2) Propor e viver novos valores culturais.

Diversidade e Inclusão (SECADI). tendo no momento atual institucionalizado os cursos superiores para beneficiários da reforma agrária. Alfabetização. ou seja. A primeira experiência do PROCAMPO foi desenvolvida em quatro universidades federais. são eles. Certamente. não são mais cursos efetivados por meio de turmas especiais. A Universidade de Brasília – UnB – tem sido a pioneira em todos esses cursos. da UnB. Importante destacar que a advogada e professora Mônica Molina. a entrada dos alunos é regular. Tivemos a possibilidade de participar dessa experiência entre os anos de 1998 e 2004. no ano de 2008. hoje estão nos bancos das universidades públicas cursando educação superior ou pós-graduação lato sensu e stricto sensu. As universidades públicas brasileiras têm professores e pesquisadores que lutam por uma sociedade justa e.31   Secretaria de Educação Continuada. Beneficiários que foram monitores da educação de jovens e adultos nesse projeto. As primeiras experiências do PRONERA foram desenvolvidas em oito universidades federais. cuja execução é feita pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). por uma parceria estabelecida em Universidade Federal do Paraná e Universidade Estadual de Ponta Grossa. . que estão à frente da busca de ruptura das cercas da educação superior. tais conquistas fortalecem as práticas educacionais e a organização da produção nos assentamentos da reforma agrária. com o INCRA e com o MST. lembrando que estes sofrem com as intempéries políticas e econômicas (especialmente a dificuldade para financiamento da produção e bons preços no momento da comercialização). foi pessoa central na colaboração para criação do PRONERA e dos cursos na UnB.

as experiências pedagógicas e conquistas dos povos do campo ocorreram em meio a inúmeros conflitos e represálias ideológicas e jurídicas. a construção de escolas no campo que sejam do campo. políticas para a elaboração de currículos e para escolha e distribuição de material didático-pedagógico. no final da década de 1990. iniciou-se a preparação para a elaboração das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas escolas do campo. uma década de conquistas para a educação do campo. No mesmo ano foi realizada da II Conferência Por uma Educação Básica do Campo.32   É importante lembrar que. foi criada a SECAD. a partir da educação. que se contraponha ao agronegócio e que promova a realização de uma ampla reforma agrária. atual SECADI. por meio de uma política pública permanente que inclua como ações básicas: o fim do fechamento arbitrário de escolas no campo. fruto do empenho dos povos organizados do campo. documento publicado em 3 de abril de 2002. um projeto de sociedade que seja justo. que contou com aproximadamente 1. a existência de escolas de educação fundamental e de ensino médio no próprio campo. da ação dos trabalhadores do campo e trabalhadores da educação nesse país. a oferta de Educação de Jovens e Adultos (EJA) adequada à realidade do campo. igualitário e democrático. No ano de 2004. que tem respondido por diversos programas de educação do campo na atualidade. Foi. Na declaração final da Conferência fica explícita a intenção de organizar.100 participantes. Óbvio que. com qualidade. que levem em conta a . portanto. Universalização do acesso à Educação Básica de qualidade para a população brasileira que trabalha e vive no e do campo. a saber: 1. Dessa segunda Conferência foram listadas as seguintes demandas para fazer avançar a educação do campo. enfim. a construção de alternativas pedagógicas que viabilizem. diante da concentração da terra e do avanço do agronegócio no país.

a realidade do campo brasileiro. arte e lazer. secretarias estaduais e municipais de Educação. Respeito à especificidade da Educação do Campo e à diversidade de seus sujeitos. particularmente. 3. Ampliação do acesso e permanência da população do campo à Educação Superior. composta pelos sujeitos coletivos que trabalham com a educação do campo e que dela se aproximam. Valorização e formação específica de educadoras e educadores do campo por meio de uma política pública permanente. universidades. construída a partir do final da década de 1990 e. Sujeito coletivo forte nessa rede social. O Estado do Paraná viveu o auge do debate da educação do campo nos últimos oito anos. Houve parecer do Conselho Estadual de Educação sobre a educação do campo. especialmente. Cabe destacar que vários estados brasileiros têm a sua organização em torno da educação do campo. O estado possui um Comitê Estadual de Educação . é possível afirmar que a educação do campo se fortalece por meio de uma rede de coletivos. o MST irradia o debate da educação do campo e atrai os sujeitos que com ela trabalham. na primeira década do século XXI. por meio de políticas públicas estáveis. seguido de publicação de resolução da Secretaria de Estado da Educação sobre a política estadual da educação do campo. 2. Ao fortalecer os demais sujeitos coletivos.33   identidade cultural dos povos do campo e o acesso às atividades de esporte. ele fortalece a própria luta e atuação política na organização de uma proposta pedagógica que valoriza a “cultura camponesa” e que questiona as relações de classe que marcam. 4. centros familiares de Formação de Alternância. movimento sindical. movimentos e organizações sociais. Desse modo. Nessa rede encontramos os movimentos sociais do campo.

Federação dos . aos poucos. Instituto Nacional de Estudos (INEP) Pesquisas Educacionais e Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). de caráter consultivo. e contam com comitês e fóruns estaduais da educação do campo. Secretaria de Educação Básica (SEB). o debate tem sido ampliado na sociedade civil organizada e com isso vem adentrando. com a atribuição de assessorar o Ministério da Educação na formulação de políticas públicas de Educação do Campo. têm diretrizes curriculares estaduais. A composição da Comissão tem dois grandes segmentos: 1) Representantes do governo federal. Alfabetização e Diversidade (SECAD). Trata-se de um órgão colegiado. Comissão Pastoral da Terra (CPT). entre outros. às instâncias governamentais e gerando interferências nas políticas públicas.34   do Campo e um Grupo de Trabalho formado pelas Instituições de Educação Superior do Estado. Ceará. Goiás. Santa Catarina. Outros estados. como Bahia. 2) A sociedade civil. Sergipe. Secretaria de Educação Superior (SESu). junto ao Ministério da Educação (Portaria 1. por representante da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME) e do Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação (CONSED). Secretaria de Estado da Educação (SEED). Secretaria de Educação Continuada. representada por oito entidades: Centros Familiares de Formação por Alternância (CEFFAs). Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Ou seja. Mato Grosso.258. 19 de dezembro de 2007). por meio das secretarias vinculadas ao Ministério da Educação: Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC). Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEESP). Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (CONTAG). Foi criada a Comissão Nacional de Educação do Campo.

com a Articulação Nacional. . contradições e cultura como práxis. também. universidades. Clésio Acilino Antonio e José Luiz Zanella.                                                              6 Sugere-se análise da obra organizada por Bernadete Wrublevski Aued e Célia Regina Vendramini. 2008. A universidade dá indícios de abertura às demandas da sociedade civil organizada. foi aprovado o referido Comitê. Movimento das Mulheres Camponesas (MMC). Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). será que as universidades têm desenvolvido relações de fato democráticas? A educação do campo 6 tem sido caracterizada como um novo paradigma.35   Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF). vinculado aos interesses do agronegócio. ou seja. O Estado do Paraná conta também com uma Articulação Estadual dos Povos do Campo. entre outros. intitulada Educação do campo: um projeto de formação de educadores em debate. E. que valoriza o trabalho no campo e os sujeitos trabalhadores. intitulada Educação do Campo: desafios teóricos e práticos. Com isso. Está em contraponto ao paradigma da educação rural. num processo dialético. consequentemente. 2009. E o Estado do Paraná conta com quatro cursos superiores destinados aos beneficiários da reforma agrária. estando um deles em fase inicial na Universidade Federal do Paraná – curso de Direito. Movimentos Sociais. MST e Rede Educacional do Semi-Árido Brasileiro (RESAB). A principal parceira dos povos do campo na organização da educação do campo tem sido as universidades estaduais e federais. do capitalismo agrário e. Florianópolis: Insular. a exemplo do que acontece no país. foi formado um Comitê Estadual da Educação do Campo. da obra organizada por Benedita Almeida. suas particularidades. Em dezembro de 2010. No Estado do Paraná. ao fortalecimento das políticas de esvaziamento do campo. movimentos e universidades têm possibilidade de aprendizagem coletiva. Reuniões foram realizadas no ano de 2009 com a finalidade de definir a função e o caráter do Comitê. Cascavel: Edunioeste. têm participação na definição do Comitê de Educação do Campo. organizações e entidades sociais. mas esse ainda é um tema a ser investigado.

70).. Essa característica nos tem aproximado e distanciado de muitos sujeitos/grupos que fazem e discutem educação e que defendem uma perspectiva de universalidade. 2008. de educação. Para a autora. afirma que o conceito é novo e já está em disputa. na maioria das vezes. p. 2008. 2008. tensa. 2008. A primeira afirma que A materialidade de origem (ou de raiz) da Educação do Campo exige que ela seja pensada/trabalhada sempre na tríade: Campo – Política Pública – Educação. “[.] porque o movimento da realidade que ele busca expressar é marcado por contradições sociais muito fortes”. mas simultâneos e que se complementam na configuração do seu conceito. de política pública. está sendo. é pertinente afirmar que a sociedade civil organizada desperta o interesse dos pesquisadores pelo estudo da história viva e em movimento. “[..] o conceito de Educação do Campo tem raiz na sua materialidade e origem e no movimento histórico da realidade a que se refere”. p. 75). Ela aponta três questões que sinalizam tensões reveladoras de contradições importantes. do que ela é...] (CALDART. 69). entre esses termos que constitui a novidade histórica do fenômeno que batizamos de Educação do Campo (CALDART. A terceira questão diz que “O movimento da Educação do Campo se constitui de três momentos que são distintos. poderá ser” (CALDART. é positividade – se combina com práticas e propostas concretas. Para a autora. . em texto intitulado Sobre a Educação do Campo. p. p. É a relação. Na conjuntura atual. p. 75). 7273). e é superação – projeto/utopia (CALDART.. a Educação do Campo é negatividade – denúncia/resistência.36   Caldart (2008.. A segunda indica que A Educação do Campo trata de uma especificidade. de educação unitária e que nos alertam para o perigo da fragmentação das lutas da classe trabalhadora [. assume-se como especificidade: na discussão de país.

em especial projetos de educação de jovens e adultos. Ao colocar na agenda política a educação do campo.37   O MST. em especial no livro Pedagogia do Oprimido. reivindicações. ao mesmo tempo. Sob o manto da Justiça e dos direitos positivados no ordenamento jurídico. os movimentos sociais e. conscientemente fazem “emperrar” o próprio processo de sucesso da reforma agrária. há um conjunto de magistrados e procuradores federais que questionam a educação superior para os beneficiários da reforma agrária. Como escreveu Paulo Freire em muitas das suas obras. É importante pensar que a luta por educação implica na aquisição de conhecimentos que possam fortalecer ações de transformação social. como a produzida na prática social e. em especial o MST. cursos técnicos de Ensino Médio. e cursos de Educação Superior. É essa frente de luta que tanto incomoda aqueles que lutam por manter a “ordem e o progresso” de natureza positivista na sociedade brasileira. o movimento social desperta para a análise do modo de produção capitalista e das suas contradições sociais básicas. bem como para a educação em sentido amplo. e. sobre as escolas itinerantes localizadas nos acampamentos. movimentos sociais e universidades. em função de sua expressiva atuação (lutas. vale lembrar a obra “Fábula da águia e da . Esse projeto político tem no centro da organização das políticas públicas os trabalhadores e suas organizações. sobre parcerias entre governos. o “conhecimento liberta”. a exemplo do Técnico em Administração Cooperativa (TAC). produtora de novas relações sociais educativas. Acima de tudo. dão ênfase à construção de um projeto político para o país. proposição e experimentação) no campo educacional. tem despertado o interesse dos pesquisadores sobre as escolas localizadas em assentamentos de reforma agrária. E.

tão presentes nas discussões da teoria crítica em educação. a participação dos trabalhadores rurais como protagonistas da história da Educação do Campo e. a formação continuada e a formação técnica. Essa mediação pode ser dialógica ou bancária. O que se pretende com a prática educativa gerada no PRONERA é o desenvolvimento da racionalidade comunicativa. O próprio Freire é um defensor da racionalidade dialógica. Dagnino (2002. na gênese. esfera pública e parceria. Estado. e com                                                              7 Souza (2002) analisou o PRONERA dando ênfase à relação entre MST e Estado. 280-281) auxilia na compreensão sobre as relações que se estabelecem entre Estado e sociedade civil. A sua particularidade é ter. nela. águias criadas como galinhas. sempre tensas e permeadas por conflitos. que os conflitos e as tensões podem ser maiores ou menores. marcado por interesses diferentes. Águias que precisam da “mediação” para alçar vôos. a educação de jovens e adultos. pode requerer categorias novas que a explique. 7 Uma experiência nova. dependendo de quanto a sociedade civil e o Estado compartilham as partes envolvidas. Pode-se inferir que a educação é construída por meio da mediação. a Educação Superior.38   galinha” de Leonardo Boff. 2. nos termos de Paulo Freire. Nela. o autor traz reflexões para os povos da América Latina. oriunda da prática social. p. A compreensão do PRONERA requer a utilização de conceitos como os de sociedade civil.2 O PROGRAMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO NA REFORMA AGRÁRIA O PRONERA é um programa governamental constituído no movimento social por educação dos povos do campo. pela contradição entre capital e trabalho. embora o contexto maior das relações seja o modo de produção capitalista. .

deixar as associações vulneráveis a uma institucionalização imobilizadora e às tentativas de cooptação política. Quando se trata de pensar os formatos sociais no contexto da relação com o MST. para ele. p. São relações objeto da política e são transformáveis pela ação política. 2002. é fundamental pensar na histórica luta entre trabalhadores. (COSTA. ela defende o caráter histórico das relações entre Estado e sociedade civil. O autor afirma que: Os mecanismos construídos para a participação não podem. não se deve pensar em esferas públicas separadas da “esfera pública burguesa”. A referida autora destaca a noção de projeto político como algo que orienta a ação. provocando a ruptura de seu delicado e sensível ancoramento social. 36) destaca que os movimentos sociais interagem com o Estado e as instituições e. É importante visualizar as conquistas que a sociedade efetiva na práxis e. outro olhar para a realidade talvez possa revelar que as relações não são tão determinadas pela histórica concepção de que o Estado está a serviço da “propriedade”. A delegação. de um lado. e o Estado como intermediador dos interesses capitalistas. entretanto. parece fundamental que os desenhos institucionais para a participação política das associações civis preservem o caráter autônomo e necessariamente descontinuado de sua constituição e operação. resguardando o fato de que ambos não são forças equivalentes. 36). p. Costa (2002. A autora critica os reducionismos expressos na visão da sociedade civil como “polo de virtude” e o Estado como “encarnação do mal”. Ainda. e que sua ação política também tem natureza diferenciada.39   que grau de centralidade. Quanto ao conceito de esfera pública. por meio dela. No entanto. de funções político-administrativas às associações civis poderia sobrecarregar seus processos internos de coordenação. Sobretudo. a partir do Estado. de outro lado. donos dos meios de produção. como fundamental para explicar as relações entre Estado e sociedade civil. o quanto fortalece um processo de .

os trabalhadores possam compreender os processos sociais e as contradições que marcam a ... localizando-os no tempo e no espaço. Como essa educação vem sendo construída? Com muita luta social.] o termo parceria indica a disposição de uma ação conjunta entre diferentes partes. elaborados de forma genérica. A luta dos movimentos sociais do campo.] o exercício da parceria é um aprendizado democrático onde a riqueza das contribuições de cada instituição está justamente no aporte diferenciado que cada parceiro pode trazer para o projeto conjunto. que relações se estabelecem e com que objetivos [. o processo necessário para que. a definição proposta por Caccia Bava (1999. e estabelecendo relações com a experiência vivida no tempo atual pelos alunos. Para o autor. 15). A educação... desde a reivindicação do direito social – acesso e permanência na escola – até o direito fundamental. p.40   conscientização acerca das relações servis que demarcam o modo de produção capitalista. que é o acesso ao conhecimento. Quanto ao conceito de parceria. Para uma sociedade desigual. como mediação para o processo de aquisição dos conhecimentos socialmente e historicamente construídos. [. pela reforma agrária e por condições de trabalho na terra tem. cada vez em maior profundidade. por meio do acesso aos conhecimentos técnicos e teóricos. atendendo ao princípio da igualdade entre as pessoas. torna-se pertinente quando estudamos o Pronera. na educação. que educação se faz necessária? Há necessidade de uma escola que atenda à função (que lhe é peculiar) de desenvolver processos pedagógicos de apropriação dos conteúdos historicamente construídos pela humanidade. é demandada como possibilidade de superação da ideologia e cultura burguesas transmitidas nos livros didáticos. mas não qualifica que ação é esta.

independente do espaço que ocupam – campo ou cidade. propondo. São profissionais com forte vínculo a um projeto transformador de sociedade. e da visão de mundo do grupo onde a educação se insere e as relações de poder que se estabelecem e se formam mediante a ação pedagógica. Entretanto.. mas às escolas públicas. p. possam traçar alternativas econômicas. Em síntese. Objetivos específicos: garantir a alfabetização e educação fundamental de jovens e adultos acampados (as) e/ou assentados (as) nas áreas de Reforma Agrária. criando. da cultura. 29). políticas e sociais para a própria sobrevivência e para a construção de um mundo diferente. garantir a escolaridade e a formação de educadores (as) para atuar na promoção da educação nas áreas de Reforma Agrária. tem sido o responsável pela criação dos cursos superiores para beneficiários da reforma agrária. que foi construído na relação entre sociedade e governos. o papel da educação na reelaboração do saber. que não se pretende apenas para as escolas localizadas no campo. que ousam participar dessas experiências. destacou três questões básicas: [. garantir formação continuada e escolaridade média e superior aos educadores (as) de jovens e adultos – EJA – e do ensino . cabe destacar que cada universidade enfrenta uma luta interna.41   sociedade brasileira. tendo em vista contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável.] o entendimento da educação como projeto político que se vincula à dialética de classes.. desenvolvendo e coordenando projetos educacionais. jogo de poder e de ideologias para a aprovação de cursos “especiais” no interior da instituição. seus objetivos gerais e específicos estão assim definidos: Objetivo Geral: Fortalecer a educação nas áreas de Reforma Agrária estimulando. Damasceno (1990. utilizando metodologias voltadas para a especificidade do campo. De acordo com o Manual Operacional do PRONERA. o PRONERA. Eis o desafio da Educação do Campo. Para a autora. a essência do pensar dialeticamente a educação é discutir o homem como ser histórico e suas relações sociais. Com isso. pensando a relação entre educação e hegemonia. numa perspectiva materialista histórica dialética.

garantir aos assentados (as) escolaridade/formação profissional. estudos e pesquisas em âmbito regional. a Universidade Estadual Paulista (UNESP). Yolanda (2011). 2004 p. Ciências Sociais.42   fundamental e médio nas áreas de Reforma Agrária. seminários. Agronomia. nacional e internacional que fortaleçam a Educação do Campo. Medicina Veterinária. entre outros. técnico profissional de nível médio e cursos superiores em diversas áreas do conhecimento. Geografia. (Manual de Operações do PRONERA. produzir e editar os materiais didático-pedagógicos necessários à execução do programa. Comunicação. FIGURA 1 – CURSOS DE EDUCAÇÃO SUPERIOR PARA BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA FONTE: Zancanela. organizar. Também. Direito. História. em conjunto com universidades brasileiras . 17) A figura a seguir oferece indicativos de como está o conjunto das experiências em educação superior para beneficiários da reforma agrária no país. Pedagogia. promover e realizar encontros. As universidades indicadas na Figura 1 possuem cursos de Licenciatura em Educação do Campo.

O curso de Direito foi criado no ano de 2007 na Universidade Federal de Goiás. que relatam desde a sua trajetória histórica francesa e italiana. tais como: educação. com alunos oriundos dos assentamentos da reforma agrária. A pesquisadora Lourdes Helena da Silva e o pesquisador João Batista Pereira de Queiroz. A turma especial do curso de Direito para beneficiários da reforma agrária foi iniciada em agosto de 2007. Sobre a Pedagogia da Alternância tem inúmeras pesquisas no Brasil. campus de Goiás Velho. saúde. ambos da Universidade Federal de Viçosa/MG. até os seus diversos formatos no Brasil. O projeto político-pedagógico do curso é composto de 4. .43   e internacionais. O curso está organizado em 10 semestres. têm sido expoentes nessa temática. que tem à frente das ações o professor e pesquisador Bernardo Mançano Fernandes. como ficou conhecida. política agrícola.3 AS EXPERIÊNCIAS ESTUDADAS: UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS (UFG). Foram matriculados 60 alunos nessa turma especial. junto à Cátedra da Educação do Campo. UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS (UFPEL) E UNIVERSIDADE FEDERAL DO SERGIPE (UFS) As três experiências escolhidas para análise nesta pesquisa foram: Curso de Direito ofertado pela UFG.300 horas de atividades de formação. Trata-se de uma turma “especial”. 2. São experiências que indicam que a reforma agrária é uma políticas que está articulada a outras políticas. denominada Tempo Comunidade e Tempo Escola. criou o primeiro Mestrado em Educação do Campo. ensino técnico etc. A metodologia de trabalho é a Alternância.

vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA). cursos técnicos e cursos superiores são fundamentais para que os agricultores familiares visualizem possibilidades de trabalho.35. que está disposto que a educação é integrante da Política Nacional da Agricultura Familiar. Em 23 de junho de 2008 o MPF ingressou com Ação Civil Pública. Com isso. produção e comercialização dos seus produtos. O tempo comunidade é desenvolvido no local de origem dos alunos...44   O tempo na universidade é composto de 70 a 90 dias por semestre.educação. O presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). É no artigo 5°. A sentença proferida em junho de 2009 declarou a ilegalidade do “convênio” estabelecido para a efetivação do curso de Direito e determinou a extinção do curso. de forma a compatibilizar as seguintes áreas: [.013973-0. O curso de Direito está sendo realizado mediante Termo de Cooperação Técnica entre a UFG e o INCRA.] a Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais promoverá o planejamento e a execução das ações. decidiu que o INCRA e a UFG poderiam dar continuidade à turma especial de direito para assentados da . capacitação e profissionalização [. ou seja. desembargador Jirair Aram Meguerian. A Universidade recorreu da sentença para o Tribunal Regional Federal (TRF).326/2006 dispõe sobre as diretrizes para a formulação da Política Nacional de Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais. de modo a garantir a articulação teoria-prática. no assentamento de reforma agrária. com a alegação de haver o ferimento ao princípio da legalidade e da isonomia. [. bem como os processos de capacitação e profissionalização. Os recursos são oriundos do PRONERA.00. sob n° 2008... A Lei 11. Inciso X..]..] X . visando extinguir o curso. assunto que será analisado no segundo capítulo deste trabalho.

45   reforma agrária e filhos de pequenos agricultores. Acesso em: 24/3/2012. Em 14/5/2010 MPF apresenta recurso e contrarrazões. Ela lembra que hoje apenas 24% das vagas de Medicina Veterinária no País são oferecidas por instituições de ensino gratuito. desde a etapa preparatória para o processo seletivo. A turma teve início com 60 vagas. contribuindo para o desenvolvimento dos assentamentos. "O curso na UFPEL vai suprir uma grande demanda que temos. Maria de Lourdes Álvares da Rosa. A decisão no TRF ocorreu em 18/12/ 2009 e determinou a suspensão dos efeitos da decisão proferida pelo Juiz Federal da 9ª Vara da Seção Judiciária do Estado de Goiás.gov. A educação é fundamental para a reforma agrária". O processo foi remetido ao TRF (sem baixa) em 13/10/2010. Para a coordenadora do Pronera no Incra/RS. . em 2007. o que dificulta o acesso do público da reforma agrária. De acordo com reportagem publicada na página da web do INCRA: A UFPEL será responsável por toda a execução. também em tela nesta pesquisa. Curso de Medicina Veterinária para beneficiários da reforma agrária. 8 Também. a assinatura do convênio é uma importante conquista. o primeiro curso de Medicina Veterinária para beneficiários da reforma agrária.br/index. estando prevista a formatura para o ano de 2013. tal qual o curso de Direito e de Agronomia. ofertado pela UFPEL. na cidade de Goiás. incluindo o vestibular e o curso de graduação.php/noticias-sala-de-imprensa/noticias/5282convanio-do-pronera-cria-primeira-turma-de-medicina-veterinaria-para-assentadosH. afirma a coordenadora. A preparação será realizada no período de 15 de novembro a 15 de dezembro no assentamento Viamão. O convênio está vinculado ao PRONERA.incra. O MPF propôs Ação Civil Pública (ACP) em 2007                                                              8 Disponível em: Hhttp://www. no Estado do Rio Grande do Sul o início do curso não foi menos tumultuado político-juridicamente. Foi firmado um convênio técnico entre o INCRA e a Fundação Simon Bolívar para a realização do referido curso. No Estado do Rio Grande do Sul teve início. com cerca de 80 candidatos assentados de todo o Brasil. As aulas foram iniciadas em 2008. 26/9/2007.

46
 

alegando a inconstitucionalidade do curso e pedindo antecipação dos efeitos da
tutela. O Juiz da 1ª Vara e Juizado Especial Federal Criminal Adjunto de Pelotas
indeferiu os pedidos de antecipação de tutela formulados na inicial. O MPF interpôs
agravo de instrumento, junto ao TRF da 4ª Região, em 14/10/2007, contra a decisão
que indeferiu o pedido de antecipação de tutela, requerendo que o agravo seja
recebido com efeito suspensivo ativo e que haja reformulação da decisão
interlocutória em questão. O Juiz João Batista Lazazzari, que substituía Everson
Guimarães da Silva, proferiu nova decisão e atribuiu eficácia suspensiva ativa ao
recurso. O MPF conseguiu a suspensão do curso, entretanto o INCRA e a UFPEL
recorreram da decisão conseguindo junto à 2ª Turma do STJ, pelo relatório do
Ministro Herman Benjamin, suspensão da liminar obtida pelo MPF. Dessa forma, o
curso está em funcionamento, a ACP foi decidida em 1° Grau, entretanto, no estágio
atual tramita recurso extraordinário junto ao STF, interposto pelo MPF.

O Curso de Agronomia ofertado para beneficiários na reforma agrária
pela UFS.
Para a caracterização do curso de Agronomia, criado em 2004 na UFS, foi
utilizada a documentação referente à autorização do curso e a dissertação de
mestrado em Educação, defendida em 2009, elaborada por Gisele da Rocha Souza.
Todos os cursos de educação superior para beneficiários da reforma agrária,
vinculados ao PRONERA, têm que ser elaborado segundo as orientações do
referido Programa. Desse modo, a UFS, ao receber demanda dos assentados da
reforma agrária, elaborou um projeto do tipo “Convênio Técnico” juntamente com o
INCRA. O Convênio foi firmado entre INCRA, Fundação de Apoio à Pesquisa e
Extensão de Sergipe (FAPESE) e UFS (SOUZA, 2009, p. 58).

47
 
O curso de Engenharia Agronômica no Estado de Sergipe foi criado em
2004 Aprovado pela Resolução N.º15/2004/CONSU oferecendo 60(vagas)
vagas anuais, o turno de funcionamento é no período matutino e vespertino
é ministrado com duração de 4,5 (quatro e meio) anos, com uma carga
horária de 3.810 (três mil e oitocentos e dez) horas, correspondendo a 254
(duzentos e cinquenta e quatro) créditos, sendo 234 (duzentos e trinta e
quatro) créditos obrigatórios e 20 (vinte) optativos. (SOUZA, 2009, p. 58)

De acordo com Souza (2009, p. 58-59), no ano de 2004 foi aprovada, na
UFS, a implementação do Projeto de Qualificação em Engenharia Agronômica para
jovens e adultos não graduados em nível superior vinculados aos Assentamentos de
Reforma Agrária do Nordeste – PROQUERA.
A realização do curso de Agronomia para beneficiários da reforma agrária é
fruto de uma luta intensa dos movimentos sociais no estado e da disposição dos
professores universitários e acadêmicos que se empreenderam na efetivação do
projeto. A UFS, desde o surgimento do PRONERA em 1998, tem desenvolvido
projetos educacionais junto aos beneficiários da reforma agrária.
De acordo com Souza (2009, p. 61):

Depois do estabelecimento das parcerias, da delimitação do projeto, de seu
objetivo principal e, a matriz curricular, ocorreu o estabelecimento do
processo seletivo especial que contou com a inscrição de 89 beneficiários
da Reforma Agrária e foram selecionados 60 assentados para cursar o
Ensino Superior. O projeto do curso possui um currículo estruturado a partir
dos objetivos: - Promover conteúdos científicos na área de produção
agrícola, associados a processos políticos, culturais e sociais. - Buscar
alternativas de produção que contribuam para a melhoria de vida nas
comunidades rurais, em especial nos assentamentos; - Incentivar pesquisas
compatíveis com a realidade da pequena agricultura e meio ambiente.

Entretanto, um curso superior de Agronomia acirraria os ânimos da
Associação dos Engenheiros Agrônomos, que propôs Ação Civil Pública contra o
funcionamento do curso, alegando ilegalidade e ferimento do princípio constitucional
da isonomia.

48
 

No Estado de Sergipe foi a Associação dos Engenheiros Agrônomos que
ingressou com ação civil pública contra a UFS, pelo fato desta oferecer curso de
Agronomia aos beneficiários da reforma agrária. Trata-se do processo sob n°
200485000002559 – Justiça Federal. A associação pediu a concessão de mandado
liminar “inaudita altera pars” para que fosse sustada a realização do vestibular
Especial 25/1/2004. A Juíza da 3ª Vara da Seção Judiciária de Sergipe deferiu a
medida liminar, para suspender o início do curso, até ulterior deliberação daquele
juízo. A Universidade interpôs agravo de instrumento pedindo efeito suspensivo
contra a decisão da Juíza da 3ª Vara. O recurso foi deferido pelo Desembargador
Marcelo Navarro, com efeito suspensivo à decisão de 1° grau. Por fim, foi proferida a
sentença em 1° grau, houve apelação da Associação, que não foi provida. Em não
havendo recursos no prazo legal, considera-se coisa julgada material, com efeitos
ultra partes, como disposto no artigo 16 da Lei da ACP.
O que se pretende ao final do estudo é caracterizar os princípios
constitucionais presentes nas ações em questão e revelar que os conflitos em torno
da terra adentram ao Judiciário em meio às lutas por educação. A novidade reside
não no fato dos conflitos por terra estarem no Judiciário, mas no fato de que a frente
educacional tenha se constituído objeto de discussões no Judiciário em meio à
reforma agrária. O maior tabu da sociedade brasileira ainda é a reforma agrária. E
ideologias estão por trás de muitas decisões políticas e jurídicas, e não há como
fugir delas. Nem mesmo pelo cálculo do princípio da proporcionalidade proposto por
Alexy e adotado por Gilmar Mendes na análise do pedido de suspensão da tutela
antecipada, analisado no STF em 2009.
No próximo capítulo será descrita a história da luta na justiça pela efetivação
do curso de Agronomia para os beneficiários da reforma agrária. Para instigar sua

php?id=9988. o curso foi aprovado.net/2008/noticia. 2/8/2008 FONTE: Disponível em: http://2008.jornaldacidade. FIGURA 2 – FORMATURA DA 1ª TURMA DE AGRONOMIA – UFS. Acesso em: 25/3/2012 . jurídicas e políticas. observe-se a foto a seguir (Figura 2). em meio a tantas contradições econômicas. desenvolvido e os primeiros graduados comemoram mais uma conquista.49   leitura. Depois de longas idas e vindas na Justiça.

sobre direito constitucional. Quanto à educação superior para beneficiários da reforma agrária. p. 2008. Soma-se a tais obras a dissertação de Gisele Souza (2009). inclusive de nossa própria autoria. de Paulo Bonavides. particularmente o capítulo primeiro. A intenção inicial neste trabalho era de estudar as obras de Robert Alexy e Ronald Dworkin. foi estudada para fins de fundamentar comentários acerca do referido princípio. que versa sobre o curso de Agronomia para beneficiários da reforma agrária no Estado de Sergipe. São várias as obras que tratam da educação do campo.50   3 AÇÃO CIVIL PÚBLICA. Afinal. Mônica Molina e Roseli Caldart. Entretanto. intitulada “Crítica ao princípio da proporcionalidade como fundamento das decisões judiciais”. . serão tomadas como centrais as obras de Rabello Filho (2002). trata-se de tema e problema que têm adentrado à academia brasileira na última década. haja vista que nele o autor dá atenção ao conceito de “princípios constitucionais”. DECISÃO JUDICIAL E CONSTITUCIONAIS: O CASO DO CURSO DE AGRONOMIA PRINCIPIOS “A isonomia fática é o grau mais alto e talvez mais justo e refinado a que pode subir o princípio da igualdade numa estrutura normativa de direito positivo” (BONAVIDES. é dos últimos 10 anos a constituição das experiências político-pedagógicas em andamento nas universidades públicas brasileiras. Para fins deste trabalho serão analisadas as obras de autores como Miguel Arroyo. 378) A discussão sobre princípios constitucionais é ampla na literatura nacional e internacional. Diversos papers sobre esses cursos foram estudados e estão mencionados ao longo do trabalho. Para fins deste estudo. essa tarefa ficará para o futuro. A dissertação de Leonardo Ferraz (2007).

00.55-9.Engenharia Agronômica Especial . a FAPESE e o INCRA.00.00. o esquema a seguir faz-se necessário: ACP 2004. Classe 5023.daquela autarquia universitária. Os pedidos da AEASE eram a suspensão do vestibular (mandado liminar inaudita altera pars) e a extinção do curso – 610 – de Graduação em Engenharia Agronômica Especial. . Juíza Federal Substituta da 3ª Vara da Seção Judiciária de Sergipe.55-9 com pedido de liminar para sustar a realização do vestibular no dia 25/1/2004 e impedir o início do curso.85. nos autos de ação civil pública.00. até ulterior deliberação daquele juízo.02. da forma como concebido. que deferiu medida liminar.85.51   Desse modo. O processo está registrado sob o n° 2004.02. delineia-se o referencial teórico desta pesquisa em torno de dois conceitos fundamentais: princípios constitucionais e efetivação do direito social à educação. O curso fica suspenso entre 13/2/2004 a 28/4/2004. para suspender o início do Curso 610 . A ACP foi proposta pela Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe (AEASE). Para compreender a ACP proposta pela Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe. tendo como réus a UFS. 3ª Vara Civil de Sergipe. O MPF manifestou-se favorável à AEASE.

a respeito do entendimento da AEASE. Para a AEASE. a serem preenchidas por meio da realização de um vestibular especial. tal qual disposto no artigo 53. criando critérios de avaliação diferenciados para esta. em detrimento dos candidatos ao Curso Regular de Engenharia Agronômica. Alega que a organização político-pedagógica do Tempo Escola e Tempo Comunidade vai contra o disposto na LDB. para a AEASE. que dispõe sobre o currículo dos cursos superiores. § 2°.br/sentencas/administrativas/adm2006/sentadmedmilson20048500002559. . geografia. que aprova a implementação do Projeto de Qualificação em Engenharia Agronômica para Jovens e Adultos dos Assentamentos de Reforma Agrária da Região Nordeste (PROQUERA) e que foram disponibilizadas 60 vagas.. e à prova de Redação. porquanto privilegia. há autonomia para criar processos diferenciados de avaliação ou não? Quando o processo favorece a “ordem da sociedade” os critérios de seleção são                                                              9 . Chama atenção no relato da AEASE a utilização da ideia de “discriminatório” para o processo seletivo da turma de Agronomia.] discriminatório. sobre a função pedagógico-científica da universidade.. mesmo diante da autonomia das universidades para criação e extinção de cursos.52   A AEASE afirma que o Conselho Universitário da UFS publicou a Resolução n°9/2003. Acesso em 24/3/2012. que se submetem à prova de Conhecimentos Curriculares. alínea “c”. no que se refere aos 200 dias letivos. com 40 (quarenta) questões sobre português. injustificavelmente. 9 (Grifo nosso) A Associação alega que o curso infringe os dispositivos da Lei n° 9. uma parcela da sociedade brasileira. da LDB 9394/1996. afinal. em seu artigo 9°.Disponível em Hhttp://www. bem como para os critérios diferenciados para a avaliação dos alunos. Inciso I. matemática. biologia.jus. Assim.htmH. o PROQUERA é: [.131/1995.jfse. É de se questionar. física. a organização curricular diferenciada estaria infringindo dispositivo legal. química e língua estrangeira.

é a negação da pedagogia. Para a Associação. Em Carta Manifesto. pela Lei 5692/71. O princípio constitucional questionado na ação é o da isonomia.53   aceitos. da Constituição Federal. quando. e artigo 206. Quando é questionada a desigualdade. Molina (2008. os critérios são colocados em xeque. constitui diretriz que deve informar o conjunto das políticas educacionais. sim. Ele é tomado como base para proposição de políticas afirmativas para efetiva garantia do direito à educação. Há uma perspectiva ultraconservadora na análise feita pela Associação dos Agrônomos em relação ao papel da universidade. Inciso IV. de um lado a formação técnica para os trabalhadores e os seus filhos. de outro lado a formação geral para a elite e os seus filhos. Inciso I. informado por este ditame constitucional. para não dizer ao século XVIII. uma certificação de natureza técnico-profissional. o curso não poderia oferecer o diploma superior e. p. Trata-se de uma visão educacional dualista. É como se a classe trabalhadora tivesse que continuar sempre submissa à situação de fazer e sem acesso aos conhecimentos gerais que levam à inserção nos meios decisórios e políticos. porque não entendemos a criação de . 28) comenta o dispositivo constitucional – artigo 206 – que permite pensar o princípio da igualdade de condições de acesso e permanência na escola. O princípio da igualdade de condições de acesso e permanência na escola. foi instituído o curso profissional para os trabalhadores e a formação geral para a elite dirigente. a Associação dos Agrônomos assim se refere ao curso de Agronomia: Isto é uma vergonha. conforme artigo 3°. Para ela: A elaboração de políticas públicas educacionais não pode prescindir dos dispositivos consagrados também no artigo 206 da Constituição. é a negação do ensino público e a negação da agronomia. Tal postura se reporta a meados do século XX.

e sim. inicialmente por conta da suspensão da liminar e. 2009. 0004847-30. o que visualiza uma medida discriminatória fazendo retornar ao passado distante a “Lei do Boi” em que era reservada no vestibular de agronomia.. p. cinco vagas das quarenta existentes no curso normal de agronomia da Universidade. não entendemos a criação de outro curso específico para clientela privilegiada quando na prática democrática o vestibular unificado é a porta de entrada de todos. determinou o prosseguimento regular do Curso Especial de Engenharia Agronômica – 610. sendo essa mais vergonhosa e antidemocrática. em 29/06/2004 que decide por unanimidade favorável ao pleito da UFS e demais entidades representativas. 76 apud SOUZA.0000 – TRF da 5ª Região. só retornou.2004. 2009. 66) UFS interpõe Agravo de Instrumento para suspender a liminar deferida em 1° Grau. . O Desembargador Federal Marcelo Navarro deferiu o pedido da UFS. pois já existe na Universidade o Curso de Agronomia onde são oferecidas anualmente 40 vagas. 63-64) O conflito jurídico foi travado e levado às instâncias superiores do Estado de Sergipe. através de um simples convênio. (DANTAS e BLANCK. Souza (2009) mostra que a AEASE conseguiu uma liminar na Justiça para cessar as aulas do referido curso.05. certa quantidade de vagas para filhos de fazendeiros dentre as vagas existentes no referido curso. Como menciona a autora: [.. instrumento este inconsistente do ponto de vista executivo. No dia 2 de fevereiro de 2004.] o Projeto teve que paralisar suas atividades no período de 13/02 a 28/04/2004. 2003. p. conforme o cronograma de reembolso.54   um curso paralelo. foi realizada a aula inaugural do curso de Agronomia. com efeito suspensivo à decisão de 1º Grau. porém a batalha judicial ainda não estava vencida. E. 2005. pois os recursos financeiros nunca são repassados em tempo hábil. cria-se outro curso paralelo e específico com 60 vagas engessado em um vestibular específico e fora de época. (CARTA DE MANIFESTAÇÃO DA AEASE.4. posterior julgamento do mérito pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região. p. pois não oferece como exemplo. sediado em Recife-PE. apud SOUZA. conseqüentemente havendo solução de continuidade na implementação do curso.

e. Alega que diante dessa ação afirmativa da UFS foram adotadas algumas medidas diferenciadas em relação ao curso regular de engenharia agronômica. o ano letivo . do Conselho de Ensino e Pesquisa da UFS que dispõe sobre a duração do curso. II e 47. podem instituir vestibular especial e. ofertando-se uma turma única de 60 (sessenta) vagas. pleiteando efeito suspensivo. além dos currículos padrão e complementar e o ementário das disciplinas do curso. etc.] DECIDO: A Constituição Federal prevê. de 20 de dezembro de 1996 .UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE interpõe o presente agravo de instrumento. Reservei-me para apreciar o pedido de efeito suspensivo após a ouvida das partes agravadas e do representante do Parquet federal. 207 da Carta Constitucional.. nos seus arts.Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Assim.de graduação. que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação não exige a inclusão de prova de português no processo seletivo.. vinculados a Assentamentos de Reforma Agrária no Nordeste PROQUERA . ainda. até ulterior deliberação daquele juízo. nos autos de ação civil pública. "Por sua vez. abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo. refuta a alegação da autora. Na educação superior. o seguinte: "As universidades gozam de autonomia didático-científica. quais sejam: o público alvo é o beneficiário ou filho de beneficiário da reforma agrária em assentamentos do Nordeste.Esclarece a agravante que o Projeto de Qualificação em Engenharia Agronômica para jovens e adultos não graduados em nível superior. que deferiu medida liminar. até porque a prova de redação supriria a necessidade daquele exame. O dever do Estado com a Educação será efetivado mediante a garantia de:. Afirma que o plano pedagógico foi aprovado pela Resolução nº 16/2003.foi aprovado pela Resolução nº 09/2003 do Conselho Universitário da Universidade Federal de Sergipe. nos termos do art.000377] (M303) D E C I S Ã O Vistos.daquela autarquia universitária. a Lei nº 9. (Grifo nosso) [.Engenharia Agronômica Especial . administrativa e de gestão financeira e patrimonial. ressaltando que as universidades. a FAPESE . A UFS .55   Em 28/4/2004. desde que tenha declaração do INCRA em Sergipe informando tal condição. assim dispõe: "A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas:. contra decisão da lavra da douta Juíza Federal Substituta da 3ª Vara da Seção Judiciária de Sergipe. gozam de autonomia administrativa. que os períodos letivos serão ministrados de forma intensiva. a realização de um concurso vestibular especial composto de uma prova subjetiva correspondente à elaboração de uma redação sobre tema relacionado com a agricultura e meio ambiente com peso 3 (três) e uma prova objetiva de conhecimentos gerais com peso 7 (sete).acesso aos níveis mais elevados do ensino. em especial ao público ligado à reforma agrária. da pesquisa e da criação artística. para suspender o início do Curso 610 . com o objetivo de oferecer ao homem do campo.Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe e a UFS. ainda.394. pesquisa e extensão. acesso à educação formal. o Desembargador do TRF da 5ª Região assim proferiu sua decisão liminar ao atribuir efeito suspensivo ao Agravo de Instrumento interposto pela UFS: [Publicado em 07/05/2004 00:00] [Guia: 2004.Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. e. 44. conforme o convênio celebrado entre o INCRA . segundo a capacidade de cada um. de ofensa ao princípio da isonomia. e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino. nos seus artigos 207 e 208. V.

ao contrário do alegado pela agravada. em andamento por meio de convênio com a UFES. de 6 de julho de 1999. utilizando metodologias específicas para o campo. 1º Os processos seletivos para ingresso nas Instituições Públicas e Privadas pertencentes ao Sistema e Ensino Superior. O PRONERA. o candidato. zerar. duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo. quando houver. com peso 3 (três) e 7 (sete) respectivamente.56   regular. no mínimo. 4. da Coordenadora do PRONERA. Art.. vinculado aos assentamentos de reforma agrária do Nordeste. estabelece: "Art. excluído o tempo reservado aos exames finais. nos seus artigos 1º. em execução através de convênio com a UFPA. em . obtido pela via regular ou da suplência. 44. firmou convênio com o INCRA/PRONERA para implementação do Curso Especial de Engenharia Agronômica . Ao ingressar nesse Projeto o aluno deverá assinar um termo de compromisso sobre sua vinculação a Assentamentos de Reforma Agrária do Nordeste até. no uso das atribuições que lhe confere o parágrafo único do art. instituiu o PRONERA com o objetivo de "fortalecer a Educação nos Assentamentos de Reforma Agrária. "Por sua vez. a certidão. Curso de Pedagogia Plena.declaração da Superintendência do INCRA em Sergipe informando que o candidato é beneficiário ou filho de beneficiário da Reforma Agrária em Assentamentos no Nordeste. quais sejam: Curso de Agronomia. verbis: "O PROQUERA será destinado aos jovens e adultos não graduados em nível superior vinculados a Assentamentos de Reforma Agrária do Nordeste e que apresentem no ato da inscrição para o Concurso Vestibular Especial:. a que se refere o artigo 2º. 87 da Carta Constitucional. alguns em andamento e outros já concluídos. revela-se um instrumento de inclusão social que garante ao homem do campo. I e II. o INCRA anexou aos autos certidão da Coordenadora Nacional do PRONERA. de caráter eliminatório. "A Universidade Federal de Sergipe. tem.certificado de conclusão do ensino médio ou de curso equivalente. mas de propiciar a execução de projetos educacionais. § 2º e art. não podendo. do Conselho Universitário. dada pela norma constitucional. deverão seguir as determinações do Parecer nº 98/99. em conjunto com a FAPESE. desenvolve e coordena diversos cursos de graduação. independente do ano civil.5 (quatro anos e meio) após a conclusão do referido projeto. do Ministro de Estado Extraordinário de Política Fundiária. no gozo de sua autonomia didático-científica e administrativa. da Universidade Federal de Sergipe. do Conselho Nacional de Educação a as disposições da presente Portaria. de candidatos que estejam cursando o Ensino Médio ou que possuam o Certificado de Conclusão deste nível de ensino. o acesso ao ensino superior ou de 3º Grau." (realce atual) A Portaria nº 391. Com efeito. 3º Somente serão aceitas inscrições nos processos seletivos. do Ministro de Estado da Educação. 2º Todos os processos seletivos que se refere o artigo anterior incluirão necessariamente uma prova de redação em língua portuguesa.610. no mínimo. ao meu sentir. de 07 de fevereiro de 2002. de 16 de abril de 1998. quaisquer das provas. utilizando metodologias voltadas para a especificidade do campo. A Resolução nº 09/2003/CONSU. menciona alguns cursos de graduação em andamento e outros já concluídos. Curso de Pedagogia. segundo normas explicitadas no edital de convocação do processo seletivo. da Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional. sob pena de eliminação do processo. Redação e Conhecimentos Gerais. dentre eles os cursos de graduação. ambas classificatórias.Do Concurso Vestibular Especial constarão apenas duas provas. na qual consta que o PRONERA vinculado ao INCRA já propôs. que contribuam para o desenvolvimento rural sustentável do assentamento. o qual. com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento rural sustentável. Art. estimula. a que se refere o Inciso II do art. anexada aos autos. estabelecendo seus artigos 3º. "A Portaria nº 10. 4º. aprova a implementação do PROQUERA. não foi instituído com o fito exclusivo de alfabetizar e oferecer cursos técnicos aos jovens e adultos de assentamentos de reforma agrária. 2º e 3º. criados através do aludido Programa.

Oficie-se. para tentar justificar o confronto entre a instituição do referido curso e a legislação vigente. em princípio. Ora.Recife. executado através de convênio com a UNIJUÍ. 28 de abril de 2004. pois aí sim o princípio da isonomia estaria gerando desigualdade. a exemplo do que já ocorre comumente na sociedade brasileira. Na referida página é possível ter acesso ao Agravo de Instrumento e à Apelação Cível de Autoria da AEASE. alegar quebra do princípio isonômico. Para ele. Intime-se a parte agravada para. quais sejam:. bem como a sua finalidade social.trf5. Muito pertinente as interpretações feitas à luz da contradição social e à luz da realidade                                                              10 Inteiro Teor obtido de consulta a Hhttp://www.do em 25/3/2012H.DES. os filhos dos assentados estão tendo tratamento igualitário. que o princípio da isonomia consiste em dar tratamento igual àqueles que estão na mesma situação. .57   execução através de convênio com a UERGS. a exigência de prova de redação em língua portuguesa. Nota-se uma postura crítica e materialista histórica na argumentação da referida decisão. refere-se a trabalho acadêmico. de início. o curso especial é destinado aos beneficiários ou filhos de beneficiários dos assentamentos de Reforma Agrária. da Universidade Federal de Sergipe. emprestando efeito suspensivo à decisão de 1º Grau. apresentar a sua resposta ao recurso. a legislação colacionada. pelo que poderia parte dela ser executada fora de sala de aula. para o cumprimento desta decisão.br/cp/cp. A Lei de Diretrizes de Bases da Educação exige para o acesso aos cursos de graduação a conclusão do ensino médio e a classificação em processo de seleção.610 da UFS. à douta Juíza Federal Substituta da 3ª Vara da Seção Judiciária de Sergipe.carga horária inferior à estabelecida na LDB..ausência de prova de português. na referida seleção especial. assim. no prazo legal.. Curso de Pedagogia.jus. Basta ver a sua menção sobre o princípio da isonomia – tratar os iguais com igualdade. 10 FEDERAL MARCELO NAVARRO. os requisitos exigidos na seleção do Curso Especial de Engenharia Agronômica . pelo que não poderia aluno de Curso Regular de Engenharia Agronômica da UFS. o parecer ministerial. ainda. com urgência. O que não seria de se esperar é que filhos de latifundiários tivessem o mesmo tratamento. as normas expedidas pelo MEC. executado através de convênio com UNEMAT. Publique-se. e. determinar o prosseguimento regular do Curso Especial de Engenharia Agronômica . convênio executado com a UFES e o Curso de Pedagogia. o qual não se encontra nessa condição. satisfaz. DEFIRO o pedido para. 18h.Considerando. Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia.610 (afronta ao princípio constitucional da isonomia). o que teria sido cumprido pela UFS. Ressalto.610. RELATOR (Grifo nosso) A transcrição da íntegra da decisão do Relator é fundamental para se perceber que houve exclusão de todos os argumentos utilizados pela AEASE na busca do cancelamento do curso de Agronomia para os beneficiários da reforma agrária. a carga horária de 200 dias por semestre. Foram invocados pela AEASE três aspectos.requisitos de seleção ao curso especial .

. Duarte (2008. 2008. a autora continua as suas reflexões dizendo que o reconhecimento da igualdade material obriga o administrador a trabalhar para o cumprimento dos objetivos da Constituição Federal. Inconformada.58   fática. Desembargador Federal . conforme segue: A Turma. condição social. após decisão do TRF da 5ª Região. Srs. em vários de seus incisos afirma ‘ igualdades especiais’”. por unanimidade. Participaram do julgamento os Exmos. com o julgamento do pedido liminar pela Juíza da 3ª Vara da Seção Judiciária de Sergipe.: Desembargador Federal Luiz Alberto Gurgel. que foi conhecido com efeito suspensivo pelo Desembargador Federal Marcelo Navarro. de forma genérica. ou igualdade feita pela lei. “[. 35) nos auxilia na reflexão do que está disposto no artigo 5° da Constituição Federal. p. etc. para então convocar as normativas e os princípios gerais que iluminam o direito e a justiça.. deu provimento ao agravo de instrumento. raça. a UFS interpõe Agravo de Instrumento ao TRF da 5ª Região.. dizendo que o mesmo “[. nos termos do voto do relator. Daí a importância do princípio da igualdade material”. serviços e direitos sociais”. Será a partir de 29/6/2004 que o curso terá os seus rumos pedagógicos reconduzidos na UFS. E.] obriga o legislador a elaborar programas de ação concretos para reduzir as desigualdades existentes na sociedade” (DUARTE. até aqui foi descrita a ACP originada pela AEASE.] traz proibição genérica da discriminação (princípio da igualdade formal). visa criar patamares mínimos de igualdade no campo do acesso aos bens..] nem sempre a lei é feita para atingir a todos indistintamente. E. Ainda. p. “O princípio da igualdade material. Para a autora. gênero. isso ocorre porque “[. 35) Em síntese.. independentemente de sua origem..

à unanimidade. LEI Nº 9. com baixa definitiva no TRF 5ª Região. Recife.A exigência de prova de redação em língua portuguesa.A Lei de Diretrizes e Bases da Educação . AGRAVO DE INSTRUMENTO. que ficam fazendo parte integrante do presente julgado. A C Ó R D Ã O Vistos. o que teria sido cumprido pela Universidade Federal de Sergipe na realização Curso Especial de Engenharia Agronômica. satisfaz.394/96. CURSO ESPECIAL DE ENGENHARIA AGRONÔMICA DIRIGIDO AOS BENEFICIÁRIOS OU FILHOS DE BENEFICIÁRIOS DA REFORMA AGRÁRIA EM ASSENTAMENTOS DO NORDESTE. DES.. CONSTITUCIONAL. REJEITADA. em princípio. as normas expedidas pelo MEC. o qual revela-se um instrumento de inclusão social que garante ao homem do campo. firmou convênio com o INCRA/PRONERA para implementação do Curso Especial de Engenharia Agronômica . CURSO ESPECIAL DE ENGENHARIA AGRONÔMICA..59   Lázaro Guimarães e Desembargador Federal Marcelo Navarro.A carga horária de 200 dias por semestre. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. Decide a Quarta Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região. o acesso ao ensino superior ou de 3º Grau. MEDIDA LIMINAR.. FAPESE E UFS. em conjunto com a FAPESE. Em 5/12/2006. nos termos do voto do relator. conforme segue: [Publicado em 17/08/2004 00:00] [Guia: 2004. na forma do relatório e notas taquigráficas constantes nos autos. QUESTÃO ATINENTE À CATEGORIA DOS ENGENHEIROS                                                              11 Idem. dar provimento ao agravo de instrumento.394/96 . PROCESSUAL CIVIL. . PRELIMINAR DE INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. da 3ª Vara Federal de Sergipe. prevista para o aludido curso. vinculado aos assentamentos de reforma agrária do Nordeste. a decisão do Agravo foi remetida para a Seção Judiciária de Sergipe. FEDERAL MARCELO NAVARRO RELATOR.Agravo provido.A Universidade Federal de Sergipe. o Juiz Edmilson da Silva Pimenta. CONVÊNIO DO INCRA. no gozo de sua autonomia didático-científica e administrativa. 11 (Grifo nosso) O acórdão foi publicado em 17/8/2004. 29 de junho de 2004. etc.Lei 9.. ENSINO SUPERIOR.610. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. refere-se a trabalho acadêmico. pelo que poderia parte dela ser executada fora da sala de aula. analisou a ACP e proferiu a sentença favorável à UFS e ao funcionamento do curso de Agronomia para beneficiários da reforma agrária. A ementa da decisão está reproduzida a seguir: ADMINISTRATIVO. dada pela norma constitucional. na referida seleção especial.exige para o acesso aos cursos de graduação a conclusão do ensino médio e a classificação em processo de seleção..000672] (M303) EMENTA: ADMINISTRATIVO. (Grifo nosso) Em 29/9/2004.

Na                                                              12 Disponível em Hhttp://expresso-noticia. 3º. V ." Sob outro ângulo. em decorrência da autorização dada pelo art. I e II . o Conselho Universitário da UFS expediu a Resolução nº 09 /2003/CONSU e criou o PROQUERA. por via da Portaria nº 10 . XLVIII . 1º. 207 da Constituição Federal. DIREITO COLETIVO. Acesso em 10/3/2012. como bem lembrou o Ministério Público Federal. Ela visa.com. não podendo . ATRAVÉS DE CONCURSO VESTIBULAR. com peso 3 (três) e 7 (sete) respectivamente. 1º . De acordo com os arts. ART. 5º. firmando convênio com a FAPESE e o INCRA para a implementação do Curso Especial de Engenharia Agronômica -610. sob pena de eliminação do processo. cumprir os princípios da isonomia e da dignidade da pessoa humana. esta última conferida pelo art. A política de ações afirmativas. zerar quaisquer das provas. 87 da Carta Magna .declaração da Superintendência do INCRA em Sergipe informando que o candidato é beneficiário ou filho de beneficiário da Reforma Agrária em Assentamentos no Nordeste. de 16 de abril de 1998. destinado aos jovens e adultos não graduados em nível superior vinculados a Assentamentos de Reforma Agrária do Nordeste. como segue: Rejeito a preliminar aventada. da Lei Suprema. e 4º da referida Resolução: "O PROQUERA será destinado aos jovens e adultos não graduados em nível superior vinculados a Assentamentos de Reforma Agrária do Nordeste e que apresentem no ato da inscrição para o Concurso Vestibular Especial: . expedida pelo Ministro de Estado Extraordinário de Política Fundiária.60   AGRÔNOMOS E DOS CANDIDATOS A INGRESSO NOS CURSOS DE GRADUAÇÃO DA UFS. XVIII . . a legislação que cuida do Ensino Superior no Brasil dispõe: Lei de Diretrizes e Bases da Educação -LDB (Lei nº 9. é hoje uma realidade disseminada por todo o corpo da Constituição Federal. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS E À LEGISLAÇÃO REGULAMENTADORA DO ENSINO SUPERIOR DO BRASIL. o candidato. 5º .br/noticias/3732/justica-federal-mantem-cursode-engenharia-agronomica-destinado-aos-sem-terraH. insculpidos nos arts. 12 (Grifo nosso) Os argumentos utilizados pelo Juiz Federal são resumidos na sua decisão. foi criado o PRONERA. precipuamente. com escopo de fortalecer a educação nos Assentamentos de Reforma Agrária. Do Concurso Vestibular Especial constarão apenas duas provas. POLÍTICA DE AÇÃO AFIRMATIVA. 7º .394 /1996): "A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas: de graduação. LXXIV . a exemplo do art. da Lei Magna. Diante desse contexto. BENEFÍCIO A JOVENS E ADULTOS VINCULADOS A ASSENTAMENTOS DE REFORMA AGRÁRIA. .347 /85. Redação e Conhecimentos Gerais.jusbrasil. abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo. XIX . SUBMISSÃO AOS PRINCÍPIOS DA ISONOMIA E DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. LXXVI . No rastro da aludida Portaria e da sua autonomia didático-científica e administrativa. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA DOS PEDIDOS AUTORAIS.certificado de concluso do ensino médio ou de curso equivalente. REGRAS QUE OBEDECEM À LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO. e do art. III. passando ao exame meritório. ambas classificatórias. transmudada em direitos fundamentais do indivíduo. DA LEI Nº 7.

05 de dezembro de 2006. as vagas ofertadas regulamente pela Universidade Pública. quando houver. Condeno-a. haja vista terem uma vasta experiência de vida no campo. abrangendo também tarefas executadas fora da sala de aula. requisito facilmente preenchido pelos beneficiários do curso.61   educação superior. bem assim viabilizando o emprego de recursos privados. 3º Somente serão aceitas inscrições nos processos seletivos. ao contrário do que afirma o autor." Portaria nº 391 . excluído o tempo reservado aos exames finais. em melhores condições. orientando-os na otimização dos recursos públicos investidos na Reforma Agrária. ora examinado. segundo normas explicitadas no edital de convocação do processo seletivo. a conclusão do ensino médio e a classificação em processo de seleção que aplique prova de redação obrigatória em língua portuguesa. a que se refere o Inciso II do art. de caráter eliminatório. julgo improcedente o pedido da autora. tem. 20 do Código de Processo Civil . entendo haver legalidade na criação do Curso Superior Especial em Engenharia Agronômica. obtido pela via regular ou da suplência. condenando-a no pagamento das custas processuais.. de 07 de fevereiro de 2002. A matéria foi objeto de exame pelo Egrégio Tribunal Regional Federal da 5ª Região. deverão seguir as determinações do Parecer nº 98 /99. Aracaju. A três. cujo Relator foi o eminente Desembargador Federal Marcelo Navarro [. ao julgar o Agravo de Instrumento nº 54359/SE. no pagamento de honorários advocatícios no montante de 10% (dez por cento) sobre o valor da causa. A uma. e outros estudantes que têm acesso aos cursos preparatórios para vestibulares. porque a formação acadêmica do homem do campo. para o acesso aos cursos de graduação. A quatro. o ano letivo regular. porque o curso especial tem aptidão para tornar ainda mais sólida a proposta da Reforma Agrária no Brasil. do Ministro de Estado da Educação: "Art. Art. no mínimo. porque a carga horária de duzentos dias por semestre se refere a trabalho acadêmico. Registre-se. 2º Todos os processos seletivos que se refere o artigo anterior incluirão necessariamente uma prova de redação em língua portuguesa. Intimem-se.. habilitando-se a disputar. visivelmente menos favorecidos pela política educacional de base e pelo contexto social. Juiz Edmilson da Silva Pimenta" 13                                                              13 Idem. Publique-se. pois os futuros Engenheiros Agrônomos terão a oportunidade de disseminar seus conhecimentos e técnicas junto àqueles que laboram no campo. independente do ano civil. do Conselho Nacional de Educação e as disposições da presente Portaria. assegurando-lhes a plena vivência do princípio da dignidade humana e do primado do trabalho. duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo. procura dar uma maior efetividade ao princípio da isonomia. Art.] Ex positis. a ser rateado equitativamente. . ao aliar a experiência do homem do campo ao conhecimento científico." Do confronto dos dispositivos legais acima transcritos. nos moldes do questionado curso. por objetivar diminuir o fosso existente entre os estudantes vinculados a assentamento destinados à Reforma Agrária. em favor dos réus. na medida em que esta apenas exige. A cinco. de candidatos que estejam cursando o Ensino Médio ou que possuam o Certificado de Conclusão deste nível de ensino. 44 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional . A duas. nos termos do § 3º do art. também. de 6 de julho de 1999. a que se refere o artigo 2º. 1º Os processos seletivos para ingresso nas Instituições Públicas e Privadas pertencentes ao Sistema de Ensino Superior. terá um efeito multiplicador e eficaz. porque ele. porque o PROQUERA obedeceu à legislação prevista para o Ensino Superior.

Ademais. O artigo 16 da ACP é bastante polêmico. p. qual seja a coisa julgada. conforme exposto no artigo 16 da Lei n° 7. caberia aqui uma reflexão sobre o alcance da sentença que faz coisa julgada material. e sim aos limites subjetivos da coisa julgada. e não para fixar o âmbito territorial em que os efeitos da sentença serão imutáveis. Portanto. O juiz decidiu pela improcedência do pedido da AEASE. bem como da qualidade agregada a seus efeitos. Sendo assim.. por isso é que. O recurso de apelação foi improvido em 13/1/2009. Mas a questão não é referente à jurisdição nem à competência. 16-17): Os direitos perseguidos nas ações coletivas não podem ser divididos. pelo Desembargador Federal Marcelo Navarro. Da decisão do Juiz Edmilson Pimenta. a amplitude de uma sentença coletiva. em 1° Grau houve recurso de apelação interposto pela AEASE ao TRF da 5ª Região. não havendo como determinar a abrangência do dano. essa nada mais sendo do que a medida da jurisdição. Em que medida essas decisões podem constituir precedentes . que era de extinção do curso de Agronomia. Por isso. embora o STJ seja favorável à eficácia e aplicação da norma. Em 23/4/2009. a competência territorial serve apenas para definir qual juízo processará a causa. justamente. são chamados meta ou transindividuais. não pode ser restringida ao território de seu órgão prolator.62   O julgamento da ACP foi efetivado em 5/12/2006. que serão definidos a partir da espécie de direito coletivo discutido. nos limites da competência territorial do órgão prolator (. Conforme afirma Zandonai (2009.347/1985 – ACP – “A sentença civil fará coisa julgada erga omnes.)”.. houve remessa para baixa definitiva do processo na Seção Judiciária de Sergipe. A competência será definida pelo local do dano.

O referido autor demonstra que um dos problemas fundamentais na interpretação do princípio da igualdade reside em determinar se esse princípio representa ou não uma obrigação para o Estado. p. haja vista que. Bonavides (2008. Afinal. Diante do exposto. discutir a educação no âmbito da reforma agrária é colocar em foco uma questão jurídica e sociológica ao mesmo tempo. Essa polêmica está presente entre o conteúdo da ACP e os argumentos apresentados pelo Desembargador. A sentença proferida pelo Juiz de 1° grau e confirmada pelo Desembargador federal é substanciosa quanto aos argumentos jurídicos e sociológicos.63   importantes na análise de casos semelhantes no país? No momento. ou seja. de criação da igualdade fática na sociedade. 377) afirma que: Os domínios da interpretação constitucional testemunham controvérsias inumeráveis com relação ao conceito de igualdade. O princípio da isonomia está presente nos fundamentos da Ação Civil Pública proposta pela Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de Sergipe. Põe em questão a prática social e a importância dos conhecimentos científicos voltados à transformação da realidade. os estados de Goiás e Rio Grande do Sul têm ações no Judiciário versando sobre os cursos superiores para os beneficiários da reforma agrária. a criação do . a interrogação que resta é: como os princípios constitucionais são utilizados no julgamento das questões que dizem respeito aos direitos sociais? O Juiz e o Desembargador que decidiram a ACP proposta pela AEASE têm visão de futuro ao mencionar que os formados terão possibilidade de contribuir com o processo de reforma agrária. para a AEASE. sobretudo em razão do prestígio que a igualdade fática ou material entrou a desfrutar naqueles sistemas onde a força do social imprime ao Direito os seus rumos.

visivelmente menos favorecidos pela política educacional de base e pelo contexto social.64   curso de Agronomia. Entretanto. o Desembargador entende que a existência do curso de Agronomia daria efetividade ao princípio da isonomia.. 378). as vagas ofertadas regulamente pela Universidade Pública. (BONAVIDES. “o Estado social é enfim Estado produtor de igualdade fática.] fosso existente entre os estudantes vinculados a assentamento destinados à Reforma Agrária.. que torna imutável e indiscutível a sentença. nos termos do artigo 16. Para o primeiro autor. Bonavides cita Alexy. em se tratando de estabelecer equivalência de direitos”. que a existência dessa possibilidade diminuiria o [. por sua legalidade e não ferimento do princípio da isonomia. em melhores condições. estaria ferindo a igualdade de tratamento e de acesso à universidade. Por sua vez. da Lei 7. a fundamentação apresentada pelo Desembargador Federal da 5ª Região e pelo juiz que decidiu a causa em 1ª instância demonstra razoabilidade na análise de uma .347/1985 e do Código de Processo Civil. Uma das hipóteses presentes nesta investigação era a de que o Judiciário estava marcado por uma ação conservadora no que se refere às decisões sobre direitos entre sujeitos do MST e beneficiários da reforma agrária. p. Sentença que faz coisa julgada material. que teria dito que “quem quiser produzir a igualdade fática. que expressa denominar-se “coisa julgada material a eficácia. Afirma ele. com o respectivo vestibular. e outros estudantes que têm acesso aos cursos preparatórios para vestibulares. artigo 467. haja vista a sentença favorável ao funcionamento do curso. deve aceitar por inevitável a desigualdade jurídica”. 2008. Trata-se de um conceito que deve iluminar sempre toda a hermenêutica constitucional. habilitando-se a disputar. A batalha judicial que envolveu o curso de Agronomia para beneficiários da reforma agrária no Estado do Sergipe teve final feliz. não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário”.

Os fatos e a interpretação crítica da lei levaram ao entendimento da legalidade do referido curso. . será descrito o trâmite judicial necessário para a efetivação do curso de Direito para os beneficiários da reforma agrária. Portanto.65   “questão social”. precioso o raciocínio de que a formação educacional terá efeito multiplicador nos assentamentos de reforma agrária. o que aconteceu foi a passagem da liberdade jurídica para a liberdade real. Para que a reforma agrária seja bem sucedida. Ou seja. mas a liberdade sem igualdade é valor vulnerável. A igualdade não revogou a liberdade. Importante ressaltar que três princípios constitucionais foram analisados no caso específico: legalidade. do mesmo modo que da igualdade abstrata se intenta passar para a igualdade fática. 378): Os direitos fundamentais não mudaram. é importante explicitar que a turma está concluindo o curso de Direito no ano de 2012. Como afirma Bonavides (2008. trabalho e cultural. é fundamental o trabalho de profissionais com vínculo direto com a terra. É uma análise rara nos meios jurídicos. mais uma conquista da organização dos trabalhadores do campo em colaboração com os trabalhadores das universidades públicas que lutam por um Brasil menos desigual e por Justiça. na UFG. pois implica na visualização da função social da reforma agrária e da educação. isonomia e autonomia didático-científica da universidade. p. tendo em conta a realidade concreta. mas se enriqueceram de uma dimensão nova e adicional com a introdução dos direitos sociais básicos. Para iniciar o capítulo. Em última análise. No próximo capítulo.

cptgoias. Acesso em: 27/3/2012. FONTE: Disponível em: http://www.66   FIGURA 3 – SÍMBOLO DO CURSO DE DIREITO DA UFG. .com/noticias. REFORMA AGRÁRIA.

Ele revela que o curso de Direito contou com articulações iniciadas no ano de 2005 entre a Universidade e os movimentos sociais e sindicais do campo. INCRA. Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). a exemplo do MST. bem como a aprovação pela OAB-GO. O público-alvo era composto de estudantes vindos dos assentamentos da reforma agrária e beneficiários da política nacional da agricultura familiar. A parceria foi firmada entre UFG. No ano de 2005 teve início a elaboração da proposta de curso de Direito para beneficiários da reforma agrária. o curso foi aprovado. Como nas demais experiências de educação superior. o curso enfrentou batalhas judiciais e a ideologia veiculada pela mídia impressa e televisiva. CONTAG. Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Pastoral da Juventude Rural (PJR). Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). e o seu trâmite seguiu os caminhos institucionais. o trabalho de conclusão de curso de autoria de Gonçalves (2011) auxiliou na compreensão do processo de criação do curso de Direito. pelo Conselho Universitário. o projeto foi mantido por meio de parceria entre universidade e INCRA. DECISÃO JUDICIAL CONSTITUCIONAIS: O CASO DO CURSO DE DIREITO E PRINCÍPIOS A caracterização do curso de Direito na UFG foi realizada mediante consulta ao texto de Morais (2010). contrária ao curso. em setembro de 2006. com funcionamento no campus universitário da cidade de Goiás. Dos diálogos emergiu a proposta da criação de uma turma especial de Direito. que discute a dogmática jurídica. tendo sido apresentado o projeto de criação da turma especial ao PRONERA no ano de 2006. e os movimentos sociais do campo ligados à Via Campesina. Finalmente. Fundação de Apoio à Pesquisa (FUNAPE). Também. Também. . propondo uma análise crítica do ensino jurídico.67   4 AÇÃO CIVIL PÚBLICA.

O INCRA também concordou com a legalidade da implantação da turma. De acordo com a referida autora. Após a aula inaugural. decidiu pelo arquivamento do Inquérito. A OAB/GO aprovou o parecer do relator da Comissão de Ensino Jurídico que destacou a legalidade da proposta da UFG. É desenvolvido segundo a concepção da Alternância. p. foi feita a seleção dos alunos em janeiro de 2007. Ministério da Educação. com a presença do Ministro do STF Eros Roberto Grau que teceu reflexões sobre o tema “O Direito posto e do Direito pressuposto”. O MPF enviou ofícios à UFG.. o MPF depois de tomar conhecimento dos pareceres das entidades mencionadas. como expressão de ação afirmativa. OAB/Seção Goiás e INCRA para manifestação sobre o caso. relata que no ano de 2006 foi instaurado Inquérito Civil Público pelo MPF com “[.. expressando o entendimento de que os beneficiários da reforma agrária e os grupos familiares necessitam de políticas afirmativas.] finalidade de apurar a regularidade dos projetos mantidos pela Universidade Federal de Goiás para a criação de possíveis cursos a serem destinados a segmentos específicos da sociedade”. 108) citando o documento MGMO n° 51/2006. No mês de agosto do mesmo ano foi realizada a aula inaugural do curso. A partir de então. pois são vítimas de discriminação cultural. os ânimos jurídicos foram acirrados novamente e a batalha judicial foi iniciada com a ACP proposta pelo MPF. a exemplo do curso de Agronomia mencionado no capítulo anterior. sob n° . sendo central a organização pedagógica por Tempo Escola e Tempo Comunidade. O Ministério da Educação não concordou com o projeto afirmando que o mesmo desprezava os demais excluídos da sociedade.68   Segundo Gonçalves (2011. A turma teve início com 60 alunos.

à toda evidência. proposta pelo MPF PEDIDOS Declaração da ilegalidade do convênio estabelecido entre INCRA e UFG.013973-0. 79/85). neste momento. [. Extinção do curso. nos termos do art. consubstanciado na Portaria Conjunta INCRA/P/INCRA/SR(04)GO/UFG Nº 9 de 17 de agosto de 2007. da Constituição da República (fls. Concluído o certame. ACP 2008. como exigência da inscrição. de implementação de medida de exceção. sob alegação de que “há desvio de finalidade” na proposição de uma turma especial de Direito. 68).35. parecer este relegado ao oblívio pelo órgão gestor da Universidade Federal de Goiás. Trata-se. Insta salientar. a UFG iniciou processo seletivo para “Turma especial de graduação em Direito para beneficiários da reforma agrária”. a comprovação da qualidade de agricultor assentado ou agricultor familiar. caput. O contexto do estabelecimento do convênio que deu origem ao curso e os principais argumentos presentes na ACP estão descritos a seguir: Os ocupantes do pólo passivo da demanda firmaram termo de cooperação técnica. O Ministério da Educação e Cultura informou que não há previsão da criação de outras turmas.00. 131/138. visando implementar curso de graduação em Direito destinado a beneficiários da reforma agrária. iniciou-se o curso. com utilização de recursos do PRONERA. Validade das atividades acadêmicas integralizadas pelo corpo discente.013973-0/GO.] O que se vem trazer à apreciação do Poder Judiciário nesta demanda é a análise de adequação de emprego de recursos públicos para custeio do . consoante demonstra a documentação acostada às fls. mas que tal decisão compete exclusivamente à Universidade..35. que se pretende ver acobertada pelo manto simpático e politicamente correto das ações afirmativas. 18/201.69   2008.. 207. que essa forma de processo seletivo restrito já havia recebido manifestação negativa da Consultoria Jurídica do Ministério da Educação (fls. com o desiderato de selecionar os futuros discentes do curso. acoimando de nulidade a inscrição que não atendesse a este discrímen (fls.00. 27). que se encontra em pleno funcionamento. Para dar concretude ao avençado. que efetivamente veio a promover o vestibular para universo restrito de concorrentes. consoante fls. a ser custeado com recursos do Programa Nacional de Educação de Jovens e Adultos – PRONERA. que dispõe de autonomia didático-científica e administrativa. Foi formulada. assegurando a consecução do semestre letivo. restritiva do direito de competir pelas vagas existentes.

para o desenvolvimento das sociedades. 107) afirma que: [. 2004.] o princípio da finalidade impõe que o administrador. p. p. Dessa forma. Mello (2009. 2009. moradia. ampliando o leque de possibilidades de atuação e intervenção na própria realidade – assentamento da reforma agrária. A educação tem sido um dos meios discutidos internacionalmente. Como escreve o referido autor.. Pode-se dizer que vários direitos fundamentais estão nas questões que envolvem terra e educação. 15). ao manejar as competências postas a seu encargo. atue com rigorosa obediência à finalidade de cada qual. não cabe mencionar o desvio de finalidade alegado pelo MPF. in casu. Isto é. mas também à finalidade específica abrigada na lei a que esteja dando execução. verifica-se que: . é uma inerência dele. (MELLO. há séculos. a saber: trabalho.70   referido curso de graduação. técnico-profissional de nível médio e curso superior em diversas áreas do conhecimento” (MDA/INCRA. o princípio da finalidade não é uma decorrência do princípio da legalidade. cumpre-lhe cingir-se não apenas à finalidade própria de todas as leis. bem como do discrímen eleito para emprestar tratamento diferenciado a determinado grupamento social. (Grifo nosso) Importante comentar que um dos objetivos do PRONERA é “garantir aos assentados (as) escolaridade/ formação profissional. 106). em superiores condições culturais. em detrimento de indeterminável grupamento de potenciais candidatos ao curso de Direito. os assentados beneficiários da reforma agrária e seus filhos. mas sim garantir que o direito social à educação seja efetivado entre os beneficiários da reforma agrária e os seus filhos. saúde.. Continuando os argumentos do MPF. mas está contido nele. que é o interesse público. alimentação.cognitivas. p.

dentro de um contexto de Reforma Agrária prioritário do Governo Federal. Também.71   Ocorre que o ato instituidor do PRONERA. que contribuam para o desenvolvimento rural sustentável do assentamento” (sem grifos no original) Fica clara a preocupação em garantir o direito à educação. expressa a vontade da coletividade de que o ensino. utilizando metodologias específicas para o campo. aos processos de produção e de comercialização dos produtos. não há que se falar que o curso não atinge o propósito de manter as pessoas no campo.represente um retorno à sociedade do que foi investido no indivíduo. tornando-o mais apto ao trabalho e à produção. Os estudos agronômicos e econômicos. (Grifo nosso) Não é possível deixar em branco a passagem em que o MPF alega que o estudo do Direito não se presta aos fins propostos pelo PRONERA e que. desde estradas. direito de todos e dever do Estado e da família. tem entre seus consideranda que o programa visa “atender a demanda educacional dos assentamentos rurais. sendo conseqüente lógico a caracterização do desvio de finalidade. em complementação ao seu reconhecimento como direito social no art. segurança etc. Guardada está a compatibilidade com o texto constitucional que. de assentar o trabalhador em um lote de terra. Portanto. 205: “Art. certamente. mas resguardada sua finalidade útil contextualizada: manter o homem ligado à terra. provendo-lhe as condições necessárias ao seu desenvolvimento econômico sustentável” além de preceituar que o programa tem por objetivo “fortalecer a educação nos Assentamentos de Reformar Agrária. a grande maioria dos formados migrará para a cidade. ao tratar da educação. 205. 6º.para além do incremento da carga cognitiva do educando. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” Não demanda grande esforço exegético a compreensão de que o estudo do Direito por parte dos beneficiários da reforma agrária não se presta a nenhum dos desideratos propostos. acesso à saúde. não usa metodologia específica para o campo e não contribui para o desenvolvimento sustentável do assentamento. a Portaria nº 10. para que a condição de vida seja digna. revelam que a permanência do trabalhador no campo depende de um conjunto de políticas públicas relacionados à formação profissional. A educação. conforme depreende-se de seu art. Ele é apenas um dos . de 16 de abril de 1998. pois não o qualifica para o trabalho. escolas. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. especialmente. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. Grande ingenuidade pensar que em função da liberdade de ir e vir a efetivação do curso superior seria ilegal por não gerar a permanência do sujeito no campo. sendo estridente a infringência aos fins pretendidos pelo normativo do programa. estudos sociológicos revelam a necessidade de melhorar a infraestrutura no campo.

é o meio urbano.] A mera existência de uma discriminação social no passado não é mais suficiente para justificar a ação afirmativa”4.72   mecanismos.. a fortalecer as possibilidades de sucesso da reforma agrária (ainda por ser feita no Brasil). ou em suas palavras “não se podem interpretar como desigualdades legalmente certas situações. atendidos os preceitos normativos. As duas hipóteses denotam de modo evidente o desvio de finalidade do emprego dos recursos do PRONERA. pois evidente a lesividade ao patrimônio social. não há que se falar em medida compensatória. ou continuará em sua propriedade rural.. no texto da ACP. A preocupação com a efetivação dos cursos superiores é com a reforma agrária. em qualquer de suas vertentes. Ainda que venha ele a patrocinar pretensão titularizada por cidadão que habite a mais distante área rural.] A ausência de previsão legal de tratamento diferenciado aos beneficiários da reforma agrária impede que se lhes conceda anticompetitive advantage quando postos em contraste com os demais candidatos ao ingresso no curso de graduação em Direito. aí sim. Pois bem. Medicina Veterinária. origem). raça. não encontradiço em paragens rurícolas. sem que dela possa fazer conhecimento.. num conjunto maior. fere de morte o princípio da igualdade. E. o assentado da reforma agrária – agora graduado em Direito – migrará para um centro urbano para viabilizar a sua inclusão no mercado de trabalho. a reclamar intervenção do Poder Judiciária para fazer cessar a injuridicidade. (Grifo nosso) [. Necessário lembrar . o que traria como consectário a grande virtude de ter-se um potencial multiplicador de informações. endereçará a sua demanda a órgão do Poder Judiciário. ou outra carreira que proporcionasse conhecimentos efetivamente aplicáveis ao cotidiano dos assentados. afirma o renomado publicista. Diverso seria o raciocínio se o curso fosse de Engenharia Agronômica (ou florestal).. o MPF. quando a lei não haja “assumido” o fator tido como desequiparador. implicando em produção de conhecimento despida de resultado prático. Impensável afirmar que a Universidade Federal de Goiás possa encontrar-se subsumida a esta proposição. que é a manutenção do indivíduo na terra. continua: Sabido é que o habitat do profissional do Direito.. desde o texto positivista do MPF. b) não há registro histórico que permita apontar uma perda histórica sofrida pelo grupamento. pois é nesta localidade em que se encontram os demais operadores da ciência jurídica. que não há o objetivo de tratar diferenciadamente o filho do beneficiário da reforma agrária..] Chega-se então a uma das seguintes conclusões: ao completar o curso. sexo. frustando-se o fim último da reforma agrária. Tal situação. Biologia. criando-se a inócua figura do 'palpiteiro' jurídico. Cotejando as premissas fixadas pela doutrina percebe-se com facilidade que: a) os assentados não possuem em comum nenhum dos elementos identificadores usualmente tomados como parâmetro para ter-se como legítima a discriminação positiva (cor. ante a ausência de potencialidade de aplicação efetiva de seu conhecimento. Importante refletir. [. agora tendo sido apresentado à ciência jurídica. (Grifo nosso) [. e sem esse indicativo de perda.

E.800 deles teriam características rurais. Mas existem milhares de instituições de educação superior que são particulares. No início do século XXI houve um aumento no número de instituições. porém não concretizada em função da histórica trajetória patrimonialista do Estado no Brasil. . dos 399 municípios. Vale lembrar que o Brasil não é tão urbano quanto se calcula. como é o caso da Universidade da Fronteira Sul no estado do Paraná.73   o princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado que. A reforma agrária é interesse público. p. são municípios com densidade populacional inferior a 150hab/km2.600 municípios brasileiros. 302 têm características rurais. tal como escreveu Veiga (2003). mas para isso é necessário política de Estado para a formação de mão-de-obra com conhecimentos científicos e tecnológicos visando à reorganização do modo de produção e de comercialização dos produtos agrícolas. É a própria condição de sua existência”. segundo Mello (2009. Ou seja. por exemplo. 4. em contraponto a umas três centenas de instituições públicas. como descrito a seguir. Ele demonstra que o Brasil é marcado por ruralidades. ou seja. 96) “É o princípio geral inerente a qualquer sociedade. dos aproximadamente 5. No estado do Paraná. tal qual faz Valéria Verde (2004) quando estuda o estado do Paraná. Importante notar que durante anos a sociedade brasileira ficou reduzida a um número de 250 instituições de educação superior – públicas no Brasil. bem como na sua interiorização pelo Brasil. das Universidades Federais Tecnológicas e dos Institutos Federais. O MPF alega que os assentados não sofrem maiores dificuldades de acesso à educação superior. o país tem grande potencial para geração de emprego e de condições saudáveis de vida no campo.

Por acaso o filho do servente de pedreiro da cidade de Goiás tem maior facilidade de acesso ao ensino superior que o filho do assentado? Ou o filho do funcionário da oficina mecânica? Ou o próprio mecânico? Por que não criar um curso de Direito para trabalhadores de oficinas mecânicas? Ou para trabalhadores de lojas de concerto de bicicleta? Ou para vendedores de gêneros alimentícios de beira de estrada? Decerto que a pertinência de todos eles para com o Direito é a mesma que a dos beneficiários da reforma agrária. sendo pertinente a advertência de LUIS ROBERTO BARROSO. de modo que dela possa retirar não só o seu sustento. Não há objetivo a ser atingido. além de fornecimento de alimentação básica até que a propriedade rural tenha capacidade de atender às demandas de seus ocupantes (Fome Zero). como com os princípios implícitos. franqueando-se-lhe a exploração. tanto do legislador quanto do administrador”. É de obviedade contundente que o curso de Direito não se presta a nenhuma dessas finalidades. Cada vez mais o Brasil é menos competitivo e mais paternalista. para . que não demanda dos interessados nenhum esforço pessoal. o que se perde com a medida é de maior relevo do que aquilo que se ganha”14. sem que dele seja exigida contraprestação econômica. b) a medida não seja exigível a necessária. Evidente a resposta negativa. ou seja. de acordo com as transcrições feitas. formando gerações de analfabetos funcionais que contam com o beneplácito do Estado. a finalidade buscada pela reforma agrária é viabilizar a subsistência do assentado. o MPF alegou. Outros princípios são mencionados adiante: A VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE. o ferimento ao princípio da finalidade e da isonomia.74   Ademais. que far-se-á cotejo igualmente analítico princípio versus caso concreto. como o financiamento de equipamentos e insumos agrícolas (PRONAF). (Grifo nosso) Até o momento. como ressaltado alhures. havendo meio alternativo para chegar ao mesmo resultado com menor ônus a um direito individual. contribuindo. 13 E segue. dando notícia do conteúdo do referido princípio “o princípio da razoabilidade permite ao Judiciário invalidar atos legislativos ou administrativos quando: a) não haja adequação entre o fim perseguido e o instrumento empregado. a) subprincípio da adequação. senão uma afinidade ideológica que começa a perder o pudor de mostrar as caras e vir a público ante a estupefação geral. mas seja o meio econômico que lhe permita galgar melhor posto no estamento social. ao afirmar que “o princípio em exame tem se mostrado um versátil instrumento de proteção de direitos e do interesse público contra o abuso de discricionariedade. Conforme largamente salientado em passagem anterior deste arrazoado. a comparação de se a ferramenta eleita (ato administrativo) é idôneo à promoção do fim pretendido pelo administrador. Além disso. Nesse primeiro momento. como é o caso da proporcionalidade. A atomização se amolda de tal forma ao propósito perseguido pela presente demanda. Cotejando o ato da Universidade Federal de Goiás com a Constituição da República. não há qualquer estudo que indique que os assentados da reforma agrária sofrem maiores dificuldades no acesso ao ensino superior que os demais moradores pobres do interior do Estado de Goiás. são implementados programas que buscam viabilizar a exploração da terra. c) que haja proporcionalidade em sentido estrito. garante a Constituição da República que o beneficiário da reforma agrária receba bem imóvel. recrudescendo os laços que o unem à terra. Para isso. percebe-se que seu obrar entra em choque tanto com disposições expressas.

(Grifo nosso) [. bem como negativa de vigência a diversos dispositivos constitucionais atinentes à educação.. CONCLUSÃO A conclusão que se extrai de todo o exposto é que a criação da ‘Turma especial de graduação em Direito para beneficiários da reforma agrária’ padece de injuridicidades desde a sua gênese. aquele que se buscou promover. em homenagem à segurança jurídica. a desconformidade da criação da “Turma especial de graduação em Direito para beneficiários da reforma agrária” com o ordenamento jurídico. prova destinada a selecionar os mais capacitados a captar o conhecimento específico que lhes será ministrado. [. As aulas da 'turma especial' do curso de graduação em Direito iniciaram-se no primeiro semestre de 2007. falar em necessidade implica entrever “meio alternativo para chegar ao mesmo resultado com menor ônus a um direito individual”. Diante dos argumentos apresentados. malversação de recursos públicos. garante um retorno social muito mais satisfatório. ensejando desvio de finalidade. tudo isso sob uma roupagem artificiosa de ação afirmativa. bem como a excessiva lesão a direito individual desborda na análise mais perfunctória que se faça do ocorrido. mas. encontra-se em rota de colisão com o mesmo. Pouca dificuldade há a identificação de que o bem jurídico sacrificado suplanta. pugna o Ministério Público Federal: a) Pela concessão da antecipação da tutela jurisdicional pretendida. sacrificou-se o livre acesso ao vestibular. Com efeito. o que. Pois bem. No caso em tela a ausência de necessidade. Considerando o lapso temporal ordinário à conclusão do curso de graduação. deixa o Judiciário de desconstituir o ato praticado.. sua desconstituição e obstaculização à criação de outras turmas especiais nos mesmos moldes. b) subprincípio da necessidade Como asseverado pelo ilustre constitucionalista carioca. 184 e seguintes da Constituição da República. mesmo reconhecida a ilegalidade. utilizando a teoria do fato consumado como supedâneo jurídico para a resolução de conflito de interesses. nódoas estas que se espraiaram pela execução da atividade material. Ex positis. a jurisprudência vem. reclamando o interesse público a interrupção das atividades da referida turma. sob pena de restar absolutamente inócua. o MPF pede a antecipação da tutela jurisdicional pretendida.. para supostamente corrigir uma histórica injustiça social que jamais será demonstrada.] . 131/139.] c) subprincípio da proporcionalidade em sentido estrito. em nome de uma promoção de grupo de sessenta ungidos. cada vez com mais freqüência. também não há dificuldade em visualizar a estridente infringência à Norma Ápice. implicando em agressão aos princípios da isonomia e da proporcionalidade. parece evidente que a prestação jurisdicional não pode aguardar tão elástico prazo temporal. Assim. Percebe-se que não só carece de adequação a medida ao fim pretendido.. ao revés. seu encerramento ocorreria no ano de 2011. De fato. consoante comprova a documentação acostada às fls.75   deslocar o homem do campo para o centro urbano. ao menos no plano hipotético. em muito. mister tecer algumas considerações sobre a tempestividade da tutela jurisdicional. fazendo movimento migratório reverso daquele pretendido teleologicamente pelo art. Porém. lembrando a expressão que a história imortalizou como 'a vitória de Pirro'. Compreendendo esta parcela da proporcionalidade como a relação de custo-benefício atingido pela medida. como segue: DA ANTECIPAÇÃO DA TUTELA JURISDICIONAL PRETENDIDA Evidenciado quantum satis.

inc. 20 de junho de 2008. a máxima de que os desiguais devem ter tratamento desigual fica esquecida. será interesse social ter uma sociedade de pessoas letradas e capazes de realizar interpretação da palavra escrita. Fica esquecida. II.000. O princípio constitucional que dispõe que todos são iguais perante a lei é mencionado em todas as ações civis públicas. 5º. Ensino Fundamental. no art. Em vários estados brasileiros o MPF tem atuado de forma contrária aos cursos superiores para os beneficiários da reforma agrária. Procurador da República. especialmente. e 6º. da Lei Complementar 75/93. Afinal. Raphael Perissé Rodrigues Barbosa. b. c. espera-se que o profissional do direito interprete o Direito Posto e o Direito Pressuposto. Interessante notar que o artigo 127 da CF/88 dispõe que uma das funções do Ministério Público é a defesa dos interesses sociais. III.00. Qual é a igualdade que está em foco? Quando a igualdade formal será concreta? O que se nota é que os princípios constitucionais são elencados a título de camuflar a ideologia conservadora que permeia parte do mundo jurídico e da sociedade brasileira. oral e das ideologias? Como disse o Ministro Eros Grau na aula inaugural do referido curso. Goiânia. entretanto. b. (AEASE.76   Dá-se à causa o valor de R$ 720. I. a. VII. d. V. em nome do princípio da legalidade e da isonomia. entre aqueles que compreendem o . a meta da sociedade brasileira? Ou. ao fazer valer a predominância da formação superior da elite em detrimento da formação da classe trabalhadora. III da Constituição da República Federativa do Brasil. 2008) A ACP está fundamentada nos artigos 127 e 129. o que é interesse social? Manter uma massa de pessoas com baixa escolaridade? Será 9 anos.

tal fato não autoriza a utilização de recursos públicos em total afronta aos objetivos que fundamentam a distribuição de terras aos pequenos agricultores desprovidos do principal instrumento de produção. Dessa forma. há evidente desvio de finalidade e. não obstante se reconheça que a educação do homem do campo é indispensável para garantir o desenvolvimento sustentável dos assentamentos. afirmando que a decisão impugnada não carecia de reparos. Em 15 de junho de 2009 o Juiz Roberto Carlos de Oliveira da 9ª Vara Federal proferiu a sentença em 1° Grau. e que a sua suspensão traria prejuízos irreparáveis a todos os agentes envolvidos.77   mundo jurídico como uma redoma de vidro. A sentença proferida pelo juiz em 1° grau foi parcialmente favorável ao MPF/GO. por conseqüência. A fundamentação do juiz resume-se ao que segue: Portanto. As decisões no Judiciário ocorreram como segue: INDEFERIMENTO DO PEDIDO DE TUTELA ANTECIPADA (9/7/2008) MPF apresenta AGRAVO DE INSTRUMENTO (29/7/2008) – TRF 1ª Região É mantida a decisão agravada (4/8/2008) O Agravo de Instrumento foi relatado pelo Juiz Federal Carlos Augusto Pires Brandão que decidiu por manter a decisão de não antecipação de tutela. a terra. descolado das contradições que marcam a sociedade. É a fixação do homem no campo com condições de sobrevivência e desenvolvimento que valida a desapropriação e transferência de terras aos assentados. Das políticas afirmativas: Não há que se confundir a presente . conferindo êxito ao programa de reforma agrária. de 17 de agosto de 2007 para utilização de recursos do PRONERA no custeio de curso superior em direito. e tal objetivo sequer tangencia com a formação técnico/jurídica que se pretende conferir aos assentados com a criação do curso de direito pelo INCRA/UFG. nos propósitos do convênio. o que causou indignação entre a sociedade organizada daquele estado. Destacou não haver desvio de finalidade. flagrante ilegalidade no convênio estabelecido através da Portaria Conjunta INCRA/P/INCRA/SR(04)GO/UFG Nº 9.

Com efeito.. a Constituição Federal estabelece nos artigos 205 e 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I . 206.. excluindo-as do processo de inserção que se pretendeu criar com a reserva de curso especial aos rurícolas.326/2006. que estabelece as diretrizes e bases da educação. mesmo com a extensão aos beneficiários da lei 11.]” A Lei nº 9. As políticas afirmativas de reserva de vagas.] De fato. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. conferir legitimidade ao ato praticado entre INCRA e UFG significa chancelar uma conduta que viola frontalmente o princípio da isonomia.igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. Art. verifico que a destinação exclusiva das vagas na referida turma de direito aos beneficiários da reforma agrária. adotadas por diversas universidades brasileiras. estendida aos cidadãos beneficiados pela política nacional de agricultura familiar e empreendimentos familiares rurais (lei nº 11. e desfavorável do MEC. têm merecido a acolhida dos Tribunais. (Grifo nosso) [. Após longo trâmite nas instâncias universitárias e contando com manifestações favoráveis do MPF e da OAB. tais instituições não estão imunes ao regramento contido na legislação que rege a matéria. seja a alunos oriundos de escolas públicas. mas a criação de curso exclusivo para tal grupamento. Este aspecto não passou despercebido ao Ministro Gilmar Mendes que na . nem tampouco aos ditames contidos na Constituição Federal. De fato. No que pertine ao tema. a escolha arbitrária dos destinatários das referidas vagas excluiu expressamente a possibilidade de acesso a todos os demais trabalhadores rurais não assentados ou aqueles que laboram como empregados rurais ou ainda os que estão em posição de profunda inferioridade em relação aos eleitos pela portaria conjunta que são os diaristas rurais (também denominados “boiasfrias”). ampliação ou redução do número de vagas nos cursos ministrados pelas mesmas.394/96. 1444). em 15/09/2006 foi criada pela Universidade Federal de Goiás a turma especial de graduação em direito para beneficiários da reforma agrária. 205. A educação. viola o princípio constitucional da igualdade. inclusive pela Universidade Federal de Goiás.. I.236. nos termos da resolução CONSUNI Nº 18/2006 (fl. [. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. excluindo outros que se encontram em situação idêntica ou inferior. que: “Art. direito de todos e dever do Estado e da família. Embora seja reconhecida a autonomia didático-científica das universidades para a criação. [. de 24 de julho de 2006)..igualdade de condições para o acesso e permanência na escola.] Da violação ao princípio da isonomia: Ainda que se reconhecesse a possibilidade de utilização de recursos do PRONERA para subsidiar a formação jurídica dos beneficiários da reforma agrária o convênio não estaria legitimado por ofensa ao princípio da igualdade. conforme se pode verificar de inúmeros julgados que acolheram a tese e julgaram pela constitucionalidade do sistema de cotas nas universidades. pois adota critério que privilegia uma pequena parcela de indivíduos.. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I . a referida portaria excluiu grande número de pessoas inseridas na mesma categoria. dispõe que: Art. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. não versa a presente causa sobre a reserva de determinado percentual de vagas nas universidades públicas para assentados ou seus filhos. Da análise dos dispositivos acima.78   controvérsia com as políticas afirmativas de reserva de vagas. Assim.. seja a determinadas raças ou etnias. mesmo que se considere legítimo o discrimen que destacou os homens do campo como grupo desfavorecido e marginalizado. É o que passo a apreciar.

de 31/05/2006. De fato. Goiânia. é medida que se impõe. de 17 de agosto de 2007 e da utilização de recursos do PRONERA para custeio de curso superior em direito. ricos ou pobres. há que se reconhecer a validade dos atos praticados até então. Sentença sujeita ao duplo grau de jurisdição (art. 18). ademais. somente no que concerne ao aproveitamento de tais disciplinas. Registre-se.000. há que se reconhecer a boa fé do corpo discente que não teve qualquer participação na elaboração do convênio entre o INCRA e a UFG. temos os demais cidadãos brasileiros. sem a ressalva dos atos validamente praticados. Intimem-se. 1862/1925).18. O primeiro deles está baseado no próprio princípio da isonomia. julgo parcialmente procedentes os pedidos formulados na inicial (art. tendo as aulas se iniciado no segundo semestre de 2007. razão pela qual a extinção do curso criado pelo Conselho Universitário da Universidade Federal de Goiás através da resolução CONSUNI nº 18/06. e determino que a extinção do curso se dê ao termino do semestre letivo. tendo sido determinado o arquivamento do mesmo. com parecer favorável do MPF à criação do curso objeto da presente ação (29/11/2006). em primeiro lugar. c) ressalvar a validade das atividades acadêmicas integralizadas pelo corpo discente e assegurar a conclusão do semestre letivo em curso. foi instaurado inquérito civil público para apurar a regularidade dos projetos de criação de cursos destinados a segmentos específicos da sociedade (PR/GO nº 1. foi realizado processo seletivo conforme edital 02/2007 que logrou aprovar 60 (sessenta) candidatos ao curso (fls. a extinção pura e simples do curso. na forma prevista nos estatutos das instituições de ensino onde se postule a conclusão do curso. a existência de outros produtores rurais que. do CPC). do CPC).008340/2006-92) através da portaria 51/2006. para tanto. Não se pode olvidar. no caso em exame. 15 de junho de 2009. Mais especificamente. tendo os alunos concluído com aproveitamento diversas disciplinas. (Grifo nosso) . não encontraria suporte nos postulados de justiça e não atenderia ao interesse público e social. Publique-se. mormente pelo fato da criação ter obtido a chancela de instituições relevantes como o Ministério Público Federal e a Ordem dos Advogados do Brasil. 475.347. I. Durante o trâmite do referido inquérito. 269. Juiz Roberto Carlos de Oliveira. 9a Vara Federal. uma vez que se encontram em situação em muito similar à dos assentados. Com efeito. Da boa-fé do corpo discente: Não obstante o reconhecimento da ilegalidade na criação do curso e na necessária extinção do mesmo. para: a) declarar a ilegalidade do convênio estabelecido através da Portaria Conjunta INCRA/P/INCRA/SR(04)GO/UFG Nº 9. há que se reconhecer a inconstitucionalidade e ilegalidade da criação de curso jurídico com destinação exclusiva aos beneficiários da reforma agrária e aos tutelados pela lei 11. de 15 de setembro de 2006 (fl. Atualmente o curso se encontra em pleno desenvolvimento. temos como potencialmente afetado o interesse de todos os demais cidadãos não beneficiados pela medida impugnada. de 15 de setembro de 2006. Em conseqüência. reconheço a boa-fé do corpo discente. que pleiteiam vagas nas instituições públicas de ensino superior.79   decisão que indeferiu pedido de suspensão de tutela antecipada formulada pelo INCRA (STA/233) assentou que: “Os interesses contrapostos. b) determinar a extinção do curso de graduação em direito criado através da Resolução CONSUNI nº 18/06. art. Sem condenação em custas e em honorários advocatícios (Lei n° 7. Assim. 1. De fato. conquanto não beneficiados pelo programa nacional de reforma agrária. também carecem de uma maior atenção do Estado. (Grifei) Portanto. DISPOSITIVO: Em face do exposto.444). de forma a assegurar validade dos atos acadêmicos praticados durante a realização do curso. devendo. Portanto. I.326/2006. consoante se verifica da vasta documentação juntada aos autos. são relativamente claros. submeter-se a fatigante e complexo processo seletivo. foi colhida manifestação favorável da Ordem dos Advogados do Brasil.

Argumentos teóricos.. [. mas também compromete a clareza e a previsibilidade do Direito.] A aplicação do Direito depende precisamente dos processos discursivos e institucionais sem os quais ele não se torna realidade. Por sua vez. a fim de auxiliar na compreensão de questão tão complexa como essa da educação superior aos beneficiários da reforma agrária.] O uso desmesurado de categorias não só se contrapõe à exigência científica de clareza – sem o qual nenhuma ciência digna de nome pode ser erigida -. antes do julgamento do mérito. jurisprudências e fáticos são . proporcionalidade. especialmente no que tange às respostas oferecidas pelo INCRA e pela Universidade. isonomia. Por que comentar sobre discurso. Trata-se de questão que ultrapassa os limites do debate sobre Cotas.. p. Sobre princípios. Ávila (2004. Esses conteúdos de sentido. elementos indispensáveis ao princípio do Estado Democrático de Direito. Caberia um estudo específico sobre cada um desses princípios. São princípios constitucionais como legalidade..80   Verifica-se que os princípios da isonomia e da legalidade marcam o relatório e a decisão do Juiz.. A transformação dos textos normativos em normas jurídicas depende da construção de conteúdos de sentido pelo próprio intérprete. contraditório. segurança jurídica. em razão de dever de fundamentação. razoabilidade entre outros. Um olhar atento aos documentos que integram as ações civis públicas contra tais cursos superiores. de modo que todos os interessados foram ouvidos. A matéria bruta utilizada pelo intérprete – o texto normativo ou dispositivo – constitui uma mera possibilidade de Direito. a decisão sobre a antecipação da tutela garantiu o princípio do contraditório. precisam ser compreendidos por aqueles que os manipulam. ampla defesa. pois tem como contexto os assentamentos de reforma agrária. até mesmo como condição para que possam ser compreendidos por seus destinatários. logo a viabilidade dos mesmos mediante uma das ações essenciais que é a formação escolar. 16-17) assim escreve: [. será revelador do conjunto de princípios envolvidos na proposição e na decisão de tais ações. argumentação e interpretação? Nota-se a sentença proferida em 1° Grau está fundamentada em princípios fundamentais como o da isonomia.

movida em face do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA e da Universidade Federal de Goiás – UFG. e afirmando que tal fato lesa o patrimônio social. determinou a extinção da Turma de Direito para Assentados da Reforma Agrária e Agricultores Familiares Tradicionais. Ocorrendo nesta solenidade de abertura. assim como a supressão da nossa turma. conquistou até hoje. a aludida decisão pondera de forma extremamente agressiva que. a efetivação dos direitos fundamentais da classe trabalhadora – do campo e da cidade – em todo o Brasil. somos alvo de ataques promovidos por sujeitos contrários à presença de trabalhadores e trabalhadoras rurais na universidade pública. o estabelecimento de um marco na história do ensino jurídico no Brasil. firmada oficialmente no ano de 2007. Sob a alegação de desvio de finalidade no emprego dos recursos do PRONERA. Devendo ser urgentemente observado com mais responsabilidade pelo poder público. historicamente. Baseados na necessidade. Fazendo tudo isso de forma não menos violenta do que a utilizada para defender a grilagem e a concentração da terra. fere ao mesmo tempo. Por motivo da preconceituosa e frustrante decisão da Justiça Federal de Goiás. mais que urgente. e forças ideológicas ficam expressas em cada uma dessas estações. absurdas reduções orçamentárias. originários de 19 estados da federação brasileira. encerramos o 4º semestre letivo do curso de direito na compreensão de que nada do que está sendo feito contra nossa turma terá sustentação duradoura. que vimos nos pronunciar. representa sério prejuízo a tudo o que a sociedade. em meio a Cidade de Goiás-GO. proferida no dia 15 de junho deste ano 14 . É com profundo sentimento de indignação e revolta. aos trabalhadores rurais. surgiu a partir da luta dos movimentos sociais e diversos parceiros que buscam. quanto a qualidade de ensino ao público da Reforma Agrária. Desde o momento em que iniciamos o curso. conforme segue. de se levar educação superior em diversas áreas do conhecimento. Atualmente. naquilo que deveria ser um meio de potencializar tanto o acesso. O acesso de                                                              14 Leia-se 2009. proferiu a aula inaugural do nosso curso. a razão de Estado Democrático Social de Direito.81   construídos ao longo de cada uma das “estações processuais”. e ainda que. não existe previsão legal de tratamento diferenciado aos beneficiários da Reforma Agrária. Passando a representar um grave retrocesso. a qual deu origem a nossa turma. composto por 60 alunos advindos do meio rural e. o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – PRONERA. Dr. O sucateamento do PRONERA. No dia 17 de agosto de 2007. A parceria entre UFG e INCRA. Os estudantes de Direito fizeram um Manifesto como contraponto à sentença proferida em 15 de junho de 2009. apesar de tantos resultados importantes desde sua criação. vez que. . isonomia e razoabilidade. que por meio de ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal de Goiás. desigualdades sociais de nosso país. Eros Roberto Grau. o Exmo. como o Ministério Público Federal e o próprio Judiciário. Mesmo na situação de política pública de educação. sobretudo a classe trabalhadora do campo. a existência de nossa turma desrespeita os princípios constitucionais da igualdade. apesar da sentença extintiva. por meio de políticas públicas que visam a superação das históricas e tão presentes. vem sofrendo desde 1998. Ministro do STF. Tais sujeitos externam sua reação agressiva sempre fazendo uso da grande mídia e de agentes de instituições estatais.

dentre outras coisas. já que se constata através daí. necessita de forma concreta do profissional da área jurídica. I da lei n. o pleno desenvolvimento do homem do campo. toda e qualquer atitude de reação que venha contra o direito de estudar direito dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. devemos tratar como medida de imposição e violência institucionalizada todos os atos que. em hipótese alguma. da Reforma Agrária que busca alcançar. como está sendo a sentença em debate. respectivamente. que as desigualdades existem. Seja na demanda fundiária. Não devendo. houve nada mais que um agravamento expressivo da situação. previdenciária. partindo da idéia de que a educação é direito de todos e dever do Estado. A igualdade de todos perante a lei. Convém citar o interessante questionamento do presidente do INCRA Rolf Hackbart: "A quem interessa inviabilizar o acesso à educação? A quem interessa fechar salas de aula? Por que em vez de decidir pela extinção desses cursos não se sugere resolver eventuais problemas legais que existam? Há um preconceito raivoso contra movimentos sociais e contra setores da sociedade.º 9. Seguramente representa um simbólico impulso rumo à universalização do acesso ao ensino público superior. o trabalhador e a trabalhadora rural. dessa maneira. Diante disso. Simplesmente por tudo que revela esse último ponto. menos ainda. A igualdade. Na presente perspectiva torna-se mais relevante. nós como membros da turma em questão. constitui incumbência moral do Estado reconhecer que as classes marginalizadas social e economicamente. observar com mais sensibilidade o quanto todo seguimento segregado pela estrutura social vigente. tanto moral quanto juridicamente. já mostra-se absurdamente insustentável. quando verificamos todos os anos. . no que diz respeito. e principais afetados por esse meio de violência – tal qual foi a decisão – nos sentimos com o total dever de repudiar não somente o ato jurisdicional. 206. do que discutir se o ofício de um bacharel em direito é ou não desenvolvido no campo. 3º. de sorte que. As oligarquias do País se perpetuam e uma das formas é não permitir o acesso à educação". atendendo diretamente ao que sugere o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Prova disso. a carência de maior atenção do Estado para com os trabalhadores e trabalhadoras rurais. nesse caso. técnico profissional de nível médio e curso superior em diversas áreas do conhecimento. Sendo mais verdadeira ainda tal afirmação. também. de forma jurídica. administrativa. Pois o assentado e a assentada não se fixam na terra por mera distribuição desta. haver razão para confundir a iniciativa da turma de direito como um privilégio ou meio de exclusão. reconhece. os índices gerais e regionais de escolaridade do povo brasileiro. este se propõe a garantir aos assentados (as) escolaridade/formação profissional. Nesse contexto a existência da turma não se desvincula da finalidade do PRONERA. ao acesso e permanência na escola (art. dentre inúmeras metas. como meio de superação dos desníveis sociais. CF e art.82   trabalhadoras e trabalhadores assentados à educação formal em cursos superiores de graduação em direito coaduna claramente com os objetivos gerais e específicos do PRONERA. cooperativista ou outras. visto que. significa uma igualdade moral. Ademais. mas basicamente o contrário. o fato de ter configurado-se há muito mais tempo do que se imagina. portadoras dos mesmos direitos que provêem do Poder Público e que definem sua dignidade como pessoa humana. que sem as políticas públicas de criação de oportunidades de acesso a educação em todos os níveis e áreas do conhecimento. mas no intuito de que seus direitos e interesses fundamentais sejam alcançados da mesma forma que qualquer outro cidadão objetiva. que deverão ser tratados de forma desigual aqueles que encontram-se em situação de desigualdade.394/96). nossa turma de direito se resume em muito mais que uma política de Ação Afirmativa de simples reserva de vagas na universidade. Pressupondo claramente. são. I. visam extinguir as poucas medidas existentes com o papel de realizar a inclusão e a abrangência cada vez maior de outros excluídos que se encontram em situação idêntica ou inferior. E que por isso.

incra. Suspenderia expectativas nutridas pelos alunos em relação à                                                              15 A notícia está disponível em Hhttp://www. A liminar foi concedida no dia 18 de dezembro de 2009.] tendo em vista que o recurso de apelação interposto em face da sentença impugnada foi recebido apenas no efeito devolutivo. o Desembargador menciona os fundamentos apresentados pelo Juiz Federal Carlos Augusto Pires Brandão. com segue: [. quando este decidiu sobre o Agravo de Instrumento interposto pelo MPF contra a decisão de não antecipar a tutela requerida na inicial.. p. O recurso interposto pelo Incra em conjunto com a UFG foi acompanhado do parecer do renomado jurista Fábio Konder Comparato. . 15 (Grifo nosso) O presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). deferiu o pedido do INCRA e da UFG. Ao tecer observações quanto à decisão que extinguia a turma especial. Comparato rechaçou a tese de desvio de finalidade por ser um curso de direito para filhos de agricultores: "Seria por acaso inútil saber quais os direitos e deveres fundamentais ligados à propriedade da terra e. os estabelecidos nos artigos 184 e seguintes da Constituição Federal a respeito da reforma agrária? É aceitável manter os agricultores sem terra na condição de pessoas necessariamente ignorantes de seus direitos e. perpetuamente tuteladas pelo Poder Público?". especificamente. possibilitando assim a continuidade da turma especial de Direito para assentados da reforma agrária e filhos de pequenos agricultores.013973-0/GO.83   como também o sucateamento do PRONERA e da própria universidade pública. (Grifo nosso) Diante dessa realidade e da decisão judicial em primeira instância. a UFG e o INCRA interpuseram apelação ao Tribunal Regional Federal (TRF).php/procuradoria/noticiasprocuradoria/916-pfe-recorre-e-justicamantem-curso-de-direito-para-assentados-em-goiasH. 8-9). 2009.br/index. desembargador Jirair Aram Meguerian.gov. DEFIRO o pedido e suspendo os efeitos da decisão proferida pelo Juízo Federal da 9ª Vara da Seção Judiciária do Estado de Goiás. na melhor das hipóteses. (BRASIL.35. Dentre tais fundamentos estão: 1) a suspensão imediata do curso acarretaria danos de difícil reparação aos discentes que estão em plena atividade acadêmica. nos autos da Ação Civil Pública 2008. 10h. Em sua decisão. Acesso em 20/2/2012. com pedido de liminar para a suspensão de execução da sentença de 1° Grau.00. na cidade de Goiás..

jus. Embargos de Declaração opostos pelo INCRA. Reitera-se o que foi escrito no capítulo anterior. petição de terceiro interessado. 3) Atingiria o erário público. ou seja. junto à 6ª Turma do TRF 1ª Região.84   graduação enquanto os tribunais discutiriam a legalidade e constitucionalidade da criação da turma especial de Direito. 8) De 18 de dezembro de 2009 até 13/10/2010 são registrados no extrato do Tribunal Regional da 1ª Região recurso e contrarrazões do INCRA. p. não podendo ser demitidos. Acesso em 20/4/2012. pois professores foram contratados em regime estatutário. 16 Em 11/11/2010 o processo foi distribuído para o Desembargador Federal Daniel Paes Ribeiro. Recurso e contrarrazões do MPF. 14h. nas instâncias superiores do Poder Judiciário. 2) A decisão de suspensão imediata do curso atingiria os terceiros de boa-fé. o processo encontra-se em fase de Apelação/ Reexame Necessário.br/consultaProcessual/processo.trf1.                                                              16 O extrato de movimentação da ACP encontra-se disponível na página: Hhttp://processual. 2009. . Recurso de Agravo de Instrumento pelo INCRA. de modo a fazer avançar os projetos de reforma agrária. pois eles vão propiciar a formação necessária e articulada à realidade e aos problemas locais. (BRASIL. Entretanto. Pelo extrato de movimento da ACP. as decisões têm sido pela efetivação dos cursos de educação superior. fato é que ainda não há decisão sobre o assunto no STF. é inegável que a existência de cursos específicos para os beneficiários da reforma agrária tem causado mal estar no plano jurídico.php?proc=200835000139730&secao=GO H. Em 13/10/2010 o processo original foi remetido ao TRF da 1ª Região.

para a proteção do patrimônio público e social. sem distinção de qualquer natureza. Inciso IV (promover o bem de todos. tendo como réus a Fundação Universidade de Pelotas.85   5 AÇÃO CIVIL PÚBLICA. aos Estados. Inciso III (função do MP – promover o inquérito civil e a ação civil pública. foram utilizados dois artigos produzidos. . 12h. artigo 5°. caput (Todos são iguais perante a lei.br/processos/acompanhamento/resultado_pesquisa. DECISÃO JUDICIAL E PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS: O CASO DO CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA Para caracterizar a origem do curso de Medicina Veterinária destinado aos beneficiários da reforma agrária.                                                              17 Ver informações em Hhttp://www.00. raça.jfrs. O MPF alegou que o referido curso feria os princípios da legalidade. 17 O valor atribuído à causa é de R$10. INCRA e Fundação Simon Bolívar. na Carta Magna. As autoras mostram que o curso teve início a partir de debates empreendidos em meados de 2004. Os fundamentos constitucionais para a propositura da ACP estão dispostos. somente em 2007. do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos).).. Inciso III (É vedado à União. Mas. sexo. O MPF do Estado do Rio Grande do Sul propôs ACP. por Scalabrin e Cover (2010). respectivamente. nos artigos 3°.php?txtValor=200771100050 358&selOrigem=RS&chkMostrarBaixados=&todaspartes=S&selForma=NU&todasfases=S&hdnRefId= &txtPalavraGeradaH= Acesso em 20/4/2012. Houve pedido liminar/ antecipação de tutela. isonomia e proporcionalidade. Machado e Paludo (2011). sem preconceitos de origem. tendo o curso sido interrompido por ordem judicial até o ano de 2010.000.jus. cor idade e quaisquer outras formas de discriminação). artigo 19.. O processo conta com 43 Assistentes. foi realizado o primeiro vestibular. Distrito Federal e Municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si) e artigo 129.

23). Não é necessário adentrar o mérito dos argumentos favoráveis e contrários aos sistemas atualmente implantados ou em vias de implantação nas universidades públicas.86   Um dos princípios que o MPF alega estar ferido é o da igualdade.. da CF/88. discutir a política de ações afirmativas in genere. MPF. mesmo se aceitando ou se advogando a adoção de políticas públicas constituídas por ações afirmativas. Há inadequação entre os meios e fins. O conteúdo da ACP traz reportagens publicadas em Jornais. há de ser obtido por outros meios. embora supostamente adequado aos preceitos da política pública adotada pelo INCRA.] não se pretende. é que. pelo Procurador da República Sérgio Arenhart. 2007. O que se argumenta. ao contrário. ferindo o princípio da razoabilidade. que determina como princípio da educação que “o acesso aos níveis mais elevados do ensino. como a entrevista concedida por um professor de Direito da UFPEL que afirma que o referido curso “fere de morte a autonomia da Universidade”. da pesquisa e da criação artística. Inciso V. através do PRONERA. . que não o de simplesmente colocá-los na situação especial e privilegiadíssima de disputar um processo seletivo exclusivo. (BRASIL. de qualificar e possibilitar o acesso ao ensino superior pelos assentados da reforma agrária. A polêmica ultrapassa os muros judiciais e atinge os canais jornalísticos. Como está exposto na ACP: [.. O fim. em vista de que as mesmas eram escolhidas em função da concordância das demais famílias. não se coaduna com o princípio da igualdade inscrito na Constituição Federal. o sistema adotado pela Universidade Federal de Pelotas. p. haja vista que a “supervisão pedagógica” de um curso de graduação seria entregue ao INCRA e a movimentos sociais. nem se pretende questionar a implantação de cotas sociais para egressos de escolas públicas. e dá destaque àquelas contrárias ao curso. com a presente ação. 17) Somando-se ao princípio da igualdade. segundo a capacidade de cada um”. (2007. questionando o critério da escolha das novas famílias a serem assentadas. p. O MPF questiona que ser integrante do MST não é critério definidor da capacidade de quem quer que seja. Faz menção a ACP proposta no estado do Paraná. o MPF menciona que o processo seletivo da turma especial afronta o princípio presente no artigo 208.

2007. Procuradoria Geral Federal junto à Fundação da UFPEL. para desempenharem a função de disseminadores de conhecimento.87   Em síntese. Mas vale trazer a menção feita na contestação: Faltam médicos veterinários para atender as necessidades dos assentados (incentivo à pesquisa. Conforme se pode observar no Projeto elaborado pela UFPEL. haja vista a existência de 140 cursos em todo o país. 5) a proibição de contratação de professores pela UFPEL para o presente curso. diga-se) nas pequenas cidades do interior do país. Por que somente assentados ou filhos de assentados? Pela vinculação dos alunos às suas famílias. à tecnologia e assistência técnica e extensão rural). todos os pontos da inicial são contestados. Chama a atenção o comentário feito à afirmação presente na ACP de que no Brasil não há falta de médicos veterinários. à produção. 4) a proibição de o INCRA e de qualquer movimento social de participar da supervisão pedagógica de qualquer curso no âmbito da UFPEL. presentes na ACP são: 1) proibir a UFPEL e ao INCRA a realização do processo seletivo de ingresso na Universidade com indicação de candidatos pelo INCRA. 2007. 3) a determinação de que a publicação dos editais do referido processo seletivo se realize nos mesmos moldes de todas as demais seleções para ingresso na UFPEL.. 2) determinar que o processo de seleção seja aberto a todos os cidadãos brasileiros interessados e que tenham concluído o ensino médio. A razão: a mesma pela qual faltam médicos (para humanos.( BRASIL/MPF. incluindo antecipação de tutela. p. . os pedidos. os alunos dividirão seus estudos em atividades na escola e na comunidade. a seriação do currículo será adaptada aos ciclos agrícola e de criação de animais próprios para atividade rural. nos mesmos moldes do processo seletivo regular realizado para todos os outros cursos da UFPEL.. 13-14)                                                              18 Consulta ao processo físico. 34-35) Na resposta elaborada pela Advocacia-Geral da União.] (AGU18 INCRA. O que não está incluso na ACP é que somente 42 desses cursos estão em instituições públicas gratuitas. Por que não os pequenos agricultores ou os verdadeiros sem-terra (não assentados)? Em razão da aludida vinculação dos alunos à viabilização do projeto de assentamento (distribuir terras é sabidamente insuficiente e procedimento fadado ao desperdício de dinheiro público se não houver qualificação da mão-de-obra [.

Na decisão sobre a antecipação de tutela há análise sobre se a execução do projeto ofende ou não à Constituição. a questão em apreço merece uma análise mais cautelosa. e não igualdade real. em homenagem aos formandos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco/SP. aquela destinada a suprir a situação de desvantagem imposta historicamente a indivíduos por causa de sua origem étnica. intitulado “Oração aos Moços”: [. Nesta desigualdade social. o que se passa a fazer: Hodiernamente. AGU-INCRA. seria desigualdade flagrante. proporcionada à desigualdade natural.. na medida de suas desigualdades’. na medida em que se desigualam.. em 1920. não há inconstitucionalidade na realização do curso em questão: Sobre a argüição de inconstitucionalidade da medida que as demandadas pretende levar a efeito: [. em consonância com os critérios albergados pelo ordenamento jurídico. (Negrito no original. houve julgamento do pedido de tutela antecipada. de observância cogente por toda sociedade. a AGU-Procuradoria Especializada INCRA assim se manifestou numa das passagens das quase 55 páginas de resposta à ACP: A Constituição Federal de 1988 adotou o princípio da igualdade de direitos e previu que todo cidadão tem direito a tratamento idêntico pela lei. (Negrito no 19 original.]                                                              19 Consulta ao processo físico.] a regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais. p.. nacionalidade ou gênero.. revela a proposta contida no princípio constitucional da igualdade. Para o referido Juiz da 1ª Vara Federal e Juizado Especial de Pelotas. [. compleição física. é que se acha a verdadeira lei da igualdade. 40) Ainda. Todavia. . Com efeito ‘tratar desigualmente aos desiguais. ou a desiguais com igualdade. pelo Juiz Everson Guimarães Silva..88   Seguindo o mesmo raciocínio e dando ênfase ao princípio da igualdade. tem ganhado força o conceito de discriminação positiva. de sua religião. 2007. 41) Após a manifestação dos réus do processo. p.] Tratar com desigualdade a iguais. isto é. 2007. expressão criada por Rui Barbosa. na defesa elaborada pela AGU-INCRA está disposta uma parte do discurso proferido por Rui Barbosa.. O pedido foi negado no Juízo da 1ª Vara Federal de Pelotas. AGU-INCRA. acurada.

] Com efeito. por si só. não constitui abuso ou ilegalidade. 72/96) está previsto. item III. para viabilização de programa de educação de famílias assentadas. e amparada pelo princípio da isonomia. não significa que a seleção seja atribuição daquela entidade. pressupõe. Saliento que não há qualquer base concreta para que se possa dizer que o programa se destina. 105/ 111) atribui à Ufpel a obrigação de "realizar seleção especial sob a égide de edital específico devendo seus detalhamentos constarem no plano de trabalho no caso de cursos técnicos profissionalizantes ou superior" cláusula segunda. Ademais. bem como que a reforma agrária não pode ficar limitada à estéril distribuição de terras. mas na criação de uma turma nova e especial. objetivamente considerado. em contrapartida. por parte da Universidade. na verdade. Cumpre observar que o convênio não implica no aproveitamento das vagas já existentes na Universidade. Primeiramente porque a UFPEL não está a criar turma especial ou introduzir um sistema de cotas para acesso aos seus cursos. fica evidente que não há. cumpre examinar o processo de seleção para acesso ao referido curso. confirmando a condição de assentado do candidato ao curso. em última análise. realizado em duas etapas e fundado em critérios objetivos .89   Após ponderar sobre os termos concretos do ajuste e as normas constitucionais incidentes na espécie não constatei inconstitucionalidade no ajuste. para sua efetivação. No entanto. sob pena de desvirtuamento do programa. visto que. por assim dizer. Em face de tais características do acordo ora examinado. inclusive. a . mas está. Por outro lado. Firmada a constitucionalidade da criação de curso destinado a estudantes oriundos de famílias de assentados. Constitui conhecimento basilar que o princípio da isonomia. em qualquer de suas manifestações na Constituição da República. é notória a situação de desamparo e de falta de condições materiais e culturais das famílias assentadas pelo programa de reforma agrária. a adoção de um sistema de cotas no âmbito da Universidade Federal de Pelotas. não é capaz de suscitar sequer possibilidade de violação à garantia de acesso igualitário e universal ao ensino público.. vinculação concreta e efetiva com o assentamento. na prática. ainda que se considere que a efetivação do convenio irá resultar na criação de uma turma permanente em benefício de famílias de assentados e que tal medida representa. para ingresso no curso. a adoção de critério diferenciado para acesso a seus cursos. portanto. o fato de o candidato dever ter indicação da comunidade assentada. afigura-se razoável que para o ingresso em curso destinado ao desenvolvimento das famílias assentadas tenha. que viabilizem o desenvolvimento dos assentados. para que fique viabilizada a condução de todos os cidadãos a uma condição de paridade. são idéias que permeiam o senso comum a necessidade de adoção de medida concretas. A minuta de convênio a ser firmado pela partes para implementação do curso de Medicina Veterinária em exame (fls. O convênio. como conveniente. Com isso. Novamente não compartilho do respeitável entendimento deduzido na inicial. prestando um serviço ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária. o tratamento igualitário aos que se encontram em situação de igualdade e o tratamento desigual daqueles que material ou juridicamente encontram-se em situação desfavorável. com a construção de infra-estrutura para o seu curso de Medicina Veterinária.item 2. significativo investimento material. o candidato. Com isso a UFPEL recebe. se beneficiará de recurso do programa de reforma agrária. com acima assinalado. alínea c. (Grifo nosso) [. a indispensabilidade de criação de oportunidades para aprimoramento e inserção social daquelas famílias. processo seletivo complexo. Ao contrário. Ademais. não haveria inconstitucionalidade a ser reparada. no projeto elaborado pela Universidade (fls. Ainda. mas tão-somente que o postulante a uma vaga deverá ter sua condição de assentado confirmada oficialmente. resta evidenciada. a participação do INCRA..

compete à executora. qual seja. Por todos os argumentos acima expendidos. sob pena de extinção do feito. Negrito 20 no original. Assim. Com efeito. Fica prejudicada. como litisconsorte passiva necessária. Sendo que. tendo em vista que a intimação das demandadas se deu para manifestação sobre o pedido de antecipação de tutela. não vislumbro plausibilidade do direito invocado na inicial. a executora procederá a uma seleção simplificada similar à de professor substituo em coordenação com a UFPEL. também é razoável a participação dos destinatários nas discussões sobre os rumos e objetivos do curo. na mesma disposição. Na verdade. a formação de um profissional preparado para o atendimento às necessidades das comunidades de assentados. p. o convênio ora examinado decorre de política oficial. Há casos em que a                                                              20 Consulta ao processo físico. visitantes e voluntários) e inativo da UFPEL" cláusula segunda. (Grifos da autora. na medida em que este Instituto já ofereceu sua contestação. 19/9/2007. item II. não existindo qualquer indício de favorecimento ou desvio de finalidade no programa. nos termos da minuta de convênio a ser subscrita pelas partes. à UFPEL. em especial ao princípio da legalidade.jus. que estão adstritas aos mandamentos legais e constitucionais. como dito acima. Também disponível em Hhttp://www. Destaca. Após as respostas da UFPEL e da Fundação Simon Bolívar.90   integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. prevista no projeto elaborado pela UFPEL (fl. III) Ante o exposto. envolvendo instituições da administração pública indireta. também encontra assento constitucional. no prazo de 10 (dez) dias. é observado que "quando não houver disponibilidade desses docentes. dê-se vista dos autos à parte autora para réplica. que o magistrado reconhece a igualdade formal e a igualdade fática.trf4. indefiro os pedidos de antecipação de tutela formulados na inicial. como de particular que se sinta lesado. Ademais. a justificar o deferimento da medida antecipatória postulada pelo autor. tanto por iniciativa do Ministério Público. 73). . Outrossim. fica aberto. Tal participação encontra assento constitucional. eventual desvio de rumo na execução do ajuste poderá ser retificado judicialmente. 6-11). a seleção de professores do curso obedece a critérios objetivos. alínea g. Por fim.php?local=jfrs&documento=2559 267&DocComposto=&Sequencia=&hash=5d6d27f81e2be721ef734d7f950c701aH Acesso em 22/4/2012. promova a citação da Fundação Simon Bolívar. porque a Carta Política tem como fundamentos o pluralismo de idéias e o princípio democrático . sem resolução do mérito. Outrossim. substitutos.que obviamente não se restringe à intervenção do cidadão no processo eleitoral. a participação do INCRA e dos movimentos sociais na supervisão pedagógica do programa. ainda. (Grifo nosso) Em relação aos princípios constitucionais. a abertura de tal prazo para o INCRA. bem como do ente responsável pelo programa de reforma agrária. contudo. trata-se de programa que difere dos cursos superiores tradicionais e que tem direcionamento específico. Intimem-se. Juiz Everson Guimarães Silva.br/trf4/processos/visualizar_documento_gedpro. "garantir corpo docente com professores pertencentes ao quadro de pessoal ativo (efetivos. verifica-se que o Juiz afirmou não haver inconstitucionalidade no que tange à isonomia. sendo o Ministério Púbico par ciência da presente decisão e para que. Fundação Simon Bolívar. 15h. o prazo para oferecimento da resposta. visto que.

A UFPEL e o INCRA recorreram dizendo não haver fatos novos. O relator no TRF da 4ª Região foi o desembargador Valdemar Capeletti. O recurso foi recebido no efeito devolutivo pelo Desembargador Capeletti. Processo n° 2007. atendendo ao pleito de dar eficácia suspensiva ativa ao recurso.037679-1. o Juiz Federal João Batista Lazzari.04. Pelo envolvimento do MST na orientação pedagógica do curso e (d) por fim. Depois da manifestação da UFPEL. O Desembargador Capeletti faz uso de diversos argumentos a exemplo da inexistência de um sistema de cotas. (c) o malferimento aos princípios constitucionais e legais pertinentes à matéria i. que atuou durante as férias de Capeletti. da afirmação de que o vestibular para os beneficiários da reforma agrária é uma criação em apartado de outras questões sociais e o que segue: A tudo isso somam-se as demais questões apontadas pelo MPF às razões de agravo. considerando que o projeto de curso de Medicina Veterinária para assentados foi rejeitado pela comunidade acadêmica da Faculdade de Veterinária. .91   igualdade estará manifesta no tratamento desigual aos que se encontram em situação desfavorável na sociedade. quais sejam: (a) a violação do princípio democrático na gestão de ensino. por considerar que até aquele momento os fundamentos do recurso estavam relacionados a matérias jornalísticas.04.037679-1.00. pela necessidade de aprovação do nome do candidato pelo INCRA e ii. O MPF interpôs Agravo de Instrumento em 17/10/2007. incluída a quase totalidade dos professores (fls. 19-22). porquanto percebe-se que os autores do projeto sequer escondem a intenção de selecionar a dedo quem poderá 21 lecionar no curso. contra a decisão que indeferiu o pedido de antecipação de tutela. a discrepância no processo de seleção do quadro docente. sob n° 2007. do que com as disciplinas componentes do curso.00. proferiu nova decisão. (Grifo nosso)                                                              21 Relato do Desembargador Valdemar Capeletti. A 4ª Turma do TRF da 4ª Região deu parcial provimento ao agravo de instrumento.

impondo-se ditas restrições. tendo o Juiz Federal Everson Guimarães Silva julgado improcedentes os pedidos do MPF. em ambos os casos. 4ª Região. Acaso assim tenha ocorrido. a tutela concedida restringir-se-á a impedir a concretização do certame. tendo sido vencido o voto da Relatora Desembargadora Marga Inge Barth Tessler. agora.92   O desembargador relator votou pelo parcial provimento do Agravo. restrito aos assentados do INCRA. pois o convênio não é capaz de suscitar sequer possibilidade de violação à garantia de acesso igualitário e universal ao ensino público. tomo em consideração. ficam suspensos todos os efeitos produzidos pela realização do aludido concurso. Firma não haver inconstitucionalidade. Ante o exposto. Caso contrário. o exame vestibular em discussão. Em 30/8/2010. 23 Em 17/4/2009 o MPF interpõe recurso de apelação ao TRF.php?local=jfrs&documento=4498 818&DocComposto=&Sequencia=&hash=9122c5cb18d4c78038dedb30012a028fH Acesso em 21/4/2012. poderá já ter sido realizado. Disponível em Hhttp://www. o curso de Medicina Veterinária da UFPEL foi interrompido. O referido Juiz reitera os argumentos que apresentou no julgamento do pedido de tutela antecipada. como segue: Por fim.trf4. A sentença em 1° Grau foi proferida em 23/3/2009. 22 Com essa decisão proferida em 26/2/2008.                                                              22 Idem. 23 . o Juiz destaca que “subsiste na íntegra a medida antecipatória deferida pela 4ª Turma do TRF da 4ª Região. Salienta que não há ilegalidade no procedimento interno da universidade para a deliberação e convalidação do convênio em questão. que.br/trf4/processos/visualizar_documento_gedpro. Embora tenha havido improcedência dos pedidos propostos na ACP. a 4ª Turma nega provimento à apelação do MPF.jus. por ocasião do exame do mérito do presente recurso. até o trânsito em julgado da ação de origem. voto por dar parcial ao presente agravo de instrumento. visto que deferida até o trânsito em julgado da decisão final do presente feito”.

o INCRA recorreu ao STF para fins de suspensão da tutela cautelar conseguida pelo MPF no TRF/RS. . 30 de agosto de 2010. em decorrência do programa de reforma agrária federal. A medida impugnada. Porto Alegre. nos termos do relatório. (BRASIL. cuja argumentação é articulação em torno dos princípios da isonomia. em sede cognição sumária. ACÓRDÃO. Os argumentos apresentados pelo MPF foram acatados pelo Ministro do STF. . decide a Egrégia 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. PÚBLICA. A decisão que antecipa a tutela. mereceriam um tratamento favorecido em relação aos demais cidadãos brasileiros. parte do pressuposto de que os assentados pelo programa nacional de reforma agrária. Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas. Des. Prequestionamento quanto à legislação invocada estabelecido pelas razões de decidir. CONVÊNIO RS/4330/2006/2006. Federal Silvia Goraieb Relatora. Em 27/4/2009. O convênio firmado entre a UFPEL e o INCRA não está violando a garantia do acesso igualitário e universal ao ensino público. Segundo a autarquia fundiária. negar provimento à apelação do Ministério Público Federal e dar provimento às apelações da Universidade Federal de Pelotas/RS e do INCRA. AÇÃO CIVIL. votos e notas taquigráficas que ficam fazendo parte integrante do presente julgado. o escopo do convênio celebrado com a Universidade . da proporcionalidade e da autonomia universitária: O princípio da isonomia Questão essencial refere-se à observância do princípio da isonomia. Apelações da Universidade Federal de Pelotas e do INCRA providas. pois dele resultará a criação de uma turma do curso de Medicina Veterinária destinada às famílias de assentados. Situação que se revela mais latente diante do provimento do recurso especial interposto contra decisão da Turma que havia concedido o provimento precário. o Ministro Gilmar Mendes apresentou a sua decisão. da qual não se verifica qualquer indício de favorecimento ou desvio de finalidade no ajuste. no final de 2009. por certo. TRF 4ª Região) Antes do julgamento em primeira instância da ACP. CELEBRADO ENTRE A SUPERINTENDÊNCIA REGIONAL DO INCRA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E A FUNDAÇÃO DE APOIO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS SIMON BOLÍVAR. envolvendo instituições da Administração pública indireta. Apelação do Ministério Público Federal improvida. Política oficial. o recurso do INCRA não foi acolhido pelo Ministro do STF. . Entretanto. deixa de produzir efeitos com o julgamento da demanda em cognição plena. Gilmar Mendes. por maioria. no tocante às condições de acesso ao ensino superior em instituições públicas. CURSO DE GRADUAÇÃO EM MEDICINA VETERINÁRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS.93   ADMINISTRATIVO.

408). na expressão de Alexy. constitui uma exigência positiva e material relacionada ao conteúdo de atos restritivos de direitos fundamentais. p. A máxima da proporcionalidade.94   Federal de Pelotas seria a superação de quadro de desigualdade fática preexistente. então está ordenado um tratamento desigual" (norma de tratamento desigual) (ALEXY. É cediço que nem todo quadro de desigualdade fática revela-se apto a autorizar um tratamento juridicamente desigual. Nesse sentido. a igualação fática. no sentido de se investigar se houve ou não um excesso do Poder Público. evidentemente. a possibilidade de avaliar. a existência ou não de razões suficientes para a criação de turma especial no âmbito de uma universidade pública para o atendimento exclusivo de assentados pelo programa nacional de reforma agrária. mas apenas aqueles considerados relevantes à luz das finalidades constitucionais. o princípio da proporcionalidade alcança as denominadas colisões de bens. Centro de Estudios Constitucionales. Robert. portanto. Madrid. A par dessa vinculação aos direitos fundamentais. a máxima segundo a qual se deve "tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais" daria origem a duas normas: "Se não há nenhuma razão suficiente para a permissão de um tratamento desigual. a observância do princípio da isonomia estaria vinculada ao oferecimento de razões suficientes. Esse é um típico caso em que se faz necessária uma avaliação de proporcionalidade. Nesse contexto. que o princípio da isonomia não impede que uma diferença de tratamento seja estabelecida entre certas categorias de pessoas. em juízo de delibação. de modo a estabelecer um "limite do limite" ou uma "proibição de excesso" na restrição de tais direitos. Teoría de los Derechos Fundamentales. o princípio ou máxima da proporcionalidade determina o limite último da possibilidade de restrição legítima de determinado direito fundamental. recordo a síntese oferecida por Robert Alexy. isto é. O princípio da igualdade é violado quando se conclui que não há relação razoável de proporcionalidade entre os meios empregados e os objetivos visados. A medida. também denominado princípio do devido processo legal em sentido substantivo. constituiria exemplo das chamadas “ações afirmativas”. 1993. é resolvido não pela revogação ou redução teleológica de uma das normas conflitantes nem pela explicitação de distinto campo de aplicação entre as normas. desde que o critério de distinção seja suscetível de justificação objetiva e razoável. aptas a autorizar um tratamento desigual ou mesmo exigi-lo. em sua célebre teoria dos direitos fundamentais. valores ou princípios constitucionais. A existência de tal justificação deve ser apreciada tendo em conta o objetivo e os efeitos da medida examinada. Percebe-se. Na perspectiva de Alexy. nas quais se busca. A identificação de uma não identidade permitiria apenas a avaliação da medida em que as razões potencialmente justificadoras do tratamento diferenciado poderiam vir a ser consideradas suficientes ou normativamente relevantes para sustentar a compatibilidade de determinada não-identidade com o princípio da isonomia. princípio da proibição do excesso. O princípio da proporcionalidade. portanto. com a promoção de grupos ou setores ‘historicamente desfavorecidos. por meio de um tratamento juridicamente desigual. as exigências do princípio da proporcionalidade representam um método geral para a solução de conflitos entre princípios. então está ordenado um tratamento igual" (norma de tratamento igual) e "Se há uma razão suficiente para ordenar um tratamento desigual. um conflito entre normas que. mas antes e tão-somente pela ponderação do peso relativo de cada uma das normas em tese aplicáveis e aptas a . ou ainda. Ainda na perspectiva de Alexy. No que toca ao tema da isonomia. bem como a natureza dos princípios em causa. coincide igualmente com o chamado núcleo essencial dos direitos fundamentais concebido de modo relativo – tal como o defende o próprio Alexy. interesses e direitos constitucionais que potencialmente estão contrapostos a esse direito que se quer conferir aos beneficiados pelo convênio impugnado no processo de origem. Há. ao contrário do conflito entre regras. pois. Vejo aqui.

temos como potencialmente afetado o interesse de todos os demais cidadãos não beneficiados pela medida impugnada. expressamente. Nesse ponto. ademais. no referido Projeto. a existência de outros produtores rurais que. 206. Tal como já sustentei em estudo sobre a proporcionalidade na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ("A Proporcionalidade na Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal". são relativamente claros. o próprio texto constitucional determina. in Direitos Fundamentais e Controle de Constitucionalidade: Estudos de Direito Constitucional. há de perquirir-se. perplexidade a participação do INCRA e de “movimentos sociais” na supervisão pedagógica (item 1. há. São três as máximas parciais do princípio da proporcionalidade: a adequação. Ou seja. Nessa última hipótese. o ato impugnado afigura-se adequado (isto é.7. Outro princípio constitucional envolvido é o da autonomia universitária. Mais especificamente. 206. que pleiteiam vagas nas instituições públicas de ensino superior. essa garantia constitucional pode ser desmembrada em: a) didático-científica. uma vez que se encontram em situação em muito similar à dos assentados. 72).107). penso que é necessário desenvolver algumas considerações sob a perspectiva das normas constitucionais relativas à educação e ao ensino universitário. O primeiro deles está baseado no próprio princípio da isonomia.95   fundamentar decisões em sentidos opostos. dando conta de que a inscrição no procedimento seletivo estaria condicionada à indicação do candidato pelo assentamento onde reside e à obtenção de carta de anuência junto ao Superintendente Regional do INCRA. 213-237). a aplicação do princípio da proporcionalidade se dá quando verificada restrição a determinado direito fundamental ou um conflito entre distintos princípios constitucionais de modo a exigir que se estabeleça o peso relativo de cada um dos direitos por meio da aplicação das máximas que integram o mencionado princípio da proporcionalidade. São Paulo. I. Celso Bastos Editor: IBDC. VII) e do pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas no âmbito das instituições de ensino (art. ricos ou pobres. 1999. nos autos. 2ª ed. a observância ao parâmetro da qualidade de ensino (art. Em acréscimo.2007(fl. insubstituível por outro meio menos gravoso e igualmente eficaz) e proporcional em sentido estrito (ou seja. p. em primeiro lugar. Os interesses contrapostos. tais dispositivos violam o estatuído no art. está consignado (item 1. apto para produzir o resultado desejado). e c) financeira e patrimonial. Em síntese. que .. se em face do conflito entre dois bens constitucionais contrapostos. III). O princípio da autonomia universitária. submeter-se a fatigante e complexo processo seletivo. b) administrativa. transcrição de notícia veiculada no sítio do Ministério do Desenvolvimento Agrário em 29. devendo. De fato. conquanto não beneficiados pelo programa nacional de reforma agrária. portanto.5) que a turma especial destina-se exclusivamente a “assentados e filhos de assentados que possuam ensino médio completo e que tenham perspectiva de contribuir com os assentamentos de reforma agrária” (fl.2 do Projeto – fls. aplicase o princípio da proporcionalidade para estabelecer ponderações entre distintos bens constitucionais. também carecem de uma maior atenção do Estado.3. da Constituição. no caso em exame. E aqui estamos diante de instituições que se inserem em uma moldura constitucional específica. temos os demais cidadãos brasileiros. a necessidade e a proporcionalidade em sentido estrito. De certo. 215). 206. Outro interesse potencialmente violado refere-se às próprias universidades. na aplicação do princípio da proporcionalidade. se estabelece uma relação ponderada entre o grau de restrição de um princípio e o grau de realização do princípio contraposto). para tanto. Causa. indivíduos não pertencentes aos quadros da universidade (docentes e discentes) poderão influir de forma decisiva no programa do curso a ser ministrado. Conforme elucida Anita Lapa Borges de Sampaio em dissertação de mestrado por mim orientada e intitulada “Autonomia Universitária: um modelo de interpretação do artigo 207 da Constituição Federal”. Relativamente à autonomia didático-científica. Ademais. Não se pode olvidar. necessário (isto é.

cuja constitucionalidade é objeto de impugnação perante esta Corte -. de turma especial para o atendimento exclusivo de determinado grupo é medida de tal forma gravosa aos referidos princípios constitucionais que não seria despropositado cogitar a existência de outros meios. ao impedir a pronta execução do convênio celebrado entre o requerente. entendo que a decisão impugnada revela-se. restando claramente evidenciada a legitimidade da providência cautelar adotada pelo juízo de origem. também restariam frustradas as expectativas dos eventuais participantes do curso. também. Diversamente de outras “ações afirmativas”. V). até que sobrevenha pronunciamento definitivo do Poder Judiciário sobre a controvérsia constitucional. segurança ou economia públicas. cumpre assinalar que esse fato. em detrimento de seus beneficiários. O convênio impugnado no processo de origem descura a necessidade de atendimento aos diversos interesses e direitos conflitantes sem o sacrifício absoluto de quaisquer deles. imprescindível para a definição dos rumos do ensino público em nosso país. caso. o que poderia gerar um sem-número de contestações judiciais. tendo em vista as considerações acima desenvolvidas. não lograriam obter diploma válido ou exercer licitamente a profissão escolhida. no tocante à alegação acerca da probabilidade de configuração do chamado “efeito multiplicador”.96   preconiza a igualdade de condições para o acesso e a permanência nas instituições de ensino. necessária e adequada ao resguardo de princípios constitucionais de indubitável relevância axiológica (atinentes à disciplina do ensino superior). o fato de a escolha dos participantes contar com a ingerência das lideranças dos assentamentos revela-se em descompasso com a norma constitucional que determina o acesso aos níveis mais elevados do ensino segundo a capacidade individual (art. tão ou mais eficazes. Abre-se. de fato. não ser possível sustentar a legitimidade da medida adotada pelo INCRA e pela Universidade Federal de Pelotas. Isso porque. além da violação aos referidos princípios constitucionais atinentes à educação pública. no âmbito de universidade pública. Dos requisitos específicos dos incidentes de contra cautela Assim. Desse modo. O órgão judicante apenas garantiu a utilidade do provimento final da ação civil pública. tendo em vista carecer de plausibilidade a tese sustentada pela autarquia fundiária e não ter sido comprovada lesão à ordem. nada mais fez do que acautelar a ordem jurídico-constitucional. ao fim. que. a possibilidade de ingerência política e de arbitrariedade na escolha dos graduandos. . O programa de capacitação dos assentados revelar-se-ia inócuo. Por fim. as providências adotadas para o atendimento dessa finalidade não podem ocorrer de maneira a comprometer o delineamento constitucional do ensino superior em nosso país. a Universidade Federal de Pelotas e a Fundação Simon Bolívar. para a consecução da mesma finalidade. Apesar de se reconhecer a validade e a necessidade de se oferecer aos assentamentos condições favoráveis ao seu desenvolvimento sustentável. Creio. saúde. por conseguinte. apenas reforça a necessidade de maior aprofundamento do debate sobre o tema. Publique-se. tendo em vida a existência de cursos similares em outras unidades da Federação. a criação. indefiro o pedido de suspensão de tutela antecipada. o convênio celebrado pela autarquia fundiária com a Universidade Federal de Pelotas interdita o acesso de outras pessoas ou grupos ao curso de graduação. Nesse sentido. Conclusão: Ante o exposto. ao invés de confirmar a alegada lesão à ordem pública. 208. haja vista que o ato judicial impugnado. não restou caracterizada a alegada violação à ordem pública. Além disso. nas quais apenas é destacado um percentual das vagas existentes – caso das “cotas”. a despeito dos esforços envidados. o Ministério Público lograsse êxito em sua postulação. tendo em vista que o imediato funcionamento da turma especial destinada a beneficiários do programa de reforma agrária poderia gerar incontáveis prejuízos ao Poder Público e à coletividade.

Entretanto. A tutela antecipada pelo Tribunal a quo. caso a decisão do juízo monocrático seja de improcedência. .97   Brasília. Para a solução do Recurso Especial in casu. 4. A não ser que se pretenda conferir caráter apenas retórico ao princípio de igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. Precedentes do STJ. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. ainda separam e contrapõem brasileiros. 6. 53 da Lei 9. tema que. em 11/5/2010. REFORMA AGRÁRIA. da Lei 9. Da universidade se espera não só que ofereça a educação escolar convencional.394/98) é uma das conquistas científico-jurídico-políticas da sociedade contemporânea e. não obstante o acórdão e as partes tenham alinhavado argumentos de ordem substantiva. inclusive por meio da celebração de convênios. A autonomia universitária (art. 2. IMPOSSIBILIDADE. desde que preenchidos os requisitos legais. 7. não tem efeitos prolongados até o trânsito em julgado da demanda. das desigualdades que. POLÍTICAS AFIRMATIVAS.394/98). como tudo no Estado de Direito. descabe ao Judiciário imiscuir-se na formulação ou execução de programas sociais ou econômicos. 3. infelizmente.394/96 (LEI DAS DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL). Como regra geral. CONTROLE JUDICIAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS. A eficácia das medidas liminares – as quais são fruto de juízo de mera verossimilhança e dotadas de natureza temporária – esgota-se com a superveniência de sentença cuja cognição exauriente venha a dar tratamento definitivo à controvérsia. No seu âmbito. AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA. Precedentes do STJ. cujo relator foi o Ministro Herman Benjamin. 27 de abril de 2009. por ocioso.                                                              24 Consulta ao processo físico citado nas referências. deve-se a esta assegurar a possibilidade de buscar formas criativas de propiciar a natureza igualitária do ensino. EXTENSÃO DOS EFEITOS ATÉ TRÂNSITO EM JULGADO. LEI 9. até por políticas afirmativas. PREJUDICIALIDADE DO JUÍZO SUMÁRIO DE VEROSSIMILHANÇA. tornando-se prejudicada. por isso. as políticas públicas se submetem a controle de constitucionalidade e legalidade. garante-se às universidades públicas a mais ampla liberdade para a criação de cursos. A efetividade das Políticas Públicas não pode ser frustrada mediante decisões pautadas em mera cognição sumária quando há sentença que exaure o meritum causae por completo. sobretudo quanto à pertinência de sindicabilidade judicial de Políticas Públicas. Ministro GILMAR MENDES. Os argumentos apresentados pelo Ministro estão transcritos a seguir: EMENTA PROCESSUAL CIVIL. bastam os fundamentos de natureza processual. deve ser prestigiada pelo Judiciário. 1. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. 5. I. Presidente. (Grifo nosso) 24 Ao STJ foi interposto recurso especial pela UFPEL e INCRA. mas também que contribua para o avanço científicotecnológico do País e seja partícipe do esforço nacional de eliminação ou mitigação. CONSTITUCIONAL. somente é enfrentado em obiter dictum. ao julgar Agravo de Instrumento contra decisão interlocutória que indefere a medida. Entre os princípios que vinculam a educação escolar básica e superior no Brasil está a "igualdade de condições para o acesso e permanência na escola" (art. 3°. 8.

Ministros Mauro Campbell Marques (voto-vista). Os mesmos princípios são convocados para formar argumentos prós e contra a existência de cursos para beneficiários da reforma                                                              25 Consulta ao processo físico citado nas referências. sob o argumento de autoridade do estrito respeito ao princípio da igualdade. Freqüentemente. sobretudo daqueles aos quais se negam os benefícios mais elementares do patrimônio material e intelectual da Nação. estampam nos seus objetivos e métodos a marca da valorização da inclusão. os princípios constitucionais são analisados sob prismas diferentes. Castro Meira e Humberto Martins votaram com o Sr. ministros. Relator. hereditários ou de casta. deu provimento ao recurso. o que leva a questionar qual é a concepção predominante de princípio. MINISTRO HERMAN BENJAMIN. acompanhando o Sr. O processo foi distribuído à Ministra Rosa Weber do STF. Ministro Relator. raça. Sob o nome e invocação do mencionado princípio. quando endereçadas a combater genuínas situações fáticas incompatíveis com os fundamentos e princípios do Estado Social. ou a estes dar consistência e eficácia. mas uma certa contra-igualdade." Os Srs. admitido em 21/11/2011 pela desembargadora Marga Inge Barth Tessler. Ministro Herman Benjamin. Brasília. desembargadores. que nada tem de nobre. Recurso Especial provido para determinar a limitação dos efeitos da tutela. 10. Ministro(a)-Relator(a). ACÓRDÃO Vistos. por unanimidade. 11. estado. do TRF da 4ª Região. a perpetuação de vantagens pessoais. Eliana Calmon. antecipada pela Corte de origem. praticam-se ou justificam-se algumas das piores discriminações. para privilegiar basta a manutenção do status quo. procuradores federais e Advocacia Geral da União. relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas.98   9. conhecimento. profissão ou filiação partidária. dessa fonte não jorra o princípio da igualdade. origem. Em verdade. pois referenda. Políticas afirmativas. após o voto-vista do Sr. religião. 11 de maio de 2010(data do julgamento). até a sentença de improcedência. acordam os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça: "Prosseguindo-se no julgamento. Como se verifica nos argumentos dos juízes. encontrando-se em fase de aguardo da decisão de Recurso Extraordinário interposto pelo MPF. Em vez de funcionarem por exclusão de sujeitos de direitos. em nada lembram privilégios. nem com eles se confundem. ao transformá-lo em biombo retórico e elegante para enevoar ou disfarçar comportamentos e práticas que negam aos sujeitos vulneráveis direitos básicos outorgados a todos pela Constituição e pelas leis. originadas de atributos individuais. . a Turma. pela omissão que prega e espera de administradores e juízes. nos termos do voto do(a) Sr(a). 25 O curso retomou o rumo em março de 2011. Ministro Mauro Campbell Marques. associados à riqueza.

p. (BONAVIDES. 2008. assentada sobre a tênue linha da cômoda tentação de se adotar um subjetivismo desmesurado ou de partir para pautas alternativas de aplicação do Direito fora dos contornos jurídicos institucionalizados..] constata-se a assunção dos princípios à categoria de normas jurídicas dotadas de coercitividade e executoriedade plenas. 397-398) . necessidade (a medida não há de exceder os limites indispensáveis à conservação do fim legítimo que se almeja) e proporcionalidade stricto sensu (a escolha recai sobre os meios que. levarem mais em conta o conjunto de interesses em jogo). a saber: a pertinência ou aptidão (meio certo para levar a cabo um fim baseado no interesse público). Ferraz (2007) em sua dissertação de mestrado em Direito destaca que no cenário denominado pós-positivista: [.] a relação entre fim e meio. de sorte que a aplicação do Direito passa a ganhar novos contornos.. no caso específico. exigindo do intérprete não mais uma aplicação silogística de regras.. donde é possível concluir que há um peso ideológico na formulação do feito judicial.. confrontando o fim e o fundamento de uma intervenção com os efeitos desta para que se torne possível um controle do excesso”. p. 393) salienta que esse princípio pretende instituir “[.99   agrária. Três elementos ou subprincípios dão conformidade à proporcionalidade. Bonavides (2008. No que se refere ao princípio da proporcionalidade. mas uma atuação comprometida com o binômio segurança jurídica/justiça.

] A ordem é ninguém passar fome.] (Música Ordem e Progresso. nas decisões nos tribunais.. Letra de Zé Pinto) Tomando como referência a questão central desta pesquisa... como foi indicação do professor orientador logo no início da pesquisa. Palavras dele: “você precisará desenvolver muitas leituras sobre teoria geral dos princípios para que possa trabalhar com princípios constitucionais” (RABELLO FILHO. a saber: legalidade. com o intuito de . Ao invés de aprofundar teoricamente a questão. em todas as ações. nas sentenças em 1° grau e nas decisões junto ao STF e STJ. “Quais são as decisões do Judiciário sobre as ações civis públicas?”. Dentre os princípios específicos. isonomia e proporcionalidade. o caminho adotado no estudo foi o de “vasculhar” as fontes primárias. é possível afirmar que há um conjunto de princípios gerais presentes nos três casos investigados. 6/7/2011). São três os princípios gerais convocados nas ações civis públicas. vem a pergunta: Como os princípios podem servir à argumentação para extinção de um curso superior e ao mesmo tempo como fundamentação das decisões judiciais que promovem a continuidade do curso? Talvez o estudo sobre a teoria geral dos princípios possa auxiliar nessa resposta.100   6 CONSIDERAÇÕES FINAIS [. a reforma agrária é a volta do agricultor a raiz [. Aliada à questão dos princípios constitucionais. progresso é o povo feliz.. a autonomia didático-científica da universidade foi destacada.

carecendo de maior análise. construir uma organização diferenciada do trabalho pedagógico e ampliar o acesso à universidade. A primeira matriz é idealista e positivista.101   compreender o trâmite judicial que os cursos superiores para os beneficiários da reforma agrária têm enfrentado na sociedade brasileira. Além das fontes primárias. O fato é que para os idealistas a lei funciona como “camisa de força”. entretanto. ainda que sob o manto do denominado pós-positivismo. o que demandaria uma pesquisa de natureza bibliográfica em profundidade sobre o assunto. Como aplicar a máxima “Todos são iguais perante a lei”? O Ministro Herman foi feliz ao afirmar que “A não ser que se pretenda conferir caráter apenas retórico ao princípio da igualdade de condições para acesso e permanência na escola. bastante elitizada. o Ministro Herman Benjamin do STJ determinou a limitação dos efeitos da tutela antecipada pela Corte de origem. Portanto. A produção de conhecimento nessa área se faz necessária. Por isso. haja vista que se trabalha com o plano “ideal” da sociedade. É possível perceber duas matrizes de pensamento numa primeira análise do conteúdo das ações civis públicas e nas decisões nos tribunais. O Ministro Gilmar Mendes manifestou-se contrário aos mesmos. da “ordem e do progresso”. Eles também são descritivos. o ponto de chegada deste trabalho é a descrição breve do que se passa no plano do Judiciário. O princípio constitucional da igualdade constituiu o foco do relato do referido Ministro. . abrindo outras portas dessa instituição. haja vista que o próximo passo no Poder Judiciário será a decisão do STF sobre a legalidade desses cursos. deve-se a esta assegurar a possibilidade de buscar formas criativas de propiciar a natureza igualitária do ensino”. é tido como ofensa ao princípio da igualdade. artigos recentes versando sobre os três cursos superiores foram estudados. com muitas lacunas teóricas as serem preenchidas. Já. quando julgou um pedido de antecipação de tutela.

nos dois casos em que é autor. bem como da decisão de uma Juíza de 1° grau do estado de Goiás. Como falar dos assentamentos . inúmeras são as discussões sobre a construção de instituições escolares. (2009.. E. democráticas..sugerir que ao invés de um diploma de Engenharia Agronômica. Todos eles analisaram a questão da educação superior pelo plano dedutivo. antes de ir contra a efetividade dos direitos e princípios constitucionais. ideal. questionando ações das instituições que visam à efetividade de um dos direitos fundamentais básicos. “nada guardião” dos direitos fundamentais. al. desde meados do século XX. Em síntese. abra os olhos para o que se passa na sociedade brasileira. Não se trata do públicoestatal. Essas experiências acadêmico-pedagógicas. mas do público-participação efetiva da sociedade. p. defrontei-me com a frase de Santos et. Mas.102   Na sociedade brasileira. por exemplo. da nossa carta constitucional. vem se mostrando. Ao invés de ser o guardião da efetividade dos direitos fundamentais. O MPF.] pode-se afirmar que a posição do Ministério Público Federal é contraditória no que tange aos preceitos constitucionais que delimitam sua função. age na sua maioria. a primeira matriz está bem explícita no conteúdo das ACPs e do Tribunal Federal de Justiça do Rio Grande do Sul. e com vieses positivistas. revelam que a universidade pode ter caráter público ampliado. de fato. Quando eu pensava em escrever sobre a face conservadora das ações do MPF. para superar o discurso do “meramente ideológico” é fundamental que o profissional do Direito. construídas coletivamente. que é o direito a educação – que todos os cidadãos possuem. eu tenho que responder: “qual trabalho não é ideológico?”. 8): [. conforme previsto nos artigos 127 a 130-A. o estudante tenha um certificado de realização de um curso técnico-profissional? Os trabalhadores dos assentamentos têm que ficar reduzidos ao estudo das primeiras letras? Alguns professores do curso de Direito diriam: “O seu trabalho é ideológico”. Como pode uma Associação de profissionais – no caso engenheiros agrônomos .

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sem nunca ter visto um assentamento, sem nunca ter sentido um pouco do que é o
modo de vida e de trabalho na terra? Como criticar o acesso aos cursos superiores
em turmas especiais quando não se tem conhecimento do como é o acesso à escola
por parte da maior parte dos moradores do campo? Quantas horas no transporte
escolar? Quantos dias sem ir às aulas devido as condições intransitáveis das
estradas? Quantas pessoas “fadadas ao fracasso escolar” e, a autora deste trabalho
seria mais uma a compor a lista dos desistentes escolares em função da “ausência
do Poder Público local” na efetivação do direito à educação – condições para acesso
e permanência.
Como dizem os profissionais críticos do Direito, os profissionais dessa área
têm que ser intérpretes do direito, da lei, dos princípios constitucionais. Para ser um
“aplicador” da lei basta um curso técnico. Por que o MPF não aventa essa
possibilidade de criação de cursos técnicos para os profissionais do direito que
desejam aplicar a lei sem analisar as contradições sociais?
O ensinamento de Leandro Konder (2002, p. 259), é pertinente,
especialmente quando afirma que “Onde há conhecimento há ideologia. Mas, onde
há ideologia há algum conhecimento, alguma coisa a ser aproveitada”. Konder relata
que Karl Marx passou anos na biblioteca do Museu Britânico. Ele questionava a
cientificidade dos economistas ingleses e denunciava o caráter ideológico das obras.
Entretanto, o próprio Konder destaca que:

Reencontramos, então, a reflexão do velho Marx. A questão da ideologia é
uma questão teórica crucial mas não tem solução no plano da teoria: é
aquela questão a que se refere uma das ‘Teses sobre Feuerbach’, quando
Marx nos diz que se trata, efetivamente, de uma questão teórica que é
prática, que deverá ser resolvida pela práxis. (KONDER, 2002, p. 261).

O que é buscar solução na práxis? É o que fazem as universidades que
ousam e lutam (internamente) pela organização de cursos para beneficiários da

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reforma agrária. Há um conjunto de professores lutadores no templo universitário, e,
de fato, é preciso ter “muita garra” para não desistir no meio do caminho. São muitos
os enfrentamentos internos e externos que sofrem todos os que se envolvem em
processos que buscam transformação social, em especial com as questões que
direta ou indiretamente dizem respeito à reforma agrária e à propriedade.
Há uma segunda matriz teórica de pensamento que está por trás dos
argumentos favoráveis ao desenvolvimento dos cursos superiores. Essa matriz é
materialista e é histórica. Dessa forma, a realidade será analisada à luz da
contradição (inerente ao modo de produção capitalista) e da totalidade. Em função
disso, no conteúdo das decisões e sentenças favoráveis ao funcionamento dos
cursos, há sempre uma análise da questão social. Os princípios da isonomia e da
proporcionalidade são convocados à luz da questão social. Esses princípios são
iluminados por uma teoria crítica e pelo entendimento de que a igualdade jurídica
nem sempre corresponde à igualdade fática.
Só consigo encontrar explicações de natureza epistemológica para a
utilização dos mesmos princípios, na análise de um fato jurídico-social, com
respostas opostas. Onde estará a verdade? Uma análise cuidadosa das
contradições sociais brasileiras certamente revelará que o país tem necessidade de
mais e mais cursos superiores para os beneficiários da reforma agrária. Afinal,
alguém pensa em como é o acesso à saúde entre os assentados? Em como é o
acesso às informações jurídicas? O assentamento de reforma agrária carece de
políticas públicas efetivas, e, em função dessa carência e ausência do Poder
Público, assentamentos ficam fadados ao fracasso. Por que o MPF não demanda do
Poder Público a efetivação dos direitos sociais e fundamentais dos beneficiários da
reforma agrária e dos demais povos do campo brasileiro?

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REFERÊNCIAS

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