You are on page 1of 62

MARIDO SOB MEDIDA

Gina Wilkins
Capítulo 1
— Casar? Mas, Brooke, nós ainda nem fomos para a cama juntos!
Gary Wagner elevara a voz um pouco mais que o necessário, tomado pelo espanto, e chamou a
atenção de outro homem na mesa às costas de Brooke, que fez um gesto apoiando. Afinal de contas,
acabara de ser descrito como bom pai de família em perspectiva e praticamente pedido em
casamento.
Brooke Matheny sentiu-se mal, não por chamar a atenção, coisa que não percebera, mas pela
resposta do companheiro de mesa. Perguntou, amuada:
— O que isso tem a ver com a nossa conversa?
— Minha querida: estamos saindo há quatro meses e nos conhecemos há seis! Saímos juntos
sempre que possível. Você não acha que, se estivéssemos a fim de nos casar, ao menos teríamos
progredido além de um beijinho de boa noite?
— Bem... — ela quebrou uma torrada entre os dedos. — É que não quis estragar nossa relação, que
ia tão bem, misturando sexo nela...
O problema com Brooke era que simplesmente não conseguia se imaginar na cama com o querido
amigo Gary! A relação era tão boa, tão amiga, tão perfeita.
— E como você pretenderia ter filhos sem tocar nesse assunto tão problemático? — indagou ele,
tentando manter um ar brincalhão.
Ela protestou, irritada:
— Claro que as coisas seriam diferentes, quando nos casássemos! E você ia querer me levar para a
cama, se fôssemos casados, não é, Gary? Ou não se sente atraído por mim?
Gary cerrou os olhos por um instante, diante das palavras diretas da amiga. Quando voltou a abrilos notou que o homem, sen-tado atrás de Brooke, ouvia tudo descaradamente e parecia estar se
divertindo à beça!
Depois de encarar o desconhecido.por um segundo, voltou os olhos para Brooke pensando numa
resposta. O rostinho dela, embora já tivesse mais de vinte e seis anos parecia muito jovem. O
nariz pequeno, boca delicada e enormes olhos castanhos; os cabelos loiro-acinzentados
emolduravam o rosto sem maquilagem. Talvez fosse esse jeito juvenil que levara Gary a não
insistir em ir além do casual beijinho.
— Você me atrai, Brooke. E eu teria ido para a cama com você há muito tempo, se tivesse me
dado a menor chance! Vamos encarar os fatos, querida: nós não nos amamos o suficiente para...
para vivermos casados.
— Mas eu te amo, Gary! Verdade!
— Claro, eu sei. Mas não estamos apaixonados.
— Oh! Isso?...
— Sim, isso — ele repetiu, fazendo uma careta. Cruzou os talheres sobre o prato. — Algumas
pessoas acreditam que estar apaixonadas é essencial para o casamento... Entende?
Brooke colocou os cotovelos em cima da mesa.
— Odeio até a ideia de estar apaixonada!
— Você parece ter tido um bocado de experiência! — comentou Gary, sem poder conter o riso.
— É que as pessoas ficam estupidificadas!
Ele sacudiu a cabeça.
— Quer explicar essa?
— Ora... as pessoas fazem besteiras... esquecem suas prioridades! Decidi, há muito tempo, que
quando me casar será por razões práticas. Com alguém que aceite que sou responsável pela
minha própria vida, pela minha profissão. Tudo muito sensato, sem os riscos de uma ligação
lastreada em emoções!
— É mesmo? — Então, ele ficou sério. — Isso parece um contrato comercial.
— Exatamente! — exclamou Brooke, em triunfo.
Gary sacudiu a cabeça e sorriu.

— Nem posso imaginar alguém se casando comigo porque tenho bons genes para procriar ou
que esteja tão envolvido com meus próprios problemas que nem perceba minha companheira ao
lado. Acho que sou mais romântico do que pensava, Brooke.
— Mas foi você quem falou primeiro em casamento, Gary! Quando fez trinta e um anos,
lembra? Você disse: "Acho que estou na época de pensar em casamento... Ter uma casa num
subúrbio sossegado, como meus colegas de Medicina... Filhos...” Foi ou não foi?
— Brooke, eu estava conversando com você. Não estava propondo casamento.
Ela suspirou e concordou que fora vencida.
— Tudo bem! Pareceu ser uma grande ideia. Só espero que não se arrependa de uma relação
apaixonada...
Ele pegou-lhe a mão, que descansava em cima da mesa, e beijou os dedos.
— Espero que ambos encontremos nossa paixão. Você é uma mulher apaixonante e não se
contentará com menos do que isso.
— Está muito enganad... — e se interrompeu quando o bip, no cinto de Gary, se pôs a chamar
insistentemente.
Ele pegou o aparelho e leu, no mostrador, o número de código.
— É uma emergência, Brooke. Desculpe-me, mas vou deixá-la aqui mesmo.
— Não tem importância. Tenho de voltar para a floricultura. Parece que todos os homens se
apaixonaram ao mesmo tempo. Estão enviando tantas flores! Eu pego um táxi.
Gary deu-lhe um beijo na face.
— É nisso que dá sair com um médico. — Deixou algumas notas sobre a mesa, para pagar a
conta. — À noite eu telefono, tá?
Ela aquiesceu, perdida em pensamentos, sem perceber que ele saía. Nunca haveria algo mais
forte que amizade entre ambos. Que pena!
— Ele está certo, você concorda? — indagou uma voz, atrás dela.
Brooke voltou-se e encontrou um par de olhos verdes a encará-la. Olhos que pertenciam a um
homem de cabelos castanhos, num elegante terno cinza, sorrindo de tal maneira que sua
respiração se descontrolou de uma vez. Ela enviou ordens enérgicas aos pulmões, que se
normalizaram, e disse, fria:
— Perdoe, não entendi.
— Seu amigo Gary estava certo ao recusar a proposta de casamento. Nenhum homem gosta de
saber que é interessante só por ser... confiável.
Brooke ficou um momento boquiaberta diante do cinismo daquele estranho. Limitou-se a
colocar a xícara de café de volta na mesa, pegou a bolsa, levantou-se e deu dois passos. Então,
ele insistiu:
— Como? Não tem resposta?
Brooke parou e retrucou, impaciente:
— Não falo com estranhos intrometidos!
Encarou o rosto de contornos firmes, pele queimada de sol, os olhos de linhas orientais, que não
deveriam impressioná-la, porém impressionaram.
— Adorei suas teorias a respeito do casamento — disse ele. — Quando vamos jantar juntos
para continuar a conversa.
Brooke entrecerrou os olhos, algo irritada.
— Olhe... Se você andou escutando nossa conversa deve ter entendido que não estou a fim de
namoricos. Vá procurar mulher em outro restaurante! — E tentou passar por aquela parede de
músculos que bloqueava seu caminho.
— Talvez eu não esteja procurando mulheres em restaurantes — disse ele, rindo —, mas
pessoas que pensem como você.
— Então... — respondeu admirando-o; como ele era bonito! — Tenha boa caçada! — E,
contornando-o, saiu do restaurante.
O choque foi enorme: o ar-condicionado havia sido eficiente. Lá fora o calor de março era
violento. Uma delicada mão tocou em seu braço.
— Por que fugiu, Brooke? Acha que eu seria capaz de convencê-la, de fazê-la mudar de ideia?
Aí, em vez de continuar caminhando, ela fez a besteira.
— Eu não acho: tenho certeza! — disse e fitou os profundos olhos verdes.

A resposta tomou-o de surpresa. A moça teve tempo de voltar-se e apanhar um miraculoso táxi
que, cinematograficamente, parecia esperá-la. Só relaxou quando o automóvel deu a partida.
Que engraçado... A sensação era a de ter escapado de uma perigosa situação.
E, mais curiosamente ainda: sentia-se meio coverde...
— Não! Absolutamente não!
A voz de-Matt ecoou pelo escritório, fazendo com que sua secretária pestanejasse, à mesa do
outro lado da porta entreaberta. Ela já ouvira aquele tom de vez anteriormente e sempre havia
significado que o chefe estava legislando. Olhou, rápida, a jovem sentada na poltrona baixa,
forrada em couro, que marcara hora com o sr. James e que tentava, sem sucesso, fingir que nada
ouvira.
A moça bonita, de cabelos loiros, sentada do outro lado da mesa, na frente dele, nem sequer
pestanejou ao ouvir a resposta zangada que ouvira tantas vezes.
— Vou para a Europa, neste verão — repetiu ela, com firmeza. — Com Parker Hadley.
Acampando. Não importa se me empresta ou não o dinheiro!
— Só por cima do meu cadáver!
— Se é isso que você quer... — respondeu a irmã.
— Se acha que vou admitir ver minha própria irmã ir para a Europa com um sujeitinho que ela
conhece há apenas duas semanas, está doida. Doida de pedra! Lembre-se, Melinda — e ele
apoiou os punhos sobre o tampo da escrivaninha — , nem conheço esse cara direito! Só o vi
uma vez. Ele deve saber que suas irmãs mais velhas são casadas com homens ricos e deve
pensar que você também tem dinheiro.
— Como se atreve a julgar um amigo meu que encontrou uma única vez? Suponho que se acha
o máximo em julgar pessoas só porque é supervisor neste hotel metido a grã-fino. Você é um
péssimo juiz: sempre afirmou que metade dos meus namorados eram criminosos e errou com
todos.
— Olha aqui! — E Matt tentou ficar calmo com sua irmãzinha de dezenove anos, que sempre o
fazia perder a cabeça em minutos. — Nos últimos cinco anos aprendi um bocado sobre pessoas.
Pessoas honestas, trabalhadoras, e gentalha. Gentalha que é atraída por hotéis luxuosos como
este. Desta vez não estou errado: aquele cara não vale nada.
Melinda respirou fundo, irritada, cruzou os braços e virou-lhe as costas.
— Eu deveria ter pensado melhor antes de vir pedir sua ajuda.
— Se Merry se opôs a sua ideia, o que a fez imaginar que eu apoiaria?
Merry era a irmã mais velha, com quem Melinda vivia desde que seus pais haviam morrido, há
dez anos.
— Não lê jornais? — continuou Matt. — Há terroristas, bombas, sequestros em todo lugar. Se
quer ir para a Europa, tudo bem, eu arranjo uma viagem em grupo, com acompanhantes, e
Meaghan até pode ir — completou, referindo-se à gêmea de Melinda, mais ajuizada.
— Para me vigiar? Esqueça!... — disse a moça. — De qualquer forma Parker não será
responsável por mim. Sei me cuidar. — E Melinda esmurrou o tampo da mesa, imitando o jeito
do irmão.
— Raios, Matt! Eu tenho quase vinte anos e estou cheia de estudar, cheia de fazer coisas que
outras pessoas querem que eu faça. Ou faço alguma coisa arriscada, aventureira, ou acabo
ficando maluca. Será que não entende isso?
— Veja só! Esqueceu que deseja ser uma psicóloga, para ajudar os outros a resolverem seus
problemas?
— Como posso ajudar os outros com seus problemas se não me deixam resolver os meus? —
indagou Melinda, irônica.
— E dessa forma você planeja dormir com esse homem pela Europa inteira, arriscando-se a
entrar numa fria? Acha que isso é racional, menina?
Ela enrubesceu até a raiz dos cabelos.
— Eu não estou dormindo com o Parker. E, se estivesse, o problema seria todo meu!
Matt sentia dor nas têmporas e ficou surpreso; como administrador do Amber Rose Hotel, em
Nashville, era ocupação dele lidar com problemas. Como não conseguia resolver o caso com
essa moça impulsiva e superficial? Ele lembrou-se de si próprio, há onze anos, com a idade

dela, preocupando os pais porque achava a vida muito aborrecida e começara a correr de moto.
— Melinda — procurou amaciar a voz —, eu entendo, ao menos um pouco, como você se
sente. Escutei seu ponto de vista, mas agora tenho um compromisso. Podemos conversar mais
tarde? Se quiser... se quiser compre um vestido novo, eu é que pago, para irmos jantar juntos.
Que tal?
— Matt, você não vai me comprar!
Ele fez outro esforço para se controlar...
— Nâo estou querendo comprá-la. Vamos deixar o resto para conversarmos à noite?
— Não importa o que você fale: quem vai decidir sobre minha vida sou eu! — Parou junto à
porta, antes de sair. — Não se esqueça disso, sr. Matthew James!
Ele abaixou a cabeça, respirando fundo. Por que Melinda resolvera deixar a irmã e o cunhado,
no Missouri, e atravessara todo o Estado de Denver, num ônibus, para atomentá-lo em
Nashville?
Assim que a irmã saiu, lembrou-se do compromisso e apertou o botão do intercomunicador.
— Pode mandar a moça entrar, Carol.
Era só o que faltava, para completar aquele dia. Uma florista insistente resolvera passar por
cima do departamento de ompras do Hotel e falar diretamente com ele, para demonstrar o
quanto poderia fazer pelo Amber Rose. Mas daria um jeito nela, também. Era especialista em se
livrar de vendedores insistentes e acabava de ter um bom treino com a irmã maluquinha, e
cabeça-dura.
Levantou os olhos e fitou, surpreso, a atraente jovem que acabara de entrar. O espanto foi
mútuo, pois há umas duas semanas entreouvira uma conversa na mesa ao lado, em um
restaurante. Eram um homem e uma mulher, que discutiam sobre casamento. E ele não
resistira: acabara se metendo na conversa. Desde aquele dia não conseguira esquecê-la.
E agora, ali estava ela, do outro lado de sua escrivaninha, ocupando o lugar onde Melinda se
encontrava, momentos atrás. Olhou dos enormes olhos castanhos, maiores ainda pelo espanto de
se encontrar diante dele, e sentiu uma fraqueza esquisita nas pernas.
Disfarçando, apoiou as mãos sobre a mesa, para melhor sustentar o pso do corpo, enquanto se
levantava.
— Olá! Que surpresa! Brooke... não é o seu nome? — comentou ele, procurando falar em tom
divertido e indiferente. — Você decidiu aceitar meu convite para jantar ou veio aqui porque
quer mandar examinar meus genes?

Capítulo 2

Brooke parou de respirar por uma fracão de segundo. No instante seguinte, virou-se para sair da
sala. Já fora o bastante o que aquele indivíduo fizera, outro dia, no restaurante. Não ia agüentar
mais essa.
— Ei! Espere aí! — O rapaz contornou a escrivaninha em passos largos, e tratou de barrar-lhe o
caminho para a porta. — Aonde você vai?
— Embora — foi a resposta seca.
Ele ficou entre ela e a saída, parecendo acostumado a esse tipo de manobra.
— Olhe, eu... Desculpe-me, está bem? — O tom de voz, contrito, era apropriado à situação. —
Fiquei surpreso ao vê-la aqui e... Bem, fiz uma piadinha de mau gosto.
Ela permaneceu impassível, observando aquele sorriso atraente e os olhos verdes que haviam
tomado conta de sua imaginação nas últimas semanas.
— Isto parece ser um hábito seu, sr. James! — afirmou Brooke, em tom gélido.
Ele piscou várias vezes, desconcertado.
— Bem, sim... Quer dizer, não! Ora, até pode ser... — admitiu, por fim. — Quero pedir
desculpa. O que a trouxe aqui, Brooke, isto é, senhorita?...
— Matheny.
Ela informou o sobrenome, porém a contragosto. Queria deixar claro, mesmo sem dizer nada,
que permanecia ali só por causa da relação comercial entre um possível cliente e a Floricultura
Copo-de-Leite. Estendeu uma relutante mão.
— Sou a proprietária da Copo-de-Leite, sr. James, e gostaria de discutir projetos sobre o Amber
Rose Hotel. Acredito que posso oferecer melhores serviços, e com melhores preços, do que os
que estão tendo atualmente.
Apertando a mão da moca por alguns segundos a mais do que seria apropriado, Matt, por fim,
fez um gesto na direção de uma poltrona.
— Por favor, vamos sentar.
Sentou-se na confortável cadeira atrás da mesa e, juntando os dedos das mãos, fez o possível
para retesar os músculos de maneira evidente.
— Diga-me, srta. Matheny — disse e exibiu, também, o mais atraente sorriso —, por que
insistiu em conversar comigo, quando este assunto deveria ser tratado com nosso departamento
de compras?
Ela cruzou as mãos sobre o colo, ainda sentindo uma curiosa sensação na mão que ele apertara.
A verdade é que seus pensamentos estavam confusos. Uma voz dizia:
"Que há, Brooke? Acha que um imbecil desses seria capaz de fazer você se apaixonar?"
E outra voz respondia:
"Eu não acho: tenho certeza!"
Depois daquela luta doida, ela conseguiu voltar a si e responder:
— Tentei falar com o sr. Quelling, chefe do departamento de compras de seu hotel. Apesar de
muita luta não consegui nem sequer chegar até a porta do escritório dele. Foi então que descobri
que a floricultura que fornece para o Arnber Rose Hotel é de propriedade do irmão do sr.
Quelling. Talvez o senhor já saiba disso...
Matt encarou-a, sem nada revelar em suas feições.
— Continue, por favor.
— Bem, acontece que também sou uma freqüentadora de seu hotel... do restaurante, ao menos.
E gosto do atendimento. É por isso que me preocupa, como cliente e como fornecedora, ver um
serviço de floricultura de segunda, que provavelmente custa o dobro do que vale.
Ele escutava com atenção.
— Serviço de segunda?
— Hoje vim até aqui ver a decoração das mesas para o café da manhã. O senhor sabia que as
flores se limitam a duas margaridas, alguns ramos verdes, tudo num vaso branco? — disse ela,
com indignação profissional. — Margaridas! Qualquer lanchonete usa isso, sr. James. Mas o
Amber Rose deveria contar com flores mais exóticas para deliciar seus hóspedes pela manhã!
Com o que o senhor está pagando, eu poderia fornecer uma estrela-de-jerusalém ou frésias da
África do Sul.
Percebendo que enveredara por seu tema predileto, flores, tratou de citar outros serviços que sua

floricultura poderia fornecer. Matt ouviu, calado, até o final e então, para surpresa dela, disselhe:
— A senhorita tem um cartão de visitas?
— Por certo! — respondeu, espantada. Pegou um cartão florido da bolsa e estendeu-lhe: — Eu
poderia esclarecer mais algum ponto, sr. James?
— Por enquanto, não — respondeu ele, gravemente, fazendo-a suspeitar que estava sendo
imitada. — Eu passarei seu cartão para o setor de compras e estou certo de que alguém entrará
em contato.
Ela não havia conseguido, o que não era surpresa. Tinha se portado como uma idiota. Levantouse, ajeitou a saia branca, que contrastava bem com a blusa azul-marinho, discreta. Podia não ser
uma grande mulher de negócios, mas se vestia como se fosse.
— Obrigada por ter perdido seu tempo comigo, sr. James.
— Agora que nossa entrevista comercial terminou, creio que poderá me chamar de Matt —
disse ele, inesperadamente, levantando-se, contornando a mesa e colocando-se muito próximo a
ela.
A moça deu um passo atrás, rápida, ao perceber que sua respiração se alterara com aquela
proximidade. Tratou de exibir um bem-educado sorriso profissional e despediu-se:
— Bem... adeus.
— Você acredita que isto seja, mesmo, um adeus? — contestou ele, sempre mantendo a
proximidade incômoda.
— Claro que não. — Percebeu que ele se colocara entre ela e a porta, de novo. — Poderei
responder a qualquer pergunta sobre negócios, a qualquer momento que ache conveniente.
— Não costumo acreditar em destino — comentou Matt, em tom de conversa —, mas deve
haver algum motivo para termos voltado a nos encontrar. Jante comigo esta noite, Brooke, e
tentemos descobrir o que o destino nos reservou.
Ela mesma se surpreendeu com a risada espontânea que soltou.
— Foi uma ótima sacada... Mas eu também não acredito em destino, sr. James! — Continuou
com o tratamento formal. — Nós nos encontramos a primeira vez pela simples razão de
estarmos no mesmo restaurante. E voltei a encontrá-lo porque quero seu hotel como cliente.
Aí, percebeu o que ele poderia pensar e explicou:
— Eu não tinha a menor ideia de que o senhor era o administrador. Também fiquei surpresa ao
vê-lo! E queira o destino que venhamos a manter uma longa relação... comercial! Uma relação
pessoal está fora de questão!
Ele não deixava de sorrir.
— Por quê?
— Porque não estou interessada, sr. James!
Caima!, disse a si mesma. Lembre-se do cliente que ele significa... Ele deu um passo para o
lado, com um gesto educado.
— Ainda nos veremos, Brooke. E, então, vamos ver se isso é verdade.
Podia dar-lhe uma bofetada ou sair com dignidade. Escolheu a última alternativa. Mal ela saíra
do escritório, Matt pediu à secretária:
— Diga a Alan Quelling para vir aqui. Quero falar com ele, agora mesmo.
Brincou com o cartão da floricultura, sorrindo. Tendo-a encontrado de novo, sentia-se mais
intrigado do que nunca. Pensou rapidamente no pedido de casamento que ela fizera. Ora,
bobagem! Ela não estava apaixonada e faria melhor se esquecesse suas teorias e prestasse
atenção num homem mais do que... confiável. Um homem como ele, por exemplo.
Seu sorriso desapareceu quando percebeu Alan Quelling, esperando à porta.
— Entre, Quelling. Quero falar sobre nossa conta de floricultura.
O homem empalideceu visivelmente, mas entrou com bravura na sala do chefe.
Brooke ainda não se acalmara quando chegou ao térreo do Amber Rose, naquele lindo elevador
de vidro. Ao contrário, a raiva aumentava por Matthew James ter conseguido romper seu verniz
profissional daquela maneira tão pessoal! Percebeu a elegante porta que levava ao bar. Talvez
um refrigerante a acalmasse.
Sentou-se a uma mesinha e pediu uma Coca-Cola dietética com uma rodela de limão. Enquanto

esperava pensou no assunto. Estava tão irritada com ele quanto consigo mesma. Ou quase. O
que tinha aquele homem para atraí-la, mesmo quando a deixava furiosa? Sabia o que não
gostava nele: seu ar de machão. Não fosse a primeira experiência no restaurante, teria deduzido
isso do que entreouvira entre ele e a irmã. Era um tipo diferente dos homens retraídos com que
convivera nos últimos anos. Em suma, ele era o tipo com o qual ela não queria se envolver!
— Ele está fazendo você beber, é?
Ela levantou os olhos para uma jovem loira atraente, vestida em cores alegres, que parara,
sorridente, ao lado de sua mesa. Indagou, surpresa:
— Como disse?
— Você entrou para ver meu irmão, depois que terminamos a gritaria — explicou Melinda. —
Não me surpreende. Ele também mexe com meus nervos!
Brooke sorriu e esclareceu:
— Na verdade pedi apenas um refrigerante!
A garçonete trouxe a bebida e Brooke hesitou apenas um segundo antes de convidar a outra para
sentar-se. Melinda não recusou e sentou-se do outro lado da mesa.
— Vou beber o mesmo — pediu ela à garçonete. E, voltando-se para Brooke: — Prazer! Sou
Melinda, irmã de Matt.
Embora Melinda fosse muito bonita e com aparência bem feminina, enquanto Matt transpirava
virilidade, a semelhança entre ambos era evidente.
— Meu nome é Brooke Matheny.
— É amiga de Matt?
— Não. Na verdade tenho uma floricultura e estou tentando pegar a conta do Amber Rose. Seu
irmão e eu só nos conhecemos formalmente, hoje.
— Formalmente? — e Melinda inclinou a cabeça, atenta.
— Bem... Há umas duas semanas nos encontramos, casualmente, num restaurante.
A jovem pareceu satisfeita com a explicação. Colocou os cotovelos na mesa, apoiando o rosto
nas mãos.
— E conseguiu a conta? Brooke fez uma careta.
— Duvido. Acho que não causei boa impressão. Foi a vez da loira rir.
— É difícil acreditar. Ele não a convidou para sair? Os olhos de Brooke arregalaram-se.
— Como assim?
— Você é muito bonita e gentil! É bem o tipo que interessaria Matt. A menos que seja casada...
— Nada disso! A verdade é que me convidou. E eu não aceitei porque ele me deixou furiosa. É
muito mandão e arrogante!
— Boa descrição do Matt! — aprovou Melinda. — E também é atraente, não?
— Como?
— Sei que uma irmã não deve falar assim. Mas ele é muito atraente. Só que me espanta o fato
de ele ter chegado aos trinta anos sem que ninguém o estrangulasse.
— Trinta? — Brooke ficou surpresa. Não percebera como ele era jovem. — Puxa! E conseguiu
chegar a administrador de um dos três melhores hotéis de Nashville!
— Eu o odeio mais a cada promoção. Sempre lhe sobe à cabeça. Pode não parecer, mas sou
louca por ele. Gostaria de fervê-lo em óleo, às vezes, mas ele é um doce quando a gente o
conhece melhor!
Doce seria o último adjetivo que Brooke aplicaria a Matt. Ao contrário: achava-o ardido como
pimenta.
— Não acredito... — contestou, sorrindo para não ser agressiva.
— É, sim... Planejo trabalhar para ele, neste verão. E vou conseguir, juro!
— Ué! Mas você não disse... — e Brooke se interrompeu por um instante. — Ora, eu ouvi
sobre o que conversavam. Você não disse que iria para a Europa?
— É o que desejo que todos pensem — confidenciou a jovem com ar maroto. — Na verdade,
quero mesmo é trabalhar aqui, no Amber Rose! Já trabalhei com Merry, minha irmã, anos a fio.
Agora quero coisa diferente.
— Então por que não pediu, simplesmente, um emprego para seu irmão?
— Porque ele não favorece os familiares. Se eu disser que quero fazer algo estúpido, então ele

tentará me adoçar com uma oferta melhor! Não diga nada a ele, hein?
— Melinda James, você é uma jovem muito perigosa! — comentou Brooke, com ar brincalhão.
Rindo, deliciada, Melinda bateu-lhe delicadamente na mão.
— Gosto de você, sabia? Gosto mesmo.
— Eu também — replicou Brooke, honestamente.
— Olhe, seria ótimo se saísse com Matt, Brooke. iria fazer muito bem a ele.
O sorriso de Brooke desapareceu rapidamente. Ela consultou o relógio.
— Nossa! Preciso voltar para a loja.
Melinda enrugou a testa diante da desculpa óbvia, mas não tentou impedir a nova amiga.
— Quando eu estiver aqui, no verão, gostaria de ir a um cinema com você ou coisa assim.
Podemos sair juntas.
— Gostei da ideia! — replicou Brooke. — Procure-me na Copo-de-Leite, a minha floricultura.
— Lindo esse nome! Até mais, Brooke.
— Até, Melinda.
Brooke colocou a última rosa amarela no alto vaso de cristal quando sua empregada a chamou
ao telefone.
— Um momento, Rhonda. — E colocou o arranjo numa das imensas prateleiras.
Alguma esposa iria ficar encantada, recebendo-o em seu aniversário, pensou, olhando a obraprima mais uma vez.
— Fala Brooke Matheny — disse ao telefone.
— Olá, Brooke Matheny!
Apesar da semana que se passara, ele não precisou se identificar. Brooke apertou o fone.
— Olá, sr. James.
Um suspiro exasperado pôde ser ouvido nitidamente.
— Matt. O nome é Matt. Você é capaz de dizer Matt?
Ela sorriu; ao menos isso ele não veria.
— Tudo bem. Matt.
— Ótimo. Agora me pergunte por que telefonei.
— Por que você telefonou? — indagou ela, obediente.
— Para convidá-la para almoçarmos juntos. Agora diga q...
— Desculpe-me, Matt, mas hoje estou muito ocupada — cortou, decidida a não ceder.
— Muito ocupada para um almoço de negócios, para discutir um lucrativo contrato com meu
hotel? — quis saber ele, com exagerada surpresa na voz.
— É realmente para discutir negócios? — perguntou ela desconfiada.
— Bem, se você não está interessada em fechar contrato com o Amber Rose... — e Matt deixou
a frase no ar.
Maldito! Isso era chantagem! Ele nem mesmo tentava disfarçar as coisas. Era como se soubesse
que ela sabia exatamente onde ele queria chegar!
— Eu estou interessada no contrato, sim.
— Então que tal meio-dia e meia, no Restaurante Smitty’s?
— Tudo bem. Discutiremos o contrato — frisou ela, e ao desligar murmurou: — Ufa! Esse
homem merece mesmo ser estrangulado!
— Interessante! Quem merece ser estrangulado?
Brooke elevou os olhos e encontrou Rhonda parada perto dela, com um sorriso iluminando o
rosto redondo e bonito.
— Era o administrador do Amber Rose Hotel. Quer discutir um contrato durante o almoço.
— Puxa! Mas você disse que não havia conseguido...
— Me pergunto se vai valer a pena me enfiar numa encrenca por causa de um contrato — e
Brooke suspirou, aflita.
Rhonda ergueu as sobrancelhas.
— Ora! Esse rapaz me parece dos bons! Nunca vi você tão ansiosa por causa de homem algum.
E era verdade. Só em pensar que ia almoçar com Matt, ela se arrepiava, nervosa, como se
tivesse de enfrentar algum perigo medonho.
Não era nada disso, dizia, para se acalmar. E a entradade clientes obrigou-a a dominar-se e a

agir normalmente.

Capítulo 3

O Restaurante Smitty's, no entender de Brooke, era um local típico onde se reuniam os
executivos da vida, para saborear o melhor hambúrguer de Nashville, se não do Estado do
Tennessee. Ela já havia escolhido um hambúrguer com bacon e queijo logo de entrada, quando
ainda estava empurrando a porta de espesso vidro fumê para entrar.
Apesar de o local estar cheio, localizou imediatamente o rapaz moreno, de terno cinza-escuro,
que flertava de modo indecente com a recepcionista. Sentiu-se lesada ao perceber o sorriso que
a escultural garota dava para Matt, pegando no braço dele com gesto íntimo demais.
Bem, se ele era daqueles que costumam paquerar uma mulher enquanto espera outra, ela nada
tinha a ver com isso.
Como se tivesse sentido os fluidos de desaprovação ele ergueu a cabeça e sorriu, alegre, ao vêla. Brooke sentiu-se derreter por dentro com aquele olhar, e teve vontade de fugir do restaurante,
gritando. Mas dominou-se e cumprimentou:
— Olá, Matt!
— Brooke! — Ele tomou-lhe a mão e segurou-a, olhando-a com volúpia. — Você está linda!
Ela tratou de avisar a si mesma que aquele era o tipo de homem que usava frases feitas para
derreter a mais gélida força de vontade.
— Muito obrigada — respondeu, sabendo que estava como sempre, exceto pelo vestido
vermelho que acentuava seu corpo esguio e emprestava-lhe mais cor ao rosto.
— Vamos para a mesa, Matt? — indagou a recepcionista, examinando Brooke com olhos azuis
inquisitivos.
— Certo, obrigado, Lynette.
Lynette conduziu-os a um reservado mais discreto, num canto, ondeando sedutoramente os
quadris mal contidos na minissaia. Brooke recusou-se a olhar Matt, para ver se ele estava
admirando a performance. Sabia que estava!
— Até mais, Matt. Não se esqueça de domingo.
— Claro que não! — prometeu ele, com um sorriso. Então, voltou-se para Brooke: — Já
almoçou aqui, antes?
— Muitas vezes... — respondeu ela, escondendo o rosto atrás do cardápio.
Já escolhera o que comer, mas perdera a fome.
“Não se esqueça de domingo!" Puxa, esse homem deveria mesmo estrangulado! A estonteante
Lynette não era um ano mais velha do que a irmã dele! Será que jamais ouvira falar de
hipocrisia?
— Algo errado, Brooke? — Matt a examinava com aquele sorriso irritante nos lábios, como se
lesse seus pensamentos.
Na verdade, esperava que tivesse lido, mesmo.
— Não, Matt. Nada de errado... — replicou ela, com calma.
Fechando o cardápio estendeu a mão e pegou a delgada pasta de couro macio. — Eu trouxe
alguns planos para serem discutidos. Exatamente o que a Copo-de-Leite pode lhe oferecer e a
quais preços.
— Por que você não mostra isso para a nova chefe do departamento de compras? — sugeriu
Matt, afastando o próprio cardápio sem abrir. — Eu dei seu cartão a ela, fazendo-a prometer que
telefonaria na próxima semana. Você terá uma boa oportunidade conosco...
Brooke respirou profundamente, contando até dez.
— Está querendo dizer que me convidou para almoçar para contar — e sua voz tornou-se
perigosamente grave — que mandou meu cartão a seu departamento de compras?
— Acho que está bancando a bobinha, Brooke! — Ele a intimidou com um sorriso. — É
inteligente demais para não ter percebido que estou interessado em você! Eu estou, Brooke
Matheny. Desde a primeira vez em que a vi.
— Você — começou ela, furiosa — não passa de um...
— Olá, Matt! Como vai, garotão? — Uma voz interrompeu-a. — L y n me contou que você
estava aqui! Não tem lugar melhor para comer?
A risada de Matt denunciou a Brooke que ele sabia perfeitamente que fora salvo de uma
descrição desagradável de seu próprio caráter.

— Eu gosto de sofrer, Smitty! Você sabe como gosto de maltratar meu estômago!
O homem baixo e gordo, quase calvo, estourou numa risada e socou Matt no queixo com
alguma força.
— Eu não devia permitir que entrasse mais aqui, seu vadio! E faria, mas a verdade é que
consigo arrancar dinheiro de você!
Então, aquele era Smitty, o dono do restaurante preferido do momento, o mais famoso da
cidade. Seu rosto tinha uma cicatriz de uns dez centímetros, como se fosse um ator de segunda
importância num filme classe C. No entanto, os olhos azuis eram amistosos, e seus modos,
cativantes. Além disso, havia acabado de dar um soco em Matthew, fazendo os cabelos lhe
caírem sobre a testa e ele esfregar o queixo dolorido.
Brooke resolveu-se por um sorriso brilhante. Smitty era muito simpático: gostava dele.
— Brooke Matheny, deixe-me apresentar-lhe George Smith, dono desta birosca — e não sorriu,
compreendendo que Brooke gostara do soco que recebera. — Ele também é pai de Lynette,
coisa que me surpreende. Como um ser tão horroroso conseguiu produzir criatura tão linda? Se
eu não soubesse que Margie Smith é a mulher mais honrada e leal do mundo, até pensaria
coisas...
Desta vez Brooke ficou encarando o dono do restaurante. Era o pai de Lynette?
— Prazer em conhecê-la, srta. Matheny — disse ele, num tom de aprovação. — Uma jovem tão
atraente não deveria se rebaixar a andar em tão vulgar companhia.
— O senhor tirou as palavras de minha boca! — respondeu Brooke, fazendo Matt engasgar do
outro lado da mesa.
Smitty concordou com a cabeça:
— Gosto desta moça, Matthew!
— Eu também, Smitty. — Mesmo a voz de Matt era letal, descobriu Brooke engolindo em
seco, ao ouvir o tom íntimo, que parecia acariciá-la. — O problema é que ela não gosta de mim.
— A razão está com ela, Matt — comentou Smitty, pensativo. Piscou para Brooke. — Ainda
assim, moça, creio que ele merece uma chance... Mas aqui está sua garçonete. Você não
esqueceu do compromisso de domingo, não?
— Nada disso. Diga a Margie que eu irei.
Ele aquiesceu e voltou-se para Brooke, depois para o amigo:
— Pode levar alguém, se quiser, viu? Mais tarde a gente se fala...
Brooke e Matt fizeram seus pedidos sem se olharem.
— Brooke — disse ele, com firmeza, quando a garçonete se afastou —, olhe pra mim!
Ela não perdeu tempo com discussão, encarou-o.
— Você tem ideia de como é bonita, quando sorri? — E ele surpreendeu-a, de novo, com esse
comentário. — Quando vai me abrir um sorriso tão bonito como aquele que deu ao Smitty,
adorável Brooke?
— Não perca tempo com essas manobras bobas, Matt!
— Você é sempre tão brigona?
Ela pensou um instante, e então disse, suspirando fundo:
— Não. É algo em você que traz o pior de mim à tona, me fazendo ficar zangada e agressiva.
— Você parece minha irmã falando...
— Ela disse que nos conhecemos?
— Sim, e que gostou muito de você.
— Eu também gostei dela.
Ele fez uma careta.
— Acho que ela falou muito sobre o irmão manda-chuva!
— Um pouco...
Ele fez outra careta e resmungou:
— E também tentou convencê-la da idéia maluca de cruzar a Europa de carona, com o idiota do
Hadley?
Brooke levantou os ombros, enquanto chegava o seu hambúrguer. Enfiou uma batata frita no
ketchup e levou-a à boca.
— Você sabe, eu não vou permitir isso! — afirmou Matt, colocando molho de tomate no seu
prato.

— Ela tem quase vinte anos... Não imagino como vai impedi-la. Os olhos dele se estreitaram
num fino traço.
— Eu vou impedi-la. Eu a amo, mas às vezes ela tem o bom de um nabo seco! Não fala outros
idiomas, foi criada num ambiente de proteção, mal viajou para fora do Missouri! Não vou
deixar que se exponha assim! Ofereci-lhe um emprego no Amber Rose.
Brooke tentou fazer-se surpresa.
— Você ofereceu um emprego?
— Claro — ele parecia contente consigo mesmo. — Sei que jamais aceitaria um emprego de
arrumadeira. Mas ficou curiosa com a possibilidade de trabalhar no departamento de pessoal.
Ela não quer demonstrar que está interessada, por isso dei-le algumas semanas para resolver.
Prefiro que pense que tudo foi idéia dela, compreende?
Brooke tomou um longo gole de Coca-Cola para afastar o riso que teimava explodir. Claro que
não trairia a confiança de Melinda, mas sentia uma vontade doida de abalar a pose daquele homem. Essa intenção desapareceu quando percebeu que Matt desejava, realmente, proteger a
irmã. O que era ridículo, pois ele pensava que devia bastar um "não", para que Melinda
obedecesse. E sem discussão.
Matt tinha muito em comum com seu pai!
Com aquele pensamento deprimente, o apetite de Brooke evaporou outra vez. Comeram em
silêncio até que ela colocou o hambúrguer de volta no prato.
— Ainda estou furiosa com você por ter me enganado com o propósito deste almoço.
Ele respondeu com sua própria lógica tortuosa:
— Sabia que não aceitaria um almoço se não fosse a negócios...
— Exatamente! Já lhe disse. Matt: eu sei o que você quer e não estou interessada!
Ele afastou o prato vazio, cruzou os braços sobre a mesa e perguntou:
— E o que pensa que eu quero?
Ela enrubesceu mas não deixou barato.
— Um caso comigo.
— E por que pensa isso?
A vermelhidão do rosto desceu pelo pescoço. Começava a sentir-se uma imbecil. Brooke
percebia, no mesmo instante, quando alguém a desejava. E não entendia bem por quê, mas era
evidente que Matthew James sentia forte atração por ela. Aliás, naquele exato momento, o
desejo transparecia nos olhos dele e ela sentia que seu corpo correspondia àquele apelo.
— Não é isso? — pressionou ela, com voz rouca. Ele aquiesceu, discretamente:
— Sim, Brooke, eu a desejo. Desde a primeira vez que a vi.
— Está vendo só? — Sentia-se mais perturbada ainda com as palavras diretas. — Eu sabia
que...
— Isso não quer dizer que eu queira um caso com você! — interrompeu ele, com firmeza.
— Não coleciono casos, Brooke. Cresci cim quatro irmãs. Gosto das mulheres e as respeito.
Não faço uso delas! Lynette é filha de um amigo. Conheço-a desde os quinze anos, é como se
fosse mais uma irmã. Pensou uqe eu tivesse passandotempo com ela, enquanto a esperava, não
é?
Brooke baixou a cabeça e murmurou:
— Sim...
— Por que tem um conceito tão negativo a meu respeito?
Ela elevou as pálpebras, surpresa com o tom de vulnerabilidade quase machucado, em sua voz.
— Não gosto de homens autoritários.
— Você me acha autoritário?
— Creio que se orgulha de impor suas próprias soluções. Na semana passada ouvi sua conversa
com Melinda, no escritório. E veja como me manipulou para trazer-me aqui. Não se importa de
ter me enganado para atingir seus objetivos. Fez o que achava certo, sem se mportar com minha
opinião.
Ele ficou pensativo por instantes, depois disse:
— Creio que estou acostumado a fazer as coisas à minha moda. Acho que é porque sou o único
filho homem de cinco... Minhas irmãs eram muito crianças quando meus pais morreram num
acidente. Merry e eu tivemos de dividir responsabilidades por causa dos menores. De outro

lado, no trabalho, meu cargo não permite que eu divida responsabilidades. Quando o hotel não
dá lucro, é comigo que os proprietários vêm reclamar. É... Acho que sou meio mandão, sim.
— Meio? Você é muito mandão — ela apressou-se a corrigir.
— O que mais?
— Como é?
— Do que mais você não gosta em mim?
Ele a apanhara desprevenida e a moça tentou escapar.
— Bem... Oh, que conversa mais estranha!
— Não estou prometendo mudar, Brooke — disse ele, quando ela não conseguiu prosseguir. —
Sou o que sou. Mas posso tentar ser menos tirano com você, se me der uma chance. Será que
concorda em fazer isso? Ela levantou a mão, trêmula, até o pescoço. Era claro que ele jamais
mudaria, mas estava se empenhando tanto para ser aceito por ela... E não o tinha encorajado. A
palavra sim quase saiu de boca, mas mordeu a língua a tempo. Nada disso. Não sentia a menor
vontade de se envolver com ele. Teria muito a perder.
— Não seria boa ideia, Matt! Eu... eu estou envolvida com outro homem.
Os olhos dele entristeceram e a boca se reduziu a um traço fino, fazendo-a arrepiar-se. De
repente a voz dele se tornou dura, fria, chegando a intimidá-la.
— Está falando do sujeito com quem almoçou no outro dia?
— Sim, Gary Wagner. Estamos saindo há meses.
— Você não o ama, Brooke.
Ela tomou um gole de refrigerante, nervosa. Depois disse:
— Você ouviu a conversa. Sabe que gosto de sair com ele precisamente porque não o amo!
— Brooke, ele poderia ser seu irmão... Você é uma mulher de paixão, de emoções fortes! Seria
um crime se ligar a uma pessoa que só poderá lhe dar emoções mornas!
Surpresa com toda essa ênfase, ela quase entrou em pânico. Dominou-se. Havia se preparado
para controlar as emoções mais fortes. Jamais seria dirigida pelo coração ou por seus
hormônios! Era melhor parar a coisa por ali.
— Preciso ir, Matt. Verdade!
— Brooke, nos dê uma chance. Poderíamos começar como amigos.
Ela olhou aqueles olhos perigosamente persuasivos e tratou de lembrar a si mesma que seria
uma verdadeira idiota caso recuasse e cedesse um milímetro que fosse.
— Olhe... eu... acho que não preciso de novas amizades, por enquanto. Até logo, Matt.
Obrigada pelo almoço.
Levantou-se e caminhou para a porta antes mesmo que ele esboçasse um movimento. Brooke
esperava que a seguisse, que tentasse interrompê-la, mas ele fez como no primeiro dia: deixou-a
sair. E ela pôde sentir o olhar intenso em suas costas até o momento em que fechou a porta do
restaurante atrás de si. Foi uma retirada em pânico, de pura covardia.
Ainda assim ela julgava que havia sido a melhor solução, pois Matt, decididamente, era um
homem capaz de perturbá-la a ponto de fazer papel de boba.
Por que insistia em perseguir Brooke Matheny, quando ela já deixara bem claro que não
desejava deixar-se conquistar?, perguntava-se Matt, andando de um lado para outro no quarto do
amplo apartamento que ocupava no Amber Rose Hotel.
Tinha de reconhecer, era verdade, que os cabelos dela eram densos e ondulados, atingindo os
ombros, mas a cor de trigo era banal, o que não o impedia de querer afundar o rosto naquelas
ondas. O rosto era bonito, os olhos castanhos, profundos e expressivos, a boca delineada para
receber a de um homem. No entanto, o conjunto não era excepcional. Era alta, mas não o
suficiente para ser modelo. O corpo... bonito, esguio, muito bem-proporcionado, mas não
voluptuoso. E, ainda assim, algo nela o deixava sequioso desejo.
Deitou-se na solidão da cama, na qual passava o mínimo de horas, saficientes para manter a
saúde. E então? Se não sentia uma atração física decisiva... o que era? Além do mais, até agora
ela demonstrara apenas agressividade para com ele. E já tivera uma prova de que ela sabia ser
meiga quando falara com seu amgio Gary. Havia percebido ardor em seus olhos quando perdera
a paciência com ele, e a doçura do sorriso que endereçara a Smitty no restaurante. Ele daria um
braço para receber um sorriso como aquele.
Cruzou as mãos sob a cabeça, suspirando, e murmurou:

— Tenho pouca chance...
Brooke tinha má impressão dele. Mas sentia, de uma forma inexplicável, obscura, que a moça o
desejava, tanto quanto ele a ela.
Precisava convencê-la a conhecê-lo melhor. Tinha de alcançá-la, de qualquer jeito. Brooke
Matheny ainda iria compreender que Matthew James havia entrado na vida dela e que ia brigar
muito para não sair.
Ele sorriu, na escuridão. Se ela pensava que iria desistir facilmente, era melhor ter uma
conversinha com as irmãs dele...
Brooke não conseguia dormir, de jeito nenhum, justamente por não poder se livrar de um par de
sugestivos olhos verdes.
Enfim, cansada e nervosa de tentar descontrair-se, em vão, levantou-se e foi para a sala de seu
apartamento; ficou vendo um velho musical na televisão, enquanto continuava uma tapeçaria
iniciada dois meses atrás.
"Eu a desejo, Brooke!" A lembrança daquelas palavras tinha a mesma força, como se ele as
estivesse murmurando naquele momento, sentado a seu lado no sofá. Ela estremeceu e fechou
olhos. Não era difícil imaginar-se fazendo amor com Matt. O difícil era parar de imaginar-se
fazendo amor com Matt... Seu coração disparara, a boca ficara seca e todo seu corpo vibrar
empolgado pelo desejo.
Se ele conseguia esse resultado com ela, apenas com palavras., até mesmo com a lembrança de
suas palavras... imagine o que aconteceria se ele a beijasse!
Já o imaginara inclinando-se sobre.ela, aprisionando-lhe os lábios num beijo ardente, e tivera de
lutar para afastar a imagem! Gemeu e abriu os olhos para acompanhar Gene Kelly dançando
pelas ruas de Paris.
— Tenho de parar com isto! — disse em voz alta, tentando co mandar a imaginação traiçoeira.
O problema é que jamais estivera tentada em ir para a cama com Gary. Havia se convencido de
que poderia dominar os próprios impulsos e emoções, tais como paixão e desejo. E bastara
aquela arrogante Matt James... aquele lindo e sensual Matt James, para trazer esses sentimentos
à superfície!
Tinha de colocá-lo fora de sua vida. É claro que ele não desistiria depois daquele almoço.
Tentaria de novo, ela sabia!
Mas era um homem ocupado, possivelmente com inúmeras mulheres implorando por sua
atenção. Mais dia, menos dia, ele se cansaria de ser rejeitado!
Ficou deprimida só em pensar nisso. Então examinou a tapeçaria abandonada no colo e voltou
ao trabalho com energia. Era uma forma solitária de passar o tempo, mas ao menos fazia seus
dedos esquecerem que desejavam se afundar nos cabelos fartos de Matt.
Claro que ela poderia ignorá-lo, disse a si mesma, sem muita convicção; mas como ignorar
aquele desejo que ardia dentro dela, parecendo querer dissolver-lhe as entranhas, cada vez que
pensava naquele homem?

Capítulo 4

— É pra você, Brooke! — avisou Rhonda, entrando na saleta dos fundos da floricultura, o rosto
gordo vincado por rugas de sorriso.
— Quem é? — perguntou Brooke, mas já sabia perfeitamente de quem se tratava.
— Advinhe.
— Diga a ele que eu morri! — exclamou a moça e suspirou, desanimada.
— Você sabe que se eu dissesse, ele encomendaria uma coroa para o enterro e faria questão de
que você mesma atendesse o pedido... Vamos lá: ajacomo uma pessoa adulta e atenda ao
telefone.
Brooke tornou a suspirar, limpou a terra das mãos e contornou a mesa de trabalho até a extensão
telefônica.
— Fala Brooke Matheny.
— Olá, Brooke.
— Olá, sr. James — respondeu ela, gelada. — Em que posso ajudar o senhor?
Ele fez uma pausa, longa o suficiente para que ela imaginasse no que gostaria que lhe desse
ajuda. Depois, disse:
— Desejo encomendar umas flores.
Claro que sim! Ele encomendara flores todos os dias, nos últimos quinze dias! E fazia questão
de encomendá-las com ela! Mandara flores para a secretária, enviara flores para uma
arrumadeira do hotel que tivera bebê, remetera flores para uma hóspede que se machcara na
piscina aquecida do hotel, e até mesmo para sua irmã, no Missouri!
— Que tipo de arranjo o senhor deseja?
— esta é uma linda manhã de primavera. Creio que poderia encomendar algo apropriado.
Tulipas, talvez, alguma coisa viçosa e primaveril. Compreende?
— Sim, compreendo — respondeu ainda fria, anotando.
— Desta vez as flores são para uma pessoa muito especial, portanto não quero economia... Ela
precisa saber o alto valor que tem para mim.
Brooke engoliu em seco e sentiu um grande mal-estar. Claro que não estava enciumada! O leite
que tomara de manhã devia estar azedo e agora lhe fazia mal...
— Quer que mande entregar, ou o senhor prefere entregá-las pessoalmente?
— Envie, por favor.
— O que deseja que contenha o cartão? — e ela quase quebrou o lápis.
A linha ficou silenciosa por uns momentos. Depois, numa voz rouca e agradável, que fez os
olhos da moça se entrecerrarem, sonhadores, ele ditou:
— Lindas manhãs de primavera e a fragrância de flores me fazem pensar em você. Aliás, tudo
que é lindo me traz sua imagem à lembrança. Avise-me, a qualquer momento, quando me quiser
a seu lado: irei voando! Com carinho, Matt... Anotou tudo?
Oh, céus! Brooke olhou as linhas em branco e rezou para lembrar-se das palavras que não
anotara. Mas aquelas palavras estavam escritas no seu cérebro.
— Sim, anotei. Qual é o endereço?
— Onde é que você mora?
Brooke deixou o lápis cuidadosamente em cima da mesa e contou até dez. Depois contou até
dez de novo!
— Brooke? — perguntou Matt, quando o silêncio se prolongou demais: — Você ainda está aí?
A voz dela era muito calma:
— Essas flores são para mim?
— São, sim! Eu sei que não é muito.original enviar flores para uma florista, mas serei mais
criativo na próxima vez. Agora, que tal um jantar hoje à noite?
— Não vou jantar com o senhor hoje à noite e nem nunca, sr. James!
O plano era claro: quinze dias enviando flores, depois o envio de um arranjo para ela. Em
seguida, um romântico jantar a dois... Não! Ia se manter na atual posição e pronto!
— Brooke, quando vai desistir e sair comigo? — perguntou Matt, um sinal de exasperação na
voz.
— Quando porcos criarem asas, sr. James! — E desligou, ao perceber que ele começava a rir.
— Esse homem não entende um não! — exclamou Brooke, quase esbarrando na empregada,

que ouvira a conversa, atenta. — É tão arrogante que pensa que pelo fato de ser insistente,
terminarei por ceder. Pode esperar sentado!
— Meu benzinho — murmurou Rhonda, compadecida — , quando é que vai admitir que está
louquinha pra sair com ele, que não agüenta mais resistir?
Brooke encarou-a, boquiaberta.
— Eu estou... Você endoidou? Por que acha que sairia com aquele... com aquele... aquele
homem?
Rhonda deu risada e sacudiu os cabelos vermelhos.
— Vamos lá, Brooke. Há tanta reação química entre você e aquele homem que me espanta
ainda não ter havido uma explosão! Admita: só de ouvir o nome dele você fica vermelha como
um pimentão, toda excitada. E seus olhos brilham como duas estrelas.
— Ora, isso! Eu fico assim de raiva, sabia? Ele me deixa furiosa.
— Acho isso ótimo! — exclamou Rhonda. — Já era tempo de você pensar num homem com o
corpo e não com a cabeça, como sempre fez. O amor não é coisa que se pode planejar, como a
conta de um cliente, nem entra nas colunas de um livro-caixa. E casamento não é um contrato
como o de uma empresa...
— Quem falou em casamento? — disse Brooke, levantando as mãos, irritada.
— Você! Conversou comigo sobre casamento, sim, senhora! Diversas vezes... E então, quando
aparece um bom partido, um homem bonito e interessado, sai correndo como uma galinha
assustada! E sabe por quê? Porque ele tomou a iniciativa. Ou será porque ele não preenche
alguns requisitos malucos que você determinou para o "bom marido"?
— Não entendo porque me acham doida ao exigir bom senso e uma análise séria, antes de se
falar em casamento! — respondeu Brooke, cansada. — Um, de cada dois casamentos, é desfeito
porque o casal não pensou no futuro! Deveriam ter indicado quais eram seus objetivos a longo
prazo, concordado com as responsa-bilidades comuns e individuais, analisado as finanças do
casal e aspirações financeiras!
— Desse jeito, vai acabar me dizendo que eles precisam de tabelinha indicando os dias de irem
pra cama juntos!
— Acho que sim. Se for importante para o casal, deve haver até isso. Se todo mundo usasse
mais a cabeça do que os hormônios, existiriam menos casamentos fracassados.
— Claro! E maior número de aventuras fora desse casamento — replicou Rhonda, com ironia.
— Você, Rhonda Johnson, é uma romântica irrecuperável! Rhonda não se deu por vencida:
— Eu não me casei com o Bud por sua conta bancária ou pela seu Q.I. Me casei com ele
porque, cada vez que aquele homem me beijava, minhas pernas viravam geléia. Tenho sido feliz
durante dez anos e nasceram meus dois filhos. Claro que tivemos nossos arranca-rabos, mas foi
por amor que não desistimos. É isso que faz um casamento, Brooke Matheny!
Brooke apoiou os cotovelos sobre o balcão.
— Pelo menos admita que não devo sair com um homem com quem tenho certeza de que não
vou me dar bem. Matt James é o machão típico, o manda-chuva, o arrogante amo e senhor.
Nossa relação não tem a menor chance de dar certo.
Rhonda deu risada.
— Não adianta vir com essa conversa. Não me engana, sabe^ Você não deu nenhuma chance a
ele.
— Nem pretendo! — E ela pôs um ponto final na conversa. Logo depois respirou aliviada
quando a campainha da porta alertou para a chegada de um cliente.
— Deixe que eu atendo — disse Rhonda. — Mas o papo não terminou, Brooke Matheny.
— No que me diz respeito, sim. — E voltou-se para continuar o trabalho interrompido por Matt
James.
Rasgou a ordem de flores que anotara. Não tinha a menor in tenção de enviar presentes florais a
si mesma.
Relutante, admitiu que a mensagem ditada era bonita. Claro, para quem gosta desse tipo de
romantismo...
— Tudo bem, Carol. E o que mais? — perguntou Matt, paciente, devolvendo a sua secretária

outro documento assinado.
— Oh, é tudo... Ah, uma coisinha mais! — lembrou-se, tirando algumas folhas presas com
clipe e estendendo-as ao chefe. — Veio de Clarice Fielding, diretora da Fundação Nacional do
Coração. É uma cartaagradecendo a cessão do salão de bailes para o levantamento de fundos,
nesta sexta-feira, e uma lista dos comerciantes que concordaram em colaborar. Talvez ela tenha
enviado a lista para que o hotel faça uso dela em uma futura oportunidade...
— Talvez — concordou Matt. — Escreva-lhe uma carta em meu nome desejando sucesso no
baile, está bem?
— Sim, senhor. Algo mais?
— Não. Agora, vá almoçar.
— Estou morta de fome! E o senhor? Vai esquecer o almoço, de novo?
Ele sacudiu os ombros.
— Como alguma coisa mais tarde.
Matt encarou a pilha de documentos em cima de sua mesa, uma infinidadede assuntos variados
que exigiam toda atenção. Já deveria ter acabado com aquele trabalho, porém uma série de
queixas de hóspedes com respeito ao serviço de quarto durante a noite anterior o atrasara.
Depois de acalmar os hóspedes queixosos, precisara ter uma longa e séria conversa com a
equipe dos quartos, mal sobrando a oportunidade daquele telefonema a Brooke. Curiosocomo
uma rápida conversa com ela, mesmo desencorajadora, o animava!
Acho que está começando a ceder...!, pensou ele com um sorriso, mas depois disse a si mesmo
que estava sendo otimista demais.
Suspirou e já afastava a lista que a secretária lhe entregara, quando deparou com um nome.
Olhou pensativo para o papel, por um momento, e então um sorriso lento começou a se formar
em seus lábios.
— Ora... ora... — murmurou satisfeito. — Acho que eu também irei ao baile de sexta-feira!
Brooke ajeitou disfarçadamente o corpete do elegante vestido preto. Surpreendeu-se desejando
ter escolhido outra roupa. Por que raios, pensou amargurada, vestira-se de maneira tão
sofisticada para um baile benecifente no Amber Rose? Claro que teria de escolher algo elegante,
mas poderia ter optado por um vestido menos sedutor. Na verdade, ela nem sabia por que
resolvera ir. Sua primeira reação havia sido rejeitar o convite e apenas enviar uma doação pelo
correio.
E, no entanto, percebera-se voltada para sua aparência, dizendo a si própria que essa experiência
seria ótima para contatos comerciais, além da doação que ela pretendia fazer. De alguma forma
esperara encontrar Matt. E nem se vestira em função dele, óbvio nem queria nada com ele.
Mas na verdade tinha uma sensação de vazio no peito desde que percebera que ele não fora ao
baile no seu hotel.
— Não sei se já nos encontramos antes... — disse uma voz masculina e suave, atrás dela.
Brooke voltou-se e encarou um jovem alto, loiro, que se ajustava bem à voz.
— Não, creio que não — concordou ela com um sorrii amigável.
— Meu nome é Dustin Chandler.
— O meu é Brooke Matheny.
Dustin segurou-lhe a mão e apertou-a com calor, de maneira insinuante, soltando-a com
relutância. Seus olhos azuis, brilhantes ficaram um instante hipnotizados pelo V profundo do
decote, antes de se fixarem no rosto dela. Afinal o vestido não tinha sido má ideia... Seu sorriso
se ampliou conforme a conversa agradável prosseguia e ele informava que era advogado, que
chefiava o deparlamento jurídico de uma importante empresa e era solteiro. Era um bom partido
e Brooke não compreendia por que não se entisiasmava com a ideia...
Matt fumegou ao observar os dois muito próximos um do outro, rindo, no fundo do salão. Ele
havia planejado chegar bem antes, porém alguns hóspedes tinham atrapalhado. Entrara no sala
exatamente no momento em que Dustin Chandler se apresentava para Brooke. Parecia
interessadíssimo nela e isso não o surpreendia: a moça estava mais atraente do que nunca, com
os cabelos presos no alto da cabeça e o vestido preto.
Perdeu um instante se perguntando por que Brooke jamais sorrira para ele da maneira como
sorria para Chandler naquele instante. Será que era por ele ter ouvido a conversa com Gary no

restaurante? Ou seria por que Matt a ameaçava de alguma forma e Chandler não? Ele a faria
mais consciente da própria vulnerabilidade? Preferia pensar que esta última razão era a
verdadeira.
Nisso Matt sorriu e qualquer um que o conhecesse saberia que se tratava de um sorriso perigoso.
Sabia algo sério a respeito de Chandler: sua política amorosa!
Atravessou o salão com passos seguros. Brooke ria de algum dito jocoso quando do rapaz e ia
falar alguma coisa quando um braço forte, obviamente possessivo, passou por seus ombros nus.
Ela virou-se. surpresa, para descobrir que o braço era de Matthew James. Antes de conseguir
respirar ele pousou-lhe um delicado beijo nos lábios entreabertos.
— Não precisa mais se preocupar com seus filhos, querida — disse Matt um tom de voz
obviamente dirigido ao homem que falava com Brooke. — Acabo de falar com sua babá e ela
me disse que todos os quatro já estão na cama, dormindo. Os gêmeos deram uma trabalheira,
mas estão quietinhos agora.
Sem dar-lhe tempo de reagir às fantásticas palavras, voltou-se para Dustin.
— Como vai, Chandler?
O outro, o sorriso obviamente amarelecido, cumprimentou-o:
— Bem, Matt. E você?
— Não tenho queixas. — E dirigindo um sorriso derretido para Brooke. — Não posso ter
queixas.
Brooke inspirou fundo, preparando-se para dizer uma série desaforos, não se incomodando com
o escândalo que iria provocar, quando ele deu-lhe outro beijo e disse, dessa vez mais sério:
— Pronta para aquele drinque, amoreco? Dustin Chandler murmurou alguma coisa que o casal
nem ouviu e perdeu-se na multidão,
— Você enlouqueceu? — perguntou Brooke, entre os dentes, .palavras bem espaçadas. — Que
negócio é esse de "as crianças"?
— Seus quatro filhos — explicou Matt, sorrindo abertamente, sem o menor sinal de pedir
desculpas. — Eu bem que achei os gêmeos meio nervosos, não comentei?
Brooke percebeu, com atraso, que o braço continuava em seu ombro e tentou afastar-se. O braço
retesou-se, deixando-a sentir a força daquele corpo musculoso. Ela teve de lutar para respirar;
uma vez podia experimentar aquela sensação incrível que ele causava.
— Me largue, Matt! — E o que deveria ter sido uma ordem soou como um pedido.
— Me largue, Matt! — E o que deveria ter sido uma ordem soou como um pedido.
— Ora, ao menos você está me chamando de Matt! — respondeu ele, sem soltá-la. — Estava
imaginando o que fazer para que não me chamasse de sr. James!
— Vou chamá-lo por outros nomes — prometeu ela com voz baixa e ameaçadora. — Vou
chamar a segurança do hotel!
— Acho que não adianta! Eles trabalham para mim, lembra-se? — E ele deixou o braço cair ao
lado do corpo, mas sem se afastar dela.
Em lugar de seguir o primeiro impulso e fugir, ela levantou o rosto e encarou-o, indagando,
zangada:
— Agora pode me contar o porquê do teatrinho? Por que fazer Dustin Chandler crer que eu
tinha quatro filhos?
— Simples: num piscar de olhos ele a teria convidado para sair esta mesma noite! Mas
acontece que eu sei que o Chandler jamais sai com mulheres que têm filhos! Então, contei uma
mentirinha...
— Mentirinha? — repetiu ela, escandalizada. — O que o faz pensar que pode interferir em
minha vida social? Talvez eu quisesse sair com Dusiin Chandler. Parece um rapaz muito bom e
eu estava gostando da conversa.
— Ele não é homem para você, Brooke — disse Matt, sacudindo a cabeça e fazendo com que a
luz dos candelabros lançasse reflexos em seus cabelos. — Não se contenta com uma mulher só e
detesta crianças. Não é o marido que você procura.
Ferida pela premissa de que estava caçando marido, ela levantou ainda mais o queixo.
— Estou muito agradecida por se preocupar com meu futuro! — disse, com profundo
sarcasmo.
— Não precisa me agradecer — respondeu ele, macio. — Minha preocupação com seu futuro é

que eu esteja nele. Mas ainda nem disse que você está linda! Quando eu a vi, do outro lado do
salão, fiquei simplesmente tonto.
Oh, meu Deus! A moça engoliu em seco, lutando contra a moleza que tomara seu corpo ao ouvir
os elogios. Que outro homem olhara para ela daquele jeito?, pensou ao fitar aqueles olhos verdes que a examinavam de maneira inconfundível. Se, ao menos o relacionamento com ele não
significasse desastre, arrasando tudo a que se propusera!
— Venha comigo, Brooke, até meu apartamento — murmurou ele passando um dedo com toda
delicadeza pelo contorno de seu rosto. — Assim teremos liberdade para conversar sossegados,
para nos conhecermos melhor. Prometo que não vou pedir nada mais o a você... pelo menos por
enquanto.
Ele interpretava bem o papel de homem sincero; sentiu-se inclinada a aceitar o convite. Era isso
que mais a apavorava.
— Não, não! Eu...
— Por favor, Brooke!
Ela se perdeu na calidez dos olhos dele. Sua boca se entreabriu e mais tarde ela se perguntou se
diria um sim, quando foram interrompidos pela voz artisticamente suspirada de uma mulher:
— Matt, querido! Que alegria encontrá-lo! Clarice só faz elogiar o montante de sua
contribuição para a Fundação do Coração. Eu teimo em dizer: você é um homem muito
generoso!
Brooke odiou a ruiva peituda que puxou deliberadamente a cabeça de Matt para beijá-lo de
forma muito familiar. O sorriso dele, parecia um tanto forçado, mas conseguiu manter a boa
educação.
— Olá, Heather! Como está?
— Só, meu queridinho — respondeu ela fazendo biquinho. — E aonde você tem andado?
Matthew sorriu, discreto.
— Ocupado. E não me diga que tem sentido minha falta. Todo mundo sabe que você e Neal
Lipton estão se dando muito bem. — E, sem mais comentários, prosseguiu: — Quero apresentar
minha amiga Brooke...
Ao voltar-se, percebeu que ela desaparecera. Nem tentaria ir atrás. Ela fugira. De novo.
— Oh, aquela moça bonitinha com quem você conversava? — comentou Heather, com alguma
condescendência. — Ela sumiu por aí. Espero não ter interrompido nada sério.
A mão de Matt fechou-se, agressiva, dentro do bolso do paletó, mas ele nada demonstrou.
Nunca estivera tão perto! Tinha certeza de ter interpretado corretamente o olhar de Brooke,
quando Heather os interrompera. Ela simplesmente começara a aceitar a inevitável atração entre
ambos.
Agora é que não abandonaria a perseguição. Quanto mais a via, quanto mais falava com ela,
mais a desejava. E, além de tudo, jamais se declarava vencido sem lutar.
Brooke soltou uma praga quando a gota de sangue manchou sua tapeçaria. Depois de verificar
que o dano era reparável colocou o trabalho de lado, pois não conseguia se concentrar nele.
Recostou-se no sofá e fechou os olhos. Há muito deveria estar dormindo, mas não conseguia
paz desde que chegara, horas atrás, do baile.
Sempre que seus olhos se fechavam, a imagem de Matt tomava conta de seu cérebro. Nos olhos
verdes dele, percebia o desejo, tal como no sorriso íntimo, na boca bem desenhada. Ainda sentia
aqueles lábios sobre os seus, aquele braço sobre os ombros nus e aquele corpo rijo, cálido,
contra o seu.
Gemendo, Brooke tentou exorcizar as imagens, embora soubesse que aqueles fantasmas não a
abandonariam. O que existia nele que a perturbava tanto?, perguntou-se. Ela era tão competente
no controle das próprias emoções... Ninguém, jamais, a perturbara tanto.
Naquele instante encontrou a resposta: Matt a perturbava porque, precisamente, a fazia perder o
controle.
O sucesso que conseguira com a Floricultura Copo-de-Leite não tinha sido fácil. Primeiro,
precisara declarar a própria independência para depois tratar de montar a loja. Nathan Matheny,
o pai dela, o homem rico e dominador, planejara a vida inteira da filha, desde o momento em
que nascera. Resolvera que ela iria dirigir sua empresa, em Denver. Determinara o que ela iria

estudar, selecionara seus amigos, contando-os nos dedos, aprovava ou não os namoricos e a
encorajava a passar todo tempo livre nos escritórios da firma, para aprender como "manejar as
rédeas", segundo ele dizia.
Brooke desconhecia o momento exato em que proclamara sua independência. Na verdade fora
um processo gradual, escolhendo ainda na faculdade alguns cursos de sua predileção e, mais
tarde, descobrindo que seu primeiro namoro tinha se baseado no fato de ela ser filha de um
homem rico.
Naquele instante ela interrompera a carreira que iniciara ao lado do pai, por dois anos, e se
recusara a dar mais um passo naquele sentido.
Nos últimos três anos planejara cada passo, como o pai a ensinara, com a diferença de que era
ela quem resolvia tudo. Escolhia os objetivos, os amigos, os namorados. Manter o controle
tornara-se uma obsessão.
Matt James fora o primeiro homem a ameaçar esse controle. Havia explodido em sua vida sem
aviso prévio, sem ser convidado, interferindo em seus planos minuciosamente eleborados. E a
fazia sentir-se, novamente, insegura e vulnerável. Ele: um home arrogante, ditatorial, machista.
E, mais do que tudo, atrevia-se em fazê-la arrepiar-se com anseios inconfessáveis que controlara
tão bem durante tanto tempo!
Ele não faria isso a ela, resolveu, colocando os pés no chão e sentando-se ereta no sofá. O sr.
Matthew James não entraria em sua vida para arruinar-lhe os planos.
“Sou dono de meu destino, capitão de minha alma”, lembrou-se ela dos versos de Henley, tão
penosamente decorados na faculdade.
E apesar de tudo isso, quando o sono a venceu e fechou os olhos, a última coisa de que se
lembrou foram os beijos suaves de Matt. E, ao acordar, na manhã seguinte... mais uma vez
foram as primeiras lembranças.
Nem mesmo um banho frio conseguiu arrefecer o calor que aqueles beijos despertaram em seu
íntimo.

Capítulo 5
Brooke havia terminado de desembrulhar os delicados enfeites de mesa em porcelana, quando
Christy LovelI, uma de suas funcionárias de meio período, chamou-a ao telefone.
Ela não soubera de Matt desde a noite do baile e começava a crer que o vazio em seu estômago
era sensação de alívio. Então, por que estava lutando contra o palpitar do coração? Como sou
idiota, pensou. E disse à moça:
— Por favor, diga a ele que não estou.
Christy pareceu desanimada.
— Desculpe, Brooke. Mas eu já disse que você estava. É o dr. Wagner.
Brooke sentiu-se relaxar, mas tentou esconder de si própria o desaponto.
— Oh, nesse caso eu atendo. Obrigada, Christy.
A empregada sorriu e dirigiu-se ao cliente recém-chegado. A loja estava movimentada naquela
tarde. Brooke levantou o fone do gancho:
— Olá, Gary!
— Oi, como vai? Ocupada?
— Nunca para você, Gary. Que há de novo?
— Pensei que talvez quisesse jantar comigo, hoje. Estou de plantão e poderemos ser
interrompidos, de novo. Mas acho que vale a pena arriscar...
— Por mim, tudo bem! — sorriu Brooke. — Onde nos encontramos?
— Que tal no Smitty's? Ando sonhando com o hambúrguer de lá!
Brooke soltou um gemido.
— Que houve, Brooke? Está doente?
— Não, não! — E, embora pensasse furiosamente, não encontrou nenhuma desculpa para não
ir. Suspirou, resignada. — Tudo bem. Às oito, está bem?
Brooke pendurou o fone e voltou-se com meio sorriso nos lábios. No instante seguinte o

coração pareceu subir garganta acima.
— Que veio fazer aqui?
Inclinado sobre o balcão, Matt sorriu para ela.
— Vim vê-la. Aceita almoçar comigo?
Brooke olhou o relógio de pulso com uma sobrancelha erguida.
— Passa da uma. Já almocei.
— Ah... Nesse caso, jante comigo.
Ainda bem que ele não ouvira o telefonema. Respondeu:
— Não posso. Já tenho compromisso.
— Amanhã, então?
— Não!
— Brooke — inconscientemente, ele afastou os cabelos castanhos que lhe caíam sobre a testa
—, por quê?
Ela suspirou e enfiou as mãos nos bolsos do avental amarelo-claro que usava na loja.
— Você é um homem de negócios, Matt. De sucesso. É claro que compreende sensações
premonitórias... intuição...
— Claro.
— Tenho a sensação de que sair com você só levará ao desastre. Talvez seja bobagem, talvez eu
não tenha razão, mas continuo tendo essa intuição.
— Ainda acha que sou o homem que a levará a fazer coisas estúpidas?
Ela engoliu em seco, lembrando-se do primeiro encontro. De fato, aquele homem provocava
emoções incontroláveis e ela não queria, não podia admitir isso.
— Desculpe, Matt. Tenho fregueses esperando.
Ele se inclinou sobre o balcão, pegou-a pela nuca, puxou-a para si e beijou-a na boca, longa e
profundamente. O primeiro pensamento dela, escandalizado, foi a respeito dos fregueses e
empregadas. Que coisa pouco profissional ser beijada dentro da própria loja, e daquela maneira!
O segundo pensamento foi de que Matt beijava como um anjo... ou seria como um demónio?
Quando ele a soltou suas pernas tremiam como varas verdes, seu rosto estava afogueado e se ela
abrisse a boca o coração pularia fora.
— Nos veremos em breve, Brooke Matheny — murmurou ele, os olhos verdes faiscando mais
do que nunca.
E, depois disso, saiu tranquilamente, antes cumprimentando os presentes, com a maior boa
educação do mundo.
— É esse o homem de quem você anda fugindo, Brooke? — murmurou Rhonda, bem a seu
lado. — Chefinha, está precisando, de um psiquiatra. Se eu não fosse casada sairia correndo
atrás dele, só na esperança de cair alguma migalha pelo caminho. Que homem!
Brooke olhou-a nos olhos e respondeu apenas com um gesto de cabeça; simplesmente não
conseguiria falar. Estava sem voz. Virou-se, aprontou um perfeito sorriso falso e passou a
atender uma freguesa que desejava uma planta para uma amiga doente.
Passou-se meia hora antes que ela conseguisse ir ao banheiro, onde se encostou na parede,
sentindo que mal conseguia se manter em pé. Pegou uma revista e abanou o rosto que parecia
pegar fogo, como, aliás, seu corpo inteiro.
Gary esperava por Brooke na frente do Smitty's, pontualmente.
— Você entrou no estacionamento bem atrás de mim — comentou ele, quando ela se
aproximou, beijando-a no rosto. — Como passou o dia?
— Sem novidades... — respondeu ela, mentindo com um sorriso, recusando-se a pensar no
beijo que Matt imprudentemente lhe dera. — E como foi o seu?
— Longo. E vai continuar sendo longo — respondeu ele, algo azedo. — Estou com uma
paciente em trabalho de parto, neste instante andando pelos corredores da maternidade. Se tudo
correr bem dará tempo de comermos um hambúrguer.
— Tem certeza de que não é preferível abandonar a Medicina e ir para a firma de seu pai? —
brincou ela, sabendo que Gary jamais abandonaria a profissão.
Ele amava ser médico, e ela seria uma excelente esposa de médico, pensou com resignação,
sabendo que nunca passaria de amiga dele. Mas ao menos seria uma profunda amizade, tratou

de se consolar, enquanto entravam no restaurante.
A recepcionista era uma jovem morena de brilhantes olhos azuis e uma minissaia muito justa.
Brooke quase chamou-a de Lynette, até perceber que não se tratava da mesma mulher. A
garçonete, toda amabilidade e sorrisos, levou-os a uma mesa para dois, num canto afastado do
restaurante, ideal para uma conversa durante o jantar. As demais mesas, exceto as duas vizinhas
à que eles ocuparam, também estavam com casais entretidos em conversar.
Falando com Gary, toda animada, enquanto estudava o já conhecido cardápio, Brooke não
prestou atenção ao recém-chegado da mesa ao lado. Afinal seria impossível isolamento num rest
aurante tão concorrido.
— Bem... acho que vou pedir filé de frango com molho de salsa. E batatas fritas... — disse ela à
garçonete, fazendo um rápido cálculo mental entre calorias e colesterol.
— Magnífica escolha! — proclamou uma alegre voz na mesa ao lado, uma voz muito familiar.
— Eu sempre peço isso quando venho aqui.
Brooke voltou-se lentamente para encarar o sorridente Matt, na cadeira oposta da mesa ao lado,
a pouco mais de um metro de distância.
— Estou contente que tenha aprovado — respondeu ela, com frieza, como se jamais o tivesse
visto na vida.
Então, quer dizer que ele escutara a conversa dela ao telefone Bandido! Voltou-se para Gary,
com ar de indiferença pelo atrevimento de um desconhecido, e indagou:
— E você, o que vai pedir?
Olhando com estranheza para Brooke e Matt, Gary terminou por sacudir os ombros e fez o
pedido:
— Quero um hambúrguer Smitty's. E Coca. Você també Brooke?
— Uma Coca-Cola dietética, por favor.
— Não precisa se preocupar com as calorias. Você está ótima — comentou Matt, atrevido, bem
alto.
Quando Gary franziu a testa, Brooke sacudiu a cabeça.
— Não ligue, Gary! Deixe. Apenas o ignore. Talvez ele vá embora — disse ela quase gritando
as duas últimas palavras, tão nervosa que estava.
— Não conte com isso, meu amor — veio a resposta da outra mesa.
A garçonete que atendera Gary e Brooke dirigiu-se a Matt, cumprimentando-o pelo nome. Com
ele distraído pelo cardápio, Brooke começou uma conversa com Gary.
— Como vai a pequena Jeffry? Está respondendo à medicação?
O sorriso de Gary respondeu antes de suas palavras.
— Está, sim. Melhorou muito. Parece que vai conseguir.
— Que bom. Eu sei como você estava preocupado por ela.
Ele aquiesceu, empurrando para trás a mecha de cabelos ruivos que havia caído sobre a testa
ampla, — Confesso que estava com medo, neste caso. Tínhamos tentado quase tudo e ela só
piorava. Infecções em crianças tão pequenas são muito traiçoeiras!
Embora a garçonete já tivesse se retirado, Matt permanecia quieto, o que Brooke agradecia aos
céus, embora não acreditando num silêncio muito prolongado. Tinha a curiosa sensação de que
podia sentir seu olhar e até mesmo sentir a respiração dele. Precisou reunir toda sua força de
vontade para não se voltar e olhá-lo. De repente notou que passava os dedos nos lábios, como se
ainda quisesse sentir seu beijo. Ficou ruborizada e pousou a mão no colo.
Por que ele estava fazendo isso com ela?, perguntou-se quase em desespero. Até quando
resistiria?
Percebendo que Gary falava com ela, obrigou-se a prestar atenção e responder apropriadamente.
O médico ia dar uma mordida no hambúrguer quando se interrompeu para perguntar:
— Então, você conseguiu aquela conta? A do Amber Rose Hotel?
Brooke arregalou os olhos, com um pedaço de frango no meio da garganta, sem saber se o
engolia ou não. Sentiu que Matt se empertigara na cadeira, aguardando sua resposta. Ela bebeu
alguns goles de Coca-Cola para empurrar o frango direto para baixo.
— Ainda não sei... — terminou por responder, colocando o copo na mesa. — O administrador
do hotel é um verdadeiro vigarista. É difícil predizer o que fará no momento seguinte.

Ela sabia que estava se arriscando com esse tipo de desafio, mas em vez da reação esperada,
Matt simplesmente riu. Lançando um olhar rápido até a outra mesa, Gary sacudiu a cabeça em
simpatia.
— É... encontra-se gente de todos os tipos, por aí. — Depois de comer mais um pedaço de seu
sanduíche, perguntou, sorrindo:
— Foi ao baile beneficente, na última sexta?
— Claro que foi — respondeu Matt, aparentemente satisfeito.
— Já a viu naquele vestido preto, decotado? Ela fica um estouro com ele!
Brooke desta vez engasgou e voltou-se para encarar Matt, sabendo que essa era a resposta ao
"vigarista" de momentos atrás.
— Booke, conhece esse sujeito? — perguntou Gary, obviamente controlando-se com esforço.
Ela voltou-se para ele e, passando o braço por cima da mesa, segurou-lhe a mão.
— Creia, Gary, nunca o vi mais gordo!
E isso não era mentira...
— Quer que chame o gerente? — ofereceu Gary.
Mas não foi necessário. A estrondosa voz de Smitty cruzoi o salão, naquele exato momento.
— Matt! O que está fazendo por aqui, de novo? Pensei que estivesse livre de você por uns
tempos.
— Olá, Smitty! Seu sanduíche de churrasco não estava de tdo mau. Mas não ouvi o boi mugir,
quando mordi.
A réplica de Smitty foi uma risada e uma tapona no ombro de Matt, quase jogando-o no chão.
Brooke adorou vê-lo tratado assim. Era divertido! Foi quando os olhos azuis de Smitty a
perceberam.
— Olá, srta. Matheny! O que faz aí nessa mesa? Por que não está com Matthew? O último
encontro foi tão ruim que não quis repetí-lo? — perguntou com toda falta de tato, examinando
Gary descaradamente.
— Brooke, você disse que não o conhecia!
— Eu disse que não o vi mais gordo... — corrigiu ela. E voltando-se para Smitty com um
sorriso cálido: — Não dá para estapeá-lo de novo, Smitty? Em meu lugar?
O gerente riu.
— Eu sabia que iria gostar de você, quando me foi apresentada — E,. olhando Gary
significativamente, disse para a moça: — Pode voltar de novo aqui com o Matthew, garota.
Pode deixar que eu e os rapazes damos um jeito nele!
Brooke quase gemeu. Apesar da atitude agressiva do homem para com Matt, percebeu que ele
defendia e protegia o amigo.
— Pai, estão precisando do senhor na cozinha — chamou Sherry, outra das bonitas filhas do
dono do restaurante.
Smitty aquiesceu e, cumprimentando os presentes, deu um tapinha delicado no ombro de
Brooke ao passar por ela, enquanto dizia, com sua voz tonitruante:
— Então, vamos nos ver de novo e logo!
— Certo, Smitty — respondeu Brooke, sem olhar para Gary.
— Eu deveria tê-la avisado que Smitty tomaria meu partido, comentou Matt, da outra mesa.
— Um momento: um dos dois se incomodariam de contar o que está realmente acontecendo
aqui? — implorou Gary, com um ar cômico de desamparo.
Matt levantou-se, cruzou o pequeno espaço entre as mesas e estendeu a mão para Gary, — Olá!
Sou Matíhew James, o administrador vigarista do Amber Rose Hotel. Você deve ser amigo de
Brooke, o dr. Wagner. Prazer em conhecê-lo.
Pego de surpresa, Gary pegou a mão estendida e olhou o outro homem nos olhos.
— Você não me é desconhecido...
— Já me meti na conversa de vocês dois, uma outra vez — replicou Matt, alegre. — O dia em
que ela pediu sua mão, lembra-se?
— Acho que vou vomitar! — gemeu Brooke, escondendo o rosto nas mãos.
Começando a perceber o engraçado da situação, o médico disse:
— Então, vocês se conhecem? Que tal sentar-se conosco para a sobremesa?
— Gary! — engasgou-se furiosa, não podendo dizer mais nada.

Ele sorriu amplamente, abrindo os braços.
— Que vou fazer, Brooke? Pelo jeito, ele não vai desistir!
Matt já havia puxado uma cadeira, o que obrigou-o a sentar-se encostando a coxa na de Brooke.
Ela se espremeu do outro lado, tentando evitá-lo. Começou a imaginar se deveria jogar o resto
do refrigerante no colo dele, para esfriá-lo um pouco. Mas ele acabaria por achar tudo
engraçadíssimo, como fazia com tudo.
Tanto Gary quanto Matt encontraram uma porção de coisas divertidas para conversar nos quinze
minutos seguintes. Furiosa, a moça tinha vontade de afogar os dois, aos pouquinhos.
— Sabe, Brooke? — disse o médico, rindo gostosamente. — Eu gosto desse sujeito.
— Ótimo! — respondeu ela, tão fria quanto uma pedra de gelo. — Então, namore com ele!
— Na verdade, ela é uma ótima pessoa — disse Gary muito sério. — Muito senso de humor,
personalidade gentil, um coração doce. É meiga e carinhosa...
— Eu sei — assegurou-lhe Matt, animado.
A moça observou-o, para ver se era ironia. Como ele concordava, se desde o primeiro encontro
ela havia sido agressiva, ácida e desagradável? E desde quando ela era assim? Por que sempr e
ficava daquel jeito na presença de Matt?
O bip de Gary passou a chamá-lo.
— Deve ser a sra. Gianelli que resolveu ter o bebê — disse ele, desligando o aparelho. —
Desculpe-me de novo, querida.
— Tudo bem — ela conseguiu sorrir. — Tomara que o parto corra cem por cento!
— Não espero complicações — Inclinou-se para beijá-la no rosto. Depois estendeu a mão para
Matt. — Foi um prazer conhecê-lo James.
— Eu também, Wagner — respondeu o outro, os olhos brilhando de sinceridade. — Acho que
nos veremos de novo.
Gary olhou para ele e para Brooke, rindo.
— Estou certo disso!
Quando Gary se afastou, ela pegou a bolsa, dizendo:
— Foram momentos maravilhosos — o sarcasmo era evidente, — mas tenho de ir embora.
— Vou levá-la.
— Obrigada, mas não é preciso. Estou de carro.
— Então, eu a seguirei.
— Não.
— Brooke — Matt colocou a rnão em seu braço, fazendo-a piscar com o calor do toque —,
temos de conversar. Deixe-me segui-la até sua casa e então conversaremos. Quando
terminarmos, prometo que se me mandar sair de sua vida... eu obedecerei. Me acredite: meu ego
já agüentou o máximo de rejeição de que era capaz.
Ela o olhou por um tempo, depois falou num murmúrio, como se tivesse medo do que ia dizer:
— Você promete? Vai parar de me perseguir se deixá-lo colocar seu ponto de vista?
— Se for seu desejo.
— Está bem.
Seus dedos fizeram uma discreta carícia no braço dela, quando retirou a mão.
— Obrigado.
Enquanto dirigia de volta à casa, a moça ia rezando para não estar cometendo a pior besteira de
sua vida.
Brooke trancou a porta do carro e virou-se para olhar o carro esporte que a seguira, enquanto ele
estacionava. A porta abriu-se como uma asa de flamingo e Matt surgiu, movimentado-se com
agilidade e elegância.
— Que carro é esse? — indagou ela, curiosa.
— Um Porsche Carrera 6 — respondeu ele com um orgulho juvenil na voz. — Não é lindo?!
— É, sim!, — respondeu Brooke, honestamente.
— Quer dirigi-lo, algum dia?
Uma vez que tinha a intenção de pedir que ele desaparecesse sua vida, não respondeu,
concentrando-se em pescar as chaves do apartamento na bolsa ampla.
— Bonito! — murmurou Matt, conforme entraram na espace sã sala.

— Obrigada — respondeu Brooke, perguntando-se por que sala parecia ter ficado menor com
ele ali. — Quer tomar algo? Um café, ou coisa mais forte?
— Não, obrigado — disse ele, sentando-se no sofá e afastando a tapeçaria que ela estava
bordando. — Lindo!
— Obrigada — agradeceu ela, sentando-se na poltrona à frente, cruzando as pernas e alisando a
saia sobre os joelhos.
— Aquela tapeçaria na parede... é sua, também? Ela voltou a cabeça para a tapeçaria de floral.
— Sim.
— Você é ótíma! Marsha, uma de minhas irmãs, também gosta de bordar. Ela sempre está
envolvida com algum novo trabalho manual, um mais bonito do que o outro.
— Você me disse que tinha quatro irmãs? — ela enveredou pelo novo assunto, sabendo que
apenas estava atrasando o momento da verdade.
— Sim — e ele sorriu de uma forma que também lhe contou que ele sabia estarem adiando a
discussão mais importante.
— Tem sobrinhos?
— Merry e Graham têm um garoto de três anos, Lucas, e estão esperando outro para dentro de
uns meses. Marsha e Tim têm gêmeas. Parece que é coisa de família.
— Vocês devem ter reuniões numerosas!
Ele riu.
— É são divertidas. E você? Tem irmãos?
Ela cabeça.
— Não, sou filha única.
— Seus pais ainda vivem?
Ela lembrou-se de que ele havia perdido os pais. Como deveria ser difícil para uma família
jovem perder os pais, assim de repente! E sentiu-se culpada pelos desencontros entre ela e o pai.
— Sim, moram em Denver.
— Vocês são de Denver?
— Sim... Vim de lá para abrir minha floricultura.
— Por que Nashville?
— Visitei uma vez — respondeu ela, levantando os ombros — e gostei.
— Veja só! Temos isso em comum, Brooke.
— Viver na mesma cidade não é lá grande coisa, em termos de uma relação mais séria.
— Mas é um começo — replicou ele. — Talvez a gente encontre um montão de outros motivos,
se dermos a chance. Percebeu como, de repente, estamos conversando gostoso por minutos a
fio? Por que não nos damos outra oportunidade, amanhã à noite, por exemplo?
— Ora, Matt!
— Eu sei! Você pressente desastre só em pensar que estará comigo. Minha intuição é de que
será fantástico. Por que não chegamos a um meio-termo?
— Meio-termo?
— Isso mesmo — disse ele, entusiasmado. — Me dê apenas um mês Se ao fim de um mês
ainda achar que não damos certo, é só me avisar... Imediatamente eu saio da sua vida e entro no
seu passado.
— O que... o que incluiria esse mês? — indagou ela, cautelosa.
Ele nem hesitou:
— Nada que você não queira incluir. Passaremos algum tempo juntos, saindo para encontros
marcados regularmente, nos conhecendo aos poucos. Confirmando se existe algo mais que uma
simples atração física entre nós.
Ela inclinou a cabeça, achando difícil admitir que, realmente, sentia forte atração física por ele.
Mas... afinal, era verdade. É claro que ambos o sabiam.
— Tudo bem. Você tem um mês. Mas quero avisá-lo: sou uma mulher ocupada. Não estou
garantindo nenhum número de noites livres para você.
— Concordo. Eu também sou um homem ocupado. Mas a gente dá um jeito. Brooke, você não
vai se arrepender.
— Acho que já estou arrependida — murmurou ela, fazendo uma careta. — Eu deveria estar
furiosa com você por ter arruinado meu jantar com o Gary.

— Situações desesperadas requerem soluções desesperadas! — proclamou ele, com ar muito
sério.
— Creio que você poderia ter dito: homens arrogantes escolhem soluções arrogantes —
corrigiu ela, não conseguindo evitar uma doçura involuntária na voz.
Ele a reprovou com a cabeça.
— Brooke, isso é maneira de começar qualquer tipo de relação?
Relação? Essa palavra a fez saltar da poltrona, o pânico tomando conta de todo seu ser. Tratou
de reagir:
— Bem... Matt, foi uma noite interessante... — Precisava acabar com aquela situação, e bem
depressa.
Ele se levantou lentamente.
— Quer dizer que... acabou?
— Exatamente. — E caminhou resoluta para a porta.
— Ainda é cedo.
— Estou cansada.
— Eu a verei amanhã à noite? Ela abriu a porta.
— Sim.
— Venho buscá-la às sete. Tudo bem?
— Tudo bem. — Ela sentia necessidade de ficar a sós e pensar — Boa noite, Matt.
Ele parou a apenas poucos centímetros dela.
— Boa noite, Brooke.
E no segundo seguinte ela estava em seus braços e os lábios dele nos dela. Atordoada pelo
súbito ataque, ela lembrou, tardiamente, da rapidez de Matt. Depois, não conseguiu pensar em
mais nada, perdida na profundidade daquele beijo devastador.
Se Brooke tivesse alguma dúvida de que ele era diferente dos demais homens que conhecera,
sua resposta àquele beijo lhe teria contado a verdade. Seus sentidos desligararn-se de tudo ao
redor, sons, luzes, para se concentrarem na língua de Matt dentro de sua boca, em sua própria
língua. Seu corpo explodia em sensações incontroláveis, o coração disparado, as pernas virando
chumbo derretido, a pele queimando em cada lugar onde ele a tocava. Seus seios se avolumaram
naquele processo enlouquecedor.
Nunca tinha sentido isso com nenhum outro homem. Jamais!
Quando por fim, ele interrompeu o beijo para respirarem, continuou a segurá-la contra si, com
força, afundando a cabeça em seus cabelos. Os braços a enlaçavam firmemente, fazendo-a per
ceber que ele também ficara excitado. Com os joelhos moles, ela só conseguia se pendurar no
pescoço dele, buscando afoitamente voltar a respirar.
Por fim, Matt se afastou, conservando as mãos em seus ombros, talvez para firmá-la, talvez para
equilibrar a si próprio. Ela abriu os olhos e encarou-o, com a respiração ofegante.
— Brooke... — começou ele, para se interromper em seguida. Com a ponta dos dedos, lhe
acariciou delicadamente o rosto. — Boa noite... — murmurou, então.
No instante seguinte já havia saído do apartamento.
Brooke fechou a porta lentamente e se encostou nela por uma verdadeira eternidade. Então,
arrastou-se até o sofá e desabou nele. Ficou sentada por muito tempo, tensa, deixando-se por
fim cair recostada. Gemeu, desamparada. Tinha cometido um terrível engano ao concordar com
o prazo de um mês. Enfiara-se numa verdadeira armadilha.
0 banho gelado só remediou as sensações de Matt. Suas condições mentais continuavam
miseráveis. Ele pensava que sabia o quanto Brooke o atraía, fisicamente. Julgara que apenas
sentia desejo por ela, mesclado ao prazer de sua companhia, até mesmo com provocações e
arrufos. Jamais esperara que um beijo de boa noite pudesse levar seu cérebro a um turbilhão tão
violento que o obrigava a rever seus sentimentos.
Jamais tivera de lutar por uma mulher, para conquistá-la, como acontecia com Brooke. Ele
acreditara que esse desafio era metade da atração que sentia por ela.
A perspectiva de uma ligação duradoura não o amedrontava, pelo contrário. Já partira da
premissa de que algum dia encontraria a mulher com quem gostaria de dividir o resto de sua
vida, ter filhos, uma casa, um lar. Mas nunca pensara que uma mulher pudesse virar sua vida de

cabeça para baixo.
Ele estava vestindo uma camiseta e parou no meio do movimento, enqunato umraio parecia
passar-lhe pelo cérebro.
Brooke seria essa mulher?
Logo ela, cujas idéias pragmáticas sobre casamento a coisa mais ridícula que ele jamais ouvira?
Brooke, que respondera tão apaixonadamente ao seu beijo, mesmo depois de tanta resistência?
De repente, ele sorriu: Brooke Matheny poderia ser a mulher que ele buscara durante toda a
vida. E tinha um mês pela frente para convencê-la de que era o homem da vida dela.
Quando saiu do quarto, em busca de algo para comer, estava assobiando: aquele mês teria de ser
organizado com o máximo de cautela e eficiência!

Capítulo 6
O Amber Rose Hotel fechou contrato para fornecimento de flores e decoração com a Copo-deLeite no dia seguinte. Brooke falou com a responsável pela contratação, que conseguira
convencê-la de que Matt não exercera nenhum tipo de pressão: ganhara a concorrência pelos
preços e serviços oferecidos.
Ficou surpresa, para dizer o mínimo, quando um entregador chegou com uma longa caixa
branca, usualmente associada a rosas de hastes compridas.
— Ele está enviando flores de outra floricultura? — pergunto-lhe Rhonda, intrigada.
— Eu disse que esse sujeito é estranho! — respondeu, sem precisar ler o cartão para saber quem
mandava o presente.
— Não vai abrir?
Brooke suspirou e desamarrou a fita dourada; levantou a tampa e soltou uma risada. Ele havia
enviado rosas de hastes longas, porém rosas de chocolate. Como sabia que ela adorava
chocolate?
Quando Rhonda espiou por sobre o ombro de Brooke, suspirou:
— Godiva, a mais cara marca de doces. Oh! Céus, parecem um pecado!
Murmurando algo ininteligível, Brooke abriu o envelope esperando uma mensagem romântica.
Havia apenas duas palavra “Amor, Matt", escritas com traço muito masculino.
Ela engoliu com dificuldade, de novo. Amor? Quem havia mencionado essa palavra no contexto
do relacionamento? Matt não a amava mais do que ela a ele. Desta vez ela gemeu mentalmente.
Será que estava se apaixonando por ele?
Não, decidiu, de repente. Não podia estar se apaixonando por Matthew James. Não se permitiria
tamanha asneira. E ele também não estava apaixonado por ela. Provavelmente usava tal palavra
com a mesma facilidade com que dava ordens a seu pessoal do hotel.
Cuidadosamente guardou o cartão na bolsa, sem pensar por que o guardava.
— Brooke! Quer fazer o favor de relaxar um instante? Eu não vou te atacar em público, juro!
Ele falara meio na brincadeira, meio exasperado.
Enrubescendo, sem graça, ela ajeitou-se na cadeira e disse:
— Não pensei que fosse me atacar!
— Então relaxe, moça. Você está tão tensa que imagino a dor que sente no pescoço.
Brooke inspirou fundo, procurando seguir o conselho. Estava rígida desde que Matt a pegara no
apartamento. Era como se estivesse certa de que algo sairia errado e quisesse estar preparada.
"Você é uma idiota!", disse para ela mesma, enquanto largava a alça da bolsa que estava
totalmente enovelada em sua mão, enquanto esperavam pelo início da peça teatral.
Ela nem imaginava como Matt conseguira entradas para o mi sical Gatos, que viera direto da
Broadway para Nashville.
Suspirou quando as luzes se apagaram e a cortina se abriu, deixando-se envolver pelas músicas
conhecidas, apesar de não ter visto a peça. Nem sequer pulou quando Matt, já no segundo ato,
encostou o braço dele no seu. Durante o espetáculo ela conseguiu perder-se na dança e nas
músicas, esquecendo há quanto tempo estava ao lado de Matt. Mas lembrou-se no intervalo,

sentindo-se enrijecer, para exasperação dos dois.
Ela cantarolava Memory, enquanto Matt dirigia o Porsche até o restaurante onde jantariam.
— Bonita canção, não é? — perguntou ele.
— Linda. Uma das minhas favoritas.
— Gostou do musical?
— Muito — admitiu ela, surpresa de que ele precisasse perguntar. Puxou a saia e cobriu os
joelhos; virou-se para ele. — E você?
— Adoro teatro e musicais. Costumo comprar assinaturas para todas as temporadas. Até cursei
dramaturgia, na faculdade, pensando em talvez tornar-me ator.
Ela arregalou os olhos.
— E por que não foi em frente?
— Na época em que meus pais morreram eu já havia percebido que tinha mais ambição do que
talento. E me pareceu, depois do ocorrido, um tanto... frívolo. Escolhi algo mais sólido, que me
deixasse tempo para ajudar as gêmeas quando fosse necessário.
Brooke ficou silenciosa durante todo o jantar, imaginando como aquele drama teria influído na
personalidade de Matt. Observou como a iluminação esculpia o rosto dele a cada instante. Ela
só percebeu que ele parara de falar, e se limitava a admirá-la, quando os olhos dele se
prenderam aos seus. Ficou profundamente embaraçada. Quando terminaram o jantar, segurou a
bolsa com mãos trêmulas, para saírem.
— Foi uma linda noite, Matt — disse, quando ele estacionou o carro em frente ao prédio onde
morava. — Não precisa se incomo...
— Economize as palavras. Eu vou entrar — e abriu a porta para ela em seguida.
Levou-a pelo braço até a porta do apartamento e a rudeza de seus gestos denunciava a raiva.
Que estava acontecendo?
Quando entraram ela jogou a bolsa numa poltrona e voltou-se para ele.
— Tudo bem. Qual é seu problema? — perguntou.
Ele ficara imobilizado junto à porta de entrada, duro como uma estátua.
— Meu problema? — perguntou ele, incrédulo.
— Sim, você está obviamente com raiva.
— Claro que estou — disse, enfiando os dedos entre os cabelos, enquanto a outra mão ficava
no bolso da calça. — Você concordou em me dar um mês, Brooke! Para nos conhecermos
melhor, sabermos se teríamos um futuro comum pela frente...
— E não acabamos de passar a noite juntos?
— Claro que sim! — E ele riu sem vontade. — Com você se comprimindo contra a porta de
meu carro, como se eu fosse Jack, o estripador, e você a próxima vítima!
Aborrecida consigo própria, e com ele por fazê-la notar as besteiras que fizera, conseguiu dizer:
— Você está certo. Desculpe-me. É que você... você me deixa nervosa. — E ficou vermelha
porque percebeu que se comportava como uma adolescente.
Ele segurou-lhe o rosto com ambas as mãos, num gesto delicado, aproximou a boca da sua, um
tímido sorriso bailando incerto.
— É disto que tem medo?
Os lábios de Brooke tremiam, impedindo que falasse. Logo a maciez dos lábios de Matt
afogaram aquele tremor.
— Jamais tema, meu amor! Não tenha medo disto... ou de mim. — murmurou ele, afastandose um pouquinho, por instantes.
Brooke só conseguiu gemer baixinho, enquanto mergulhava naquela corrente de desejo. Era isto
que ela temia. A cada vez era mais inacreditável, a cada vez mais avassalador. Viciava. E mesmo
agora seu corpo já pedia mais... Ansiava por mais. Queimava de desejo.
Como em resposta, a mão de Matt abandonou seu ombro e desceu pelas costas até os quadris,
aprendendo suas curvas e pressionando seu corpo contra o dele. Ela não podia deixar de sentir o
volume contra o baixo-ventre, assim como não podia impedir o coração de bater enlouquecido.
O contato íntimo fez Matt também gemer profundamente, apertando-a ainda mais, a língua
penetrando em sua boca repetidas vezes enquanto seus corpos ondulavam em ritmo, em perfeita
sintonia.

Um segundo antes que fosse tarde demais e ambos .cedessem ao apelo sexual, Matt afastou-se,
o corpo todo tremendo, revoltado por aquela violência contra seus anseios.
— Me mande parar, Brooke — ordenou ele numa voz tão rouca que se tornara irreconhecível.
— Pa-pare — murmurou ela, obediente, embora quisesse pedir que ele continuasse, sempre!
— Está bem... — concordou ele largando-a e tendo de segurá-la de novo ou ela iria ao chão.
Não desviava os olhos dos dela. — Sempre que você mandar... eu pararei.
De repente, parecia que ele iria abraçá-la e recomeçar tudo de novo. Ela cerrou os punhos e os
dentes, para resistir.
— Boa noite, Brooke! Eu telefono amanhã...
Quando ele abriu a porta ela chamou:
— Matt!
— Sim? —-ele parou, mas não se voltou.
— Você... não quer desistir de nosso compromisso? Esta primeira noite não foi exatamente um
sucesso... Você ficou furioso comigo e...
— Você me deu um mês, Brooke. — E, voltando-se, mandou um beijo silencioso a ela, depois
fechou a porta atrás de si.
Bem... tinha uma só palavra e a manteria. Mas não iria para a cama com ele. Se os beijos
abalavam em sua força de vontade, que diria se transasse com ele. E não se apaixonaria por
aquele homem. Definitivamente, não!
E ela começou a rezar, porque seu corpo ainda tremia descontroladamente sob o efeito daquele
beijo.
Duas semanas se passaram antes da confrontação seguinte. Beijaram-se furiosamente,
alucinados, até que um deles conseguira dar o "basta". Depois disso, saíram uma porção de
vezes, indo a restaurantes, concertos, teatros e, quando não saíam telefonavam-se longamente,
falando de seus pontos de vista sobre política, religião, gostos e desgostos.
Até uma sexta-feira em particular, quando a Floricultura Copo-de-Leite pareceu enlouquecer.
Dois colégios estavam com festa de formatura programada. Flores, flores e mais flores. E um
casamento incrementado, com total decoração da igreja, ameaçaram-na de histeria. Felizmente
tudo correu bem, até mesmo a recepção para a qual acabou convidada.
Às onze da noite Brooke caiu na cama, quase morta de cansaço e realização.
O telefone tocou e ela atendeu maquinalmente, sabendo que era Matt.
— Onde você esteve? — berrou ele, do outro lado da linha.
— Co... como? — espantou-se Brooke.
— Telefonei pra loja: você não estava. Telefonei para sua casa você não estava. Aonde foi? —
continuou ele, aos gritos.
Brooke sentiu o sangue subir-lhe à cabeça.
— Não é da sua conta, Matt James! Não tenho de lhe dar satisfações!
— Ah, não, é? — protestou ele. — E nosso trato por um mês? Foi para você sair com outros
homens?
Ela não acreditava em seus ouvidos. Era incrível.
— Matthew James, para início de conversa, não lhe dei exclusividade alguma. E se não gosta
assim, até logo e passe bem!
— Ah-ha! — gritou ele, quase explodindo o ouvido dela. — Então é isso? Está procurando uma
forma de quebrar o compromisso? Mas não vai funcionar, Brooke Matheny. Sua busca por um
marido perfeito vai ter de esperar mais duas semanas!
E bateu o telefone, deixando-a furiosa.
— Ora seu... Seu... Oh! — e quase esmigalhou o próprio telefone ao desligá-lo.
Nunca ficara com tanta raiva de um homem em sua vida, nem mesmo de seu pai! Mas ela não
soubera, desde o início, que Matt só iria lhe trazer problemas e dores de cabeça?
— Você quer mais duas semanas... — disse e, num repente, apanhou o travesseiro e socou-o na
parede. — Pois terá, sr. Matthew James. E depois disso pode pular no rio ou no charco mais
próximo, que são lugares para o sapo que você é!
Satisfeita de tê-lo descrito com precisão, foi até a cozinha afogar o resto do nervosismo num
sorvete de chocolate coberto com chantilly.

O copo atingiu a parede, esborrifando bebida por todos os lados, porém sem quebrar. Matt ficou
furioso. Com o copo, porque não quebrara. Com Brooke. Afinal ela desaparecera por umas dez
horas, sem dar sinal de vida.
Mas estava mesmo é furioso consigo próprio. Estragar quinze dias de paciente conquista, de
relação cuidadosa, de uma crescente confiança mútua! Que imbecil!
Não é que estivesse representando nos últimos quinze dias. De fato, perdera a cabeça ao
telefone. É claro que ficara preocupado e... bem, não gostaria que Brooke passasse os poucos
dias que restavam para ele na companhia de outro homem.
Mas bem que poderia ter encontrado outra forma, mais civilizada, para dizer isso a Brooke...
E tudo servira para confirmar o temperamento quente de Brooke. Imaginou como ele ficaria
quando, terminados os trinta dias, descobrisse que jamais pensara em abandonar a conquista. As
duas semanas anteriores tinham servido somente para aprofundar a fascinação que sentia por
ela. Nada o faria desisitir nem o acalmaria, até que Brooke parasse de lutar e concordasse em ser
dele.
Mas tudo isso caía por terra diante da besteira de há pouco. Foi até a cozinha, abriu o armário e
tirou um pacote de batatas fritas. Arrebentou-o e se pôs a comer rapidamente. Precisava
consertar a bobagem que tinha feito e trataria disso quanto antes.
Só não lhe passou pela cabeça que o dano poderia ter sido irreparável.

Capítulo 7

Brooke não sabia como tratar Matt no encontro de sábado à noite, marcado há dias. Não haviam
se falado desde o infeliz telefonema da noite anterior, mas quando ela abriu a porta encontrou-o
sorrindo e apressado. Num instante estavam no carro e, nos seguintes vinte minutos, num
restaurante onde as ostras e camarões eram deliciosos, mas a música, decididamente, doía nos
ouvidos.
Mal terminaram o jantar, levou-a à pista de dança, e o conjunto, felizmente, iniciou uma música
mais lenta.
— Bem?... — indagou ela logo que o nível da música permitiu.
— Como assim? — respondeu ele. Ela o afastou um pouco,
— Ainda estou esperando por uma explicação... por desculpas... Você não tinha o direito de...
— Você está absolutamente certa e eu peço desculpas — murmurou ele, descendo a mão às
costas dela até a cintura.
Brooke sentia um frio na espinha e pigarreou;
— Bem... e a explicação?
— Sem explicações. Apenas me desculpe.
Ela franziu a testa e procurou olhá-lo nos olhos.
— Matt! Por que vo...
Ele cobriu-lhe a boca num beijo lento, sem perder o compasso da música. Ela jamais fora
beijada numa pista de dança e também nunca pensara quão sensual isso poderia ser.
Inconscientemente ela se aproximou mais e sentiu o quanto ele a desejava.
O conjunto passou, sem parar, da música lenta para um rock-pauleira estrondoso, salvando-a do
maior vexame. Mais um pouco e Matt poderia tê-la deitado no chão sem que ela resistisse.
— Vamos embora — pediu Matt, trêmulo de ansiedade.
Mal haviam entrado no carro, ele puxou-a de novo para sí e voltou a beijá-la intensamente. Suas
línguas realizaram uma verdadeira dança dentro das bocas. Matt enfiou uma das mãos por baixo
do suéter branco, tocando a pele suave do estômago. O contato era insuportavelmente delicioso.
Aos poucos a mão foi subindo em busca de um seio e Brooke gemia por antecipação. Um tapa
fez um estrondo no teto do carro esporte e os dois deram um salto de susto, enquanto ouviam as
risadas de três jovens que passavam ao lado. Matt levou a mão à maçaneta, mas Brooke

segurou-o pelo braço.
— Deixe, Matt! Vamos embora, por favor.
Ele soltou a respiração, ajeitando os cabelos desalinhados.
— Está bem... — E seus olhos brilhavam como se estivesse com febre.
A viagem foi breve e, assim que parou, ele desceu e abriu a porta para ela. Nem bem ela se
encontrava fora do carro, Matt enlaçou-a, e beijou-a, apaixonadamente. Extasiada pela
intensidade daqueles beijos, Brooke só conseguia retribuir. Por fim, com um braço em sua
cintura, levou-a até a porta do apartamento. Ela nem conseguia segurar a chave e ele precisou
ajudá-la.
— Você... quer entrar para um café? — e mal Brooke o convidara, percebeu o erro. Da maneira
como as coisas iam...
— Se eu entrar — disse ele, segurando-lhe o rosto entre as mãos —, só sairei amanhã pela
manhã. É isso que você quer?
Ela arregalou os olhos.
— Não! Eu...
— Então, não entro. — E já ia se afastando quando voltou a abraçá-la, apertando-a contra si. —
Brooke, as próximas duas semanas... Deixe que sejam minhas. Só minhas!
— Não existe outro homem, Matt.
Como poderia existir?, pensou e vislumbrou alívio, agradecimento, vitória?, nos olhos dele.
Matt exclamou:
— Obrigado! Eu telefono amanhã. — E voltou-se para ir embora.
Ainda estava de costas quando Brooke disse, baixinho:
— Matt, passei a tarde decorando uma igreja. E, depois, fui a um casamento.
Ele parou, voltou-se e ia correr para ela quando Brooke fechou a porta do apartamento,
rapidamente, e encostou-se nela.
— Oh, Brooke. Você não tem amor-próprio? Que está fazendo consigo mesma? — murmurou,
quase em lágrimas.
Nos quinze dias que se seguiram, Rhonda observava a amiga, que de vez em quando ficava com
o olhar perdido ao longe, sorrindo. E dessa vez não resistiu. Teve de mexer com ela.
— Então, já se convenceu de que está louca por aquele homem sensacional? Difícil isso, não?
Se a sua cara não é a de uma mulher apaixonada, não me chamo Rhonda!
— Não seja ridícula! — E Brooke avermelhou até a raiz dos cabelos. — Amanhã é o último dia
do trato. Não planejo vê-lo depois disso.
A outra só faltou dobrar-se em duas, de tanto rir.
— Você ainda acha que pode planejar um casamento perfeito? Mesmo depois deste último
mês?
— Sim, ainda acho que é melhor cada um dominar suas próprias emoções — respondeu
Brooke, desafiadoramente.
Sorrindo, voltou para o trabalho. Mal Rhonda saíra da sala, o sorriso morreu em seus lábios.
Não seria fácil romper com Matt. E tinha de admitir: também não queria romper. Mas precisava
pôr o juízo lugar e dar um jeito em si mesma. Não podia continuar arriscando tudo que havia
planejado fazer de sua vida. Não podia deixar que ele tomasse conta do seu futuro. Tinha de
acabar tudo e sabia como.
Longe dos olhos, longe do coração. Não era assim o velho ditado? Precisava afastar-se daquele
homem.
Matt telefonou tarde, quando ela já se preparava para deitar. Os proprietários do Amber Rose
haviam chegado para uns acertos e a reunião prometia ser quente.
— Então, como foi tudo?
— Uma longa reunião. — O cansaço era evidente na voz dele. — Mas tudo bem.
— E quando você vai começar a construir o seu hotel fazenda?
— Ken e eu ainda estamos planejando. Precisamos levantar capital, interessar investidores no
projeto.
Brooke pensou no pai e imaginou que ele se interessaria por um rapaz ambicioso e competente
como Matt. Ambos tinham muito em comum. Que besteira! Apresentar Matthew a seu pai

dificilmente seria uma forma para deixar de vê-lo.
— Você gosta de Gayle Malone? Amanhã ela vem cantar aqui. Que tal vir jantar comigo., para
vê-la?
— OK, combinado...
— Por falar nisso, toda diretoria está convidada para cepção, domingo, no Opryland Hotel,
nosso maior competidor. Gostaria que você fosse comigo.
Domingo? Pelo jeito, ele esquecera que a noite seguinte sei última do prazo de um mês,
determinado por eles.
— Hein?... Bom, amanhã a gente vê isso. Está bem?
Matt ficou calado por tanto tempo que Brooke imaginou se teria adivinhado os pensamentos
dela. Por fim, respirou, aliviada, quando ele respondeu:
— Está bem. Amanhã a gente conversa. Às sete, então?
— Às sete... Vou encontrar com você aí. Não tem sentido vir me buscar, se é para voltarmos
para o Amber Rose.
Queria estar com seu carro à mão para escapar, quando dissesse tudo a Matt. Ele hesitou alguns
segundos, depois concordou:
— Espero você no meu apartamento.
— Certo. Boa noite...
Ela desligou o telefone sabendo que sua noite seria maldormida, perturbada pela imagem dele.
— Você é minha, Brooke Matheny! — murmurou Matt, depois de desligar o telefone.
Começou a andar de um lado para outro, no apartamento. Havia percebido: ela pretendia
terminar tudo no dia seguinte. Fechou a mão e esmurrou a própria perna. Será que Brooke não
percebia? O que tinham em comum era importante demais. E queria fugir, só por causa daquelas
cismas esquisitas, daquele medo irracional de amar!
Ele mesmo tomara mais banhos frios, naquele mês, do que adolescente ao descobrir o sexo. Era
evidente que ela correspondia à atração ardente que ele sentia.
Mas não ia sair da vida de Brooke sem obrigá-la a admitir que também estava envolvida, que
sabia que os dois, juntos, eram pazes de criar um mundo mágico. Mas que fugia!
— Você é minha, Brooke Matheny! E amanhã, a esta hora, vai ficar sabendo disso com a maior
certeza.
Ela parou junto à porta do apartamento de Matt, ajeitando o vestido de seda rosa. Tratara de
cuidar o melhor possível de sua aparência e sabia que estava mais bonita do que nunca. Talvez
quisesse apenas deixar uma lembrança profunda, para sempre...
— Lembre-se do plano — disse a si mesma. — Lembre-se do plano.
Ia ser fria e firme. Sabia exatamente o que dizer.
Quando a porta se abriu Brooke percebeu que as coisas não seriam fáceis. Algo no rosto de Matt
prenunciava tempestade.
— Entre, Brooke.
Ela entrou examinando tudo. Evitara aceitar, antes, qualquer para subir. Agora deliciava-se com
o bom gosto demonstrado. Até que os olhos pousaram na mesa de jantar arranjada para dois e
perguntou, preocupada:
— Vamos jantar aqui?
— Sim, se você não se incomodar de a gente mesmo servir. Achei melhor ficarmos sossegados.
Ela engoliu em seco, querendo dizer que se incomodava, sim. Mas nada saiu. Imaginara um
jantar no restaurante do hotel, acompanhado por uma conversa inócua, seguido pelo show de
Gayle Malone, depois do qual diria as palavras já preparadas. Ele adivinhara, pensou ela. Ele
adivinhara!
O jantar estava soberbo, é claro. Medalhões de vitela, vegetais cozidos no vapor, um vinho
excelente, que na certa deveria custar mais caro do que sua conta telefônica. Mas ela se limitava
a movimentar a comida no prato, sem comer nada.
— Isto é ridículo! — explodiu Matt, jogando o guardanapo em cima da mesa e fazendo com
que Brooke deixasse cair o garfo.
— Que houve?

Ele levantou-se e apontou o sofá, com o queixo.
— Vamos sentar ali e acabar logo com isto.
— Mas... eu nem terminei de jantar.
— Nessa velocidade não terá terminado ainda na próxima quinta-feira. Vamos, Brooke, diga o
que veio me dizer.
Tivesse ele planejado ou não, o fato é que a ordem enérgica fez com que ela endireitasse os
ombros e soltasse a língua.
— Não gosto de ser empurrada, Matt.
Ele abriu um sorriso, deixando-a surpresa. É que ele não sabia se relacionar com aquela garota
amedrontada que entrara em seu apartamento. Preferia a Brooke brigona e encrenqueira.
— Vamos lá: ponha pra fora. Por que não aceitou o convite para domingo?
— Talvez seu calendário esteja falho... — E os olhos castanhos se reduziram a quase duas
fendas. — Eu lhe dei um mês, Matt. E o prazo termina hoje, então...
Ele não agüentou mais e interrompeu-a:
— Foi um mês tão terrível assim?
— Não, Matt... — O rosto dela suavizou-se. — Não foi...
Ele se aproximou e brincou com os cabelos dela que caíam sobre o ombro, murmurando:
— Tivemos noites memoráveis, nos divertimos muito...
— Brigamos muito, também.
— Você e eu temos personalidade, Brooke. Seria impossível não termos atritos.
— Você gosta de discussões?
— Não. — E ele ficou feliz quando percebeu que o corpo dela estremecia ao ser tocado por
seus dedos. — Mas pessoas de sangue quente, com opiniões... É inevitável.
Inclinou-se e roçou seus lábios nos dela. Depois sussurrou:
— Pessoas que bastam tocar-se e já se incendeiam...
— Matt! — implorou ela, ofegante. — Pare, por favor!
— Brooke, não vou parar. Desculpe, mas tenho de fazer isto...
Desta vez ele a beijou sem restrições, como gostaria de tê-la beijado desde a primeira vez. Sua
língua era insaciável, insistente, tocando cada centímetro da boca macia. Suas mãos não
paravam, movimentando-se, percorrendo as curvas, parando apenas para apertar, aprofundar
uma carícia, provocar. De repente ela baixou as defesas e passou a corresponder totalmente ao
beijo ardente a língua enroscando-se na dele.
Brooke não o interromperia, desta vez. Matt soergueu-a e recolocou-a no sofá, deitada. Ela
inclinou a cabeça para trás, os olhos cerrados, oferecendo o pescoço aos beijos dele.
Os delicados botões do vestido cederam sob os dedos nervosos e, abrindo-o, Matt descobriu a
combinação delicada que havia por baixo. Os mamilos dos seios bem-feitos estavam rígidos,
duros de excitação. Matthew baixou a cabeça e beijou um deles, molhando o tecido. Então,
sugou-o, sôfrego, por cima do cetim, fazendo Brooke gemer roucamente, quando os dentes
mordiscavam a protuberância delicada. Ela se retorceu de prazer, cerrando os punhos.
Então, ele ergueu a combinação e expôs os seios firmes, redondos, que estremeciam a cada
toque amoroso.
— Tão lindos! — murmurou, e afundou o rosto entre aqueles dois perfeitos montes.
Brooke tentou acariciá-lo por baixo do paletó.
— Quero tocar em você — pediu ansiosa.
— Eu quero que você me toque — replicou ele, levantando a cabeça e fitando-a nos olhos. —
Faça amor comigo, Brooke, por favor!
Ela hesitou só uma fracão de segundo.
— Sim, Matt! Sim... — suspirou, por fim.
Gemendo de impaciência, Matt levantou-se, tomou-a nos braços e, a passos rápidos, carregou-a
para o quarto.

Capítulo 8

Brooke passou um braço pelo pescoço de Matt e, quando colocou-a em pé, ao lado da cama, ela
já havia desfeito o laço da gravata e desabotoado a camisa em boa parte. Percebera, quando ele
perguntara sobre o último mês, que não seria possível ir adiante seus planos.
Em algum daqueles últimos dias eles haviam se apaixonado, não quisera admiti-lo, mas, ao
compreender, pelos olhos de Matt; que era capaz de feri-lo, soube também que isso significava
ferir a si mesma. Profundamente.
Quando Brooke Matheny percebia que fora vencida, ela se entregava de todo coração.
Encarando-o, terminou de desabotoar a camisa de seda e jogou-a ao chão. Ele inspirou
lentamente quando ela correu as mãos por seu peito, parando na altura do estômago. Jamais
havia visto tão belo exemplar de masculinidade.
Embora os músculos possantes vibrassem ao toque de suas mãos Matt nada fazia se não fitá-la
profundamente com aqueles verdes quase desafiando-a a continuar.
Ela não deixou de sorrir quando desabotoou-lhe a calça, soltou o cinto e desceu cuidadosamente
o zíper, desafogando aquele volume intenso que ele desenvolvera. Aí, enfiou as mãos por dentro
da calça, fazendo Matt estremecer.
— Ah, meu anjo! Se soubesse como a desejei nestas semanas todas! Não tenho mais controle.
— Então, mostre-me o quanto me deseja — desafiou ela. Depois, fugiu do abraço, rápida,
deixando que o vestido caísse ao chão, junto das roupas dele, que terminara de se despir. Ele
percorreu com os olhos o corpo esguio, ansioso, parcialmente vestido, examinando-o e
aprovando o que via. Ela levantou a mão para se livrar das roupas íntimas.
— Não. Isso eu faço... — impôs ele, aproximando-se. Segundos depois, puxou-a contra si,
fazendo-a soltar um suspiro trémulo de prazer ao sentir seu corpo inteirinho contra o dele, sem
nada entre ambos. Ele era tão quente! Ela se esfregou felinamente contra aquele corpo
musculoso, antes de esmagar os seios duros de excitação incontida contra o peito forte.
Desejava-o com uma intensidade que a espantava.
— Eu quero você, Matt — disse, numa voz, que ela própria não reconheceu.
O mundo virou às avessas e ela viu-se deitada embaixo dele, na cama. A boca e as mãos de Matt
moviam-se alucinadas por seu corpo, parando apenas para provocar um prazer inacreditável,
antes de se deslocar para outro ponto e repetir o mesmo propósito. Broke mal respirava,
arqueando o corpo sob seus toques, o cérebro revoluteando conforme a delicadeza se
transformava em ardor. A respiração dele tornou-se quente, entre suas coxas, e seus lábios se
movimentaram e ela gritou, surpreendida e maravilhada.
— Eu não... não posso esperar mais — gemeu ele.
Ela respondeu-lhe com as mãos, com movimentos de corpo incitando-o a tomá-la toda. Matt
levantou o corpo e no instante seguinte estava profundamente dentro dela.
Loucura! Fome! Desvario! Sentiam-se fora do mundo, em outra dimensão, onde só os dois
existiam. Por fim, uma explosão de cores, sons, e ela se derreteu em seus braços. A consciência
foi voltando, tão lentamente a ponto de ela se perguntar quanto tempo havia ficado inerme.
Estremeceu e apertou o corpo contra o dele.
— Com frio? — perguntou Matt, puxando um edredom por cima dos dois. — Melhor, agora?
— Hum... hum — resmungou ela, em resposta.
Ele riu, feliz, e perguntou, carinhoso:
— Vai dormir?
— Hum... hum — e negou com a cabeça.
No entanto, piscou e no instante seguinte estava adornlecida.
Quando ela abriu os olhos, Matt estava sentado ao lado da cama, numa poltrona, apenas de
jeans, e a iluminação discreta era dada por um abajur ao lado. Seu olhar era distante e ele
parecia profundamente mergulhado em pensamentos.
— Matt?
— Olá!
— Parece que perdemos o show...
Ele forçou um sorriso.

— Não tem importância...
Ela o examinou ainda por instantes, depois disse:
— Matt... eu gostaria de ir com você àquela recepção no domingo.
Ela esperou que ele se abrisse num sorriso. Em vez disso um vinco se aprofundou em sua testa e
ele se levantou, com as mãos nos bolsos da calça.
— Algo errado, Matt?
Embora ainda se recusando a olhá-la de frente, ele respondeu por fim:
— Quando você chegou, esta noite... Veio para um rompimento, não foi?
— Sim... — respondeu ela, calma. — Mudei de ideia.
Os olhos cor de esmeralda por fim fixaram-se nela.
— Por quê?
Ela sabia a resposta correta mas ainda não queria dizê-la.
— Não quero parar de vê-lo — respondeu, usando parte da verdade.
— Brooke, eu... — e ele parou, não sabendo o que fazer com as mãos. E voltando a enfiá-las
nos bolsos: — Eu sabia o que você faria, hoje, e não queria saber dessa solução. E foi então
que... que eu... hummm...
— Resolveu me seduzir? — ajudou Brooke, puxando o edre-dom para cirna do pescoço. —
Resolveu me encantar com sexo? E acha que eu fiquei totalmente maravilhada com sua
estupenda performance, que nem sei mais o que escolher?
Foi a vez dele ficar vermelho. Rebateu, sério:
— Eu não colocaria nessas palavras! Ela riu, com suavidade.
— Matt, eu lutei contra você todo este mês. Mas você venceu. Estava certo quando disse que eu
não conseguiria fugir de nossa atracão. Se eu já não tivesse chegado a essa conclusão, não teria
víndo pra cama com você.
— Então... — E os olhos dele brilharam. — Então, você não quer mesmo acabar tudo comigo?
— Realmente não!
— E não teme mais o enorme desastre que vai acontecer se ficarmos juntos?
Ela hesitou na resposta. Não acreditava numa vida tipo "felizes para sempre” ao lado de Matt.
Mas queria aproveitar o melhor até que terminasse. Deixou cair a coberta e, nua, levantou-se,
foi para junto dele e abraçou-o.
— Vamos perder tempo discutindo o futuro quando temos ta presente ainda por viver esta
noite?
— Agora é você quem está usando sexo para desviar a minha atenção! — protestou ele.
— Alguma objeção? — desafiou ela.
E instantes depois ele a deixava sem fala.
Quando Brooke entrou no apartamento, sexta à noite, o telefone já estava tocando. Claro que era
Matthew.
— Sabe que horas são? — explodiu ele, no momento em que disse alô.
— Sim, Matt, eu sei. Avisei que chegaria tarde. Tivemos de desmontar toda decoração do
casamento e levar pra loja.
Brooke, eu não gosto de você andando por aí tão tarde da noite!
— Não é tão tarde assim...
— Onze e quarenta e cinco — disse ele, alteando o tom de voz, novamente. — E você sozinha,
naquela lata velha que é o seu carro!
— Não há nada de errado com meu automóvel — retruco a moça, procurando se controlar.
— Eu o dirigi ontem, lembra? Mal se arrasta pelas ruas.
— Matt — ela respirou fundo —, olha, me desculpe se o preocupei. Mas estou bem... OK?
Houve uma longa pausa do outro lado.
— Eu estive gritando com você, não foi?
— Sim.
— Me perdoe — disse ele, com profunda humildade.
Ela ficou surpresa com tanta meiguice. As coisas pareciam estar erradas entre eles, desde que
haviam se tornado amantes. Davam a impressão de se esconder um do outro, cuidadosamente.
— Tudo bem, Matt. Olhe, estou muito cansada...

Até parecia que só se comunicavam honestamente quando iam para a cama.
— Eu a verei amanhã à tarde?
— Sim, claro.
— E, Brooke...
— O quê?...
— Eu me preocupo porque a amo. Não suportaria se alguma coisa acontecesse a você.
Ela ficou estatelada um momento, depois disse:
— Eu o amo também, Matt.
— Boa noite, Brooke!
Ela murmurou a resposta e só desligou depois de perceber que ele o fizera. Matt a amava e ela o
amava. Deveria estar feliz.
E no entanto tinha medo. Duas pessoas podiam se amar e, apesar disso, se machucar. Como ela
descobrira com o homem que a amara antes. Só que ele amava ainda mais o dinheiro de seu pai.
Nem sempre o amor bastava. Particularmente quando as duas pessoas envolvidas estavam
andando, uma em torno da outra, com o máximo cuidado. Até quando eles poderiam sufocar os
temperamentos que, um dia, explodiriam e transformariam o amor em cinzas?
Nem bem Brooke fechara a porta do apartamento e Matt a envolveu num intenso abraço,
beijando-a como louco.
— Diga de novo, Brooke, Repita!
Ela sabia bem do que se tratava.
— Eu te amo, Matt.
Ele afogou-a em novo ataque de beijos.
— Oh, querida! Eu queria ouvir e ver seu rosto, seus olhos, quando o dissesse. Repita, por
favor.
Ela ria. Ele parecia um menino encantado com as palavras.
— Eu te amo, Matt. Eu te amo! Eu te...
E foi sufocada de novo pelos beijos. A mão de Matt deslizou por baixo do suéter, foi subindo
pelas costas e, mudando o rumo, engolfando um seio. Brooke arqueou o corpo
inconscientemente para se entregar mais àquela mão, arrepiando-se quando os dedos
contornavam o bico túrgido, mais sensível do que nunca.
— Eu quero você, Brooke. Eu preciso de você!
Como resposta ela o levou para o quarto.
Tirando rapidamente as próprias roupas, Matt foi muito mais lento com as dela. Ocasionalmente
parava e, com as mãos e com a boca, a cobria de carinhos. Ajoelhando-se a sua frente, tirou a
calça comprida, abraçou-a e pressionou o rosto contra seu estômago, lambendo a pele em torno
do umbigo. Segurando-a pelos quadris, deixou rastros fogosos de beijos até a parte de cima da
calcinha. Apoiando-se com ambas as mãos nos ombros dele, Brooke inspirou profundamente e
fechou os olhos. Não sentia pudor nem recato, nem mesmo quando ele enfiou os dedos por
dentro da calcinha e abaixou-a, retirando-a. Aquele era Matt, seu Matt!
Permanecendo ajoelhado, o rapaz deslizou as mãos, sábias, pelas pernas esguias, suaves. Então,
a mão direita foi até o montículo coberto de pêlos crespos, sedosos e castanhos, depois deslizoiu
entre as coxas. Brooke prendeu a respiração quando um dedo mergulhou na ardente umidade de
seu profundo desejo.
— Eu te amo! — murmurou ele, com voz embargada.
— Eu amo vo... Oh, Matt! — gemeu, rouca, quando a boca dele tomou o lugar da mão.
Perdendo todo o controle, Brooke gritou sons inarticulados, enquanto seu corpo se agitava
convulsivamente contra o rosto de Matthew. Seus joelhos amoleceram e ela caiu, sendo
amparada por ele que a deitou no carpete. Em seguida, antes que ela tivesse noção do que
acontecia, levantou-lhe os quadris e penetrou-a profundamente. Sem pausa começou a se mexer
ritmadamente, enquanto as mãos apertavam-lhe as nádegas. Ainda se recuperando do prazer.
Brooke sentiu tudo aflorar de novo, o desejo retornando com toda força. Seus movimentos
tornaram-se tão alucinados e sequiosos quanto os dele. Então, ambos estremeceram, juntos, num
glorioso final.
Depois de permanecerem imóveis, arfantes por minutos, ele comentou:

— É inacreditável! Cada vez fica melhor!
Ela sorriu; sabia exatamente do que ele falava.
— Matt?
— Sim...
— Estamos no chão!
— É... — disse ele, embaixo dela.
— Há uma confortável cama, aí ao lado.
Ele riu.
— Acha que teremos forças pra chegar lá?
— A gente podia tentar... Vamos?
— Vamos: um... dois... três! — E ficou em pé, ajudando-a a levantar-se e cair sobre a cama.
— Mais confortável, não?
— Você é sabidínha, Brooke!
— Sim — disse ela, rindo — Eu sei...
— Modesta, também... — brincou ele.
— E não se esqueça que sou linda!
— Ahn... Não, dá: é só olhar para você e a gente vê isso — disse ele, subitamente sério.
Ela enrubesceu. Claro que tinha sido brincadeira. Sabia que não era linda, embora atraente. Mas
não seria ela a convencê-lo do contrário. Ficaram quietos por um tempo. Por fim Matt levantouse sobre um cotovelo.
— Planos para amanhã?
— Não... Estou livre.
— Melinda deve chegar para as férias de verão — lembrou ele. — Eu imaginei se não
poderíamos sair, os três, para jantar.
— Pode ser que Melinda prefira ficar só com você.
— Isso, nem por sonho! Ela sempre precisa de um aliado quando está comigo. E faço questão
que você vá. Afinal, logo Melinda terá de arranjar amigos da idade dela. Não quero que se
interponha entre nós. Claro que eu terei de aprovar as novas amizades.
— Claro! — respondeu ela, muito séria.
Quando Matthew James amava alguém, tornava-se superprotetor. Isso era frustrante e
gratificante, ao mesmo tempo.
— E seus pais, Brooke? Tem sabido deles?
Brooke ficou na defesa e respondeu:
— Falei com mamãe no último fim de semana. Não perco o contato com eles.
— Você deveria fazer as pazes com seu pai... A família é algo muito importante.
.— Sei disso, Matt. — Mais uma vez ela reprimiu o impulso de protestar, para não criar
confusões. Até quando aguentaria? — Melinda sabe que temos saído?
— Não — Matt sacudiu a cabeça. — Só mencionei à Merry que estava saindo com alguém
muito especial, mas não entrei em detalhes, ainda. Quero que você conheça minha família
quando Melinda voltar, em agosto.
Ele fazia planos para dez semanas à frente. Ela disse que pensaria no caso e ao ver que isto não
o satisfizera, pediu:
— Beije-me, Matt.
Ele aquiesceu, sem discutir, e envolveu-lhe um seio, com uma das mãos.
— Não pense que vai continuar fugindo assim, madame!
— Assim como monsieur? — E ela escorregou a mão para a face interna da coxa dele.
— Me distraindo com... Oh! — E os olhos dele se fecharam. — Diabos! Eu vou te mostrar
agora mesmo!

Capítulo 9

— Oi, Brooke! Oi, Matt! — gritou Melinda, mal saindo das portas do campo de pouso.
— E, impulsiva, abraçou Brooke calorosamente.
— Espere aí, mocinha! Você me conhece há dezenove anos e só me deu um oi — protestou
Matt. Ela riu, abraçando-o.
— É porque Brooke me impressionou melhor que você! — E encarando a moça: — Eu sabia
que você não seria burro de perder este partido, Matt.
Ele ficou vermelho como um tomate maduro.
— Ora... her... Bem, isso foi quase um elogio, não foi? Procurando se livrar do mal-estar,
levou-as para o setor de bagagem do aeroporto.
— Vamos ver quantas mulas vou alugar para levar todas as suas malas, irmãzinha.
— Bobagem! — protestou ela, piscando um olho para Brooke. — Eu trouxe só o essencial.
Matt sacudiu a cabeça.
— O pior é que o essencial, mesmo para um fim de semana, já é demais. Imagine agora...
Brooke se limitou a rir quando o viu segurando mala, malinha, malote e maleta, equilibrando
tudo como podia, até o estacionamento.
— Deixe-me ajudá-lo, sr. Matthew — solicitou o chofer do hotel, assim que os divisou.
— Matt, você trouxe a limusine!
— Claro! Ou teria de trazer um caminhão — bufou Matt. — Melinda, este é Glenn Danvers,
nosso motorista. Glenn, esta é Melinda James, minha irmã.
— Muito prazer, srta. James. — E o rapaz tocou o boné como em continência.
— Me chame de Melinda. Vamos trabalhar juntos.
— Bem-vinda à equipe, Melinda. Para onde, sr. James?
— Vamos ao hotel, antes de mais nada, deixar toda essa bagagem. — E, voltando-se para a
irmã: — Brooke e eu vamos levâ-la para jantar fora.
— Óíimo! — exultou a moça. E quando todos estavam sentados no automóvel, ela sussurrou:
— Matt, todo mundo do hotel tem de bater continência pra você?
— Não! — disse Matt, com uma ruga na testa.
— Mas o Glenn só faltou chamá-lo de “Sua Alteza", Matt. Espero que eu não precise fazer
assim.
Ele ficou contrariado.
— Só espero que você não esqueça quem é o empregado e quem é o empregador. Estará
trabalhando no escritório do pessoal e estarei no meu escritório. Portanto...
— Em outras palavras, o chefão não se mistura com a plebe rude?
— Como foi a viagem, Melinda? — interpôs Brooke, sentindo que a conversa estava ficando
perigosa.
— Você é pacificadora, Brooke? Esse papel é da minha irmã Marsha! — exclamou Melinda.
— E como vão suas irmãs? — indagou Brooke, ignorando o comentário. — Matt me disse que
a mais velha está esperando outro bebê...
— É para daqui a um mês e meio. Eles já têm um filhinho lindo, o Lucas. Merry está indo bem
na gestação. Sei que a família vai te adorar, Brooke! Espero que vá logo a Springfield, com
Matt.
— Ela vai conosco, em agosto, quando eu for levar você para casa.
— Oh, que bom! Assim, pode conhecer minha gêmea. É a primeira vez que vamos ficar tanto
tempo separadas! Ela, Meaghan, quero dizer, está de namorado novo. Vai gostar dele, Matt. É
presidente do Conselho dos Estudantes e se veste como você...
— Como assim?
— Desse jeito... — e ela sacudiu os ombros — ... conservador.
A garota continuou falando sem parar sequer para respirar, contando as novidades da família.
Talvez por respeito a Brooke evitou cutucar mais o imão.

— Desse jeito... — e ela sacudiu os ombros — ... conservador.

A garota continuou falando sem parar sequer para respirar, contando as novidades da família.
Talvez por respeito a Brooke evitou cutucar mais o imão.
Depois do jantar Matt dançou, alternadamente, com Brooke e com a irmã. Numa das vezes que
estava com Brooke na pista, um homem tirou Melinda para dançar.
— Olhe só — comentou Matt, irritado, no ouvido de Brooke. — Tem idade para ser pai dela! E
está dançando muito junto. Acho que devo...
— Senhor Matthew James! Dance comigo e deixe sua irmã em paz. Ela tem idade para tomar
conta de si própria. E o que poderia acontecer, no meio de um salão, se você não tira os olhos
dos dois?
Ele sorriu.
— É, acho que tem razão. — Voltou os olhos para Brooke. — Você ainda insiste que Melinda e
eu a levemos pra casa? Eu preferia o inverso.
— É a primeira noite dela na cidade... Vamos ter paciência. E tente não discutir quando
estiverem a sós, está bem?
— É ela quem começa — disse Matt, como se fosse um menino repreendido por brigar com a
irmãzinha.
Brooke não conseguiu evitar o riso.
— Você é mais velho. Tem de manter a paz.
— Tente viver com ela — desafiou Matt, embora já estivesse sorrindo outra vez. — E quero
ficar com você!
O corpo de Brooke se retesou em resposta às imagens sensuais que. evocara ao pensar em ficar
a sós com ele.
— Eu também, Matt. Mas enquanto ela estiver aqui...
— Ela não é uma criança, Brooke. Tem de saber que somos amantes!
— Não me envergonho disso nem quero esconder dela. Mas não gostaria de fazer alarde,
também. E nem você, se o conheço.
— Serão dez longas semanas...
Brooke passou a mão pelo peito dele e, elevando-se na ponta dos pés, deu-lhe um beijo.
— Não vamos ter de sofrer tanto. Daremos um jeito...
— Eu te amo, Brooke!
— Também te amo, Matt! — respondeu.
Quando a música terminou e voltavam para a mesa, baixou a cabeça para esconder as lágrimas
que teimavam em chegar-lhe aos olhos, sem que soubesse por quê. Sabia, apenas, que o amava
demais e que ainda tinha medo de amá-lo. Quando chegaram perto de Melinda, ela já se havia
controlado.
— Eu fico doente, Brooke. Todo mundo no Amber Rose trata o Matt como se fosse um deus. Só
falta ajoelharem quando meu irmão passa!
Procurando esconder um sorriso, Brooke tomou mais duas colheradas do sorvete, antes de
responder. Ela e Melinda haviam passado a tarde de sábado fazendo compras e a experiência
fora muito divertida.
— Precisa entender, Melinda, que Matt é o chefe deles. Devem respeitá-lo.
— Mas nem sonham discutir as ordens que ele dá! Onde fica a dignidade deles?
Brooke sorriu, lembrando-se das aulas de psicologia que tivera na faculdade. Resolveu dar uma
de analista.
— Por acaso, já pensou que enxerga seu irmão simplesmente como o homem mandão e acha
que as outras pessoas também deveriam vê-lo assim?
Melinda pareceu espantada com o diagnóstico.
— Bem... talvez! Mas é que não vejo nada demais nele.
Brooke sorriu e explicou:
— É porque você já viu Matthew sem calça. Modo de dizer, é claro! Conhece suas limitações e
fraquezas. Mas para os que trabalham com ele, trata-se de um homem que galgou posições por
valor próprio. Um homem que assina o cheque de cada um deles no fim do mês.

A garota inclinou a cabeça e ficou pensativa. Depois:
— Gozado! A verdade é que o vi sem calça. Sabe? É que — disse, rindo — ele não foi um
adolescente muito recatado
— Pois é isso aí, Melinda. Você vê Matt de uma perspectiva diferente. É por isso que é difícil
parentes trabalharem juntos.
Melinda deu uma gargalhada ao lembrar de uma coisa.
— Pois eu conheço quem gostaria de ver o Matt sem calça. É a Vicki, que trabalha na recepção.
Ela daria o braço direito para ver meu irmão sem calça...
— Pois diga a ela que conserve os dois bracinhos bem junto ao corpo e nem tente... — disse
Brooke com suavidade. — Caso contrário eu mesma, com todo o prazer, arranco os dois!
A mocinha ficou deliciada.
— Oh, sabe que te adoro? Estou feliz que você e Matt estejam juntos. Nunca o vi tão
interessado assim por uma garota, mesmo Susie Carpenter.
— Susie, quem? — repetiu Brooke, educadamente.
— É! O primeiro namoro sério dele, aos dezessete anos. Algumas vezes a levava em casa para
o jantar, e depois ficavam no terraço, na cadeira de balanço. Meaghan e eu tínhamos seis anos e
dávamos a volta pelos fundos para pegar os dois em flagrante. Ele ameaçava nos matar!
— Eu só fico imaginando! — sorriu Brooke.
— Ele nos perseguia pelo jardim, gritando, e a gente pedia ajuda a mamãe, que o repreendia
por nos assustar daquele jeito. Era uma delícia! — E Melinda suspirou, saudosa. — Por fim ele
ficou mais inteligente e nunca mais namorou em casa.
— Você e Meaghan eram duas monstrinhas!
— É... Na verdade Meaghan ia atrás de minhas grandes idéias.
— Sabe que isso não me surpreende?
Melinda suspirou.
— Estou sentindo uma baita saudade dela! — E mudando de assunto: — Quando vocês vão se
casar?
Brooke engasgou com o sorvete. Engoliu como pôde, limpou a boca, cuidadosamente, e
respondeu:
— Ainda não falamos em casamento, Melinda.
— Ué? Por quê? Não se amam?
— É que estamos nos encontrando há, relativamente, pouco tempo. É cedo ainda para
discutirmos algo mais permanente como um casamento.
Melinda pareceu exasperada.
— Mas discutir o quê? Se um ama o outro, têm de se casar!
Brooke ficou imaginando se já teria sido tão ingénua assim. E lembrou-se de Blake no mesmo
instante. Ela havia sido tão ingênua... Acreditara que Blake a amava, só porque ela o amava.
Acreditara que o casamento acompanhava o romance. Que o verdadeiro amor não conhecia
obstáculos.
— Se você acabou o sorvete, Melinda, vamos embora. Ainda vou ter de me vestir antes de
encontrar o Matt.
— Ele vai adorar o seu vestido novo. Queria só ver a cara dele.
Ele só vai pensar em tirar o vestido, pensou Brooke, mas consevou o pensamento para si
própria. Havia já alguns dias que Matt e ela não se encontravam. E o vestido era, mesmo,
vaidade da parte dela, pura sedução. Alguma coisa lhe dizia que só jantariam bem mais tarde.
E jantaram muito, mas muito mais tarde!
Matthew vestia apenas a elegante calça azul-marinho e exibia uma expressão feliz, saciada. Os
olhos brilhavam, com expressão marota. Parecia um menino.
— E eu que tinha planejado levar você a um lugar especial esta noite — disse, terminando a
omelete que Brooke fizera na minúscula cozinha.
Encarando-o, do outro lado da mesa, o vestido sexy substituído por um simples roupão, ela
sorriu, ao responder:
— E me levou, mesmo! A um lugar muito especial.
A expressão dele se tornou mais feliz com o implícito naquelas palavras.

— Eu te amo... Já disse isso, hoje?
— Faz mais de cinco minutos! — reclamou a moça, rindo gostosamente.
— Tanto tempo assim? Mas que descuido. Temos de remediar isso, depressa. Brooke Matheny,
eu te amo!
— E eu te amo, Matthew James!
— Não quero voltar para o hotel.
— Seja bem-vindo! Durma aqui.
Ele parecia tentado. Então, suspirou e sacudiu a cabeça:
— Não posso. Sei que é bobagem, mas não gosto de pensar que Melinda saiba que passei a
noite em sua cama.
— Não é bobagem, Matt. É o que se espera de um irmão super-protetor.
Ele a olhou com suspeita:
— Você está me gozando?
Ela perguntou, toda inocente:
— Eu seria capaz disso?
— Claro que sim!
Brooke riu, divertida. Depois, comentou:
— Espero que Melinda tenha tido uma boa noite com Lyneíte e Sherry.
As filhas de Smitty a haviam convidado para um concerto e a moça aceitara alegremente.
— É outra razão para eu ir... Lynette e Sherry são ótimas meninas. Se não fossem, Smitty as
fecharia a sete chaves. Quero ver se chegaram em segurança.
A moça serviu café para ambos.
— Quanta coisa em comum com Smitty. É bem o que você faria com suas filhas.
— Exatamente. Serei um pai superprotetor, tal como sou um irmão superprotetor. Você só terá
de podar os excessos...
Brooke engoliu errado o café e passou os três minutos seguintes tossindo. Matt bateu-lhe nas
costas com tal animação que ela precisou pedir que parasse. Quando conseguiu alívio do
engasgo, mudou de assunto. Ele parecia ter se divertido à beça, mas não voltou à conversa
anterior e ela ficou mais sossegada.
Ele deixou-a com palavras de amor, beijos prolongados e uma recomendação autoritária de
trancar a porta com o maior cuidado. Brooke obedeceu e ficou perambulando pelo apartamento,
subitamente vazio. Deitou-se na carna e olhou para o teto, já sentindo falta de Matt, apenas dez
minutos depois que ele saíra. Não era difícil perceber que ele queria fazer algo permanente e
legal de sua relação com ela.
Por instantes ela se deixou levar pelo pensamento de casamento e de bebês. E só então deixouse admitir que queria efetivamente casar-se com Matt. Como gostaria de ter filhos dele!
Até agora Brooke não admitira que seu racionalismo não era nada mais que uma cobertura para
sua covardia. Blake a estigmazara com o amor pelo dinheiro do pai. E seu próprio pai a
machucara ao ignorar suas necessidades e desejos. Porém Matt tinha o poder de machucá-la
como nunca antes fora machucada.
Que aconteceria se não desse certo? Se algo saísse errado? E se ele mudasse de opinião, se
deixasse de amá-la? Se pedisse mais do que ela poderia dar, tal como fizera seu pai?
Sem encontrar respostas a essas questões no teto de seu dormitório ela gemeu e levantou-se.
Estava cansada, mas muito preocupada para conseguir dormir. Decidiu procurar um filme na
televisão e trabalhar na abençoada tapeçaria até ficar vesga. Então, estaria tão exausta que
conseguiria dormir sem pensar no futuro, ou falta de futuro, com Matt!

Capítulo 10

— Ainda não acredito que você a tenha despedido! Não tem nehum tipo de compaixão?
Matt encarou a irmã, do outro lado da sala do apartamento, exasperado com os argumentos
jogados no mais alto tom de voz, repetidos ao longo dos últimos quinze minutos.
— Melinda, não vou continuar a explicar minhas ações para você. Quando estamos falando a
respeito do Amber Rose Hotel sou eu quem toma as decisões e respondo por elas somente
diante dos proprietários, ninguém mais. Menos ainda você!
Uma batida na porta chamou-lhes a atenção.
— Brooke chegou. Não quero mais ouvir uma única palavra sobre isto, entendeu?
— Entendi, Senhor Déspota! Sua palavra aqui é lei!
E Melinda atirou-se numa poltrona, os braços cruzados no peito, amassando o delicado vestido
que escolhera para jantar com o irmão e Brooke; um programa especial para comemorar sua
quarta semana em Nashville.
Ainda contrariado, Matt cruzou a sala até a porta. A expressão no rosto de Brooke denunciava
que entreouvira a gritaria. Ele fez uma careta que imitava um sorriso.
— Olá, querida, você está linda!
E estava, mesmo. Os cabelos, em ondas douradas, reunidos num nó meio solto, o corpo esguio
num delicioso vestido estampado em tons pastel, os olhos castanhos voltados para ele em
compreensão. Matt desejava estar a sós com ela, tomá-la nos braços, levá-la ao quarto e fazer
amor com ela até esquecer todos os problemas. Estava se tornando cada vez mais difícil, a cada
noite, deixá-la em casa e esperar, pacientemente, pelos raros momentos quando estariam a sós.
Ele a desejava o tempo todo, queria-a em sua todas as noites, em seus braços, quando acordasse,
todas as manhãs.
— Problemas? — murmurou ela, entreolhando a pose aborrecida de Melinda na poltrona.
Ele sacudiu os ombros e indagou de volta:
— Não existem sempre?
— Que aconteceu?
Matt balançou a cabeça.
— Prefiro não falar agora.
— Não! Ele prefere não falar agora — enfureceu-se Melinda. — Arruina a vida de uma moça,
tira-lhe o único emprego e não quer falar sobre o assunto. Prefere esquecer, apagar o caso da
cabeça... Não se incomoda com o que vai acontecer com ela, desde que não interfira com o
andamento perfeito do Amber Rose!
— Nada disso, Melinda! — explodiu Matt, bravo por ter sido colocado numa posição em que
teria de defender suas ações que, em princípio, não gostava de discutir. — Essa mulher estava
roubando meus clientes. E não foi a primeira encrenca com ela. Chegava sempre atrasada,
faltava volta e meia, trazia seus problemas para o serviço e jogava seu mau humor em cima dos
colegas de trabalho e dos clientes. Eu a avisei, tentei ajudá-la, por compreender que tinha
problemas, mas não posso conservar uma ladra entre o meu pessoal, da mesma forma que Merry
e Marsha não poderiam!
— Matt, ela é realmente uma boa pessoa. É apenas aquele crápula com quem vive, que bebe
todo o dinheiro que ela ganha, fíca de fogo e ainda lhe dá surras...
— Que pena que a vida dela é assim, Melinda. Pena mesmo! Ela precisa de uma assistente
social, precisa de um psiquiatra para ajudá-la a sair dessa relação destrutiva. Tentei falar com ela
e me mandou pro inferno. Não tive alternativa senão despedi-la. Nem dei queixa na polícia, e
bem poderia, você sabe. Ao contrário, fiz o Amber Rose pagar todos os encargos: férias, aviso
prévio etc., justamente para ela não ficar desamparada, apesar do que fez.
— Melinda — e Brooke conservou a voz tão calma quanto possível — todo empregador tem,
por vezes, de mandar um empregado embora. Já fiz isso com pessoas que não eram capazes de
cumprir suas obrigações, ou eram desatenciosas com os clientes. Nunca é uma situação
agradável, mas tem de ser enfrentada.
Matt deu-lhe um sorriso agradecido. Melinda suspirou e encolheu os ombros.
— Só estou preocupada com o que vai acontecer a ela, agora!
— Talvez este incidente a force a olhar para si própria e a tomar a decisão de mudar sua vida —

argumentou Brooke. — É bom que você se preocupe com ela, Melinda, e possivelmente se
tornará uma boa psicóloga. Mas até então terá aprendido que não é todo mundo que quer ser
ajudado. As pessoas têm de querer ajuda, para que a gente consiga fazer alguma coisa por elas.
Matt interveio:
— Por que não descemos, para comer alguma coisa?
— Parece uma excelente ideia! — concordou Brpoke. — Estou morta de fome.
Matt pegou-lhe a mão e deu-lhe um aperto em agradecim pela interferência. Melinda aprumouse na poltrona e disse:
— Sherry e Lynette me convidaram para assistir a alguns filmes no videocassete. Acho que vou
direto pra lá.
— Melinda, nós combinamos jantar juntos — argumentou Matt e, sentindo a pressão dos dedos
de Brooke: — Oh, está bem. Se quiser ir ao Smitty's, vá. Mas não fique até íarde, sim? Não
igosto que ande por aí sozinha, depois da meia-noite.
Melinda arregalou os olhos, como para responder atravessado, mas calou-se.
— Quer dinheiro para o táxi?
— Eu tenho meu dinheiro.
— Ótimo, Brooke e eu vamos jantar. Até logo.
Brooke disse, tentando aliviar a tensão:
— Talvez você e eu possamos sair, amanhã à tarde. Vai haver liquidação em várias lojas do
shopping center.
— É, talvez...
— Eu telefono de manhã.
— Tudo bem, então. Até amanhã.
Brooke só voltou a falar quando chegaram ao elevador.
— Ela tem boas intenções, Matt.
— Eu sei — disse ele, massageando a musculatura do pescoço. — Ela só tem de crescer. Ainda
é muito imatura.
— Não mais do que eu era com a idade dela — argurmentou a moça.
Ele a puxou para si, abraçando-a e compreendendo o quanto precisara disso.
— Queria tê-la conhecido aos dezenove!
— Eu era muito parecida com Melinda! Idealista, geniosa e ingénua!
— E quando se tornou tão realista e madura? — brincou ele.
O sorriso morreu nos lábios de Brooke, fazendo com que Matt se perguntasse o que dissera de
errado, para entristecê-la.
— Três anos atrás — murmurou ela, soltando-se dos braços dele, quando o elevador parou no
térreo.
Três anos atrás. Quando ela rompera com seus familiares e mudara-se para Nashville. Ele a
acompanhou em silêncio até o restaurante, pensativo, desejoso de conhecer mais a respeito dos
dois homens que lhe haviam dado aquele pavor de perder o controle sobre sua vida: seu pai e
seu namorado anterior.
Ele odiava a idéia de Brooke ter amado outro. E queria se assegurar que não existiria, jamais,
outro homem em sua vida. Jamais!
Mal eles haviam sentado à mesa reservada por Matt, foram obrigados a enfrentar o passado de
Brooke. Ele havia percebido, quando cruzavam o salão do restaurante, que um senhor os
observava com atenção. O homem esperou que se acomodassem e aproximou-se em seguida.
— Alô, Brooke!
Ela levantou os olhos do cardápio e soltou uma exclamação:
— Papai! Que está fazendo aqui?
— Estou hospedado neste hotel. Cheguei hoje à tarde — disse, impassível. E voltou-se para
encarar Matt, que se levantara ao perceber de quem se tratava. — E este é...
— Matthew James — e ele estendeu a mão, enquanto estudava o homem. Não conseguiu
observar nenhuma semelhança com os traços de Brooke. — Sou administrador do Amber Rose.
Matheny aquiesceu, embora Matt se perguntasse sobre sua expressão. Era como se o pai de
Brooke não se surpreendesse com o nome de Matt, achasse natural encontrar sua filha jantando
no mesmo hotel onde se hospedara em Nashville. Teria ele descoberto suas relações com

Brooke?
Me chame de Nathan, simplesmente — disse o velho, mais numa entonação de ordem, do que
amizade. — Acho que percebeu que sou pai de Brooke.
— Claro. Já jantou?
— Ainda não.
— Então, por favor, faça-nos companhia. — E Matt indicou o lugar vago de Melinda. — Minha
irmã viria jantar conosco, mas mudou de idéia.
Nathan voltou os olhos para a filha, que insistiu:
— Por favor, papai. Acompanhe-nos.
Aquiescendo de novo, um gesto que lhe parecia peculiar, Nathan sentou-se.
— Como tem passado, Brooke?
— Muito bem, papai. Que está fazendo em Nashville?
— Vim para ver você. Ficou evidente que não tinha planos imediatos para ir ver sua mãe e eu.
Há algo de estranho que um pai deseje saber como vai sua filha depois de três anos de
afastamento?
— Eu telefono ao menos uma vez por mês! — protestou Brooke, na defensiva.
Matthew segurou-lhe a mão por baixo da mesa e viu que estava gelada. Então, o pai a
intimidava tanto assim?
— Um telefonema não é o mesmo que poder ver o rosto do outro — retorquiu Matheny, seco.
O garçom chegou naquele instante, para anotar os pedidos, e desviou a atenção de Nathan. Mas
não por muito tempo. Mal havia se afastado e ele retomou as perguntas: como ia a saúde de
Brooke, como iam seus contatos sociais, a floricultura. Não deixando de, volta e meia, contrapor
alguma crítica. Mesmo a chegada dos pratos não arrefeceu a avalanche do velho. Matt tentou
defender Brooke, com respeito à Copo-de-Leite, mostrando como era um negócio.de sucesso, só
para ouvir o pai comentar que, então, deveria haver filiais.
— Eu pretendo abrir uma filial, papai, quando chegar a hora — defendeu-se ela, calma.
— Amanhã pela manhã irei visitá-la. Talvez tenha algumas sugestões — informou Nathan.
E então voltou-se para Matt como ele esperara desde o início.
— E você, meu jovem ? Há quanto tempo está namorando Brooke?
— Papai!
Ele colocou uma das mãos no joelho de Brooke, acalmando-a.
— Estamos saindo há uns dois meses, Nathan. Ela é uma pessoa muito especial para mim.
Os olhos de aço do homem saltaram de Matthew para a filha.
— Então, é sério?
Matt antecipou-se a Brooke, que parecia disposta a desmentir o pai:
— Muito sério, senhor.
— Você planeja dirigir este hotel pelo resto de sua vida?
Desta vez Brooke é que se antecipou:
— Matt quer um hotel fazenda dele mesmo, papai. Talvez na área de Nashville. Ele e um sócio
já completaram os estudos preliminares.
— Verdade? — e Nathan pareceu extremamente interessado. Voltou-se para Matt: — Fale-me a
respeito. As pessoas que me conhecem sabem que gosto de arriscar um capital em negócios
sólidos e ousados.
— Se vocês me derem licença... — interrompeu-os Brooke. — .Preciso ir à toalete.
Matt observou-a afastando-se, as costas retas, o queixo erguido e resistiu ao impulso de correr
atrás e abraçá-la. Não escondeu a ira que sentia quandq falou:
— Se esta é a forma como a trata, não me espanta que ela tenha desaparecido por três anos.
— Não preciso de conselhos de como tratar minha própria filha, jovem — respondeu Nathan,
calmo.
— É evidente que precisa — insistiu Matí.
Era óbvio que Nathan não estava acostumado a ser tratado dessa maneira. Seus olhos fuzilaram,
furiosos, mas Matt observou que havia algo mais no fundo; respeito, talvez.
— Pelo que ouvi dizer — comentou Nathan — você não é homem de meias palavras, tal como
eu. Dirige seu pessoal, neste hotel, com mão de ferro, sem fantasias. De fato, um homem
parecido comigo. Esta foi uma das razões pelas quais eu decidi conhecê-lo pessoalmente.

Sempre imaginei que Brooke jamais se relacionaria com alguém que lembrasse o próprio pai.
Matt recostou-se na cadeira, nem um pouco surpreso com as revelações.
— Isso a preocupou de início e agora entendo o porquê. Você tem mandado vigiá-la, não?
— Sei tudo que minha filha fez nestes três anos — admitiu ele. — Sei exaíamente quanto rende
sua loja, quem são seus fregueses mais assíduos, nome e endereço de seus amigos e dos
namorados que teve em Nashville. Antes de você ela saía com um médico... Havia alguma
suspeita de que chegariam a se casar.
— Você não deveria prestar atenção a suspeitas... — provocou Matt.
— Raras vezes presto.
— Deve saber, também, alguma coisa de mim...
— Matthew Lucas James. Trinta anos. Diplomado em hotelaria numa universidade do Missouri.
Seus pais morreram. Tem quatro irmãs... três delas ainda vivem em Springfield. Duas estão
casadas com sócios de uma afamada firma de computação. Uma outra irmã está, atualmente,
trabalhando aqui, neste hotel. Você ganha, por ano, qualquer coisa entre cinqüenta e cem mil
dolares; seu sócio chama-se... Ken Lincoln.
Calou-se e, como o rapaz nada dissesse, Nathan prosseguiu:
— Embora seja popular entre as mulheres, tem excelente reputacão e, sabe-se, é muito gentil e
respeitoso com suas namoradas. Tem passado noites no apartamento de Brooke, tal como ela no
seu, ao menos até sua irmã chegar aqui. O médico que ela namorou antes jamais dormiu no
apartamento dela. — Fez uma pausa e encerrou: — Esqueci alguma coisa?
Matt conservara a calma, a custo. Falou com dificuldade:
— Apenas uma coisa: sua filha é uma moça inteligente, de bom senso, trabalhadora e que
atingiu o sucesso por valor próprio, sem favor de ninguém. Qualquer pessoa que não a respeite é
um cretino consumado!
— Não sou um cretino consumado, Matthew. Tenho muito respeito por minha filha. Brooke
tinha um brilhante futuro em minha companhia.
— Um futuro planejado para ela. Um futuro controlado por você. Mas ela sabe cuidar da
própria vida!
— Admito que ela conseguiu ir mais longe do que eu esperava, em apenas três anos. E estou
feliz que tenha escolhido um homem com cérebro e tutano, como você. Minha esposa e eu
queremos Brooke de volta em nossas vidas, Matthew. Pode valer a pena para você, se nos
ajudar. Agora... vamos falar de negócios: como é mesmo sua idéia do hotel fazenda?
Quando o avião decolou para Denver, no sábado à tarde, Brooke estava exausta. Ele passara
toda a manhã na loja, inspecionando o livro-caixa, discutindo projetos, realizações, e ela não
entendia por que permitira isso. Talvez para provar que tinha gerenciado tudo com competência.
Mas se esperava algum elogio... ficara desapontada.
Para sua surpresa Nathan falou pouco sobre Matt, além de ter comentado:
— Tem a cabeça em cima dos ombros.
E, mais tarde:
— Não é um parasita incompetente como aquele outro... — numa referência a seu caso com
Blake.
Entendia que ele aprovasse Matt. Afinal de contas ela os observara sentados, lado a lado,
durante o jantar, como se fossem almas gêmeas.
Ela tinha uma suspeita de que Nathan faria investimentos no hotel fazenda. Havia feito um semnúmero de perguntas detalhistas, que Matt respondera com educação, mas sem entusiasmo. Será
que estaria ainda mais decidido a ficar com ela, agora que vinha numa embalagem com prêmio?
Mal chegara do aeroporto, o telefone tocou. Como já esperava, era Matt.
— Ele já foi?
— Sim... foi — falou Brooke, a voz cansada, enfiando os dedos entre os cabelos.
— Estou indo até aí.
— Não! Por favor, Matt, não.
Houve um longo silêncio do outro lado da linha.
— Não quer que eu vá?
Ela fechou os olhos e tentou conservar a voz calma.

— Estou muito cansada. Até parece que passei por uma inquisição. Preciso ficar um tempo só.
Por favor...
— Tudo bem, Brooke. Se é assim que deseja... — ele respondeu em voz baixa e ela percebeu
que o ferira. Sentiu as lágrimas nos olhos e forçou-as a ficarem quietas, ao menos até o final do
telefonema. — Apenas pensei que você gostaria de conversar com alguém...
— Matt... Nós conversaremos amanhã, está bem?
— Tudo bem. Descanse, querida. Eu a amo.
— Eu... — um soluço fechou a garganta de Brooke. — Falo amanhã, Matt.
Quando ela desligou, as lágrimas caíram aos borbotões. Matt havia tentado animá-la, depois da
visita do pai. Pensava que ela estava transtornada pelas críticas constantes, pelas perguntas
intermináveis. Claro que também era por isso. No entanto, estava aflita bem mais pela sua
relação com Matt. As horas passadas com Nathan trouxeram à tona todos os medos que ela
afogara nas últimas semanas, todas as dúvidas para as quais não tivera resposta: se queria passar
o resto de sua vida na companhia de um homem que estava acostumado a mandar, por
exemplo...
Um casamento com Matt não seria um arranjo moderno, prático, semelhante a uma firma
comercial, que imaginara com Gary. Ele não permitiria que ela escolhesse seus próprios
caminhos, fizesse seus próprios planos, mantivesse uma personalidade independente. Tentaria
saber, sempre, aonde ela ia, quando voltaria para casa, quem ela iria ver, exatamente como fazia
com sua irmã, Melinda.
E quando chegassem a uma questão conflituosa, Matt imporia sua opinião como final. Fora, por
muito tempo, extremamente autoritário para mudar agora.
Ela passara apenas vinte e quatro horas com o pai e sentia-se inteiramente exausta, por ter de
manter-se em guarda a cada instante, defendendo a própria opinião. Ela abandora Denver e os
pais porque não suportava mais isso. E, agora, não estaria sendo estúpida por voltar atrás,
jogando sua liberdade pela janela, para se unir a Matt?
Haveria muita paixão num casamento com ele, é claro. Paixão e amor. Mas esses sentimentos
efêmeros sobreviveriam às lutas do cotidiano?
Quando as lágrimas pararam de correr ela não se achava mais perto de uma conclusão. Sabia
apenas que o amava com todas as forças do coração, e ter de escolher entre o sentimento e a
liberdade a estava deixando louca.
Matt nem telefonou antes de aparecer no domingo à tarde, pois talvez esperasse outro pedido de
solidão.
— Onde está Melinda? — perguntou Brooke, quando ele entrou.
— Foi passar o dia no lago, com Sherry e Lynnette. Creio que as três estão querendo navegar...
com novos namorados!
— Ora, são adolescentes normais. Provavelmente é o que estarão fazendo. Quer beber alguma
coisa?
— Não. — Segurou-a pelos braços e forçou-a a encará-lo. — Como é que você está?
— Bem, Matt. De verdade.
— Resolveu bem a visita de seu pai?
— Eu sobrevivi... — tentou brincar.
Ele sacudiu a cabeça.
— Você não exagerava: o velho é durão.
— Pois é... Acho que vou tomar um chá gelado. Quer, também?
— Quero... você! — falou ele, impaciente. — Que há de errado, Brooke?
— Errado? Nada... Por que pergunta?
— Querida, eu a conheço muito bem. Alguma coisa a está preocupando e acho que não é
apenas seu pai. Agora, desembuche, por favor!
Ela olhou nos olhos dele e mentiu soberanamente:
— Matt, não há nada. Tudo está bem.
E, percebendo que ele não seria enganado facilmente, pôs-se na ponta dos pés, beijou-o
docemente na boca e desta vez não estava mentindo.
— Matt, você fez muita falta, ontem.

A falta fora tanta que ela acordara, durante a noite, e estendera a mão para tocá-lo. Ao encontrar
a cama vazia pusera-se a chorar.
— E continuarei a fazer, do jeito que você está — brigou ele, apertando-a num abraço.
— Pode me mandar parar, quando quiser — desafiou ela, enfiando o dedo por dentro de sua
camisa.
O rapaz encolheu-se e abaixou a cabeça, implorando:
— Pare com isso, que não tenho força de vontade com você.
— Ótimo! — sussurrou ela. — É bom saber que ainda tenho algumas armas...
Ele segurou-lhe o rosto entre as mãos.
— O que você quis dizer com isso? — perguntou, com doçura.
Ela conseguiu escapulir mais uma vez.
— .Quis dizer que quero você na cama. Agora!
— Brooke... — e se interrompeu quando sua mão escorregou por entre as dele. — Então,
vamos.
Eles fizeram amor lentamente, como se fosse a primeira vez e, depois, com desespero, como se
fosse a última. Matt explorou mais de uma vez o corpo dela centímetro por centímetro,
lambendo, mordiscando, acariciando, beijando, até transformá-la numa fogueira, em chamas
que se propagaram para ele, fazendo-o arder na impaciência de possuí-la além da realidade.
As mãos dela se fecharam em torno da nuca de Matt, suas pernas envolveram o corpo
musculoso, levantando os quadris e fazendo com que só o ato de amor tomasse sua consciência.
— Como eu te amo, Brooke! — murmurou ele, em seu ouvido.
— Eu te amo, Matt. — suspirou a moça, antes de ser novamente arrastada por uma onda de
prazer. — Oh, Matt!...
Algum tempo depois, ainda ofegante, ele a fez aninhar-se junto ao seu peito forte e afagou-lhe
os cabelos desalinhados.
— Quando penso que foi o máximo, na outra vez é melhor.
Ela sorriu.
— Sim, é mesmo...
Matt deslocou o corpo, ficou por cima dela e segurou-lhe o rosto com uma das rnãos. Ela se
arrepiou, sabendo o que viria. — Brooke, case comigo! Era o que ela esperava. Adivinhara.

Capítulo 11

Brooke afastou os cabelos do rosto, sentou-se na cama e puxou o roupão, envolvendo-se nele.
Evitando olhar Matt, mas sentindo que ele estava tenso, levantou-se.
— Acho que vou fazer café.
— Eu gostaria de uma resposta, Brooke.
— Sim, eu sei... Mas estou precisando muito de um café... — e foi rapidamente para a cozinha.
Matt ficou olhando a porta por vários minutos e então esmurrou a cama. Que droga! Ela estava
fugindo dele, de novo. Havia se precipitado. Brooke ainda não resolvera o trauma da visita do
pai. Durante duas semanas ele a havia ensinado a confiar, a reconhecer o amor entre ambos.
Agora, tinha voltado à estaca zero.
A verdade é que não agüentava mais viver longe dela. Ele a queria para esposa. E queria agora.
Só que poderia perdê-la... Teria de dar-lhe um tempo. Mas não um longo tempo. Não suportaria
esperar muito.
Brooke estava muito ocupada na pequena cozinha, andando de um lado para outro. Sentiu a
presença dele, mesmo sem olhá-lo.
— Quer uma xícara de café, Matt? E um pedaço de bolo? Está gostoso...
— Só café, obrigado. — Ele parou atrás dela e colocou-lhe as mãos nos ombros. Ficou aflito ao
perceber como o corpo dela enrijecia ao seu toque. — Tudo bem, Brooke, não precisa me res-

ponder hoje.
Ela voltou-se para olhá-lo.
— Não?
— Não. É óbvio que ainda não está pronta para me responder.
— Não. É verdade.
Muito gentilmente, ele girou-a para que se defrontassem.
— Brooke, eu nunca amei uma mulher, como amo você. Eu acredito que pessoas que se amam
desejem, mais dia, menos dia, viverem juntas, casarem-se, constiuírem uma família. Meus pais
fizeram assim, minhas irmãs também, mas eu posso esperar até que você esteja pronta. Até que
tenha vencido seus medos.
— Oh, Matt! — Brooke acariciou-lhe o rosto, de leve, os enormes olhos castanhos rasos
d'água, mas sem derramar as lágrimas. — Eu gostaria tanto de dizer sim... Eu quero dizer sim.
Mas é como você disse... Antes tenho de resolver meus problemas.
— Vai ter .tempo para dizer o sim... — prometeu ele, esperando ter a paciência de que
precisaria.
— Eu o amo realmente, Matt!
— Eu sei, meu amor. — Beijou-a levemente e afastou-se um passo. — Talvez eu aceite aquele
bolo. Uma fatia grande...
— Fui eu quem fez.
— Uma fatia maior ainda, então,
— Sirva-se de café, que eu corto o bolo.
Poucos minutos depois Matt comentava:
— Hummm, está uma delícia! Se eu soubesse que você cozinhava assim tão bem, a teria pedido
em casamento muito antes.
Brooke se surpreendeu ao responder com uma risada. Sentia vontade de abraçá-lo por conseguir
acabar com o resto da tensão, através de uma conversa amiga. Tivera muito receio que ele a
obrigasse a uma resposta imediata. No entanto, Matt aceitara esperar um pouco, de bom humor.
Talvez ele conseguisse, pensou com otimismo, com o tempo, convencê-la de que o casamento ia
dar certo. Rezou, mentalmente, para isso tudo ser verdade.
— Me conte sobre sua mãe, Brooke. Como é ela?
A moça inclinou a cabeça, estranhando a pergunta.
— Minha mãe? Por quê?
Ele provou o café e tomou um gole. Pousou a xícara e pegou o garfo novamente.
— Curiosidade. Agora que já conheço seu pai, gostaria de saber sobre sua mãe. Você quase não
fala nela...
Brooke pensou cuidadosamente na resposta.
— Mamãe é uma pessoa doce, de fala mansa... Vive rnuito feliz cuidando da casa, do jardim;
orgulha-se de seu grupo de bridge e é uma voluntária muito ativa no hospital local. Não somos
nada parecidas, embora todo mundo diga que temos alguma semelhança.
— Como se dão, seu pai e ela?
— Oh, muito bem. Papai diz a ela o que fazer e ela faz. Funciona bem para ambos... Sempre
viveram assim. Tentou ser imparcial, embora não aceitasse a filosofia de submissão da mãe.
Teria ficado muito mais feliz se Olívia a tivesse apoiado, na época em que se rebelara contra o
pai.
— Não seria assim, entre nós — comentou Matt, fazendo-a perceber que ela não conseguira
esconder seus sentimentos.
Não, não seria assim entre ela e Matt, pensou Brooke, deprimida. Ela jamais conseguiria seguir
docilmente as ordens de um homem, tal como sua mãe. Resistiria a cada esforço de dominação
perderia a cabeça, lutaria!
Quanto tempo se passaria até que Matt se cansasse das batalhas domésticas e começasse a
buscar uma mulher mais parecida com sua mãe?
— Puxa, estou louca pra ver os fogos de artifício da terça à noite — comentou ela, mudando o
assunto. — Eles sempre capricham no 4 de Julho, para comemorar nossa Independência...
Ele aceitou o novo tema da conversa sem discussão. Mas olhou-a de forma que ela
compreendesse que essas fugas não poderiam se repetir. Ela o sabía. Tinha de tomar algumas

decisões muito importantes. O problema era só um: não sabia que decisões tomar.
Matt não era um homem paciente. Brooke o sabia.
Quando ele desejava alguma coisa... queria logo. Brooke o sabia.
E ele queria Brooke.
Piorando as coisas, surgiam as interferências de sua irmã, Melinda. Entediada com o trabalho no
escritório, começara a interferir em outras áreas do hotel. Certa feita ela quase fizera o chefe de
cozinha pedir a conta, comentando que ele usava sal em demasia e desconhecia princípios
elementares de culinária naturalista. Matt tivera de gastar muito tempo e palavras suaves para
convencer o homem a ficar; depois, mais tempo e palavras, dessa vez violentas, para repreender
a irmã.
Na manhã de sexta-feira Brooke ficou toda feliz ao receber um telefonema de Gary. Há mais de
duas semanas que ele não aparecia e ela sentia falta de sua companhia calma, alegre, de sua
amizade constante e tranqüila, que não representava perigo algum, de suas provocações, de sua
inacreditável habilidade em fazê-la sorrir de tudo e de nada!
— Gary, que delícia você telefonar!
Ele riu, contente com a recepção.
— Eu pensei ser uma boa idéia perguntar como iam as coisas. Mas agora, com sua reação, acho
que foi uma idéia genial...
— Papai veio me visitar...
— Mesmo? E como foi...? — Ele conhecia bem os problemas de Brooke com o pai,
— Horrível! Ele só faltou me examinar os dentes.
— Que chato! E examinou Matt também?
— Sim! Eram dois homens de negócios, supersérios, trocando figurinhas. Acho que ele
aprovou Matt.
Silêncio.
— Você não parece muito feliz com isso, Brooke.
— Eu não preciso que meu pai aprove com quem eu ando, Gary.
— Eu sei, querida.
— Escute, quer almoçar comigo? Em qualquer lugar, aí perto do hospital, se quiser.
— Brooke, eu adoro minha cara... Se eu me meter entre você e Matt... já viu, não é? Vou parar
na cirurgia plástica.
Brooke sacudiu a cabeça, triste,
— Matt não é meu dono, Gary. E eu só quero passar uma hora com urn amigo, um grande
amigo. Agora, se você não quiser...
— Puxa! Depois dessa prensa. Aonde a encontro?
Brooke falou o nome de um dos restaurantes preferidos de ambos.
— Tudo bem, Brooke. Procure por um homem vestido com capacete de motociclista, colete à
prova de balas e uma espada do tempo de Rei Arthur, tá?
Matt entrou na floricultura assobiando, pois terminara a reunião antes do horário previsto.
Tentaria encontrar Brooke e almoçar com ela, pois sabia que era mais ou menos nesse horário
que ela almoçava.
— Olá, Rhonda! — saudou ele, todo glorioso. — Onde está Brooke?
A empregada o olhou curiosa,
— Faz dez minutos que ela saiu para o almoço.
— Que chato! — Talvez ainda a encontrasse em algum lugar e conseguisse uma hora a sós,
pensou. E perguntou à moça, todo animado: — Tem idéia de onde ela foi almoçar?
— Não — replicou Rhonda. — Só sei que foi encontrar o Wagner.
Os olhos de Matt quase explodiram quando ele segurou a erupcão que lhe subia do peito.
— Então, depois falo com ela — disse ele, rosnando as palavras e saindo.
A porta da floricultura quase caiu aos pedaços.
— Me perdoe, Brooke. Eu sei que isto não é motivo para piadas...
Brooke encarou o amigo sorridente do outro lado da mesa e confirmou:
— Não é mesmo.

Gary tentou engolir a risada que teimava sair.
— Não é possível, Brooke. Faz pouco mais de quatro semanas que me convidou pra casar com
você. Um casamento muito pragmático... E agora está aqui, toda confusa, porque o homem que
ama propôs casamento? Admita que a situação é engraçada.
— Você é quem tem de admitir que minha proposta era mais razoável.
— Só porque você estava escondendo suas facetas mais vulneráveis por trás de paredes sem
emoções, frias, gélidas... Mas isso não funciona. Matt James chegou e esmigalhou sua teorias,
derrubou suas muralhas e, agora, você é tão vulnerável quanto eu ou qualquer outra pessoa!
— Não vou enfrentar a situação que vivi com meu pai, Gary. Não vou. Não vou negar a mim
mesma.
— Matt lhe pediu isso, Brooke? Você era uma mulher de negócios, independente, quando ele a
encontrou. Aliás, deve ter sido isso que o atraiu. Ele já tentou mudá-la?
— Ele é muito possessivo — respondeu Brooke, tornando-se cautelosa. — E pretende que eu
explique cada coisa que faço!
— Entendo. Quer dizer que ele está apaixonado por uma mulher que não fez segredo de quanto
o rejeitava. Ele deve estar um bocado inseguro nesta relação... Uma vez que as coisas voltem a
seus lugares naturais... possivelmente ele relaxará.
Brooke encarou-o séria, quase com dureza.
— Por que está do lado dele?
— Não estou do lado de ninguém. Mas gosto dele: tem classe...
— E Gary fez uma careta. — Além disso, eu avisei que você merecia uma relação apaixonada.
Estou feliz que a tenha encontrado.
— Tem muita graça! Você, meu pai, Melinda, Rhonda... todo mundo acha muito engraçadinho
que eu tenha me apaixonado por Matt. Por que somente eu, a mais interessada, não concorda?
— Porque você é a única que tem o que perder — diagnosticou Gary, com simplicidade.
— Era o que eu desconfiava...
— Tenha confiança, Brooke! Se você quer, mesmo, alguma coisa, será a primeira a saber como
atingí-la com sucesso.
Ela ficou minutos a fio se perguntando se seria a única pessimista num mundo de otimistas.
Ainda tinha a sensação que existia algo terrivelmente errado entre ela e Matt.
— Desculpe pelo atraso — falou Brooke, logo ao entrar na loja. — Gary e eu não conseguimos
parar de falar, quando estamos juntos.
— Bem... Matt esteve aqui, pouco depois de você sair. E já telefonou duas vezes. Eu contei que
você saíra com o dr. Wagner pra almoçar. Errei?
— Que nada! — disse Brooke. examinando alguns pedidos que haviam chegado. — Matt sabe
muito bem que o dr. Wagner e somos bons amigos.
Olhou para a amiga e empregada por um instante, depois comentou:
— Engraçado! Ele teria uma reunião até mais tarde. Será que precisa me contar alguma
novidade?
— Se me pedisse a opinião, chefmha, eu diria que ele não gostou nem um pouco quando soube
de seu almoço... Acho que está apenas controlando o tempo que você ficou fora...
— Besteira! Ele está farto de saber que Gary é meu amigo
— Preciso lembrar — disse Rhonda, erguendo uma sobrancelha — que ele a conheceu no dia
em que pediu a mão do seu amigo em casamento?
Brooke avermelhou, irritada.
— Isso são águas passadas...
— Verdade? Por que será que alguém que pedia a mão de um amigo, semanas atrás, hoje em dia
nem quer ouvir falar em casamento?
— Você é mesmo boba! — exclamou Brooke, pegando o telefone. — Vou ligar para ele e
acabar com essas bobagens num segundo.
Desconfiando do que viria pela frente, Rhonda saiu da sala para não testemunhar.
Brooke digitou os conhecidos números e aguardou a chamada. Matt com ciúme de Gary? A
imaginação de Rhonda era digna da pior das telenovelas. Matt sabia muito bem qual era o tipo
de relacionamento que tinha com Gary:

— Olá, Carol! — disse ela, quando o telefone respondeu. — É Brooke! Matt está?
— Desculpe, Brooke, mas ele saiu agora há pouco. Parece que tem uma reunião que
provavelmente durará algumas horas, depois disso irá a um colégio fazer uma palestra sobre...
deixe-ver... escolha de profissão.
Brooke esquecera a respeito dessa palestra. Ele sentira-se orgulhoso por ter sido convidado para
discutir a direção de um hotel junto a jovens. O dia de Matt havia sido sobrecarregado, motivo
pelo qual Brooke se surpreendera por ter sido procurada para almoçar.
— Ele deixou algum recado para mim, Carol?
— Não. Nenhum...
— Está bem. Avise que telefonei,
E ela voltou a atenção para a loja, certa de que Matt a procuraria se tivesse algo importante a
dizer.
Ele a estava esperando na sala de seu apartamento, pois já tinha uma cópia da chave, quando ela
chegou à noite. Matthew James estava integralmente furioso.
Brooke parou na soleira e olhou-o por alguns segundos.
— Matt, o que aconteceu?
— O almoço foi gostoso? — perguntou ele de volta, estendendo os braços pelo encosto do sofá,
numa pose calculadamente relaxada.
Não me digam que Rhonda estava certa no que disse, pensou Brooke, exasperada.
— Foi ótimo! Tive um excelente almoço, obrigada — respondeu, gélida. — E como foi o seu?
— Não almocei. Estive em sua loja, para almoçarmos juntos, mas parece que você já tinha um
compromisso.
— Sim, tinha. Você deveria ter telefonado antes.
— Eu telefonei duas vezes, depois que voltei a meu escritório. Levou mais de duas horas
almoçando, não foi?
— Realmente — disse Brooke, levando as mãos à cintura. Encarou Matt em desafio. — Agora,
se me faz o favor: qual é o problema?
Ele saltou do sofá, como impulsionado por uma mola.
— O problema é que não estou louco por querer saber o que minha mulher, a mulher que pedi
em casamento, anda fazendo por aí sem me dar satisfação, tendo encontros com outros homens!
— Não tenho encontro com "outros homens"... Almocei com um amigo, Matt, e não tenho a
menor intenção de deixar ninguém, nem mesmo o homem que amo, escolher minhas amizades
ou meus compromissos.
— Essa amizade é a mesma que, há pouco tempo fez você propor casamento! — E Matt repetiu
quase as mesmas palavras de Rhonda. — Um homem que você escolheu porque seria o marido
perfeito, lembra-se? Interesses compatíveis, objetivos semelhantes, estilo de vida afinado. Será
possível que imaginou que, se tivesse casado com ele, poderia se encontrar com outros homens
sem problema?
— Eu teria esperado que ele confiasse em mim — disse Brooke, irritada. — O que é bem mais
do que você faz!
Matt enrubesceu perigosamente.
— Você está nos comparando, Brooke? Eu sou possessiva e exigente. Exijo que você se
comprometa integralmente. Não admito que desapareça, uma vez ou outra, sem dizer onde
esteve ou com quem esteve. Não tenho a menor intenção de ficar esperando de lado, quietínho,
até que você decida que deseja um acompanhante.
Brooke resistiu ao impulso infantil de bater o pé.
— Nunca pedi isso a você!
— Talvez não com palavras. Mas teve a idéia, não?
— Você está errado!
— Então por quê, me diga, por que fugiu em pânico quando lhe pedi para casarmos? Por que
não empalideceu quando convidou o Wagner pra se casar com você? E ainda diz que me ama?
— Eu não digo! Eu amo!
— E por quê? — perguntou ele, duro. — Por que sou bom de cama? Pela minha aparência? O
que sou para você, Brooke? Quando a peço em casamento, você foge! O que quer? Um bom
macho no meio dos lençóis, enquanto não aparece o que você pensa ser o Príncipe Encantado?

Aquilo era demais. Era grosseiro e ofensivo. Doía fundo e ela soltou a mão antes de saber o que
estava fazendo. Matt conseguiu interromper o gesto a apenas um centímetro do rosto.
— Eu agüentei muito de você, nas últimas semanas — disse ele num grunhido —, mas diabos
me levem se vou permitir que bata em mim!
Ela lutou para se libertar.
— Você agüentoul
Lembrou-se das exigências dele, dos vários incidentes que deixara passar, o jeito mandão dele!
Tudo por amor à paz.
— É muita arrogância, sr. Matthew James. Exatamente as palavras que meu pai diria. Eu sabia
muito bem que isto acabaria por acontecer!
Matt empalideceu, ela não entendeu se pela comparação com o pai, por raiva ou dor. Quando ele
voltou a falar, foi num tom de voz calmo e baixo:
— Sabe qual é seu problema, Brooke?
— Qual é, Matt? — E ela levantou o queixo e fitou-o dentro dos olhos. — Vou adorar saber.
— Seu problema é que está tão enrolada, tentando provar alguma coisa para seu pai, que nem
ao menos sabe o que deseja para si própria. Tudo o que realizou, nestes três anos, tudo o que
fez... não foi para você: foi para ele.
— Você é doido!
— Sou?
— Sim! O que eu construí nestes três anos foi para mim. E não vejo o que tem a ver conosco.
— Você é quem disse que eu pareço seu pai. Ao me desafiar, pensa que está provando algo.
Outra maneira de dizer que não precisa de ninguém em sua vida. Que qualquer relação terá de
ser em seus termos.
— Acho que passou muito tempo com sua irmã, Matt! Andou lendo os livros dela? Pensa que é
tão bom assim em psicologia ou psicanálise?
— Já disse antes: eu a conheço... Sei como você pensa! Sei que decidiu romper agora a se
arriscar a ser feliz com um homen que se parece demais com seu pai.
— Acho melhor você ir embora! — Brooke fez um gesto para o lado da porta, determinada a
não derramar uma única lágrima até que ele saísse.
Matthew é que havia iniciado aquele ataque sem nenhuma justificativa. Não o deixaria ver
como a magoara.
— Tem razão. Não há nada mais a fazer aqui.
Sua voz era baixa e as palavras ditas com relativa calma, pareciam arame farpado na alma de
Brooke. Controlando a dor ela ficou olhando, imóvel, o rapaz atravessar a sala toda.
Então, no momento em que ele tocou a maçaneta da porta, querendo retribuir a dor sofrida, ela
disse:
— Não precisa se preocupar com o financiamento de seu hotel fazenda, Matt. Meu pai ficou
bem impressionado com você. Estou certa que ele irá em frente, apesar de nosso rompimento...
— Acha que estou preocupado com o dinheiro de seu pai? — ele parecia surpreso.
— Você não seria o primeiro a achar esse o meu lado mais atraente.
Ela desejara magoá-lo e conseguira. O olhar que lhe deu foi tão doloroso que Brooke quase
pediu desculpas. Mas no instante seguinte ele se foi, deixando atrás de si a imagem daquele
iolhar.
Tudo explodira tão subitamente... Ela esperara há tempos por isso e, no entanto, não estava
preparada para o que acontecera. Por momentos não conseguiu nem sequer lembrar-se de como
começara a discussão.
Então, voltaram as palavras de Gary:
"Ele está, provavelmente, se sentindo inseguro nessa relação.”
E Rhonda sugerira que Matt estava com ciúme de Gary, uma vez que ela se recusava a casar.
Brooke não os ouvira; parece que deveria. Sempre achara que seria ela a perder o controle, num
instante, a virar as costas e desaparecer, como fizera com Blake. Talvez Matt estivesse certo: ela
queria sempre estar com as coisas sob seu controle.
Talvez Matt ainda estivesse mais certo: ela era uma covarde e ainda pretendia provar alguma
coisa a seu pai. Mas o fato é que ele não fora razoável essa noite. E nada assegurava que isto
não voltaria a se repetir. Ela nem sabia como iria sobreviver a este rompimento. Que dirá se já

estivessem casados?
Por fim as lágrimas saltaram de dentro do peito e continuaram molhando seu rosto e seu
travesseiro durante boa parte da noite. Ainda por cima tinha de enxugá-las, além de sentir-se só
e sofrer a ausência de Matt!
— Chegando tarde, heín? — comentou Melinda, mal olhando o irmão quando ele entrou no
apartamento.
— Que está fazendo acordada? — perguntou ele, a voz soando terrível.
— Fiquei envolvida num filme até o final. Esteve com Brooke? — E ao olhar o irmão, Melinda
prendeu a respiração. — Jesus, Matt! O que aconteceu?
Ele mal levantou a mão.
— Brooke e eu terminamos. De vez.
Com os olhos verdes muito abertos. Melinda pegou as mãos do irmão.
— Claro que não, Matt. Vocês tiveram uma briga séria, mas voltarão atrás. Eu sei. Vocês se
amam!
— Eu a amo. Mas desta vez foi o fim... Ela estava procurando um motivo para terminar desde
nosso primeiro encontro. Hoje dei uma boa razão!
— O que você fez? — E Melinda o olhou reprovadoramente.
— Fiz uma gritaria com ela porque almoçou com um amigo. Realmente não sei por que perdi a
cabeça. Acho que cansei de ficar esperando que a casa desabasse... Talvez quisesse ouvir que eu
estava errado, que não deveria ter ciúme, que ela amava só a mim. Sei lá... Acho que esperei que
ela dissesse que aceitava se casar comigo, ser uma parte de minha vida, para sempre, que me
queria também na vida dela. Mas não foi nada disso. Ela disse que eu não tinha o direito de
interferir com seus amigos, que sabia desde o início que não daria certo. E terminou me
acusando que eu estava mais preocupado com o dinheiro do pai que com ela.
Tocada, Melinda acariciou o rosto do irmão.
— Ora, Matt, não é pra valer... Que coisa! Eu nem sabia que ela era rica...
— Faz tempo que ela me contou que vinha de família rica — disse Matt, levantando os ombros.
— Nunca mais pensei.no caso. Acho que ela jogou nos meus ombros algo que aconteceu no
passado dela, com outro cara. Alguém que a machucou muito. Se ela estava, mesmo, falando
sério... — e seus lábios se moveram, mas ele não emitiu mais nenhum som.
Por quê? Por que ela se recusava a dar-lhes uma chance pra valer? Por que havia aproveitado a
primeira oportunidade para romper? E por que ele colaborara para isso?
Afogando um grito de dor e raiva, virou-se e fugiu para seu quarto. Não percebeu a expressão
pensativa que se formou no rosto de Melinda enquanto ela o seguia com o olhar.

Capítulo 12

Brooke raspou o prato no triturador da pia e colocou-o na lavadora. Pensou que estava com
fome quando preparara o almoço, mas só depois percebeu, como acontecera nos últimos nove
dias, desde que rompera com Matt, que não tinha vontade de comer. Andou pela sala inteira,
passando os dedos pelos móveis, em busca de poeira inexistente e ficou a imaginar o que
poderia fazer pelo resto do domingo. O apartamento estava imaculadamente limpo, reluzente;
livros e programas da televisão não a interessavam, no momento. Tinha se envolvido em
inúmeras atividades, nestes últimos nove dias, precisamente para evitar isso: não ter nada a
fazer e sentir falta de Matt!
Engolindo um gemido, imaginou quanto tempo mais aguentaria sem ele, ansiando por ele,
perguntando-se se não poderia ter feito algo que evitasse o rompimento. Algo que resolvesse
seus problemas.

Também estava cansada do pensamento tipo "e se"? Símplesmente não resolvia coisa alguma.
Não o vira mais desde que ele saíra de seu apartamento, embora tivesse falado com Melinda por
telefone um par de vezes. Ela comentara pouca coisa sobre o rompimento, embora dissesse que
viver com Matt, aqueles dias, estava pior do que nunca: um pavio curto pra qualquer discussão.
Deu um salto quando a campainha tocou. Seu coração passou a pulsar rapidamente. Poderia ser
Matt? E se fosse, ela o mandaria gelidamente embora, sabendo que era a única coisa certa a
longo prazo, ou seguiria seus instintos, se atiraria nos braços dele, implorando que ele nunca
mais fosse embora?
Quando abriu a porta, assustou-se. Era Melinda, seu rosto, a face da tragédia, os olhos
vermelhos de tanto chorar.
— Melinda! — arquejou Brooke, puxando a jovem para dentro do apartamento. — Que houve?
— Matt... Matt e eu tivemos uma discussão horrível — confessou ela, a voz interrompida por
soluços. — Ele... ele me despediu
— Fez o quê? — disse Brooke, quase gritando, encarando o rosto desolado da jovem. — Por
que ele fez isso?
— Tudo o que fiz foi dizer o que eu achava a respeito de uma situação no hotel. Bastou para ele
perder a cabeça completamente — murmurou Melinda, quase inaudível. — Gritou comigo,
dísse que estava cansado de mim e que queria me ver num avião, de volta pra Springfield, nesta
noite mesmo.
Brooke sabia que Matt era temperamental, claro, e que nem sempre ele e Melinda se
compreendiam... Mas nunca imaginara que maltrataria a moça dessa forma, deixando-a nesse
estado. Que teria ele dito para magoá-la assim?
— Minha pobrezinha! — E Brooke tomou-a nos braços.
Melinda passou a soluçar no ombro da amiga.
— Não sei o que fazer, Brooke. Faltavam só três semanas e eu preciso desse dinheiro! Agora,
não há mais tempo para encontrar outro emprego antes do início das aulas. E com que cara vou
aparecer lá em casa?
Brooke tentou imaginar por que Melinda precisaria tanto de mais três semanas de salário;
pensara que dinheiro não era problema na família deles. E se afligir tanto com a reação das
irmãs pareceu um pouco exagerado... Mais um novo soluço da moça e o coração de Brooke se
compadeceu.
— Não chore, Melinda. Se precisa mesmo de emprego nas próximas três semanas, fique na
minha loja. Não será tão importante quanto trabalhar no Amber Rose, é claro. Terá de trabalhar
di jeans, sujar as mãos de terra...
— Não me incomodo! E eu poderia ficar aqui com você? Não tenho onde ficar, agora que Matt
me pôs na rua...
— Claro que pode — assegurou-lhe Brooke, a raiva por Matt voltando a aumentar. — Então, é
bom tratarmos de pegar suas coisas e...
— Oh, não precisa — replicou Melinda, as lágrimas miraculosamente secando. — Glenn está
lá em baixo, esperando no carro dele. Ele me trouxe. Minhas malas estão aqui...
Piscando, surpresa, Brooke seguiu-a até a porta.
— Mas Melinda... — falou com ninguém. Ela já havia saído. Meia hora depois a garota estava
toda feliz, ajeitando-se no quarto de hóspedes do apartamento. Visivelmente enamorado da jo vem, Glenn havia trazido as inúmeras malas e feito com que ela jurasse chamá-lo, em caso de
necessidade.
— Isso vai ser divertido! — exclamou Melinda. — Vamos ser como colegas de quarto numa
universidade.
— Vai ser engraçado... — concordou Brooke, pensativa. Tratara de disfarçar a dúvida na voz,
mas se perguntava se não cometera um engano ao convidar a moça ao mesmo tempo como
empregada e companheira de apartamento.
— Você disse a Matt que vinha para cá? — quis saber.
Melinda jogou os cabelos loiros por cima da camiseta azul, o narizinho para cima.
— Não. Ele fez a gritaria, eu fiz minhas malas e fui embora quando saiu. Não quero que saiba
onde estou!
— Acho melhor telefonar-lhe. Vai ficar preocupado.

— Que nada! Desde que eu fique fora do caminho dele, nem vai ligar.
— Ora, Melinda, isso não é verdade. Eu sei que Matt deve estar uma fera, muito zangado com
você, porém a ama demais e você sabe disso.
Melinda resmungou.
— Ora! Matt não ama ninguém! A única coisa que lhe importa é aquele emprego dele,
mandando em todo mundo, deixando todo mundo puxar o saco dele, sempre. Não foi por isso
que brigou com ele? Nunca entendi o que viu de interessante naquele chato...
— Melinda, você não está sendo justa — protestou Brooke. — Matt a ama, e muito!
Ela levantou mais o queixinho.
— Não telefono pra ele e pronto. Se ficar aflito por mim, pior pra ele. E o que a está
preocupando? Matt não a tratou como lixo? Você deveria estar contente de que as coisas não
estejam indo como ele queria.
Exasperada com os mecanismos tortuosos daquela cabecinha adolescente, Brooke jogou os
cabelos para trás e tentou manter a calma.
— Melinda, Matt não me tratou como lixo. Existem muitos mo tivos pelos quais nosso
relacionamento não funcionou. Mas nenhum deles tem a ver com o que estamos falando. Vou
telefonar e contar que você está aqui.
— Divirta-se, então — disse Melinda, sacudindo os ombros. — Eu vou desfazer as malas.
Como é que fui me meter nesta?, perguntou-se Brooke, silenciosamente. Ela levantou o fone do
gancho, a mão meio trêmula e o peito apertado, enquanto discava o número de Matt; um
número que procurara esquecer durante os nove dias passados, os dedos com comichão
permanente na vontade impossível de repeti-lo.
Matt atendeu ao primeiro chamado:
— Melinda! Onde raios...
— Matt, é Brooke... — interrompeu ela.
Ele fez uma pausa, surpreso, e voltou a falar em outro tom:
— Brooke?
— Sim. Eu... eu telefonei para avisar que Melinda está aqui em casa. Não queria que você se
preocupasse.
Matt inspirou fundo, a ponto de ela ouvir.
— Eu deveria ter adivinhado que ela a procuraria. Olhe, não precisa se aborrecer com ela. Vou
buscá-la, agora mesmo.
— Não, não venha — respondeu Brooke com firmeza. — Ela me pediu pra ficar aqui durante
as três próximas semanas e eu concordei.
— Você... o quê?
— Ela não quer voltar para casa como uma criança metida encrencas. Disse que seria
humilhante e estou com ela. Vai me ajudar na floricultura.
— Brooke, eu sei que está tentando ajudar. Mas não entendeu que ela está usando você para me
dar o troco? Não deixe que Melinda se interponha entre nós.
Brooke levantou o queixo e enrijeceu os músculos.
— E o que eu poderia ter feito quando ela apareceu aqui chorando? Deveria jogá-la no melo da
rua? Estava amargurada pela maneira como você a tratou.
— A... a... a ma... neira como eu a tratei? — A voz dele de total incredulidade. — O que aquela
maluquinha andou contando aí?
— Que foi despedida do Amber Rose. E que teria de embarcar no primeiro avião para
Springfield. Você partiu o coração dessa menina! Não tinha o direito de jogar sua raiva contra
mim em cima da pobre criança, Matt!
Ele ficou silencioso por um longo tempo, mas Brooke quase podia sentir as ondas de ira
passando pelo telefone.
— Tudo bem, ótimo — disse ele, entre os dentes. — Se quer cuidar de minha irmãzinha pelas
próximas três semanas, divirta-se. Deixe-a solta dentro da sua loja e espere pelos resultados. Terei o prazer de dizer que foi avisada, quando aparecer gritando por socorro.
— Quando eu... — e Brooke engasgou de raiva. — Ora seu... sua minhoca arrogante! Não vou
pedir socorro pra você nem que o mundo acabe. É esse o tipo de gratidão que recebo por abrigar
Melinda? Estou começando a concordar com ela: você não se importa com ninguém!

— Sempre acreditando no pior sobre mim, não é? Me condenando sem ao menos ouvir o meu
lado? Já que está convencida de que não passo de um desalmado filho da mãe, não irá se
surpreender com o que vou fazer agora.
E bateu o telefone.
Brooke afastou o fone do ouvido e ficou a olhá-lo, pasma, a boca entreaberta.
— Falei pra não telefonar pra ele... — disse Melinda, encostada no batente da porta de seu
quarto.
— Ele bateu o telefone na minha cara... — murmurou Brooke, espantada. — Ele desligou
mesmo.
Melinda alçou os ombros.
— Matt é assim mesmo. E o que vai fazer pelo resto da tarde? Que tal um passeio por aí?
A semana seguinte pareceu a Brooke um treinamento em trapézio de circo. Sem a rede salvavidas... Melinda simplesmente se intrometia em tudo, dando conselhos a cada empregado de
como aumentar a eficiência pessoal, corrigir pequenos defeitos, melhorar um arranjo de flores,
tornar um pacote mais bonito. Outro costume dela que deixava Brooke zonza era dizer tudo o
que lhe passava pela cabeça... Inclusive para clientes. E os contínuos ataques a Matt tornaram
Brooke uma verdadeira advogada de defesa do irmão de Melinda. No sábado seguinte, mais
uma semana sem Matt e com a terrível garota ao lado, ela se encontrava transfor mada numa
pilha de nervos.
Melinda pedira que Lynette e Sherry viessem visitá-la aquela noite e Brooke achou que seria
divertido passar algumas horas com gente mais jovem. Lembrou-se da própria juventude,
quando apareciam amigas em casa e sua mãe corria a preparar salgadinhos, e agüentava as
risadinhas infindas, os gritinhos quase histéricos e a ocasional invasão de jovens rapazes
assanhados.
Como passara a tarde trabalhando e não tivera tempo de preparar coisa alguma, Brooke sugeriu
uma enorme pizza, com todos os recheios possíveis. As moças insistiram que ela jantasse com
elas. Concordou agradecida: poderia esquecer a figura de Matt por algum tempo.
Ledo engano! As três pareciam se divertir à beça, reduzindo Matt a pedaços.
— Lynette, pensei que você gostasse de Matt... — explodiu Brooke, depois de um comentário
maldoso demais.
— Eu gostava, até descobrir o tirano em que se tomou com Melinda. Foi um criminoso! —
disse ela, arregalando os olhos azuis.
— Escute, um tirano é aquele que normalmente abusa dos mais fracos. Matt não é um tirano.
— Ele é um jumento... — observou Sherry, categoricamente. — Estou feliz de não ter um irmão
assim. Coitada da Melinda, não sei como agüentou todos esses anos!
— E pensar que você quase casou com ele, Brooke! — colocou Melinda.
— Ooooh! Já imaginaram? — e Lynette teve um arrepio obviamente forçado. — Acho que ele
bateria em você, só por prazer!
— Lynette! — Brooke estava zangada e não o escondeu.
As moças se arrebentaram de rir, o que só a irritou ainda mais.
— Vocês deveriam se envergonhar de falar assim de quem só as tratou bem. Vou para meu
quarto ler um pouco! — E virando as costas saiu da cozinha, pisando duro.
Ao entrar no quarto ouviu outra explosão de risadinhas.
Oh, Deus! Como é que mamãe agüentava isso?, perguntou-se fechando a porta para não ouvir
mais nada.
No domingo, felizmente livre de Melinda que tinha saído com Lynette e Sherry, Brooke
resolveu ligar para a mãe. Costumava telefonar-lhe sempre, mas desde o rompimento com Matt
não o fizera.
— Olá, mamãe...
— Brooke, que delícia ouvi-la! Como está você, querida?
— Bem, mamãe. E você?
— Oh, muito bem! Seu pai ficou muito feliz em vê-la, há dias. Fiquei contente ao saber que se
deram bem. Ele está esperando que venha visitar-nos em breve.
Brooke pestanejou; "deram-se bem"? Só se fosse em comparação ao tempestuoso passado...

— Ele ficou muito bem impressionado com seu namorado, o Matt. Contou-me tudo — e a
alegria transparecia na voz de Olívia. — Ainda mais quando ele rejeitou a oferta de
financiamento do tal de hotel fazenda. Gostou dessa faceta independente do rapaz.
Os dedos de Brooke apertaram o telefone.
— Matt não aceitou?
— Ora, você não sabia? Disse que achava melhor não misturar assuntos financeiros com
assuntos familiares. Em outras palavras: não quer dever nada ao futuro sogro. O Nathan ficou
muito admirado e contente com essa posição.
— Mamãe, Matt e eu... — e a voz de Brooke se interrompeu na garganta.
— Eu sei, querida. Nathan disse que era óbvio como vocês se amavam. Sabe como seu pai não
mostra os sentimentos, mas disse estar muito feliz por você. Para não falar da sua loja...
— Como é? — Brooke sentia-se uma débil mental conversando.
— Sim! Precisa ver como ele conta aos amigos. Vive se vangloriando da filha: "Quem sai aos
seus não degenera", não se cansa de repetir. Até parece que você virou presidente da General
Motors... Ele está que é um orgulho só.
— Eu... hummm... estou surpresa.
— Brooke, venha logo nos visitar. E traga seu namorado. Nathan fez enormes elogios e me
deixou curiosa.
Quando desligou ela ficou um tempo enorme sentada, imóvel, ao lado do telefone. O pai estava
orgulhoso dela? Matt rejeitara o financiamento? O pai se vangloriava frente aos amigos? Matt
só estava interessado nela?
— O que é que vou fazer? — murmurou, desnorteada. Tivera um medo horrível de ser infeliz
com Matt, Agora seníia-se miserável sem ele. Desejava desesperadamente chamá-lo de volta,
mas como? Seria preciso lembrar a última vez que falara com ele? E a maneira como tratara a
irmã? O que o impediria de fazer com ela exatamente o que fizera com Melínda?
— Oh, Matt! — soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Por que o amo assim? O que você
tem que me afasta?
— Uma dúzia de rosas vermelhas? — perguntou Melinda ao velho senhor, com evidente
desprezo na voz. — Não dá pra ser mais original no aniversário de sua esposa?
— Melinda! — Brooke entreouvira o comentário feito da outra sala. — Desculpe-me, senhor.
Melinda, espere-me na sala dos fundos enquanto eu atendo este cavalheiro.
E voltando-se para homem evidentemente aborrecido: — Rosas vermelhas são um presente
perfeitamente apropriado e a maioria das mulheres as adora, senhor. Por favor, perdoe nossa
jovem empregada. Ela é meio... digamos, não convencional, temo eu.
Tendo despachado o cliente ofendido, Brooke dirigiu-se com passos duros à sala dos fundos. O
comportamento de Melinda vinha sendo progressivamente irritante; porém insultar um cliente
era ir longe demais.
— Melinda, vamos ter uma conversinha.
— Você está furiosa comigo, não é? — E Melinda levantou o queixo, desafiadoramente.
— Sim, estou. Sabe muito bem que não se fala assim com um cliente. Não admito que meus
clientes sejam ofendidos.
— Está me despedindo?
Surpresa com a pergunta agressiva, Brooke piscou.
— Melinda, eu...
— Tudo bem! — ela estava quase gritando. — Me despeça! Você e Matt se merecem, os dois!
São igualzinhos! — e, com isso, saiu da loja como um furacão.
Brooke ia segui-la mas o chamado do telefone impediu-a. Quando desligou, Melinda tinha
desaparecido. Imaginando que ela teria ido para o apartamento deduziu que seria melhor ambas
se acalmarem antes de voltarem a conversar. Talvez tivesse exagerado ao ser tão dura com
Melinda. Ou quem sabe Matt tivesse razão quando afirmava que era muito difícil lidar com sua
exasperante irmã...
Às oito da noite Melinda ainda não aparecera.
Brooke procurara Lynette por telefone e a moça também não sabia da amiga. Nem Glenn, que

saíra com ela algumas vezes, tinha notícia. E Melinda não conhecia mais ninguém em
Nashville. pelo menos que Brooke soubesse.
Vinte minutos depois estava parada em frente à porta do apartamento de Matt. Havia pensado
em telefonar, mas decidira ir pessoalmente.
A visita não tinha nada a ver com eles, mas sua mão tremia quando se preparou para bater à
porta. Haviam-se passado dezessete dias, sim, tinha contado, e a distância não melhorara seus
nervos. Ela lhe devia uma explicação pessoal, pois perdera Melinda.
Inspirou fundo, pediu coragem aos céus e bateu na porta.

Capítulo 13
— Brooke! — era enorme o espanto no rosto dele.
Por um momento ela pensou ver um vislumbre de alegria pura em seus olhos, mas de imediato
desceu uma cortina. Ele deu um passo ao lado para que ela entrasse. O coração saltando com o
que vira nos olhos dele, e com o que estava sentindo, ela entrou no apartamento, as mãos
fechadas, completamente suadas. Havia esquecido como ele era bonito, ou simplesmeme não se
permitira lembrar?
— Matt, eu... eu tenho de... contar algo.
Ele pareceu virar um homem de aço, preparando-se para suas palavras.
— O que há? — e a voz era impassível.
— Eu... eu p-perdi Melinda — admitiu ela, examinando-o em busca de um sinal.
Não importa o que ele esperara, por certo não fora aquilo.
— Você... o quê?
— Ela ficou furiosa comigo e saiu da loja, como se estivesse fugindo dos demónios... Isso foi
às três da tarde e não a vi mais. Já telefonei para Lynette e Sherry. Também não a viram. Nem
mesmo o Glenn. Não sei mais o que fazer, Matt. Não sei mais onde procurá-la.
Ele a encarou, sério, por um momento extremamente demorado e depois fez uma careta
engraçada e disse:
— Eu sabia — se pôs a rir. — Eu sabia que não ia durar!
Ela o encarou raivosa:
— Matt, você não ouviu? Sua irmã desapareceu. Ela sumiu...
Não sei onde encontrá-la.
— Melinda tem dezenove anos, Brooke. Sabe tomar conta de si muito bem como você afirmou,
lembra? De fato deve estar com a Lynette e a Sherry...
— Mas elas...
— Acha que elas diriam, se Melinda pedisse que fizessem segredo?
Ela mordeu os lábios.
— Não... Creio que não, principalmente se Melinda lhes disse que eu...
— Que você... o quê? — provocou Matt.
Brooke ergueu os olhos para ele e encontrou-o com os braços cruzados no peito.
— Que eu perdi a cabeça e a despedi — terminou Brooke, relutante. — Ela provavelmente
exagerou... — e sua voz sumiu ao perceber o que estava dizendo. Desarvorada, exclamou: —
Oh, Matt!...
Ele continuou a encará-la em silêncio.
— Por favor, Matt, conte-me o que houve entre vocês.
— Quer dizer... deseja ouvir o meu lado?
— Sim, por favor!
Ele inclinou a cabeça, como a considerar o pedido.
— Ela me provocou sem parar... deliberadamente, creio eu. A última gota d'água veio quando a
peguei organizando uma greve entre os funcionários. Estava convencendo-os de que deveriam

ganhar melhor e ter melhores condições de trabalho. Mesmo sabendo que os ordenados e as
condições são as melhores de todo o Estado.
Brooke conseguiu gemer:
— Uma greve?...
— Sim. Estava pintando cartazes onde dizia que eu era responsável por trabalho escravo... Ela
teve sorte de eu tê-la despedido. Deveria colocá-la no colo e dar-lhe umas belas palmadas no
traseiro, na frente de todos.
— Ela não contou nada disso... Ele não escondeu a mágoa.
— Você teria acreditado, se ela contasse?
— Matt, me perdoe — murmurou Brooke, buscando conter as lágrimas. — Eu deveria ter
ouvido o seu lado. Já havia decidido não tirar conclusões apressadas, antes mesmo de vir aqui
hoje. Agora que vivi uma semana com ela, sei que não deve ter sido fácil para você.
Matt inspirou fundo ao ver as lágrimas correram pelo rosto dela e, num repelão, tomou-a nos
braços. Afundou o rosto em seus cabelos e disse:
— Raios, Brooke, por que veio aqui hoje? Você não sabe como me fez falta! O quanto desejei
abraçá-la. Fiquei louco, sem você. Não quero que vá embora!
Brooke agarrou-se à camisa dele, roubando o calor de seu peito forte.
— Matt, senti tanta saudade! Fiquei tão miserável... Por favor, não deixe que me afaste nunca
mais de você.
Ele puxou a cabeça dela para trás, segurando-a pelos cabelos.
— Te amo! — e cobriu-lhe a boca com beijos, impedindo-a de falar.
O beijo foi profundo, desmedido, desesperado, com toda a dor e desejo reprimidos por semanas,
emergindo como avalanche, deixando-os exauridos, sem fôlego e felizes.
Matt segurou-a pelos ombros, os olhos verde-esmeralda brilhando, soltando faíscas perigosas.
— Brooke Matheny: eu já aguentei o suficiente de sua covardia. Agora vamos chegar a um
acordo, de vez! Será que não percebe como é ridículo ficarmos longe, um do outro, sentindonos
miseráveis, só porque tem medo que não sejamos felizes juntos? Como é que meto nessa sua
cabeça que pertencemos um ao outro? Nós vamos nos casar, Brooke Matheny, e vai dar certo. E
não quero saber dessa sua argumentação debilóide. Entendeu?
Lutando contra as lágrimas e contra um sorriso, ela aquiesceu com a cabeça.
— Entendi, Matt...
— Entendeu, o quê? — perguntou ele, desconfiado.
— Entendi que vamos nos casar. Mas não porque você está mandando, Matt — disse ainda,
olhando-o muito séria. — Você é machista, muito mandão, possessivo e cabeça-dura, Matthew
James. E eu me recuso a agüentar isso. É bom que saiba, viu? Você pode ser o chefão supremo
no Amber Rose, mas não se esqueça de que já o vi sem calça...
— Me viu sem calça? — e ele parou, surpreso.
— Não vem ao caso! Aceito me casar com você, sabendo muito bem que não será fácil, mas
nada poderá ser pior do que viver sem você!
Os olhos verdes espelharam felicidade, mas ele ainda testou:
— Tem certeza? Eu concordo... Às vezes sou meio possessivo... talvez um pouco mandão...
Mas — e levantou um dedo. — não sou tão ruim quanto seu pai. Tem de admitir isso!
— Não — concordou ela —, você não é igual ao meu pai. E como eu também não sou como
minha mãe, vai ter uma esposa obstinada e que sabe o que quer na vida.
— E não quero um casamento... "comercial" com você! Tem de ter sangue, suor e lágrimas...
Na saúde, na doença etc. E tal, como diz a Bíblia.
— Eu também quero. E com amor, paixão, filhos e tudo mais.
— Claro, a gente vai brigar, às vezes...
— Quase sempre, mas faremos as pazes. Eu te amo, Matt!
Ela parecia ter encontrado as palavras que devolveram a confiança ao rapaz, que lhe cobriu a
boca com beijos repetidos e ela respondeu, beijo a beijo, os braços em torno de seu pescoço,
sentindo todo corpo dele corresponder. O desejo apoderou-se dela, fazendo seus seios
endurecerem e aquele seu profundo recôndito se umedecer.
A mão dele procurou o zíper, nas costas do vestido dela, e o súbito frio nos ombros a trouxe

repentinamente de volta à Terra.
— Não, Matt. Precisamos encontrar Melinda,
— Oh... — gemeu ele, em protesto. — Eu preciso, Brooke... Há tanto tempo.
— Eu também, Matt — e ela o olhava, enternecida. — Mas antes preciso ter certeza de que ela
está bem.
Ele suspirou.
— Vou ligar para o restaurante do Smitty. Lynette não será capaz de mentir para mim.
Estendeu a mão para o telefone e, naquele instante, ele tocou. —. Deve ser ela... — Ele fez uma
careta para Brooke. Levantou o fone. — Fala Matthew James. No instante seguinte Brooke
percebeu que era, de fato, Meíinda.
— Você está louca? Por onde andou? Brooke está aqui, toda nervosa com você. Sim, eu disse:
Brooke está aqui.
Ele escutou por um longo período, muito sério, e respondeu:
— Você deveria estar arrependida... Está bem: pode dormir aí. Mas esteja aqui no hotel antes do
meio-dia.
Depois que desligou, voltou-se para Brooke:
— Ela está com Sherry e Lynette. Disse-me para pedir desculpas para você, que compreende
que se portou muito mal esta tarde.
— Que bom que ela está bem! Mas Matt franziu a testa, pensativo.
— Algo está errado... Melinda está agindo muito estranhamente mesmo em se tratando dela...
Brooke se aproximou e escorregou as mãos pelo peito dele. — : Agora que sabemos que tudo
está bem... aceito aquele outro tópico de sua conversa.
— Conversa? Ahnnn... Acho melhor agir do que falar.
— Por favor, eu também acho — encorajou-o ficando na ponta dos pés e beijando-o.
Matt abraçou-a e, no segundo seguinte, ela estava em seu colo, rindo.
— Agora é tarde demais para mudar de idéia, senhora. Vou fazê-la tão minha, esta noite, que
jamais conseguirá se afastar de mim novamente.
— Você sabe... — murmurou ela. tão baixinho, que ele se inclinou para ouvi-la. — Essas coisas
funcionam para ambos os lados. Está avisado!
— Minha linda; isso aconteceu comigo naquela primeira vez em que a vi, no restaurante. — E,
girando o corpo, encaminhou-para o quarto, com Brooke nos braços.
Quando a respiração dele voltou ao normal e os pensamem ficaram mais coerentes, Matt
perguntou:
— Você se casa comigo?
— Sim... — murmurou ela, afundando o rosto no peito dele.
— Eu me caso com você...
— Tem um tempo livre, na semana que vem?
Ela levantou a cabeça, arregalando os enormes olhos.
— Quer se casar na semana que vem?
— Se eu pudesse, rne casaria hoje.
— Eu não vou fugir, Matt.
— Será preciso o dedo de Deus para que você consiga, agora, fugir de mim, Brooke. De
qualquer forma, a semana que vem vou levar Melinda para Springfield. Gostaria de me casar
por lá, com meus familiares presentes.
— Tudo bem... Mas eu também quero meus pais presentes, você se importa?
— Fico feliz — disse Matt, com simplicidade. — Amanhã telefonarei para Merry: ela é ótima
nesses arranjos.
— E Matt... sobre o dinheiro de papai... Eu sei que não se importa com isso. Falei com mamãe
e ela contou que você não aceitou a oferta de Nathan.
— Ken e eu já achamos um financista. Começaremos a construção do hotel fazenda na próxima
primavera.
— Moço, estou orgulhosa de você! E, sabe, não sou uma má comerciante... Se precisar de
algum conselho... — e olhou-o, brincalhona.
— Mas é exatamente por isso que estou me casando com você!

— Fez uma pausa, depois: — Por sua experiência no mundo dos negócios.
— Eu pensei que fosse pelos bolos que faço — reclamou ela.
— Claro que isso também — e escorregou a mão pelo corpo ma cio, estendido a seu lado. — E
outros pequenos detalhes...
— Mmmmm... — ronronou ela.
— Às vezes parece que vou morrer, de tanto desejo, Brooke!
E Matthew, abaixando-se, começou a beijar-lhe o corpo, enquanto sua mão dirigia-se, como que
irresistivelmente atraída, para afagar aqueles seios deliciosos. Brooke inspirou profundamente,
surpresa e encantada ao perceber a onda de desejo que ressurgia dentro de si. Nisso, Matt soltou
uma exclamação e deixou-se cair, de costas, na cama.
— Matt! Que houve de errado?
Ele a encarou.
— Eu também tenho de me desculpar!
— Puxa! Não dava para esperar um pouquinho?
Ele sacudiu a cabeça, resoluto:
— Não! Tenho de me desculpar. Me perdoe por ter gritado com você quando almoçou com seu
amigo. Embora eu seja possessivo, não pretendo impedir que tenha amizades masculinas. Isso
desde que — e levantou um dedo, em riste — você não planeje casar com eles!
— Como será possível — sorriu ela, deitando-se por cima de Matt — se já estarei casada com
você?
— E nada de beijos!
Ela tocou-lhe a boca com os lábios úmidos.
— Por que eu beijaria outro homem, se você é o único que desejo beijar?
— E jamais — ele quase berrou — poderá dormir com outro homem! Nunca!
— Por que dormiria se só quero dormir com você?
Então ela agiu, decidida, tomando a iniciativa. Baixou a cabeça e beijou-o profundamente.
Quando interrompeu o beijo e se ajeitou, fazendo-se penetrar, ele ainda conseguiu gemer:
— Essas são as regras!
E puxou-a para si, possuindo-a toda, com ardor.
— Grande! Vocês estão juntos de novo!
Brooke acordou num salto, ao ouvir o berro junto de si.
— Puxa, Melinda — Matt sentòu-se na cama e cobriu o corpo de Brooke, discretamente. —
Que está fazendo aqui?
— Vim avisar que cheguei. Bom dia, Brooke.
Brooke pigarreou, ainda espantada:
— Bom dia... você... não está mais com raiva de mim?
Melinda se pôs a rir:
— Eu nunca estive com raiva de você. Mas foi difícil tirá-la do sério. É mais dura que o Matt!
Com uma ruga na testa Brooke sentou-se na cama, puxando o lençol.
— Você... queria rne tirar do sério?
— Eu sabia — Matt murmurou em desgosto. — Estivemos sendo manipulados...
— Por uma especialista em psicologia — declarou Melinda, orgulhosa. — Isto aprendi com
meu primeiro namorado: dê um inimigo comum a dois oponentes e eles se unirão.
— Vou matá-la! — disse ele, rouco de raiva, começando a se levantar.
Brooke o impediu, segurando-lhe o braço e começando a perceber o lado cómico da situação.
— Ela só quis ajudar, Matt!
— Vocês se arrastavam, como dois miseráveis, e não eram capazes de esquecer o orgulho —
justificou-se a garota. — Não há lugar para orgulho em amor, gente!
Brooke riu e apertou ainda mais o braço de Matt.
— Me largue, por favor! — ordenou ele.
— Não pode matá-la, Matt. Eu a quero como dama de honra em meu casamento.
— Vocês vão se casar! — falou Melinda e, provavelmente metade do hotel a ouviu. —
Quando?
— No fim da próxima semana, em Springfield — explicou Brooke.

— Viram? Eu sabia que um pertencia ao outro!
— Agora escute aqui, sua sabidinha — disse Matt, encarando a irmã com olhos duros —, eu
não vou ficar aqui sentado, ouvindo lições da senhorita. Brooke e eu pertencemos um ao outro e
teríamos nos encontrado sem suas encenações. Agora saia daqui para que ela e eu possamos nos
vestir. E, se sobrou algum senso na sua cabeça, não me apronte mais nenhuma. Entendidos?
— Sim, Matt, querido. — disse ela com docilidade, um lampejo moleque brilhando nos olhos
verdes. — Até loguinho, Brooke.
Brooke sorriu.
— Obrigada, Melinda.
A docilidade desapareceu do rosto da moça, que se abriu num sorriso luminoso.
— Quando precisar, disponha! — e fechou a porta do quarto atrás de si.
— Você ainda a encoraja? — admoestou Matt.
Brooke comentou, pensativa:
— Impressionante! Melinda foi longe para que você a despedisse... e para que eu a despedisse
também. Puxa, ela tem imaginação!
— Ela me amedronta!
— Isso também... — respondeu Brooke, rindo.
— Nós teríamos voltado, sem a interferência dela — comentou ele. — Eu teria ido atrás de
você. Só estava dando uma chance para que percebesse quanta falta eu fazia...
— Sim, Matt, querido — respondeu Brooke, imitando a voz e o jeito de Melinda.
Matt a encarou silencioso, por instantes.
— Vocês duas são amedrontadoras!
— Eu te amo, Matt!
Ele sorriu, deitou o corpo sobre ela, que esperneou:
— Não! Espere aí, Matt! Outra vez? Não!
— Por que não? — e enfiou os dedos nos cabelos dela.
— Melinda, ela está no quarto ao lado.
— Vai ter o bom senso de não entrar...
— Matt... Ohh... Hum... Ah... Matt... — E com a voz cada vez mais fraca: — Nós não jantamos
ontem. Eu estou com...
— Mais tarde a gente come...
— Minha loja...
— Vai chegar atrasada....
— Ohhh, Matt!
E Brooke afundou na maciez dos tavesseiros, oferecendo-se ainda mais para ele. Descobrira
que, para se dominar uma fera, é preciso inicialmente provocá-la...
Aí estava uma grande idéia!