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Muito longe, no

passado
This time forever

Madeline Harper

ELA SABE QUE SUA FELICIDADE DEPENDE DE UM FANTASMA
Benjamin já vira esta cena em sonhos e, como em seus sonhos, deseja Kayla
com desespero. Ela, apaixonada, abre o zíper da calça dele e sente o ardor do sexo rijo.
Cobre de beijos o peito musculoso... Não podem esperar mais! Ben a possui e perdem-se
no universo de prazer, esquecidos das brigas que sempre surgem, ameaçando separálos, esquecidos da outra mulher que vive nos sonhos de Ben e insiste em aparecer para
Kayla, pedindo-lhe que a ajude, antes que seja muito tarde.

Digitalização: Tinna
Revisão: Bruna Cardoso

Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

Copyright © 1989 by Madeline Porter e Shannon Harper
Publicado originalmente em 1989 pela
Harlequin Books, Toronto, Canadá.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial,
sob qualquer forma.
Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra, são fictícios.
Qualquer outra semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera
coincidência.
Título original: This time forever
Tradução: Marcília Britto
Copyright para a língua portuguesa: 1992
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3º andar
CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

CAPÍTULO 1

Kayla Hartwell estava atrasada. Por mais que detestasse, parecia um mal crônico
e só tinha piorado com aquela viagem pelo país.
Cruzando os Estados Unidos de costa a costa, ela vinha admirando paisagens
fascinantes e pensava em quanto ainda havia a explorar, quantas estradas diferentes
desconhecia! A semana de licença acabara e depois de dez dias não alcançara seu
destino.
Sentia-se embaraçada porque tinha telefonado três vezes ao escritório do
advogado que tratava da herança da tia, adiando o encontro, e não queria ligar de novo.
Não devia ter parado em Salem, ela disse a si mesma. Era apenas mais um local
histórico, como tantos naquela região. Sendo da Califórnia, onde a tradição é uma
questão de décadas, não resistia à tentação ao ouvir falar em séculos.
E Salem não foi exceção. Não sentia uma atração especial por bruxas, mas
depois de almoçar no Hawthorne Hotel, ela decidiu dar uma volta para conhecer a cidade.
Como não queria perder tempo, interessou-se pelo Museu de Bruxaria, localizado na
mesma rua.
O edifício em estilo meio gótico estava cheio de turistas na porta e ela ia desistir,
mas ouviu uma conversa interessante de um casal do sul e outro da Nova Inglaterra.
— É uma pena! — disse a mulher do sul. — Toda essa gente foi condenada à
morte sem motivo. Afinal, não existem bruxas.
— Talvez existam — a da Nova Inglaterra respondeu, com urna piscada para o
marido.
— Talvez não — ele contrapôs, sorrindo.
— Bem, nós não acreditamos nelas — disse o marido do sul.
— Então, por que está aguardando nesta fila?
— É apenas por curiosidade...
Kayla também entrou na fila; sentia a mesma curiosidade.
Ela saiu do museu mais de uma hora depois e sua curiosidade só tinha
aumentado. Era difícil imaginar que cerca de trezentos anos antes tivessem enforcado
dezenove homens e mulheres em Salem, levados por uma histeria coletiva. O assunto era
fascinante.
Ao entrar no carro, Kayla consultou o relógio e viu que ainda daria tempo de
passar pelo caminho famoso, Heritage Trail, ao sair da cidade. Mas seria a última parada.
Nele ficava a lendária casa cinzenta, com seu telhado de sete espigões
recortados contra o céu, e ela não resistiu. Atravessou o jardim correndo, para fugir do
vento forte que soprava da baía, e entrou com os outros turistas.
O guia intercalava fatos com detalhes do romance de Hawthorne.e Kayla ficou um
pouco chocada, apesar da beleza da casa. Mais bruxas, pensou.
A história de Hawthorne se baseava nos julgamentos de 1692, em Salem, quando
um homem inocente fora acusado de bruxaria e o coronel Pyncheon confiscara sua
propriedade.
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Kayla deu a partida no carro, com um ligeiro arrepio, e ligou o aquecimento. Era
apenas o frio ou estava trêmula por causa daquela pequena incursão no passado?
Pelo menos, o livro tinha um final feliz. Depois de várias gerações terem vivido à
sombra do passado, as famílias do coronel e sua vítima finalmente se haviam unido. Ela
ligou os faróis por causa da neblina e calculou que ia chegar atrasada à entrevista com
Ben Montgomery. Era uma pena, porque cancelara vários compromissos para
comparecer.
Provavelmente ele já estava irritado, mas a receberia cordialmente por educação.
Ela não o conhecia, mas as cartas que recebera davam a idéia de um homem muito
formal. Devia ser magro, de óculos com aro de tartaruga, cheirando a naftalina.
Ela pediria desculpas com toda a gentileza, pegaria as chaves da casa da tia e
daria adeus. A não ser que o Dr. Montgomery tivesse cansado de esperar e já se
encontrasse em casa tomando um chá bem quente.
Nesse momento surgiu a placa: “Nova Sussex, Massachusetts. População:
9.621".
— Agora são 9.622 — ela exclamou, sorrindo.
Benjamin Montgomery afastou a cadeira da escrivaninha e olhou o relógio de
pulso. Kayla Hartwell devia ter chegado às quatro horas da tarde e já passava de cinco e
meia... Não tinha telefonado adiando a entrevista.
Ben levantou-se, desarregaçou as mangas da camisa e procurou controlar a
contrariedade. Lembrou-se de que a cliente era da Califórnia e provavelmente estava
habituada a se atrasar.
— Você vai ficar aqui mais tempo? — Teresa Fiore perguntou, enquanto abotoava
o manto.
— Ainda não sei Terrie. Estou esperando a Sra. Hartwell — ele respondeu, vendo
apenas dois carros conhecidos passarem e a rua ficar deserta. — Espero que não tenha
havido um acidente.
— Provavelmente o tráfego está ruim nas estradas, porque as ruas centrais já
estão vazias e é hora de todos voltarem para casa. Quer que eu também espere?
— Não, pode ir. Andy e as crianças estão esperando por você, é claro...
— Tomara que tenham Começado o jantar — disse Terrie. — Esta noite é a vez
deles. Então, até amanhã, chefe.
Ben apenas acenou, continuando a pensar em Kayla Hartwell. Por qualquer razão
obscura, simpatizava com ela, apesar de se mostrar incapaz de cumprir os
compromissos. Era exatamente o defeito que ele mais detestava em qualquer pessoa e,
na certa, iria sentir a antipatia de sempre ao conhecê-la, por causa daquele atraso. Mas
sua curiosidade era muito forte e distraiu-se, tentando imaginar como ela seria.
Pouco depois, lembrou-se que nem tinha se despedido direito de Terrie. Era uma
boa moça, conheciam-se desde o tempo em que se tornara, namorada de Andy e, depois,
ela fora trabalhar no escritório de advocacia Montgomery. Na época o pai de Ben ainda
não se aposentara. Terrie era muito eficiente e passara a cuidar de tudo. Ele a "herdara"
com o restante e dependia dela para resolver qualquer problema de trabalho. Mais tarde,
Terrie se casara com Andy e as coisas haviam mudado: ela não podia dedicar muito
tempo ao trabalho fora do horário, pois tinham filhos.
Andy era amigo de Ben desde o início do ginásio e os dois faziam, parte do time
de basquete do colégio. Depois, tinham entrado para a faculdade juntos. Mais tarde, ao se
formarem, já não podiam se dedicar tanto ao esporte, mas ainda o praticavam
regularmente, pelo menos uma vez por semana, para manter a forma. E a amizade
continuava a mesma.
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Aliás, nada mudava em Nova Sussex, o que desagradava Ben. Mas já estava
habituado porque tinha crescido ali e aceitava a vida que levava.
Quando o carro de Terrie se afastou ele tornou a sentar-se diante da escrivaninha
cheia de papéis, com o retrato do pai ao fundo. Era um quadro a óleo e muitos clientes,
ao vê-lo pela primeira vez, comentavam a grande semelhança de família: o nariz reto, as
maçãs salientes nas faces, os olhos verdes e o queixo bem marcado que dava um ar de
determinação.
Na sala de recepção ficava o retrato do avô, ainda mais parecido com Ben. Os
clientes mais velhos, que ainda se lembravam dele, achavam-no "a figura do avô em
roupas modernas".
Ele tornou a consultar o relógio e a irritação aumentou. Se não fosse Kayla
Hartwell, poderia estar tomando seu uísque em casa, tranqüilamente, enquanto ouvia
alguma música clássica em seu aparelho estéreo. Mais cedo, tinha pensado em convidar
alguma conhecida para jantar fora e dançar um pouco, mas não sabia quando estaria livre
e resolvera ficar sozinho.
Sabia se comportar com as moças de Nova Sussex porque tinha nascido naquela
cidade. Sua tia Lu e outras senhoras conhecidas viviam loucas para casá-lo, mas
conseguira evitar compromissos, com seu modo sensato.
Ben gostava da companhia feminina porque achava as mulheres divertidas e de
vez em quando chegava até a ter um interesse um pouco mais sério por uma delas. Mas
nada se parecia com o entusiasmo de sua primeira paixão, aos dezenove anos. Era um
homem feito, com trinta e cinco anos de idade, e sabia que nunca se apaixonaria à
primeira vista por ninguém. Além disso, manter uma esposa era um luxo que ele ainda
não podia ter.
Às vezes sentia um pouco de solidão, mas logo voltava a se dedicar ao trabalho,
tão cheio de desafios. Gostava do que fazia, era um advogado dedicado à profissão. Além
disso, costumava dar uma "escapada" de vez em quando, como gostava de chamar seus
programas mais íntimos, mas sempre descompromissados.
Havia resolvido jantar em casa, sozinho, também porque não tinha dormido bem
na noite anterior. Queria tomar um banho bem quente e cair na cama. Sonhara
novamente com aquela mulher que o impressionava tanto. Surgira em sua imaginação
semanas antes, quando os sonhos haviam começado. Os sonhos se repetiam e ela
sempre aparecia, provocante, mas meio envolta na bruma, como uma figura indefinida.
Ele se irritava porque não conseguia aproximar-se para vê-la melhor. Ao mesmo tempo,
ficava intrigado com as constantes aparições da mulher e tentava descobrir o significado
dos sonhos.
A cena era sempre a mesma: ele perseguia a moça pelo campo e ela desaparecia
na bruma matinal. Era linda, irresistível, e o atraía como um ímã. Sentia um desejo
ardente de alcançá-la e abraçá-la, mas não conseguia. Acordava sempre nesse momento
e lembrava-se de todos os detalhes, mesmo dos indefinidos. Ela irradiava um grande
calor, seu desejo ardia,como fogo. Era bela, atraente e perigosa. Ele não sabia explicar o
motivo da sensação de perigo que sempre se repetia.
Quando ele acordava desses sonhos, sentia-se emocionado e impaciente.
Não conseguia mais adormecer e ficava esperando o amanhecer. Gostaria de não
sonhar, para poder dormir a noite toda e descansar. Ou não? Queria revê-la? A Mulher,
tão misteriosa, era mais fascinante que todas as moças que conhecia.
Tornou a olhar o relógio e resolveu ir para casa. Começou a vestir o paletó,
quando viu os faróis de um carro que parou diante do escritório. Quando a cliente chegou
ele estava na sala de recepção.
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Abriu a porta de vidro e a moça entrou, com uma lufada de vento. Olhou-a,
emudecido, e o coração bateu mais rápido.
Procurou disfarçar e observou-a mais discretamente. Era extraordinária, com o
cabelo loiro emoldurando o rosto e caindo na testa. Ela fez um gesto para afastá-lo, mas a
mecha voltou a cair, teimosa. Os olhos eram azuis como o céu de verão e as faces
estavam coradas por causa do frio. A moça usava jeans, suéter e um blazer muito
elegante, porém leve demais para o início da primavera em Massachusetts. Ele percebeu
que o corpo era atlético e sensual.
Mas não era a aparência que o impressionava ou atraía. Aquela era a Mulher dos
sonhos! Isso sim, era espantoso!
— É o Dr. Montgomery? — ela perguntou, estendendo a -mão.
— Sim, sou Ben Montgomery. É a Srta. Hartwell, não? — disse, sentindo-se como
um bobo. Quem mais poderia ser?
— Sou Kayla — ela sorriu. — Desculpe, eu me atrasei, mas não...
— Não tem importância. Eu ia ficar até mais tarde por causa do trabalho — Ben
mentiu e soltou a mão dela com relutância.
Levou-a até sua sala e indicou uma poltrona.
— Há pouco espaço nesta sala, mas está assim desde o tempo de meu avô.
Agora ficou pior, com todo esse equipamento do novo computador.
— Eu gosto — disse Kayla. — É tão... Antiga! — Sentia não encontrar uma
palavra melhor para o ambiente cheio de estantes com livros de couro. — Antiga e
acolhedora. É seu pai?
— É sim. E o retrato do meu avô está na sala de recepção. Os Montgomery têm
sido juízes e advogados desde o tempo dos Puritanos.
— Não conheci minha família da Nova Inglaterra. Só tia Elinor, porque ela foi
passar um Natal conosco na Califórnia, quando eu era pequena.
— Você nunca esteve em Nova Sussex?
— É a primeira visita.
— Engraçado, tive a impressão que já a conhecia de algum lugar. — Pelo menos,
seria uma explicação racional para os sonhos, pensou.
— Não, nunca nos vimos — ela franziu o cenho.
Ben desviou o olhar, sabendo que parecia uma velha cantada, apesar de não ter
sido sua intenção. Por fim, quebrou o silêncio meio constrangedor:
— Sua tia gostava muito de você, como provou no testamento.
— Acho que sim, apesar de nunca ter demonstrado nenhum favoritismo. Mamãe
costumava mandar fotos da família e cartões de boas-festas.
Ele suspirou. Então, era isso, tinha visto uma fotografia de Kayla na casa da tia
dela. Sabendo que ela viria à Nova Sussex, seu subconsciente trouxera o rosto da moça
à memória e ele tinha sonhado.
Kayla continuava falando na família e Ben demonstrou um falso interesse, pois,
de fato, só ela importava.
— Tenho um irmão mais velho e uma irmã — ela disse. — Não sei por que tia
Elinor deixou a casa para mim.
— Mas o testamento é bem claro. — Ele abriu a pasta e tornou a consultar o
documento. — Você é a dona da casa e de tudo o que há nela. Seus irmãos vão receber
algumas ações e jóias.
— Estou louca para vê-la. Aliás, pretendo passar a noite lá.
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— Acho que talvez não seja aconselhável...
— Por quê? Há algo errado?
— Não, não é nada — ele fez uma pausa, observando os olhos azuis se
desanuviarem. — É que a casa está vazia há algum tempo e seria melhor você conhecêla à luz do dia. Sugiro que volte a Salem e passe a noite em um hotel.
— Não — Kayla respondeu, decidida. — Não quero voltar. Como pretendo viver
aqui e cuidar da loja de antigüidades, prefiro ir me acostumando com a casa.
Ben observava as reações de Kayla e não prestou muita atenção no que ela dizia.
Estava encantado com os olhos que mudavam de tonalidade, com as covinhas que
apareciam quando ela sorria e com as pequenas sardas no nariz. Mesmo tendo
encontrado uma explicação lógica, era incrível ter sonhado com ela antes de se
conhecerem. Imaginou o que a moça diria se contasse que era a Mulher que acabava de
sair de seu sonho.
— Então, está pretendendo viver aqui? — ele perguntou, atento às últimas
palavras.
— Claro que sim! Eu não venderia a casa de tia Elinor. Afinal, acabei de herdá-la!
— Bem, achei que não pretendesse morar aqui porque você parece tão... Tão...
— Jovem? — ela completou. — Tão inexperiente? Tão incapaz? Tão pretensiosa,
talvez?
— Não é que... É que a loja de sua tia é um estabelecimento tradicional em nossa
comunidade.
Ele não contou que nos últimos anos, velha e doente, Elinor Hartwell quase não
dava atenção à loja de antigüidades, instalada no andar térreo de sua casa.
— Tenho certeza de que você já possui experiência nesse ramo.
— Não tenho, não. Não entendo nada de lojas de antigüidades. — Ela lançou-lhe
um olhar de desafio.
Não era o tipo de pergunta que esperava do advogado da família e nem
imaginava que o Dr. Montgomery tivesse aquela aparência. Era bem mais alto, mais
bonito do que pensara e tinha lindos olhos verdes. Mas estranhou a forma como ele a
olhava; parecia estar diante de um fantasma. Talvez o advogado soubesse de alguma
coisa que não queria comentar.
— Mas procurou se informar sobre o assunto, não é? — indagou ele, insistente.
Kayla irritou-se porque parecia mais uma afirmação do que uma pergunta e não
devia explicações ao advogado da tia. Hesitou um momento antes de responder:
— Não, realmente. Com vinte e seis anos, já tive diversos empregos e tenho sido
uma pessoa responsável. Mas nada disso importa. O que interessa é que pretendo ter
muito sucesso com a loja. Acho um bom começo. Agora eu gostaria de receber as
chaves, se não se importa. Estou viajando desde as cinco horas da manhã e quero
descansar.
— Claro! — Ele abriu a gaveta e procurou as chaves da casa. — Mas imaginei
que você chegaria aqui, faria uma lista de tudo o que há na casa e procuraria um corretor
de imóveis; então, iria tratar de...
— Pois nunca imagine! — Kayla sorriu com ar irônico. — Não aprendeu, na
faculdade de direito, que não deve imaginar? Estudou em Harvard, não?
— De fato, estudei lá — ele corou levemente.
Kayla ficou satisfeita. Acertara em cheio! Ele parecia do tipo de Harvard, com
aquela pose tradicional.
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— Procure entender — ele atacou de novo, sem se dar por vencido. — Nosso
escritório costuma dar uma assistência ampla aos clientes. Sempre nos orgulhamos
disso. Eu me sentirei realizado se você for bem-sucedida em Nova Sussex, mesmo tendo
um conhecimento limitado em antigüidades.
— Não é um conhecimento limitado, Dr. Montgomery. Não tenho nenhum,
desconheço o assunto.
— Tenho certeza de que as estatísticas sobre novos negócios são de seu
conhecimento — ele declarou, ignorando o tom das palavras de Kayla, o que foi um erro.
— Cerca de noventa por cento vão mal. A maioria fica descapitalizada, mas acho que
podemos evitar isso.
— Podemos? — Ela mal acreditou no que ouvia.
— E se você quiser voltar aqui amanhã — ele prosseguiu, tranqüilo —, faremos
um levantamento do capital e algumas projeções. E, o que é mais importante, posso
computadorizar o patrimônio de sua tia.
— Di. Montgomery. — Ela levantou-se de repente, com os olhos faiscando de
fúria. — Vim aqui buscar as chaves da casa de minha tia e não pretendo ouvir uma aula
sobre economia. Meus pais e meus amigos, na Califórnia, já pintaram um quadro bem
negro sobre meu futuro e não conseguirá me assustar mais do que eles, acredite!
Ben tentou responder, mas ela não lhe deu oportunidade, continuando a falar,
rápida:
— E eles me conhecem bem melhor para dar conselhos. Nunca nos vimos até
hoje e só trocamos alguma correspondência sobre assuntos legais. Fora isso, só falei
com sua secretária algumas vezes, por telefone. Além disso...
— E esses telefonemas foram só para cancelar compromissos marcados
anteriormente — foi à vez dele de interromper. — Acredito que não seja uma maneira
muito comercial de iniciar seu negócio.
Kayla considerou a resposta como um golpe baixo, mesmo sabendo que pisava
em terreno perigoso.
— O senhor está sendo precipitado em suas conclusões e essa não é uma atitude
muito profissional. De fato, tive boas razões para cancelar meus compromissos.
— Agora é a senhora que está na defensiva.
— É Um direito que tenho. Conheço-o há menos de vinte minutos e o senhor já
resolveu que meu negócio vai falir porque não tenho experiência. Já que se acha com o
direito de me julgar, o que não tem, eu lhe garanto que está enganado. Posso ter êxito e
vou conseguir.
Ben Montgomery custava a se irritar, por prática e temperamento. Mas naquele
momento perdeu a paciência e segurou-a pelos frágeis ombros. Kayla Hartwell teimava
em não ouvir uma palavra do que ele dizia. Era de enlouquecer. Se ficasse mais calma
compreenderia que só tentava ajudá-la. Ela se desvencilhou das mãos dele, com
facilidade.
— E agora — ela não parecia ter a intenção de acalmar-se —, pode me dar às
chaves ou terei de tirá-las de sua gaveta? Eu posso, sabe? Sou faixa preta em caratê.
— Já me combateu verbalmente — ele sorriu, com ar superior. — Não há
necessidade de nenhum ataque físico. Aqui estão suas chaves — disse, largando-as
sobre a escrivaninha.
— O senhor fica livre de qualquer responsabilidade sobre a propriedade. — Kayla
esclareceu, pondo as chaves no bolso. — Se houver algum pagamento a fazer, mande a
conta para a casa de minha tia. Quero dizer: para minha casa.
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Com essas palavras, ela girou nos calcanhares e saiu da sala. Ben a observava,
sem entender o que tinha acontecido. Primeiro, sentira o choque de vê-la chegando no
escritório como se acabasse de sair de seus sonhos. Depois, nada mais tinha dado certo.
Ele não pretendia antagonizá-la, pelo contrário. Só queria ajudar...
Suspirou. Não era só isso. Queria também impressioná-la, provocar sua
admiração. No entanto, conseguira apenas irritá-la. Que droga! Mas a moça também era
muito agressiva. Ignorava tudo o que ele dizia e achava sempre que sabia de tudo,
mesmo sendo uma estranha na cidade. Recusava-se a ouvir um conselho... Na realidade,
ele era o melhor conselheiro que poderia encontrar.
Ben tornou a sentar-se e não reprimiu um sorriso. Uma coisa era certa, ela ainda
não tinha saído de sua vida. Resolveu esperar até o momento de tornar a vê-la, reunindo
toda a sua paciência.
Poucos minutos depois ele surpreendeu-se. A porta tornou a se abrir e Kayla
entrou, timidamente, parando diante da escrivaninha. Ele ficou bem sério para não
parecer provocação.
De olhos baixos, ela explicou que não sabia o caminho para chegar em casa.
— Volte pela Rua Principal, até passar o correio — ele explicou. — A segunda
travessa à direita é a rua que você procura, a Mulberry Street. A casa de sua tia fica na
esquina. É bem grande e tem paredes de madeira, pintadas de branco. Vai achar
facilmente. Bem-vinda a Nova Sussex, Srta. Hartwell.
Ela despediu-se rapidamente e ele ficou observando o carro afastar-se, com a
certeza de que voltaria a vê-la. Kayla Hartwell saíra dos sonhos e entrara na sua vida. Era
uma moça atraente, perigosa e ele sabia que sua vida nunca mais seria a mesma.
Kayla fez uma curva em "U" na rua deserta, ao sair do prédio do advogado.
Arrependia-se de ter perdido a paciência e saído tão dramaticamente do escritório de Ben
Montgomery na primeira vez em que o via. Mas tudo tinha sido diferente do que ela
esperava. Não costumava se irritar com tanta facilidade e ainda estava embaraçada por
ter perdido o controle. Era uma coisa estranha e incompreensível, mas algo nele
provocava essa reação.
Ben era seu primeiro conhecido na cidade e queria ser simpática, porque ele
poderia ajudá-la a fazer outras amizades. Mas o encontro tinha sido muito desagradável.
Perdera o controle no momento em que ele tentava aconselhá-la... Sem dúvida, parecia
muito afoito e insensível, mas sem dúvida, alguma era bem-intencionado. No entanto, ele
bem podia ter imaginado que estava apenas repetindo os avisos que o pai dela, todos os
parentes e amigos tinham lhe dado, na Catifóroia. Quando contava sua resolução de
mudar-se para Nova Sussex, todos tinham alguma coisa a dizer.
— Mas, Kayla, querida, você já teve tantos empregos e mudou de idéia...
— Você não tem nenhuma experiência nesse ramo de negócios, não pode dar
certo!
— Você não persiste em nada...
— É um trabalho muito árduo...
— Você vai enjoar logo...
As vozes continuaram ecoando em sua cabeça enquanto ela cruzava o país todo,
na longa viagem de carro. Ninguém queria que ela dirigisse a loja de antigüidades.
Ninguém esperava que ela gostasse e se adaptasse à nova vida. Todos esperavam seu
fracasso, seu regresso, derrotada.
Evidentemente, Ben adotara a opinião geral, depois de conversar com ela por
apenas quinze minutos. Kayla tornou a enfurecer-se. Quem era ele para julgar os outros?
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Ela pensou na última humilhação. Tinha sido obrigada a voltar para pedir
informações, porque não sabia o caminho. Ia se desculpar do comportamento anterior,
mas mudara de idéia quando ele explicara tudo com tanta eficiência e tão seguro de si.
Resolveu não procurá-lo mais. Provavelmente havia vários advogados na cidade e ela
encontraria entre eles algum capaz de aconselhá-la melhor nos negócios.
Quando Kayla percebeu, estava perdida. Tinha passado da Mulberry Street e
precisou fazer outra curva em "U" para voltar. Esforçava-se para lembrar as indicações
que eram simples, mas não tinha prestado atenção porque continuara irritada com Ben
Montgomery.
Afinal, quase por acaso, encontrou a rua e a casa. Era uma construção de três
pisos e pareceu-lhe um pouco fantasmagórica. Ela parou o carro e apagou os faróis,
vendo sua nova residência iluminada apenas pelo luar.
— Bem, aqui estamos, Kayla — murmurou. — Seja bem-vinda! Não era uma
recepção muito alegre e como não havia ninguém para reforçar, ela abriu a porta do carro
e procurou, embaixo do banco, a lanterna para ver o caminho até a entrada.
Apesar de tudo, descobrira-se animada porque aquela casa era à base de Uma
nova existência. Sentia-se assim e não deixaria ninguém desencorajá-la.
Sabendo que a loja ocupava o andar térreo, Kayla procurou dar a volta e entrar
pelos fundos. O caminho estava coberto de mato crescido, mas conseguiu chegar até
uma pequena varanda. Os degraus estalaram e quando chegou à porta ela precisou
experimentar todas as chaves. Por fim, abriu-a e entrou.
— Que droga! — exclamou quando a luz não acendeu.
Devia ter se lembrado que a energia elétrica provavelmente estava cortada e que
também não encontraria água ou aquecimento. Iluminou com a lanterna a cozinha muito
grande, antiga, e ficou mais tranqüila quando viu que a geladeira e o fogão eram
relativamente novos. A torneira fez um barulho horrível, mas surgiu um jato de água
escura.
Ela fechou a torneira e tornou a experimentar o comutador, cruzando os dedos.
Nada. Ao lado da porta havia um termostato, mas também não estava funcionando. Sua
esperança renasceu ao ver a lareira, numa das paredes da cozinha, mas a caixa de lenha
estava vazia.
Nada havia ali que animasse o corpo, nem o espírito. Perto da lareira, a um canto,
havia uma escrivaninha. Talvez tia Elinor ficasse ali nas noites de inverno, perto do fogo,
pondo a contabilidade em dia. Procurou guardar essa imagem na mente porque a
confortava.
Em seguida, abriu a porta que ficava do outro lado da lareira e entrou em um
corredor estreito. A curiosidade a impeliu até uma porta, ao fundo, que também abriu.
O grito de susto ficou abafado na garganta e ela sentiu-se paralisada de medo:
havia alguém naquela sala!
Mas a paralisia durou poucos segundos e Kayla correu de volta à cozinha.
Revendo a imagem assustadora na memória, percebeu, numa fração de segundo, que
vira a própria imagem, com o blazer azul e o cabelo loiro.
Encheu-se de coragem e voltou. Quando viu o grande espelho antigo na moldura
bem trabalhada começou a rir. Mas a risada ecoou pela casa escura e tornou a enervá-la.
— O cansaço é tanto que você está vendo coisas — disse, em voz alta. — É
melhor sair; daqui antes que enlouqueça.
Mas a curiosidade a conteve, porque o facho de luz da lanterna mostrava coisas
interessantes. A sala, provavelmente, era mais antiga do que o resto da casa, a julgar pelo
teto mais baixo e pelas pedras escurecidas da lareira. O mobiliário era formado dos
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séculos XVII ao XIX. Algumas deviam fazer parte de peças do mostruário da loja, mas ela
não pretendia examinar tudo naquela noite.
Quando voltou à cozinha, Kayla ouviu alguém batendo na porta. Procurou
controlar o nervosismo e pensar usando a lógica. Demônios não costumam bater em
portas, nem ladrões ou assassinos. Portanto, devia ser alguém conhecido.
Nesse momento ela lembrou-se que só conhecia uma pessoa em Nova Sussex,
Massachusetts.

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CAPÍTULO 2

Ela iluminou com a lanterna a porta da cozinha e viu, através do vidro meio fosco
que cobria a parte superior, o vulto de Ben Montgomery. Ele estava com a gola da capa
erguida e passava a mão no cabelo castanho para tirar a umidade da neblina.
Sentiu-se feliz com a perspectiva de rever um rosto familiar, mas lembrou-se do
encontro anterior e resolveu não se queixar da casa. Não pretendia, de forma alguma,
contar que vira fantasmas. Assim que abriu a porta, ele a cumprimentou efusivamente.
— Trouxe uns presentinhos — anunciou, aproximando-se da lareira com alguns
toros de lenha. — Imaginei que a caixa estivesse vazia.
Ele ajoelhou-se e começou, com rapidez, a acender o fogo na lareira, enquanto
Kayla o observava em silêncio, sem saber se devia falar na falta de luz. Pelo menos, não
passaria frio na sua primeira noite em Nova Sussex.
— Obrigada — conseguiu dizer, quando ele acabou o serviço. — Esse calor
aquecerá a cozinha durante a noite toda.
— Você ainda pretende ficar aqui?
— Claro! — ela respondeu, em tom desafiador.
— Pensei que depois de ver a cas...
— Eu vou ficar — disse, tomando a resolução naquele instante. —Posso usar o
meu saco de dormir.
— Você não parece do tipo...
— As aparências enganam. E já não resolvemos antes que não se deve imaginar
nada?
— Um de nós resolveu, pelo menos — respondeu Ben, em tom agastado.
Era estranho, pensou ele. Bastava estarem juntos alguns minutos e a tensão
surgia. Precisava pensar nas palavras para não irritá-la. Mas concluiu que não teria a
menor graça conversar desse jeito.
Ela também se aproximou do fogo e a luz iluminou o cabelo loiro, colocou toques
rosados em seu rosto. Ele resolveu ignorar a tensão e conversar amavelmente.
— Que tal um pouco de luz sobre o assunto? — sugeriu e foi até o comutador,
iluminando a cozinha.
— Como você conseguiu... — Kayla arregalou os olhos.
— Liguei para a companhia de força e luz quando você saiu.
— Mas já era tarde, devia estar fechada e...
— Sim, mas o supervisor da noite foi meu colega de ginásio. Você sabe como são
as cidades pequenas.
— Não sei, não, mas gostei de ver como tudo é fácil. Obrigada. Também quero
me desculpar, fui um pouco rude em seu escritório. Eu normalmente não sou assim,
acredite. É que foi um dia muito duro.
Ele a achou muito frágil e vulnerável, sentindo vontade de acariciar-lhe os cabelos
e tirar a mecha que caía no rosto. Em vez disso, comentou, com simplicidade:
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Você tinha razão, eu não devia ter dado nenhum palpite. O negócio é seu, sem
dúvida. É que estou habituado a dar conselhos aos meus clientes.
— E eles seguem? — ela brincou, sorrindo.
— Seguem. É assim que eu ganho a vida. Mas você não perguntou nada e eu
não devia interferir. Tenho certeza de que é capaz de dirigir tudo sozinha.
— Tenho recebido tantos conselhos ultimamente que vão dar para a vida inteira!
Mas você não podia adivinhar.
— Então, vamos começar de novo. — Ben estendeu-lhe a mão. — Bem-vinda a
Nova Sussex. Sou Ben Montgomery.
— Olá, Ben. Eu sou Kayla Hartwell.
Ela tornou a reparar nos olhos muito verdes e teve a impressão de que ele cora
vá levemente.
Podia ser reflexo da lareira. Homens confiantes e atraentes como Ben
Montgomery não costumam corar. Ao contrário, são muito seguros e sem nenhuma
timidez. Mas era muito agradável saber que ele só queria ajudar e não tinha outros
interesses.
— O que mais você precisa? — ele perguntou. — Ah, um telefone, naturalmente.
— E aquecimento seria muito bom.
— Sem dúvida!
— Há um problema com a água.
— Já está tudo anotado. Tomarei as providências amanhã de manhã e antes do
meio-dia tudo estará funcionando.
— Você está brincando...
— Não — ele sorriu. — Como você viu, aqui não é uma cidade grande e basta eu
falar com Andy Fiore, meu amigo, que ele mandará uma equipe imediatamente. A mulher
dele trabalha comigo, portanto posso falar direto com o chefe dos serviços públicos.
— É muito bom ter amigos influentes. Obrigada.
— Só estou sendo um bom vizinho. O próximo passo é descarregar seu carro.
Depois poderemos jantar e descansar.
— Que maravilha! E, como oferta de paz, quero levá-lo ao melhor restaurante de
Nova Sussex.
Ben começou a rir, o que o tornou mais bonito.
— O que há? — Ela não compreendia o que provocara aquele acesso de riso.
— Nova Sussex só tem uma lanchonete, que costumamos chamar de café. Claro,
há um restaurante em um posto, na entrada da cidade, mas é para viajantes.
— Ora, então por que você...
— Convidei-a para jantar? — ele completou. — Porque tenho uma das geladeiras
mais cheias da cidade e achei que podia preparar um bom prato, algo bem quente e
saboroso.
— Mas eu não posso aceitar... — Kayla começou, um tanto sem jeito.
— Claro que pode — Ben a interrompeu. — É a minha oferta de paz. Agora
vamos descarregar o carro ou morreremos de fome. Eu também ainda não comi, porque
tive uma emergência com um novo cliente — disse, sorrindo, e Kayla não resistiu.
Kayla recostou-se na poltrona e suspirou de satisfação. A música de Mozart
ecoava pela sala e grandes achas de lenha queimavam na lareira. Ela tomou mais um
gole de conhaque francês, para disfarçar a surpresa que ainda sentia.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Benjamin Montgomery não era, decididamente, o velhinho que ela esperara e
tinha descoberto naquela noite outras diferenças. Ele cozinhava bem. O bife e a salada
estavam deliciosos. O gosto pela música e a escolha de Mozart a haviam agradado ainda
mais, porque era seu compositor favorito.
Se estivesse na Califórnia, estaria apreensiva porque aquilo poderia ser o prelúdio
para algum relacionamento sexual intenso. Mas ninguém tinha planejado aquela noite e
tudo era muito agradável.
Ela também gostara da casa de Ben e se surpreendera com a decoração. Havia
algumas mesas e cadeiras antigas, mas quase todos os móveis eram modernos. Era
muito confortável e personalizada, provavelmente arrumada sem ajuda de um decorador
profissional.
Sentiu-se muito à vontade quando Ben instalou-se no sofá em frente para tomar
seu conhaque. Era uma boa oportunidade para observar calmamente o charmoso dono
da casa. A boca era sensual, com o lábio inferior bem cheio, e os olhos, incrivelmente
verdes, sombreados por cílios longos.
Ele tinha tirado o paletó, soltara a gravata e enrolara as mangas da camisa. Os
braços eram musculosos, as mãos fortes e bem-feitas.
Ben também aproveitou aquela chance para examinar melhor a visitante. Ela
parecia se deliciar com a música e os dois continuaram em silêncio, de modo natural. A
tensão anterior tinha desaparecido e o jantar transcorrera em um clima muito amigável.
— Tudo estava ótimo — Kayla comentou, por fim. — Não pensei que minha
primeira noite em Nova Sussex seria tão agradável.
— Não sei se estou à altura de cozinhar para uma californiana — ele brincou,
descontraído. — Não entendo nada de pétalas de rosa ou kiwi. São a última moda, não
é?
— Em algumas rodas, mas não em minha casa — ela sorriu. — Mamãe sempre
cozinhou para a família toda. A meninada comia muito.
— Quantos irmãos você tem?
— Somos três. Tenho uma irmã mais velha, que é médica, e um irmão mais novo,
que está estudando administração de empresas em Stanford. — Ficou pensativa, então
prosseguiu — Eles são muito esforçados, ao contrário da irmã.
— Não acredito.
— É verdade! Contrariei meus pais e saí da faculdade porque achei que não
estava aprendendo nada de útil. Pergunte o que eles acham de todos os empregos por
onde andei.
— Provavelmente você não tinha idéia do que ia fazer, não é? Ainda não havia
feito sua escolha...
— Gosto de seu modo de pensar! — ela ergueu um brinde.
Ele sorriu com calor e Kayla tornou a achá-lo diferente de todos os homens que
conhecia. Não parecia preocupado em conquistar cada mulher que via. Estava
interessado no negócio que ela ia começar; seus conselhos anteriores provavam isso.
— Em que você trabalhou antes? — ele perguntou, com ar interessado.
— Primeiro numa floricultura que preparava arranjos para festas. Depois, fiz
alguns serviços de decoração por conta própria. Também trabalhei numa butique e, mais
tarde, fui compradora de uma pequena loja de artigos femininos. Durante esse tempo todo
ensinei tênis no clube que freqüentamos. Ultimamente, trabalhei numa agência de
publicidade.
— E o que aconteceu?
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Era de uma amiga e ela casou-se. Foi quando herdei a casa de titia e resolvi
mudar para cá.
Kayla ficou embaraçada, porque pensou que o pai tinha razão, ela realmente não
parava em lugar algum.
— Pois eu a invejo — Ben comentou, para espanto da moça.
— Mas você também teve várias oportunidades de mudar de vida, não é?
— Talvez... — ele pensou um momento. — Só que não saí atrás delas. Fiquei no
lugar que me ofereceram. Afinal, meu pai, meu avô e todos os homens da família
Montgomery sempre foram juízes ou advogados. Até onde a memória alcança, sempre
houve um Montgomery nas leis em Nova Sussex.
— E isso é maravilhoso! Toda essa tradição é realmente admirável.
— Você tem razão, eu não queria ser o primeiro a quebrá-la. Mas, com essas
raízes, passei a vida toda em. Nova Sussex, fora o tempo em que saí para estudar.
— E não tem nenhum irmão advogado? — ela procurava conhecê-lo melhor.
— Sou filho único. Às vezes, gostaria...
— Do quê?
— Seja o que for, acho que falo demais. — Ele riu é foi arrumar as achas no fogo,
como se quisesse ocultar o embaraço.
Naquela noite ela não poderia descobrir mais nada sobre a vida dele. Reparando
nos pêlos que apareciam um pouco na abertura da camisa, ela teve vontade de passar a
mão por eles, levemente.
Três horas antes queria estrangulá-lo e naquele momento começava a imaginar
maiores intimidades...
— Você também tem raízes aqui, Kayla — ele apoiou o braço sobre a lareira, ao
falar. — Os Hartwell chegaram à Nova Sussex na mesma época que os Montgomery.
— Só que meu pai foi para o oeste e nunca mais voltou.
— Porque se casou e teve três lindos filhos loiros. Uma, pelo menos, é loira e
muito linda.
Ben podia jurar que ela corara, mas acho que se enganara. As moças da
Califórnia estavam habituadas a ouvir elogios como aquele. Provavelmente não coravam
mais. Porém, Kayla era diferente de todas as moças que tinha conhecido.
Ela era alegre, divertida e totalmente independente; ao mesmo tempo era
sensível e o atraía como um ímã. Ele queria mergulhar os dedos na cabeleira loira e
acariciar aquele rosto lindo, depois abraçar a cintura fina e atrair o corpo dela contra o
seu. Queria dizer coisas que nunca havia dito a ninguém. A ligação entre eles era tão forte
que quase -chegava a ser palpável. Mas, é claro, não disse nada do que pensava.
Procurou controlar-se e fez uma pergunta que desejara fazer a noite toda.
— Você é mesmo faixa preta de caratê, Kayla?
— Hum, para ser franca, não sou. Não tenho faixa preta, mas estudei caratê e
posso me defender muito bem.
— Acredito, sem dúvida. Pelo que vejo, você teve de aprender defesa pessoal
para se livrar dos muitos homens interessados em conquistá-la...
— Então, fiz um ótimo trabalho, porque não sobrou ninguém em minha vida.
— Mas agora que você veio para cá, as coisas podem mudar.
— É mesmo. Espero várias mudanças maravilhosas.
Ben não conseguira externar o que sentia, mas calculou que ela também
reprimiria as emoções. Teria notado seu grande interesse?
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— Conte comigo para o que precisar — ele disse, por fim.
Kayla continuava muito admirada, pensando na grande diferença entre Ben e os
rapazes que tinha conhecido. Ele não aproveitava a primeira oportunidade para dar uma
cantada. Quando ouviu o oferecimento, quase pediu para ele ajudá-la a subir para o
quarto...
— Vou contar com sua ajuda — respondeu, afastando o pensamento. — Mas
primeiro preciso me instalar... Acho que já é hora de ir para casa.
Ele relutou, mas não tinha argumentos para prendê-la por mais tempo. Mas
enfrentara uma situação como aquela porque nunca desejara uma mulher tão depressa e
tanto. Não sabia o que dizer e concordou que era hora de levá-la.
Quando chegaram diante da casas antiga ele ficou impressionado. Parecia
fantasmagórica, com o telhado recortado contra o céu noturno.
— Eu vou entrar com você e ajudá-la a acomodar-se — disse, sabendo, ao
mesmo tempo, que não teria coragem de deixá-la sozinha ali.
A casa, por dentro, não parecia mais acolhedora, Kayla não parecia se incomodar.
— Olhe, o fogo ainda não apagou. Se pusermos mais alguns toros vai durar a
noite inteira. Só que a linha acabou...
— Talvez haja lenha no depósito de fora. Eu vou ver.
Quando Ben voltou, com dois toros grossos, espantou-se com o entusiasmo de
Kayla.
— Só encontrei estes — disse, ao se dirigir para a lareira.
— Vão dar muito bem até amanhã, daí posso encomendar mais. Se você me
disser onde vendem...
— Claro que sim. Mas serei franco, Kayla. Acho que tudo deve ficar para amanhã.
Inclusive, você não deve dormir aqui esta noite. Não há aquecimento, a água está
acabando...
— Vou ficar muito bem — ela insistiu. — Meu saco de dormir é quente e
confortável. Estou em segurança, a não ser — olhou-o divertida — que exista algum
tarado correndo por aí.
— Em Nova Sussex? — Ben riu. — Os crimes mais sérios nesta cidade são
estacionar em local proibido.
— Não multam por excesso de velocidade, também?
— Não. Não há nenhum lugar para ir, portanto ninguém corre. — Depois, voltou a
ficar preocupado. — Mas não acho certo ficar aqui sozinha.
— Admiro seu cavalheirismo, mas ficarei bem. Agora vou ajudá-lo a atiçar o fogo.
Depois de porem novamente o guarda-fogo diante da lareira, Ben viu que não
havia mais nada a fazer e precisava ir embora, mas não queria, de forma alguma.
— Talvez seja bom eu olhar a casa toda, ver o que há na loja e lá em cima
— Não acho necessário, Ben. Você só vai encontrar poeiras e teias de aranha —
ela comentou, com determinação. — Mas se quiser voltar amanhã, poderemos fazer
juntos uma inspeção.
Apesar do tom brincalhão, Ben sabia que ela não ia mudar de idéia. Kayla
Hartwell era uma moça decidida.
— Volto, sim. Pode esperar — ele afirmou, fitando-a bem nos olhos.
Eles continuaram se olhando e o silêncio se prolongou, quebrado apenas pelo
ruído do fogo crepitando. Ele a devorava com os olhos e Kayla, nervosa, molhou os lábios
com a língua, provocando-o ainda mais.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Obrigada por tudo novamente, Ben — ela quebrou o silêncio, por fim. — Não
se surpreenda se eu aceitar seu oferecimento para me ajudar a limpar a casa.
Ela falava rapidamente, com voz meio rouca de emoção, e estendeu-lhe a mão
em sinal de amizade. Ele a segurou e beijou a palma docemente, sentindo a pele quente
e macia. Quando ergueu o rosto, viu que Kayla tinha fechado os olhos, numa expressão
de prazer.
— Kayla — ele murmurou, mas não soube mais o que dizer. Nada parecia
adequado, a não ser tomá-la nos braços. Foi o que fez.
Abraçou-a e beijou-a tão facilmente que ficou surpreso.
Os lábios eram doces e macios como ele esperava. Não conseguia acreditar
como se amoldavam aos dele, parecendo feitos um para o outro. Ele sentia o corpo, as
coxas, o ventre e os seios de Kayla. O desejo cresceu e o beijo prolongou-se. Abraçou-a
com mais força e seus corpos se uniram ainda mais.
Ela correspondia ao beijo e o enlaçava pelo pescoço. Quando as línguas se
tocaram Kayla susteve a respiração.
O sangue de Ben latejava nas veias e o coração batia forte. Ele a mantinha
abraçada e não se cansava de beijá-la.
Quando ela tentou soltar-se, ele a manteve presa nos braços e foi o primeiro a
falar.
— Tenho a sensação de que estive esperando você a vida toda. Kayla, você era o
que eu sonhava.
Quando ele acabou de falar, compreendeu o quanto suas palavras eram
verdadeiras. Ela era a Mulher de seus sonhos, mas não podia saber e provavelmente
estava achando que era apenas uma frase de efeito.
Kayla não sabia se devia acreditar. Mas tinha de admitir que aquela noite só podia
acabar assim. Em seu subconsciente, tinha desejado o beijo tanto quanto Ben e, quando
acontecera, também perdera o controle. O coração estava acelerado e se ele a soltasse,
as pernas com certeza não a sustentariam. Em geral, ela mantinha perfeito controle da
situação, mas com ele, tinha a impressão de que dera uma trombada em um trem.
Ao mesmo tempo, estava irritada com Ben e consigo mesma. De certa forma, ele
se igualara aos outros rapazes que conhecia. Aquela frase do sonho, por exemplo, era
muito antiga. E, o pior, ela retribuíra com o mesmo ardor. Esperava que ele pedisse
desculpas ou dissesse qualquer coisa, para mostrar que era diferente dos outros. Mas
nada aconteceu. E o que se seguiu deixou-a ainda mais descrente e desiludida.
— Kayla, não quero que você fique sozinha. Vamos para minha casa. Você deve
ir comigo. Sabe que é o que nós dois queremos.
— Não é, não — ela respondeu, sabendo que no fundo ele tinha razão. — O que
eu quero, como já disse, é passar a noite sozinha, na minha casa. Não me force, Ben.
Deixe as coisas como estão.
— Mas não posso, Kayla. Não agora, que já sei como você se sente em relação a
mim.
— Você acha sempre que sabe o que é melhor para mim — ela retrucou, irritada.
Não gostava de ser pressionada e sentia-se exausta, não conseguindo dominar
as emoções.
— E você vai negar seus sentimentos, apenas para provar seu ponto de vista,
não é mesmo?
— Não estou provando um ponto de vista — ela reagiu, ainda mais furiosa. —
Não quero que você interfira na minha vida desse jeito. Se já esqueceu, é aqui que
pretendo viver e trabalhar, e se for preciso lembrá-lo...
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Já lembrou! — Ele pegou o paletó e vestiu rapidamente, observando a
expressão desafiadora de Kayla. — Tem razão. Eu nunca tinha conhecido uma mulher
mais difícil de se lidar — murmurou entre os dentes, com raiva.
Magoada e furiosa, ela ficou ainda mais confusa porque não conseguia disfarçar
os sentimentos. Como antes, quando ele a beijara, pensou. Tudo era muito complicado
naquela primeira noite em Nova Sussex e só sabia de uma coisa: não ia dormir na casa
de um homem que acabava de conhecer, que a excitava e a enfurecia a cada minuto.
Ficaria na casa de tia Elinor... Ou melhor, em sua casa. E ficaria sozinha.
— Então, nos veremos amanhã. — Ele foi saindo e parou na porta, para um
último aviso: — Não esqueça de trancar a porta.
— Não vou esquecer!"— ela rebateu, indignada por parecer tão incapaz.
— Que droga, que droga, que DROGA! — Kayla murmurou. — Não posso
acreditar em tudo isso!
Estava habituada a lidar com os homens desde os dezesseis anos e sabia
controlar muito bem as situações amorosas. Por que ficara tão emocionada e tão irritada
com Ben?
Mas sabia o motivo. Depois da briga no primeiro encontro, tinha surgido uma
amizade verdadeira. Achara que ele era diferente de todos os rapazes que tinha
conhecido na Califórnia e depois se desapontara pela sua própria entrega total. Agira
como uma menina.
E havia algo mais que não conseguia compreender. Bastava ficarem pouco tempo
juntos e começavam a discutir. Era como se houvesse uma energia cinética que não
podia explicar.
Kayla sentia-se exausta e pegou uma camisola de flanela na mala. Depois, com a
toalha e a escova de dentes na mão, foi até o lavabo do andar térreo. Ainda bem que
havia luz!
De volta à cozinha, ela pensou se era um erro aquela mudança para Nova
Sussex. Mas afastou rapidamente o pensamento, disposta a ser mais perseverante
naquele projeto. Era seu futuro que estava em jogo.
E não podia negar, Ben fazia parte desse futuro. Também não queria pensar nele,
lembrando-se do último aviso tão irritante. Mas era difícil esquecer seu carinho, a força de
seus braços, o calor de seus lábios...
Fechou o zíper do saco de dormir num movimento brusco e com Ben Montgomery
no pensamento.
Ele ainda estava irritado quando chegou em casa. Entrou batendo a porta e
pensando no que havia com aquela moça. Podia contar nos dedos das mãos às vezes
que perdera a paciência, nos últimos dez anos. E, de repente, em um dia, perdera-a duas
vezes com Kayla Hartwell. Diabos, não conseguira controlar-se.
Afinal, só queria ajudá-la e demonstrar seu interesse, mas sempre acabavam
discutindo. Apesar de despedir-se tão furioso, ele não conseguia afastá-la do
pensamento. Sabia muito bem que nunca conhecera uma mulher como ela e não seria de
admirar caso tornasse a invadir seus sonhos.
Ele teve o mesmo sonho repetido várias ocasiões mas dessa vez foi diferente.
Era uma manhã brumosa de verão e as ruas pareciam, ao mesmo tempo, estranhas e
familiares. Estava em Nova Sussex, mas em outros tempos. Não parava de pensar nisso
e nas roupas antiquadas que usava: o colarinho alto e o sapato pesado.
Quando ele seguia por um caminho que levava à floresta, viu-a a beira de um
regato. O cabelo loiro e longo caía pelos ombros, brilhando ao sol da manhã.
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Obedecendo a algum costume antigo, ele passou e subiu o morro, sem se
aproximar. Mas no alto não resistiu e olhou para trás. Ela desabotoara o corpete do
vestido, baixara-o para lavar o rosto, o pescoço e os ombros com a água fresca.
Enquanto a observava, Ben sentiu um desejo crescente e ilimitado. Começou a
suar sob a roupa grossa e susteve a respiração quando ela passou as mãos,
languidamente, pelos braços. O vestido desceu mais e ele viu os seios perfeitamente
redondos, brancos, e macios, com os ma-milos cor-de-rosa.
Ele inspirou profundamente e sentiu o corpo trêmulo. Se ao menos pudesse tocála... Se ao menos pudesse acariciar aqueles seios e beijá-la nos lábios... Sentiu que teria
de possuí-la, custasse o que custasse.
Ben a chamou, mas a voz morreu na garganta. Assustada, ela voltou-se
rapidamente e o vestido desceu completamente, caindo à beira do riacho. Então, ele a viu
inteira, linda, a pele de alabastro, o corpo esguio e as pernas perfeitas. Procurou
aproximar-se.
Ela o viu, nesse momento, e a expressão de seu rosto mudou da serenidade para
o desprezo. Ele tornou a chamá-la, angustiado, e acordou.
Estava muito suado e o coração batia fortemente, como no sonho. Não tinha um
sonho tão erótico desde os tempos de ginásio. Era complexo e confuso também.
Continuou deitado, procurando analisá-lo.
A moça era Kayla, naturalmente. O desejo também não era mistério, porque o
sentira poucas horas antes.
O verdadeiro mistério estava na situação, tão diferente dos outros sonhos. Não
podia explicar a si mesmo como a cidade aparecera no passado, por que ela estava se
banhando no riacho e ele usando aquelas roupas estranhas.
Os sonhos eram mesmo confusos, pensou Ben. Misturavam lembranças do dia
anterior com fatos do presente de um estranho passado, junto com inúmeras sensações.
Eram sonhos sombrios, mas ficavam maravilhosos quando ela aparecia.
Ele teria outras noites com Kayla e não seria apenas nos sonhos. Com calma,
conquistaria sua confiança e ela não o afastaria. Então, vibraria nos braços dele, como
nos sonhos.

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

CAPÍTULO 3

O sol entrando pela janela acordou Kayla. Levantou-se, pôs mais uma acha de
lenha no fogo e correu de volta ao saco de dormir, pretendendo levantar-se logo que a
cozinha ficasse mais aquecida. Mas tornou a pegar no sono.
Finalmente, uma leve batida na porta tirou-a de seus sonhos. Ela ouviu durante
algum tempo, imaginando que era Ben. Finalmente, vestiu uma capa de chuva como
roupão e foi até a porta.
— Ben... — ela começou a dizer quando abriu a porta, porque era a única pessoa
conhecida em Nova Sussex.
Quem mais podia ser?
— Não sou Ben, mas de qualquer modo, sou Montgomery. Como vai?
Kayla observou a mulher alta, de olhos castanhos e cabelos grisalhos.
— Ah, desculpe... — balbuciou.
— Não tem de que se desculpar, querida. Eu não devia chegar aqui tão cedo. Sou
tia de Ben, Lilith. Posso entrar?
— Sim, por favor.
Kayla deu passagem e a senhora entrou com uma cesta que depositou na mesa
da cozinha.
A senhora sorriu, franzindo ligeiramente os cantos dos olhos, e tirou o casaco.
Ainda mostrava que devia ter sido muito bonita na juventude. Depois abriu a cesta, retirou
uma garrafa térmica e um embrulho.
— Achei que você gostaria de um café quente. Sei que ainda não teve tempo de
fazer compras para a casa.
— É verdade — Kayla respondeu. — Ben deve ter contado que eu estava sem
nada aqui, não é?
— Não, ele não disse... — Lilith Montgomery foi sincera. — Mas precisava ir até
Salem esta manhã e me pediu para passar por aqui. É um prazer. Não quer tomar café?
— Eu adoraria, mas primeiro preciso encontrar as xícaras.
Kayla encontrou-as no terceiro armário que abriu e, depois de lavá-las, as duas se
sentaram para saborear o café.
— Então, aqui estamos — comentou a senhora imponente. — E agora, que tal
umas torradas ainda quentinhas e um pedaço de bolo com geléia?
— Ah, a senhora é maravilhosa! — Kayla exclamou, com entusiasmo genuíno.
— Pode me chamar de Lil, como todo mundo faz. Sabe, Ben me disse que você
era linda e tinha razão.
— Ele deve ter feito outros comentários também, não? — perguntou Kayla, meio
desconfiada.
— Só disse que você acabara de chegar e precisava de ajuda.
— Acho que é coisa muito evidente, mesmo.

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Não. É que meu sobrinho é um pouco autoritário. Pelo menos, é o que dizem
em família. Ele avisou que já ligou para a companhia telefônica e para a do aquecimento
central. Devem vir esta manhã. Você está zangada, querida?
— Não — Kayla respondeu logo. — Por que pergunta?
— Ben achou que poderia estar.
— Ora! — ela riu. — Se a situação fosse diferente eu poderia estar, mas sendo
como é, até gosto que ele dirija tudo. Isto é, que ele demonstre que se interessa —
corrigiu, mas as duas caíram na risada.
— Você não sabe como é bom ver outra Hartwell nesta casa! Elinor era uma
grande amiga e sinto saudade. Espero que fique conosco.
— Se conseguir manter a loja de antigüidades, vou ficar. Acha que sou louca em
pensar que isso é possível?
— Alguma loucura sempre é necessária no ramo de antigüidades.
— Isso significa sim ou não? — Kayla olhou-a ansiosa.
— Por que não decide por si mesma? Você já viu sua loja, o "Portal de Entrada"?
— Ontem à noite nem tentei, mas hoje estou pronta para vê-la.
— Então, vista-se e eu servirei de guia.
Poucos minutos depois, tendo vestido um abrigo, lavado o rosto e escovado o
cabelo, Kayla acompanhou Lil até a porta da frente da casa, depois de darem a volta por
fora.
— Elinor usava a sala da frente como loja.
— Sala da frente? Ontem vi rapidamente uma sala com um espelho.
— Isso mesmo, você viu a sala do fundo, que era parte da casa original. Elinor
gostava muito dela e a reservava só para os parentes e amigos. — Depois de abrirem a
porta, entraram. — Esta é a sala dos clientes.
Kayla continuou parada na porta, observando a loja, incapaz de falar. Era um
salão entulhado de móveis de todos os tipos desde o hall de entrada: aparadores, mesas,
escrivaninhas, cadeiras e mais mil coisas. Havia estantes cheias de livros antigos, peças
artísticas, cristais, candelabros, abajures, bengalas com castão de metal e espelhos
ricamente emoldurados.
— Nem sei o que dizer! — Kayla comentou por fim.
— Bem, o forte de Elinor nunca foi à organização... Enquanto se esgueirava pelas
passagens estreitas, Kayla pensava como os clientes poderiam escolher alguma peça.
— Estas cadeiras são lindas — comentou, examinando-as melhor. — São
Windsor e estão em boas condições.
— Você entende de antigüidades? — perguntou Lil.
— Trabalhei um pouco com decoração, mas não tenho muita experiência.
O entusiasmo de Kayla foi se transformando em desapontamento quando ela
notou que as peças que entulhavam a sala estavam mal conservadas. Nem mesmo
podiam ser classificadas como antigüidades.
— Pelo que vejo, minha tia comprava tudo que via pela frente...
— Digamos que ela possuía gosto eclético — Lil comentou, diplomaticamente.
— Talvez Ben tenha razão. Seria melhor eu vender tudo e voltar para casa.
— Você não me parece do tipo que desiste facilmente.
A pobre senhora não sabia tudo que ela já fizera na vida, pensou Kayla. Mas
dessa vez precisava ser diferente. Por fim, comentou:
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Bem, talvez eu deva fazer uma liquidação. Pode ser uma boa solução para
abrir espaço. Vendo quase tudo e começo de novo.
— Não parece má idéia — Lil concordou. — Posso ajudá-la. Agora que estou
aposentada do ensino tenho mais tempo livre.
— Ensinava inglês? — Kayla procurou adivinhar.
— Biologia. Minha especialidade era a botânica. Pode imaginar que não
despertava grande interesse nos alunos, não é? Mas venha, vamos ver o resto da casa,
assim você terá mais idéia do bom gosto de sua tia.
O quarto de Elinor ficava mais perto da escada e foi o que mais impressionou
Kayla, no segundo andar. Ao entrar, ela teve uma sensação estranha. O ambiente era
gracioso e formal, parecendo mais um museu de que um quarto.
— É lindo, mas acho que não me sentiria confortável aqui. É demais o quarto de
tia Elinor.
— Então, vamos escolher outro. Existem mais três — Lil informou.
Lutando contra o mal-estar, Kayla virou-se para sair e viu o quadro pendurado
perto da porta. Era um retrato de mulher, escurecido pelos anos, mas ainda em bom
estado. Ela aproximou-se, sem conseguir afastar os olhos.
A mulher usava roupas do século dezessete, bem formais, mas o rosto de pele
macia, os olhos azuis e o cabelo loiro pareciam iluminados. A moça deu um passo atrás,
espantada. A mulher era igual a ela!
— Sei o que você está pensando — disse Lil. — Elinor costumava falar de sua
semelhança com o quadro. O nome dessa moça era Katherine. É uma de suas
ancestrais, mas acho que não me lembro exatamente qual o parentesco. A
hereditariedade é fascinante, não?
— Não se sabe.nada sobre essa Katherine? — Kayla não afastava os olhos da
tela.
— Só o nome. Sua tia entendia dessas coisas, mas eu apenas conheço a
genealogia das plantas, sinto muito.
— Esse quadro deve ter uns trezentos anos — ela comentou encostando o dedo
na tela, sem nem ouvir direito o que a outra dizia.
Sentiu um arrepio. Katherine usava as roupas do tempo dos julgamentos de
Salem. Depois, sorriu para Lil:
— Vamos continuar nossa expedição — propôs, ainda pensativa. Ela sabia que
voltaria muitas vezes ao quarto para ver aquele quadro.
Lil despediu-se no meio da manhã e prometeu voltar logo.
— Quando você for fazer compras, avise que é sobrinha de Elinor. Vão atendê-la
muito melhor. Mas, lembre-se, agora você é daqui e precisa ser exigente.
Kayla seguiu os conselhos de Lil quando foi ao açougue, ao armazém, à farmácia
e à casa de ferragens. Tudo era novo e ela esqueceu-se de ser exigente. Em vez disso,
conversava amavelmente com todos.
— Então, você é a sobrinha de Elinor — disse o dono do armazém, cofiando o
bigode. — Não se parece muito com ela.
Kayla concordou e, depois de conversarem, ganhou duas laranjas a mais, o que
mostrava que o tratara do modo adequado..
O dono da casa de ferragens também vendia produtos de limpeza e começou a
dar conselhos.
— Você herdou uma casa muito velha. Parte dela é do século dezessete. Claro,
foi reformada, mas é difícil de ser aquecida. E também dá muito trabalho para limpar,
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
especialmente com toda aquela tralha que Elinor juntou na loja. O melhor é você levar um
bom lustrador de móveis.
— Então, ponha na lista também — Kayla suspirou, vendo a quantidade das
compras.
— Bem-vinda a Nova Sussex, senhorita Hartwell.
Ela espantou-se quando ele pegou um lápis e começou a preencher a nota fiscal,
fazendo os cálculos de cabeça. Não havia máquina de calcular e nem caixa registradora
computadorizada. Era um mundo novo. Ou velho?
Depois de descarregar as compras, Kayla esquentou uma sopa em lata e comeu
rapidamente, porque não queria perder tempo. Pretendia começar pela cozinha, limpar o
quarto que tinha escolhido e o banheiro. Depois de se instalar melhor, limparia a loja e o
resto da casa.
Depois de lavar bem a cozinha, para tirar toda a poeira, ela pôs na máquina os
tapetes feitos à mão e passou o lustrador nos móveis. Em seguida, limpou a janela sobre
a pia e poliu os metais da lareira. O resultado foi tão bom, a velha cozinha ficou tão bonita
que ela saiu sorrindo.
Havia escolhido o maior quarto, sobre a cozinha, na parte antiga da casa. Tinha
janelas de dois lados, dando para o quintal e a passagem de carros, ao lado da casa. A
vista era um pouco triste, mas melhoraria muito com a chegada das primeiras flores
coloridas da primavera.
A grande cama de dossel recebeu lençóis limpos e ficou acolhedora.
Já deixara o assoalho e os móveis reluzentes; então, tirou as cortinas para lavar.
A seguir, com as costas doendo, ela limpou o banheiro de ladrilhos brancos e pretos.
Quando a torneira de água quente funcionou, a alegria foi enorme porque o aquecimento
estava funcionando. Era o mesmo sistema que aquecia os ambientes e ela pensou que ia
dormir em um quarto quente, numa cama de verdade. Mas, antes, queria tomar um banho
de verdade.
Seus olhos.brilhavam quando encheu a banheira e despejou meio vidro de seu
banho de espumas favorito. Tirou rapidamente a roupa e emergiu, disposta a descansar
ali um bom tempo. Fechou os olhos e procurou relaxar todos os músculos do corpo.
Ben estava voltando tarde de Salem e pretendia ir direto para casa. De lá,
telefonaria a Kayla para saber se tudo ia bem. Mas quando chegou à Rua Principal não
resistiu e entrou na Mulberry Street. Ao virar a esquina viu que a cozinha estava iluminada
e havia luzes no segundo andar. Como ela estava acordada, ele resolveu entrar e tentar
fazer as pazes.
Havia pensado nela o dia todo, lembrando-se dos momentos em que a abraçara e
do beijo delicioso. Depois houvera aquele desentendimento tão desagradável! Mas
pretendia se desculpar, porque sabia que logo se entenderiam melhor.
Quando estacionou o carro atrás do dela, um tipo esporte, vermelho, reparou que
o pneu dianteiro estava baixo e pensou em avisá-la quando entrasse. Sorriu, sem saber
se ela acharia que estava dando ordens.
Ninguém respondeu, quando tocou a campainha a primeira vez e nem a segunda,
mas tinha certeza de que ela se encontrava em casa. A porta estava destrancada e ele
entrou na cozinha.
Era apenas um gesto de boa vizinhança, disse a si mesmo. Evidentemente, ela
não ouvira seu conselho. Chamou-a em voz alta e esperou resposta. Sua voz ecoou pela
casa, mas o silêncio continuou.
Preocupado, ele resolveu subir e ver o que estava acontecendo. Tinha reparado
que a cozinha fora limpa e calculou que Kayla adormecera, cansada de tanto trabalho.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Poderia acordá-la, conversar rapidamente e se despedir. Viu a luz acesa, por baixo da
porta do quarto, e aproximou-se em silêncio.
Kayla dormia na cama, com um braço sob o travesseiro. Estava deitada de lado,
com os joelhos dobrados e a bela cabeleira loira espalhada, cobrindo levemente o rosto.
Parecia tão inocente quanto uma criança e tão provocadora quanto uma deusa.
Ben respirou fundo, percebendo a boca seca e as batidas fortes do coração. O
roupão de Kayla estava entreaberto e aparecia parte do ombro. Ele já vira aquele quadro.
Era seu sonho transformando em realidade.
Como no sonho, ele a desejava e queria tocar naquele ombro. Podia acariciar o
pescoço, descer a mão pelo vão entre os seios. Queria beijar aquele lindo rosto, as
pálpebras cerradas, o pescoço esguio. r
Ele ficou parado na porta quase dois minutos, procurando controlar os
pensamentos eróticos. Imaginava o que aconteceria se a acordasse. Ela o receberia de
braços abertos e retribuiria seus carinhos ou o observaria com desprezo?
Como se lesse seus pensamentos, Kayla espreguiçou-se e abriu os olhos.
Depois, tornou a fechá-los como se não acreditasse no que via. Quando tornou a abri-los
olhou-o diretamente e acabou de acordar.
— Ben — disse, sem muita surpresa na voz.
— Eu chamei, mas você não ouviu — ele explicou, com cara de menino
apanhado numa travessura.
— Acho que não, mesmo. Devo ter morrido para o mundo. Que horas são?
— Quase sete.
— Nossa! Eu pretendia descansar por alguns minutos e devo ter dormido mais de
uma hora — ela riu e esticou-se toda.
Com o movimento, o roupão colou no corpo e revelou a linha provocante dos
seios e dos mamilos. Ben achou-a tão atraente que desviou os olhos. Procurou justificarse:
— Desculpe se apareci tão tarde, mas achei que talvez você precisasse de
alguma coisa...
— Desta vez não preciso de nada, mas agradeço sua boa vontade. Gosta dele?
— perguntou com um sorriso que iluminou mais o quarto, enquanto o indicava com a
mão.
— Está lindo — ele riu. — É um quarto bem grande.
— Acho que serei feliz aqui...
Kayla reparou que Ben estava muito alinhado no terno com colete, escuro e
conservador, a roupa apropriada para um advogado. Não estranhara a chegada
repentina, talvez estivesse sonhando com ele. Mas não se lembrava. Nesse momento,
recordou-se de que devia estar com raiva.
— Acho que estou zangada com você — comentou, pensativa e séria.
— Mas não muito, não é? — Ben perguntou, esperançoso.
— Não, não muito. De fato, estou até agradecida por tudo o que você fez; ainda
mais por ter mandado sua tia Lu. Nos divertimos muito juntas.
— Imaginei que vocês iam se dar bem. Combinam muito.
— Ela me ajudou bastante. Pelo jeito, os Montgomery me adotaram.
Ela não conseguiu interpretar o sorriso de Ben. Lembrou-se da noite anterior e
pensou em se desculpar, mas ele falou primeiro:
— Sinto muito pelo que aconteceu ontem à noite. Eu não costumo agir assim,
nem me reconheci.
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— Não, acho que não. E eu agi irracionalmente, o que também não é meu
costume — ela respondeu, em tom cordato.
— Talvez a gente descubra o que acontece quando estamos juntos, o que nos
leva a agir de modo diferente do que costumamos...
— Pelo menos, não ficamos entediados e nem podemos adivinhar a atitude que o
outro vai tomar — disse ela, forçando um sorriso para amenizar o ambiente.
— Acha que um dia vamos conseguir? — Ben perguntou, rindo. — Quero dizer,
se continuarmos nos vendo... Como amigos...
— Acho muito bom sermos amigos, mas por enquanto é só. Não quero outros
compromissos até organizar minha vida.
— Eu compreendo, também me sinto assim — ele assentiu, com a cabeça. —
Ainda nem tivemos tempo de conhecer melhor um ao outro. Mesmo depois de ontem à
noite...
— Ontem foi ontem — Kayla levantou-se. — Hoje é outro dia, ou melhor, outra
noite. Portanto, vou me vestir e preparar um jantar para nós. É a minha vez, não é?
— Parece uma boa idéia, mas sei de um lugar em que poderíamos comer um
belo espaguete.
— Pensei que não existiam restaurantes por aqui...
— Não existem, mesmo. Mas podemos comer esse espaguete na casa dos Fiore.
Eles não se incomodam se aparecerem mais dois para jantar.
— Ben, não podemos...
— Claro que podemos. Andy e Terrie querem conhecê-la. Quanto antes melhor.
Vamos.
— Você pode esperar eu me vestir, pelo menos? — Kayla caiu na risada.
— Está bem, vou esperar lá embaixo. Cinco minutos?
— Dez — ela disse, empurrando-o suavemente para fora do quarto. Kayla sorria
enquanto se vestia e escovava o cabelo. Era exatamente o tipo de amizade que ela
desejava, com certa intimidade e sem pressões. Não queria avançar muito para não
estragar tudo.
Ao mesmo tempo, pensava coisas além da amizade. Mas era apenas por ele ser
um rapaz tão atraente. Ao acordar, tinha sentido uma vontade enorme de chamá-lo para a
cama. Em vez de estar vestida, agora poderia continuar nos braços dele, fazendo amor...
Felizmente ela resistira à tentação e pretendia continuar assim. Não queria um
envolvimento tão rápido. Afinal, conhecera Ben vinte e quatro horas antes, nem dava
tempo de saber o que sentia por ele, na verdade.
Depois de escová-los, Kayla sacudiu a cabeça e os cabelos lhe emolduraram o
rosto, caindo em ondas naturais. Sentia-se muito bem sem complicações emocionais.
Não precisava disso, já tinha muitos problemas a resolver na nova vida.
Largou a escova, pegou a bolsa e apagou a luz do quarto. Sentia-se feliz por
saber controlar-se tão bem. Se ao menos conseguisse afastar aquelas visões eróticas
com Ben, poderia pensar ainda mais claramente.

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CAPÍTULO 4

Quando voltavam da visita aos Fiore, Kayla percebeu, admirada, que tinha dois
novos amigos. Não fazia amizades facilmente, mas o casal era tão simpático e
demonstrava uma afeição imensa a Ben, que parecia contagiosa. Apesar de amigos, ele e
Andy não poderiam ser mais diferentes fisicamente. Andy era baixo, magro, com cabeça
grande e rosto de criança. Brincava o tempo todo, bem-humorado:
— Como é, não está com vontade de pegar o primeiro avião para a Califórnia,
depois de ouvir tanta bobagem? — ele perguntara a Kayla, no fim da noite. — Ben já não
agüenta mais, olhe-o!
— Ele pode ir sem mim, então. Estou resolvida a ficar, mais do que nunca! De
agora em diante, esta é a minha cidade!
— Aposto que é por causa de meu espaguete! — comentara Andy, com uma
risada feliz.
— Na verdade, é por causa de sua mulher e seus filhos! — respondera ela, rindo.
Os meninos, de sete e cinco anos, haviam-na conquistado.
— Criei-os da maneira certa, por isso são formidáveis!
— Eles ainda não estão criados, Andy — Terrie observara. — Mas agora vamos
tomar café e conversar sobre sua loja.
— Acho melhor tomarmos o café em silêncio... — Kayla procurara evitar o
assunto.
— Não, vamos todos até a cozinha enquanto eu preparo. Mas me conte os seus
planos... — pedira Terrie.
— Antes de abrir a loja preciso fazer duas coisas que parecem impossíveis.
Primeiro, um inventário completo do que está à venda, o que não é fácil. Depois, quero
vender tudo que não for propriamente uma antigüidade, se alguém quiser comprar...
— Se você fizer uma liquidação conseguirá vender, sim — Terrie garantira. — Mas
não terá muito lucro, é claro.
— Pelo menos, terei mais espaço.
— Será muito bom ver a loja aberta novamente. Apesar de não ser uma boa
vendedora, Elinor ajudava muito a gente. Comprei um jogo de taças para mamãe
aconselhada por ela, e foi um sucesso. Ela sabia tudo a respeito, inclusive o nome do
primeiro dono. O presente ficava muito mais personalizado.
— Esse é um bom argumento de venda, não é? — Ben comentou
inesperadamente. — Se você contar a história de cada peca em um cartão para presente,
dará esse toque que Andy elogiou.
— Só que eu preciso saber a história para fazê-lo — lembrou Kayla.
— Talvez consiga muita coisa. Elinor guardava as notas de compras e fazia
anotações. Tudo está lá, bem guardado.
— Algumas vezes, velhinho, você me espanta — dissera Andy —, mais ainda
quando a gente pensa que você nem está ouvindo.
— Sempre de mente alerta! — Ben exclamara, brincando.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— E já que vamos criar uma nova imagem da loja, talvez seja melhor mudar o
nome — perguntou Kayla. — Não entendo esse "Portal de Entrada". É meio estranho,
não?
— Concordo, é intrigante — dissera Andy, com ar pensativo.
— Talvez você descubra o motivo do nome, mas não conte para nós. Deixe que
continue sendo um mistério — pedira Terrie.
— Está bem. Mas há outro mistério que quero descobrir. É o retrato a óleo de
uma moça, feito em meados do século dezessete. Ela é muito parecida comigo.
— Que coisa estranha... E o que você sabe sobre ela? — indagara
Andy, todo animado.
— Só sei que se chamava Katherine.
— Bem, isso não será um mistério por muito tempo. Por aqui todo mundo
conhece coisas do passado — Terrie informara. — Salem possui uma excelente biblioteca
genealógica.
— O pessoal desta região tem um grande interesse pelos ancestrais — dissera
Andy. — Especialmente quando são dos velhos tempos dos puritanos, como os do nosso
amigo Ben.
A conversa desviara-se para as histórias sobre os tempos de infância e juventude
dos dois e Kayla satisfizera a curiosidade sobre ele.
— Eles queriam que eu ficasse embaraçado — Ben comentou, sorrindo, quando
estavam no automóvel. — Não acredite em todos aqueles casos.
— Mas não fiquei surpresa. Desde o começo, suspeitei que você tinha um lado
diferente.
— Ora, são histórias do tempo de criança, Kayla. Mas o que você quis dizer com
esse "desde o começo"?
— Exatamente isso. Vi logo que você era o advogado-conselheiro deles.
— Mesmo os dois não querendo ouvir conselhos, não é?
— Isso ai... Mas também vi que era um amigo leal, dedicado. Só não conhecia
esse Ben mais livre, mais franco. — Ela sentiu-se embaraçada.
— Desculpe, não costumo analisar as pessoas dessa forma.
— Ora, estou até me divertindo. Fale mais.
— Por enquanto, não há mais nada a dizer — a moça respondeu.
Ele sentiu-se encorajado. Se ela se dispunha a saber mais a seu respeito, queria
dizer que pretendia vê-lo sempre. Começou a dar algumas voltas com o carro porque não
queria que a noite acabasse.
— Está ficando tarde... — ela murmurou, pouco depois.
— Eu sei — ele resolveu seguir diretamente para a casa dela e logo chegaram.
Ben ajudou-a a descer do carro e esperou, enquanto ela procurava a chave na
bolsa, lutando contra o ímpeto de abraçá-la e beijá-la novamente. Chegou a suspirar de
alívio quando, por fim, a moça abriu a porta.
— Foi uma noite muito agradável, Ben — Kayla comentou, sem suspeitar de
nada. — Gostei muito de conhecer seus amigos.
— Agora são seus também. — Ele abaixou-se para beijar-lhe o rosto, mas Kayla
ergueu a cabeça e colidiram, dizendo ao mesmo tempo:
— Desculpe..
— Desculpe...
— Boa noite, Kayla.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Boa noite, Ben.
— Kayla, reparei que o pneu dianteiro de seu carro está muito baixo. Precisa
enchê-lo — avisou, temendo irritá-la com o conselho.
— Obrigada — ela riu. — Amanhã passarei pelo posto.
— E não se esqueça de trancar a porta — ele disse por fim, muito constrangido.
Mais um conselho.
Refeita por uma boa noite de sono, Kayla resolveu pesquisar a papelada que se
encontrava na escrivaninha de tia Elinor. Talvez encontrasse a lista de compras da loja.
Havia uma enorme quantidade de notas fiscais, algumas com vinte anos de idade, mas
não dava para saber quais eram as peças compradas. Com um suspiro, ela levantou-se e
reparou que na prateleira abaixo havia dois cadernos grandes. Depois de tirar o pó, abriu
o primeiro.
— Graças a Deus! — exclamou, ao folhear as primeiras páginas. Elinor anotara
todas as compras, com o nome do dono, detalhes a respeito de cada uma e algum fato
interessante. Havia uma numeração de código e a única dificuldade seria encontrar os
números correspondentes nas peças. A tia não se preocupava com o valor nem se eram
adquiridas em leilões ou espólios. Kayla passou quase a manhã toda procurando as
etiquetas numeradas nas peças. Descobriu que o par de cadeiras Windsor tinha sido um
presente de casamento a Mary Alice Putman, em 1900.
Começou a imaginar como faria os cartões e pensou em papel creme tipo
pergaminho, escritos a mão, em letras caprichadas. Felizmente, tinha aprendido caligrafia
durante algum tempo. Depois de examinar grande parte do salão, resolveu descansar e
tomar outra lata de sopa como almoço.
Enquanto esquentava a sopa, ela pensou que já tinha alguma coisa para começar
a trabalhar. Mas a curiosidade era grande e resolveu pegar o outro caderno, para ver o
que havia. Era a história da família Hartwell. Talvez houvesse alguma coisa sobre
Katherine, a moça do quadro.
A sopa começava a ferver quando ela encontrou uma fotografia do retrato.
Reparou, em primeiro lugar, nas datas: nascida em 1666, falecida em 1692. Sua idade,
pensou, com um arrepio na espinha.
Filha de Edward e Sarah Hartwell.
Noiva de John Marston.
Acusada de bruxaria.
Enforcada aos vinte e seis anos.
Enforcada como feiticeira! Kayla olhava fixo para a página,, totalmente paralisada.
Nada daquilo parecia possível. Nem sua semelhança com ela, nem a morte dramática aos
vinte e seis anos.
Um cheiro forte de queimado encheu a cozinha e ela correu até o fogão. Tentou
segurar a alça da panela, mas saltou para trás e atirou-a na pia. Depois abriu a torneira
de água fria e ficou assistindo a sopa escorrer pelo ralo. Era o que dava ficar lendo a
história da família Hartwell, pensou.
Tornou a olhar o retrato, pensando que não poderia pendurá-lo na loja como
planejara. A história da moça não era agradável e nem original por ali.
O telefone tocou cinco ou seis vezes, até ela perceber e atender.
— É a nova proprietária do "Portal de Entrada"?
— Sim, sou a sobrinha da Srta. Hartwell.
— Muito prazer! Estou tratando da venda de pecas de um espólio e como sempre
avisei a dona do "Portal de Entrada", achei que...
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Foi muito amável em ter se lembrado, obrigada — Kayla respondeu, animada.
— Pode me dar o endereço? Eu gostaria de ver o que está à venda.
Ela saiu logo depois, com uma grande sensação de alívio. Se ficasse em casa,
provavelmente ia ficar olhando o retrato da ancestral, pensando em todas as suas
dúvidas. Era bom ausentar-se durante algum tempo daquele ambiente tão cheio de
lembranças do passado.
Respirou o ar puro, admirou o céu azul e as nuvens brancas na tarde ensolarada,
desligando-se das preocupações com o livro da história familiar.
Na saída da cidade, parou em um posto e encheu o tanque do carro, não se
esquecendo de calibrar os pneus. Depois, seguiu as indicações e chegou a uma
cidadezinha próxima, Luzir Bostick.
A casa indicada tinha três andares e era de tijolos aparentes, cheia de chaminés.
Muitos carros e caminhões estavam estacionados por perto e Kayla pensou que talvez
estivesse chegando tarde demais.
Ao entrar, reconheceu a voz da senhora que falara ao telefone, dando ordens ao
pessoal.
— Cuidado com a porta... Vire o sofá, assim. De lado é melhor. Kayla aproximouse timidamente e disse quem era.
— Sou Anne Maguire e estou dirigindo a venda. Então, você é a sobrinha de
Elinor? Não se parece com ela. Sabe, eu vendo em todo o Estado de Massachusetts e
posso garantir que este espólio tem peças muito boas.
— Bem, eu não posso comprar muita coisa, mas gostaria de ver algumas peças
que tenham história.
— Tudo aqui tem uma história!
— Quero dizer, uma história conhecida — Kayla corrigiu, descrevendo sua política
de vendas.
— É uma boa idéia, mesmo. Pelo jeito, você tem um laço forte com o passado.
— Tem razão — ela admitiu, lembrando-se de sua semelhança com o retrato. —
Tenho uma forte ligação com o passado.
— Então, procure o que acha interessante e me avise — Anne sugeriu. Depois
que Kayla indicou as que interessavam, comentou:
— Você tem bom gosto, sem dúvida.
Mesmo sabendo que era uma extravagância, ela acabou comprando uma caixa
de jóias francesa e um par de candelabros que fora da avó do dono do espólio. Gastou
um pouco mais do que pretendia, mas as notas históricas seriam bem interessantes e já
tinha decidido como iria vender a nova mercadoria.
Na volta, a estrada estava vazia e ela sentiu o prazer de percorrer o campo,
vendo os primeiros brotos de primavera no arvoredo. De repente, surgiu uma motocicleta
veloz e logo se aproximou. Kayla diminuiu a marcha, esperando que ela a ultrapassasse,
mas o motociclista também diminuiu e ficou atrás do carro. Quando ela acelerou ele fez o
mesmo.
Era uma grande motocicleta preta, cheia de cromados; o rapaz usava jaqueta
preta de couro e um capacete que lhe escondia o rosto. Apesar de ser uma imagem um
pouco intimidante, ela se recusou a ficar amedrontada. Não continha a irritação por estar
sendo seguida. A certo momento, apareceu à placa de um restaurante e ela entrou com o
carro no estacionamento.
Pelo número de carros parados ali, era um lugar muito popular. Ainda bem!,
Pensou ela, porque tinha muita fome. Pelo jeito, o motociclista também, porque a seguiu e
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
quando ela parou o carro, aproximou-se. Kayla ficou tranqüila, porque ele não poderia
ousar nada em um local cheio de gente.
Ao abrir a porta, ela viu pelo canto do olho que ele tinha parado a moto e se
aproximava mais, ainda de capacete. Bem perto, ele segurou-lhe o braço e tirou o
capacete ao mesmo tempo.
— Não posso acreditar! — Kayla exclamou, vendo que o motoqueiro de preto era
Ben Montgomery.
— Este lugar é muito popular — ele sorriu, envolvente. — A gente sempre
encontra conhecidos quando vem aqui.
— Não estou falando nisso, você sabe.
— Fala da moto? Ah, é que eu precisava tratar de um assunto em Gloucester e
resolvi ir de motocicleta. O dia estava lindo e...
— Também não é isso, o que me espanta é você de moto.
— Ora, não me disse ontem à noite que eu tinha um lado mais ousado?
— Disse, sim. E geralmente sou boa para julgar o caráter das pessoas.
— Então, sabe que não há perigo se quiser dar uma volta comigo na moto. — Talvez mais tarde, agora estou com fome.
Os dois entraram e ela reparou que havia cartazes anunciando a comida caseira.
A garçonete olhou Ben com grande interesse e o cumprimentou como velha conhecida.
Kayla não culpou a moça, porque ele estava alinhadíssimo na calça jeans, com
uma camiseta preta e a jaqueta de couro. Antes de sentar-se, tirou a jaqueta exibindo o
peito musculoso sob a camiseta justa. Os gestos eram seguros, tranqüilos, dele, irradiava
uma forte energia e naturalidade. Era um esportista e sentia-se tão bem naquelas roupas
quanto nos ternos formais de advogado.
— O que você está fazendo por aqui? — ele perguntou, depois de fazerem o
pedido. — Veio entregar alguma encomenda?
— Não propriamente. Vim fazer umas compras.
— Ontem à noite, não disse que a loja estava cheia? — ele ergueu uma
sobrancelha, inquisitivo.
— Disse e pretendia abrir espaço, mas não pude resistir a essas peças. Estou
seguindo sua sugestão.
— Qual?
— De personalizar as pecas. Encontrei um caderno de tia Elinor e acho que é
possível. Isso dará a minha loja uma nova característica, algo meu, pessoal, sem quebrar
a tradição.
— Você quer algo seu, bem pessoal, não é?
— Sim — ela respondeu, decidida.
— Então, fico contente de ter ajudado, mesmo sendo apenas com uma pequena
sugestão.
— Você não vai me passar um de seus sermões porque comprei em vez de
vender?
— Ora, Kayla, meus "dias de conselheiro se acabaram — ele sorriu e desviou a
atenção para a garçonete que chegava com o prato de Kayla.
Ela ficou um pouco constrangida, porque ele pedira apenas um sanduíche e café.
Procurou explicar que não tinha almoçado e estava com muita fome.

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Eu gosto de moças com bom apetite — ele riu, com um brilho divertido nos
olhos verdes. — Até gostaria de convidá-la para jantar, mas esta noite preciso preparar
um processo. Amanhã vou a Boston e devo voltar dentro de poucos dias.
— Não se preocupe comigo. Estou me habituando à nova vida aqui, sei cuidar de
mim. — Mas Kayla lembrou-se do retrato, do que acabara de saber sobre Katherine e
completou: — Eu acho, pelo menos...
Ben notou o tom de "dúvida e olhou-a, curioso. Para evitar perguntas, ela
procurou mudar de assunto.
— Você conhece boas livrarias em Boston?
— Meia dúzia, pelo menos. Quer que eu compre algum livro sobre vendas ou
antigüidades?
— Não exatamente — ela respondeu. — Eu ando interessada em feiticeiras.
— Ainda? Não me diga que pretende usar esse tema em sua loja, por causa
daquele horrível museu de Salem.
— Não é tão horrível, apesar de sua época ter sido bem trágica. Eu gostei da
visita que fiz ao museu.
— Corrija se eu estiver errado, mas tenho um palpite que você chegou atrasada
ao meu escritório por causa dessa visita ao museu das feiticeiras...
— É que eu fui também à famosa casa. Achei tudo muito... Educativo.
— Aquilo é coisa apenas para turistas, Kayla.
— Naquele dia eu era turista, hoje não sou mais. Quero conhecer muito mais
coisas a respeito daqueles julgamentos.
— Ora, essa história de feiticeiras, bruxos, magos, diabinhos, magia negra, tudo é
ridículo, Kayla. Serve apenas para dar lucro aos interessados.
— Entendi Você ter dito que não ia mais passar sermões. E existem coisas que
não são fabricadas, que realmente existem.
— Eu não nego que houve uma histeria coletiva em Massachusetts e muitos
inocentes acabaram morrendo, mas isso agora é parte da história.
Kayla sabia que não devia discutir, mas sorrir gentilmente e mudar de assunto. No
entanto, tratava-se de sua ancestral, uma Hartwell que haviam enforcado sob a acusação
de feitiçaria. Era mais do que simples história.
— Estou falando de coisas que podem influenciar o presente e o futuro — ela
respondeu por fim. — Lembra-se do retrato do quarto de tia Elinor que se parece comigo?
— Claro que me lembro.
— Pois bem. Hoje havia algumas anotações sobre ela no caderno de titia: morreu
com a minha idade, Ben, enforcada como bruxa.
— Verdade? — Ele ficou realmente surpreso. — Eu compreendo que você fique
impressionada, com a história de sua família, mas não anda lendo demais sobre o
assunto?
— Estou apenas comentando como me sinto, Ben. Mesmo antes de saber que
Katherine existiu senti algo estranho quando entrei no museu.
— O ambiente impressionou, Kayla, e uma pessoa sensível como você...
— Mas eu tive a mesma sensação quando olhei o retrato. Era como um toque de
mão fria. Saí do quarto e nunca mais entrei lá.
Ela não chegou a comentar a estranheza que sentira na sala de estar. Desde a
noite da chegada também não tinha entrado mais ali.
— Você acha que tem alguma ligação pessoal com essa Katherine?
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— perguntou Ben, depois de pensar algum tempo. — Acha que está ligada ao
passado dela, por causa da semelhança entre vocês?
Era a atitude típica de advogado, pensou Kayla. Considerava o silêncio como
resposta afirmativa e passava à pergunta seguinte.
— Estamos, então, falando de energia psíquica e fatos paranormais?
— ele insistiu. — Você não acha que está exagerando um pouco?
— Talvez sim — ela admitiu. — E, você, não está adotando uma posição protetora
de conselheiro?
— Acho que não.
— Pois ouça, Ben. Eu não sabia de nada a respeito de Nova Sussex e de
Katherine. Também não entendia de bruxarias. Tinha ouvido dizer que alguns inocentes
morreram no século dezessete por causa disso, mas apenas como fato histórico. Quando
entrei no museu senti uma emoção muito forte, muito pessoal. Foi à mesma de quando vi
o retrato. Há uma ligação. Não se trata de um romance mórbido ou de filme de horror,
mas há uma ligação familiar. Quero compreender por que o retrato me impressiona tanto.
Não acho estranho me sentir assim...
— Eu não disse que era estranho.
— Você não ficaria interessado, se descobrisse que era idêntico a um ancestral?
— Ora, isso é até engraçado, Kayla. Todos os Montgomery são iguais, há
séculos. Estamos habituados. — Reparando que ela continuava séria, concluiu: — Sei
que para você é uma novidade essa história de família na Nova Inglaterra e compreendo
que esteja interessada.
— Mesmo achando uma bobagem, não é?
— Eu não disse isso, só dei minha opinião.
— E muito sensata, já que você é um advogado — Kayla retrucou, mas riu de
repente. — Só que não combina muito com um motoqueiro. Sou tolerante com suas
esquisitices, por que você não pode ser com as minhas?
— Vou tentar. — Ele segurou a mão dela sobre a mesa. — Serei muito tolerante,
você vai ver.
Mas Ben não estava pensando no que dizia por que se concentrara no calor e na
suavidade que a mão dela irradiava. O contato era tão agradável que chegava a sentir um
arrepio na nuca. Aquilo não tinha nada de paranormal. Era muito normal, muito humano.
Ele gostaria de esquecer o serviço com o processo e tirar a noite de folga para ter Kayla
nos braços. Sairiam de moto pela noite, por estradas desconhecidas, descobrindo lugares
que nunca tinham visto. Seriam momentos mágicos, que ficariam na memória para
sempre.
— Será, mesmo? Será? — ela perguntava, fazendo-o voltar à realidade.
— Sim, eu serei muito tolerante — ele respondeu muito sério. — Vou até trazer os
livros que você pediu... E agora, está pronta para dar a volta de moto?
— É muito tarde e nós dois temos trabalho a fazer. Vamos marcar um passeio
para o próximo fim de semana ensolarado, está bem?
— Então, está combinado.
Ben largou a mão de Kayla com certa relutância para pegar a conta que a
garçonete entregou, mal disfarçando seu desapontamento por vê-lo acompanhado.
Quando saíram, ele parou ao lado do carro. A primeira estrela tinha surgido no
crepúsculo e havia uma brisa que brincava com os cabelos dourados de Kayla.
— Obrigada por matar minha fome — ela sorriu, agradecida. — Agora é a minha
vez de preparar um jantar.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Estou ansioso para provar seu tempero, deve ser delicioso.
— Quando provar, terá de retirar o elogio — ela riu, com vontade.
Kayla estava encostada na porta do carro e Ben apoiou o braço direito ao lado.
Pensou que se pusesse o esquerdo do outro lado ela ficaria presa e poderia beijá-la. Em
vez disso, enfiou a outra mão no bolso.
— Aposto que você cozinha muito bem. E sou um homem que gosta de viver
perigosamente, lembra?
— É, estou começando a acreditar — ela sorriu, curvando os lábios
graciosamente e fixando nele os olhos luminosos.
Ben não conseguiu resistir. Apoiou o outro braço no carro e aproximou o rosto
bem devagar. Ela não se desviou. Ao contrário, ergueu o queixo e seus lábios se
encontraram.
A boca de Kayla era doce como néctar e estava entreaberta, deixando-o explorála com a língua. O único contato físico era o beijo, mas bastava naquele momento.
Logo depois ele não agüentou e abraçou-a impetuosamente. Os corpos se
colaram de tal modo que ele podia sentir os seios de Kayla contra o peito, o ventre, as
coxas, cada vez mais perto, mais perto, até terem a impressão de serem um só. Ela
afagava suavemente seus cabelos e passava as unhas de leve pelo pescoço, retribuindo
o beijo com ardor.
Era a reação que ele desejara mas não achava possível. O sangue latejava com
força nas veias quando ele a atraiu ainda mais para si, como se fossem fundir-se. Ela era
demais! Ben nunca sentira uma atração igual por qualquer outra mulher; nunca desejara
tanto alguém. Queria que aquele,momento se prolongasse eternamente. Mas, por fim, se
afastaram.
Ela encostou a cabeça no ombro dele, enquanto esperavam a respiração voltar
ao normal.
— Acho que você também gosta de viver perigosamente — ele murmurou.
— Posso aprender a gostar — ela respondeu, com voz rouca e abafada.
— Por que não vamos a um lugar mais reservado? Minha casa, por exemplo —
ele sugeriu.
Continuavam abraçados e Kayla sentia o calor reconfortante do corpo forte. Seria
tão fácil dizer sim, ela pensou. Sairiam pela noite, de motocicleta, vivendo uma fantasia
erótica, sem preocupações, guiados apenas pelo desejo.
— Diga que sim, Kayla. Vamos! Nosso amor é inevitável. Sei o que quero e, o que
é mais importante, sei o que você quer.
— Ah, é? — Kayla enrijeceu o corpo e afastou-se, olhando-o desafiadoramente.
— Eu posso estar enganado, Kayla. — Ele percebeu o erro tarde demais. — Mas
acho que não. Diga-me, por favor...
— Pois eu acho que sim. É espantoso! Você acha que sabe o que é melhor para
mim. Pois entenda, Benjamin Montgomery, que está muito enganado!
— Por que você sempre interpreta mal minhas palavras? — ele perguntou, no
mesmo tom irritado. — Claro que eu a desejo, mas você também me quer. Seu corpo não
mente, Kayla. Não aceita porque é teimosa. Ou tem medo?
— Eu não tenho medo! Mas não preciso que ninguém me diga o que devo fazer;
sei o que quero.
— Sabe, Kayla?
Antes de ela perceber, tornava a ser beijada ardorosa e sensualmente. Ele
demonstrava conhecê-la e agia com toda a segurança. Quando a soltou, por fim, Kayla
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
sentiu o corpo todo ardendo de desejo. Mas afastou-se logo, temendo a atração que Ben
exercia. Não sabia o que responder.
— Pense no que eu disse, Kayla. — Ele olhou-a por um momento e abriu a porta
do carro. — Voltaremos a falar nisso. Agora, entre no carro e não esqueça de trancar as
portas. Nunca se sabe se pode surgir algum tipo perigoso nessas estradas. E, não se
esqueça, nosso amor é inevitável. Confie em meu julgamento.
Kayla observou-o afastar-se, montar na moto e ajustar o capacete. Em seguida,
partiu à luz do crepúsculo. Ela não deu a partida imediatamente. Ficou parada, trêmula,
de cabeça baixa, pensando no que tinha acontecido. Nunca correspondera tão
plenamente a um beijo e queria mais, mais!
Então, por que achava tão difícil admitir? Ben tinha razão, ela o desejava. O que a
impedia de dizer sim?
Era sempre a mesma coisa quando se viam: primeiro conversavam e logo as
palavras se transformavam em discussão. Por que isso acontecia? Ela agia assim
instintivamente, para mantê-lo à distância? Temia alguma coisa sem saber?
Precisava admitir que temia Ben um pouco porque ele não era homem de
contemporizar, aliás como ela mesma. Seria tudo ou nada. Nenhum dos dois ia se
contentar com menos.
Mas Ben já entrara na vida dela, exigente, impondo sua vontade. Quando
estavam juntos a raiva e a paixão se mesclavam de tal modo que era impossível separar
os dois sentimentos. Ela sabia que se amariam com entrega total e imaginava o quanto
podia dar a Ben. Respirou profundamente, pensando no futuro que a assustava e atraía,
ao mesmo tempo.
Bem, no fundo, sabia que ele estava certo. O amor deles era inevitável. Era o
destino. Podia soar um pouco dramaticamente, mas era um futuro certo.
Sentada em segurança no carro trancado, Kayla tomou uma resolução. Na
próxima vez diria o que ele queria ouvir.
— Quero você, Ben Montgomery — falou em voz alta.
Dito assim já não parecia tão assustador. Ela sabia que o tempo do medo já tinha
passado. Chegava o tempo de abrir a porta para um futuro a dois.

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

CAPÍTULO 5

Ben empurrou a pilha de livros sobre a escrivaninha e serviu mais uma xícara de
café da garrafa térmica quase vazia. Não necessita de cafeína para não dormir porque
não sentia o mínimo sono. Só precisava se concentrar, depois de tantas horas de
trabalho. Volta e meia se distraía e começava a pensar em Kayla.
O encontro daquela tarde não saía de sua cabeça. Como sempre, tinha sido um
encontro cheio de surpresas e sentira a forte atração que só aumentava. Aquele beijo em
um local público o atingira como um furacão. Em vez de satisfazê-lo, só aumentara o
desejo.
Mas, era estranho, sempre que as coisas pareciam ir bem entre eles, surgia uma
discussão. Precisava ter mais cuidado para não irritá-la tanto, mas não conseguia se
controlar.
Provou o café e fez uma careta porque estava frio, com gosto ruim. Jurou que ia
controlar a língua quando voltasse a conversar com ela.
Riu de si mesmo, lembrando-se que tinha feito essa promessa várias vezes, mas
sempre esquecia ao vê-la. Eram feitos um para o outro, não tinha dúvidas. Mas precisava
convencer Kayla disso.
Ligaria na manhã seguinte e procuraria acalmá-la. A raiva dela era como chuva de
verão, relampejava, caía forte, mas logo se acalmava.
Esqueceu-se completamente do processo e descansou os pés sobre a
escrivaninha, lembrando-se dos sonhos em que ela sempre estava presente. Se Kayla
soubesse ficaria fascinada e acharia que havia energia psíquica envolvida, ligações
místicas com o quadro e a ancestral que parecia obcecá-la.
Não, não falaria nos sonhos até analisá-los bem. Podiam ser apenas o fruto da
grande atração sexual que sentia. Quanto ao fato de ter sonhado com ela antes de
conhecê-la, ainda não achara uma explicação lógica, porque não se lembrava de ter visto
aquele quadro ou qualquer outro retrato dela. Mas acabaria se lembrando.
Com um suspiro, voltou ao processo. Quando conseguiu se concentrar
novamente, bateram à porta e sentiu o coração disparar. Por um momento delicioso,
imaginou que ela estava chegando e iam se amar entre os livros jurídicos, no escritório
mesmo. Levantou-se, arrumou o cabelo com a mão e foi abrir a porta. Quando viu tia Lilith
não conseguiu esconder o desapontamento.
— Não, querido, não é Kayla — ela disse logo. — É apenas sua tia fazendo uma
rápida visita.
— Que prazer em vê-la, titia! — Ele beijou-a no rosto. — Mas não é um pouco
tarde para andar passeando por aí?
— Provavelmente, mas estive jogando gamão na casa dos Crowell e vi a luz
acesa quando passei. Está com algum caso complicado?
— Um caso importante. A audiência é amanhã, em Boston.
— Você parece muito confiante. — Ela sentou-se na poltrona de couro.
— Já é tão tarde, você me encontrou no meio de tantos livros, acha que isso é
prova de estar confiante?
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Bem, achei que sim porque você passou a tarde se distraindo naquele
restaurante da estrada...
Ele continuou sentado sobre o tampo da escrivaninha, esperando o que ela ia
dizer. Lil sorria com ar inocente e ele sabia que acabaria falando o que tinha em mente.
— E soube que Kayla estava com você.
— Ah, sim. Finalmente você chegou ao assunto. Como as notícias correm tão
depressa nesta cidade? Não me lembro de ter visto ninguém de sua turma de gamão.
— Talvez se lembre que viu o cunhado de Mary Crowell.
— Vi tão rapidamente... E como ele teve tempo de contar? Telefonou ou passou
pela casa de Mary Crowell?
— Ora, ele foi jantar lá, naturalmente. Comentou que viu você beijando Kayla.
— Não é uma coisa tão surpreendente.
— Bem no meio do estacionamento! Metade da cidade estará sabendo amanhã.
— O que não me preocupa nem um pouco.
— Não achei que você ficaria preocupado, mesmo — disse Lil. — Mas não tinha
certeza, porque foi sempre tão circunspecto!
— Dessa vez é diferente. Nunca senti por ninguém o que sinto por Kayla. Às
vezes ela me deixa louco de raiva, mas estou muito envolvido. E não me incomoda o que
essa turma do gamão pensa a respeito.
— Ora, eles já sabem que você está envolvido e toda Nova Sussex estará
discutindo isso amanhã. Acho maravilhoso!
Ben não ficou tão entusiasmado, mas realmente não se preocupava com o que a
cidade podia pensar. Era uma grande mudança em sua vida, porque sempre tinha feito
questão de manter uma vida discreta, longe de comentários.
— Eu também gosto muito de Kayla — Lil prosseguia, toda animada. — Amanhã
vou ajudá-la na loja. Vamos preparar a liquidação, que será no sábado.
— Fico muito contente. Vocês duas juntas serão invencíveis.
— Também acho — Lil concordou, olhando o relógio. — Nossa, é quase meianoite! Boa sorte no processo, Ben. Você também é invencível... Na corte.
— Ei, o que está querendo dizer?
Lil, que se aproximara da porta, olhou-o sorridente:
— Significa que profissionalmente não há quem se compare a você e, agora na
vida particular, acaba de encontrar uma parceira a sua altura... No meu modo de pensar,
já era tempo.
Ben a acompanhou rindo também. Sim, tinha encontrado sua parceira, sem
dúvida. Era o momento de fazer as pazes com Kayla e ver o que o futuro reservava para
eles.
Para Kayla, a tarde tinha começado e terminado com duas surpresas. Mas
preocupava-se por ter se despedido de Ben tão irritada. Apesar de ser um relacionamento
ainda tão novo, era muito intenso. Ela não queria passar algum tempo sem vê-lo, mas
precisava analisar melhor os próprios sentimentos. Foi dormir pensando em falar com ele
na manhã seguinte.
Kayla conseguiu ligar antes de Ben embarcar para Boston e conversaram com
calma, sem discussões. Ele prometeu telefonar quando chegasse.
Só então ela sentiu tranqüilidade para dedicar-se à liquidação. Com o auxílio de
Lil, separou as peças que queria conservar. Depois, apareceram dois ex-alunos de
botânica para ajudá-las e transportar as peças à venda para fora, espalhando-as pelo
jardim. Os rapazes tinham atendido ao chamado de Lil e surgiram às seis horas da manhã
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
de sábado. Um grupo de pessoas já se reunia à espera e outros interessados foram
chegando. Quando o sol começava a desaparecer no horizonte, o jardim estava vazio.
Não sobrara ninguém e nenhum móvel!
— Nem posso acreditar, conseguimos! — disse Lil, sentando-se em uma cadeira
da cozinha.
— Conseguimos, mesmo! Provavelmente foi a melhor liquidação da história de
Nova Sussex, você não acha?
— Concordo inteiramente — Lil respondeu, abanando-se. — Duvido que esses
maníacos de liquidações tenham visto tanta velharia junta em um lugar só.
— Velharia? — Kayla arregalou os olhos, fingindo espanto em defesa da tia.
— Pois é, acho que o que é velharia para uns é um tesouro para outros.
— Felizmente! Como você consegue, Lil?
— O que eu consigo?
— Manter esse entusiasmo de viver. Estou tão cansada que só penso em me
deitar numa banheira cheia de água quente e depois ir para a cama. Meu corpo está
moído e você parece tão bem!
— Pois pensei que ainda íamos polir alguns móveis hoje... Não se preocupe,
estou brincando. Eu também estou louca para tomar um bom banho e não fiz nem a
metade do que você fez. É que gente mais velha, como eu, está habituada a aproveitar
alguns minutos de descanso sempre que é possível. Mas os jovens não param nunca. Por
que não tira o dia de folga, amanhã?
— Com todos esses móveis para lustrar?
— Kayla, Roma não foi feita em um dia. Você já conseguiu maravilhas, precisa
descansar um pouco. Além disso, Ben não volta hoje de Boston?
— Não, ele precisava tratar de outras coisas na cidade. Voltará hoje à noite-. —
Kayla corou, sem saber o motivo.
— Ah, é? — Lil não fez outras perguntas, mas olhou-a curiosa e levantou-se. — O
"Portal de Entrada" recomeçou muito bem. Estou prevendo um grande sucesso.
— Espero que esteja certa. — A moça sorriu e abraçou-a.
— Claro que estou. Os Montgomery sempre têm razão, Ben não lhe disse? — Ela
saiu rindo.
Kayla sacudiu a cabeça ao vê-la partir, admirando-a pela habilidade de fazer
brincadeiras. Depois de trancar a porta, serviu-se de vinho e foi para o quarto. Ia preparar
um bom banho e cair na cama. Estava contente porque a loja tinha se tornado um
ambiente bem mais elegante e as lindas peças de mogno começavam a brilhar.
Mas as antigüidades que estavam à venda não eram as melhores da casa. A sala
do fundo e o sótão tinham móveis muito mais finos. Ela não precisava ficar com tudo e ia
transferir parte deles para a loja. Afinal, vivia daquilo.
Quando chegou ao quarto o telefone tocou.
— Achei que você ainda não estava dormindo — disse Lil, — Esqueci de avisar
que deve trancar bem o dinheiro que recebeu. Sua tia tinha um cofre, deve estar na
escrivaninha.
— Eu já achei, mas obrigada por me avisar.
Kayla sorriu: os Montgomery adoravam dar conselhos.
— Ótimo, então vá para a cama. Não vai sair, mesmo?
— Não, estou cansada. Além disso, Ben não telefonou. Pensei em ver as peças
da sala do fundo, talvez encontre coisas interessantes para a loja.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Bem, não sou tão tradicionalista e acho natural você vender alguns móveis de
família, mas deixe para amanhã, Kayla. Vá para a cama antes de desmaiar de cansaço.
— Vou só dar uma espiada, prometo.
Quando ela chegou ao hall do andar térreo estremeceu; apesar do aquecimento
ligado, a casa parecia mais fria à medida que se aproximava da sala. Fechou melhor o
casaco e acendeu a luz.
O tempo parecia ter voltado ao passado. Mais que os móveis, era uma sensação
diferente vinda da própria sala antiga e da velha lareira apagada.
Kayla desviou os olhos instintivamente para o espelho que a assustara na
primeira noite. Viu o próprio reflexo e reparou que estava abatida de cansaço. Aproximouse para ver melhor, achando que além da fadiga parecia mais etérea.
O espelho refletia seu rosto, mas a expressão era diferente. Ela sentiu um arrepio
pela espinha, mas não conseguia afastar os olhos. Começou a tremer violentamente e
quando estendeu a mão para tirar o pó do espelho o braço ficou paralisado.
O reflexo não era do casaco de tricô, mas de uma manga de tecido diferente,
verde-pálido, com babados no punho. Ela abaixou a mão sentindo uma calma estranha e
observou melhor.
Via-se no espelho como uma moça do século dezessete. O cabelo loiro, que
chegava até os ombros, estava coberto por um toucado usado pelos puritanos, amarrado
sob o queixo. O vestido de gola branca era abotoado até a base do pescoço.
O coração de Kayla batia furiosamente no peito e as pernas tremiam. Por alguma
razão, não conseguia se afastar dali.
— É o quadro — murmurou em voz alta. — Estou refletindo o retrato.
Estava muito cansada e chegava a ver coisas, pensou. Tentou afastar-se, mas
não conseguia desviar os olhos. Era o mesmo rosto, mas os olhos expressavam
desespero e dor. Ela estava vendo Katherine Hartwell!
Soltando um gemido, Kayla tentou cobrir os olhos e nova onda de pavor
espalhou-se pelas veias. As mãos refletidas no espelho eram brancas e macias. Havia um
anel no dedo que ela tentou identificar, mas nunca vira.
Com o coração disparado, os joelhos fracos e a respiração difícil, ela conseguiu
forças para correr até a cozinha. Agarrou as chaves do carro e saiu para o jardim.
Não adiantava. Tremia tanto que não conseguia destrancar a porta e não teria
condições de dirigir. Sem olhar para trás, ela saiu correndo pela noite.
Ben chegou de Boston e desfez a mala. Depois, preparou um sanduíche e
examinou a correspondência. Tinha afastado Kayla do pensamento, preocupado com o
processo. Era agradável poder relaxar e pensar nela livremente, afinal.
Melhor ainda seria vê-la, mas só podia telefonar. Não era muito tarde mas ela
devia estar cansada, precisava de uma boa noite de sono. Resolveu procurá-la no dia
seguinte.
Escolheu um livro, mas não conseguiu ler e foi para o chuveiro. Depois, vestindo
um jeans e uma camiseta de gola olímpica, não resistiu e começou a discar o número de
Kayla quando ouviu alguém batendo na porta.
Ele desceu descalço, com o cabelo molhado, e espantou-se ao vê-la. Ela parecia
muito assustada, com os olhos arregalados.
— O que foi, Kayla? — Levou-a para dentro. — Houve um acidente? Aconteceu
alguma coisa com Lil?
A moça sacudiu a cabeça, incapaz de responder.

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Depois de sentar-se no sofá, ele abraçou-a, tentando aquecê-la para ver se
parava de tremer. Ela continuava mortalmente apavorada: devia ter acontecido alguma
coisa muito grave.
— Calma, tudo está bem! — Ele procurou tranqüilizá-la; então reparou que Kayla
não focalizava os olhos, devia estar em estado de choque.
— Kayla, controle-se, tente contar o que aconteceu.
Segurou-a pelos ombros e sacudiu-a, mas continuou falando suavemente. Ela
inspirou fundo, várias vezes, e voltou à realidade.
— Eu corri de casa até aqui. Não pensei que fosse possível, mas vim
— disse ela, afinal, num fio de voz.
— Por que você correu, Kayla? Foi algo com minha tia?
— Não aconteceu nada com Lil, ela está bem.
Kayla não estava em choque, como ele pensara. No entanto, não tinha coragem
de contar o que acontecera e ele não entendia por quê. Mas resolveu não pressionar e
aguardou.
— Você não acreditaria — disse ela, pouco depois.
— Talvez sim, conte — pediu ele, com suavidade.
— Nem eu acredito...
— Você acreditou o suficiente para ficar assustada. Diga o que foi, vamos.
— Eu vi uma coisa... Impossível. Mas vi, realmente.
Ben ajudou-a a acomodar-se melhor no sofá e tornou a abraçá-la, permanecendo
em silêncio, esperando, até que Kayla voltou a falar:
— Trabalhamos muito com a liquidação; depois que Lil foi embora eu tomei um
pouco de vinho e resolvi me deitar. Mas tive a idéia de ver os móveis da sala dos fundos e
desci. Lil, no telefone, tinha dito que eu devia deixar para amanhã — ela sorriu
tristemente, estremecendo.
Ben estava impaciente, mas achou melhor não interrompê-la e o silêncio se
prolongou por algum tempo. Depois:
— Finalmente, fui até a sala e... — ela enrijeceu-se e calou-se.
— Tudo bem, Kayla. Eu estou aqui. O que foi?
— Olhei em volta e me vi no espelho. Parecia meu reflexo, mas não era eu.
— Não era você?
— Ela, a moça no espelho, parecia comigo. Mas eram só os traços, sabe? A
expressão era diferente, parecia atormentada. E as roupas eram antigas. Ben, ela estava
vestida como a moça do quadro!
— Quer me dizer que viu Katherine no espelho?
— Sei que parece loucura, mas foi o que eu vi.
— Ou o que você pensou que viu, não é? A luz estava acesa?
— Só a lâmpada do corredor.
— E o espelho é velho, meio enfumaçado... Você estava cansada, tinha tomado
vinho...
— Tomei apenas um copo e nem cheguei a terminar. Apesar de cansada, eu
pensava claramente. Olhei no espelho e vi Katherine. Foram as mãos que me
convenceram, Ben. Estou ainda bronzeada e as mãos eram brancas. As unhas não
tinham esmalte e ela usava um anel que nunca vi. Eram três argolas de ouro torcidas.
Nunca tive um anel como esse, Ben.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Ele continuava em silêncio para não irritá-la. Evidentemente, não acreditava, mas
ouvia com atenção, porque ela estava muito ansiosa.
— Como você explica o que aconteceu, Kayla? — perguntou Ben, com
delicadeza, por fim.
— Não sei, mas tenho uma idéia. Acho que ela quer entrar em contato comigo. Na
primeira noite, eu a vi no mesmo espelho, mas não sabia de nada. Só depois eu vi o
retrato. E também não sabia nada sobre Katherine!
— Por que você acha que ela quer entrar em contato, Kayla? O que ela quer? —
ele continuava achando tudo uma loucura.
— Talvez procure meu auxílio porque sou tão parecida. Talvez isso facilite seu
contato comigo.
— Kayla! — Ben levantou-se do sofá, procurando um meio de trazê-la de volta à
realidade. Mas não queria contrariá-la e falou suavemente: — Você está cansada e
aquela casa desperta lembranças do passado, de sua família. Além disso, tem pensado
em Katherine e em feitiçaria. Como é parecida com ela, é natural que imagine...
— Imagine? Eu não imaginei, Ben. Eu vi.
Ele tornou a sentar-se ao lado dela, suspirando fundo. Ela achou que tinha visto
Katherine porque provavelmente queria, ou até precisava vê-la, por algum motivo.
Procurou ser mais prático.
— Você quer que eu vá até lá e examine a casa?
— Não, não me deixe sozinha. Agora não.
— Gostei que tenha me procurado, Kayla. — Ele abraçou-a mais. — Fique aqui
hoje, passe a noite. Já sugeri isso antes,mas você ficou indignada.
— É que não o conhecia — Kayla respondeu, sorrindo —, e minha casa não
estava assombrada.
Os dois riram e ela ficou mais descontraída, apoiando a cabeça no ombro dele.
Sabia que podia confiar nele e, ao mesmo tempo, gostava de sentir-se frágil, protegida
pelo vigor daquele corpo viril.
— Vou arrumar sua cama e preparar um leite quente para você tomar.
— Leite?
— Claro! Sua mãe não lhe dava um copo de leite na hora de deitar?
— Nunca! — Kayla sacudiu a cabeça.
— Então, não é um hábito da Califórnia. Mas mamãe garantia que era um ótimo
remédio para se ter uma boa noite de sono.
— Então, eu tomo. Gostei de ver esse instinto maternal em você — ela brincou,
tentando disfarçar a emoção que os cuidados carinhosos dele lhe despertavam.
Enquanto esquentava o leite, Ben pensou que o que sentia por ela era muito
diferente de uma afeição familiar. Mas naquela noite precisava controlar os sentimentos,
porque ela estava muito assustada e confiava nele..
Kayla surgiu na porta da cozinha quando ele servia o leite na caneca e parou,
indecisa. Ele pegou-a pela mão e levou-a até a mesa. Assim que ela tomou o leite, levoua para o quarto de hóspedes, deu-lhe um pijama seu e obrigou-se a voltar para a sala,
quando seu corpo lhe pedia que ficasse com ela.
Alguns minutos depois, ela apareceu com um casaco de pijama dele que lhe
chegava até o meio das coxas.
— Estou parecendo uma figura de um daqueles filmes dos anos cinqüenta — ela
riu, enrolando as mangas.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Não exatamente, pensou Ben, admirando as pernas longas, morenas e bem
torneadas. Eram mais bonitas do que ele tinha imaginado.
— Vamos logo para cama.
Levou-a rapidamente para o quarto e ficou mais calmo quando a viu embaixo do
cobertor.
— O leite quente me acalmou, mesmo — ela admitiu, abafando um bocejo.
— As mães sempre sabem o que fazem — Ben comentou, mas com a atenção
presa ao belo corpo que já estava coberto.
Como gostaria de deitar-se ao lado dela, de descobrir aqueles seios... Em vez
disso, arrumou melhor as cobertas e começou a afastar-se.
— Fique um pouco comigo — a voz dela era cheia de sono.
— Claro — Ben sentou-se na poltrona que ficava ao lado da cama.
— Estou tão cansada! — Ela fechou os olhos, mas tornou a abri-los em seguida.
— Obrigada, Ben. Foi tão bom ter vindo...
— Durma bem, eu estou aqui, Kayla.
Ela adormeceu logo e ele ficou mais algum tempo, pensando no novo sentimento
que surgia, além da grande atração por ela. Era vontade de protegê-la, de cuidar dela, de
não deixar que sentisse frio ou medo, Era um sentimento maravilhoso e, ao mesmo
tempo, uma grande responsabilidade. Mais que nunca, ele viu o quanto Kayla era
importante em seu futuro, como suas vidas estavam interligadas. Meia hora depois
ergueu-se.
— Durma bem, Kayla querida — murmurou, beijando-a levemente no rosto.
Foi deitar-se, adormecendo logo e sonhou com Kayla, mas não tinha certeza se
era ela. A moça era a de sempre, com o suave cabelo loiro, olhos azuis e usava roupa
antiga. Não. Não era Kayla. Mesmo dormindo, ele sabia que ela era outra pessoa.
Dessa vez o sonho foi ainda mais impressionante e assustador. Ele sentia que a
moça estava enfrentando sérios problemas. Era perseguida por muita gente e ia ser
executada. As pessoas gritavam insultos e atiravam pedras, numa fúria coletiva. Ben
procurou protegê-la com o corpo, mas alguns homens o afastaram à força. Quanto mais
lutava para aproximar-se dela, mais o afastavam. Ela continuava longe, fora de seu
alcance.
Era impossível socorrê-la e ele ficou desesperado. Sentia a roupa inundada de
suor e continuava lutando, inutilmente. Quanto mais se debatia, mais o imobilizavam.
Ele acordou no meio da noite e sentou-se na cama, trêmulo e molhado de suor.
Sentia-se incapaz e inútil, ainda chocado com a cena de violência. Ficou acordado no
escuro, procurando entender o sonho.
Talvez fosse a manifestação de seu desejo de tomar conta de Kayla, misturada à
lembrança da conversa sobre Katherine.
Convencido de que essa explicação era lógica, ele tornou a adormecer e acordou
com o sol forte da manhã.

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

CAPÍTULO 6

Quando Ben chegou à cozinha, na manhã seguinte, ficou feliz com a presença de
Kayla. Ela já preparara o café e estava esquentando a frigideira.
— Encontrei geléia na geladeira e resolvi fazer uma surpresa — anunciou a moça
sorrindo. — Espero que você goste.
— Descobriu uma de minhas manias secretas, não é? — ele brincou.
— É a segunda, depois da moto. Quantas outras existem?
— Adoro geléia e gosto de moto, mas não tenho mais nenhuma mania. — Apoiou
a mão no ombro dela. — Como está se sentindo esta manhã?
— Muito bem. Descansei e acordei bem mais calma. Ontem eu estava exausta.
Não sei como agradecer, você foi tão compreensivo! Sei de muitos homens que teriam
agido de forma diferente.
— Às vezes eu acerto, está vendo? — ele brincou, bem-humorado.
— Você tinha razão, acho que tudo foi apenas fruto de minha imaginação. Hoje
parece um sonho...
— Eu sabia — disse, calmo, mas estremecera levemente com a palavra "sonho".
— Ah, você vai fazer panquecas com geléia, não é?
— Descobriu o segredo! — ela pegou a tigela e despejou uma colherada cheia de
massa na frigideira com manteiga derretida.
— Olhe, se essas panquecas forem tão gostosas quanto seu café, você não se
livrará mais de mim, Kayla.
— Sei cozinhar poucas coisas, mas gosto do que faço. Experimente e me diga —
ela serviu-lhe a primeira panqueca.
— Hum, que delícia! Pode me dar à seguinte. — Os olhos verdes brilhavam de
gula.
— Em um minuto.
Quando terminaram as panquecas e duas xícaras de café preto cada um,
voltaram a falar da noite anterior.
— Verdade ou imaginação, preciso voltar para casa hoje.
— Mas não vai sozinha. Eu a acompanho e fico com você algum tempo.
— Só algum tempo?
— Só. Depois nós dois vamos sair. Hoje é domingo e o sol está brilhando. Vamos
passear.
— Vamos na moto?
— É o dia mais indicado para isso. Eu sou o homem certo, você a mulher certa.
Alguma dúvida?
— Parece um programa delicioso, mas tenho muito trabalho para fazer.
— Kayla, hoje não.
— Você fala como sua tia!

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Ora — ele riu. — Fico muito satisfeito. Então, ela aconselhou-a a descansar,
não é? Pois eu sou o homem certo...
— E eu a mulher certa, eu sei. Você me persuadiu. Quando vamos?
— Depois de uma xícara de café. Mas não precisa fazer mais panquecas. Eu sei
quando chego ao limite — ele ria, alegremente. — Antes vamos parar em sua casa.
Enquanto você troca de roupa, olharei todos os cômodos. Tem alguma roupa de couro
preto, querida?
— Não brinque: você pode se surpreender, conselheiro! — ela respondeu, com
um largo sorriso.
À luz do sol, a casa parecia confortável e nada ameaçadora. Quando entraram, o
ambiente estava fresco e acolhedor.
— Vamos fazer as coisas em ordem. Em primeiro lugar, o espelho — disse Ben.
— Mas...
— Vamos, Kayla — ele insistiu. — Onde fica? É por aqui?
Ele seguiu pelo corredor e ela acompanhou-o, alguns passos atrás, meio
intimidada. Quando Ben abriu a porta viu que o sol entrava pela janela. Um momento
depois localizou o espelho a um canto.
Ele aproximou-se protegendo os olhos da claridade. Viu o próprio reflexo e logo
atrás outro vulto. A moça tinha o cabelo de Kayla, mas estava com um toucado branco e
usava um vestido antigo com gola branca. Ben susteve a respiração e sentiu o pescoço
latejar. Não conseguia acreditar que aquela imagem era visível no espelho.
Durou apenas um instante e sumiu, deixando Ben sem qualquer explicação para
o que tinha acontecido. Procurou aparentar calma ao voltar-se para Kayla e quando olhou
novamente no espelho viu-a também refletida nele.
— O que você vê nesse espelho? — ela perguntou, ansiosa.
— Nada. Quero dizer, apenas nossos reflexos.
Ben examinou melhor o espelho, reparou que era bem antigo e tinha até uma teia
de aranha em um canto. Não conseguia acreditar no que vira: podia ter sido um jogo de
luz?
— Não vejo nada de estranho nele, Kayla. Parece um espelho comum.
— Eu sei, foi apenas uma imagem criada por minha imaginação. Como seria
possível imaginar um espírito à luz do dia?, Ela disse a si mesma.
— A imaginação é uma coisa estranha, não é? — ele procurava animá-la. — Você
está bem?
Estava, evidentemente. Bastava olhá-la, tão corada e com os olhos brilhantes.
Quanto a ele... Esforçou-se para retribuir o sorriso e disse, mostrando entusiasmo:
— Bem, chega de espíritos e fantasmas. Vamos tratar de nosso passeio.
— Está bem. Estarei pronta em dez minutos.
— Quer que eu suba com você? — ele perguntou, depois que voltaram à cozinha.
— Não, os espíritos se afastaram e estou bem. — Quando ia saindo, ela brincou,
com ar assustado: — Se eu não voltar em dez minutos, corra até lá.
Ben riu e foi até a loja. Havia mais espaço e a presença de Kayla podia ser
notada em vários detalhes: o arranjo de algumas peças de porcelana, um chapéu antigo
pendurado em um abajur.
Mas ele não conseguia esquecer a imagem no espelho. Parecera tão real. Podia
ter sido fruto apenas da imaginação? Não conseguia encontrar uma explicação lógica.
Saindo da loja, parou perto da escada.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Kayla, já está pronta? — gritou, para cima.
— Quase. Acha que seria bom prepararmos alguns sanduíches?
— Claro que não! Eu não conseguiria comer mais nada depois de tantas
panquecas. Hum! Precisa de alguma coisa?
— Estou achando que você quer subir, não é?
— Adivinhou.
— Então suba, já estou vestida.
— Que pena! — ele brincou, subindo os degraus dois a dois.
— Por que você não vai ver o retrato de Katherine? Está no quarto da frente, bem
perto da escada.
Ele parou diante do quadro e admirou a incrível semelhança com Kayla. Eram os
mesmos traços, o mesmo formato de rosto. Depois aproximou-se e observou melhor o
vestido. Era igual ao que a moça usava no sonho e ao que vira refletido no espelho. Ben
respirou fundo e procurou afastar a sensação estranha. Não era agradável ver uma moça
tão igual à mulher dos seus sonhos, tão parecida com sua Kayla.
Saiu do quarto e fechou a porta, dirigindo-se para o fundo do corredor.
A porta estava entreaberta e havia outro espelho. Kayla estava descalça, com
uma calça preta muito justa e um suéter vermelho. Ele abriu a porta e ia chamá-la quando
ela despiu o suéter de repente e pegou outro, na gaveta.
O sutiã branco, de renda, revelava os seios, em vez de escondê-los. Ben deu um
passo em sua direção, com a boca seca e o coração batendo forte.
Nesse momento ela sentiu a presença estranha e voltou-se. Ergueu a malha para
cobrir os seios e olhou-o calada.
— Pensei que você já estava vestida. Ou melhor, você estava, mas...
— Eu sei, resolvi trocar o suéter.
— Eu gosto do vermelho.
— Gosta?
— E dessa calça preta.
— É de couro preto. Ao contrário do que muitos pensam, o tempo não é sempre
ensolarado na Califórnia...
— É couro? — ele molhou os lábios aproximou-se mais.
— É muito macio e...
Ela não terminou a frase porque mãos fortes acariciavam-lhe a pele das costas e
desciam pelos quadris. Depois ele abraçou-a apaixonadamente.
— Que calça linda — Ben murmurou, com voz rouca. — Tão macia...
Kayla olhou-o com os lábios entreabertos e ele beijou-a com sofreguidão. Era a
mulher dos sonhos e mais do que qualquer mulher de qualquer sonho. Era bem mais do
que ele era capaz de sonhar.
— Oh, Kayla,.. Minha Kayla... Kayla querida... — murmurava repetidamente,
cobrindo-lhe o rosto e o pescoço de beijos.
Ela pressionou os seios no peito forte e enlaçou-o pelo pescoço. Com o corpo
colado, murmurou roucamente algumas palavras que soaram no ouvido de Ben como
pura magia.
— Vamos fazer amor, Ben. Agora mesmo, eu quero tanto...
Ela sabia que aquilo ia acontecer desde o momento que o vira no quarto. O
desejo crescia e foram de mãos dadas até a cama, sem noção de tempo ou lugar. Com
um sorriso, ela ergueu as mãos para tirar o sutiã, mas ele susteve o gesto.
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— Deixe que eu tiro — disse soltando-o, e passando as mãos de leve pelos
mamilos.
O toque despertou ondas de prazer por todo o corpo de Kayla.
Com lentidão, cuidadosamente, Ben desceu as alças do sutiã e soltou-o no chão.
Depois voltou a acariciar de leve os mamilos e Kayla estremeceu.
— Você é linda! — Ele desceu o zíper da calça. — Quero vê-la inteirinha.
O couro escorregou suavemente pelos quadris da moça, pelas coxas, revelando
toda a sua beleza. Ele subiu as mãos, bem devagar, pelas pernas, acariciou o ventre e
chegou aos seios firmes.
Ben levantou-se e começou rapidamente a se despir. Foi à vez de Kayla conhecer
o corpo de atleta em toda a sua pujança. Era muito diferente do corpo de advogado que
ela imaginara antes. Percorreu, com a língua úmida e quente, o peito musculoso, o ventre
firme, achatado. Ben ergueu-a nos braços e deitou-a na cama, então, curvou-se,
beijando-a pelo corpo todo, até chegar gradualmente às coxas, que afastou com gesto
suave. Acariciou de leve o monte de Vênus e passou a língua pela virilha, aproximando-se
do calor irradiado pelo sexo ardente e ansioso por ele.
— Ben, oh, Ben, Ben! — ela gemia repetidamente, pressionando as unhas em
seus ombros enquanto era envolvida numa espiral de sensações deliciosas.
Vagarosamente, Ben foi subindo os lábios até a cintura fina e beijou o vão entre
os seios. Quando prendeu o mamilo com os lábios ela tornou a gemer. Sentia-se derreter,
perder-se no calor daquela boca sensual.
Afinal, ele ergueu-se mais e beijou-a nos lábios, com todo ardor. Ela ansiava por
esse beijo e também explorou-o com a língua, sentindo o gosto do homem amado. Ao
mesmo tempo, apalpava as costas largas, a cintura estreita e as nádegas firmes, sentindo
o peso dele sobre. O corpo.
Enquanto recebia carinhos, ela também o seduzia, cheia de desejo. Não era
capaz de ficar numa atitude passiva e descobria carícias que nunca tinha feito antes.
Ben não se surpreendeu com seu ardor. Sabia que ela seria cheia de paixão, mas
a achava ainda mais excitante, mais maravilhosa.
Kayla tocou no membro viril porque queria senti-lo melhor. Ele gemia com os
carinhos, sem conter a excitação.
— Eu a quero tanto! Quase não posso agüentar... — murmurava. — Não agüento
mais, Kayla.
Ela também não agüentava mais e sorriu, erguendo o rosto para mais um beijo, e
ele penetrou-a suavemente, observando sua expressão de entrega.
Kayla vibrou na sensação maravilhosa da união, incapaz de pensar.
Entregou-se ao torvelinho de emoções e sentiu a explosão de prazer se
aproximando.
Ben apressou os movimentos e ela ergueu os quadris, gemendo com ele quando
os corpos finalmente chegaram ao clímax, de uma intensidade tal que os transfigurava.
Quando o auge da paixão serenou, Ben a conservou abraçada, beijando-a pelo
rosto, nos olhos e nos lábios.
— Foi perfeito, não é, Kayla? — ele não escondia o orgulho na voz.
— Como fui boba! Perseguindo espíritos, quando devia pensar na carne...
— Então, vamos passar o dia na cama para a desforra. — Ele passou a mão por
seu corpo, disposto a recomeçar.
Mas ela desviou-se e sentou na cama, afastando o cabelo do rosto.
— Mais tarde — decidiu. — Agora vamos nos divertir com a velocidade.
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— O que você quiser...
— Primeiro, um bom banho quente. Depois, o passeio em sua famosa
motocicleta!
Ben também sentou-se na cama, rindo entusiasmado.
— Você está falando sério? Criou coragem?
— Claro. Estou com vontade de sentir o perigo. Mas se você estiver muito
cansado...
— Um soldado não foge à luta. Mostre o chuveiro, senhorita!
Kayla adorou o passeio pelas estradas curvas e estreitas.
Ia abraçada a Ben, segurando-se nele pela cintura, enquanto o vento erguia seus
cabelos. Só queria rir, sentindo que os outros problemas da vida ficavam para trás, muito
distantes.
Depois de passearem pela beira do rio, no belo sol do início da primavera, ele
anunciou:
— Agora vamos até Rockbridge. Acho que você vai gostar de lá.
O vento teria roubado sua resposta, caso tivesse tido tempo para responder, pois
ele já fazia a curva para voltar à estrada principal. Sentiu um pouco de pena, duvidando
que o outro lugar fosse tão bonito como aquele.
Mudou de idéia no momento em que viu o mar através das árvores. As gaivotas
sobrevoavam os barcos que lutavam contra as ondas. Eles tomaram uma estrada que
subia um morro íngreme e a paisagem foi se ampliando aos seus olhos. Kayla novamente
sentiu vontade de rir, plena de felicidade.
Pouco depois chegaram à "civilização" e Ben diminuiu a marcha, seguindo uma
fila de carros. Rockbridge era apenas um lugarejo, com ruas bem arborizadas, casinhas
brancas, típicas de Nova Inglaterra, e pequenos parques. Ele parou em um
estacionamento e desligou o motor.
— Continuo com a impressão de que teria de gritar para você me ouvir — ela
comentou —, mesmo agora que paramos...
— Eu sei. — Ele tirou o capacete. — Estranhou muito o barulho?
— Um pouco, no começo. Mas acho que faz parte do esporte, não é?
— Claro! Não teria graça andar numa moto silenciosa. Você gostou do passeio?
— Adorei.
— Vai adorar mais o que vamos fazer agora.
— Acho que sim. Tenho adorado tudo o que fizemos hoje.
— Vamos comer lagostas.
— Comer? — ela não podia acreditar que ele estivesse com fome.
— Rockbridge é famosa por sua especialidade em lagostas. É conhecida de costa
a costa.
— Eu não estou com fome — ela respondeu, decepcionada.
— Pois eu estou faminto, vamos?
Quando serviram o prato de Ben no pequeno restaurante, Kayla descobriu que
não estava tão sem fome assim. O aspecto da lagosta era tentador...
— Eu sabia — ele riu, servindo-lhe um pedaço. — Mas depois precisamos fazer
um passeio a pé.
— Concordo, essa gula exige um pouco de exercício. — Olhando pela janela, ela
comentou em seguida: — Olhe, Ben. Ali existe uma livraria.
Projeto Revisoras

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Ele também olhou e viu, admirado, vários livros sobre parapsicologia e ocultismo
na vitrina.
— Vamos até lá — ela pediu, entusiasmada.
— Não vamos, não!
Ben não queria pensar em nenhum assunto sobrenatural naquele dia, quando
tudo ia tão bem entre os dois.
— Por que não? — ela insistiu. — Ainda quero comprar livros sobre bruxaria,
mesmo que você ache que é apenas minha imaginação.
— Você não precisa ir até lá, Kayla. Eu trouxe os livros de Boston.
— Você trouxe os livros que pedi? — olhou-o, admirada.
— Você queria, portanto comprei. Desaprovava a idéia, mas não queria julgar o
que você deve ler, apesar dessa idéia, um pouco absurda, que não sai de sua cabeça.
— Não vou discutir se é absurda, já que você trouxe os livros — ela sorriu,
procurando apaziguá-lo.
— Trouxe e deixei lá em casa. Assim, você terá de voltar para buscá-los.
— Sabe, Benjamin Montgomery? Às vezes você é surpreendente. — Ela ergueu
um pouco o corpo e beijou-o no rosto.
Depois, os dois saíram e ficaram abraçados, observando o mar ao pôr-do-sol. O
vento tinha aumentado e as gaivotas ainda volteavam pelo céu. Ben curvou-se e beijou-a,
emocionado.
— Não sei o que acontece, Kayla Hartwell, mas não resisto a beijá-la em lugares
públicos.
— Não acha que devemos esperar até todos terem se afastado? — ela
respondeu e ergueu os lábios, oferecendo-os. — Ou não?
Dessa vez o beijo foi mais insistente e ela perdeu o fôlego. Sentia o sabor do mar
nos lábios de Ben e a umidade do ar em sua pele.
— Seria ainda melhor se estivéssemos a sós — ele disse, num murmúrio.
Kayla encostou a cabeça no peito dele, sentindo o ritmo de seu coração. Ergueu
os olhos e viu o rosto de traços firmes recortados contra o céu, com os cabelos castanhos
e sentiu as pernas fraquejarem.
— Vamos para casa, Ben. Quero ficar a sós com você.
Eles estavam no meio do trajeto quando ela viu as nuvens pesadas e os primeiros
raios. Uma tempestade se aproximava.
Ben acendeu o farol e era a única luz na estrada vazia, cercada de altas árvores.
Um carro passou no sentido contrário e logo desapareceu. Naquele momento eram os
únicos seres sobre a Terra, que parecia um lugar mágico.
Kayla encostou a cabeça no ombro de Ben e sentiu o calor de seu corpo, que lhe
transmitia segurança e proteção. Fechou os olhos e entregou-se às sensações, com o
vento batendo no rosto.
Ela compreendeu por que Ben amava correr de moto por aquelas estradas,
escapando do mundo real. Era o prazer da aventura com um tempero de perigo. À noite
tornava-se ainda mais apaixonante. A motocicleta representava a liberdade.
Quando chegaram ao subúrbio de Sussex à chuva chegou repentinamente,
perfumando o ar de terra molhada. Escorria pelo rosto, pelas mãos, pelo casaco. A calça
e as botas ficaram também encharcadas, mas ela não se incomodou. Na verdade, estava
adorando. Arqueou a cabeça para trás e riu de prazer.
Ben devia ter ouvido, apesar do vento, porque virou levemente a cabeça. Kayla
pensou em beijar-lhe o rosto, mas achou que podia provocar um acidente. Achava
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engraçado pensar que aquele homem era o advogado que ela imaginara magro, ranzinza,
tomando chá em seu escritório. Quando chegaram à entrada da garagem ela voltou à
realidade. Estavam na casa dele.
Correram até a porta da cozinha, depois de guardar a moto na garagem, e
sentiram-se mais à vontade no ambiente aquecido.
Depois de tirarem as botas, os capacetes e os casacos, viram que até os cabelos
estavam ensopados.
— Desculpe... — Ben começou a dizer.
— Não fale. Achei esse passeio o mais glorioso e excitante que já fiz.
O cabelo loiro de Kayla ficara escuro e colado na testa, escorrendo água. A malha
vermelha também estava toda molhada na frente. Ela parecia ainda mais feminina e
atraente daquele jeito.
— Este será um beijo muito particular. — Ele segurou o rosto dela entre as mãos
e murmurou com os lábios roçando os dela. — Eu a quero tanto! Mais que esta manhã, se
é possível.
— Eu também... — Ela começou a desabotoar a camisa dele. — Você está muito
molhado.
— Como você! Tire logo essas roupas, para não pegar um resfriado.
Com um sorriso provocante, Kayla ergueu o suéter vermelho e ficou só de sutiã,
como pela manhã, com a calça colada no corpo. Ele ergueu-a e levou-a até a base da
escada, onde parou para respirar, porque o beijo dela tirava seu fôlego. Porém ela queria
mais e tornou a beijar os lábios sedentos.
Os mamilos rijos se destacavam no sutiã molhado, ele baixou o rosto e passou a
língua neles provocadoramente.
Kayla gemeu e arqueou o corpo, oferecendo-se mais aos beijos e carinhos.
Sentia as pernas fracas, mas confiava nas mãos fortes que a apoiavam.
— Assim não chegaremos lá em cima — ele sussurrou, ofegando.
Ajudou-a a tirar a calça molhada e também livrou-se da camisa. Parecia quase
cego de desejo e ela viu as veias pulsando fortemente em suas têmporas. Ele ajoelhou-se
e beijou os joelhos de Kayla, ajudando-a a encostar-se nos degraus amaciados pelas
roupas que tinham tirado. Em seguida, beijou-lhe as coxas e foi subindo os lábios,
enquanto ela o segurava pelos cabelos e gemia de prazer.
Não havia mais nada no mundo além do prazer que ele lhe dava. Kayla sentia
apenas Ben e entregou-se ao desejo. Ele tentava abrir o zíper e tirar o próprio jeans, mas
não conseguia.
Ela afastou as mãos dele, abriu o zíper e libertou o membro viril, pulsátil, pronto
para o amor. O contato com o brim áspero foi mais um estímulo enquanto se amavam.
Foi um amor mais violento e erótico que o da manhã, mas não menos satisfatório,
quando chegaram ao êxtase.
Quando ele descansou o corpo ao seu lado, tentando recuperar o fôlego, ela
sussurrou suavemente:
— Falando em prazer, você é o homem mais sensual que já vi, Benjamin
Montgomery!
— E você a mulher mais extraordinária que já conheci — ele respondeu,
conseguindo finalmente tirar a calça jeans.
Ela levantou-se, soltou o sutiã que ainda usava e subiu a escada, dando a ele
uma bela visão das nádegas e das pernas bem torneadas.
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— Venha — ela convidou, da cama, quando ele entrou no quarto. — Afinal, é sua
casa: fique à vontade!
Ele deitou-se e abraçou-a. Ficaram algum tempo em silêncio, com os corpos
colados.
— Está ouvindo a chuva no telhado? Tinha esquecido dela completamente —
Kayla comentou.
— Que chuva? Ora, eu estava com outras coisas na cabeça.
Os dois riram e continuaram abraçados, ainda sedentos de intimidade.
— Eu adoro ficar assim com você, Kayla — ele passava a mão suavemente pelos
quadris e pelo ventre macios, deliciando-se com o contato do corpo querido.
— Eu também. — Ela beijou o ombro delicado, sentindo o sabor ligeiramente
salgado da pele. — Mas sabe o que eu gostaria, mesmo?
— Espero que esteja querendo mais... — disse ele, esperançoso.
— Hum, ainda não.
— Então... É alguma crítica? — fingiu-se preocupado.
— Oh, não! Como eu poderia criticar uma coisa tão perfeita?
— Então, o que é?
— Eu gostaria de passar um dia inteiro ao seu lado sem discutir — ela respondeu,
baixinho.
— Ora, eu sou uma pessoa fácil de contentar.
— Quando as coisas são como você quer — ela enlaçou-o com a perna, ao
responder.
— Com você é diferente — ele brincou. — Mas hoje, excepcionalmente, você está
muito feliz, não é?
— E você também.
— Está vendo? Podemos nos dar muito bem — ele beijou-a levemente.
— Podemos, a não ser que você comece a dar conselhos.. — Eu? Ora, Kayla...
— Não desminta, Ben. É uma coisa que você não consegue controlar.
— Fala como se fosse uma doença!
— Conselhite — ela riu e ergueu um pouco o corpo para observá-lo.
— Só que eu não ligo mais, sabe?
A seguir, o beijo foi menos suave e tranqüilo do que ela esperava e o desejo
ressurgiu imediatamente.
— Oh, Ben, vamos fazer amor de novo?

Projeto Revisoras

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CAPÍTULO 7

Por volta da meia-noite Ben preparou bacon com ovos. Kayla estava esfomeada e
comentou que era um prato mais saudável do que panquecas.
— Eu não entendo disso, mas acho que isto é cheio de colesterol — disse Ben,
muito sério. — Vejamos. Hoje comemos panquecas, lagostas e bacon com ovos. Acho
que não podemos considerar uma alimentação muito saudável.
— E que tal a carne que você preparou quando cheguei?
— Mais colesterol, viu? — comentou ele.
— E na casa dos Fiore comemos espaguete — lembrou ela, fingindo profunda
preocupação.
— Temos de admitir que não temos hábitos alimentares muito saudáveis.
Podemos tentar corrigi-los, qualquer hora.
— Para que tentar? Acabaríamos com fome, de qualquer jeito! — exclamou Kayla
e começou a se preparar para sair.
Ben admirou-se.
— Assim, tão tarde? Isso é loucura! Fique comigo, aqui é seu lugar.
— Não, meu lugar é em minha casa. Além disso, preciso enfrentar meu lar
durante a noite.
— Mas já passa da meia-noite — ele objetou, preocupado.
— É melhor eu ir ou os vizinhos podem comentar.
— Eu não estou me incomodando com os vizinhos.
— Nem eu, mas não posso me habituar a ficar aqui. Tenho uma casa e preciso
aprender a morar nela.
— Eu vou levá-la, não quero que vá sozinha.
— Será muito bom — ela admitiu, contente.
Ele foi até o quarto e voltou todo vestido, de sapatos, carregando uma sacola de
papel.
— Aqui estão seus livros, mas não sei se devo encorajar essa bobagem.
— Se você não comprasse eu os arranjaria de outro jeito. — Ela abriu e examinou
as capas. — São esses os que eu queria, exatamente.
— Sim. Vai encontrar neles tudo o que queria saber a respeito das feiticeiras e
sente medo de perguntar. Mas não vamos falar em bruxas. Tivemos um dia maravilhoso,
não é?
— É, e agora é hora de ir para a cama, moço!
— Sua ou minha?
— Você na sua e eu na minha — ela não conteve o riso.
— Tem certeza? —'ele beijou-a, provocante.
— Bom, não tanta, mas tenho muito trabalho amanhã.
— Eu também — ele admitiu, contrariado. — Detesto sempre a segunda-feira.
— Teremos outros fins de semana para passar juntos.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Não vou esquecer essa promessa!
Kayla leu um capítulo do primeiro livro naquela noite, mas não teve tempo nos
dois dias seguintes. Ficou muito ativa, escolhendo que móveis da casa devia vender ou
não. Vários foram transportados do sótão e da sala dos fundos para a loja, o que exigiu
um novo arranjo e mais trabalho de lustrar. Por fim, ficou tudo pronto à espera dos
clientes.
— Gosto da palavra clientes — ela comentou com Lil.
— Espero que seja dita freqüentemente de agora em diante — respondeu Lil. —
Esta loja vai ficar movimentada e você não se arrependerá de ouvir meu conselho e
contratar um contador.
Kayla tinha custado a concordar, achando que podia fazer a contabilidade
sozinha. Gostava de matemática e se tivesse algum problema com impostos poderia
perguntar a Ben.
— Você tem razão — dissera, por fim. — Só conseguirei alcançar sucesso se for
independente. Para começar, contrato um contador uma vez por semana.
— Se precisar, depois ele passará a vir todas as manhãs.
— Acabarei com dúzias de empregados, um comprador europeu e
administradores financeiros, se continuar assim — rira a moça.
— Terá sua própria agência de propaganda, aliás — tia Lil entrara no jogo.
— Provavelmente, abrirei mais uma loja...
— Pelo menos uma filial — disse a outra, com seriedade. Alguns dias depois,
quando o movimento diminuiu, Kayla ficou menos animada, pois não vendera grande
coisa.
— Não se preocupe. O pessoal aparece primeiro por curiosidade, mas depois
começarão a vir os compradores sérios — animou-a Lil.
— Espero que você tenha razão, Lil...
Naquela noite ela sentou-se na cadeira de balanço, depois que Lil foi embora, e
apoiou os pés numa banqueta antiga para continuar a ler o livro. Mas não conseguia
prestar atenção. Talvez estivesse muito cansada ou preocupada com outras coisas,
apesar do interesse que tinha por Katherine.
Então, era isso! Ela não parava de pensar em Ben desde o domingo.
Ele passara pela loja duas vezes e telefonara todos os dias. Mesmo tão ocupada,
ela passava o tempo livre pensando nele, ansiosa pelos telefonemas. Ben era um homem
apaixonado, como ela não achara possível existir.
Mas o que tinha acontecido com a amizade que os uniria mais tranqüilamente?
Ela suspirou. O amor acabara com sua resolução. Tinha afastado as boas intenções, só
por causa de um passeio de moto. Era uma atitude típica de sua personalidade. Ela
sorriu. Que mulher não se apaixonaria por Ben ao vê-lo naquela roupa de couro?
Era obrigada a admitir que estava apaixonada. Lembrava-se do passeio noturno
na chuva e do amor, ainda com os corpos molhados. Calma, Kayla. Tudo está
acontecendo muito depressa, disse a si mesma.
Kayla não queria ficar obcecada por ele. Suspirou novamente. Eles mereciam
uma chance de se conhecerem melhor, primeiro, para tudo dar certo. Precisavam
conversar sobre o que estava acontecendo. E ela tinha se oferecido para preparar um
jantar...
Resolveu convidá-lo naquela noite. Os dois teriam oportunidade de discutir o que
acontecia. Preparar a refeição era uma nova experiência e ficou imaginando qual seria um
prato bem saudável. Ele gostaria da mudança. Nada de fritura ou massas.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
O quê, então? Talvez experimentasse uma nova receita. Mas, antes, tinha de
esperar clientes, na loja, porque ainda não era hora de fechar.
Um carro parou na entrada da garagem e desceu um casal. A senhora gorda, de
meia-idade, entrou na loja com o marido.
— Viemos olhar, apenas — ela informou e não estava brincando. Saíram quinze
minutos depois sem levar nada.
Logo depois apareceu outro casal. O carro luxuoso, com placa de Ohio, indicava
que tinham dinheiro para gastar.
— Sejam bem-vindos ao "Portal de Entrada" — ela cumprimentou quando
entraram.
— É bom estar de volta — à senhora comentou.
Então, costumava freqüentar a loja, pensou Kayla. Deviam viajar freqüentemente.
A senhora era alta, magra, com o cabelo tinto em tom avermelhado. O marido era baixo,
gordo e careca.
— Somos clientes de Elinor há muito tempo — ela informou, depois de
apresentar-se. — Passamos por aqui várias vezes por ano. — Sentimos a morte dela,
mas gostamos de ver a loja novamente em funcionamento.
Aparentemente, a senhora se encarregava de toda a conversa e o marido apenas
balançava a cabeça, confirmando.
— Não pudemos fazer a viagem anterior, como é nosso costume, porque Charlie
foi operado e deixamos para a primavera. Mas eu adoro comprar.
— E eu adoro vender — Kayla respondeu, não muito certa se era verdade.
Charlie seguia Ada, sua mulher, por todos os recantos da loja. Elogiavam várias
peças, mas não escolhiam nada. Kayla percebeu que havia alguma coisa errada e Ada
confirmou isso dizendo:
— Elinor costumava ter mais... Mais quinquilharias. O que aconteceu? Algum
magnata do petróleo passou por aqui e comprou tudo?
Kayla sentiu um frio no estômago. Se aquelas pessoas eram uma amostra dos
compradores sérios, ela estava com grandes problemas. Possivelmente a liquidação tinha
sido um erro porque os clientes gostavam das quinquilharias.
— Resolvi abrir espaço e vendi muita coisa em uma liquidação.
— Verdade? Quando foi?
— Na semana passada.
— Você ouviu, Charlie? E onde nós estávamos? Visitando nosso filho em
Maryland — ela mesma respondeu.
— Também foi bom — Charlie falou pela primeira vez.
Mais encorajada, Kayla mostrou a Ada as notas que tinha escrito sobre cada
peça.
— É uma ótima idéia, mas sinto falta daquelas pequenas coisas que ficavam
empoeiradas pelos cantos. A gente descobria tantas peças interessantes...
Kayla lembrou-se de que tinha apanhado no sótão várias coisas de cozinha, mas
ainda não encontrara tempo para limpar.
— Tenho algumas peças de cozinha do fim do século passado, mas estão na
despensa...
— Eu gostaria muito de ver. — A senhora seguiu-a animada. Enquanto a cliente
examinava um descanso de pratos, um protetor de tela, em forma de cúpula, para tortas e
outros utensílios, Kayla compreendeu que ela não estava interessada nas peças por
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serem mais baratas. Queria apenas ter o prazer da descoberta. Quanto mais sujas e
empoeiradas estivessem, melhor, ela ficava mais feliz.
— E essas peças também não têm uma história?
— Sim! —. Kayla alegrou-se, lembrando as reminiscências de Lil quando as vira.
— Este protetor de tortas era da mãe de tia Elinor, minha bisavó. É pesada assim porque
durante um verão as tortas e os bolos começaram a desaparecer. Ela suspeitou dos
filhos, que ainda eram crianças, mas acabou descobrindo que era um guaxinim de
estimação. Então, mandou fazer essa capa pesada, à prova de guaxinins.
Ada adoro a história e ela prometeu escrevê-la depois e enviá-la pelo correio.
— Não há pressa — informou a senhora. — Viajamos devagar, a passeio, e não
voltaremos logo para casa.
Quando ela acenou em despedida para o casal, pensou que cada comprador era
diferente. Precisava deixar algumas peças empoeiradas e escondidas pelos cantos.
Assim poderiam ser "descobertas". Nesse momento, outro carro parou diante da casa.
— Estou muito atrasada? — perguntou Terrie.
— Se veio para fazer compras, a loja fechou. Mas chegou na hora de um bom
copo de vinho.
— Era exatamente o que eu queria. Senti vontade de conversar um pouco e
calculei o horário em que você fecharia a loja.
— Pois veio ao lugar certo! Vamos. — Ela trancou a porta da loja e virou a placa
indicando o horário de abertura. — Agora vamos para a ala familiar, que é a cozinha.
— Meu local favorito para uma boa conversa.
— Você queria ver antes o que há na loja?
— Outro dia. — Terrie seguia-a até a cozinha. — Não entendo de antigüidades,
como você viu lá em casa. Só tenho peças de 1980.
— Eu também já vi antigüidades que cheguem por um dia — Kayla riu, animada.
— Vendeu bastante?
— Tenho vendido, sim. Lil até me aconselhou a contratar um contador.
— Então, vamos brindar ao seu sucesso. Ah, fiquei de avisá-la que Ben vai se
atrasar para o jantar.
— Ótimo, terei mais tempo para decidir o que vou fazer.
— Pois eu garanto que não precisa se apressar. Ben está atendendo um de
nossos clientes mais enrolados, que tem mania de mudar o testamento. Sempre que ele
discute com o filho muda algum detalhe e se arrepende depois. É um círculo vicioso e
Ben não pára de ouvir e preparar novos testamentos. Depois, manda as contas para o
velho.
— Que vida dura! — Kayla brincou, procurando ficar séria.
— Não para mim. Eu me despeço e saio no horário, como sempre. Que prato
você vai preparar? — Terrie perguntou, mudando de assunto de repente.
— Estava pensando em alguma coisa bem saudável.
— É uma boa mudança para Ben.
— Pensei em fazer alguns legumes na manteiga, à moda chinesa.
— É uma boa idéia.
— Não sou a melhor cozinheira do mundo — disse Kayla. — Mas acho que é fácil
e vou acertar.
— Você tem um wok, aquela frigideira especial?
— Tenho sim.
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— Então, é simples. Corte os vegetais em pedaços pequenos, ponha óleo de
amendoim e molho de soja. E que tal um pouco de carne? — perguntou Terrie.
— Estou querendo eliminar o colesterol.
— E frango? Precisa alguma coisa mais, Kayla. Só os vegetais não alimentam,
mesmo que estejam saborosos.
— Você tem razão. Vou picar frango em lata e misturar também. — Ela abriu o
freezer.
— Então, você andou passeando de motocicleta ontem, não é? — Terrie
perguntou, mudando novamente de assunto.
— As notícia correm nesta cidade — Kayla riu.
— Isso a surpreende? — indagou Terrie.
— Não. Nós nos divertimos muito e até tomamos chuva.
— Quando Ben fica descontraído é uma companhia muito agradável e ele gosta
mesmo de você.
— Eu também gosto dele. — Kayla viu o olhar animado da amiga e prosseguiu: —
Mas é só isso que vou dizer. Ben e eu somos apenas amigos...
— Está bem — Terrie resignou-se. — Eu não estou querendo interferir na vida de
vocês, sabe? É que queremos muito bem a ele. É o nosso maior amigo, um grande
sujeito.
— Eu sei.
Kayla viu que era uma boa oportunidade de conhecer mais coisas a respeito de
Ben. Mas era muito cedo para conversar sobre os próprios sentimentos e foi à vez dela de
mudar de assunto:
— Descobri alguns livros interessantes sobre feiticeiras.
—. Você está brincando? Soube mais coisas sobre Katherine?
— Descobri um fato curioso. O primeiro capítulo descreve o "portal de entrada"
para o mundo do misticismo e da feitiçaria.
— E há alguma coisa a respeito de sua ancestral?
— Descobri algumas coisas no livro que Ben me trouxe. Parece que Katherine
Hartwell foi enforcada porque se dava com bruxas.
— Que coisa estranha!
— Também achei, mas concluí que Katherine deve ter ajudado a esconder
algumas mulheres acusadas. Foi apanhada e acabou sendo enforcada por tentar ajudálas.
— Você acha que alguém contou o que ela estava fazendo?
— Não sei. Mas a cidade não aceitou seu comportamento. Parece que ela não
ouviu o conselho dos mais velhos...
— Uma moça de opinião — comentou Terrie.
— Uma mulher moderna — disse Kayla.
— Provavelmente foi o seu mal. Deve ter sido uma moça forte. Eu gostaria de
saber mais coisas sobre ela.
— Eu pretendo pesquisar esse assunto a fundo. Esses livros se referem há ela
muito superficialmente. Dão várias pistas, mas poucos fatos. Preciso ir à biblioteca
quando tiver tempo.
— É melhor você procurar em Salem. A biblioteca de lá tem muitos documentos, é
bem mais completa. Será que havia algum rapaz alto e moreno na vida dela?
— Não vamos fazer comparações, Terrie! — advertiu Kayla, rindo.
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— Ora, vocês duas são tão parecidas...
— É verdade, mas não existe nenhum paralelo entre nossas vidas. Mas vou
começar a procurar em Salem. Quando passei por lá, nem imaginava que ela existia.
— Agora você terá outro ponto de vista — disse a outra.
— Minha curiosidade aumentou, sem dúvida. Vou descobrir tudo a respeito de
Katherine, você vai ver.
— Bem, hoje quem prepara o jantar lá em casa sou eu, preciso ir andando — ela
tomou o último gole de vinho e despediu-se.
— Volte logo — disse Kayla, beijando-a.
— Não convide muito ou passarei a vir todos os dias. Estou sempre pronta para
uma pausa no trabalho — ela sorriu.
— Se o prato que vou preparar for aprovado, vou convidar você e Andy para
prová-lo qualquer noite destas.
— Vamos adorar, saia bom ou não. Nós comemos de tudo.
— Felizmente Ben também é assim!
De fato, Kayla estava certa. Ben jantou com grande apetite.
— Você nunca me disse que era uma grande cozinheira — ele comentou, com ar
satisfeito.
— É o único prato que sei fazer, na realidade.
— Ah, não! Também sabe fazer ótimas panquecas. E este é bem complicado,
pelo jeito.
— Ora, basta um wok com óleo bem quente, depois é só fritar os vegetais.
— Você está me estimulando a comprar essa panela de ferro? — ele apontou-a,
com suspeita.
— Duvido que a casa de ferramentas tenha estoque delas à venda, mas quando
quiser preparar, terei prazer em emprestar meu wok.
Kayla levantou-se e levou os pratos para a pia. Depois, serviu uma grande
travessa de frutas como sobremesa. Ele a observava encantado, admirando cada gesto.
— Tenho uma idéia melhor — sugeriu, afinal. — Por que não jantamos juntos
todas as noites? Minha cozinha é sua e a sua é minha, está bem?
Assim que acabou de falar, Ben percebeu que cometera um engano. Kayla não
olhou e continuou em silêncio.
— Acho que estou me apressando demais novamente. Como quando nos
conhecemos. Parece que eu não aprendo, não é?
— Acho que nós dois estamos muito apressados, Ben — ela sentou-se ao lado
dele. — Fomos diretamente das discussões para a cama. Não demos os passos
intermediários, passamos de inimigos a amantes. Isso não é normal.
— E acha que podemos ir mais devagar?
— Acho que sim — ela respondeu. — Precisamos.
— Vou tentar, Mas não será fácil, Kayla. — Ele riu em seguida, procurando
brincar. — Você é uma cozinheira muito boa.
— Mas você enjoaria de panquecas e vegetais fritos se os comesse todos os
dias.
— Experimente. Não, esqueça o que eu disse. Conte como andam as vendas do
"Portal de Entrada". Soube que estão dando lucros.
— Mais do que você esperava, não é?
— Eu não disse isso — ele respondeu, depressa.
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— Mas deve ter pensado. E não há nada demais nisso, porque eu também
pensei. Espere um pouco. — Ela foi até a escrivaninha e pegou a pilha de cheques. —
Veja... Nada mau, não é?
— Nada mau, mesmo.
— Vou contratar um contador — ela anunciou orgulhosamente. Ben pegou a pilha
de cheques e franziu o cenho..
— O que há? — Kayla perguntou, suspeitando o que o preocupava. — Eu vendo
móveis, Ben. Não posso exigir que paguem em dinheiro.
— Claro que não, Kayla. Mas você devia pedir para anotarem o número da
carteira de identidade ou do cartão do banco...
— Não pensei nisso. — Ela molhou os lábios, irritada consigo mesma. — Mas não
tem importância, a maioria dos cheques é de gente conhecida, que vive aqui na cidade.
— Mas nunca se sabe! — disse Ben, irredutível.
— Ora, eu tenho certeza. Lil conhecia todos os compradores.
— E os que não eram da cidade? — ele insistiu, incapaz de calar-se.
— Eram todos muito simpáticos. São senhoras de idade, Ben. Pessoas que já
compraram antes...
— Os criminosos também podem ser simpáticos, Kayla.
— Não essa gente. Um casal de Ohio contou que já esteve várias vezes na loja
— contou ela, com segurança.
— Será verdade? — duvidou Ben.
— Eu acreditei. Dessa vez você está errado, Ben.
— Espero que sim, mas você precisa ter mais tino comercial se pretende
progredir no ramo.
Ele devia ter percebido que estava exagerando, mas sentia sincera preocupação
pela ingenuidade de Kayla, que se revoltou:
— Está vendo? Já está me dando conselhos novamente. Ben, se confio ou não
nas pessoas, é problema meu.
— E mais tarde pode se transformar em um problema maior, que você não poderá
resolver, Kayla.
— Mas é um problema meu e não seu. É sempre assim. Enquanto estamos nos
divertindo e passeando, tudo vai bem. Quando surge alguma coisa importante, você
nunca aprova o que eu faço.
— Aprovo tudo em você, Kayla. Se parasse para pensar, compreenderia que o
importante para você vale também para mim. Além disso — ele sorriu levemente — não
foram só divertimentos e passeios, não é?
Kayla estava muito contrariada e negou-se a responder.
— Eu me preocupo com você, Kayla. Só tento aconselhá-la para o seu bem — a
voz dele se tornara contrita.
— Mas eu não pedi conselhos, você sabe — ela respondeu, mordendo uma
maçã.
— Seja razoável, Kayla! Eu sei por que está agindo assim.
— Claro, sempre sabe tudo a meu respeito!
— Você começou essa discussão porque não quer falar sobre o domingo. Está
tentando criar obstáculos e querendo fugir de mim novamente —.atacou ele, começando
a zangar-se.
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— Então, além dos conselhos de negócios, você agora também quer ser meu
analista psicológico...
Ele sorriu, achando que ela daria uma ótima advogada. Mas tornou a ficar sério:
— Você está se desviando do assunto — rebateu, firme.
— Se você parar para pensar — ela suspirou —, vai perceber que eu estou
apenas querendo algum tempo para pensar melhor em nós. Fazer amor é maravilhoso,
mas existem outras coisas...
— Diga uma — Ben desafiou-a.
— Está bem. Em primeiro lugar, você julga o que eu faço, sem ouvir meus
motivos. Isso me magoa e tem sido assim desde que nos conhecemos. Acho que nosso
relacionamento se tornou muito íntimo rapidamente.
Não era o que ele queria ouvir, mas já o esperava. Pensou em interrompê-la, mas
resolveu continuar em silêncio.
— É, domingo foi maravilhoso e eu quero continuar a vê-lo. Mas preciso de algum
espaço e tempo para pensar. Você também, aliás.
— Está me dizendo que eu preciso parar para pensar? — ele indagou,
contrariado.
— Sim. Você é um advogado, não é do tipo que age irracionalmente, que não
controla os sentimentos. Eu também tenho agido só por impulso...
— Sem comentários.
— Compreende como surgem nossas discussões, não é? Você adota uma atitude
autoritária e começa a querer mandar em minha vida...
— Espere um pouco. O que você considera vontade de mandar eu chamo de
amizade, de interesse por você. Como pensa que eu me sinto quando começa a discutir
comigo? — ele sentia a irritação crescente.
— Como eu, quando você começa a me julgar — Kayla retrucou. — Tenho
vontade de me afastar, de não vê-lo nunca mais. As coisas ficariam mais fáceis...
Durante o silêncio que se seguiu os dois procuraram conter a raiva que
transparecia nos olhos de ambos.
— Viu? Está acontecendo novamente — exclamou Kayla. — Em vez de
conversarmos tranqüilamente, estamos brigando. Há alguma coisa muito errada entre nós
e que sempre se repete.
— Pode não ser uma coisa errada, mas não é comum. Nenhuma mulher me faz
perder o controle tão facilmente como você... E nenhuma me atrai tanto! Eu a desejei na
primeira vez que a vi. Isso não mudou.
Kayla respirou fundo. Compreendia a paixão que ele sentia porque também
reagia daquele modo. Pensou um pouco antes de responder.
— Apesar da raiva, alguma coisa nos une, não é? Eu fico furiosa e é uma emoção
verdadeira, mas depois, quando penso melhor... — Ela sacudiu a cabeça, incapaz de
expressar os próprios sentimentos. — A raiva e a paixão acham-se tão ligadas e intensas
que não consigo acreditar no que sinto.
— Eu sei o que você quer dizer por que é exatamente como me sinto. Não
reconheço certas reações, não pareço eu. Não sei o que pensar. Desde que a conheci,
sinto-me numa montanha-russa.
— Também pensei nisso — Kayla sorriu, por fim.
— E o que vamos fazer? Não podemos continuar brigando, ou acabaremos
arruinando tudo — suspirou Ben, triste.
— Precisamos fazer alguma coisa, mas não sei. O que possa ser.
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— Vamos sair daqui— Ben decidiu. — Vamos nos afastar desta casa e de
Sussex.
— Eu não sei, Ben...
— Não imediatamente, mas daqui a alguns dias. Podemos ir de carro a
Gloucester ou a Salem. Vamos ao cinema, depois jantaremos lagostas. É uma comida
saudável...
— É mesmo — ela concordou, os olhos azuis traindo a emoção que sentia.
— O que você acha, Kayla? Vamos, então?
— Eu gostaria muito. Talvez seja bom sairmos daqui. Vamos combinar, sim. — Ela
o levou até a porta.
— Lembre-se de...
— Trancar a porta, eu sei — ela o interrompeu, sacudindo a cabeça. Ele sorriu e
beijou-a. Tudo ia ficar bem, pensou, vendo que a tensão não mais existia. Tornou a falar:
— Só mais uma coisa, Kayla...
— O que é, Ben? — ela esperou, pacientemente.
— Meus parabéns pelas vendas. Você está a caminho do sucesso e estou muito
orgulhoso, sabe?

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CAPÍTULO 8

Kayla acordou subitamente e olhou o relógio. Eram cinco e meia, o dia ainda não
tinha nascido. Procurou dormir mais um pouco, mas foi inútil. Procurou fechar os olhos,
acomodar-se melhor, mas continuou acordada e impaciente. Depois de tentar mais alguns
minutos, sentou-se na cama e procurou descobrir a razão da insônia. Nunca sofrerá esse
tipo de problema, costumava dormir como uma criança.
Devia ser por causa de Ben, pensou. Mesmo tendo se despedido como amigos, a
noite anterior tinha sido insatisfatória para ambos. A razão era evidente: continuavam
numa montanha-russa. Talvez algum distanciamento ajudasse, mas ela não sabia se
chegariam a um convívio mais tranqüilo.
Kayla ainda o desejava, isso não tinha mudado. A simples lembrança do amor
entre os dois a deixava feliz. Tudo tinha sido tão diferente, tão maravilhoso!
E por que não se entendiam, por que tudo era tão difícil?
Não conseguia encontrar uma resposta. Deitou-se novamente e procurou pegar
no sono, mas era impossível pensando em Ben.
Com um suspiro, levantou-se e viu que não tinha escolha. Vestiu o velho abrigo
mais quente, que usava nos meses frios na Califórnia, calçou o tênis de corrida e desceu
para a cozinha.
Preparou um café rapidamente e viu que o tempo estava perfeito para fazer
exercício. Partiu do quintal e desceu um morro próximo, coberto pelo arvoredo. Ela sabia
que havia um riacho mais abaixo, do outro lado da estrada que levava ao campo.
O ar puro estava delicioso, carregado de perfumes primaveris. Era a manhã ideal
para um bom exercício e sentia-se com disposição de correr muito. Embrenhou-se pelo
arvoredo e os pés tocavam levemente na relva macia.
De repente, ela viu o riacho entre as árvores e até parou para admirar a beleza
daquele recanto. O sol começava a nascer no horizonte, avermelhando as copas das
árvores, e uma suave neblina erguia-se do pequeno curso de água. Havia mistério em
tudo, parecia um mundo à parte.
A névoa que subia do riacho parecia ganhar substância e formava volutas que
subiam e caíam loucamente. Enquanto observava, o coração de Kayla começou a bater
apressado e uma espécie de paralisia a dominou. A neblina começava a ganhar uma nova
dimensão e finalmente tomou a forma humana, poucos metros além. O vestido verde
acinzentado brilhava estranhamente à luz do amanhecer.
Katherine. Era Katherine, sem dúvida. Olhava diretamente para ela, com uma
intensidade no olhar que cortava como uma lâmina. Kayla permanecia inerte, emudecida
com a visão.
Não se ouvia nenhum som, até o ruído das águas silenciou por alguns segundos.
— O que... — Kayla conseguiu murmurar — O que... Você quer... De mim?
Ela teve a impressão de que Katherine ia responder, implorando com o olhar e
estendendo a mão. Kayla amedrontou-se com o gesto e sentiu ímpetos de correr.
Nesse instante, uma lufada de vento dissolveu a névoa e Katherine desapareceu.
Kayla continuou com os pés colados no chão, incapaz do menor movimento. Sentia-se
como gelatina e o corpo todo tremia, mas continuava observando a neblina, à espera de
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que algo se movesse. Mas a luz intensa da manhã penetrou no arvoredo e a névoa
dissipou-se.
Kayla voltou vagarosamente para casa. As idéias se confundiam em seu cérebro
e ela mal controlava as emoções. Desejaria não ter visto nada, mas sabia que a visão era
bem real.
Mais tarde, quando Lil chegou para ajudar na loja, Kayla estava muito ocupada na
velha despensa que se transformara em uma espécie de oficina.
— Lil, quero lustrar esta cadeira hoje e ainda falta bastante. Você não se
incomodaria de atender os clientes da loja sozinha?
— Claro que não, fique tranqüila.
Mas Lil franziu o cenho, com certa curiosidade. A atitude de Kayla era estranha,
porque costumavam conversar durante algum tempo, todos os dias, antes de abrir a loja.
Aparentemente, a moça estava querendo evitar qualquer assunto naquela manhã.
Kayla reparou no ar constrangido da amiga, mas continuou seu trabalho. Ela não
pretendera ser fria, só desejava algum tempo para pensar e se acalmar. Enquanto
passava o líquido, com um pincel, no braço da cadeira para retirar a tinta antiga com uma
espátula, admirava o resultado de seu trabalho nas partes em que a madeira mostrava os
veios e toda a sua beleza. Subitamente, concluiu que se tratava de uma peça do século
dezessete. Como estava no sótão e a tia não a vendera, devia ser uma peça de família.
Talvez Katherine tivesse sentado nela várias vezes...
Deu um passo atrás, assustada, mas procurou controlar-se e voltou ao serviço.
Era só uma cadeira, pensou. Além disso, faltava pouco e depois de seca só teria de
lustrá-la. Não podia entregar-se às emoções com tanta facilidade. Katherine Hartwell
provavelmente se sentara nela muitas vezes, trezentos anos antes, contudo ainda era
apenas uma cadeira. O que importava era o fato de ser uma peça bonita e valiosa, que
daria um bom lucro quando estivesse na loja.
Kayla ainda estava ocupada quando Lil apareceu, perto da uma, avisando que era
hora do almoço. Enquanto a cadeira secava, para ser lustrada, ela arrumava o
estofamento de um antigo sofá.
— E agora, que tal descansar um pouco enquanto comemos alguma coisa? —
sugeriu tia Lil. — Eu trouxe uma sopa de ervilhas...
— Que bom! Não preparei nada, mas sei que sua sopa deve estar uma delícia.
Acho bom descansar um pouco, mesmo.
— Claro, você trabalhou a manhã toda.
— É uma cadeira linda e fiquei entusiasmada ao ver a madeira antiga. Estava
coberta com tinta e meio descascada. Foi abandonada no sótão e não dava a idéia de ser
tão bonita.
Ela percebia que a amiga a olhava com estranheza e queria explicar que não era
o trabalho que a preocupava, mas não sabia como dizer. Da primeira vez, quando vira a
aparição no espelho, tinha contado a Ben e ele não acreditara, considerando-a apenas
fruto de sua imaginação. Talvez achasse que era pura histeria, medo de ficar sozinha na
velha casa. Pensou se devia abordar o assunto enquanto Lil servia os pratos, mas sentiu
que não seria fácil falar em fantasmas.
Finalmente, sentaram-se à mesa da cozinha para tomar a sopa, conversando
apenas sobre assuntos triviais. Lil descrevia os compradores eventuais, que tinham visto
tudo e não tinham levado nada.
— Mas eu acho que estamos formando uma sólida clientela — ela comentou. —
Eles vão voltar, tenho certeza.
— Eu também espero.
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— Você está muito pensativa, mas sei que não é da minha conta, não é? —
tentou a boa senhora.
— Você é muito perspicaz — disse Kayla, desviando os olhos.
— É o que falam, mas qualquer um pode ver que está muito preocupada. Espero
que não seja por causa de meu sobrinho.
Kayla hesitou um momento. Poderia dizer que sim e a conversa tomaria um rumo
totalmente diferente. Seria muito mais fácil falar em Ben do que em fantasmas, mas ela
preferiu ser sincera.
— Não é por causa de Ben, é Katherine — disse, por fim.
— Katherine? — Lil procurou lembrar-se. — Ah, sua ancestral do retrato?
— Essa mesma. Andei fazendo umas pesquisas e descobri que ela foi enforcada
como feiticeira.
— Verdade? — Lil ficou muito curiosa. — Acho que me lembro de alguma coisa a
respeito...
— Pensei que você não sabia de nada sobre ela — foi à vez de Kayla aguçar a
curiosidade.
— Eu também pensei, mas quando você falou surgiu uma vaga lembrança. Sabe,
Elinor vivia contando fatos do passado, sobre a mãe e toda a história de Nova Sussex.
Era uma autoridade no assunto. Mamãe entendia muito da história dos Montgomery e as
duas viviam conversando. Eu devia ter prestado mais atenção no que elas contavam.
— Então, não se lembra de nada dessas conversas?
— Nem uma palavra. Só lembrei de que Katherine foi enforcada. Mas considerei
apenas um fato histórico, Kayla. Sinto muito. Sempre me interessei apenas pelas plantas
e nunca tive curiosidade por fatos que não possam ser explicados cientificamente. Você
fica fascinada por essas coisas, mas eu não posso ajudá-la.
— Bem, eu fico fascinada, mas não obcecada...
— Eu não disse isso — Lil observou-a, sem compreender.
— Eu sei que não — Kayla forçou um sorriso. — Acho que fico na defensiva
porque esse assunto é novo para mim. E quando me interesso, não posso parar.
— Eu compreendo sua curiosidade.
— Pedi que Ben comprasse alguns livros sobre feitiçaria quando foi a Boston —
contou a moça.
— Imagino que ele ficou contrariado com a compra...
— Mas eu queria saber mais sobre o assunto por que... Por que... — Kayla teve
de se calar, engasgada.
— Diga, menina. Agora quem está ficando curiosa sou eu.
— Porque vi Katherine. Quero dizer, vi uma aparição ou coisa parecida. Contei a
Ben. Aliás, não teve muita escolha, porque estava tão assustada que ele viu que alguma
coisa muito estranha tinha acontecido. Ou, pelo menos, ele achou que eu pensava que
tinha acontecido.
— Provavelmente, ele encontrou uma explicação bem lógica.
— Sim, várias. Acreditei em todas ou tentei. Mas esta manhã...
— Você a viu novamente?
— Lá no regato, no meio da neblina. Lil, eu a vi tão claramente como estou vendo
você, agora, e juro que ela estava tentando dizer alguma coisa.
Kayla sentiu um grande alívio. Tinha conseguido contar tudo e esperou a resposta
de Lil, mas seguiu-se o silêncio.
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— Está vendo? Você não acredita em mim. Acha que estou sofrendo alucinações
— disse a jovem, desanimada.
— Espere um pouco — Lil ergueu a mão. — Eu não acho que você ficou maluca,
Kayla. — Pessoas muito mais inteligentes que eu já tentaram se comunicar com
espíritos... Algumas insistem que conseguiram. A vida é tão cheia de mistérios que os
cientistas não explicam...
— Eu a vi, Lil... — Kayla insistiu, com voz magoada.
— Não tenho idéia do que viu, mas acho que deve investigar. Seja o que for, não
tente esquecer, apenas. Investigue, Kayla.
— Oh, Lil, que bom! Você faz eu me sentir tão bem! Isso é exatamente o que eu
pretendia fazer. Os livros que Ben trouxe falam muito de feiticeiras, mas não contam muita
coisa sobre minha família. O caderno de tia Elinor menciona alguns fatos, mas quero
descobrir mais coisas. Preciso encontrar algum arquivo.
— Você pode encontrar muita coisa em Salem, Kayla.
— Pois é, estou pretendendo ir até lá neste fim de semana. Você pode olhar a loja
para mim?
— Posso e venho, Kayla — Lil respondeu, alegremente. — Trate de descobrir
tudo o que puder, querida!
Ben olhou o calendário. Ele terminara no horário as consultas da manhã e Terrie
tinha saído para fazer compras e almoçar. Ele espreguiçou-se e continuou esperando
Andy. Aproveitariam o período de descanso para treinar um pouco de basquete. Vendo
que o amigo não chegava, não resistiu e ligou para a casa de Kayla.
— Que bom que a encontrei! Achei que você poderia ter saído.
— Acabei de lustrar uma cadeira antiga — ela respondeu.
— Estou com saudade de você, Kayla...
— Já, desde ontem à noite?
— Exatamente. Eu sei que combinamos que ficaríamos afastados durante alguns
dias, mas o fim de semana está chegando. Vamos sair juntos?
— Bem, eu...
— Não me diga que você não quer me ver. Concordamos que íamos passar
algum tempo juntos — a voz dele era implorativa.
— Eu sei, mas tenho uma coisa a fazer, Ben. Você talvez não... — calou-se,
indecisa.
— O que é, Kayla?
— Você disse que poderíamos ir a Salem...
— Ou Boston ou Gloucester. Jantaríamos e iríamos a um cinema.
— Precisamos ir a Salem, Ben. Quero fazer uma pesquisa na biblioteca. Sei que
não é o que você estava pensando, mas...
— Tem razão. Não era o meu plano, mas quero sua companhia. Como vamos
combinar? — concordou ele.
— Eu preciso ir à biblioteca. Se você quiser se distrair indo no museu...
— Você está decidida, mesmo, Kayla?
— Estou e agradeço sua paciência. Preciso encontrar algumas respostas em
Salem.
— Tem alguma coisa a ver com o que aconteceu?
— De certo modo. Eu contarei, se esse passeio de fim de semana der certo.
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— Eu não vou perder essa oportunidade. Ouça minha sugestão: vou apanhá-la na
sexta-feira, no fim da tarde, e iremos diretamente a Rockbridge. Há um pequeno motel na
costa e aposto que você vai gostar dele...
— Pensei que só iríamos no sábado...
— Estaremos mais perto de lá, no sábado, se você insistir mesmo em ir a Salem.
Eu posso passar algum tempo no museu, como você disse — o tom de Ben era
cauteloso.
— E esse motel é simples ou luxuoso?
— Um pouquinho dos dois. Durante o dia é simples e à noite há um local gostoso
para dançar, com uma boa orquestra.
— Que bom, eu adoro dançar e usar roupas de noite! Acho que é o tipo de fim de
semana que estou precisando...
— Eu também. E não vejo à hora de passar com você dois dias, inteirinhos.
Talvez eu a mantenha na cama o tempo todo, Kayla. Você vai ver quanta saudade... Eu
tenho sentido...
— Desde ontem? — ela repetiu. — Essa viagem está ficando ainda mais atraente.
Ben visualizou a primeira vez que tinham feito amor e reviu o corpo dourado
chegando quase a senti-lo novamente. Revia o sorriso, o olhar provocante, os gestos
sensuais. Depois, os lábios entre abertos, pedindo beijos, as pernas enlaçando seu corpo.
— Ben, você ainda está aí? Alô? — assustou-se Kayla.
— Sim — ele riu. — Estou. É que comecei a lembrar de nosso amor... Comecei a
vê-la na cama e...
— Ben — dessa vez a voz soou num sussurro suave e doce.
— Você estava me olhando, com os lábios entreabertos e eu a beijei. Depois senti
mais intensamente o calor de seu corpo... O que você acha?
— Eu gostaria de participar dessa lembrança....
— Era o que eu queria ouvir. Vou fazer as reservas imediatamente. Vamos ver se
agüento até o fim de semana.
— Eu também.
— Continue, fale mais — pediu ele.
— Do quê?
— De qualquer coisa, gosto de ouvir sua voz.
— Está bem, garotão — interrompeu uma voz masculina.— Já é hora de parar de
namorar pelo telefone. O basquete nos espera.
— Um tipo pouco sensível está me interrompendo — Ben disse a Kayla. —
Adivinhe quem é.
— Eu não quero me envolver em sua briga com Andy! — acovardou-se ela, rindo.
— Adivinhou! — Ben confirmou, com uma risada. — Então, até o fim de semana.
— Você não está se concentrando — Andy reclamou, quando Ben tornou a perder
a bola. — Não acha melhor parar um pouco?
Os dois sentaram em um banco e pegaram as toalhas para secar o suor.
— Você está gostando mesmo dela, não? — perguntou Andy.
— De quem?
— Da garçonete de Lobster House, em Boston.
— Do que você está falando?

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Ben, acorde! Estou falando de Kayla, você sabe. Além de um péssimo jogador,
você está um desastre mental. Espero que não tenha de ir hoje ao tribunal.
— Felizmente, não! — Ben não reprimiu o riso. — Você tem razão, gosto muito
dela. Mas somos muito diferentes, sabe?
— Terrie e eu também e nos damos muito bem.
— É porque Terrie não se queixa — ele brincou. — Mas Kayla e eu estamos
sempre discutindo.
— Mas ela o mantém no laço, não é? — ironizou o amigo.
— Sem dúvida e eu a admiro ainda mais por isso.
— Claro! — Andy exclamou em tom sarcástico.
— Admiro, sim! Mas fico irritado ao mesmo tempo. Seria mais fácil se ela ouvisse
meus conselhos, mas é muito teimosa. Aconselhei como devia fazer na loja...
— Mas ela fez como quis e parece que o negócio vai muito bem. Qual é o
problema? Está com medo porque ela não precisa de você?
— Talvez — Ben respondeu vagarosamente, achando que o amigo podia estar
certo.
— Talvez ela precise de você, mas não como mentor.
— Eu não quero ser um Pigmaleão, Andy. Só dei alguns conselhos.
— E por que você gosta dela?
— Porque é linda.
— Não há dúvida...
— E é inteligente, engraçada, sensual...
— Não se discute — disse Andy, concordando com a cabeça.
— E tem muita imaginação. Mais que qualquer outra mulher que conheci.
— Então qual é o problema?
— E eu disse que havia algum problema? — perguntou Ben. — Sim, existe. Só
que é difícil de explicar.
— Mas você vai conseguir.
— Às vezes acho que fomos feitos um para o outro, mas quando a vejo... Sei que
parece loucura o que vou dizer, mas...
— Vamos, garanto que já me confessou loucuras maiores — Andy insistiu, com
suavidade.
— É como se houvesse um diretor de cena, Andy. Como se ele mandasse a gente
se irritar. Uma coisa incrível!
— Mais que a discussão normal entre homens e mulheres?
— Eu não sei explicar. Diabos! São as coisas que têm acontecido ultimamente,
também. Essa coisa de bruxas.
— A conversa não está mudando um pouco? — Andy perguntou, alegremente. —
O que é essa "coisa de bruxas"?
— Terrie não lhe contou sobre a ancestral de Kayla que foi enforcada em Salem?
— Ah, sim.
— Pois Kayla acha que a viu — disse Ben, sem jeito.
— Como assim? Ela viu!
— Pois é, uma aparição ou não sei o quê.
— Então, é isso...
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Exatamente. Ela quer passar algumas horas em Salem para pesquisar na
biblioteca tudo o que existe sobre Katherine Hartwell. Acho que ela não devia se
preocupar com bobagens e...
— Pelo que vejo, você quer que ela pense como você. Deixe que ela seja Kayla.
— Apesar da bruxaria?
— Apesar disso. Ela quer descobrir tudo o que existe sobre a ancestral. O que é
que tem?
— Talvez você tenha razão... — comentou Ben, pensativo.
— Ben, eu sempre tenho razão!
— Já que eu a amo — ele prosseguiu, ignorando as palavras do amigo —, devo
deixá-la ser como é. É isso, eu a amo — ele concluiu, sorridente.
O "Windswept Inn" ficava sobre um promontório rochoso na costa do Atlântico.
Era uma construção de pedra de quatro andares e parecia fazer parte das rochas. O
prédio tinha terraços nos três lados que davam para o mar e Ben reservou um quarto no
último andar, com vista para o norte e para o leste.
Depois de ficarem observando a paisagem durante algum tempo, do terraço do
quarto, Kayla sugeriu um passeio até a praia. Enquanto andavam, Ben apoiou o braço em
seu ombro e sentiu uma paz profunda, como não experimentava havia muito tempo.
Apesar da chegada da primavera e do sol, que ainda brilhava, o tempo estava
fresco e Kayla tinha vestido um abrigo quente, protegendo o cabelo com um lenço de
seda. Os dois desceram o morro e chegaram à pequena praia, que tinha ao fundo pedras
amontoadas na base de outro paredão de rocha.
Eles paravam de vez em quando para apanhar algumas conchas e ficavam
observando as ondas, os pássaros, e até um pelicano que mergulhou para pescar. Os
dois sentiam-se mais próximos em contato com a natureza.
Nas rochas do fim da praia havia um farol e sua luz azulada girava
monotonamente.
— Vamos apostar uma corrida? — Kayla lançou o desafio e começou a correr,
ficando alguns metros à frente.
Ben saiu em seu encalço, porém por mais que se esforçasse não conseguia
alcançá-la. Aproximou-se apenas quando estavam quase chegando ao farol.
— Onde você costuma treinar? — ele perguntou, ainda arquejando.
— Eu corria todos os dias na praia, quando estava na Califórnia. Mas você, com
esse corpo de atleta e seus treinos de basquete, devia estar em forma...
— Nós só treinamos uma vez por semana e, pelo jeito, não adianta muito.
— Mas eu saí na frente — ela procurou consolá-lo.
— Talvez seja isso, mas duvido. Da próxima vez vamos sair juntos e vou tentar a
vitória! — Ele sentou-se, encostando-se à parede do farol.
— A vista daqui é linda, não? — Kayla sentou-se ao lado dele observando a
paisagem.
Tinha tirado o lenço e o vento brincava com seus cabelos.
— Você não ficou muito entusiasmada com o farol. Ele é um pouco moderno para
o seu gosto, não?
— É verdade. É uma construção comum, não tem romantismo — ela comentou,
com certo ressentimento.
— Bem, se é romance o que você quer... — ele abraçou-a e deu-lhe um beijo
carinhoso. — Pode contar comigo, não faça cerimônia.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Kayla entregou-se a mais um beijo, sentindo o sol na pele e o vento nos cabelos.
As ondas quebravam ruidosamente nas pedras próximas e o ambiente era perfeito. Ela
sentiu que tudo estava certo.
— Oh, Ben — ela gemeu suavemente quando os lábios se afastaram um pouco.
— Que fim de semana maravilhoso! Você tornou tudo perfeito.
— Isto é apenas o começo, espere e verá — ele murmurou junto ao seu rosto. —
De agora em diante, nada mais de conselhos, nada de discussões.
— Concordo plenamente, não devemos mais discutir por tudo.
— A gente se desgasta inutilmente — alegou ele, sério.
— Tem razão. Agora posso contar-lhe uma coisa, então...
— O que é? — indagou Ben, curioso.
— É a respeito de Katherine...
— Acho que ainda não é o momento oportuno — ele sussurrou.
— Isso é um conselho?
— Você tem razão. Conte o que aconteceu, fale tudo sobre Katherine. — Ele
beijava a mão e o braço de Kayla, erguendo um pouco a manga.
— Eu a vi novamente — ela contou.
Era a última coisa que ele queria ouvir. Estavam a sós, com um magnífico fim de
semana pela frente, não havia lugar para visões.
— Foi no riacho, atrás de minha casa... Eu sei que a vi, não tenho dúvidas. Não
discuta comigo, por favor, Ben!
— Eu não pensei nisso — ele respondeu, inocentemente.
Só queria que Kayla também esquecesse aquele assunto e até a biblioteca de
Salem. Aquela pesquisa, de certo modo, era uma ameaça para o fim de semana dos dois.
— Prossiga, eu não vou interrompê-la — pediu, conformado.
— Eu sei, mas você pode achar...
— Achar o quê? — ele ria, mostrando-se calmo.
— Eu não vou contar todos os detalhes, mas tenho mesmo a impressão de que
ela quer entrar em contato comigo. Ben...
— Eu também acho — ele respondeu, seriamente.
— Ben, acho que ela quer alguma coisa de mim.
— Ora, não é tão estranho — ele a abraçou. — Eu também quero uma coisa de
você!
Beijou-a apaixonadamente, depois moveu a boca pelo queixo, pelo pescoço e
voltou aos lábios macios.
— Acho que você não está levando isto a sério! — reclamou ela, ressentida.
— Estou, sim.
— Não estou falando disto.
— Você disse isto — ele beijou-a de novo.
— Estou falando de Katherine, Ben.
— Está falando sério, mesmo, querida?
— Eu estava — ela respondeu, acariciando o rosto dele.
— E tenho certeza de que voltará a falar. Mas não agora. É hora de nos
prepararmos para jantar e dançar. — Ele continuava a beijá-la, tentando afastar seus
pensamentos sobre bruxas e visões.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Também queria apagar a imagem que vira no espelho, não desejava pensar
naquilo. Estavam juntos, afinal, e não admitia que Katherine participasse daqueles
momentos de intimidade.
— Mais tarde poderemos conversar mais seriamente — Kayla limpou a areia da
roupa, levantando-se.
— Claro que podemos. Depois do jantar eu pretendo... — e ele sussurrou o resto
em seu ouvido.
— Você não ousaria, Benjamin Montgomery!
— Você vai ver, Kayla. Espere e verá!

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

CAPÍTULO 9

Depois do jantar eles seguiram o som da música e entraram no salão de mãos
dadas. Escolheram uma mesa perto da janela, com uma bela vista da lua cheia sobre o
oceano. A música romântica ajudava a criar um clima delicioso.
Mas Ben só tinha olhos para Kayla. Só ela importava, ele a amava. Ainda não
dissera a ela, tendo confessado apenas a Andy e a si mesmo. Mas resolveu dizer logo e
abria os lábios quando a garçonete se aproximou da mesa, silenciosamente.
Depois do pedido, os dois se entreolharam e sentiram o quanto era profundo o
amor que sentiam.
— Isto parece um céu — Kayla comentou, emocionada. — Um jantar
maravilhoso, esse panorama encantado, a música e você...
— Fiquei por último, acha que sou o melhor de tudo?
— Sim, você é o homem mais atraente do mundo — ela confessou, com certa
timidez.
— E você... A mulher mais maravilhosa do mundo. Há muito tempo eu não me
apaixonava como um rapazinho.
— Eu também estou com a cabeça nas nuvens. Será que foi o vinho?
— Você acha?
— Não, Ben. É você.
Ela sentia uma felicidade tão intensa que tinha medo de chorar. Havia gente em
movimento em volta, mas nada importava: estava com Ben e sentia o calor de sua mão
irradiando pelo corpo. Por um momento, esqueceu-se de que pretendia não se apaixonar
por enquanto, porém o sentimento era mais forte, afastava qualquer resolução. Aquela
paixão proporcionava uma felicidade que ela nunca sentira antes. Enfrentariam juntos
qualquer problema, tinha certeza.
— Quero dançar com você — ele convidou, sentindo-se novamente um
adolescente.
Quando chegaram à pista e Ben enlaçou-a, a intimidade dos corpos logo os traiu.
Abraçaram-se mais e ficaram em um canto, movendo-se devagar, esquecidos dos outros
e até da música. Ela ergueu o rosto e era o convite que ele esperava. Curvou-se e beijoua longamente. Quando ergueu o rosto, olhou à volta.
— Eles não repararam — murmurou, com voz rouca.
— Eles repararam, sim... — sussurrou ela.
— Acha que eles procuram ser discretos?
— Eu acho...
— E o que devemos fazer? — quis saber Ben, ansioso.
— Vamos sair daqui?
— Seria maravilhoso... Sabe, eu não quero dançar com você. — Ele a olhava
intensamente. — Quero fazer amor...

Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
Kayla sentiu-se fraca, meio tonta. Estava perdidamente apaixonada. Uma vez Ben
tinha dito que ela era a mulher de seus sonhos. E se contasse que ele era o homem dos
sonhos dela, de suas fantasias e esperanças? Ela ergueu o rosto novamente.
— Eu também quero fazer amor com você, mas acho que terá de me carregar —
murmurou, os olhos azuis enevoados pelo desejo.
— Será um prazer. — Ele abraçou-a pela cintura e levou-a até a porta do
elevador.
Antes de a porta se fechar, ela estava novamente nos braços dele. Foi um beijo
apaixonado, prolongado, enquanto Ben a acariciava e abria o zíper do vestido.
— Não, Ben. Espere até chegarmos no quarto. Alguém pode... Não conseguiu
terminar a frase porque ele a calou com um beijo.
— O caminho está livre — ele anunciou, quando a porta se abriu. Mas quando ia
descer o zíper um casal apareceu no corredor.
— Boa noite — Ben cumprimentou-os, com um sorriso.
Foram rindo até o quarto e ele pôde, finalmente, descer o zíper e ver o vestido
cair no chão.
— É um belo vestido — comentou vendo a seda vermelha amontoar-se. — Mas
não se compara com a mulher que estava dentro dele. Eu sabia que não tinha nada por
baixo e fiquei louco, a noite toda.
— Não é verdade, eu estou com a calcinha, à cinta-liga e as meias.
— Mas não por muito tempo, eu garanto, moça!
Ele ajudou-a rapidamente a tirar as peças e levou-a até a cama.
Deitada diante dele, ela era mais do que qualquer sonho e o desejo era tão
grande que Ben sentia dificuldade de respirar. Lutou para tirar a roupa, porque se
atrapalhava com a pressa.
— Deixe que eu ajudo — ela disse, sentando-se na beira da cama e começando a
desabotoar-lhe a camisa.
Ele chegou mais perto, com as pernas ligeiramente afastadas enquanto ela abria
o zíper da calça. Kayla fechou os olhos ao sentir o volume e o calor do sexo dele. Depois
abraçou-o e os dois se deitaram.
Com uma segurança que ela mesma desconhecia, começou a beijá-lo,
explorando-lhe o corpo todo. Sentia a pele salgada na ponta da língua e lambeu
levemente o umbigo. Depois desceu até o quadril estreito e o carinho foi chegando à parte
mais íntima.
Ben gemia, no limite do controle. Ele mergulhara os dedos em seus cabelos e a
mantinha bem próxima. Com a cabeça para trás e os olhos fechados, entregava-se às
carícias de Kayla, perdendo-se em um vendaval de emoções que atingia todos os nervos
do corpo.
— Oh, Kayla — murmurou. — O que você está fazendo comigo... Ela ergueu a
cabeça e olhou-o, apaixonadamente, sentindo também o fogo intenso do desejo em todos
os poros. A excitação crescia e logo ia explodir, enchendo-a de sensações deliciosas.
— Quero você, Kayla. Oh, como eu quero você... — Os olhos verdes estavam
carregados de volúpia.
Ele segurou-a pela cintura e atraiu seu corpo nu, em um abraço apaixonado. As
bocas se encontraram em um beijo tão sedento que eles tremiam; ela sentia contra o
ventre o membro viril ardente, intumescido.
Kayla tinha a impressão de que sugava a própria essência do homem amado em
seus lábios.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Eu a amo, Kayla — ele murmurou, quando os lábios se afastaram. — Eu a
amo.
— Eu também o amo, Ben, querido — ela respondeu quase sem voz. Nada mais
faltava, o amor deles era completo.
Ela continuou as carícias e ele gemia, recebendo beijos no rosto, atrás da orelha
e no pescoço. Vagarosamente, ela desceu até os mamilos rijos, brincando com a língua.
Quanto mais prazer proporcionava a Ben, mais sentia. Pareciam fazer parte um do outro.
Ela continuou explorando o corpo todo, depois foi à vez de Ben retribuir, tocandoa também nos pontos que aumentavam sua excitação. Enquanto ela acariciava a vibrante
masculinidade, ele afagou-lhe as coxas, chegando à maciez de seu sexo. Kayla gemeu
de êxtase, sentindo ao mesmo tempo em que ele sugava um mamilo.
— Por favor, Ben... Agora... Agora...
Ele firmou-a pelos quadris e penetrou-a profundamente. Sentindo a glória daquela
união tão completa, começaram a se mover em um só ritmo, no perfeito ato de amor.
Kayla sentia faltar o ar, mas firmava-se nos ombros dele e movimentava os
quadris, enquanto o prazer crescia por dentro, até atingir um nível insustentável. Ela gritou
o nome de Ben e o clímax foi tão violento e delicioso que pensou que ia desmaiar. Em
seguida, tombou sobre seu peito úmido e quente, ainda segurando-o pelos ombros.
Ele abraçou-a e também ainda tremia porque o êxtase culminara nele com o
mesmo fogo de paixão. Os dois procuravam acalmar a respiração e os corações ainda
batiam furiosamente.
— Eu a amo tanto, Kayla — ele voltou a murmurar. — É a mulher de meus
sonhos e não posso viver sem você.
— Oh, querido, eu também o amo. O dia em que entrei em seu escritório foi o
mais feliz de minha vida.
Eles seguiram pela estrada ensolarada até Salem. As árvores começavam a
ostentar as primeiras folhas da primavera e algumas flores eram vistas sobre um muro ou
em um jardim. Ben estava mais feliz que nunca.
— Como está se sentindo? — ele perguntou a Kayla.
— Quer saber a verdade?
— Claro!
— Eu me sinto... — ela corou um pouco — como uma mulher apaixonada.
— Cheguei a ficar preocupado...
— E você?
— O mesmo, na versão masculina.
— Está evitando dizer, não é?
— Eu amo Kayla Hartwell! — ele começou a gritar e a rir. — Nunca disse isso,
nem quando era um adolescente!
Ben entrou no acostamento, parou o carro e abraçou-a. Depois beijou-a com
arrebatada paixão.
— E você nunca beijou uma moça no carro também? Diga a verdade.
— Bom, eu nunca beijei uma moça num carro, na estrada de Salem, às dez horas
da manhã, na entrada da primavera.
— Mas já fez o que perguntei?
— Possivelmente, mas nunca uma linda loira da Califórnia! Depois de outro beijo
ele ligou o motor e voltaram à estrada.

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Mas a lista termina em você. A palavra enfeitiçado não é suficiente para
explicar o que sinto por você.
— Eu sou parecida com Katherine — Kayla riu. — Mas não possuo dons de
feitiçaria...
— Eu não sei, não... — ele afagou-lhe o braço.
— Talvez eu tenha alguma coisa parecida com ela.
— Sim? O que é? — ele observou sua expressão séria.
— Eu li que várias feiticeiras de Massachusetts foram perseguidas por serem
muito orgulhosas, altivas.
— Altivas? — Ben achou graça.
— É verdade. Algumas eram mulheres independentes, que possuíam
propriedades e não aceitaram os maridos escolhidos. Eram mulheres diferentes, que não
faziam o que os homens esperavam. Por isso foram perseguidas.
Ben não estava gostando do rumo da conversa e procurou trazê-la para o
presente.
— Eram como você, não? Fortes, independentes e teimosas.
— É o que diz um dos livros. Estou louca para saber mais coisas sobre Katherine.
— Você não esquece, não é? Não há um meio de fazê-la esquecer esse assunto?
— Pensei que tínhamos concordado em ir até Salem! — ela olhou-o, admirada.
— Suponha que eu tenha um idéia melhor, como ir até o Maine e procurar um
hotelzinho com lareira no quarto e uma cama bem larga. Poderíamos empilhar as
cobertas e...
— No meio do dia? — Ela brincou, percebendo que ele estava com olheiras. —
Coitadinho, você está cansado. Eu não deixei você dormir até tarde, não é?
— Por uma noite como a de ontem, posso esquecer o sono indefinidamente. Mas
não estou cansado — mentiu, corajoso. — Só acho essas horas na biblioteca uma perda
de tempo.
— É importante para mim, Ben...
— Você só vai encontrar velhos casos supersticiosos, contados por mulheres
ignorantes. São bobagens inúteis.
— Há alguma coisa errada, Ben? — ela observou-o melhor. — Alguma coisa que
você não quer me dizer? O que aconteceu?
— Nada, Kayla. Pelo amor de Deus! Só não acho uma boa idéia. Um carro
passou pela estrada e ela esperou até desaparecer. Depois voltou-se para Ben, como se
tivesse tomado uma decisão.
— Eu posso ir sozinha, sabe? Se você me levar de volta a Sussex, pegarei meu
carro e irei até Salem.
— Isso é ridículo! Combinamos passar o fim de semana juntos.
— E combinamos que iríamos até Salem.
— Está bem, já estamos no caminho.
Ele ficou em silêncio porque não queria contar seu sonho e nem que vira
Katherine no espelho. Procurava convencer-se de que aquilo não tinha importância, mas
quando viu ao longe a fachada da Biblioteca genealógica de Salem sentiu algo estranho.
Era um prédio antigo, de tijolos à mostra, com colunas brancas e janelas altas, estreitas.
Um parque ao lado estava muito bonito. Ele já vira tudo aquilo muitas vezes e não
entendia a própria ansiedade.
— Quer que a encontre no parque em duas horas? — ele perguntou.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Acho uma boa idéia. Tem certeza de que não quer entrar comigo?
— Acho melhor procurar algum lugar para passarmos a noite — ele respondeu,
não satisfeito com a desculpa. — Você sabe, estou pensando em nossos planos mais
tarde.
Depois que ela subiu a escadaria e entrou no prédio ele virou a esquina com o
carro e parou no estacionamento. Respirou fundo e procurou compreender o que estava
havendo. Sentia que alguma coisa horrível ia acontecer, que não seria capaz de evitar. E
Ben Montgomery não gostava dessa sensação.
Mas a culpa era do sonho, daquele sonho horrível quando tudo ia tão bem com
Kayla. Tinha conseguido uma coisa rara no mundo: uma companheira perfeita. Era seu
outro eu e a noite anterior tinha sido a melhor de toda a sua vida.
A não ser pelo sonho. Ele tinha adormecido com Kayla nos braços. Então, pouco
antes do amanhecer, sonhara com a mulher igual a ela. Mas não era Kayla, era Katherine.
Dessa vez ela não estava só: havia um homem no sonho, com roupa de juiz. Presidia um
julgamento. Katherine estava sendo julgada e ele era o juiz, porque via a cena do alto do
tablado, do centro da mesa.
Via Katherine no banco dos réus, de queixo erguido, numa atitude orgulhosa,
mesmo quando a voz pouco familiar, mas que soava como a dele, começou a ditar a
sentença. Ele achava impossível dizer o que era preciso e sentia como se tivesse uma
faca cravada no peito.
Acordara sobressaltado, antes de dizer a sentença e continuara deitado para não
perturbar o sono de Kayla, pensando no sonho, dessa vez claramente definido. Não
conseguia enfrentar seu significado. Era menos corajoso que Kayla, porque ela perseguia
a verdade, queria descobrir tudo a respeito de Katherine.
Ele voltou à realidade, no estacionamento, e desceu do carro, furioso. Estava
decidido a descobrir o que queria saber.
O rapaz da recepção da biblioteca informou que a Srta. Hartwell estava no
departamento de microfilmes do terceiro andar, onde ficavam os livros mais antigos e
mais raros, para uma preservação mais perfeita.
— Eu gostaria de obter algumas informações sobre a família Montgomery, de
Nova Sussex — Ben esclareceu, com voz firme.
O rapaz atendeu-o amavelmente e indicou os livros.
Duas horas mais tarde Ben encontrou Kayla, pálida e trêmula, no jardim da
biblioteca. Ela carregava várias fotocópias dos livros que tinha consultado.
Ben estava encostado na parede, com as mãos nos bolsos, e observou-a
aproximar-se e depois passear de um lado para outro, indiferente às flores e aos pássaros
que os cercavam. Finalmente, ela sentou-se em um banco de mármore e começou a ler
uma das páginas. Ele moveu-se, afinal, e sentou-se ao seu lado. Ela estendeu-lhe o
papel.
"O juiz que presidiu o julgamento de Katherine Hartwell foi o meritíssimo Benjamin
Montgomery, do município de Nova Sussex, e sentenciou-a sumariamente à morte."
— Kayla... — ele não sabia o que dizer.
— No retrato ele está igualzinho a você. Por que nunca me disse?
— Eu não sabia, Kayla. Se algum dia soube, esqueci. Talvez tenha ouvido minha
avó contar casos do tempo do julgamento das bruxas, mas não pensei em juízes ou
advogados.
— Então, por que não quis ir comigo à biblioteca? Por que evitou me
acompanhar?
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Eu não evitei, Kayla. Até estacionei o carro, decidido a pesquisar meus
ancestrais. Mas achava que não tinha nada a ver com você ou Katherine.
— E acabou descobrindo que ele foi o juiz no meu julgamento?
— O que quer dizer com seu julgamento? Estamos falando de Katherine! — Ben
sentiu o cabelo arrepiar-se na nuca.
— Foi o que eu quis dizer. Mas o fato é esse, foi seu ancestral que a condenou.
Isso não significa nada para você?
Ben reparou que ela estava mais indignada a cada minuto, mas tentou controlar
aquela situação estranha.
— Significa apenas que você descobriu um relato histórico, que não tem grande
importância para nós.
— Significa que seu ancestral foi o responsável pela morte de Katherine.
— Mas isso não tem nada a ver conosco, Kayla.
— Tem, sim — ela insistiu. — De certo modo, estamos ligados a eles. Eu pareço
Katherine e você é como o juiz. Isso é mais do que coincidência. Nem você pode ignorar
isso — ela terminou, em tom irônico.
— Eu não estou ignorando — ele disse, em tom exasperado. — Mas isso é coisa
do passado, não tem nada a ver conosco. Nós nos conhecemos agora. É claro que você
tem ligações com o passado de Nova Sussex, como eu. Mas esse julgamento foi há muito
tempo!
— Pois eu acho que tudo está ligado. É como se o destino nos unisse de
propósito.
— Eu gosto dessa interpretação: fico feliz de sermos destinados um ao outro.
Portanto, vamos continuar nosso passeio, estou com fome; Que tal almoçarmos? — ele
procurava distraí-la.
— Precisamos enfrentar os fatos, Ben. Não adianta fingir que nada aconteceu.
Lembra-se de quando nos conhecemos, a antipatia que sentimos um pelo outro?
Ele se lembrava e ela sabia disso, não adiantava mudar de assunto.
Preferiu silenciar.
— Talvez, apenas talvez, esses sentimentos tenham sido inspirados por Katherine
e pelo juiz — disse ela, com voz rouca.
— Kayla! — ele exclamou, espantado e tenso. — Recuso-me a ouvir essas
bobagens. Você está tentando me convencer que somos as reencarnações de Katherine
e do juiz, que não somos donos de nossas vidas?
— Não estou tentando convencê-lo de nada — ela respondeu, seca. — Procuro
apenas uma explicação, tento reunir os fatos. Não acabei de inventar a reencarnação.
Mentes mais sábias que as nossas a vêm estudando há milhares de anos. Não é
exatamente uma novidade...
— Isso é absurdo — ele respondeu, simplesmente.
— Sempre julgando tudo, não é? Agora vejo o que você herdou de seu ancestral.
— Esse argumento foi totalmente desnecessário, Kayla!
Ele levantou-se e caminhou um pouco, tentando controlar a irritação.
— Mas é verdade, Ben — ela insistiu. — É como você reage o tempo todo,
sempre julgando tudo o que eu faço.
— Enquanto você reage teimando comigo por qualquer idéia que lhe passa pela
cabeça — ele disse, entre os dentes. — Não há lógica nenhuma no que você diz. A
verdade é que há muito tempo algumas pessoas inocentes foram enforcadas como
Projeto Revisoras

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feiticeiras. Infelizmente, sua ancestral foi uma delas, mas não há nenhuma ligação
conosco. Acredite em mim, por favor!
— Há, sim — Kayla respondeu. — Você não vê? É tão evidente... Kayla sabia que
estava certa, sem se preocupar se era lógico ou não.
Havia uma profunda ligação entre eles e os dois seres que tinham vivido séculos
antes, algum mistério que precisava ser descoberto. Ben não a ajudaria a resolvê-lo. Nem
a deixava tocar no assunto e isso era o que mais a magoava. O homem que parecia tão
próximo pouco antes,afastara-se quilômetros de distância. Não havia diálogo entre eles,
não conseguiram se entender.
— Vamos para um lugar mais íntimo, precisamos de privacidade — ele disse,
levando-a até o carro.
Mas a tensão só aumentou quando chegaram. Kayla sabia que ele queria
esquecer a descoberta e continuar a viagem, como se nada tivesse acontecido. Mas ela
não queria esquecer. O relacionamento deles chegara a um ponto crítico e tinham de
ultrapassá-lo ou seria o fim. Ela precisava persuadi-lo a ouvir. Segurou-o pelo braço e
explicou como se sentira confusa desde o começo, mesmo sem saber dos fatos.
— Quando cheguei à Nova Sussex os acontecimentos se desencadearam, de
certa forma. Eu senti imediatamente... Na casa e entre nós.
— É claro que você sentiu algo entre nós, Kayla. A atração foi tão forte que não
pudemos resistir.
— Isso mesmo — ela respondeu mais aliviada, percebendo certa boa vontade
nele.
— Kayla, isso é uma questão de química ou o que você queira chamar. Acontece
e fico muito feliz que seja com nós dois. Mas não tem nada a ver com nossos ancestrais.
Nosso amor é nosso, de mais ninguém!
— As emoções são mais que isso, Ben. Algumas vezes meus sentimentos são
tão fortes e confusos que me amedrontam. Você sabe.
— Meu desejo é muito forte, Kayla. Mas sou eu que sinto, não o juiz.
— Até essa sua necessidade de controlar tudo, de estar sempre certo? — Ele não
respondeu e ela prosseguiu: — Quando vi Katherine, ou achei que a vi, senti que ela
precisava de ajuda.
— E procurou-a para ajudá-la? — ele perguntou, sem acreditar no que ouvia.
— E por que não? Sou descendente dela, ou da família, e você descende do juiz.
Também está envolvido.
— Estou envolvido com você, Kayla, não com Katherine — ele afirmou.
Infelizmente, estavam discutindo outra vez, o que pioraria as coisas, pensou Ben,
amargurado.
— A morte dela foi causada pelo juiz, Ben — Kayla não desistia. — Acho que ela
quer esclarecer as coisas, quer que a gente resolva tudo.
— Ótimo, podemos fazer isso. Vamos viver juntos, podemos casar. Acha que o
fantasma de Katherine ficará feliz e se afastará de nossas vidas?
— Nessas circunstâncias — o olhar de Kayla não escondia a mágoa —, acho que
você não espera que eu leve sua proposta a sério. Você não quer saber deste assunto,
não é, Ben?
— Tem razão, que droga! — Ele estreitou os olhos verdes, fuzilantes, e ergueu o
queixo, decidido.
— Eu também não quero mais falar sobre isso — determinou ela, decidida.
— Então, tudo bem.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Mas eu quero terminá-lo do modo que ela indicou. Katherine está abrindo
portas para mim, Ben. E eu quero ver o que há por trás delas.
— Como, Kayla? De que jeito?
— Eu não sei. Sei apenas que ela está tentando falar conosco ou através de nós.
— E você está querendo... Está pensando em fazer uma sessão espírita, não é?
— Eu não disse isso, Ben!
— Mas pensou, eu sei.
— Pois eu não sei. Gostaria que você não fosse tão intolerante, nem se achasse
tão infalível!
— Você chegou a essa conclusão porque não compartilho suas crenças
paranormais de que somos a reencarnação de ancestrais mortos há tanto tempo?
— Foi você que falou em reencarnação — ela respondeu, em tom de desafio. —
Eu só disse que devíamos estar preparados para ouvi-los.
— Eu tenho ouvido, mas são apenas algumas bobagens sobre fantasmas,
feiticeiras e espíritos desencarnados! — Ben deu a partida no carro. — Não estou
disposto a aceitar isso tudo, Kayla.
Ela suspirou, vendo que a discussão escapava do seu controle e ninguém era
vencedor.
— Eu só gostaria que você abrisse por um momento seu coração... — ela
comentou tristemente. — Alguma coisa espantosa está acontecendo. Se você pudesse
admitir, talvez tivesse uma grande surpresa.
— Minha única surpresa é de que nosso fim de semana tenha terminado desta
forma — ele disse, tomando o caminho de volta. — Vamos para Nova Sussex, Kayla. Não
temos mais entusiasmo para o passeio.
Ben andava de um lado para o outro e tinha tomado várias xícaras de café,
pensando na discussão anterior. Por que não tinha contado seus sonhos a Kayla? Por
fim, sentou-se e começou a pensar no que faria em seguida.
Depois de algum tempo, chegou a uma conclusão: Kayla podia ter razão quando
o criticava por julgar a tudo e a todos. E se estivesse certa, ele poderia ter ocultado os
sonhos por teimosia. Não era um procedimento correto.
Mas sabia que se tivesse contado e falado da mulher dos sonhos, que achava
que era Katherine, ela ficaria empolgada. Naquele momento, na certa, estariam em
Boston, sentados na sala de algum médium, fazendo regressão a vidas passadas. E ele
não podia concordar com essas coisas.
Ou podia?
Irritado, empurrou a xícara com o café ainda morno e foi se deitar. Felizmente,
podia dormir até mais tarde no dia seguinte porque era domingo. Com certeza, estaria
mais descansado e em melhores condições de conversar com Kayla.
Tinha falado em casamento no momento errado, mas era exatamente o que ele
queria. Sabia que amava Kayla e não podia viver sem ela. Não deixaria ninguém... Nem
mesmo um espírito atrapalhar seu casamento.
Apesar de ter ingerido tanto café, ele pegou no sono assim que encostou no
travesseiro. Foi um sono pesado, profundo e sem sonhos. Acordou pela madrugada, com
a claridade. Virou na cama e olhou o relógio digital na mesa de cabeceira: cinco horas. O
sol ainda não estava nascendo. Mas aquela luz...
Ele ergueu-se no cotovelo e protegeu os olhos com a outra mão. A luz que
entrava pelo vão da porta era fortíssima. Enquanto observava, a porta foi se abrindo
vagarosamente e a luz aumentou. Era muito brilhante e tinha algo de sobrenatural.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Quem é? — ele perguntou em voz alta, mas notou em seguida que não tinha
movido os lábios.
Estremeceu. Tudo era muito estranho, mas estava acontecendo e ele queria
compreender. Moveu a mão na direção da luz, que imediatamente ficou mais suave.
Então viu. Não chegou a chamá-la pelo nome, apenas pensou.
Katherine.
O nome ecoou pelo quarto. Mais uma vez o pensamento se transformara em som.
Ela se aproximou com seu vestido puritano, verde-pálido, com a gola e os punhos
brancos. As mãos estavam cruzadas no peito e ele viu o anel de três argolas de ouro.
A seguir, distinguiu um vulto atrás dela e quando o homem aproximou-se da luz
era o mesmo que vira no sonho. Não se espantou. Era o juiz Benjamin Montgomery, em
seu traje de tribunal.
O juiz parou ao lado de Katherine e ambos ficaram iluminados pela luz mágica,
acenando pela porta aberta.
— Não, não! — Ben gemia, sabendo que era apenas um sonho. Mas pela
primeira vez na vida sentia medo de não acordar. Logo a porta se fechou e ele ficou na
escuridão.

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

CAPÍTULO 10

Quando a luz do quarto de Kayla se acendeu, Ben desceu do carro. Ele estava
sentado ali, diante da casa, havia mais de uma hora, cansado e sentia cãibras. Quando
chegou à porta da cozinha ela já fazia café.
— Eu sei que é muito cedo, mas... — ele começou a explicar quando a moça
abriu a porta.
— Não se desculpe — ela interrompeu. — Não consegui dormir direito e acho
bom você ter vindo. Precisamos conversar. Aceita uma xícara de café?
— Não, obrigado. Tomei umas dez xícaras ontem à noite e não agüento mais. Se
me oferecer um suco de frutas, aceito com prazer.
Kayla pegou laranjas na geladeira e preparou um suco, enquanto Ben a
observava em silêncio. Depois, ela sentou-se diante dele e esperou, vendo que estava
pensativo.
— Ontem foi outro exemplo de que as coisas fogem de nosso controle — ela
disse, por fim. — Mas acho que daremos um jeito, não é?
— Eu também espero, Kayla. Sei que sou o culpado.
— Não, a culpa é minha. Eu teimo em querer que você ouça minhas idéias e não
ouço as suas.
Ben bebeu o suco de laranja, sentindo-se refrescado depois de tanta cafeína na
noite anterior.
— Eu não a culpo por não ter me ouvido, Kayla. Eu não estava dizendo a
verdade, mesmo...
— A verdade sobre o quê? — ela perguntou, intrigada.
— Sobre nós dois — ele respondeu, simplesmente. — Sobre Katherine e o juiz.
— Eu não estou compreendendo, Ben...
— Claro que não, Kayla. — Ele sentiu um aperto na garganta. — Eu não fui
honesto, sincero.
Ela ficou confusa, sem saber o que pensar. Continuou em silêncio, esperando
uma explicação, então ele murmurou:
— Vou começar do começo.
— É melhor, obrigada. — Ela começou a tomar o café, procurando não pensar.
— Tudo começou no primeiro dia, quando você entrou em meu escritório. Eu já a
conhecia.
— Como? Eu não compreendo. Onde tínhamos nos encontrado?
— Você não tinha me encontrado, mas eu a conhecia dos meus sonhos. Eu sei
que parece uma frase feita e até cheguei a dizer-lhe isso uma vez. Eu vinha sonhando
com você antes de nos conhecermos. Fiquei espantado quando a vi em meu escritório,
em carne e osso.
— Você sonhava comigo!
— Com alguém exatamente igual a você.
— Por que nunca me falou nesses sonhos?
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Por várias razões — ele admitiu, confuso. — Quando tentei contar pela
primeira vez, pareceu, realmente, uma frase feita. Depois que começamos a discutir sobre
assuntos paranormais eu fui teimoso... Não quis admitir que também tinha vivido uma
experiência estranha.
— Estranho foi seu silêncio...
— Você me conhece, Kayla. Eu queria, antes de mais nada, encontrar uma
explicação lógica para tudo aquilo. Só depois de compreender o que se passara com o
juiz e Katherine eu poderia chegar a uma conclusão racional.
— Estou compreendendo menos ainda. O que seus sonhos têm a ver com o juiz e
com Katherine?
— Compreendi, finalmente, que não estava sonhando com você. Ela se parecia
muito com você, mas era Katherine, o tempo todo.
— Katherine? Em seus sonhos? Conte tudo, Ben — ela insistiu, os olhos
brilhando de curiosidade e emoção.
— Tudo começou poucas semanas antes de você chegar a Sussex. Em meus
sonhos surgia repetidamente uma linda moça loira e ficava sempre inatingível. Ela me
fascinava e me intrigava, ao mesmo tempo, e eu a desejava ardentemente. Quando vi
você fiquei envolvido no mesmo instante e não pensei mais no assunto. Entreguei-me à
grande atração que sentia, apenas.
— Como eu — ela comentou, baixinho.
— Depois que a conheci, logo na primeira noite, tive um sonho bem diferente. Era
erótico, mas achei que sabia o motivo, por causa da grande atração que sentia por você.
No entanto, pensando melhor, o tempo não era o de hoje, a cena do sonho era do
passado distante.
— E depois?
— Mas os sonhos são sempre estranhos, não é? — ele procurou justificar-se. —
Eu não sabia nada a respeito de Katherine, pelo menos conscientemente. Procurei
racionalizar, de acordo com o que estava acontecendo na realidade.
— Isso é fantástico, Ben! Mas continue...
— Eu sonhei com você, ou com a moça que se parecia com você, sendo
perseguida e levada a julgamento. Realista como sou, afastei também a lembrança desse
sonho achando que você me impressionara por falar tanto em Katherine. Mas, na
verdade, eu não sabia o que pensar.
— Mas você falou no juiz e em Katherine. Também chegou a sonhar com ele?
— Agora é que estou começando a compreender o que esses sonhos
representam — Ben admitiu, falando vagarosamente. — Acho que sempre observei o que
se passava nos sonhos como se estivesse no lugar do juiz. Não era eu sonhando com
você. Era o juiz com Katherine. Não posso acreditar no que eu mesmo estou dizendo,
mas não era você quem aparecia em meus sonhos. Era ela.
Aquelas revelações assustaram Kayla e ela sentiu o coração disparar. Ao mesmo
tempo, soube que não estava sozinha naquele mundo desconhecido. Ben também tinha
uma ligação com o passado.
— Parece que você se convenceu, Ben... — murmurou, com voz embargada.
— Depois de ontem à noite, me convenci. Eu vi o juiz e Katherine juntos. Não sei
se foi um sonho, uma visão ou um pesadelo. Mas ele estava em meu quarto, me
chamavam da porta aberta.
Enquanto ele falava o ar ficou muito parado. Um pássaro cantou no quintal e um
cachorro latiu, ruídos normais e diários de uma cidade acordando. Mas dentro da casa de
Kayla o silêncio era profundo e o exterior não existia.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Estou com medo, Kayla, não de fantasmas ou seres sobrenaturais, mas fiquei
chocado com esse último sonho, sou obrigado a admitir. Tenho medo por nós dois, temo
que o destino de nossos ancestrais possa ser transferido através de gerações.
— Não a esse extremo, Ben — ela pousou em seu braço a mão trêmula.
— Mas precisamos estar preparados para algum tipo de separação, não sei
como. Você sabe o que eu quero dizer, Kayla.
Ela apenas acenou com a cabeça.
— Podem impedir que nós dois fiquemos juntos nesta vida. — Ben sentiu que
suas palavras eram dramáticas, mas não conseguia retirá-las, nem ignorar o fato.
— Isso não vai acontecer — Kayla respondeu, em tom decidido.
— Como poderemos evitar que isso aconteça? — ele perguntou, sentindo que ela
era a mais forte naquelas circunstâncias. — Poderemos continuar tendo sonhos, visões e
discussões. Ou podemos aceitar que Katherine e o juiz existem mesmo e até convidá-los
para jantar...
Kayla começou a rir e Ben também alegrou-se. Ele abraçou-a e continuaram com
as risadas até ficarem com os olhos cheios de lágrimas.
— Pelo menos, ainda conservamos o bom humor — Kayla comentou,
recuperando o fôlego.
— Temos mais que isso — ele beijou-a, amorosamente. — Mas ainda não temos
uma solução.
— Vamos encontrá-la — ela suspirou. — Primeiro, precisamos descobrir o que
eles querem.
— Querem nos enlouquecer — Ben sugeriu. — Acho que também vi Katherine no
espelho, mas só de relance.
— Ora, Ben! Por que não me contou?
— Como eu poderia admitir esse fato, se nem aceitava a idéia de que fosse
possível? Eu, Benjamin Montgomery, tendo visões? Não era possível. Mas se tive, deve
haver alguma razão.
— E há. Eu sempre pensei que Katherine precisava de ajuda, mas agora que o
juiz apareceu...
— Por favor, Kayla, não vamos cair no misticismo.
Ela olhou-o e ficou em silêncio, procurando evitar outra discussão. Afinal, estavam
chegando ao entendimento. Depois de pensar um pouco, sugeriu:
— Talvez queiram nos contar alguma coisa sobre eles, alguma coisa que ainda
não sabemos. — Ela franziu o cenho. — Talvez estejam esperando há centenas de anos,
até estarmos juntos no lugar certo e na hora oportuna. Agora, quando aconteceu, eles
aproveitaram a oportunidade. Isso não faz sentido?
— Nada faz sentido — Ben comentou, exasperado. — Mas estou disposto a
aceitar qualquer coisa.
— Como vamos conseguir que eles se comuniquem conosco? — ela perguntou,
como se pensasse em voz alta. — Existem reuniões espíritas aqui em Nova Sussex?
— Duvido, Kayla. Mas devo admitir que ignoro esse assunto completamente.
Kayla sorriu e levantou-se para servir outra xícara de café.
— Eu também aceito um café.
— Pensei que você estava enjoado porque tinha tomado demais.
— Isso foi antes — ele sorriu. — Agora preciso de mais cafeína, bem pura.
— Tenho lido muito — ela comentou servindo-o também.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Eu sei.
— Geralmente, o contato com vidas passadas é feito com a pessoa hipnotizada,
que entra em transe, ou quando a entidade fala através de alguém que a recebe.
— Que vocabulário! — Ben estremeceu. — Entidade, transes, tudo ainda fica
mais estranho!
— Ben...
— Não se preocupe, não estou querendo fugir do assunto. Diga apenas o que
devemos fazer. Acha que é bom irmos a Boston e procurar alguém que nos hipnotize?
— Nunca pensei que poderia ouvi-lo sugerir uma coisa dessas — Kayla sorriu,
animada. — Só isto basta para que esta loucura passe a valer à pena.
— Concordo que é uma loucura. E agora, vamos procurar alguém que possa nos
ajudar?
— Seria melhor resolvermos esse assunto apenas entre nós dois, ou melhor, nós
quatro... Mas precisamos de ajuda, mesmo. Acha que podemos encontrar alguma coisa
nas páginas amarelas? — ela brincou, tentando minimizar a ansiedade.
— Deixe que eu me encarrego disso. Quando localizar a pessoa, você é que vai
falar e explicar tudo, está bem?
— Está certo. Por onde vai começar?
— Evidentemente, não será nas páginas amarelas. Conheço muitos advogados,
médicos é psicanalistas. Algum deve saber de alguém que possa nos ajudar.
Kayla tentou disfarçar o sorriso, mas ele percebeu.
— Está bem. Diga qual é a graça — exigiu, meio zangado.
— Imaginei o que meus colegas de Boston podem pensar se você ligar e
perguntar se conhecem um bom hipnotizador ou algum médium com tempo disponível.
Não combina com sua imagem, Ben. Pelo menos, não com a do velho Benjamin
Montgomery...
— Desde que a conheci, Kayla — ele também sorria —, toda a minha vida ficou
de cabeça para baixo. Estou fazendo e dizendo coisas incríveis. Portanto, vamos
considerar que tudo isso faz parte de meu desenvolvimento espiritual. Claro, eu não terei
mais clientes quanto todos souberem que ando enfronhado no misticismo.
— Você nunca terá falta de clientes, Ben. Sabe disso muito bem. — Ela beijou-o
na boca. — Eu já lhe disse, recentemente, que você é um grande homem e eu o amo
muito?
— Sim — ele corou, de modo inesperado. — Mas não me canso de ouvir. É isso
que me anima. Agora vamos até o telefone. Mesmo sendo domingo, posso encontrar
algumas pessoas.
— Telefonema para você na linha dois, Ben. É Kayla — Terrie avisou.
— Olá, o que está acontecendo? — Ben tentou aparentar calma, mas estava com
o coração saltando no peito.
Naquele dia chegaria à Nova Sussex o hipnotizador que tinham encontrado. Ben
já aguardava o chamado, pensando como tinha se envolvido naquilo tudo e como
conseguiria escapar. Concordara com Kayla que deviam consultar alguém e o momento
da verdade chegara. Não queria confessar nem a si mesmo, mas sentia medo.
— Ele está aqui — Kayla sussurrou. — Aqui na cozinha, tomando chá. O Sr. Leo
Justice em pessoa.
— E... — Ben começou a falar, mas a voz ficou presa.
— Parece uma pessoa muito normal e agradável — ela prosseguiu, em tom
aliviado.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Não chegou com uma capa preta e nem com bola de cristal? — ele brincou,
tentando controlar o nervosismo.
— Parece o tio de alguém. É meio careca e barrigudinho. Muito simpático. Adorou
a loja e pode até comprar...
— Kayla, e quanto ao... Você sabe.
Ele olhou para Terrie, sentada em uma escrivaninha na outra sala. Não queria que
os Fiore ficassem sabendo do que iam fazer.
— Sim, eu sei — Kayla respondeu. — Ele está pronto para começar a sessão
quando você chegar. Quero mostrar a ele o retrato de Katherine e a sala de estar dos
fundos. Portanto, se você vier logo...
— É que estou um pouco ocupado, no momento.
— Não está, não. Perguntei a Terrie e não há nenhum cliente hoje. Eu também
estou nervosa, querido, mas chegou a hora. Estamos esperando. Posso contar com
você?
— Se há uma coisa na vida com o que você pode contar, é comigo. Vou sair daqui
em cinco minutos, depois de acertar algumas coisinhas. Kayla, não comece a se divertir a
minha custa quando eu chegar, está bem?
Kayla tinha razão. Leo Justice era um homem de aparência comum e nada tinha
de místico. Ben ficou mais tranqüilo ao vê-lo. Ele tinha sido recomendado como um dos
melhores hipnotizadores da região. Além de baixo e careca, tinha a pele avermelhada e
claros olhos azuis. A voz era profunda, melodiosa, e as maneiras impecáveis. Um homem
à moda antiga, pensou Ben enquanto conversava. Parecia mais uma visita social e não
uma sessão que poderia trazer conseqüências que mudariam toda a sua vida.
— Achei que devíamos trazer o retrato de Katherine para a velha sala de estar —
Leo comentou com Ben. — Kayla me contou que recentemente ele adquiriu grande
importância para vocês.
Eles percorreram o estreito corredor e entraram na sala, onde o retrato já estava
pendurado sobre uma mesa baixa e se refletia no espelho. Ben sorriu ao ver que Kayla e
Leo tinham criado o ambiente apropriado.
Não havia luzes, a não ser os candelabros com velas sobre a lareira, uma
cômoda e uma mesa ao lado do sofá. Como era fim de tarde e começava a escurecer, a
luz das velas era reconfortante, apesar de criar longas sombras móveis pelas paredes.
— Fizeram um belo serviço nesta sala — Ben comentou, querendo aparentar
descontração.
— Achamos que era o melhor lugar para fazermos nossa... Sessão. Sinto a
presença de Katherine muito forte aqui.
— Por que vocês dois não sentam no sofá e eu fico nesta cadeira em frente? —
Leo Justice sugeriu.
Ben sentiu um aperto no estômago, vendo que era o momento de começar, e
procurou limpar a garganta antes de falar:
— Imagino que o senhor já fez várias sessões desse tipo, não?
— Sim, várias. Mas cada vez é diferente. Achei a história de Katherine e do juiz
fascinante, uma das mais interessantes que já ouvi. Espero que surja algo especial com
nossa sessão.
— Nós também estamos muito entusiasmados — disse Kayla, segurando
fortemente a mão de Ben. — Mas um pouco assustados, também.
— Certo nervosismo é bom. Podemos usar essa energia para nos auxiliar. De
fato, sinto muita energia nesta sala. Imagino que vocês também estão sentindo.
Projeto Revisoras

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Acho que sim — disse Kayla, hesitante.
— Vocês sabem — prosseguiu Leo —, o hipnotismo é praticado há milhares de
anos e, sendo bem feito, é perfeitamente seguro. Posso garantir e quero que os dois
relaxem bem. O fato de estarem tranqüilos e desejarem fazer isto facilita tudo.
— Nós queremos... Ou melhor, eu quero — Kayla respondeu, firme.
— O problema sou eu — declarou Ben. — Nunca acreditei no que vocês chamam
de espíritos, mas depois desses acontecimentos recentes, acho possível...
— Você não aceita inteiramente o que vai fazer? — perguntou Leo.
— Bem, eu sou um pouco cético, mas amo Kayla e quero evitar a descrença. Se
for humanamente possível — ele fez uma pausa, procurando as palavras certas —,
gostaria de entrar em contato com Katherine e o juiz. Se nosso amor sair fortalecido
dessa busca no passado, é o que eu quero.
— Eu também — Kayla concordou. — Quero que Katherine e o juiz saibam que
esta sala está cheia de amor e compreensão, que serão bem-vindos se vierem.
— Eu posso sentir esse amor — Leo Justice sorriu. — Acho que é hora de
começarmos. Fechem os olhos e ouçam minha voz. Não vou balançar nenhum objeto
diante de seus olhos, mas precisam relaxar completamente.
Kayla fechou os olhos como ele ordenava, mas assustou-se com as instruções
dadas depois.
— Ben e Kayla, vocês vão cair em sono profundo, mais profundo do que
conseguiram até hoje. Relaxem, apenas, e sintam que é mais e mais profundo...
Ela esperava uma coisa diferente, mas procurou concentrar-se apenas na voz de
Leo, era hipnotizante.
— Pensem apenas que estão flutuando no mar, nas águas quentes e
reconfortantes, em ondas que embalam e fazem vocês muito leves... O sono vai ficando
sempre mais profundo. Sintam-se parte do mar. Mais e mais profundo...
Ele tinha razão, Kayla pensou como em um sonho. Sentia-se calma e relaxada,
como se realmente estivesse flutuando em águas muito tranqüilas. Era um prazer ouvir a
voz suave e serena de Leo. As pálpebras estavam pesadas e ela não conseguia erguêlas.
— Agora, quando eu contar até dez, vocês estarão bem adormecidos, mas
continuarão me ouvindo. Poderão responder minhas perguntas sinceramente e
continuarão me ouvindo. Vão lembrar de tudo quando acordarem.

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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper

CAPÍTULO 11

Vagarosamente, Leo começou a contagem. Para Kayla, era como sé a voz
chegasse de uma enorme distância, mas podia ouvir com toda a clareza.
—... Nove, dez. Ainda pode me ouvir, Kayla? Responda.
— Sim, eu posso ouvir.
— E você, Ben?
— Posso ouvir — Ben respondeu mais vagarosamente.
— Ótimo. Agora quero que vocês voltem ao passado, ao dia em que completaram
dezesseis anos de idade. Podem se ver? Podem se lembrar?
— Sim, sim — responderam, quase ao mesmo tempo.
Aos poucos, Leo levou-os de volta à infância e depois à época do nascimento.
— Agora quero um pouco mais, continuem essa jornada de volta ao passado até
a época em que não tinham nascido, ao tempo em que eram outras pessoas.
A sala ficou em silêncio durante algum tempo e depois Leo Justice recomeçou a
falar.
— Kayla, você sabe quem é? Responda.;.
— Sim, eu sei — a voz dela soou um pouco diferente, mais baixa e com
entonação pouco familiar.
— Quem é você? Qual é o seu nome?
— Sou Katherine. Katherine Hartwell — ela repetiu sem hesitar. Não havia dúvida,
estava falando a verdade.
— Ben, quem é você?
— Sou Benjamin Montgomery.
— Em que ano estamos, Sr. Benjamin Montgomery?
— Em 1692, ano do Senhor, na colônia de Massachusetts — ele respondeu, em
tom impaciente.
— E qual é sua ocupação, senhor? — prosseguiu Leo.
— Sou o juiz do município de Nova Sussex, como todos sabem.
— Sem dúvida. E o senhor conhece Katherine Hartwell?
— Katherine, Katherine — ele gemeu. — Eu a amava. Era a mulher mais linda de
Nova Sussex, mas me atormentava.
— Como ela o atormentava?
— Eu a desejava, eu a amava muito — ele fez uma pausa. — Muitas vezes fiquei
no caminho da vila só para vê-la. Algumas vezes falava comigo, outras não. Perturbava
meus pensamentos o tempo todo, até na igreja. Vivia atormentado. Eu a desejava, queria
me casar com ela. Mas ela não me aceitou, escolheu outro.
— E depois?
— E depois... — ele inspirou profundamente — quando vieram me contar que ela
era uma feiticeira, recusei-me a acreditar. Não a minha Katherine.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Você era uma feiticeira, Katherine? As histórias eram verdadeiras? — Leo
perguntou.
— Claro que não — ela riu baixinho, com voz melodiosa. — Eu não era uma
feiticeira. As mulheres que socorri também não eram. Eram moças fortes como eu, que
não se deixavam dominar pelos homens. Naturalmente, eu procurei ajudá-las quando
foram condenadas à forca.
— Mesmo a que distribuiu as poções? — o juiz perguntou diretamente a
Katherine.
Leo suspirou, satisfeito, e encostou-se na poltrona.
— Ela distribuiu as poções para metade das mulheres da vila — o juiz prosseguiu.
— E contra a vontade dos maridos.
— As poções curavam mais que as preparadas pelo boticário — Katherine
respondeu. — Não me arrependo de ter ajudado essa moça e nem as outras.
— Não, fui eu quem ficou com o arrependimento, Katherine — o juiz comentou,
amargamente. — Você conseguiu irritar todo o Conselho da cidade e os homens exigiram
que eu a julgasse como feiticeira. Discuti com eles e disse que você se arrependeria.
Tentei salvá-la. Oh, minha Katherine, eu lhe dei uma chance... Dei-lhe uma chance.
— Daria minha liberdade se eu me casasse com você, não é, Benjamin
Montgomery? Nenhum homem mandou em mim. Você sabia disso e insistiu.
— Eu estava obcecado por você. Como não ia insistir? Se ao menos você me
ouvisse, se ao menos... — A voz do juiz era amarga. — Mas você não ouvia ninguém.
Usava aquele anel e eu a avisei que a vila toda estava comentando.
— Foi uma bonita jóia que eu comprei de um mascate. Por que eu me
incomodaria com o que a gente de Nova Sussex comentava? Eu sabia que eles achavam
que era um anel do diabo. Os três círculos do diabo, isso me divertia.
— Diziam que era um talismã de Satã... — lembrou o juiz triste.
— Que bobos! — ela riu alegremente. — Tinham imaginação tão estúpida quanto
eles mesmos. Por que eu deveria me preocupar com o que pensavam?
— Você não ouvia ninguém, Katherine! Não podia admitir que estava errada.
— Nem você, Benjamin. Nem você. Éramos muito parecidos, não podíamos viver
em paz juntos. Nossas almas não aceitavam nossa união e você insistia.
— Eu a amava, Katherine. Eu queria salvá-la e teria conseguido, mesmo sem o
casamento. Se você me recusasse, poderia dizer no tribunal onde as moças estavam
escondidas e eu poderia salvá-la...
— Nunca! Eu jamais teria contado, você sabia.
— Sim, e isso partia meu coração. Sofri com tudo... Com seus sorrisos, seu modo
de andar, com tudo o que você fazia. Por que não aceitou meu amor?
— Porque seu amor me assustava — Katherine respondeu, depois de um longo
silêncio. — Nunca tinha encontrado tanto vigor em um sentimento e se me entregasse...
Você não vê? Eu teria entregado parte de mim mesma. Tinha medo de amá-lo... Logo eu,
que não tinha medo de nada!
— E escolheu outro em meu lugar — Benjamin declarou, triste.
— Ele me amava suavemente, mas nunca senti por ele o que sentia por você,
Benjamin.
— Oh, Katherine — o juiz exclamou, aflito. — Nós dois arruinamos nossas vidas!
Se você tivesse concordado em se casar comigo estaria salva da fúria da vila e não
teriam insistido no julgamento. Até o fim, pensei que você se arrependeria. Mas você não
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
se arrependeu. Morreu tão cedo... E passei anos miseráveis até morrer também, sofrendo
as penas do inferno!
— Tudo foi tão triste... — a voz dela era repassada de angústia.
— Mas não vou perdê-la novamente. Agora que tornei a encontrá-la, não a
deixarei partir. Não depois de todos esses anos. Pode acreditar, meu amor!
Seguiu-se um longo silêncio e, finalmente, quando Kayla falou, foi quase um
murmúrio.
— Oh, Benjamin, eu sei que perdemos todos esses anos juntos. Sempre achei
que era valente e corajosa, mas agora vejo que fui covarde, que fugi de seu amor.
— Agora temos outra chance, Katherine. Não podemos perdê-la. Você conseguirá
esquecer o passado e a minha teimosia? Verá que não sou mais uma homem cheio de
orgulho, sinto apenas arrependimento pelo que poderia ter sido e não fui, com você.
— Outra chance... — Katherine começou a chorar. — Eu também preciso do seu
perdão por ter evitado esse amor, tão poderoso quanto o próprio tempo.
— Eu perdôo... Eu perdôo... Sim, meu amor...
Mais uma vez o silêncio prolongou-se o ouvia-se apenas o tique-taque do relógio.
Depois Leo falou.
— Chegou o momento de vocês acordarem. Vão se lembrar de tudo e não terão
medo. Quando eu contar até dez vocês não serão mais Katherine e Benjamin. Serão
Kayla e Ben. Vão ficar em paz. Um, dois...
Kayla abriu os olhos, ao terminar a contagem, sentindo o rosto molhado de
lágrimas. Ben também tinha chorado. Com um pequeno gemido, ela abraçou-o.
Uma hora mais tarde eles saíram para dar um passeio por Nova Sussex. Queriam
respirar o ar puro da primavera e desanuviar as idéias. Antes de ir para Boston, Leo os
aconselhara a conversarem sobre o assunto, mas ainda não tinham encontrado as
palavras certas. Caminhavam em silêncio, de mãos dadas, ainda confusos e
emocionados. Não conseguiam acreditar no que tinha acontecido.
— Será que realmente aconteceu? — Kayla perguntou, afinal, com timidez.
— Sim — respondeu Ben, a voz presa de emoção.
— Eu não sabia se você também estava ouvindo. Pensei que só eu...
— Não, nós dois fomos catalisadores, Kayla.
— Então, você ouviu tudo o que eu disse?
— Ouvi tudo o que ela disse, Kayla. A voz não era sua. Foi uma sensação
estranha... Sabia que você estava perto de mim, mas ouvia as palavras de Katherine. —
Ele estremeceu, mas em seguida reagiu: — Eu não acredito em nada disso.
— O que quer dizer? — Kayla perguntou, espantada.
— Que estamos conversando sobre isso... E que acreditamos no que aconteceu.
— Nós estávamos lá, Ben. Não podemos ignorar tudo.
— É verdade. Mas eram mesmo Katherine e o juiz?
— Sim — Kayla respondeu, decidida. — Nós concordamos e puderam falar um
com o outro.
— Então, nós os ajudamos a surgir, com o auxílio de Leo?
— Acho que sim... — Ela ficou pensativa. — Importa como aconteceu ou só
interessa que aconteceu?
— Se é que aconteceu — Ben atalhou, com ar sonhador.
— Talvez até isso não importe.
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Darling 34 – Muito Longe, no passado – Madeline Harper
— Talvez, mas senti alguma coisa, realmente. Foi muito forte para ser descrita em
palavras. Senti o amor dele por Katherine. Ele a amava tanto quanto eu a amo.
— Querido... — Kayla apertou mais a mão dele.
— Eu me vi nele, Kayla. Foi assustador, o desejo que ele precisava controlar...
— Mas você não é como ele — ela protestou. Depois sorriu: — A não ser quando
adotava uma atitude parecida e começa a me julgar.
— Existem outras semelhanças. Você me enfeitiçou como Katherine fez com ele,
invadiu meus sonhos e meus pensamentos. Obrigou-me a agir a sua maneira. — Ele
pensou um pouco e sugeriu: — Talvez, há trezentos anos, eu considerasse um espírito
independente como o seu o de uma feiticeira.
— Graças a Deus não estamos mais há trezentos anos — ela ria, feliz. —
Garanto que minha independência provocaria grandes problemas.
— Tem razão.
— Coitada de Katherine! Ela não sabia se dobrar à vontade de outra pessoa,
como o próprio juiz... — lamentou Kayla, penalizada.
— E eles também não entendiam o poder do amor. É uma força muito poderosa.
— Há uma lição nisso tudo para mim, Ben...
— Para nós dois. Agora compreendo a tensão que surge às vezes, a paixão, o
sentimento de que precisava de você. Foi como se eles não se conhecessem novamente
— E nós estávamos vivenciando os sentimentos deles, além dos nossos. Não é
de admirar que tudo fosse tão avassalador!
— Estávamos, mesmo, numa montanha-russa — Kayla comentou.
— Os dois se misturaram com um advogado e uma bela californiana. Éramos
quatro!
Eles tinham chegado à casa de Kayla. A lua brilhava no céu e ela parecia um lar
muito acolhedor.
— Sabe — disse Ben —, acho que não importa se Katherine era feiticeira ou
não...
— Ou se o juiz foi finalmente absolvido ou não...
— Você entende, não é, Kayla?
— Eu compreendo. Algo mudou em mim. Tudo o que importa é que nós
aprendemos a lutar por nosso amor, lembrando sempre que parte desse sentimento é um
respeitar o outro.
— E compreendê-lo também. Tenho sorte porque a encontrei, Kayla. Se um dia
você me abandonasse, eu ficaria tão desesperado quanto o juiz.
— Ora, não queremos que se desespere, portanto eu acho...
— O quê? — ele esperou ansioso.
— Que nunca vou abandoná-lo.
— Eu quero fazer amor com você — ele murmurou, quando se beijaram. —
Depois de nossas almas estarem separadas durante tantos anos, ficaremos outros tantos
juntos.
Os dois estavam deitados na cama de Kayla, com a janela aberta para deixar
entrar o ar fresco da primavera. Trocavam carícias, mas não como antes, quando eram
levados só pela paixão. Sentiam uma proximidade infinita, quase indescritível. Era uma
delicada intimidade ainda desconhecida. Vinha do passado e se projetava no futuro.
Quando tocava no corpo de Ben, Kayla sentia-se também tocada e compartilhava
todas as suas emoções. A pele dele era quente, sedosa, e ela colou-se ainda mais, como
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se quisesse fazer parte de seu corpo. Excitava-se ao comprimir os seios em seu peito e
queria ficar mais e mais próxima, numa ansiedade que só os amantes conhecem.
Todo o corpo de Kayla estava tomado pela excitação e ela sentia contra o ventre
o membro rígido de Ben, sabendo que a proximidade logo culminaria na explosão do
amor. Era o que mais desejava.
— É assim que deve ser — ela murmurou, suave. — Assim, bem juntos, para
sempre.
— E será assim, Kayla. Mesmo quando não estivermos tão próximos. Será como
se você estivesse colada em mim, eu prometo.
Ele beijou-a sofregamente, faminto de amor. Depois passou os lábios pelo
pescoço, atrás da orelha e voltou à boca entreaberta e apaixonada. Kayla mexia o corpo
sob o dele e seus movimentos o excitavam ainda mais. Só queria estar ali com ela, ser
parte dela, amá-la fisicamente como a amava de coração.
Quando penetrou-a suavemente não afastou os olhos de seu rosto. Encantava-se
com sua expressão deliciada e desejava vê-la assim feliz pelo resto da vida. O prazer que
ela sentia era seu prazer; a felicidade dela, sua felicidade. Juntos, eram transportados
muito além de si mesmos, a uma nova dimensão de amor e desejo.
Ben tentou mover-se vagarosamente para que Kayla saboreasse cada momento
maravilhoso dos dois. Mas ela abraçou-o e ergueu o corpo, indo ao seu encontro,
enlouquecendo-o.
— Agora, meu amor. Solte o corpo, não espere mais...
Ela estava tão amorosa, tão cheia de paixão e ardor que ele não se conteve. Via,
em seus olhos azuis, que ela o desejava tanto quanto ele.
O prazer mútuo não foi crescendo aos poucos, mas chegou numa satisfação
intensa, explosiva e profunda. Ambos saíram dela saciados e felizes. Depois ele abraçoua fortemente e fechou os olhos.
— Kayla, minha querida, minha Kayla... — ele murmurou. — Mesmo que nós
fizéssemos amor mil vezes eu continuaria a desejá-la...
— Sinto-me tão próxima de você, Ben! Nunca tive essa sensação com ninguém
antes — ela apoiou a cabeça em seu peito. — É como se...
— Como se nossas almas estivessem unidas, além de nossos corpos, não é?
— Exatamente, é uma união das almas e dos corpos...
— Eu também estou sentindo. É como se tivesse passado a vida toda a sua
espera — ele riu baixinho. — E passei, mesmo.
— Eu também. Isso estava escrito, devia acontecer, não é, Ben?
— Acho que sim — ele respondeu, com suavidade.
— Não acha que foi uma coincidência apenas?
— Não, não foi uma coincidência. Era nosso destino, devíamos nos encontrar... E
casar.
— É a segunda proposta que você me faz, apesar de estar muito nervoso quando
falou da primeira vez! — Ela ergueu levemente a cabeça e o olhou. — Agora é um pedido
a sério?
— O outro também foi. Queria me casar com você, só que não sabia o que estava
acontecendo. Compreendia que alguma coisa estava entre nós, mas não sabia explicar.
No entanto, já sabia que a queria para sempre. E agora que compreendi tudo, já não
estou preso apenas às explicações lógicas, como antes. E ainda a quero para sempre.
Vou continuar a pedi-la em casamento até você dizer sim. Diga que sim, Kayla.
— Sim — ela respondeu, simplesmente. — Sim, sim.
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Ele beijou-a de novo, sentindo uma calma maravilhosa. Era perfeito o
entendimento entre eles.
— Agora não existem mais problemas — comentou, quando os lábios se
separaram.
— Ainda existe um — disse Kayla, com ar maroto.
— Qual é? — a pergunta foi tranqüila e despreocupada. Ben sabia que nada mais
podia separá-los.
— Você acha que sua autoritarite é hereditária? Não quero que nossos filhos
comecem a julgar as pessoas.
Ben abraçou-a e rolou com ela até ficar sobre seu corpo. Depois fez uma careta,
fingindo que estava furioso.
— Eu não sou autoritário — falou, com voz grossa. Kayla começou a rir e ele
também, logo em seguida.
— Ou melhor, não sou mais autoritário. Essa parte de minha vida ficou no
passado.
— Será? — Kayla parecia em dúvida.
— Confie em mim, querida. Além disso, não estou disposto a arriscar tudo o que
temos por qualquer discussão boba. Todo esse amor, esse desejo tão grande. E talvez
até alguma pequena briga de vez em quando, quem sabe? Dê certa graça a nossa vida
em comum. O que acha?
— É que às vezes exageramos um pouco — Kayla lembrou-se das discussões
anteriores. — Mas acho que você tem razão. Eu sou teimosa, você também é, e sei que
não vamos nos curar de repente. Mas isso não importa porque agora sabemos o que
fazer. Vamos esclarecer o assunto quando esse problema surgir. Já sabemos qual seria a
outra alternativa, não é?
— Qual?
— A separação. E isso você não quer e nem eu.
— Nunca — ele abraçou-a melhor. — E agora, onde vamos criar nossos filhos?
— Eu acho que devíamos morar aqui. Esta casa é bem grande e parece um lugar
indicado para as crianças Hartwell Montgomery crescerem. Você tem alguma objeção?
— Nenhuma — ele sorriu, alegre. — Aposto que pensou que eu ia discutir.
— Bem, eu...
— Pois eu acho que seria muito feliz com você aqui. Sabe que é uma boa idéia?
Posso transferir o escritório para minha casa. Terei muito mais espaço para arrumar tudo.
— Seria ótimo, Ben!
— Então, está tudo certo, não é? — Ele beijou-a por todo o rosto. — Vamos fazer
os planos para o casamento. Será logo, você concorda?
— Claro!
— Preciso comprar as alianças.
— Ben, pensei que...
— Já sei. Para você, pode ser um anel de três aros entrelaçados?
— Acho que seria perfeito — ela murmurou, com os olhos luminosos e
sorridentes.
— E o que você pensa fazer com a loja? — ele perguntou, depois de algum
tempo.
— Eu gostaria de mantê-la.
— Ótimo! — aprovou ele.
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— Quando a herdei, jamais imaginei que seu nome teria tanto significado para
mim um dia. Tudo isso realmente abriu a porta da felicidade.
— Para nós dois. O "Portal de Entrada" nos levou a um mundo novo, Kayla. Eu
ouvia esse nome desde menino e não imaginava a importância que teria em minha vida.
Não é estranho? Mas quero que você tenha muito sucesso com a loja, querida. E sei que
vai conseguir.
— Que bom! E eu sei que poderá me ajudar com seus conselhos. Ainda mais
agora, que não fará questão de impor sua vontade...
— Só uma coisa, Kayla — ele ficou sério.
— Não me diga que você vai fazer alguma crítica...
Ben não conseguiu reter o riso e ela também achou graça.
— Pensou que já íamos ter a primeira discussão? — ele indagou, quando pôde
parar de rir.
— Por um momento...
— Calma, querida!
— E o que ia me dizer?
— Que eu também gostaria que você reservasse algum tempo só para nós dois...
— Meu querido...
— Quero passar muito tempo a seu lado.
Ela ergueu-se no cotovelo e olhou-o nos olhos, encontrando a mesma emoção
que sentia no rosto do homem amado.
— Eu sempre terei tempo para você, meu querido Ben. Através dos séculos e
séculos a nossa frente!
Selaram suas palavras com um beijo enquanto a lua cheia banhava o quarto com
sua luz prateada.

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EPÍLOGO

Na base do morro ao fundo da casa de Kayla, perto do riacho, a lua prateava
também a bruma que se erguia das águas. Pequenas nuvens evolavam da correnteza e
vagavam pela campina, começando, aos poucos, a ganhar forma e substância.
Dois vultos diáfanos apareceram e desapareceram de novo. Pouco depois,
tornaram a surgir na neblina. Vagarosamente, foi se formando a imagem de uma moça
em roupas puritanas, como as usadas naquela região, trezentos anos antes. O vestido
verde-claro brilhava ao luar e o cabelo loiro formava um halo em volta de sua cabeça.
Ela começou a vagar pela noite, com graça e determinação nos gestos. Não
estava só.
O homem, com as roupas antigas de juiz, negras como a noite, era alto e
imponente. Mas quando baixava o rosto e a olhava, seu rosto adquiria uma expressão
muito terna. Os dois se fitaram durante algum tempo, cheios de amor.
Depois, ergueram o rosto para a casa que ficava no alto. A residência dos
Hartwell destacava-se ao luar, muito branca.
Os dois vultos a observaram durante longos momentos e, por fim, entreolharamse.
A moça sorriu ligeiramente, com muita doçura. A seguir ergueu a mão e um anel
brilhou em seu dedo. Ela tocou o rosto do amado com gesto suave como chuva de
primavera, macio como a brisa, com o carinho de uma criança que perdoa.
Depois, aos poucos, os dois vultos foram desaparecendo como tinham surgido,
desfazendo-se na névoa que os criara. Nada ficou, a não ser o leve murmúrio da brisa e
um suave movimento nos galhos das árvores.
Esse doce murmúrio do vento parecia dizer "Eu ainda a amo, Katherine, e sempre
a amarei..."
Seguiu-se o silêncio da noite.

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