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O Dia

da Explosão
da Galinha

de
Álvaro Marcolino

Prefácio

O dia da explosão da galinha foi o dia que a poesia explodiu. Que deixou de
ter forma, ou passou a ter uma diferente forma. Forma de miolos, de explosão, de
desforma. Quando a galinha explodiu, vários poemas caíram aleatoriamente nesse
papel. Eles se jogaram sem pensar, sem motivo. Nenhuma poesia tem um motivo
para estar aqui, exceto “o dia da explosão da galinha”, porque afinal, se a galinha
não tivesse explodido, não teria livro.

*Desenho da capa de Anna Clara Oliveira

Liberdade da Peixaria

O peixeiro assoviou
Fiiiiiiiiiu!
enquanto todos olharam por instinto
um peixe voando foi visto
peixe fujão!
- gritou o peixeiro que não compreendia
tamanha ousadia
de um peixe que fora dado como morto
mas que agora se levanta
cria asas e sai voando
em um céu de ventaneios libertários
em uma época de ebulição dos movimentos literários

Acidente de Trem na Linha da Expectativa

Em um brusco movimento
o trem se descarrilha dos trilhos imaginários
e toda a vida que premeditei
achando que estava tudo encaminhado
saiu capotando como acidente rodoviário
e vi os estilhaços colocando suas mochilas nas costas e metendo o pé
vi o pneu casar com uma boia
e curtir o resto de sua vida descendo o rio
vi o banco virar sofá
e me virei
como pude
e fui embora
consciente de que esse meu novo caminho
uma hora também vai mudar

Manhã Pregada no Teto

Feixe de luz estranha
que invade sem permissão
o céu do meu quarto
já é de manhã
já é de manhã
e meus olhos vidrados se pregam no teto
e acompanho boquiaberto
o entrar da luz matutina pelas frestas da janela fina
o amarelo que vira mais amarelo
e de repente dá uma escurecida
e clareada
e volta ao bege
que vira amarelo-pera
até os meus olhos despregarem do teto
e serem martelados com as pálpebras do sono
e caio no apagão profundo
de quem sonha com as luzes infinitamente movimentadas do meu céu
meu teto

O Piru do Baú

Como se não fosse normal o bastante
eu sigo me pendurando em minha estante
folheando páginas de assuntos aleatórios
porque a vida é uma grande roda da fortuna
a vida é o pião do baú
que o Silvio Santos manda girar
e você fica ali fodido
esperando aquele troço parar
para saber onde vai ser seu próximo acampamento
para saber qual destino a roda te dá
E o Silvio Santos é sacana
ele coloca o piru pra fora
e diz que você já foi pescado
pela vida urbana-ocidental
que você aprendeu a seguir as regras
e aceitar que esse é o caminho “natural”
meu amigo,
não escute os Silvios Santos da roda da fortuna
escute o Silvio Santos da sua cabeça
que quer colocar o pau pra fora
e fazer o gira-benga do pião da sorte

na sua vida
quem faz as regras
é VOCÊ

Comprimidos de Ideias só Emporcalham sua Cuca

Esqueça as vitaminas
esqueça os comprimidos
tudo o que você precisa
está na receita da sua cabeça
jogar fora as ideias pré-concebidas que os outros te introjetaram
é criar sua saúde espontânea
ideias pipocam na cabeça o tempo todo
se você quiser ser original
e verdadeiro
regue suas próprias ideias
e pare de comprar a dos outros

Assombração do Mar Revolto

Caralho, meu irmão!
Mas que porra é essa que vem vindo?
Aquilo é uma foca munida de metralhadora
ou é um acesso de raiva do capitão?
Virem o barco! Virem o barco!
porque dessa vez fodeu
aquilo só pode ser assombração do mar revolto
escondam seus cus
que o meu o mar já comeu
corpo n’água!
assombração toma conta do navio
rasga suas velas
e continua a navegar
sozinho
e a tripulação vai morrendo no mar
de fadiga
de fome
e seus corpos secam envoltos a uma infinidade de água
secam de desesperança
mas principalmente
de sede.

Planeta dos Seis Sóis dos Seres de Seis Olhos

Em uma galáxia muito, muito distante
vivia um grupo de seres extremamente inteligentes
que não olhavam para o céu
De seus jardins
era possível enxergar seis sóis
e as mães diziam pros seus filhos não olharem pra cima
para não queimarem seus seis olhos frágeis
eles inventaram o óculos de sol antes da cerveja
e isso gerou uma grande loucura em seu mundo
Um dia os seis sóis se alinharam em uma perfeita dança estelar
e a noite parou sobre o planeta das pessoas que só olhavam pra terra
o desespero foi tão grande...
como sobreviver ao breu da noite de óculos escuros?
Pior...
como sobreviver a noite
sem nenhum bar aberto?

Moedor de Unhas

Ceifador imperdoável de unhas
que arrebata os restos mortos das pontas dos dedos humanos
com uma porrada estalada da mão da morte
que nas mãos de um homem ansioso
é arma mortal das pontas dos dedos
que sangram e descolam pedaços de pele desviva
que cava como enxada revoltada
que constrói uma assustadora ferida
Dentes que destroçam as pontas dos dedos judiados
tudo porque aquela garota do vestido colado
que vi ontem trilhando pelo cerrado
esta passando do outro lado da rua
então começo a imaginá-la nua

Piloto Malabarista do Circo da Vida

Piloto malabarista do circo da vida
favor parar de passear em círculos
toque um caminho objetivo
passe reto sem criar esses vínculos
que só te atrapalham a seguir vivo
Piloto que bebe do ar umedecido
jogue essas bolinhas pro ar
e se ponha em queda-livre
sem paraquedas para abrir
se jogue no caminho sinuoso do mundo
se jogue com verdade e amor profundo
que o mundo vai te retribuir
Piloto que pilota confuso
abra mão do copiloto
feche os olhos como Luke Skywalker
e sinta as vibrações fruírem
pois se tem uma coisa que aprendi caroneando pelo espaço
é que o instinto é seu melhor aliado
se você não sabe para aonde tem que ir

O Solstício de Som dos Bruxos da Floresta

Quando a tarde vira noite
e faz a dança da mudança
as energias da floresta
se invertem por completo
a quentura e os mosquitos vão embora
e o frescor sopra junto com os pirilampos
os bruxos & as feiticeiras
saem de suas casas saltitantes
e iniciam uma animada festa
eles iluminam a clareira com o luar
perto de um penhasco em cabeceira
e cantam seus cânticos mágicos
enviando suas energias desejosas
para todos os animais da mata
e no final da noite
o sol vem acabar com a festa
o bruxo mais velho abre mais uma garrafa de rum
e assim começa a refestança
um piquenique no nascer do sol
então todo mundo está destruído
eles vão para casa dormir um sono bom

acordam no final do dia
e se preparam para mais um solstício do som

O Aprendiz da Cabeça Frita

Caminho pelas encostas dessas deslumbrantes montanhas
e tropeço em um grande pedaço de bosta
mas antes de praguejar contra os deuses montanheses
e gritar minha indignação para o vento que vem do sul
percebo que nascendo angelicalmente do monte de merda
estava um monte de branquinhos e simpáticos cogumelos
Ah, cogus! Inseparável aliado!
aparecem sempre nos momentos de dificuldades da cabeça
quando tudo parece confuso e esquisito
o cogu pula no seu caminho para te dar uma lição do que é realmente estranho
eu como os amigáveis cogus com suas hastes brancas e seu alvo chapéu recheado
de um azul confuso
e encho minha cabeça de ar pensante como se enche um balão viajante
e começa voo cogumelar
e me pego a pensar
que essa mágica montanha corpulenta
esse bruxo mato turvo
e essa estonteante lua feiticeira
aparecem juntas
para iluminar meu caminho
para alcançar o cume da sabedoria

e caminho em meio aos estranhos bichos da floresta
e aprendo lições de paciência com as imensas aranhas monjas das teias
e vejo a agilidade e esperteza dos lagartos apressados
e aprendo com o aliado
que o medo
e a estranheza
são um engano
trapaças da confusa mente humana
Sento contente nesse cume estonteante
e dou uma profunda inspirada
nesse ar de sabedoria infinita
e nessa condição
de eterno aprendiz da cabeça frita

Maria Maluca Maluca Maluca

Maria maluca que sonha que nunca
mas que nunca nunca nunca
vai virar suas costas e mostrar-me a nuca
e andar perdida pelas encostas avulsas
desses morros íngremes
com essa cabeça astuta
de quem pensa que subir
é só uma questão de vontade
que é só chamar a responsabilidade
comprar a luta
e procurar o elixir
a poção natural que cura
as mais derradeiras convulsões da cabeça
que derramam interrogações sobre a cuca
mas Maria maluca maluca maluca
sabe que o vento lá de cima da montanha
é exatamente o que procura
para refrescar sua mente
para beber sua cura

Dentista da Imperfeição

Dentes que sorriem o capricho da noite de jasmim
são os mesmos dentes que devoram o bife sangrento do assassinato do boi
Sargento
são também esses dentes que sorriem para mim
me transmitindo paz e simpatia
no charme do canino meio pênsil
que vira de ladinho fazendo um charme
dizendo que não existe perfeição
existem imperfeições harmônicas reunidas
Dentes que esbarram na gaita
que é tocada à exaustão
são os mesmos dentes que batem dolorosamente nos meus
quando tento te tirar um beijo
para roubar sua atenção

Cão da Noite

o cão rosna
confuso
sem conhecer direito a lua
ainda não percebeu que a lua não escuta latidos
a lua escuta os uivos
os latidos são deixados para o dia
ou para o bate-papo noturno
mas para conversar com a Dona Lua
é preciso ser cantor
e auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
uivar tão alto
que acorda toda a rua

Maluco de BR

vejo loucos seguindo caminhos errantes despistando os rumos ignorando as regras
pedindo passagem
se jogando inteiramente nas estradas pedindo carona caminhando no sol quente
dormindo em acostamentos
indo em direção a alguma coisa pois ninguém aceita mais fincar a bunda numa terra
nojenta e apodrecer para o restos de suas vidas
enlouquecendo pela pressão da escrotidão ditada pelo governo pelos políticos pelas
famílias pela sociedade pelo ser humano adestrado
vejo jovens seguindo o desapego jogando tudo pro alto porque afinal o que é tudo isso
senão uma grande mentira uma grande invenção
escrevendo sem pontuação porque as vírgulas para nada servem a não ser diminuir
sua velocidade de pensamento e fazendo versos gigantes só para escarrar nas
convenções gramaticais e poéticas inventadas por um velho broxa que ninguém se
lembra mais
correndo uivando pelados pelas ruas da vida gritando sua insanidade para o mundo
são
cagando para a sanidade do mundo mijando em todos os conceitos valorizados pela
sociedade ocidental
mijando nos próprios manuscritos só para sentir o prazer de ter total controle em sua
arte mas depois descobrir que em alguns becos úmidos das cidades ainda se repetem
os versos destruídos
vendendo trampos na beira da calçada para pagar o jantar e tomando porrada dos
guardas municipais de BH
sendo escorraçados pelos maquinistas de trens da CRS por pegar carona ilegalmente

sendo escorraçados todos os dias pela CCR Barcas espremidos como gado nas salas de
espera para cruzar a poça pro outro lado da baia de Guanabara
sendo espancados pela tropa de choque por protestar por salários dignos e planos de
carreira para os professores
tomando porrada até a morte de policiais militares que agem nas ruas como soldados
de guerra
gritando poesias na rua para compartilhar sua ira das cidades da podridão e da era
capitalista da escrotidão
brindamos à era da escrotidão com grandes pedaços de bosta dentro de nossos copos
e arremessamos seu conteúdo no quintal dos porcos conservadores!
invadimos suas casas para deixar os copos ainda sujos de merda na cozinha!
a revolução pode finalmente ter chegado!
brindamos com vinho barato aos artesões de estrada!
aos poetas de sarjetas!
aos loucos errantes!
aos músicos de rua!
aos amantes da lua!
aos vagabundos!
aos caroneiros!
aos bêbados!
aos maconheiros!
E seguimos loucamente latindo como cães raivosos
procurando manter sempre em mente que o único rumo
é andar sem destino

Ralo do Coração

essa tempestade que vem arder no peito dos homens
que vem chover granizo afiado como lança
e acerta espatifando em mil estilhaços o seu tórax estático
veio para chover as águas da desolação
para inundar as ruas dos pensamentos reflexivos
e causar uma verdadeira revolução da mente humana
e quem pensa que essas nuvens carregadas são apenas ilusão
não faz ideia que sua imagem tão transfusa te engana
essas nuvens de ardor vieram para passar o rodo e não deixar nenhum ser vivo
essa chuva veio para chacoalhar a vida urbana
para bagunçar a cabeça do cidadão
que acorda todo dia confuso
passa um café e engole uma banana
e sai correndo para sua cotidiana missão
de tentar fazer parar de chover
no ralo do seu coração

Esperando alguma coisa acontecer

Acho que vou embora
não tem ninguém aqui
e cerveja eu tenho em casa
mas talvez espere um pouco
Na verdade eu só estou esperando alguma coisa acontecer
só esperando alguma coisa acontecer
enquanto isso peço mais uma cerveja
enquanto vejo a chuva entristecer
essa noite
alguma coisa acontecer
e escrevo um poema
e quero que algo aconteça
e dou mais um gole
e penso em ir pra casa
mas alguma coisa sempre acontece
a noite pode sempre esquentar
como fogo que nasce da brasa
me levanto
a chuva passa
e peço outra cerveja
& outra
outra

coisa acontecer
sento
e espero
a vida amanhecer
e vejo que a vida
não pode ser só um
esperar acontecer

O Trabuco e o Rio

Após acordar
tarefa difícil para quem sabe sonhar
ele pegou sua maleta
aquela que ele usa de muleta
amarrou na sua magrela
e saiu voado como tiro de escopeta
mas lembrou que havia esquecido ela
voltou pedalando forte
buscou a arma
e a jogou no rio
ele não precisa mais dela
para sair voado montado na magrela
aproveitou e jogou da ponte a maleta, a magrela e o chinelo
e voltou andando de boa
rindo a beça
sem grilo
sem pressa

Amazona do Cavalo de Pau

Cavalo de pau
que se arrasta pela calçada gritando sua ação
arranhando o cimento gasto
só para chamar a atenção
a criança brinca sozinha
porque hoje não tem excursão
então ela pega uma bolinha
e arremessa no meio do pasto
os bois observam bolados
o que nessa bolinha tem de errado?
Mas quando avistam o trotar do cavalo de pau
os bois saem avoados
achando que era uma amazona real

Rancor

Ela sempre foi uma filha da puta
que se vestia de moça bonita
e enrolava palavras amorosas
mas só quando estava perto de mim
às vezes nem assim
Ela era do tipo que tratava mal o garçom
e isso é uma das coisas mais inaceitáveis em uma pessoa
mas eu negava
sei lá por que
porque achava que as coisas mudavam
porque eu achava que era tudo uma fase
mas ela era só mais uma filha da puta mesmo
que nunca sorria
que sempre me olhava torto
que me negava um abraço
que sempre achava que em mim tinha algo de errado
porque sempre tinha algo de errado com o mundo
mas talvez simplesmente não vivêssemos no mesmo mundo
ela era toda perturbada
e me tratava como lixo
ela era toda errada

e mesmo assim a aceitava
mesmo ela me enjaulando como bicho
no final das contas
eu demorei para sacar
mas finalmente levei um soco no nariz
que fez com que jorrasse o sangue da verdade
que escreveu sobre a calçada da desilusão
“ela era só mais uma filha da puta mesmo, cara”

Cavaleiro sem cabeça

O cavaleiro ergue sua espada
e a aponta para o céu fechado
um raio atinge a ponta de sua lâmina
e seus cabelos se avolumam de elétrons
ele cavalga com a cabeça pendurada
ceifando as cabeças dos inimigos
até sua cabeça dependurada cair
e rolar como uma bola de futebol no campo de batalha
então algum maluco dá uma bicuda no seu crânio
e acerta a cabeça decepada na fuça do cavalo
a espada corta a cabeça do bicho
e a guerra acaba
em uma grande plantação de cabeças desmontadas

Mochila Desmontada

Sou uma mochila desmontada
que clama por recheio
que sonha com a estrada
que vive em devaneios
e essa mochila abandonada
tenta se levantar sozinha
ela grita, cria pernas
e procura um trem na linha
ela sobe no vagão
esperando encontrar a verdade
mas tudo o que ela consegue enxergar
é um bocado de saudade

Caramujo

Quando a chuva arrebenta
com pingos pesados na cabeça
caminho para casa
ignorando a umidade nas roupas
observando a árvore sem as flores da primavera
carrego comigo um guarda-chuva
mas não o uso
sinto que preciso da revitalização que a chuva me trás
vejo os caramujos africanos se arrastando pelos pequenos cursos de água que a
calçada faz
e percebo o quão adaptados eles estão nesse ambiente novo
reflito um pouco sobre minha vida
e vejo que sou um caramujo da chuva
completamente estranho
perfeitamente adaptável

O Samba dos Símbolos

sambou o samba dos símbolos
que refletem a noite enluarada
no açude de chuva na calçada
tocou o violão com compaixão
de quem anda pelo mundo
sem se preocupar com nada
e nos acordes travessos e confusos
viu a poesia se desdobrar em melodia
e cantou para a brisa dançante
que esse samba
não era só para a lua
era para todos os deuses do dia
e para todas as almas das ruas

amor

Acredito em um mundo onde as pessoas dão amor sem esperar nada em troca e
esse ciclo infinito de amor vai passando por uma corrente infinita de oferenda de
sentimentos bons
Você pode rir da minha cara e dizer que eu sou só mais um iludido fodido que vai
tomar muita porrada durante a vida por não ter receio do mundo e não ter medo
de viver intensamente por aqui, mas sim, eu acredito no amor
Não estou falando daquele amor clássico de casal, esse é um assunto a parte que
será discutido por milênios e milênios por todos os poetas e filósofos que
passarem pelas terras perdidas nesse planeta quase inundado
Estou falando do amor humano
Estou falando em você acreditar que existem pessoas boas no mundo, e não
disseminar o ódio ou o rancor pelas ruas a troco de nada
Estou falando de você deixar passar as coisas ruins que as pessoas fazem para você
E respondê-las com carinho e compaixão
Estou falando de dar amor ao mundo sem esperar amor de volta
Estou falando em dar amor
E não emprestar amor
Talvez eu esteja repetindo as mesmas idiotices que a galera da saudosa Era de
Aquarius falava, você vai me dizer
Mas vou te dizer que não é uma repetição
É uma nova tentativa
Não penso que o que eles falavam era idiota

Penso que a forma como o resto da sociedade os escutava era idiota
Jesus, o eterno e sublime vagabundo andarilho que cobriu o mundo com suas
sandálias de couro, espalhava amor, fazia a magia do vinho pra galera curtir a festa
feliz
foi dependurado numa cruz
Buda rodou o Oriente de cima a baixo distribuindo amor para todos os lados em
ensinamentos recheados de sabedoria
Não estou aqui falando de religião, não me entenda mal
Estou falando que veneramos algumas figuras que viveram suas vidas para
espalhar pelo mundo o amor
Ouvimos seus ensinamentos
E fingimos que eles significam coisas completamente diferentes
Para se adaptar aos nossos interesses egocêntricos
A religião faz isso
O ser humano faz isso
Porque nem Jesus era cristão e nem Buda era budista
Religião é uma grande invenção dos seres humanos perdidos
Esses dois caras fodas que deram uma volta pela Terra
Só passaram por aqui
Para falar uma coisa:
Acreditem no mundo
Acreditem no amor
Deem amor ao mundo
Sem esperar nada em troca
Porque se o amor não voltar para você

Ele vai acertar em cheio o peito de outra pessoa
Que vai acertar o de outra e de outra e de outra
Infinitamente até o mundo ser um lugar melhor
Meu negócio é distribuir amor pelo mundo
No esquema de 'ou vai ou racha'

Vazio

vazio
é quanto vento passa
onde devia ter recheio
e a cabeça vai embora
a mente dá uma cochilada
até chegar a hora
de ser despertada
e o vento seca
e o recheio volta
bem na hora da fumaça da torta

A Cidade

Em meio à confusão quente da noite de São Paulo
vago iluminadamente pelas ruas do centro
observando hipsters com suas roupas extravagantes
colorindo o visual humano da cidade de cimento e asfalto
me vejo admirando a magia da cidade
a natureza do ser humano
a natureza boêmia dos homens e mulheres
que saem às ruas, todos usando vestidos
ou descalços
ou bem arrumados
com cabelos coloridos
ou grandes
ou não
curtindo o aroma metropolitano da parada
ouvindo o som do parque abandonado
rolando pela reinvasão da quebrada
ao som de um samba raiz que se fixa no concreto quente da cidade
respirando o cheiro de jasmim dos pássaros de seda
que voam sob as luzes dos postes dessas ruas
essa Augusta que só sobe
onde doces gurias doidas dançam uma dança maluca entre os carros
e os motoristas berram alguma empolgação que nasceu em seus falos

e falo que o bluegrass dos argentinos é muito mais animado
do que os infernos que tocam eletrônico adoidado
e por vezes me sinto perdido nessa capital
da mesma forma que me perco nas trilhas da minha vida natural
mas hoje eu curto a cidade
curto mesmo a cidade

Rosa dos Ventos

Sinto bons ventos de mudança vindos do sul
uma rajada de renovação soprando do norte
e quando se encontram
os ventos formam um tornado de novidade
que vem para levantar as folhas secas do chão
vem para jogar pro alto os restos orgânicos do outono anterior
foi um bom outono
mesmo depois que as folhas se despencaram
mas seus restos ainda deixam traços no meu chão de inverno não varrido
meus ventos vêm para limpar
e dar uma aparência nova
e o frescor necessário
para a vista antes cansada da minha porta

Sistema

Vivemos em um mundo que funciona com uma determinada lógica
mas não é porque vivemos nesse mundo que temos que aceitar e viver de acordo
com as normas que são impostas por uma maioria dominadora
e quando eu falo maioria, não se engane pensando que é a maior parte das pessoas
porque nem isso é
quando falo maioria
falo de poder
falo dos europeus fazendo terrorismo cultural contra os orientais
falo no ocidente destruindo as culturas nativas americanas
falo no dinheiro e seu insano poder
falo no capitalismo passando como trator desembestado por cima de tudo e todos
falo do machismo opressor
falo em falo
Mas existem maneiras de se desligar dessa lógica estranha e imposta de cima para
baixo
existem alternativas
disso não tenho dúvidas
também não estou te dizendo para largar tudo e construir uma cabana na beira de
um lago como fez Thoureau
você pode fazer isso
eu te admiraria muito se assim o fizesse
mas até Alexander Supertramp trabalhou no McDonnalds

e não o estou julgando por isso
o mundo funciona assim
enquanto você flipa hambúrgueres feitos com carne de procedência altamente
duvidosa
você não está se vendendo e jogando sua ideologia no ralo
você está jogando o jogo do sistema
essa é apenas uma estratégia
uma sábia estratégia para vencer esse jogo insano do mundo ocidental
Alex sabia muito bem o que queria enquanto trabalhava insanamente no fast-food
ele sabia que tudo isso era um caminho
e que ele precisava saber dialogar com o sistema
se ele quisesse se livrar de suas amarras
porque você não se livra das cordas que te prendem à cadeira da vida da sociedade
ocidental tentando cortá-las com a força de seus braços em um movimento
abrupto
você precisa de estratégia
se inserir nessa lógica pode não ser se entregar
nem desistir
se inserir nessa lógica é atravessar uma ponte
observar com mais cuidado a sociedade em que vivemos
desconstruir ela por dentro
e lutar bravamente contra o perigo iminente da acomodação
sentar em cima de uma situação social é a pior coisa que você pode fazer com a sua
bunda
você tem que passar por ali

aprender com seus problemas
e continuar caminhando
continuar pegando as estradas da sua vida
e ir
ir
ir e ir
até alcançar o seu supremo e sagrado objetivo:
uma alternativa final à essa merda toda

Tijolo de Vidro

Tijolo de vidro é quando você se vê iludido
achando que está compreendendo a natureza pura
mas na verdade tudo é sua mente confusa
Tijolo de vidro é realidade virtual
que não pode ser chamada só de realidade
porque mundo eletrônico não é o mundo real
Tijolo de vidro é pintura expressionista que impressiona
o impressionismo que expressiona
Esse tijolo que vira janela
é uma composição coesa das cores mais belas
e essa belíssima pintura na parede
vem para me dizer que lá fora o dia está muito melhor
para se jogar deitado na rede
e admirar essa pintura sem os nós
desse dia encapetadamente quente

Helter Skelter

Confusão
uma orquestra de barulhos aleatórios
o copo batendo na madeira do balcão
a garrafa tombando e girando na mesa
o saxofone alucinante dançando notas saltitantes
o baixo acústico marcando gravemente os compassos
a conversa burburinhenta dos frequentadores do bar
o grito para o garçom trazer mais uma cerveja gelada
o uhul empolgado do estudante bêbado após a virada insana do batera
a conexão entre público & banda
entre bêbados & bebida
entre cigarros & fumantes
entre música & músicos
e a orquestra do barulho aleatoriamente organizado cresce
a música ganha contornos fortes
o burburinho aumenta seu volume conforme o baterista senta a mão com mais
força no condutor e pisa com mais violência nos pedais do bumbo e do ximbau
os gritos chamando o garçom também aumentam a tonalidade
o copo que cai do balcão não é escutado
atrapalhado pelo esporro do prato de ataque que é acertado no mesmo e exato
momento
e de repente a banda atinge o clímax!

e o esporro sonoro toma conta do lugar
o sax enlouquece
desce do palco ainda antes da música acabar
e toca sua última e sonora nota aos pés da mesa do grupo que curte
alucinadamente o som
e após o último esporro da bateria
a última nota grave do baixo
o soar da guitarra
só se escuta palmas
uhuls
& um sonoro “desce mais uma gelada aí, amigo”!

Sou

Sou o ser da noite sedenta
Sou o vilão esporrando nylon
o poema mal escrito
o andar pela madrugada vazia
Sou o soul da voz rasgada
Sou o vento que refresca a montanha
a montanha observadora
e a cerveja engarrafada
Sou o andarilho sem rumo
Sou a mochila nas costas
que vaga pelas estradas
pelos entroncamentos
sem saber por onde seguir
Sou a vida esgotando no conta-gotas
os doors tocando break on through
Sou o venha meu amor acender meu fogo
Sou o fogo
que se metamorfa em brasa arrependida
e acende na fagulha de adrenalina
Sou o esperar
o despertar
o padecer

Sou a galinha
que explodiu
Sou como todo ser
sendo
o ser
a alma
Sou o Rubber Soul
Sou tudo o que Sou
um pouco de tudo
e muito de mais nada

Guria da catapulta

felicidade da noite escura
ódio da noite enluarada
em que o vento não sopra nada
e as folhas suicidam-se de mal de outono
então uma cena quebra o momento
uma garota estacionada em um movimento
o de rampar a ladeira quebradeira
e ventar pelo céu estrelado
se lança contra o sobressalto mortal
e se atira pelo ar perturbado
as pessoas passam e gritam
olhando pra garota
que mais ou menos apontava
por onde ia espatifar

Coelho Trapaceiro

Coelho Trapaceiro estranho
que tira o mágico do chapéu
e enrola ele no véu
da moça que respinga luar
Moça enluarada fanha
que clama pela ajuda
da formiga que vaga perdida
procurando um lugar pra descansar
que acha o abrigo curioso
no bolso do mágico furioso
que se debate ao se sufocar
Mundo escroto e nervoso
pois ninguém se presta a socorrer
a formiga que nada tinha a ver
com essa confusão psicodélica
do Coelho da moça e do mágico
que vivem suas vidas
esperando a hora de empacotar

A rua que fica no final da boemia

escuto os uivos ensandecidos da noite
tristes lamentos do vento perdido nas sombras das folhas da velha árvore
o caminhar pesado de quem já gastou sua cota de energia boêmia no umedecer do
sereno
o gosto ainda amargo da cerveja saltando no fundo da língua
a garganta arranhada da fumaça que é inspirada para dentro dos pulmões
o revirar do lixo do cachorro faminto
o correr do gato, silencioso na noite escura
a coruja com asa quebrada que abre seu leque de penas rejeitando a ajuda humana
imagino o se virar da coruja voltando ao equilíbrio natural
imagino o cachorro faminto estraçalhando a coruja enferma
imagino a noite virando cada vez mais noite
o silêncio anoitecendo escurecendo a madrugada
ouço o meu caminhar pela calçada quebrada
ouço a voz da escuridão me dizer que seu silêncio é o lamento fúnebre
de todos os seres que amanhecem com o sol
e se partem com a noite

Boemia Paulistana

suor
e o sopro de verdade
que pinga do ar-condicionado
no alto de minha cabeça chapada
enquanto toca um samba malvado
meio de lado
torto mesmo
com uma letra
gordurosa como torresmo
e do nada
as luzes começam a iluminar
as ideias que eu tinha desse luar
e finjo não me importar
com o dia clareando azul
e o calor brotando nu
no meio da boêmia paulista
e tudo o que eu desejo
é um pouco da sua paciência
para olhar para cima
e curtir essa noite sinistra
que venta fresco

para descompor todo esse clima
do calor intenso a esmo

Túnel

Estou jogado
num túnel vasto
sem ver fundo
caindo e caindo
rodopiando
em meio aos pianos
que caem mais devagar
porque nesse momento
tenho mais peso que eles
contrariando as leis da física
sou o único objeto
que cai com uma aceleração
maior do que todas as outras coisas
Os pianos e as cadeiras ficam pra trás
e vejo o fundo do túnel
não se parece um fundo de poço
se parece mais com um fim
e eu acerto violentamente a cabeça
no concreto frio
e explodo meus miolos
enquanto minha cabeça quica em desesperança
e mancho as paredes com meus restos de sentimentos

puros
mortos

Os Loucos

eu queria que alguém me explicasse como se sabe quando você está ficando
maluco.
é quando começo a conversar sozinho? quando começo a conversar com o café?
quando acho uma boa ideia usar terno de chinelo? é quando começo a me
perguntar se estou ou não ficando doido de vez? é quando você procura um
médico, ou um remédio? que diabos é esse conceito de maluquice afinal?
quer dizer que você passar sua vida inteira buscando fissuradamente por riqueza é
normal? mas colocar uma mochila nas costas, ir pra estrada e pegar uma carona de
caminhão até a Bahia é coisa de quem tem alguma coisa errada na cabeça? quem
definiu essas regras? se eu estivesse começando a me preocupar com o que as
pessoas acham de mim, com que roupa vou sair ou qual impressão passo para o
resto das pessoas que convivem socialmente ao meu redor, aí sim eu me
preocuparia em estar começando a desenvolver algum tipo de paranoia.
paranoia de se enquadrar na sociedade, paranoia de ser normal, paranoia de não
andar amarrotado, paranoia de não arrotar, paranoia de ter um emprego em uma
multinacional só para mostrar o contracheque pros amigos enquanto desfilo em
um carro bacana do ano e bebo uma cerveja importada. não vejo problema
nenhum em andar de chinelo e beber Itaipava. até gosto, para ser sincero. será que
o que define a maluquice é a desconstrução das bizarrices da sociedade? quanto
mais você relativiza, quanto mais você pensa, quanto mais você reflete e tira suas
próprias opiniões, quanto mais desconstrução, mais doido você ta ficando?
Essa lógica não faz o menor sentido dentro da minha cabeça. as pessoas normais é

que são completamente desequilibradas, insanas e precisam de tratamento
psicológico, ou umas aulas de filosofia, talvez. minha sanidade mental vai muito
bem, obrigado. loucura é essa normalidade estampada na face dessas pessoas que
são controladas pelas cordinhas de fantoche das mídias e da tecnologia. que não
param para pensar cinco minutos sobre as coisas, que só compartilham, repetem
discursos, passam alienação adiante. o conceito de normalidade me faz vomitar.
não me importo em ser chamado de louco pelas pessoas que tatuam em seus peitos
o rótulo de normal. não quero ter nada a ver com pessoas ditas normais. essas
pessoas tem alguma coisa errada na cabeça. me interessam mais os loucos, que
pelo menos pensam e me trazem algo de novo.

O último cigarro do mundo

Acendo o último cigarro do mundo
trago silenciosamente
e busco esperança
no último vento que sopra do norte
lamentando por todas as mortes
de pessoas que pensaram no mar
sem fundo
E apago o cigarro na água gelada do oceano
torcendo por uma grande virada
tocando o clima frio
de mais um ano
obscuro

Dilema do Mundo

Entre as agonias encarnadas nessa geração
está o sentimento eterno de se ver perdido
a noção confusa de que existem milhares de estradas e milhões de entroncamentos
todos esperando para te lançar uma dúvida sacana qualquer
A era do carreirismo já foi pra merda
ninguém mais aguenta viver uma rotina esmagadora de córneos
de sentar na mesma cadeira encardida por trinta anos
abrir todas as manhãs a mesma gaveta
bater a porcaria do ponto na hora certa
ninguém quer funcionar como uma máquina
o mundo já está repleto delas por aí
por que diabos não fazemos essas desgraçadas trabalharem para nós
enquanto ficamos tranquilamente bebendo uma cerveja na beira do lago
esperando um peixe pular no nosso prato?
Mas o mundo funciona assim
para poucos
pouquíssimos
se bobear eu nunca conheci ninguém que vive bem com esse sistema de trabalho
mas certamente já trabalhei para um deles
como uma máquina
Esses caras só são vistos nas capas de revistas exibindo seus aviões, suas mulheres,
suas mansões

E o dilema do mundo está exatamente aí
porque quem já nasce tendo aviões
não precisa se preocupar em qual estrada correr

Bateção na Cabeça

e se toda a angústia que atinge minha cabeça em cheio
que acerta uma porrada de mão fechada na minha orelha
e entorta uma solada de bota direto no meu nariz
se toda essa angústia que entope meu peito
virasse vendaval?
se toda a raiva que salta pelas minhas artérias
ódio bombeado junto com o sangue
junto com o meu oxigênio
e se toda essa raiva
virasse carnaval?
queria poder assoar esses sentimentos para fora de mim
queria poder me livrar deles para nunca mais
e enfim
encher meus pulmões com um pouco mais de paz

Baralho no ar

Joguei as cartas pro alto
Vi minha sorte rodando
Se espalhando com o vento
Vi o Valete de Paus bater no ventilador
E tudo o que eu pude sentir
Foi a dor
De ver a Dama de Copas
Sumir debaixo do sofá
Desejei profundamente
Um radar
Que mostrasse a direção
Da próxima carta
Que me serviria de par
Mas tudo o que eu encontrei
Foi o óbvio caminho da perdição
Que terminava desolado
À porta de um bar

O dia da explosão da galinha

Explodiram a galinha
Te digo o que vi
Vi tripas de acordes musicais
Voando como foguete
Riscando céu
Em direção a lua
Vi miúdos de matança
Em suas danças periclitantes
Vi estantes suspensas como estandarte
Vi cores brilhantes
A arte colorida do sangue
A lavar a alma dos pobres lunáticos
Vi patas empatadas
Empanadas no desespero
Fritas em olho quente
Com batatas fritas
E tomates sorridentes
Vi um gato
Igual ao da Alice
Que me disse
Que eu era um bom homem
Cara que nunca desiste

Das ondas sonoras da explosão
Da intensidade do latido
De um assustado cão
Virou tudo um grande assado
Que comi com o prazer de uma suruba
E com fome de Lião

. . .

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