You are on page 1of 118

Procura-se um

noivo
Phyllis Roberts
Darling 19

Ela queria um falso noivo e arranjou um amante…
À medida que despe David, Holly deixa uma trilha de beijos no peito
moreno e musculoso, no ventre liso e firme, enquanto seus dedos
brincam de leve com os pêlos negros, macios e encaracolados. A
paixão toma conta de ambos e é a loucura! Ondas de prazer os
-0-

levam aos píncaros de um amor dourado, alucinante, a um mundo
sem fronteiras. Mas quando não está nos braços de David, Holly
tem medo. Quem é esse homem de estranhos olhos verdes do qual,
realmente, ela nada sabe?

Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos, de fãs para
fãs.
Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente
proibida.
Cultura: um bem universal.

Digitalização e Logística: PROJETO REVISORAS
Revisão: Thaynara

Título original: A MAN CALLED DAVID
Copyright © 1988 by Phyllis Roberts
Publicado originalmente em 1988
Pela Harlequin Books, Toronto, Canadá.
Tradução: Milena Castilhos
Copyright para a língua portuguesa: 1991
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3º andar
CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento no Círculo do Livro S.A.

-1-

CAPÍTULO 1

— Ela pode me fazer isso, John?
O advogado observou as rugas de preocupação na face de D. W.
Branson e aquiesceu:
— Ela pode fazer a denúncia que quiser, Bran. — Ele escolheu as
palavras com cuidado: — Se o juiz vai aceitar e iniciar um processo… Bem,
isto já é outro ponto.
— Maldição! — Atirando a carta sobre a mesa, Branson levantou-se e
caminhou até a janela: — Como é que perdi o controle da situação?
Ficou a olhar os edifícios de Indianápolis, pensativamente. Não tinha
tempo para perder com a Justiça. Passou a mão pelos cabelos pretos e
acompanhou-os até a altura do colarinho: puxa, ele nem sequer tinha tempo
para cortá-los!
O advogado, John Hanover, olhava o homem do outro lado do
escritório com preocupação; conhecia-o, e era seu amigo havia quinze anos.
Os efeitos do trabalho e da tensão já se mostravam nas feições dele. As
linhas do rosto haviam se transformado em sulcos, e fios de cabelos brancos já
se faziam presentes.
— Você precisa é de férias — repetiu John, sabendo que jamais seria
escutado.
Desde que o conhecera, Branson jamais tirara um dia de férias sequer.
Bran afastou-se da janela e começou a andar pelo escritório, as mãos
enfiadas nos bolsos das calças. A sensação de que algo estava faltando, e essa
irrequietude haviam sido a marca do último ano.
Não preciso de férias! Preciso de uma mulher!, pensou ele. Não a mulher
irritada que o ameaçava de processo judicial, mas uma mulher carinhosa e
receptiva. Essa escolha se impusera quando ele percebera que não suportava
mais as relações sem compromisso. Esses namoros o haviam deixado com
uma profunda sensação de solidão. Talvez não fosse difícil encontrar uma
mulher, porém muito mais sutil seria escolher a mulher certa.
Voltando à mesa de jacarandá maciço, tornou a pegar a carta.
Datilografada em papel timbrado com o nome de Agência H. C.
Nichols — Companhia Privilegiada de Seguros — a carta não deixava
-2-

dúvidas ao afirmar que ele estava cometendo um erro muito sério. Por certo
ela sabia lidar com palavras, pois, nas entrelinhas, dizia claramente que o
achava um filho da…
— Bem… Tem alguma idéia de como vou sair desta?
— Já tentou conversar com ela?
Bran sacudiu a cabeça, desanimado:
— Não, e só por minha culpa. Esta é a terceira carta que ela me envia, e
sequer respondi às duas anteriores. Ela tem toda a razão em estar furiosa.
John elevou as sobrancelhas, surpreso:
— Que está acontecendo, Bran? Isto não é típico de você.
Bran agradeceu mentalmente a falta de censura na voz do advogado.
— Que explicação posso dar, John? Que estava tão ocupado com a
construção do Centro Cívico que não tive tempo? Isso não é uma razão, é
apenas uma desculpa. Essa gente não se preocupa com um prédio que está
sendo construído a quarenta quilômetros de distância. Só se importa com o
prédio de seus escritórios que vai ser demolido. — Recostou-se na sua
poltrona:— Por vezes eu desejaria ser outra pessoa.
John tirou um cachimbo e uma bolsa de fumo do bolso do casaco:
encheu o fornilho e apertou o fumo. Examinou o amigo com seus olhos azuis,
pensativo:
— Aquele prédio tem de ser demolido. Você sabe disso, e os inquilinos
também sabem.
— Muito bem que saibam; mas não fui eu que o disse. Desta vez eu me
enrolei — admitiu Bran, frustrado. — Deveria ter convocado uma reunião,
semanas atrás, quando pela primeira vez percebi que seria mais barato
colocar tudo abaixo e não reformar. Eu queria dar tempo ao tempo, esperar
que o novo prédio estivesse pronto… mas eles acabaram sabendo antes da
hora. Agora que a reunião foi marcada, eu nem mesmo sei o que dizer.
Entrarei num salão cheio de pessoas hostis, começando uma luta já perdendo
pontos!
— Converse com ela, Bran — disse o advogado, apontando a carta com
o cachimbo. — Encontre uma hora antes da reunião da próxima semana. Ela
parece ser líder natural dos inquilinos. Se você conseguir conquistar sua
posição, metade da batalha estará ganha antes mesmo de começar. Ou, se
quiser, eu falo com ela.
Branson sacudiu a cabeça:
-3-

— Nada disso. Não vou deixar o trabalho sujo para você! Minha
secretária vai telefonar e marcar uma hora. Talvez eu ainda consiga sair deste
problema com meu traseiro inteiro, ou, ao menos, só com alguns arranhões…
— Se é um consolo, você mesmo tem ótimas bases para iniciar um
processo. Os defeitos daquele prédio deveriam ter sido mostrados muito
antes de você assinar o contrato de compra. Providenciei uma firma de
engenharia que fez um estudo preliminar. Temos de provar na Justiça que os
vendedores já sabiam dos graves defeitos de estrutura, e não o informaram.
No geral, a Justiça vê com muito maus olhos um negócio desse tipo.
Bran ouvia o que John falava e não tinha a menor dúvida de que o
advogado iria a fundo, em seu problema. Mas agora estava mais preocupado
com aquela mulher que soltava fogo pelas ventas, e sua firma de Seguros.
— Que faz uma… Companhia Privilegiada de Seguros?
— Faz a corretagem de seguros de outras firmas, criando um pacote
individualizado para seu cliente. Coisas assim…
Na mente de Bran surgiu a imagem de uma antiga professora de
inglês, o cabelo amarrado atrás, num birote, óculos de armação metálica,
ameaçador, na ponta do longo nariz, uma quarentona vestida sobriamente de
cinza.
Ele não conseguia perdoar-se. Poderia ter respondido à primeira carta
ou mesmo à segunda. Ou telefonado… Agora iria defrontar-se com a mulher,
pessoalmente, cara a cara. Pegou o telefone e digitou o número de sua
secretária, a fim de pedir-lhe que marcasse uma entrevista com a Sra. Nichols.
Vai ser dose pensou, aborrecido. Essa mulher não deve ter o menor
senso de humor!
Holly Nichols começou a dar risada. Sabia que o assunto não era
engraçado, mas não pôde evitá-lo. Sozinha em seu escritório, sem
testemunhas, deu-se ao luxo de explodir em gargalhadas, até os olhos se
encherem de lágrimas.
O telefone voltou a tocar, e ela suprimiu o riso; tinha de se controlar se
quisesse atendê-lo com algum tino profissional.
— Oi, Holly! Já arranjou um noivo?
Ao som da voz de sua secretária, Holly sentiu o riso voltando de novo.
— Que dia você escolheu pra ficar doente, Susan Martin! Eu deveria
processá-la por deserção! Se o que eu vi, hoje, são amostra do tipo de homem
que existe em Indianápolis, pobres mulheres solteiras…
-4-

— Assim ruins?
— Imagine ainda pior. E para afundar as coisas de vez, a secretária
temporária que a Agência enviou tinha uma cabeça de vento. Acho que nem
isso: cabeça de mosca! Ela fez uma bagunça na minha agenda que nunca mais
vou entender.
Susan pôs-se a rir:
— Você há de convir, Holly, que para uma agência de seguros; receber
propostas de noivado por telefone deve ter sido uma experiência e tanto, para
a moça!
— Ei, espere aí! Sua voz não é de gente doente, Susan. Tem certeza de
que não está me fazendo de boba?
— Verdade, Holly! — exclamou a outra. — Deve ter sido uma virose
de vinte e quatro horas; estou muito melhor agora e amanhã volto ao
escritório. Você ainda tem entrevistas marcadas ou esgotou o time de noivos?
Holly suspirou profundamente:
— Tenho só mais um daqui há pouco. Não sei como fui seguir os
conselhos de minha irmã… Se ela não tivesse me provocado, acho que não
teria feito a besteira. Tenho de achar outra maneira de me vingar de Michael
James Nichols.
— Desculpe mudar de assunto, Holly, mas o tal Sr. Bran apareceu na
hora marcada?
A expressão de Holly mudou para desgosto:
— Aquela cobra cancelou! Bem que eu deveria ter desconfiado,
quando marcou uma entrevista. Caretas importantes assim nunca têm tempo
para os pequenos clientes como eu. — Embora não o conhecesse
pessoalmente, sabia de várias histórias sobre o cavalheiro, nem todas
edificantes. — Ele só marcou hora quando o ameacei com um processo.
— Bem… Os outros inquilinos também não gostaram da idéia de
mudar seus negócios.
— Não é só por isso. Eu sei que posso parecer boba, nesta época de
microcomputadores e microondas, mas muitos de nós buscamos exatamente
este local por ser antigo, com pé-direito de três metros e meio; vitrôs
coloridos e pisos desenhados…
O que ela se esqueceu de mencionar foi o elevador que nem sempre
funcionavam, os encanamentos deficientes mesmo para os padrões dos
navios de Colombo.
-5-

— Eu compreendo — interpôs Susan. — Afinal, esta é apenas a décima
segunda causa perdida, desde que nos conhecemos…
— Causa perdida? — explodiu Holly.
— Bem, você não espera ganhar do Sr. Branson na Justiça… Ou espera?
Holly mudou o fone de orelha:
— Ao menos se ele aparecesse, eu poderia tentar, não é?
— Pense comigo, Holly: foi melhor ele não aparecer. Imagine se ele
surgisse bem no meio de uma entrevista e descobrisse que você fez um
anúncio num jornal, em busca de um noivo de fim de semana? Sua
credibilidade iria por água abaixo!
— Tem razão. Tratarei dele quando voltar de Valentine.
— Agora voltemos aos noivos. Como é esse indivíduo que está
esperando para entrevistar? Fico nervosa só de pensar.
— Pois não fique: sei cuidar muito bem de mim! — Holly pegou as
anotações que fizera na noite anterior, durante a breve conversa telefônica
com ele. — Olhe, realmente, só sei que se chama David e trabalha em
construções.
— Só isso? — espantou-se Susan. — Pensei que tivesse tomado
informações prévias.
— Bem… É que os gatos me distraíram e…
— Gatos? Você vive numa verdadeira selva, Holly.
— Minha casa não é uma selva, Susan Martin! Apenas eu gosto de
plantas e de animais. Nunca me deram metade da dor de cabeça que meu
marido deu.
— É! Não me admira que tenha de anunciar, procurando um noivo!
Que homem de bom-senso entraria nessa sua selva infestada de animais
ferozes? E, além de tudo, anda naquele Volkswagen decrépito, dirigindo
como se corresse as Quinhentas Milhas de Indianápolis todos os dias!
A esta altura Holly estava quase se matando de rir e se preparava para
uma boa resposta quando percebeu um homem moreno, parado junto ao
batente da porta, olhando-a. Ela não tinha a menor idéia de há quanto tempo
ele se imobilizara ali.
— Susan, eu tenho de desligar — apressou-se em dizer, aprumando-se
na poltrona. E em voz baixa: — Ele chegou!
— Que tal parece?
Holly examinou-o desde os pés à cabeça: cabelos negros, um corpo
-6-

esguio, vestido com calça jeans desbotada e camisa xadrez. Parecia promissor.
— Muito bem! — sussurrou ela. — Nos vemos amanhã!
Branson observou enquanto a jovem sussurrava algo ao telefone.
Ela não era o que esperara: não parecia nem um pouco com sua velha
professora de inglês e ria de uma forma atraente.
Levantou-se, com um resto de sorriso nos lábios, e foi ao seu encontro.
Se ele fosse deduzir pela última carta recebida, não se espantaria se ela
trouxesse uma espingarda carregada! Não conseguia confiar em seu sorriso
ou nos cálidos olhos cor de mel. O que queria ela?
Holly estendeu-lhe a mão, reservando-lhe o mais afetuoso sorriso para
colocá-lo à vontade. Os olhos dele estavam muito atentos, o que não era de se
estranhar. Ela também estaria atenta se estivesse respondendo a um anúncio
procurando uma noiva! Seu cumprimento foi firme, e ela sentiu um arrepio
na espinha ao olhar dentro daqueles olhos verde-jade.
Hum… Ele está aprovado, pensou Holly.
Soltando a mão apontou-lhe uma cadeira ao lado da escrivaninha:
— Sente-se-, David. Vamos começar… — Ela estranhou o olhar que ele
lhe dirigiu: — Você é David, não?
Ele aquiesceu com a cabeça, cada vez mais surpreso; de onde ela
soubera que seu primeiro nome era David?
— Sra... Srta… Nichols, eu não creio que…
Ela entrou em pânico; ele estaria querendo fugir?
— Por favor, não diga nada até saber os detalhes. Estou certa de que
vai me entender!
Ela parecia um tanto nervosa, mas, diante das circunstâncias, era de se
esperar. Ele ainda tentava reconciliar as imagens de H. C. Nichols, o papel
timbrado, e essa mulher de carne e osso, a sua frente. Quando chegara e a
encontrara ao telefone, aproveitara para um exame minucioso. Por certo não
tinha nenhuma sofisticação, à qual estava acostumado em suas namoradas,
mas era atraente de uma forma que o intrigava, e excitava sua curiosidade. A
espontânea risada cristalina o atingira em algum nível muito básico, tal como
o calor no olhar com que o recebera.
Por fim ele sentou-se, curioso para ouvir o que ela teria a explicar. Não
podia adivinhar o que ia por detrás daqueles olhos castanho-amarelados.
Holly, por sua vez, perdeu certo tempo arranjando papéis em cima da
mesa, ordenando os pensamentos. Não querendo que ele percebesse seu
-7-

nervosismo, evitou encará-lo.
— Gostaria antes de qualquer coisa de deixar claro que esta é uma
relação de negócios; não se trata, absolutamente, de um fim de semana para
jogos sexuais.
David cruzou os braços no peito, recostou-se na cadeira e lutou contra
a risada; aquilo ficava cada vez mais interessante! Obviamente ela pensava
que ele era outra pessoa; sabia que deveria avisá-la, mas sua curiosidade
estava alertada ao máximo!
— Por outro lado, você não deverá fazer juras ou qualquer outro tipo
de compromisso em frente aos meus familiares. — Ela parecia tão vitoriana e
moralista que quase ficou nauseada. Por fim, arriscou-se a olhá-lo: — Você
bebe ou fuma demais?
Os olhos verdes, com as mais longas pestanas que ela jamais vira,
olhavam-na com tal intensidade que Holly se arrepiou.
Ele sacudiu a cabeça, perdido no exame de delicadas sardas douradas
que pontilhavam o nariz fino e bem-feito. Poderia ficar a vida inteira olhando
para ela, ouvindo-a, mas sua consciência exigia que revelasse sua identidade.
— Srta… Sra.… Nichols… Ahn, eu acho que você deveria saber que…
Ela levantou a mão, interrompendo-o:
— Por favor, deixe-me terminar. Se tiver dúvidas, mais tarde terei o
maior prazer em esclarecê-las. Até aqui, entendeu tudo?
— Não estou certo! — suspirou ele, desistindo por enquanto. — Mas
prossiga. Acho que pegarei o fio da meada.
— Como lhe disse ao telefone, ontem à noite, entregarei a metade do
dinheiro, duzentos e cinqüenta dólares, quando sairmos, pela manhã. A outra
metade, ao voltarmos.
Ela odiava a idéia de gastar suas economias assim; porém, Michael
merecia! Além do que, valeria cada centavo se ela conseguisse levar tudo até
o fim. Olhou para David e imaginou que poderia ser uma espécie de…
Caridade. Afinal, ele parecia jamais ter visto tanto dinheiro junto há um
bocado de tempo, se é que jamais vira…
Enquanto isso David começava a se sentir inconfortável. Será que
aquilo era legal?
— Sra… Srta. Nichols, eu sei que não deveria perguntar nada, mas
sinto que tenho de perguntar agora mesmo…
Holly achou que para um empregado da construção esse homem
-8-

falava correto demais. Achou melhor concordar com aqueles olhos verdes que
suplicavam:
— Pode perguntar.
— Para onde vamos?
Ela ficou aborrecida com a pergunta, mas tentou não demonstrar;
afinal já haviam conversado na noite anterior!
— Vamos a Valentine. Estado do Nebraska.
Por certo aquela moça estava fazendo uma gozação! David inspirou
fundo:
— E, por favor, a troco de quê?
Holly fechou os olhos e rezou pedindo paciência. Ao mesmo tempo
chegou à conclusão de que talvez ele fosse um desatento como ela, que, afinal,
nem anotara o sobrenome dele. Voltou a olhá-lo e percebeu a confusão em
seus olhos. Recostou-se na cadeira e passou a explicar:
— Vou a Valentine para as bodas de prata de meus pais. Fiz o anúncio
pedindo um noivo que me acompanhasse. — O olhar dele denunciava que a
confusão só aumentara. Era melhor contar tudo de vez: — David, vou pregar
uma peça no meu irmão. Juro que ele merece! Você concorda em me ajudar?
Ele passou a mâo na testa, como se estivesse com dor de cabeça: puxa,
como iria sair desta? Só que, na verdade, estava até disposto a ir até o fim.
Prometia ser a experiência mais divertida dos últimos tempos. E,
assim, iria conhecer a moça mais profundamente e poderia mostrar que não
era o monstro que ela imaginava… Mas, se ele contasse a verdade neste
instante, só teria a perder.
— Por falar nisso, David, qual é seu sobrenome?
— Eu não falei ao telefone, ontem à noite? — perguntou ele,
ressabiado.
Ela hesitou um pouco; não queria afugentá-lo
— Talvez sim, mas um gato ficou preso no rododendro e eu perdi um
bocado do que foi dito, tentando salvá-lo…
David percebeu que seu bom senso perdera a batalha quando se ouviu
dizendo:
— É Winslow, David Winslow…
— Bem, David, não posso me apresentar na minha cidade com um
noivo que me trata por senhorita… Ou senhora. Acho melhor me chamar de
Holly.
-9-

— Pois que seja: Holly.
Seu nome conjurava noites de Natal, crianças sorrindo em expectativa;
bolas multicoloridas em árvores verdes; alegria e intimidade. Tentou
imaginar onde estava se escondendo o dragão que cuspia fogo e queria
cortar-lhe a cabeça.
Enquanto isso, Holly pensava que, realmente, aquele rapaz não parecia
ser uma pessoa que respondesse a anúncios procurando por noivos.
Talvez o tivesse feito pelo dinheiro, pois sua camisa de trabalho e o
jeans desgastado denunciavam necessidades. Examinando os cabelos um
tanto longos demais, ela imaginou que talvez ele se lembrasse de cortá-los,
antes da viagem. Ao mesmo tempo, perguntou-se, se ele jamais sorriria!
— Bem, David — concluiu ela —, eu creio que vai funcionar. Se não
tem compromissos hoje à noite, gostaria que jantássemos juntos; assim
poderei contar um pouco sobre minha família, e como será o fim de semana.
Quanto mais informação eu der, melhores as chances de sucesso!
David olhou as próprias roupas: tinha vindo direto do Centro Cívico,
em meio aos pedreiros.
— Acho que não estou vestido para um jantar… — comentou. Além
disso, que fariam se encontrassem conhecidos? Não podia se arriscar a ser
reconhecido antes do momento apropriado.
Ela se abaixou atrás da escrivaninha e apanhou a bolsa:
— Não há problema. No local aonde vamos basta que esteja de calças,
sapatos e camisa. — Ela levantou-se, caminhou até a porta e voltou-se: —
Gostaria de parar um momento em casa para mudar de roupa. Mas é só um
minuto…
Talvez ele não se sentisse tão mal se ela vestisse algo mais confortável.
Acompanhou-a, admirando o porte imponente, apesar de ela ser
baixinha. Ele sempre se sentira atraído por mulheres esguias e altas, como
modelos, e sentia-se perturbado pela atração que ela lhe provocava sendo o
contrário disso.
Cuidado, Branson: essas curvas são perigosas! Uma voz lhe disse
interiormente.
Quando alcançaram a rua, o anoitecer estava cálido, e ele
acompanhou-a até um Volkswagen terrivelmente arruinado. A pintura havia
sido vermelha e se transformado, nos últimos cem anos, num laranja
desbotada. O pára-lama direito, da frente, era azul claro; a porta esquerda era
- 10 -

preta e o pára-choque traseiro não existia.
Holly abriu a porta do motorista enquanto fiscalizava o passeio que
David deu, em torno do carro, examinando-o. Por fim ele a olhou por sobre a
capota:
— Isso anda?
Acostumada a piadinhas do gênero, ela respondeu:
— "Isso" me leva para onde quero ir.
Sabia que o carro tinha poucos meses de vida pela frente, mas preferia
gastar seu dinheiro em outras coisas.
David sentou-se a seu lado e observou, com algum divertimento, ela
colocar o cinto de segurança.
No momento seguinte, Holly deu a partida, engrenou a primeira e saiu
cantando pneus, fazendo David perder a respiração.
— Minha casa é perto, portanto a gente chegará logo.
Brecou bem em cima de um sinal vermelho; desabotoou a jaqueta com
a mão esquerda, engrenando já a primeira. Mal o sinal tornou-se amarelo, o
carrinho cantou os pneus novamente, enquanto ela jogava uma segunda,
seguida de uma terceira, sem intervalo. David nem pôde observar se ela
usava a embreagem.
— Você vive a quanto tempo em Indianápolis?
— Desde os quinze… — David cerrou os dentes enquanto ela fazia
uma curva impossível —… Anos. Vivo aqui há vinte anos e, se a senhora não
se importar, gostaria de sobreviver uns aninhos mais…
— Não nasceu aqui? — perguntou ela, em seguida, encaixando-se
atrás de um caminhão vagaroso.
— Nãããooo… — gemeu ele, enfiando o pé no chão em busca de um
freio imaginário.
Não que estivesse com medo; apenas o instinto de sobrevivência falava
mais alto que aquela corredora de "Quinhentas Milhas" em pleno trânsito de
início de noite!
Minutos depois ela encostava-se a uma tranqüila rua, em frente a uma
modesta casa de dois andares, desligando o motor. David respirou fundo e
voltou-se para encará-la. Será que ela sabia sua identidade real e fizera tudo
àquilo, como vingança?
— Você fez um pacto suicida com este carro? — o indagou por fim.
— Fiz alguma barbeiragem? — perguntou ela, com uma surpresa
- 11 -

inocente no rosto.
— De forma alguma! — respondeu-lhe David. — Eu adoraria morrer
esmagado nas ruas de Indianápolis!
Susan vivia dizendo que Holly era uma ameaça atrás de uma direção;
claro que havia exagero, embora admitisse guiar um pouquinho mais rápido
que a média dos mortais…
— Perdoe-me, David! Eu não prestei atenção… Não fiz de propósito…
— O fato é que, com a "senhora" na direção, este carro deveria ser
considerado uma letal arma do Exército!
— Eu pedi desculpas! — Holly falou os olhos brilhando
douradamente. — E você chegou inteiro, não foi?
David olhou pela janela; a calma vizinhança foi outra surpresa. Os
jardins e árvores, ao longo da ampla avenida, lançavam uma tonalidade verde
na iluminação artificial. Tulipas e outras flores lançavam manchas coloridas a
intervalos.
— É aqui que você mora?
Ela ô examinou cautelosa, acostumada a reações negativas a seu
bairro. Ficou feliz em visualizar aprovação nos olhos dele.
— Eu sabia o que desejava ao procurar uma casa para comprar —
comentou-a. — Você imagina o tempo que perdi enquanto era arrastada de
um lado á outro pelos corretores das imobiliárias, tentando me impor
condomínios. Um dia, quando passeava só, percebi esta casa.
— Mesmo na velocidade em que dirige?
Holly ia começar uma resposta ríspida quando percebeu o brilho de
gozação nos olhos dele e sentiu o coração saltar como um cabrito. Desde que
se divorciara, três anos atrás, acostumara-se a conservar os homens à
distância. Agora se percebia curiosa por conhecer melhor este homem, que
aparecera em sua vida de uma forma tão inesperada.
Para mascarar a perturbação, foi até a porta da casa, procurando a
chave na bolsa com um frenesi inexplicável. Aborrecida consigo mesma,
conseguiu pegar a chave a abrir a porta. Podia sentir a presença de David
atrás dela, consciente daquela presença máscula como não sentia a longo
tempo de nenhum outro homem. Começou a rezar para que ele não
percebesse como á impressionara. Tinha de manter ao menos uma pretensão
de domínio sobre a situação por todo o fim de semana!
Holly sorriu quando um monstro peludo surgiu correndo e escorregou
- 12 -

indo parar a seus pés.
— Deus Santíssimo! O que é isto?!
Holly acariciou o pastor alemão e respondeu:
— Este é Brewster! — Fez uma careta quando viu o rosto de David.
Não era tanto medo, aparentemente poucas coisas poderiam
amedrontá-lo, mas uma espécie de respeito saudável.
— Não se impressione Brewster só morde quando eu mando! —
explicou solícita.
— Que quer dizer com isso?
— Que ele foi treinado para proteger-me, portanto só atacará se eu
mandar. De outro jeito é um doce.
— Doces não têm dentes! — afirmou David.
Atirando os sapatos de salto alto para um lado, Holly apontou-lhe o
sofá:
— Esteja à vontade enquanto troco de roupa.
David seguiu-a pela sala de estar, a atenção voltada para o enorme cão
que o acompanhava com olhos inteligentes.
— Você vai me deixar só com ele? — perguntou, desejando fazer
amizade com o cão, mas sem arriscar perder os dedos.
Holly percebeu o tom de cautela na voz dele e sorriu:
— Eu já disse: ele só atacará se eu mandar ou se você tentar fugir com
a prata da casa, enquanto eu estiver lá em cima — e desapareceu no hall da
escada.
Ele passou a examinar a sala, um verdadeiro espelho da mulher que ali
vivia. Embora a conhecesse tão superficialmente, podia sentir sua
personalidade em cada detalhe, na profusão de plantas penduradas no teto
ou em mesinhas estrategicamente dispostas.
Colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e caminhou até um canto, junto
ao equipamento de som. Ele examinou a cara coleção de discos, os olhos
tornando-se pensativos com os títulos e os autores. Aparentemente, Holly e
ele tinham uma surpreendente semelhança no gosto musical.
— Pronto para ir?
Ele se voltou ao som de sua voz, o coração pulsando com o sorriso que
encontrou. Ela vestia jeans azul-pálido e um suéter rosa, que denunciavam as
curvas arredondadas com perfeição. Colocara um mínimo de maquilagem,
apenas um toque de brilho nos lábios, o que fez perguntar-se qual seria o
- 13 -

sabor de um beijo dela. Aquela mulher estava criando uma verdadeira
confusão em seu espírito.
Holly percebeu o brilho do desejo nos olhos dele e sentiu a garganta
ficar seca. Era quase impossível pensar naquela situação como um arranjo de
negócios; como seria beijá-lo?
Sua estúpida! Pensou ela. Você é uma idiota, Holly Carol Nichols, até
mesmo só por pensar besteira! Este homem respondeu a um anúncio. É tudo!
Ela alcançou a porta do carro antes de perceber que o abandonara no
meio da sala. Parou, voltou-se e quase gritou de susto ao encontrá-lo atrás de
si. Ficou a encará-lo por um segundo até que recuperou a voz:
— Você fechou a porta?
— Quem entraria na casa com aquela besta-fera no meio do caminho?
— Brewster não é uma besta-fera!
— Você está certa. É apenas um doce com dentes…
Ela sorriu, percebendo a tensão se dissipar, e deu a volta no carro.
— Onde encontrou esse nome, Brewster?
— É de um famoso piloto de corridas.
— Ahn… — murmurou David. — Eu deveria ter adivinhado! Só podia
ser algo assim.
Ela o olhou por sobre a capota:
— Vai continuar falando sobre meu modo de dirigir? Prometo que
tratarei melhor de seus nervos…
Ele abriu a porta:
— Obrigado! Eu detestaria que minha morte pesasse sobre sua
consciência.

Capítulo 2

— McDonald’s? Você pretende jantar no McDonald’s? — David olhou
os famosos arcos, não acreditando nos olhos.
— Ora essa, "seu" David! Não me diga que nunca sofreu um ataque de
- 14 -

McDonald’s!
— Olhe… — Ele continuava a sentir ataques era de sua convivência. —
Não me lembro quando foi a última vez que sofri um ataque de Big Mac, mas
do jeito que esta noite está acontecendo, topo qualquer coisa!
Holly olhou-o, sobranceira.
— Hum! Quer jantar ou não?
David olhou de novo os característicos arcos:
— Você é quem manda! — E sorriu ao perceber que ela gostara do
tratamento.
Uma vez dentro do restaurante, David buscou uma mesa vazia para
ambos, enquanto ela ia até o balcão providenciar os pedidos. Ao menos ali ele
não precisaria se preocupar em ser reconhecido.
Sentando-se junto à janela, ele se pôs a olhar a massa de pessoas que se
deslocavam pelo shopping no calçadão. Este havia um projeto seu muito
importante, há dez anos, precisamente o início do sucesso comercial de D. W.
Branson. Depois disso aconteceram outros shoppings em calçadões, maior
ainda de mais sucesso, porém este era muito especial.
A vida se tornara mais fácil após o primeiro sucesso, significando uma
faculdade para seus irmãos e irmãs, uma casa para si próprio e a
independência financeira.
Mas o que significava tudo isso? Seus irmãos haviam se formado, e ele
achava mais dinheiro do que seria capaz de gastar em toda uma vida. Por
que, então, não era capaz de gozar dessa liberdade? Pensou em Nick, o
caçula, quando lhe telefonara, há anos, avisando que estava abandonando a
faculdade. E que agora só telefonava ocasionalmente dos lugares mais
inesperados, viajando continuamente em sua motocicleta.
— Espero que goste de morango.
Ele deu um salto e olhou Holly como a um fantasma:
— Desculpe… O que você disse?
Ela colocou a bandeja em cima da mesa e sentou-se do lado oposto,
pegou um copo de papel com milk-shake e deu a ele.
— Morangos! Você gosta? — E ficou espantada com a solidão que os
olhos dele transmitiam.
David aquiesceu com a cabeça e olhou, pasmo, a fantástica quantidade
de pratos na bandeja:
— Você convidou toda a vizinhança para participar?
- 15 -

— Acho que deveria tê-lo avisado. — Sorriu ela. — Quando saio para
comer, é para valer! — Estendeu-lhe um enorme Big Mac, um pacote de
batatas fritas e pegou o mesmo para si. — Em que estava pensando?
— Estava olhando as pessoas…
Ela bebeu um pouco de seu milk-shake, examinando-o atenta:
— Parece que você nunca viu um shopping num calçadão, antes…
— Não tenho muito tempo para freqüentá-los… Nem mesmo um
McDonald’s. A não ser quando estou construindo e… — Ele sorriu,
encabulado. — Quero dizer, construindo calçadões, não os McDonald’s,
claro…
Ficaram calados por alguns momentos, e ele observou-a com atenção.
A iluminação punha reflexos dourados nos cabelos castanho-claros.
Ela parecia ter um brilho interior, transmitia a sensação de algo meigo,
delicado, apesar de ser uma mulher de sucesso, o que era fácil deduzir pelo
escritório dela, que ele conhecera naquele dia. David teve de se esforçar para
dominar o impulso de se debruçar sobre a mesa e beijar o canto dos lábios
dela, que estava com um leve traço de mostarda, que ela limpou em seguida,
com o guardanapinho de papel, como se tivesse adivinhado a tentação dele.
— Conte-me sobre sua família — pediu o rapaz. — Você é a filha do
meio, a mais velha ou a caçula?
— Eu era a número três — respondeu Holly, depois de pensar um
pouco —, mas depois que meus pais se casaram, virei a número cinco e,
depois, fiquei mais ou menos no meio…
— Como é isso? — quis saber David, confuso.
— Meu verdadeiro pai… O pai biológico, abandonou mamãe e meus
dois irmãos antes que eu nascesse. Quando fiz dois anos, ela se casou com
Sam, um viúvo com dois filhos menores do que eu; depois, eles tiveram dois
filhos, então fiquei com dois irmãos, dois meios-irmãos e duas irmãs tortas…
Papai e mamãe até hoje dizem "os seus filhos, minha filha e nossos filhos",
mas na verdade somos uma verdadeira família e nos amamos. Sam é o único
pai que conheci, e tem sido sempre maravilhoso para todos nós.
— Ele deve ser um grande homem.
— É sim. Mamãe e ele conheciam-se desde pequeninos. Aliás, todos se
conhecem em Valentine, principalmente conhecem Sam, que tem uma
doceria.
— E ele deve ser um homem competente, por ter alimentado você!
- 16 -

Holly mastigava o último pedaço do sanduíche, e o ajudava a descer
com um gole do milk-shake.
— Meu irmão mais velho, Joe, projeta, constrói e corre com seus carros
nas Quinhentas Milhas; casou-se com uma mecânica que conheceu em
Atlanta. Sandy e ele esperam um filho para julho. — Ela pegou a fatia de torta
doce, ofereceu a David, que recusou, então continuou: — Depois vem a
Brianny, que dirige caminhões de transporte interestaduais. Ela se casou com
um dentista de Denver, que conheceu quando teve uma dor de dente terrível.
Têm uma filha, a Amy, de dois anos…
— Conte-me — interrompeu David —, onde uma moça do seu
tamanho enfia tanta comida?
Holly recostou-se na cadeira:
— Eu avisei: se é para comer, deixe comigo! Onde eu estava?
— Não faço a menor idéia!
— Ah, sim, em Louisa. Ela e o marido vivem em Omaha, onde têm
uma loja de motocicletas e dois filhos. Rob projetou uma nova roda para
motos de corrida, há uns dois anos, e passam o tempo construindo e
vendendo a tal roda por todo o país. Os garotos estão começando a correr,
também; afinal Bobby já está com oito e Kevin com nove anos!
Holly mudou de posição e ficou se perguntando o que pensaria ele,
por detrás daqueles olhos magníficos. Ele não se assustara com a história
complicada; ao contrário demonstrava interesse.
— E assim, restam Tina e Tim, as gêmeas. Ambas estão na
Universidade de Nebraska. Tina quer se tornar parteira e trabalhar na reserva
indígena dos sioux. Tim está estudando agricultura, joga futebol americano e
cruza o país num circuito de rodeio, durante as férias de verão. — Holly
sorriu: — Será que vai lembrar-se de tudo?
Ele sacudiu a cabeça, tonto:
— Acho que me perdi entre Denver e Omaha…
— Cruzes! Quase esqueci Michael! — disse ela, batendo na própria
testa.
— Nâo sei se devo perguntar… Quem é Michael?
— Ele é o número dois, logo antes de mim. É um pastor.
— Um pastor? — David mal conseguiu esconder uma careta. — Ao
menos, há um normal na família!
Holly soltou um ruído muito pouco educado:
- 17 -

— É o que ele gostaria que todo mundo pensasse. Mas eu poderia
passar o resto da noite contando coisas a respeito de Michael, o normal da
família. Desde que a gente era criança pregamos peças um no outro. — Seus
olhos brilharam satanicamente, e o sorriso se ampliou. — Esta brincadeira vai
ser a melhor… Toda a família está sabendo, menos ele!
David ficou preocupado com a expressão feroz em seu rosto:
— Que fez ele para merecer tamanha… Vingança?
— Quando cheguei em casa, na Páscoa, descobri que ele andara
espalhando que eu estava noiva, aqui em Indianápolis. Quando Michael
esteve aqui, conheceu um cliente de minha firma que estava interessado…
Você sabe, a fim de me namorar. Pois ele aliou-se àquela mula só para me
gozar! Depois que consegui me livrar daquela peste, Michael continuou a me
atazanar; precisei ameaçar arrebentá-lo no meio de um restaurante.
Holly parou e fitou David com um olhar ameaçador:
— Se você se atrever e dar risada de mim, vou arrebentá-lo bem no
meio deste restaurante! — Depois de uns segundos, percebendo que David se
controlara, continuou: — Imagine minha cara ao chegar em Valentine e saber
que toda a família me esperava com um noivo! Quase esganei Michael! E aí
está por que minha família vai me ajudar a enganá-lo. Brianny, minha irmã, é
quem sugeriu como "conseguir um noivo de fim de semana". Agora mal
posso esperar para ver a cara de Michael quando eu aparecer com o noivo!
Ela se calou, por fim, e, endireitando-se, encarou David com o rosto
brilhando:
— Minha família não o amedronta?
Examinando os restos de papel, pepelão e recipientes de isopor à
frente dela, David sacudiu a cabeça:
— Estou muito mais amedrontado pela quantidade de comida que
você consome do que por sua família. Desse jeito você vai parar no livro
Guinness de recordes!
Ela riu, percebendo que ele não parava de provocá-la; parecia ter um
real senso de humor.
— Olhe tudo o que posso dizer é que, pensando na sua e na minha
família, é ótimo que não estejamos nos casando, pois seria preciso alugar a
pista de Indianápolis para a cerimônia!
Holly arregalou os olhos:
— Então, você tem família?
- 18 -

Ele parecia ser um solitário!
David se inclinou por sobre a mesa, os olhos brilhando divertidos:
— Você achava que eu nasci em incubadeira?
Se ela se deixasse levar, ficaria encantada com o jeito e palavras
daquele homem. Sentia os dedos coçando para tocá-lo, mas não se atrevia.
Porém, se ele tinha uma família, de onde vinha a solidão em seus
olhos? Talvez tivesse se distanciado de seus familiares: havia gente assim!
— Desculpe, eu… Não pensei que… Você parece tão…
— Solitário? — o completou depois que ela silenciou por um longo
tempo.
Holly se permitiu envolver os dedos dele com os seus e fez que sim,
com a cabeça. De repente David sentiu a amargura querendo tomar conta
dele. Holly estava certa; sua irmã Cheryl sempre o acusara disso: havia se
transformado num solitário desde os dezesseis anos, quando seus pais
tinham morrido num acidente de automóvel, e ele acordara num hospital.
Ficará só, os irmãos mais novos distribuídos entre famílias caridosas
que os haviam adotado.
Ele tivera de lutar muito, e bastante tempo se passara antes que
conseguisse reuni-los como uma família, de novo. Mas nem então a sensação
de isolamento o abandonara. Os últimos dois anos, desde que Nick
abandonara a faculdade, tinham sido piores. Agora, sentia-se profundamente
amedrontado com o sorriso cálido e os olhos alegres de Holly a encará-lo por
cima da mesa. Ele não podia deixar-se envolver, não por esta mulher,
principalmente. Sua intenção original fora simplesmente deixá-la conhecer
melhor um homem e não um demônio interesseiro que ela pensava que ele
era.
Repentinamente, largou a mão dela:
— Bem, você tem razão… — Olhou dentro dos olhos dela: — Apesar
de ter quatro irmãos e duas irmãs, eu sou um solitário. Acho que é mais
seguro…
Holly não acreditou em nenhuma palavra; ela também levantara
barreiras de proteção desde o divórcio. A atração entre eles era forte demais
para ser negada. E, entretanto, era justamente o que ambos estavam tentando
fazer.
— E seus pais?
— Morreram… — respondeu ele, secamente, levantou-se, pegou a
- 19 -

bandeja com os resíduos e propôs: — Se você acabou de comer, está na hora
de irmos.
Ela não queria ir. Queria ficar exatamente ali, ouvindo toda a história
de sua vida, tudo o que havia para saber de David Winslow. Mas levantou-se,
procurando esquecer como apreciara o calor da mão dele na sua. Naquele
instante percebeu que caminhava sobre um terreno muito perigoso.
Estavam quase juntos à porta de saída quando ela exclamou:
— Espere um pouco, eu me esqueci de pegar um prato de doces para
casa!
Na verdade queria ganhar um tempo longe dele, e os doces eram uma
desculpa.
— Não posso acreditar! — exclamou David, rindo e provocando um
galopar no coração dela. — Eu a espero lá fora.
Quando ela saiu e o encontrou, David estava com as mãos nos bolsos,
com uma fúria no rosto.
Ela não é meu tipo, impôs-se, refreando-se de tocar cada sarda
delicada naquele narizinho. Ele sempre se sentira atraído por mulheres
sofisticadas, não era? Como poderia pensar numa pequena mulher, que
consumia mais comida que todo um time de futebol?
— Comprou uma caixa de doces? — brincou, sentindo um terrível
impulso de beijá-la ali mesmo.
— Claro! — respondeu Holly, batendo na bolsa á tira-colo, depois
passou a mão pelo braço dele: — Vamos espiar vitrinas no calçadão!
— Como é que você consegue andar com toda aquela comida na
barriga? — perguntou ele.
Sentindo o braço musculoso perturbadoramente pressionando o seu,
ela retrucou:
— Espero que não pense que sempre como assim. Amanhã terei de
fazer regime, para compensar.
— Amanhã você estará na festa de seus pais! — o lembrou. — Não me
diga que sua mãe vai servir iogurte e broto de feijão; se for assim, preciso
levar alguma comida para não morrer de fome!
Holly sacudiu a cabeça:
— Não sei como pude me esquecer! Vou ter de passar toda a próxima
semana fazendo regime!
David não conseguiu mais evitar e, mexendo o braço, fez com que a
- 20 -

mão dela caísse quase naturalmente na sua.
— Conte-me: como é que saiu de Valentine e chegou a Indianápolis?
Ela fez uma careta:
— Da maneira mais científica: peguei um mapa, fechei os olhos e
espetei um alfinete. Pronto: caiu aqui!
Conforme iam apreciando as vitrinas, ela ia respondendo a respeito de
sua vida profissional, até chegar ao escritório de sucesso. Procurou não
pensar em por que as respostas dele eram tão evasivas quando lhe
perguntava alguma coisa.
Quando chegaram a uma joalheria, David a fez parar:
— Vamos lá, Holly: escolha um anel de noivado!
Desejosa de não quebrar o encantamento daqueles momentos, ela
parou a examinar as jóias. Ele passou-lhe um braço pelos ombros, enviandolhe uma onda de choque através das veias. Na verdade ela prestava mais
atenção à imagem de ambos, no vidro, do que nas lindas peças expostas.
Podia sentir a respiração dele em sua têmpora, enquanto apreciavam
as jóias.
— Se pudesse escolher… Qual indicaria?
— Não sei — respondeu ela, olhando coisas banais como jóias,
enquanto sentia intensamente a presença máscula ao lado.
— Vamos lá, moça: qualquer mulher americana adora esfregar uma
enorme pedra preciosa na cara das amigas só para demonstrar o sucesso na
caçada feita!
Ela libertou-se do braço dele, sentindo uma onda amarga subir-lhe
pelo corpo e inundar-lhe a cabeça. Voltou os olhos para encará-lo, procurando
esconder o amargor:
— Nem todas as mulheres, David! Meu ex-marido comprou-me um
diamante do tamanho de uma azeitona, mas isso não evitou a fila de
mulheres que arrastou pelos dois anos em que estivemos casados!
De repente, Holly ficou enrubescida ao perceber que havia confessado
algo íntimo para aquele quase estranho. Os olhos de David se encobriram de
sombras, demonstrando um sentimento muito forte que ela não desejara
provocar. Mas que tipo de mulheres ele conhecera, para ter falado daquela
maneira?
— Desculpe-me — murmurou ela, após uns minutos, procurando
atenuar a tensão.
- 21 -

— Sou eu quem deve se desculpar — disse ele, quase rouco.
Ficou a se perguntar com que tipo de monstro ela se casara, sentindo
vontade de dar uns pontapés em si mesmo, por sua estupidez. Parecia estar
querendo provar a si próprio que ela era como as demais mulheres que
conhecera que se interessavam pelo que ele possuía e não por quem era. Por
baixo do humor alegre de Holly existiam cicatrizes que transpareciam nos
olhos brilhantes. Novamente ele sentiu um impulso irresistível de abraçá-la e
afugentar aquela tristeza com beijos, mas pressentiu que ela não o receberia
bem, em especial naquele momento.
A verdade é que o pedido de desculpas de David tinha atingido Holly
diretamente no coração; Rick jamais pedira desculpas, nem mesmo quando
ela chegara, em casa, uma tarde, e o encontrara na cama com sua secretária.
— Venha comigo, Winslow. — disse, ao ouvir os ruídos de jogos
eletrônicos, numa loja próxima. — Vamos tomar um suco de laranja Julius e,
depois, eu o derrotarei no vídeo game Guerra nas Estrelas?
— Pelo nome, esse suco me parece mais comida— comentou-o, rindo.
— Como é que você ainda pode pensar em comer mais, Holly?
Ela se imobilizou e olhou-o, mal acreditando:
— David Winslow: não me diga que não conhece o suco de laranja
Julius!
— Tudo bem, então eu não direi!
Ela sacudiu a cabeça, desapareceu num barzinho ao lado e voltou com
dois copos bem gelados nas mãos. Quando se sentaram, ele provou o refresco
e fez um gesto de apreciação:
— Muito bom! Mas só conseguirei tomá-lo quando estiver com fome,
de novo. Como imaginei, é uma verdadeira refeição!
— Oh, céus: então era verdade! Você não conhecia o suco Julius!
— Já falei Holly: só tenho tempo para construir os shoppings. Quase
nunca para visitá-los, depois!
— Aonde arranja suas roupas?
Talvez no Exército da Salvação, pensou ela, assim que acabou de
perguntar, pelo estado de uso que o jeans apresentava.
— Hum! Compram para mim! — explicou ele, simplesmente,
aparentando estar perdido no movimento das pessoas.
Claro que não poderia contar-lhe que seu alfaiate o visitava no
escritório, levando amostras dos tecidos.
- 22 -

Holly sentiu um frio subir-lhe pela espinha. Seria a esposa que lhe
comprava as roupas? Ela não havia pensado nisso: um homem casado
poderia responder a seu anúncio?
— Você é casado? — perguntou, examinando a espuma em seu copo,
enquanto mexia com o canudinho.
Nem queria pensar por que a resposta agora parecia tão importante.
— Como? — O rosto dele era o próprio espanto. — Claro que não!
Holly soltou a respiração, aliviada, e rezou para que ele não tivesse
ouvido. Levantou os olhos e encontrou o desejo brilhante em seus incríveis
olhos. Estavam sentados num banco, bem no centro do calçadão, cercados por
uma multidão de pessoas, mas para ela só existiam os dois. Todos os seus
sentidos estavam voltados para esse homem misterioso e atraente. Ele traçou
a curva de seu queixo com a ponta de um dedo, e ela se arrepiou.
— Teria importância, se eu fosse? — sussurrou ele, em voz contida. —
Afinal, só há um acordo de negócio entre nós, não é?
Quem havia dito semelhante bobagem a respeito de um acaso tão
maravilhoso do destino? Sua respiração estava presa na garganta enquanto
aqueles olhos verdes a prendiam, hipnotizada, mal a deixando murmurar:
— O que diriam se soubessem que eu passei um fim de semana com
um homem casado?
— Um mundaréu de mulheres nem se importaria!
— Eu não sou um mundaréu de mulheres! Algumas pessoas até me
acham estranha.
Ele examinou cada detalhe de seu rosto, os olhos cor de mel, o nariz
delicado, os lábios úmidos. Disse, então:
— Estranha, não! Diferente, sim, mas não estranha!
Ela era mais que diferente: era ímpar, deliciosa, refrescante. Ele podia
sentir algo mover-se dentro de si, algo que havia muito tempo estivera
encolhido e imóvel.
Os olhos de David pareciam queimá-la, e ela precisava fazer algo para
se livrar do encantamento. Se não o fizesse, ele a beijaria no momento
seguinte bem no meio do calçadão, com metade de Indianápolis olhando.
Ficou dividida entre sentir o toque de sua boca, e amedrontada pelo
que se seguira.
— Aposto que ganho de você na Guerra das Estrelas!
Ele a encarou, confuso e, depois, pôs-se a rir. Sua risada, que levara
- 23 -

tanto tempo a aparecer, tinha valido a espera. Ele parecia muito mais atraente,
jovem e relaxado, rindo, feliz daquele jeito.
— Holly, eu sei que vai achar difícil de acreditar, mas nunca joguei isso
em minha vida! Não tenho dúvidas de que não só vai ganhar de mim, como
me humilhar!
Holly pôs-se em pé, agarrou-o pela mão e rebocou-o até a lojinha de
jogos.
— Sua educação está muito incompleta, homem! — brincou ela, feliz
por ter quebrado a tensão entre ambos.
Sabia que teria de enfrentar o problema mais à frente; era impossível
negar a atração entre ambos. Mas, por enquanto, queria vê-lo divertir-se.
Quando entraram na loja de jogos eletrônicos, uma onda de bipes,
bongues, tuim e rock pesado inundaram-os. David pegou-lhe a mão e gritoulhe ao ouvido:
— A gente consegue sair daqui vivo?
— Claro bobo! E pretendo me valer de sua ignorância. Fique aqui que
já volto!
Quando retornou trazia muitas fichas na mão; David estava em frente
de uma máquina, parecendo pensativo. Logo se revelou um rápido aprendiz
e, uma hora depois, Holly estava perdendo, no jogo mais fácil que escolhera
para ensiná-lo.
— Sorte de principiante — comentou-a. — Agora vamos à Guerra nas
Estrelas, tirar o campeonato. Já vou avisando que sou ótima naquele jogo!
— O que ganha o vencedor? — indagou David, divertindo-se para
valer.
Holly pensou um instante, não se atrevendo a dizer que seria o beijo
de momentos atrás, que não se realizara.
— Quem ganhar dirige na volta — propôs, então.
— Mas que enorme incentivo! — o comentou, rindo.
O que importava, na verdade, era que seu espírito de competição havia
sido despertado.
Meia hora depois Holly olhou o placar eletrônico, mal acreditando. Ele
estava cinqüenta pontos à frente. Seu berro de vencedor foi ouvido por todos
na loja.
— Como você conseguiu? — perguntou ela, perplexa.
— Segredo de Estado! Agora me passe à chave do carro, sua motorista
- 24 -

endiabrada! — E, inclinando-se, deu-lhe um rápido beijo nos lábios
entreabertos.
Apesar de momentâneo e suave, aquele beijo foi muito significante
para Holly e para David. Havia durado apenas um bater de coração, porém
deixara uma sensação indelével para os dois.

Capítulo 3

Já estavam a duas quadras da casa de Holly, quando ela lembrou-se de
que deveriam ter seguido para o centro.
— E seu automóvel? — Ela arriscou um olhar para David, que se
conservara calado e pensativo até então.
— Eu chamo um táxi da sua casa — respondeu ele, rapidamente,
voltando os olhos para ela por um breve instante —, se você concordar.
— Bobagem gastar dinheiro com táxi. Eu o levo.
Ele fez que não com a cabeça e tratou de explicar:
— Não quero soltá-la, a estas horas da noite, ameaçando os inocentes
habitantes desta cidade com seu modo louco de dirigir.
Ela mordeu os lábios, evitando uma resposta; na verdade não queria
que a noite terminasse. Mas, realmente, estava amedrontada pelos
sentimentos despertados por David. Mal o conhecera e já sentia-se à vontade
com ele. Além dos fatos de que provinha de uma família numerosa,
trabalhava em construção, possuía os mais lindos olhos que já vira, que mais
conhecia a seu respeito? Nada, e isso era perigoso.
— Em que está pensando? — indagou ele.
A tensão no ar, entre eles, também não passara despercebida a David.
A cada vez que mudava uma marcha podia sentir o calor da coxa de
Holly. Embora ela mantivesse cuidadosa distância, o fato era que ele sentia
uma confusão que não conseguia explicar. Nunca um beijo produzira nele as
sensações por que passara momentos antes… E queria mais.
Enquanto estacionava o dilapidado carro, relutava em terminar a noite.
- 25 -

— Nada importante — respondeu ela.
Claro que não poderia confessar que ficara imaginando o que teria
sido um verdadeiro beijo! Ficou espantada por já terem chegado.
— Vou fazer um café enquanto esperamos o táxi. Às vezes eles
demoram.
Brewster recepcionou-os na porta. Ela aquietou o gato angorá e foi
para a cozinha, deixando David ao telefone. A chamada não deveria ter
demorado muito, pois logo o escutou andando pela sala. Quando colocava pó
e água na cafeteira elétrica, os sons de uma das suas músicas favoritas
chegaram à cozinha, e ela sorriu.
Enquanto o café passava, ela tratou de molhar as plantas que tinha na
base do amplo vitrô. Ouviu um leve ruído e voltou-se. David encontrava-se
encostado no batente, do modo que o vira pela primeira vez, na porta do
escritório. E, no entanto, parecia tão diferente! David era como um velho e
confiável amigo, ao mesmo tempo reservando uma aura de mistério. Ele tirou
a jaqueta, arregaçou as mangas da camisa e revelou braços bronzeados pelo
sol.
— Conseguiu o táxi?
— A linha estava ocupada… — Passeou pela cozinha, observando o
cuidado em cada detalhe; os armários em pinho-de-riga, os eletrodomésticos
cor castanha, as plantas na janela. — Foi muito perigoso o que fez Holly
Nichols!
Confusa, ela encostou-se à mesa e repassou na mente o que teria feito.
— Não vejo perigo num McDonald’s, ou num jogo eletrônico!
— Estou me referindo a seu anúncio no jornal. Como se poderia prever
os estranhos tipos que poderiam surgir?
Holly começou a rir ao lembrar-se das estranhas figuras que haviam
surgido. Porém nenhum lhe parecera perigoso, embora, olhando para David,
pudesse constatar que existiam diferentes tipos de perigo.
— Acho que tive sorte — disse ela, sorrindo. — Não creio que você seja
perigoso…
Ele se aproximou uma luz estranha brilhando nos olhos.
— Você nada sabe sobre mim, Holly! — disse, numa voz muito grave.
— De tudo que não sabe, eu poderia ser até um pervertido. Teria respondido
ao anúncio como pretexto para entrar em sua casa, violentá-la ou até mutilar
seu lindo corpo! Pensou nisso, por acaso?
- 26 -

O coração de Holly pulava na garganta quando ele parou a poucos
centímetros de distância. Colocando as mãos em seus braços, simplesmente
imobilizou-a contra a mesa.
— Você… É um… Pervertido? — perguntou ela, em voz sedosa,
olhando dentro dos olhos verdes e não sentindo medo algum, apenas uma
vontade de abandonar-se em seus braços.
— Não… — Os olhos brilharam ainda mais, com um lampejo moleque.
— Bem… Talvez… Eu também… — e seus lábios roçaram os dela. — Holly,
você é como uma lufada de ar fresco. Não consigo me lembrar de ter passado
outra noite tão divertida quanto esta!
Holly reconheceu aquele brilho e tentou resistir, sabendo que era
inútil. Assim mesmo tentou escapar, com palavras:
— Nosso contrato é comercial, lembra?
Suspirou enquanto os lábios dele corriam pelo seu rosto até os cabelos,
tirando-lhe a pouca força de que dispunha para resistir.
— Nunca achei que deveria misturar prazer e negócios. — Os lábios
dele passearam pela testa de Holly, causando um efeito devastador. — É…
Talvez eu deva modificar meus conceitos.
— Eu até tenho um contrato… David, não!
Ele lhe mordiscara de leve o lábio inferior, fazendo uma corrente
elétrica percorrer o corpo de Holly.
— Que contrato? — Tentava prestar atenção em suas palavras, mas o
cheiro e o toque da pele macia dela o perturbavam.
Holly segurou-se na borda da mesa, tentando evitar qualquer contato
com o corpo forte, musculoso. Sabia que se o tocasse estaria perdida. Tentou
concentrar-se.
— O contrato que mencionei no escritório — e observou os fios
prateados em meio ao cabelo negro.
— O contrato é válido por qual período?
Ele adquirira experiência em contratos, através dos anos, e sabia que
poderia fazê-los funcionar sempre a seu favor. Claro que não contaria isso a
ela…
— Desde amanhã, ao partirmos para Omaha, até a volta, no domingo à
noite.
Por que perdiam tempo discutindo algo tão bobo, quando ele estava
fazendo coisas muito mais interessantes com sua boca?
- 27 -

Os braços dele á envolveram e puxaram-na contra sua estrutura
musculosa.
— Ótimo! — exclamou ele. — Então, temos doze horas até lá!
Os olhos de Holly se fecharam quando David, por fim, pousou a boca
sobre a dela, num beijo de reconhecimento. Ondas de emoção percorreram
seu corpo, enquanto sucumbia a tão terno assalto. Havia mais de três anos
desde que sentira desejo por um homem, porém David acendera um fogo
intenso, que jamais sentira antes. Aproximou-se dele e passou os braços por
seu pescoço, abandonando-se à magia que tomava conta de todo seu ser.
Desde o momento em que as bocas se tocaram, David percebeu que
poderia se perder com aquela mulher. Ela preenchia seus braços de
suavidade, quentura, e quando seus lábios se entreabriram, sob seu beijo,
pôde perceber um doce sabor, mais embriagador do que qualquer vinho que
tomara até então.
Somente com um férreo exercício de sua vontade interrompeu a rápida
perda do bom senso, dentro da tentação que Holly representava. Teve de se
lembrar quem era ela e que ele estava apenas desempenhando um papel.
— Holly! — murmurou a cor de um mar tempestuoso nos olhos,
enquanto procurava afastá-la de si, lutando para manter alguma coisa que
parecesse autocontrole. — Acho melhor telefonar pedindo um táxi, de novo…
Ela limitou-se a respirar profundamente, inúmeras vezes, ainda
segurando-se na borda da mesa para não perder o equilíbrio. Aquilo não iria
funcionar, pensou, em desespero. Ele estava certo: ela fora imprudente com o
tal anúncio. Havia se exposto a todos os anormais da cidade. Por sorte David
Winslow havia aparecido.
Seria mesmo sorte?
David a chamara de "diferente", mas a descrição também cabia a ele:
era cálido, gentil e atento, viril e forte, sem o machismo atrás do qual tantos
homens se escondiam. Os reflexos de vulnerabilidade que ele mostrara só
aumentavam sua atração. Ao mesmo tempo, parecia que David se protegera
de coisas tão banais quanto um shopping Center, vídeo games e tantos outros
pequenos prazeres do cotidiano. Parecia mais um prisioneiro, afastado da
vida… Céus, de onde ela tirara tal pensamento?
Um arranhar na porta trouxe Holly de volta ao presente: o dilema de
David foi substituído pelas necessidades de seus gatos. Abriu a porta e dois
felinos peludos entraram com uma dignidade real. Gatos geralmente são
- 28 -

criaturas independentes, mas estes pareciam donos do mundo, deixando-a,
de favor, morar na casa deles. Depois de fechar a porta, Holly recostou-se
nela.
— Onde é que vocês estiveram? Por aí, divertindo as madames, é?
Ambos os gatos pararam e voltaram os olhos, soberanamente, para ela.
Depois se dirigiram para suas tigelinhas e começaram a comer.
— Desculpe haver perguntado! — exclamou ela e dirigiu-se ao armário
para tirar duas canecas de café. — Tem sorte que seja eu a dona de vocês!
Puck e Calico, os gatos, mal lhe endereçaram um olhar e continuaram
a comer. Ela pegou as canecas com café e retirou-se pensando que, por
momentos, aqueles gatos a faziam se sentir á própria, intrusa dentro de sua
cozinha.
No momento em que entrou na sala, os pensamentos desapareceram e
ela tornou-se consciente da presença de David. Dúvidas e perguntas a
invadiram, ao mesmo tempo em que lhe parecia natural encontrá-lo ali.
Ele voltou-se, um sorriso nos lábios:
— Você sempre faz isso?
— Isso o quê? — E a confusão a imobilizou.
Pegando uma caneca de café de sua mão, David acenou na direção da
cozinha.
— Sempre fala sozinha?
Só o toque dos dedos em sua mão, ao pegar a caneca, já a perturbou.
Afastando-se, evitou a intensidade dos olhos cativantes. Sentando-se
no sofá, pretendeu uma calma que estava longe de sentir:
— Eu estava, como sempre, discutindo com os gatos. São criaturas
muito egoístas…
David sentou-se a seu lado.
— E eles respondem?
A coxa dele tocava a sua, elevando-lhe a temperatura.
— Eles sempre fazem o que querem. Quer açúcar ou creme de
chantilly!
— Não, gosto mesmo ao natural.
Ela levou o café aos lábios, enquanto seus olhos examinavam os pêlos
negros nas costas das mãos dele. Ao olhá-lo no rosto, percebeu que ele
estivera a examiná-la; perturbou-se ao ver que suas mãos estavam trêmulas.
— Conseguiu o táxi?
- 29 -

— Deve chegar, em meia hora. — Colocando sua caneca ao lado da
que ela pousara na mesa, ele pegou-lhe as mãos. — O que a está perturbando,
Holly? Tem medo de mim?
O som de seu nome nos lábios dele era como uma carícia, e qualquer
medo que pudesse estar sentindo vinha de dentro de si mesma, de suas
reações quase violentas ao toque dele, sua proximidade, a sua masculinidade.
Sentindo-se uma tola, não resistiu mais e perguntou:
— Você esteve preso? — E no momento em que as palavras saíram,
quase mordeu a língua.
Eis uma sutileza que pesava toneladas de pedras.
David a encarou, surpreso. Ela sentiu a vermelhidão invadir-lhe o
rosto. Fechou os olhos, embaraçada:
— Desculpe-me! Foi uma pergunta estúpida… Apenas pensei que…
Por que você…
Ele abandonou as mãos dela e segurou-lhe o queixo.
— Me olhe nos olhos, Holly — comandou, com suavidade.
Quando ela conseguiu abrir os olhos não viu, nos dele a raiva ou
irritação que previra, mas um toque de tristeza.
— A única prisão em que estive minha pequena — murmurou ele —,
foi a que construí para mim mesmo.
— O que quer dizer com isso?
— Quando você trabalha de dezoito a vinte horas por dia — ele passou
o polegar áspero nos lábios dela — não sobra muito tempo para divertimento.
Isso me transformou num cara insuportável…
— Insuportável, não! — discordou ela. — Apenas reprimido. Você
precisa de quem o ensina a relaxar e gozar a vida.
E foi com empenho que Holly resistiu passar os dedos por seus cabelos
negros e voltar a sentir seus lábios.
— Então, não percebia o que estava perdendo. Até esta noite. Nunca
havia encontrado uma pessoa como você, Holly Nichols.
Ele sabia que era insanidade tocá-la de novo, mas não conseguiu
evitar. Escorregou a mão até seu pescoço e trouxe-a para si.
— Me ensine. Mostre-me o que mais estive perdendo!
Quando os lábios dele capturaram os de Holly, foi com uma paixão
sedenta que provocou um turbilhão em suas veias. Afastando-lhe os lábios,
David penetrou-a com a língua enquanto a puxava sobre si, deitando-se no
- 30 -

sofá. Seu beijo era intenso, apaixonado e, no entanto, terno e sedutor ao
mesmo tempo, provocando em ambos, ondas de prazer. O corpo dela parecia
inteiramente vivo, arrepiando-se em antecipação, conforme as mãos dele
escorregavam até sua cintura e a puxavam de encontro ao seu corpo.
Holly passou os braços em torno dos largos ombros, arqueando-se de
encontro a ele, conforme o beijo se aprofundava, acabando com seu usual
bom senso. Lá no fundo, sabia que deveria colocar um, ponto final nisso, mas
pareciam tão natural os lábios dele nos seus, os braços rodando-lhe o corpo e
apertando-a com firmeza…
Por fim David levantou a cabeça, apoiando-se em um cotovelo, e fitou
o rosto afogueado. A outra mão pousava na cintura dela.
— Você tem idéia de como perturbou minha vida tão certinha?
Agudamente consciente do maravilhoso corpo intimamente colado
sobre o dela, Holly conseguiu sorrir:
— Vida tão certinha? Bah! Vida boba e chata, isso sim!
— Engraçado, eu sempre achei certinha. Agora, me surge uma moça
desmiolada que…
— Moça desmiolada?
—… Conta-me que era boba e chata!
— Você me acha desmiolada, mesmo?
— Para ser sincero — continuou ele, arreliando-a —, desmiolada,
provocante, suicida, sedutora e… Infernalmente sexy! — Inclinando a cabeça,
beijou-a na ponta do nariz, nas pálpebras e no queixo.
— Eu não sou sexy! — a contrapôs, com voz grave.
Ele começou a rir, mas se interrompeu ao perceber que ela falava
muito a sério. O que aquela mula do ex-marido dela lhe fizera?
Delicadamente, passou os lábios por sobre os dela.
— Querida, você é o mais doce pacote de dinamite que jamais
encontrei na vida.
— Como pode saber? Vive uma vida tão reclusa…
— Eu consigo identificar qualidade, quando a encontro. Apesar de ser
um tanto desmiolada…
— Você vai ter um curso intensivo de desmiolados quando encontrar
minha família, neste fim de semana.
Todos os pensamentos sobre sua família se evaporaram quando ele
voltou a beijá-la na boca. Sabia que deveria parar naquele momento, enquanto
- 31 -

ainda conseguia pensar, mas esse foi o último pensamento coerente antes de
sucumbir à mágica daquele beijo. Fazia tanto tempo que não se sentia uma
mulher desejada, tanto tempo que não permitia a um homem se aproximar e
fazê-la sentir-se acariciada como David estava fazendo!
Ele passou a mão por baixo de seu suéter, e ela foi engolfada por ondas
de desejo ao contato de sua pele. Querendo o mesmo grau de liberdade, ela
puxou a camisa dele, liberando-a da cintura do jeans, até que conseguiu
espalmar as mãos sobre a pele quente de suas costas. Podia sentir os
músculos, conforme escorregava as mãos e, seu corpo tremia conforme David
a tocava, acariciava, levando-a a um nível de desejo que jamais experimentara
anteriormente e sequer sabia da existência.
Ela ouviu sinos tocando, mas isso era bobagem! Ninguém ouve sinos,
ouve?
Subitamente David se afastou ofegante, e Holly, lutando em meio ao
desejo que a afogara, tentou entender o que estava acontecendo.
— Que aconteceu, David?
— Alguém está tocando a campainha.
— Quem tocaria a campainha a esta hora da noite?
David levantou-se e começou a abotoar a camisa. Como tinha sido
desabotoada? Pensou Holly.
— Deve ser o táxi… — disse ele. — Vou avisar o motorista para esperar
um pouco antes que derreta a campainha!
Holly ficou imobilizada no sofá, perguntando-se como ele conseguia
sair andando quando ela mal conseguia se mexer. David havia entrado em
seu escritório, há poucas horas, e a privara de todo bom senso que possuía.
Onde estava seu cérebro analítico e frio, quando sucumbia às palavras
doces e aos beijos apaixonados de um virtual desconhecido?
Começou a arranjar a roupa com dedos trêmulos. Não poderia
permitir que aquilo voltasse a acontecer. Era importante que mantivesse a
relação em nível estritamente comercial. Dentro de três dias ele desapareceria
de sua vida para sempre. E "casos" não faziam parte de seu programa.
Inspirou fundo, preparando-se para recebê-lo, quando ouviu que ele
voltava. Caminhava vestindo a jaqueta, e os olhos verdes a examinavam
intensamente.
— Nos veremos amanhã, Holly.
— O co-contrato… — balbuciou ela. — Ainda não mostrei…
- 32 -

— Se é tão importante, posso levá-lo para ler e trazê-lo amanhã.
Holly podia sentir os olhos de David nela, conforme buscava os papéis
em sua bolsa. Estendeu-lhe o contrato.
— De volta aos negócios, certo? — brincou David, guardando-o no
bolso sem nem sequer olhá-lo, depois a alcançou e puxou-a para si, voltando
a beijá-la. — Nossos negócios só se iniciam amanhã, querida! Mas não pense
que, quando terminarem, vai se livrar de mim com facilidade!
Holly detestava esperar até o último instante. Não seria irônico se,
depois de tudo por que passara, não conseguisse reserva de passagem aérea?
Segurando o fone de encontro ao ombro, começou a bater com o lápis,
nervosamente, no tampo da mesa.
— Desculpe senhora, não temos mais poltronas livres para esse vôo.
Completamente frustrada, ela fechou os olhos, enquanto indagava:
— E para Omaha?
— É para hoje de manhã?
— Sim.
Ela gostaria de ter latido para a mulher do outro lado da linha, uma
vez que mencionara diversas vezes que precisava das passagens nesse dia.
Mas era como sua mãe a ensinara: a gente consegue as coisas com mel
e não com vinagre.
— Madame, temos dois lugares no vôo das onze, para Omaha.
Holly respirou aliviada.
— Fico com eles.
— Muito bem. Esteja no aeroporto uma hora antes. Pode pegar as
passagens no balcão da companhia.
Onde mais haveria de pegá-las?
— Obrigada por sua ajuda — terminou por dizer, docemente.
Olhou o relógio na parede; precisava providenciar tantas coisas antes
que David chegasse! Tentou não pensar na noite anterior, mas o fato é que seu
cérebro parecia atrofiado!
Por fim, organizando os pensamentos, conseguiu fazer uma série de
anotações; fechou a pasta e anexou um bilhete. Inclinando a poltrona para
trás, se perguntou se deveria desistir de levar David. Talvez fosse melhor
pagá-lo de vez e mandá-lo embora, pois perdera totalmente o bom senso
quando estivera com ele.
— Bom dia, Holly.
- 33 -

Holly dirigiu um sorriso a Susan. A loira alta parecia resplandecente,
como sempre, numa saia negra e uma blusa de seda em tonalidades cinza
chumbo e preto. Invejava Susan por conseguir usar cores escuras com
tamanha propriedade.
— Você está linda! — disse, sorrindo.
— Dom Juan apareceu em sua porta, ontem à noite?
— Quem me dera… Por que não se abastece de café para revisarmos
algumas notas?
Uma hora e muitas xícaras de café depois, Holly fechou a última pasta,
suspirando aliviada. Tinha plena confiança de que tudo que fora revisado
seria cumprido à risca. Susan era a razão de o escritório andar sempre em
ordem.
— Bem, vai ou não me contar sobre o encontro de ontem à noite?
Achou o noivo?
— É… pode-se dizer isso — murmurou Holly, sem se comprometer.
Pegou a bolsa, revisou o talão de cheque e os cartões de crédito pela
décima vez. Sabia que a amiga estava morrendo de curiosidade. Durante anos
ela insistira que Holly deveria namorar, mas sem sucesso. Susan era a única
pessoa a conhecer os detalhes do seu casamento e o epílogo desastroso.
— Então, terminamos Nichols? — indagou a secretária, de modo
profissional. Então, com um brilho conspirador nos olhos azuis falou: —
Agora, quero que me conte todos os detalhes suculentos desse encontro!
— Ora, Susan! — Holly escondeu o rubor do rosto, inclinando a
cabeça. — Não existem detalhes suculentos!
— Mentirosa!
Ela sabia que era impossível esconder a confusão de seu encontro com
David; aliás, era impossível esconder qualquer coisa de Susan. Ela a conhecia
muito bem.
— Quer falar sobre o caso? — perguntou a secretária, com suavidade.
Holly jogou o lápis em cima da mesa.
— Não há muito sobre o que falar. — Levantou-se e começou a andar
de um lado a outro. — Ele se chama David, mas isso você já sabe. Tem um
metro e oitenta, cabelos negros e olhos verdes…
— É muito lindo?
Ela pensou um instante.
— Não, de verdade. Mas é muito atraente. Eu o levei para casa e
- 34 -

apresentei-o a Brewster. Antes, jantamos no McDonald’s, passeamos pelo
calçadão, brincamos com jogos eletrônicos e então fomos para casa…
Parou um instante na janela, observando o pesado tráfego matinal.
Quando se voltou para Susan, sua expressão era solene e pensativa.
— Ele não ia a um McDonald’s há anos, nunca havia tocado num jogo
eletrônico nem mesmo sabia o que era um suco de laranja Julius! — Fechou os
olhos, lembrando-se. — Cheguei a perguntar se ele estivera preso!
— Nossa! E o que ele respondeu?
— Claro que não. — Havia acontecido tanta coisa pessoal que ela
hesitava contar, mesmo para a amiga. — Ele ganhou de mim na Guerra nas
Estrelas!
Susan arrebentou numa gargalhada, enquanto Holly a encarava.
— Não vejo graça alguma! Isso acabou com meu ego!
— Posso imaginar! Conte mais.
— Ele tem família grande como a minha. Mas não contou nada sobre
os irmãos. Só que seus pais morreram. — Fez uma pausa. — Disse que fui
louca em fazer o tal anúncio e que tinha muita sorte de ele não ser um
pervertido. Gostou de minha casa, do meu jeito. E disse que sou… Diferente!
— O que ele achou de você, na direção?
— Achou muita coisa, mas nada elogioso. Me acusou de ter assinado
um pacto suicida com meu carro.
Ela voltou a andar nervosamente de um lado a outro, quando Susan
comentou:
— Sabe, me parece um rapaz equilibrado e inteligente. — Seu olhar
pesquisou a amiga com cuidado. — Algo mais?
Holly parou entre a porta e a amiga.
— Sim, disse que sou desmiolada!
Percebeu que os olhos da amiga se arregalavam no momento em que
ouviu um ruído atrás de si. Duas mãos fortes a pegaram pelos ombros,
girando-a para encarar um David sorridente.
— Bom dia, senhora desmiolada — brincou ele, beijando-a levemente
nos lábios.
— Vo-você… chegou cedo!
— Não, senhora! — Levantou o braço para examinar seu relógio. —
Em cima do horário.
— Oh… — murmurou ela, fraca. — Não percebi que era tão tarde…
- 35 -

Reunindo forças, se afastou de David para apresentá-lo a Susan,
imaginando que as coisas melhorariam se mantivesse distância física dele.
Susan simplesmente lançou-lhe um olhar do tipo "Você não me contou
nem metade da história", mas a amiga estava preocupada demais em manter
uma aparência inteligente para notar. Em plena luz do dia, ele parecia ainda
mais atraente, magnífico com seus cabelos negros com fios brancos nas
têmporas, numa calça justa, elegante, que deixava pouco à imaginação, a pele
amorenada pelo sol e os olhos verde-jade.
— Você tem certeza de que quer passar todo um fim de semana com
esta senhora desmiolada? — perguntou Susan, rindo abertamente para
David.
— Se eu puder evitar que ela dirija, creio que conseguirei sobreviver!
— Como vai ser de Omaha até Valentine?
— Fácil: eu vou dirigir o carro que ela alugar.
— Quem disse isso? — explodiu Holly, indignada.
— Eu disse! — E ele voltou-se para ela, questionando-a.
— Pois já fiz essa viagem inúmeras vezes e sempre sobrevivi!
— Então, eu diria que as chances de sua sobrevida estão diminuindo…
— Do jeito que você se arrasta com um automóvel, terá anoitecido
antes que cheguemos!
— Se eu tiver sorte, a gasolina acaba no meio de um deserto e
ficaremos a sós…
— Isso é o que pensa amigão! — ironizou Holly. — Não vamos passar
por deserto algum, a menos que você consiga se perder no caminho!
Ao mesmo tempo ela pediu perdão a Deus pela mentira: uma vez que
saísse das cidades maiores, qualquer estrada no Nebraska poderia ser
considerada um deserto.
— Se eu me perder no caminho, querida, não terá sido por acaso…
Está pronta? O táxi está esperando; basta que me diga onde está sua bagagem.
Ela apontou duas maletas, junto à porta, e sorriu.
— Obrigada… Eu já vou, num minuto. Preciso de uma palavra com
Susan.
— Foi um verdadeiro prazer, Susan. Se eu ainda conseguir respirar,
andar e pensar coerentemente; vejo-a na volta, está bem? — disse ele à loira
que o contemplava.
— Boa sorte, David — sorriu ela. — Na verdade, ela não é tão má
- 36 -

assim. Só obriga paciência no trato.
— Sou um homem de muita paciência — respondeu ele, largando a
mão da moça e apanhando a bagagem de Holly.
Ela voltou-se para a secretária com um brilho nos olhos cor de mel.
— Não diga uma única palavra, Susan Martin! Nem uma única
palavra, ouviu?
Susan levantou os braços, como diante de uma arma.
— Eu não ia dizer juro! — E quase explodindo em riso: — Ou, talvez
uma ou duas coisinhas… Agora vá, e deixe o resto por minha conta. Eu cuido
dos gatos. Desapareça com o homem insinuante que descobriu. Até eu estou
com vontade de anunciar em jornais.
Holly abraçou-a com afeição.
— Vejo você na segunda. Deseje-me boa sorte.
— Acho que vai precisar, e de muita!

Capítulo 4

David recostou-se na poltrona do avião, imaginando o que traria o fim
de semana. Há muito tempo que ele não ansiava assim por alguma coisa.
Voltou a atenção para Holly, que olhava pela janelinha, maravilhado
com a maneira pela qual ela achava tanta alegria em viver. Parecia estender as
mãos e segurar a vida, tal como as estendera e tomara seu coração.
Encontrar Holly havia sido uma grande experiência e ele passara a
noite revirando-se na cama por causa dela. O som de sua risada assombrara
seu sono e o gosto de sua boca permanecera até o amanhecer. Não havia se
sentido tão frustrado desde que tinha quinze anos, e descobrira que as
mocinhas eram fantasticamente diferentes dos rapazes.
Maldição! A verdade é que H. C. Nichols perturbara sua vida! Em
pouco mais de doze horas simplesmente o girara de ponta-cabeça. Como
conseguiria deixar de tocá-la nos próximos dias? Que contrato mais estúpido!
Embora tivesse tantos buracos quanto um queijo suíço, ele o
- 37 -

respeitaria em função de Holly. Afinal, estariam na casa de seus pais e não
seria ele a perturbar um pai de uma moça, ainda que essa moça tivesse mais
de vinte anos e fosse uma mulher de negócios.
Afundando-se na poltrona, David começou a relaxar. Ela não havia
sido seu único pensamento. Boa parte do tempo pensara nesse fim de semana
e em suas razões para participar dele; sobre Nick; sobre a ameaça de um
processo judicial; sobre o Centro Cívico e todos os seus problemas e, por fim,
sobre o que realmente desejava fazer com o resto de sua vida.
Os anos de trabalho e responsabilidade por fim pesavam sobre ele de
uma só vez. Sentia-se com o dobro da idade.
Tantas perguntas e tão poucas respostas. Apesar de tudo que
racionalizara, sabia que enganar Holly era um erro. Tinha de encontrar uma
forma de contar a verdade, pois queria fazer algo, nos próximos três dias, que
jamais fizera antes, algo que as pessoas mais próximas nunca poderiam
imaginar que ele chegasse a fazer. Iria ignorar o resto do mundo, inclusive o
Centro Cívico, seus familiares e qualquer outra responsabilidade que tinha na
vida. Iria dar os próximos dois dias a si próprio. O resto poderia esperar pela
segunda-feira pela manhã.
John ficara surpreso quando soubera que ele desapareceria por três
dias. Quando perguntara, David se recusara a dizer para onde, como ou por
quê. Agora restava relaxar, aproveitar seu próprio tempo e reconhecer todas
as emoções estranhas que H. C. Nichols despertara nele. De algo estava certo:
não iria se aborrecer.
Holly abandonou a janela, a paisagem de Indianápolis desaparecendo
lá em baixo, e voltou-se para olhá-lo. O revolto cabelo cor de ébano que
emoldurava sua cabeça dava-lhe um ar jovem e vulnerável. Como ela
conseguiria deixar de tocá-lo por todo um fim de semana? Mas ele havia
assinado aquele contrato estúpido, o devolvera no caminho do aeroporto e
havia uma sensação íntima de que ele o respeitaria, item por item.
Seus lábios se curvaram num sorriso ao lembrar-se da chuva de beijos
que recebera no táxi; ele desculpara-se de que teria de passar um longo tempo
sem eles. Como rebater essa espécie de lógica?
Procurando uma posição mais confortável, Holly encostou a cabeça e
fechou os olhos. Dormira muito pouco depois que David saíra e a falta de
sono estava provocando conseqüências. Lentamente, sua cabeça rolou de lado
e apoiou-se no ombro do companheiro, conforme começou a dormir.
- 38 -

Ela sentiu-se sacudida e ouviu uma voz tonitruando em seus ouvidos.
Murmurando uma praga, ela preferiu afundar no travesseiro firme.
— Acorde, Holly! — persistiu a voz. — Vamos, acorde!
— Vá embora! — murmurou ela, irritada. — Não vou levantar!
— Quer que eu a carregue nos ombros por todo aeroporto? — insistiu
David, reprimindo a risada.
— Porto? Que porto? Onde estou?
— Em Omaha!
A realidade invadiu-a de uma só vez. O perfume sutil da loção pósbarba de David fazia-se presente e sentiu o calor do corpo dele em sua face.
Sentindo-se vermelha como um pimentão, ela aprumou-se na
poltrona, abrindo os olhos e suprimindo um bocejo.
— Já chegamos? — Inclinou-se olhando pela janela. — E o almoço?
David virou os olhos para cima.
— Eu deveria ter imaginado…
Ela lhe lançou um olhar repressor.
— Que quer dizer esse comentário?
— Você sempre fica mal-humorada quando perde uma refeição?
— Não estou mal-humorada! — rosnou, olhando os demais
passageiros que faziam fila no corredor; abaixou-se e pegou a bolsa de mão,
embaixo da poltrona. — Como é, vamos passar a tarde sentados aqui?
— Se eu prometer comidinha, você promete sorrir? — Os olhos de
David brilhavam, marotos.
Holly lutou para não rir. Como seria possível ficar mal-humorada ao
lado de um homem assim?
— Quanto vale meu sorriso?
— Verduras, dois bifes ao molho ferrugem, queijos, picles, cebolas ao
vinagrete…
Ela explodiu numa risada, e ele preveniu-a:
— Holly, controle-se! Todo mundo está olhando! Você é mesmo uma
maluca!
A discussão provocadora continuou pela pista do aeroporto e até a
recepção de bagagem na esteira rolante. Uma hora mais tarde, estavam num
carro econômico que Holly alugara, em plena estrada 275, indo para
Valentine.
Conforme abandonaram a cidade, David perguntou:
- 39 -

— Onde poderíamos encontrar um bom restaurante?
— Não sei. Mas é bom não comer demais. Mamãe deverá estar nos
esperando com um belo jantar. Por falar nisso, meu paladar prefere algo
melhor que lanches rápidos.
— Oh, sim? O quê, por exemplo?
— Qualquer coisa, desde tortas doces e salgadas, até massas italianas.
— E, após examiná-lo à direção, por alguns instantes, falou:
— David, por que atendeu ao meu anúncio, no jornal?
Ele não respondeu de imediato, antes estacionando o carro num
restaurante de caminhoneiros e desligando o motor. Enfiou os dedos nos
cabelos dela, com suavidade.
— Tem mesmo importância, Holly?
— Sim… — Examinou-lhe as feições. — Acho que sim. Você não é do
tipo que lê coluna de anúncios pessoais! Menos, ainda, o tipo que responde!
Sua resposta seria crucial e ele o sabia. Mas agora não era o momento
apropriado para contar-lhe a verdade. Tratou de sair da tangente:
— Holly: eu jamais respondi antes a um anúncio desses!
— Então, por que, desta vez? — Ao olhá-lo percebeu que ele baixava
os olhos.
— Acho que… Posso dizer que fui obrigado a isso!
— Você quer dizer que… — Hesitou, duvidando. — Que alguém o
obrigou? Foi isso?
— É… Até pode ser dito assim…
— Está arrependido?
Seu olhar se suavizou e ele tocou-lhe o rosto.
— Nunca estive menos arrependido em toda minha vida!
— Mesmo que eu seja uma louca, desmiolada?
David riu e respondeu seguro de si:
— Eu não a quereria de outra forma! — Esfregou a mão na cabeça
dela, até emaranhar-lhe os cabelos, então, puxou-a para si, mas interrompeu o
gesto: — Aquele maldito contrato!
Fingindo não perceber o ar de frustração e o suspiro de Holly, lançoulhe um olhar divertido, abriu a porta do carro e disse:
— Venha, minha senhora doida e desmiolada: vamos encher sua
barriguinha de comida! E então… Estrada de novo!
— Como é Valentine? — perguntou ele, quando estavam outra vez na
- 40 -

estrada.
— Ora… Uma cidadezinha com pouco mais de dois mil habitantes,
com modo de vida completamente diverso de Indianápolis, mas é ótima! São
Valentim, você sabe, é o santo dos namorados, e nossa cidade tem esse nome
em homenagem a ele. Todos os anos, em fevereiro, o mês de São Valentim,
nosso correio fica abarrotado de cartas e cartões-postais: todos os namorados
do país escrevem uns para os outros e querem que suas cartas tenham o
carimbo de lá.
David coçou o queixo.
— Bonito isso, Holly. Eu não tinha a menor idéia… Mas, diga, você
percebeu que há mais gente num único complexo habitacional de
Indianápolis do que em toda Valentine?
— Já, sim. Não é horroroso? Muita gente quis me obrigar a viver-nos
tais condomínios. Mas eu prefiro uma casa, que dá mais trabalho e alegria.
Vizinhos de parede não me atraem.
Ela escorregou no assento e encostou os joelhos no painel.
— Confortável? — sorriu David.
Ela devolveu-lhe a pergunta com uma careta:
— Está nervoso por ir conhecer minha família? — E, diante de seu
evasivo silêncio: — Por que não me conta sobre seus irmãos?
Ele sorriu ao responder:
— Não temos pilotos de corrida ou chofer de caminhão. — E, sabendo
que evasivas não adiantariam mais: — Meu irmão Gary é capitão da Força
Aérea, piloto de combate, estacionado próximo de Las Vegas. Há uns dois
anos casou-se e tem um garotinho, Jeremy, com uns seis meses de idade.
Holly encarou-o com um olhar divertido.
— Piloto de combate, hem? Claro que isso é muito mais comum do
que um piloto de corrida ou chofer de caminhão! Ele é o mais jovem ou o
mais velho?
— Mais jovem. Todos são mais jovens. Depois vem o Tom, que vive em
Nova York e não se casou. Depois… Vem o Robert. Acaba de terminar a
faculdade de Direito e está trabalhando numa grande firma de Chicago. —
David continuava a cuidar da estrada, a sua frente. — Minha irmã Chery é
casada e tem um menino e uma garota.
Quando David se calou por longo tempo, ela perguntou:
— E então? Casou-se com um senador, ou coisa assim?
- 41 -

Ele voltou os olhos, rapidamente, para a companheira.
— Casou-se com um médico. Está satisfeita?
Ela fez um enorme ar de inocência.
— Não ia comentar coisa alguma!
— Pois sim que eu acredito! Então vem Kate, que é pintora e tem uma
galeria-ateliê em Santa Fé.
— Portanto, ela é a ovelha negra? — Holly, que não conseguia
desenhar nem coisas de crianças, ficou impressionada, mas não quis
demonstrar. — Ora, David, você tem de tudo na família; desde uma artista até
um piloto de combate!
— Espere aí: eu não fiz comentário negativo algum sobre a sua família!
— Só porque se perdeu entre Omaha e não sei mais onde! E agora falta
falar sobre o último irmão. Mal posso esperar para ficar conhecendo-o…
Os olhos dele tornaram-se sombrios, de tristeza e desespero. Quando
falou, a voz soou rouca:
— O mais novo de todos é Nick. Levei dois anos para convencê-lo a
entrar na faculdade. Faz algumas semanas que ele resolveu desistir…
Holly percebeu a expressão sombria no rosto de David e os músculos
retesados em torno de sua boca.
— Onde está Nick, agora? — indagou baixinho.
— Não sei — admitiu-o, por fim. — De vez em quando me telefona
para avisar que ainda está vivo.
Depois de um tempo, pensando em como não ofendê-lo com alguma
pergunta, ela disse, com cuidado:
— E, assim, você terminou envolvido em construção, em meio a
doutores e advogados? Também é um rebelde? Também não quis estudar,
como Nick?
Fazendo um gesto para um local, um pouco mais à frente, ele tirou o
pé do acelerador e perguntou:
— Vamos parar ali, um pouco, e estender as pernas?
David ficou surpreso pela própria habilidade em fugir à pergunta,
quando ela respondeu, sem estranhar nada:
— Vamos… Até Valentine temos ainda uma hora, mais ou menos.
Aliás… Já teríamos chegado se eu estivesse na direção!
Quando desceram do carro, Holly aproximou-se dele examinando a
figura esguia, musculosa e alta, sentindo como reação algo que subia e descia
- 42 -

por sua espinha. Desde que haviam saído de Omaha, ela quase tivera de
sentar-se sobre as mãos para evitar tocá-lo. Uma brisa delicada mexeu seus
cabelos e ela lembrou-se da sensação boa que tivera quando David enfiara os
dedos neles. Logo precisaria tomar banhos gelados para acalmar-se. Mas
quantos, antes que seus pais desconfiassem?
— Holly, pare de me olhar desse jeito ou vou esquecer imediatamente
aquele maldito contrato!
Ela olhou-o nos olhos e seus joelhos amoleceram.
Pois pegue o contrato, queime, rasgue, reduza-o a pó e veja se eu me
incomodarei, pensou ela.
Girando sobre os próprios pés, ela se dirigiu a um aglomerado de
árvores frondosas. Algumas mesas de piquenique, em diferentes graus de
abandono, distribuíam-se pela clareira. Um leito de folhas amaciava o pisar,
enquanto ela procurava reordenar os pensamentos.
— Amanhã, David, meus pais planejaram um piquenique no parque,
com atividades e jogos para todos. Você gosta de futebol? — Ela arriscou-se a
olhá-lo, não evitando um tremor na voz. Se ele percebesse, adivinharia o
motivo?
Ele percebeu e adivinhou. Não facilitava nada saber que também ela
lutava contra si mesma. Fez um enorme esforço para não abraçá-la.
— Amanhã à noite será a festa de bodas de prata. Inicialmente iremos
à igreja onde meu irmão é pastor, e papai e mamãe renovarão seus votos.
Michael fará um breve sermão. Depois disso, voltaremos para casa e, então,
será o festival de bolos e sorvetes feitos em casa, diversão até… Até que acabe!
— Ela o olhou atentamente.
— Acha que vai ser uma chateação imensa, David?
Ele se recostou numa das mesas de piquenique e sorriu com gentileza:
— Pelo contrário, Holly, parece que vai ser ótima, coisa muito familiar,
e mal posso esperar por isso. — Olhou-a por um longo instante, então, falou
com voz cálida: — Venha aqui, Holly!
Desesperada, ela pensou que se não quisesse ser violentado ali mesmo,
junto à estrada estadual, ele não deveria fazer nenhum pedido para ser
tocado. Ficou petrificada. Por fim ele levantou-se, chegou até ela, com
gentileza tomou-lhe a mão e guiou-a até a mesa, fazendo-a sentar-se no banco
de tábua. Foi ótimo, uma vez que ela sentia as pernas bambas…
— Sabe? Faltou um detalhe neste nosso arranjo. Imagina o que seja?
- 43 -

Confusa e perdida, sem saber do que ele falava, Holly limitou-se a
afastar um cacho de cabelo da testa, enquanto dizia:
— Pensei… Imaginei ter pensado em tudo.
David começou a procurar no bolso e de lá tirou algo que colocou
diante de seus olhos. Era um anel, mas que anel! Com uma adorável safira
rodeada por diamantes.
— Ohhh! De onde veio isso? — suspirou ela.
Com uma estranha expressão no rosto, ele limitou-se a colocar o anel
em seu dedo anular. O anel que havia pertencido à mãe dele.
— Emprestei de um amigo… A gente não pode se apresentar como
noivos se não existir um anel, não acha?
Ela examinava a jóia, mal acreditando. Enfim, comentou:
— Puxa! Mas deve ser um grande amigo mesmo!
— Foi de… Era… Minha irmã me emprestou a esposa do médico!
— Mas, David, eu não posso usá-lo! Já imaginou se acontecer algo, se
eu o perder? — Ela já se imaginava trabalhando por dez anos para pagar
aquele tesouro.
— Isso não vai acontecer. Eu estarei todo o tempo á seu lado.
Holly começou a andar de um lado para outro, incapaz de tirar os
olhos daquela maravilha. Não conseguia decidir se estava mais espantada
com a beleza do anel ou com a atenção que ele demonstrava com aquele
gesto.
Quando se voltou, estava com o coração aos saltos. David recostou-se
na mesa, os olhos de um verde profundo a estudá-la. Reunindo toda coragem,
ela se aproximou:
— Muito obrigada, David! — Parou a sua frente. — Isso foi muito
gentil da sua parte.
— Gentileza nenhuma… — respondeu ele, com um sorriso de derreter
aço. — Estou me protegendo. Como explicar a seu irmão que você não tinha
um anel?
Holly olhou a própria mão e fez um muxoxo.
— Vão pensar que você é um homem riquíssimo!
— Bem, quando você disser a Michael que tudo não passou de uma
piada — disse ele, sombrio —, todos estarão sabendo que esse anel também
faz parte dela.
Holly se perguntou por que David se transformara assim. Colocou as
- 44 -

mãos nos ombros dele e pediu, em voz baixa e sedosa:
— Você me faz um favor? Esqueça o contrato por um minuto e me
beije!
Os olhos dela brilhavam num irresistível convite, que ele aceitou.
— Pode apostar que já esqueci! — Puxou-a e apertou-a nos braços.
Um delicado suspiro escapou de Holly quando os lábios de David
finalmente pousaram sobre os seus. Um beijo urgente, esfomeado e
convidativo. Ela se amoldou a seu corpo, maravilhada como ambos
combinavam bem. A língua dele á invadiu, lançando relâmpagos de prazer
sensual em suas veias. Holly abandonou-se à mágica de enfiar os dedos entre
os cabelos dele, enquanto as bocas se entre - devoravam com suavidade. Ele
mais parecia um homem faminto. Faminto dela, de amor… Quando, por fim,
ele se afastou, ofegando, Holly sentiu o corpo estranho, pesado e quente.
— Meu minuto já acabou? — perguntou ele, junto a seus lábios.
— Esqueci-me de marcar… — ela conseguiu responder, beijando-lhe o
canto da boca, o queixo e voltando à maciez de seus lábios.
Ele passou ao comando, de novo, apenas acariciando sua boca em vez
de beijá-la, até que ela sentiu-se fraca de desejo. Aproximando-a ainda mais,
ele esperou que a respiração de ambos voltasse ao normal.
— É melhor pegarmos a estrada ou chegaremos tarde para o jantar…
— Com uma leve pressão de lábios fechou-lhe as pálpebras.
— Você é uma moça muito especial, Holly Nichols. Quando este
contrato acabar precisaremos renegociar algumas das mais ridículas
estipulações que ele contém…
Holly concordou silenciosa. Tinha de admitir que fosse muito fácil se
apaixonar por um homem como David.

Capítulo 5

David diminuiu a marcha do carro quando entraram em Valentine. A
- 45 -

rua principal cortava-a ao meio, com lojas e escritórios, tal como qualquer
outra pequena cidade americana. A silhueta prateada da caixa d’água
rebrilhava com o sol do entardecer. As raízes de Holly estavam ali, nas
montanhas arenosas do Nebraska, e ela mal podia esperar pelo momento de
reencontrar todos aqueles a quem tanto amava.
— Pois é… Isso é Valentine! — disse ela, procurando adivinhar o que
ia por detrás da expressão de David.
Os olhos verdes denotavam alegria e prazer.
— Que beleza! Eu seria capaz de apostar que êsta cidade é assim há
cem anos, desde quando foi fundada…
— Quase acertou, senhor-Cidade-Grande! O Condado de Cherry, onde
fica Valentine, comemorou cem anos há alguns anos.
Ele sentiu algo como uma amortecida inveja: não tinha raízes…
Rodaram alguns minutos e, então, quase saltitando no banco, ela
apontou uma estradinha pavimentada com enormes pedras.
— É por ali! Leva até a minha casa…
Pouco depois chegavam a uma casa enorme, com varanda em dois
lados. Holly encontrava-se tão excitada que nem ouviu David inspirar fundo.
Diversos carros estavam estacionados ao acaso, e ele estacionou bem
atrás de um station-wagon com placa do Colorado.
Mal tinha desligado o motor, um enxame de parentes desceu a escada
da frente para recebê-los. Holly saltou do carro como um corisco e foi, de
imediato, cercada por uma horda de irmãos e irmãs, sobrinhos etc.
David também desceu, colocou os braços sobre a capota e olhou a
cena, sorrindo. De imediato localizou a mãe de Holly: Ellen Nichols era uma
versão mais madura da filha. E o enorme homem, de peito largo e cabelos
grisalhos, que a tudo olhava com expressão de tolerância, só poderia ser Sam
Nichols, o patriarca do clã. O olhar dele encontrou a figura de David e ficou a
examiná-lo por momentos. David levantou os ombros e ergueu os braços
num gesto de confusão. A boca de Sam se alargou num sorriso amplo.
— Estivemos esperando por isto há horas! — disse Ellen Nichols,
olhando o rapaz moreno, com os braços por sobre a capota do carro. — Você
nunca chegou tão tarde!
David saiu da imobilidade, contornou o automóvel e passou o braço
pelo ombro de Holly:
— Acho que a culpa é minha Sra. Nichols. Não quis deixar Holly pegar
- 46 -

a direção — e seus olhos brilhavam de malícia.
— Oh, isso quer dizer que ela já o levou a passear…
— Sim, senhora! — respondeu ele, solene. — A ameaça de Valentine
tornou-se a ameaça de Indianápolis. Mas pretendo modificar isso… — E ele
nem piscou um olho quando Holly meteu-lhe o cotovelo nas costelas.
Ellen lutou contra o riso:
— Ahn… Vai modificar, não é?!
David inclinou-se e segredou no ouvido da mãe de Holly:
— Nem que eu tenha de colocá-la sobre os joelhos e dar-lhe umas boas
palmadas!
A face de Holly ensombreceu enquanto só se ouvia risinhos em torno.
Ellen plantou um beijo no rosto de David.
— Holly Carol Nichols: você encontrou um homem a sua altura! —
proclamou, em alto e bom som.
Holly murmurou alguma coisa sobre traição, até que foram
interrompidos por uma onda de apresentações. Ela se preocupara em como
David encararia sua família. Porém, em menos de cinco minutos a aceitação
era tão grande que ela custava a acreditar.
Michael se aproximou, com enorme sorriso:
— Isto é uma surpresa, Holly!
— Como pode ser mano, se você anunciou meu noivado do púlpito,
no mês passado? David, este é meu irmão, Michael. Michael, este é meu
noivo. — E ela se divertia à beça com o espanto do irmão.
David levou tudo com tal elegância que Holly tinha vontade de
aplaudir.
Eles subiram o gramado inclinado até os, degraus do terraço, David
com o braço na cintura de Holly. Joe jogou a pequena Amy nos ombros e
abaixou-se ao passar pelo batente da porta. Bobby e Kevin passaram
correndo, com um cão de linhagem indefinida nos seus calcanhares, latindo.
Ela voltou-se para David:
— Além do fato de toda minha família já estar comendo em sua mão,
você está se saindo muito bem!
— É a minha atração devastadora, querida — riu ele. — Acontece
sempre com todos!
Meia hora depois ela deixou David em companhia de Joe e seu
cunhado Rob, para ir ajudar nos preparativos do jantar. Envolvido numa
- 47 -

discussão profunda sobre carros e motos de corrida, com certeza ele não iria
sentir sua falta.
Quando Holly entrou na cozinha, os murmúrios se interromperam, e
quatro pares de olhos se voltaram para ela. As máscaras de inocência, no
rosto das irmãs e da mãe, não passaram despercebidas.
— Interrompi algo? — disse ela, também pretendendo inocência.
A enorme cozinha recendia a aroma de frango frito com especiarias,
picles exalando seu agressivo cheiro dos potes e pãezinhos feitos em casa,
recém-saídos do forno. Todas se encontravam ocupadas com alguma coisa,
antes da entrada de Holly; agora estavam imobilizadas, faca, colheres, ralador
nas mãos, estudando-a em silêncio.
Ela dirigiu-se até o fogão e levantou a tampa de um caldeirão para ver
o que havia.
— Posso ajudar em algo?
— Michael engoliu tudo: isca, anzol, linha e vara de pescar! —
comentou a mãe, sorrindo. — Tenho de admitir que seu amigo seja fantástico!
— Que idade tem?
— Onde o encontrou?
— Já foi casado?
Encostando-se na geladeira Holly as olhou, séria, e tentou responder às
perguntas pela ordem:
— Concordo; trinta e quatro; vocês não acreditariam se eu contasse; e
não. — Passeando os olhos falsamente inocentes ao redor, falou: — Mais
perguntas?
Louisa colocou leite nos tomates que estivera amassando, enquanto
Brianny jogava um talo de cenoura em Holly.
— Deve ser um amigão para topar essa história! Como foi que o
encontrou? — Lou tinha os olhos azuis de Sam e cabelos negros.
— Não o conheço há muito tempo. — admitiu Holly. — Foi… Por meio
de outro amigo!
E não se atrevia a encarar Brianny, a única ali á saber a verdade. Pegou
a longa colher de pau das mãos da mãe e começou a mexer o molho de carne.
Tina levantou os olhos do prato de azeitonas recheadas que estivera
arranjando:
— Como foi que nunca nos falou dele? E não ficou amedrontado com a
nossa família maluca?
- 48 -

— Qual a dele também é grande: tem quatro irmãos e duas irmãs!
Nesse instante, Holly foi salva de continuar respondendo às perguntas
das irmãs com a entrada de uma enormemente grávida Sandy:
— Desculpe por não tê-la recebido, Holly. Parece que a cada dia que
passa eu durmo mais e mais profundo!
— Acho que, diante das circunstâncias, eu a perdôo — e abraçaram-se.
Mais tarde, Holly ajudou-as a colocar as comidas nas travessas e sentiu
a boca encher-se de água. Levaram-nas para a enorme mesa. Numa
extremidade, talheres, guardanapos e pratos empilhados. No resto,
distribuíram as iguarias para que cada um se servisse.
Mal se viu a sós com a irmã, Brianny indagou:
— Holly, vai-me dizer que encontrou esse David por um anúncio de
jornal?
— Difícil de acreditar, não é?
— Realmente, não acredito… Mas cale a boca porque, se a moda pega,
vai ser um desastre!
Nesse instante surgiu David por detrás de Holly e enlaçou-a pela
cintura, começando a fazer-lhe cócegas no pescoço, com o nariz. Ela ficou
vermelha como pimentão e tentou, sem sucesso, fugir ao abraço.
— Ele ainda precisa ser um pouco domado, né? — riu Brianny.
— Mas… Ela também, para ser franca!
— Estou fazendo o que posso! — observou David, gemendo quando
recebeu a cotovelada na boca do estômago.
Nisso apareceu Sam e comentou:
— E dê graças a Deus, pois parte do trabalho foi meu!
— De que lado você está? — gritou Holly.
Ele apanhou um prato limpo e um guardanapo:
— Estou do lado de quem conseguir acalmá-la e protegê-la de
problemas! — Encarou David com uma expressão de desespero. — Ela foi o
terror de Valentine, foi mesmo! Espero que saiba com quem está se metendo!
— Está sendo um curso intensivo de paciência, senhor, mas acho que
vou descobrir…
Holly olhou bem no rosto de cada um, silenciosa, e, voltando-lhes as
costas, refugiou-se na cozinha.
Mais tarde, sentada no chão da sala, com as pernas cruzadas, Holly
ficou a ouvir o zumbido das conversas. Estava feliz em meio aos seus,
- 49 -

sentindo David próximo. Rick jamais se sentira à vontade com sua família,
nem eles com Rick. E David um virtual estranho e Deus não permitissem que
eles descobrissem quão; estranho parecia fazer tanto parte da família quanto
Rob ou Sandy. Todos agiam como se o conhecessem há anos! E não era,
também, como ela mesma se sentia? Só vinte e quatro horas depois de
aparecer no umbral da porta de seu escritório, ela já nem se lembrava de
como sua vida era antes.
Inclinando-se para ela com uma dourada coxa de frango na mão,
David murmurou:
— Você também é capaz de cozinhar deste jeito?
Holly olhou-o, sem acreditar:
— Já viu como eu amo comer e ainda me faz uma pergunta dessa? —
Ao ver a pobre coxa desaparecer com duas dentadas, sorriu:
— Está se divertindo, homem-do-asfalto?
Olhos verdes, emoldurados por pestanas negras, encararam-na
sensualmente:
— Não tinha um apetite assim há anos!
Os olhos verdes se demoraram em seus lábios. O duplo significado não
se perdeu, e ela sentiu-se aquecida intimamente.
— Espere até provar a torta de maçã da mamãe — murmurou ela.
Mas pensava: eu preferiria você como sobremesa! Estava, mesmo,
precisando de um banho gelado… Quando voltou os olhos e encontrou
Michael olhando-os pensativamente, quase explodiu numa gargalhada.
— Quem quer torta de maçã? — gritou Ellen, olhando para a família
espalhada pela enorme sala.
— Ela deve estar brincando! — gemeu David. — Quer nos matar de
tanto comer?
— Deixe de bobagem, David Winslow! — falou a mãe, colocando os
punhos na cintura ainda delgada. — Pretendo que todos estejam fortes e
sadios para presenciar o casamento, dessa minha filha desmiolada!
E ficou perplexa quando Holly e David estouraram numa gargalhada
que não parecia mais ter fim!
Poucos depois das seis na manhã seguinte, Holly, usando jeans claro e
blusa azul-turquesa, brilhante, desceram silenciosamente as escadas.
Chegando à sala, parou e ficou pensativa. Era tão grande e quando sua
família estava ali parecia encolher. Cadeiras estofadas, poltronas macias,
- 50 -

revestidas com motivos florais, estavam distribuídas comodamente. A
poltrona-do-papai, de Sam, ficava em frente à lareira. Pelas paredes, quadros
bordados e fotos da família personificavam a casa.
Holly abriu a porta da frente e mergulhou na manhã fria, inspirando
profundamente os cheiros daquele dia primaveril. Em poucas horas o sol
afastaria aquele friozinho severo, mas ainda assim uma festa ao ar livre
poderia ser arriscada nesta fase do ano, no nordeste do Nebraska.
Passeando, ela se dirigiu para as densas árvores alinhadas ao longo do
riacho que corria bem no centro da propriedade. Queria ficar um tempo a sós.
Na verdade, estava confusa pela maneira como David passara a
preencher cada minuto de sua vida. Se ela não fosse tão sabida, diria mesmo
que estava apaixonada! E isso seria a coisa mais estúpida de toda sua vida.
Ninguém se apaixona em dois dias.
Todo o plano dela parecia ter se voltado contra a feiticeira: toda sua
família aprovara David. Até mesmo Sam parecia ter gostado do rapaz. E isso
não era coisa fácil.
Ela se interrompeu e recostou-se num tronco de árvore, olhando a
água borbulhar por entre as pedras. Este tinha sido, em sua infância, um local
favorito. Logo adiante o córrego se abria numa piscina rasa, ideal para nadar.
Fora naquele exato ponto que ela ficara pensando e por fim decidira
pedir divórcio do marido, após encontrá-lo na cama com outra mulher. Havia
fugido para Valentine, um turbilhão em seu íntimo, mas incapaz de falar com
alguém. E, no entanto, quando lhes dissera que iria se divorciar, só recebera
mais afeição, cuidado e… Total respeito pela privacidade de seus assuntos
íntimos.
Voltando a Indianápolis, mudara-se imediatamente da casa que
ocupara com Rick por dois anos de casamento, o que o deixou furioso. Tudo o
que ela quisera fora separar-se dele, e, quando o processo de divórcio
terminou, nada havia para mostrar que aquele casamento não passara de uma
coletânea de más lembranças. Nem mesmo o sobrenome dele ela conservara.
Agora, estava no mesmo lugar, ouvindo o mesmo ruído das águas, o
cantar dos pássaros e pensando em outro homem.
— Bom dia!
Seu sangue correu mais rápido nas veias, e a respiração ficou em
suspenso ao ouvir a voz ressonante. Ele estava mesmo ali ou ela o teria
conjurado num sonhar-acordada? Não. Ali estava mesmo ele, a não mais que
- 51 -

um passo de distância, os cabelos negros ainda molhados do chuveiro, a
mesma jaqueta azul-escura que usava no dia em que se conheceram.
— Oi… — cumprimentou ela, sorrindo, em vez de se atirar nos braços
dele, como desejava. — Parece que você conseguiu sobreviver…
— Não tenho certeza! — David sorriu. — Você conseguirá me
convencer? Veja… — Recostou-se na mesma árvore: — Holly, temos um
problema sério. Tenho duas entradas para as Quinhentas Milhas, um convite
para jantar com o Joe, na noite anterior à corrida, uma oferta de Tim para ir
até a reserva Cheyenne, em agosto, um convite em aberto, de Brianny e Alan,
para esquiar no próximo inverno, e Michael se ofereceu para oficiar nosso
casamento!
— F… F… Foi tudo? — disse ela, quase sem voz.
Ele sacudiu a cabeça.
— Foi o que pensei! — concluiu Holly. — David, isto se tornou sério!
Enfiando as mãos nos bolsos de trás da calça jeans, ele baixou a cabeça
e por um longo momento ficou em silêncio. Depois concordou:
— Acho que sim. — E, olhando-a diretamente nos olhos, parecia
querer devorá-la. — Muito mais sério do que você imagina!
Ela tremeu toda com suas palavras e, quando falou, sua voz era quase
um gemido:
— Oh, David!
— Sua mãe está aprontando a mesa do café. Melhor voltarmos.
Quando voltaram, passo a passo, David estava muito pensativo, com o
olhar distante. Ela só conseguia pensar que ele se movimentava com graça,
cada passo traduzindo o trabalho de seu corpo musculoso, o cheiro discreto
da loção pós-barba misturando-se aos da natureza, ao redor.
Próximos da casa ela sentiu-se, subitamente, envolta pelo braço de
David e, antes que pudesse reagir, foi beijada de uma forma que ameaçou seu
equilíbrio.
— David! O que está fazendo? — conseguiu gemer, quando sua boca
abandonou a dela para acariciá-la no pescoço.
De onde estavam ela podia ver sua mãe movimentando-se na cozinha
e afligiu-se, temendo que ela os visse.
Ele respirou junto a sua orelha:
— É para sua mãe ver! Ela está olhando pela janela da cozinha, não?
Holly aquiesceu, deslizando a mão pela cintura delgada dele, que
- 52 -

continuou:
— Holly, nós não estamos noivos? Quer que ela pense que não me
ama?
Ela riu suavemente e beijou-lhe o canto dos lábios:
— David, você está doido! Nós temos de convencer o Michael. Acha
que mamãe vai gostar de nos ver namorando no fundo do quintal?
— Ora, ela poderá contar ao Michael que nos viu. E acho que ela
preferirá este lugar para namoro a alguns outros em que posso pensar… — E
acariciou-lhe a boca com os lábios. — Não sei o que me enlouquece mais:
beijá-la ou não beijá-la!
— Mamãe poderá ficar chocada!
— Por quê? Ela teve todos estes filhos encomendando pelo correio?
Holly deu-lhe um soco brincalhão nas costelas:
— Não sei. Eu fui um presente de Natal!
— Não é à toa que saiu tão doidinha! — E, tomando-a pela mão,
conduziu-a até a casa. — Pensava ser um presente?
— Não. Mas eu tinha oito ou nove anos quando descobri que toda
aquela festança era pelo Natal e não por mim!
Naquela tarde, no parque, Holly sentava-se em cima de uma manta
para observar os irmãos e David jogando futebol. Tudo começara como
brincadeira, mas fora se tornando cada vez mais sério com troca de insultos
algo indelicado, grunhidos, gemidos e gritos.
Conforme observava, ficava espantada de que Ron e Joe tratassem
David como um velho conhecido. Mesmo Michael encontrara interesse em
comum com ele; haviam ficado quase uma hora conversando pela manhã, o
que a deixara extremamente nervosa.
Em pensamento, examinava as muitas facetas de David Winslow.
Havia a faceta séria, a primeira que conhecera. E o lado brincalhão, o
que soltara um uivo ao ganhar no vídeo game. Havia ainda o competitivo,
que se empolgava num jogo eletrônico ou num futebol. Por fim, o lado
sensual e apaixonante, sobre o qual ela mal podia pensar sem sentir um calor
intenso.
Reclinou-se sobre a manta, tomando o sol direto no rosto. Dentro em
pouco juntariam as coisas, pois seria hora de voltar para casa. E mais cedo do
que ela desejava, hora de voltar a Indianápolis.
Algo grande e sólido caiu a seu lado. Abriu os olhos assustada e
- 53 -

percebeu David estirado como morto.
— Não se atreva a rir… — arquejou ele. — Eu bem posso morrer no
momento seguinte!
— Isso estragaria nossa festa. Não morra!
Ele abriu um olho, todo suado:
— Você é uma "monstra", Holly Nichols!
Ela aproveitou a oportunidade para examinar a musculatura de suas
costas, denunciada pela camiseta molhada de suor que se colava à pele. Suas
mãos comichavam de vontade de tocá-lo, de sentir-se pressionada contra
aqueles músculos, responder às carícias de suas mãos calosas…
Seu olhar baixou até a calça justa, que se retesava por sobre as nádegas
enxutas e fortes coxas.
Mas que traseiro bonito! Pensou pecaminosamente.
De súbito, se sentiu atirada sobre o chão, os fortes dedos dele
envolvendo seus punhos, os olhos mergulhando-nos dela:
— Está gostando do que vê?
Holly sentiu os lábios subitamente secos. Aquele fogo em seu olhar
queimava-lhe a alma.
— Sim… — Com muita coragem reforçou: — Gosto muito!
David inspirou sibilante.
— Você está brincando com fogo, Holly! Cuidado…
Os olhos dele desceram, examinando as saliências dos seios realçados
pela fina blusa de Holly. Uma artéria pulsava vigorosamente na base de seu
pescoço. Mexendo discretamente a cabeça, ele beijou a pele macia e pulsátil.
Num único movimento, ele soltou-a, ficou em pé e, puxando-a pelo
braço, auxiliou-a a levantar-se.
— Venha comigo até o reservatório de água — disse, com os olhos
ainda brilhando de excitação.
Ela lhe contara que, do outro lado do parque, havia um reservatório
que era o local escolhido pelos namorados.
— A gente… A gente tem de voltar, David!
— Por favor, Holly! Quero você só para mim, ainda que apenas por uns
poucos minutos!
Ela não podia resistir à urgência daquele convite! Nem sequer tentou.
Sem uma única palavra, entregou a mão a ele, e desceram a colina
gramada.
- 54 -

Mal ficaram longe da vista dos demais, David puxou-a para um beijo
que deixou a ambos sem fôlego.
— Aí está! — disse ele, suavemente. — Isto deve me bastar pela
próxima hora. Ou… talvez, pensando bem, uma meia hora!
De mãos dadas começaram a andar em torno do pequeno lago. Um
falcão passou voando acima deles, as asas abertas ao sol, e ficaram a olhá-lo
em sua glória aérea. Ela não tinha, até então, percebido como estava
necessitada de momentos a sós com David.
Admiraram as águas douradas do lago, conforme o sol ia se pondo.
David a conservava junto a seu corpo. Seria este o momento de contarlhe a verdade? Pensou. O fato é que ele precisava de tempo para estruturar o
que havia a ser dito, em um momento em que não sentisse o calor do corpo
de Holly, macio e apoiado contra o seu.
Holly sentiu o perpassar de seus lábios contra o rosto. Fechou os olhos
e entregou-se à perfeição daquele instante. Se ao menos isso pudesse
continuar para sempre!
Girando o rosto apenas um pouco, encontrou a suavidade dos lábios
dele. Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o com carinho. Precisava
comunicar-lhe como se sentia em paz em sua companhia.
Ele limitou-se a tratá-la como a uma delicada peça de porcelana.
Quanto maior era a paixão que o impulsionava, mais sensual era a
ternura com a qual docemente a tratava.
— Se não voltarmos agora — disse ele, pegando-a pela cintura e
afastando-há um pouco —, nós não voltaremos jamais!
— É… — murmurou ela, suavemente. — Você está certo. Logo, logo,
alguém vai mandar uma comissão para nos buscar!
Com um último e devastador beijo, ele resumiu uma promessa:
— Mais tarde!

Capítulo 6

- 55 -

Holly afastou-se do bolo com um sorriso de satisfação. A elegante
confecção estava decorada em branco e prata, com um chuveiro de rosas
brancas em cima, num arranjo delicado. Uma foto de Ellen e Sam, numa
moldura prateada, completava o conjunto sobre a mesa.
Ela ouviu o ruído de motores se aproximando e, em pouco, a casa
estava apinhada de amigos, todos exclamando pela alegria do reencontro,
pela decoração da casa, pela beleza dos doces e bolo em cima da mesa. Holly
sorria orgulhosa do perfil ainda jovem da mãe e da robustez de seu pai.
Tomando as mãos de Ellen entre as suas, Holly beijou-a no rosto
corado, dizendo:
— Já disse que você está linda com esse vestido rosa?
Aos quarenta e sete anos ela era ainda uma mulher muito atraente.
— Eu diria que tanto a mãe quanto a filha estão lindas! — exclamou
David, aproximando-se e passando um braço pela cintura de cada uma delas.
Sam imediatamente protestou:
— Não basta ter me roubado a filha, jovem? Quer ainda conquistar o
coração da mãe?
Ellen ficou ainda mais corada, enquanto retrucava, rindo:
— Ele só demonstra bom gosto!
Holly recostou-se ainda mais em David; momentos atrás ficara
agradavelmente surpresa quando o vira descer as escadas usando calças
pretas, blazer vinho-claro, camisa branca e uma gravata listrada de preto e
vinho. Esquecerá-se de mencionar o que vestiria, mas a verdade é que as
roupas de ambos combinavam.
— Se andarem rápido — continuou Sam —, ainda poderemos festejar
nossas bodas de ouro junto com a de prata de vocês! Então, bastaria apenas
sobrevivermos a mais uma destas reuniões!
O braço de David aumentou a pressão na cintura de Holly:
— Bem, Sam, ainda estamos combinando alguns detalhes.
— Hum-hmmm — pigarreou Sam. — Do jeito que você olha essa
menina é bom andar depressa!
— Sam! — exclamou a mãe.
— Papai! — gemeu Holly, em uníssono.
Mas os olhos de Sam brilhavam travessos.
— Compreendo seu problema, filho. Foi à mesma coisa com a mãe
dela e eu. Não conseguia manter as mãos quietas! No fim, tive de laçá-la e
- 56 -

arrastá-la até o altar!
Os olhos de Ellen soltaram faíscas, enquanto Holly não sabia se
chorava ou dava risada. Mesmo David mal mantinha o rosto sério, ao falar:
— Talvez você pudesse me ensinar alguns truques a respeito das
mulheres Nichols…
— Claro David! — disse Sam, fazendo uma careta. — Vou começar
contando quando Ellen e eu íamos até o reservatório, do outro lado do
parque.
— Sam Nichols! Não se atreva! — Ellen já estava cor de pimentão
maduro, sem jeito.
— Que está acontecendo? — Perguntou Michael, aproximando-se do
grupo, os olhos muito azuis em bonito contraste com a pele morena, jovem. E,
olhando o rosto da irmã e da mãe: — Pelo jeito, cheguei na hora de evitar um
assassinato.
— Assassinato, não — protestou Sam. — Um casamento, destes dois!
— Um por noite não basta? — espantou-se ele. — Olhe os convidados
estão esperando vocês, junto ao bolo. Meio mundo quer fotografá-los.
Sam soltou um gemido:
— Coragem mamãe; terminemos logo com isso! Depois vamos escapar
para a beira do reservatório para lembrar como era!
Conforme iam saindo, os demais puderam ainda ouvir:
— Acho que você vai dormir lá no estábulo, Sam! Só para lembrar
como era!
Por fim a sós, David aproximou Holly num abraço ainda mais
apertado.
— Acha que estão se divertindo a nossa custa? — perguntou.
— Você não tem jeito, David Winslow! — gemeu ela, sentindo-se
derreter com a respiração dele em sua pele.
O dia inteiro havia sido um desafio ao seu autocontrole, e ela sentia
que não podia mais evitar querer aquele homem.
— Por que você me olha desse jeito? — indagou David.
Porque eu te amo!, pensou ela, inspirando rapidametne. Quase falara
alto. Estaria escrito em sua face? Parecia que sim, da maneira como David a
olhava.
— Eu… Eu estava pensando em como você está diferente.
— Diferente?
- 57 -

— Sim… Parece… Mais jovem, penso!
Ele segurou-lhe o queixo com uma das mãos.
— Holly, eu me sinto mais jovem! Você é a responsável por isso. Surgiu
como um raio de sol, iluminou um recanto de minha vida de que eu ignorava
a existência. Não quero ver estes dias terminarem!
Holly ficou horrorizada quando sentiu lágrimas quentes inundandolhe os olhos. O murmúrio das vozes e o ruído das risadas, no outro extremo
da sala, pareciam estar no limite de sua consciência. David Winslow era a
única pessoa em seu mundo. Mas amor significava também dor, desilusão,
sofrimento, e ela não queria se expôr a tudo isso, de novo.
— David…
— Hei, vocês dois, pombinhos! — a voz de Sam cruzou a sala e o
rumor dos convidados. — Tem mais gente na festa!
David praguejou baixinho, depois disse, emocionado:
— Holly, precisamos conversar. Existem tantas coisas que eu…
O alarido os interrompeu. Os olhos dele se nublaram com uma
expressão que ela não compreendeu, e, então, ele a puxou para junto dos
demais.
Horas mais tarde, quando as fotos já haviam sido tiradas, o bolo
consumido com toneladas de sorvete, Holly ponderou aquelas palavras.
Como era costume, formaram-se grupos de três ou quatro pessoas,
espalhados na enorme sala; os pais já haviam colocado os pequenos para
dormir. Ela sentara-se num canto do sofá, sobre as pernas, quando sentiu-se
observada e levantou os olhos. Era David, junto à lareira, conversando com
Sam e Ellen e olhando-a com intensidade. Ela cortou a ligação de olhares,
fitando, atenta, as próprias mãos. David era extremamente másculo,
companhia agradável, difícil de ser ignorado e impossível de ser esquecido.
— Você e David brigaram?
Holly levantou a cabeça e olhou o irmão:
— Não foi bem assim, Michael…
Sentiu uma onda de carinho pelo irmão, que, sem que ninguém um
dia sequer imaginasse, se tornara ministro do Senhor. Com seus cabelos loiros
e pele amorenada pelo sol, parecia mais um garoto de praia da Califórnia do
que um pastor; os olhos azuis ainda mantinham o brilho que era o terror das
moças de Valentine.
— Está com segundas intenções, mana?
- 58 -

Segundas, mano? Ainda não consegui resolver nem as primeiras!
Pensou Holly, com vontade de rir.
— Não sei Michael; ainda tenho de pensar sobre isso
Aquele seria o momento de contar-lhe a verdade e ver a expressão de
seu rosto. Havia sonhado com isso por semanas! Ele lhe pegou as mãos,
dizendo, com suavidade:
— David é um bom rapaz, mana. Nossa família inteira gostou dele!
Você continua apaixonada por Rick?
— Pelo amor de Deus! Claro que não! Mas aquela experiência me
marcou!
— Claro que sim — disse Michael, solene. — Você nunca nos contou o
que a levou, por fim, a terminar o casamento. Eu sei que foi profundamente
magoada, porém não deixe que isso interfira agora. Olhando-os juntos, eu sei
que David está louco por você!
Isso não estava no programa, pensou ela, encolhendo-se por dentro.
Michael não deveria estar ali, dando-lhe todo o apoio, quando ela, na
verdade, estava tentando pregar-lhe uma peça. Mas isso não acontecia na vida
real: David estava ali por causa de um anúncio em jornal.
Percebendo que agora, mais do que nunca, não era à hora de contarlhe tudo, conseguiu sorrir:
— Está falando por experiência própria, reverendo?
Michael olhou-a com um sorriso tão sem-vergonha que mal combinava
com sua sóbria vestimenta:
— Acho que não está me levando a sério, mana!
— Como posso levá-lo a sério, Michael, quando ainda me lembro
daquela tarde em que você e Heather Anderson estavam nadando e…
Michael tapou-lhe rapidamente a boca:
— Holly Carol Nichols, se disser mais uma palavra, eu vou contar
aqui, em público, de certo "medicamento" que você colocou no bolo de Willie
Jenson…
Holly levantou as mãos, vencida. O irmão livrou-lhe a boca e ambos
estouraram em risos. Quando pararam, ela se inclinou e beijou-o ternamente:
— Sabe? Estou orgulhosa de você, Michael James Nichols.
— Então continue minha amiga.
Os olhos dela se ensombreceram:
— Continuarei, contanto que você não anuncie um falso noivado meu
- 59 -

do púlpito.
Para sua surpresa, o irmão corou violentamente.
— Me perdoe Holly.
— Mesmo?
— Se eu já soubesse de David não teria feito aquilo — E, sorrindo com
ar de leve zombaria, completou: — Eu só quero ser seu amigo e vê-la feliz!
Ela ficou toda sem jeito com a confissão, mesmo porque sua própria
brincadeira estava a pouco mais de cinco metros de ambos.
— O baile vai começar minha gente! — disse Sam, em sua voz
tonitruante, batendo palmas.
— Preciso ir… — avisou Michael.
— Para onde? Não vai dançar?
— Por isso mesmo, vou tirar este colarinho duro, me colocar à
vontade… E sua companhia já está chegando…
Antes que ela pudesse fazer alguma coisa, viu-se retirada do sofá e nos
braços de David. Alguma boa alma havia desligado as lâmpadas mais
intensas e o ambiente mergulhara em meia-luz.
— Sonhei a tarde toda com esta hora! — murmurou ele em seu ouvido.
Holly apreciou aquele corpo de ginasta levando-a pela sala, ao som da
música suave.
— Para quem viveu os últimos anos num mosteiro, até que você não
dança mal… — tentou brincar, para esconder a emoção.
— Foi à coisa mais delicada que me disse nas últimas horas, Srta.
Holly!
— Oh, não deixe que isso lhe suba à cabeça, Sr. Winslow. Eu apenas
estava pensando na saúde de meus pés…
Como esse homem cheira gostoso! Ele é puro veneno! Pensou trêmula.
— É mesmo? Eu pensava que você quisesse ficar mais próxima de
mim… — respondeu-lhe, apertando-a ainda mais intimamente.
Os paletós e gravatas tinham sido abandonados havia muito, e ela
podia sentir os músculos dele por debaixo do fino tecido da camisa.
David ia dizer algo sério, quando exclamou:
— Não acredito! Até o pastor nesta família é doido!
Ela virou-se, assustada com o comentário, e só então percebeu
Michael, ao pé da escada, envergando uma camisa vermelha com a inscrição
"Valentine, a namorada de Nebraska!" dentro de um branco coração.
- 60 -

— O que há de errado? — perguntou ela. — Eu mesmo durmo com
uma camiseta igual aquela!
Os olhos de David brilharam.
— Você a usa na minha frente, uma vez, então?
Ela arrepiou-se e tremeu, só ao imaginar a cena. Sentiu-se tão fraca que
precisou apoiar-se no peito musculoso de David. Mais uma vez ficou muda.
A voz acariciante continuou:
— Use-a para mim Holly, para que eu possa tirá-la e beijar cada
centímetro de sua pele!
— David… — murmurou ela, cada vez mais trêmula, imaginando-se
nua com os beijos de derreter chumbo a cobri-lhe o corpo.
— E, então, vou possuí-la até que nenhum de nós dois seja mais capaz
de andar! — sussurrou ele em seu ouvido. — Eu a desejo, Holly, mais do que
a qualquer outra mulher em minha vida!
Será que a família dela percebia que a seduzia em pleno meio da sala?
Atrevendo-se a encará-lo, murmurou:
— David, você se esqueceu de onde está?!
— Claro que não — continuou ele, com voz sedosa. — É o único
motivo pelo qual estou me controlando!
— Chama a isto de controle?
Os seios de Holly, comprimidos contra o peito dele, estavam túrgidos
de desejo e suas pernas estavam mais moles que… Maria mole.
— Você também me deseja Holly — continuou ele, magnetizado pelo
quase dourado dos olhos dela.
Ela era macia, morna e tão desejável que ele ficava sem fôlego, assim
tão perto.
— Oh, vocês dois aí! — berrou a voz de Sam. — A música parou há
mais de três minutos!
Ambos saltaram, afastando-se, e só então ouviram as palmas. Sam os
olhava com ar de gato-lambão.
— Então, me acreditaram, hem? — continuou ele, rindo porque a
música continuava. — Quero dançar com minha filha, Winslow. Isto é, se você
conseguir se distanciar por alguns minutos!
David fez uma mesura gozadora, enquanto respondia:
— Por favor, Sam. Aproveitarei para dançar com aquela linda
senhora…
- 61 -

— Esse rapaz está andando em terreno perigoso! — ameaçou Sam,
olhando a filha.
— Papai, você é impossível!
— Eu sei. Sua mãe nunca se cansou de repetir isso!
Uma onda de afeição inundou-a; Sam Nichols era o melhor pai do
mundo.
— Que tal estar casado há vinte e cinco anos? — perguntou-lhe.
Sam ficou subitamente sério:
— Nem percebi os anos passarem. Parece que foi ontem que você não
passava de uma fedelha, ameaçando me levar para cova antes do tempo! E
agora olhe só! Crescidona, independente para valer, negociante de sucesso e
muito bonitinha! — E, depois de uma pausa: — Mas foram anos deliciosos! E
não se esqueça de que sua mãe, com sua idade, tinha sete filhos!
— Ora, papai — protestou ela —, não vai começar alguma encrenca,
vai?
— Não. Nunca interferi em sua vida — disse ele, ainda muito sério —,
e não vou começar agora. Mas quero que saiba que eu e sua mãe gostamos
muito dele. Estamos tristes porque tudo isso não é mais que uma brincadeira.
— Interrompeu-se de novo e olhou-a, firme. — É uma brincadeira apenas,
não é? — indagou, então.
A música parou, mas ela não se afastou do pai, pensando se a
brincadeira não acabara por cair sobre ela mesma. Passou um braço pelo
pescoço de Sam:
— Eu o amo, pai! Você sabe disso, não sabe?
— Claro que sei — respondeu ele, com a voz rouca de emoção.
— Sua mãe e eu só queremos vê-la feliz!
— Não tem de se preocupar com a felicidade dela, Sam. Eu tomarei
conta disso!
Ao som da voz de David, ela baixou os olhos, confusa.
— Acho bom andar logo, filho! — exclamou Sam. — As coisas estão se
descontrolando! — Bateu nos ombros de David e se afastou.
Holly, perturbada pela intensidade das emoções, evitou olhar o rosto
dele, enquanto dizia:
— Acho que vou tomar um pouco de ar.
Saiu quase correndo pela porta da cozinha, sem mesmo preocupar-se
em pôr um agasalho. Atravessando os locais tão conhecidos, dirigiu-se para
- 62 -

junto do riacho. A noite estava fria e úmida, mas ela nem percebeu. Limitouse a encostar a testa no olmo onde, horas atrás, estivera com David e deixou
as lágrimas correrem como se fossem o próprio riacho a seu lado. Como
pudera ser tão estúpida?
De súbito, em vez da rugosa e fria casca da árvore, sentiu-se contra o
calor e a maciez de um corpo humano. A grave voz de David murmurou-lhe
ao ouvido:
— Só uma louca, senhorita desmiolada, pensaria em sair numa noite
fria como esta sem um suéter! — E, apertando-a contra si: — Que aconteceu,
Holly? Que houve?
Sabendo que estava descontrolada, ainda não podendo falar, ela
sacudiu a cabeça e voltou a mergulhá-la no peito de David. Aos poucos foi se
aquietando e então murmurou:
— Oh, David! Eu estraguei tudo e agora não sei mais o que fazer!
Ele a afastou um pouco de si:
— Que quer dizer? Contou a verdade a Michael? Eu percebi vocês dois
conversando, há pouco.
Ela sacudiu a cabeça, depois tentou explicar:
— Não sei onde errei. Mas as coisas saíram, fora de controle, e uma
simples piada virou…
— Algumas vezes as piadas fazem isso mesmo! — disse David,
suavemente. — Mas você não tinha má intenção.
— Todo o mundo está torcendo pelo nosso… "Noivado", agora! —
disse ela, sentindo-se miserável. — Até papai veio me contar que ele e mamãe
acharam você formidável!
— No que demonstram bom gosto! — pontificou ele. — Mas existe um
monte de coisas que nem você nem eu planejamos, neste fim de semana.
Quando entrei em seu escritório, na outra noite, não imaginava que
encontraria uma desmiolada que viraria minha cabeça. Eu não imaginava que
encontraria duas pessoas excepcionais, como seus pais. — Ele libertou-a e
limitou-se a rodear-lhe o rosto com a palma das mãos. — Você tem alguma
idéia do que este fim de semana significou para mim, Holly? Perdi meus
próprios pais aos quinze anos e, depois disso, estava ocupado demais em
conservar todos os irmãos reunidos, até os últimos anos. De repente, ver você
e sua família teve um enorme significado para mim!
Passou-lhe o braço pela cintura e continuou, com voz embargada:
- 63 -

— Holly, você não deveria ter feito aquele anúncio. Eventualmente, o
destino faria com que nos encontrássemos de um jeito ou de outro. Mas não
teria sido tão engraçado, não é? — Beijou-lhe os lábios num toque
extremamente suave. — Não está pensando que vou me conformar em perdêla, depois deste fim de semana, não é?
— Eu esperava que não… — murmurou ela, pressionando os lábios
nos dele.
Havia tantas perguntas a serem feitas, mas que teriam de esperar.
— Você não é o que eu esperava, David Winslow. Você mete medo!
— Então, somos dois: você também me amedronta!
— Oh, David! — gemeu ela. — O que vamos fazer?
Ele examinou aquele rosto já tão querido, não precisando mais que a
profunda penumbra em que estavam para adivinhar as feições tão delicadas,
as sardas no narizinho, os seios tão pequenos que cabiam na concavidade de
suas mãos e perturbavam seu sono e seus sonhos.
— Holly! — clamou ele, capitulando à tentação daqueles lábios tão
próximos.
Beijou-a, sua língua encontrando a dela, buscando a supremacia. Seus
dedos se enterraram nas costas de Holly, fazendo-a curvar-se contra seu
corpo, enquanto se embriagava com a doçura que ela oferecia.
Holly colou-se a ele, absorvendo-lhe a calidez, mergulhando naquela
paixão que a absorvia. Suas mãos corriam, sequiosas, sobre a pele quente e
lisa, enquanto ondas de prazer a invadiam, como se fosse cega e conseguisse
captá-las através da ponta dos dedos.
Ele deitou-a, carinhosamente, sobre a grama, enquanto murmurava
seu nome sem parar e a beijava, numa paixão voraz que a deixava cada vez
mais fraca. Abriu lentamente cada um dos botões de sua blusa, tornando nus
aqueles seios firmes que desafiavam o frio da noite.
— Toque a minha pele, Holly! Eu preciso! — pediu ele.
Um gemido de prazer escapou pela garganta dela quando, quase
rasgando a camisa, conseguiu desnudar-lhe o peito e espalmar sua mão sobre
os pêlos bastos. A pele era, ao mesmo tempo, uma camada de aço com textura
de seda.
O toque das mãos dele em seus seios era leve e dolorosamente
excitante. Os bicos se enrijeceram quase de imediato e ela inspirou fundo,
quando os lábios de David os tocaram, tantalizando-a. Então, ele mordiscou o
- 64 -

bico do seio, e ela enrijeceu o corpo, pensando que fosse morrer.
Passando-lhe o braço sob as costas, David rolou o corpo, fazendo-a
ficar sobre ele. Holly não resistiu mais e, abandonando qualquer compostura
feminina, começou a explorar aquele corpo másculo.
— Holly, sabe o que está fazendo comigo?
Ela respirou um pouco, para conseguir responder:
— O mesmo que você está fazendo comigo, David!
Espalhou-se inteiramente por sobre ele, consciente de quanto David
ficara excitado, mesmo através da espessura de sua calça. Holly sentiu-se
invadida pelo poder que conseguia exercer sobre ele.
— Se não pararmos agora — sibilou David, entre uma respiração e
outra —, não vou parar mais. E eu… Eu… preferiria que não fosse assim, em
cima da terra. — E, após um segundo: — Esqueça, estou adorando em cima
da terra!
Ela apoiou a cabeça em seu peito, escutando o bater descompassado
do coração e feliz em saber que não estava só em toda aquela loucura.
— Você acha que Sam virá a nossa procura com uma espingarda na
mão? — perguntou ele.
Holly o beijou no queixo:
— Acho que sim… Além de tudo, pensou que vergonha se nós dois
ficarmos com pneumonia galopante?
— Melhor… — ele respirou ofegante — do que intoxicação por
"chumbo"…
Ela acariciou-lhe o rosto, ternamente e, depois de alguns segundos,
murmurou:
— David… Eu nunca fiquei assim com ninguém!
Ele aproveitou a proximidade da mão e beijou-lhe o côncavo da palma
num toque sensual que a fez estremecer,
— Nem eu!
Um instante depois, Holly levantou-se, com dificuldade, e começou a
colocar a roupa em ordem. Ficou olhando David abotoar a camisa e enfiá-la
de volta dentro da calça. Ele aproximou-se para ajeitar-lhe os cabelos, o nó de
seus dedos raspando-lhe o rosto.
— Srta. Nichols… Um vendaval passou por você! Até parece que
esteve rolando pelo chão!
Ela se pôs a rir:
- 65 -

— Se pensa que está muito arrumadinho, enganou-se, rapaz! Seu
cabelo ficou uma loucura e aposto que sua camisa está manchada de grama!
— Abraçou-o, tentando arranjar-lhe os cabelos desalinhados. — Talvez a
gente consiga entrar sem que ninguém nos veja!
— Bem, podemos ir pela escada dos fundos! — propôs ele.
Ela olhou-o com suspeita:
— Como sabe a respeito da escada dos fundos?
— Michael me contou — confessou David, tirando grama de seus
cabelos. — Parece que era usada quando ele queria se encontrar com a… A…
Heather Anderson é isso?
Os olhos dela se entrecerraram:
— Posso saber o que mais os cavalheiros andaram se confidenciando?
Ele a pegou pela cintura e começou a andar em direção a casa.
— Eu prometi que não contaria nada! — falou, em tom de falsa
angústia.
— Eu estrangulo aquele indivíduo com as minhas próprias mãos! —
ameaçou ela, muito séria. — Pastor ou não pastor, eu estrangulo aquele cara!
David deu-lhe um rápido beijo no rosto.
— Não adianta mais fazer isso, Holly Nichols! Ele já me contou tudo…
Ninguém nunca conseguira tirá-la do sério como este homem. Bastava
um único beijo, e ele não parava de beijá-la! Para que ela perdesse todo o
controle.
— Que mais ele contou?
— Fiquei sabendo que desde criança você é doida e desmiolada! Não
foi nenhuma doença que piorou com a idade…
— Então, me dê um beijo, e vamos para casa antes que eles mandem a
polícia nos procurar!
David não hesitou e ofereceu-lhe um longo e profundo beijo. Depois
lhe perguntou numa voz que parecia séria:
— Está tudo escuro... Acha que vale a pena entrar?
As lágrimas de uma hora atrás já esquecidas, ela respondeu:
— David! Pare de me desafiar!

- 66 -

Capítulo 7

David manteve a porta da cozinha aberta para que Holly entrasse e
seguiu-a. No passo seguinte quase chegou a atropelá-la, pois ela havia parado
e procurava controlar a risada.
Acompanhando seu olhar, percebeu, mal iluminados por uma única
lâmpada de abajur, Ellen e Sam, abraçados e esquecidos do mundo a sua
volta.
Sorrindo, David acenou para que Holly continuasse a andar, e no
momento seguinte ela esbarrou ruidosamente numa cadeira.
— Que maldição! — urrou Sam, ainda abraçado a Ellen. E, percebendo
os dois que entravam, continuou: — Eu devia ter adivinhado! Os raios dos
filhos crescem, mas continuam interrompendo nos melhores momentos!
— Oh, desculpe, senhor, mas não pensamos que houvesse pessoas
ainda acordadas!
— Tudo bem, meu filho — rosnou Sam. — A gente acaba se
acostumando, em tantos anos… Por que imagina que levamos cinco anos para
ter estes filhos? Entre um filho que queria água, o outro que tinha visto um
monstro no armário e os outros indo e vindo do banheiro, nós tínhamos de
fugir para o estábulo, se quiséssemos… Ah… Paz!
— Não reclame, Sam — protestou Ellen, com afeição. — Querem
tomar um café conosco? Foi para isso que descemos…
— Oh! — fez David, muito sério. — É assim que chamam?
Sam ignorou o comentário malicioso:
— Vocês estiveram no riacho?
Holly ficou embaraçada:
— Eu estava precisando de ar fresco…
— Hmmm! Pelo jeito que estão, acabaram conseguindo algo mais que
ar… — Sentou-se numa poltrona. — Vocês se casaram, lá fora?
— Oh, Sam! — protestou a mãe.
David voltou-se para Holly e piscou um olho.
Ellen colocou mais duas canecas de café na mesa:
— Não daria para vocês ficarem mais uns dias?
— Impossível mamãe! Tenho de voltar ao escritório; afinal, sou eu a
- 67 -

empresária…
— E eu tenho compromisso na segunda — ponderou David, pegando
a mão de Holly por baixo da mesa.
Começou a acariciar-lhe a palma, com o polegar, perturbando-a.
— E eu tenho um encontro, na segunda, que desejo manter a qualquer
custo! — disse Holly, pensando no tal D. W. Branson. — Embora, na verdade,
o evitasse, se pudesse. Vocês sabem, o prédio onde está meu escritório foi
vendido, algum tempo atrás, a um investidor ganancioso. Bem, ele decidiu
derrubar o prédio e vai reunir os inquilinos, na segunda, para explicar o por
que!
— Ora, há uns meses, você nos disse que ele iria reformar tudo! —
espantou-se Sam. — Que houve?
— As reformas começaram e, pelo jeito, seriam ótimas. De repente,
parou tudo, pai!
— Talvez ele tenha encontrado problemas pelos quais não esperava…
— comentou David.
— David deve estar certo! — falou Ellen.
A boca de Holly cerrou-se em desagrado, depois ela comentou:
— Ah! Aquele prédio está lá há décadas! D. W. Branson apenas
resolveu pôr tudo abaixo para levantar algum monstro de prédio que lhe dê
mais lucro!
David precisou se refrear para não dizer quanto dinheiro já havia
enterrado naquela reforma para chegar a canto algum. Queria lhe contar
sobre a fragilidade da estrutura, que não lhe deixava alternativa.
A testa de Sam se enrugou:
— Curioso, Holly, você está levando isto muito pessoalmente! O que
tem contra esse D. W. Branson?
— Escutei um bocado de histórias a respeito dele! — disse ela, com
desprezo. — Ele começou do nada, há uns dez ou doze anos, e agora é um
dos mais ricos e poderosos construtores de Indianápolis, talvez de todo o
Estado! Já li uma reportagem que dizia onde ele colocou outras construtoras
menores; impossível dizer quantas pessoas prejudicou em sua caminhada
para cima!
David largou a mão dela e levantou-se abruptamente, indo se servir de
mais café. Procurou deixar o rosto sem nenhuma expressão, exceto um
músculo que se contraía em seu maxilar. Sentiu-se agredido pelo desprezo na
- 68 -

voz de Holly. A situação era ainda pior do que imaginara. Durante anos não
se importara com o que as pessoas pensavam, sobre ele.
Mas havia acontecido um incidente, tanto tempo atrás, do qual ele mal
se lembrava que tinha alguma semelhança com o caso atual. E daquela vez as
pessoas tinham sido feridas na experiência. Ele estava saindo com uma moça,
Melanie Wakefield, filha única de abastada família. A cada vez que
compareciam a uma festa de caridade ou a um clube, suas fotos saíam na
coluna social de jornais. Nem sequer podiam dar um passeio, e logo surgia
um repórter fotografando-os.
David odiava viver numa espécie de aquário, com sua vida sendo
mostrada em público. Além de tudo, a relação com Melanie estava chegando
a um beco sem saída. Já decidira terminar com ela quando um jornal
anunciara o noivado dos dois, causando uma situação que complicou tudo,
magoando Melanie e ele sem nenhuma necessidade. Furioso, conseguira
chegar até a jornalista que dera a notícia, e esta afirmara que recebera a
informação de uma fonte de alta confiança. Ele desmentira, exigira que ela
fizesse uma retratação, mas a jornalista se recusara. E o rompimento fora
muito mais doloroso do que precisaria ser. O ódio e a desconfiança dele
contra imprensa vinham desses dias.
— Holly, eu acho que não deve dar ouvidos a maledicências — disse
Ellen, conciliatória.
— Não deve ser só maledicência, mamãe. Vi o nome dele associado ao
de várias mulheres nos últimos anos, também. Sabe o que penso de homens
inescrupulosos com negócios e mulheres!
— Está aí uma generalização perigosa, Holly — interferiu Sam.
— É como julgar um homem na ausência dele? — Quando ele ergueu
os olhos, David viu que ele o fitava desconfiado. — Já viu esse D. W. Branson
alguma vez, filha?
— Nunca! — admitiu Holly. — É um covarde que marca entrevista,
mas nunca aparece!
Ela não percebeu a surpresa no rosto de David nem sua reação à
palavra "covarde".
— Mas por que teria de encontrá-la? Não irá a uma reunião com todos
os condôminos na segunda-feira?
Holly mexeu-se na cadeira, inquieta:
— É que eu lhe escrevi diversas vezes. Como ele nunca me respondia,
- 69 -

eu ameacei processá-lo!
— Holly!
Ela olhou para a mãe, numa fixidez teimosa.
— Ele não pode destruir aquele prédio sem uma boa razão. Eu lutarei
contra ele quanto for preciso.
Sam recostou-se na poltrona e cruzou os braços ao peito ao mesmo
tempo em que examinava David com olhos entrecerrados.
— Talvez esse homem tenha boas razões para destruir o prédio, tal
como disse David. Se for assim, você ficará com cara de boba!
— De que lado você está, papai? D. W. Branson merece levar um pouco
de pancada, e eu gostarei de ser o instrumento! Ele tem de perceber que não
pode passar por cima das pessoas desse jeito!
David empalideceu, sob a fúria de Holly; percebeu que Ellen se
aproximara dela e falava-lhe em voz muito baixa. Saiu da casa e ficou no
terraço, respirando o ar frio da noite. Buscou um cigarro nos bolsos até
lembrar-se de que deixara de fumar havia anos. Ele daria o braço direito por
um cigarro, naquele momento.
Encostando-se à balaustrada, David ficou pensando e percebeu que
Sam sabia da verdade. Quando a porta se abriu e fechou atrás dele, tinha
certeza de quem se tratava. Houve um silêncio muito longo antes que Sam
falasse, com um tom muito gentil na voz:
— Quando vai contar-lhe, filho?
— Não era para acontecer isto — respondeu ele. — Agora nem sei por
onde começar.
— Você não me deve nenhuma explicação. Pensei que fosse apenas
uma parte da piada com o Michael — disse Sam, sentando-se numa das
cadeiras de balanço. — Parece que a coisa é mais complicada do que isto…
— Complicada! Eu a amo, Sam.
— Isso é evidente, rapaz. E é muito natural.
— Mas eu só a conheço há dois dias!
Sam pareceu um pouco surpreso, mas terminou por levantar os
ombros:
— Conheci Ellen por toda minha vida. Mas me apaixonei em uma
única tarde.
Eles continuaram falando por mais de uma hora, até que Holly surgiu
para procurá-lo. Sam levantou-se, beijou-a no rosto e estendeu a mão a David:
- 70 -

— Gostei de nossa conversa, David. Lembre-se do que lhe disse…
Depois que ele entrou, Holly indagou:
— Sobre o que conversaram?
Em vez de responder, David enlaçou-a e puxou-a para si. Seu prazo
estava acabando… O prazo de que necessitava para convencê-la de que nada
em sua vida teria significado sem ela.
Sentindo o desespero em seu corpo, Holly tomou-lhe o rosto entre as
mãos.
— O que há, David?
— Holly, temos tão pouco tempo!
Olhando David, ela percebeu a sua tensão: Estivera dirigindo os
últimos cem quilômetros no meio de uma densa neblina, em velocidade
muito lenta. Tentando dissipar a tensão, ela brincou:
— Linda noite para um assassinato, não?
— Pensamento bobo… — reclamou ele, tirando os olhos da estrada
apenas por um segundo. — Pode ser perfeita para um homicídio, mas não
para voarmos de volta!
— Você acha que o aeroporto estará fechado?
— Não vejo outra possibilidade! O nevoeiro está cada vez pior.
— Mas os aviões têm vôo cego, não têm?
— E quem vai entrar num aparelho, sabendo que o piloto não enxerga
um palmo adiante da cabina? — Ele consultou o relógio no painel. — Falta só
uma hora para o nosso vôo. Acho melhor pararmos e telefonarmos. Se os vôos
foram concelados não há razão para continuarmos nos arriscando nesta
estrada.
Pouco depois encontrou onde estacionar e beijou-a.
— Vou telefonar e já volto.
— E se não me encontrar mais, nesta neblina?
— Ora, eu não esperei trinta e quatro anos para encontrá-la e perdê-la
por causa de uma neblina besta!
Ela o observou desaparecer em meio à névoa, pensando que se os vôos
tivessem sido cancelados, teriam de passar a noite em Omaha. Até que a idéia
não era má!
No entanto, os velhos fantasmas voltaram a perturbá-la.
No fundo temia desapontar David sexualmente, apesar de saber que
apenas seu toque já o despertava.
- 71 -

— Oi, cara engraçada! — Era David, de volta.
— Sabe de uma coisa, homem-do-asfalto? Nunca recebi tantos apelidos
como nas últimas vinte e quatro horas.
— Está com fome?
— Morrendo de fome! — E ela completou, em pensamento: "Em mais
de uma maneira, querido!" Depois, em voz alta: — Cancelaram o vôo?
— Sim. A torre diz que a neblina vai se dissipar daqui a várias horas, e
o próximo vôo para Indianápolis partirá às seis da manhã. O hotel aí tinha
um último quarto, e parece que o restaurante é razoável.
Quando terminaram o jantar e chegaram ao quarto, um nó pesado se
fizera no estômago de Holly. David abriu a porta e conduziu-a, com a mão em
suas costas.
— Até que não é mau! — o comentou.
Holly não disse nada, hipnotizada pela cama de casal que tomara
proporções gigantescas em sua cabeça. O nó no estômago dera nascimento a
diversas mariposas que batiam as asas, causando uma estranha sensação.
David voltou-se para ela:
— Vou buscar a bagagem no carro… Levo a chave ou você jura que me
deixa entrar?
Ela molhou os lábios ressequidos com a ponta da língua.
Sabia que se portava como uma adolescente, mas o fato é que sua voz
sumira. Limitou-se a concordar com a cabeça.
Talvez estivesse tão nervosa porque, na verdade, era exatamente onde
queria estar com ele. Tinha de admitir: estava amando David e tinha certeza
de que ele a amava.
Ela enxugava o rosto quando o ouviu voltar. Pegou as coisas de que
necessitava de sua maleta, sem olhá-lo um segundo, e voltou ao banheiro.
Ficou o máximo de tempo possível e, ao abrir a porta, viu David
encostado à parede, no lado oposto do quarto, sorrindo.
— Pensei que você tivesse dormido dentro da banheira.
— Desculpe… — e ela passou por ele.
Em pouco a porta do banheiro se fechou e ela ouviu o ruído do
chuveiro. Olhou as próprias roupas, pensando se deveria dormir com elas
ou… Ou com… Com algo mais. Como ela gostaria de achar natural dormir
com um homem num quarto de hotel!
— Holly…
- 72 -

A voz suave lançou-lhe arrepios pelo corpo. Não ouvira a água de o
chuveiro ser fechada nem o ruído da porta.
David estava ali, bem á seu lado, apenas com a calça jeans, o peito
cabeludo rebrilhando ainda de umidade, tal como seu cabelo despenteado.
Os músculos ressaltaram sob a pele, quando ele lhe estendeu algo.
— Que é isso? — perguntou ela, olhando a folha de papel dobrado.
— O contrato…
Ela o olhou sem entender, uma vez que o contrato fora esquecido
durante todo o final de semana. Mas então o associou ao dinheiro. Foi até a
bolsa e apanhou um envelope longo.
— Quê? — espantou-se David.
— A segunda parte do pagamento! — disse ela, rapidamente, odiando
falar disso.
Os olhos dele se ensombreceram por um instante, e então ele sorriu.
Pegou o envelope e picou-o com o cheque dentro.
— Ao inferno com esse dinheiro! — exclamou, e puxou-a para si. —
Agora não é mais preciso!
Holly quase engasgou ao sentir sua masculinidade pressionada contra
seu ventre liso.
— Co-como? — gaguejou a custo.
— Havia algumas falhas no contrato!
Ela sentia-se inteiramente arrepiada.
— Por exemplo? — murmurou, hipnotizada pela expressão do rosto
dele.
— Por exemplo, não mencionava o que acontecia se o noivo contratado
se apaixonasse pela contratante!
Holly sentiu o coração batendo contra as costelas. Inspirando fundo e
tremulamente, se perguntou: seria tudo aquilo encenação para levá-la para a
cama? Será que poderia confiar nele? Desejava David como jamais desejara
homem algum.
— Olhe-me, Holly — Ela abriu os olhos e viu o brilho dentro dos dele.
— Eu te amo!
E seus dedos faziam um movimento, acariciando no pescoço dele,
enquanto David baixava a cabeça para apoderar-se de seus lábios. Os beijos
desceram pelo rosto, pelo pescoço e alcançaram a gola de sua blusa.
— Oh, David! — Ela afundou o rosto em seu peito. — Como
- 73 -

poderemos estar seguros? Só nos conhecemos há dois dias!
Ela era macia e cálida.
— Porque quando se esperou tanto por algo na vida, é muito mais fácil
reconhecer quando se encontra. Acho que me apaixonei por você quando, no
seu escritório, começou a dizer todas as coisas que eu poderia e não poderia
fazer neste fim de semana.
— Acho que me apaixonei no calçadão, quando você disse que não
conhecia o suco de laranja Julius e parecia que ia me beijar na frente de toda
aquela gente!
— Bem que eu quis! Eu a desapontei?
— Terrivelmente — disse ela, levantando a cabeça. — Mas se me
recompensar agora, talvez eu o perdoe.
— Holly, eu não estou querendo apenas uma noite com você! —
declarou ele, suavemente. — Eu te amo, muito mais intensamente do que
julgava possível. Se pensa que vai conseguir sair da minha vida, engana-se.
Ele nunca se sentira tão possessivo em sua vida.
— Eu o desejo tanto, David!— murmurou ela.
— Confie em mim, Holly!
Ele percebeu o desejo nos olhos dela, a necessidade, a impaciência.
Com dedos trêmulos, começou a desabotoar-lhe a blusa. O calor de
sua pele queimava-o até o íntimo. Por fim, o delicado tecido se afastou
mostrando os redondos marfins dos seios a seu sequioso olhar. Ele afastou o
sutiã e, inclinando-se, colocou o bico intumescido dentro da boca, com um
gemido de prazer.
Holly derreteu-se sob seu toque, a gentil massagem da língua
enviando-lhe choques elétricos por todo o corpo. David acariciou primeiro
um depois o outro seio, até que ela passou a gemer. Ele estava excitado,
quente, ansioso! Desejando-a, necessitado dela! David levantou-a nos braços e
conduziu-a até a cama, depositando-a com carinho sobre as cobertas e
ajoelhando-se a seu lado. Num emaranhado de braços e pernas, seduziu-a
com palavras doces, acariciando-a com mãos que conheciam o seu caminho.
Ela não sabia que era capaz de desejar alguém como o desejava
naquele instante. A forma como á tocava fazia-a sentir-se rara e preciosa. A
parte íntima de seu casamento havia sido um desaponto, pois Rick jamais a
tocara daquela forma e por diversas vezes lhe dissera que ela era um fracasso
na cama.
- 74 -

Durante anos sentira-se culpada por isso e levara ainda mais tempo até
perceber que não era responsável pela infidelidade dele. Havia sido tão
ingênua, quando se casara, e Rick nunca se preocupara, nem na lua-de-mel,
em provocá-la como David, agora, estava fazendo. Ainda assim ela se
perguntava se seria capaz de satisfazer a um homem experiente como ele.
— Holly — ele ergueu o rosto, fitando-a —, você está certa de que é
isso que deseja?
A maneira tímida como ela respondia a seus toques ainda o espantava.
Mas, por debaixo daquele jeito inocente, vibrava uma mulher sensual,
tinha certeza.
— Não sei se serei capaz de satisfazê-lo — murmurou ela, assustada.
Ele estava muito sério.
— Holly Carol Nichols, você me satisfaz muito bem! Mas a relação
sexual obriga a uma, certa técnica: a primeira aula é o toque!
E passou a acariciar-lhe os seios, a pele sedosa do pescoço, depois
descendo lentamente até a barriga. Se ele engarrafasse essa técnica, pensou
Holly, ficaria rico ao vender as garrafinhas!
Como na noite anterior, ele pegou-lhe a mão e colocou-a no próprio
peito:
— Me toque Holly!
E ela passou a acariciá-lo com extremo prazer, sentindo ao mesmo
tempo o rápido bater de seu coração dentro do peito. A cada respiração, a
cada convite, ela se tornou mais atrevida, até que ele começou também a
gemer de prazer. Holly sentiu-se envolta por suas palavras, pelo contato de
seu corpo tal como por sentir-se tocada.
Quando notou, ambos estavam nus, um nos braços do outro. Uma pele
quente contra a outra, abrasadora. As respirações entrecortadas se
misturando. Lábios úmidos deslizando, ora sobre os outros, ora sobre a pele.
— E então… Na aula seguinte… Vem o saborear!
Começou a passar a língua no lóbulo da orelha dela, pela curva suave
de seu pescoço.
O cheiro de Holly e o sabor de sua pele o levaram ao limite da loucura.
— David… — murmurou ela, fracamente, mergulhando os dedos em
seus negros cabelos, enquanto ele passava a língua em seu mamilo e, depois,
enfiava-o todinho na boca. Ela cravou as unhas em seu couro cabeludo,
excitada.
- 75 -

David ia de um seio ao outro, enquanto Holly o estimulava com as
mãos e os gemidos que vinham de suas entranhas.
Ela tentou protestar quando os beijos desceram pelo seu corpo, por sua
barriguinha plana e chegaram às faces internas das coxas. Mas quando um
beijo chegou a sua mais íntima feminilidade, soltou um arquejo de choque.
— Por favor… — implorou ela, não sabendo bem o que estava
implorando.
A tensão cresceu e cresceu em seu íntimo até que pensou explodir.
David sentiu seu estremecimento de prazer e percebeu que começava a
perder o controle. Havia tanto tempo que não estava com uma mulher, e
nenhuma o afetara dessa maneira.
— Você aprende rápido! — disse ele, entre os dentes.
A maneira como Holly se entregava destravara algo dentro dele que o
protegera durante toda a sua vida. E seu isolamento desaparecera sob o toque
mágico. E sua vulnerabilidade estava nas mãos dela.
Quando David se apropriou de novo de sua boca, ela tomou o membro
enrijecido em suas mãos, e ele gemeu:
— Holly, eu não posso esperar mais!
— Venha, David! — arquejou ela, sentindo o poderio da necessidade
dele e seu próprio controle se desvanecendo. — Por favor, faça amor comigo!
Devagar, David mergulhou naquele corpo macio, penetrando-a
profundamente. Ficou imóvel por alguns segundos, tentando ganhar de volta
algum autocontrole. Então, juntos, em peculiar harmonia, viajaram até as
estrelas e os astros além, subindo, subindo e se alçando até a vertiginosa
altura; então voltaram juntos, á Terra.
— Eu te amo, Holly! — murmurou ele. — Eu te amo!
— Eu também te amo, David!
Ela ficou imóvel nos braços dele, simplesmente escutando o bater dos
seus corações. Ela nunca passara por uma relação assim!
— Pensei que jamais voltaria a amar outro homem. Quando o meu
casamento acabou, o mundo acabou com ele. Eu confiava tanto em Rick que,
quando descobri que ele me traía, fiquei devastada. Pensei nunca mais me
recompor.
David fechou os olhos, sentindo os dedos do medo, atravessar-lhe a
alma. Tinha de contar-lhe a verdade e fazê-la compreender por que a
enganara. Mais ainda: fazê-la acreditar no quanto a amava.
- 76 -

Não poderia perdê-la!

Capítulo 8

David ficou acordado, aguardando com horror o amanhecer que lhe
traria os momentos de decisão, e ele ainda não sentia-se pronto.
Holly mexeu-se, e ele se ergueu sobre um cotovelo para olhá-la. A luz
suave que entrava pelo banheiro mal quebrava a escuridão, mas ele podia
divisar suas feições. Teria de acordá-la logo, se quisessem apanhar o primeiro
avião; colocou-lhe a ponta do dedo nos lábios, e ela sorriu, ainda dormindo.
Não pôde resistir e beijou-a.
Ela sentiu alguma coisa suave contra a boca e lentamente abriu os
olhos. Levou um tempo até perceber onde e com quem estava. As lembranças
da noite anterior surgiram, vívidas, e ela sentiu uma forte onda de emoção
perturbá-la.
— Olá, dorminhoca!
— Oi, você aí! Já está na hora?
Esperava que não, pois o calor do corpo dele era um convite a
continuar onde estava.
— Nosso avião sai em duas horas…
— Temos tempo para um café completo?
— Ora… — brincou ele. — Eu deveria ter adivinhado! Você só pensa
no estômago?
Ela afundou a cabeça no ombro largo:
— Quem falou em café com leite, pão e bacon? Eu estava pensando em
outra coisa mais interessante.
Ele apertou-a num abraço:
— Mal posso esperar! — murmurou ele, e tomou seus lábios num
profundo beijo.
Holly sentava-se em frente a diversas pastas e inúmeros papéis, mas
seu pensamento estava longe de todos aqueles documentos ou da entrevista
marcada logo a seguir. As lembranças das horas que passara nos braços de
- 77 -

David haviam destruído seu poder de concentração: tudo parecia ter sido um
sonho, mas seu corpo testemunhava ainda a presença dele, reagindo
deliciosamente quando ela recordava.
Uma rápida batida na porta e Susan entrou:
— A Sra. Armistead deve levar mais uns quinze minutos para chegar.
Isso lhe dará tempo para colocar tudo em ordem?
— Acho que sim. Não devo preocupá-la desnecessariamente. Faz
apenas dois meses que ela enviuvou, e quero que se sinta segura com a
pensão. Mais tarde a gente discutirá detalhes de outras disposições.
Quinze minutos mais tarde, o telefone tocou, e Holly atendeu direto:
— Se a Sra. Armistead chegou pode mandá-la entrar e…
Houve uma pausa estranha. E, então:
— Olá, cara engraçada!
O coração de Holly saltou no peito:
— David!
— Puxa… — riu ele. — Ao menos você não se esqueceu do meu nome!
Espero que também não tenha esquecido todo o resto!
Ela inspirou fundo, diante daquela voz suave, tentando manter a
cabeça fria.
— Não. — E as lembranças de seu carinho ao possuí-la deixaram-na
trêmula. — Não esqueci um detalhe sequer…
— Preciso vê-la, Holly. — Havia uma tensão latente em sua voz.
— Eu quero falar com você sobre uma coisa.
— Parece coisa importante! — disse ela, brincalhona, querendo
encobrir a própria tensão. — Deixe-me ver meus compromissos.
— Ao inferno com eles!
— David!
Ele soltou o ar, exasperado:
— Desculpe! É que…. Ora, você está livre para o almoço?
Ela hesitou diante da veemência na voz de David. Talvez ela pudesse
almoçar com ele. Ao bater os olhos no calendário, soltou uma imprecação:
Susan havia marcado clientes até o meio-dia!
— Desculpe, David, não vai dar. Quer jantar comigo?
Ele ficou silencioso por longos momentos.
— Ao menos posso vê-la por uns minutos, na hora do almoço?
— Oh, infelizmente, David, há aquele compromisso com os
- 78 -

condôminos, à uma! Acho que só na hora do jantar…
A Sra. Armistead entrou sem bater, e Holly cortou:
— Minha cliente está aqui. Tenho de desligar.
— Eu te amo, Holly: não se esqueça disso!
Ela desligou o telefone mais preocupada do que gostaria.
— Bran, você está parecendo ótimo, esta manhã! — comentou John,
nada escapando a seus olhos perceptivos. — O fim de semana lhe fez bem!
Uma noite e uma manhã fazendo amor com a mulher de quem se
gosta tinha essa capacidade. De súbito, sentiu uma urgente necessidade de
beijá-la, sentir-lhe o sabor, a textura, ver a cor, castanho-claro daqueles olhos.
Ao mesmo tempo uma onda de desespero invadiu-o. Ele a perderia
tinha certeza. E pensar num futuro sem ela…
— Bran?
Ele voltou-se surpreso para o advogado.
— Perdoe John. Por momentos minha mente ficou longe daqui.
John arqueou as sobrancelhas, surpreso. Com cautela, perguntou:
— Seu encontro com a Sra. Nichols… Como foi?
Quente e apaixonada. Delicada e amorosa. David precisou fazer um
esforço de concentração para não se trair.
— Não conseguimos chegar a um acordo — acabou por dizer, evitando
olhar o amigo.
— Posso entender que a Sra. Nichols não foi receptiva?
David fechou os olhos, lembrando-se de como ela era receptiva, como
se abrira sob seus toques… Sacudiu a cabeça, tanto para afastar a imagem
dela, quanto para descobrir uma resposta a dar para John.
— Enquanto eu estava fora aconteceu alguma coisa?
John o olhava, inquisidor:
— Por que não me conta?
Era claro que podia confiar em John. De qualquer forma, ele terminaria
por descobrir. Mas disse, finalmente, em voz firme:
— Não insista, por favor.
John ainda o olhou por um longo momento, mas terminou por pegar
sua maleta, abri-la e tirar um volume de documento. Quando voltou a falar
sua voz era a de um profissional:
— Temos outro atraso no Centro Cívico. O eletricista-chefe achou a
encomenda do material fora das especificações, e atrasaremos mais uma
- 79 -

semana. Talvez dez dias.
David sentiu as agruras voltando. Se continuassem assim, ele seria
processado era por atraso no prazo de entrega do Centro. Tinha mais meia
dúzia de projetos, caminhando juntos, e a soma deles não chegava às dores de
cabeça que o Centro lhe dava.
O resto da manhã foi um pequeno inferno. Parecia que todo o mundo
em Indianápolis precisava dele ao mesmo tempo. Quando encontrou tempo
de telefonar para Holly, já estava sentindo-se em pânico. A única coisa em que
conseguia se concentrar era na necessidade de falar com ela, antes da reunião
dos condôminos. Tinha de explicar-lhe tudo e tinha de explicar-lhe logo.
O incômodo indefinido que o telefonema de David lhe provocara
perdurou muito tempo após ter desligado. Precisou de um esforço sobrehumano para se concentrar na Sra. Armistead. Algo muito importante, sobre
o que nada sabia, estava no ar e á deixava nervosa.
— Eu li em algum lugar que D. W. Branson comprou este prédio,
Holly. Estou certa?
Holly forçou um sorriso.
— Já faz alguns meses…
— Que pessoa formidável ele é! — disse a velha senhora em tom de
adoração.
A jovem a encarou, surpresa. Existia algo de angelical, nessa senhora,
que encobria uma resistência interna de aço. Há dez anos, ela começara a
cozinhar para amigos: seu negócio crescera de uma cozinha domiciliar para
um dos melhores e mais procurados serviços de toda a Indianápolis. Agora,
com mais de sessenta anos, ela possuía uma energia que faltava a muita
mulher com a metade dessa idade, mas "formidável" era uma palavra que ela
não aplicaria a D. W. Branson.
— Bran construiu nossa casa. E foi a primeira pessoa a insistir que eu
conseguiria fazer fortuna com minha comida.
"Bran?" Parecia nome de alimento matinal…
— Conhece-o há quanto tempo?
— Desde que ele comprou um estábulo e o transformou na linda casa
onde vive até hoje. Fiquei tão feliz quando aquele garoto começou a ter
sucesso! — Seus olhos brilhavam de admiração. — Ninguém merece mais
isso do que ele! Incrível como tomou conta de toda a família, sozinho! Eu
limpava a casa deles, uma vez por semana, quando os irmãos eram pequenos.
- 80 -

É maravilhoso ver como todos se saíram bem!
Holly mal escutava, fazendo cálculos e ouvindo só pela metade. Nem
sabia se Branson era casado ou não.
— Bem, Holly — disse a velha senhora, levantando-se —, você está
ocupada, e eu tenho outro encontro.
— Eu telefonarei a semana que vem — disse Holly, acompanhando-a
até a porta. — E obrigada pelas informações.
A Sra. Armistead parou e voltou-se:
— Querida, eu sei que algo a está incomodando. Não se preocupe
desse jeito ou ficará cheia de rugas! Agora se cuide e pense que, não importa
o que seja, vai se resolver bem!
Holly fechou a porta, recostou-se nela e se perguntou o que acharia a
Sra. Armistead se soubesse qual era o problema. Mal sabia ela que, graças à
competência exagerada da secretária, mais dois clientes teriam de ser
atendidos num tempo escasso. Claro que a confusão deixou-lhe pouco tempo
para pensar em David, mas ficou se perguntando se o resto da semana seria
também assim.
Faltando poucos minutos para a uma, Susan enfiou a cabeça na porta e
avisou que sairia para comprar alguns sanduíches para ambas. Logo após
Holly passou para a sala da secretária, examinando o calendário: a amiga
reservara-lhe a entrevista com os condôminos até as três e meia.
Nisso a porta de entrada se abriu e entrou um jovem, de calça jeans,
jaqueta preta de couro e capacete de motociclista sob o braço. A basta
cabeleira negra chegava até o colarinho, numa cascata encaracolada,
juntando-se à barba também negra. Deveria ter uns vinte e poucos anos.
De início Holly pensou que seria mais um engano da secretária
temporária, mas, olhando bem, reconheceu algo naquele rosto. O fato de não
sentir medo dele talvez se devesse aos traços familiares e de ser um
motoqueiro; afinal, passara sua vida inteira junto a motos e motoqueiros!
— Olá! Estou procurando D. W. Branson e só encontrei você. Sabe
onde posso encontrá-lo?
— Não, não sei… — E ela ficou a encará-lo.
Por que esse rapaz estava pensando que ela podia saber do paradeiro
daquele desconhecido?
Ele deu um sorriso atraente e mais um passo para dentro do escritório:
— Desculpe incomodá-la, mas posso telefonar? Acabei de chegar à
- 81 -

cidade e me disseram que eu encontraria meu irmão aqui. Parece que tem
uma reunião neste prédio. Vou telefonar para a secretária e perguntar a que
hora.
— A uma…
— Como disse?
— A reunião é a uma.
Ele olhou o relógio de parede, por detrás de Holly:
— Então está na hora! — Fez um gesto em direção ao telefone.
— Posso?
Conforme digitou um número, colocou o fone no ombro e endereçou
outro sorriso cativante para ela. Seus olhos eram verdes, de um verde
profundo como as folhas numa floresta em pleno verão. Holly sentiu uma
desagradável sensação.
— Olá, Fran! É Nick quem fala!
Ela gelou. Até o sangue parecia ter se imobilizado em suas veias.
— Estou aqui no tal escritório, Fran, mas não encontrei o David. Sabe
dele?

Capítulo 9

Holly caiu sentada na poltrona de Susan e ali ficou, muito pálida,
olhando o jovem.
— Verdade? — disse Nick, ao telefone, olhando Holly e enrugando a
testa. — Tudo bem, eu o esperarei aqui. Até logo! — Desligou e voltou-se para
ela. — Tudo bem? Você ficou tão pálida…
Holly o encarou, inspirando profundamente antes de tentar falar.
— Eu… Estou bem… Estava apenas… Apenas pensando em alguém.
— Obrigado pelo telefonema… — Continuou a olhá-la entre curioso e
perturbado.
— De nada.
— Bem, acho que vou esperar meu irmão lá fora. Talvez a gente se veja
- 82 -

depois.
— Talvez não — murmurou Holly, conforme ele saía fechando a porta
atrás de si.
Tinha de ser um pesadelo. Talvez ela tivesse dormido sobre sua
escrivaninha e acordaria no momento seguinte, descobrindo que era mesmo
um mau sonho.
David Winslow… D. W. Branson?, ela sacudiu a cabeça, não querendo
crer. Devia ser uma coincidência!
Tudo bem, Holly: tanto David Winslow, quanto D. W. Branson têm um
irmão motociclista, de cabelos negros e olhos verdes! E, agora, os porquinhos
criariam asas e começariam a voar, pensou, com um gelo no peito.
Tinha de presenciar a prova com seus próprios olhos. Levantou-se, foi
até a porta do corredor, abriu os olhos. Ambos estavam na entrada do prédio,
a não mais que seis metros de distância. Dois homens tão parecidos e tão
diferentes. Um, alto e esguio, num terno preto e elegante, os cabelos negros
recentemente cortados: o outro, a encará-lo, também esguio mas não tão alto,
de jeans e jaqueta de couro, os cabelos longos e rebeldes.
Irmãos!
O mais alto, que deveria ser D. W. Branson virou-se casualmente para
ela, os olhos se abrindo em choque quando a perceberam, no corredor. David,
seu David, encarou-a com olhos que não escondiam a dor, o pesar… E o quê?
Um pedido de perdão?
Holly recuou e fechou a porta do escritório. Não podia ser verdade…
Como num transe, caminhou até sua sala e parou na janela. Não sabia quanto
tempo ficara ali: horas? Minutos? E só tomou tento quando Susan a chamou.
— Holly? Que houve? A reunião já acabou? São apenas duas horas,
ainda.
Holly não se virou e continuou a olhar, sem ver, pela janela.
— Eu não fui.
— Que houve? Branson cancelou de novo?
Ao choque se sobrepusera a descrença, depois, a humilhação e, por
fim, a raiva. Nem mesmo Rick a havia traído dessa maneira, pensou,
arrasada.
— Aquele desgraçado! Aquele maldito, miserável! Canalha! — A voz
de Holly tremia de ódio. — Eu poderia estrangulá-lo!
— Hum… Holly — fez Susan, em voz baixa, discreta.
- 83 -

— Sim, se eu tivesse o Sr. D. W. Branson em minha frente, eu o
estrangularia com estas mãos! Ele vai se arrepender de ter me feito de tonta!
— Holly! — Havia um tom de admoestação na voz de Susan.
— Tudo bem, Susan. Acho que posso cuidar de tudo…
A voz de David fez com que Holly se voltasse num repelão, sem fala.
Susan saía pela porta enquanto ele encarava Holly, as mãos nos bolsos
do dispendioso terno, um sorriso nos lábios que não encontrava eco nos
olhos. Tudo o que ela conseguia fazer era fitar as feições implacáveis daquele
homem que só queria humilhá-la. E isso pareceu evidente a ela quando David
falou.
— Não era bem estrangular o que você queria fazer comigo hoje de
manhã…
Ele mantinha os olhos baixos, para esconder dela a tristeza e o
desânimo que sentia. Achava que a situação estava perdida.
— Como você se atreve? — E uma vermelhidão invadiu o rosto de
Holly. — Como se atreve a falar isso depois do que me fez?
David sentia-se cruzando um campo minado. Tudo o que conseguia
fazer era manter um meio sorriso, o olhar direto, escondendo o desalento que
o invadira, pois, afinal, ele sabia desde o início que teria de enfrentar aquela
situação. Estivera numa rota de colisão com ela desde o início e teria de fazer
qualquer coisa, tudo, para tirar aquele olhar de desilusão e traição do rosto
adorado.
— O que você fez? — murmurou ela, ao mesmo tempo procurando
algo pesado, letal, para atirar nele. — Então, essa é a sua idéia de uma boa
piada, de uma brincadeira? Teve a desfaçatez de me avisar contra pervertidos,
quando você mesmo não passa de um terrível pervertido? Foi por isso que
respondeu a meu anúncio, naquela sexta-feira?
— Eu não respondi ao anúncio, Holly.
Holly cerrou os punhos, examinando aquele rosto querido, odiado,
estranho, sem entender.
— O que disse?
— Quando entrei aqui, não foi em resposta a qualquer anúncio. — Sua
voz era calma, controlada.
— Você havia cancelado o encontro! Por que teria vindo?
Observou a massa de cabelos escuros como ébano, tão arreliados e
selvagens, em Valentine, e agora tão bem cuidados. O que um dispendioso
- 84 -

barbeiro podia fazer por um cabelo! Pensou, absurdamente.
David afastou-se da porta, aproximando-se dela, um brilho nos olhos:
— Eu não cancelei nada, Holly. Vim contar por que decidi derrubar
este prédio, para me desculpar por não ter respondido as suas cartas…
— E para me fazer desistir de um processo! — cortou ela,
amargamente. — E acha que por ter me levado para cama eu mudaria de
idéia?
Os dentes de David se apertaram e falou com dificuldade:
— Eu não vim pensando em levá-la para cama! Tudo o que desejava
era consertar as coisas…
— Puxa, que conserto você fez, hem? — acusou ela. — Então, por que
não disse quem era?
— Se você está lembrada, não me deu uma única chance! E me deixou
numa situação embaraçosa quando me chamou David! Ninguém, exceto
meus familiares, me chama David… E, antes que percebesse, eu era a outra
metade de um contrato diferente e interessante.
— Então, onde foi parar o David que deveria ter vindo? — Ela o
encarou como se ele pudesse ser responsabilizado pela ausência de um
desconhecido.
— Não tenho a mais vaga idéia! Em cinco minutos, dentro deste
escritório, eu fiquei feliz que ele não tivesse comparecido!
— E então D. W. Branson divertiu-se, não foi? Um homem acostumado
a refinadas mulheres, tendo de agüentar uma… Uma maluquinha. Boa a
piada, Sr. D. W. Branson? E quase vomitou por ter de comer num
McDonald’s? Ou freqüentar uma casa de jogos eletrônicos? E que tal a
encantadora família de Valentine, Nebraska? Dobrou-se em dois de tanto rir?
A humilhação enrugou marcadamente o rosto dela. Isso não podia
estar acontecendo! Devia ser o tal pesadelo! Ela na verdade merecia o
primeiro prêmio de "A Tonta do Ano"!
— Holly…
David deu outro passo em sua direção: tinha de fazê-la entender que
jamais desejara feri-la.
Ela deu um passo atrás:
— Não me toque Sr. D. W. Branson! — avisou-o, ameaçadoramente. —
Foi muito divertido, mas farei o possível para esquecer este fim de semana. E
não se engane: essas pequenas comediazinhas desaparecem tão rápido
- 85 -

quanto piadinhas bobas. Estou certa de que tem coisas mais importantes para
ser lembradas…
Os olhos de David brilharam num fogo de esmeraldas:
— Inferno, Holly, pare com isso! — E, cobrindo a distância que os
separava em duas largas passadas, pegou-a pelos ombros: — Eu disse que
não queria apenas uma noite com você. E era verdade! Não vou deixá-la sair
da minha vida assim tão facilmente.
O pânico dominou o corpo de Holly quando ele a tocou, com as mãos
de que ela se lembrava tão bem… Apoiou os braços contra o peito dele, para
afastá-lo, mas as lembranças de sua pele acariciada por aqueles dedos
inundaram-a. O dispendioso terno, a fina camisa, a elegante gravata não eram
barreiras a encobrir a estrutura que fora tão amada. Holly lutou para manter a
cabeça no lugar.
— Não compreende Sr. D. W. Branson? Foi uma fantasia, conto de
fadas, um fim de semana que foi mentira do início ao fim!
— Não! — A voz de David rompeu-lhe o equilíbrio, enquanto seus
braços a envolveram, aproximando-a. — Você teria levado tudo à frente se eu
tivesse dito meu nome completo?
— Cl… Claro que não! — uivou Holly, desesperada.
— E, então, eu não teria conseguido me aproximar, você não
permitiria! Eu não teria tido uma única chance! — Sua voz baixou um tom: —
O fim de semana não foi farsa alguma Holly. Foi à coisa mais autêntica que
me aconteceu por anos a fio: apaixonei-me por você e isso é real, tão real
quanto o homem que a está abraçando agora! O homem por quem você
também se apaixonou!
Ela inspirou fundo e retrucou rápida:
— Eu me apaixonei por David Winslow, que nem sequer existe!
— Oh, existe, sim, e vou prová-lo! — murmurou David.
Apertou o corpo de Holly ainda mais firmemente contra o seu e tomou
os lábios dela num beijo, ao mesmo tempo desesperado e apaixonado.
Ela ficou rígida, recusando-se a se entregar. Os braços que a envolviam
eram de D. W. Branson; reuniu todo seu poderio mental contra aquele
poderio muscular. Mas foi a boca de David Winslow que, saboreando a sua
em ânsia incontida, tirou-lhe a respiração. Sua respiração começou a
desaparecer enquanto o mundo balançava a seus pés. Com gentileza, ele a
induziu a abrir os lábios, a permitir que introduzisse sua língua, conforme o
- 86 -

beijo se aprofundava. Com um gemido suave, ela se derreteu contra a firmeza
muscular de seu corpo, o mesmo corpo que, ao amanhecer, explorara com
mãos ansiosas e cheias de carinho.
Por fim, sem nenhuma resistência mais, ela deixou-se ficar entre os
braços quentes. David levantou-lhe a cabeça e falou de encontro a seus lábios:
— David Winslow e D. W. Branson são á mesma pessoa. A mesma
pessoa que a ama!
O cérebro dela lutou com aquela afirmação. Tudo que ouvira até agora
sobre D. W. Branson era negativo. Ele estava querendo enganá-la! D. W.
Branson e David Winslow eram tão parecidos quanto à noite e o dia… Estava
tudo errado.
— Não! — a desmentiu, enérgica, resistindo ao magnetismo de seus
olhos. — Largue-me! Por favor…
Para sua surpresa e alívio, David obedeceu, murmurando algo
ininteligível.
— Agora, por favor, saia! — pediu ela.
Ele fitou-a calado por instantes. Então falou:
— Você desmente o que houve entre nós, Holly?
Afastando-se e sem olhá-lo mais, ela respondeu:
— Não houve nada a ser desmentido, Sr. Branson. O senhor é muito
eficiente em destruir as pessoas que se colocam em seu caminho. Não vou
deixá-lo me destruir. — Ao arriscar um olhar, percebeu que conseguira atingilo. — Sua reputação o precedeu… Acha que posso esquecer tudo o que ouvi a
seu respeito? — O rosto dele estava cinzento e a dor envolveu o coração de
Holly, mas ela prosseguiu teimosa: — Arquive sua experiência em Omaha.
Estou certa de que será mais um número em sua coleção particular…
— Você acredita no esgoto que está jogando em cima de mim, Holly?
— indagou ele, ríspido, e, antes que pudesse pensar, ele a tomara de novo nos
braços. — Acredita que me conhece, Holly? De certa forma, me conhece
melhor que todo o resto do mundo! Conhece o homem por trás da fama, fama
que não construí e da qual nunca me vali. Tem todo o direito de conhecer os
fatos e, então, fazer seu julgamento. Mas se acha que vou ficar esperando até
que resolva fazê-lo, infelizmente está enganada… — Ele inclinou a cabeça e
deu-lhe um rápido beijo. — Mas quero fazer tudo que estiver á meu alcance
para demovê-la do caminho errado. Não vou perdê-la, Holly! Me recuso!
Ela conseguiu se torcer, escapar ao abraço e gritou:
- 87 -

— Agora saia. Saia de meu escritório e de minha vida, Sr. Branson!
Tirou o anel de safira do dedo e atirou-o contra David; em seguida
virou-lhe as costas, desejando que ele desaparecesse.
No momento em que ouviu a porta fechar-se, cerrou os olhos, lutando
para se controlar. Não permitiria que ele a afetasse. Lentamente dirigiu-se ao
sofá e atirou-se sobre as macias almofadas. Sentia como se tivesse sido
atropelada por um trem.
— Holly, você está bem?
Susan sentou-se ao lado da amiga, que estava pálida como cera.
— Não… Eu estou bem… Acho que vou para casa. Cancele tudo, por
favor.
E levantou-se em pernas incertas para pegar a bolsa. Sentia-se
nadando debaixo da água. Voltou-se para dizer algo à amiga, espantada ao
sentir que seus olhos estavam cheios de lágrimas. Não. Não iria chorar por
causa de D. W. Branson. Por David Winslow, sim!
Holly lutou contra a dor que aumentava em seu peito. Tinha de chegar,
em casa.
— Quer que a leve? — perguntou Susan.
Ela sacudiu a cabeça, engolindo as lágrimas.
— Vou ficar ótima! — mentiu, perguntando-se se ficaria boa de novo.
— Desculpe Susan… Tenho de ficar só por uns tempos.
Conforme o entardecer se prolongou num cair de noite, a fúria no
coração de Holly transformou-se em dúvida e conclusão. Enrolada num canto
do sofá ficou ouvindo uma trovoada distante, enquanto se perguntava se
aquela confusão jamais desapareceria de seu coração e de sua mente.
D. W. Branson emergia continuamente, como o epíteto do poderio e do
autocontrole, com cabelos muito bem cortados e penteados, olhos verdes
gelados, com o fabuloso corpo elegante, bem vestido.
Outra imagem misturava-se à primeira: um corpo menos rígido e, no
entanto, com perfeito autocontrole, cabelo negro, selvagemente despenteados,
rebrilhando ao sol do Nebraska, olhos verdes, moleques, que riam em
sensualidade. E o corpo musculoso sobressaindo pela camiseta e pela calça
jeans, de forma excitante. Ou despido e respondendo aos seus toques com
uma paixão enlouquecedora. Um homem que era terno, gentil, engraçado e
amoroso. Um homem como David.
Qual era a imagem falsa, qual a verdadeira?
- 88 -

No entanto, ao se lembrar da noite em que ele aparecera no seu
escritório, tinha de concordar com as palavras dele. Desde o instante em que
ela levantara os olhos, ainda ao telefone, ele não tivera uma única chance. E
Susan tinha feito montanhas de besteiras. Talvez tivesse cancelado o David
errado…
E ela mal lhe dera a oportunidade de falar, quando ele pedira, porque
tivera medo de que ele desistisse. E quando ele tentara interrompê-la, ela não
permitira!
Enrubesceu quando lembrou das coisas que havia dito e feito com ele.
Havia simplesmente levado o poderoso D. W. Branson para comer no
McDonald’s. Não era à toa que ele dissera que fazia anos que comera um
hambúrguer. Deveria estar acostumado a filé mignon e lagosta grelhada.
Havia brincado com ele por não conhecer o suco Julius, quando o
homem deveria estar acostumado a vinhos importados. E, para finalizar a
noite, levara-o a jogos eletrônicos, quando ele deveria ter no bolso entradas
para um concerto ou a melhor peça de teatro…
No entanto, mesmo agora, só de lembrar, ela se enchia de alegria com
o grito de glória que ele lançara ao vencê-la no Guerra nas Estrelas. E os
lábios que, pela primeira vez, haviam encontrados os seus num beijo rápido.
Os mesmos lábios que haviam explorado todo seu corpo num hotel de
Omaha…
Por quê, então, queria enganá-la? Mas como acreditar que ele estivesse
atraído por alguém como ela? Holly tinha auto-estima, porém tinha bom
senso e conhecia suas limitações: era atraente, cuidava de sua aparência, no
entanto jamais poderia ser apontada como padrão de beleza, jamais pararia o
tráfego, a menos que cruzasse uma avenida de olhos fechados na hora do
rush.
O som de um trovão, mais próximo, acordou-a dos sonhos e á fez
olhar ao redor, na escuridão súbita. O trovão… Não, desta vez era alguém
batendo à porta.
Levantou-se e foi até a janela, levantando a cortina para tentar ver na
escuridão lá de fora. Um súbito relâmpago iluminou uma pessoa no terraço:
David!
Precisou de toda força de vontade para não correr até a porta e deixálo entrar.
David girava a pedra de gelo, no copo de uísque, desejando encher a
- 89 -

cara. O tempo casava-se com seu humor de maneira ímpar. Trovões e
relâmpagos, o vento uivando fora da janela, tudo se repetia dentro dele.
As lembranças de Holly o perseguiam como fantasmas, ameaçando
endoidá-lo. Aqueles olhos castanho-claros, quentes de paixão, misturados
com visões do sofrimento que ele lhe infligira.
Havia parado, pouco antes, em frente de sua casa fechada, sabendo
que ela estava lá dentro. Mas não importara o quanto batesse, ela não abrira a
porta.
Recostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos, tentando imaginar
um plano que funcionasse para trazê-la de volta. Esfregou os olhos para
afastar a imagem dela, sem sucesso. Lembrou-se em detalhes vívidos de seu
corpo nu, em Omaha, do sabor doce de seus seios, de sua quentura aveludada
a envolvê-lo.
Seu corpo se enrijeceu em resposta aos pensamentos eróticos e ele
levantou abruptamente, amaldiçoando. Atirou o copo na lareira, com ódio. O
ruído de vidro se espatifando misturou-se ao som dos trovões.
— David!
Ele voltou-se, sobressaltado:
— Nick! Não sabia que você estava aqui!
— Você está bem?
Ele enfiou a mão pelos cabelos, evitando olhar Nick.
— Sim… Estou bem. Estou ótimo! — respondeu, por fim.
— Esse negócio de espatifar copos… É algum novo ritual religioso que
adotou?
David não lhe respondeu, rebatendo com outra pergunta.
— Já se ajeitou no quarto?
Nick sacudiu a cabeça afirmativamente.
— Foi fácil. Aí deitei um pouco para descansar e devo ter dormido. —
Foi até a geladeira do bar, tirou um refrigerante e bebeu em longos goles.
Limpou a boca com as costas da mão: — David, eu não vou voltar para a
faculdade!
Oh, eu não mereço isto! Pensou David. Encaminhou-se ao bar e
preparou outro copo de uísque perguntando-se se este também acabaria na
lareira. Ficou encostado no balcão, os olhos com uma mistura de
desapontamento e raiva. Tentara ser pai meio-período para aquele garotinho
de seis anos, mas um amigo tempo integral. Por que não dava certo?
- 90 -

— E por que não? — conseguiu perguntar, controlando o humor.
Ele teria dado qualquer coisa, com a idade de Nick, para ter
freqüentado uma faculdade. Em vez disso, passara todos aqueles anos
construindo casas e reconstruindo a família.
— David, o sonho de uma faculdade foi sempre seu. Eu não consigo
me adaptar!
David ia protestar, mas calou-se a tempo. Nick estava com a razão.
Claro que ele mesmo acompanhava diversos cursos, como ouvinte; e
se tivesse de escolher de novo, repetiria o que havia feito.
— Tudo bem, Nick, nisso eu concordo com você. Mas hoje em dia é
preciso um diploma para se lutar nesta selva…
— Olhe, então, para você mesmo, mano!
— O que pretende fazer com o resto de sua vida? Trabalhar aqui e ali,
só para conseguir dinheiro e poder rodar com essa maldita moto? É tudo o
que deseja da vida?
— Não, não é — respondeu Nick, sério. — Sei que fiz isto nos últimos
anos e que não mostrei muito senso de responsabilidade. Quero mudar, e é
por isso que estou aqui.
— E como vou saber que não vai abandonar o emprego de novo? —
disse David, sem conseguir mais controlar a raiva.
— David, me desculpe.
Ele bateu o copo de uísque no balcão do barzinho.
— Desculpe de quê, Nick? De ter abandonado o primeiro emprego?
Ou por nunca ter encontrado o que queria da vida?
Nick enrijeceu os músculos dos maxilares:
— Você não está sendo legal, David! Sei quanto fez por todos nós, não
preciso ser lembrado. Quero viver a minha vida e não a sua! A verdade é que
você sempre desejou que eu vivesse aquilo que não conseguiu. Mas sempre
existiu algo que queria fazer, e você nunca me perguntou o que era.
David inspirou fundo, tomou um gole do uísque e admitiu que Nick
poderia estar certo.
— Está bem. Então, eu pergunto: o que é?
— Quero trabalhar para você.
David foi invadido por tantas emoções conflitantes que chegou a
perder a voz.
— Por… Por que nunca me disse?
- 91 -

— Nunca me foi dado como opção! Escute David: as únicas coisas que
você sabe são cuidar de crianças e trabalhar como um doido. Não acha que
está na hora de cuidar de si mesmo? Afinal, já está ficando velho!
David colocou mais uísque no copo; desse jeito ia amargar uma ressaca
no dia seguinte. Olhou, fixo, o irmão mais jovem:
— Já pensou num asilo para me enfiar? Afinal, se já estou ficando
senil…
— Não, mas abandonar a bebida faz bem aos mais velhos…
Ele olhou para o copo e depois para os olhos de Nick e, lentamente,
esvaziou o uísque na pia, dizendo:
— Ok, chefe. Qual a próxima ordem?
Nick aproximou-se, fitando-o cheio de esperança:
— Me ensine o que sabe, David, então divida o peso comigo!
— E o que mais? Que tal carregar tijolos? E morar num barracão, na
obra?
Os olhos de Nick brilharam.
— Então, você topa?
— Com condições, Nick.
Ele ficou atento:
— Quais?
— Você começará por baixo. Falarei com o Jake, amanhã. Ele é o
melhor responsável que já tive nas obras: poderá ensinar-lhe mais coisas que
dez outros bons homens. E, então, você terá de pegar alguns cursos como
ouvinte, na universidade… .
— Oh, David!
— Há coisas que nem eu nem Jake poderemos ensinar… Se você está
falando sério em me ajudar, precisará de algumas disciplinas, como
engenharia e arquitetura. Poderá freqüentar o noturno ou ir duas manhãs por
semana e trabalhar o resto do tempo.
Ficou olhando as expressões do irmão, lembrando-se do "baixinho"
que fazia questão de acompanhá-lo nas construções. Por fim ele concordou:
— Está bem. Farei o que quer.
— Ótimo! Vou marcar hora para você no meu barbeiro.
— Tudo bem, nisso você se antecipou. E, David… — seus olhos
ficaram muito sérios — desculpe pelo acontecido de hoje à tarde…
— Não foi culpa sua. — Os olhos de David se ensombrearam. — O
- 92 -

fiasco foi meu…
— Foi grave, assim?
— Foi.
— Sabe, coincidência enorme você comprar aquele prédio…
— Como assim?
— Lembra-se de Patty Bennet, que eu acompanhei na formatura do
colégio?
David aquiesceu, lembrando-se da estonteante loira, uma dentre as
beldades que corriam atrás de Nick.
— Foi o avô dela que o construiu. Ele me contou que guardava, pelo
menos até aquela época, todas as plantas originais do projeto.
David sentou-se para não cair.
— Você está brincando!
— Nada disso… Ele deveria estar com uns oitenta anos e lá vai
pedrada, mas o cérebro dele estava ótimo!
Uma idéia tomou forma na cabeça de David e ele disse, animado:
— Nick, descubra, logo amanhã cedo, se ele ainda vive. Se conseguir
as plantas, pago um jantar para os dois, onde escolherem!
— Feito! Vou procurar a Patty agora mesmo!
— Nick! — O rapaz estava ao pé da escada, parou e voltou-se. —
Conforme as coisas andarem, num par de anos vá pensando numa sociedade
comigo!
Mais tarde, na cama, David continuava de olhos abertos, pensando nas
possibilidades que entrevira. Se ele pudesse reconstruir o prédio tal como
fora originalmente, Holly não poderia continuar tão fanática em suas
posições. Mal podia esperar pelo seguimento dos fatos. Mas o importante,
mesmo, era trazer aquela garota teimosa de volta aos seus braços, onde era o
lugar dela…

Capítulo 10

- 93 -

Estava tentando enlouquecê-la! Pensou Holly, ao receber mais uma
caixa de flores que, ela sabia, conteria uma dúzia de rosas. Tinha recebido
tantas que poderia abrir uma floricultura. Numa semana, David Winslow
Branson já havia feito de tudo.
Naquele dia eram as rosas. No anterior havia sido telegrama cantado.
No outro dia…
E no domingo, exatamente uma semana depois de Omaha, ela voltava
da igreja quando percebera uma pequena multidão em seu jardim, olhando
algo. Ao se aproximar, enxergara a enorme faixa onde se lia: DAVID AMA
HOLLY. Envergonhada, voltara a acelerar o carro e só chegara em casa ao
anoitecer.
Agora essas flores… Seu escritório cheirava mais do que um
casamento. Eram rosas de todas as cores a encher as duas salas. E a cada
entrega que encobria mesas, escrivaninhas, arquivos e o próprio chão, vinha a
mensagem: "Eu te amo". Ela se perguntava se aquilo teria um fim. Era
impossível trabalhar com tantas interrupções. Por outro lado… Talvez o Sr.
David Winslow Branson realmente a amasse…
Não, não adiantaria nada pensar dessa forma… Por fim, dissera a
Susan que não aceitasse mais encomendas. Nisso, ouviu uma batida na porta:
a secretária saíra para o almoço, e ela mesma abriu, num repelão, pronta a se
negar a receber mais rosas.
Para seu espanto, estava diante de um sorriso enorme do próprio
Ronald McDonald.
Não acredito nos meus olhos!, Pensou ela, cerrando os lábios com força
para não explodir na risada. O símbolo vivo do McDonald’s limitou-se a,
silenciosamente, estender-lhe duas sacolas com o seu próprio logotipo, virarse e ir embora.
Holly fechou a porta e encostou-se nela. Não precisava abrir as sacolas
para ver o que continham. Engolindo a risada, não conseguiu fazer o mesmo
com as lágrimas, que, desta vez, escorreram rosto abaixo. E, então, todo seu
corpo foi sacudido pelos soluços.
Daí para frente, não ouviu ou presenciou mais nada da parte de David.
Na sexta à noite ela se dirigiu para casa, irritada com o fim de semana vazio
que a esperava. Era impossível esquecê-lo, mesmo trabalhando doze horas
por dia. Durante a noite o sono era agitado, fazendo-a revolver-se de um lado
a outro, lembrando-se do calor de sua paixão e de como tremia com um
- 94 -

simples toque dele.
Holly entrou com o carro no abrigo e desligou o motor. Encostou a
testa no volante e suspirou. Tinha umas sessenta horas de fim de semana pela
frente e não imaginava como preencher sequer uma única. Enfim, talvez fosse
apenas uma fase, aquilo ia passar e…
Fase coisa nenhuma! Aquilo parecia mais uma sentença de pena
perpétua!
Quando subiu os degraus do terraço deparou com o culpado por seu
sofrimento. Engoliu seco, fez um esforço e conseguiu, por fim, dizer:
— Que está fazendo aqui?
Tentou olhá-lo com frieza. Precisava mandá-lo embora. Seria tão fácil
se não o desejasse. Procurou não notar as sombras de suas olheiras ou o fato
de que havia mais cabelos brancos nas têmporas. Os cabelos poderiam
embranquecer mais em apenas duas semanas?
David segurou na balaustrada para não tentar envolvê-la num abraço.
Ela havia emagrecido; não muito, porém sua estrutura óssea já estava
se denunciando.
— Vim buscá-la para jantar. É óbvio que você não tem comido os
sanduíches que tenho enviado.
— Jantar?
Holly o encarava como se fosse um homenzinho verde, recém descido
de um disco voador. Deus, talvez algumas horas com ele pudessem curá-la.
Ou, ao menos, enlouquecê-la de vez. E, então, sem nenhum comando,
sua boca disse claramente:
— Está bem. Me apronto num minuto.
David ficou tão espantado, que simplesmente seguiu-a, casa adentra,
sem palavra. Tinha sido fácil demais…
O restaurante que ele escolhera era uma nova instalação, discretamente
escondida. Havia penumbra, toalhas de mesa vermelhas, bem ao estilo
italiano, e velas nas mesas colocadas em garrafas de vinho Chianti. O
perfume dos queijos, alho e azeite estrangeiro deram um nó no estômago de
Holly.
O garçom levou-os a uma mesa reservada, ofereceu-lhes vinho e o
cardápio. Quando ela consultou os preços, quase desmaiou.
— Não tenho tido muito apetite, ultimamente — comentou depois que
o garçom saiu. — Não sei o que pedir!
- 95 -

— Quer que eu peça para ambos?
Ela concordou assim não se sentiria culpada. Encarou o homem, do
outro lado da mesa, e sentiu vontade de rir. Por que se preocupava com a
conta, se ele poderia calmamente comprar o restaurante, se quisesse?
David pediu uma salada mista e macarrão com molho branco à
Bergamasque. O vinho era excelente e a conversa foi pouca até a chegada da
comida. Só de sentir o cheiro dela seu apetite voltou a toda. Quando colocou
o primeiro bocado na boca, chegou à conclusão de que era o melhor
condimento que havia experimentado nos últimos anos.
— Pensei que não estivesse com apetite! — comentou ao ver Holly
comer com entusiasmo.
Ela levantou os olhos para David e viu-o rindo. Seu coração começou a
saltar dentro do peito de modo indecente.
— Você parece cansado! — comentou, disfarçando o que sentia.
— Não tenho dormido bem — respondeu ele, levantando os ombros.
Era verdade. Não dormia direito desde Omaha…
— Problemas? — insistiu ela, com ar inocente.
— Os de sempre… — respondeu David, com ar de indiferença.
O maior dos problemas chama-se "Holly", pensou.
— Como está Nick? — a indagou, a seguir.
Congratulou-se por ter conseguido falar de um tópico tão doloroso,
com tamanha naturalidade.
David bebeu um gole do encorpado vinho e ficou a examiná-la, toda
dourada à luz de vela, tão linda! Usava um vestido azul-turquesa que
realçava a coloração de sua pele e fazia com que seus olhos brilhassem como
estrelas. Ele desejava tanto beijá-la, abraçá-la com força e, depois…
Forçou-se a pensar na pergunta que ela havia feito e passou a contar
sobre o que Nick lhe pedira, deixando-o surpreso. Depois, perguntou:
— Recebeu as flores?
Holly pegou o copo e olhou David, por cima da borda;
— Está perguntando a respeito de uma entrega em particular ou a
respeito da dúzia de dúzias?
Ele pegou-lhe a mão livre, levou-a a boca e beijou-a.
— Acha que exagerei? — Sorriu, com suavidade.
Ela aquiesceu, esquecendo a irritação com a ininterrupta entrega de
flores e sentindo-se excitada com a respiração dele em seus dedos.
- 96 -

Continuaram conversando sobre tópicos dos últimos quinze dias, até
que o garçom limpou a mesa e colocou-lhes taças de sorvete à frente. Só então
Holly percebeu que estivera gostosamente conversando com o infame. D. W.
Branson! Olhando-o, tomou consciência de que, embora a deliciosa comida e
o maravilhoso vinho tivessem preenchido uma necessidade, havia um, outro
vazio, muito mais importante, a ser preenchido. Por fim ele pagou, levantouse e afastou a cadeira para que ela se levantasse.
Em dez minutos chegaram a um condomínio, e, enquanto David
buscava lugar para estacionar, ela se perguntou como ele poderia morar num
lugar daqueles, todos os apartamentos iguaiszinhos entre si, um "pombal de
gente rica"…
Talvez ela estivesse enganada e aquele fosse, realmente, um lugar de
escolha para um D. W. Branson!
Estacionou o carro junto de um dos blocos construídos com luxo e
subiram. Ao entrar no apartamento, ela não se conteve mais:
— Você mora aqui?
Estavam numa ampla sala elegantíssima, tudo em cinza-prata, azulreal e cromados.
— Ninguém mora aqui, Holly. Isto é apenas para diversão e reuniões
de negócios. Meu lar… é meu lar.
E, no instante seguinte, ela estava em seus braços, à boca em sua boca,
o corpo em seu corpo. Nem percebiam mais quem era quem.
O beijo pareceu durar uma eternidade. Quando David, por fim,
levantou à cabeça, ela ainda queria mais. Havia uma chama no fundo dos
olhos verdes e ela se perguntou se ele iria possuí-la ali mesmo, no tapete da
luxuosa sala. Em vez disso, pegou-a pela mão, fazendo-a subir uma escada
caracol, até o dormitório, no fim de um curto corredor. Ele fechou a porta
atrás de si, e ficaram imóveis, bebendo um ao outro, os olhos brilhando de
paixão.
— Eu preciso de você, Holly — murmurou ele, a voz rouca de desejo.
— Não sabe o inferno em que tenho vivido!
Ela levantou a mão e tocou-lhe os lábios com a ponta dos dedos.
— Psiu! — sibilou, sabendo muito bem qual era o inferno.
Com mãos trêmulas, começou a desabotoar-lhe a camisa, sentindo-lhe
o calor da pele através do tecido. Conforme a camisa foi se abrindo,
lentamente sentiu a tensão crescer no corpo de David. Por fim, escorregando
- 97 -

as mãos pelo peito até os ombros, fez com que a camisa caísse ao chão. Então
buscou o cinto e desabotoou-o. Ele começou a ajudá-la, mas ela o
interrompeu:
— Não! Eu quero fazer isso!
Ficou na ponta dos pés para beijá-lo na boca e recuou quando ele quis
prolongar o contato.
Holly lembrou-se bem de suas palavras naquele hotel, em Omaha:
palavras sobre tocar, acariciar e apreciar o sabor; e agora, à medida que o
despia com deliberada lentidão, ia seguindo suas instruções, deixando uma
trilha de beijos em seu peito, em sua cintura, sobre a superfície plana e
musculosa do estômago, correndo ás mãos sobre os pêlos macios,
encaracolados. Por fim, ele ficou totalmente nu em frente a ela.
Holly imobilizou-se. Havia esquecido como a perfeição daquele corpo
era de tirar a respiração. Sentiu-se enraizada no lugar, incapaz de fazer outra
coisa senão acariciar aquela maravilha com os olhos. Nisso, percebeu um
olhar perigosamente selvagem nele e sentiu o próprio sangue se acelerar.
Ela se encantava ao perceber como conseguia motivá-lo a ficar naquele
estado: jamais fora desejada com tanta intensidade.
Os dedos de David se entrelaçaram aos dela, e ele soltou a respiração
por entre os dentes cerrados, quando, com a outra mão, ela puxou sua cabeça
para encontrar os lábios já entreabertos.
A dura evidência da excitação dele comprimiu-se contra ela: um
volume aquecido, tocando-lhe o baixo-ventre. Os lábios dele estavam
sequiosos e moviam-se sobre os dela com imperativo pedido, tornando-a
fraca.
Ele desejava amá-la lentamente, saboreando-a, mas não conseguia
controlar o clamor de seu corpo. Havia passado inúmeras noites longe dela,
desejando-a. Despi-la lentamente era demais para seus olhos sedentos da
beleza corpo. Os gemidos lentos e suaves, enquanto ele a tomava nos braços e
a levava até a cama, já bastavam para conduzi-lo ao clímax. Queria fazer as
coisas contidamente, mas só parou quando a havia penetrado até o fundo,
porém a ilusão durou apenas um segundo. Apenas até o momento em que ela
arqueou o corpo para recebê-lo ainda mais e então… Foi a loucura. Ondas de
um prazer alucinante repetiram-se, nem sabia quantas, levando-o, com Holly,
aos píncaros de um gozo dourado, ofuscante.
— Você dormiu, hem!
- 98 -

Ele abriu os olhos com lentidão. Pensou que estivesse acabado, morto.
E os olhos que encontrou a fitá-lo, brilhantes, convenceram-no de que
não apenas havia morrido, como também tinha ido para o paraíso! Holly
estava sentada na cama, a seu lado, com uma caneca de café quente nas mãos,
vestida apenas com uma de suas camisetas. Sentou-se, esfregando os olhos:
— Que horas são?
— Quase dez…
Isso queria dizer que ele dormira só uma hora.
— Por que as luzes estão acesas?
— As luzes estão apagadas. É o sol que está brilhando.
— Holly, pare de brincar!
Ela ajeitou-lhe os cabelos; era fantástico o que treze horas de sono
tinham feito com ele. E, coisa incrível, sentia que o estava querendo de novo,
que desejava amá-lo outra vez.
— Me acredite, David. São dez da manhã!
— Não pode ser, nunca dormi até tão tarde!
— Eu te esgotei, não foi? — Seus olhos brilhavam com o mesmo jeito
mole que os dele, em Valentine.
Ele sorriu, um sorriso lento e sensual:
— Em mais de um modo, sua feiticeira! Há quanto tempo está
acordada?
— Pouco…
Ela começou a sentir coisas, olhando o peito moreno, nu. A lembrança
da última noite e assaltou com força total. Voltou-se, colocou a caneca no
criado-mudo e inclinou-se sobre ele, sentindo de novo o desejo avolumar-se
em seu íntimo. Pegou-lhe os lábios entre os seus, como numa mordida macia,
e sentiu que os braços dele a envolviam, puxando-a sobre si. Agora, sim, era
possível para ele passear as mãos com luxúria, calma, naquele corpo suave e
sensual, apreciar o sabor da boca, perceber a chama do desejo nos olhos
dourados. Ele desceu os beijos pelo rosto, pelo pescoço dela, até sentir uma
artéria pulsátil junto ao ombro. Deixou a boca imobilizada ali,
vampirescamente, sentindo-a pulsar. E, então, desceu até o bico de um seio.
Holly inspirou, antecipando a sensação. Lentamente, ele brincou com
o bico antes de envolvê-lo com a boca. Ela segurou-lhe a cabeça, como a
obrigá-lo a prolongar aquela carícia, até que pensou morrer de prazer. Sentiuse descontrolada e passou as mãos, de um lado a outro, como em espasmos,
- 99 -

pelo corpo ardente, musculoso.
Ele se vingava, passeando os dedos por locais inesperados, locais que
ela jamais pensara serem erotizantes. Cada toque de David era sensual, cada
sabor era sensual, cada cheiro produzia descargas elétricas entre os dois.
Era uma tortura, uma peculiar tortura, fazendo-a gemer e implorar que
parasse com aquilo, quando desejava que ele jamais parasse. Pareceu uma
eternidade até que ele girou por sobre ela e possuiu-a, com intenso ardor.
— Estou te machucando? — perguntou ofegante.
— Não… — e ela continuou gemendo, oferecendo-se ainda mais.
— Holly!
— Mais, David! — gemeu ela, agarrando-o pelas nádegas e fazendo-o
penetrá-la ainda mais. — Por favor, David…
— Holly, como você é gostosa!
— David, como você é gostoso!
David começou a saboreá-la com movimentos lentos, até que se sentiu
próximo do êxtase. Juntos, atingiram o clímax do prazer.
Ele suspirou, satisfeito. Holly trouxera tanta alegria a sua vida que era
difícil imaginar como havia sido até então.
Parecia impossível que se sentisse sonolento de novo. Diabo, eu estou
ficando velho, pensou e adormeceu.
— Por quanto tempo uma pessoa agüenta, só vivendo de sexo?
— Não sei. Já fizeram algum estudo a respeito?
— Possivelmente…
— Há alguma coisa para comer nesta torre de marfim?
— Torre de marfim?
— Comida, David! Comida!
— Deve haver em algum lugar. Já olhou no freezer?
— Encontrei cubos de gelo.
— E não havia uma bandeja de Filé Aux Robespierre?
— Já comi!
— Holly, isso não é justo!
— Eu estava com fome, oras. Ei! Espere aí, o que está fazendo?
— Eu a estou punindo pela traição!
Ela gemeu incontroladamente!
— Oh… Oh… Quero ser, punida o resssto d… Da… vida!
— Está acordado!
- 100 -

— Não sei. Meus olhos estão abertos?
Holly levantou-se e olhou:
— Está me vendo?
— Não.
— Então, acho que estão fechados. — Cutucou-lhe as costelas.
— Dormir dezenove, em vinte e quatro horas, é sinal de decadência!
— Humm… Decadência é o que fizemos nas outras cinco horas!
Ele abriu os olhos:
— É hora de levantar?
— Você ainda consegue? — falou ela, espantada e maliciosa.
— Holly, essa frase foi muito sacana!
— Não seja grosso, Sr. David! Vai me alimentar ou terei de voltar para
minha casa?
Ela cruzou o quarto, sem roupa alguma e sem falsos pudores.
— Isso é uma ameaça, Nichols?
— É um aviso, Winslow!
Quando saiu do banheiro, quarenta e cinco minutos depois; bastou
seguir o aroma até a cozinha. Encontrou David lá, vestido apenas com um
roupão até os joelhos, em frente ao fogão. Abraçou-o pelas costas, indagando:
— Meu jantar está pronto?
— Você só pensa em uma coisa, Nichols!
— Em duas! — corrigiu ela.
Ele voltou-se com dois pratos prontos na mão:
— Eis a resposta a uma delas, minha senhora. Uma obra-prima da
culinária!
Colocou os pratos no balcão, junto ao qual ela se sentara. Puxou uma
banqueta para si mesmo e notou que os olhos dela fixavam-se no,
monograma DWB em seu roupão.
— Ainda não se acostumou, não é?
Mais do que uma pergunta, aquilo era uma afirmação, e ela admitiu:
— É verdade.
— Não posso modificar quem eu sou…
Os lábios de Holly transformaram-se numa linha fina e a voz soou
quebrada, quando pediu:
— Vamos falar de outra coisa?
— Em algum momento vamos ter de encarar os fatos, Holly! — o
- 101 -

lembrou, com certa amargura.
Ela baixou a cabeça.
— Eu sei… — respondeu, com o coração batendo descompassado. —
Mas não podemos aproveitar este momento? Ou será que é melhor eu voltar
para casa e esquecer o que acabou de acontecer?
— Já tentamos e não funcionou. Acha que seria diferente, agora?
Especialmente, agora, depois de repetirmos os momentos de amor ainda mais
maravilhosos, Holly… Acha que daria?
Boa pergunta, mas ela não conseguira responder.
— Holly, sei que vai ser difícil de acreditar: fazia mais de ano que eu
não estava com uma mulher, até aquela noite em Omaha. — David pôde
perceber que ela não acreditava. — Nenhuma me interessou até encontrá-la.
Era incrível como ela gostaria de acreditar nele, mas achava uma
história tão absurda!
— Por que… Logo eu? — perguntou, por fim.
Em vez de responder com palavras, ele segurou-lhe o rosto entre as
mãos, os polegares acariciando-a com ternura:
— Holly, por favor, fique comigo! — pediu, num sussurro.
Todo seu ser tremeu sob o impacto de tanta doçura e ela custou a
encontrar voz para falar.
— Está bem… — Formou-se uma sombra de sorriso em seus lábios. —
Eu detestaria jogar fora toda esta comida! — brincou, tentando dissipar a
emoção.
Para evitar as sensações que a engolfavam, pegou o garfo e, antes de
comer o primeiro bocado, perguntou:
— Onde estava toda esta comida?
— Você não procurou direito.
— Claro que procurei! Onde estava?
Ele sorriu:
— Nas Páginas Amarelas…
— Oh! Nisso não pensei…
O fogo na lareira transmitia-lhe tonalidades bronzeadas na pele. Holly
ergueu o rosto e encarou-o:
— Lareira acesa, nesta época do ano, é loucura!
— Não é caso de temperatura; é que você fica linda à luz das chamas!
— falou, passando o dedo pelo contorno do rosto de Holly.
- 102 -

O coração dela se comprimiu. Aceitara jantar com ele dizendo a si
mesma que assim se livraria daquela obsessão por David, que o esqueceria.
No entanto, constatava que o "remédio" terminara por agravar o mal.
Descobrira que o amava mais ainda.
— Às vezes fico pensando que minha vida está girando fora de eixo —
comentou ele — e a única coisa que faz sentido é você!
Ela tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios:
— David, uma vez eu perguntei o que aconteceu, quando seus pais
morreram, e você evitou responder. Agora, conte-me…
Ele hesitou. Voltando os olhos para as achas que terminavam de
queimar, respondeu:
— Você faz questão? Foi há tanto tempo!
— É importante para mim.
Depois de um longo momento, ele passou a contar:
— Eu estava no carro com eles, com meus pais, quando aconteceu.
Acordei dias depois, num hospital, e todos haviam sumido… O Estado se
responsabilizara por meus irmãos e irmãs, enviando-os para casas de adoção.
Na época, eu acabara de completar dezesseis anos… Também fui adotado.
Ela segurou-lhe a mão com intensa força.
— E o que fez, então? — murmurou, num fio de voz.
— Fugi. Eu sabia que, se conseguisse algo na vida, seria reunir os
irmãos. Cheguei aqui, em Indianápolis, e consegui um emprego numa
construção. Levou um bocado de tempo, mas juntei o suficiente para dar de
entrada numa casa. Na verdade… Não era uma casa. E estava arruinada. Mas
foi a única coisa que consegui comprar. E era grande, dava para todos nós…
Holly percebeu que ele contava como se tivesse sido algo fácil. Mas a
velha dor estava em seus olhos verdes. Não devia ter sido fácil. E poucos
rapazes teriam se preocupado tanto com a família desmantelada, passando a
trabalhar sem descanso, com o único objetivo de reunir o que sobrara dela,
como David fizera, sacrificando a juventude.
De repente, ele mudou de assunto:
— Não posso permitir que você saia da minha vida, Holly. Só quando
a encontrei é que descobri que havia um profundo vazio nela, que não
consegui preencher. :— Beijou-lhe o rosto, com emocionante suavidade, e sua
voz soou, rouca: — Nunca é o bastante o que tenho de você, querida. Preciso
sempre de mais e mais…
- 103 -

Capítulo 11

Holly forçou os olhos para abri-los. Tudo estava silencioso. A luz do
sol entrava pela janela, criando um feixe luminoso no ar. Ela inclinou a
cabeça, procurando ouvir melhor, além do ruído do tráfego e do cantar dos
pássaros. Ou de um jato cruzando o céu.
Ele havia saído. Ela sabia disso, mesmo antes de colocar o roupão,
descer a escada e chamá-lo. Em cima da mesa da cozinha, um bule de café, a
xícara ao lado e um bilhete: "Tenho uma entrevista bem cedo. Use o carro que
está na garagem. Telefono mais tarde."
O único carro que ela o vira dirigir tinha sido aquela caminhonete
Blazer, e tentar dirigi-la seria o mesmo que pegar no volante de um caminhão
cegonha!
Enquanto bebia o café, ficou olhando pela janela, o céu azul-cobalto,
tão puro e lindo que a vontade era telefonar para o escritório, dizer que estava
doente e ficar ali, para sempre.
Passou a mão pelo monograma DWB em seu peito, no roupão. David
dissera que aquilo ainda a incomodava e estava certo. Mas o que DWB ainda
não sabia, e contaria a ele na primeira oportunidade, é que o amava. Isso
ficara mais fácil de admitir do que havia suposto. Muito mais fácil do que
lutar contra si mesma.
Mas seria a vida em comum com David Branson sempre excitante,
realizadora e sensual, como fora no fim de semana?
Provavelmente não, riu ela, ou ambos morreriam em menos de um
mês.
Terminou o café, voltou a encher a xícara e levou-a consigo para cima.
Quando tornaria a vê-lo? Perguntou-se, enquanto se vestia. Uma
olhada no relógio e percebeu que, se andasse logo, ainda chegaria no horário.
Quando abriu a porta da garagem, seu queixo caiu. A sua frente estava
uma brilhante Ferrari vermelha. Ele deveria estar louco em emprestá-la,
- 104 -

depois de tudo que dissera sobre sua maneira de dirigir o dilapidado
Volkswagen.
Quando se sentou no magnífico estofamento de couro, os olhos se
perderam num painel que parecia saído de um avião a jato. Cautelosamente,
enfiou a chave na ignição e deu a partida. O motor rugiu com a aceleração e,
logo após, voltou a um murmúrio que começou a amedrontá-la: teria
enguiçado nas suas mãos?
Meia hora depois ela chegou em casa, entrou com o carro e desligou o
motor. Dirigira com o maior cuidado, sem se atrever a passar dos trinta
quilômetros por hora, o que provocara a curiosidade de diversos policiais,
pois não havia nada mais apavorante que sair de um minúsculo quatrocilindros caindo pelas tabelas e entrar num poderoso jato!
David olhou o relógio de pulso, pensando se a sua Ferrari já teria se
transformado num monte de metal retorcido, se Holly estaria presa… Tivera
sérias dúvidas, pela manhã, em deixar o carro para ela. E chegou à conclusão
de que fora um insensato em entregar uma arma mortífera como aquela nas
mãos de Holly!
Enquanto esperava por Patty Bennet, em companhia de Nick,
imaginava como sobreviveria até o próximo encontro com Holly. Ela já estava
fazendo parte de seu sistema nervoso e, se dependesse dele, faria parte para o
resto da vida.
— Vovô pode recebê-los agora — falou Patty, entrando na sala.
Voltando-se para Nick com um sorriso, disse: — Ele está muito curioso por
conhecer seu famoso irmão!
David levantou-se, enquanto falava.
— Fico agradecido por sua interferência, Patty. Tem certeza de que ele
pode nos receber?
Hesitara, quando soubera que o velhinho estava vivendo num asilo,
mas Patty assegurara que ele gozava de muito boa saúde e que não se
atrevesse a desafiá-lo para um jogo de xadrez ou poderia ter surpresas. O
encontro fora marcado para o início da manhã, pois o velho senhor cansava-se
mais durante a tarde.
Encontrara William Montori no pátio ensolarado, nos fundos do
enorme asilo de velhos. Ele levantou-se com a aproximação dos três,
apertando a mão de David com surpreendente força.
— Então, D. W. Branson é você! — disse, os olhos escuros e alertas a
- 105 -

examiná-lo. — Já posso dizer que é mesmo irmão de Nick: são a mesma cara!
David sorriu, olhando o caçula:
— Ouvi dizer que há alguma semelhança… Obrigado por esta
entrevista, Sr. Montori.
Os quatro sentaram-se junto a uma mesa circular, debaixo de um
guarda-sol de cores vivas. Patty desapareceu por uns minutos; voltou
trazendo uma bandeja com um bule de café e quatro xícaras.
— Patty contou-me que deseja demolir aquele velho prédio —
começou Montori. — Você sabe, foi meu primeiro projeto. É uma pena saber
que ele não vai continuar em pé.
David examinou o velho, percebendo os traços bonitos que deveriam
ter marcado sua juventude.
— É sobre o que eu queria falar, Sr. Montori. Não gostaria de destruílo. Tinha a intenção de restaurá-lo, de início, mas percebi pontos fracos que
ainda não notara. Quando Nick me contou que o senhor teria os projetos
originais, pensei, então, que seria possível uma restauração.
Os olhos do senhor brilhavam, quando perguntou;
— Acredita que seja possível?
— Não posso responder nada até ver o projeto…
Montori cruzou as mãos e olhou-o com mais atenção.
— Por que isso é tão importante para você? — perguntou.
David puxou sua cadeira, ciente de que havia três pares de olhos a
examiná-lo:
— Porque a mulher pela qual estou apaixonado vai me arrancar à pele,
vivo, e pregar meu traseiro na parede, se eu destruir aquele prédio. — O
outro homem sorriu silencioso. — Eu poderia prolongar minha vida, se
encontrasse uma alternativa.
Por fim, Montori deixou escapar uma gargalhada:
— Então, há uma mulher metida nisto, hem?
David esperou que ele parasse de rir e completou:
— Mas não é tudo, senhor. Eu mesmo teria grande prazer em
conservar aquele prédio como era no original. Fiquei muito aborrecido
quando tive de interromper a restauração.
Montori silenciou por um tempo enorme: era claro que sua mente
estava no passado distante. Por fim, ele concordou:
— Eu instruirei Patty sobre onde encontrar os projetos. Em alguns dias
- 106 -

tudo estará em suas mãos.
— Obrigado, senhor. E, quando a restauração terminar, faço questão de
levá-lo para reconhecer seu próprio projeto!
— Gostei disso, jovem! — alegrou-se o velho senhor.
Um bip começou a soar insistente. David desligou o aparelho, indagou
onde havia um telefone que pudesse usar e retirou-se, preocupado, tentando
imaginar que tipo de emergência teria ocorrido já, naquela hora do dia.
Quando voltou para o pátio, ele estava transtornado, os olhos
brilhando de angústia:
— Nick, nós temos de ir. Uma construção ruiu no Centro Cívico!
Holly, com uma saia vermelho, vivo e blusa de jérsei com nuança de
verde e rosa, parou na entrada de casa, ponderando se devia ir ao trabalho
com a Ferrari. Sua roupa combinaria com o carro, enquanto roupa nenhuma
combinava com o fusquinha.
Subindo no carro esporte, concluiu que estava fazendo a coisa certa.
Afinal, David se preocupara com que ela tivesse uma condução até em
casa, esta manhã. O mínimo que poderia fazer seria devolver-lhe o carro no
escritório.
Quando chegasse ao trabalho, telefonaria para ele, avisando que a
Ferrari estava inteira. E também pensaria em como declarar seu amor. Uma
onda nervosa e outra de determinação invadiram-na.
Meteu o pé no freio, que era bom, fazendo com que os demais
motoristas, atrás dela, a xingassem. Mas não ia esperar! Contaria a ele que o
amava, agora mesmo. Virou o carro e dirigiu-se ao escritório dele.
O Edifício Branson era facilmente visível: um dos mais imponentes e o
mais novo da quadra. Em minutos ela estava no rápido elevador, sendo
levada ao trigésimo quinto andar. Quando parou num sussurro, a porta se
abriu para um hall carpetado luxuosamente e uma verdadeira revolução.
Ficou parada, as sobrancelhas levantadas, tentando compreender.
Pessoas passavam de um lado a outro, quase correndo, enquanto a
recepcionista, telefone ao ouvido, escrevia furiosamente. Ninguém lhe
prestou a mínima atenção, e ela percebeu duas portas imensas, por detrás da
recepcionista.
Aproximou-se mais confiante e passou a escutar a voz de David, do
outro lado. A voz era elevada como jamais ouvira ou julgara possível. De fato,
ele estava furioso. Ela hesitou com a mão na maçaneta.
- 107 -

— Não quero desculpas! Quero esse homem despedido, agora mesmo!
Vai ser mais fácil chover no inferno do que ele conseguir um, outro emprego
em construção nesta cidade!
Holly inspirou fundo, surpresa com o ódio na voz dele.
— Ninguém faz isso comigo e sai impune!
A frieza de sua disposição amedrontou-a. Sentiu-se imobilizada.
— Quero esse homem despedido! Faça o que fizer, esse homem acabou
para esta cidade, compreendeu? Ele sai quieto ou eu o reduzo a pó! Está com
a bunda numa bomba e eu posso fazê-la explodir, e ele sabe disso!
Holly empalideceu. As juntas de seus dedos ficaram brancas com o
esforço feito na maçaneta. David continuava:
— Não, não fui ainda porque a casa está um pandemônio. Mas vou
para lá agora! E avise ao homem: vinte e quatro horas. Depois disso, eu
mesmo vou atrás dele, e ele desejará jamais ter nascido!
David bateu o telefone e passou os dedos pelos cabelos, em seu gesto
costumeiro. Holly entrara e observava-o, mal acreditando no que escutava.
Pensara que tudo que tinha ouvido a respeito de D. W. Branson era
mentira. E deixara-se amá-lo, desejá-lo fisicamente; havia perdido o bom
senso. Como fora tão cega?
David voltou-se, ainda amaldiçoando em voz baixa, quando a viu,
percebendo que ela ouvira a gritaria. Viu que, aflita, girava nos calcanhares e
saía correndo, quase dando um encontrão em Nick, que entrava. Queria
colocar a maior distância possível entre ela e a cena que presenciara.
Conforme as portas do elevador se fechavam, ela ainda ouviu David
chamá-la.
Ele não era pessoa de dizer palavrões ou encher a cara com bebida.
Mas, conforme as portas do elevador se fecharam sobre Holly,
percebeu quantas vezes, nas últimas semanas, vociferara palavrões e quisera
afogar as mágoas em uísque. Sua paciência estava chegando ao fim. E não
tinha mais tempo para ficar atrás dela explicando tudo o que ocorria.
Recusava-se a passar o resto de sua vida justificando-se perante ela.
Holly estava sentada diante de sua escrivaninha, incapaz de trabalhar.
Horas atrás deixara a Ferrari estacionada junto ao prédio de David.
Colocara as chaves num envelope e as remetera por um portador.
Continuava ouvindo os berros dele, ordenando a destruição de um
profissional sem rosto nem nome, só porque cruzara o caminho do infame
- 108 -

Branson.
— Holly?
Sentiu-se frustrada com a interrupção. Avisara Susan de que não
desejava ser interrompida. Levantou a cabeça e percebeu Nick, do outro lado
da escrivaninha.
— Que está fazendo aqui? — perguntou, perturbada com a maneira
com que o rapaz a encarava.
— Nem sei… Não sei o que está acontecendo entre você e David, mas
sei que não o conhece.
— Conheço o suficiente!
Ele se aproximou e apoiou as duas mãos no tampo da mesa:
— Não conhece coisa alguma! Se conhecesse, não o teria deixado como
deixou, esta manhã. Ele já tinha bastante com o que se preocupar. Não
precisava ser assaltado por seu mau gênio!
— O quê? Seu… Atrevido! — Ela se levantou, furiosa. — Saia daqui!
Você não sabe de nada!
Nick se empertigou, tomou fôlego e se decidiu:
— O que você ouviu esta manhã, Holly, não é o que pensa — explicou,
em voz baixa, porém firme.
— Então, o que é?
— Pergunte a David.
Holly não queria perguntar coisa alguma a David. E o que fazia Nick
ali, se não fora desculpá-lo?
— O que ouvi não precisa de explicações. Agora, quer fazer o favor de
sair?
— Faça o que quiser, Holly — disse o rapaz, jogando uma folha de
papel dobrado em cima de sua mesa. — Espero que, quando chegar à
conclusão de que está errada, não seja tarde demais!
Chegou até a porta e, abrindo-a, voltou-se ainda uma vez:
— Ligue o rádio. Então, saberá a verdade!
Ela ficou só, olhando a porta fechada, perdida em pensamentos.
Estaria errada de novo? Sacudiu a cabeça; sabia que Nick estava
apenas defendendo o irmão.
Pegou o papel em cima da escrivaninha e desdobrou-o. Era um mapa.
O mapa da casa de David, com uma inscrição a lápis no canto inferior:
"A chave está no vaso, ao lado da porta dos fundos". Por que o rapaz deixara
- 109 -

aquilo? Esperava que ela usasse?
Relutante, virou-se e ligou o rádio, atrás de si, e a voz do loucutor
encheu a sala:
"…fazendo com que o prédio desmoronasse, logo pela, manhã, ferindo
inúmeros empregados. O contratante de cimento parece ter fornecido
material abaixo das especificações mínimas! Aliás, ao que se sabe, o
contratante tem atrasado a construção do Centro Cívico por falhas repetidas.
D. W. Branson não pôde ser encontrado para a entrevista."
Holly cobriu o rosto com as mãos e chorou sentidamente.

Capítulo 12

Holly estacionou o Volkswagen diante de uma casa com estrutura de
madeira. David vivia no campo, e sua casa era tão semelhante à dos pais dela,
que parecia fantástico. Saiu do carro, examinando o arvoredo em torno, e
percebeu que tudo aquilo combinava muito mais com David Winslow
Branson do que o condomínio sofisticado, no centro da cidade.
A chave estava onde Nick indicara, e ela entrou na casa pela cozinha
silenciosa, modernamente equipada, com extremo bom gosto e um ar de
família que a tocou. Curiosa, passou a explorar o resto da casa, perguntandose quando David voltaria.
Na ampla sala de teto alto, a imensa lareira tomava uma parede. O
assoalho, de tábuas corridas largas, era recoberto em diversos lugares por
dispendiosos e lindos tapetes. Os móveis faziam jus ao refinamento da casa.
Holly percebeu uma porta, por debaixo da escadaria, e dirigiu-se até
ela. Era o escritório de David, dominado por uma enorme prancheta cheia de
projetos e um sofá desgastado.
Instintivamente, percebeu que David passava ali boa parte de seu
tempo. Uma jaqueta azul, a mesma que ele usara ao encontrá-la no escritório,
na primeira vez, estava jogada sobre um braço do sofá.
Das paredes, a família Branson a olhava em fotos coloridas ou em
- 110 -

preto-e-branco. Rostos que ela tentava casar com as rápidas descrições feitas.
O último quadro mostrava, por certo, Cheryl ao lado de um homem
barbado e duas crianças morenas.
A foto de Kate havia sido tirada diante de sua galeria, em Santa Fé.
Apesar de ter os cabelos e olhos escuros dos Branson, era muito
diferente de Cheryl. Esta parecia sofisticada, era longilínea, e Kate lembrava
mais uma cigana; tinha o cabelo tão ondulado, mesmo no clima seco da
Califórnia, que Holly se perguntava o que aconteceria no clima de
Indianápolis.
Saiu do escritório, embora pudesse passar ali o resto do dia. Sentia que
invadia a privacidade dele. E isto também evitou que ela subisse aos
dormitórios para ver como eram. Decidiu sair e andar, esperando a chegada
de David.
A escuridão se tornara total antes que ela visse os faróis de Blazer se
dirigindo para a casa. Ficou parada na sala, fechando e abrindo as mãos,
espasmodicamente, não podendo antever a reação dele. Quando David abriu
a porta, viu que a sua camisa estava suja e o rosto mostrava exaustão.
Ele parou e ficou olhando-a por um longo momento tenso, antes de se
dirigir ao bar e encher um copo com gelo e uísque. Engoliu tudo num gole e
só então virou-se para ela, os olhos remotos e gelados:
— Que está fazendo aqui, Holly?
— Vim conversar com você…
Não conseguia controlar o tremor das mãos, de tão nervosa.
— Pensei que, depois desta manhã, não iria querer nada mais com o
horroroso D. W. Branson.
— Eu estava errada!
— Estava? — As lágrimas quase caíram dos olhos dela, mas ele
continuou: — Assim não dá, Holly. Não vou passar o resto da minha vida
defendendo cada posição que tomar. O que você ouviu, esta manhã, era
minha reação a um fornecedor inescrupuloso; tinha de me certificar de que
ele não voltaria a prejudicar, a machucar outras pessoas. Desta vez quase me
custou a vida de três empregados. Meu empreiteiro, um homem que me
acompanha há anos, está num hospital por causa de um desgraçado ladrão!
Eu deveria deixar esse canalha continuar até que matasse uma pessoa? E ele
quase conseguiu, hoje, ao que eu saiba.
— David… — Ela deu dois passos em direção a ele. — Eu te amo!
- 111 -

Ele deu uma risadinha depreciativa:
— Sabe de uma coisa, Holly? Há algumas horas eu daria meu braço
direito para ouvi-la dizer isso. — Fez uma pausa, olhando-a em silêncio. —
Mas às vezes o amor não basta!
Holly aproximou-se, decidida a não deixar desaparecer de sua vida
alguém tão importante. Colocou a mão, carinhosa, no rosto cansado dele e
disse, contrita:
— Você tem razão. Às vezes o amor não basta e a gente tem de
reavaliar os próprios valores, escolher o que é real valor e o que é lixo! Às
vezes a gente tem de tocar de ouvido, intuitivamente. Mas além de intuição
há algo que pode ser chamado de confiança! — Ela examinou-lhe os olhos;
tinha de fazê-lo acreditar nela. — Eu te amo, David Winslow Branson!
Ele parou de respirar por instantes: sua vida parecia depender daquele
momento. Por fim, sussurrou:
— Holly: você sabe que é a primeira vez que pronuncia meu nome sem
desprezo?
Ela colocou os dedos nos lábios dele:
— Não deixe isso subir-lhe à cabeça, Branson. Eu tinha ido a seu
escritório, hoje pela manhã, para dizer exatamente isto: que o amava, não
importava mais o seu nome!
No instante seguinte ela estava em seus braços, e ele sentiu que os
pedaços de sua vida podiam se reunir através daquela mulher. Murmurou,
emocionado:
— Oh, Senhor! Eu pensei que fosse o pior dia em minha vida! Pensei
que a tivesse perdido! Pensei que tivesse perdido Jake, meu administrador e
amigo. Quando vim dirigindo para cá, pensava que agora nada mais
importava!
Ela sorriu-lhe em meio às lágrimas:
— Tudo isso, agora, é passado, David!
Ele riu ainda nervoso:
— É passado! Sim… — E, olhando a própria camisa: — Preciso de um
banho! Fique comigo esta noite, Holly. Eu preciso de você, muito!
Ela envolveu-o nos braços, afundando o rosto em seu peito.
— Você teria de lutar muito para me botar pra fora, Sr. Branson! —
exclamou e, afastando-se um passo, prosseguiu: — E o banho, caro senhor?
Ele conseguiu abrir um sorriso moleque:
- 112 -

— Está se oferecendo para me lavar as costas?
— Sim, e qualquer outra parte de sua anatomia que exija minha
atenção.
— Você é uma viciada, Holly Nichols!
— Sim, sou. Foi você quem me viciou D. W. Branson!
Ele a deixou e ficou sério.
— Antes tenho de telefonar para o hospital — disse sombrio.
Ela o viu discar o número e observou as linhas de preocupação que o
envelheciam. Quem adivinharia que D. W. Branson podia se preocupar tanto
com os semelhantes? Aos poucos as linhas duras do rosto bonito foram se
desmanchando. Por fim ele desligou e comunicou:
— O plantonista do hospital disse que Jake ficará bom. Recobrou a
consciência há duas horas.
— Que bom David!
Só então ele baixou a cabeça para beijá-la, um longo e sedutor beijo.
Quando parou, ela se sentia uma boneca de pano.
— O último no chuveiro tem de fazer o jantar! — berrou ele,
arrancando a camisa e correndo para a escada.
— Não vale! Você roubou! — berrou ela, correndo atrás.
Ele fechou a porta do boxe do chuveiro, dois passos antes dela,
deixando-a de calcinha e sutiã no meio do banheiro.
— Não vale Branson! Eu tinha mais roupas do que você!
Mas só a água respondeu-lhe. Ela tirou a pouca roupa que restava e
abriu a porta de vidro fumê. No instante seguinte foi rapidamente puxada
para debaixo do chuveiro:
— Muito atrasada, Sra. Nichols! E, se demorasse mais um pouco, teria
de fazer o próprio jantar!
Ele pegou o sabonete, ensaboou ambas as mãos e estendeu-as na
direção dela.
— Era eu quem deveria ensaboá-lo, Branson…
Mas teve de calar-se e fechar os olhos, por causa das sensações que a
invadiram, conforme as mãos ásperas e ensaboadas de David passavam sobre
seu corpo úmido.
Holly sentiu que as mãos dele estavam trêmulas e não sabia que era
porque ele estava pensando em quão próximo estivera de perdê-la. Ao olhálo, ela percebeu medo naqueles olhos tão amados.
- 113 -

— David! — Ela passou a mão em seu rosto. — Tudo vai ficar bem,
agora! — Ergueu-se na ponta dos pés, a água correndo por seu rosto e
cabelos.
Havia algo erótico em estarem, confinados num espaço tão pequeno,
sentindo o jato forte de a água picar-lhes a pele, os seios amassados contra o
forte peito de David.
— Holly, Holly… — murmurou ele, cadenciadamente.
Ele beijou-lhe os lábios, os cabelos molhados. Sentindo-se ainda mais
abraçado, embora os dois corpos estivessem inteiramente unidos entre si.
— Não posso viver sem você! Eu te amo tanto! — sussurrou.
Ela tomou-lhe o rosto com ambas as mãos, olhando-o nos olhos:
— Você sobreviveria sem mim! Veja quanto já venceu na vida, sozinho,
querido!
— Sim, mas eu não gostaria nem um pouco!
A dura evidência de sua excitação estava comprimida contra ela. Com
que rapidez conseguia excitá-lo!
Ele levou a mão até atrás dela, fechando a água. Abriu a porta do boxe,
tomou-a nos braços e levou-a até o meio do banheiro. Pegou uma felpuda
toalha e começou a enxugá-la com extremo cuidado. Quase num sonho, ela
pegou-lhe a toalha das mãos e esfregou-o com energia. Enxugou seus braços
musculosos, o amplo peito, então se movimentou para baixo, para o estômago
plano. E ainda mais abaixo…
David inspirou profundamente e pegou-a pelos ombros.
— Basta! Pare!
Arrancou-lhe a toalha das mãos, jogando-a em qualquer canto, e
beijou-lhe a boca selvagemmente.
Como num passe de mágica, ela tomou consciência, no segundo que se
seguiu, de que estava na cama e que ele a possuía com um gemido trêmulo.
Apenas nos braços dela ele parecia encontrar a paz.
E, então, Holly percebeu, por fim, que pertencia a ele. E que David
pertencia a ela.
— Nunca pensei que pudesse ser assim — murmurou encantada —,
com tanta alegria, com tanta… Comunhão!
Ela começou a enxugá-lo com a própria língua, gota a gota, o cheiro
dele misturando-se ao sabonete perfumado.
— Holly! — E sua voz era um sussurro agonizante.
- 114 -

Ela ignorou o que ele estaria sentindo e passou uma perna por cima de
sua coxa. Os seios deliciosamente esmagados contra aquele peito másculo, ela
falou-lhe no ouvido, enquanto mordiscava-lhe o lóbulo da orelha:
— Fale David! Diga… O que quer de mim!
Ele envolveu-a ainda mais docemente:
— Quero você inteirinha, Holly!
Ela planejava amá-lo com lentidão, tal como ele conseguira antes com
ela, mas as chamas se propagaram em seu interior de maneira furiosa. Não
resistiu e, desta vez, fez com que entrasse nela integralmente, até o fim, com
um rouco grito de vitória!
Ele não suportou mais, descontrolou-se, apertando-a contra si,
beijando-a como se quisesse rasgar-lhe os lábios numa loucura de amor.
Desta vez era ela quem olhava, embaixo de si, dentro daqueles lagos
verde, enquanto ele a manobrava pela cintura, fazendo suas cadeiras
gingarem como o ritmo de uma música interior, penetrando-a deliciosamente.
Quando chegaram ao máximo, foi uma verdadeira celebração da
natureza, uma festa da vida e do amor. Uma alegria que se mostrou ilimitada.
— Onde você foi, tão cedo, esta manhã? — perguntou ela mais tarde,
quando repousaram um nos braços do outro.
— Tinha um compromisso…
Ela levantou a cabeça e olhou-o de cima:
— Com quem? Com um galo madrugador?
— Não creio que William Montori gostasse de ser chamado de galo…
E ele contou-lhe a respeito do arquiteto. Ela o encarou, pensando até
onde ele iria para agradá-la.
— E acha que vai dar certo? — indagou, esperançosa.
— Se não der, você ainda vai me processar?
Ela sacudiu a cabeça, contente de ter os braços dele em torno dela e
seus lábios a acariciá-la.
Holly fazia uma salada para o jantar, enquanto ele passava de um lado
a outro, ainda irrequieto:
— Há uma coisa que está faltando. Acho que, se não fosse por isso, a
noite seria perfeita!
Ele estendeu a mão para roubar uma cenoura. Ela bateu-lhe nos dedos
com a colher de plástico, enquanto indagava:
— E o que está faltando, Sr. Branson?
- 115 -

De repente surgiu sob os olhos dela um conhecido anel de safira.
David tomou-lhe a mão e enfiou o anel no dedo.
— Falta você dizer que quer se tornar a Sra. Branson!
Ela olhou-o, comovida, a voz rouca ao responder:
— Cheryl não vai gostar de perder este anel.
— Não é de Cheryl. Eu menti. Foi da minha mãe…
— David!
Ela sentiu um bolo na garganta e outros dois, enormes, querendo sair
pelos olhos em forma de lágrimas ardentes.
— Diga "sim", Holly.
Ela brincou, tentando disfarçar a emoção:
— Oh, sinhô David, esta sua escrava num cunhece vassuncê um tempo
grande pra…
Ele segurou-a pelos ombros e a fez encará-lo:
— Vamos, diga "sim"!
— Bom, a corrida das Quinhentas Milhas vai ser na próxim…
— Holly! Pago a passagem de toda sua família para cá, alugo a pista de
Indianápolis, está bem?
Rindo, marota, ela enlaçou-o pelo pescoço:
— Mas ainda não disse sim…
— Então diga de uma vez, já! — explodiu ele.
— Sim…
Ela mal pôde acabar de suspirar a pequenina palavra, pois os lábios
famintos de David a fizeram calar do modo mais gostoso do mundo.
NÃO PERCA A PRÓXIMA EDIÇÃO

O JARDIM SECRETO
Renee Roszel
Ao sair em busca do tesouro da ilha, ela não imagina que encontrará o amor…
Ronald sente-se enlouquecer diante do corpo nu, esguio, moreno e lindo de Mandy,
enfeitado de ouro pelos raios de sol que se filtram entre as copas das árvores. Deitamse no macio leito de folhas e mergulham num oceano de intenso prazer. O nome de
outro homem soa entre os lábios cerrados de Mandy, magoando Ronald
profundamente. Ele a quer com todas as fibras de seu ser, mas não suporta ver a
- 116 -

mulher amada vibrar de paixão em seus braços, sem esquecer um fantasma!

CASO DE AMOR COMPLICADO
Lynda Trent
Ela não sabe o que a espera nesse cantinho do mundo…
Roberta e Lucas despem um ao outro, saboreando cada centímetro de pele nua.
Deitam-se diante da lareira, com apenas seu amor entre eles, o fogo os aquecendo
menos do que a paixão.
A chuva continua a bater na janela, enquanto ela retribui todas as carícias, prazer por
prazer, procurando novos meios de prolongar o êxtase, sem pensar na realidade.
Roberta só sabe de uma coisa: ama Lucas e decide ficar com ele até o fim, mesmo que
seja um foragido da lei!

- 117 -