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Remessas como relações: reflexões não-economicistas

sobre

a

circulação

de

remessas

entre

famílias

transnacionais.
Igor José de Renó Machado1 e Fábio Stabelini2

O presente paper pretende apresentar uma reflexão sobre o papel das
remessas na organização da família dividida pelo fenômeno migratório
realizado na cidade de Governador Valadares, importante centro emigratório
brasileiro.3 A pesquisa identificou processos sociais que impulsionam a
emigração internacional e têm relação profunda com dinâmicas familiares
valadarenses (Machado 2006, 2008). Em torno dessas configurações familiares
– moldadas por uma intenção geral de constituição de novos núcleos familiares
centralizadores de relações sociais e, portanto, aglutinadores de pessoas –
analisamos o significado do envio constante de remessas por entes emigrados
em Portugal e nos EUA. A análise pretende entender como o fluxo constante de
dinheiro importa para substituir em alguma medida a própria pessoa ausente.
1

Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP- Universidade Estadual de Campinas, Brasil, 2003),
mestre em antropologia (UNICAMP 1998), graduado em ciências sociais (UNICAMP 1994).
Atualmente professor adjunto na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos, Brasil) e
pesquisador associado ao CEMI (Centro de Estudos de Migrações Internacionais, Unicamp).
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFSCar). Nascido em
04/06/1973. Para informações bibliográficas completas, acessar a base lattes em
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4790741Y6 . Para informações
adicionais e acesso aos trabalhos publicados, ver www.ufscar.br/~igor .
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Graduando em Ciências Sociais, UFSCar.

O trabalho se baseia em trabalho de campo conduzido com familiares de emigrantes (a maioria
emigrada em Portugal e nos EUA) em uma seqüência de cinco trabalhos de campo curtos, de
cerca de 50 dias de duração cada, ao longo dos últimos três anos. Um total de cerca de 90
entrevistas de longa duração foram coletadas. Ellem Saraiva Reis, Alexandra Gomes de Almeida,
Thaísa Yamauie, Amanda Guerreiro, Fabio Stabelini realizaram os trabalhos de campo.

A remessa opera como um organizador da relação familiar e a sua regularidade
ou ausência aparece como um índice de continuidade ou não de uma relação
familiar. As relações podem ser fortalecidas ou enfraquecidas com a ausência
prolongada causada pela emigração e tudo depende da sua manutenção por
outros meios que não o da convivência: a circulação de remessas de dinheiro
aparece como um substituto simbólico para essas relações que definiriam uma
família. A sua manutenção ao longo do tempo significa que os planos originais
de constituir um futuro núcleo familiar aglutinador estão ainda sendo
construídos.
Perspectivas de gênero e de geração são analisadas em torno desse
processo de envio de remessas como índice de continuidade das relações
familiares. As perspectivas de gênero dizem respeito principalmente ao caso
de homens que emigram deixando esposas como organizadoras do lar.
Demonstraremos como uma teia de relações que perpassam um controle
social da sexualidade da mulher é construída em torno da idéia de fidelidade
ao marido e respeito ao seu trabalho, materializado a partir das remessas. A
acusação de infidelidade é imediatamente relacionada a uma noção nativa de
“abuso” do trabalho do marido. Essas acusações em geral significam o fim do
envio das remessas como sinal do fim da relação familiar. No que tange à
relação de geração, analisamos a importância da remessa na organização da
relação entre pais e filhos, indicando o que temos chamado de “consumo
totêmico”: o fato que determinado tipo de consumo de bens valorizados entre
os jovens justificam a migração dos pais por um lado e, por outro, produzem
substitutos totêmicos para os pais durante sua ausência.
Tanto

num

estruturadores

de

caso

como

relações

no

outro

familiares,

as

remessas

assumindo

uma

operam

como

dimensão

não-

econômica que não tem sido considerada quando se analisa o seu impacto nas
comunidades de origem de grupos imigrantes. Obviamente, as perspectivas
economicistas sobre o fenômeno têm uma importante contribuição a dar sobre
os processos migratórios. Não é nossa intenção debater essa relevância,
apenas

2

apontar

para

outras

dimensões

também

relevantes

para

o

Desde o último quarto do século passado a cidade tornou-se uma espécie de capital nacional da emigração. as formas de expressar os sentimentos. Essas questões são investigadas tendo como cenário a região brasileira de Governador Valadares. 1999.4 A Casa e substância As migrações transnacionais. A emigração de valadarenses para os Estados Unidos ocorreu mais intensamente ao longo das últimas três décadas. entre estatutos de legalidade e ilegalidade. nessa perspectiva cultural. do seu trabalho. reconhecido centro de emigração internacional. Os casos que analisamos aqui tratam de emigrantes que deixam famílias que dependerão. Kebbe e Silva (2008) e Machado (2006). entre saudades e preconceitos. Interessa neste texto a construção de projetos familiares num contexto de contínua ausência física.5 O processo migratório constitui tipos peculiares de família. O paper pretende oferecer. em alguma medida.entendimento das remessas de emigrantes. Como indicam vários autores (Assis. as conseqüências da ausência prolongada de um familiar e os processos sociais disparados pela existência de famílias constantemente “incompletas”. em termos de uma reflexão sobre parentesco.) essa movimentação era destinada principalmente para os EUA. ver Martes e Soares (2006). Fusco 2001. muitas delas divididas entre espaços amplos. proposta por Carsten (2004). Procuramos entender como se estrutura a continuidade da relação. Brasil) está intrinsecamente ligada ao fluxo emigratório internacional. 5 Uso o termo conectividade para traduzir a idéia de “relatedness”. 3 . A história da cidade de Governador Valadares (Minas Gerais. Sobre a remessa de brasileiros para Portugal. Soares. implicam em remodelações das noções nativas de parentesco/conectividade. por ex. ver Machado. o que levou a restrições à entrada e permanência em solo estadunidense a partir da não concessão de 4 Para uma discussão sobre o efeito das remessas em Governador Valadares de um ponto de vista macro-econômico. 1999. seguindo a tradução de Fonseca (2007). uma contribuição para o estudo das remessas migrantes. ver Peixoto e Marques (2006) e Rossi (2007). Para uma discussão sobre família transnacional e conectividade.

a Casa se define como (. mas sobre a casa como um universo de construção das relações mais fundamentais da vida 4 . que se perpetua pela transmissão de seu nome. na qual o convívio seria centralizado. A casa apareceria como uma pessoa moral.. Segundo Lévi-Strauss. o poder e a riqueza (Lévi-Strauss 1999:22) Autores contemporâneos como Carsten e Hugh-Jones (1995) têm caminhado para uma “ampliação” das idéias de Lévi-Strauss. A nova unidade seria uma forma de conquistar para si o lugar central de núcleo de uma série de relações das quais o novo casal participava de forma subordinada.vistos de forma mais abrangente. vemos que o interesse recai não sobre a idéia da casa como uma pessoa moral (idéia da qual ela se afasta). Em 1984. dos quais Portugal é o mais importante. Cada nova unidade pretende-se centralizadora das relações sociais nas quais o casal participa. Associamos essa prática cultural à noção levistraussiana de Casa.) pessoa moral detentora de um domínio. o índice principal é a posse de uma casa própria. considerada como legítima somente na linguagem do parentesco ou da aliança e.. as origens. indicando paralelos entre a valorização do cognatismo em seu interior. diferente de família. Uma das conseqüências dessas restrições foi a busca por novos destinos. na maioria dos casos. Lévi-Strauss promovia uma reflexão sobre as “sociedades de casa” (société à maison). levando estas considerações a que chamam de revigoração dos estudos de parentesco. não coincide com a linhagem agnática. Para conquistar essa autonomia “relacional”. a posição. numa espécie de segmentação generalizada. que às vezes é até destituída de base biológica e consiste numa herança material e espiritual que compreende a dignidade. de sua fortuna e de seus títulos em linha real ou fictícia. das duas linhas em conjunto (Lévi-Strauss 1986: 186). No que se refere a Carsten (2004). a desvalorização do “idioma do parentesco” e um fortalecimento das esferas políticas e econômicas. Ou ainda: Casa. A pesquisa desenvolvida em Valadares indicou determinadas configurações culturais entre a população de baixa renda. o parentesco. principal grupo emigrante da cidade (Machado 2008). no seio da qual se desenvolvem os principais aspectos da vida social. os nomes e os símbolos. Essas configurações tratam da importância dada à constituição de novos núcleos familiares independentes.

mas são construídas através da moradia em comum. Analisar essas dimensões do vivido na Casa é observar outras “relações de parentesco”. em consonâncias a críticas que ele conduzira em 1974. E quando cita é para tratá-lo como um funcionalista. ou entre substância e código. estruturas familiares. crenças de procriação. em 1984. 6 Note-se que esta perspectiva de Carsten é muito influenciada pela crítica de Schneider de 1984. 5 . em livro que ele pouco cita Lévi-Strauss. junto com James Boon (Schneider e Bonn 1974). o modo como o parentesco é “feito” em oposição a um parentesco “dado”. Carsten recorre a noções como corpo. Habitar com outros insere os sujeitos em sistemas de trocas que relacionam e/ou criam parentes. Posteriormente. nos estudos de parentesco. quando se trata de emigrantes casados que deixam parte da família no Brasil. visto como conjunto de relações. que privilegiam os laços derivados da reprodução sexual. argumentou como a teoria do parentesco estava fundada em preceitos ocidentais. já que o principal objetivo de quem emigra é comprar a casa própria. gênero. como a área de gênero e construção da pessoa (Yanagisako e Collier 1987). Ao reelaborar uma análise sobre a Casa. etc. em diferentes contextos etnográficos. Em Valadares identificamos a relevância e necessidade imperiosa da casa (própria) entre as famílias transnacionais da cidade. em oposição ao parentesco como um dado a priori. livres do “império do código” versus o “império da natureza”. herança. como suporte para a Casa é um dos impulsores imigração. substância e parentesco. na concepção de Schneider (1968). e que estes pressupostos não poderiam necessariamente ser aplicados a outras sociedades. importavam muito em outras áreas tradicionais dos estudos antropológicos. que não são consangüíneas segundo concepções ocidentais. A casa aparece como a produtora do parentesco. Essa casa. O projeto da migração é pautado pela quantidade de dinheiro suficiente para comprar ao menos uma casa própria. Assim. Autores mais cuidadosos com o trabalho de Lévi-Strauss poderiam argumentar que a teoria da aliança só pode ser sobre a fabricação do parentesco. O desenvolvimento dessa crítica por outros intelectuais levou a constatação que questões como casamento. pessoa.6 Foi Schneider (1968) quem destacou a distinção entre a ordem da natureza e a ordem da lei.de pessoas ao redor do globo. podemos perceber.

6 . apenas em hierarquização sucessiva e contínua entre Casas. por sua relevância na organização do parentesco e da posse territorial e. de onde saem os migrantes na sua maioria. nas quais as suas 7 Esse argumento foi sugerido por Marcos Lanna.O caso nos bairros pobres de Valadares. já que não se trata. subordinadamente. e a primeira é uma necessidade para a existência da segunda. a casa (habitação ainda não própria). Esse aspecto. pela sua centralidade na organização da estrutura social local. como um atalho rápido para a centralidade. mas o antagonismo que a composição de novas Casas implica é ainda mais acentuado. na prática. entretanto. dura apenas a vida do casal. A contradição desse processo é que durante a ausência de um ou de ambos os membros. por assim dizer. Temos uma casa “à Lévi-Strauss” em grande medida. analisados por Levi-Strauss (1986) pela centralidade do casal na estruturação das relações de parentesco. Rompe-se com a Casa na qual se inseria anteriormente. claro. de uma segmentação rápida. pois não há a vontade de “continuar” algumas das famílias originais.7 Cada Casa. não significa falta de continuidade das Casas. Convém distinguir a casa (habitação) da Casa (centralidade de relações do casal). de pais biológicos: a Casa com a qual se “rompe” para formar a própria pode ser capitaneada por pais. mas ligada a cada casal como centro de si mesmo. Os emigrantes partem para construir Casas e. Um mesmo conjunto de pessoas que se ligam por parentesco convive com várias Casas com níveis distintos de capacidade de aglomerar relações e pessoas. precisam de recursos para construir uma casa (habitação) que dê condições e sustentabilidade para aquelas. Também devemos matizar esse descolamento da Casa dos pais. Essa idéia da Casa valadarense (das camadas pobres da população) depende de uma perspectiva dinâmica a respeito da montagem e desmontagem de relações: é uma espécie de Casa relacional. Trata-se. necessariamente. pois a segunda ampara a estrutura social e explica a movimentação internacional. Morar numa habitação no terreno dos pais é ainda participar da Casa dos pais. por dar impulso à migração internacional. é semelhante ao de Java e Bornéo. para isso. tios e até nãoparentes.

Foto de casa de ex-migrante em bairro pobre de Governador Valadares. as casas que são construídas com o dinheiro da migração. Temos. Assim. Contra essa incompletude paira o risco constante de esfacelamento e des-substancialização e o elemento crucial desse risco é o sêmen alheio (como veremos na parte que discute a fofoca) ou a hiper produção de substância (filhos fora do casamento). os emigrantes são pessoas de baixa renda. Um dado interessante que destaca a importância da Casa é que parte considerável das pessoas que concluem o projeto de migração retorna e constrói suas casas nos mesmos bairros que viveram até o momento de sair do país. resulta incompleta: um marido ausente significa a ausência da produção cotidiana do parentesco.9 8 Isso não significa que o impacto imobiliário da emigração se faça sentir apenas nos bairros de periferia (ver Soares 1995. como um lugar de reconstrução de centralidades nas relações. das relações. destoam da maioria das casas do mesmo bairro. nem inconsciente: todos que se arriscam na aventura migratória têm plena consciência desse perigo. na periferia.8 Como. quando essa foi bem sucedida. viviam em bairros pobres da periferia da cidade. tem para os sujeitos. Todos sabem que as relações serão colocadas em risco. um contraste entre casas enormes – sobrados com até mais de um andar além do piso térreo. 9 Essa e todas as imagens são de autoria de Fábio Stabelini. e barracos de lata ou casas de extrema simplicidade. na maioria dos casos. para uma discussão abrangente sobre o tema). 7 . da co- substancialidade. Isso apenas atesta o valor que a Casa própria.relações vinham sendo construídas. Esse risco não é novidade.

como uma cabana de camponês ou o castelo de um nobre. A casa derivada do dinheiro vindo do exterior. As casas também simbolizam o fracasso do projeto familiar. Cito Marshall Sahlins para dar continuidade à discussão: “O valor de uso não pode ser compreendido especificamente ao nível de “necessidades” e “desejos” – precisamente porque os homens não produzem simplesmente “habitação” ou “abrigo”: eles produzem unidades de tipos definidos. Portanto. representa um processo contínuo de vida social na qual os homens reciprocamente definem os objetos em termos de si mesmos e definem-se em termos de objeto. Essa determinação de valores de uso. que o ex-emigrante expõe para sua comunidade o sucesso da aventura fora do país. pelas construções destoantes. depois do projeto de migração concluído. atua como agente diferenciador e classificatório em um contexto local de comunidade. realizado por seus proprietários. a casa toma outro sentido: é através dela. já no acabamento.” (Sahlins 2003 [1976]: 169). vista dessa maneira. se diferenciando em um contexto local. um tipo específico de construção como um tipo específico de lar. a noção de pertencimento à instituição família que. ainda dá conta de expressar a continuidade da família. Revela. Em sua maioria se trata de casas que por vezes são abandonadas ainda no alicerce ou. a casa (habitação) é aqui tratada como uma espécie de “totem”. por um lado. opera como um agente de reconhecimento de pertença à instituição familiar. adquire duas novas funções: ao expor o sucesso do projeto de migração. Além disso. é diferenciador perante a comunidade que vive no bairro. por outras. depois do período desgastante que consiste na ausência de um dos membros principais dessa instituição. petrificado no grande número de obras paradas e abandonadas. algumas com mato brotando de suas bases. E se. Essas casas representam os projetos de migração que não deram certo. por si. relacionada com a vida do proprietário desde o início (residia no mesmo bairro antes de imigrar).Assim. para nós. É recorrente a imagem de obras com estruturas já danificadas pelo tempo que se encontravam paradas. em contraposição com as belas casas que são construídas nos bairros pobres que revelam o 8 . fenômeno muito visível na periferia da cidade. exibe os resultados do mesmo através dela.

Essa interrupção indica a desorganização daqueles planos iniciais de construção de Casas. As ruínas de casas em construção são evidências de interrupções de fluxos de remessas. de alguma forma à emigração (Machado 2008). Vimos que a vontade de construção de Casas impele. portanto. O fluxo de remessas opera como um estruturador das relações de parentesco: indica a continuidade da família e dos planos iniciais de construção de Casas. que precisam lidar com a ausência constante de membros do núcleo familiar. O fluxo de dinheiro sustenta a família no Brasil. passemos a analisar alguns efeitos práticos da ausência prolongada de membros familiares num cenário emigratório. permite o 9 .sucesso do projeto. Vimos que esse processo impõe alterações dinâmicas nas práticas de parentesco. Foto de obra parada em bairro de Governador Valadares Implicações da ausência Uma vez entendido o processo de construção de Casas e sua relação com a emigração internacional valadarense. Vimos que a forma encontrada de suprir a ausência e suas conseqüentes produções de cosubstancialidade é uma substituição simbólica da presença pelo fluxo de dinheiro e bens. expondo arquitetonicamente o falhanço em centralizar relações. de fluxos de parentesco.

com conotação dupla: eles estruturam e eles comprovam a existência de relações. Veremos a seguir duas dessas conotações em termos etnográficos. 1) O fim das relações e as remessas 10 . ou mesmo o envio direto de bens como presentes ganham funções inesperadas. são também. mas ao menos indica que num futuro qualquer as pessoas da família se reunirão novamente. focando nas circunstâncias que os casais enfrentam na situação de ausência prolongada. e afirmamos que o fluxo de dinheiro é fundamental na estruturação dessas quando uns ou mais entes estão ausentes.sonho de comprar a casa própria e também assume outras conotações. A segunda trata de refletir sobre como o fluxo assume formas inesperadas de substituição da ausência: a transformação do dinheiro em determinados bens. Porém. Importante ressaltar que embora as remessas apareçam como substitutos da presença do ente ausente e operem como continuadores da relação. se são incomparáveis. Do ponto de vista dos sujeitos os bens e o dinheiro são um pálido substituto de quem emigrou. No âmbito dos sentimentos a sensação é que o dinheiro não substitui a presença. índices indispensáveis da continuidade da relação. desse ponto de vista. Interpretamos essa passagem do dinheiro aos bens específicos como uma espécie de totemismo emigrante. isso não significa que as pessoas sintam que o fluxo de dinheiro é equivalente à presença de quem emigrou. ligadas à sua característica de substituidor formal da relação com o membro ausente. há uma análise formal de como as relações se estruturam. Ou seja. Os bens ”servem” para manter relações e também para expor aos demais que as relações se mantiveram. A primeira trata de demonstrar como a interrupção do fluxo significa o fim das relações. Mas essa análise não implica em afirmar que o fluxo de dinheiro e a presença do ente são qualitativamente semelhantes. constituindo determinados produtos em fetiches estruturadores de relações.

porque não cuidaria bem dos filhos. 10 Sobre a relação entre casais que emigram e seus filhos que permanecem em Governador Valadades. De certa forma. o casamento está em risco. Quando é o casal que muda 10. para juntar-se ao marido. embora muitas vezes a mulher emigre posteriormente. cuja função é zelar pelos direitos da infância e juventude. devido a termos acesso a apenas uma história desse teor. Aconteceu com este emigrante o contrário. em geral capitaneada pela família do marido ausente. 11 . As mulheres nesta situação têm como alternativa uma reconstrução dos arranjos de moradia: trazem as próprias mães para morar com elas. a remessa aparece constantemente como um índice de continuidade da relação. Outro entrevistado nos contou que a respeito de sua mulher nunca surgiram comentários. a mãe substitui a figura do marido. como alguém. Quando a remessa deixa de fluir. por exemplo. também muito freqüente: as fofocas diziam que ele havia arrumado outra família em Portugal. não acontece nada disso. A visita do Conselho nada pode provar contra ela. dando “confiabilidade” àquela casa. fim que é consumado com a interrupção das remessas de dinheiro. obviamente. se houver a presença do marido. existente em todos os municípios brasileiros. mas ela ficou em alerta redobrado contra as fofocas que a sua situação de “viúva de marido vivo” desperta. ameaçadora. e mesmo a relação entre pais e filhos pode estar em risco. ver Machado e Almeida (2007). caso contrário é vista como suspeita. Na percepção dos entrevistados. A entrevistada Joelma nos conta. O mesmo não se pode dizer quando é o marido que fica.Uma questão importante se relaciona à ausência dos maridos no cotidiano de suas esposas que permaneceram no Brasil: as entrevistas demonstram como há uma suspeição permanente sobre as mulheres. isto é. que ela imagina ser da família do marido. 11 Conselho Tutelar é um órgão público municipal de caráter autônomo e permanente. a Casa como centro das relações de um núcleo familiar só funciona se for “completa”. a denunciou ao Conselho Tutelar11. evitando que ficasse sozinha com os filhos. Ou seja. pois ela preferiu morar com a própria mãe. justamente para se livrar das fofocas que esta situação gera. A maior fonte de fofoca é o comportamento sexual da esposa do migrante ausente: suspeitas de traição podem acabar com o relacionamento.

Embora a esposa jurasse inocência. não cabendo à mulher muito que fazer quando recebe denúncias. Em outro caso. O sentimento de falta de proteção foi tão grande que ela preferiu emigrar e deixar os filhos. o casamento não acaba necessariamente. São vários os relatos sobre o enorme preconceito que atinge as mulheres cujos maridos emigraram. Ela não pode ter certeza. A vigilância também implica em discriminações às amizades das esposas. e enquanto o marido envia o dinheiro há a evidência de que o casamento e os planos originais continuam a existir. enquanto se é o homem a trair. a morar com as próprias mães e algumas até chegam a morar com as sogras. “colocaram até homem na minha cama”. a capacidade de produzir substância que alimente e construa as relações é eminentemente masculina. o marido não aceitou as argumentações e o casamento acabou. a fofoca ameaça casamentos: foi o caso de mais um entrevistado. Às vezes. para evitar qualquer “conversa”. por conta da iniciativa do homem. o que fica. Outro caso revelou um casamento destruído. E acima de tudo é o fim das remessas que sinaliza o fim das relações. cuja esposa foi morar com a mãe. uma vez que o dinheiro da remessa continue fluindo. Vemos que esse preconceito implica em novas configurações de moradia. Uma das entrevistadas nos contou que teve de abrir mão de uma amizade com uma mulher que tinha o marido no exterior. poderia. que atingiram em cheio a honra do marido. A amiga tinha fama de trair o marido e. enquanto o projeto da migração se desenvolve. O desnível das relações entre homem e mulher fica evidente no peso da traição de cada um: se a mulher trai. contaminar a sua imagem. de certa forma. mesmo morando com outras pessoas. o casamento tem grandes chances de acabar. no caso.Aqui temos uma situação similar e inversa à traição feminina apenas na aparência: a traição masculina não ameaça tanto o casamento. mas mesmo assim foi alvo de suspeitas. que ruiu devido à fofoca de vizinhos. 12 . a mulher de outro entrevistado trouxe a irmã para morar com ela quando o marido emigrou: ficar só em uma casa com os filhos parece altamente reprovável numa lógica moral nativa. Ela lembra que quando o marido foi para Portugal. para salvar o casamento. Ou seja. Isso leva muitas mulheres. já que a família do marido não via com bons olhos essa amizade.

e a responsabilidade pelo falhanço cabe muito mais à mulher. a fofoca causa a suspensão temporária do projeto migratório e o marido retorna para certificar-se da veracidade ou não 13 . A presença da mãe sempre ajuda a evitar o surgimento de “conversas” e. Há. ou podem mais que as mulheres. as disputas sobre a manutenção legal do fluxo de dinheiro (pensões) e as desavenças entre a ex-mulher e a família do marido ausente. que prende e mantém as relações operantes e os planos iniciais em vigor. pois segundo as perspectivas dos entrevistados parece que isso não ameaça os projetos da Casa. Por isso a circulação de boatos sobre a integridade sexual das mulheres que ficam é tão relevante no cenário de Valadares: os boatos podem destruir os projetos de Casa de um casal. numa clara assimetria. O sexo da mulher com algum outro homem que não o marido emigrante representa uma ameaça à Casa que se pretende construir. o que resta é a briga pela posse dos filhos. Enquanto o fluxo de dinheiro se mantém. uma produção de relações permeadas pela abundância de substâncias (a produção de filhos). além disso. nesse caso. ele opera como um substituto para as relações produzidas no interior da Casa e como uma espécie de “sangue simbólico”. que se superpõe às relações anteriores. O primeiro sintoma da des-substancialização das relações “originais” é a interrupção do fluxo de dinheiro. ter relações extra-conjugais quando ausentes. desonrando o marido e levando ao fim imediato daquelas relações. comensabilidade e vida cotidiana compartilhada). a mãe oferece ajuda para criar os filhos. A traição feminina é mais condenada. como uma intrusão de substâncias indesejadas. pois a mulher não deve morar sozinha com os filhos. geradoras do projeto inicial de migração. e um novo projeto de Casa. aquele substituto simbólico para as relações de substância de um casal (sexo. Em muitos momentos.Acontece uma reorganização da casa. agora no exterior. como sinal de desonra do homem. O problema da traição masculina é a possibilidade de criar novos filhos. pois parece que a desonra que ela implica também des-substancializa violenta e rapidamente aquelas relações do casamento: é como se o sêmen alheio fosse uma substância que contaminasse definitivamente um conjunto de relações. Nesse caso. Os homens podem. a não ser que resulte em um abandono do projeto original. às escusas do plano original.

dos boatos. e os dados nos permitiram entender que essa reordenação implica também em reavaliar outras noções clássicas dos debates antropológicos. num sinal de que a casa não está vazia. ou ainda trazem para morar consigo suas próprias mães. o dinheiro enviado parece ter a função de dar continuidade a laços que são rompidos a partir do momento que não mais se constata a presença 12 Para uma discussão muito mais aprofundada dessa discussão sobre o totemismo em sociedades capitalistas. Mais do que isso. 14 . no caso a de totemismo. Nas entrevistas realizadas em pesquisa de campo. A submissão voluntária a essas estratégias de legitimação do comportamento atestaria publicamente o comprometimento com o projeto migratório da família. É por causa dessa suspeição compulsória da “viúva de marido ausente” que muitas delas adotam a estratégia de morar nas casas dos sogros. 2) Do fluxo de dinheiro aos bens totêmicos Estamos a discutir a reordenação das noções de parentesco no âmbito familiar. ver Machado (2006) e DaMatta e Soarez (1999). em Valadares. promovendo um sentimento de pertença entre seus membros. seria na materialização das remessas de dinheiro enviadas do exterior que a família se reconheceria enquanto instituição. resultando na manutenção do fluxo de dinheiro. no desejo de construir a Casa própria. Essas voltas são seguidas de grandes rupturas ou pela normalização do relacionamento e a subseqüente volta do marido para a migração. para manterem-se conscientemente sob vigilância. vemos agora como ele parece também fazer parte do universo da família.12 Os dados indicaram que. os presentes enviados diretamente do exterior têm a função de suprir a ausência do ente. Seguindo um percurso de análise sobre a qualidade do totemismo em sociedades capitalistas (Machado 2000 e 2006b) anteriormente visto como instrumento de coesão para sociedades ou como ordenador simbólico de diferenças entre grupos na sociedade. é recorrente o discurso que revela que o dinheiro e. principalmente.

e sim por esse tipo de ligação: enviando presentes à família que 15 . Além disso. aparece a inscrição: “Se amas. que a unidade familiar é assegurada e o sentimento de pertença à instituição é aflorado. ou seja. vota”. reafirma os laços entre o ente que não é mais observado como presença física no âmbito familiar. Ilustro os casos com uma imagem: O vídeo-game do modelo PlayStation (ilustrado na foto) foi enviado ao Brasil por um entrevistado que ficou por três anos em Portugal. comprados com o dinheiro que é ganho durante o projeto de migração. Assim. vídeo-games e outros produtos de tecnologia ainda não lançados no Brasil. principalmente celulares. A figura reflete bem o que buscamos sobre os produtos enviados à família. Ainda. em se tratando e populações de baixa renda. Toda essa ilustração nos sugere que o objeto não foi enviado ao Brasil somente como um presente para a família. ficou evidenciada a problemática principalmente quando se tratavam de famílias com filhos.física do membro da família. que conseqüentemente são materializados em bens de consumo. que não era então comercializado no Brasil dessa forma (somente na cor preta). o que já sugere uma diferenciação entre os objetos. O primeiro fato que nos chamou a atenção foi a cor do produto. é somente pelo envio de remessas de dinheiro. A maior incidência de envio de presentes é de produtos de alta tecnologia despachados diretamente do exterior. ou de difícil acesso. No adesivo. a bandeira de Portugal é evidenciada através de um adesivo colado na parte superior do aparelho.

sugiram uma continuidade dos laços afetivos e ainda dêem conta de aproximar a família que permanece no Brasil com a sociedade para qual o pai emigrou. aqui o produto funciona como agente da educação que os pais pretendem passar para o filho. que nos diz que o computador era para fazer o menino ficar mais dentro de casa. O computador substitui o pai não apenas na sua ausência. objetos “entram em ação” para auxiliar a recompor a completude da 16 . enviou o dinheiro para comprar um computador (foto). nos forneceu um exemplo claro de que. mas no seu papel de educador. O bem é uma espécie de “educador à distância” e aquilo que deveria ser construído na presença dos pais (a educação dos filhos). O pai. É um instrumento para demonstrar que a rua não é um lugar bom para a criança freqüentar. Portanto. completo e de última geração. portanto. há três anos nos EUA. mesmo um deles estando fora do Brasil. Nesse fato. Aqui as remessas assumem uma conotação claramente diversa de um interesse econômico. O fluxo de dinheiro aqui também significa uma reordenação das formas de constituir as subjetividades das crianças: sem a completude do casal. o que nos chama a atenção é a fala da entrevistada. pois era só chegar da escola que já saía para a rua. a entrevistada nos conta que o marido. que era um desejo do filho. Podemos citar mais um exemplo ilustrado: Nesse caso. além das propriedades que esse objeto revela para a família (já citados no caso do playstation). se faz presente na forma do computador. vem sendo construído com objetos totêmicos enquanto mediadores das práticas. para o filho do casal.

uma vez que o preço para se importar um produto como esse é. Apontamos para um caso diferente: 17 . Esmiuçada a teoria. Ora. o entrevistado nos conta sobre os celulares que acabara de trazer de Portugal. Tudo isso reforça o argumento de significação dos bens materiais. que pertencem um a ele e outro à sua esposa. retornando de um período de aproximadamente três anos nesse país. muito alto para os padrões locais. que agiriam como operadores do reconhecimento de pertença à instituição familiar. mas já são comuns na Europa ou nos EUA. uma vez que não são mais constatados os contatos físicos e imediatos. Ao nos mostrar os aparelhos. destoam da realidade dos bairros pobres valadarenses. o bem em questão é obviamente um comunicador. Esses aparelhos. sempre ameaçada pelo processo migratório. temos um exemplo claro de totemismo no contexto da família.relação. conta que possuem novas tecnologias – 3G – que acabaram de ser lançadas no Brasil. Os celulares representam também todo o processo de migração ao qual esse entrevistado se submeteu em acordo com sua família. Mais uma imagem: Aqui. O presente para a esposa é uma forma de suprir a ausência. sem dúvida. indicando mais uma vez um objeto que opera como um mecanismo de recomposição da completude do casal.

Assim. onde a idéia é a de construir três quartos. depois da volta do marido. Nesse contexto. Mesmo 18 . ilustrada na foto. adquiridos a partir das remessas enviadas. dão subsídio para a família se reconhecer enquanto tal. a esposa comandou a construção do alicerce e dos primeiros cômodos da casa que.Temos. A presença desses bens em torno da esposa indicava a intensidade dos laços familiares e a tangibilidade do marido ausente. a obra estava ainda na fase de assentamento dos tijolos. serviço executado por ele mesmo. seria acabada com a construção de outro piso superior. uma geladeira que foi comprada com o dinheiro que o outro entrevistado enviava de Portugal para sua família – esposa e um casal de filhos – que permaneceram no Brasil. Como esse entrevistado havia voltado recentemente de Portugal. Aqui. as remessas transformadas em bens de consumo assumem o papel de condição material para a existência da casa (habitação). No caso de um casal que emigrou para os Estados Unidos a fim de construir uma casa. de modo a possibilitar o aparecimento de uma Casa (centralidade das relações familiares). a conversão das remessas de dinheiro enviadas de fora funcionou de forma a dar condições materiais para a casa (habitação). o projeto de migração teve de ser interrompido antes do tempo previsto. por motivo de doença que a mulher desenvolveu. Além de empregar o dinheiro em eletrodomésticos indispensáveis à vida em família. os bens indispensáveis para o ambiente doméstico.

A esposa conta que não fosse a opção do casal em trabalhar ilegalmente fora do país. os componentes indispensáveis para que nela se habite e. o projeto de migração garante a casa (habitação). eletrodomésticos (que. a emigrante conta que deixou filho e marido no Brasil para ganhar o dinheiro necessário para mobiliar a casa. o reconhecimento da família enquanto instituição. tudo o que estava no plano inicial do casal. Este fornece o meio necessário para que a família valadarense se constitua como instituição autônoma e legítima nos bairros pobres de Governador Valadares. 19 . Só possíveis.assim. dessa forma. o casal comprou e mobiliou a casa que agora abrigará sua família (ainda não têm filhos). Em outro caso. através do uso do dinheiro fruto do projeto de migração. no momento do trabalho de campo. diretamente da “América”) e uma moto. teria sido impossível comprar a casa. estavam chegando por navio. Da mesma forma que no caso anterior. segundo ela. garantir a educação do filho e comprar um carro.

que esta expõe o sucesso daquele. Esses processos são internalizados como meio pelo qual a família consegue. em relação às famílias envolvidas nos processos de migração. através dos bens que são resultado do projeto de migração. nessas situações. Nos aspectos mais mundanos da vida íntima de uma família. casal que como apostou instrumento na de emigração Demonstramos que a ameaça da desonra ameaça o fluxo de . perante seus membros. como o fluxo de dinheiro é uma verdadeira forma de parentesco articulada para estruturar a família à distância. pensado e desenvolvido pela família.Os dados coletados parecem. apontando para a materialização das relações cotidianas. confirmar que as remessas se transformam em bens que assumem significado. como substituto da presença do ente ausente. Considerações finais As remessas têm características muito mais amplas que apenas o sustento econômico da família no contexto estudado. quando um dos pais. de modo sucinto. estão ausentes. Essa presença tangível do dinheiro como relação explica um pouco da metáfora do fluxo de dinheiro como fluxo de sangue: o dinheiro está para o parentesco. E vimos em duas situações específicas como essa presença tangível é importante na vida das pessoas: o caso da estabilidade da vida de um casal separado pela migração e o caso dos bens totêmicos que operam como substitutos tangíveis do ente ausente e de suas vontades. 20 desenho do do projeto perigo de um da fofoca. portanto. promover o sentimento de pertença à instituição mesmo quando as relações cotidianas são remodeladas por motivo da ausência de um membro de seu núcleo. É. na e pela comunidade. o fluxo de dinheiro é índice determinante da continuidade da relação. perante a comunidade. No primeiro caso esboçamos um desestabilização internacional. se reconhecendo e sendo reconhecida. então. se legitimar enquanto tal e. ou mesmo os dois. Tentamos demonstrar.

Vimos que a interrupção do fluxo de dinheiro é o sinal do fim das relações e dos planos iniciais. como índices de existência contínua de um conjunto de relações colocado em risco pelos projetos migratórios. Bens que “prenderiam” os filhos em casa são os mais comuns: computadores e vídeo-games. por um lado. os celulares são mensagens explícitas de um desejo de comunicação. em alguns casos. comentados e anunciados freqüentemente entre amigos. que vendo os bens assumem também a existência contínua daquele núcleo familiar.dinheiro. Essa transformação do dinheiro em determinados bens totêmicos opera um processo de enunciação constante do marido ausente: esses bens fazem do marido e pai algo tangível. Há ainda outra ordem de bens. Os bens são mostrados. impondo sempre riscos ao casamento. a sogra. que cumprem a mesma forma de “tangibilizar” o ente ausente: são presentes como os celulares que mostramos. tida como uma espécie de legitima fiscalizadora do comportamento da esposa. direcionados a duas ordens de relações: os bens “familiares”. vimos que o fluxo de dinheiro pode se transformar em mercadorias ou o fluxo pode se dar em forma de mercadorias como presentes. eles dão ciência pública que a família de fato existe. Por outro lado. aqueles que são destinados especialmente aos filhos. No caso. Por outro lado. mas às vezes a irmã e. conhecidos. levando as mulheres a adotar determinadas estratégias de legitimação do casamento “à distância”. Essas são estratégias de dar visibilidade de uma correção moral à família do marido. se eles dão ciência aos membros da família que ela continua a existir segundo os planos iniciais. que são os destinados ao conforto da família mas também e principalmente destinados a dar confirmação reiterada da existência da família e os bens “educadores”. 21 . derivada dos bens “familiares”. que são os presentes entre marido e mulher. Esse é o sentido totêmico que os bens podem atingir. parentes. indicativos de como os bens são formas importantes de comunicação de mensagens. Vimos duas ordens de bens. trazendo outras mulheres para sua casa – em geral a mãe. Todos esses bens assumem um caráter de constituidores da família. As mulheres nessa situação apostam em estratégias de legitimação do lar. numa tentativa de demonstrar a preocupação do pai ausente com a educação e situação dos filhos.

na maioria dos casos.Para os propósitos desse artigo. A necessidade de uma unidade centralizadora impulsiona os fluxos migratórios que. vimos que a circulação do dinheiro aparece como meio pelo qual as famílias envolvidas nos processos de migração atendem a uma exigência de legitimação dentre a comunidade ao mesmo tempo em que constroem o reconhecimento de pertença perante seus membros. 22 . contraditoriamente. separam os membros do núcleo familiar. As estratégias familiares para suportar o momento desgastante referente à ausência. de pai ou marido estão intimamente ligadas às remessas de dinheiro enviadas diretamente do exterior.

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