O Lago dos desejos

The wishing pool

Leigh Roberts

A lua é cúmplice do alucinante desejo que une os apaixonados amantes
Hugo mergulha nas águas prateadas pelo
luar de agosto e surge junto de Persis, no meio do lago. Os seios firmes, redondos, tocam o peito
musculoso; os dedos delgados, sensíveis, acariciam o rígido testemunho do desejo de Hugo,
retribuindo as sensações incríveis que ele provoca no corpo macio dela. Os gemidos de êxtase se
misturam enquanto os corpos nus se entrelaçam, frementes de paixão. Eles se querem com
loucura, mas Hugo ainda se lembra de um casamento fracassado, e Persis tem medo de amar...

Digitalização: Carla Matos
Revisão e Formatação: Cynthia

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts

Copyright © 1987 by Lora Smith
Publicado originalmente em 1988 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total
ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer outra semelhança com pessoas vivas ou mortas
terá sido mera coincidência.
Título original: The wishing pool
Tradução: Milena Castilhos
Copyright para a língua portuguesa: 1992
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3º andar
CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e Acabamento: Gráfica Circulo
Foto de capa: RJB

Projeto Revisoras - 2

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
Capítulo I
Ela parecia ter surgido de um sonho ou de uma lenda.
Hugo MacAllister ficou na sombra de um cedro e olhou a moça à luz da fogueira,
em seu acampamento, mexendo com uma colher dentro de um amassado caldeirão. As
chamas traçavam pinceladas avermelhadas em seu rosto, punha brilhos inesperados nos
cachos de cabelos escuros que lhe caíam pelas costas. Ela usava um lenço preto
amarrando os cabelos e blusa branca, de amplo decote, que deixava ver ombros
queimados de sol e perceber os seios firmes, bem-feitos. Em sua cintura outro lenço
preto, de barra desfiada, oscilava conforme ela se movimentava. A saia era branca, muito
franzida, ampla. Os pés surgiam logo abaixo, nus, delicados, sujos de terra.
Um galho estralou na fogueira, as chamas saltaram, fazendo refletir o dourado dos
cordões em torno de seu pescoço, com pingentes numerosos, e enormes círculos de ouro
nas orelhas. Ela deu um passo atrás e o ouro brilhou uma vez mais antes de se apagar.
Acima dos morros ao sul, a lua mostrou-se como um crescente de prata. A
escuridão diminuiu e Hugo deu outro passo para trás, escondendo-se mais na sombra do
cedro, segurando-se num galho. A árvore lançou seu cheiro pungente que se misturou ao
perfume da madeira queimada e, logo após, ao odor que o caldeirão exalava.
A moça percebeu quando a lua flutuou solta da montanha. A luz prateada projetou
seu perfil em alto-relevo contra a escuridão das montanhas ao fundo e do veludo do céu.
Ela voltou o rosto para a lua, ergueu os braços num movimento natural, como se fizesse
tal gesto com freqüência. Hugo esforçou-se para entender as palavras com as quais ela
saudava a lua nascente. A sombra do corpo esguio prolongava-se até as calmas águas do
lago dos Desejos, logo além. As palavras da canção, que entoava com voz argêntea, não
eram de nenhuma língua conhecida. Idioma de outras paragens, pensou ele, envolvido
pelo estranho quadro.
Sacudiu-se para se libertar do fascínio poderoso e cerrou os olhos, procurando
divisar o veículo que se encontrava estacionado perto da fogueira. Ao que tudo indicava,
era um velho furgão de entrega de leite ou pão. Cortinas com flores estampadas
fechavam as janelas. Não parecia haver movimento no interior do veículo, mas ele ainda
hesitou um momento. A cena já era por demais estranha para que se arriscasse a ser
obrigado a enfrentar o companheiro dela, um homem que poderia estar adormecido lá
dentro.
A moça terminou de cantar e voltou-se para o fogo, de maneira prática, dando uma
última mexida no conteúdo do caldeirão, antes de enrolar a mão com o lenço da cintura e
pegar a alça. Ele esperou até que ela estivesse sentada e saiu da sombra para deixar-se
ver.
Quando ela ouviu seus passos, voltou-se e encarou-o. Sem desejar amedrontá-la,
ele parou dentro do círculo iluminado e pigarreou.
— Isto é propriedade privada — disse, em voz rouca.
Mais próximo, percebeu detalhes antes escondidos. Ela era mais velha do que
aparentara, embora a pele clara não tivesse rugas. Os olhos, entrecerrados, estavam
escondidos por longas pestanas e a expressão era impassível.
— Tem permissão da proprietária desta fazenda? — indagou ele.
— Quem é você? — disse ela, ignorando a pergunta, o que o exasperou.
A mão da moça foi até a cintura onde se via o cabo de um punhal.
— Pelo amor de Deus, você é mesmo uma feiticeira! — Ele sacudiu a cabeça, algo
divertido. — Olhe, eu não quero encrenca. Só estou me perguntando por que uma mulher
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sozinha escolhe para acampar num lugar distante das estradas principais, como a
fazenda de Cassie Whitley. Tem permissão dela?
Ele esperou pela resposta. Era impossível que a velha Cassie tivesse autorizado.
Ultimamente afugentava todo mundo com sua espingarda, até alguns amigos, como ele
mesmo.
— Por assim dizer... — respondeu ela, vagamente.
A mentira fez com que os lábios dele se entreabrissem num sorriso descrente.
— Está sozinha? — Ele relanceou o olhar pelo furgão.
— Isso tem importância?
Quando Hugo deu um passo à frente ela contornou a fogueira.
— É melhor ir embora — falou ele, abruptamente, observando que a expressão
dela se fechou.
Seria de medo? Ele não ia machucá-la, mas não gostava de invasores, de
estranhos acampando ao lado daquela lagoa que separava suas terras das de Cassie.
— Como eu disse, isto é propriedade privada. Não queremos estranhos por aqui.
Ela olhou para si mesma e, de volta, para ele, com um brilho nos olhos. Seria
diversão? Sabedoria? Desta feita ela não se afastou quando ele se aproximou. Pôde
perceber a malícia nos olhos dela e ficou surpreso.
— Engano seu — disse ela e o sotaque estrangeiro ficou evidente.
— Existem muitas necessidades em sua vida e você não sabe. Tal conhecimento,
Hugo MacAllister, não é para os mortais comuns.
Por um instante ele sentiu um gelo descer-lhe pela espinha. A voz dela soara
grave, mas tão estranha como quando entoara aquela canção para a lua. O fogo lançava
dedos vermelhos no rosto bonito e no início dos seios, que surgiam no decote,
lampejando como muda mensagem.
— Você sabe meu nome! — Ele respirou fundo.
O rosto que via era diferente, as maçãs pronunciadas dando-lhe um contorno
incomum, tal como os olhos amendoados. Mas havia alguma coisa familiar nela. Era
como se já houvesse visto aquelas feições milhares de vezes em seus sonhos, tal como
aquela boca, sensual e generosa. Os cabelos negros cascateavam em cachos, descendo
pelos ombros e costas.
— Como não saber?
Ela levantou os ombros, fazendo com que a blusa caísse de um lado e ele não
conseguia tirar os olhos do vale entre seus seios. Quando voltou a fitar-lhe os olhos, viu
riso neles.
— Tudo é do conhecimento daqueles que sabem ler as antigas palavras —
prosseguiu ela e fez um gesto para as chamas. — Seu nome e tudo sobre você está lá,
escrito no fogo.
— É assim? — Então, ele percebeu. — Talvez eu também seja capaz de ler nas
chamas, não é Persis?
Ela soltou uma gostosa risada, um som que destruiu toda a magia. De repente
estavam apenas num acampamento, junto a uma fogueira prosaica.
— Confesse, Hugo: por momentos eu consegui enganá-lo! — Ela já não tinha
sotaque algum.
— Sua miserável... — E um ar feroz estampou-se no rosto dele.
— Por que acampou aqui? Cassie está à sua espera!
Ela sacudiu os ombros de novo, aparentemente ignorando o precário equilíbrio da
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blusa, explicando:
— A casa estava às escuras quando passei por lá. Não queria perturbá-la. —
Voltou até o caldeirão, junto ao fogo. — Uma noite a mais no furgão não me fará mal.
Ele encostou-se no velho veículo e observou-a, enquanto ela sentava no chão, de
pernas cruzadas, e mexia com uma colher o que existia dentro do caldeirão.
— Quer um pouco? — perguntou a moça, com um sorriso. Ele sacudiu a cabeça.
— Não, obrigado. Mas o que é, afinal?
— A delícia de um especialista — disse ela com toda seriedade, mas um malicioso
brilho no olhar a traí-la. — Ervas misteriosas colhidas ao luar...
Ele suspirou fundo, antes de responder:
— Bem, percebo sopa de frango recém-saída do pacote.
— Puxe uma cadeira — convidou-o. — Não quero ninguém me olhando de cima!
Ele sentou-se no chão, ao lado dela. O fogo estralou e chiou, na noite quente. Uma
coruja piou na floresta. A brisa suave de maio encrespou a superfície da lagoa, recriando
sob luar as estrelas do céu.
— Você sabia que Cassie me chamara?
Persis levantou uma sobrancelha e olhou-o. Naquele gesto ele reviu a garota de
treze anos que ela era quando se fora e ficou a se perguntar por que não a reconhecera
antes. Claro que quinze anos atrás ela usava os cabelos bem curtos e despenteados, e
parecia um montinho de gordura infantil, mais do que uma mulher. Seus olhos se
desviaram para o decote e ele precisou controlar os pensamentos.
— Sabia — respondeu, brusco. — Mais um dos planos malucos dela...
A moça pareceu magoada.
— Pensei que tivesse me chamando por saudade!
— Não tente me embrulhar, cara de borracha!
Ele avançou o braço e puxou um cacho dos cabelos dela. Queria apenas provocála, tal como fazia há tantos anos. Mas quando o sedoso cabelo estava entre seus dedos
percebeu que havia querido tocá-la o tempo todo. Largou a mecha, como se ela o tivesse
queimado.
Persis nada percebeu. Estava rindo dele, os olhos brilhando de malícia.
— Cara de borracha! — exclamou, animada. — Não penso nisso há milhões de
anos. Nunca soube por que você me chamava assim.
— Soube, sim. Estou vendo que ainda continua com cara de santinha, mesmo
quando é apanhada roubando doce. E como estão seus pais?
Ele não conhecia aqueles pais viajantes, embora o pai dela tivesse crescido na
fazenda de Cassie, e, naquele distante verão, ela também não falara muito sobre eles,
apenas dizendo que tinham fixação em viajar, que não paravam em lugar nenhum.
— Estão ótimos. — Persis tratava o assunto com casualidade, como se seus pais
fossem iguais a todos os outros. — Papai está passando o verão na Sorbonne e mamãe
resolveu instituir lá a sua base de operações. — Colocou o caldeirão no chão e passou a
língua na colher. — Nós passamos a primavera na Espanha, participando de uns dois
festivais de folclore. Foi então que consegui ganhar dinheiro para a passagem de avião de
volta para cá. Mas não deu para vir de Nova York até o Missouri, então mamãe me deu os
nomes de alguns contatos entre lá e cá, onde eu pudesse acampar. — Ela mexeu nos
colares de ouro. — Tive sucesso. Você está sentado ao lado de madame Persis,
folclorista e grande contadora de histórias.
Persis riu e tirou o lenço da cabeça. Prosseguiu, depois de breve pausa:
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— Hoje dei um seminário na universidade de Columbia — espreguiçou-se — e
acabei ficando lá mais do que esperava. Por isso não cheguei a tempo de pegar Cassie
acordada. Infelizmente Lillybelle, minha caminhonete, não é capaz de entender a palavra
"pressa".
— O que espanta é ela entender a palavra "locomoção" — comentou Hugo,
olhando aquele monte de ferrugem. — Parece que tomou parte no dilúvio...
— Comprei-a de uns velhinhos hippies — admitiu Persis. — Eles disseram que iam
comprar um station wagon.
— Ela mais parece um caminhão de leiteiro.
— Na verdade, de padeiro. — A moça olhou o furgão com orgulho. — Sabe que é
bem confortável? Não precisei de um hotel, desde que deixei Nova York.
De repente ele lembrou-se:
— Você deu um seminário? Sobre quiromancia?
— Na verdade sobre correlações entre as mitologias indo-européias. A fantasia de
hippie é apenas para chamar a atenção dos professores acadêmicos.
Houve um momento de silêncio.
— Por que você veio?
Hugo não queria falar tão bruscamente. Mas já o fizera e esperou por uma
resposta. Muita coisa ia depender do que ela dissesse.
— Cassie me chamou — respondeu a moça, e uma ruga surgiu em sua testa. —
Eu devo isso a ela. Aquele verão... Sei que foi há quinze anos, mas está vívido em minha
memória! — Ela suspirou e continuou: — Foi a melhor coisa de minha vida.
Hugo sacudiu a cabeça, mal acreditando.
— Não seja ridícula! Passou anos pelo mundo se educando, Europa, Grécia... Há
algum lugar onde não tenha ido? Não creio que uma pequena fazenda no centro do
Missouri possa ter importância para você.
Ele percebeu uma expressão de dor no rosto de Persis, antes que ela olhasse em
outra direção.
— Está errado. Tudo aqui é lindo e você também acha isso. E não é apenas o
lugar. — Ela voltou a fitá-lo. — Sabia que Cassie nunca deixou de me escrever? Não
importava quão longe eu estivesse, suas cartas sempre me alcançavam: Budapeste,
Viena, Londres. Ela é uma pessoa muito especial. Se tivesse me pedido que trouxesse
um iceberg para dar água ao gado, eu teria trazido.
O rapaz emocionou-se com essas palavras e sua voz era quase um murmúrio
quando falou:
— Ela mudou. Está mais velha... Não é mais a mesma.
— Todos nós mudamos. — E Persis examinou-o. — Não foi sem razão que levei
tanto tempo para reconhecê-lo, Hugo. — O sorriso brincalhão voltou-lhe aos lábios. —
Você não é mais tão desengonçado...
— Muito obrigado! — Ele sorriu. — Você também mudou, cara de borracha. — E,
com esforço, evitou olhar as curvas tentadoras do corpo dela.
— Obrigada pelo elogio — disse a moça, passando as mãos pelos Cabelos. — O
que pode fazer você esquecer esse apelido ridículo?
Ele notou que sua respiração havia se acelerado.
— O que me daria em troca? — A voz dele soou estranha, mas ela pareceu não
notar.
— Não muito, a menos que você goste de Lillybelle... a minha caminhonete, ou
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uma das minhas correntes...
Ele levantou a mão e pegou num dos cordões dourados, brilhantes.
— Parece que tem um bocado de bijuteria e... — Ao sentir o peso, exclamou: — É
de verdade! Isso tudo é ouro mesmo?
— Sim, senhor! — E ela tirou as correntes, sopesando-as. — Esta é da Romênia,
cigana autêntica. Papai diz que são meu dote. — Olhou-o entre pestanas longas. — Esta
é de Paris, de quando fiz dezoito anos. Esta outra, mamãe me comprou em Tóquio, há
uns dois anos. E estes brincos eu mesma comprei na Tailândia. Ele sacudiu a cabeça.
— Você deve ser louca. Viajar por aí com todo esse ouro pendurado! Tem sorte de
ainda estar viva!
— A maioria das pessoas pensa que é imitação.
A blusa dela escorregou ainda mais num dos ombros. Ele fechou os olhos,
surpreso com a reação de seu corpo só com a visão daquela pele sedosa.
— Você poderia ter vendido esse ouro, comprado a passagem de avião e ainda ia
sobrar! — comentou, tentando se controlar.
— E logo estaria sem nada... O maior valor destas coisas é a lembrança que
trazem, não o preço de cada uma. — Ela pegou as correntes e guardou-as em algum
canto, dentro do furgão. Quando voltou-se, ria de novo. — É gostoso, também, quando
tiro, sinto-me bem mais leve.
— Acampar nesse monte de ferrugem, quando poderia estar num bom hotel, com
ar-condicionado... Não entendo!
Ela soergueu o cabelo da nuca.
— Por falar em ar-condicionado, até seria bom. Eu havia me esquecido como esta
terra é quente! — Voltou os olhos para a lagoa. — Cassie ainda conserva o gado afastado
daqui?
— Cassie não tem mais gado.
Ele falou de modo brusco e parecia querer contar-lhe mais, prepará-la de alguma
forma para o que encontraria na casa, no alto da colina. Mas as palavras não saíam.
— Ótimo! — disse Persis, rindo.
Desamarrou o lenço da cintura e deixou a saia cair no chão. Ele ficou a olhar,
boquiaberto, enquanto ela se levantava, pegava a saia e pendurava em algum lugar,
dentro da caminhonete. Suas pernas eram longas, bem-feitas, firmes e queimadas de sol.
Ele percebeu a calcinha branca, leve, sob a blusa que chegava pouco abaixo das nádegas, e oscilou quando ela andou.
— Eu me lembro de nadar nessa lagoa, há quinze anos... A água deve estar
deliciosa! — exclamou a moça.
— Persis, pelo amor de Deus...
— Você não vem?
Ela falou por cima do ombro, correndo ladeira abaixo em direção à água. Hugo não
conseguia desviar os olhos. O corpo de mulher, não muito grande, mas sólido e forte,
tinha quadris largos, suaves, que faziam sua masculinidade pulsar de desejo. As costas
eram retas e ela irradiava auto-segurança, alegria, enquanto mergulhava na lagoa. Um
momento após sua cabeça reapareceu em meio a água, iluminada pelo luar. Pôde
perceber o branco de seus dentes quando Persis gritou:
— A água está divina! Venha, Hugo!
— Nã... não. Hoje não! — respondeu ele, forçando as palavras a passarem pela
garganta apertada. — Amanhã eu a verei na casa de Cassie.
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E precisou de toda a força de vontade para voltar-se e ir embora. A meio caminho
voltou-se e olhou para a lagoa, que ficava na divisa das duas fazendas. Parecia um tapete
de prata. Teve a impressão de ver algo branco flutuando e torturou-se ao imaginar aquele
corpo inteiramente nu, nadando.
Virou as costas e recomeçou a andar, resmungando:
— Se ela queria a pior forma de tortura, não podia ter imaginado outra!
Nos dois últimos anos Hugo simplesmente sufocava seus impulsos sexuais e eles
acabaram de se libertar, vingando-se dele, atacando-o com violência.
Na porta de entrada de sua casa ele voltou-se, embora dali fosse impossível divisar
a lagoa. Inspirou fundo algumas vezes aquele ar cálido que cheirava a madressilva e,
mais levemente, a cocheira. Quando divisara, horas atrás, alguém acampando junto à
lagoa, não podia imaginar que voltaria para casa com um desejo tão doloroso, como se
fosse um adolescente. Ao menos Persis lhe trouxera problemas diferentes dos cotidianos:
como dirigir uma Fazenda, pagar as contas, rezar por bom tempo e trabalhar doze horas
ao dia. Um sorriso iluminou-lhe o rosto.
— Maldita cara de borracha! — exclamou, feliz.
Persis flutuava na água e pensava em Hugo MacAllister. Incrível não ter lembrado
dele por tanto tempo, apesar de saber que ele estaria por perto quando chegasse na casa
de Cassie. Também estivera por perto dela, quinze anos atrás...
— Você sabe que eu era apaixonada por ele, já naquele tempo — disse para a lua.
Lembrava de ter ido à cidade com Cassie e entrado na farmácia para comprar
batom e base para maquilagem, querendo parecer mais velha para o Hugo de dezoito
anos. O resultado fora ele quase morrer de rir e tia Cassie esfregar-lhe o rosto com água
e sabão para tirar a ridícula pintura.
O pai de Hugo estava vivo e visitava bastante tia Cassie, encontrando nela parte
da companhia que perdera com a morte da esposa. Tia Cassie lhe escrevera, contando
que o pai de Hugo morrera e Persis imaginara a dor que ele devia estar sentindo.
Hugo se tornara dono de quinhentos acres de colinas férteis, no coração do
Missouri, lar da família dele nos últimos oitenta anos, e ela não tinha lar. Sobrara-lhe
apenas a Fazenda Stony Ridge, de Cassie, sua tia-avó. Sorriu, com carinho, pensando
nela. Sempre usava aventais de saco de farinha sobre um vestido elegante: não queria
ser apanhada por uma visita sem estar em ordem. A casa vivia muito cuidada, a cocheira
era um exemplo de limpeza, a horta sem mato e produtiva. Simplesmente, ela exigia de
seus empregados esforço até o limite da sobrevida e os fazia trabalhar mais do que os
empregados de qualquer outra fazenda na redondeza.
As coisas haviam mudado, dissera Hugo. Persis começou a nadar lentamente até
a beira da lagoa, pensativa. Começava a sentir frio, apesar da água estar morna. Saiu e,
pouco se incomodando com sua quase nudez, alcançou a caminhonete. Os europeus
ligavam muito menos para roupas do que os americanos, pensou, lembrando de co mo
Hugo ficara perturbado quando ela tirara a saia para ir nadar.
Sorrindo, enxugou-se numa toalha felpuda e enfiou-se num cafetã de algodão, com
o qual às vezes dormia. Teria de cuidar de seus impulsos quando estivesse com tia
Cassie ou ela lhe arrancaria o couro cabeludo por "vergonhosa falta de modéstia", como
dizia. Mesmo quando Persis tinha treze anos, Cassie não aprovava o uso de shorts e
camiseta sem sutiã. E na época ela nada mais exibia do que gordura de menina.
— Como eu sonhava em ter peitinhos! — murmurou ela, olhando-se, complacente.
Já os tinha, grandes e firmes. Gostava de seu corpo, fosse ou não aceito pelos
modismos. Não era frágil, esguia, ou melhor, cadavérica como um manequim, nem queria
ser.
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"Um belo corpo de mulher", lhe dissera um de seus últimos admiradores e ela dera
risada. Gostaria de ver em que tipo de homem o jovem Hugo MacAllister se tornara.
Apagou a fogueira, parou junto da porta de Lillybelle e examinou os arredores.
Tivera o cuidado de estacionar ao lado do lago dos Desejos, na vertente da fazenda de
Cassie, pois não sabia a quem pertencia o outro lado. Mas Hugo a havia encontrado, de
qualquer forma, e as terras do outro lado ainda eram dele.
Levantou o rosto para a lua que já ia alta.
— Adeus, irmãzinha — murmurou em grego arcaico, sorrindo da própria tolice.
Quando se passou anos ensinando mitologia clássica, é fácil falar com os velhos
deuses. Teria Hugo presenciado seu cumprimento a Ártemis, deusa da lua?
Bem, importava pouco o que ele pensara disso. Amanhã ela iria até a casa de tia
Cassie e ficaria sabendo por que fora chamada após tantos anos... Essa noite sentia-se
cansada e só queria dormir.
Já estava deitada há tempo quando lembrou de outra notícia que Cassie lhe dera:
existia uma Sra. Hugo MacAllister. Era um pensamento perturbador; ela precisou virar de
lado para esquecer a informação e mergulhar no sono.

Capítulo 2
Lillybelle gemeu e arfou ladeira acima, pela estrada de pedregulhos da Fazenda
Stony Ridge. Persis preocupava-se em evitar os piores buracos, mas era difícil, pois tudo
estava abandonado. A estradinha precisava de uma boa camada de pedrisco e o mato
devia ser capinado; crescera até a altura do peito e tirava toda a visibilidade, dos lados.
Não era de se espantar que Cassie não tivesse mais gado: as reses conseguiriam fugir
facilmente pelas cercas malcuidadas.
As coisas haviam mudado. Quando estacionou atrás da casa, percebeu sinais de
abandono ainda mais evidentes. A bomba d'água ainda ficava no quintal, mas o braço da
alavanca estava pendurado, meio solto, o eixo quebrado. Do outro lado, o estábulo
apresentava a porta semi despencada, presa por uma única dobradiça. Junto dela, um
homem lutou contra o sono, sentando-se lentamente e tirando um cigarro da boca.
Persis saltou da caminhonete, num caos de sensações. Onde existira uma
extensão de terra muito bem cuidada, com a horta, só havia mato, vivo ou seco. Ela ficou
a olhar, as mãos na cintura do jeans desbotado, observando que o mato crescia até entre
os degraus de pedra que levavam à cozinha e mesmo ao lado, onde existira um jardim.
O homem se levantara e aproximava-se a passo lento, um sorriso irônico mal
disfarçado nos lábios.
— Quer alguma coisa, docinho? — O sorriso se ampliou. — Errou o caminho?
— Não — veio a resposta, ríspida. Raras vezes ela se abandonava à raiva, mas
percebia que esta seria uma dessas ocasiões. — Você é empregado aqui?
O homem enfiou os polegares nas alças da calça e revelou dentes sujos e mal
alinhados.
— Sou o administrador da Fazenda Stony Ridge, dona. O que você quer?
— Quero que comece consertando a bomba d'água — disse Persis, com frieza. —
Depois, capine esse mato todo da horta. Quando acabar, pode consertar a cerca do lado
norte: ela arreou. A fazenda está uma vergonha!
— Ora, ora... — murmurou o homem, com olhar atrevido e desafiador. — Não é
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que chegou a rainha do mundo por aqui e eu nem sabia? Neste lado da terra não há
mulher mandona que chega dirigindo caminhonete!
— Pois vá se acostumando: dirijo caminhonete, caminhão e vou dirigir o serviço
aqui dentro. Como é que a Cassie dá emprego para um idiota como você?
O homem ficou boquiaberto, enquanto ela girava nos calcanhares e dirigia-se para
a casa. A porta da frente raras vezes era usada, exceto em grandes ocasiões. Se tia
Cassie pudesse, estaria ali para recebê-la. Teve um mau pressentimento, enquanto subia
a escada de pedra dos fundos.
A cozinha estava vazia, escura. Com os olhos ainda ofuscados pela brilhante
manhã de maio, ela parou. Gradualmente percebeu uma pilha de louça e panelas sobre a
pia, e a mesa, em meio a jornais e revistas. À sua frente, uma floresta de cadeiras parecia
impedir a passagem.
— Cassie! — chamou, preocupada. — Cassie, estou aqui! Contornou a mesa, foi
para o hall de entrada e de lá para a sala de visitas, também no escuro, pois as cortinas
encontravam-se fechadas. Em uma antiga cadeira de balanço encolhia-se uma figura que
levantou a cabeça, dizendo com voz suave:
— Persis? É você, querida?
A moça cruzou a sala e ajoelhou-se ao lado da cadeira. Tia Cassie buscou o
interruptor de um abajur e a pálida luz clareou o ambiente.
— Persis, minha querida, eu sabia que você chegaria a tempo! As lágrimas
queriam explodir dos olhos de Persis e ela lutou para engoli-las, forçando-se a dizer:
— A tempo de quê, querida? Você só disse, na carta, que me queria por perto. Não
disse para que...
— Foi só o que eu disse? — A voz já fora forte; agora era um sussurro hesitante,
os olhos avermelhados e enevoados olhavam através das lentes sujas dos óculos. —
Agora você está em casa depois de passar tanto tempo lá, pelo estrangeiro, jamais gostei
de estrangeiros... Deixe-me olhá-la um pouco. — E pousou nos ombros da sobrinha as
mãos quase transformadas em garras pela artrite. — Tão lindinha... como uma pintura! Tal
como aquela foto que eu tinha de
James. Onde foi parar a fotografia?
— Eu me pareço com o papai... — Persis forçou o bolo que sentia na garganta. —
É o que todos dizem. Mas ele afirma que me pareço com você e vovó, tia Cassie, quando
eram mais jovens.
— Verdade — disse a velha, a voz um pouco mais forte. — Eu era uma coisinha
bonita, mas sua avó era a mais bela dos três condados. Não dá para acreditar, me
olhando agora. — Uma risadinha seca raspou-lhe a garganta e os olhos baços tiveram um
rápido lampejo. — Meu cabelo era como o seu, caindo pelas costas, em ondas. Orville
costumava dizer que ele e Carl tiveram muita dificuldade em escolher qual irmã iria para
qual irmão...
E a voz de Cassie se perdeu num murmúrio hesitante, enquanto buscava
lembranças. Persis se inclinou, pegou os óculos da tia e limpou-os na barra da blusa,
recolocando-os.
— Tia Cassie — segurou a velhinha pelos ombros —, por que não me pediu para
vir antes? Eu não sabia...
— Que disse? — Cassie piscou os olhinhos. — Ora, estou vendo melhor! Pensei
que estivesse com catarata ou coisa assim. Eu sabia que você me ajudaria. — Deu um
apertão no braço da sobrinha. —• Não consigo mais fazer as mesmas coisas, minha
criança. Onde está aquele jornal?
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Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
Ao puxar a mesinha de rodas, recoberta de jornais, uma espingarda caiu no chão.
Persis pegou-a e olhou, incrédula, para a tia, que disse:
— Não se importe. Não está carregada, mas eles não sabem... O aperto doloroso
na garganta de Persis tinha aumentado e ela mal conseguia impedir as lágrimas.
— O que está procurando, titia? Talvez possa ajudar.
— Os papéis que aquele advogado amigo escreveu. — Identificou umas folhas,
pegou-as e estendeu-as triunfante. —- Aí estão. Parte do documento, apenas. Para você,
minha criança.
A jovem apanhou o documento com relutância e passou os olhos pela terminologia
legal. Perguntou, então:
— Que quer que eu faça com isto, titia?
A velha suspirou, parecendo pequena e perdida.
— Cuide das coisas — sussurrou ela. — De uma forma ou de outra, perdi o
controle de tudo, Persis. Não mando mais em nada e Orville sempre me disse para
manter as coisas em ordem. E aqui está — pegou outros papéis — meu testamento.
Deixo tudo para a minha mocinha.
— Eu não... — começou a moça e engasgou com o pranto contido. Ajoelhou-se
junto à tia. —Você é muito querida, mas não precisaremos destes papéis. Eu vou fazer
tudo para ajudá-la, titia.
Cassie elevou os olhos e Persis percebeu, com dor no peito, que eles estavam de
novo baços.
— Estou feliz que tenha vindo, querida — murmurou a velhinha.
— Vou fazer o café da manhã para você, tia. — Persis a levantou e ela parecia um
leve montinho de ossos recoberto por pele. — Vamos para a cozinha.
Ela preparou chá e mingau de aveia, tal como faziam anos atrás. Não havia pão ou
leite, nem outro alimento fresco na despensa. Cassie levou à boca uma colher de mingau,
como se o visse pela primeira vez, então começou a comer vorazmente. Depois,
demonstrando cansaço, deixou-se levar para o quarto que havia sido improvisado no résdo-chão.
Com Cassie na cama, Persis olhou em torno, em desalento. Havia tanta coisa a ser
feita que ela nem sabia por onde começar. Foi até a porta da cozinha para mandar o
empregado à cidade, fazer compras. O braço da bomba d'água ainda estava quebrado e
ele não havia tocado na horta. Mãos na cintura, ela saiu para o sol e foi até o quarto do
homem, junto ao estábulo. Estava vazio, o colchão nu e o armário, aberto, sem roupas.
Ele se fora.
— Melhor ficar livre daquele estrepe, mesmo! — falou ela, voltando à casa.
Pelo menos, Cassie tinha telefone e ainda funcionava. Levando um tempo até
lembrar-se, ela discou um número.
A voz de Hugo respondeu após o segundo toque. Ao ouvir a voz calma dele, a
irritação de Persis explodiu:
— Por que não me avisou que as coisas estavam tão ruins? Por que as deixou
chegar a esse ponto?
E como Hugo não se encontrava ao alcance, ela se contentou em estrangular o
telefone.
— Persis, que bom ouvir sua voz! — Ela podia sentir o bom humor, do outro lado.
— Quer dizer que as coisas em Stony Ridge estão um tanto... difíceis?
— Difíceis? Esse é o pior comentário do ano! Por que não me contou?
Projeto Revisoras - 11

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
Houve um prolongado silêncio.
— Eu temia amedrontá-la. Tive medo que fosse embora antes de ver com os
próprios olhos. Cassie depende de você...
— Está me insultando! É claro que vou ficar por aqui enquanto ela precisar de mim!
Mas, meu Deus, foi um choque! Por que não me avisou, por que não me chamou antes?
— Ela achava que ainda podia controlar tudo — Hugo hesitou. — Quanto a mim...
Bem, as pessoas velhas começam a ter manias. Há diversos meses que não posso entrar
aí. Ela me imagina inimigo e me ameaça com a espingarda.
Persis riu ao pensar que a amorosa Cassie pudesse imaginar Hugo seu inimigo.
Havia sido quase um filho para ela, que vivia mencionando isso. Percebeu uma ponta de
dor na voz de Hugo.
— O que aconteceu para ela ficar assim? Tia Cassie sempre me escrevia e de
repente houve um silêncio. Aí chegou a última carta pedindo que eu viesse.
— Ela teve pneumonia, no inverno. Ficou ruim, tive de levá-la ao hospital.
Enquanto ela estava fora, ó empregado foi embora. Só não levou o que estava pregado
no chão ou nas paredes. — Ela ouviu-o suspirar, exasperado. — Cassie pegou essa
mania ultimamente, de empregar qualquer um e com o péssimo salário que paga...
Houve outra pausa prolongada, mas antes que ela dissesse alguma coisa, ele
continuou:
— As cartas dela talvez parecessem normais, porém a verdade é que ultimamente
ela tem se portado de modo estranho. Não confia cm ninguém, nem no banco, nos velhos
amigos ou em mim. Acho que você é a única, Persis.
Ela pensou por um minuto e comentou, preocupada:
— A saúde dela está péssima. Se não pôde vir aqui, não surpreende que não
saiba. Acho que ela até se esquece de comer. Talvez isso explique seu estado, em parte...
Me dê um tempo e eu colocarei tudo em ordem, só que vou precisar de ajuda.
— Claro! — Ele pareceu bem-disposto. — Que posso fazer?
— Compras, para começar. Alimentos, bolos, frutas, pão, leite. E como o
empregado foi embora...
— Já? — Ele riu, divertido. — O que você andou dizendo a ele?
— Só lhe dei alguma coisa para fazer. Evidentemente, não queria trabalhar.
Ela ouviu um ruído, como de risada abafada, do outro lado da linha. Gostava
daquela risada. De algum jeito sabia que ele não ria com freqüência.
— Hoje em dia poucos querem — comentou o rapaz. — E a mão-de-obra está
muito difícil de ser conseguida. Mas verei o que posso fazer. Vou deixar as compras perto
da entrada e toco a buzina. Cassie não quer me ver por aí.
— Estamos combinados. Muito obrigada!
Ela desligou e foi tirar a bagagem do furgão. Gostaria de saber por que aquele
telefonema a perturbara tanto. Arrastava uma enorme mala para a casa quando percebeu
a razão. Hugo não falava como se fosse casado, mesmo que ela soubesse que era.
Qualquer homem casado teria trazido o nome de sua esposa à conversa quando se
tocava em assuntos domésticos.
Afastando aqueles pensamentos, ela resolveu limpar a velha casa empoeirada.
Quando tia Cassie acordou, Persis já havia arrumado a cozinha, recolocado os
pratos limpos nos armários, esfregado a pia e o chão. Ia começar a cuidar do banheiro
quando escutou os passos da tia. Ela entrou, olhando em torno, confusa:
— Meu Deus, o que está acontecendo por aqui?
Projeto Revisoras - 12

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— Um pouquinho de limpeza, titia! — A moça colocou a cabeça para fora, na porta
do banheiro. — O almoço vai ficar pronto dentro de meia hora. Dá para esperar, querida?
E atacou a banheira, as demais peças, paredes e chão. Quando chegou à cozinha,
encontrou a tia sentada, olhando em torno.
— Minha criança, vejo que está pondo ordem nas coisas! Nos últimos tempos — e
ela sorriu para a sobrinha — tem sido muito difícil para mim. Não me sinto mais a mesma,
canso muito fácil...
Persis abraçou-a e abriu a porta do refrigerador. Havia feito uma salada de
gelatina, antes de terminar a limpeza da cozinha, e sanduíches de atum, com uma lata
que encontrara esquecida na despensa e o que sobrara de pão em sua caminhonete. Se
Hugo não chegasse logo com as compras, não teriam o que jantar e tia Cassie precisava
de vegetais frescos.
— Você devia ter me escrito antes, tia Cassie!
Colocou um pouco de leite no copo da tia. Havia ordenhado a vaca que mugia no
estábulo, completamente abandonada à sua sorte. Cassie comia a salada com evidente
prazer.
— Isto está mesmo gostoso — admitiu ela. — Eu simplesmente não conseguia
cozinhar só para mim. E aquele lesma do Harry Lowrie fazia a comida dele...
— Bem, ele foi embora esta manhã.
Tia Cassie pegou mais um sanduíche de atum.
— Melhor! Eu tinha a sensação de que ele estava me roubando, mas não podia
fazer nada. Hoje em dia está difícil conseguir mão-de-obra.
— Foi o que Hugo disse — contou Persis, antes de perceber o que aquilo
implicava.
— Hugo? — Cassie olhou-a duramente por sobre a mesa. — Você esteve falando
com Hugo MacAllister?
— Isso é crime?
Persis não queria soar desafiadora, mas as palavras saíram com esse tom.
— Agora, escute aqui, mocinha! — Era óbvio que Cassie estava perturbada. —
Esses homens não são bons para coisa alguma. Todos eles ficam me perturbando,
querendo que eu venda as terras... Este era o lar de Orville e não vou vender um
centímetro nem que me matem!
— Ninguém lhe pediu que vendesse!
A voz grave chegou através da porta de tela. Persis voltou-se. Hugo estava do
outro lado, os braços cheios de pacotes. Ele empurrou a porta e a jovem correu para
ajudá-lo.
— Saia de minha terra, Hugo MacAllister! — A voz de Cassie era um guincho
irritado. — Não é sua e jamais será! Onde está aquela espingarda? — E voltou-se,
procurando a arma. — Saia, saia agora mesmo! Você não terá Stony Ridge.
— Eu não a quero. — Hugo falava com paciência cansada, — Não tenho dinheiro
para comprá-la, mesmo que estivesse à venda. E, sinceramente, espero que não esteja.
Olhando-o à luz do dia Persis percebeu o que a noite escondera. Ele parecia ter
mesmo seus trinta e três anos, talvez até mais!
Era um homem grande, alto e forte, com o corpo musculoso e flexível de quem
trabalha duro. As linhas em torno da boca eram profundas e combinavam com as rugas
da testa. Era queimado pelo sol e suas mãos, grandes, calosas. Sob grossas
sobrancelhas, os olhos castanhos brilhavam agudos e inteligentes. Fixavam-se agora na
Projeto Revisoras - 13

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frágil senhora à sua frente, a espinha reta, os olhos brilhantes de fúria atrás dos óculos.
— Essa não era a música que você cantava, menino! — disse ela, agressiva. —
Segundo me lembro, vivia me dizendo o que fazer com minha propriedade.
Um amplo sorriso se abriu no rosto de Hugo, desmanchando as rugas de
preocupação. Persis engoliu em seco. Aos dezoito anos ele era atraente, agora era um
homem muito atraente. Atraente demais, até.
— Eu estava preocupado — admitiu Hugo. — Ainda estou, Cassie. E voltou-se,
junto à porta, olhando as terras onduladas em torno da casa. Para o noroeste, além do
vale, ficava o lago dos Desejos e, na colina além, a casa dos MacAllister.
— Meses atrás Sam Coffrey não saía daqui, até que você começou a ameaçá-lo
com a espingarda. — Hugo voltou-se para fixar os olhos sérios em tia Cassie. — Todo
mundo sabe que onde Sam Coffrey vai, segue-se o retalhamento das terras. Acho que
meu coração explodiria se eu visse casinhas de fim de semana pipocarem nestas colinas.
Antes que isso aconteça, eu faço um empréstimo em banco, e compro as suas terras,
nem que me mate para pagá-lo! — Persis notou a dor em sua voz, a mesma que
percebera antes por telefone.
— Pensei que soubesse disso Cassie. Antes, você pensava do mesmo jeito que
eu...
Cassie ficou um longo tempo silenciosa, olhando o sanduíche pela metade, a boca
se mexendo, mas sem emitir som. Persis sentiu o coração se confrangendo pelos dois,
tão orgulhosos e cabeças-duras.
— Oh, saia daí e entre logo! — exclamou Cassie por fim, secamente. — Está
deixando as moscas entrarem, com essa porta aberta.
— Seus olhos avermelhados haviam adquirido certo brilho. — Acho que você não
está atrás das minhas terras...
Hugo aproximou-se, cautelosamente, e explicou:
— Estou puxando água para as minhas terras, agora. É claro que não tenho
dinheiro para comprar sua propriedade e nenhum banco, quilômetros ao redor, me
emprestaria dinheiro antes da colheita.
— Então, por que não disse isso antes? — Cassie empurrou o prato de sanduíches
na direção dele. — Andou fazendo compras, hein? Sirva-se, meu filho, sirva-se. — Ela fez
um ruído seco com os lábios.
— Tenho sentido sua falta e isso é verdade, não é?
Hugo pegou um sanduíche e deixou os olhos examinarem Persis. Enrubescendo,
ela voltou-se e começou a guardar as compras, pensando a troco de que sentia-se como
uma adolescente. Homens já a haviam admirado e reconhecia que não era de se jogar
fora. Claro, nesse momento estava com os cabelos presos por um lenço... Olhou-se no
espelho trincado, acima da pia, e quase gemeu alto. Seu rosto estava sujo de poeira, a
camiseta toda molhada, de quando limpara o banheiro, e quando abriu a boca, percebeu
um pedaço de vegetal preso nos dentes da frente.
— Claro que sim: está linda! — comentou Hugo, sorrindo. Quase engasgada, ela
pegou um maço de verdura e colocou-o na geladeira, usando a ponta da unha para se
livrar do pedaço de comida nos dentes, aproveitando o esconderijo oferecido pela porta.
— Se vocês me desculpam, agora tenho um bocado de trabalho a fazer — disse,
em seguida. — Cassie, é hora de tirar uma soneca.
— Como, soneca? Eu dormi a manhã inteira! Um corpo não precisa de tanto
descanso, menina.
— Você precisa. — Persis era irredutível. — Quando acabar de cuidá-la, tia,
Projeto Revisoras - 14

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conseguirá guiar um trator com uma só mão. Até lá... — E se interrompeu.
Algo havia retirado o sorriso do rosto- de Cassie.
— O trator quebrou — ela disse. — Harry... ou foi o Milt? De qualquer forma, um
daqueles vagabundos dirigiu até a beira do barranco e deixou-o capotado lá embaixo. —
Voltou os olhos irados para Hugo. — Foi aquele empregado que você me recomendou.
Ele pareceu espantado.
— Eu nunca recomendei ninguém! Já tenho trabalho de sobra para conseguir um
homem para minha fazenda!
Tia Cassie pareceu confusa.
— Ele me disse... Eu pensei... Olhe, Persis querida, acho que vou tirar aquela
soneca. Estou muito atordoada.
Persis acompanhou-a até a velha cama de latão e voltou para a cozinha. Hugo
ainda encontrava-se à mesa, a testa enrugada, olhando para lugar algum, o sanduíche
reduzido a migalhas.
— Você viu como é — comentou ele. — Ainda quer ficar por aqui? Até hoje ela não
me deixava entrar na casa. Agora posso cuidar de Stony Ridge...
Persis o encarou, muda por alguns instantes.
— Quem pensa que eu sou? — perguntou, zangada. — Acha que não vou
conseguir dirigir isto ou coisa parecida? Quero cuidar da fazenda e dela! Pode apostar
nisso!
A face dele se iluminou.
— Tenho certeza que sim! — Levantou-se lento, acompanhado pelos olhos dela. —
Você só tem freqüentado a alta sociedade nos últimos tempos, cara de borracha. Não
sabia, na verdade, que tipo de pessoa você era. Estou feliz que fique!
— Bem... — Ela não queria interpretar a alegria que entrevira em seu olhar. — Na
verdade nunca tive dinheiro para freqüentar a alta sociedade. Professores não ganham
fortunas. — Ela viu-se balbuciando como uma bobinha. — Bem... Tenho de pagar as
compras.
Enfiou a mão na cesta de vime que usava como bolsa, pegou dinheiro, mas Hugo
ergueu os braços e afastou-se em direção à porta, protestando:
— De jeito algum! Cassie vai precisar de muita ajuda e eu quero contribuir.
— Ninguém aqui precisa de caridade! — explodiu ela, com aquele seu
temperamento esquentado.
— Não é caridade! — Ele pareceu ofendido. — Ela me criou. Tenho o direito de
ajudá-la, vez ou outra. — Voltou-se para sair e teve uma idéia. — Se encontrar um bom
empregado, mando para cá.
— Não se incomode, Hugo MacAllister. Sou capaz de cuidar de tudo! — berrou ela,
batendo os pés.
Mas ele já havia saído, deixando-a em fúria.
Quando jantavam, ao anoitecer, Cassie explicou à sobrinha como é que Hugo
sabia tanto a respeito dela.
— Todo mundo em Piney Creek se orgulha de você, menina! — Espetou um
pedaço do franguinho de leite com prazer. — Eu contava para eles como minha sobrinha
estava sendo educada na Europa. O único que ria era o besta do Sam Coffrey. Nunca
quis acreditar que você tem tantos diplomas.
— Quantos diplomas eu tenho? — Persis mexeu nos cabelos ainda úmidos do
banho. — Por vezes eu me esqueço. E você não devia se vangloriar de mim, titia.
Projeto Revisoras - 15

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— Nós temos alguns professores daquela universidade, aqui perto, morando na
redondeza. — Cassie repetiu a compota, gulosa. — Um deles veio com uma máquina de
gravar, um dia, querendo que eu contasse minha vida. Bom, eu não vou contar nadinha a
ele, pensei e lhe disse: "Oh, não! O senhor devia fazer perguntas à minha sobrinha! Ela
tirou um mestrado na Sorbonne, na França, e doutorado na universidade de Oxford". E o
cretino me pergunta: "Oxford, no Estado de Mississipi?" Olhei bem dentro dos olhos dele
e respondi seca: "Do outro lado do oceano, na Inglaterra, e eu agradeceria se o senhor
lembrasse disso!" Então, ele contou a história na cidade todinha: que tinha uma velha
maluca nesta fazenda, dizendo mentiras sobre uma sobrinha. Deus, como foi engraçado...
Persis também riu e comentou, divertida:
— Você é que foi sabiamente educada, tia Cassie, vivendo toda vida aqui e
aprendendo. Os meus diplomas não vão me ensinar a cuidar das suas terras e vou
precisar de ajuda. O pouco que sei aprendi numa fazenda na Provença, na França, onde
passei um par de verões trabalhando.
— Você é uma ótima pessoa, querida. — Cassie deu-lhe tapinhas na mão. — Foi
bom mandar chamá-la enquanto consegui sobreviver. Eu ainda não estou bem; minhas
juntas tremem, minha cabeça esquece coisas. Agora posso deixar tudo em suas mãos.
Ajudarei no que puder, mas você é quem vai saber o melhor a fazer. Se quiser vender
Stony Ridge...
— Não! — gritou Persis.
A veemência de seus sentimentos surpreendeu a ela mesma. Afinal, seria uma
solução, daria para pagar uma casa de repouso pelo resto dos dias de tia Cassie.
Mas aquilo não era a solução. Persis sabia que Cassie descia uma ladeira e
afastá-la de Stone Ridge só apressaria o processo, fazendo-a definhar até apagar-se.
Sem sua fazenda ela logo morreria.
— Se eu quisesse vender esta fazenda teria de passar por cima do cadáver do
Hugo. Acho que ele deixou isto bem claro hoje à tarde, titia.
— Aquele Hugo é um teimoso! — comentou a velhinha, com um muxoxo. — Os
MacAllister sempre foram teimosos. Quando a mulher do pai dele morreu, a família queria
criar o Hugo. Mas o velho bateu os pés: "Meu filho vai cuidar de tudo quando eu bater as
botas. Se ele crescer numa cidade não vai aprender o ofício". Não se incomode com o
que Hugo disser. Siga sua própria cabeça.
— Seguirei, tia Cassie. E não quero vender Stony Ridge, mesmo porque concordo
com Hugo: meu coração se partiria ao ver estas colinas cheias de casinholas.
A face da velha se iluminou.
— Fico feliz em ouvir isto, minha filha. — Levantou-se e pegou uma pilha de pratos.
— Sei que sirvo para pouco, mas a verdade é que sempre vivi aqui, desde que Orville me
trouxe como noiva há... sessenta e três anos. Ou sessenta e quatro? — Franziu a testa.
— Sessenta e quatro, eu tinha dezoito anos, era burra como uma galinha! Mas passei a
amar este lugar e não quero morrer numa cama estranha.
— Não se incomode, amor! — E Persis teve de pigarrear, para esconder o choro
na voz. — Eu cuidarei de você e também de Stony Ridge.

Capítulo 3
Persis encarou desafiadoramente os pequenos olhos em conta, cuidando de não
se aproximar muito.
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— Xô! Vá embora!
A velha galinha limitou-se a encará-la de volta e cacarejar em desafio. A moça deu
um passo em direção ao ninho; de imediato a galinha abriu as asas e avançou um pouco,
mostrando alguns ovos em meio à palha.
Levantando os ombros, ela desistiu: sabia reconhecer a galinha maldosa, quando
encontrava uma. Pegando a cesta com ovos dê galinhas menos briguentas, saiu do
galinheiro.
— Apenas oito — disse à tia Cassie, que sentara-se numa cadeira de encosto reto,
junto à bomba d'água já consertada. — Uma das galinhas nem me deixou chegar perto do
ninho e ele estava cheio de ovos.
— Oh, por certo era Caledônia. Ela adora chocar! — Tia Cassie tirava os fios de
enormes vagens, dentro de uma bacia em seu colo, e era difícil acreditar que se tratava
da mesma mulher amedrontada e fraca de uma semana atrás. — Foi mesmo gentileza do
George Godfrey trazer estas vagens.
— Espere até começarmos a nossa colheita, tia!
— Ora, menina, deixe de bobagem, você nunca conseguirá vencer essa luta
sozinha — Cassie olhou o terreno plano, de terra seca e dura —, mesmo que molhasse
essa terra seca durante uma semana!
— Nem pretendo... — Ela fez uma pausa, escutando a própria voz: uma semana
no Missouri e já falava como se tivesse crescido ali. — Vou pedir ajuda. — Mostrou dois
cavalos que pastavam tranqüilamente logo adiante, enquanto Rosebud, a vaca, olhava o
céu, pensativa.
— Eu vi um arado no estábulo, quando fui ordenhar Rosebud.
— Aquela velharia! — Tia Cassie deixou as mãos caírem dentro da bacia. — Se
está pensando em pegar o velho Joe e a velha Lucy, vai ter um belo trabalho. Eu devia ter
vendido esse cavalo e essa égua, mas não queria saber deles indo parar na fábrica de
cola.
— Eles vão trabalhar para pagar o pasto que comem — prometeu Persis. — Nas
pequenas fazendas européias eles não usam todo esse equipamento sofisticado daqui e
vão bem, do mesmo jeito. Acho que puxar um arado pequeno não é demais para dois
cavalos. E uma vez que seu trator está quebrado, não há escolha.
Cassie sacudiu a cabeça, em dúvida.
— Não sei, menina... A verdade é que tenho vivido da pensão que o seguro de
Orville me deixou e mal dá para o dia-a-dia.
— Há maneiras de fazer uma pequena fazenda render, especialmente se não
empatarmos dinheiro em fertilizantes e equipamento sofisticado. Passei uma semana em
lowa, dando seminários, e aproveitei para aprender sobre as fazendas experimentais que
eles têm por lá. Vamos em frente, titia!
Ao menos durante o verão, pensou a jovem. Com a horta produzindo, ovos e
frango, talvez até queijo do leite de Rosebud, agüentariam firme. O que ocorreria no
inverno era um problema para o futuro.
Felizmente, os arreios europeus eram muito semelhantes aos norte-americanos;
com o auxílio de Cassie ela conseguiu atrelar Joe e Lucy ao arado. Eles voltaram seus
enormes olhos para trás, examinando aquela estranha coisa, e Cassie disse que eles
precisariam de antolhos.
— Eles não vão puxar essa coisa se perceberem que está vindo atrás deles —
explicou a velhinha. — Persis, lá em cima do estrado acho que há uns velhos antolhos.
Quando Persis voltou, piscando com o forte sol, encontrou Hugo ao lado de tia
Projeto Revisoras - 17

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Cassie, olhando os animais com um riso reprimido.
— Vejo que Joe e Lucy vão trabalhar... — comentou e mal escondia a diversão.
— Isso mesmo. Já comeram demais de graça. Não quero vagabundos nesta
fazenda.
Cassie terminou por colocar os antolhos nos cavalos e falou-lhes, em voz suave:
— Agora vocês dois vão se comportar. Mostrem a Persis do que são capazes.
Os cavalos mostravam-se desinteressados. Joe recomeçou a comer capim
enquanto Lucy olhava em torno, como se tivesse acabado de chegar na fazenda.
—- Eles parecem... muito atentos! — A voz de Hugo tremia de riso contido.
— Eles são muito mais baratos que um trator usado — replicou Persis, não
resistindo à gozação e se irritando. Depois, dominando-se: — Eu trabalhei em fazendas,
na Provença, e entrevistei os velhos fazendeiros de lá. Não plantam em grande escala, é
verdade, mas nem precisam. Plantam o suficiente para se alimentar e mandar o excedente para o mercado. As únicas máquinas, que alugam entre si, são colhedeiras e
descaroçadores bem antigos. Se funciona lá, por que não aqui?
Hugo sacudiu os ombros, impaciente.
— A economia das fazendas aqui é orientada por um mercado diferente. — Sua
voz soava rude. — Estou competindo com fazendas altamente industrializadas, enormes
corporações que podem agüentar um ou dois anos ruins. Não tenho o luxo de...
Cassie interveio, suave:
— Se você vai usar os cavalos, Persis, é melhor começar logo, antes que eles
decidam que é hora do almoço...
Persis preferia que Hugo desaparecesse, em vez de ficar com aquele sorriso
irônico, olhando-a trabalhar. Claro que ele fazia uma bela figura, com o chapelão de feltro
jogado para trás da cabeça, a calça jeans desbotada e apertada, que mostrava coxas
musculosas.
Ela sacudiu a cabeça para afastar aqueles pensamentos e procurou lembrar-se de
suas experiências, cinco ou seis anos atrás.
— Upa, Joe! Upa, Lucy! Eia, vamos!
Joe e Lucy não pareceram entendê-la. Joe limitou-se a olhar para trás e Lucy
começou a examinar as nuvens do céu.
Persis escutou risadinhas abafadas, atrás de si, mas não se voltou. Deu a volta até
a cabeça dos animais e, um a um, segredou alguma coisa em seus ouvidos.
Desta feita, quando ela sacudiu as rédeas no lombo dos bichos, eles passaram a
arrastar o arado. Quando chegaram ao fim da terra arável, a moça voltou-se, verificou o
sulco retilíneo que traçara e os olhares de sua assistência. Virou os cavalos e recomeçou
a cavar um novo sulco, com palavras de incentivo aos animais.
Tia Cassie quis reviver os velhos tempos e pegou o arado com suas mãos frágeis.
— Ela não deveria estar fazendo isso — comentou Hugo, aflito. — Poderá ter um
enfarte ou coisa assim.
— Na idade dela, tia Cassie ganhou o direito de fazer o que bem entende. Na
verdade ela estava mal nutrida e muito só, Hugo!
Ele deu-lhe uma olhada apreciativa, depois reagiu:
— Ela não me deixava chegar na casa — protestou ele, como se tivesse sido
acusado. — Fiz o melhor que pude, mas não podia ultrapassar a cerca da entrada.
Se alguém tem de se sentir culpado, sou eu. — Suspirou a jov e m . — Deveria ter
voltado anos atrás, em vez de passear pelo mundo. Mas agora sou uma fazendeira!
Projeto Revisoras - 18

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
No momento em que Hugo segurou o braço dela, a moça sentiu que lodo seu
corpo se alertava. Os joelhos pareciam moles e a cabeça um tanto aérea. Ficou de frente
para ele sem querer.
— Você agora é uma fazendeira. Mas por quanto tempo? Até que Cassie esteja
boa, de novo? — As palavras pareciam ser arrancadas de dentro dele. — Ela já parece
bem melhor. Quando acha que sua obrigação terminará?
Ela tentou afastar-se, enfurecida porque ele a cobrava no momento em que
deveria elogiá-la pelo sucesso com o arado.
— Me solte! — exclamou, e ele soltou-lhe o braço, que ela ostensivamente
massageou. Olhou-o, fria. — Isso é entre tia Cassie e eu, nau é mesmo? — Obrigou-se a
não alterar a voz. — Minha obrigação não é da sua conta.
— Eu tenho uma obrigação com Cassie, também. Isso faz com que ambas as
coisas sejam da minha conta.
Ela empertigou-se, rígida.
— Fique tranqüilo, Hugo: quando eu tiver necessidade de você em Stony Ridge,
avisarei. Até então, suma da minha frente! Mexa esse traseiro e vá embora!
Todas as expressões possíveis passaram pelo rosto dele: de surpresa, raiva,
zanga, divertimento...
— Para alguém que passou tanto tempo no estrangeiro, você até que domina bem
a língua pátria — comentou ele, irônico.
— Posso soltar desaforos em cinco línguas diferentes — disse Persis, sem mesmo
saber o que estava falando.
Inspirou profundamente, como se tivesse corrido uma enorme pista de exercícios
ou nadado por longo tempo. Só porque ela podia sentir o calor do corpo dele, a seu lado,
porque sua voz ainda conservava um tom jocoso que provocava calafrios em sua
espinha, não era motivo para perder a cabeça.
— Ótimo resultado com os cavalos! — disse ele, com um tom de carinho na voz. —
Foi isso que falou no ouvido dos animais? Praguejou em sânscrito ou coisa parecida?
— Não. — Ela conseguiu sorrir; se um conseguia fazer aquele jogo, por certo dois
também conseguiriam. — Isso é um segredo egípcio.
— Você é bruxa? — Ele notou que a vermelhidão que lhe invadira as faces estava
desaparecendo. — Fiquei desconfiado disso no lago dos Desejos...
Ela lembrou-se daquele encontro e sentiu uma avalanche de reações. Ele também
lembrava da noite estrelada. Sentiu que enrubescia. Respondeu, dominando a voz:
— Não sou bruxa por nascimento, mas por vocação.
— Pode ter sido uma bruxa, antes — quando ela se virou para pegar o arado ele a
tomou gentilmente por um braço —, mas agora plantou suas raízes aqui. E, quando tentar
ir embora, verá que vai ser muito difícil.
Ele a soltou e se afastou, deixando-a como se tivesse recebido um ultimato.
— Veremos! — murmurou ela, antes de voltar-se para o arado.
Hugo dirigiu a caminhonete pelas estradas poeirentas como se estivesse
concorrendo às quinhentas milhas de Indianápolis. Quando chegou à estradinha principal
parou, perguntando-se por que facilitava, guiando de modo tão perigoso. Inspirou fundo e
relaxou. Como é que Persis conseguia fazer isso com ele?
Retomou o caminho de casa em baixa velocidade. Já havia sido difícil passar
aquela semana voltado para o trabalho, com aquela mulher sempre nos pensamentos.
Ele dissera a si próprio que pararia apenas por um minuto, só para saber se Cassie
Projeto Revisoras - 19

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
estava passando bem. Em vez disso perdera... consultou o relógio, perdera quarenta e
cinco minutos. Se Zeke soubesse onde andava o patrão, por certo o julgaria louco.
Não havia espaço para mulheres em sua vida. Compreendera isso no momento em
que passara a cuidar da fazenda quarenta e oito horas por dia, pois sempre havia muito
para fazer. O fracasso com Barbara devia-se em boa parte a isso. Ela não aceitara
esperar por ele o tempo todo, não havia tolerado o cansaço que não o deixava sair para
bailes ou festas e que o fazia apreciar mais um jornal do que dançar com a esposa. Na
verdade não se importara muito quando ela fora embora, exceto pelo processo de
divórcio, que lhe tomara um tempo precioso. Um fazendeiro depende da natureza, do
governo, dos juros bancários e se ficar também nas mãos de uma mulher, estará perdido.
Lembrou-se dos atraentes quadris de Persis, modelados pela calça jeans, a
camiseta de algodão revelando os seios arredondados, firmes e excitantes. Ele gemeu,
dirigiu a caminhonete pela alameda que levava ao coberto do lado da casa e exclamou,
zangado:
— Saia de minha cabeça, mulher!
Ela sentia dor nas costas e seus cabelos encontravam-se embaçados pela poeira.
Mas o leito para a horta estava arado, pronto, e Joe e Lucy não pareciam muito cansados.
Persis servia-lhes uma ração extra de aveia, quando ouviu a voz de Cassie:
— Queridinha, venha jantar. Eu preparo uns ovos para você e depois a gente
arruma a cozinha.
— Primeiro quero um banho, titia! — respondeu ela. Ensaboou longamente o corpo
cansado, a mente ocupada na solução dos inúmeros problemas que a esperavam.
Jantaram ovos frescos, fritos, vagens e pão caseiro, que Cassie encontrara tempo
para fazer. Persis devorou a refeição simples, declarando que estava à altura do melhor
que a França tinha a oferecer. A tia abriu um sorriso radiante ao ouvir os elogios,
— Tenho a declarar que nunca me senti melhor — afirmou, enquanto tirava a
mesa. — Nesta semana nem tomei q meu tônico! Você tornou-se meu tônico, menina!
Persis engoliu o último pedaço de pão com geléia feita em casa, depois respondeu:
— Fico feliz em saber, titia; mas se o médico receitou um remédio, precisa tomá-lo.
— Não é remédio receitado pelo Dr. Riley. — Cassie parecia chocada com a idéia
de procurar um médico, a menos que estivesse com um pé na cova. — Um viajante
sempre passa por aqui e vende esse tônico. Sempre tomei, religiosamente, mas confesso
que nunca me senti melhor do que agora.
— Então, parece que você não precisa dele... — E a moça levou o resto da louça
para a pia. — Agora é hora de descansar, titia. Eu arrumo o resto.
Quando Persis entrou na sala, encontrou tia Cassie lendo a Bíblia, os lábios
movendo-se silenciosamente. Quando ela terminou, fechou o livro, e disse, com lágrimas
brilhando nos olhos por trás das lentes dos óculos, a voz trêmula:
— Você foi um milagre, minha menina... Há uma semana eu pensava que ia morrer
só, sem ter quem carregasse meu caixão. Agora acho que ainda viverei mais um verão.
Persis aproximou-se e abraçou-a.
— Muito mais que um verão, titia! Vou ficar aqui, com você. Depois de fazer a
velhinha deitar-se, ela ficou andando de um lado para outro, perdida em pensamentos.
Havia trabalho demais na fazenda, para uma só pessoa. As cercas estavam caídas, os
telhados deixavam passar a chuva, a casa precisava de pintura, as terras cultiváveis
jaziam em pleno abandono. Precisaria de auxílio.
Pensou em Hugo e afastou a idéia. Ele seria competente para orientá-la, porém
pelo que havia dito, e pelo que não havia dito, ela compreendera que as coisas não iam
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bem na fazenda dele.
Além de tudo, queria demonstrar que era. auto-suficiente.- Tinha a impressão de
que ele a via como uma mulher frívola, uma intelectual boa para coisa alguma. Ora, sabia
que possuía um bom cérebro, mas nunca se determinara a usá-lo. Não tinha medo de
trabalho físico pesado. Mas precisaria de auxílio, auxílio barato. E de sorte. E de bom
tempo. E de usar a cabeça para transformar o trabalho em lucro.
"É mole", dizia um de seus alunos, na Sorbonne, quando aparecia algum problema.
Riu, tirou a roupa e se espreguiçou. Vai ser duro, pensou, deitando-se. Muito duro!
— Mas você vai engolir suas palavras, Hugo MacAllister! — disse, em voz alta.
De novo o pensamento de que Hugo estava casado voltou-lhe à mente,
perturbando-a. Seria loucura envolver-se com ele romanticamente. Tratava-se de um
fazendeiro que trabalhava trinta e cinco horas por dia e cuja maior preocupação era saber
se conseguiria chegar ao fim do ano sem estar arruinado. Então, por que o fato de Hugo
ser casado não lhe saía da cabeça?
Abriu a boca e virou-se na cama. No dia seguinte perguntaria à tia Cassie sobre a
esposa de Hugo. Enquanto isso... Bem, ninguém é responsável pelo que ocorre nos
sonhos, não é?

Capítulo 4
O professor Nauman ostentava um sorriso brilhante enquanto apertava a mão de
Persis.
— Mas é claro — disse ele, enquanto mostrava uma cadeira para que ela sentasse
—, recebi uma cartinha de seu pai outro dia, dizendo que talvez você aparecesse. Estou
muito interessado no novo livro dele. Acho importante a opinião dele sobre os préhelênicos.
— Papai sempre fala muito bem do senhor... — afirmou a jovem.
Ouvir a opinião de seu pai sobre o professor e, agora, ouvir as opiniões do
professor sobre seu pai, era uma experiência fantástica, uma vez que falavam bem um do
outro, quando ela sabia que gostariam de assassinar-se mutuamente.
— Quer dizer que está morando por perto? — A testa do professor se enrugou. —
Espera ser contratada por nossa universidade? Que eu saiba, jamais tivemos uma
folclorista ou mitologista no nosso corpo docente.
— Não, não — explicou Persis, com paciência. — Não estou procurando uma
vaga, embora pudesse me propor a ensinar latim, grego ou coisa assim. Agora sou
fazendeira.
— Oh, de fato? Seu pai mencionou algo sobre uma fazenda da família. — E a
expressão do professor tornou-se descontraída. — Então, o que deseja?
Aos poucos ela conseguia descrever a situação da tia Cassie em geral e como
esperava que o Departamento de Agricultura oferecesse trabalho prático aos alunos.
O professor Nauman tamborilou os dedos sobre a mesa, pensou por instantes,
depois disse:
— Você deveria falar com a diretora da Secretaria de Agricultura. Ela sabe de tudo,
por lá. Somos muito fechados, cada qual em sua área, e eu pouco saberia informar. Claro,
seria possível colocar anúncios nos quadros de avisos para os estudantes. E também no
quadro de empregados procurados...
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Mas quando Persis falou com a responsável, ficou desanimada.
— Fazenda experimental?— A Sra. Reinsdorf, diretora da Secretaria da Agricultura,
comprimiu os lábios. — A maioria de nossas disciplinas está ligada ao que se poderia
chamar fazendas industriais, que lidam com computadores, genética, apuramento de
sementes... Os garotos, por aqui, desejam aprender um negócio rentável.
— Stony Ridge pretende se tornar um negócio rentável. — A moça mal podia
esconder a irritação. — Não sabe de ninguém que esteja interessado em fazer pequenas
fazendas pagarem-se por si sós?
— Não — respondeu a outra, voltando-se para o painel eletrônico a seu lado e
atendendo a um telefone que piscava histericamente, sem fazer barulho. — Desculpe não
poder ajudá-la, Srta. Whitley...
Pouco depois, Persis se encaminhou para o diretório acadêmico sabendo, por
experiência européia, que só a oferta de trabalho experimental, casa e comida, poderia
atrair estudantes durante as férias. Escreveu num cartão de 10x20 cm, afixou-o entre
outros anúncios no quadro de avisos e se encaminhou para a lanchonete.
Embora as construções fossem diferentes, havia muito em comum entre jovens
americanos e europeus, buscando cultura e profissão. Quando estava na fila da caixa
ouviu alguém dizer seu nome, atrás dela, e voltou-se. O professor Nauman se
aproximava, acompanhado por um rapaz loiro, enorme.
— Persis, querida — disse ele, com entusiasmo. — Aconteceu uma coisa
providencial!
Ela sorriu para ambos, inclinando a cabeça para trás a fim de encarar o sorridente
gigante.
— Posso pagar um café para ambos? — perguntou e eles aceitaram.
Pouco depois encontravam-se acomodados em uma mesa.
— Depois que você saiu da minha sala, consegui a indicação de Levon... Talvez
ele esteja interessado.
O rapaz se inclinou e estendeu-lhe a mão enorme.
— Levon Hass, a seu dispor.
— Você é estudante de agricultura, Levon?
— Não, de poesia. Mas tenho um trabalho publicado sobre Wendell Berry, a
senhora sabe, o poeta que viveu numa fazenda do Kentucky.
— Claro que conheço Berry. Mas você tem experiência de trabalho no campo?
— Não, senhora. — Ele lhe endereçava um gentil olhar que implorava. — Cresci
em St. Louis. Mas aquilo de que Wendell Berry fala me toca no fundo do coração. Eu
quero aprender sobre agricultura, quero viver numa fazenda. Acho que vai dar certo!
Persis avaliou-o num olhar. Pelo menos ele tinha força bruta, isso era óbvio.
— Então, vá a Stony Ridge hoje à tarde. Você dará uma olhada em tudo, verá as
acomodações... Quando souber onde terá que morar não estará mais interessado.
Jantará comigo e, então, poderá decidir,
Levon só faltou ajoelhar-se para agradecer. O professor Nauman , sorria,
encantado, para ambos. Persis voltou para a caminhonete, avaliando as possibilidades.
Se Levon aceitasse, seu problema estaria resolvido. Tinha certeza de poder ensiná-lo, se
ele mostrasse boa vontade.
Voltou a Stony Ridge para o almoço e encontrou tia Cassie descansando no
terraço, pelo jeito exausta por ter feito limpeza no quarto que seria usado pelo
empregado.
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— Você não deveria ter limpado o quarto — repreendeu-a, esquentando a sopa
que restara da noite anterior. — Eu ia fazer isso agora, depois do almoço.
— É bom você dar uma repassada, estava uma nojeira. E o trabalho me faz bem,
me faz sentir viva. — Passou manteiga no pão. — Hoje à tarde vou fazer mais pão. .
— Com este calor? — E Persis se abanava, sentindo o suor correr espinha abaixo.
— Você vai assar também, tia!
— Meus velhos ossos estão adorando o calor. Agora vá trocar de roupa, que eu
lavo os pratos.
Em seu quarto, ela enfiou uma calça jeans e camiseta de algodão. Foi debruçar-se
na janela, sentindo a brisa leve que mal agitava as folhas, olhando a casa dos MacAllister
no alto da outra colina. Hugo não havia mais aparecido, desde o dia em que atrelara Lucy
e Joe ao arado pela primeira vez. De repente resolveu e desceu a escada correndo.
— Tia Cassie! — A velha senhora estava na cozinha, com os movimentos muito
mais firmes do que seis dias antes. — Uma vez você não me escreveu dizendo que Hugo
estava casado?
— Eu escrevi? — A velha senhora voltou-se, disfarçando um sorriso. — É mesmo!
Ele se casou há uns três ou quatro anos. Ou cinco? Menina, você sempre me faz
confundir datas! Pois é, ele se casou com uma das filhas do Dowdy, a Barbara. Muito
bonitinha, mas encrenqueira.
Persis olhava as mãos de Cassie, sardentas e entortadas pela artrite, mas ainda
hábeis na massa de pão.
— E então?
— Então? — Cassie desviou os olhos. — Bem, então um dia ela foi embora. Já faz
uns dois anos. Fugiu com um vendedor de fertilizantes e Hugo se divorciou.
Persis foi para o estábulo, pensando naquela novidade. Sua primeira reação fora
de raiva contra Barbara, por ter recebido o amor de Hugo, para depois rejeitá-lo. Talvez
isso o tivesse tornado mais cauteloso, o que não explicava aquele olhar de desejo em
seus olhos. Entretanto, talvez explicasse por que havia sumido, resistindo à atração que
sentira. E, por alguma razão surpreendente, ela sentia-se ansiosa para ver se quinze
anos depois conseguiria o que o batom e a maquilagem usados quando era garota não
tinham conseguido.
Sorrindo, terminou de arranjar o colchão da cama de empregado, com o qual lutara
pelos últimos minutos até conseguir cobri-lo com um forro limpo. Sentia-se estranhamente
incerta sobre sua relação com Hugo. Havia tido namorados, antes, até mesmo amado
dois deles. Mas nenhum a perturbara tanto. Separar-se de qualquer um dos rapazes não
havia sido traumático, mas percebia que, se permitisse o aprofundamento de sua relação
com Hugo, teria de pagar um alto preço.
É melhor deixar as coisas esfriarem, pensou, relutante. Era o mínimo de bom
senso, quando havia um enorme projeto pela frente. Agora suas energias estavam
voltadas para Stony Ridge e tia Cassie. Com sorte, a eletricidade que se produzia entre
ambos baixaria a zero antes do final do verão.
Mas todos aqueles bons propósitos não impediram que seu coração disparasse ao
ouvir o ruído de um motor se aproximando. Fez a mão em pala, protegendo os olhos do
sol, e encheu-se de decepção. O Volkswagen todo colorido que subia a ladeira parecia
um cruzamento entre a caminhonete dela e uma cesta de frutas. Persis ficou a examinálo, boquiaberta, até que o carrinho parou em meio a uma nuvem de poeira. Uma pessoa
morena e de baixa estatura desceu. Esperava a chegada de Levon, não daquele
estranho.
— Olá! — cumprimentou e recebeu um impacto quando a pessoa voltou-se.
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Tratava-se de uma jovem, de cabelo curto e espetado, mal saída dos vinte anos.
Os olhos emergiam de uma verdadeira poça de maquilagem, mas o sorriso parecia amigo
e sincero.
— Oi! — saudou a moça e estendeu o cartão que Persis deixara na universidade.
— É você quem está procurando ajuda para a fazenda?
— Hum... — murmurou Persis, examinando-a.
— Bem, eu vim pegar o trabalho. Meu nome é Roxie Hughes. — Estendeu à mão,
animada. — Já vou dizendo que nunca encontrei uma vaca que não gostasse de mim.
Persis riu, indagando:
— E quantas vacas já conheceu?
— Para falar a verdade, nenhuma! — Ela nem piscou. — Mas aprendo rápido. Nem
ser humano ou animal me passa para trás.
— Ah... Então é uma estudante do Departamento de Agricultura?
— Não. Sou astrônoma, realmente graduada em astrofísica. — Roxie não parava
de examinar o céu. — Imaginei, e não errei, ao ver seu anúncio, que Stony Ridge deveria
ter um belo céu e pouca iluminação artificial para atrapalhar.
— Atrapalhar o quê?
— O uso de meu telescópio, ora! — E se aproximou do estábulo, como que
atraída. — Alguém mora aí em cima?
— Naquela portinhola, acima do portão, guardamos forragem para os animais.
— Mas acho que haverá lugar para o meu telescópio e eu — disse Roxie, otimista.
— Como a gente sobe?
Persis conduziu-a à escada interna, no estábulo, e logo alcançaram o amplo
espaço superior. Portas enormes abriam-se, em paredes opostas, para o norte e para o
sul.
— Você quer usar o estábulo para quê?
— Como observatório. — Os cabelos espetados brilhavam sob raios de sol que
penetravam por frestas no teto. — Muito melhor do que a universidade tem para oferecer.
Fica no meio da cidade, entre poeira, poluição, luz demais e eu sempre sou sorteada
quando as noites estão com nuvens! — Seus lábios se retorceram em desdém. — Os
homens ficam com os melhores turnos, é claro...
— Mas — e Persis tentou formular a pergunta delicadamente — se passar as
noites observando, como espera trabalhar durante o dia? O trabalho é pesado!
— Não se preocupe! — Ela gesticulou com as mãos, fazendo as pulseiras
tilintarem. — Bastam-me duas horas de sono, desde que eu tinha quinze anos de idade.
Ela falava como se isto tivesse ocorrido há décadas.
Passaram a visitar as instalações, começando pelo galinheiro, o chiqueiro, com um
par de porquinhos que George Godfrey mandara de presente, e é claro, Lucy, Joe e
Rosebud, no pasto. Roxie parecia muito à vontade, mesmo quando Joe pressionou-a
contra a cerca, procurando algo de comer em seus bolsos. Não parava de fazer
perguntas, deixando Persis atordoada.
A última coisa a fazer seria apresentá-la à tia Cassie e a jovem preparou-se para
um evento histórico. A velha senhora acabava de tirar os pães do forno quando se voltou
e arregalou os olhos ao ver a estudante.
— Santa terra de Deus! Não me diga que já chegamos ao dia das bruxas!
Numa única e rápida olhada, Roxie percebeu os móveis antigos, o fogão à lenha, a
mesa de madeira crua. Cheirou a fragrância do pão recém-assado e abriu aquele sorriso
Projeto Revisoras - 24

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amigo que contrastava com o rostinho quase sempre sério.
— Prazer, dona! — disse, alegre. — Posso experimentar o pão? Persis
apresentou-as, percebendo o olhar espantado de Cassie, ao comentar:
— Ora, ora, mocinha. Posso saber para que serve essa coisa em seu rosto? Você
ficou com cara de galinha maluca!
— Mesmo? — deliciou-se Roxie. — É só maquilagem. — Deu a volta na mesa,
aproximando-se dos pães. — Uso assim para afastar os homens.
— Não diga! —Tia Cassie voltou-se para Persis, com olhar desalentado.
— Roxie vai nos ajudar, tia. Em troca, poderá instalar seu telescópio no alto do
estábulo. Acho que Rosebud não vai se importar, já que aceitou a companhia de Joe e
Lucy.
— Telescópio? E você olha o que no telescópio, mocinha? — Quis saber tia
Cassie.
Roxie havia pego a faca de pão e servia-se de uma fatia generosa.
— Estrelas — respondeu, já com a boca cheia. — A nebulosa em espiral.
Atualmente ando examinando um segmento da galáxia que apresenta um belo grupo de
estrelas.
Cassie sorria, vendo o pão com manteiga ser devorado com prazer pela recémchegada.
— Você, magra como um pau de virar tripas, mocinha. — Riu a tia. — Acho que
comida caseira vai lhe fazer bem.
— Inacreditável a perfeição deste lugar! — exclamou Roxie. — Um horizonte
imenso, nenhuma poluição luminosa, comida caseira e sem homem para infernizar a vida!
Persis franziu a testa. O dormitório apresentaria problemas, uma vez que ela não
podia imaginar Roxie e Levon no mesmo quarto. Ou no dela. Nesse momento outro ruído
de motor se fez notar.
— Deve ser Levon — comentou.
— Levon? — Roxie franziu a testa. — Um homem?
— Parece que sim — disse Persis, secamente. — Não cheguei a examinar direito...
— Cuidado com a língua, menina! — admoestou tia Cassie. — É aquele rapaz
sobre o qual falou durante o almoço?
— Alô! — disse uma voz masculina, atrás da porta de tela. — A Persis está?
— Entre, Levon.
Ele obedeceu e parou logo, cheirando o ar, olhando o pão, tia Cassie e, por fim, a
careta de hostilidade de Roxie. O sorriso morreu-lhe no rosto.
— Levon, esta é minha tia-avó, Cassie Whitley, e nossa companheira, Roxie
Hughes. Ela é astrônoma e vai usar o alto do estábulo para seu telescópio.
Persis percebeu que falava tensa, preenchendo o ar com palavras, antes que
Roxie o fizesse com xingamentos contra os homens. Tia Cassie olhava o jovem com ar de
aprovação e falou, por fim:
— Puxe uma cadeira, menino. E coma uma fatia de pão. Está mais fresco que um
recém-nascido!
Levon aceitou a fatia e engoliu-a num piscar de olhos.
— Puxa, está ótimo! — O sorriso voltou-lhe ao rosto.
Persis olhou para Roxie e percebeu que seu esgar se transformara num olhar de
moderado desgosto.
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— Venha comigo, Roxie — disse-lhe, então. — Vou mostrar seu quarto.
Havia mais um quarto, em frente ao dela, no segundo andar. Empoeirado e sem
móveis, uma lâmpada nua pendendo do teto, o aposento recebeu o exame de Roxie, que
não fez comentários.
— O quarto lá fora, ao lado do estábulo, tem sido usado pelos nossos empregados,
mas imagino quê você não queira ficar com o Levon.
Roxie fez um ruído horroroso, depois exclamou:
— Claro que não! Este é ótimo para mim.
— Que bom que gostou! — Sorriu Persis, satisfeita. — Lá embaixo temos móveis
para encher duas casas. Amanhã a gente trás alguns para cá. Roxie a encarou,dizendo:
— Bem que você poderia se livrar do Gigante Gentil... Persis ficou curiosa:
— O que você tem contra os homens, Roxie?
A jovem hesitou e, por fim, deixou-se cair no chão, sentando-se com as pernas
cruzadas, para explicar:
— Eles pensam que são superiores e, no fundo, são uns otários. Uma dupla de
caretas, lá do laboratório de física, simplesmente... Ora, vamos dizer apenas que eles não
acham justo uma mulher lidar com o espectrofotômetro. — Fez um gesto vago. — É por
isso que me visto assim, assusta-os.
— Bem, acho que você já assustou o Levon, portanto não capriche demais —
avisou-a Persis, rindo. — Eu preciso daqueles músculos.
Roxie fez um ruído de desagrado.
— Sério, Roxie! — insistiu a outra. — Ele tem tanto direito quanto você de estar
aqui. Ainda mais que está interessado não apenas em nosso firmamento!
Roxie acabou por sorrir.
— OK. Não enfio o garfo nele se ele não botar as mãos em mim.
Persis não via a menor possibilidade de Levon se aproximar daqueles cabelos
eriçados. E naquela mesma tarde, depois de arrumar seu quarto, ele carregou alguns
móveis escada acima, para o quarto de Roxie, sob as ordens dela.
Mas por volta da hora do jantar ele se rebelou, caindo na poltrona da sala,
encarando sua atormentadora e dizendo que não carregaria mais nada. Com um suspiro
Roxie subiu para terminar a arrumação. Quando Cassie começou a servir o jantar,
ouviram um carro se aproximando. Era a caminhonete de Hugo. Persis reconheceu o ruído de imediato, diante do sorriso triunfal de Cassie.
— Sua arteira! Você o convidou para o jantar, titia! — exclamou a jovem, agitando
um dedo para a velha senhora.
— Claro que sim! — Cassie foi até o fogão e tirou o frango do forno. — Telefonei
para pedir uma cama de casal emprestada, que eu sei que ele tem, e convidei para jantar.
Persis não conseguiu evitar o sorriso que lhe iluminou o rosto. Abriu a porta e
quase foi atropelada por Hugo, que trazia um colchão de casal nos ombros.
— Onde eu ponho? — indagou ele, atrapalhado.
Seus olhares se encontraram e o sorriso se abriu ainda mais no rosto da jovem.
Ele voltou a olhá-la com ar faminto, ansioso.
— Lá em cima... — murmurou ela e foi andando à frente dele, para orientá-lo.

Capítulo 5
Projeto Revisoras - 26

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Quando Hugo entrou na cozinha, carregando o enorme colchão, Levon deu um
salto, indagando:
— Senhor, posso ajudar?
— Não precisa — respondeu Hugo, arfando um pouco. Parou e olhou o novo
personagem, voltando-se, por fim, para Persis, com ar interrogador.
— Hugo, este é Levon Hass, meu novo empregado — disse ela.
— Prazer em conhecê-lo, senhor — adiantou-se Levon,
— Por que não vai pegar o estrado, na caminhonete de Hugo? — sugeriu ela.
E enquanto o gigante saía rapidamente porta a fora, ela auxiliou Hugo com o
colchão, escada acima.
— Ali — indicou, apontando o quarto da astrônoma.
Roxie punha as roupas no armário, quando Hugo entrou. Ele parou, olhou-a e
piscou, confuso. Segurando o riso, Persis a apresentou e explicou:
— Roxie também vai nos ajudar na fazenda e, em paga, nós vamos deixá-la usar
seu telescópio.
— Astrônoma, hein? — Hugo olhou-a com ceticismo. — E que telescópio está
usando?
Roxie respondeu-lhe, como fazia a todo homem, com mal disfarçada hostilidade:
— Um que eu mesma construí. Tem um refletor de dez polegadas, ocular de busca
e relojoaria equatorial. É tão bom quanto aquela porcaria da universidade.
Hugo encarou-a, calado, por instantes. Depois comentou:
— Parece bom... Persis, posso conversar com você antes do jantar? Ela o teria
levado a seu quarto, porém as paredes eram muito finas para garantir privacidade.
Desceram e foram para o terraço.
— Olhe... — Ele enfiou os dedos nos cabelos. — Onde você arranjou esses dois?
Mal têm idade para votar!
— Talvez Levon nem vote ainda. Mas a Roxie já passou dos vinte.
São estudantes, vão ter casa e comida em troca de trabalho. Ele mal acreditava
em seus ouvidos.
— Você está doida! Precisa de mão-de-obra especializada, alguém que toque a
fazenda. Aqueles dois não sabem nem onde fica o traseiro de uma vaca!
— Vão aprender. Aqui estava eu toda contente por ter conseguido mão-de-obra
pelo preço de casa e comida, chega você e acaba com meu ego dessa maneira
destrutiva!
Ele passou um braço nos ombros dela.
— Eu não queria desencorajar. Mas esse garoto leva jeito de comer uma tonelada
por dia e, sem orientação, você vai se ver em confusões...
Persis se desvencilhou dele.
— Acho que a Roxie tem razão sobre os homens! Sei exatamente o que estou
fazendo, Hugo MacAllister!
— Calma, dona! — pediu ele, pacífico. — Prometo engolir minhas palavras se não
tiver razão. Só não quero vê-la afundar.
— Não vou afundar. E quando você engolir as palavras vai ter de admitir que não
Sou idiota!
Cassie chamou-os para o jantar e eles sentaram-se em lado opostos da mesa. O
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jantar foi muito divertido, com Levon educadamente tentando puxar prosa com Roxie e
sendo eficientemente recusado. Tia Cassie divertia-se com o jeito da moça, mas gostava
muito de Levon, especialmente da maneira como devorava sua comida.
— Você come para valer, menino! Tome —. e passou-lhe a travessa —, pegue
mais empadinha.
— Sua comida está uma delícia, Cassie! — elogiou Hugo. — Eu trouxe a
sobremesa.
— Gentileza sua, Hugo; Só fiz uma simples salada de frutas.
— O que você trouxe? — indagou Roxie, terminando a terceira empada e sem
mostras de desistir tão cedo.
Persis observava suas duas aquisições com uma ponta de preocupação; parecia
que Hugo estava com a razão: comiam de modo assustador!
— Uma embalagem de morango com creme de chantilly. A esposa de Zeke, Zeke é
meu administrador, aproveitou o creme de leite que andou sobrando.
— Que delícia! Nossa desnatadeira está quebrada — comentou Persis. — Preciso
consertá-la para fazer creme e manteiga.
— Eu conserto! — Roxie e Levon falaram ao mesmo tempo.
— Eu... eu já trabalhei numa garagem. Sei mecânica — acrescentou o rapaz,
olhando a moça do cabelo espetado.
— E eu já construí motores, desde o rolamento! — rebateu ela. Antes que uma
discussão estourasse, Persis comentou:,
— Onde está a super sobremesa, afinal das contas?
Ao fim do jantar, adoçada pelo creme, Roxie terminou por aceitar a oferta de Levon
de ajudá-la a instalar o equipamento no estábulo.
Hugo prontificou-se a ajudar a lavar a louça, enquanto tia Cassie descansava em
sua cadeira de balanço. Cansara-se bastante e, pouco depois, não precisou ser
convencida a ir para a cama.
Quando ficaram a sós, Hugo pegou a mão de Persis, pedindo:
— Vamos comigo, até em casa. Deixo a caminhonete e, depois, acompanho você a
pé, até a metade do caminho.
Contente de que ele desejasse sua companhia, a moça concordou.
Saíram, admirando a noite estrelada; havia luz no estábulo e ouvia-se a voz de
Roxie provocando Levon. Inspirando fundo Persis sentiu o cheiro de grama recém-cortada
e o odor quente dos animais no estábulo. Subiu na caminhonete, ao lado de Hugo,
sorrindo.
— Que há de engraçado? — Ele desviou os olhos do caminho para fitá-la.
— Estava pensando em Roxie, se vai agüentar o cheiro dos animais a noite toda.
— Ela nem vai sentir — predisse Hugo. — É uma durona e não permitirá que tal
coisa atrapalhe.
Persis pensou no velho Dermott, pai de Hugo, um homem durão sem muito humor,
mas que tratava seus animais com muita gentileza. Ela percebera, várias vezes, uma
expressão de profunda ternura no rosto dele ao olhar para o filho, quando pensava não
estar sendo observado.
— Fiquei pesarosa quando soube da morte de seu pai — disse, baixinho.
— Foi uma liberação para ele. — Hugo dirigia a caminhonete com cuidado na
estradinha esburacada. — Nos últimos dois anos de vida a artrite o maltratou muito.
— Zeke continua sendo seu administrador, então?
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Ela mantinha a conversa para diminuir a tensão que permeava a cabina, criada
pelo isolamento e a proximidade de seus corpos.
— Pois é... Zeke nunca vai se aposentar. Mary mandou-lhe um abraço e
lembranças...
— Diga-lhe que o creme de chantilly estava divino.
A moça ajeitou-se no assento. Hugo dirigia estrada acima e pouco depois
chegavam à casa dos MacAllister. A lua estava em quarto minguante e Persis murmuroulhe boas-vindas em grego. Hugo endireitou-se a seu lado.
— Que foi isso? Um encantamento de bruxa?
— Milhares de anos mais velho que isso. É de Safo. A lua está se escondendo,
assim como as plêiades.
— Quando eu a vi acampada junto ao lago você falava com a lua... Ela sentiu-se
pouco à vontade.
— É um hábito meu e parece que era de Safo, também. Ela costumava falar sobre
a lua, muito mais que os homens de seu tempo. — Pensou por momentos e traduziu o
que dissera naquela noite, em grego: — "As estrelas ao redor da bela lua escondem suas
formas luminosas quando ela, em seu esplendor, clareia o mundo". É mais ou menos
assim, traduzido.
Ele ficou maravilhado; jamais imaginara que um dia estaria na colina, junto de sua
casa, numa noite morna e cálida, com a mulher mais desejável que já conhecera
murmurando uma poesia em grego a seu lado.
— Você... você quer entrar? — perguntou, instantes depois. Ela pensou um pouco
e sacudiu a cabeça.
— Acho... acho que seria perigoso.
Ele deu-lhe o braço e conduziu-a, ao redor da casa, até o lado voltado para o lago
dos Desejos.
— Perigoso? — indagou, sorrindo. — E eu pensava que você não temia coisa
alguma! Persis, o bravo. Não havia um grego com esse nome?
Ela suspirou.
— Era Perseu, que dominou a Medusa. Mas existiu uma Persis, que foi mártir
cristã ou coisa assim. Em grego, Persis também significa persa.
Chegaram ao lago e Hugo parou, comentando:
— Só sei que o nome tem o mesmo encanto que você. Ela sorriu, com ar
brincalhão.
— Você está virando poeta, Hugo!
— Quero beijá-la.
Ele falou como se as palavras escapassem de seus lábios, puxou-a para si e ela
não resistiu.
— Um beijo — suspirou a moça. — Eu também quero, mas mudará tudo entre nós,
Hugo.
— Sim, eu sei... — admitiu ele, abaixando a cabeça para encontrar-lhe os lábios.
— Mudará tudo.
, A boca de Persis era suave, como ele sabia que seria, e doce; mais doce do que
o perfume da madressilva que permeava o ar. E a doçura o capturou, fazendo-o
abandonar qualquer cuidado. Segurou-a contra si, os suaves seios, o ventre macio
moldando-se a ele, aceitando-o, torturando-o. Hugo sentiu que poderia até devorá-la, para
que se tornassem um único ser, unidos para sempre.
Projeto Revisoras - 29

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
Um som rouco, como gemido de fera escapou-lhe da garganta e, com esforço, ele
abandonou a boca ardente e afastou-a, obrigando-se a largá-la.
— Eu não... não a machuquei? — indagou, ofegante. Ela se abandonou em seus
braços.
— Nunca me beijaram assim, Hugo! — sussurrou, trêmula. Ele afastou-lhe o
cabelo do rosto e seus dedos alisaram os fios de
seda ondulados.
— Não deveria ter feito isso... — disse, com angústia. Ela se afastou um pouco,
com uma ruga na testa.
— Por que não?
— Porque mudou tudo, mesmo. Agora eu a desejo ainda mais e tenho de torná-la
minha.
Ela ficara imóvel, mas ele sentiu que se afastara. De repente, Hugo teve a
impressão de que era a deusa dos mitos, que precisava de liberdade, que não queria ser
possuída. Enquanto ela o olhava, as estrelas brilhando em seus olhos, o rosto bonito,
espelhava tristeza.
— Desejo? — murmurou ela. — Tem de haver algo mais do que simples desejo,
Hugo. — Um lento e doloroso sorriso se espraiou em seus lábios. — Você descobrirá,
com o tempo. — Então, o sorriso terno se transformou num sorriso moleque. — Enquanto
isso, temos de esfriar um pouco. Eu, pelo menos, tenho.
— Persis... — começou ele.
Mas ela já corria em direção do lago. Parou junto da água, chutou os sapatos para
o lado e, supôs ele, em deferência à sua presença não tirou a blusa. Mas pôde bem
perceber a silhueta das longas pernas. A pele dela era como a de lírios brancos sob a luz
contida das estrelas.
— Você vem? — A voz de Persis soou estranha em meio à noite. Ele podia ver o
brilho suave de seu corpo flutuando no escuro da água. "As estrelas ao redor da bela
lua..." Ele sacudiu a cabeça, como alguém acordando de um encantamento.
— N-não, esta noite não. — Sua voz saiu com dificuldade. — Acho que vou voltar.
E girou, afastando-se com passos duros e convictos, fazendo de conta que não
ouvira o desafio que ela gritara: "Covardão!". Ele também precisava de água fria, gelada
até, mas não com o corpo de Persis, nadando ao lado do seu. Mesmo água gelada junto
dela não seria suficientemente gelada.
Sob os dedos de Persis as tenras cenourinhas pareciam delicadas penas retiradas
da terra. Tratando das plantas, a moça murmurava docemente para si e para as
plantinhas, enquanto as transplantava para a horta. Atrás dela dois terços do terreno
mostravam o resultado do carinhoso trabalho.
O sol, por enquanto, aquecia-lhe agradavelmente os ombros, prenunciando um
meio-dia insuportável. A chuva que caíra antes do dia nascer tornara o ar agradável e
cheio de fragrâncias. Ela parou, esticou as costas e sentiu a manhã, desde o alto da
colina. Da cozinha chegava o ruído do trabalho de tia Cassie, que preparava uma batelada de geléia de morangos. A plantação, embora abandonada, produzira o suficiente
para o consumo doméstico.
Levon saíra cedo, para a universidade, enquanto Roxie, pelo jeito menos aflita
quanto às aulas, ficara mexendo no motor da desnatadeira.
Persis voltou ao trabalho. Era uma delícia não ter mais, há um mês, aquela
angústia de ver tudo atrasado. Desde os últimos quinze dias, quando os dois ajudantes
haviam começado, o trabalho era feito com tamanha presteza, que ela podia ir para a
Projeto Revisoras - 30

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horta bem cedo, enquanto estava fresco. A única nuvem em seu horizonte chamava-se
Hugo, ou melhor, o beijo de Hugo.
No momento em que deixara plantadas as rúculas e chegara às beterrabas, havia
se acalmado. Afinal, não estava disposta a se comprometer com ele pelo resto da vida.
Casamento... A palavra ficou em sua mente por alguns instantes. Ele não era
homem de se envolver em romances de férias. Com ele o casamento era a seqüência
natural do amor, porém amor, decidiu ela, era algo que não levara em conta até aquele
dia. O amor a tornaria fraca, em vez de forte, limitando os pensamentos a si própria,
esquecendo o mundo ao redor. E toda essa preocupação porque amor, parecia-lhe, era a
seqüência natural com Hugo.
Roxie surgiu do estábulo com um imenso sorriso nos lábios, gritando:
— Está consertada! Venha me ajudar a instalá-la na sala dos laticínios.
Mal haviam colocado as coisas no lugar, uma sombra escureceu a porta de
entrada. Persis não precisou se virar para saber de quem se tratava.
— Alô — disse ela, friamente, sem se voltar, e Roxie não foi mais entusiasta.
— Interrompi conversa de mulher? — indagou Hugo, aproximando-se do balcão,
com as sobrancelhas levantadas.
— Qual nada! — Sorriu Persis. — íamos testar a habilidade mecânica de Roxie.
Ligou o motor na tomada, acionando o interruptor. O motor girou, barulhento, sob o
sorriso da estudante.
— O que faço agora? — indagou a moça, toda animada. Persis contou-lhe como
saber quando a manteiga estaria pronta e saiu do barracão, acompanhada por Hugo.
— Parece que eles estão aprendendo... E sua horta está uma beleza.
— Obrigada — respondeu ela, suspeitando dos elogios.
— Mas por que os vegetais ficaram tão pequeninos?
— Porque vão ficar exatamente assim. Pretendo vender esses mini vegetais em St.
Louis, onde há mercado para plantas sem adubos artificiais e inseticidas.
— Como é? Você endoidou de vez! As pestes e os caramujos vão acabar com tudo
isso em um dia!
— Perderei um pouco — concordou Persis —, mas o que sobrar será mais
saboroso e bom para a saúde.
— Espero que tenha boa sorte. Esse negócio de plantar rúcula... Parece comida de
Drácula, além do sangue, claro!
— Saia da minha horta, seu odiento homem! — Ela empurrou-o portão a fora. —
Se quiser ser útil, ao menos venha pegar ovos comigo.
No barracão contíguo ao galinheiro, onde estavam estocados os ovos, ela parou e
voltou-se para ele.
— Por que não fica para o almoço e come uma omelete conosco?
— Gostaria — disse o rapaz, deixando os olhos percorrer-lhe o rosto, fazendo-a
enrubescer e os lábios comicharem.
— Hugo, por que não me beijou de novo? — perguntou ela, por fim.
Ele sorriu só com os lábios, os olhos tristes e sérios.
— Eu poderia devolver, fazer a mesma pergunta...
— Quer dizer... — Encarou-o um tanto perplexa. — Quer que eu o beije?
— Oh, sim! E muito!
— Escute... — Ela mordeu os lábios, desviando o olhar. — Eu sei que somos
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amigos. Ao menos espero que sejamos. Mas amigos não querem se beijar e... e eu, ao
menos, quero sim.
E de repente o corpo dele estava mais próximo do corpo ansioso de Persis.
— Nós nunca fomos apenas amigos — disse ele e eliminou o espaço que os
separava, com um passo.
Ela colocou a cesta de ovos no chão e segurou-lhe o rosto com ambas as mãos,
pousando os lábios nos dele, fazendo seu desejo saltar em chama desesperada quando
sentiu-lhes o calor envolvente. Persis sentia um prazer doloroso que a percorria inteira,
enquanto suas bocas experimentavam uma doçura inacreditável.
Hugo deixou as mãos escorregarem para levantá-la de encontro a si, fazendo-a
sentir que a desejava. O desejo parecia derreter-lhe as virilhas. Envolveu-a com um braço
e, com a outra mão, segurou-lhe um seio. Apertou-o gentilmente e ela teve de fechar os
olhos devido à sensação diferente de prazer que se apoderou de seu corpo.
Ele inspirou fundo e disse, com voz trêmula:
— Lugar errado; hora errada.
Também tremendo, ela deixou-o pousá-la no chão.
— Que houve, Hugo? — perguntou, num fio de voz. Ele passou a mão nos
cabelos.
— Não sei. Mas acho que isto não é jeito de sermos amigos.
— Eu estou com medo. — Persis não compreendeu por que essas palavras
haviam saído de sua boca.
— É muito forte, definitivo... — Ele fitou-lhe os olhos. — Você está pensando em
casamento?
— Não estou pensando em nada! — revoltou-se ela. — Eu... eu já tenho tudo que
preciso.
— Você "tinha" tudo que precisava — corrigiu-a, alisando-lhe os cabelos macios. —
O que está sentindo por mim prova que jamais teve tudo que queria.
Ela se afastou, saindo para o sol e piscando com a súbita iluminação. Mas ainda
conseguiu ouvi-lo murmurar:
— E que eu também não tive...

Capítulo 6
Com o auxílio dos dois estudantes, o trabalho da fazenda seguiu em frente. Levon
conseguira remendar as cercas e fazer consertos em telhados, janelas, paredes. Roxie
ajudava na plantação, cuidava do galinheiro e dos animais. O jardim, junto da casa,
voltara a florescer e as rosas agradeciam o estrume dos cavalos.
Persis acabava de plantar mais um canteiro quando ouviu o ruído de um carro
estranho, que estava totalmente empoeirado e não era nada novo. Estacionou ao lado de
seu furgão e dele desceu um homem com uma maleta negra. Ela levantou-se para
cumprimentá-lo.
— Boa tarde, moça! — disse ele, quando ela se aproximou. —Este lugarzinho
melhorou um bocado, desde a última visita. A dona Whitley está?
— Está descansando — replicou Persis; havia algo naquele homem que a
desgostava, talvez os olhares rápidos que lançava para todas as novidades. — Posso
ajudar?
Projeto Revisoras - 32

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— Eu trouxe uma nova partida de tônico. — E estendeu um embrulho.
— Acho que ela não quer mais — replicou Persis, mal olhando o embrulho.
— Pois é... As pessoas de idade ficam assim às vezes. Têm idéias diferentes. Se
está cuidando dela vai gostar dos efeitos deste tônico...
— Não percebi efeito algum — disse Persis, conservando o rosto neutro.
— Eu sempre vendi por aqui e por ali... — Acenou com o queixo na direção da
casa dos MacAllister. — Meus fregueses juram que o tônico é bom. Deixa os velhos
felizes e quietinhos... — E endereçou-lhe um olhar cúmplice.
— O que há nesse tônico?
— É puro como pode ser pura qualquer coisa. Remédio de ervas para a cabeça...
Lentamente Persis devolveu-lhe a caixa que ele lhe dera, após ter buscado bula,
sem resultado.
O homem estendeu-lhe um cartão.
— Sempre que precisar de mim, é só telefonar. — O sorriso que lhe endereçou foi
um dos mais desagradáveis que ela já vira.
Muito tempo depois que o carro se afastara, Persis continuava a olhar na direção
da poeira levantada, pensativa.
Hugo ficou olhando a terra, desanimado. Estavam perdendo solo cultivável numa
rapidez medonha.
— Nesse andar — comentou Zeke, a seu lado — logo, logo vamos fabricar telha e
tijolos, seu Hugo. É melhor plantar algo que recupere o solo. Esta terra está fraca,
secando...
Há pouco tempo ele estaria se preocupando, dia e noite, em como recuperar a
terra; hoje, mal conseguia desviar o pensamento de Persis. Ela era demais. E como era
fácil para um homem apaixonar-se por ela!, dizia a si mesmo.
Tinha certeza que amor não era algo que já tivesse entrado nos pensamentos dela;
ele não passava de um companheiro que se tornara desejável. Será que Persis trataria
seus desejos com a mesma simplicidade com que se desnudava? Não sabia e nem
queria saber. Desejava-a de tal forma que não aceitava pensar no assunto.
Passara a ter alucinações, vendo-a subir a colina em direção à sua casa, os
ombros retos, o porte elegante, fazendo seu coração disparar como o de um adolescente.
Então, percebeu que não era uma alucinação.
— Persis! — Procurou, de imediato, disfarçar a alegria com que gritara seu nome.
— Hugo — começou ela, sem preâmbulos, estendendo-lhe um cartão de visita —,
você conhece este sujeito?
Ele examinou-o e devolveu-o.
— Não me parece familiar. O que ele vende?
— Tônico. — Os lábios se tornaram um traço fino. — De acordo com ele, um
remédio que deixa os velhos quietinhos e plácidos, Hugo, por acaso você não... Isto é,
seu pai esteve doente por longo tempo.!.
Seu primeiro impulso foi ficar furioso com ela.
— É claro que não! Os últimos trás anos de papai foram numa cadeira de rodas,
mas ainda mandava em tudo aqui.
— Bem... — Ela ficou vermelha. — Não quis dizer que... Ora, ele me disse que
tinha um freguês aqui. Pensei...
— Então, não pense!
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Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
Num ímpeto puxou-a para si e beijou-a, de início com voracidade, depois com
ternura. Desviou a boca para a sedosa pele de seu rosto e, então, para um local
especialmente macio, logo abaixo da orelha, e acariciou-o com a ponta da língua. Ela
gemeu, envolvendo-lhe o pescoço com os braços, abrindo os olhos, revelando todo o
desejo que lhe ia por dentro.
— Nós podíamos ir para o meu quarto...
Hugo falou com simplicidade, mas não ficou surpreso quando percebeu a paixão
morrer nos olhos dela. Sacudiu a cabeça.
— Não. Eu não vim aqui para...
— Para brincar de pegar o touro a unha? — O riso modificou o brilho dos olhos
dele.
— Nem para ver sua coleção de borboletas! — ela brincou, também. Em vez de
beijá-la de novo, como era seu desejo, ele limitou-se a passar um braço por seus ombros
e dirigi-la à cozinha.
— Deixe-me oferecer-lhe uma limonada — disse, procurando se acalmar. — Ela
fitou-lhe demoradamente os olhos e ele falou rindo: — Juro que não haverá novos
ataques. Ao menos, não hoje.
A moça passou um braço pela cintura dele e acompanhou-o, perguntando:
— Mas, algum dia?...
Ele controlou o tumulto que lhe ia no íntimo.
— Exato. O que você diria de ser... conquistada?
— Depende. — Parando à porta da cozinha, voltou a olhá-lo dentro dos olhos. —
Depende do que acontecer por isso, depende de para onde nos levar...
— Aonde sempre leva...
Ele não desejava que suas palavras fossem carregadas de emoção, mas foram. E,
lembrando-se de Barbara, sentiu dúvida; não confiava mais em seu julgamento sobre as
mulheres.
Persis era diferente, disto tinha certeza. Mas esse fato não garantia que pudessem
viver juntos pelo resto de suas vidas, tal como seus pais haviam vivido.
— Um cavalheiro de verdade oferece limonada para sua dama. Você aceita? —
indagou, galante, ao entrarem na cozinha.
Ela tentou libertar-se daquele olhar. Inacreditável como o simples olhar dele podia
fazer uma mulher querer mais, muito mais.
Lembrava-se da casa dos MacAllister há muitos anos. Havia mudado bastante,
notou, enquanto sentava-se à mesa. Os eletrodomésticos eram modernos, o piso de
linóleo havia sido substituído por placas de cerâmica e os armários eram um projeto
francês. Hugo percebeu o exame e explicou:
— Barbara é que reformou tudo. O resto da casa é ainda pior. Nunca me importei,
porque fico pouco dentro dela. As mobílias, ela levou...
Persis recordava como era a casa com o pai e ele; a esposa de Zeke, Mary,
tomava conta de tudo e a impressão era de um lar sem alma. Conforme as coisas iam se
quebrando, o velho Dermott mandava para o despejo, tornando os ambientes cada vez
mais nus.
A solidão dele a invadiu e procurou dissipá-la.
— Quer jantar conosco? — As palavras saíram abruptamente e ela tentou
consertar. — A curiosidade de Levon chegou além do que eu sei. Preciso de ajuda.
Ele a olhou por um instante e ela não soube interpretar aquele olhar. Então, o
Projeto Revisoras - 34

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rapaz sorriu e Persis sentiu que sua respiração se alterava.
— Obrigado. Quero sim... — respondeu ele, por fim.
Ela levou de volta aquele sorriso e ficou com ele durante o entardecer, assobiando
alegremente. No final da tarde carregava urna cesta cheia dos vegetais miniatura e entrou
na cozinha, encontrando Cassie recém-acordada da sesta.
— Hugo vem jantar, titia — disse, com ar alegre.
— Vem? — indagou a senhora, olhando uma revista de modas e aparentemente
não prestando atenção. — Há um vestido aqui, feito para você. Chama-se "Encontro
Romântico"...
Persis fingiu não ter notado a ironia e respondeu:
— Já me imaginou limpando o galinheiro com ele? Hoje eu farei o jantar, tia.
— Deixe, menina, que eu mesma faço.
— A senhora já passou a manhã orientando aqueles dois trogloditas no manejo do
arado. Chegaram a se matar?
— Para falar a verdade, a Roxie não tem altura para colocar o freio no Joe. O
cavalo jogava a cabeça para cima e a menina ficava pulando como uma mosca em cima
de um cachorro...! — Começou a rir. — Aí o Levon chegou e atrelou Joe na hora, o que a
deixou fumegando por uma boa meia hora. Depois, ela começou a rir e ele tam bém,
fizeram as pazes.
— Você está cansada de omelete, titia?
— Cansada? Ando até sonhando com um bom presunto defumado!
— Mas hoje teremos uma fritada ou um souflé, acompanhado da primeira colheita
de meus vegetais. Vocês é que serão os juízes, antes que eu os ofereça à venda.
— Quer que eu ajude, então, querida? — Animou-se a velha senhora.
Trabalharam juntas, preparando o alho, pimentõezinhos, cenourinhas, cebolinhas e
cogumelos. Persis aqueceu óleo de oliva na enorme frigideira de ferro e colocou os
vegetais.
— Bravo! — saudou Hugo, recostado no umbral da porta, sorrindo com
perturbadora familiaridade. — Até parece que você também possui diploma de cozinha
francesa!
Ela tirou a panela do fogo e cobriu-a com uma tampa, enquanto retrucava:
— Quando se freqüenta a cozinha, aprende-se a cozinhar.
— Então, eu deveria ser um chef — argumentou ele, pegando um dos vegetais e
saboreando-o. — Oba, como é saboroso! — E apurando o ouvido. — Os dois estão
chegando.
Persis examinou o ponto da fritada, juntou os vegetais fumegantes. Roxie e Levon
entraram, avermelhados pelo calor e algo desanimados de cansaço.
Sentados à mesa verificaram que os vegetais estavam maravilhosos e que a fritada
possuía uma textura rica e cremosa.
— Que jantar! — comentou Roxie, no terceiro prato, pegando mais pão. — São os
nossos vegetais?
— Sim — disse Persis, orgulhosa. — Vocês não acham que estamos prontos para
enfrentar a concorrência?
— Nunca pensei em comer algo tão... pequeno! — maravilhou-se Hugo,
examinando uma mini cenoura, antes de colocá-la na boca.
— São uma variedade apropriada. Amadurecem rápido e, com a repetição do
plantio, você não pára de colhê-las.
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— Mas dá uma trabalheira!
— Não, durante o calor. Basta semeá-las; a germinação é excelente. É só, a cada
final de tarde, não esquecer de lançar mais sementes.
— E onde vai vender os vegetais? — interveio Levon. — Jamais vi isto em
supermercados.
— Vou à St. Louis e venderei pelo preço máximo de vegetais "naturais". — Persis
lançou um olhar desafiador para Hugo por sobre a mesa. — Já consultei a respeito, os
responsáveis pelas cozinhas dos melhores restaurantes naturalistas. Amanhã visitarei o
primeiro.
Hugo foi o primeiro a falar:
— Bem... Boa sorte! — E seu sorriso era sincero. — Estarei torcendo por vocês.
E todos sabiam que ele ia torcer, mesmo.

Capítulo 7
Persis dirigiu pela auto-estrada, por cerca de cento e quarenta quilômetros, até St.
Louis, na área chamada West End.
Levon havia lhe dado algumas indicações vagas sobre os restaurantes elegantes
recentemente instalados naquele bairro. Chez Duchenay era um dos que lhe pareciam
mais propícios.
No dia anterior ela havia pintado Lillybelle, com a ajuda de Roxie e Levon. Embora
tivesse imaginado apenas tornar o furgão mais respeitável, a verdade é que o castanhoescuro havia valorizado as linhas do veículo. Roxie havia demonstrado inesperada
habilidade em desenhar letras e, nas portas, Lillybelle anunciava um elegante: "Demeter's
Gardens".
Nesse dia, Persis levantara cedo, colhera amostras de sua horta e, conservandoas em tabuleiros de madeira sobre gelo, acomodara-as na traseira da caminhonete.
Seguindo as indicações, deixou a auto-estrada e seguiu por largas avenidas, onde
graciosas e antigas construções ladeavam o caminho, em meio a arranha-céus de
escritórios. Chez Duchenay ficava numa esquina, as enormes janelas protegidas por
quebra-sol de lona e uma ampla porta de vidro e bronze. Ela entrou pela lateral que
levava à porta de serviço e estacionou a caminhonete.
Quando entrou, viu-se numa ampla despensa. Uma mulher acabava de fechar a
porta de um congelador e, ao se afastar com uma pilha de pratos, quase os derrubou.
Persis adiantou-se e salvou-a do acidente, segurando os que iam cair.
— Obrigada — disse a pequena mulher, por trás da pilha de congelados. Tinha os
cabelos tingidos de ruivo. — Traga os congelados para cá, por favor.
Persis seguiu-a até a cozinha enorme, super iluminada pela luz do dia que entrava
pelo telhado de vidro. Homens e mulheres, nos tradicionais uniformes brancos,
trabalhavam. A pequena mulher depositou a carga em cima de uma mesa e voltou-se,
sorrindo.
— Eu sou Selina Duchenay. No que posso ajudá-la?
A jovem gostou do sorriso amigo que a outra lhe endereçara e retribuiu, ao
responder:
— Conversei, antes de ontem, com o supervisor da cozinha. Sou da Fornecedora
de Vegetais Demeter's Gardens.
Projeto Revisoras - 36

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— Oh, sim. Nome interessante. — E Selina apontou as embalagens plásticas. —
Eu ia precisamente inspecionar nossos vegetais. Gostaria de ver seus produtos.
Persis levou-a até a caminhonete. Sua insegurança diminuiu conforme ia erguendo
a coberta de cada tabuleiro, um por vez. Seus mini vegetais pareciam pequenas jóias
acondicionadas sobre a madeira.
Selina pegou uma pequena vagem e mordeu-a. Então, experimentou uma
cenourinha e sua face mostrava curiosidade e agrado. Passou a fazer perguntas sobre o
tipo de terra, adubo, se usava defensivo agrícola, ao que ela ia respondendo com alegria
e orgulho.
— Esta mercadoria é maravilhosa, como tenho certeza que você sabe — comentou
por fim. — Minha preocupação é com a continuidade do fornecimento, que às vezes falha
quando a gente muda de produtor.
— Entendo o que quer dizer — respondeu Persis. — Mas tenho intenção de ir em
frente. A fazenda é de minha família há anos a fio e pretendo mantê-la produtiva.
A mulher pegou um dos tabuleiros e dirigiu-se à despensa, enquanto dizia:
— Não adianta se preocupar com o futuro. Vamos entrar e discutir as bases do
negócio. — Pegou os vegetais e pesou-os numa delicada balança. — Não vamos discutir,
pago o preço máximo de cada vegetal, pela tabela. O que mais tem para vender? E
quando pode fazer a próxima entrega?
Persis limitava-se a olhar, algo zonza, Selina e seu auxiliar, Alberto, esvaziando os
tabuleiros.
— Eu... não sei — conseguiu dizer, por fim. — Pensava em fazer outros contatos
ainda hoje.
Selina deu-lhe um olhar especulativo.
— Já entendi... Se eu for sua cliente exclusiva combinaremos um preço maior, é
claro — explicou, animada. — Isso vai dar um ataque cardíaco no Gascon, do Mont
Michel. Ele vive se queixando que os tomates têm gosto de formicida...
Hesitando, ainda, Persis argumentou:
— Veja, eu tenho um acre de terra em produção intensiva. Não posso jogar fora o
que sobrar.
— Queridinha — Selina sorria, os olhos brilhando —, se você me garante esta
qualidade, usarei toda sua produção, nem que precise abrir outra casa. Para encerrar a
discussão: eu pagarei quinze por cento acima do preço máximo da tabela. Que me diz?
A boca da jovem ficara aberta e sem possibilidade de movimentação. Conseguiu
gaguejar, por fim:
— Qui-qui-quinze... por cento?
A dona do restaurante ficou impaciente:
— Você é muito durona. Está bem: eu pago vinte!
Quando já haviam combinado datas de entrega e pagamento, apertaram-se as
mãos. Selina preencheu um cheque pela entrega do dia e, depois, levou-a por uma porta
que dava entrada ao restaurante.
— Vou almoçar mais cedo, algo leve... Você me acompanha.
Ela não convidara ou perguntara. Decidira, simplesmente. Dirigiu-se a uma moça
vestida como os demais, exceto pela calça, que era estampada em branco e preto
indicando uma chef de cuisine em aperfeiçoamento:
— Betsy, sirva-me o usual. Mas em dobro.
— Já começou a comer por dois? — brincou a moça. Persis encarou a proprietária,
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interrogativamente.
— Ela é minha cunhada. Gosta de brincar...
— Mas quer dizer que você está grávida?
— Sim e é uma das razões pelas quais fiquei contente com seu aparecimento.
Preciso comer do melhor nesta fase. E sua produção parece integralmente saudável.
Persis riu, comentando:
—- Neste caso, estou feliz. Vou alimentar seu bebê com o melhor que produzir.
Quando deixou o restaurante, sentia-se fazendo parte do cenário de comércio e
produção. Com sua primeira e modesta contribuição, esta noite os clientes do Chez
Duchenay estariam consumindo deliciosas hortaliças em miniatura.
Isso a deixava satisfeita, porém o cheque no bolso era ainda melhor. Ela pararia
em Piney Creek para abrir uma conta em nome de Demeter's Gardens e, ainda assim,
chegaria em casa antes do esperado.
Os planos sucediam-se em sua cabeça quando pegou a auto-estrada. A primeira
coisa que gostaria de fazer seria construir uma estufa junto da casa. Dessa maneira,
poderia manter o cultivo durante o ano todo.
Hugo ficou absolutamente quieto por uns momentos, observando Persis na horta.
Intrigado pelo que ela parecia murmurar, aproximou-se em absoluto silêncio e escutou-a
dizendo, meiga:
— Tudo bem, minhas lindezas. Vocês são os brotinhos mais tenros que eu jamais
vi em minha vida. E vão crescer como a comidinha mais deliciosa do mundo.
Não controlando a ternura que sentiu por ela naquele momento, ele se aproximou
mais, chamando-lhe a atenção. A jovem não o esperava, o que ficou claro pela
exclamação:
— Hugo! —. No momento seguinte ela se fechou e voltou a atenção, de novo para
as plantinhas. — Você me assustou, chegando tão quieto...
Ele pigarreou antes de conseguir falar:
— Eu queria ouvir o que você dizia às plantas. O que conseguiu realizar em um
mês e meio é surpreendente!
— E já tenho um cliente — disse ela, com simplicidade, continuando seu trabalho
de transplantar os brotos.
— E quem é?
Escutou com atenção enquanto ela lhe contava sobre a viagem a St. Louis, sem
interromper seu trabalho na terra. Não conseguia evitar uma sensação de orgulho,
embora esse sentimento o surpreendesse.
— O que o trás aqui, Hugo? Sei quê não tem tempo a perder... — comentou, com
suavidade.
O rapaz ajoelhou-se ao lado dela, enquanto terminava o seu trabalho.
— Para falar a verdade, eu tenho umas duas desculpas para estar aqui.
— E quais são?
Ele fitou-a com tanta intensidade que a moça chegou a corar e desviar os olhos.
— Acho que você mencionou alguém no Departamento de Agricultura de Iowa, que
está fazendo um trabalho sobre erosão.
— Se quiser, posso lhe dar alguns nomes do pessoal de lá. É gente boa, atenciosa.
— Quero, sim. — Ele afastou-lhe o cabelo do rosto num gesto de ternura. — Zeke
e eu não sabemos mais o que fazer, para que a chuva e o riacho não acabem com nossa
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terra.
— Venha comigo — disse ela, tirando as luvas.
Levou-o ao seu quarto, onde a escrivaninha encontrava-se coberta de papéis.
Embora estivesse ali há pouco tempo, Persis já havia deixado sua marca indelével,
notou Hugo. Um pôster da Grécia enfeitava uma das paredes; uma tapeçaria de cores
alegres erguia-se atrás da escrivaninha; uma foto de seus pais, em moldura recoberta de
couro, estava em outra parede. Ao lado da cama, em cima de uma mesinha,
acompanhada de um toca-fitas e um livro, uma ferradura completava estranhamente a
cena.
— Alguém perdeu isto? — indagou, pegando a ferradura. Persis terminou de anotar
o endereço e, olhando, respondeu:
— Lucy, enquanto ela e Levon aravam, hoje pela manhã. O George Godfrey ainda
trabalha como ferreiro?
— Você continua usando cavalos para arar? — Ele olhou-a, pasmo. — Eu tenho
um velho trator que está para alugar e...
— Não preciso — respondeu ela, sorrindo. — Os cavalos estão fazendo tudo que
preciso e, melhor ainda, não compactam a terra como um pesado trator o faz.
— Cavalos comem. A menos que você plante também para alimentá-los.
— Esse será o segundo passo. Já tenho milho e a Roxie está começando a plantar
aveia.
Ele sacudiu a cabeça.
— Não nesta época do ano. Não vai brotar.
— Veremos... — teimou a moça. — Acho que ainda dá tempo.
— Bem — concedeu ele —, de qualquer forma você vai precisar de sorte, tal como
com a sua horta.
— Não preciso de sorte; preciso de trabalho duro e não tenho medo de trabalhar.
Ele se aproximou, admirando o rosto amorenado pelo sol, e segurou-a pelos
ombros.
' Ela passou a língua nervosamente pelos lábios, depois indagou, com voz incerta:
— O que mais veio fazer aqui, Hugo?
O rapaz puxou-a para si, sentiu-a trêmula e, ao mesmo tempo, percebeu que
também tremia de ansiedade. Usou as mãos, em vez de palavras, para acalmá-la, como
teria feito com um animalzinho assustado. Seus lábios encontraram o tenro espaço abaixo
de sua orelha e o gemido que escapou da garganta dela foi recebido entre os lábios, pela
boca de Hugo, exigente, faminta.
Fundiram-se num beijo cheio de fogo, de paixão, os dedos finos de Persis
enfiando-se entre os cabelos de Hugo, as mãos dele retirando a blusa de dentro da calça
dela e acariciando a pele sedosa. Ela se arrepiou e ele repetiu beijos ardentes em sua
boca, em seu pescoço, sentindo a necessidade de fazê-la gemer e arrepiar-se de novo.
Afastou-a de si, fitando-a, emudecido pela paixão que seus lábios trêmulos e
úmidos denunciavam, pelos olhos escurecidos do desejo que ela despertava. Em toda
sua vida, apesar das mulheres que conhecera, mesmo aquela com a qual convivera,
jamais pensara que um sentimento tão avassalador fosse possível.
— Persis, se eu ficar mais um minuto neste quarto vou levá-la para aquela cama!
— disse, com a voz enrouquecida.
Ela riu e, desprendendo-se dos braços dele, correu para a porta.
— O último a chegar lá embaixo é um tonto! Hugo se surpreendeu com o ultraje
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que sentiu.
— Sua danada! Isso não vale!
Disparou atrás dela para, segundos depois, encontrá-la ofegante, mas com cara
inocente, sentada na cozinha ao lado de tia Cassie. Fitou-o com os olhos verdes
resplandecentes.
— Ora, Hugo! Pelo jeito esqueceu de trazer o livro que lhe emprestei — reclamou,
com ironia.
— Você ainda vai me pagar! — murmurou ele, controlando a custo a respiração.
A moça sabia bem como teria de pagar...
Ao final da tarde ela sentou-se no terraço e, sentindo ao mesmo tempo o frescor do
ar e a quentura que sua pele guardara do sol inclemente, escreveu uma simpática carta
para os pais. Quando os grilos começaram a sinfonia sincopada, teve uma idéia. Subiu
correndo a seu quarto, pegou uma toalha de banho e parou na porta do quarto de Roxie.
— Quer ir dar um mergulho no lago dos Desejos?
A estudante ergueu os olhos, tentada, depois perguntou:
— O Levon vai?
— Não. Só para mulheres. Não estou levando maio...
Roxie pareceu ainda mais interessada, porém, pensando um pouco, resolveu em
contrário:
— Não. Se não terminar este trabalho hoje ficarei atrás dos meus colegas.
Obrigada, outra vez eu vou.
A suave claridade do pôr-do-sol ainda era suficiente para se ver o caminho, colina
abaixo, até onde o lago rebrilhava. Poucas estrelas apareciam, tímidas, enquanto a lua
começava a nascer.
Ela deixou cair a toalha e tirou a roupa. Enquanto caminhava nua até a água,
sentia-se insubstancial na magia do crepúsculo, nada mais do que uma sombra entre
outras.
A água pareceu fria contra sua pele, como se fosse uma seda líquida. Nadou até o
centro do lago, saboreando a sensação. Quando se voltou para a margem percebeu um
vulto se movimentando. Por instantes sentiu o primitivo pânico de uma mulher
surpreendida nua. Então, reconheceu no vulto o perfil de Hugo.
— Você parece uma ninfa — disse ele, em voz baixa, mas ela ouviu perfeitamente
no silêncio reinante.
— Eu sou uma ninfa. Você não havia percebido?
Sentia-se mergulhada ao mesmo tempo na água fria e num sonho maravilhoso.
— Eu sabia... — riu ele, abrindo a fivela do cinto.
— Você não sabe o que acontece com os mortais que mantêm relação com uma
ninfa? — ameaçou ela, forçando uma expressão que julgava ser ameaçadora.
— Vou me arriscar.
Ele tirou as botas e a calça. Na luz fraca, cambiante, seu rosto estava escondido,
mas ela podia adivinhar os olhos dele presos em seu corpo nu flutuando na água.
— Não deve ser pior do que ficar só olhando a ninfa, a distância... — completou
ele.
Persis passou a perceber o corpo dele também nu e seus sentimentos oscilavam
entre a excitação e o alarme.
O mais difícil era conservar-se no centro do lago sem ceder ao impulso de nadar a
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seu encontro. Ele mergulhou nas águas escuras e ela controlou-se, até que sua cabeça
emergiu ao seu lado. O sol já se pusera e o luar tingia tudo de prata.
— Noite linda para nadar — comentou ele, as gotas prateadas escorrendo pelo
rosto.
— Há cheiro de chuva no ar — comentou ela e ambos se voltaram para examinar o
céu no lado oeste.
— Se chover forte sua última plantação vai sofrer...
Persis aquiesceu, achando difícil pensar em plantação com Flugo totalmente nu a
seu lado. A frieza líquida pouco fazia por aquietar seu desejo ardente. Num momento,
tudo mostrou-se terrivelmente engraçado e ela estourou na risada, depois conseguiu
dizer:
— Na Europa há milhares de praias de nudismo, você sabe! Os pais levam os
filhos... é considerado saudável.
Ele também ria, mas, aos poucos, seu rosto ficou sério.
— Saudável é algo em que penso ao ver seu corpo nu. — E sua voz abaixou de
tom. — Eu a desejo tanto que chega a doer!
Foram se aproximando, lentos, até que as peles se tocaram. Ele envolveu-a num
abraço, mas ela escapou deixando que apenas os bicos de seus seios encostassem no
peito musculoso. O gemido de tormento que Hugo deixou escapar atiçou as chamas que
lhe iam por dentro e ela sentiu-se ainda mais obrigada a atormentá-lo. Aproximou-se de
novo, deixou os eriçados mamilos roçarem nele e mordiscou-lhe o ombro.
— Sua feiticeira!
Desta vez ele abraçou-a, fazendo-a sentir sua masculinidade potente. As enormes
mãos calosas se apoderaram gentilmente de seu corpo, mostrando-lhe como ele a
desejava e fazendo-a murmurar:
— Hugo, não estou com proteção!
Ele ficou imóvel por um momento. Então, uma das mãos dele tomou conta de um
seio, acariciando o mamilo, com possessivo instinto.
— Ainda assim a gente pode fazer amor — disse ele e ela se arrepiou toda, em
prazer. — Vou lhe mostrar.
Ele a conservou flutuando, as mãos brincando com seu corpo, excitando-a. Ela
passou os dedos pelos planos musculosos de seu peito, embaraçando-os nos pêlos
molhados. Abaixo da superfície, encontrou o duro testemunho do desejo de Hugo, e
acariciou-o, retribuindo as sensações que ele lhe provocava com os lábios e as mãos.
Misturando os seus gemidos de clímax com os dele, deixou-se embalar num abraço
íntimo, enquanto lutavam para controlar a respiração alterada.
— Persis — murmurou ele, por fim —, se isto era só uma amostra... mal posso
esperar pelo espetáculo principal.
Ela riu, abraçando-o ainda mais intimamente e respondendo:
— Na próxima vez a gente monta melhor o cenário. Ele beijou-lhe os cabelos
molhados na testa.
— Você é mesmo uma bruxa! Antigamente eles jogavam uma mulher suspeita de
bruxaria num lago. Se fosse feiticeira ela afundaria, se não, flutuaria e teria direito a viver.
E, erguendo-a com insuspeitada reserva de força, jogou-a adiante, no meio d'água.
Ela emergiu cuspindo e, furiosa, atacou-o com os punhos. Ele se defendeu pelo simples
expediente de afastá-la com um braço. Por mais que se esforçasse, ela não conseguia
atingi-lo.
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— Olhe só! É feiticeira mesmo! Afundou! — E Hugo afundou-a, rindo.
— Vou te mostrar quem é que afunda! — berrou ela, ao voltar à tona.
Então, mergulhou, segurou-o por uma perna por baixo d'água e girou sobre si
mesma, derrubando-o. Depois, prudente, afastou-se nadando a toda velocidade para a
margem.
No último instante ele a alcançou, segurou-a pela coxa, aproximou-se e murmurou
em seu ouvido:
— Agora eu poderia afogá-la!
— Pique! Estou no pique! — gritou ela, sem fôlego, rindo. — E estou morrendo de
frio.
— Vou esquentá-la, então...
— Não duvido — respondeu a moça e afastou as mãos sequiosas de seu corpo.
Nisso ouviram o grito de Roxie:
— Olá, vocês aí! Ouvi dizer que era só para mulheres!
— Hugo é um penetra inesperado! — gritou Persis, mal contendo o riso.
— Pelas tartarugas chifrudas! — gemeu Hugo. — Por que não avisou que ela viria?
— Como é? Se esse cara vai ficar, eu vou embora! — ameaçou Roxie.
— OK. — gritou ele, de volta. — Vou embora!
E, nadando para onde havia deixado as roupas, a pouco mais de três metros de
Roxie, ele saiu da água com naturalidade européia e pegou a toalha de Persis, enrolandoa na cintura.
— Espere aí! Essa é minha toalha! — gritou ela.
— Amanhã você a pega de volta...
Roxie acompanhou-o com o olhar, voltou o rosto para Persis e tornou a olhar o
homem que se afastava.
— Esse cara aí tem uma calma! E é um espetáculo, Persis!
— Para quem gosta de grandões musculosos... — respondeu a outra, como se não
gostasse.
Roxie tirou a roupa, mergulhou na água fria e, chegando ao lado da amiga,
comentou:
— Espere aí, eu não sou cega! Reconheço um homem bonito quando vejo um!
Embora isso seja raro...
Persis acompanhou-lhe o olhar na escuridão onde Hugo desaparecera e não
respondeu. Nadaram calmamente, em silêncio, até que a brisa da noite as fez sair do lago
e ir para casa.

Capítulo 8
A chuva começou pela madrugada, de início mansa, mas aumentou de
intensidade. Depois do desjejum, Persis foi examinar a horta. Esperava ver as folhas
arreadas, mas achava que responderiam, crescendo com maior intensidade, àquela
chuvinha gostosa. Junto à cerca, Levon não parecia tão contente.
— A chuva levou a metade... — murmurou ele, um dos pés no fio de arame
farpado, sem olhá-la.
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— Tudo bem, tudo bem. — Ela levantou as mãos, como frente a uma arma de
fogo. — Eu me entrego. Reconheço que você tinha razão em não querer começar o
plantio na área mais baixa.
A aveia plantada no terreno mais alto parecia nada ter sofrido, porém a terra que
cobria as sementes nos terrenos mais baixos haviam sido levadas para dentro do regato
Piney Creek. A verdade é que o tempo, no Missouri, era imprevisível. Viu que tinha muito
a aprender sobre plantio de cereais.
Quando voltaram para casa, Hugo vinha subindo a colina e ela abriu um sorriso.
— Não precisava correr para devolver a toalha... Ele deu um sorriso sem graça.
— A verdade é que me esqueci da toalha. — E olhou para trás como se esperasse
que ela o tivesse acompanhado, voando. — Eu só vim para... Quer dizer, eu preciso de
ajuda.
— De nós? — Persis piscou, aturdida. — Como podemos ajudá-lo?
— Bem... meu trator... ele atolou — as palavras saíam com dificuldade. —
Precisamos cortar a alfafa o quanto antes. O rádio prevê mais chuva para hoje à noite.
Persis olhou o céu, preocupada; não colocaria sequer mais uma semente para ser
levada pela água.
— Você está querendo Joe e Lucy para desatolar o trator, é isso? — indagou,
voltando os olhos para ele.
— Se for possível — respondeu Hugo, em voz sumida. — Eu poderia tentar com a
caminhonete, mas o Zeke acha que também acabaria atolada. Claro que a parelha
poderá não conseguir nada...
— Claro que a parelha vai conseguir! — interveio Levon, indignado. — O trator
afundou demais?
— Não. O Zeke logo percebeu que não ia dar e não piorou as coisas, forçando
inutilmente.
Levon afastou-se, sem mais uma palavra, e foi pegar os cavalos. Hugo coçou a
cabeça, ainda sem jeito.
— Aprecio o que estão fazendo. Eu... Bem, tenho forragem sobrando e posso
mandar para vocês. Não se preocupe por ter perdido a plantação de aveia.
Persis deu-lhe um soco brincalhão nas costelas.
— Deixe pra lá, vizinho! Só não atole os cavalos e nem esqueça minha toalha.
Ainda rindo, ela apanhou a cesta de ovos e foi para a porta do galinheiro. Uma a
uma, as galinhas foram descendo a rampa, em busca do terreiro e dos insetos que
voejavam. Por último surgiu Caledônia, andando com evidente orgulho, seguida por seis
pintinhos.
— Pintinhos!- — gritou Persis. — Parabéns, Caledônia!
— Parabéns, titia! — repetiu ela, quando entrou na cozinha. — Você é vovó!
— O quê? O que andou fazendo, menina? — Tia Cassie olhou-a, preocupada.
— Caledônia é a orgulhosa mãe de seis pintinhos.
Foi um grupo calado que se reuniu aquela noite na cozinha, antes do jantar.
Mesmo o bom humor de Levon desaparecera. Joe e Lucy tinham dado tudo de si para
desatolar o trator de Hugo e haviam precisado descansar o resto do dia, enquanto o rapaz
consertava as cercas.
— Acho que vamos precisar de outra parelha. Joe e Lucy não agüentam trabalho
pesado e temos muito ainda pela frente... — comentou ele, preocupado.
Persis suspirou, vendo dificuldades pela frente. Roxie estava irritada com a chuva,
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era o terceiro dia de céu nublado; volta e meia ia até a porta da cozinha olhar o céu. O ar
estava carregado de umidade, pesado.
— Todo mundo na mesa! — ordenou Persis.
Ia fazer as omeletes que exigiam uma série de pratinhos com cogumelos, cebola,
queijo, cebolinha e temperos picadinhos.
— Ora, ora! — comentou tia Cassie. — Vejam quem está aqui!
Hugo ficara postado do outro lado da porta de tela, hesitando em entrar.
— Eu sabia que era hora do jantar... — admitiu ele, estendendo uma toalha
dobrada. — Mas achei que se comer pouquinho e depois ajudar com os pratos...
— Você é sempre bem-vindo para o jantar — disse Persis e abriu-lhe a porta. —
Só não pode se queixar de comer ovos... É o que estamos comendo, nos últimos dias.
— Por mim está ótimo — respondeu ele. — Olá, Levon. Obrigado de novo pela
ajuda com os cavalos.
— Nem pense. Mas eu estava dizendo para Persis que precisamos de outra
parelha. Essa já deu o que tinha.
— O que é isso, Levon? Você não fala mais como um rapaz da cidade... —
comentou Persis, estranhando o linguajar e o sotaque do rapaz.
— É que... Bem, eu tenho visitado o velho Sr. Godfrey quando posso... — contou
ele, embaraçado. — Ah... levei a Lucy para ferrar de novo. Ele é um bom ferreiro.
Cassie concordou:
— E é ótima pessoa para conversar.
— E Annette, a filha dele, está passando férias aqui... — insinuou Hugo com um
traço de ironia — Moça bonita, aquela!
Levon ficou mais vermelho que um pimentão.
— Eu... bem... Não tinha percebido.
Persis salvou-o, servindo-lhe a primeira omelete. Logo seguiram-se as demais e a
conversa, em torno da mesa, generalizou-se. Hugo sentara-se a seu lado e bem poderiam
começar uma brincadeira de encostar joelhos. Mas depois da experiência da noite
anterior, que mais aguçara o desejo deles, qualquer contato entre os dois seria vulcânico.
Roxie levantou-se e foi olhar o céu, mais uma vez. Comentou:
— Agora não falta muito!
Quase imediatamente o som de um trovão seguiu um relâmpago e, segundos
após, a chuva começou a tamborilar no telhado.
— Bem, se não se importam — disse Hugo —, eu ficarei mais um pouco.
— Claro que não — admitiu Persis. — Que tal uma chocolatada? Roxie adiantouse, pegou o leite e o chocolate. Mas ficaram parados, como que hipnotizados pela chuva,
em silêncio.
— A gente podia ir ao cinema, na cidade — propôs Levon.
— Não acho boa idéia — contrapôs Hugo. — Aquela ponte lá embaixo às vezes é
arrastada pela correnteza.
— Você não é contadora de histórias, Persis? — interveio Roxie. — Bem que podia
nos contar uma.
Hugo concordou, animado:
— Não posso nem imaginar como é que uma contadora de histórias sobrevive no
mundo de hoje.
— Sobrevive muito bem — sorriu ela e ficou um tanto pensativa. Dali a instantes,
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começou: — Um milhão de anos atrás, antes que os homens dominassem o mundo, as
pessoas eram governadas pela Rainha Metis, que vivia com a irmã mais jovem, a
princesa, e com sua sábia avó.
Sua voz tomara a cadência envolvente dos contadores de história.
— Naquelas terras era costume que, a cada doze meses, no início do ano, a rainha
Metis escolhesse um rei, pois o povo sabia que sem rei os campos não seriam férteis.
Durante um ano o rei governava com a rainha, algumas vezes usando seu manto para
julgar as questões menores entre súditos e oficiando festivais e cerimônias. No fim do
ano, ele se doava aos campos, regando-o com seu sangue, para torná-los férteis.
A audiência permanecia imóvel. Persis tomou um gole de água, o olhar
percorrendo tudo. Roxie estava ao lado do fogão, a chocolateira esquecida atrás dela, e a
moça prosseguiu:
— De um longínquo lugar chegou um estranho chamado Zeus. Era pessoa tão
diferente que perturbou Metis e quando foi o momento de escolher um novo rei, ela o
escolheu. Zeus passou a usar o manto e a julgar as questões entre os homens. Logo ele
começou a exigir, a ter voz ativa junto aos mais importantes mistérios de arar e plantar, do
nascimento e oferendas. E a rainha foi cedendo.
Um silêncio profundo reinou até ela tornar a falar:
— Ao final do ano, quando por direito o sangue dele deveria ser derramado sobre a
terra, Zeus persuadiu-a de que seria mais útil vivo do que morto. E a rainha Metis admitiuo. Aos poucos, passou a preocupar-se com o filho que tivera com Zeus e a deixar que ele
usasse- seu manto mais e mais vezes.
Fez uma pausa, depois continuou:
— O povo se queixou. A colheita foi pobre, porque nenhum rei havia doado seu
sangue à terra. A rainha acabou por determinar que, no final desse novo ano, Zeus
derramaria seu sangue. Na verdade, ela começara a achá-lo mandão e teimoso,
resmungão como um velho avô. No seu país, dizia ele, os homens não se diminuíam
assim... Zeus enviou mensageiros secretos à sua terra e, aos poucos, mais e mais
homens mandões chegaram ao reinado de Metis. Antes que ela pudesse tomar
providências, haviam se apoderado de tudo e acabaram proclamando Zeus como o
verdadeiro Rei.
Persis sorriu de maneira conspiradora, olhou em torno de si e voltou a narrar:
— É claro que Metis não podia concordar com isso! Orgulhosamente, declarou que
o sangue dos invasores seria ótimo para as colheitas do ano seguinte. Mas seu povo não
estava acostumado a empunhar armas. Zeus ganhou a batalha e Metis fugiu. No reinado
deixado para trás, os homens assumiram o poder. Cedo o povo esqueceu que havia sido
dirigido pelos movimentos da lua e pela mudança das estações, trabalhando a terra, e
deixou-se dirigir para a guerra e para a luta.
Persis calou-se, diante do olhar e do silêncio atento, então retomou a história:
— Mas as mulheres que haviam acompanhado Metis, a rainha, se estabeleceram
em outro local e não mais exigiram o sacrifício anual do rei ou dos poucos homens que as
haviam acompanhado. Em vez disso, ofereciam frutos aos campos nas estações
apropriadas. Com o passar do tempo, vieram a ser conhecidas como as amazonas. E
agora, quando as mulheres começam a sofrer o mando dos homens, lembram-se das
distantes terras de Metis e sonham em voltar a serem dirigidas pelas fases da lua e pelas
estações do ano...
Roxie encantada, aplaudiu:
— Lindo! Como é que a gente chega nessa terra? Eu vou na frente.
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— Que lindinha! — murmurou Levon, que ultimamente estava sofrendo um bocado
com os sarcasmos da moça.
— Cuidadinho, moço! O próximo rei a ser sacrificado pode ser você! — ameaçou
ela.
— Crianças, crianças! — interpôs Persis. — Minhas histórias são para divertir e
não para criar confusão.
— Só de castigo — comentou tia Cassie, séria —, vocês, briguentos, ficarão
lavando os pratos e arrumando tudo! — E dedicou-se à leitura de sua Bíblia.
Hugo acompanhou Persis à varanda, pois apesar da chuva não fazia frio. O ar
estava úmido e o perfume das rosas invadia tudo. Ele aproximou-se e enlaçou-a por trás.
Ela deixou a cabeça repousar sobre o peito dele.
— É aquilo que você pensa sobre homens e mulheres? Que nós só servimos como
fertilizantes? — E as mãos dele colocaram-se logo abaixo dos seios dela, atormentandoa.
— É apenas uma história grega, um mito um pouco modificado. Movimentando-se
um nadinha, ela acomodou os quadris junto ao baixo-ventre dele e descobriu que Hugo
fora afetado pela proximidade.
Persis desejava aquelas mãos em seus seios, apesar de que a janela, logo atrás
deles, lembrava a presença de tia Cassie.
Ela girou para abraçá-lo de frente e Hugo mergulhou o rosto nos cabelos macios e
perfumados, acariciando-a gentilmente, sem tentar inflamá-la.
— Persis... Eu adoro abraçar você, mas, se não parar com esta intimidade, eu
vou... — Passou uma das mãos nos seios dela. — Eu bem percebi! Você está sem sutiã!
Quer me deixar doido, é?
Ele gemeu profundamente, apertou-a contra si, depois afastou-se a custo, dizendo:
— Estou precisando de um passeio na chuva.
Ela acariciou-lhe o rosto, a boca ansiosa por um beijo, mas ele tomou-lhe a mão e
beijou-a.
— Tal como eu disse, estou ficando doido! — murmurou. Foi até os degraus da
varanda, voltou-se e sorriu. — Só estou indo embora porque não pude ir até a farmácia e
você é tentação demais.
— Eu? — ela indignou-se.— E o que você acha desse seu jeans apertadinho, que
deixa ver tudo? Também é uma tentação para mim!
Os olhos dele brilharam, gratificados e, sem se incomodar com a camisa já
encharcada pela chuva, ficou parado, admirando-a.
— Persis, se quer saber, eu também não me deixaria matar depois de viver um ano
com você... como Zeus com Metis. A vida inteira seria pouco para mim!
E no momento seguinte enfrentava a chuva pesada, deixando Persis com uma
noite de sonhos que fariam enrubescer tia Cassie, se ela soubesse.

Capítulo 9
A chuva parou, deixando dias seguidos de umidade e calor que fizeram as plantas
crescerem magnificamente. O milho, plantado duas semanas após o de Hugo, estava da
mesma altura. Apesar do chapéu de abas largas, o rosto de Persis estava moreno-jambo.
A principal responsabilidade de Roxie, além de auxiliar na horta, era com os
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porquinhos. Parecia adorar alimentá-los pela manhã, e ao entardecer, e divertira-se à
beça ajudando Levon a transformar uma velha banheira numa espécie de piscina para os
animais. Ver os porquinhos, que se chamavam Biff e Muff, apreciando o frescor da água
no meio do dia quente, fazia Hugo dobrar de rir,
Levon dedicava-se aos animais, à ordenha de Rosebud, a recuperar as eternas
cercas quebradas e a cuidar das máquinas que encrencavam. Durante as férias de verão,
ele cursava apenas uma disciplina na faculdade, o que lhe deixava bastante tempo para a
fazenda. Durante a noite, uma fraca iluminação saía pela janela de seu quarto, como que
a responder à outra fraca luz, em cima do celeiro, junto ao telescópio de Roxie.
A fazenda caiu num ritmo, cada um assumindo uma área específica. Persis cuidava
principalmente da horta. De vez em quando, Hugo pegava a moça murmurando coisas
para suas plantas em miniatura. Os longos e quentes dias faziam-no acordar muito cedo e
ir dormir exausto, já caída a noite. Terminou por sentir-se tenso entre o ritmo que Zeke
exigia e sua necessidade por Persis.
Quando o espalhador de adubo quebrou, em plenas quatro horas de uma tarde de
julho, ele soltou um agradecimento, em vez de uma imprecação. Em menos de dez
minutos havia se lavado e dirigia-se a Stony Ridge.
Ao chegar cruzou com Levon, que se ofereceu para dar uma olhadela no que havia
quebrado, o que ele aceitou. Não viu o carro de Roxie e, como tia Cassie dormia à tarde,
ficaria alguns momentos a sós com Persis, se pudesse encontrá-la...
Ouviu sua voz vindo da horta e aproximou-se, silencioso.
Ela transplantava as plantinhas de feijão, falando com cada uma como se fosse
uma velha amiga.
— E estes feijõezinhos — disse ela, levantando uma plantinha da terra fofa —
serão colhidos com gentileza e terminarão na cozinha de um especialista, que os acolherá
com amor e mandará para a mesa de um cliente importante, conhecedor de boa comida.
Hugo não conseguiu evitar e explodiu na risada. Ela voltou-se, mesmo ajoelhada.
— Hugo! Há quanto tempo está aí?
Ele tomou-a pelas mãos é ajudou-a levantar-se.
— O suficiente para ver você fazer amizade com vegetais.
— Amizade coisa alguma! Eu as plantei como sementes! Estou tendo uma
conversa entre mãe e filhos!
Os olhos dele devoravam aquele corpo, feliz em poder substituir a fantasia pela
realidade. Os cabelos dela caíam sobre os ombros, sob o chapéu de aba larga. A pele
brilhava e os olhos verdes faiscavam. Tudo nela o apaixonava.
— O que o trás aqui, no meio de um dia de trabalho? — indagou ela, sem jeito com
o olhar insistente de Hugo.
— Por que você não usa luvas, para mexer na terra? — indagou ele, de repente.
— Luvas? — Ela o olhou por sob a aba do chapéu. — Para quê, se uso adubo
natural? Você também não mudou para o natural?
Ele afastou-lhe um pouco o chapéu para poder ver-lhe o rosto melhor.
— Claro, pois você me convenceu que eu estava dependendo demais de
adubação química. Ao menos, Levon me convenceu. Aquele garoto está bem por dentro
da cultura tradicional das terras. — E, mudando de assunto: — Assim mesmo, desse jeito
você vai estragar as mãos.
— Por causa de um pouco de terra? — Ela sorriu, movimentando os dedos em
frente a ele, que os segurou como se fossem jóias.
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— Você tem mãos lindas, pequenas e femininas. Um homem deseja mãos assim
em seu corpo, sabia, Persis?
— Deseja...? — E, soltando as mãos, ela enlaçou-as no pescoço dele.
Ajoelharam-se, como se tivessem combinado, entre os canteiros de terra, sentindo
o perfume dás plantas em seu leito. Hugo puxou-lhe o chapéu para as costas, libertandolhe os cabelos. Com um murmúrio inarticulado ele encheu as mãos com as ondas
sinuosas do corpo macio, e os olhos de Persis se enevoaram. Ela puxou-o para si fazendo com que os lábios se encontrassem, se saboreassem, aumentando a sensação de
necessidade. Com o toque de suas línguas, ele deixou que a consciência deslizasse para
um vórtex apenas de sensações.
Gradualmente, por entre gemidos e murmúrios, ele percebeu que estava deitado
por cima de Persis, no carreiro entre um e outro canteiro da horta. Em seguida, a boca
estava num dos seios frementes, e os ruídos que ele emitia, guturais, enquanto
saboreava aquela doçura, eram respondidos por abafados gemidos de prazer.
Abrindo os olhos, Hugo a encarou e viu que seus olhos estavam fechados, em
abandono, como ele tinha certeza que os seus haviam estado. Então, sentou-se e
levantou-a ao mesmo tempo, aninhando-a no colo.
— Hugo — a voz dela era quase inaudível —, o que acontece conosco?
— Eu sei lá! — Ele sacudiu a cabeça. — Eu... eu a tratei como se fôssemos
animais. Amedrontei-a? — E passou a lhe acariciar os cabelos. — Eu me senti um touro
ou um garanhão. Não devia ser assim!
— Foi por isso que parou? Eu... eu não queria que parasse... Ele voltou a fechar os
olhos.
— Persis, quando eu fizer amor com você tenho de saber exatamente o que está
acontecendo.
Ela se soergueu para beijá-lo no rosto.
— Bem, se não vamos oferecer o ritual místico aos campos, é melhor cuidar das
galinhas. Quer ajudar?
— Ritual místico? Olhe... estou ficando nervoso: você pretende me sacrificar para
os feijões?
Ela riu.
— Oh, eu não seria capaz de sacrificá-lo. Pelo menos, não antes de usá-lo de
outras formas.
— Estou tremendo dentro das botas — comentou Hugo. — Que outras formas?
— Para começar, catando ovos comigo.
— Espere aí; isso é serviço de mulher! — E como ela o olhasse, ameaçadora. —
Está bem, eu ajudo se você me deixar jantar aqui.
— O.K. Mas, neste caso, vai ter de trabalhar em dobro.
Ele já havia escolhido inúmeros ovos antes de cometer o erro de tentar afastar
Caledônia do ninho. Os pintinhos já viviam num cercado próprio, longe da ciumeira das
demais galinhas. Mas isto não impediu que Caledônia retomasse o costume de chocar
ovos, aliás, estava ainda mais enérgica; Hugo era ameaçado continuamente de bicadas.
— Vamos lá, Hugo! — gritou a moça. — Mostre a ela quem é o macho!
— Esta criatura deve ir para a panela! — berrou ele, desviando-se das bicadas. —
Xô, sai prá lá, demônio de galinha!
Perdendo a paciência, ele arriscou a mão, pegando um dos ovos, para no instante
seguinte ser obrigado a retirá-la antes que ficasse machucado. Mas a bicada errou o alvo
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e abriu um buraco num dos ovos, o que provocou uma onda de infernal mau cheiro.
Cacarejando, Caledônia o atacou com ódio, enquanto, cobrindo o rosto com os braços,
Hugo bateu em covarde retirada:
Do lado de fora, ainda tossindo e inspirando ar fresco, ele gemeu:
— Puxa, há quanto tempo ela está em cima daquelas bombas de gás mortal?
Persis, enxugando as lágrimas de tanto rir, conseguiu responder:
— Há muito tempo, é claro!
— Se essa galinha fosse minha — e mesmo ele não conseguia evitar um início de
riso —, eu teria o maior prazer em servi-la no sábado, devidamente assada.
— Pois estou pensando em fazê-la a galinha da guarda de Stony Ridge. — E ela
continuou, reconquistando a seriedade: — Mas se não tirarmos os ovos daquele ninho o
cheiro nunca mais irá embora. Olhe, eu vou dar milho para ela; quando Caledônia sair
para comer a gente fecha a portinhola de entrada.
O plano funcionou, embora ele tivesse de lutar contra a náusea ao entrar no
galinheiro empesteado pelo cheiro de enxofre. Carregaram cautelosamente os demais
ovos, junto com o ninho de palha, levando-os para enterrar na fossa de composto
orgânico.
Levaram a colheita de ovos até o velho refrigerador e Hugo espantou-se da
quantidade de embrulhos de manteiga e invólucros com ovos. Desembrulhou um pedaço
de manteiga e olhou curiosamente a cor amarelo-clara.
— Isso é manteiga sem gordura — explicou Persis, colocou-a num saco de papel e
deu a ele. Apontou os jarros de leite colocados mais no fundo. — Rosebud adora a
maneira como Levon a ordenha e coopera dando muito leite.
— Você pretende vender também a manteiga?
— Talvez. — Voltaram lentamente até a cozinha, onde ela abriu a geladeira e
apanhou um jarro com chá gelado. — Vou levar amostras para Selina, amanhã. Ele
apanhou um copo que ela lhe estendeu e tomou um gole.
— Vegetais, ovos, manteiga... O próximo passo será uma estufa?
— É uma idéia... — considerou Persis. — Quero construir na Colina Sul, para ver
se mantemos a produção mesmo durante o inverno. Mas a próxima coisa que tentarei
fazer é queijo.
Ele engasgou com o chá.
— Quê...? É só o que falta! Queijo!
— Claro. Quando você vir a quantidade de leite jogada fora, há de concordar. Mas
só estou pensando em queijo para nosso consumo.
— Espere aí: se está usando leite para fazer manteiga, sobra só o desnatado. E
queijo é feito de leite integral.
Ela sorriu-lhe como se fosse um aluno muito aplicado, a fazer um comentário
apropriado. Explicou, solícita:
— Em geral. Mas há especial interesse em queijo com baixo teor de gorduras. E, é
claro, se eu tivesse cabras...
— Cabras? Persis, você já está trabalhando demais!
— Olhe só quem fala! Logo o homem que não vai dormir antes da noite fechada!
Não tem vergonha, Hugo MacAllister?
— Eu tenho enormes compromissos.
— Eu também tenho enormes compromissos. Este lugar tem de se pagar. E Cassie
vai continuar a viver aqui, enquanto quiser. Quando tudo estiver encaminhado, então eu
Projeto Revisoras - 49

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descanso. E quando é que você vai descansar?
Ele a encarou com sobriedade tristonha.
— Por enquanto, nada existe em minha casa que me chame de volta a ela, a não
ser salas e quartos vazios.
Ela desviou os olhos, pensativa.
— Deve ser... muito triste! — murmurou, afinal.
— Não sinta pena de mim! —,Ele colocou o copo na mesa. — É claro que não
preciso de outra mulher em minha vida, que só pense em se divertir, sair, que não
entenda que é preciso alimentar os animais e cuidar da plantação.
E ele estendeu a mão, segurando-lhe um ombro, fitando-a profundamente,
enquanto ela falava:
— Hugo... Eu sei mais sobre cuidar de animais e plantações, do que sabia no início
deste verão. Mas uma coisa ainda é verdade... — Ela só continuou quando á mão dele se
relaxou, em seu ombro. — Eu não paro... Isso está em meu sangue. Stony Ridge é meu
lar, mas um dia, provavelmente... provavelmente durante um inverno, quando eu olhar a
neve e pensar no sul da França, na Itália, na Grécia... entrarei em meu quarto, pegarei a
meia embaixo do colchão, contarei os dólares guardados...
Sua voz tornou-se mais suave e ela se aproximou mais dele, prosseguindo:
— Então, talvez você também queira passear um pouco.
Hugo ficou surpreso com a fraqueza que o invadiu. Por um instante ele viu a
ambos, com a mochila nas costas, andando de mãos dadas por uma estradinha ladeada
de árvores, um cheiro resinoso no ar, o vento gélido estimulando os passos rápidos.
— Você é uma feiticeira — murmurou ele, olhando-a nos escuros olhos. — Você
enfia idéias na minha cabeça!
— Você é quem as cria, Hugo; hão eu.
Mais um passo uniria os dois para mais um beijo, quando Levon abriu a porta de
tela.
— Aí está você, Hugo! — O rapaz sorriu brilhantemente para ambos. — Vai ficar
feliz: Zeke e eu consertamos o espalhador de adubo. Ele disse que se você andar logo
ainda termina a faina hoje mesmo.
— Ora, ora... — Persis não conseguia evitar um sorriso irônico. — Acho melhor eu
preparar um jantar reforçado. Você virá, não é Hugo?
Ele gemeu:
— Você me tortura!
Ela baixou o tom de voz:
— Não é o que desejo.
Diante daquele tom de voz, ele precisou lutar para levantar-se e voltar para suas
terras.
Persis parou junto à porta de tela olhando o dia ser engolfado por uma escuridão
assustadora, tamanha a imobilidade do ar e o calor abafado. Rãs e grilos começaram a
entoar uma sinfonia natural. Atrás dela, Roxie apareceu com o caderno de anotações na
mão. Indagou, preocupada:
— A tempestade está se armando... O pára-raios daqui funciona? Ela obrigou-se a
pensar, a lembrar do assunto.
— Creio que sim. Tio Orville tratava sempre disso. Diga, esses relâmpagos
prejudicam suas observações?
Estava quase tudo negro; a luz no quarto de Levon sobressaía na escuridão.
Projeto Revisoras - 50

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— Dá para trabalhar. Consegui muita coisa nas últimas noites. Se a tempestade
agüentar mais um pouco sem chegar, conseguirei terminar as observações.
Roxie foi para o lado do estábulo e, pouco após, sua lanterna de mão brilhava no
piso superior.
Persis começou a caminhar junto ao galinheiro, ansiando pela menor brisa, e parou
junto ao portão da horta. As ervas soltavam uma mistura pungente de odores variados.
Abaixo, na colina, um brilho denunciava água correndo e ela pensou como seria
gostoso cair no lago dos Desejos. Sem se incomodar em apanhar uma toalha, desceu o
caminho pela colina até a água.
Algo se mostrou, sob a luz incerta das estrelas. Era um cobertor estendido sobre a
grama, junto à beira do lago. O desassossego que a perturbara toda a tarde tomou a
forma de desejo e seu coração passou a bater mais rápido.
Não se surpreendeu quando a voz de Hugo ressoou de dentro do lago:
— Deixe as roupas junto às minhas, ao lado do cobertor; a água está ótima.
A cabeça dele era uma mancha escura em meio ao lago e a imaginação de Persis
a fez sentir um calor peculiar. Tirou as roupas e, mais controladamente, caminhou até a
beira da água. A lua surgiu entre as nuvens, fazendo com que a pele não queimada de
seu corpo rebrilhasse como prata.
Ela deu alguns passos, dentro do lago, aproximando-se dele. Perguntou, sorrindo:
— Como sabia que eu viria aqui?
Ele colocou as mãos em sua cintura e encarou-a no escuro.
— Eu desejei muito que você viesse.
— Então, vamos nadar! — riu Persis e, sem outro aviso, escapou das mãos dele,
mergulhando.
Ela era ótima nadadora, mas sabia que ele estaria logo atrás. A perseguição
adicionou excitação ao contato sedoso e frio da água.
Então, no momento seguinte, as mãos enormes, fortes, estavam sobre ela,
trazendo-a contra o corpo dele.
— Eu a quero demais para ficar brincando — murmurou ele em seu ouvido, com a
voz alterada. — Eu a desejo apesar de suas andanças!. ou talvez por causa delas.
Devagar, ele esfregava o peito másculo nas pontas dos seios de Persis, fazendo os
mamilos se tornarem rígidos pelo desejo.
— Vai me deixar possuí-la? — indagou e a puxou para si, encostando-a ao seu
corpo, onde seu desejo estava evidente.
Ela ficou sem fala, mas tocou-o ria intimidade, fazendo-o suspirar em delícia. Sem
largá-la, dirigiu-se para a margem.
O ar acariciou-lhes os corpos, mas onde quer que Hugo a tocasse ela sentia um
calor vulcânico. Ele a puxou com carinho para si, aumentando a paixão que o fazia
tremer.
— Você quer, mesmo? — murmurou ele.
— Mesmo... — Ela mal respirava. — Mas eu não trouxe...
— Eu cuido disso. — E, virando-se, Hugo buscou algo em meio à pilha de roupas.
— Hugo: eu preciso tanto de você! — suspirou ela.
Queria dizer: "Hugo, eu o amo", mas ainda não era o momento de denunciar o
furacão que lhe ia por dentro. Mais tarde, quando estivessem calmos de novo, porém
modificados para todo o sempre, talvez falasse...
Projeto Revisoras - 51

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Ele a beijou com fúria e no instante seguinte interrompeu-se para dizer:
— Eu serei delicado. Me ajude para não dominá-la...
— Nós dois estamos dominados — murmurou ela, deitando-se no cobertor,
abraçando-o.
Ele pronunciou o nome dela diversas vezes, enquanto acariciava-lhe o corpo,
criando um ardor indescritível. Persis sentia-se sem ossos, derretida por aqueles dedos,
acariciando-lhe por sua vez os flancos, a fortaleza de seu peito. Quando ele percorreu um
seio com a boca ardente, ela beijou-lhe o pescoço. Procurou o ponto mais sensível, no
encontro do ombro com a garganta, repetindo a carícia enquanto os dedos brincavam
com os mamilos dele.
Hugo gemeu, deslizou as mãos pelo ventre liso dela, afastando-lhe as coxas,
despertando sua intimidade com uma carícia gentil que, ainda assim, a levou ao desvario,
tornando-a incapaz de fazer coisa outra senão arquear-se e gritar de excitação
insatisfeita.
Ele mergulhou nela, com lenta deliberação e, então, selvagem e descontroladamente, levou-a consigo através das estrelas dançantes, num frenesi de arcoíris multicor para, depois, trazê-la radiante de volta à terra.
No silêncio do depois, ele apoiou-se no cotovelo e olhou-a sob o luar. Sua mão
movia-se lentamente sobre a pele sedosa.
— Acho melhor eu cair n'água — murmurou ela, os olhos semicerrados.
Num instante ficou de pé, fugindo à tentativa de ele imobilizá-la.
Quando ela mergulhou, ele mergulhou também, surgindo na superfície com Persis
nos braços. Então, nadaram juntos, como golfinhos, tocando-se casualmente até que se
excitaram de novo e ela passou as pernas em torno da cintura dele, desta vez ela
fazendo-o penetrá-la, num entra e sai da água que os confundia e os fazia engasgar,
tossir até caírem na risada. Depois, uma corrida, de volta ao cobertor, na margem. E mais
uma vez perderam-se em beijos e suspiros que ritmicamente acompanhavam o deslizar
da turgidez dele na intimidade úmida que ela lhe oferecia.
Persis teria adormecido se ele não a tivesse impedido.
— Eu te deixei exausta — murmurou ele, com orgulho.
— Tenho de levantar às cinco — ela disfarçou o bocejo. — Tenho de colher os
vegetais ainda com o orvalho.
Ele a aproximou.
— Eu gostaria que levantássemos juntos. — E, rindo, apanhou as roupas. —
Prometo que irei ajudá-la.
— Besteira. Você estará dormindo como uma pedra! — profetizou ela.
Ele mergulhou o rosto nos cabelos que ainda preservavam o cheiro de ervas e
desejou levá-la para sua casa, como se ela fosse se desvanecer como uma ninfa a
menos que a dominasse.
— Vou acompanhá-la até em casa, assim poderei beijá-la daqui até lá.
E começaram a caminhar, ladeira acima. É claro que os beijos atrasaram a
caminhada até a porta da cozinha. Ela levantou os lábios pela última vez, jogando os
braços em torno do pescoço dele.
— Se você repetir isso — ameaçou Hugo —, eu subirei até seu quarto por aquela
árvore.
Ela enfiou os dedos por entre os cabelos negros, úmidos.
— É mais fácil ir pela escada... — riu, divertida. Resolutamente ele se afastou,
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inspirou fundo e disse:
— Há algo que quero dizer-lhe. Mas é muito difícil para mim...
— Acho que sei o que é — disse-lhe Persis. — Vou facilitar falando primeiro. Estou
me apaixonando por você, Hugo.
Os olhos dele brilharam, enquanto segurou a mão dela que lhe acariciava a face.
— Por Deus, Persis... Parece que esperei toda minha vida para ouvi-la dizer isso.
— Beijou-lhe a palma da mão. — Mas não era o que eu ia dizer. Agora vá para a cama.
E com passos largos ia se afastando quando ela recuperou a voz e gritou:
— Espere aí! Você não ia me dizer que começou á me amar também?
— Não — disse ele parando ao lado do galinheiro. — Não era o que eu ia dizer.
Agora, boa noite! Vá dormir.
— Vou coisa alguma! Seu degenerado, orgulhoso, seu...
— O que eu ia dizer era que já estava apaixonado por você, que comecei a amar
você faz tempo!
— Você... o quê?
A voz de Hugo tornou-se séria:
— Eu a amo, Persis. — E voltando alguns passos beijou-a com delicadeza, antes
de voltá-la na direção da porta da casa. — Durma bem.
Ela ficou a olhar a camisa clara desaparecer no meio da noite, sentindo o corpo
diferente, como se estivesse revelando capacidades in-suspeitadas.
Com pensamentos girando no cérebro, ela entrou em casa para dormir. Se
conseguisse...

Capítulo 10
Embora tivesse impressão de que mal fechara os olhos, Persis acordou antes do
sol nascer, cheia de antecipação. Cedo voltaria a ver Hugo. Mesmo que não fizessem
mais que colher milho juntos, estariam próximos.
Depois do banho, quando entrou na cozinha para preparar seu prato de aveia, a
luz do dia começava a se intensificar.
Levon já estava devorando um enorme prato de aveia quando Cassie entrou,
movimentando-se lentamente, mas com um sorriso nos lábios.
— Ora, ora, como isto é gostoso! — deliciou-se a tia, comendo aveia. — Uma
xícara de chá quente e é tudo de quanto precisamos para ficar fortes.
O estudante soltou um murmúrio, concordando, pegou as chaves do carro de
Persis e disparou para a cidade, para buscar gelo.
— Precisamos de um freezer — comentou Persis, terminando sua aveia. — Com a
quantidade de gelo que usamos em cada entrega, mais a conservação do leite, queijo e
manteiga, faz sentido esse investimento.
— É verdade — concordou tia Cassie, mexendo o açúcar na sua segunda xícara
de chá. — Só não sei se a eletricidade por aqui é boa para freezer. Orville andou vendo
isso, anos atrás.
— Vou me informar.
Nisso entrou Roxie, silenciosa como em todas as manhãs. Passava as noites com
o telescópio, dormia pouquíssimo e, entretanto, estava sempre a postos na manhã
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Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
seguinte.
Mal terminaram a refeição, começaram o trabalho, pois era dia de entrega. Tia
Cassie molhava os sacos de aniagem que recobririam os produtos, no transporte. Persis
e Roxie colocavam pedaços de carvão dentro das caixas de papelão para abrigar o milho,
feijão e tomate. As plantas que precisariam ser lavadas eram colocadas em peneiras de
metal para que escorressem a água. Persis pegou uma peneira e dirigiu-se à horta para
colher as beterrabas e cenouras perfeitas. Levon subiu a ladeira com o barulhento furgão
e passou a retirar o gelo, espalhando-o sobre os tabuleiros de madeira.
— Você parece muito ocupada — disse uma voz atrás de Persis. Ela voltou a
cabeça e abriu um sorriso para Hugo.
— Bom dia! Bom que você veio.
— Sempre pronto para ajudar um vizinho.
Ele ficou a apreciar o trabalho dela, selecionando as melhores beterrabas pelo
estado da ramagem verde que sobressaía. Colocava-as na peneira metálica, com a raiz
para baixo de forma que, ao terminar, a peneira parecia uma bandeja verde.
— Levon é que imaginou esta forma de acondicionar as beterrabas para a
lavagem. A gente coloca — e saiu em frente em direção à banheira dos porquinhos — a
peneira naquele suporte, em cima da banheira, e solta a água.
— Bem engenhoso — comentou Hugo.
Depois de deixar a água barrenta escorrer, Persis deu a peneira para tia Cassie,
que passou a arranjar as beterrabas no tabuleiro.
— Vocês já organizaram tudo! — comentou Hugo, impressionado.
— Foi aos poucos. — Persis dirigiu-se às vagens, puxando Hugo pelo braço. —
Agora já estamos mais eficientes.
Parado ao lado da plantação dos feijões, ela mostrou como pegar a vagem e torcêla, para desprender da ramagem.
— Pode colher qualquer vagem igual ou maior que esta — orientou-o. — Eu
pegarei os bebezinhos.
Ele trabalhou intensamente, enquanto ela o observava pelo canto dos olhos. Era
fácil perceber que não estava acostumado a esse tipo de colheita. Chegava a levar algum
tempo para localizar as vagens em meio à ramagem.
— Hum, como é gostoso! — exclamou ele, e mostrou sua cesta já quase cheia de
vagens. — Ar puro, boa companhia... Mas a verdade é que vagens tão pequenas não
parecem que vão alimentar uma pessoa.
— Às vezes eu me sinto culpada de colhê-las tão novinhas -- admitiu Persis, pois
era preciso um bocado das vagens de três centímetros para encher uma caixa de
papelão. — Selina gosta que estejam deste tamanho, bem tenras. Têm um ótimo sabor...
experimente.
— Ei! — protestou ele, quando ela lhe enfiou uma vagem na boca. — Está crua!
— Bobão! A de ontem, que você comeu no jantar, também estava. O olhar dele
parou na curva de seus lábios.
— Puxa, parece delicioso... — Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
— Vou dividir uma vagem com você — disse Persis e, segurando uma vagem entre
os dentes, aproximou a boca da de Hugo, não se deixando abandonar ao desejo de
contornar o queixo forte dele com a ponta do dedo. — Mastigue — insistiu.
E mastigaram ao mesmo tempo, sem deixar que os lábios se separassem.
— B-bom... Muito bom... — murmurou ele, em palavras abafadas.
Projeto Revisoras - 54

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— É bom para a saúde também... — Ao falar, seus lábios se entretocavam
suavemente. — Vitaminas... minerais e...
Ele tomou-lhe a mão e beijou-lhe a palma.
— Gosto de terra.
Ela tirou a mão e limpou-a na calça, também suja de terra.
— Ao trabalho, vamos, MacAllister!
E recomeçaram a colheita, sem mais falar, deixando que o trabalho assumisse um
ritmo. Ao mesmo tempo, Persis sentia-se presa às sensações que ele lhe provocara e
reconhecia que chegara ao ponto onde tudo o que ele dizia ou fazia era maravilhoso.
Por fim, terminaram com os legumes. — Vamos deixar as caixas no caminhão e
começar a pegar as verduras — sugeriu Persis, entusiasmada. — Hoje o tempo está
rendendo!
Hugo ouviu tia Cassie rir de algo que Levon lhe dissera.
— Tia Cassie está curtindo a vida! — comentou.
Persis olhou a tia-avó com alguma preocupação, enquanto a velha senhora
ajudava a guardar as verduras na caminhonete.
— Na verdade ela não deveria estar fazendo tudo isso, mas não consigo persuadila a ir com calma.
Hugo julgou-a por alguns minutos, com afeição.
— Ela anda ótima. Por que interferir?
A moça não conseguiu evitar as rugas na testa.
— Ela não deveria estar fazendo a metade do que faz. É muito esforço...
— Tenho certeza — interpôs Hugo — que ela nunca se sentiu melhor. Deixe que
eu a ajudo, com esse tabuleiro...
Quando Levon se aproximou de Persis para convidá-la a colher milho, Hugo já
estava ao lado da velha tia, carregando os pesados tabuleiros de madeira e conversando
animadamente.
Às oito e meia a caminhonete encontrava-se carregada e pronta para a entrega,
mal sobrando lugar para a motorista. Hugo olhava, boquiaberto, cada cantinho ocupado
por vegetais.
— Tem certeza que sua cliente comprará tudo isto? Persis sorriu e levantou os
ombros.
— Eu avisei Selina que uma enorme tempestade estava se formando, de maneira
que ela me pediu para levar o máximo possível. Se sobrar alguma coisa, trarei de volta.
Tia Cassie e eu faremos conservas.
— Você está precisando de um freezer...
— Não diga, Sherlock Holmes! — ironizou ela, rindo.
—- Persis — tia Cassie resolveu interromper o que ameaça azedar —, você
precisa trocar de roupa.
Quando Persis desceu a escada em respeitáveis e limpas calça e blusa, encontrou
Hugo sentado à mesa da cozinha, devorando a torta de maçã da velha senhora.
Ela serviu-se de uma xícara de chá e comentou:
— Obrigada por nos ajudar, Hugo. Um par de mãos a mais é ótimo e acho que
Zeke vai cair na sua alma por chegar tarde.
Ele riu por cima da xícara.
— Isto soou mais como convite para uma próxima vez. A resposta foi uma risada
Projeto Revisoras - 55

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dela e estas palavras:
— Quer dizer que não preciso implorar?
— Lembre-se disto, senhora! — E disse, com convicção: — Jamais terá de me
implorar algo.
Ficaram por longos momentos a se encarar, ignorando a presença de tia Cassie,
que se pôs a tossir, dizendo:
— Acho melhor eu descansar um pouco, crianças. Depois arrumo a cozinha.
Quando saiu deixou atrás de si duas pessoas gargalhando.
— Discreta como uma galinha poedeira! — comentou Persis, com carinho.
Hugo deu a volta na mesa, aproximando-se.
— Na verdade ela gosta de ver a gente namorar. — E puxou-a da cadeira onde
estava sentada.
— Eu também gosto — murmurou Persis.
Foi tudo que conseguiu pronunciar, antes que os lábios se abrissem, permitindo o
encontro das línguas. Os toques tantalizantes inflamaram a ambos.
De súbito estavam se beijando desesperadamente, os corpos ansiando por se
encontrarem. As mãos dele encaixaram-se em sua cintura, escorregando logo após pelos
lados dos seios, fazendo-a gemer e se colar mais intimamente a ele, aumentando o pulsar
que sentia entre suas pernas. Ela se arqueou e ele segurou-a pelos quadris, forçando-a
contra si, enquanto beijava as áreas sensíveis de seu pescoço.
Persis inspirou uma golfada de ar, até sentir-se forte para voltar à boca dele e
saciar-se naquela doçura. Quando as línguas se tocaram ele segurou-lhe os mamilos com
uma delicadeza tal, através da camiseta, que lhe enviou ondas de prazer através do corpo
inteiro. Ela precisava tanto dele, ela o queria tanto...
Hugo apertou-a contra si uma vez mais e afastou-a lentamente. Ela elevou os
olhos e encontrou um sorriso.
— Meu doce amor... — murmurou ele, afastando-lhe um cacho de cabelo do rosto.
— Persis, se eu não for agora...
E ele passou o dedo em círculo sobre a elevação excitada do seio, fazendo-a
cerrar os olhos e lutar contra a moleza em suas pernas.
— Venha jantar em minha casa... — sussurrou ele. — Deixe-me retribuir sua
hospitalidade.
Persis mal reconheceu a própria voz:
— Somente eu? Quero dizer...
— Somente você. Quero ficar só com você. Ela inspirou fundo, algo zonza, depois
indagou:
— A que horas?
— Sete. — Dirigiu-se até a porta. — Até mais, Persis.
— Até mais.
Precisou lutar consigo mesma para ir até o furgão e iniciar a viagem a St. Louis.
Chegando aos subúrbios da cidade parou numa farmácia e fez uma compra discreta. Na
última noite ela havia deixado a responsabilidade com Hugo; de agora em diante seria
dela.
A casa dos MacAllister era maior do que a de Stony Ridge e Hugo a esperava na
varanda que circundava o prédio estilo rainha Anna. Os quartos estavam praticamente
vazios dos modernos móveis que Barbara comprara, tentando dar um ar moderno e mais
leve à construção. Mas hoje Hugo desejava que a mobília estivesse ali. Queria que ela
Projeto Revisoras - 56

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gostasse da casa porque desejava que se tornasse também a casa dela.
Ainda era muito cedo para pedi-la em casamento, porém cedo para quem? Ela ou
ele? Reconhecia seu próprio medo, medo de uma rejeição, medo de repetir um engano.
O sol já se encontrava no horizonte quando ele percebeu um pequeno ponto se
movendo, cruzando a horta e descendo em direção ao lago dos Desejos.
Ele entrou, atravessou as salas vazias e foi até a cozinha. O menu para o jantar
era bastante simples: batatas cozidas no microondas, um filé churrasqueado no fundo do
quintal e vegetais trazidos aquela manhã da fazenda de Persis. Ligou o forno, foi até a
churrasqueira avivar as chamas e começar logo o preparo do jantar. Ocupado, estaria
afastando o perigo de saltar em cima de Persis, mal a visse. Ao menos poderia tentar
parecer civilizado.
— Não vou beijá-la — disse, logo que Persis se aproximou pelo caminho que vinha
do lago. — Se o fizer, o churrasco vai queimar e o sorvete derreter. Deixo pra beijá-la
depois da sobremesa, está certo?
Persis sorriu; estava adorável num vestido de algodão cru que lhe deixava os
ombros dourados à vista. Ele se imaginou desabotoando o corpete e precisou lutar contra
um arrepio.
Ela examinou a casa. Gostava das linhas amplas, mas graciosas, da varanda que
a envolvia. Mas parecia... desolada. Os canteiros de flores estavam vazios, a terra
crestada. No fundo, onde a grama deveria recobrir o solo, as marcas de pneus de trator
sulcavam a terra. Ele percebeu o exame e comentou:
— Falta o toque feminino — e passou a cuidar do churrasco —, por isso não é o
paraíso.
Ela riu, comentando:
— É preciso alguém a infernizá-lo para contratar um jardineiro e uma empregada
doméstica! A Mary não ajuda?
— Não. Diz que as crianças crescidas devem saber de seus deveres sem que
ninguém mande.
— Não deixa de ter razão. Mas vejo que está fazendo o jantar. Não quer ajuda?
Ele a olhou por ura instante, perdido.
— Eu... Bem, não sei o que fazer com os vegetais que trouxe de sua casa. Os
únicos que consumo são em latas...
— Então, fico com eles. Alguns a gente pode grelhar.
Hugo pareceu surpreso porém, mais tarde, consumiu os pimentões e tomates
grelhados com alegria. Ela cumprimentou-o pela qualidade da carne do churrasco.
— Selina falou disto hoje mesmo. Está procurando carne de gado que não tenha
sido alimentado artificialmente, com antibióticos e hormônios.
— Acho que o comprado em açougue não é da melhor qualidade. O meu gado é
tratado particularmente bem, pois é para meu consumo. O excedente vendo, sem a
menor dificuldade.
— Excedente? — Persis deixou cair o garfo, excitada. — Deixe-me contar a Selina!
— Espere um pouco! — Hugo levantou as mãos. — Só abato duas vezes ao ano e
congelo! E uso antibióticos! Todo mundo usa.
— Nem "todo mundo". — E ela voltou à deliciosa carne. — Em Iowa...
— Sim, sim. Em fazendas experimentais. Mas o gado que possuo é pouco, porém
de alta qualidade. Não posso me arriscar que alguma infecção virulenta, que não ataca os
demais que tomam antibióticos, venha dizimar meu plantel. — E colocou-lhe mais vinho
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no copo.
— É verdade. ----- Persis ficou pensativa. — Não há solução fácil. Mas a verdade é
que, usando essas drogas, os microorganismos ficam cada vez mais resistentes, até que
os antibióticos não façam mais efeito!
Ele começou a retirar os pratos vazios.
— Outra noite a gente se preocupa com isso. Agora teremos uma torta gelada de
sorvete de morango, com os cumprimentos de Mary.
Persis comeu a sobremesa com voracidade, como se não tivesse jantado. Ficaram
conversando ainda um tempo na mesa, até que ela levantou para tirar os pratos, embora
Hugo tentasse impedi-la.
— Puxa, mas esta cozinha é como uma máquina do tempo que me trouxesse de
volta ao século vinte! Freezer moderno, máquina de lavar pratos, forno de microondas... E
até um triturador de restos na pia!
— Pois não estaria aqui se não fosse parafusado. Barbara foi a responsável por
isso. Não gostava da velha cozinha.
— Diga o que quiser dela, na cozinha, Barbara acertou. Não há nada de errado
com a velha cozinha de Stony Ridge, mas reconheço que estas coisas economizam muito
trabalho e tempo.
— É... Mesmo assim, quando papai vivia, éramos dois solteirões que só não
morriam de fome porque Mary vinha nos salvar, duas vezes por semana.
A expressão em sua face tocou-a; para aliviar o clima, comentou:
— Eu me lembro da sala da frente. Tábuas corridas, muito lisas, desde a porta até
a escada. Ainda é assim?
— Quer ver?
Rindo, ela se deixou puxar até o hall. Dois arcos levavam à sala de jantar, de um
lado, e à de visitas, do outro. Um resto de iluminação do pôr-do-sol avermelhava o polido
assoalho, desde a escada até a porta de entrada. Correram de mãos dadas e deixaramse escorregar, como quando eram garotos.
— Hugo — comentou ela, sem ar —, você não tem mobília!
— Verdade. — Puxou-lhe o cabelo de sobre a face. — Barbara havia feito a
decoração e levou tudo embora.
— Quanto mais ouço falar dessa mulher, mais eu a...
— Não quero falar sobre ela ou pensar em outra pessoa que não seja você.
Ele a fez andar de costas até encostá-la na porta, segurou-lhe o rosto com as
mãos e passou a beijá-la, suavemente, e seguidas vezes até que ela gemeu.
— O quarto que quero mostrar-lhe fica lá em cima...
— Claro. — Ela nem sabia o que respondera.
Hugo a enlaçara e ela sentia-se flutuar escada acima, a magia a conduzi-la,
sabendo bem o que a esperava.
A vermelhidão do sol tocava o teto, no piso superior, mas ela nem notou. Ele abriu
a porta do quarto, onde dormia, e os olhos dela foram atraídos pela cama, como se fosse
um enorme ímã.
Ele largou-lhe a mão e tirou a própria camiseta. Ela passou a língua nos lábios
secos, sentindo o desejo invadi-la, vendo-o como um ser de bronze, com a estranha
iluminação; aproximou-se dela e começou a desabotoar-lhe o corpete do vestido.
Lentamente ele progrediu, botão por botão, esbarrando nos seios e enviando-lhe ondas
de prazer. Quando desabotoou todos, os mamilos estavam túrgidos. Ele os tocou e a
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expressão em seu rosto a fez entontecer; então, segurou-lhe os ombros e puxou-a para
si.
O vestido escorregou para o chão, acompanhado pela calça dele. Como se ela
fosse uma boneca frágil, ele a ergueu e colocou-a sobre a cama, apossando-se da
suavidade que era toda sua. Os seios eram montículos de ambrosia que ele saboreou
com ansiedade.
Durante um tempo a exploração de seu corpo a fez acalmar-se. Mas quando sentiu
a pele do corpo dele sob os dedos, surgiu a necessidade sensual de explorá-la a cada
centímetro. Escorregou as mãos nos ombros másculos, nas costas, no ventre até capturar
a masculinidade tensa e passou a atormentá-lo, sentindo voluptuosamente sua textura
sedosa.
— Eu quero você... — gemeu ele. — Persis, eu...
— Me ame! — E ela passou as pernas em torno do corpo dele, mostrando-lhe o
que mais desejava. — Hugo, agora!
Foi como cavalgar o vento dentro de um turbilhão colorido. Ela perdeu o fôlego
quando Hugo mordiscou-lhe o bico de um seio, ao mesmo tempo que a possuía. A grande
onda de espesso prazer cresceu até que, por fim, se despedaçou num milhar de peças
como gotas de cristais coloridos dançando no ar.
O quarto tornara-se completamente escuro quando voltaram a si.
— Você não existe! — comentou ele, suave.
— Não, não. — Ela sorriu na obscuridade. — Você é que não existe! E eu estou
apaixonada.
Hugo sacudiu a cabeça.
— Eu também estou. E se você estiver pensando em partir, destruirá meu coração.
— Ele gemeu ao pensar nisso e puxou-a para si. — Por favor, não faça isso comigo!
— Hugo — e ela colocou gentilmente uma mão no rosto dele —, eu jamais o
abandonarei.
Ele apertou-a nos braços, beijando-a fervorosamente. Ela sentiu-o enrijecer-se de
novo e o fogo tomou-a novamente, surpreendente em seu calor, revivendo as brasas que
mal haviam adormecido.
Ele rolou na cama, trazendo-a para cima de si, guiando os seios para sua boca,
enquanto as mãos percorriam-lhe o corpo em carícias enlouquecedoras. Cada movimento
dele era lento, preguiçoso, mas Persis nem conseguia respirar.
Por fim, ela se libertou dos braços dele e tomou a iniciativa, completando a união
pela qual ansiava. A força da paixão dele levou-a, de novo, a um vórtex que culminou, tal
como na primeira vez, num despedaçamento fantástico. Horas mais tarde ele a acordou,
as estrelas já bem altas no céu.
— Amor, quer passar a noite aqui?
Ela sentia as pálpebras pesadas. Havia uma lâmpada acesa num abajur e Hugo a
tinha nos braços, sorridente.
— Que horas são?
— Perto das duas. Se quiser ir para casa eu a levo. Ela reuniu forças.
— Preciso ir. Se eu passar a noite fora tia Cassie pode me deserdar. Ele pegou as
roupas, no chão e a moça sentiu-se confortável, vestindo-se ao lado dele, imaginando
como seria acordarem juntos, descer para o desjejum... Percebeu que ele a observava.
Quando desceram, ele a levou a uma lavanderia com brilhantes eletrodomésticos,
em vez de levá-la para a saída.
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— Veja ali. — Mostrou, apontando.
— Nossa! Um freezer industrial!
— Eu emprestaria a vocês, se Stony Ridge tivesse 220 volts.
— Mas não temos.
— Então, use o freezer aqui mesmo. Eu só preciso do menor, lá da cozinha.
— Puxa, obrigada, vizinho!
Ele riu, respondendo, intencional:
— Eu não sinto você exatamente como uma vizinha...
O ar da noite estava pesado de umidade, quando saíram.
— Não agüento mais essa tempestade que não desaba!— exclamou Persis,
ofegante. — Hugo puxou-a no final da ladeira, ajudando-a a subir. — No entanto, quanto
mais demorar, melhor. Conseguirei colher todo meu cereal.
— Eu a vejo amanhã, amor — despediu-se ele, junto à porta da casa.
— Quando? Você passa o tempo todo naquele trator! Ele pensou um instante.
— No lago dos Desejos. Depois que escurecer.
— Então, você estará exausto... — brincou ela. Ele puxou-a para um forte abraço.
— Não para "aquilo". Durma bem, senhora! E ela dormiu muito bem.

Capítulo 11
A tempestade continuava a ameaçar, sem se resolver, agregando nuvens terríveis.
Levon contou que Rosebud escoiceara o balde de leite, por dois dias consecutivos. Tia
Cassie nem tentava fazer pão, como era seu costume.
— Um ar pesado como este não deixa o fermento crescer — explicava ela. — Até
mesmo biscoito fica uma porcaria!
Persis sentia-se leve, flutuando no tempo, ignorando a umidade e a eletricidade
que carregava o ar. Tudo lhe era agradável, a começar pelo verdor vívido de sua horta,
que contrastava com o azul-arroxeado do céu, os odores pungentes que suas plantas
exalavam.
Adorava, em essencial, os encontros noturnos, com Hugo, no lago dos Desejos.
Amavam-se nas noites quentes e, então, mergulhavam na água fria. Ele contava, quando
se deitavam sobre a grama, para secar, de outras noites com George Godfrey, caçando
guaxinim, ou sobre entardeceres, pescando no Gasconade. Persis escutava com a
atenção de .quem está descobrindo uma cultura diferente e contava-lhe suas lembranças
de outros países, do calor e ruído em Marseilles, do verdor forte na Tailândia, do sol
enceguecedor e das cores vivas da Grécia. Hugo ficaria a seu lado, sob a abóbada do
céu, envolvido pelas histórias de Marrocos e de Lisboa, Tebas Bangcoc, a vida toda. E
com as histórias mais antigas, também, mistura de mitos e fábulas de outras eras.
— Você tem o dom de Sherazade — murmurou ele, uma noite, quando a lua já
havia cruzado o céu enquanto Persis, sentada nua e com pernas cruzadas sobre o
cobertor, contava-lhe sobre a guerra de Tróia. — Eu poderia escutá-la por todo o sempre.
Não sabia que a História podia ser tão interessante.
— Não estou contando a História. — E Persis se arrepiou com a súbita brisa. —
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História, dizem, é uma ciência. Eu estou falando de mitos e folclore, contando histórias
que são uma arte. Os historiadores verificam, mensuram e, quando terminam, milhares de
vozes reconstroem a História.
Ele apanhou a blusa dela, a seu lado, e entregou-a, roçando-lhe o braço.
— Persis, diga, como se sente a respeito de... de casamento? Ela se imobilizou por
um segundo, o coração pulando dentro do peito, pensando em como dar a resposta
correta.
— A-acho que... Creio que é uma coisa muito importante. Um passo muito sério. — Compreendo. — Ele se voltou para pegar sua camisa.
Ela o olhava atordoada, como se fosse entrar em pânico, preocupada em perdê-lo
se não conseguisse se explicar.
— Essa pergunta é... é teórica, Hugo?
Ele se voltou e ajoelhou-se em frente a ela.
— É concreta. Envolve você e eu. Casamento.
— Ah, Hugo! — Ela cerrou as mãos, fortemente. — Eu o amo tanto! Mas
casamento... Tenho de pensar. E acho que você também. Um casamento é... é para
sempre.
Os traços dele pareceram se descontrair e ele se inclinou, beijando-a nos lábios.
— É assim também que eu sinto. Então, pense a respeito. Imagine como seria
levantarmos juntos a cada manhã.
— Seria uma bênção — suspirou ela. — Mas, mas eu não poderia, simplesmente,
abandonar Stony Ridge e tia Cassie!
Hugo vestiu a camisa.
— Não estou pedindo que as abandone. Minha casa é maior que Stony Ridge.
Podíamos viver juntos. Mas viver do outro lado do vale, não é como viver em outro
continente. Você poderia tomar conta de Stony Ridge e fazê-la render.
Ela também se vestia, lembrando-se de que pensara inúmeras vezes no problema,
que parecia ser tão decisivo. Claro que Cassie desejaria ficar em sua própria casa e
Persis se preocuparia, se a deixasse com Roxie e Levon. E mesmo eles dois, como
ficariam?
Olhou para Hugo, que calçava as meias. Ele percebeu o olhar e devolveu-o. Existia
nele uma implacabilidade que a perturbava para o futuro. Ele seria capaz de aceitar
acordos, tal como seus pais faziam, quando chegavam em pontos de conflito? Persis
duvidava.
— O que você pensaria sobre irmos à Grécia ou Itália, neste inverno? — perguntou
ela. — Zeke poderia tomar conta das coisas por duas semanas?
A pergunta o perturbou.
— Você pode ser uma aventureira ou pensar que é. — A voz dele estava grave e
tensa. — Eu tenho raízes, Persis. Não poderia abandonar minhas terras, da mesma
maneira que Cassie também não. Qualquer mulher que ingresse em minha vida tem de
entender isso.
— Não estou falando em irmos embora — explicou ela, levantando-se, enquanto
um grave trovão reboou na distância. Irritou-se com a falta de compreensão dele. —
Estou falando de férias. Algumas pessoas, quando se casam, chegam até a fazer uma
lua-de-mel...
Hugo levantou-se e encarou-a.
— Não tenho dinheiro para viagens de passeio. Se você pensa que está levando
Projeto Revisoras - 61

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um marido rico neste negócio, se enganou.
— Viajei toda minha vida quase que sem um centavo — comentou ela, ainda
calma. — Se eu levá-lo à Grécia, bastará você pagar a passagem e gastar uns poucos
dólares. O problema é outro, Hugo: você não consegue se relaxar e se divertir!
— Você quer diversão? — Hugo pegou-a pelos ombros. O trovão ressoou de novo,
um pouco mais próximo, e uns pingos criaram um aviso na superfície da lagoa. — Vou lhe
dar mais diversão do que as ruínas que você conhece!
E pegou-a pelos cabelos, voltando-lhe o rosto para cima. Persis lutou contra ele,
não por medo, mas por necessidade de evitar o domínio masculino. Hugo era mais forte,
no entanto, e sem maior esforço, obrigou-a a um beijo.
Ela não conseguiu evitar a excitação ao toque de seus lábios. Ele a desafiou a
negar a paixão que lhe provocava. E ela não pôde negar. Ao mesmo tempo, no entanto,
veio à tona o reconhecimento de que nesse terreno ela também era capaz de dominá-lo.
Sem saber como, estavam de súbito sem blusa e camisa, enquanto o trovão troava
sobre suas cabeças, liberando uma chuva intensa sobre seus corpos ardentes. Chuva
que não arrefeceu a paixão. Ela esfregou os seios no peito dele, agradecendo a umidade
da chuva. Hugo gemeu e, no instante seguinte, envolveu um bico com a boca. Com uma
mão a segurava, enquanto a outra baixava-lhe o zíper da calça. Acariciou-lhe o ventre até
que ela gemeu em tormento.
A chuva os inundava enquanto, nus, se entregavam à posse alucinada. Então,
Hugo tocou-lhe a cálida umidade entre as pernas. Ela gritou, seus joelhos amoleceram, e
ele a acompanhou até o cobertor molhado, no chão, beijando-a, com sensual intensidade,
a boca sugando a chuva que lhe escorria na pele. No instante seguinte a chuva se
interrompeu e o ar ficou parado, quieto, como a esperar algo.
— Hugo, agora! — gritou ela.
Ele a puxou por sobre seu corpo, penetrando-a com uma fúria primitiva. Por
momentos, inconsciente, ela cruzou pela crista dessas sensações, explodindo por fim em
filamentos de luz que iluminavam o firmamento, iluminando as feições desvairadas de
Hugo, e caiu inerte sobre ele, enquanto ainda saboreava o êxtase.
O trovão foi tão intenso que sacudiu o vale, porém Persis quase não notou. Uma
sensação tão gloriosa deveria ser acompanhada por trovões, pensou ela. Porém o ar
adquiria uma peculiaridade tão estranha que a tirou da névoa mental. Ela se afastou e
ficou em pé, examinando o céu.
— Esse foi perto — comentou Hugo.
Ficou ao lado dela, abraçando-a. A paixão dissipara-se em ambos, deixando-os
atentos às sensações estranhas que a natureza lhes impunha.
— Eu pensei que isso tudo era você! — murmurou ela, rindo nervosamente.
— Também eu. — Aproximou-a de si. —- Acho que algum raio caiu por perto e a
gente sentiu os efeitos.
Persis olhou para o lado de Stony Ridge e ficou petrificada. O estábulo deixava ver
as chamas saindo do teto, acompanhadas por uma coluna de vapor.
— Hugo! Eu estou doida ou o estábulo pegou fogo? Ele não respondeu, ocupado
em vestir as calças.
— A chuva pode apagar o fogo, mas é melhor irmos tirar os animais lá de dentro.
Ela abaixou-se para pegar as próprias calças.
— Hugo! A Roxie!
Compreendendo de imediato, ele saiu correndo, seguido por ela. Persis tentava
levantar o zíper, em meio à corrida, dirigindo-se à horta.
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Quando se aproximou o suficiente, percebeu que o estábulo realmente estava em
chamas. Tia Cassie, o roupão envolvendo a camisola de flanela, encontrava-se ao lado de
uma figura prostrada. Com o coração na boca, Persis falou aproximando-se:
— Ela está... está...
A senhora abanava o rosto de Roxie.
— Está atordoada. -Ela estava lá em cima quando caiu o raio. Ao lado delas
amontoavam-se partes do telescópio e outras parafernálias astronômicas.
— O raio caiu no estábulo?
As palavras saíam aos trancos da boca de Persis. Imagens confusas corriam perto
da porta do estábulo e ela sabia que devia estar lá, ajudando, antes que as chamas
trouxessem a estrutura abaixo. Mas não conseguia fazer as pernas funcionarem.
— Bem no meio do teto. — O queixo de tia Cassie tremia. — Eu estava fechando
minha janela; a chuva entrava, molhando o chão. Roxie passou correndo e pensei que ela
ia ver se o telescópio estava coberto com o plástico. A chuva parou, e ela entrou no
estábulo e, então, veio aquele barulho horroroso que parecia uma bomba explodindo!
— Eu sei — disse Persis. — Também ouvi.
— Quando cheguei aqui fora o Levon trazia Roxie nos braços. Depois, voltou e
trouxe o telescópio dela. — E a senhora apontou, com um dedo trêmulo. — Olha lá, está
tirando os cavalos, agora. .
— Vou ajudar! — Persis forçou-se a ficar em pé.
Chegou à porta e viu Hugo e Levon lutando com Joe e Lucy. Rosebud já estava
longe, amarrada à cerca. Persis contornou o estábulo, para o lugar onde ficavam Biff e
Muffy. Chamas saltaram inesperadamente e ela sentiu cheiro de cabelo queimado.
Os porquinhos guinchavam, apavorados, num canto do chiqueiro. Seguiram-na
com surpreendente docilidade, quando ela abriu o portão e chamou-os. Mal ela havia
contornado o pavilhão em chamas, Hugo pegou-a pelo braço.
— Saia daqui! — berrou ele, as faces pintadas de vermelho e laranja, pelas
chamas.
A fumaça irritava-lhe os olhos, enquanto as chamas se alimentavam da alfafa seca
que guardavam para os animais. Ela gritou acima do ruído:
Fui pegar os porquinhos!
Hugo puxou-a pelo braço, correndo, e os porcos os seguiram, como se fossem
crianças. Chegaram junto à tia Cassie.
— O que podia ser feito, já foi — explicou Hugo. — Levon está telefonando para o
Corpo de Bombeiros, mas acho que quando chegarem não poderão fazer mais nada. Já
salvamos os animais...
Persis não desfitava as chamas que pareciam se fortalecer cada vez mais. Ela
sabia que o estábulo queimaria até o piso. Apesar da chuva intensa, que açoitava como
cortinas sucessivas, a velha madeira estava seca como palitos de fósforo: por outro lado,
a alfafa era um alimento fantástico para aquele fogo.
Roxie recobrou os sentidos e Persis ajoelhou-se a seu lado.
— Você está bem?
A moça colocou a mão na própria testa e olhou para cada um, depois exclamou:
— Que pancada! Essa foi da pesada!
— Que aconteceu? — perguntou Persis, tentando tomar o pulso da outra. — Você
foi atingida?
— Acho que não. — Ela sacudiu a cabeça, lentamente. — Eu vi a coisa cortar o
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teto do estábulo, tal como no filme de Frankenstein. Horrível. Aí veio um cheiro gozado,
eu me senti jogada para cima e foi tudo. — Então olhou para o estábulo. — Que baita
fogueira! Meu telescópio...
— Está salvo — apressou-se a dizer Persis, ao olhar, viu que já o haviam
guardado. — Não se preocupe. Alguém já o levou para dentro.
— O telescópio... Eu podia fazer outro — explicou-se Roxie. — Mas o estábulo,
que pena!
Ao ouvirem sua voz os porquinhos se aproximaram.
— Biff! Muffy! — gritou Roxie, passando a acariciá-los. — Vocês poderiam estar
torrados! Vou levá-los ao pasto norte.
— Você está bem? — indagou Persis. — Mesmo?
— Meu ouvido está zumbindo como um vespeiro. Mas acho que estou ótima.
Coitadinhos deles!
Enquanto a moça se afastava, seguida pelos porquinhos, Persis sentiu que a
chuva e as lágrimas se misturavam em seu rosto. Voltou-se para tia Cassie e viu-a
também chorando. Abraçou-a.
— Vamos pra cama, titia. Não há nada que possamos fazer. Cassie sacudiu a
cabeça.
— Quero ver até o fim. Nunca pensei que pudesse acabar assim. Toda a ração
estava lá?
— Toda. — Persis mal conseguiu engolir. — A gente pode cortar o que sobrou na
plantação lá de baixo, mas não vai dar para o inverno.
— Vamos nos arrumar minha criança — murmurou a senhora. — Podemos
emprestar de alguém...
A voz da moça mal passava pela garganta:
— Não é apenas a ração. É o estábulo. Vamos precisar de outro. E não temos
dinheiro!
Hugo se aproximou, o rosto molhado de chuva, suor e pintalgado de carvão.
— Inundei o galinheiro para não pegar fogo. — Abraçou a ambas e Persis sentiu-se
reconfortada. — Lembre-se do que eu disse a respeito de comida para os animais. Tenho
o suficiente para alimentar seus bichos por todo inverno.
— Obrigada — disse ela, tensa.
Não conseguia expressar a calamidade que aquele incêndio fora para ela.
Limitava-se a olhar as chamas lambendo e destruindo tudo.
Os trovões ribombaram mais ao norte, contrapondo-se ao chiado das chamas.
Agora a chuva caía mansa, ignorada pelo fogo que continuava consumindo tudo. De
súbito, com um ranger sinistro, o teto veio abaixo em meio a fagulhas. Todo o perfil estava
silhuetado pelo fogo, como se fosse uma oferenda aos deuses. Persis lembrou-se de
antigas lendas, de mortais que haviam deixado de propiciar oferendas aos deuses e
haviam sido punidos pelo esquecimento. Mas não funcionou, pois, no momento seguinte,
as parede tombaram quase em silêncio. Como as lágrimas dela.
O sol matutino rebrilhava nas folhas úmidas e refletia-se nas lentes do telescópio
que Roxie limpava, sentada na porta da cozinha. Na alegria ensolarada, o único ponto
negro eram os restos do celeiro queimado.
Levon andava entre cinzas, revolvendo alguma coisa com a ponta da bota, em
busca de salvar algo. Tia Cassie dormitava numa cadeira, recompensando a noite
passada em claro.
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Persis andava nervosamente entre o que restava do estábulo e a casa, esperando
a equipe de demolição que viria limpar tudo. Ela também pássara a noite sem dormir, de
início esperando o Corpo de Bombeiros que, quando chegou, limitou-se a passear em
torno das ruínas e a perguntar por que o pára-raios estava desligado. Simples mente fora
descoberto jogado ao lado do estábulo, desligado do cabo que corria por baixo da terra
até o riacho. A ironia era que, se tudo estivesse no seguro, não conseguiriam receber
nada, pela negligência demonstrada.
Um carro subiu pela estradinha e dirigiu-se para a casa. Persis ainda sentia-se
numa nuvem gelada. O carro parou e dele desceu Sam Coffrey, sua face grave como se
estivesse num funeral.
— Bom dia, dona Whitley — cumprimentou ele, polidamente, acordando a velha
senhora. — Bom dia, dona Persis. Ouvi sobre o problema aqui...
— É como dizem; más notícias caminham rápido! — E tia Cassie acomodou-se
melhor.
— Sem dúvida. Fiquei sabendo que não estavam segurados para uma catástrofe
como esta. Persis forçou um sorriso.
— Deseja alguma coisa, Sr. Coffrey? — indagou Persis, direta. — Como vê, não
estamos em condições de receber visitas sociais.
— Ora, isto não é visita social, dona. — Ele parecia horrorizado.
— Vocês estão num buraco e como vizinho vim oferecer meus préstimos.
— Bondade sua — disse Persis, conhecendo bem a fama desse comprador de
terras. — Mas agora está tudo sob controle.
— Está mesmo? — Ele deu um sorriso que pretendia ser jovial.
— Eu não me incomodaria de aliviá-los destes problemas todos. Poderia oferecer
um bom preço por tudo isto. Uma moça bonita como você não deveria estar se matando
num serviço destes. Ouvi dizer que não tira o nariz da terra, ultimamente.
— Parece que o senhor tem uma boa rede de informantes... — ironizou ela,
sentindo a raiva crescer.
— No meu ramo de negócios a gente precisa ser bem informado.
— Coffrey colocou as mãos no bolso e deixou-se balançar sobre os calcanhares.
— Digo mais, eu aumento minha oferta anterior, apesar de o lugar estar valendo menos.
— E seu olhar relanceou sobre os restos do estábulo.
— Não está valendo menos, para mim, do que sempre valeu. Se tia Cassie seguir
meu conselho, não venderá. Nós vamos conseguir um empréstimo e reconstruir o
estábulo — afirmou a jovem, com determinação.
Coffrey sacudiu a cabeça, pesaroso.
— Agora, dona, deixe lhe contar que não creio nisso. Os bancos da cidade sempre
me perguntam sobre empréstimos e eu vou contar que seu tipo de trabalho aqui não é
seguro. — O sorriso dele se ampliou ainda mais. — Acho que não vai conseguir
empréstimo nenhum.
— Isso é nojento! — disse Persis, sem alterar o tom de voz.
— Nada de palavrões, dona. — Coffrey levantou as mãos.— Estou apenas
trabalhando e meu trabalho é colocar este pedaço improdutivo de terra em circulação, por
assim dizer. A família de seu marido — e ele voltou-se para tia Cassie — tem estas terras
há cem anos ou mais. As outras pessoas também têm direito a esta vista linda, ao lago...
A velha senhora colocou os pés no chão e encarou-o.
— Não. Isto é terra dos Whitley e é assim que vai ficar. Você, vá colocar suas
Projeto Revisoras - 65

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casinholas em outro lugar, Sam Coffrey!
Ele levantou os ombros e estendeu a mão a Persis.
— Então, está tudo bem, senhoras. Se quiserem falar comigo estarei no meu
escritório. — Enfiou um cartão de visitas na mão de Persis, saindo pouco após com seu
carro.
Hugo surgiu como um desvairado pela porta da cozinha quando o carro terminava
a manobra, pegando a estrada.
— O que ele queria?
Sua voz estava completamente rouca da fumaceira da noite anterior. Exausto,
havia sentado no sofá, enquanto Persis fazia um café, e adormecera.
— Bom dia, meu senhor! — disse ela, recompondo-se da raiva que a visita
provocara. — Conseguiu descansar?
— Raios, Persis! Eu perguntei o que fazia aquele urubu aqui! Você o chamou?
O rosto dele ainda estava sujo e o torso nu. Até mesmo Roxie o olhava, admirada,
porém Persis sentia a exasperação invadi-la.
— Claro que não! — respondeu. — As únicas pessoas que chamei foram da
demolição.
— Demolição? — Ele parecia surpreso. — Olhe, eu vi você apertando a mão do
Sam Coffrey. E até está com o cartão dele.
Ela sentia-se pronta a explodir num milhão de pedacinhos. O que mais desejava
era ser abraçada por ele e Hugo nem percebia.
— Você ficou tentada pela oferta dele! — Os olhos de Hugo se entrecerraram. —
Se está esperando vender estas terras para Sam Coffrey e mudar para minha casa,
enganou-se.
Persis perdeu toda objetividade numa onda de ira. Ela estava cansada, exaurida
emocionalmente e ferida por Hugo ter tirado aquelas conclusões.
— Se é da sua conta, amigão, eu não me mudaria para sua casa nem que esta
queimasse até o chão!
Atrás dela Roxie inspirou fundo e bateu três vezes na madeira. O queixo de Hugo
se enrijeceu e ele mal pôde articular as palavras:
— Cuidado com o que diz, moça!
— Não preciso de cuidado algum — retrucou ela, friamente. — Eu tinha dúvidas
sobre viver com você. Agora não tenho mais nenhuma, pois vejo que desconhece o
significado de confiança, lealdade e...
Hugo a interrompeu:
— Você é muito boa contadora de histórias, Persis. Não sei em que acreditar.
Ela sentiu-se a ponto de desmaiar. Não estavam tendo apenas uma discussão para
resolver a tensão acumulada; discutiam problemas básicos entre eles.
— Então, é melhor que pense a respeito. Obrigada pela ajuda, ontem à noite.
Uma sombra de tristeza pareceu invadi-lo.
— Fui apenas um bom vizinho, ao que parece...
Relanceou um olhar por Cassie e Roxie, cumprimentou-as com um aceno de
cabeça, voltou-se e foi embora.
Levon se aproximou, rápido, o olhar ainda brilhando de bom humor, o rosto e os
braços imundos de fuligem.
— Ele já vai? Foi ótimo, ontem à noite. Eu não conseguia acalmar o Joe e a Lucy
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Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
para tirá-los de lá, mas ele conseguiu em dois minutos:
— Ele é bom em puxar animais pelo nariz! — comentou Persis, azedamente.
Havia dado o coração a um homem que não acreditava em sua integridade. Não
passava de um teimoso, que tirava conclusões apressadas, vendo nos outros seus
próprios temores e inseguranças.
Ela tentaria curar-se daquele amor. Uma simples repetição diária das falhas dele
poderia ajudar.
— Quando os tratores chegarem — disse, então, para Levon —, oriente o serviço.
Ela não se lembrava de ter subido as escadas. Assim que sentiu a maciez do
travesseiro sob seu rosto, fechou os olhos.

Capítulo 12
Mesmo após a passagem do trator de lâmina, o local do incêndio ainda mostrava
carvão. Persis chutou um pedaço de madeira calcinada. Estava tão negra quanto seu
humor.
— Ora, menina, não fique andando por aí e suspirando sobre o que houve. Não se
pode fazer mais nada. — Tia Cassie havia se materializado a seu lado, passando-lhe o
pito sentido. — Vamos tocar em frente, com estábulo ou sem estábulo. Venha para a
cozinha comer um bolinho de canela.
Persis deixou-se levar pela tia. Sua depressão devia-se apenas em parte ao
incêndio e a velha senhora o sabia. Todos na casa sabiam que Hugo, embora tivesse
enviado um carregamento de forragem, não viera pessoalmente entregá-lo e nem
telefonara, desde o incidente de quatro dias atrás.
Roxie já atacava um bolinho de canela. Nem mesmo o delicioso cheiro que enchia
a cozinha conseguiu elevar o ânimo de Persis. Ela aceitou um bolinho, deu uma mordida
e colocou o resto de volta no prato.
— Pelo que percebo, você não teve sorte nos bancos... — comentou Roxie,
examinando a blusa e a saia que Persis reservava para ocasiões de negócios.
— Não. — Persis ficou a olhar o bolinho à sua frente, notando o feliz contraste
entre a massa branca e o castanho da canela. — Sam Coffrey tinha razão...
— O Sam Coffrey não passa de uma lata de lixo — comentou Roxie, zangada.
Tia Cassie engasgou, com o chá.
— Céus, minha criança. Que coisa para dizer!
— É verdade — apoiou Persis. — Coffrey simplesmente me cercou do lado de fora
do banco e me ofereceu o empréstimo.
— Ora, ora! Então esse homem tem reservas de bondade! — disse tia Cassie,
tirando outro bolinho da frigideira.
— Era um pequeno empréstimo, mas queria juros exorbitantes, além de colocar, a
curto prazo, Stony Ridge inteirinha como garantia.
E não quis saber de qualquer outra garantia. — Persis pensara em suas jóias de
ouro, que atingiram um belo preço pela avaliação do mercado; se não conseguisse o
empréstimo, sempre poderia vender o ouro. — Um tipo de empréstimo assim é a maneira
mais rápida de perder a propriedade. Eu disse não.
— Você é quem sabe o que é o melhor, minha criança. — E tia Cassie deu uns
tapinhas no braço dela. — Sam Coffrey realmente não é de confiança. Os orfanatos que
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Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
ele mantém vivem tendo problemas com o governo.
— Orfanatos, tia?
— Sim, orfanatos e asilos para velhos. A jovem ficou pensativa um instante.
— Titia, você ainda tem aquele tônico que costumava tomar? Cassie pareceu
surpresa.
— Acho que ainda há um restinho no fundo do vidro. Realmente, querida, talvez
você devesse tomar...
— Não é para mim — respondeu ela, resolvida a enviar o tônico para algum setor
governamental que pudesse analisá-lo. — Foi apenas uma idéia que tive.
Roxie trouxe-a de volta ao problema imediato.
— Então, o que vamos fazer?
Persis sentiu um calor íntimo com aquele plural. A deserção de Hugo fora tão
dolorida quanto a ferida que o trator deixara no solo no local do incêndio.
— Ainda não sei — admitiu. — Não podemos deixar as coisas no relento. Vamos
ter gastos para comprar o equipamento perdido e a forragem para o inverno. — Suspirou.
— Creio que teremos de nos desfazer dos cavalos. Podemos construir um barraco para
Rosebud e o dinheiro dará para alimentá-la. Mas Joe e Lucy...
Sacudiu a cabeça e os ombros em desalento.
— Hum! — disse Roxie lentamente. — Levon não vai gostar disso. — Colocou no
prato o último pedaço de bolinho e continuou: — E sobre os porquinhos? — indagou,
ríspida. — Creio que você também não vai pensar em um plano sinistro para eles, vai?
— Bem... — iniciou Persis, cautelosa — você sempre soube que a gente ia comer
o Biff. Quando a Muffy pode procriar; ainda assim talvez fosse melhor... — E passou o
dedo pelo pescoço.
— Não! Não os dois juntos! — berrou Roxie, horrorizada. Levon abriu a porta de
tela e o coração de Persis se amargurou ao perceber-lhe a alegria no rosto.
— Boas novas! — gritou ele, alegre. — Venham aqui fora! Elas se aglomeraram no
quintal onde Joe e Lucy. estavam atrelados a uma carroça carregada de implementos
agrícolas.
— O Sr. Godfrey deu-me tudo isto — disse Levon, com orgulho.
— Ele disse que conserva as peças em ordem, mas ninguém quer usá-las por
serem antigas, portanto nos deu. Além dessa carroça há um cultivador e dois arados.
Amanhã eu volto lá para pegar o espalha-dor de adubo.
— Oh, Levon! — Persis suspirou, agradecida, jogou os braços no pescoço do
enorme rapaz e deu-lhe um ruidoso beijo. — Isso é maravilhoso! Mas... onde vamos
guardar tudo? E os cavalos?
Levon ficou muito vermelho com o beijo.
— Bem, o velho Sr. Godfrey estava dizendo que as pessoas, antigamente,
costumavam construir os estábulos, celeiros, cocheiras e tudo mais em um ou dois dias.
Talvez a gente pudesse fazer isso...
— De qualquer jeito, teríamos de comprar o material — disse Persis, com tristeza.
— Mesmo um estábulo pré-fabricado não é barato. Não consigo emprestar dinheiro de
ninguém na cidade e não conheço ninguém fora da cidade.
— Vamos arranjar o dinheiro de algum jeito — disse Levon, dando-lhe um soco de
mentirinha no braço. — Talvez seus amigos no restaurante conheçam alguém que possa
emprestar.
Persis tornou-se pensativa.
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Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
— É uma idéia! Uma bela idéia, Levon!
Selina sopesou as jóias, com admiração, a expressão pensativa.
— Escute — disse, muito séria, inclinando-se por sobre a mesa na direção de
Persis — você não precisa deixar as jóias aqui. Pode guardá-las, como garantia do
empréstimo.
Persis sacudiu a cabeça, tentando reprimir as lágrimas, enquanto empurrava de
volta as jóias por cima da mesa.
— Fique com elas — disse, com firmeza. — O empréstimo é mais do que
generoso. Não vou ter a menor dificuldade na construção de um novo estábulo e não me
sentiria bem se vocês não ficassem com o ouro, para o caso de acontecer algo.
— Coisa alguma vai acontecer. — Selina bateu-lhe no braço. — Você não percebe
que me interessa conservar a minha fornecedora?
— Sorrindo, ela recostou-se na cadeira. — Gascon esteve aqui, na semana
passada. Tentando saber quem é meu fornecedor. Vale uma fortuna, para mim, que você
continue fornecendo vegetais com aquela qualidade, os tomates maravilhosos, as mini
espigas de milho! — Rolou os olhos, beijando a ponta dos dedos. Persis pegou o cheque
feito a favor da firma Demeter's Gardens.
— Continuarei a fornecer, por certo — disse com fervor. — Pode apostar.
Quando ela chegou em casa, divisou uma caminhonete estranha estacionada.
Levon conversava com um homem que girava um chapéu de largas abas, nas mãos
calosas.
— Este é o Wilmer Leaky, um dos sobrinhos de George Godfrey
— apresentou-o Levon. — Sr. Leaky, esta é Persis Whitley. Wilmer Leaky tinha
esparsos cabelos avermelhados e uma compleição pesada. Vestia jeans desbotados,
assim como uma camisa de flanela, com as mangas enroladas. Um tanto embaraçado,
estendeu a mão para cumprimentá-la.
— Ouvi que a senhora estava complicada, madame — disse ele.
— Tio George achou que eu podia ajudar.
— Oh, vocês são muito gentis! — murmurou Persis, a cada vez mais surpresa e
maravilhada com a maneira como o povo do campo se tratava.
— O Sr. Leaky tem um estábulo a mais e pode emprestá-lo — disse Levon.
— Claro, um estábulo a mais!... — Persis não sabia se chorava ou ria.
— Era do meu sogro — explicou Wilmer. — Mas ele morreu no último outono. Ia
transportar o estábulo para a fazenda dele; tinha comprado umas terras e o estábulo
estava lá. Então, ele numerou
todas as peças e o desmontou... — Wilmer sacudiu a cabeça, tristonho.
— Sinto muito... Sinto pelo que você contou — conseguiu dizer Persis, não
sabendo se, histericamente, começaria a rir no instante seguinte.
— Pois é. E o pedaço de terra coube para minha mulher e para mim. Não
precisamos de dois estábulos. Se pudesse transportar a madeira que está lá
atrapalhando.
— Olhou-a com esperança.
— Não sei, Sr. Leaky. Preciso ver...
— Nós vamos olhar hoje à tarde — interveio Levon, com firmeza.
Wilmer abriu um sorriso e despediu-se pouco após.
— Eu obtive um empréstimo de Selina — explicou Persis ao rapaz, depois que a
caminhonete de Leaky desaparecera no fundo da colina. — Poderíamos comprar um
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desses pré-fabricados.
Levon fungou.
— O de Leaky é de graça, basta ir pegar. E poderemos montá-lo como se fazia
antigamente: convidamos os vizinhos, oferecemos a comida e a bebida. O resto vai
sozinho!
— Começo a perceber — disse Persis, sorrindo, e seu humor começou a melhorar,
percebendo que as coisas estavam caminhando para o melhor. — Qualquer desculpa
serve para uma festa, não é?
— Claro que será divertido — admitiu ele. — Tal como nos velhos tempos!
Aquela tarde foram examinar o estábulo desmontado. O velho George Godfrey foi
junto, para mostrar o caminho de onde se encontravam as madeiras e alegrou o trajeto
todo com velhas histórias que fascinaram Persis a ponto de quase perder a direção.
Quando saíram da estrada principal, seguiram as indicações do velho Godfrey, que
foi o primeiro a descer da caminhonete e dirigir-se para a pilha de peças. Alguém havia
coberto a madeira com plástico que, aos poucos, estava se rompendo e laçando fiapos ao
vento.
Persis sentiu a confiança se evaporar. Para ela, o estábulo parecia ter sido
assolado por um furacão, irremediavelmente.
Levon também parecia em dúvida.
— A madeira está em melhor condição do que a do nosso velho estábulo —
murmurou ele. — Ainda bem que recobriram com plástico.
— É. Mas pense só na trabalheira de montar isto tudo! O velho Godfrey entreouviua.
— Não vai dar tanto trabalho — comentou ele, enfiando os polegares nos
suspensórios. — Este estábulo aqui foi desmontado com cuidado. Basta montar de novo,
no sentido do vaivém. — Cuspiu de lado, tirou um enorme lenço do bolso de trás das
calças e, limpando o suor do rosto, prosseguiu: — O pior vai ser levar tudo isso para lá.
Conhece quem tenha um bom caminhão aberto?
Persis e Levon trocaram um olhar.
— Hugo tem — disse ele, hesitando. — Usa-o para levar equipamento de um lado
para outro.
— Por acaso, seu filho não teria um? — Persis implorava com o olhar, para o velho
Godfrey.
— Oh, sim, claro que tem — admitiu George. — O problema é que o motor está
fora do caminhão. Diz que ele mesmo vai consertar, o que é gozado... Talvez, um dia,
quem sabe?
Persis alteou os ombros.
— A gente aluga um caminhão, se for preciso — disse, com determinação. — Hoje
é terça. No sábado faremos a festa de levantar o estábulo.
— Hum-hum! — Riu-se o velho Godfrey. — Assim é que se fala, dona. — Bateu
afetuosamente numa das peças de madeira. — Isto vai ser montado que é uma beleza!
Persis se encaminhou pela vereda que levava do lago dos Desejos à casa de
Hugo. Em hipótese alguma queria fazer isso, mas simplesmente haviam feito uma eleição
e ela perdera. Lá atrás, na cozinha de Cassie, três conspiradores risonhos se
congratulavam, pois haviam encontrado uma forma de reunir os amantes separados.
E bem lá no fundo dela havia uma pequena esperança de que eles estivessem
certos. Seguramente Hugo, a estas alturas teria percebido o absurdo de acabar com o
Projeto Revisoras - 70

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que havia entre eles só por causa de uma estúpida discussão.
Mas, se assim fosse, por que ele não havia retornado para pedir desculpa?
— Não espero que ele rasteje diante de mim — murmurou ela, consigo mesma,
chegando ao fim do caminho. — Basta que lamba minhas botas e me darei por satisfeita!
Agora era capaz de admitir que, em parte, havia sido culpa dela. Não havia tentado
esclarecer as coisas, nem apontar os preconceitos dele. Ambos estavam cansados,
irritados, sem saber claramente o que significavam um para o outro.
A discussão apenas reforçava suas dúvidas sobre casamento. Nos últimos dias ela
chegara à conclusão de que desejava, e muito, casar-se com Hugo, começar uma nova
vida, trabalhar junto dele.
Mas desejava integrar sua vida com a dele e não apenas adotai uma vida sem
reservas. Se ele não pudesse aceitar isso, bem. ... Persis parou sobre o pedrisco que
cercava a casa de Hugo. À esquerda SI tava ela, escura e tristonha no entardecer. À
direita podia discernir o estábulo, iluminado, com o gado já entrando para a noite. Ela
supôs que ele estaria lá, mas não desejava que Zeke e outros empregados pudessem
presenciar o reencontro.
Voltou-se para a casa vazia. A vida de Hugo realmente era desequilibrada, pensou,
abrindo a porta de tela, entrando na cozinha e acendendo a luz. Toda a ação e
camaradagem se desenrolava na ala leste da casa. O outro lado ficava no abandono e na
solidão.
Movimentando-se automaticamente, pegou os ingredientes para um soufflé,
usando os ovos frescos que havia trazido numa cestinha, como oferenda de paz. Apesar
de sua raiva não resolvida sobre o comportamento dele, não conseguia imaginá-lo
comendo sozinho na ampla cozinha. Ao menos ela poderia fazer o jantar e tentar esquecer os problemas por aquela noite.
Quando a porta de tela se abriu ela estava fatiando alho porro. Disse, sem se
voltar, temerosa de encará-lo:
— A única coisa que você tem na geladeira são tortas congeladas?
Durante alguns segundos ele não respondeu.
— O que você está fazendo aqui? — Sua voz estava gelada, quando por fim falou.
Ela depositou a faca sobre a pia e voltou-se para ele.
— Estou fazendo um soufflé. Quer dividir comigo?
A voz dele soara gelada, mas seu rosto mostrava o esforço em manter-se alheio a
ela:
— Por que está aqui?
Ela hesitou, afinal respondeu:
— Em boa parte por que Levon se recusou a vir. Eu... eu tenho um favor a pedir.
Os dentes dele cerraram-se.
— Eu já mandei a forragem — disse, frio.
Persis sentiu vontade de virar as costas e ir embora, mas dominou-se.
— Sim, muito obrigada. — Ele nada respondeu e ela continuou: — É outro
problema.
Hugo recostou-se no armário e cruzou os braços ao peito.
— Vá em frente — disse e seus lábios desenharam um sorriso sarcástico —, peça.
— Bem... — Persis enxugou as mãos na calça jeans. — Ontem eu consegui um
empréstimo...
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O sorriso gelou no rosto de Hugo.
— Já ouvi que Sam Coffrey estava soltando bravatas na cidade sobre um
empréstimo para vocês. Não teria conseguido esse empréstimo a menos que tivesse
dado Stony Ridge em garantia. — Ele sacudiu a cabeça lentamente, mal acreditando. —
Você... Você não pode ter...
— Não seja idiota — cortou ela, impaciente. — Não sou estúpida a ponto de pedir
empréstimo para Sam Coffrey.
Ele atravessou a cozinha em duas largas passadas, rosnando:
— Então, pediu a quem? O que ofereceu em garantia? Persis, por que não veio
pedir a mim?
— Pedir a você? — ela quase gritava. — Eu vim a você, seu ignorante! E tudo o
que estou recebendo é pancada! — Ela se afastou e foi para a porta. — Este é o último
engano de minha vida! Você não espera um segundo para fazer mau juízo de mim e nem
sequer para me ouvir! — Ela cerrou as mãos, os dedos trêmulos. — É muito rapidinho em
chegar às suas conclusões, Hugo MacAllister. Desta vez você aterrissou no próprio
traseiro!
E ficou satisfeitíssima ao sair, batendo a porta atrás de si.
O grupo que deixara em casa ainda estava em volta da mesa, deliciando-se com
os sonhos recheados. Todos ficaram sérios quando viram o rosto de Persis.
— As coisas não deram certo, não? — E tia Cassie colocou o garfo na mesa,
tristonha.
— Não deram certo e ponto! — Persis parou junto à porta. — Levon, vamos alugar
um caminhão. Você providencia?
— Sim, senhora. — E Levon quase bateu continência.
Ela nem chegou a ver, pois, nesse instante, já subia a escada barulhentamente.
— Isso vai comer uma parte do dinheiro que iríamos empregar na festa da
construção — comentou ele. — Sem o caminhão do Hugo...
A porta de tela voltou a se abrir e Hugo entrou.
— Vocês podem usar o meu caminhão, se é o que precisam — disse ele, algo
ausente. — Onde foi ela?
Sem nada dizer tia Cassie apontou para cima. Hugo seguiu calado. Podiam escutar
suas botas subindo os degraus de dois em dois. Fez-se um silêncio funéreo na cozinha,
que ninguém queria quebrar.
— Bem...—resolveu-se a velha senhora, por fim, voltando a pegar o garfo. — Acho
que precisaremos fazer mais um pouco de sonhos, Roxie.
Persis mal havia tomado sua posição favorita à janela, os cotovelos apoiados,
quando Hugo entrou como um furacão.
— Escute aqui, mulher! — Ele avançou sobre ela. — Como se atreveu a pensar
que podia me passar para trás?
— Como você pôde pensar isso? — Persis o encarou, o queixo levantado,
recusando-se a sentir-se intimidada.
Ele parou bem à sua frente, sem tocá-la, encarando-a com intensidade
desesperada, enquanto dizia, com voz presa:
— Quando se trata de você, eu mal consigo pensar. O que sinto já toma lugar em
demasia no meu cérebro. Fico tão aterrorizado em perdê-la que isso passa a acontecer
na minha cabeça.
— Hugo...
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— Me diga de vez! — cortou ele. — Me dê paz na alma. Repita comigo: "Hugo, não
vou a lugar algum, não vou embora!"
A necessidade dele era hipnótica e contagiosa.
— Hugo — e ela ouvisse repetir, obedientemente —, eu não vou a lugar algum,
não vou embora... Espere um pouco! Você deveria saber que...
— Isso não importa! — Ele segurou-lhe o rosto. — Diga: "Hugo, eu vou casar com
você!"
Ela ficou petrificada por instantes.
— Não. — Sua voz era quase inaudível. — Eu quero, mas, não posso.
— Não quer, porque fui estúpido? indagou ele, amargurado. Ela não conseguiu
resistir e sorriu.
— Em boa parte — murmurou.
Ele tocou-lhe a boca com os lábios e deu um passo atrás.
— Não vou forçá-la — disse, por fim —, mas nós vamos nos casar. Marque isso,
Persis.
Ele desapareceu pela porta do quarto e ela ficou piscando por alguns momentos,
antes de descer correndo a escada atrás dele. Os demais sentavam-se em torno da mesa
da cozinha, garfos parados no ar, ainda olhando a porta de tela que se fechara.
— Ele estava... ele parecia estar com raiva? — perguntou Persis, aflita, entrando
na cozinha.
As cabeças voltaram-se todas em sua direção. Lentamente, como se fossem
bonecos, fizeram que "não". Roxie quebrou o silêncio:
— Por fim temos um caminhão. — E passou a colocar creme de morangos dentro
do sonho. — E a que conclusão vocês dois chegaram?
Persis ficou apalermada, então respondeu:
— Não sei. Estou confusa... Muito confusa.
Hugo apareceu no dia seguinte, após o desjejum. Deu um terno beijo no rosto de
Persis e, então, chamou Levon para examinarem o local onde houvera o incêndio,
discutindo a melhor forma de reconstruir o estábulo.
Persis ficou junto à porta, as mãos nos quadris, olhando-os andar de um lado para
outro.
— Vejam só! — E foi raivosa até a mesa pegar sua xícara de café. — De todos os
arrogantes, presunçosos e estúpidos homens do mundo...
— Ele é um homem, não é? — perguntou Roxie, porém sem a acidez que a
marcava quando chegara ali, no início do verão. — Mesmo ao melhor de todos os
homens tem-se que fazer concessões...
— Há bastante verdade nisso — comentou tia Cassie, levando o prato de aveia
para lavar na pia. — Orville era o homem da mais doce têmpera que já vi, mas de vez em
quando metia uma idéia na cabeça e era impossível demovê-lo. Teimoso? — Levantou as
duas mãos, em horror. — Até hoje me lembro algumas lutas de salve-se-quem-puder que
tivemos. Brigávamos o tempo todo a respeito daquela torneira de água, no galinheiro, da
bomba, então, Orville nem queria ouvir falar! Dizia que era uma perda de água e de
eletricidade, que -não tinha nada errado em a gente encher os tanques com balde. Mas
essa foi uma das vezes em que bati o pé. — A velha senhora estalou a língua, pensativa.
— Passaram-se meses antes que ele me perdoasse.
Persis mal ouvia a história da tia. Estava próxima da pia, olhando pela janela o
local do estábulo. Os dois homens continuavam caminhando, enquanto Levon consultava
Projeto Revisoras - 73

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
alguma anotação num caderninho.
— Não gostei dessa! — As outras duas mulheres se interromperam, algo
surpresas, e encararam Persis. — Ao menos deveriam ter me convidado para ir junto!
— Então, por que não vai? — argumentou tia Cassie, com razão. — Você tem
pernas, não tem?
Sem saber como responder, a moça foi para o quarto. A verdade é que deveria ter
saído para discutir a futura construção, mas não conseguia ficar junto a Hugo e sentir o
olhar intenso sobre si, que lhe dava impressão de ser perseguida, acuada,
agradavelmente procurada. Estava muito confusa para suportar a presença dele.
Deveria ter ido até sua horta que, com a chuva, havia mostrado novas plantinhas.
Em vez disso, resolveu ficar à janela e pensar em Hugo, que não prestava a menor
atenção na casa, ocupado em fazer anotações em um bloco, conforme Levon apontavalhe algo. Poucos minutos depois eles apertaram-se as mãos. Hugo dirigiu um longo olhar
na direção do quarto dela e andou rapidamente para o lago dos Desejos, como um
homem de negócios muito atarefado.
Suspirando, ela se reclinou no parapeito por mais alguns minutos, deliciando-se
com a fresca da manhã que, logo mais, se tornaria um calor tórrido, prenhe de umidade.
Pela primeira vez reconhecia que Stony Ridge conseguiria vencer o drama do incêndio.
Claro que agora era devedora, mas por causa do estábulo doado, já pudera de volver a
maior parte do dinheiro, guardando apenas o suficiente para construir sua sonhada
estufa. Isso faria Selina ficar encantada, uma vez que seu fornecimento praticamente não
seria interrompido o ano inteiro e, agora, a dívida era razoável, pouco mais que o valor de
suas jóias em ouro. Os dedos delgados se dirigiram para as orelhas, sentindo falta do
peso dos brincos que comprara na Tailândia.
A porta de tela, lá embaixo, abriu-se e deixou passar tia Cassie em direção ao
galinheiro. Roxie a seguia, carregando um balde com alimento para os porquinhos. Levon
desapareceu no seu quarto, que ele tinha salvo do incêndio, no momento de alta tensão,
simplesmente arrastando o quarto de madeira de suas fundações até uns poucos metros
longe do fogo. Levara alguns dias remendando as paredes estouradas com a furiosa
mudança.
Persis ficou a olhar a casa dos MacAllister, cujas janelas rebrilhavam ao sol
matinal. Tudo estava em suas mãos, ela o sabia. Jamais Hugo pediria desculpas: aceitava
que ele confiava nela, aceitava seu pedido de casamento ou não.
Mas ainda hesitava. O rapaz deixara claro que não compartilharia de suas viagens.
Casar-se com ele poderia significar que jamais voltaria a ver a lua se elevar por cima da
Acrópole ou visitar a Stonehenge no solstício. Ela conseguiria desistir de tudo isso?
E havia tia Cassie. Persis tinha certeza de que não poderia deixá-la só. Roxie e
Levon eram ótimas pessoas, mas não ficariam para sempre. E se a velha senhora ficasse
mais fraquinha, não seria justo exigir que um estranho cuidasse dela.
Uma poeira crescia na estrada lá embaixo, desviando-se depois para a estradinha
que levava à casa. Curiosa, Persis prestou mais atenção. Parecia ser um caminhão de
alguma espécie, um velho caminhão, com uma lona ou plástico cobrindo a carroceria.
O caminhão se aproximou e parou ao lado da sua caminhonete. As portas se
abriram. Do lado do motorista desceu um homem alto e magro, que olhava em torno com
prazer, os olhos míopes deformados pelas grossas lentes dos óculos; o cabelo curto e
encaracolado estava entremeado de fios brancos e ele os penteava para trás, com as
mãos.
Do lado do passageiro desceu uma mulher pequena, cabelos negros e brilhantes,
cortados curtos. Examinou as cercanias e, então, dirigiu-se para a traseira do caminhão.
Projeto Revisoras - 74

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
Persis voltou a si, reconhecendo-os, aturdida.
— Mamãe e papai!
Desceu as escadas voando, saiu pelo terreiro e lançou-se nos braços do pai.
— Persis, minha querida! — O pai sorria amplamente. — Por fim chegamos. Você
ficou preocupada?
— Deveria ter ficado? — indagou a moça e virou-se para a mãe, que ajeitava
alguma coisa na traseira do veículo. Abaixou-se um pouco e deu-lhe um abraço e um
beijo. — O que os trás aqui?
— Ora, James! — Monique Whitley colocou as mãos na cintura de uma maneira
que Persis reconheceu copiar inconscientemente. — Não me diga que se esqueceu de
colocar aquela carta no correio? Tenho de fazer de tudo?
— Provavelmente... — Ele olhou em torno de si, como a esperar que a carta se
materializasse. — Acho que a coloquei no correio; mas pensando bem estou me
lembrando de ter entrado em uma lavanderia. Terei colocado dentro de uma máquina de
lavar roupa — Sorriu, orgulhoso de ter resolvido o mistério.
Nisso aconteceu um berro da traseira do caminhão, fazendo Persis dar um salto.
— Temos que deixá-las sair! — disse Monique
— Quem? — espantou-se Persis, apreensiva
Levon apareceu na porta de seu quarto. Roxie também espiou por uma fresta da
janela, curiosa.
— As cabras — explicou James. - Viajaram bem.
Persis ficou a olhar, emudecida, enquanto os pais levantaram o plástico. Houve
um momento de silêncio e, então, um mundaréu de cabras invadiu o terreiro
— Elas estão felizes com a nova casa — explicou Monique, enquanto uma das
cabritas correu até a porta da cozinha e quase atravessou a tela de arame da porta. —
Ficaram presas por muito tempo.
— Mamãe... — A voz de Persis mal saía. — Papai... por que trouxeram essas
cabras?
— Eu lhe contei na carta — disse-lhe o pai, surpreso. — Foi quando você
mencionou que gostaria de fazer queijo de cabra que tivemos a idéia.
— Sim — completou a mãe. — Decidimos fazer o melhor queijo de cabra deste
país: vamos rivalizar com o de Montrachet, com o Bucheron...
— Certo, mamãe... — Persis voltou a fazer como sempre: preencher as lacunas e
tirar conclusões sobre o que seus pais falavam. — Querem fazer queijo de cabra. E
pretendem fazê-lo aqui?
— Mas é claro! — Ela parecia espantadíssima. — Onde mais? Aqui você já tem
outros animais!
Apontou o pasto onde Joe, Lucy e Rosebud colocavam as cabeças por cima da
cerca, olhando fascinados para as cabras, tentando levá-las ao pasto, antes que
comessem a horta. Uma cabrita branca e castanha já estava comendo as rosas junto à
porta da cozinha.
O coração de Persis não sabia se alegrava-se ou chorava.
— E suas aulas, papai? Pensei que você estivesse fazendo pesquisas no sul da
França, mamãe.
James dispensou tais considerações:
— Bem, não posso ensinar em dois locais ao mesmo tempo. Suas cartas me
fizeram compreender que já era tempo de voltarmos para casa. Portanto estamos aqui. —
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E dirigiu-lhe um simpático sorriso. — Passamos uma quinzena com a família Vigne, antes
de virmos. Anotei cuidadosamente todos os passos na produção dos queijos. Parece fácil.
Ficou um instante pensativo, depois voltou a falar:
— De fato, a pior parte de tudo é tirar o leite das cabras. — Exa minou Levon, que
se mantinha respeitosamente a distância. — É um dos seus estudantes? Parece forte!
— Levon, estes são meus pais — murmurou Persis, quando ele se aproximou. —
Deixe ver se entendi, papai. Você largou a Sorbonne, passou duas semanas na Provença
aprendendo a fazer queijo de cabra e veio para cá. Com as cabras? — Uma imagem
fascinante dos pais com as cabras, dentro de um avião, cruzou-lhe o cérebro.
— Claro que não, querida. — Ele bateu-lhe no ombro. — Compramos as cabras
em Iowa, de um criador recomendado pela universidade.
— E então, agora vão fazer queijo?
Ela não sabia interpretar-seus próprios sentimentos. Seu pai era um homem não
prático, porém a mãe geralmente pensava razoavelmente.
— Bem, é claro que eu não posso, por causa do ensino. Monique está
entusiasmada com a idéia — explicou ele com paciência. — Mas já expliquei tudo isso na
carta!
— Eu não recebi a carta, papai!
Persis inspirou fundo. Sua mãe havia conseguido convencer um dos animais a
entrar no pasto norte e os demais a seguiam, só se interrompendo para comer flores.
— E quais são seus planos para ensino? — perguntou ao pai.
— O professor Nauman não lhe contou? — Ele começava a mostrar sinais de
preocupação. — A universidade local me escolheu para ocupar a disciplina de Clássicos.
O professor Nauman e eu estamos ansiosos para discutir, frente a frente, nossas
posições sobre os pré-helênicos. — Abraçou a filha, como a pedir desculpas. — Estava
tudo claro na carta, minha filha. E como a disciplina é especial, o salário é ótimo. E claro
que agarrei a chance de voltar e ficar junto de você e Cassie. Onde ela está?
Tia Cassie saiu do galinheiro e, vendo-os, colocou a cesta de ovos no chão, não
parecendo surpresa com a presença do sobrinho.
— Ora, ora, James, nunca pensei vê-lo de novo. Você não larga daqueles
estrangeiros! Faz trinta e quatro ou trinta e cinco anos? — Deu-lhe um beijo no rosto e
sorriu. — Deixe-me olhá-lo, meu menino. Percebo que ainda tem os cabelos bonitos.
O pai de Persis sorriu, desajeitado.
— Está ótima, Cassie. Minha menina tem cuidado direito de você?
Cassie puxou Persis para si.
— Ela é a coisa mais doce que jamais conheci. Você a criou muito bem.
Monique aproximou-se, limpando as mãos energicamente.
— Pronto, agora estão trancadas. Temos de construir um lugar para tirar o leite o
quanto antes, James. — Olhou em torno. — Onde está o seu estável, Persis?
— Estábulo, mamãe. Pegou fogo outro dia. Neste sábado vamos construir um
novo. — E vendo a expressão benévola do pai, a expressão vívida da mãe, encheu-se de
felicidade. — É maravilhoso que tenham vindo! Nem acredito que vão ficar!
— Nós sentimos sua falta, filhinha! — disse a mãe, simplesmente. — Vamos viajar
um pouco, por aqui e por ali. Mas desta vez viemos para ficar junto de você.

Projeto Revisoras - 76

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
Epílogo
Hugo imobilizou-se no alto do caminho, incapaz de decidir se devia seguir em
frente ou voltar. Um olhar por sobre o ombro, em direção à sua casa escura e silenciosa,
decidiu-o. Continuaria em frente, fazendo a corte a Persis até que ela esquecesse o bruto
que ele havia sido. Com o tempo, ela poderia voltar a se apaixonar por ele.
Talvez até já estivesse a aguardá-lo no lago dos Desejos. Ele estava a meio
caminho do lago quando este pensamento assomou a seu cérebro. A imagem dela nua,
nadando, fê-lo ansiar por chegar logo. Se ela o estivesse esperando seria tudo de que ele
precisava saber.
Havia um montinho de roupas brilhando, claras, na beira da água, mas as vozes
que o vento lhe trazia não eram familiares.
— Persis? — chamou ele.
As vozes se interromperam e, depois, recomeçaram. Então, ele conseguiu divisar
duas cabeças molhadas dentro do lago.
— Não é Persis, desculpe — disse uma voz masculina. — Quem é você?
— Hugo MacAllister. — Ele forçou-se a ficar imóvel, mas lhe parecia profanação
ver outras pessoas nadando nas águas que eram consagradas a ele e ao amor de Persis.
— Vocês sabem, isto é propriedade privada.
— Claro que sim — disse a voz masculina, com um toque de humor nela. — Então,
você é o Hugo?
E havia uma pergunta, ao mesmo tempo que em toque de humor na frase, o que
fez o rapaz cerrar os punhos. Seria um rival dele?
Soou a outra voz, deliciosamente feminina, com um acentuado e atraente traço
francês na pronúncia.
— James, você não tem educação. Nós somos os pais de Persis, monsieur Hugo.
Perturbamos sua natação noturna? Incomoda-se de juntar-se a nós?
— N-não, nã-não! — tartamudeou ele.
Saber a identidade dos dois atingiu-o como um violento golpe. Eram os pais, que
viviam a viajar e só podiam ter vindo para buscá-la! Sentiu-se cair de novo no fosso do
qual acabara de emergir. Disse, com esforço:
— Eu não sabia que tinham vindo visitar Persis...
— Ninguém nos esperava! — Havia riso também na voz dela. — Esse meu marido,
que estupide ele é! Mas conseguimos chegar em segurança, junto com as cabritas.
Hugo mal ouvia. Sua mente estava em parafuso, tentando aquilatar o que tudo isso
poderia significar para seu amor e sua vida.
— Onde... onde está Persis?
— Está em casa — disse-lhe James; estavam agora tão próximos que Hugo
conseguia vê-los dentro do lago, com a água pelos ombros e, tal como a filha, eles
prescindiam de roupa de banho! — Ela disse que não tinha vontade de nadar.
— Até logo... — cumprimentou Hugo, dirigindo-se ao caminho no lado mais
distante do lago.
As vozes continuaram a soar atrás dele, mas não lhes prestou atenção. Com um
único propósito em mente, subia a colina. Se Persis estava pensando em ir embora, se
ela tivesse sequer pensado por um instante recomeçar sua vida vagabunda... Parou no
topo da colina para recuperar o fôlego.
Afinal fora isso que o levara ao rompimento: saltar para conclusões apressadas,
Projeto Revisoras - 77

Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts
para afirmações categóricas. Seria péssimo se ele voltasse a cometer os mesmos erros, a
partir de um terrível medo de perdê-la.
Lutou para usar o cérebro, em vez das emoções. O primeiro pensamento que
aflorou foi "cabritas". Monique havia falado alguma coisa sobre cabras.
Pais que vieram buscar a filha trariam cabritas?
Não, a menos que fossem doidos. Ficou a pensar no que conhecia a respeito dos
pais dela e decidiu: até que poderiam ser, porém as chances indicavam que as cabras
eram importantes.
Quando chegou a casa tinha conseguido se controlar. As vozes e o ruído de louça
sendo lavada vinham da cozinha, porém seu ouvido de amante não discernia a voz de
Persis.
Num impulso contornou a casa, buscando o lado da frente.
Lá estava ela, sentada ha varanda, os cotovelos sobre os joelhos, olhando as
últimas cores do pôr-do-sol desaparecerem no horizonte. Ele sentou-se a seu lado,
percebendo o olhar de esguelha que lhe dera, mas contentando-se em ficar a seu lado,
silencioso.
Depois de um momento, pegou-lhe a mão e ela não a retirou. Quando o último tom
de violeta desapareceu na noite, resolveu falar:
— Dá para me explicar que projeto têm seus pais? Vão criar cabritas?
Havia um tom de riso em sua voz quando ela respondeu:
— Não está longe da verdade: pretendem fazer queijo de leite de cabra.
Ele ficou silencioso por um minuto, depois disse:
— Queijo de cabra tem gosto horroroso! — Havia total convicção em sua voz.
— Para um paladar deseducado, talvez... — As palavras carregavam um tanto de
irritação. — Posso lhe assegurar que se minha mãe se meter a fazer queijo de leite de
cabra, fará o melhor do mundo.
Ele suspirou, aproximando-a e interrompeu-a com os lábios tomando os dela,
gentil, mas implacavelmente. Após um momento Persis relaxou, retribuindo o beijo com
selvagem espontaneidade, ateando no corpo dele um fogo que o deixou trêmulo.
— Então, quando você se casar comigo — murmurou ele, por fim, mordiscando-lhe
o lóbulo da orelha —, eles ficarão aqui com tia Cassie. Isso combina cem por cento!
— Está seguro de si! — murmurou ela, de volta, e sua mão tremia quando afastou
o cabelo da testa. — Eu ainda não disse sim.
Com um gesto bastante rápido ele tomou-a nos braços e sentou-a no colo,
segurando-a com um braço enquanto buscava, com a língua, a região em baixo de sua
orelha, fazendo-a encolher-se.
— Você ainda dirá sim, pois deve ter sido gentil a ponto de dar seu quarto para
seus j5ais dormirem. Eu dormi uma única vez no sofá de Cassie. Deve ser o mais
desconfortável na história da espécie humana.
Ela controlou a risada, escondendo o rosto no peito dele.
— É mesmo? Talvez eu ponha a Roxie para ficar no sofá e fique com o quarto dela.
— Fique comigo! — Sua respiração balançou os fios de seu cabelo e ele reforçou o
convite com sua língua deslizando na pele lisa. — Há espaço suficiente em minha cama,
embora eu não espere que você vá descansar...
Ela se afastou um pouco, os olhos encontraram os dele com seriedade.
— Hugo, o que você pensou quando encontrou meus pais aqui? Ele se mexeu,
desconfortável, mas foi sincero:
Projeto Revisoras - 78

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— Por instantes pensei que tivessem vindo buscá-la. — Puxou-a mais para si e
conservou-a próxima. — Mas sabia que não iria embora. Você me ama, vai se casar
comigo.
— Mas...
Ele não prestou atenção ao protesto.
— A gente podia casar agora, talvez durante a construção do estábulo. É a estação
do ano mais movimentada: eu não poderia viajar para uma lua-de-mel.
— Hugo...
Ele tapou-lhe a boca com uma mão, mantendo firme os olhos nos dela.
— Mas acho que novembro, ou por aí, poderia encontrar um tempinho. Gostaria de
conhecer as ilhas gregas.
Ela o segurou pelos ombros.
— Verdade? Quer viajar mesmo? Ele não hesitou:
— Com você como guia? É claro que sim!
Na luz difusa do crepúsculo, ele não conseguia distinguir as lágrimas que corriam
dos olhos dela.
— Persis — disse, emocionado —, farei o que for preciso para conservá-la a meu
lado. Se o preço for preservar a sua liberdade, eu o farei.
— Eu o amo, Hugo. — Ela pressionou o rosto contra seu peito e ele percebeu a
umidade nas faces dela. — Acha que depois de nos casarmos vamos brigar o tempo
todo?
Uma alegria profunda o invadiu. Abraçava-a para, ao mesmo tempo, lembrar a
sensação forte e suave de seu corpo.
— Às vezes... — disse ele, com suavidade. — E às vezes ficarmos em sincronia
como um casal que viveu junto por longos anos. Se brigarmos, acho que encontraremos
maneiras de nos reconciliarmos maravilhosamente.
— Dê um exemplo...
Ela sorria para ele e o amor que transmitia parecia um farol de avião. Hugo fechou
os olhos por curto instante, maravilhado com sua sorte.
— Tal como este exemplo — murmurou, seus lábios encontrando a região sensível
da garganta dela, saboreando-lhe a doçura, fazendo-a retorcer-se, deliciada. — E assim...
— Mordiscou o bico de um seio, por cima da camiseta de algodão.
Ela gemeu e arqueou-se em seu colo, enquanto ele sentia o selvagem desejo
disparando dentro de si.
— E também assim... — Passou a mão pelos quadris e, depois, por dentro de suas
coxas, acariciando a suavidade ali escondida. — Oh, querida — gemeu ele em seu
ouvido. — Por favor, deixe-me salvá-la daquele sofá esta noite.
— Mas é a primeira noite de meus pais aqui, Hugo! — Os movimentos dos dedos
dele cortaram-lhe a frase com uma onda de prazer. — Pelo amor de Deus...
De repente, levantou-se do colo dele e sentou-se a seu lado, enquanto vozes se
aproximavam, do outro lado da casa.
James e Monique surgiram andando calmamente, soltando exclamações de prazer
diante da beleza do anoitecer. Seus cabelos ainda estavam molhados, mas ao menos
estavam vestidos.
— Oh, Hugo! — James sorriu, sentando-se no terraço. — Bom vê-lo de novo.
— Sim... — Ele levantou-se, puxando a jovem. — Persis e eu... Persis e eu...
Enfim, queremos nos casar.
Projeto Revisoras - 79

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— Tão de repente? — Monique acariciou o rosto da filha. — Isso é verdade,
filhinha?
— Sim, é verdade. — Persis engoliu seco. — Nós estávamos pensando... talvez no
próximo sábado.
— "Casa-se depressa: arrependa-se o resto da vida", é o que diz o ditado. —
Desta feita era a voz de tia Cassie, vindo da janela da sala que dava para a varanda.
— Você não aprova, titia? — Persis havia se voltado, buscando divisar a figura da
velha senhora em meio o escuro.
Ela abriu a porta e saiu para o terraço.
— Oh, têm a minha bênção! Ficou muito claro o que estava acontecendo entre
vocês dois. — Ela voltou-se para os pais de Persis. — É melhor que se casem logo, o
Hugo não é desses que resolvem o problema com um banho de chuveiro frio.
Monique riu, concordando.
— Muito bem. Começaremos com um casamento e continuará mos fazendo queijo
de cabra. — E, abraçando Cassie, juntai entraram, trocando idéias em sussurros.
— Estou feliz, minha querida. — James abraçou a filha, endereçando um olhar
amigo a Hugo. — Você vai tomar conta de Persis.
Não era uma pergunta, mas uma afirmação.
— É claro — respondeu Hugo, c a l m o .
James seguiu as mulheres para dentro de casa, deixando os jovens se olhando.
Portanto... — sorriu ele —, o lago dos Desejos está livre, agora. Que tal nadar? Ela
não conseguiu evitar o sorriso que lhe iluminou o rosto.
— Claro — disse, sensualmente. — Devo pegar o maio?
— Não se incomode! — E ele pegou-a pela mão, conduzindo-a em volta da casa e,
de passagem, arrancou uma toalha que já estava seca, pendurada no varal. — Minha
esposa e eu preferimos à maneira européia.
Ela riu, o som argênteo seguindo-os colina abaixo, em direção às águas do lago
dos Desejos.

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Darling n. 28 – O Lago dos Desejos – Leigh Roberts

NÃO PERCA A PRÓXIMA EDIÇÃO nº 29
O AMANTE DESCONHECIDO
Judith Arnold
Ao fugir da desilusão, Gretchen descobre a volúpia do prazer
Um grito sufocado escapa dos lábios de Gretchen ao sentir uma súbita explosão de
ardor quando seus seios encostam no peito másculo. A fome ansiosa que o corpo ardente
dele lhe transmite é quase insuportável. Ela não se reconhece, não é mais a moça que
acreditava que amor e sexo deviam estar juntos. Mas talvez fosse essa a maneira de
apagar a dor intensa que uma relação errada lhe causara, fazendo-a fugir para a
montanha, sozinha, numa tentativa desesperada de esquecer.

NÃO PERCA A PRÓXIMA EDIÇÃO nº 30
GATA REBELDE
Cândace Schuler
Agora é a vez dela: este homem vai pagar caro por ter recusado seu amor
Mesmo sabendo que comete um erro, Ben abraça Stacey com mais ardor, fazendo
seus corpos ansiosos se colarem ainda mais. Sente a rigidez das
coxas fortes, do membro viril e ardente, que a deseja. Havia esperado tanto por esse
momento! Mas onze anos de exílio em Paris a tinham tornado uma mulher refinada, de
classe. Não é a garota selvagem dentes e não aceita a imposição do testamento do avô:
casar com Ben Oakes para ter direito ao seu lar, do qual a expulsaram.

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