You are on page 1of 89

Herdeira do paraíso

(Neptune's Daughter)

Anne Weale

Numa ilha do Caribe, amor e ódio num reencontro inesperado
“Você invadiu uma ilha particular. Saia já daqui!” A voz de Oliver Thornham soava
firme e autoritária. Ao reconhecê-lo, Laurian sentiu-se estremecer. Recordou-se do
passado, do tempo em que era a proprietária da ilha e ele o visitante. Agora as
posições haviam se invertido. Porém, o momento por que tanto esperara havia chegado.
Faria Oliver pagar pelo mal que lhe fizera no passado! Só não podia deixar que ele
descobrisse sua verdadeira identidade. Nem o amor que trazia escondido em seu
coração havia tanto tempo...

Digitalização: Tinna
Revisão: Renata D.

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Copyright © 1987 by Anne Weale
Publicado originalmente em 1987
pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Todos os direitos reservados,
inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada por acordo com a Mills & Boon Ltd.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas
vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
Título original: Neptune's Daughter
Tradução: Sílvia Lúcia Sardo
Copyright para a língua portuguesa: 1992
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3? andar
CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento: Grafica Circulo

2

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

CAPÍTULO I

Laurian Bradford decidiu tirar algumas horas de folga para comprar um presente
de aniversário para Susie, a caçula de sua família adotiva.
Tivera um dia cheio, dividida entre as entrevistas devido à indicação de seu nome
para o prêmio de Estilista do Ano e também entre as muitas providências para
assegurar-se de que o andamento do serviço não seria prejudicado durante sua
ausência.
Naquela noite aconteceria o jantar no qual a princesa de Gales entregaria o prêmio
ao vencedor do concurso e no dia seguinte, depois de tantos anos de trabalho
ininterrupto, partiria em viagem de férias, para um local ainda ignorado. Robert
insistira em manter em segredo o nome do local que escolhera. Apenas prevenira-a
para não levar muita bagagem. Segundo ele, maios, shorts, camisetas e um vestido de
noite seriam suficientes.
Sabendo da paixão dele por pesca submarina, imaginava que o destino seria uma
das inúmeras ilhas do Pacífico ou então Seychelles. Independente do local, Laurian
antecipava o prazer de descansar durante duas semanas, deitada ao sol e nadando em
águas mornas e cristalinas.
Mesmo que no jantar daquela noite o título fosse concedido a outro concorrente, o
nome de Laurian Bradford se consolidaria entre os primeiros da alta moda da
Inglaterra.
Saiu de seu ateliê em Albermarle Street e foi direto para a livraria Hatchards, no
Piccadilly, pois sabia que nada agradaria mais à Susie do que alguns livros.
Susie Lingfield ainda era bebê, quando Laurian, com treze anos, chegara na
Inglaterra para estudar num colégio interno. E ainda agora, aos trinta e quatro anos,
tremia ao lembrar-se dessa fase de sua vida, quando as dificuldades próprias da
adolescência se agravaram com a desesperada saudade de casa e a morte de seu pai,
logo após sua partida. A revolta e o ódio pelo intruso responsável por toda sua
infelicidade aumentaram mais ainda seu sentimento de solidão e abandono.
Aos poucos, o amor e a segurança que encontrara na família do médico da escola,
que a hospedava durante as férias e, mais tarde, a luta para tornar-se uma estilista
respeitada e conhecida foram atenuando os sentimentos negativos, o ressentimento e
a amargura.

3

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Agora, aquela jovem alta, magra, de cabelos castanho-escuros e rosto expressivo,
via todos os esforços e dedicação recompensados. Tornara-se uma profissional
respeitada, não pela beleza, mas sim pela capacidade, criatividade, inteligência e
personalidade marcantes.
E, caminhando por Mayfair, pensava em Robert Adstock. Perguntava-se como
concordara em passar as férias ao lado dele, quando, na verdade, não tinha certeza se
desejava um compromisso mais sério e íntimo, além da grande amizade que os unia. Na
livraria separou alguns livros e, após escrever as dedicatórias, devolveu-os ao
vendedor para providenciar o pacote e a remessa para a aniversariante. Em seguida,
desceu ao andar inferior, a fim de escolher sua própria leitura para as férias.
Assim que entrou no recinto, reparou num homem alto, parado junto ao balcão,
enquanto o vendedor tirava a nota de uma pilha de livros. A julgar pela pele bronzeada,
tratava-se de um estrangeiro. Era início de outubro e o verão fora frio e úmido, de
modo que até mesmo as pessoas com disponibilidade para banhos de sol, certamente,
não teriam conseguido o tom bronzeado da pele daquele homem. Talvez fosse um
inglês, recém-chegado de uma região quente e ensolarada.
Laurian, imóvel, observava o estranho que, de repente, voltou-se, envolvendo-a com
a intensidade e eloqüência de seus olhos cinzentos. Fitaram-se por um longo momento
e ela de imediato lembrou-se de uma canção que falava a respeito de um estranho na
multidão. Era exatamente a impressão daquele momento. Um profundo senso de
reconhecimento, uma atração súbita e inexplicável, como se já tivessem se encontrado
antes. O impacto fora tão forte que Laurian parou no último degrau, encarando-o com
os olhos azuis arregalados, esperando que ele lhe dirigisse a palavra.
Os lábios do desconhecido se curvaram num sorriso suave e, mesmo sem dizer
nada, não deixava dúvidas que a atração era mútua.
Desconcertada com sua reação, Laurian desviou o olhar e se afastou rapidamente
em direção ao fundo da loja, tentando concentrar-se nos títulos dos livros dispostos
na prateleira, esperando que suas pulsações se normalizassem.
Ao longo de sua carreira, conhecera muitos homens, porém, exceto pela afeição
por sua família adotiva e pela amizade por Robert Adstock, Laurian jamais se
envolvera emocionalmente com alguém e sempre mantivera suas emoções sob controle.
Sabia como reconhecer um homem sensual, porém sempre de um modo distante e
impessoal, nunca chegando a ser afetada pelo charme de quem quer que fosse. Muitas
vezes, acreditava que o trauma que sofrerá na adolescência inibira suas emoções.
Agora, considerava extremamente desconcertante ser arrastada numa loucura
como essa. Com muito esforço, continha o impulso de voltar-se para verificar se o
homem ainda se encontrava ali. Não o viu quando se encaminhou ao caixa para pagar
pelos livros que comprara.

4

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Enquanto subia as escadas em direção ao andar térreo, lembrou-se de que não
almoçara e de que jantaria tarde. Resolveu comer num aconchegante restaurante que
havia ali perto.
Imaginando que o desconhecido já saíra da loja, aproximou-se da porta principal e
somente quando ergueu a cabeça para agradecer à pessoa que lhe abrira a porta,
notou que fora ele o autor do gesto de gentileza.
— Oh... Obrigada — balbuciou, entre surpresa e excitada por encontrá-lo ainda a
sua espera. Estaria mesmo a sua espera ou seria muita pretensão de sua parte
imaginar tal coisa? Talvez não passasse de simples coincidência.
A fim de testá-lo, parou na calçada, olhou em ambas as direções e depois verificou
as horas em seu relógio de pulso. Se o estranho não estivesse à espera dela, a esta
altura, já teria seguido seu caminho. De relance, percebeu que ele continuava parado
em frente à livraria, atento aos movimentos dela.
Ansiosa, Laurian rumou para a esquerda, em passos normais, e,quando chegou ao
restaurante avistou através do espelho da vitrine, a imagem do desconhecido às suas
costas. Entrou, e percebeu que a maioria das mesas já estava ocupada por mulheres
elegantes, numa pausa entre as compras da tarde.
— Mesa para dois? — O maítre perguntou com naturalidade, imaginando que
Laurian se encontrava em companhia do homem parado ao seu lado. Nenhum deles
preocupou-se em esclarecer o mal-entendido. Caminharam até a mesa indicada e um
garçom se aproximou para atendê-lo. O desconhecido afastou a cadeira para Laurian
sentar-se.
— Espero que não se importe de dividir a mesa comigo. — Seu sotaque era inglês e
não americano.
— Absolutamente. A esta hora este restaurante costuma estar repleto — ela
explicou, sorrindo.
Colocou a sacola com os livros sob a cadeira e ajeitou a bolsa estilo italiano no
canto da mesa, apoiada na parede. Fazia parte da nova coleção de outono. Ao contrário
de muitos estilistas, ela própria desenhava os acessórios para seus modelos, de modo
que, ao comprar um vestido ou um conjunto, as mulheres não teriam dificuldade em
encontrar a bolsa e os sapatos adequados.
Laurian desenhava pensando em mulheres como ela. Mulheres ativas, que gostavam
de roupas práticas e de boa qualidade, mas que não tinham tempo nem disposição para
percorrerem lojas e butiques. A etiqueta Laurian as poupava dessa maratona e, apesar
de caros, seus modelos obedeciam ao estilo clássico, o que representava um
investimento a longo prazo.
Havia apenas um cardápio na mesa e ela o estudou rapidamente, embora já
soubesse de antemão o que pediria. Depois, entregou-o ao seu acompanhante.

5

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Enquanto, entretido, ele escolhia seu prato, Laurian observava os detalhes de sua
aparência. Os cabelos não eram grisalhos, mas o homem aparentava cerca de quarenta
e quatro anos, e suas feições lhe pareciam muito familiares.
Se tivessem se encontrado anteriormente, com certeza ela se lembraria, pois o
rosto dele era marcante e inesquecível. E poucos homens chegavam aos quarenta anos
com um físico perfeito, a menos que fossem atletas profissionais. Mas não era a época
apropriada para um esportista estar em Londres. Além do mais, não conseguia imaginar
um esportista fanático por livros.
O desconhecido tampouco era um artista. Nem um político. Quem seria? Onde já
vira aquele rosto tão expressivo?
O garçom se aproximou e assim que anotou os pedidos, Laurian acrescentou:
— Contas separadas, por favor.
Quando ficaram a sós novamente, o estranho disse:
— Você deve ter notado que não me sentei aqui por acaso e também que a segui
desde a livraria, não?
Seu olhar penetrante continha o mesmo magnetismo da primeira vez em que se
fitaram. A mensagem não deixava dúvidas. A atração era recíproca. Sorrindo, ela
negou com um movimento de cabeça.
— Não? — Havia um tom de perplexidade na voz dele. — Você me surpreende.
Seria capaz de apostar que costuma ser seguida todas as vezes em que sai à rua. O
que há de errado com os homens ingleses hoje em dia?
— Você não é inglês? Pensei que fosse.
— Bem, sou inglês por nascimento, mas não vivo aqui.
Antes que Laurian tivesse chance de perguntar-lhe onde morava, ele continuou:
— Até ouvi-la falar, pensei que fosse americana.
— Verdade? E por quê?
— Pernas bonitas... Cabelos penteados naturalmente... Suas roupas... Tudo em você
lembra uma americana, exceto seu sotaque.
— Digo o mesmo em relação a você. Suas roupas são próprias de um turista
americano. Ainda não reparei nos sapatos, mas aposto como também são típicos...
Rindo, ele esticou a perna, mostrando o sapato de couro, reconhecidamente de
primeira qualidade, aliás como toda a vestimenta, o que indicava que se tratava de um
homem rico.
— Parece que ambos compramos nossas roupas nos Estados Unidos — ele falou com
convicção. — Vai com freqüência aos Estados Unidos? A negócios ou lazer?
— Negócios. E você?
— Também. Considero os americanos como meus melhores clientes. Sou
proprietário de um hotel.

6

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Dessa vez, foi Laurian quem não escondeu a surpresa. Apesar de todo o charme,
não conseguia imaginá-lo lidando com hóspedes. Havia um toque de desafio no rosto
dele que lembrava uma tolerância limitada com pessoas cansativas ou inconvenientes.
— Estou intrigada — Laurian admitiu. — Será que já não nos vimos antes? Em Nova
Iorque, talvez... Tive essa impressão desde o momento em que nos encontramos na
livraria.
— Não creio. Se a tivesse visto antes, jamais a esqueceria. A menos que estivesse
usando um disfarce. É modelo, por acaso?
Laurian se conscientizou de que a forte atração entre ela e o desconhecido de
rosto familiar representava uma prova definitiva de que não deveria se envolver numa
relação mais íntima com Robert. Mesmo quando a beijava, Robert não despertava as
emoções que esse homem provocava simplesmente sentado à sua frente, olhando-a
com tanta intensidade como se quisesse beijá-la.
— Não. Não sou modelo. Atuo nos bastidores. Desenho roupas — explicou.
— Tão talentosa, quanto bonita. Por que não se casou?— questionou-a, notando a
ausência de anéis nos dedos dela. — Ou é comprometida?
— Não sou comprometida. — Tentou adivinhar como Robert reagiria se ouvisse
suas palavras. Não mentira, porém sabia que Robert esperava que as férias juntos se
transformassem numa lua-de-mel extra-oficial. — E você, é casado? — Perguntou,
reconhecendo que se tratava de uma conversa nada original, entre duas pessoas que
mal se conheciam.
— Nem esposa... Nem ex-esposas... Nem namoradas.
Nesse momento, o garçom trouxe os pedidos e ambos permaneceram em silêncio.
— À Livraria Hatchards — ele brindou, assim que o garçom se afastou. — E ao
acaso que nos conduziu até lá esta tarde — acrescentou, com um brilho intenso no
olhar.
— À Hatchards... Uma excelente livraria — Laurian confirmou.
— Acredita que tenha sido o acaso... Ou o destino — ele insistiu num tom sério.
— Não acredito em destino. Sorte... Sim! — Laurian retrucou, começando a comer
sua torrada com queijo.
A fome que sentira antes se evaporara, porém precisava de um pretexto para
fugir ao olhar insistente dele.
— Acho que é hora de nos apresentarmos. Meu nome é Oliver Thornham.
Oliver Thornham! Um nome que não ouvia há muitos anos, mas que jamais
esquecera... E que jamais esqueceria, mesmo que vivesse mil anos. Oliver Thornham... O
homem que a afastara da ilha, para depois tomá-la de seu pai.
O choque de encontrar o homem que, segundos atrás, parecia ser a personificação
de todos os seus sonhos de adolescente e dos quais, no fundo, não conseguira se

7

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

desligar, e que de repente se revelava como a pessoa a quem mais odiara em sua vida,
fez com que largasse os talheres, que caíram ruidosamente sobre o prato.
Após um longo momento, que mais pareceu uma eternidade, ergueu os olhos para
encará-lo, compreendendo o motivo pelo qual o achara tão familiar, embora sem
reconhecê-lo.
Laurian contava doze anos quando o vira pela primeira vez e, aos seus olhos de
menina, ele parecera um pirata descendo do iate Euphrozyne. E, tempos depois, agira
precisamente como um verdadeiro pirata.
Oliver a fitava ansioso, pensando que o atordoante e estranho silêncio dela tivesse
algo a ver com a comida.
— Algo errado? — indagou.
Laurian negou com um movimento de cabeça. Agora, observando-o melhor, tinha a
impressão de que inconscientemente recusara-se a reconhecê-lo, para não relembrar
do homem que lhe privara daquilo que mais amara na vida, sem a menor consideração
pela dor e pelo sofrimento causados a ela e seu pai.
Como se deixara enganar, mesmo que apenas por alguns momentos, quase
sucumbindo aos encantos daquele homem frio e cruel?
Oliver Thornham, numa tentativa de recuperar o clima de camaradagem, brincou:
— Bem, se não gostou do nome Oliver, tenho outro... James.
Uma lembrança longamente enterrada na memória de Laurian surgiu de repente,
como uma cena de um filme antigo. Reviu-se uma menina, de corpo franzino, apertando
a mão de um estranho, depois de se apresentar ao pai dela.
Nessa época, a única educação que recebera fora a que Archie lhe dispensara e o
que lera nos livros enviados à ilha pela livraria de Kingscote Abbey. E, na sua inocência
infantil, gostara do primeiro nome do desconhecido, associando-o ao Oliver, um dos
cavaleiros de Charlemagne e amigo do legendário Roland, assassinado em Roncesvalle,
no ano de setecentos e setenta e oito.
Porém, atrás do sorriso encantador e cativante, ele se revelara a antítese do
cavaleiro que lutava para preservar o código de honra da cavalaria.
Sentiu-se invadida por uma onda de raiva e, se não se afastasse rapidamente, não
conseguiria conter uma explosão. E isso seria muito ruim, pois, se alguém a
reconhecesse, provocaria uma publicidade negativa. Abriu a bolsa, pegou uma nota,
jogando-a sobre a mesa.
— Creio que é suficiente para pagar minha conta. Eu... Acabo de lembrar de um
compromisso importante. — Empurrou a cadeira, levantando-se de um salto.
— Poderia me explicar que compromisso tão importante é esse?
— Não. Por favor, deixe-me passar. — Num gesto instintivo cerrou os punhos.
Sabia que se não saísse logo seria capaz de agredi-lo fisicamente, tamanha sua
revolta.
8

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Vou ajudá-la a pegar um táxi. Na verdade, gostaria de acompanhá-la. — Colocou
a mão no bolso da calça e tirou a carteira.
Laurian teve vontade de gritar, ordenando que ele se mantivesse bem longe dela.
Entretanto, para evitar um escândalo, preferiu mostrar-se calma e polida:
— Não precisa se preocupar. Prefiro ir sozinha. Adeus.
Oliver, levantando-se, colocou-se à frente dela e, segurando-a pelo pulso, insistiu:
— Qual é seu nome e o número do seu telefone? Preciso vê-la novamente.
— Deixe-me passar! — repetiu, com os dentes cerrados. Ele não a soltou até o
momento em que Laurian disse num tom frio e alto o suficiente para que as pessoas
mais próximas ouvissem:
— Não seja inconveniente, sr. Thornham. O fato de termos sido obrigados a
dividir uma mesa não significa que deva conhecê-lo. Absolutamente não. Não tenho o
hábito de sentar-me com estranhos em restaurantes e você não é meu tipo. Fui clara?
Dezenas de rostos se voltaram na direção deles, conscientes de que algo estranho
estava acontecendo. Laurian sentiu-se satisfeita por expô-lo ao ridículo. Adoraria darse o prazer de denunciar em detalhes as maldades dele, porém mais uma vez conteve
seus impulsos. A despeito de sua raiva e revolta, não ignorava que tinha um nome e uma
reputação a zelar.
Com grande satisfação, notou um lampejo de contrariedade brilhar nos olhos
acinzentados de Oliver. Os maxilares se contraíram e, soltando-a, murmurou:
— Muito clara. — Afastou-se para lhe dar passagem, inclinando levemente a
cabeça num gesto de despedida.
Laurian atravessou o restaurante de cabeça erguida e ar de indiferença, como uma
modelo na passarela. Porém, no íntimo, começava a desmoronar.
Teve sorte. Assim que saiu à rua, avistou um táxi, que parou ao primeiro sinal.
— Por favor, dê a volta pelo parque — instruiu ao motorista. Queria certificar-se
de que Oliver Thornham não a seguia.
— Hyde Park ou Green Park, senhorita? — o homem indagou, observando-a pelo
espelho retrovisor.
— Oh... Green Park, e depois leve-me para Berkeley Street, por favor.
Marcara hora no cabeleireiro e sabia que seria atendida mesmo que chegasse
adiantada. Era uma cliente especial e, por mais lotado que o salão se encontrasse,
sempre haveria um lugar para Laurian sentar-se, uma xícara de café e uma revista. Lá
não seria incomodada.
Observou as árvores através da janela do táxi, perdendo-se nas lembranças do
passado, voltando, de repente, a ser a garota feliz de doze anos de idade.
— Archie...? Archie...? Onde você está?
A voz ansiosa de Laurian ecoou pela mansão que Archie Bradford construíra em
sua ilha nas índias Ocidentais. Sempre o tratara por Archie, jamais por papai. Na
9

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

verdade, tinha idade suficiente para ser seu avô, embora somente nos últimos anos os
cabelos e a longa barba começassem a embranquecer. E, com as partes da face visíveis
bronzeadas pelo sol, os cabelos brancos e os olhos azuis, precisava apenas de um
tridente e uma coroa para personificar o próprio deus do mar
Por esse motivo, quando, anos antes, um artista chegara à ilha e pintara o retrato
de Laurian, à beira da água, com os cabelos soltos, caindo-lhe pelas costas e as pernas
ocultas por uma pedra, denominara o quadro como A Filha de Netuno.
Dependurado na sala de visitas, era o único retrato de família que restara. O
acervo valioso dos ancestrais de Archie fora vendido para financiar o modo
extravagante como o pai vivera dos quarenta aos cinqüenta anos.
A mãe de Laurian, Ninette, fora sua última tentativa. Uma garota extremamente
bonita, filha de agricultores da Martinica, uma ilha de possessão francesa. Vivera com
Archie durante três anos, porém o abandonara, assim como à filha, partindo para Nova
York, com um homem que lhe garantira que faria fortuna como modelo.
Ele não se enganara. Ninette Bonnieux tornara-se famosa e requisitada no mundo
todo.
Laurian colecionava fotos de sua bela e famosa mãe, porém jamais a conhecera
pessoalmente. Ninette nunca mais voltara à ilha e tampouco demonstrara interesse
pela filha. Quando Laurian estava com nove anos, Archie lhe contara que a mãe
morrera num acidente. Ficara triste por algum tempo, porém a tragédia não chegara a
afetá-la. Era muito difícil sentir a perda da mãe a quem conhecia apenas por fotos.
— Archie... está chegando alguém!
Encontrou o pai na varanda, observando pelo telescópio o iate que se aproximava.
Um iate construído para cruzar os oceanos sob qualquer tempo.
Archie sorriu para a filha, que mais parecia um garoto. Num acesso de irritação e
cansada de escovar os longos cabelos, resolvera cortá-los curtos, de modo a não ter
muito trabalho para cuidá-los. Vestia short, camiseta desbotada e um canivete suíço
dependurado no cinto. Andava descalça e a sola dos pés eram endurecidas por anos
sem sapatos. Começava a entrar na puberdade, os ombros mais largos que os quadris,
as pernas e os braços longos demais e os seios despontando sob a camiseta.
— Dê uma olhada — o pai sugeriu.
Laurian precisou subir num caixote para alcançar o telescópio, montado sob um
tripé. Quando focalizou a embarcação, visualizou seu ocupante, que parecia ser alto,
bronzeado, com barbas longas como as de seu pai, porém escuras.
— Parece uma pessoa simpática. Vamos até a praia recebê-lo — Archie convidou-a,
afagando-lhe os cabelos curtos.
Sentiam-se felizes por receberem visitas. Faria muito bem a ambos. Percebera
que Archie não se mostrava tão alegre ultimamente, caindo em longos silêncios com
muita freqüência, em vez de contar suas costumeiras histórias. Nunca se cansava de
ouvir as aventuras fantásticas do pai, que começara aos dezesseis anos, quando
10

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

falsificara os documentos para ingressar na Marinha no início da Primeira Guerra
Mundial. Desde então, sua vida fora uma sucessão de aventura, muitas das quais
conhecia de cor, mas ainda assim adorava ouvi-lo repeti-las.
Talvez, naquela noite, se o desconhecido ficasse para jantar, Archie voltasse a rir,
a comer e beber como sempre.
Alguns minutos depois, o recém-chegado desembarcava na praia, cumprimentava
Archie e apertava também a pequena mão de Laurian.
— Como vai, Sr. Thornham?
— Bem. E você, Laurian?
A despeito de sua vida isolada, Laurian não era tímida, porém alguma coisa naquela
desconhecido fez com que se inibisse. Para desviar a atenção dele, comentou
rapidamente:
— Que barco bonito! Qual o nome?
— Euphrosyne.
— Lembra-se de quem foi Euphrosyne, Laurie? — seu pai indagou. Os mitos e
lendas gregas haviam substituído os contos de fadas em sua infância.
— Claro. Foi uma das Três Graças. As outras foram Thalia e Aglaia. Thalia era
quem trazia as flores. Não me lembro quem foi Aglaia, mas Euphrosyne era a
personificação da alegria.
Enquanto falava, Laurian percebeu uma expressão estranha, quase uma dor física,
atingir o rosto de Oliver. Talvez tivesse apenas imaginado a contração facial. Aliás,
Archie sempre repetia que ultimamente ela vivia imaginando coisas demais e
perguntando com freqüência se algo o preocupava.
— Que altura da Berkeley Street, senhorita?
A voz do motorista do táxi interrompeu os devaneios de Laurian. Alguns minutos
depois, pagava a corrida, entrando em seguida num dos salões de beleza mais
sofisticados de Londres.
Enquanto esperava que o cabeleireiro terminasse de atender uma cliente, Laurian
folheava uma revista.
De repente, lembrou-se dos livros que comprara e esquecera no restaurante.
— Droga! — resmungou em voz alta.
Havia tempo suficiente para voltar ao restaurante, porém não pretendia correr o
risco de encontrar Oliver Thornham de novo. Queria evitá-lo a todo custo. Dirigiu-se à
recepção e ligou para o restaurante, de onde informaram que os livros haviam sido
encontrados, e estavam à disposição dela. Depois, telefonou para uma firma de
entregas e em menos de uma hora os livros já estavam em suas mãos. O mensageiro
entrou no salão, pedindo para falar pessoalmente com Laurian.
— Srta. Bradford? — Entregou-lhe a sacola. — Há uma carta para a senhorita. —
Tirou um envelope do bolso, entregando-lhe.
11

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

O rapaz se afastou e Laurian esperou até que a funcionária terminasse de enxugar
seus cabelos, para abri-lo. Dentro, havia uma nota de cinco pounds, que deixara sobre
a mesa, e um bilhete.
“Não posso permitir que pague por uma refeição que não comeu porque a aborreci
por algum motivo que desconheço. Partirei de Londres amanhã cedo. Tenho certeza de
que a encontrarei, pois acredito não existirem muitas estilistas de moda com sua
aparência. Se achar que mereço uma explicação, e você sabe que me encorajou, poderá
entrar em contato comigo através deste número de telefone até o meio-dia de
amanhã. Também não acredito em destino, porém sinto que precisamos nos ver de
novo. Oliver Thornham.”
O prefixo do telefone era de Mayfair, o que significava que ele se hospedava em
um dos hotéis das imediações. Talvez Ritz ou Brown's. Esse fato confirmava a
impressão de que se tratava de um homem rico.
Quando chegara à ilha, Oliver contava pouco mais de vinte anos e um iate do estilo
do Euphrosyne equivalia a uma grande importância em dinheiro. Induzira Archie a lhe
vender a ilha por um preço irrisório e sem dúvida a vendera algum tempo depois por
um valor dezenas de vezes superior ao que pagara. Quando se apresentara como um
hoteleiro, provavelmente se referira a uma cadeia de hotéis.
Lembrou-se de como Oliver Thornham brincara com o medo que Archie, com mais
de setenta anos, sentia ao pensar que talvez não vivesse até a época em que Laurian
atingisse sua independência financeira. Tal pensamento causou-lhe náuseas, da mesma
maneira como a revoltara anos atrás, quando compreendeu o quanto Oliver fora
ingrato com seu pai.
Com dedos trêmulos, rasgou o papel em pedaços.
Laurian atravessou as águas azuis da lagoa com a facilidade de quem se habituara a
nadar desde bebê. Archie decidira que sua filha deveria viver como um garoto dentro
e fora da água. Quando Archie convidara Oliver a permanecer na ilha pelo tempo que
desejasse, Euphrosyne ficara ancorado na parte mais profunda da lagoa, a cerca de
um quilômetro da ilha, quase a mesma distância até um hotel localizado numa ilha
maior, para onde ele se dirigia com freqüência.
— Não espere que ele passe todo o tempo ao lado de um velho confuso como eu e
uma menina — Archie comentou na primeira vez em que Oliver avisou que não jantaria
com eles, pois fora convidado para um churrasco no Emerald Beach.
— Bem que gostaria de ir junto — Laurian respondeu ansiosa. — E você?
— Só iríamos atrapalhar, querida. Na verdade, não é o churrasco que o interessa,
mas sim as garotas. Um jovem saudável como ele precisa de companhia feminina. —
Archie suspirou. — Ah... Se eu tivesse vinte e cinco anos... Durante muitas semanas, Laurian sentira-se tão feliz quanto o pai com a presença
de Oliver. Entretanto, nadava em direção ao iate revoltada e desejando jamais ter
conhecido Oliver Thornham.
12

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Estava quase sem fôlego quando se aproximou do Euphrosyne. Oliver, que a
avistara, estendeu-lhe a mão, ajudando-a a subir a bordo.
— O que a trouxe até aqui, Ouriço-do-Mar? — indagou, puxando-a para o convés.
Tratou-a pelo apelido que lhe dera dias depois de sua chegada.
Ainda sentia-se cansada demais para falar. Nadara muitos quilômetros e precisava
recobrar o fôlego. Balançou a cabeça como um cachorrinho, espirrando água por todos
os lados. Quando, finalmente, conseguiu falar, gritou:
— Seu porco! Seu porco sujo e desprezível!
Oliver a encarou surpreso.
— Acusações muito graves, Ouriço-do-Mar. Qual o problema?
— Nenhum — retrucou num tom agressivo. — Apenas acho que você é... Um
bastardo — pronunciou a palavra, a pior que conhecia com evidente desprezo.
Desde o início, considerara Oliver seu herói. Um aventureiro destemido e elegante
como todos os seus ídolos, com a diferença de que estes, ou já haviam morrido ou
então não passavam de figuras de ficção, enquanto Oliver era um homem de carne e
osso, despertando novas e estranhas emoções dentro dela. Contudo, agora acreditava
que ele, somente ele, deveria ser o autor do plano que Archie lhe expusera e que
significava muito mais do que Laurian poderia suportar.
— Imagino que seu pai já lhe contou que vai mandá-la para a escola — Oliver
afirmou, impassível.
— Apenas porque você colocou essa idéia maluca na cabeça dele. Minha educação...
Ora, estou sendo muito bem-educada aqui. Quando tinha minha idade, você lia em
francês e espanhol?
Archie falava fluentemente cinco idiomas aprendidos da melhor maneira possível,
isto é, convivendo com o povo desses países. Antes mesmo de aprender a ler inglês, ele
já começara a lhe ensinar francês e espanhol.
— Não, não lia — Oliver admitiu. — Mas você precisa muito mais do que isso,
querida.
— Na sua opinião. Sei que freqüentou a mesma escola que Archie e, embora você
não tenha sido expulso, não aprendeu nem a metade do que aprendi com meu pai.
— Aprendi muitas coisas que você desconhece.
— Ainda posso aprender. Sei as quatro operações e a tabuada.
— Entretanto, não sabe como usar uma calculadora, o que hoje é absolutamente
imprescindível. Também não sabe nada sobre geometria, álgebra, química e física —
Oliver ponderou, num tom apaziguador.
— Nem quero aprender! — a resposta veio rápida. — Sei muito bem o que desejo
fazer quando crescer. Quero ser pintora. E não precisarei aprender nada a respeito
desses assuntos aborrecidos.
— Por que acha que são assuntos aborrecidos?
13

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Ora, porque Archie me disse.
— São aborrecidos para ele... Talvez não sejam para você. Algumas pessoas os
acham fascinantes. E ainda é jovem demais para decidir sobre sua própria vida. —
Laurian tentou interrompê-lo, porém Oliver não permitiu. — Fique quietinha e deixeme terminar. Você vive fora do seu tempo e da realidade, minha criança. A despeito
das palavras rudes como bastardo ou porco desprezível e parecer um espantalho a
maior parte do tempo, você lembra mais um garoto da época do rei Eduardo VII do
que uma menina dos dias de hoje. Já é tempo de conviver com outras garotas da sua
idade e aprender a enfrentar a vida moderna.
— Sou perfeitamente capaz de enfrentá-la! — Laurian rebateu com ênfase. — Sei
nadar, pescar, lidar com barcos. Sou ótima em costura e cozinho uma quantidade de
pratos franceses. Não tenho medo do escuro e sei manejar o revólver de Archie. Se
ele precisar se ausentar, como aconteceu uma vez quando eu era criança, poderei
muito bem ficar sozinha na ilha. Sei cuidar de mim mesma. Aposto que as garotas da
minha idade, na Inglaterra, não sabem nem metade das coisas que sei.
— Provavelmente não — Oliver assentiu. — O problema é que Archie é muito mais
velho do que os pais da maioria das garotas da sua idade. Ele pode partir para
sempre... Poderá morrer, Laurian. E então? Como você ficará?
Ela tremeu só ao pensar na possibilidade da morte do pai; entretanto, respondeu
com voz firme:
— Como sempre fiquei... No lugar ao qual pertenço. Na nossa ilha. Não pretendo ir
para nenhum outro lugar. Sou completamente feliz aqui. Ou pelo menos era, até você
chegar e colocar idéias malucas na cabeça de Archie. Por que ele deveria morrer?
Jamais esteve doente em toda sua vida. O pai dele viveu até quase noventa anos.
Todos os Bradford têm vida longa.
Oliver não encontrou uma resposta adequada. Após um breve silêncio, explicou:
— A idéia de mandá-la para a escola não é minha, Ouriço. Já existia antes de minha
chegada. Não me culpe por algo que não mereço. Quer beber um refrigerante gelado?
O sol do meio-dia já secara o maio desbotado de Laurian.
— Não, obrigada — respondeu com altivez. Oliver caçoou dela.
— Você está se comportando como uma criança e sabe muito bem disso. Vai gostar
muito do colégio. Aprenderá a jogar tênis e a cavalgar. Participará da equipe de
natação. Há um mundo novo e extremamente excitante a sua espera.
— E Archie? — Não desistia de contradizê-lo. — O que fará depois de minha
partida? Você não viverá para sempre na ilha. Então, ele ficará sozinho.
— Poderá fechar a casa e viajar comigo. Ou, talvez, eu frete meu iate e ainda
permaneça por mais algum tempo aqui... ajudando-o na conservação do lugar, que está
em péssimo estado, caso você não tenha percebido.
— É problema nosso. Gostamos daqui do jeito que está. — No fundo, Laurian
reconhecia que Oliver tinha razão. A casa começava a ser dilapidada e precisava com
14

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

urgência de consertos e pintura. Entretanto, ela e Archie tinham coisas mais
importantes para fazer, do que passar o tempo removendo teias de aranhas ou
matando baratas nos cômodos há longo tempo mantidos fechados.
De repente, desejou mudar de idéia e aceitar a oferta de um refrigerante. O
esforço de nadar deixara-a com sede. Doía-lhe a cabeça e também sentia aquela dor
no baixo-ventre e que a incomodava nos últimos dias. Tentara mostrar-se forte,
porém, agora, não conseguia controlar sua mágoa.
— Oh... por que não vai embora e nos deixa em paz? Não o queremos por aqui...
interferindo em nossas vidas... mudando tudo... — Laurian gritou entre lágrimas.
Incapaz de continuar aquela discussão, atirou-se no mar e nadou de volta à ilha.
Horas depois, sentiu uma fraqueza entre as pernas e, verificando, percebeu que
sangrava. Não se sentiu chocada. Archie lhe explicara as mudanças que ocorreriam em
seu corpo. Agora, não era mais uma menina e sim uma mulher. Poderia até ter um bebê.
Nesse ponto, seu pai não a esclarecera muito. Dissera-lhe que encontraria tudo o que
precisaria saber na enciclopédia médica editada cerca de quarenta anos atrás e que
explicava mais sobre picadas de cobras e venenos do que o significado do sexo.
Alguns dias antes havia questionado Oliver a respeito de certas coisas que a
intrigavam. Acreditara estar apaixonada por ele e perguntava-se até que idade teria
que esperar até que Oliver também se apaixonasse por ela.
Como seus sentimentos haviam mudado! Sentia-se traída pôr Oliver. Convencerase de que fora dele a idéia de mandá-la para a fria, úmida, desolada e longínqua
Inglaterra.
Todas essas lembranças afloraram no percurso de táxi do cabeleireiro até a casa
que dividia com Robert Adstock. E, afinal, precisava admitir que, apesar de tudo,
Oliver tivera razão em todos os seus argumentos.
Um ano após ter deixado a ilha, já começara a gostar da nova vida, entre garotas
de sua idade e se dedicando com afinco aos estudos. Entendera que sem uma educação
tradicional e sem boas notas, jamais seria aceita no Royal College of Art.
O que nunca conseguiria esquecer era o verdadeiro motivo pelo qual Oliver
convencera Archie a enviá-la para a Inglaterra. Longe de estar desinteressadamente
preocupado com o futuro de Laurian, ele fora motivado por interesses próprios e
escusos. Desde o início, percebera que a ilha representava uma mina de ouro em
potencial e a comprara por um preço muito abaixo do mercado imobiliário.
Ela e Robert viviam em Spitalfields, localizada na parte antiga da cidade e até
pouco tempo habitada somente por pessoas pobres. Porém, ultimamente, como muitos
pontos antigos de Londres, de repente tornara-se sinônimo de viver bem.
Com mais três estudantes, Robert e Laurian haviam alugado a casa quase em ruínas
e, com recursos próprios, reformaram-na, deixando-a habitável, com um quarto para
cada um, dividindo apenas o banheiro e a cozinha.

15

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Depois, um dos rapazes aceitara um emprego em Nova York e os demais
resolveram dividir a casa em pequenos apartamentos, com suas próprias cozinhas e
banheiros. Laurian e Cândida ocupavam o andar superior e Robert e Pete, o térreo.
Finalmente, Cândida casara-se com um neozelandês e Pete fora trabalhar em outra
cidade, de modo que Laurian e Robert permaneceram como os únicos moradores da
casa. O hall de entrada era comum a ambos e assim que Laurian entrou, aproximou-se
do consolo para verificar a correspondência. Nesse instante, uma porta se abriu e um
homem louro, com cerca de trinta anos, surgiu.
— Aceita um drinque antes de subir? Seu cabelo está ótimo, porém você parece
um pouco abatida, querida. Trabalhou muito? Deite-se e descanse antes de se arrumar
para o jantar.
— Alô, Robert — Laurian cumprimentou-o, entrando na sala de visitas do
apartamento dele. Mostrou-lhe a sacola com os livros. — Para ler durante as férias. —
Sentia uma pontada na consciência ao se lembrar de que quase desistira da viagem.
— Que ótimo. O que quer beber? Gim-tônica?
— Só tônica. O gim poderá subir direto para minha cabeça. Hoje não almocei.
— Então, vou lhe preparar um sanduíche. Sente-se e fique à vontade. —
Gentilmente, Robert a conduziu até o sofá, acomodou-a tirando-lhe os sapatos e
ajeitando seus pés nas almofadas. — Você exige demais de si mesma. Amanhã, porém,
já estará de folga e esta será sua grande noite.
Ele caminhou em direção à cozinha e Laurian relaxou os músculos. Robert também
se dedicava demais ao trabalho e ela reconheceu que essa dedicação exagerada deviase ao fato de que ambos não possuíam uma vida particular.
Robert era um designer de móveis e também super dedicado à atividade.
Ele retornou com um copo de leite e alguns sanduíches.
— Acho que é suficiente para reforçar seu estômago até a hora do jantar. Já fez
suas malas?
— Sim. Arrumei tudo ontem à noite. E como foi seu dia?
Laurian ouvia o relato do dia atribulado de Robert com atenção. Apesar de
atuarem em campos diferentes, sempre trocavam idéias sobre suas atividades.
— Visitei Celie hoje pela manhã — ele finalizou. — Pareceu-me muito bem.
Laurian sabia tudo a respeito de Celie, a ex-esposa dele com quem havia se casado
aos dezenove anos. Naturais de uma pequena cidade do norte, onde o casamento
tradicional, com noivado e vestido branco, ainda era imprescindível, ambos foram
pressionados pelas respectivas famílias, após descobrirem que Celie engravidara.
Depois de casados, foram para Londres, porém logo perceberam que o casamento fora
um erro. Dois anos mais tarde, ela conheceu um homem divorciado, com um filho
adolescente, e, após divorciar-se de Robert, se casara novamente. Agora, tinha outro
bebê com o segundo marido e sua filha com Robert gostava do padrasto como de um
verdadeiro pai, considerando Robert uma espécie de tio, a quem não via com muita
16

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

freqüência. No fundo, tanto Celie quanto Robert estavam contentes por um erro da
juventude não lhes ter destruído a vida e as esperanças de serem felizes. Talvez
devido a essa experiência mal sucedida como pai, não tencionava ter mais filhos no
futuro.
Essa decisão incomodava a Laurian. Durante cinco anos, passara suas férias
escolares no lar do Dr. Lingfield, integrada à família unida e numerosa, e sonhava em
ter sua própria família.
Preparava-se para falar a Robert sobre o homem que encontrara na livraria, porém
este não lhe deu chance.
— Contei a Celie sobre o jantar desta noite e ela me perguntou o que você usará,
mas não pude adiantar nada, pois nem eu mesmo sei.
— Bem, uma vez que você faz tanto segredo a respeito do local que escolheu para
nossas férias, terá de esperar para ver meu traje de gala...
— Tenho certeza de que vencerá o concurso — ele afirmou com convicção. — Aliás,
estou curioso para ver o vestido da princesa. Imagino que nada assinado pelos
finalistas.
— Concordo. A menos que já conheça o nome do vencedor. Acredito mesmo que
saiba o resultado com antecedência. Agora, melhor subir e tomar meu banho. —
Levantou-se, com as energias renovadas pelo lanche. — Descerei por volta das sete.
— Certo. Se precisar de ajuda é só me chamar — Robert se ofereceu,
acompanhando-a até a porta.
— Obrigada. — Laurian se despediu, dirigindo-se ao seu apartamento.
Enquanto tomava banho, não pôde evitar de pensar em Oliver Thornham e no
bilhete que escrevera. Embora tivesse rasgado o papel, lembrava-se do número do
telefone. Arrependia-se por não ter explicado o motivo pelo qual o deixara sozinho no
restaurante, porém não tencionava lhe telefonar. Não só porque não havia tempo,
como também lhe agradava imaginá-lo curioso por saber por que uma mulher que
parecera sucumbir ao seu charme irresistível, de repente o rejeitara sem explicações.
“Sinto que precisamos nos ver de novo”, ele escrevera.
— Não, se depender de mim — Laurian falou em voz alta, esforçando-se para se
concentrar no que deveria dizer, caso vencesse o concurso... Ou se o perdesse...

CAPÍTULO II

Robert tocou de leve no braço de Laurian.
— Você esteve simplesmente maravilhosa... Maravilhosa e elegantíssima.
17

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

O jantar terminara e voltavam para casa de táxi. Ele a enlaçava e Laurian aparava
a cabeça em seu ombro.
— O segredo todo é este veludo de seda! — Laurian justificou. — Este tecido
esteve na moda na época da Segunda Guerra Mundial e depois foi substituído por
outras fibras, porém nada conseguiu superar o seu efeito clássico. Este vestido foi
confeccionado com uma peça dos anos trinta que comprei em um antiquário logo que
cheguei em Londres e guardava para uma ocasião realmente especial.
— E nunca houve uma oportunidade mais especial do que esta noite. A princesa se
mostrou surpresa e você também. Aliás, foi muito ousado de sua parte usar algo tão
simples em contraste com o traje que criou para ela.
— Vibrei com o fato de ela usá-lo — Laurian confessou. — A seda da blusa era mais
um tesouro de tecido antigo.
— Todos comentaram a respeito do seu senso de cores — Robert comentou com
admiração.
— O crédito pertence a quem desenhou os padrões na seda. — Sua voz soou
carregada de modéstia.
Laurian adquirira o tecido numa pequena cidade há alguns anos. Na ocasião,
ninguém se interessava pelos poucos metros de seda francesa protegido por papel
celofane para não se estragar.
— Sulferino, azul e púrpura... Que falta de gosto na combinação de cores. —
Laurian ouvira alguém comentar, porém, depois do modelo confeccionado, reconhecia
que as três cores fortes combinaram numa vibração perfeita.
E, após anunciar o resultado do concurso, a princesa de Gales admitira estar
usando um modelo da vencedora. Em seguida, chamou por Laurian a fim de entregarlhe o prêmio. Robert estreitou-a ainda mais nos braços e falou:
— Fiquei muito orgulhoso de você esta noite. Tão calma e segura de si... E muito
bonita!
— Obrigada. Estou contente por ter conseguido aparentar uma calma que não
sentia.
— Percebi que mal tocou no jantar. Não está com fome? Posso lhe preparar outro
sanduíche, quando chegarmos.
Laurian negou com um movimento de cabeça, sensibilizada com a preocupação dele.
— Comi o suficiente para alimentar meu corpo e minha alma. Não se preocupe,
obrigada.
Estavam sentados em um canto do banco, livres do olhar do motorista pelo espelho
retrovisor. Robert começou a beijá-la, enquanto a enlaçava com mais força.
Essas carícias eram gentis, até mesmo provocantes, como se ele esperasse por um
sinal que indicasse o que Laurian desejava que acontecesse em seguida. Porém, apesar

18

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

de permitir que Robert continuasse os beijos e carinhos e até mesmo sentir-se grata
pelas demonstrações de afeto, ela não conseguia corresponder com ardor ou paixão.
— Você está sempre tão perfumada... — sussurrou, beijando-lhe o pescoço e a
orelha.
— Querido Robert... Você me consideraria um monstro se deixarmos a taça de
champanhe para outro dia? — Ele deixara uma garrafa na geladeira com a promessa de
abri-la, caso Laurian vencesse o concurso. — Estou exausta e gostaria de chegar em
casa e ir direto para a cama.
Interrompendo os beijos e sem esconder o desapontamento, ele balbuciou:
— Não... Claro que não... Entendo.
Laurian sentiu-se culpada, pois sabia perfeitamente que Robert esperava que
terminassem a noite juntos na mesma cama. Porém, sempre deixara bem claro que
eram apenas amigos e vizinhos. Talvez, durante as férias, em que passariam quinze
dias juntos, mudasse de idéia e desejasse talvez fazer amor com ele.
Mas não naquela noite. Não depois de uma aparição pública, com dezenas de
repórteres e câmeras de televisão ao seu redor. Fora um impulso muito importante
para sua carreira, porém realmente não gostara de ter sido alvo das atenções e
olhares gerais. Preferia continuar uma pessoa anônima, e não uma celebridade. O táxi
parou em frente à casa deles. Robert desceu, ajudando-a a sair. Enquanto ele pagava o
motorista, Laurian abriu a porta com sua chave. Robert a seguiu para dentro, fechando
a porta. Parando no primeiro degrau da escada, ela se voltou para o amigo.
— Não poderia desejar acompanhante mais charmoso e atencioso. Obrigada por me
acompanhar, Robert. Você representa um apoio incrível.
— Jamais perderia uma festa como essa. — Aproximou-se mais. — Vou lhe dar um
beijo de boa noite — Robert disse, tomando-a com força em seus braços.
Com um ímpeto nunca antes demonstrado, Robert cobriu sua boca com uma
ansiedade e desejo intensos, forçando-a a entreabrir os lábios.
Quando finalmente as carícias foram interrompidas, Laurian afastou-se com
delicadeza.
Tentara de todas as maneiras corresponder às carícias de Robert, porém elas
nada lhe despertavam.
— Não se esqueça de pôr o relógio para despertar. Durma bem. Boa noite.
Esperou que ela subisse as escadas e entrasse em seu apartamento. Só então
afastou-se.
Quando o alarme soou na manhã seguinte, Laurian travou o relógio, aninhando-se
mais entre os lençóis. Seu quarto localizava-se no alto da casa e, todas as noites,
antes de deitar, ela abria as cortinas de modo a ser acordada pelo sol quando as
nuvens tão comuns na maior parte dos dias londrinos não o encobriam.

19

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Ainda sentia falta do sol, do calor e das águas cristalinas do Caribe. Três vezes
por semana costumava nadar num clube para manter seus músculos em forma, porém
considerava esse hábito como um exercício necessário e não um lazer.
Apesar do cansaço, não dormira bem. Ainda não se levantara quando o telefone
tocou.
— Alô? — Esperava ouvir a voz de Robert, certificando-se de que ela não perdera
a hora.
— Laurian, querida... Parabéns! A notícia já está em todos os jornais. Estou tão
feliz... E muito, muito orgulhosa de você.
Era sua mãe adotiva, ligando de Yorkshire.
— Alô, Ma. Tencionava telefonar mais tarde.
Assim como os quatro filhos de Bárbara, Laurian a tratava por “Ma” e a amava
como se fosse sua verdadeira mãe. Na verdade, exercera a primeira influência
feminina na vida de Laurian, apoiando-a naquele terrível primeiro ano em que vivera
separada de seu pai e depois da morte dele.
Depois de querer saber todos os detalhes da festa, a Sra. Lingfield explicou:
— Bill não está em casa no momento, mas ligará assim que voltar. Ainda vai viajar
com Robert Adstock?
Apesar de uma mulher culta, Laurian sabia que Ma não aprovava certas regras de
comportamento e de moral.
— Nosso vôo parte às dez horas, mas ainda não sei para onde vamos. Robert
insiste em fazer mistério sobre essa viagem. Sei que não lhe agrada a idéia dessa
minha viagem sozinha com Robert, mas, por favor, não se preocupe com isso.
— Querida, você já é adulta o suficiente para saber conduzir sua própria vida. Não
tenho o direito de interferir ou mesmo aconselhar. O que desejo a você e às minhas
filhas é tudo aquilo que eu tive... O privilégio de amar e ser amada.
— Amar geralmente significa lágrimas — Laurian respondeu, pensando no
sofrimento das garotas após um romance terminado.
— Refiro-me ao amor verdadeiro e não a uma paixão louca — Bárbara afirmou, não
pela primeira vez. — O importante é perguntar-se: “Ele é gentil? Ele me faz rir?
Temos assunto para conversarmos quando não estamos um nos braços do outro?”
— Robert é gentil, o que não falta é assunto para discutirmos. Jamais ficamos em
silêncio.
Não acrescentou que ele não a fazia rir, apesar das passagens divertidas que às
vezes comentava. Entretanto, sua mãe adotiva não se referia a esse tipo de
brincadeira. A família Lingfield possuía um intenso senso de humor e Laurian, nos anos
em que vivera com eles, rira mais do que em toda sua vida.
— Sim, vocês têm muito em comum, mas não creio que esteja apaixonada por ele,
Laurian. Ele não faz o sol brilhar para você, a despeito do tempo reinante, mas Bill
20

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

ainda faz isso por mim. Claro que não o tempo todo. Afinal, também temos nossos altos
e baixos. Porém, nas raras ocasiões em que nós permanecemos separados, contamos os
minutos para nos reencontrarmos... E, olhe, isso tudo depois de trinta e três anos!
Algumas pessoas ainda vivem felizes para sempre, querida, apesar de os mais céticos
afirmarem que os índices de divórcios aumentam diariamente.
— Concordo e reconheço que você e o papai são a prova viva de que o amor
verdadeiro existe. Entretanto, você precisou escolher entre o casamento e a carreira.
E, como já ouvi repetir inúmeras vezes, não se pode ter tudo na vida. Bem, ainda não
me levantei e a esta hora já deveria estar pronta para viajar. Obrigada pelo
telefonema. Enviarei um cartão-postal tão logo chegue ao meu misterioso destino.
Assim que se despediram, Laurian levantou-se e, enquanto tomava seu banho,
pensou que talvez não fosse muito conveniente viajar na manhã seguinte a sua
premiação. Sabia que deveria estar presente ao Wogan à noite, caso permanecesse em
Londres. Não participando do programa de entrevistas de maior audiência da televisão
inglesa, seus colaboradores acreditavam que ela perderia uma importante
oportunidade para promover a etiqueta Laurian. Não se preocupava com isso, pois
tinha certeza de que a convidariam tão logo retornasse das férias.
— Sr. Adstock, sua secretária chama-o ao telefone. Parece urgente.
Robert interrompeu a leitura do jornal quando a recepcionista se aproximou.
Largou-o no sofá da sala de espera do aeroporto.
— O que terá acontecido de tão grave que Jim não possa resolver? Não demoro.
Nessa altura, Laurian já sabia que não viajariam para o Leste, como imaginara, mas
sim para o Ocidente através do Atlântico. O destino era Antígua, a ilha onde vinte
anos atrás pegara o avião que a levara para a Inglaterra. Fora um choque descobrir
que Robert pretendia levá-la ao Caribe e esforçara-se ao máximo para disfarçar a
contrariedade para não estragar a surpresa que ele planejara cuidadosamente para
ela.
Não falara a respeito de sua infância com Robert, Era um assunto que jamais
discutira com alguém, nem mesmo com Jenny, David e Neal Lingfield, já adolescentes
quando os conhecera. Suzie, a caçula, nascera quando Bárbara não imaginava
engravidar novamente.
Quando Robert retornou à sala de espera, parecia aborrecido e preocupado.
— O que aconteceu? — perguntou assim que ele se sentou no sofá.
— Nada relacionado com o escritório. Minha irmã ligou para minha secretária
pedindo para me localizar. Meu pai sofreu um enfarte e está na unidade de terapia
intensiva. Parece que não corre perigo de vida, porém mãe gostaria que eu ficasse ao
lado dela. Sinto muito, Laurian, mas preciso ir para casa.
— Claro, se alugarmos um carro, chegaremos lá em poucas horas. — Laurian
começou a reunir suas malas, sem saber ao certo se sentia alívio ou desapontamento
com o cancelamento de seu retorno às índias Ocidentais.
21

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Não, não... Não precisa ir comigo. Não quero que mude nossos planos. Vou ao seu
encontro assim que puder.
— Nem me passa pela cabeça viajar sem você! Insisto em acompanhá-lo.
Poderemos nos revesar ao volante e, quando chegarmos lá, sempre poderei ser útil...
fazendo compras... Cozinhando...
— Agradeço seu oferecimento, Laurian... Mas não. Sua presença somente
complicaria as coisas.
— Como assim?
Ele tomou-lhe as mãos.
— Não creio que você entenderia o meio de onde vim. Hoje meus pais moram numa
casa confortável, porém, durante anos viveram numa casa minúscula com banheiro na
parte exterior.
— Então é isso? Qual é o problema? Muitas pessoas viveram assim e creio que
milhões ainda vivem. E, pelo que me contou a respeito de sua mãe, aposto que ela nunca
conviveu com baratas na cozinha. Cresci com elas correndo pela casa inteira.
— Verdade? — Robert mostrou-se surpreso por um momento, porém, apressou-se
em acrescentar: — Acho que está exagerando. Pelo que conheço a seu respeito,
imagino que sua família pertence à classe média alta. E o fato de receber uma pessoa
de um nível superior, especialmente estilista famosa como você, só aumentaria as
preocupações de mamãe. Aliás, ela não sabe a nosso respeito e não creio que este seja
o momento adequado para lhe contar. Por favor, Laurian, faça o que estou pedindo. Vá
sem mim.
— Mas, Robert...
— Não discuta comigo. Quero que vá e assunto encerrado. Detesto voltar para
casa. Odeio. Não pertenço mais aquele lugar. E sei que, apesar de preocupado com a
saúde de papai, minha mãe ainda vai me recriminar pelo meu divórcio. Me sentirei
melhor sabendo que você está aproveitando as férias que planejei. Fará isso por mim...
Não fará?
Era difícil recusar o apelo expresso nos olhos dele. Laurian começava a perceber
que Robert vivia emoções conflitantes em relação à origem humilde e aos pais e
precisava respeitar os sentimentos dele.
— Tudo bem... Vou sozinha — decidiu.
— Ótimo. Pegue sua passagem. Quando explicar a situação, tenho certeza de que
trocarão a minha. Vai precisar também das cartas confirmando nossas reservas no
hotel. Está tudo aqui. — Entregou-lhe um envelope. — Telefono à noite.
Dez minutos depois, ainda sentindo o calor do beijo de Robert em seus lábios,
Laurian se encontrava acomodada numa poltrona de primeira classe, com um cálice de
sherry nas mãos, rumo ao Caribe.
O vôo durou oito horas, mas, devido ao fuso horário, ainda era dia quando o avião
aterrissou. Saindo do conforto do ar-condicionado para enfrentar o calor da tarde
22

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

caribenha, Laurian se lembrou do momento em que, da porta do avião, acenou
despedindo-se de Archie.
Se tivesse desconfiado que fosse a última vez que veria seu pai, teria escapado do
avião, e se recusado a separar-se dele.
Quando as cartas semanais pararam de chegar, preocupando-a, os Lingfield lhe
contaram que Archie morrera de uma parada cardíaca. Parada cardíaca... Ou desgosto
por ter perdido sua ilha e sua filha? Laurian nunca duvidara que essa fora a verdadeira
causa da morte do pai.
Intimamente, jurou que um dia faria Oliver pagar por todo o mal que causara,
atingindo seu coração, se é que possuía um.
O desejo inicial de vingança aos poucos foi se dissipando; até esfriar por completo.
Porém, assim que entrou no táxi que a levaria para o hotel, onde pernoitaria, Oliver
voltou a ocupar seus pensamentos. Durante o vôo, descobrira que não passariam as
férias em Antígua, e que depois de um outro vôo rápido, se hospedariam em um hotel
em Emerald Beach, próximo à ilha que Oliver roubara dela e de Archie. Considerava
como roubo o fato de alguém comprar algo por um preço irrisório, mesmo consciente
do seu valor real.
— Já esteve antes em Antígua, senhorita? — o motorista indagou.
— Sim, uma vez... Há muito tempo... — Inclinou-se, apoiando os braços no encosto
do banco da frente, questionando-o a respeito das mudanças que haviam ocorrido
desde a sua partida.
Vestindo uma camiseta para proteger os ombros e as costas do sol forte, com as
pernas já bronzeadas, Laurian observava o mar em frente ao Emerald Beach Hotel.
Daquele local, podia ver o pedaço de praia com águas azul-esverdeadas, onde o
Euphrosyne permanecera ancorado. Além do promontório, fora do alcance de sua vista,
localizava-se a ilha onde nascera. Naquela tarde, a bordo do barco colocado à
disposição dos hóspedes do hotel, iria até um ponto de onde poderia verificar em que
se transformara a sua ilha depois que Oliver se apossara dela.
Através de sondagens discretas entre a criadagem do hotel, descobrira que a ilha,
outrora conhecida como Bradford's Place, agora se chamava Palm Reef Club e que
pertencia ao Sr. Thornham.
E uma hóspede, com uma pequena fortuna em anéis, lhe contara que, a princípio, o
local que escolhera para passar as férias fora o Palm Reef.
— Recebi uma carta explicando que não tinham mais vagas, porém não acreditei.
Acho que simplesmente não quiseram me hospedar.
— E por que fariam isso, Sra. Lansing?
— Bem, querida, sou, como se costuma dizer, nova-rica. Por ter, meu último marido,
era filho de imigrantes russos. Não os conheci, mas sei que eram muito pobres quando
chegaram nos Estados Unidos. E o Palm Reef é um clube muito fechado. Você precisa
ter sangue-azul, ser um chefe de Estado ou uma estrela como Meryl Streep para se
23

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

hospedar lá. Li no Town & Country que é o local mais exclusivo do Caribe... Um local
onde as personalidades sabem que encontrarão somente outras personalidades e onde
estarão em total segurança. Nunca esperei que me aceitassem, mas valeu à pena
tentar.
Apesar de ter se adaptado rapidamente ao sol e ao calor, o corpo de Laurian ainda
se ressentia da diferença de horários. Naquela manhã, lendo na cama até haver
claridade suficiente para sair e caminhar pela praia deserta, a fim de ver o sol nascer,
ela admitiu que não poderia deixar de verificar pessoalmente o reino de privilégio, luxo
e poder que Oliver Thornham criara.
E fora isso que a fizera decidir-se em definitivo permanecer duas semanas. Como
prometera, Robert lhe telefonava todas as noites, com notícias do pai.
Requisitou um pequeno barco, decidida a ir até Palm Reef.
— Tem certeza de que sabe como manejar este barco, Srta. Ford? — indagara
outro hóspede americano.
Em Antígua, dissera a Robert que pretendia se registrar no Emerald Beach como
Ann Ford para não ser reconhecida como uma hóspede inglesa. Na verdade, temia que
algum empregado pudesse associar seu nome ao de Archibald Bradford, o antigo
proprietário da pequena ilha dos arredores.
— Não se preocupe — respondeu, sorrindo para o homem. — Não tem segredo
algum... É como andar de bicicleta. Uma vez que se aprende, jamais se esquece.
— Pois acho mais complicado. Aceita um refrigerante, Srta. Ford?
— Oh... Sim, obrigada, um refrigerante gelado... E meu nome é... Ann.
— Sou Melvin Dorado. Trate-me por Mel. Muito prazer, Ann. Sou de Cedar Rapids,
lowa. — Enquanto caminhavam até o terraço, ele começou a contar a história de sua
vida.
“Propriedade Privada. Entrada Proibida.”
O aviso escrito em letras brancas sob uma placa verde era claramente visível por
qualquer pessoa que tentasse ancorar na ilha.
Porém, o aviso não fora o suficiente para impedi-la de aproximar-se mais.
De imediato, reconheceu que a ilha estava muito mudada. Agora, onde antes havia
uma vegetação impenetrável, existiam caminhos levando ao outro lado da ilha.
E, no local onde desembarcara, havia uma cavidade de pedra com água salgada,
onde os hóspedes poderiam lavar os pés, para remover as partículas de coral branco.
Nos banheiros do Emerald Beach haviam avisos solicitando aos hóspedes para
procederem da mesma forma, pois o coral pulverizado poderia entupir os
encanamentos do hotel.
Dali, Laurian observava a ilha. Um profundo ressentimento invadiu-a e, de pés
descalços, como em criança, começou a caminhar pelo pátio, perguntando-se o que a
Sra. Lansing quisera dizer com “segurança total”.
24

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Não precisou esperar muito para saber. Alguns minutos depois, num gesto
instintivo, voltou-se, deparando com um nativo, alto e forte, que a seguia em silêncio.
— Boa tarde — Laurian cumprimentou-o polidamente.
O homem avançou alguns passos em sua direção.
— Não leu o aviso, senhorita? — perguntou, de modo educado. — Esta é uma ilha
particular.
A voz dele era forte, com leve sotaque americano. Talvez, como ela própria,
nascera no Caribe, porém passara longo tempo fora.
— Desculpe, não reparei no aviso. Nesse caso, já vou embora — Voltou-se,
esperando que ele lhe desse passagem.
— Sinto muito, a senhorita terá de me acompanhar. — Com um gesto, indicou-lhe o
caminho que deveria seguir.
— Por quê? — Só então notou que ele carregava um walkie-talkie, como os policiais
londrinos.
— Todos os transgressores devem ser interrogados.
— Olha, estou hospedada no Emerald Beach. Se você me viu chegar até aqui, deve
ter notado que o barco pertence ao hotel.
— É regra geral. Sem exceções. Por favor, vá andando.
— Mas é um absurdo! — Laurian protestou, mas, percebendo que seria inútil
discutir, caminhou em direção à casa, que parecia irreconhecível, com paredes de
pedra e as janelas pintadas de branco.
— À esquerda, por favor! — o homem ordenou.
Seguiram até uma construção térrea, que não existia na sua época. Olhando ao
redor, Laurian notou outras modificações. Espreguiçadeiras com almofadas azuis se
espalhavam pelo jardim, assim como guarda-sóis verdes protegiam mesas e cadeiras
brancas. Um garçom vestindo túnica carregava uma bandeja com bebidas para
hóspedes que Laurian não via, mas cujas vozes e risos podia ouvir.
O segurança se aproximou de uma porta, onde se lia “Gerência”. Bateu de leve e
alguém respondeu:
— Entre.
Ele lhe abriu a porta e com um gesto de cabeça mandou-a entrar.
— Sente-se, senhorita...
O homem sentado atrás da escrivaninha levantou-se assim que Laurian entrou.
— Sente-se, senhorita...
— Ford. — Sentou-se de frente para ele.
— Meu nome é Lynn. — Era um nativo com cerca de quarenta anos, vestindo terno
e gravata. — Por que desembarcou na praia de uma propriedade particular, Srta.
Ford?
25

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Antes que pudesse responder, a porta foi aberta e alguém entrou. E a voz que
Laurian imediatamente reconheceu, disse:
— John, gostaria de saber se... Oh, está ocupado. Desculpe a interrupção. Volto
mais tarde. O gerente levantou-se de novo.
— Esta é a Srta. Ford — explicou. — Ela desembarcou na ilha sem autorização,
senhor.
Laurian não se voltou, porém, pelo canto do olho, viu um homem alto se aproximar
até olhá-la de frente. Impassível, encarou Oliver Thornham, disfarçando os
sentimentos conflitantes que fervilhavam em seu íntimo.
Se pretendia não encontrá-lo mais, não deveria ter vindo até a ilha, pensou.
Presumira, erroneamente, que estivesse ainda na Europa, e o fato de ser o
proprietário do Palm Reef Club não significava que deveria passar muito tempo lá.
Olhou-a intensamente por um longo momento, desde os cabelos soltos até os dedos
impregnados de coral branco. Notou que o sol do Caribe, além de ter lhe bronzeado a
pele, dera um novo brilho aos cabelos. Por um instante, Laurian chegou a pensar que
ele reconhecera a garota que um dia mandara embora, separando-a para sempre de
seu pai.
Para seu alívio, Oliver não a reconheceu como a filha de Archie Bradford. Um
sorriso cínico inclinou-lhe os cantos dos lábios.
— A Srta. Ford e eu já nos conhecemos, John. Não há necessidade de desperdiçar
seu tempo. Deixe que eu mesmo cuido dela.
Encaminhou-se até a porta, abrindo-a.
— Por aqui, Srta. Ford.
Seguiram por um corredor até uma outra sala. Oliver Thornham fechou a porta e
indicou uma cadeira à frente de uma escrivaninha, apoiando-se nela, com os braços e
pernas cruzados.
Ao contrário do gerente, ele usava camiseta e short brancos e Laurian imaginou
que estivera jogando tênis.
— Uma vez que me conhece, Sr. Thornham, não acha tudo isso desnecessário?
Acredita realmente que tenha chegado até aqui por outro motivo que não fosse
curiosidade? — Laurian declarou, num tom seco.
— Mas não a conheço, Srta. Ford. Sei apenas o pouco que falou a seu respeito e...
Que se comportou de uma modo muito estranho quando nos vimos pela primeira vez.
Portanto, não vejo razão para acreditar na sua palavra de que não é uma dessas
pessoas indesejáveis que às vezes aparecem para nos aborrecer.
Ela cruzou as pernas, remexendo-se impacientemente na cadeira, que rangeu com o
movimento.
— De que suspeita? Que pretendia assassinar algum hóspede? Ou roubar as jóias
dos seus convidados?
26

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Concordo que possa parecer indelicado de minha parte, entretanto estamos
vivendo numa época em que tudo pode acontecer. Os terroristas costumam utilizar-se
de jovens atraentes para contrabandear armas e explosivos. E as jóias geralmente são
roubadas se os hóspedes não forem espertos o suficiente para guardá-las no cofre do
hotel. Não custa nada verificar sua identidade. Qual é o seu primeiro nome e onde
está hospedada?
— Ann Ford... Emerald Beach.
Ele descruzou as pernas e inclinou-se para usar uns dós telefones sobre a
escrivaninha.
— Por favor, ligue-me com o gerente do Emerald Beach. — Recolocou o telefone no
gancho e olhou para Laurian. — Quando chegou e quanto tempo pretende ficar?
Muito a contragosto, respondeu às perguntas de Oliver.
— Está sozinha?
— Sim.
O telefone tocou e ele atendeu.
— Alô, Edgar. Tudo bem? Ótimo. Sim... Estou bem, obrigado. Voltei ontem à noite.
Estarei ocupado por alguns dias, porém assim que puder almoçaremos juntos. Edgar, há
alguma Ann Ford hospedada aí? Há, ótimo. O motivo da minha pergunta é que a conheci
em Londres e gostaria de revê-la enquanto permanecer por aqui. Sim... Tem razão, é
uma mulher bonita. Talvez esperando por uma mina de ouro. Não? Bem, você é um bom
juiz. Não, não lhe diga nada, caso não consiga encontrá-la. Obrigada e até logo, Edgar.
Desligou o telefone, voltando sua atenção para Laurian.
— Como pôde perceber, meu amigo Edgar a considera um ornamento para o hotel.
— Quanta gentileza! — ela ironizou. — Agora, posso ir embora?
— Ainda não. Esta foi apenas uma investigação preliminar provando que realmente
encontra-se hospedada no Emerald Beach e, na opinião de Edgar, você não está à
procura de um marido rico ou um protetor. O próximo passo será conversar com
alguém que possa assegurar não só que é uma simples turista como também é uma
cidadã honesta sem segundas intenções com relação às pessoas que se hospedam aqui.
Não creio que será muito difícil. Se me falou a verdade, em Londres, poderei entrar
em contato com a firma onde trabalha.
— Eu... Eu... Trabalho por conta própria.
— Quer dizer que é free-lancerl
— Não. Tenho um pequeno negócio. — Na verdade, comparada com as grandes
casas de alta costura, “Laurian” era uma pequena empresa.
— Então falarei com sua secretária ou o gerente. Tentando aparentar calma e
segurança, respondeu:

27

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Receio que não seja possível. Minha secretária também está em férias. Aliás, o
pessoal todo... Em férias coletivas, entende? É muito comum confecções fecharem
durante duas semanas.
— Em agosto, sim. Pelo menos é o que ouvi falar. Mas nunca nesta época do ano.
Ele parecia desconfiado.
— Acontece que esta época do ano é muito conveniente para mim e meus
empregados.
— Tudo bem... Dê-me o nome e o endereço de um dos seus clientes. Deve haver
alguém que possa confirmar a verdade de suas informações.
Para Laurian Bradford sim... porém não para Ann Ford.
— Olhe, Sr. Thornham, uma ligação para Londres é muito cara... E totalmente
desnecessária. Por que não pede ao seu segurança para me acompanhar até o barco e
voltarei em seguida para Emerald Beach e jamais porei os pés novamente na sua ilha.
Tem minha palavra.
— Uma palavra na qual posso ou não confiar. Não, Srta. Ford, não irá embora assim
após transgredir uma ordem. Acontece que amanhã chegará uma pessoa muito
importante e preciso assegurar ao pessoal da segurança de que nada de estranho
aconteceu por aqui. Além do mais, não me importo com o fato de lhe causar
aborrecimentos. Seu comportamento ofensivo em Londres, aparentemente gratuito,
merece algum reparo. Verificou as horas no seu relógio de pulso.
— Tenho um assunto urgente para resolver, de modo que vou deixá-la a sós por
quinze minutos, o que lhe dará tempo suficiente para pensar em alguém que possa
responder por você. E espero por uma explicação convincente para sua presença na
ilha, e para sua atitude estranha no restaurante. — Com expressão fria e implacável
saiu da sala, fechou a porta, trancando-a pelo lado de fora.
“Ele está blefando”, Laurian pensou. “Vingando-se por tê-lo feito de idiota em
Londres. Tentando me assustar.”
Mordeu o lábio. Realmente, estava nas mãos dele. Mesmo que mencionasse os
nomes de seus amigos, quem poderia afirmar que conhecia Ann Ford?
A resposta era uma só: ninguém.
Também não poderia explicar seu comportamento no restaurante, a não ser que
revelasse sua verdadeira identidade. E isso era a última coisa que desejava. Não sabia
explicar o motivo, porém seus instintos intuíam a não contar a verdade, pelo menos por
ora.
Em parte para manter-se ocupada e também para livrar-se das partículas de coral
que a incomodavam, pegou um pedaço de papel e começou a remover a areia dos pés.
Já haviam passado mais de vinte minutos quando ouviu ruído na fechadura. Voltouse em direção da porta e deparou-se com uma jovem nativa com o uniforme do hotel.
— Pode me acompanhar, senhorita?
28

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Laurian levantou-se.
— Para onde?
— Para a sala de visitas do Sr. Thornham.
A jovem a conduziu para a casa que Archie construíra. Sentiu um nó na garganta
quando atravessou o hall em direção as escadas que tantas vezes subira para chegar
ao seu quarto para dormir na cama antiga protegida por um mosquiteiro.
O hall também estava muito diferente, não mais decadente e sujo. Também não
havia mais os candelabros que o pai comprara em Veneza nos anos trinta.
Agora, a decoração incluía tapetes persas e poltronas de veludo. Subiu as escadas,
seguindo a funcionária, e cruzou com uma senhora elegante, que lhe sorriu
amistosamente Laurian a reconheceu como uma atriz famosa que agora se afastara
dos palcos.
No alto da escada havia um corredor estreito que atravessava a extensão da casa,
com uma janela-veneziana em cada extremidade e inúmeras portas de ambos os lados.
A jovem conduziu-a até a última porta do fim do corredor. Bateu de leve, abrindo-a
em seguida.
A mulher sorriu e esperou que Laurian entrasse, fechando novamente a porta.
— Venha até o terraço, Srta. Ford — Oliver Thornham convidou.
Laurian teve uma boa impressão da sala confortável e bem decorada. Caminhou até
o terraço, onde havia uma mesa já preparada com copos e chá gelado.
Oliver indicou uma das cadeiras voltada para a praia e Laurian notou que o grande
terraço que circundava a casa fora dividida em pequenas varandas exclusivas para
cada quarto.
— Posso lhe oferecer um copo de chá?
— Mesmo que eu possa ser uma terrorista ou uma ladra perigosa?
Enquanto enchia os copos, ele retrucou:
— Acho que posso correr os riscos. Já decidiu quem deseja que eu chame?
Laurian resolveu jogar e enfrentar o blefe dele.
— Não, não decidi.
Ele lhe dirigiu um olhar pensativo.
— Experimente este chá. É especialidade da casa. Tente adivinhar do que é feito.
Laurian bebeu um gole e imediatamente reconheceu o sabor. Ainda não esquecera
o gosto das extravagâncias de Archie.
— Pepino e alguma coisa mais. Seja lá o que for, é uma ótima combinação.
— Concordo. Essa alguma coisa mais é Patum Peperium, uma espécie de patê muito
usado em torradas.
Curiosa por saber o que ele costumava contar às pessoas sobre sua ligação com a
casa, indagou:
29

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Você nasceu nesta parte do mundo? E esta casa pertencia a sua família?
— Não, vim para cá há cerca de vinte anos. A casa foi construída por um inglês
excêntrico, que aos poucos foi perdendo a sua fortuna. Quando cheguei aqui, a casa já
estava em péssimo estado, mas mesmo assim conservava as marcas de sua beleza.
Tentei captar a atmosfera e restaurá-la o mais fielmente possível e creio que fui
bem-sucedido.
— E acumulou sua fortuna no projeto, imagino — Laurian completou com voz fria e
impessoal.
— Todos foram beneficiados. Tenho o melhor quadro de funcionários desta parte
do Caribe, porque pago os melhores salários e ofereço as melhores condições de
trabalho. E, na medida do possível, usamos produtos feitos ou cultivados na própria
ilha. Não me refiro aos turistas, mas sim aos nativos. Por exemplo, oferecemos bolsas
de estudos para os jovens se especializarem nos Estados Unidos ou na Inglaterra.
— Você fala mais como um filantropo do que como um empresário — ela comentou
com ironia.
— Acredito que seja possível conciliar ambas as condições. Principalmente para
alguém como eu, que não tem acionistas com quem dividir os lucros e cujas
necessidades pessoais são modestas.
Estaria falando a verdade? Ou apenas queria impressioná-la? Se fosse mesmo
verdade, os seus pontos de vista haviam mudado muito e não tinham nada a ver com o
preço que pagara pela ilha.
Laurian se levantou. Debruçou-se no parapeito, segurando o copo em uma das mãos.
Oliver se aproximou parando ao lado dela, porém não muito próximo.
— O que achou do Caribe? Correspondeu às suas expectativas?
— Achei Antígua um pouco árida, mas estas duas ilhas são lindíssimas — admitiu.
— Acha que se tivesse nascido aqui, teria querido deixá-la?
Laurian sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Que pergunta mais estranha!
— Creio que para alguém nascido aqui, ter de deixar a ilha significa um grande
sofrimento.
— Concordo. Ninguém, em seu juízo perfeito, deixaria a ilha por vontade própria.
Talvez por falta de emprego ou para fugir da pobreza. As pessoas emigram pela falta
de oportunidade de melhorar suas condições de vida por aqui e não porque desejam
viver em cidades maiores e usar casacos de lã a metade do ano. Se, no início deste
século, os homens de negócio tivessem pensado menos em lucro e mais na economia
local, os nativos não sairiam em tão grande quantidade e as condições da ilha hoje
seriam diferentes.
Laurian refletiu que, se não soubesse de antemão quem era Oliver Thornham, até
teria gostado dele. Porém, ela o conhecia muito bem e fora a ambição dele a causa de
sua partida forçada. E o discurso bonito não o fazia menos culpado aos olhos dela. O
fim nunca justifica os meios, se estes foram errados e cruéis.
30

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Bebeu o restante do chá, verificou as horas em seu relógio de pulso e falou:
— Tomei o barco emprestado por duas horas; se não voltar logo, pensarão que
aconteceu algo e sairão a minha procura.
— Mudou de idéia? Para quem quer que eu telefone?
Ela ergueu o queixo e os olhos azuis faiscavam num desafio mudo.
— Esta situação ridícula já se prolongou demais. Não direi o nome de ninguém. Não
pretendo ser “investigada”. Já me manteve fechada à chave numa sala por vinte
minutos. Agora chega, Sr. Thornham.
Ele suspirou e olhou-a resignadamente.
— Sua atitude não a ajuda muito. Pelo contrário, sugere que esconde algo. Receio
ter de retê-la aqui até que resolva cooperar conosco. — Aproximou-se mais dela e num
tom rude acrescentou: — Mandarei o barco de volta com um recado de que jantará
aqui. Nossa lancha a levará de volta mais tarde. Isto é, quando decidir usar de
sensatez. Do contrário, passará a noite aqui.
— Passar a noite? Não pode... Não tem o direito de manter-me sua prisioneira!
A expressão dele tornou-se dura e impenetrável.
— Acho que não entendeu bem a situação, Srta. Ford. Aqui, tenho certos direitos,
e escolho exercê-los ou não. Sou um homem paciente, e enquanto durar minha
paciência, sua presença será bem-vinda. Porém, devo adverti-la de que tudo tem um
limite. Se insistir em dificultar as coisas, posso tomar medidas mais drásticas.
Deixando-a boquiaberta, e pensando no significado das suas palavras, Oliver
atravessou a sala de visitas, desaparecendo no corredor.

CAPÍTULO III

Depois da saída de Oliver, Laurian permaneceu imóvel refreando seu desejo de
esbravejar, gritar e atirar os objetos à sua frente. Normalmente, não era dada a
nenhum tipo de violência. De natureza calma, há anos não perdia o controle de seu
humor. De repente, lembrou-se de que não se enfurecia desde o dia em que nadara até
o Euphrosyne para acusar Oliver de induzir Archie a mandá-la estudar na Inglaterra.
Controlando sua raiva contra a atitude arbitrária de Oliver, serviu-se de outro
sanduíche. O quase esquecido gosto do patê Gentleman's Relish, que nunca encontrara
na Europa, representava uma forte lembrança de Archie. Aliás, apesar das mudanças

31

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

ocorridas na casa, sentia a presença do pai de um modo quase real. E essa constatação
acalmou-a, reconfortando-a.
Entrou na sala de visitas, observando os detalhes. A decoração era tipicamente
masculina. Centenas de livros nas estantes e muitos objetos antigos. Um porta-retrato
exibia a foto de um casal, de noivos, obviamente os pais de Oliver.
Havia outras fotos de ambos em diferentes fases da vida. Havia também uma
fotografia de Oliver ao lado de uma garota, sentados num barco e sorrindo. Seria sua
irmã? Nunca comentara a respeito de sua família e Archie não tinha o hábito de
questionar sobre a vida particular dos amigos, a menos que estes falassem
espontaneamente. Oliver jamais contara.
Surpreendeu-se ao ver em um canto do sofá um ursinho de pelúcia, velho, com um
olho só, vestido com um pulôver vermelho de tricô. Não imaginara Oliver Thornham
como um homem dado a tais sentimentalismos. Nesse momento a porta foi aberta e
uma mulher entrou na sala.
— Srta. Ford? Sou Mary Poole e dirijo a butique do hotel.
— Muito prazer. — Apertou a mão que a mulher lhe estendia. Ambas sorriam e
Laurian simpatizou com ela. Mary Poole transmitia uma impressão de bondade,
sensibilidade e gentileza.
— Oliver me contou que você é estilista de moda. Gostaria de conhecer nossa loja?
— Sim, claro. Obrigada. — Laurian perguntou-se o que mais Oliver teria lhe
contado.
Enquanto desciam as escadas, notou que Mary usava aliança e imaginou que o
marido também trabalhava no hotel.
Se a Sra. Poole fora instruída para tentar descobrir se Laurian era mesmo o que
afirmara, mostrava-se bastante inteligente por não fazer perguntas diretas. Ao
contrário, comentava as dificuldades em encontrar mercadorias que interessassem às
mulheres que se hospedavam no clube, mulheres acostumadas a fazer suas compras em
Nova York, Toronto e Londres.
Laurian admirava as camisas de algodão pintadas a mão quando duas hóspedes
entraram na loja. Voltando-se para Mary, despediu-se.
— Voltarei mais tarde.
— Volte, mesmo. — Mary não se mostrou aflita por Laurian se afastar de suas
vistas.
Pensou nas possibilidades de fuga. Não teria dificuldades em voltar a nado para
seu hotel. Seria perfeitamente capaz de nadar por muitos quilômetros. O problema
era chegar à praia. Não duvidava que o vigilante com o walkie-talkie a encontraria,
rapidamente. Imaginava que o Palm Reef Club estava protegido por câmeras
escondidas e, em algum lugar, haveria um ou mais aparelhos de televisão mostrando
tudo o que acontecia na ilha. Nesse caso, não haveria necessidade de Oliver tê-la

32

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

trancado no seu escritório. E não duvidava que se tentasse nadar de volta seria
interceptada por um barco.
A certeza da impossibilidade de infiltração de estranhos na ilha sem dúvida
agradava aos freqüentadores, porém para a filha de Archie Bradford a mansão hoje
significava uma prisão de luxo.
Imaginava o que Archie pensaria dessa situação absurda, quando notou algo que
não existia no tempo de sua infância. Uma placa de bronze com uma inscrição gravada.
Aproximou-se e leu o nome de Archie e as datas de seu nascimento e morte.
Emocionou-se ao ler as palavras:
“Aqui, após muitas aventuras, ele encontrou quietude, paz e beleza, que dividiu com
muitos amigos e estranhos também. A vida muitas vezes é como a espuma ou uma bolha
de sabão, porém duas coisas permanecem firmes como uma rocha: Bondade e Coragem.
Aqui viveu um homem bondoso e corajoso em todas as suas atitudes”.
Ainda mantinha o olhar fixo na placa, porém disfarçou as lágrimas, quando ouviu a
voz de Oliver:
— Esse memorial foi o último trabalho de um escultor nativo que trabalhou para o
Sr. Bradford. Quero lhe mostrar o clube.
Pretendendo não demonstrar o quanto a inscrição a afetara, retrucou num tom
levemente sarcástico:
— Não me parece uma atitude muito inteligente. Afinal, depois de conhecer o
local, poderei passar as informações para meus cúmplices.
— Não acho que fará isso. Conversei com Mary. Gostou de você e não costuma se
enganar no julgamento das pessoas. A opinião dela confirma o que penso a seu
respeito, que veio até aqui puramente por curiosidade.
— Então por que não me deixa ir embora?
— Por que se recusa a provar sua identidade.
— Contou à Sra. Poole que me mantém prisioneira?
— Não. Ela pensa que nos conhecemos na Europa, o que é verdade, e que é minha
convidada. Somente John Lynn, meu gerente, e um dos guardas sabem da verdade.
— E a funcionária que abriu a porta do seu escritório onde você me trancou.
— Oh, sim. Louise. Mas não contará nada. Todos os meus empregados são muito
discretos.
— Não duvido. Se detém estranhos contra a vontade deles, o que não fará se
algum dos seus funcionários transgredir suas ordens? Aposto que o acorrentará no
porão, como os piratas faziam com seus inimigos. — Laurian brincou, intimamente
convicta de que, se por um lado deveria pagar salários excelentes, por outro saberia
como tornar insuportável a vida daqueles que não seguissem seus padrões de conduta.
— É... Mais ou menos isso. Por aqui. — Segurou-a pelo cotovelo, conduzindo-a da
varanda para o terraço localizado entre a casa e a praia.
33

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Um gesto impessoal, menos íntimo do que um aperto de mão. Uma lembrança
indesejável da enorme atração que Laurian sentira antes de saber quem ele era.
— Qual o número dos seus sapatos?
— Trinta e cinco — ela respondeu automaticamente diante da pergunta tão
inesperada.
— Com licença. Volto num instante.
Laurian permaneceu parada, imaginando que ele fora buscar algo para ela calçar.
Quando Oliver retornou, trazia um par de sapatos de lona que ela vira na loja de Mary.
— Experimente, por favor. Sente-se. — Indicou uma mureta de pedra que servia
para proteger o terraço da invasão da areia.
Laurian sentou-se e fez menção de pegar a sapatilha. Porém, ignorando-lhe o
gesto, Oliver abaixou-se, segurando-lhe um dos tornozelos para calçá-lo.
Para disfarçar o tremor que a invadiu, disse rapidamente:
— Devem ser francesas. Acredito que sejam as únicas reforçadas nos dedos com
um tecido especial.
— Sim, francesas — ele confirmou. — Mary as compra de um importador em
Martinica. Levante-se e veja se serviu.
Ela obedeceu sem dizer nada. Depois de alguns minutos, falou:
— Ficou ótima... Porém, não trouxe dinheiro.
— Debitarei na sua conta.
Laurian sentou-se de novo e Oliver calçou a outra sapatilha.
— Seus pés são muito bonitos. — A mão correu do tornozelo até o calcanhar. —
Parece que nunca calçaram sapatos apertados.
Ela engoliu em seco.
— Costumo fazer como os homens. Só uso sapatos confortáveis e de saltos baixos.
Saltos altos só para festas e ocasiões muito especiais. Detesto caminhar pelas ruas
com saltos altíssimos. Não acho nada feminino.
Oliver ainda segurava o tornozelo com uma mão e a sapatilha na outra. Parecia
estudar atentamente o pé de Laurian.
— Concordo. — Fitou-a no olhar. — Quando a vi caminhando da Hatchards até o
Fortunm, reparei que era uma das poucas mulheres que conseguem ser elegantes
mesmo usando sapatos de salto baixo. Claro, você tem a vantagem de ser alta e possuir
pernas bonitas.
Laurian nunca pensara em seus tornozelos como um ponto erógeno, porém não
podia negar sua reação ao toque de Oliver. Sentiu um estranho e louco desejo de
enterrar os dedos nos cabelos escuros dele. Entretanto, fingindo ignorar o
cumprimento, replicou:
— Você mencionou minha conta. Não me diga que terei de pagar para ser sua
prisioneira.
34

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Num movimento rápido, ele se ergueu e fitou-a com um olhar impenetrável.
— Certamente, e previno-a de que nossa diária é muito mais cara do que a do
Emerald Beach...
Laurian sentou-se, confusa, sem saber se falava a sério ou se caçoava dela. Nesse
momento, uma recepcionista se aproximou avisando que o chamavam ao telefone.
— Com licença — ele murmurou, afastando-se.
O olhar de Laurian seguiu-o pelo terraço, admirando o corpo atlético e firme e de
repente imaginou-se sendo abraçada e beijada por ele. Um arrepio percorreu-lhe o
corpo.
Incomodava-a a constatação de sentir-se fisicamente atraída por um homem a
quem desprezava. E, para complicar e confundi-la ainda mais, ele mandara colocar uma
placa em homenagem às qualidades de Archie. Uma atitude surpreendente, sem dúvida.
Acreditava que talvez Oliver preferisse esquecer o velho e a menina que habitavam
aquela ilha, na ocasião de sua chegada. Obviamente, a menina fora esquecida. Mesmo
de short e camiseta e os cabelos despenteados, com certeza ele jamais a relacionaria
com a garota que um dia o vira como um herói.
Decidiu não esperar pela volta de Oliver e enquanto caminhava em direção ao lugar
em que, durante sua infância, costumava passar horas lendo, lembrou-se da ameaça em
mantê-la ali por tempo indeterminado, caso continuasse negando revelar sua
identidade.
Por que agia dessa maneira? Seria muito mais fácil confessar quem realmente era.
Nesse caso também deveria acusá-lo de ter induzido Archie a lhe vender a ilha e ainda
não estava pronta para um confronto com Oliver Thornham. Por enquanto pretendia
apenas observá-lo, protegida por seu nome falso.
A rede amarrada entre duas palmeiras na beira da praia ainda estava lá. Não a
mesma rede, desbotada, onde em criança lera Moby Dick e outros clássicos, mas uma
outra, nova, de tecido estampado, na qual uma mulher de maio descansava.
Assim que Laurian passou, a mulher a chamou.
— Laurian! Quase não a reconheci. Quando chegou? Pensei que estivesse em
Londres saboreando seu sucesso estrondoso. Parabéns. Li no Times que ganhou o
prêmio do Fashion Councis.
Lady Henry Buckland, esposa do filho mais jovem do duque de Bronsgrouve, fora
uma das melhores clientes de Laurian durante muitos anos.
— Alô, lady Henry, também não a reconheci.
Laurian não a considerava como uma amiga; porém, no momento, era a pessoa que
precisava para ajudá-la a livrar-se daquela situação absurda.
Não estou hospedada aqui; na verdade, invadi a ilha e estou sendo considerada uma
transgressora.
Em poucas palavras, explicou a situação.
35

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Tenho motivos sérios para não querer que descubram minha verdadeira
identidade.
— Incrível! — lady Henry exclamou. — Quer dizer que você é parente do homem
que construiu a casa... Archibald Bradford? Neta, talvez?
— Se não se importar, gostaria de não comentar o assunto por ora. Porém, tem
minha palavra de que não há nada suspeito nessa história toda. Se você puder fazer a
gentileza de se responsabilizar por mim, acredite-me, não a envolverei em nenhuma
confusão.
— Estou certa de que não. Claro que me responsabilizarei por você. Quem será
essa pessoa tão importante que chegará nos próximos dias? E onde você está
hospedada?
— No Emerald Beach — Laurian respondeu.
— Por que não vem para cá? Ou será que não há mais vagas?
— Não sei, mas gosto de onde estou. Passo a maior parte navegando ou praticando
windsurf.
— Que energia! Tudo que pretendo fazer é descansar. Meu marido está por aí...
Explorando a ilha com dois ou três entusiastas. Vejo-o somente na hora das refeições
e à noite, não me importo. Ele está se divertindo e quando me sinto entediada, há um
salão de beleza magnífico. Como são os homens lá no seu hotel? Alguém interessante?
Laurian negou com um movimento de cabeça e lady Henry continuou:
— Existe apenas um aqui, porém ele não se mistura muito com os demais hóspedes,
e não faz suas refeições conosco. Talvez seja escritor ou algo parecido. O nome
Thornham não lhe soa bem?
— O proprietário do clube chama-se Thornham. Oliver Thornham. Alto... moreno...
—...e extremamente atraente — lady Henry acrescentou, com olhar brilhante. —
Você o conhece?
— É a pessoa a quem quero que interceda por mim.
— Compreendo. Pensei que você se referia ao gerente Lynn. Se é o outro, o alto,
moreno e atraente, então vamos procurá-lo imediatamente.
Saiu da rede, vestida com uma canga branca e preta e colocou suas sandálias de
couro.
— Espere só um momento. Quero retocar a maquiagem. Laurian observou-a
pintando os lábios, desconcertada com a ansiedade com que lady Henry dispunha-se a
encontrar-se com Oliver. Entretanto não se surpreendia, pois ele era do tipo do
homem que não passava despercebido a qualquer mulher, casada ou solteira.
Lembrou-se de que no restaurante Oliver comentara que jamais fora casado nem
comprometido, porém, nada indicava que fosse celibatário. Transpirava virilidade e
charme; Laurian recusava-se a pensar na possibilidade de que ele poderia estar l
envolvendo-se em aventuras passageiras com mulheres como lady Henry.
36

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Melhor me tratar por Atalanta, uma vez que devemos convencê-lo de que somos
grandes amigas — lady Henry sugeriu, guardando seu estojo de maquiagem na sacola
de praia.
— Disse que sou estilista e gostaria que confirmasse que desenho suas roupas.
— É possível que algum outro hóspede a conheça, se não pessoalmente, pelo menos
por nome ou fotos — Atalanta ponderou, enquanto caminhavam em direção à casa. —
Já pensou nessa hipótese?
— Acho que ainda não cheguei ao ponto de ser reconhecida por todos, e considero
remotas as chances de alguma cliente estar hospedada aqui no momento.
— Estou morrendo der curiosidade de saber o que há por trás de tudo isso.
Promete que depois me conta?
Laurian esquivou-se da promessa ao avistar Oliver, que se aproximava. Quando ele
se encontrava a uma distância suficiente para ouvi-la, disse em voz alta.
— Encontrei uma pessoa que esclarecerá todas as dúvidas a meu respeito, Sr.
Thornham. Lady Henry, permita que lhe apresente Oliver Thornham, o proprietário
desta ilha.
— Como vai? — lady Henry estendeu a mão. — Invejo-o por morar neste paraíso o
ano inteiro. Detesto os invernos ingleses. Ann comentou que a mantém sob suspeita
por ter desembarcado na praia sem permissão. Posso lhe garantir que ela é uma pessoa
absolutamente responsável. Pelo menos metade das minhas roupas foi desenhada por
Ann.
Atalanta ainda segurava a mão de Oliver, que respondeu:
— Muito prazer, lady Henry. Alegro-me por saber que gosta de Palm Reef. É a
primeira vez que se hospeda aqui? Espero que aprecie o suficiente para se tornar uma
hóspede habitual. — Olhou para Laurian. — Nesse caso, considere-se em liberdade,
Srta. Ford. Talvez, numa próxima ocasião, pense duas vezes antes de ignorar o aviso
de “Entrada Proibida”. Receio não ter nenhum barco disponível para levá-la de volta ao
seu hotel. No momento todos os nossos barcos estão em uso.
— Por que não janta conosco, Ann? — Atalanta sugeriu. — Junte-se a nós, Oliver, e
terá uma forma de retratar-se das suspeitas absurdas a respeito dela. — O olhar
eloqüente de lady Henry deixava claro que não era sobre Laurian que esperava que
Oliver conversasse.
— Obrigado, aceito com prazer — ele respondeu, entusiasmado.
Laurian utilizou-se do banheiro da butique de Mary Poole para tomar banho e de
um dos muitos secadores esquecidos pelas hóspedes para secar os cabelos.
Mary já encerrava o expediente, porém prontificara-se a esperar até que Laurian
escolhesse um vestido para o jantar.
Por fim, decidiu-se por um longo de voile de algodão, sob o qual usaria o biquíni que
vestia embaixo do short e da camiseta. Contra a luz, a transparência do vestido
mostrava as curvas de seu corpo. Comprou também colar e brincos e Atalanta
37

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Buckland, além dos produtos de maquiagem, emprestou-lhe também as sandálias
douradas. Não considerava a roupa ideal para um jantar a rigor, porém procurou
vestir-se o melhor possível dentro das possibilidades.
Enquanto se vestia, Mary lhe contara que era viúva e que, após a morte do marido,
na Irlanda do Norte, decidira instalar-se numa das ilhas próximas ao clube.
Laurian saiu da butique e foi ao encontro de Atalanta e seu marido, que bebiam no
terraço. Oliver ainda não chegara. Assim que Laurian se aproximou, Henry Buckland
levantou-se para cumprimentá-la.
— Quer dizer que costuma velejar, Ann?
— Sim... Costumo. E soube que você também gosta de velejar.
— Muito — Henry confirmou. — A primeira vez que tentei foi no Pacífico, durante
nossa lua-de-mel em Fiji, lembra-se, querida?
— Um lugar horrível — Atalanta resmungou. — Último lugar para se passar uma
lua-de-mel. Extremamente quente e cheio de mosquitos. Não entendo como chegamos
a escolher esse local para nossa viagem de núpcias. Um desastre.
— Nem tanto, querida. A ilha maior deixou muito a desejar, porém o conjunto de
ilhas menores era muito agradável. Ideal para a pesca submarina, embora nesta ilha
também seja muito atraente a prática desse esporte.
— Existe diferença entre os peixes e os corais que você tem visto por aqui e os do
Pacífico? — Laurian quis saber.
Henry alongou-se em detalhadas explicações sobre a vida submarina do Pacífico e
do Caribe, as quais Laurian ouviu com interesse. Atalanta, entretanto, não escondia o
tédio.
Laurian, de repente, sentiu-se culpada por ter tocado no assunto, pois, tendo
passado o dia praticando a pesca submarina, seria mais do que natural dedicar toda
sua atenção à esposa.
Oliver não demorou a chegar, vestindo um paletó branco e calça azul-marinho.
Parecia mais forte e mais alto e, à luz tênue das lanternas japonesas, a pele bronzeada
acentuava-se ainda mais.
Se usasse cabelos compridos e cocar, com certeza passaria por um índio.
Entretanto, apenas suas feições sugeriam um toque selvagem. Suas maneiras e o tom
de voz não poderiam ser mais urbanos e civilizados, quando elogiou a elegância de
Atalanta, após ter sido apresentado a Henry Buckland.
— Seu vestido é muito bonito. É modelo de Ann, suponho.
— Não... este é americano... Calvin Klein. Ann sabe que não consigo me manter fiel a
ela diante de um modelo irresistível de outro costureiro.
Laurian perguntou-se se nas entrelinhas Atalanta queria dizer que não conseguia
manter-se fiel ao marido diante de um homem irresistível. Olhou para Henry que,

38

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

servindo-se de outro copo de bebida, não dava mostras de ter ouvido as palavras da
esposa.
— Talvez nossos modelos não se comparem aos seus próprios, mas esse vestido
criado por um estilista local ficou-lhe muito bem — Oliver disse, dirigindo-se a
Laurian.
— Obrigada.
Aos ouvidos de Laurian, o comentário soou puramente como uma gentileza quase
obrigatória, após o elogio à elegância de Atalanta. Palavras gentis, porém desprovidas
de calor, proferidas pelo proprietário do Palm Reef Club e não pelo homem.
A um canto um conjunto tocava músicas românticas.
Dirigiram-se, a uma das mesas ao ar livre, onde seria servido o jantar. Anoitecera
e a luz da lua refletia-se nas águas do mar.
— Como chegou a esta ilha, Oliver? — Atalanta indagou, depois de escolherem os
pratos. — É parente de Archibald Bradford?
— Não. Apenas comprei-a dele. Estava viajando de iate com a garota com quem
pretendia casar. Nosso plano original era chegar à Nova Zelândia. Porém, Judy foi
arrastada por um vendaval, morrendo afogada na Costa Sul da Inglaterra. Apenas para
passar o tempo, decidi dar a volta ao mundo, sozinho. Este foi o ponto mais distante
que cheguei... E vi a possibilidade de reviver este lugar, que estava em péssimo estado
de conservação quando o vi pela primeira vez.
Judy. Laurian lembrou-se do dia em que se sentara ao lado dele. Oliver,
adormecido, murmurara esse nome, acrescentando a palavra “querida”. Com certeza,
sonhava com a mulher amada que morrera no mar. Quando acordou, decepcionou-se ao
ver que não era Judy quem se encontrava ao seu lado, mas sim uma menina jovem
demais para saber a respeito de amor e frustração.
— Que tragédia... Perder a futura esposa... — Atalanta interveio. — E não pensou
mais em casamento?
— Por muito tempo não tive condições de sustentar uma esposa. Precisei vender
meu barco para poder comprar a ilha. O preço não era alto, considerando o potencial
do lugar, porém apliquei todo meu dinheiro nesse investimento. E durante muitos anos
vivi apenas para atingir meu objetivo.
— Agora, porém, acredito que tenha condições para manter um harém! Não
conhece ninguém que o agrade? Ou prefere namorar todas as mulheres ao mesmo
tempo? — Atalanta envolveu-o com um olhar sensual e convidativo.
Laurian surpreendeu-se com a resposta de Oliver.
— Nunca fui do tipo conquistador, lady Henry.
E, pela primeira vez, pensou que talvez precipitara-se ao julgar Oliver, chegando a
conclusões injustas a respeito dele.

39

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Atalanta continuava a olhá-lo com expressão envolvente, como se não admitisse o
fato de um homem não sucumbir aos seus encantos.
Henry parecia alheio a esses detalhes. Ouvia com atenção as palavras de Oliver e,
nesse momento, entretinha-se na lista de vinhos. Com certeza, os vinhos eram um dos
seus grandes interesses.
Questionou a respeito dos problemas de acondicionar os vinhos importados num
clima quente. Um assunto que entediava tanto a Atalanta quanto a pesca submarina.
Seus olhos percorriam o salão, avaliando os vestidos das outras mulheres. Laurian
desejou saber se Atalanta se importava com outra coisa, além de roupas e mexericos.
Ela, ao contrário, tinha um grande interesse por vinhos, uma característica
estimulada por Archie, que repetia sempre que o desjejum perfeito consistia num
pêssego e um copo de vinho e que à noite não existia nada melhor do que vinho do
Porto e nozes. Entretanto, preferiu não mencionar sua opinião. E, depois que o garçom
serviu o segundo prato, Oliver voltou-se para ela.
— Você está muito calada, Ann. Cansada? Ainda se sente uma prisioneira?
O tom de voz soou gentil e, de repente, Laurian viu-se transportada de volta à
época em que a presença de Oliver lhe agradava, antes de todos os seus bons
sentimentos em relação a ele terem sido destruídos pela decisão de mandá-la para um
exílio.
— Absolutamente. Estou apenas... Envolvida por este lugar adorável. Nunca pensou
em tê-lo só para você... Sem dividi-lo com outras pessoas?
— Para isso, precisaria ser milionário... O que não faz parte dos meus planos.
— E quais são os seus planos?
— Viver em um lugar agradável. Usufruir das riquezas da terra e fazer o que posso
para impedir que sejam destruídas. Adoro arte, porém foi apenas nos últimos anos que
comecei a me interessar por outras pinturas além daqueles quadros de navios que
colecionei por algum tempo. Você deve ter crescido entre obras de arte, não? —
indagou, voltando-se para Henry.
— Sim, apesar de que nem eu nem meu irmão nunca lhes demos muita atenção
quando garotos. Considerávamos como simples papel de parede. — E começou a
descrever algumas das pinturas do castelo de Bromsgrove, nas quais possuía, agora, o
maior interesse.
O momento crucial chegou quando Atalanta colocou o garfo sobre a mesa, mal
tendo tocado na comida.
O gesto não passou despercebido á Oliver, que, erguendo as sobrancelhas,
perguntou:
— Não gostou da comida?
— Gostei... É que estou sem apetite. — Abriu a carteira e tirou um maço de
cigarros.

40

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Se não se importar, preferia que não fumasse aqui — Oliver pediu. — Espero
que entenda... A fumaça poderá incomodar as pessoas que ainda estão jantando.
O tom de voz extremamente gentil não conseguiu evitar a explosão de Atalanta.
— Oh, não! Sinto-me como uma pária da sociedade, poluindo o ar que vocês, os
anjos não fumantes, respiram!
— Querida... Querida, por favor... — Henry murmurou, preocupado.
Atalanta empurrou a cadeira e levantou-se.
— Imagino que, pelo menos, no terraço seja permitido fumar! — disse com
sarcasmo, afastando-se rapidamente.
— Sinto muito, não pretendia aborrecer sua esposa... — Oliver replicou.
— Não precisa se desculpar, companheiro. Na verdade, concordo com a proibição
de se fumar em restaurantes. E Atalanta atravessa um momento difícil. Acabou de
perder um bebê, e está muito deprimida. Por esse motivo quis trazê-la para a ilha...
Para se distrair um pouco.
Laurian sensibilizou-se por essa revelação da infelicidade que se escondia sob a
aparência frívola de Atalanta.
— Talvez devesse ver se ela está bem, mas receio piorar ainda mais a situação —
Laurian argumentou.
— Oh! Ela explode, porém se acalma logo. Voltará assim que fumar um cigarro.
Parou de fumar durante a gravidez, mas recomeçou depois de perder a criança. Você
fuma, Ann?
— Não. Meu pai costumava fumar charutos e uma vez tentei algumas baforadas...
— Não concluiu a frase, temendo trair seu segredo.
Logo, porém, percebeu que um pai fumante não representava nada de anormal e
que sua tentativa desastrada de fumar acontecera muito tempo antes da chegada de
Oliver.
Terminaram o jantar e continuaram a conversa; entretanto, para Laurian, e com
certeza para os demais, a noite fora estragada com a atitude de Atalanta.
De repente, ela se aproximou sorrindo, como se nada acontecera.
— Vamos dançar, Henry?
Da sala de jantar, não se via a pista de dança, redonda e de pedra polida, rodeada
por pilares de coral, porém o som da música chegava até as mesas.
— Vamos dançar também? — Oliver convidou e Laurian concordou, lembrando-se
de que, algumas horas antes, imaginara como seria estar nos braços dele. Se o
conjunto continuasse tocando aquele ritmo lento e romântico, logo descobriria!
Entretanto, antes de chegarem à pista, o ritmo mudou, tomando-se rápido e
movimentado, obrigando os casais, que até então dançavam de rosto colado, a se
moverem separadamente.

41

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Laurian sempre gostara de dançar e aprendera com o pai a dançar todos os ritmos
musicais, inclusive o charleston.
Muitas vezes, em criança, Laurian imaginara-se uma grande bailarina, provocando
delírios na platéia. E agora deliciava-se com o ritmo típico e contagiante da ilha.
Oliver, como a maioria dos homens que se encontravam na pista, não se
movimentava muito. Apenas alguns passos relaxados e indolentes. Embora não a
mantivesse em seus braços, enlaçava-a com os olhos. Laurian sentiu que, se o fitasse,
acabaria hipnotizada, pois o desejo brilhava no olhar eloqüente.
A música terminou e, com ambas as mãos, Laurian afastou os seus cabelos da
região da nuca. Ergueu os olhos para o céu estrelado. O aperitivo antes do jantar, o
vinho que bebera depois, a música alucinante, a noite caribenha... A sensação de
sentir-se realmente viva, como nunca se sentira antes, desde que chegara à
Inglaterra...
Assim que a música recomeçou, um braço firme envolveu-a pela cintura e Oliver
puxou-a contra si. Permaneceram por um breve instante parados, fitando-se nos olhos,
e, antes que iniciassem os passos uníssonos, Atalanta surgiu com Henry às suas costas.
— Vamos trocar de par? Quero pedir desculpas a Oliver por meu comportamento.
Sobre os ombros de Henry Buckland, Laurian observava as unhas bem-tratadas de
Atalanta se movendo sensualmente contra o paletó branco de Oliver. Parecia
massagear-lhe as costas e imaginou que logo aquelas mãos estariam acariciando os
cabelos escuros de Oliver.
Desviou o olhar, surpresa com o rumo dos próprios pensamentos. Não acreditava
que a história que Oliver contara a respeito de Judy mudara seus sentimentos com
relação a ele, levando-a a agir como se estivesse apaixonada e com ciúme.
“Você não está apaixonada por ninguém”, advertiu-a uma voz íntima interior. “Nem
mesmo por Robert.”
Robert. Pela primeira vez, desde o café da manhã, que parecia ter ocorrido havia
séculos, lembrou-se de Robert e de seu habitual telefonema noturno. O que pensaria,
quando a telefonista do hotel lhe informasse que a Srta. Ford não só não se
encontrava no quarto, como também saíra pela manhã de barco, ainda não retornara e
que ninguém sabia o seu atual paradeiro?
— Receio não ser um bom bailarino — Henry desculpou-se.
— Talvez prefira sentar-se. Deve estar cansado, pois passou o dia todo nadando.
Você trouxe seu próprio equipamento ou alugou o do hotel? — Laurian perguntou,
preferindo conversar a perder-se em pensamentos perigosos.
— Trouxe meu equipamento. — Conduziu-a de volta para a mesa, deixando para
trás os casais que dançavam enlaçados.
De repente, Laurian lembrou-se do Neptune's Daughter, e perguntou-se o que
Oliver fizera com o quadro. Desejou saber também que destino tivera a biblioteca de
Archie.
42

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Com certeza, tanto os livros quanto o quadro estariam esquecidos em algum quarto
do hotel. Esperava ter oportunidade, mais tarde, de verificar pessoalmente. No lugar
de Oliver, ela teria empacotado os livros e despachado junto com a garota que
expulsara da própria casa. Obviamente, ele nunca imaginara que aquela menina, meio
civilizada e meio selvagem, pudesse sentir falta de seus livros, assim como sentira
falta do seu mar e das suas praias.
Quando Oliver e Atalanta se aproximaram da mesa, Laurian e Henry saboreavam
um sorvete.
— Para mim não. Prefiro café... puro — Atalanta retrucou, quando o marido
aconselhou-a a experimentar o sorvete.
— Gostaria de dançar novamente, Ann? — Oliver perguntou, assim que Laurian
terminou o seu sorvete.
— Bem, para ser honesta, não acho as sandálias que Atalanta me emprestou muito
confortáveis para dançar. Não estou acostumada a usar saltos muito altos... Além
disso, não gostaria de estragar suas Maud Frizons, Atalanta — Laurian retrucou,
aludindo à etiqueta das sandálias, exclusiva de uma das lojas mais caras e exclusivas
de Bond Street.
Oliver aceitou as desculpas sem nenhum comentário, porém olhou-a de um modo
que não deixava dúvidas de que não acreditava nas palavras dela.
— Vamos tomar café no terraço? — Henry sugeriu. — Assim minha esposa poderá
fumar. Sei que não deveria estimular esse hábito, porém sei também que não aprecia o
café sem um cigarro.
No terraço, quase todos os lugares estavam ocupados. Porém, ao passarem por uma
das mesas, um homem levantou-se, chamando-os.
— Juntem-se a nós — a mulher que o acompanhava convidou.
Após as apresentações, pediram café e licor. Laurian sentou-se ao lado de Mona,
que num instante contou-lhe que ela e o marido Steve eram canadenses e que,
cansados do apartamento em Maui, uma das ilhas havaianas, onde há cinco anos
costumavam passar as férias, resolveram conhecer outro lugar.
— Você e Oliver já haviam estado aqui antes? — Mona perguntou, evidentemente
tomando-os por casados.
Oliver inclinou-se e, aproximando-se mais de Laurian, esclareceu:
— Moro aqui, porém é a primeira vez que Ann vem à ilha. — E olhando direto nos
olhos de Laurian, acrescentou: — Estou certo, não? Ou já esteve aqui antes?
Laurian estremeceu, perguntando-se se Oliver a reconhecera.

43

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

CAPÍTULO IV

Oliver a fitava, esperando pela resposta, e Laurian desejou não ter começado
aquela farsa. Entretanto, mesmo que ele tivesse descoberto a verdade, decididamente
aquele não era o momento para admitir que não era Ann Ford.
E se ainda não descobrira, com certeza a revelação causaria um choque e não se
tratava de um assunto para ser discutido na frente de estranhos. Portanto, a melhor
solução seria continuar mentindo.
— Eu... Eu já conhecia o Caribe... Porém não Emerald Beach... Estou hospedada num
hotel na ilha principal.
— Gosta de lá? — Mona insistiu.
— Sim... Gosto. É muito confortável. Não do mesmo nível deste clube, porém um
lugar bastante agradável.
— O que mais conhece no Caribe, Ann?
— Antígua. E as ilhas havaianas são muito diferentes destas?
Aliviada, ouviu uma descrição detalhada de Maui e do apartamento que Steve e
Mona possuíam.
Laurian percebeu que, apesar de mostrar-se interessado, Oliver se aborrecia com
a conversa. Ela mesma, apesar de sempre disposta a aprender sobre lugares que não
conhecia, naquela noite não se sentia com ânimo para ouvir relatos de viagens.
Quando terminou de tomar café, disse:
— Bem, creio que está na hora de voltar para o meu hotel.
— Eu te acompanho — Oliver ofereceu-se prontamente. — Com licença, Mona.
Assim que ambos se levantaram, os demais interromperam a conversa e Laurian
agradeceu aos Buckland pelo jantar.
— Desejo boas férias a todos.
— Obrigada, Ann. Sinto não haver tempo para nos conhecermos melhor — Steve
respondeu.
— Deixarei suas sandálias com Oliver. Muito obrigada por tê-las me emprestado,
Atalanta.
— De nada. Foi ótimo encontrá-la aqui.
Oliver e Laurian caminharam para dentro de casa.
— Enquanto você troca os sapatos vou vestir outra roupa. Volto num minuto.
44

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Pretende me levar para o hotel? — Laurian esperava que ele mandasse um dos
empregados acompanhá-la de volta.
— É o mínimo que posso fazer, não acha?
Sem entender o significado das palavras dele, observou-o subindo as escadas,
apressado.
No banheiro anexo à loja, onde deixara as roupas, Laurian tirou o vestido,
dependurando-o cuidadosamente no cabide. De novo de short, camiseta, sandálias de
salto baixo, saiu da butique. Chegou ao hall a tempo de ver Oliver descendo as
escadas, de calça caqui e camiseta bege.
Notando as sandálias de Atalanta nas mãos de Laurian, disse:
— Deixe-as na recepção. Theo as entregará para a camareira limpá-las e devolvêlas.
No corredor, passaram pela biblioteca. Assim como os cômodos principais, possuía
portas duplas de madeira maciça, que em outros tempos permaneciam abertas. Agora,
porém, encontravam-se trancadas.
Ansiosa, Laurian não conseguiu evitar olhá-las e Oliver, percebendo, explicou:
— Era, e continua sendo, a biblioteca de Archibald Bradford.
Não se ofereceu para mostrar-lhe e Laurian, mais uma vez, perguntou-se se ele
descobrira a sua verdadeira identidade.
A recepção ficava no fim do corredor, outra área construída anexa ao prédio
principal.
Theo, o funcionário em serviço aquela hora, contava cerca de cinqüenta anos, mas
Laurian não se lembrava de tê-lo conhecido antes. Na verdade, ela e Archie raramente
saíam da ilha, exceto para a compra de mantimentos em Saint James.
— Vou usar um dos barcos para levar minha convidada até Emerald Beach, Theo.
Não sei a que horas voltarei.
— Está bem, senhor. Boa noite, senhorita.
Ao ouvi-lo referir-se à ela como “minha convidada” e não “Srta. Ford”, Laurian
imaginou talvez que esse tratamento devia-se ao fato de saber que não se tratava da
Srta. Ford.
Talvez começasse a sentir os efeitos de sua mentira e enxergar segundas
intenções nas palavras e atos de Oliver. Como, por exemplo, intrigara-a o fato de ter
dito a Theo que não sabia a que horas voltaria. Com certeza, fizera o itinerário da ilha
até Emerald Beach tantas vezes de modo que seria impossível não precisar quanto
tempo levaria para ir e voltar. Laurian sentiu um leve tremor, ao pensar que talvez ele
planejasse parar em algum lugar. Onde? Não havia onde parar, pois a costa era de
vegetação cerrada e infestada de mosquitos.
— Como conseguiu se livrar dos mosquitos? — ela perguntou, quase acrescentando
que antigamente havia grandes quantidades deles. Porém conteve-se a tempo.
45

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Bem, por aqui não há água estagnada e tomamos todo o cuidado para não
facilitar a proliferação de insetos.
Chegaram numa pequena marina repleta de barcos a motor e a vela. Theo, com
certeza, avisara o vigia, pois um barco já estava preparado à espera.
Oliver subiu primeiro a bordo e estendeu a mão para Laurian. Os dedos firmes em
seu braço despertaram a lembrança dos braços dele ao seu redor, antes de Atalanta
aparecer, interrompendo a dança.
O vigia soltou a corda, impulsionando o barco.
— Obrigado, Tiny. Até logo.
Oliver ligou o motor, e Laurian, obedecendo a um velho hábito, puxou a corda,
enrolando-a em volta do cotovelo. O gesto não passou despercebido a Oliver, que
comentou:
— Vejo que está acostumada com barcos. Acertei?
— Bem... Tenho praticado um pouco de navegação.
De repente, Laurian lembrou-se do livro The Wind in the Willows, a obra-prima de
Kenneth Grahame, que Oliver lhe oferecera com uma dedicatória. “Para Laurie, de OI.”
E quando partira para Londres, não quisera levá-lo. Deixara-o na biblioteca.
OI! Um diminutivo horrível para um nome tão imponente!
Direcionando o barco de modo a passar pela casa, Oliver explicou:
— Durante o dia, barcos estão proibidos de cruzarem a praia principal, porém à
noite permitimos. Veja que vista maravilhosa da casa toda iluminada.
Laurian concordou. Jamais vira algo mais romântico do que a mansão iluminada e o
terraço banhado pela luz dos candelabros e lanternas japonesas.
— Parece mais uma residência particular em festa do que um hotel — comentou,
emocionada.
Ele diminuiu a velocidade e, apesar do ruído do motor, puderam ouvir o som da
banda.
A música romântica e a lembrança de seu pai provocaram a nostalgia e os olhos de
Laurian se encheram de lágrimas. Emoções profundas sufocadas pela preocupação com
sua carreira, de repente, vieram à tona.
— Olhe, alguém está acenando. Com certeza, nosso visitante de Vancouver. —
Oliver ergueu a mão em resposta ao cumprimento.
Aumentou a velocidade e o barco se afastou. Logo a casa era pouco mais do que um
ponto iluminado na escuridão da noite. Logo depois da primeira curva ao final da ilha,
Oliver tirou algo do bolso, oferecendo a Laurian.
— Creme contra mosquitos. Melhor passar nas pernas e braços.
Uma preparação para um interlúdio entre as árvores? As batidas do coração de
Laurian aceleraram-se com a mesma inquietação que sentira depois do seu primeiro
encontro com o melhor amigo de Neal Lingfield.
46

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Tivera alguns namorados, porém pressentia que tudo o que aprendera desde o
primeiro beijo seria insuficiente para lidar com Oliver Thornham, e o que fosse que
tivesse em mente.
Entretanto, para surpresa de Laurian, ele seguiu direto para Emerald Beach,
levando o barco até a praia.
E, sem se importar em molhar a calça, Oliver pulou, puxando p barco até a areia.
— Não há necessidade de você se molhar.
Antes que Laurian pudesse reagir, ele a ergueu nos braços, levando-a até a praia.
— Obrigada... Obrigada por me trazer de volta. Boa noite, Oliver.
Ele não respondeu, porém permaneceu olhando-a em silêncio.
Imóvel, Laurian mal respirava. Então, Oliver enlaçou-a pela cintura e, inclinando a
cabeça, beijou-a de leve nos lábios.
Foi um beijo delicado. Tão suave que mais parecia um sonho. Depois, beijou-a
novamente, ainda com suavidade, mas os movimentos dos lábios dele provocaram uma
reação imediata em cada nervo do corpo de Laurian. Se a beijasse pela terceira vez...
Entretanto, não o fez. Soltou-a e lentamente se afastou.
— Boa noite... Ann.
Alguns minutos depois, Oliver já estava a bordo, acenando em despedida.
— Quem foi o brutamontes que a trouxe de volta? — A Sra. Porter Lansing, que,
ao lado de outras pessoas, presenciara o regresso de Laurian, mal escondida sua
curiosidade.
Laurian não gostara do comentário da Sra. Lansing. Oliver era alto e forte, sim,
porém brutamontes era um adjetivo que conotava mais músculos e menos cérebro, o
que absolutamente não se aplicava a ele. Não obstante, conseguiu sorrir para a mulher.
— Ele é inglês. Gostou da visita a Saint James?
— Não há muito para se ver por lá... Apenas um mercado e algumas lojas, mas as
pessoas são educadas. Comprei presentes para minha filha e meus netos... — Connie
Lansing respondeu.
— Quer beber alguma coisa, Ann? — Melvin Dorado se aproximou, colocando a mão
em seu ombro.
— Não, obrigada, Mel. Vou me deitar. Vai ficar ainda por aqui?
— Sim...
— Aliás, você perdeu uma cena interessante. Um gigante trouxe Ann de onde quer
que ela tenha ido hoje... beijou-a bem ali, na praia — Connie informou, apontando para
o local da despedida. — Por onde andou hoje, querida?
— Em um dos hotéis da redondeza — Laurian não pretendia revelar os detalhes. —
Fico contente por saber que comprou seus presentes. Também quero ir até Saint
James. Vejo-os amanhã. Boa noite. Enquanto se afastava, ainda ouviu Connie comentar
com Mel:
47

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Duvido que a veremos muito daqui para frente. Acho ótimo que ela tenha
conhecido um rapaz. Na idade dela, passar as férias sozinha... Na verdade, em
qualquer idade...
Ao passar pela portaria, o gerente Edgar Headley, chamou-a:
— Oh, Srta. Ford... Tenho um recado. O Sr. Adstock telefonou da Inglaterra.
Disse que ligará novamente amanhã cedo.
— Obrigada, Sr. Headley. Boa noite.
Mais tarde, sentada na cama, Laurian tentava ler um livro que comprara na manhã
em que reencontrara Oliver. Fechou o livro, colocou-o na mesa-de-cabeceira,
deitando-se em seguida. No silêncio do quarto, o ruído das folhas das palmeiras
balançando ao vento e o som das ondas quebrando na praia chegavam-lhe aos ouvidos.
De olhos fechados, quase podia sentir os beijos de Oliver. Um tremor percorreulhe o corpo. Perguntou-se o que teria acontecido se estivessem num lugar solitário e se
ela obedecesse ao impulso de enlaçá-lo pelo pescoço, puxando-o de encontro a si.
Bastaram dois beijos gentis para que ela desejasse ardentemente fazer amor com
Oliver.
Decidiu que não deveria vê-lo de novo, pois sentia-se muito vulnerável. Não queria
se envolver numa aventura de férias e, além disso, havia Robert...
“Você ainda está comprometida com Robert e...” e por que um romance com Oliver
deveria ser necessariamente uma aventura de férias? Poderia durar a vida inteira,
alertou-a uma voz interior. Jamais daria certo, a vida dele concentrava-se ali, na ilha.
E a dela, em Londres. Mesmo que concordasse em desistir de sua carreira, o que não
seria nada fácil, ela não poderia abandonar “Laurian”. Afinal, muitas pessoas
dependiam dela, não só os funcionários, mas as respectivas famílias também. Se
optasse por viver na ilha, todos ficariam em dificuldades. O que não seria justo.
Convenceu-se de que se tivesse um pouco de bom senso não tornaria a ver Oliver
de novo. Forçou-se a não pensar mais nele e na tentativa de conciliar o sono, começou a
contar carneirinhos.
Na manhã seguinte, conforme prometera, Robert telefonou.
— Onde estava ontem quando telefonei? — A voz de Robert soou grave.
— Encontrei uma cliente e jantei com ela e o marido no hotel em que estão
hospedados. Sinto muito. E seu pai?
— Não está nada bem.
— Oh, querido. Pensei que estivesse reagindo.
— E estava, mas ontem sofreu outra crise e agora seu estado é crítico. O que você
fez depois de jantar com seus amigos?
— Saí de barco.
— Com quem? Não sabia que você sabia dirigir barcos. Onde aprendeu?
— Na escola — Laurian respondeu.
48

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Era verdade. Havia um lago nas imediações do colégio e esse esporte fazia parte
do currículo. Porém, fora Archie quem a ensinara a lidar com barcos, pois lhe era tão
natural quanto respirar.
— Espero que tenha usado salva-vidas — Robert acrescentou.
— Não me afastei da praia, de modo que não havia chances de me afogar. Como
está o tempo em Londres?
— Terrivelmente frio. O que não daria para estar aí ao sol com você!
— Pobre rapaz... — ela caçoou. — E sua mãe?
Conversaram ainda por alguns minutos, e Laurian ouviu pacientemente as
lamentações de Robert. No entanto, embora se sensibilizasse com o fato de ele não
poder viajar, admitia não estar sentindo sua falta. Concordava com a opinião de Connie
Lansing de que férias solitárias não eram tão agradáveis, porém mesmo que Robert não
viesse, pretendia aproveitar ao máximo, velejando, nadando ou conversando com seus
novos amigos.
No íntimo, desejava mesmo era que ele não viesse. Não queria decepcioná-lo,
porém tinha certeza de que não podiam ser mais que bons amigos.
Depois do café da manhã, voltou para o quarto a fim de escrever aos Buckland,
agradecendo pela hospitalidade. Nesse momento o telefone tocou. Com a certeza de
que era Robert novamente, tirou o aparelho do gancho.
— Alô?
Porém, não era a voz de Robert que respondeu.
— Bom dia. É Oliver. Tudo bem? Vou sair de barco com um casal de amigos, não os
Buckland. Gostaria de nos acompanhar? Partiremos às onze horas, almoçaremos a
bordo e voltaremos cerca de cinco horas.
Sem se dar tempo para pensar, Laurian apressou-se em dizer.
— Muita gentileza sua, porém já tenho planos para hoje.
— Não poderia desconsiderá-los?
— Receio que não.
— Que pena. Acho que gostaria dos Sheridan. São dois jovens advogados
americanos que costumam vir para cá todos os anos. Desta vez, estão em lua-de-mel.
Que tal jantarmos juntos esta noite?
— Sinto muito, mas não posso aceitar. Eu... Eu vou até Saint James com alguns
amigos.
— Compreendo.
Seguiu-se um silêncio e Laurian desejou que Oliver não perguntasse aonde
pretendia jantar. Uma mentira inocente já era suficiente e não pretendia envolver-se
em outras maiores.
— Pensei que um passeio a quatro seria mais agradável — Oliver retrucou. — Bem...
Espero que se divirta.
49

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Pelo tom de voz de Oliver, Laurian percebeu que ele não acreditara em suas
palavras.
— Obrigada. — Laurian despediu-se com a terrível sensação de que não tornaria a
falar com Oliver de novo.
Lentamente, Laurian recolocou o fone no gancho, acreditando ter agido com
sensatez. Entretanto, tal constatação não a fazia sentir-se bem.
Laurian saiu da água e aproximou-se de Connie e Mel, sentados na praia.
— Vendo-a nadar, tive a impressão de assistir a um espetáculo de bale — Connie
comentou. — Você é tão esbelta e graciosa. Esse é o maio que comprou em Saint
James?
— Sim... E obrigada pelo elogio.
— O que eu daria para ter um corpo como o seu... Se bem que não faria diferença,
a menos que ganhasse um novo rosto! — Connie riu de sua própria piada, acordando Mel
que cochilava ao seu lado.
— Você é uma dádiva para os nossos olhos, Ann — Mel acrescentou. — Não se
importa de nadar sozinha? Se eu fosse mais jovem, com certeza lhe faria companhia.
Laurian sorriu, percebendo que Connie e Mel não haviam feito nenhuma menção “ao
brutamontes” da noite anterior.
Acomodou-se numa espreguiçadeira sob um guarda-sol, servindo-se de limonada.
Ao sentir os cubos de gelo tocarem seus lábios, lembrou-se do beijo de despedida de
Oliver.
“Frazma” De repente, lembrou-se do termo nativo que significava confusão íntima,
uma palavra que permanecera esquecida em sua memória por tanto tempo e que
resumia exatamente seu estado de espírito no momento.
Uma das recepcionistas do hotel aproximou-se, entregando-lhe um envelope com o
timbre de Palm Reef.
— Uma carta para a senhorita, o garoto que trouxe disse que é urgente.
— Obrigada.
Imaginou que se tratava de uma resposta de Atalanta à carta de agradecimento
que lhe enviara pela manhã. Entretanto, assim que abriu a folha de papel, notou a
assinatura de Oliver.
— Seria possível emprestar-me o ferro e a tábua de passar roupa? — perguntou à
mesma recepcionista que lhe entregara a carta.
— Claro, Srta. Ford. Se preferir, uma das nossas camareiras lhe fará isso.
— Não, obrigada. Eu mesma passo.
— Então mandarei levá-los ao seu quarto.
Laurian dirigiu-se rapidamente a seus aposentos, deixando Mel e Connie
estupefatos com sua pressa. Em seus aposentos, apressou-se em ler a mensagem.
“Querida Ann, Uma vez por semana, costumo abrir a biblioteca, para aproximar sócios
50

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

que tenham algo em comum e que não têm oportunidade de se encontrarem durante a
permanência por aqui. Estamos aguardando a chegada de Richard Lucas, com quem,
acredito, você gostaria de conversar.
Se puder comparecer, mandarei um barco buscá-la às dezoito horas e quarenta e
cinco minutos. Passarei o dia todo fora da ilha, mas poderá falar com John Lynn.
Espero vê-la à noite.
Oliver.”
Por mais que desejasse rever a biblioteca de Archie, o bom senso lhe dizia para
resistir ao convite. Entretanto, a oportunidade de encontrar Richard Lucas, o estilista
americano a quem admirava muito, era importante demais para ser recusada.
Imediatamente, ligou para John Lynn confirmando sua ida. Enquanto esperava pelo
ferro de passar roupa, indagava-se sobre um modo de revelar sua verdadeira
identidade a Richard Lucas sem que Oliver percebesse... Se já não o soubesse.
Não tinha mais certeza de nada. Nem mesmo do motivo pelo qual a convidara para
a reunião daquela noite.
Uma leve batida interrompeu seus pensamentos. Abriu a porta e uma camareira
trouxe a tábua e o ferro.
— Vai passar um vestido especial para esta noite, senhorita? O Emerald Beach
ofereceria um coquetel para os hóspedes, seguido de um baile animado por um grupo
local.
— Já assumi um outro compromisso. Fica para uma próxima vez...
— Que pena — lamentou a camareira. — A senhorita iria adorar. Dois dos rapazes
da banda são meus primos e realmente formam o melhor grupo da ilha. Com licença —
despediu-se, saindo do quarto.
Seguindo a sugestão de Robert, Laurian havia trazido apenas um vestido de noite.
Branco, confeccionado com um tecido raro e antigo, em estilo vitoriano, era muito
elegante e de extremo bom gosto. Ela mesma encontrara o tecido em uma das
incursões que fizera nas desconhecidas lojas do subúrbio de Londres.
Usava brincos de ouro e colar de coral que comprara em Saint James no dia
anterior.
Quando chegou à marina, pouco antes das sete horas, o barco de Palm Reef já a
aguardava. Josh, o mesmo segurança que a encontrara na praia do hotel, desta vez a
cumprimentou sorrindo.
— Boa noite, senhorita.
— Boa noite. — Laurian também sorriu, com a impressão de que Josh era um dos
tantos garotos que, cerca de vinte anos atrás, costumavam aparecer na ilha para
brincar com ela e Archie. Perguntou-se se ele se lembraria ainda da menina que vivera
naquela casa. Com certeza, já a esquecera.
— Há quanto tempo trabalha com o Sr. Thornham? — indagou durante o trajeto.
51

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Nove anos, senhorita.
Embora respondendo polidamente às perguntas dela, Josh não se mostrava
disposto a manter uma conversação, de modo que Laurian calou-se. Concentrou seus
pensamentos em Richard Lucas, o americano que conheceria naquela noite. Era um
estilista de vanguarda e, apesar de tendências totalmente diferentes, Richard era um
dos nomes a quem mais admirava no mundo da moda.
Assim que o barco entrou na marina, surpreendeu-se ao ver Oliver a sua espera.
Ele e Josh a ajudaram a descer e, antes mesmo que pudesse cumprimentá-lo, Oliver
beijou-lhe a mão e sussurrou:
— Você está simplesmente estonteante. Esse modelo é seu?
— Obrigada... Sim, é... — Sabia que deveria desvencilhar-se dele, porém, em vez
disso, manteve os dedos entre os dele.
— Devo admitir que não conheço nada a respeito do seu trabalho. Porém, pela
elegância do seu vestido, imagino que seja uma estilista bem-sucedida.
— Mais uma vez, obrigada... — murmurou, perguntando-se por quanto tempo ele
ainda seguraria sua mão.
— Seu convidado já chegou?
— Sim... Porém, apenas seus assessores sabem que se hospedará aqui.
— Por quanto tempo ficará no hotel?
— Cinco dias.
Incapaz de pensar em algo mais para falar, Laurian permaneceu em silêncio,
completamente consciente do calor e do poder intenso e latente que emanava da mão
dele envolvendo a sua.
Entraram no hotel dirigindo-se imediatamente à biblioteca, cujas portas ainda
estavam fechadas. Oliver comentou:
— Muitas pessoas consideram este lugar muito bonito e agradável. Encarreguei um
decorador inglês para redecorá-lo e creio que fez um trabalho excelente.
Abriu a porta e, soltando-lhe a mão, permitiu que Laurian entrasse primeiro. Com o
coração aos saltos e ansiosa, Laurian deu alguns passos à frente. E quando num correr
de olhos, reviu o local onde passara muitos dos momentos felizes de sua infância, a
muito custo conteve as lágrimas.
— Bem, o que acha? — Oliver indagou, depois de fechar a porta da biblioteca.
Evitou olhá-lo, com medo de trair a emoção. Tentando manter a voz firme,
respondeu calmamente:
— É o lugar mais agradável em que já estive.
Para ela, realmente, a biblioteca sempre fora seu lugar predileto, mesmo quando
empoeirada e suja, sem nenhum reparo desde a época em que Archie a construíra.
Deveria ter imaginado que Oliver a conservara. Havia alguns móveis novos, porém
todos em perfeita harmonia com as peças originais.
52

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

E havia também muitas flores, espalhadas por todos os cantos, algumas naturais,
outras desidratadas, como as que enfeitavam o vaso dourado colocado sob a lareira.
Embora nessa região uma lareira fosse perfeitamente dispensável, Archie fizera
questão de construí-la, pelo simples prazer de contemplá-la. Antigamente, na parede,
havia um espelho, já embaçado pelo tempo. Agora, em seu lugar, e valorizado por uma
moldura nova, havia uma pintura... A Filha de Netuno.
— E o quadro? Gosta dele? — Oliver indagou e, antes que Laurian tivesse tempo de
responder, ele acrescentou: — Já recebi muitas ofertas de colecionadores
interessados em adquiri-lo. Foi pintado por um holandês chamado Helder, que anos
depois tornou-se famoso.
— É mesmo? — Laurian tentou mostrar-se indiferente, porém o retrato parecia
exercer um fascínio tão forte que não conseguia afastar seu olhar. Num impulso,
perguntou: — E a garota, quem é ela?
— Ela vivia aqui. Seu nome era Laurian Bradford... hoje, diminuído para Ann Ford.
Um tremor percorreu-lhe o corpo e, num fio de voz, afirmou:
— Atalanta lhe contou...
Oliver negou com um movimento de cabeça.
— Tive certeza de quem era ao ver a cicatriz no seu joelho quando você
experimentou as sapatilhas. Isso confirmou minhas suspeitas. Porém, se ainda não
soubesse, teria descoberto neste momento. Muita coisa mudou em você, é verdade,
menos a cicatriz... E, isto...
Enquanto falava, com a ponta do dedo traçou uma linha da testa até o queixo.
— Desde criança, você tem as linhas do rosto muito bonitas — murmurou, com voz
enrouquecida.
No instante seguinte, Laurian encontrava-se nos braços de Oliver, que a beijava
intensamente.
Trêmula e totalmente envolvida por uma onda de paixão, Laurian encostou a cabeça
no ombro dele, sentindo as batidas aceleradas de seu coração.
Não ofereceu resistência quando Oliver a levou até o sofá, fazendo-a sentar-se
em seu colo.
Começou a beijá-la no pescoço e somente quando uma das mãos pousou em seu seio,
percebeu que ambos estavam prestes a perder o controle.
— Oliver... — Por favor... Seus convidados... — ela murmurou, ofegante.
— Não existem convidados — ele retrucou. — A festa será amanhã. Esta noite é
nossa... Só nossa.
Laurian arregalou os olhos.
— Quer dizer que mentiu para mim? — ela indagou, sentindo a pulsação acelerada
por causa das carícias de Oliver.

53

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Ele interrompeu seus beijos e carinhos e, fitando-a com os olhos cheios de desejo,
respondeu calmamente:
— Não, não menti. Apenas tomei algumas precauções a fim de que tirasse
conclusões erradas. Se guardou meu bilhete, leia-o de novo. Escrevi que aguardava a
chegada de Richard Lucas... Mas não disse que ele chegará somente na próxima
semana. Hoje seremos só nós dois.
Inclinou a cabeça, recomeçando a beijá-la. De repente, parou e disse:
— Melhor trancar a porta... Para evitar que alguém entre.
Com gentileza, colocou-a no sofá, caminhou até a porta, trancando-a. Laurian
levantou-se e aproximando-se dele, falou:
— Oliver, precisamos conversar. Se sabia quem sou, por que não disse?
— Esperava que você mesma me contasse. Na verdade, esse fato não contava
muito. Ambos sabíamos o mais importante de tudo: que pertencemos um ao outro. Eu,
pelo menos, soube desde o dia em que a vi em Londres. Se você não tivesse vindo até
aqui, iria a sua procura. Não seria difícil encontrá-la, uma vez que sabia sua profissão.
— Não me diga que foi amor à primeira vista! Nunca imaginei que acreditava nisso.
— E não acreditava, até acontecer comigo. Quando a vi descendo as escadas de
Hatchards, pensei: “Encontrei-a... finalmente”. Já começava a acreditar que esperava
por alguém que não existia. Foi assim com você?
— Foi, sim — Laurian confessou. — Daí, você se apresentou e fiquei profundamente
chocada, arrasada, mesmo. Afinal, eu o odiava... Desprezava, abominava você. Foi como
se... Como se o príncipe encantado se transformasse num monstro. Não sabia o que
fazer, então, fugi!
— Deveria tê-la seguido, porém fiquei tão surpreso quanto você — Oliver admitiu.
— Qualquer um ficaria desconcertado, se a garota com quem sonhou a vida inteira de
repente começasse a tratá-lo como inimigo. Não conseguia entender a razão de sua
atitude e perguntei-me o que teria causado uma mudança repentina, após ouvir meu
nome. Pensei em mil possibilidades, nenhuma suficientemente convincente, antes de
esbarrar na verdade. Entretanto, um ponto me intrigava e me confundia muito. Se
você era a pequena Laurie, por que não me reconhecera de imediato? Você mudou
muito, tornou-se quase irreconhecível, porém eu não.
— Quando o conheci, usava barba, o que faz enorme diferença. Além disso, você
não era o homem gentil e cavalheiro que é hoje.
Oliver resmungou:
— Suas palavras fazem com que me sinta um brutamontes! Sim, esqueci da barba!
— Passou a mão pelo queixo. — Acho que, quando cheguei aqui, minha aparência era
péssima e assustadora.
— Talvez estivesse tão infeliz a ponto de não prestar atenção em você mesmo.
Archie sabia a respeito de Judy? Contou a ele? — Laurian indagou.

54

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Acho que sim. Não me lembro. Importa-se por eu ter amado alguém na minha
mocidade?
— Oh, Oliver... Não claro que não. Apenas não gosto de lembrar do seu sofrimento.
Nesse momento o telefone tocou.
— Quem será? — Oliver levantou-se, irritado. — Avisei que não queria ser
perturbado. — Atendeu: — Thornham falando.
Laurian observou-o enternecida, procurando convencer-se de que, mesmo depois
dos beijos apaixonados, conseguiria viver sem ele.
Oliver pegou uma caneta e anotou um número no bloco ao lado do telefone.
— Sim, entendi. Darei o recado à Srta. Ford. — Colocou o fone no gancho,
voltando-se para ela. — Alguém chamado Robert Adstock ligou para seu hotel. Não
disse o que queria, porém pediu para telefonar ainda hoje para este número na
Inglaterra. — Verificou as horas. — É quase meia-noite lá.
Por alguns momentos, Laurian sentiu-se no paraíso, porém, enquanto ouvia Oliver
transmitir-lhe o recado, viu-se trazida bruscamente de volta à realidade.
Não tinha a menor idéia do que Robert queria àquela hora. Talvez informar a
morte do pai. De qualquer modo, sentia que devia uma explicação a Oliver.
Apesar de aceitar o fato de Oliver ter amado outra mulher, não imaginava como
reagiria ao saber que, não fosse a repentina doença do Sr. Adstock, ela não estaria
sozinha na ilha.

55

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

CAPÍTULO V

Enquanto Laurian ligava para a Inglaterra, Oliver afastou-se da mesa, caminhando
até uma estante, de onde tirou um livro. Sentou-se e começou a folheá-lo. Embora a
biblioteca fosse ampla, Laurian sabia que ele ouviria perfeitamente sua conversa com
Robert. E Oliver não parecia nada satisfeito com a interrupção, mesmo ignorando o
grau de relacionamento entre ela e Robert.
— Robert? É Laurian. Tudo bem? — perguntou, assim que o amigo atendeu.
— Nunca a encontro no hotel quando telefono! — ele retrucou, sem nenhum
preâmbulo. — Onde está agora?
— Em outro hotel. E seu pai?
— Um pouco melhor. Decidi viajar amanhã ao seu encontro. Quero que me espere
no aeroporto de Antígua. Não fica muito longe da ilha e poderemos passar a noite
juntos, em vez de ficar sozinho até a manhã seguinte.
Depois dos últimos acontecimentos, tais palavras deixaram-na perplexa.
— Laurian? Está me ouvindo?
— Sim... Sim. Estou... Estou surpresa. Ainda ontem você me pareceu tão incerto...
— Conversei com o médico e ele acha que o estado de papai está sob controle.
Além disso, minha irmã permanecerá aqui e, se necessário, posso voltar rapidamente.
— Sei... Mas... Como ficará tranqüilo na expectativa de uma emergência?
— Até parece que não quer que eu vá! — falou, num tom áspero.
Laurian se perguntou como Robert reagiria no caso de uma resposta afirmativa.
Porém, como explicar o quanto sua vida mudará desde que partira de Londres?
Tratava-se de um assunto delicado e que precisava ser esclarecido com calma e muito
tato.
— É uma viagem longa, não se esqueça... Se precisar voltar às pressas... Além disso,
o calor está insuportável. E as pessoas demoram alguns dias para se aclimatarem. No
Emerald Beach, uma mulher se expôs tanto ao sol, que sofreu queimaduras graves.
Meia hora ao sol é o máximo que alguém pode suportar.
— Não está gostando daí? Pensei que estivesse se divertindo! Tenho a impressão
de que tem aproveitado muito bem seu tempo sem mim.

56

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Claro que estou me divertindo. Há milhares de coisas para se fazer e tenho
sorte... Me bronzeio com facilidade. Fiz novas amizades, sobre as quais já lhe falei, e
agora encontrei uma pessoa que conheci anos atrás. — Olhou de relance para Oliver.
Ele já se levantara e recolocara o livro na estante. De costas, parecia absorto
lendo os títulos dos volumes, porém Laurian tinha certeza de que prestava atenção na
conversa.
Robert continuou:
— Independente de sua opinião, viajo amanhã. Depois de quase uma semana aqui,
estou a ponto de sofrer um colapso. Não parou de chover. Mamãe me deixa louco com
sua conversa a respeito do que houve de errado entre mim e Celie. Contei sobre você...
sobre nós... Porém ela não quis nem ouvir. Pelo amor de Deus, não diga que mudou de
idéia!
Laurian desejou esclarecer que nunca existira nenhum compromisso entre eles,
entretanto aquele não era o momento. Não poderia discutir o assunto por telefone e
muito menos na presença de Oliver.
— É... Você está muito contrariado e precisando realmente de uma semana de sol e
mar. Tudo bem, o encontrarei no aeroporto, mas acho melhor me ligar antes,
confirmando o embarque. Procure não se aborrecer com sua mãe, Robert. Isso só
provocará um aumento na sua pressão.
— O simples pensamento de revê-la, depois de tantos dias de separação, já me
acalma, querida — assegurou. — Tenho sentido demais sua falta, Laurian. Não acredito
que esteja com saudade, já que tem se divertido sozinha. Esta semana serviu para
provar o quanto preciso de você. E lhe mostrarei pessoalmente amanhã à noite. Acha
que terá dificuldades em pegar um avião para Antígua?
— Não creio. Confirmarei quando me telefonar amanhã. Esta ligação custará uma
fortuna. Melhor nos despedirmos.
— Boa noite, querida. Mal posso esperar para abraçá-la.
— Até amanhã, Robert. Boa noite.
Confusa e chocada com a inesperada decisão de Robert, Laurian desligou, pensando
em como explicar a situação para Oliver, que a observava com uma expressão
inesperadamente divertida.
— Aposto que uma mãe super protetora está provocando uma crise nervosa no
filhinho delicado.
A brincadeira desconcertou-a por um momento. Oliver interpretara mal o que
captara de sua conversa com Robert.
— Receio que seu amigo não encontrará em mim um ouvinte disposto a escutar suas
lamentações — Oliver continuou, ante o silêncio dela. — É bom que não conte com você,
também. Não pretendo dividi-la com ninguém. Ele encontrará pessoas de seu meio. Não
será difícil...
Laurian tentou explicar sobre Robert, mas Oliver não lhe deu oportunidade.
57

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Está com fome? Vamos jantar?
Ela não percebera antes que, a um canto da sala, havia uma mesa preparada para
dois, com candelabros e uma garrafa de champanhe dentro de um balde com gelo.
Enquanto Oliver abria a garrafa, Laurian decidiu não desfazer o mal-entendido sobre
Robert. Qualquer explicação poderia estragar o clima romântico desse encontro.
— Posso acender as velas? — ela pediu.
— Se quiser...
Com gestos lentos, acendeu as velas, e Oliver encheu as taças com o líquido
borbulhante. Ofereceu uma a Laurian e, erguendo a outra, brindou:
— Seja bem-vinda ao seu lar, Laurian Bradford... Laurian Thornham em breve,
espero.
O brilho do seu olhar e a ternura em seu sorriso fizeram com que ela esquecesse
tudo o mais, exceto seu amor por Oliver.
— A nossa felicidade! — Circundou seu braço no dele e, muito próximos, beberam o
champanhe. Depois se beijaram. — Esse seu queixo agressivo está manchado de batom
— murmurou, limpando-o com um lenço.
— Agressivo? Eu? Absolutamente. Sou um homem de boa paz. Não me lembro de
ter perdido o controle mais do que duas vezes, desde sua partida da ilha.
— E fico feliz por não estar mais por aqui nessas ocasiões. Aposto que foi pior do
que um terremoto.
— Não diga que já se esqueceu das cenas que aprontou quando Archie decidiu
mandá-la para a Inglaterra? — Oliver caçoou. — Culpou-me pela decisão de seu pai,
porém ele já alimentava essa idéia havia muito tempo. Admito que o encorajei, mas a
intenção nunca foi torná-la infeliz, como você pensou na época. Sabíamos que, sem
estudo, você se tornaria uma pessoa despreparada para enfrentar o futuro.
— Hoje entendo e admito essa verdade. Entretanto, somente na noite passada,
quando contava aos Buckland como e por que chegou aqui, foi que compreendi o quanto
o julguei mal.
Descruzaram os braços e sentaram-se. Destampando as travessas de porcelana,
depararam com uma sopa.
— É gazpacho, não? — Laurian indagou.
— Sim. Gosto muito de comida espanhola. Estive na Espanha antes de nos
encontrarmos em Londres. Conhece á Espanha?
Laurian negou com um movimento de cabeça.
— Paris e Nova York são os únicos países que visitei. A Espanha é muito procurada
por turistas, não?
— Alguns lugares. A cidade onde estive não faz parte do roteiro turístico. É como
no Caribe. Certos pontos vivem repletos de visitantes, ao passo que outros continuam
praticamente desconhecidos do resto do mundo.
58

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Quando terminaram o gazpacho, Oliver serviu salada de camarão e, como
sobremesa, comeram torta de limão. Depois, tomaram o café sentados no sofá.
— O jantar esteve delicioso — Laurian comentou.
— É o cardápio que meu chef prepara especialmente para casais em lua-de-mel e
que preferem jantar no quarto a primeira noite no hotel.
Acariciou a mão dela antes de ligar a cafeteira elétrica sobre uma mesinha, onde
havia duas xícaras de porcelana e um prato com chocolates.
Laurian corou ao pensar onde passaria aquela noite, se é que ele pretendia convidála para dormir no hotel. Em silêncio, Oliver sentou-se ao lado dela e, enlaçando-a pela
cintura, puxou-a de encontro a si.
— Se ainda guardava tanto ressentimento contra mim, por que decidiu passar suas
férias tão próximo da ilha? Foi só curiosidade o que a trouxe de volta?
Aninhando-se mais nos braços dele, respondeu com outra pergunta:
— Nunca se sentiu curioso a meu respeito?
— Não muito. Como a última vez em que a vi ainda era uma menina desajeitada,
acho que nunca imaginei que se tornaria uma mulher atraente e adorável. — Beijou-a
de leve na testa. — Seu retrato em criança... Somente o olhar clínico de um verdadeiro
artista reconheceria todo seu potencial. Na verdade, lembro-me de você mais como um
moleque... Com ossos salientes e pernas compridas... Como um potrinho. — A mão em
sua cintura se moveu para cima. Beijou-a na orelha e, com gentileza, virou o rosto dela
para ele.
Na manhã seguinte, Laurian foi acordada com uma leve batida na porta.
Momentaneamente desorientada por não se encontrar no quarto do Emerald Beach,
ouviu uma voz feminina anunciar que trazia seu desjejum. Lembrou-se, então, que
estava num dos chalés do Palm Reef Club. Apressada, sentou-se na cama, ajeitando o
travesseiro às suas costas.
— Entre.
A porta foi aberta e uma mulher alta e morena entrou, carregando uma bandeja.
— Bom dia, senhorita. Dormiu bem? — perguntou, sorrindo.
— Como um anjo.
A empregada ajeitou a bandeja na cama.
— O Sr. Thornham costuma tomar café da manhã às seis horas, independente da
hora em que se deita. Pediu para lhe avisar que virá mais tarde... E que trará algumas
roupas, uma vez que a senhorita não planejava dormir aqui. Ouvi o Sr. Thornham
comentar que a senhorita já morava aqui antes da chegada dele. É verdade?
— Sim. Nasci aqui. Archibald Bradford era meu pai.
— É mesmo? Então, voltou para ficar?
A pergunta fez com que Laurian se sentisse realmente de volta ao lar.

59

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Ao mesmo tempo, sentiu-se preocupada. Como poderia voltar? Tentou afastar tal
pensamento de sua mente. Ainda era muito cedo para preocupar-se com esse
problema.
— Talvez... Não sei ainda.
A mulher caminhou em direção à porta, de onde se voltou dizendo:
— Vou lhe fazer uma confidencia. O Sr. Thornham é um homem feliz, desde que
colocou os olhos na senhorita. Qualquer um poderá confirmar minhas palavras. Parece
que passou a viver no paraíso desde que a encontrou. — Sorrindo, saiu do quarto,
fechando a porta.
Laurian tomou o café e já se encontrava no chuveiro, quando ouviu a voz de Oliver.
— Posso entrar?
Enrolando-se numa toalha, entrou no quarto, encontrando-o com algumas roupas
nos braços.
— Bom dia — cumprimentou-a. — Como se sente?
— No paraíso... Como você, segundo a camareira que trouxe o café. Todos já sabem
a nosso respeito?
Oliver colocou as roupas sobre a cama.
— Se ainda não sabem, logo ficarão sabendo. Cloella não consegue guardar as
novidades só para ela. — Abraçou Laurian, beijando-a apaixonadamente. — Tenho
algumas coisas para fazer. — Afastou-se e, olhando para a toalha que a envolvia,
acrescentou: — Passei apenas para lhe desejar um bom-dia e trazer-lhe estas roupas.
Quando estiver pronta, vá até minha sala e tomaremos um café juntos.
Beijou-a novamente e saiu do quarto. Laurian sentiu-se feliz e amada, até o
momento em que se lembrou da próxima chegada de Robert e de que prometera
encontrá-lo no aeroporto de Antígua.
— Oh, céus! — resmungou, pensando que precisaria saber o horário do vôo para a
capital.
— O avião para Antígua sai às dez e meia, Srta. Bradford — a recepcionista
informou-a, no saguão do hotel.
— Oh, não! Não posso perder esse avião. De modo algum.
Acordara às nove e já passava das dez horas. Levaria, pelo menos, quarenta
minutos para chegar ao aeroporto.
— Não se preocupe, Srta. Bradford. O Sr. Thornham a levará em seu avião.
Estarão em Antígua na hora do almoço.
— Não sabia que ele possui um avião.
— O Sr. Thornham prefere andar de avião. Diz que é mais seguro do que um barco.
— Compreendo... Nesse caso, fico mais tranqüila. Afastou-se, pensando que se de
um lado sentia-se tranqüila por chegar a tempo no aeroporto, por outro, preocupava-

60

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

se, pois pressentia que não teria oportunidade de conversar a sós com Robert e
explicar a respeito de Oliver.
Caminhando lentamente pelo corredor, tentava convencer-se de que talvez
exagerasse em suas preocupações. Talvez Oliver tivesse negócios para resolver em
Antígua e que o manteriam ocupado enquanto ela recebia o amigo. Não fazia a menor
idéia do tipo de avião que ele pilotava. Se fosse um de dois lugares, com certeza não
haveria espaço para Robert e sua bagagem.
Não sairiam do hotel antes das onze horas e, como Oliver ainda deveria estar
trabalhando, decidiu conversar com Mary Poole.
— Bom dia, Mary.
— Bom dia, senhorita.
Laurian teve a impressão de que Mary havia chorado. Com os olhos vermelhos,
piscou várias vezes e explicou: — Entrou um cisco no meu olho... Gostou dessa blusa ou
prefere trocá-la? — As roupas que Oliver levara eram da butique.
— Adorei. Obrigada. Soube que Richard Lucas chegará na próxima semana. Gosto
muito dos modelos dele. E você?
— Também gosto — Mary concordou. — Tenho uma blusa da confecção dele há,
pelo menos, cinco anos, e ainda parece nova. A qualidade é excelente.
Conversaram animadamente até a chegada de uma hóspede. Laurian se despediu,
voltando para seu quarto. No corredor, cruzou com duas jovens camareiras, que,
sorrindo, trocaram olhares cúmplices. E quando, num impulso, Laurian se voltou,
encontrou-as paradas observando-a, em vez de continuarem o caminho. Diante de tal
atitude, admitiu que todos os funcionários já sabiam que o patrão se envolvera
sentimentalmente com a hóspede do Emerald Beach, com quem jantara na biblioteca e
que passara a noite em um dos chalés. O que os intrigava, com certeza, era saber onde
ele dormira. Em seu próprio quarto ou com ela.
Ao passar pelo escritório de Oliver, ouviu o ruído de uma máquina de escrever.
Bateu de leve na porta e ele a mandou entrar. Oliver datilografava com rapidez.
— Prepare um café, querida. Já está tudo organizado. É só ligar a cafeteira. Num
minuto termino meu trabalho.
Para Laurian, era como se nunca tivessem se separado. Como se o herói da garota
de treze anos não à tivesse decepcionado nunca e que lenta e gradualmente
amadurecera, transformando-se no amor adulto que duraria para sempre.
Assim que Oliver terminou de datilografar, Laurian serviu o café e, enquanto o
bebiam, ela indagou:
— Oliver, há algum motivo que poderia aborrecer Mary? Estive na loja e acho que
esteve chorando.
— Não sei. Mary é uma pessoa normalmente bem-humorada, o que a torna muito
popular e querida. É ela quem costuma consolar e aconselhar os colegas que se
encontram em dificuldades.
61

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— E, no entanto, ela própria já enfrentou uma grande tragédia em sua vida.
Contou-me que o marido foi morto num atentado na Irlanda. Creio que ainda sofre
muito por isso.
— Pode ser. Bem, vou conversar com ela depois.
— Não a deixe saber que fui eu quem lhe contou. Talvez tenha me enganado.
— Claro que não direi nada. — Verificou as horas. — Encontre-me na recepção
dentro de vinte minutos. Agora, preciso de outro beijo. — Estreitando-a nos braços,
beijou-a com paixão.
Laurian voltou para o quarto, pensando que deveria explicar a Oliver sobre Robert,
o que, com certeza, abalaria a doce harmonia que os envolvia. Porém, não poderia adiar
esse momento.
Seguiram de barco até Saint James, onde pegariam o avião. No caminho, Oliver
comentou:
— Conversei com Mary, que me pareceu tão bem-humorada como sempre. Acho que
me contaria se tivesse algum problema. Somos amigos há muito tempo. Espero que, um
dia destes, encontre alguém que a ame e a faça feliz. — Acariciando a mão de Laurian,
acrescentou: — Chega de nos preocuparmos com Mary. Vamos falar sobre você. Contei
a ela seu verdadeiro nome e perguntei-lhe se sabia que você é uma estilista de moda.
Mary me repreendeu por minha ignorância. Não sabia que você é um nome
respeitadíssimo e que venceu o concurso do “Estilista do Ano”. Foi Mary quem me
contou.
Laurian sorriu.
— Não foi fácil atingir este ponto. Lutei muito para conseguir o reconhecimento.
Muitos anos de trabalho e dedicação em tempo integral. Coloquei minha carreira em
primeiro plano, quase esquecendo de minha vida pessoal e sentimental.
— Nem mesmo um namorado? — questionou-a, erguendo a sobrancelha.
— Não... Desde o tempo de faculdade, e mesmo assim nada de sério.
A conversa se encaminhava para o campo pessoal e Laurian decidiu que era o
momento de explicar sobre seu relacionamento com Robert. Oliver, porém, antecipouse, comentando:
— Na minha opinião, uma garota não deve assumir compromissos sérios antes dos
trinta anos. Lembro-me de quando os pais de Judy se opuseram a que viajasse para a
Nova Zelândia comigo. Achavam que era jovem demais e hoje acredito que estivessem
certos.
— Talvez, a despeito da pouca idade, ela já estivesse preparada para proporcionar
um lar verdadeiro e sólido para o marido e os filhos — Laurian interveio. — E, embora
as feministas afirmem o contrário, ser esposa e mãe também é viver uma carreira. É
tudo uma questão de opção.
A conversa foi interrompida ao chegarem na marina, onde um automóvel esperava
para levá-los ao aeroporto.
62

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Da janela do avião particular de Oliver, Laurian, encantada, observava a paisagem.
Através da água transparente, os corais e as rochas eram visíveis em todo seu
esplendor.
— Simplesmente fabuloso, Oliver — comentou, assim que aterrissaram em Antígua.
— Fico contente que tenha apreciado. Poderemos nadar um pouco antes do almoço.
E, depois, veremos como passar o tempo até a chegada do seu amigo.
— Mas não trouxe maiô...
— Mas eu trouxe... E também toalhas e sandálias.
Meia hora depois, vestindo o biquíni que Oliver pegara da butique, Laurian
mergulhou nas águas mornas da praia particular de um dos melhores hotéis de Antígua.
— Você continua nadando como um peixe... — Oliver comentou, quando ambos
voltavam para suas espreguiçadeiras.
— Costumo freqüentar um clube em Londres. Deitaram-se, secando-se ao calor do
sol.
— Quer que passe creme nas suas costas? — Oliver tirou um frasco da sacola que
trouxera.
— Sim. Obrigada.
Virou-se de bruços e sentiu que ele lhe desabotoava o biquíni e, com movimentos
lentos, começou a espalhar o creme, massageando as costas, o pescoço, os ombros.
Sensualmente, as mãos desceram até os quadris, provocando uma sensação deliciosa e
excitante.
De repente, Laurian lembrou-se de que Oliver dissera algo à respeito de como
passar o tempo até a chegada de Robert e perguntou-se o que teria em mente. Ela,
sim, sabia muito bem como gostaria de passar a tarde. Num quarto aconchegante,
numa cama confortável, entre lençóis macios, fazendo amor com Oliver.
— Está dormindo? — ele interrompeu seus pensamentos. Erguendo a cabeça,
olhou-o.
— Com você judiando de mim? — retrucou, num tom de zombaria.
Oliver se inclinou e, afastando as alças do biquíni, sugeriu:
— Vire para eu passar o creme na frente.
Aquela hora, a praia estava deserta e do lugar onde se encontravam, protegidos
por uma pedra recoberta por uma cortina de coral, não poderiam ser vistos por
ninguém.
Laurian virou-se. Com a ponta dos dedos, Oliver espalhou o creme e com
movimentos sensuais acariciou a curva dos seios dela. Imóvel, quase sem respirar,
ouviu-o murmurar:
— Dizem que Antígua tem uma praia para cada dia do ano... Algumas
completamente isoladas. Talvez encontremos uma só para nós.

63

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Talvez... — A resposta soou pouco mais do que um sussurro. — Oliver... — gemeu,
ao sentir as mãos dele em seu ventre. — Você não sabe o que está fazendo comigo!
— E o que você está fazendo comigo? — Oliver, inclinou a cabeça, beijando-a com
sofreguidão. — Acho que devemos nos casar o mais rápido possível. Se conseguirmos
uma licença especial, como reagirá seu amiguinho delicado?
Ela se retraiu.
— Oliver, há algo que precisa saber a respeito de Robert. Ele não é como está
imaginando.
— Se não é, então por que vem ao seu encontro?
— Somos velhos amigos. Nossos apartamentos ficam na mesma casa...
Uma vez que começara, decidiu contar tudo desde o início. Falou sobre os planos
de viagem, mudados à última hora, devido à doença do Sr. Adstock. Oliver ouviu-a em
silêncio e somente quando terminou o relato, falou num tom seco.
— Entendo.
Por um momento, Laurian pensou que ele não diria mais nada. Mas disse:
— Ele está apaixonado por você?
Laurian não respondeu de imediato. Calou-se por um momento que pareceu uma
eternidade. E, nesse espaço de tempo, percebeu, embora se negasse a admitir, que sua
recém-conquistada felicidade não tinha estabilidade. Era como uma casa construída
sobre areia movediça.
— Robert precisa de alguém — argumentou. — Já foi casado... Agora quer casar de
novo... Não importa com quem. Não gosta de viver sozinho. Por ele, nossa amizade já
teria se transformado num relacionamento mais íntimo, porém nunca fomos amantes.
— Com certeza, ele espera que essa situação mude depois de sua chegada.
— Talvez... Mas nunca lhe dei esperanças. Gosto muito de Robert, mas como um
bom amigo. Espero muito mais do que amizade de um relacionamento a dois. Jamais
poderia me envolver com um homem se não fosse por amor.
Oliver assentiu com um movimento de cabeça.
— Entendo o que quer dizer. Também acho que não vale a pena começar um
relacionamento apenas para não se ficar sozinho ou por uma brincadeira. Uma relação
a dois implica muito mais do que simples atração física ou mesmo uma grande amizade,
como é o caso de vocês.
Curiosa por saber mais a respeito da vida pessoal dele, Laurian não se conteve:
— Você deve ser muito assediado pelas mulheres e parece que a própria Atalanta
Buckland ficou muito impressionada.
Oliver encolheu os ombros, em sinal de indiferença.
— Atalanta seria muito mais feliz se Henry lhe dispensasse mais atenção. Ela
passa o dia descansando, lendo livros eróticos. Ele, por sua vez, vive no mar se
cansando demais e, à noite, só quer saber de um lauto jantar e muita bebida. E, na
64

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

hora de ir para a cama, Henry não tem disposição para mais nada, exceto dormir.
Qualquer um percebe isso.
Laurian observou-o acomodar-se na espreguiçadeira. Com os cabelos em desalinho
e descontraído em seu calção de banho, parecia muito mais o Oliver que conhecera em
criança do que o estranho que fizera seu coração descontrolar-se na livraria de
Londres.
— Nem sempre o homem é culpado pelo fracasso de um casamento! — ela replicou.
— Concordo, e freqüentemente temos a constatação desse fato. Mulheres que
traem a confiança dos maridos etc. O hotel é uma verdadeira escola para aprendermos
sobre a natureza humana.
— Mas ainda existem pessoas que encontram o parceiro certo e que, com o passar
dos anos, vêem a união solidificada pela compreensão e harmonia.
Encarando-a, Oliver acrescentou com convicção:
— É o tipo de casamento que quero... e pretendo realizar. Laurian compreendeu que
esse era o momento em que deveria discutir sobre seu trabalho e o lugar que este
ocupava em sua vida. Não poderia simplesmente ignorar esse assunto e concordar em
se dedicar por completo ao estilo de vida que ele planejava para ambos.
Enquanto escolhia as palavras certas para colocar a questão, Oliver continuou:
— Se Adstock ainda não sabe da minha existência, terá muito o que lhe explicar
quando me apresentar como seu futuro marido.
— Talvez seja melhor conversarmos a sós antes.
— E eu fico a um canto esperando? De jeito nenhum! — Oliver protestou, de
imediato. — Acho que não deve subestimar as esperanças dele em relação a estas
férias. Não sabemos como reagirá a uma notícia decepcionante, após uma viagem longa,
cansativa... E sonhada. Prefiro que descarregue sua fúria em mim.
— Robert não é um homem violento. Talvez por esse motivo protelei minha
decisão... Por saber que eu seria o parceiro dominante. Não quero ser dominadora...
Mas também não totalmente dominada.
— Acredita que eu tentaria dominá-la?
Ela riu.
— Realmente não, mas a impressão que me passou no dia em que invadi sua praia
foi a de um homem autoritário e intransigente.
— Não imaginou que poderia ter motivos pessoais para impedi-la de deixar a ilha?
— Pensei que talvez quisesse se vingar por tê-lo deixado falando sozinho no
restaurante.
Oliver sentou-se e esse movimento provocou um tremor em Laurian.
Após tantos anos de solidão, sem se sentir atraída por ninguém e sem jamais ter
correspondido aos beijos e carícias de Robert, de repente se conscientizava demais

65

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

da presença física de Oliver. Do corpo, das mãos, dos lábios, da sensualidade. Não
duvidava de que se pertenciam. De que sempre se pertenceram.
— Não costumo guardar rancores. Além disso, em Londres você até poderia ter me
esbofeteado que, cinco minutos depois, ninguém mais se lembraria do fato. Com
certeza, todos a reconheceriam, ao passo que lá, sou um ilustre desconhecido. Aqui,
entretanto, é diferente. Todos me conhecem e sabem quem sou.
— E duvido que alguém ainda se lembre que o velho Sr. Bradford tinha uma filha.
— Todos se lembrarão assim que correr a notícia de que em breve você será minha
esposa. Muitos dos nossos funcionários têm algum parente ou amigo trabalhando no
Emerald Beach. Aliás, quando voltarmos, quero que pegue suas malas e se mude para o
Palm Reef.
— Não me parece muito correto apresentá-lo a Robert e em seguida abandoná-lo.
Creio que devo passar algum tempo com ele. Afinal, ainda é meu amigo... Espero!
— Poderá visitá-la no Club. Bem, agora vamos almoçar.
Oliver foi reconhecido pelo proprietário do hotel, que os convidou para almoçarem
juntos à beira da piscina.
Laurian teria preferido ficar a sós com Oliver, talvez numa praia isolada, como ele
mesmo sugerira, porém a conversa prolongou-se até a hora de irem para o aeroporto.
A reação de Robert ao vê-la ao lado de outro homem foi de indisfarçável
desagrado. E explicar a presença de Oliver seria a gota d'água. Preferiu apresentá-lo
como um amigo de infância que fizera a gentileza de levá-la em seu avião particular
até Antígua.
— Como foi à viagem? — Laurian perguntou, depois das apresentações.
— Horrível — Robert respondeu de imediato. — A primeira classe já se encontrava
lotada, de modo que vim na turística... Perto do banheiro e ao lado de um garoto
irrequieto. Céus, que calor! Preciso de um banho e de roupas limpas. O hotel fica longe
daqui?
— Dentro de duas horas estará debaixo do chuveiro — Oliver respondeu.
— Duas horas? Não acredito! — Robert mostrava-se impaciente. — Afinal, onde
fica esse hotel? Pensei que a ilha fosse pequena.
— E é mesmo. Porém, pensamos que preferisse completar toda a viagem hoje em
vez de esperar até amanhã cedo pelo vôo comercial — Laurian explicou. — Também é
muito melhor viajar num avião particular.
— Entendo. — Robert não escondia sua contrariedade, enquanto Oliver
providenciava a liberação da bagagem.
Entretanto, durante a viagem de volta, sentado ao lado de Oliver, mostrou-se mais
animado ao observar a vista deslumbrante que se descortinava aos seus olhos.
Ao aterrissarem em Saint James e durante a viagem de barco até Emerald Beach,
Laurian temeu que Oliver se precipitasse nas explicações, porém a conversa girou
66

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

sobre amenidades. Somente ao chegarem ao hotel, enquanto o carregador retirava as
malas de Robert, Oliver disse:
— Como você está ansioso por um banho, voltarei mais tarde para um drinque. —
Esperou até que Robert e Laurian descessem do barco e acrescentou: — Se jantar
aqui, Laurian, terá tempo suficiente para colocá-lo a par dos acontecimentos. Virei
buscá-la às nove e meia. Até logo, Adstock.
Com um aceno de mão, afastou-se.
— O que ele quis dizer com me colocar a par dos acontecimentos? — Robert olhoua, desconfiado. — E por que virá nos buscar? Não pretendo sair esta noite. Passei o dia
viajando. Estou exausto.
— Não vamos a lugar algum. Explicarei depois... Quando você já estiver acomodado.
Laurian não pretendia magoá-lo. Porém não poderia esconder a verdade.
— Você está brincando! — Havia incredulidade na exclamação de Robert.
Encontravam-se no restaurante do hotel e Laurian decidiu contar a novidade
enquanto comiam a sobremesa. Explicou que nascera e crescera naquela ilha e quando,
escolhendo as palavras, disse que se apaixonara, Robert encarou-a com os olhos
arregalados.
— Não posso acreditar. Acho que se expôs muito ao sol e isso afetou seu
raciocínio.
Ela permaneceu em silêncio, olhando para o pedaço de torta no prato a sua frente,
sem a mínima vontade de comê-lo.
— Reparei que esse sujeito é simpático, de boa aparência, enfim, tem todas essas
qualidades que tanto impressionam as mulheres — Robert continuou. — Mas você,
Laurian, sempre tão sensata, como pôde se deixar envolver? O que sabe sobre ele?
Você deve conhecer bem uma pessoa antes de se prender em definitivo.
— Ora, conheço-o desde a idade de treze anos. Ele viveu muito tempo conosco
antes de eu ir para a Inglaterra.
— E quantas vezes o viu desde então?
— Nenhuma, mas...
— Trocaram cartas? Quantas? Uma por mês?
— Não, mas...
— Nunca a ouvi mencionar o nome de Oliver Thornham, ou o fato de ter nascido
aqui. Ou qualquer coisa sobre este lugar. Por quê?
— Por motivos óbvios. Eu... Eu adorava Archie. Era toda a minha família. Sofri
muito com sua morte. E preferi nunca mais tocar no assunto.
— Não me parece uma resposta convincente, Laurian! — Robert replicou com
frieza. — É muito mais do que isso, não é? A casa que seu pai construiu na ilha... Ele
não a deixou para você... Ou deixou?
— Não. Foi vendida.
67

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Para quem?
— Para Oliver. Ele a comprou. Foi com esse dinheiro que meu pai pagou meus
estudos. Reconheço que havia uma sombra de dúvida entre nós... Pelo menos de minha
parte. Porém, assim que cheguei aqui, percebi que o julgara muito mal. Ele colocou uma
placa homenageando meu pai. Recuperou a ilha que estava à beira da ruína e a
transformou num empreendimento próspero e lucrativo.
— Que tipo de empreendimento?
— O Palm Reef Club... Um hotel exclusivo, com poucos chalés e uma marina para
iates...
— Uma verdadeira mina de ouro! — Robert rebateu. — Durante todo o tempo em
que você viveu na Inglaterra, esse camarada nunca a procurou... Nunca se interessou
em saber como vivia... O que fazia... Nunca lhe ofereceu ajuda financeira?
— Não... Mas também nunca precisei. Meus estudos e despesas pessoais já
estavam pagos até completar dezoito anos. Depois, ganhei uma bolsa de estudos para a
faculdade de artes e sempre trabalhei durante as férias escolares.
— Contudo, Oliver Thornham deveria ter tido a decência de procurá-la.
— A princípio, costumava escrever, mas eu rasgava as cartas porque achava que
fora dele a idéia de me mandarem para a escola.
— Certo. Rasgou as cartas. Ainda assim, não concorda que deveria ter insistido?
Afinal, você não passava de uma menina de treze anos, num país estranho, sem
parentes ou amigos. Imagino que ele esteve na Inglaterra algumas vezes. Onde vivem
os pais dele?
— Não sei. — Laurian lembrou-se das fotos no escritório de Oliver. — Acho que já
faleceram.
— Tem irmãos ou irmãs?
— Também não sei. Nunca falou muito a respeito do passado e desde que nos
reencontramos não tivemos tempo para discutir outro assunto, exceto sobre o
sentimento que nos une. Não quero magoá-lo, Robert, mas não pude evitar... Tudo
aconteceu naturalmente. Entre mim e você existe apenas amizade... Uma grande
amizade. Nunca foi amor.
— Talvez para você... Mas para mim é amor — ele resmungou. — Não tinha certeza
de que aceitaria se casar comigo, até estas férias. Então, comecei a ter esperanças.
Oh, céus! Deveria ter escolhido outro lugar... Phuket Island... Bali... Maldives... Se
tivesse escolhido outro lugar, nada disto teria acontecido...
— Não creio que faria diferença. Encontrei-o em Londres um dia antes de
embarcar para cá. Encontramo-nos por acaso na Hatchards e depois tomamos chá
juntos... Sem que soubéssemos nossas identidades. Porém, desde o primeiro momento
soubemos que seríamos importantes um para o outro.
— Não entendo como não se reconheceram.

68

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Laurian explicou a respeito da barba de Oliver e do quanto ela própria mudara.
Preferiu não contar que fugira dele.
— Preciso beber algo. — Robert chamou o garçom, pedindo um café bem forte.
Assim que o garçom se afastou, disse:
— Apesar dos ventiladores, aqui dentro está muito abafado. Vamos sair um pouco?
— Poderemos ir até o terraço, assim o apresentarei aos outros hóspedes.
— Não estou com disposição para conversar. Prefiro ir para o meu quarto... Ou
para o seu e sentar na varanda.
Não pretendia levá-lo ao seu quarto, uma vez que suas malas já estavam prontas, à
espera de Oliver.
— Desculpe, Robert, mas prefiro continuar aqui. Na verdade, Oliver prefere que
eu fique no Palm Reef, principalmente agora que você chegou... Sabe como é... Os
funcionários poderão comentar e... Bem, ele virá me buscar mais tarde.
Robert corou e Laurian pôde sentir a raiva crescendo dentro dele.
— Não podemos sentar na varanda juntos... Não podemos dormir sob o mesmo
teto... Que exagero... — murmurou entre os dentes. — Aposto que ele não perdeu
tempo em levá-la para a cama! Deixou que fizesse amor com você?
Laurian fuzilou-o com o olhar, mas a voz permaneceu calma.
— Não se exalte, Robert. Por favor.
— Aposto que sim! — esbravejou. — E eu esperando pacientemente... Feliz com
alguns beijos inocentes... Enquanto esse bastardo...
— Não ficarei nem mais um minuto aqui, se insistir em falar comigo nesse tom! —
Laurian o interrompeu, levantando-se.
— Não... Espere... Desculpe, Laurie. Por favor... Sente-se.
O garçom voltou e, enquanto servia o café, permaneceram num silêncio
constrangedor. Assim que o rapaz se afastou, Robert desculpou-se.
— Sinto muito por ter perdido o controle. Não acontecerá de novo. Porém, não
nego que fiquei chocado. Jamais esperava por uma notícia desta.
— Entendo.
Laurian bebeu o café e, de relance, verificou as horas. Ainda teria de esperar uma
hora pela chegada de Oliver. Por um momento se perguntou se realmente não deveria
lhe indagar por que nunca a procurara? Por que nunca procurara saber se ela precisava
de ajuda financeira?
Oliver não ignorara que ela ficara sozinha no mundo. Com uma placa homenageara
Archie, porém jamais se preocupara com a filha dele.
Todas essas questões já haviam surgido em sua mente antes mesmo de Robert
levantá-las, mas tentara ignorá-las, com medo das respostas.
Entretanto, sabia que não poderia mais continuar fugindo...
69

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

70

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

CAPÍTULO VI

Oliver encontrou Laurian à sua espera no saguão do hotel.
— Onde está Adstock? — quis saber.
— No quarto. Está muito cansado.
Ele pegou as malas de Laurian e saíram em direção ao barco.
— Como recebeu a notícia? — Oliver indagou.
— Ficou muito aborrecido. Não esperava por isso. Acha que enlouqueci... Aliás, que
ambos enlouquecemos.
— Você está abatida. Melhor voltarmos logo para o Palm Reef e dormimos cedo.
— Realmente, sinto-me cansada e desgastada.
Cansada demais para exigir explicações para as perguntas que a incomodavam. Na
manhã seguinte, conversariam com calma. Já instalados no barco, Oliver perguntou:
— Já jantou?
— Jantei com Robert, porém quase não comi. Estava sem apetite.
— Imagino que não deve ter sido nada fácil conversar com ele, mas, agora...
Assunto encerrado. Não vamos nos preocupar com seu amigo. Ninguém gosta de ferir
ninguém, mas às vezes torna-se inevitável.
Laurian se perguntou se falava por experiência própria. Desejou saber com
quantas mulheres se envolvera, para dispensá-las no momento em que o interesse
cessava. Dissera a Atalanta que nunca fora um conquistador, mas, com certeza, não
levava a vida de um monge.
Lembrou-se das palavras de Robert: “Você mal o conhece... Nunca perdeu a cabeça
por um desconhecido...”
— Oliver, quando você passava as tardes no Emerald Beach, o que fazia? Bebia?
Dançava com as turistas?
Se a pergunta o surpreendeu, não demonstrou. Nem sequer hesitou antes de
responder:
— Bem, queria aprender como se administrava um hotel. O antecessor de Edgar
Headley foi um ótimo professor. Nunca bebi e também não dançava. Ainda sentia
muito a falta de Judy.

71

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Pelo tom de voz de Oliver teve certeza de que ele falava a verdade. E imaginou se
as demais respostas que exigiria seriam tão diretas e convincentes.
Antes que formulasse uma nova pergunta, ele indagou:
— Se não conseguiu jantar, melhor comer algo leve antes de dormir. Tem alguma
preferência?
— Sanduíche — ela falou, aceitando a oferta.
Oliver mesmo carregou as malas do barco para o chalé e no trajeto já pediu os
sanduíches.
Colocou a bagagem no quarto e, voltando para a sala de visitas, afirmou:
— A camareira trará seu lanche. Agora preciso ir. Hoje à tarde chegou um
hóspede novo e prometi tomar um drinque com ele. Até amanhã, querida.
Abraçou-a com força, beijando-a nos olhos, na face até encontrar os lábios
entreabertos.
— Boa noite, meu amor. Durma bem.
Na manhã seguinte, uma camareira trouxe-lhe o desjejum. Na bandeja, havia um
envelope com a letra de Oliver, endereçado à Srta. Bradford.
Laurian não dormira bem. O sono fora povoado pelas imagens que a aborreceram
durante o dia. Abriu o envelope e leu a mensagem.
“Laurian, uma de nossas hóspedes sofreu uma crise durante a noite. Levei-a para o
hospital em Antígua. O marido dela entrou em pânico e agora prefere tomar um avião
de volta para casa. Com certeza, ficarei fora o dia inteiro. Divirta-se. Oliver.”
Na bandeja, em vez dos tradicionais ovos mexidos, havia arroz com carne e ovos,
um prato típico indiano. Coincidência ou Oliver ordenara-o especialmente, lembrando
que Archie costumava preparar esse prato no café da manhã?
Enquanto comia, decidiu ir até Saint James. Pediria um barco e, no caminho,
deixaria um recado para Robert, avisando-o de que almoçaria com ele no Emerald
Beach. Eram velhos amigos e Oliver não poderia fazer objeções a que almoçassem
juntos.
Não encontrou dificuldades em conseguir um barco. De repente, lembrou-se do
Rolls-Royce 1907 que Archie comprara na Riviera Francesa e que levara de navio até o
Caribe, num típico ato de extravagância.
Onde estaria o automóvel agora? Talvez, na frota particular de algum colecionador
americano. Mais uma pergunta para Oliver responder.
Deixou o barco na marina e dirigiu-se para o centro de Saint James, onde
pretendia fazer algumas compras. Em uma das lojas, encontrou com Mona e Steve, os
canadenses de Vancouver.
— Isto lhe interessa, Laurian! — Steve exclamou, abrindo um envelope com
algumas fotos. — Reconhece esta?

72

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Entregou-lhe uma foto que batera do terraço do clube. Ao longe, um barco, com a
silhueta de duas pessoas. Ela e Oliver.
— Pode ficar com ela — ofereceu.
— Obrigada.
— Aceita um refrigerante? — Mona a convidou. — Estávamos mesmo indo para o
café. — Apontou para um prédio do outro lado da rua.
Laurian não pôde recusar. No caminho até o bar, soube que o casal de canadenses
também havia socorrido a hóspede que adoecera. Os quartos eram contíguos e o
marido pediu a ajuda deles.
— O homem realmente entrou em pânico — Mona explicou. — Pensou que a esposa
estivesse morrendo. Chamou Oliver Thornham, que tomou as providências necessárias.
Ele é uma pessoa muito segura e tranqüila, não é, Steve? Percebe-se que consegue
enfrentar qualquer situação com calma e ponderação. Mas creio que sabe disso melhor
do que eu — sorriu para Laurian, com os olhos brilhando de compreensão.
— Imagino que desde a abertura do clube ele e o gerente John Lynn já se
depararam com as mais diversas situações.
Mais tarde, após despedir-se do casal, passeava pelas ruas, olhando as vitrines,
quando foi abordada por uma senhora, a quem não reconheceu de imediato.
— Desculpe-me, senhorita, mas você me faz lembrar alguém... Uma menina que
conheci há muitos anos. Bradford. Sim... Laurian Bradford era seu nome.
— Não acredito que tenha me reconhecido depois de tanto tempo, Sra. Yardley!
Laurian de imediato lembrou-se dela, Millicent Yardley, viúva de um funcionário
público, durante a época em que os ingleses governavam a ilha. A Sra. Yardley
costumava tentar convencer Archie de que sua filha deveria usar vestidos e aprender
a tocar piano. As conversas com seu pai voltaram-lhe à lembrança.
— Não consigo ficar perto da Sra. Yardley, Archie. Ela tem um cheiro diferente...
— Naftalina e lavanda, minha querida. Ela é adorável... Um peixe fora d'água.
Convive bem com os nativos, mas não tem recursos financeiros para levar uma vida
muito confortável. Tente ser paciente com ela.
A Sra. Yardley ainda cheirava a naftalina e lavanda. Não se cansava de repetir sua
alegria por rever a pequena Laurie.
Embora tivesse outros planos em mente, não pôde recusar quando a Sra. Yardley a
convidou para tomar um chá em sua casa.
Ambas caminhavam devagar, contemplando a paisagem ao redor.
Millicent ia contando tudo o que acontecera desde a partida de Laurian.
Millicent ainda morava na mesma casa do tempo em que Laurian residia na ilha.
Nada havia mudado. Até os canteiros com flores tropicais permaneciam iguais.
A boa senhora, com mãos bastante ágeis para sua idade avançada, abriu a porta e
fez sinal para Laurian entrar.
73

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

A casa era repleta de quinquilharias, porém imaculadamente limpa. Permaneceu ali
por mais tempo que pretendia, envolvida pelas histórias de um tempo que lhe era tão
caro.
Quase à hora do almoço, Laurian disse:
— Bem, Sra. Yardley, tenho de ir embora, pois preciso resolver algumas coisas
antes de voltar para o hotel.
— Você veio para visitar a sepultura de seu pai? Imaginei que um dia voltaria. Sabe
que o lugar onde viveu hoje é um clube para milionários? Quando encontro com o
homem na rua, não o cumprimento. Antes, ele ainda falava comigo, agora desistiu, o
que acho ótimo. Sabe que não esqueci quem é e o que fez.
— A senhora está se referindo a Oliver Thornham? — Laurian indagou, sentindo o
coração acelerar.
— Sim, a ele mesmo! Não o suporto!
— E tem alguma razão para não gostar dele?
— Na minha opinião, foi esse homem quem induziu seu pai à bebida... E tem muito a
ver com a morte dele — murmurou, num tom de confidencia. — Comentaram que foi
acidente... Mas foi mesmo? Veja o que Thornham lucrou! Dizem que ele próprio já se
tornou um milionário, que é muito generoso e que contribui para causas nobres. Se me
perguntar, direi que é consciência pesada.
Laurian teve de fazer um grande esforço para não demonstrar seu nervosismo.
As dúvidas e incertezas que pensava ter acabado voltaram com força atroz,
trazendo-lhe uma angústia tão intensa, difícil de sufocar.
Quem era na verdade aquele homem? O galante conquistador por quem se
apaixonara, ou o intruso que comprara a ilha por um preço irrisório e a expulsara de
seu paraíso, privando-a do convívio com o pai?
Millicent ainda falava, porém Laurian, absorta em seus pensamentos, não a ouvia
mais.
Debatia-se entre o coração e a razão. Qual dos dois estava certo?
No caminho de volta pilotava com mais cuidado, tentando controlar o rumo dos
seus pensamentos. Somente agora, algum tempo depois do choque inicial, é que
começava a sentir o peso do impacto.
Não queria acreditar nas acusações contra Oliver, mas, então, por que escondera
que Archie afogara-se depois de cair do barco, onde foi encontrado uma garrafa de
uísque vazia?
Soubera dos fatos através dos arquivos da redação do jornal local. A notícia da
morte de Archibald Bradford ocupara a primeira página do jornal numa ilha onde nada
acontecia. Oliver, a última pessoa a vê-lo com vida, identificou o corpo e, interrogado
pela polícia, admitiu que Archie andava bebendo muito nos últimos tempos.

74

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

No dia do acidente, Oliver estava no Emerald Beach com amigos ingleses, o que o
isentava de qualquer culpa na morte do pai.
Com a cabeça em redemoinho, decidiu ir direto para o clube. Apesar de haver
combinado que iria ao Emerald Beach encontrar-se com Robert, não se preocupou com
o amigo. Estava sem cabeça nem para um simples bate-papo, e ele com certeza
entenderia, quando lhe explicasse.
Chegando ao clube, dirigiu-se à recepcionista e indagou:
— Oliver já retornou?
A recepcionista sorriu-lhe amavelmente e respondeu:
— Sim, Srta. Bradford. Porém, está com um novo hóspede e pediu para não ser
interrompido. Quer que lhe transmita algum recado?
— Não, obrigada. Falo com ele depois.
Já no chalé, tomou um banho demorado e relaxante e, após vestir-se, sentou-se na
varanda, de onde olhava o mar, pensando em Archie, bêbado, caindo do barco.
Por que começara a beber? Por sentir a falta da filha, de quem nunca se separara?
Por que se arrependera de mandá-la para a Inglaterra? Não conseguiu conter as
lágrimas, que escorriam livres pelo rosto.
De que valia uma boa educação, carreira, fama, sucesso, diante do que perderam
com a separação?
— Alguém em casa?
Laurian mal teve tempo de enxugar as lágrimas, antes de avistar Atalanta
Buckland caminhando pelo pequeno jardim à frente do chalé.
— Liguei para seu hotel a fim de convidá-la para irmos às compras, porém me
informaram que se mudou para cá. Imagino que o romance, claramente visível na noite
em que jantamos juntos, caminhe às mil maravilhas. Confesso que a invejo. Oliver é um
homem muito atraente. Ele não está aqui agora, está? — Olhou para a porta de
entrada.
— Não. Estou sozinha — Laurian respondeu, lamentando não ter pressentido a
aproximação dela a tempo de esconder-se. Não estava disposta a conversar com
ninguém, muito menos com Atalanta.
A mulher chegou mais perto, encarando-a com curiosidade.
— Esteve chorando, não? Oh, não... Não me diga que já tiveram a primeira briga!
Ou será que se confrontou com Mary Poole? Não creio que ela seja do tipo violento ou
que teria coragem para desafiá-la. Bem, nunca se sabe... Pode-se esperar tudo de uma
mulher desprezada.
Laurian não respondeu, tentando disfarçar a surpresa. Porém, Atalanta percebeu
seu choque. Sentou-se, cruzando as pernas de modo afetado, e prosseguiu:
— Soube do caso por pessoas que freqüentam o clube há muitos anos. Até você
entrar em cena, Oliver e Mary Poole mantinham um romance secreto, antigo e super
75

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

discreto. — Observando a intensa palidez no rosto de Laurian, falou: — Ora, não se
aborreça com isso. Não acredito que esteja apaixonado. Ela me parece tão... Tão sem
graça. Talvez tenha sido apenas conveniente para ele.
Controlando-se, Laurian perguntou:
— Tem certeza de que pode acreditar em tudo o que ouve? — Sua voz soou
irritada. — Se sempre foram tão discretos, como chegou ao conhecimento de sua
informante?
— Através de possantes binóculos, estrategicamente colocados no convés do iate.
A casa da Sra. Poole não é visível da estrada, mas sim do mar. Minha amiga os viu
juntos no jardim, onde há uma piscina. Ambos nadavam nus. Bem conclusivo, não?
Laurian lembrou-se de que vira Mary chorando. E obviamente Oliver sabia o
motivo. Com certeza pensara nela na noite anterior, ao afirmar que não gostava de
magoar as pessoas, mas que às vezes tornava-se inevitável.
— Acho que sua amiga deveria ter mantido segredo — retrucou. — Não tinha o
direito de invadir a privacidade de quem quer que fosse. Será que o fato de ter lhe
contado essa particularidade lhe proporcionou alguma alegria? Se proporcionou,
desculpe-me, mas deve ser uma pessoa fútil.
Atalanta fingiu não ter percebido o tom de desdém de Laurian, e falou, afetada:
— Não sei como se sentiu, mas iluminou meu dia. Quem diria que Mary Poole, uma
mulher tão insignificante, vivesse um romance com o atraente e sensual Oliver? Como
será seu desempenho na cama? Tão bom quanto aparenta?
A vulgaridade da conversa deixou Laurian estupefata, e esforçou-se para não
perder a calma. Controlando o tom de voz, replicou:
— Não tenho a menor idéia.
Atalanta caiu na gargalhada.
— Então, por que se instalou neste ninho de amor? Claro que dormem juntos e não
a recrimino por isso. Pelo contrário, felicito-a pelo seu novo super amante. Agora,
querida, preste bem atenção nas minhas palavras: maridos tornam-se excessivamente
aborrecidos depois de algum tempo... Muitas vezes antes mesmo do término da lua-demel...
Nesse momento, ouviram passos indicando que alguém se aproximara do chalé.
— Quem será? — A voz de Atalanta soou, carregada de malícia.
Em seguida, Oliver surgiu e, ao vê-la, não escondeu sua contrariedade.
— Boa tarde, lady Henry — cumprimentou-a. — Importa-se de me deixar a sós com
Laurian? Temos um assunto particular para conversar e...
Atalanta levantou-se.
— Não se preocupe. Já estava mesmo de saída. — Olhou para Laurian com os olhos
brilhantes e acrescentou: — Que pressa! — Afastou-se rindo.

76

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Oliver não demonstrou nenhum sinal de curiosidade ou interesse pelas insinuações
de Atalanta. Laurian entretanto, não escondia sua irritação.
— Agora, ela vai espalhar a notícia pelo hotel inteiro — queixou-se. —
Considerando sua discrição no passado, não parece muito preocupado em preservar a
minha reputação.
Ignorando as palavras dela, Oliver disse:
— Robert Adstock esteve aqui, tentando convencer-me de que não há futuro para
nós. Referiu-se ao relacionamento entre vocês de uma forma diferente. Deu a
entender que não são apenas amigos. Por que mentiu, Laurian?
— Eu menti? Por que haveria de mentir?
— Você afirmou com convicção que nunca foram amantes. Não perguntei nada, sua
confissão foi espontânea. Para mim, não faz a mínima diferença se teve ou não um
relacionamento mais íntimo com outro homem. Não é mais uma criança e seu passado
diz respeito somente a você. Porém, o que realmente pesa é que mentiu para mim, e
não tolero mentiras ou desonestidade.
— Robert disse que fomos amantes? — Laurian mostrava-se incrédula.
— Sim.
— E acreditou nele e não em mim. — Fazendo um gesto de cansaço, completou: —
Estou profundamente decepcionada, Oliver.
— Adstock pareceu-me muito sincero. É óbvio que os sentimentos dele são muito
mais profundos do que você me levou a crer. Está inconsolável ante a perspectiva de
perdê-la.
— Só pode estar mesmo, para contar uma mentira tão grande. Por que eu lhe
contaria uma mentira? Como acabou de afirmar, não sou mais uma criança e o meu
passado é problema meu, enquanto o seu é de domínio público.
— O que está insinuando?
— Assim que chegou aqui, Atalanta percebeu minha preocupação. Presumiu que
descobrira seu caso de amor com... Mary Poole. Bem, alguém lhe contou que o viu na
piscina da Sra. Poole e que ambos estavam nus.
Oliver permaneceu imperturbável.
— Lamento que tenha sabido através desse mulher — sua voz permanecia calma. —
É verdade que, por muito tempo, Mary e eu fomos, o que as pessoas costumam dizer,
amigos íntimos. Nunca foi um caso de amor e nunca falamos em casamento. Agora,
porém, não há mais nada entre nós.
— Não tenho tanta certeza assim. Creio que foi por saber a nosso respeito que
chorou ontem pela manhã. Não acha insensibilidade demais de sua parte instalar-me
neste chalé e permitir que todos os funcionários comentem que existe um
envolvimento entre nós? Não pensou em Mary?

77

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Não havia outra alternativa — retrucou. — Você não poderia continuar no
Emerald Beach e não existe outro hotel de primeira classe neste lado da ilha. Além
disso, você pertence a este lugar, sempre pertenceu. Mary me garantiu, e acredito
nela, que chorou, sim, mas não por mim. Pensava em Tim, seu marido. Era o dia do
aniversário dele e ainda sofre muito com sua morte. — Oliver fez uma pequena pausa e
depois prosseguiu: — Na verdade, não passei de um mero substituto de Tim. O fato de
termos vivido experiências semelhantes fez com que nos aproximássemos. Foi assim
que tudo começou. Um relacionamento puramente físico, e ambos sempre soubemos
que um dia terminaria.
“Puramente físico para você talvez não para ela”, Laurian pensou. Duvidava que
Mary não sentisse algo mais profundo por Oliver. Não parecia o tipo de mulher que se
envolvia com um homem apenas para satisfazer suas necessidades físicas. Suspeitava
que o aniversário de Tim Poole fora uma desculpa.
— Você comentou que estava aborrecida quando lady Henry chegou. Por quê? —
Oliver perguntou.
— Pretendia almoçar com Robert. Ele lhe contou?
— Sim. Disse também que você telefonou avisando que tivera um contratempo, mas
não explicou o que aconteceu.
Laurian ajeitou-se na cadeira e, após um breve silêncio, decidiu contar a verdade:
— Encontrei alguém em Saint James que comentou a respeito do acidente que
provocou a morte de Archie. Fui até a redação do jornal para esclarecer certas
dúvidas e procurei nos arquivos exemplares da época. — Seus olhos se encheram de
lágrimas. — Se eu estivesse aqui, nada teria acontecido. Ele não teria começado a
beber e... O acidente não teria acontecido.
Tentou em vão controlar as lágrimas. Oliver aproximou-se dela, abraçando-a
Laurian, então, recostou a cabeça no ombro dele, procurando esquecer todas as
dúvidas que lhe martelavam a cabeça.
— Não foi um acidente, minha querida. Foi uma escolha do próprio Archie. Sofria
de uma doença incurável e preferiu abreviar seu sofrimento. Acreditava que não seria
o fim, mas o início de uma nova vida. Viveu sua vida intensamente e sentia-se
preparado para enfrentar o que o aguardava na próxima.
Erguendo a cabeça, Laurian o encarou com os olhos arregalados.
— Quer dizer que foi suicídio? Como pode afirmar com tanta certeza? Ele deixou
alguma carta? Comentou com alguém sobre o que pretendia fazer?
— Não. Nunca sequer insinuou seus planos, talvez pressentindo que tentaria
demovê-lo da idéia. Porém, ele acreditou que seria um ato sensato devido às
circunstâncias, e não nos cabe julgá-lo. Tinha seus motivos...
— Compreendo. E também não consigo imaginá-lo sofrendo, morrendo aos poucos...
definhando num quarto de hospital. Por que não me avisou? Teria voltado para cuidar
dele...
78

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Oliver a estreitou mais em seus braços.
— Archie descartava completamente essa possibilidade. Não queria preocupá-la
nem torná-la infeliz. Agora, procure esquecer, querida. Pense no Archie feliz e cheio
de energia que conheceu e com quem compartilhou momentos maravilhosos e
inesquecíveis. Era um homem forte e corajoso e não deve ter sentido medo.
Essas palavras atenuaram um pouco sua dor imensa, e em sua mente surgiu a
imagem de um homem de personalidade forte e caráter firme, que escolheu seu
próprio destino, em vez de esperar por uma agonia lenta e dolorosa, prostrado numa
cama.
— Acho que está é precisando de uma xícara de chá. Enquanto faço o pedido, lave
o rosto com água fria e verá como se sentirá melhor.
Laurian seguiu o conselho de Oliver. Foi até o banheiro e deixou que a água fresca
da pia lhe acalmasse o ânimo. Quando retornou à varanda, sentia-se bem melhor.
Oliver a esperava, uma expressão tensa no rosto.
— Tudo bem? — ele perguntou, encaminhando-se até ela.
— Sim, estou bem melhor, obrigada.
Nesse momento, um garçom se aproximou, trazendo chá e pães quentes.
— O que disse a Robert? — Laurian indagou, assim que ficaram a sós.
— Que sentia muito por ele. E realmente sinto, porém não posso fazer nada. Ele
expôs uma série de argumentos, tentando me convencer de que nosso casamento
jamais dará certo, pois somos muito diferentes, ao passo que você e ele têm tudo em
comum, inclusive a casa que dividem em Londres.
— Moramos no mesmo prédio, porém cada um em seu apartamento. Ainda acredita
nele e não em mim?
— Não. Desculpe se duvidei de você, mesmo que por um instante. Confesso que as
palavras de Robert me deixaram irritado e confuso.
— Até entendo sua posição. Afinal, nos conhecemos há pouquíssimo tempo —
Laurian retrucou. — O passado não conta. Também tenho muitas dúvidas a seu
respeito, Oliver. Sei que não parece muito agradável falar dessa maneira, porém,
existem muitas perguntas sem respostas.
— Então pergunte. Fique à vontade para perguntar o que quiser. Não pode haver
dúvidas entre nós, Laurian.
— Por que nunca procurou entrar em contato comigo? Como pôde me riscar de sua
vida? Me esquecer... Principalmente continuando a morar na ilha que um dia foi minha?
— Não a esqueci... Não completamente. Vendo o lugar como é hoje, próspero,
lucrativo e funcionando como um relógio, não creio que você possa avaliar o estado
lamentável em que se encontrava. Seu pai a vendeu por um preço irrisório, somente
porque tinha uma idéia muito clara do que desejava que acontecesse aqui. Poderia ter
vendido por um valor muito mais alto, mas, nesse caso, o futuro da ilha fugiria das suas
79

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

mãos e planos. E, uma vez em poder de especuladores, só Deus sabe em que se
transformaria este paraíso.
— Entendo. A minha casa em Spitalfields, no lado antigo de Londres, quase foi
demolida para construírem um prédio de apartamentos.
— Nos primeiros anos após sua partida, trabalhei como um escravo — Oliver
continuou. — Assumi dívidas colossais, capazes de tirar o sono de qualquer um. E,
muitas vezes, tinha a impressão de que acabaria na ruína. Entretanto, reconheço que
tive muita sorte. E, na verdade, é preciso mesmo de muita sorte para o sucesso de
uma aventura. A minha, foi a chegada de um iate repleto de americanos ricos e
influentes. A notícia de que este era um lugar especial e privilegiado espalhou-se e, daí
para a frente, tudo transcorreu de vento em popa.
Interrompeu sua narrativa para encher novamente as xícaras. Espalhou manteiga
num pãozinho, oferecendo-o a Laurian.
— Até essa época, não tinha tempo nem dinheiro para ir à Europa. Tão logo tive
condições, fui a Yorkshire visitá-la, mas o Dr. Lingfield e sua esposa me receberam de
um modo frio e nada amistoso. Asseguraram-me de que você estava bem e feliz e que
remexer no passado só lhe faria infeliz. Simplesmente não permitiram que a visse e
insinuaram que lhe prestaria um grande favor me mantendo fora de sua vida.
— Não acredito que meus pais adotivos fariam isso. Por que nunca me contaram? —
Laurian mostrou-se incrédula.
Oliver ergueu os ombros.
— Provavelmente agiram pensando no seu equilíbrio e tranqüilidade. Apesar da
hostilidade com que me trataram, me causaram uma ótima impressão e simpatizei com
eles. Mesmo assim, tive a precaução de investigar a vida deles e a sua. O relatório,
preparado por um profissional respeitável, confirmou que você fora adotada não
legalmente por uma família bem estruturada, que a preparava exatamente para o que
Archie sonhava para o seu futuro: sua independência.
— Ainda assim, acho que não agiram corretamente impedindo-me de vê-lo.
— Essa é a sua opinião hoje. Naquela época, com certeza minha visita a teria
aborrecido, e aposto que teria se negado a me receber.
Laurian se calou, pensativa, admitindo que talvez ele tivesse razão. Afinal, o
reecontro em Londres não fora absolutamente memorável.
— Então, deu continuidade à sua vida e me esqueceu...
— Para ser sincero, sim...
— Também o esqueci — Laurian confessou, reclinando-se na cadeira.
“E, na verdade, nem sei se foi bom nos reencontrarmos”, ela pensou. “Como
conciliar nossas vidas, se os nossos interesses se concentram em lados opostos do
oceano e, além disso, pairam tantas dúvidas sobre nosso passado?”

80

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Naquela noite, sozinha no chalé, Laurian rolava de um lado para o outro na cama,
sem conseguir conciliar o sono.
As explicações que Oliver dera a respeito da morte de Archie lhe pareciam
verdadeiras. Porém, algo em seu íntimo lhe dizia que alguma coisa estava errada.
Por mais que amasse Oliver, não podia esquecer que ele praticamente usurpara a
ilha de seu pai.
Porém, por outro lado, mantinha a memória de Archie viva e venerada naquele
recanto paradisíaco.
Mas o que mais martelava-lhe a cabeça era o futuro.
Ambos possuíam estilos de vida diferentes, interesses em pontos opostos do
mundo.
Laurian sabia que não poderia abrir mão de seu trabalho. Tinha um nome em
ascensão, pessoas que dependiam da grife Laurian para sobreviver.
E Oliver... Sua vida era ali, naquela lado do mundo que um dia fora seu...
Já semi-adormecida, Laurian teve a certeza de qual seria a melhor decisão a
tomar: partir, ir embora dali o mais rápido possível, antes que fosse tarde demais.

CAPÍTULO VII

Três dias depois, Laurian iniciava sua viagem de volta para a Inglaterra. Levava a
certeza de que jamais deveria ter voltado para a ilha. Que jamais deveria ter
reencontrado e se envolvido com Oliver.
Tivera de esperar o momento oportuno para partir, e esse momento fora naquela
manhã, depois que Oliver se despedira. Ele viajara a negócios para Barbados, em
caráter urgente.
Apesar de tê-la convidado a que o acompanhasse, Laurian recusara polidamente.
Era a chance de voltar para a Inglaterra sem ter de explicar a Oliver o motivo.
Não se despedira de ninguém, nem de Robert. Apenas lhe escrevera um bilhete,
explicando que preferia viajar sozinha e que planejava passar o resto das férias em
Yorkshire, com os Lingfield.

81

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Foi para Saint James, onde tomaria o avião para Antígua e, de lá, seguiria pelo vôo
noturno até Heathrow e desembarcaria no aeroporto inglês por volta das doze horas
do dia seguinte. No final da tarde, já estaria em Yorkshire.
Ainda não compreendia o motivo pelo qual seus pais adotivos haviam hostilizado
Oliver no passado. Quem sabe se tivesse falado com ele naquela época, muita coisa
seria diferente, muitas mágoas teriam sido evitadas.
Tomava uma xícara de chá na lanchonete do aeroporto de Saint James, quando
avistou Mary Poole na sala de espera. Parecia ansiosa e imediatamente Laurian
imaginou que acontecera algo com Oliver.
Sentindo o sangue gelar em suas veias, foi ao encontro dela.
— Mary? Procura por mim? O que houve?
— Oh... sim. Estou a sua procura, sim. Mas... Não precisa ficar nervosa. Não
aconteceu nada. Apenas quero falar com você.
— Deixei minhas malas na lanchonete. Acho melhor voltarmos para a mesa. Aceita
um café ou um chá?
— Não, obrigada. Não há muito tempo e tenho muitas coisas para lhe dizer. Está
partindo por minha causa?
Laurian negou com um movimento de cabeça.
— Absolutamente. Soube sobre vocês... Porém não tem nada a ver com minha
decisão. Estou muito confusa, Mary, minha cabeça está um caos enorme. Minha vida e
a de Oliver são completamente diferentes, temos negócios em lugares distantes um do
outro e não daria certo qualquer relacionamento entre nós... Além do mais, tem a
minha empresa, muitas pessoas dependem de mim!
Mary sentou-se.
— Compreendo que não possa abandonar sua carreira e seus negócios agora. Mas
será que não conseguiria encontrar uma alternativa que lhe permitisse se ausentar por
alguns dias do mês de sua empresa? Precisa ficar lá o tempo todo?
Laurian a olhou, perplexa.
— Pensei que ficaria feliz com minha partida. Mary sorriu.
— Oliver se apaixonou por você. Já conheci um grande amor e quero que ele
também conheça.
— Não o ama?
— Claro que o amo... Mas é a você que ele quer. Tenho certeza de que sem você ele
não será feliz, e o que mais quero é que Oliver conheça a felicidade que o amor traz. —
Fez uma pausa e depois acrescentou: — Você é uma tola em deixá-lo assim, dessa
maneira.
— Não dará certo, Mary. Eu me conheço o suficiente para saber que não mudarei a
ponto de me tornar outra mulher. Não se trata apenas das pessoas que trabalham para
mim. Lutei muito para conseguir o reconhecimento e o respeito profissional. Ao mesmo
82

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

tempo, quero viver ao lado de Oliver. Sim, quero desesperadamente. — Serviu-se de
mais chá. — É uma escolha difícil e não consigo visualizar um futuro sereno para nós.
— Oliver ficará muito aborrecido quando voltar e não a encontrar. Pelo menos,
deixou uma carta?
— Claro. — Laurian a encarou. — Foi muito gentil de sua parte me procurar, quando
tem todos os motivos do mundo para preferir que me afaste de Oliver. Pensei que me
odiasse.
— Não há motivo para odiá-la, querida. E sempre soube que acabaria me
decepcionando, pois Oliver nunca me amou e tampouco deu-me qualquer esperança. —
Após uma pausa, acrescentou: — Algum tempo atrás, o proprietário de uma cadeia de
lojas na Flórida ofereceu-me um emprego. Estou pensando em aceitar. Por que não
assume a direção da butique do clube e a transforma num grande negócio?
— Já pensei nessa possibilidade, mas não... Não é a solução. Não foi para isso que
lutei minha vida toda. Não posso deixar a Inglaterra. Oh, Mary... Não é tão simples
assim.
— Imagino — Mary murmurou. — De qualquer modo, pretendo partir logo. Para
muitas pessoas o Caribe é um paraíso, mas até mesmo o paraíso se torna monótono
depois de algum tempo. Variedade é o tempero da vida.
Nesse momento, anunciaram o vôo de Laurian.
Muitas horas depois, Laurian chegava a Yorkshire, onde a Sra. Lingfield a esperava
na estação.
— Que bronzeado bonito, querida! — exclamou, após abraçar a filha adotiva. —
Não a esperávamos. E Robert? Ficou em Londres?
— Não, continua em férias. As coisas não correram como planejávamos mamãe.
— Oh, querida! — Bárbara Lingfield exclamou, porém não perguntou o que
acontecera.
No caminho até o estacionamento, comentou:
— A família toda se reuniu no último fim de semana. Foi muito divertido.
Apostamos vinte e cinco pence para ver quem acertava para onde Robert a levara. Meu
palpite foi Seychelles.
— Sinto muito, mas ficou a quilômetros de distância. O que os outros disseram?
Acomodaram-se no carro e Bárbara deu a partida, enfrentando o tráfego da
cidade.
— Bill apostou em Creta; David, em Maldives; Neal, na Jamaica. Jenny e Susie
votaram em Bali e Tobago.
— Todos erraram — Laurian retrucou, divertida com a brincadeira, mesmo
adivinhando que a resposta correta causaria um choque. — Bem, Susie foi quem mais
se aproximou. Caribe!
— Oh! Caribe! Robert sabia que você nasceu nesse lado do mundo?
83

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Não sabia. Se soubesse, com certeza não teria escolhido um hotel tão próximo
do lugar onde vivi.
— Oh, não, querida! — Bárbara afastou uma das mãos do volante e tocou em
Laurian. — Não a entristeceu rever a ilha depois de tantos anos? Por isso voltou antes
de Robert?
Calou-se por um instante, pensando no impacto que suas palavras causariam em
Bárbara. Respirou fundo e respondeu num fôlego só.
— Não. Acontece que me apaixonei por outro homem. — Não se deteve diante do
olhar incrédulo de Bárbara. — Pára ser mais exata, apaixonei-me por Oliver Thornham.
— Oliver Thornham? Você o reencontrou?
— Sim. Ele me disse também que os procurou anos atrás, não? — Bárbara olhou-a
de relance.
— Obviamente ele também contou que o recebemos de um modo não muito
amistoso.
Assentindo com um movimento de cabeça, Laurian insistiu no assunto.
— Oliver me disse que vocês acharam que me aborreceria por vê-lo.
— Acredito, meu bem, que aquele não fosse o momento ideal para você revê-lo.
Estava ainda muito magoada, e o reencontro com Oliver poderia lhe abrir mais as
feridas mal cicatrizadas. — Bárbara fez uma pequena pausa e prosseguiu: — Nós o
tratamos friamente para que ele não voltasse outras vezes. Talvez até estivéssemos
errados, mas acreditávamos que a melhor maneira de você superar os acontecimentos
do passado era afastar-se o máximo possível de tudo que a fizesse se lembrar de sua
vida na ilha.
Laurian, depois de refletir sobre o que a mãe adotiva lhe dissera, falou:
— Acho que você tem razão. Quando saí da ilha, estava com muito ódio de Oliver.
Acreditava que fora ele quem induzira meu pai a tomar tal decisão. Entretanto, a idéia
foi do próprio Archie, que na época já estava doente e se preocupava com meu futuro.
Hoje, passadas as mágoas, compreendo a atitude de meu pai, e sei que não estaria
preparada para a vida se tivesse permanecido na ilha.
Bárbara ficou em silêncio por alguns instantes como se estivesse refletindo sobre
o assunto. Então, indagou:
— Qual a opinião de Robert sobre ele?
— Estou certa de que gostaria dele... Em outras circunstâncias.
— É, não deve ser fácil ter um rival à altura de Oliver Thornham. Pelo que me
lembro dele, era um homem e tanto. Continua bonito?
Os olhos de Laurian brilharam ainda mais ao pensar no homem amado.
— Sim, muito.
— E ele veio com você para a Inglaterra?

84

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Não. Ficou no Caribe. Na verdade, nem sabe que voltei. Praticamente fugi da
ilha — murmurou.
E, olhando para a paisagem tão querida e familiar, já próxima da casa dos
Lingfield, Laurian desabafou seus problemas à mãe.
Mais tarde, depois da chegada do Dr. Lingfield da clínica, os três sentaram para
conversar sobre os últimos acontecimentos da vida de Laurian.
Quando o assunto girou em torno de Oliver Thornham, o Dr. Lingfield falou:
— Há uma coisa que precisa saber, Laurie. Talvez Thornham tenha um motivo
secreto para desejar casar com você.
— O que quer dizer com isso, papai? Que motivo secreto seria esse?
— Pelo que sabemos, esse Palm Reef Club deve ser um negócio rentável e muito
valorizado, sabe-se lá quantos milhões de dólares vale hoje.
— É verdade — Laurian concordou, sem saber direito aonde o pai queria chegar.
— No entanto, Oliver não o possui inteiramente — Bárbara interveio.
— Como? Não estou compreendendo...
O Dr. Lingfield sentou-se ao lado da filha e a abraçou.
— Laurian, na verdade, a ilha foi vendida por um preço baixo por um único motivos:
no caso de você ter um filho, ele seria o herdeiro da ilha, tendo como tutor Oliver
Thornham.
Laurian abriu a boca para dizer alguma coisa, porém desistiu.
— E Thornham talvez queira assegurar que o neto de Archie seja também filho
dele. Todos sairiam lucrando, principalmente ele. Concorda, querida?
No dia seguinte, enquanto voltava a Londres, Laurian pensava em sua descoberta.
Por que os Lingfield não lhe haviam mencionado essa cláusula antes? E por que
tampouco Oliver lhe falara a respeito?
Uma dúvida atroz começou a tomar forma em sua mente, porém tentou afastá-la.
Se Oliver estava interessado nela apenas por causa do futuro da ilha, então, como
explicar a atração visível que sentira antes de saber quem ela era?
Mil pensamentos povoaram sua cabeça. Por um lado, desejava ardentemente que
Oliver a procurasse, mas, por outro lado, temia um reencontro. Se ele a tomasse nos
braços, tinha certeza de que se esqueceria de todas as dúvidas.
Já fazia três dias que estava em Londres, e sua angústia não amainava. Estava
sentada, tentando ler um livro, quando ouviu um barulho de chave na fechadura da
porta. Acreditando que fosse Robert, saiu para verificar. Porém, qual não foi sua
surpresa quando deu de cara com Oliver.
Não acreditava em seus olhos. Parado no hall e segurando duas malas, ali estava
Oliver em pessoa. Colocou as malas no chão, subiu rapidamente a escada e, fulminandoa com os olhos cinzentos, frios como pedras de gelo, aproximou-se.

85

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Ficaram parados, se olhando, e, no momento seguinte, estavam um nos braços do
outro, todas as dúvidas esquecidas.
— Devia estrangulá-la — ele murmurou com voz enrouquecida. — Nunca mais faça
isso de novo. Qualquer problema que surgir, discutiremos e enfrentaremos juntos. E
beijou-a apaixonadamente.
Laurian sentia-se envolvida por um turbilhão de emoções entorpecedoras.
Ofegante e vibrando de felicidade, ouvia as explicações de Oliver.
— Lembra-se de que lhe disse que de Londres fui para a Espanha?
Encontravam-se no sofá da sala de visitas. Oliver inclinado sobre ela, com os
cabelos em desalinho e a camisa desabotoada. Laurian concordou com um movimento
de cabeça. Ele continuou:
— Em toda a Espanha existem vilarejos quase desertos e desconhecidos, que não
fazem parte dos roteiros turísticos. No ano passado, descobri um lugar na província
de Terragona, no qual vejo grandes possibilidades de iniciar um empreendimento.
Conversei com as autoridades espanholas e apresentei meus projetos, nos mesmos
moldes do Palm Club, e, desde o início das negociações, senti grandes possibilidades de
ganhar a concessão para explorar comercialmente o local.
Os olhos de Laurian brilharam de esperança e com ansiedade na voz, perguntou:
— Isso significa que se mudará para a Europa?
Oliver assentiu.
— Uma viagem de Barcelona até Londres é rápida. Claro que não poderemos estar
sempre juntos, porém não ficaremos separados por longo tempo. Há um aeroporto em
Réus, uma cidade muito próxima de Terragona.
— Por que não me contou antes?
— Não quis precipitar os fatos e alimentar falsas esperanças. Afinal, eu achava
que havia possibilidades, porém não tinha certeza de nada. Olha aqui, garota
impetuosa, nunca imaginei não encontrá-la na ilha, à minha espera, quando voltasse de
Barbados.
— Você mencionou que não tinha certeza de ser atendido pelas autoridades
espanholas. E, agora, já recebeu confirmação?
— Sim. Quando voltei ao clube, havia um telex da Espanha com a notícia. Ganhei a
concessão e há muito trabalho para ser feito, mas valerá a pena. Tenho planos
incríveis... Mas depois falaremos sobre isso. Agora, quero simplesmente ficar ao seu
lado, sentindo o calor do seu corpo junto ao meu. Não imagina o quanto senti sua falta.
— Como me encontrou? — ela indagou, entre beijos.
— Bem, Robert comentou que você pretendia ir para Yorkshire, porém tive a idéia
de ligar do aeroporto e a Sra. Lingfield informou-me que você já voltara para Londres.
Telefonei várias vezes, mas...

86

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

— Não estava com disposição para conversar com ninguém. Liguei a secretária
eletrônica e, no entanto, nem sequer os recados animei-me em ouvir. Com certeza, há
uma mensagem da mamãe contando sobre seu telefonema.
Lembrou-se da conversa que mantivera com os Lingfield. Ainda não acreditava na
hipótese levantada pelos pais, com relação ao pedido de casamento de Oliver. Decidiu
que aquele não era o momento para questionar suas dúvidas. Queria, antes, desfrutar
da doce intimidade proporcionada pelo homem amado.
Oliver afastou-se e, abrindo uma das malas, retirou um pequeno embrulho. Sentouse ao lado dela, abraçando-a, e entregou-lhe o presente.
— Oliver... Que lindo! — Ela não conseguiu conter a exclamação.
— Gostaria que usasse este anel como um compromisso de noivado, Laurian.
Mesmo sem olhar o nome impresso na forração de cetim, ela adivinhou que se
tratava de uma criação exclusiva de Ilias Lalounes, um joalheiro grego, radicado em
Nova York. A jóia, caríssima, pertencia à Seasshell Collection. Tomada pela surpresa,
ela mal conseguia falar. Oliver colocou o anel no dedo dela.
— Seu desenho lembra uma concha e achei muito apropriado para a Filha de
Netuno — ele declarou.
— Oh, Oliver... É lindo. Adorei. Obrigada. — E, enlaçando-o pelo pescoço, beijou-o
intensamente.
Mais tarde abriram uma garrafa de champanhe e brindaram ao futuro de
felicidade que se descortinava diante deles.
De repente, Oliver tocou no assunto que tanto preocupava aos Lingfield e que
surpreendera Laurian.
— Confesso que já deveria ter procurado por você há algum tempo. Para saber se
Archie já possuía um sucessor.
— Um sucessor de Archie? — Laurian repetiu, trêmula.
— Sim. Há alguns fatos que você ignora. Na verdade, Laurian, não sou realmente
proprietário do Palm Reef Club e da ilha que o abriga. Tenho sido apenas um zelador
dos seus bens. Um zelador que tem cumprido sua missão muito bem. Muito bem, mesmo
— confessou, sem falsa modéstia.
— Não estou entendendo.
— Seu pai deixou a ilha e a casa para seus netos. Porém, tenho permissão para
investir no lugar e usufruir dos lucros.
Oliver interrompeu a narrativa para encher novamente as taças. Depois,
prosseguiu:
— Você deveria ser comunicada dessa cláusula somente após o nascimento do seu
filho e herdeiro de Archie. Ele acreditava no sucesso do hotel e não desejava que seu
futuro marido se aproveitasse da situação e se casasse com você apenas por
interesse.
87

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Ele se calou por um instante, mas logo continuou:
— Sempre achei que Archie estava agindo de um modo muito radical e várias vezes
lhe falei que você viveria mais feliz sabendo que a ilha onde nascera ainda lhe
pertencia. Mas Archie mostrou-se irredutível e não me restou outra alternativa a não
ser obedecer suas instruções.
— E você falou a respeito disso com meus pais adotivos...
— Sim. Na época em que procurei os Lingfield, contei-lhes a respeito. E, como você
nunca mencionou o assunto, deduzi que partilhavam da opinião de Archie, resolvendo
também manter o segredo.
— É verdade. Contaram-me apenas na noite em que voltei para Yorkshire... Quando
confessei que o amava.
Laurian manteve um longo silêncio respeitado por Oliver, e quando falou, sua voz
soou rouca e emocionada:
— Por um momento cheguei a duvidar de seus sentimentos, porém, tendo-o agora
aqui a meu lado, tenho certeza de que me enganei.
— Oh, meu amor, eu jamais a pediria em casamento se não estivesse
verdadeiramente apaixonado por você. — Beijou-a sofregamente, como que para dar
mais veracidade às suas palavras. — Desde quando a vi pela primeira vez, naquela
livraria, soube que era a mulher da minha vida, aquela que eu procurava há muito
tempo... Acredita em mim, meu amor?
Diante das palavras apaixonadas e dos olhos brilhantes de emoção, Laurian não
teve como duvidar do homem amado.
— Sim, meu amor, eu acredito! E também te amo muito. Acho que te amo desde
quando você surgiu na ilha pela primeira vez, quando eu nem sabia o que era amor e o
julgava apenas meu herói.
— Você quer se casar comigo, Ouriço-do-Mar?
— Sim, sim! — Laurian respondeu, emocionada por ele ter lhe chamado pelo apelido
de infância. — É o que eu mais quero na vida.
— Quando? Amanhã?
— Não me importa o dia, o que quero é estar com você sempre, por toda a minha
vida.
— Posso ficar aqui em seu apartamento?
Laurian fingiu incerteza. Depois riu.
— Tente ir embora!
Oliver colocou as taças de champanhe sobre a mesa. Enlaçou-a pela cintura e
Laurian abraçou-o também, amoldando seu corpo ao dele. Fitaram-se nos olhos.
— Acha que Archie imaginou que isso aconteceria conosco? — ela murmurou!
— Acredito que sim. Uma vez, ele me disse que você se transformaria numa mulher
adorável. Agora percebo que deveria ter conferido há muito tempo...
88

Herdeira do paraíso (Neptune's Daughter)
Bianca Duplo nº 518.2

Anne Weale

Oliver inclinou a cabeça e, fechando os olhos, Laurian entreabriu os lábios, para
receber seu beijo.

Fim

89