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1- INTRODUÇÃO

A loucura historicamente não foi pauta de discussões políticas ou
sociais, pelo contrário ela sempre ocupou um lugar de segregação. Por volta do
século XVII, com o Renascimento e a consolidação da ciência como
instrumento da razão, a loucura passou a ser objeto de estudo das ciências
médicas.
A concepção de doença mental surgiu somente no final do século XVII.
Nesta época para ser um local de tratamento dos doentes foram criados os
Hospitais Gerais, porém seriam mais conhecidos como espaço de exclusão
social. Estes hospitais serviam à sociedade como maneira de institucionalizar o
paciente psiquiátrico e o retirar das ruas.
O “louco” era tomado como alguém que apresentava comportamentos
inapropriados, não se adaptava a sociedade, regras e costumes, portanto não
estaria apto a participar dela. Este pensamento legitimava trancafiar pacientes
psiquiátricos nestes tipos de manicômios.
A partir das ideias do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que havia
promovido uma importante reforma no sistema de saúde mental italiano, a
maneira como a loucura é tratada e entendida começa a sofrer mudanças.
Porém no Brasil a mudança começou somente em 1970, quando o próprio
visitou o Hospital Colônia na cidade de Barbacena. Na ocasião o médico teria
dito que o hospital brasileiro se assemelhava a campos de concentração
nazistas.
A partir desta mudança de pensamento e a implantação de políticas
públicas com o intuito de humanizar o atendimento psiquiátrico, a “Indústria da
Loucura” entrou em declínio. A mídia se propôs também a desvelar os maustratos sofridos pelos doentes mentais e dessa maneira se deu o estopim para a
chamada “Reforma Psiquiátrica”.

1.1-

Um real encontro com a Loucura

O presente relatório se trata de um relato e análise sobre uma
experiência do real “encontro com a loucura”. Este encontro se deu pela
inserção de alunos do oitavo semestre do curso de psicologia em um hospital
psiquiátrico da cidade São José dos Campos.
O estágio a principio é importante pela apresentação e familiarização
dos alunos com o tema, porém visa também a execução de oficinas
terapêuticas e a criação de vinculo “Paciente e Psicólogo”.
Quanto a uma experiência prática e real do “encontro com a loucura”, o
primeiro contato com um hospital psiquiátrico não é algo simples. As pré-

destes alguns eram moradores enquanto outros com perspectiva de alta em alguns dias. onde coexistiam os pacientes que se afastam e os que se aproximam. Todos os estagiários responderam cordialmente os apertos de mão e perguntas dos pacientes. pois ainda estavam inseguros com a situação. Na primeira e mais longa se deu à título de apresentação do ambiente. Alguns estagiários relatavam esperar encontrar pessoas em surto constante. que apenas estariam sujeitas a surtos ocasionais que viriam a ser contidos pelos enfermeiros. pois neste primeiro dia de contato ainda não haveria a montagem das oficinas terapêuticas. tratamentos e até mesmo sobre os pacientes são cercadas de mitos e idealizações pelo senso comum. enfermeiros e monitores. ataques furiosos. . Segundo relatos dos estagiários é possível perceber que suas préconcepções e expectativas são fortemente confrontadas com a realidade posta no local. Os alunos tratados neste relatório são alunos que contavam com um cabedal teórico importante adquirido ao longo do curso. Esta adaptação é facilitada pela acolhida dada pelos pacientes. Alguns dos estudantes até mesmo já conversando com alguns pacientes separadamente. pessoas alucinadas. conheceram as regras da instituição. Ainda assim foi podido perceber que este conhecimento prévio não torna o primeiro contato com uma instituição psiquiátrica menos significativo no que diz respeito a quebrar paradigmas. babando e gritando. Os alunos haviam se preparado com leituras direcionadas. os depressivos e os maníacos. profissionais que nela trabalham. Estes últimos tratam a situação com a maior naturalidade possível e foram gentis e acolhedores para com a presença dos estudantes. pacientes em estados críticos e pacientes com maior nível de lucidez. No momento do contato com os pacientes os estagiários se depararam com uma realidade diferente da idealizada. Os estagiários ao poucos foram percebendo que a situação de maneira alguma era aversiva e ficaram mais a vontade com o ambiente. participado de aulas focadas sobre o assunto e não podiam mais ser vistos como leigos. O primeiro dia de visita ao hospital foi dividido em duas partes. Diferentemente do esperado não foi encontrado um ambiente com situação homogênea e pacientes em igualdade de situação e condição.concepções e conceitos acerca destas instituições. os embotados e os mais expansivos. sua lógica de funcionamento. espaço físico e profissionais envolvidos nos processos. Enquanto outros relataram uma idealização com pessoas lúcidas e com suas faculdades intelectuais intactas. Pelo contrário foi percebido um ambiente de contrastes. E somente em segundo momento ocorreria o contato com os pacientes. se informado a respeito. enquanto outros preferiam não se afastar do grupo de alunos. Os estagiários apenas receberam instruções básicas.

aos poucos nos tornamos mais humanos. mosaicos coloridos e desenhos livres com lápis de cor e giz de cera. é a oportunidade do contato com o paciente. sentir o outro. pequenas conversas e grandes escutas. A partir da segunda visita iniciamos nossa oficina com o objetivo de montar pequenos quebra-cabeças com figuras humanas. a disposição para ouvir.2- O Trabalho das Oficinas Nossa primeira visita teve como objetivo o reconhecimento do hospital. alguns não conseguem essa organização devido aos níveis de sua patologia. mas o fato de estarmos presentes e observarmos suas expressões é um grande aprendizado. A preocupação com a classificação da doença fica em um segundo plano. histórias de um passado criado ou real. totalmente diferente do setting trazido pela formação acadêmica. muitas vezes não conseguimos conversar com os pacientes devido a suas limitações.Ao final deste primeiro “encontro com a loucura” foi possível observar como concepções foram destruídas e reerguidas a partir do contato com os pacientes e instituição. 1. dos pacientes. abrem espaço para troca de olhares. A possibilidade e esperança de tornar o trabalho significativo seria então a nova preocupação dos estagiários. a necessidade que temos nesse momento é acolher o próximo que se encontra em sofrimento. A aproximação com o paciente através do desenho e da colagem nos dá oportunidade de observar o progresso e a organização de seus pensamentos. a ideia que precisaríamos palavras certas na hora certa. Conclusão: . A oportunidade que temos nas oficinas. A expectativa não mais cercava o ambiente ou o que encontrariam nele. 1. Mais do que pacientes os estudantes conheceram seres humanos e puderam ter empatia e os enxergar além dos estereótipos trazidos anteriormente. Ao se despedir dos pacientes e deixar a instituição o clima entre os estagiários era de boa vontade e esperança. acolher. nunca conseguiríamos em sala de aula. mas sobre como desenvolveriam um trabalho que mostrasse um valor terapêutico com aquelas pessoas. Nosso objetivo foi a aproximação com os pacientes através das atividades.3 –Nossa atual visão da Loucura Ao iniciarmos nosso estágio todas as nossas pré-concepções mudam de rumo. Nunca mais conseguiremos ser os mesmos que entramos pela primeira vez no Hospital Psiquiátrico. da oportunidade de trabalho e a programação da nossa oficina. começar um contato para iniciarmos a escuta terapêutica.

o acompanhamento de equipes multidisciplinares em diversos casos conseguem reintegrar o doente à sociedade. Na realidade muitos pacientes não tem condições de residirem com suas famílias. . dos ambulatórios. Outros perdem o vínculo com familiares e ficam entregues à própria sorte. necessitam medicações controladas. Com o apoio dos CAPS. fora dos muros dos hospitais.A oportunidade desse estágio nos faz repensar no quanto já foi feito pela Reforma Psiquiátrica e o quanto ainda pode ser mudado. não conseguem administrar suas próprias vidas. com a própria Residência Terapêutica alguns doentes conseguem viver novamente em sociedade. nesses casos a internação se faz necessária. pelo menos por um período de reorganização de seus pensamentos.