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A ocupação da área pública: taxa ou preço público.

Uma questão ainda polêmica, com diversas definições e orientações dos
nossos juristas, mas sem uma conclusão clara e definitiva que sirva como regra
e norteie os legisladores e administradores municipais na elaboração de suas
leis e de suas ações, é a distinção clara entre taxa e preço público. São
diversas as teorias de renomados estudiosos do Direito, tributaristas e
administrativistas, todas, porém, sujeitas às críticas e contestações de outros
juristas, num sucedâneo de interpretações que, se enriquece, por um lado, a
discussão do tema, por outro, confunde e emaranha as conclusões.
Temos, neste singelo trabalho, o propósito de discutir a forma mais adequada a
ser adotada na cobrança pelo uso ou ocupação da área pública. O jornaleiro
que ocupa uma calçada deve pagar taxa ou preço público? E o vendedor
ambulante? E aquele que explora um quiosque no meio da praça? E a
instalação de postes pela concessionária de energia elétrica? Tal ocupação
gera a compulsoriedade de uma taxa ou a criação facultativa de um preço
público?
A resposta de tais questionamentos exige um mergulho neste mar de idéias e
teses, ora de convivência tranqüila pela coincidência dos argumentos, ora de
revoltosas turbulências e contradições.
Vamos comentar as matérias relacionadas ao tema proposto.
A classificação das receitas públicas
A Lei nº. 4.320/64, no art. 9º, diz que "tributo á a receita derivada, instituída
pelas entidades de direito público, compreendendo os impostos, as taxas e
contribuições...". O legislador da época assumia uma divisão tradicional das
receitas públicas, em voga naquele tempo, a designar os tributos como receitas
derivadas, e as demais, consequentemente, seriam as receitas originárias.
Ensina Bernardo Ribeiro de Moraes que esta classificação foi estabelecida
pelos autores alemães e seguida por inúmeros tratadistas de alhures e
nacionais, inclusive Aliomar Baleeiro.
Receitas derivadas seriam aquelas obtidas coercitivamente, por força de lei.
São compulsórias, retiradas pelo Estado do patrimônio dos indivíduos, por
força de seu poder fiscal. Já as receitas originárias seriam aquelas auferidas
pelo Estado em decorrência da exploração de seus serviços e bens, mas de
forma não coativa e, sim, facultativamente.
Teríamos, então, uma primeira distinção, a classificar a receita pública em duas
espécies: as receitas compulsórias e as receitas facultativas. As compulsórias
têm como causa a norma jurídica, e nunca a vontade do indivíduo. As

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dependentes da vontade do indivíduo. ainda não esclarece a questão. porém. Nas receitas originárias. De qualquer forma. em determinadas circunstâncias. Diz.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. Se não fosse exigência de saúde pública. a ilustre Professora: "O uso comum tem. Esses bens de uso comum são administrados e cuidados pelo Poder Público de forma a permitir sua livre utilização de todos. se preferir cria preço público. a doutrina não se contenta com tão pouco. é compulsório. ainda. observa-se o interesse do indivíduo de pagar ao Estado com o intuito de obter uma vantagem. A taxa de coleta de lixo. Há uma certa insistência em predeterminar e limitar o alvedrio legislativo. por todos os membros da coletividade". Ao nosso tema. 112. aqueles de utilização concorrente de toda a população. o legislador não tem liberdade de escolha". Muitos insistem em que. em regra. A partir dessa classificação diz-se que as receitas derivadas são regidas pelo Direito Público. um benefício ao receber o serviço.facultativas têm como causa atos jurídicos convencionais. percebe-se que nas receitas derivadas a transferência de riqueza ao Estado. mas não tem alternativas de negociação. em igualdade de condições. por ser compulsória. enquanto as receitas originárias são reguladas pelo Direito Privado. contudo. as seguintes características: www.consultormunicipal. a de saber que circunstâncias são essas. interessa comentar os bens de uso comum. como são as ruas e as praças. RJ CEP 24. por isto. a característica que identifica e qualifica a área pública de uso comum é exatamente esta condição de utilização indiscriminada. Área pública Sabe-se que os bens públicos podem ser de uso comum. A dúvida seria.358-390 Tel: (21) 2709-8329. Tal definição. então. cuja falta poderia causar sérios problemas sanitários para a população e. por exemplo. Assim. Neste sentido. dando a entender que tudo ficaria a critério do legislador: se quiser cria um tributo. ou conseguir uma coleta particular mais em conta. adverte Sacha Calmon: "Entretanto. Niterói. ou optar pela dispensa do serviço. existe por ser um serviço essencial de saúde pública. 2619-4161 . a coleta de lixo poderia ser preço público. ensina Maria Sylvia Zanella di Pietro: "Uso comum é o que se exerce. de fato. colocado à disposição dos usuários e sem o caráter de compulsoriedade. não requer uma negociação ou troca de vantagens financeiras.adv. O indivíduo tem. resolvendo enterrar ou queimar o lixo. de uso especial e os chamados dominicais. Por isso.

RJ CEP 24.adv. retornando. sem consentimento expresso e individualizado por parte da Administração. conforme for estabelecido legalmente pela entidade a cuja administração pertencerem.1. Todo dano ao usuário. ao uso comum a que se destina. admite-se destinações secundárias ou acessórias.. para ser exercida anonimamente. www. é aberto a todos ou a uma coletividade de pessoas. é. é da responsabilidade do Estado. que tais utilizações secundárias sejam reconhecidas e afirmadas como utilizações transitórias. de efeito temporário. mas pode. a fiscalização e a aplicação de medidas coercitivas. no direito brasileiro. tudo com o duplo objetivo de conservação da coisa pública (coibindo e punindo qualquer espécie de ação danosa por parte dos administrados) e de proteção do usuário (garantindo-lhe a fruição do bem público de acordo com a sua destinação)". de bancas de jornais. ser remunerado. permanecem sob a administração e vigilância do Poder Público. de mesinhas de bares e restaurantes. Ou. Imperioso. Observa-se que. está sujeito ao poder de polícia do Estado. mas dos próprios transeuntes". gratuito. excepcionalmente. Ensina Celso Antônio Bandeira de Mello: "tais bens possuem ou podem possuir outras serventias de uso que resultam meramente de sua configuração física. (. mas sempre temporário e eventual. também. que compreende a regulamentação do uso. para manifestações artísticas ou culturais.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. Evidente. o que seria inadmissível. de quiosques para venda de cigarros. pois a sua efetividade daria ensejo a transfigurar o conceito de seu uso comum. não obstante estejam à disposição da coletividade. a interdição de uma rua ou de uma praça por motivo de um desfile. 112. Não podíamos deixar de citar o nosso saudoso mestre Hely Lopes Meirelles: "O que convém fixar é que os bens públicos de uso comum do povo. o artigo 103 do Código Civil expressamente permite que o uso de bens públicos seja gratuito ou remunerado. 2. sim. Niterói.. que a utilização privativa de área pública de uso comum somente pode ser liberada pela Administração em caráter de excepcionalidade e desde que não prejudique a sua fruição por toda a coletividade. como destinação acessória ou secundária. em geral.consultormunicipal. E tudo isto em proveito não só de quem os explore comercialmente. porém. pois. Admite-se. desde que a vítima não tenha agido com culpa". apesar de sua destinação principal ser o uso indiscriminado oferecidos a todos. que considerar que a utilização privativa configure um proveito para todos. em caráter episódico e por tempo breve.) prestam-se. logo após o seu desfecho. para instalações de feiras-livres. que tem o dever de mantê-los em normais condições de utilização pelo público em geral.358-390 Tel: (21) 2709-8329. imputável a falta de conservação ou a obras e serviços públicos que envolvam esses bens. comício ou festejo. ainda. 2619-4161 . Há. 3. como diz acima o eminente publicista. em igualdade de condições.

além do cumprimento das exigências requeridas no edital. pelo qual a Administração consente. Trata-se de um ato administrativo de natureza precária. No inciso V acima. Autorização.358-390 Tel: (21) 2709-8329. em se tratando de ruas e praças. por isso mesmo. podendo ser revogado a qualquer tempo. RJ CEP 24. oferecendo-lhe segurança na fruição do bem público.consultormunicipal. É assim que ensina Marçal Justen Filho: "É evidente. No entanto. mediante requerimento devidamente protocolado e formalizado em processo administrativo. a título precário.Em vista da excepcionalidade da outorga do uso privativo. V . sugere-se que esta seja sempre por autorização a título precário. 112. www. Niterói.Poderíamos. sugere-se que qualquer liberação de uso privativo em áreas públicas de uso comum (aqui restritas às ruas e praças) deve ser mediante autorização. que o particular se utilize de bem público com exclusividade" (Di Pietro). Em geral. fixar as seguintes normas sobre o modelo de administração da área pública de uso comum: I . Mas. V . e. quando se percebe uma pluralidade de interessados em obter determinada autorização de uso. 2619-4161 .Qualquer utilização privativa da área pública de uso comum tem que ser aprovada pela Administração Pública e em condições de excepcionalidade. dispensam lei autorizativa e licitação para o seu deferimento" (Hely Lopes Meirelles). sem gerar direito a indenização para o particular beneficiado. que a existência de uma pluralidade de interessados em usufruir benefícios idênticos. com vistas ao uso de atividades transitórias e irrelevantes ao Poder Público. a autorização é deferida por solicitação do interessado. o que vem a ser Autorização? Autorização de uso "Autorização de uso é o ato administrativo unilateral e discricionário.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. "Tais autorizações não geram privilégios contra a Administração ainda que remuneradas e fruídas por muito tempo. através de edital e.adv. III . a Administração Pública deve (ou deveria) ofertar o benefício ao público mediante processo de licitação.A Administração Pública é responsável pela conservação da área pública. II .Compete à Administração Pública proteger o usuário. Permissão e Concessão. no entanto. assumindo as obrigações materiais e morais decorrentes de qualquer dano provocado ao usuário por culpa da negligência ou da omissão da pessoa política competente. então.Regra matriz: área pública de uso comum destina-se à utilização de todos. a Administração Pública seria remunerada na forma de maior preço oferecido entre os participantes do certame. sem distinção. neste caso.

então. mas.acarretando a impossibilidade de atendimento a todos. permite a fixação de prazo. limitando ou até mesmo restringindo a necessidade da licitação. a decisão discricionária pertence à Administração Pública. Di Pietro lembra que a Lei Orgânica do Município de São Paulo. RJ CEP 24.. no caso de instalação de uma banca de jornal. a autorização mediante processo licitatório. direito público subjetivo ao exercício da utilização até o termo final previamente fixado (. a autorização ser outorgada com prazo estipulado. tal fato não será fator impeditivo de a Administração Pública optar em autorizar o uso desses espaços. apesar de imprimir natureza transitória à autorização. Niterói. impedindo que o Poder Público perca o direito de organizar e controlar o uso da área pública. por evidência. pelo qual a Administração Pública atribui a um particular a faculdade de usar um bem público de modo privativo e continuadamente. vale ressaltar a questão de fixação de prazo de uso privativo da área pública. em certas situações. não sendo a autorização gratuita. para o particular. Mas. desde que. o interessado saiba da existência de tal condição antes mesmo de assumir o compromisso. sem necessidade de indenização. um retorno ao capital investido. por exemplo. Permissão de uso Permissão de uso de bem público é ato unilateral e discricionário. de interesse de diversas pessoas a exploração de tais espaços. ensejaria ao particular direito de indenização.)". até o máximo de 90 dias.consultormunicipal. Pode. caso a Administração Pública pretenda revogar o ato durante o prazo liberado. porque a capacidade de revogar a autorização faz parte da natureza intrínseca do ato. supor que a Administração Pública Municipal tenha a oferecer espaços nas ruas e praças para instalação de bancas de jornal. provavelmente. 112.. conferindo ao uso privativo certo grau de estabilidade. E diz a ilustre Professora: "A fixação de prazo tira à autorização o caráter de precariedade. www. como. entendemos que mesmo havendo contraprestação. Todavia. 2619-4161 . então. por exemplo.adv. oferecerá. unicamente a pessoas portadoras de deficiência física. haverá a necessidade da licitação". ou instalação de um quiosque para venda de produtos. mas. vincula a Administração à obediência do prazo e cria. Apesar de algumas manifestações em contrário. Por ser. o autorizado precisa ter a segurança de um tempo que propicie. pelo menos. gerará a necessidade de uma solução compatível com o princípio da isonomia. O melhor seria não estipular prazo nas autorizações.358-390 Tel: (21) 2709-8329. de uma ou de outra maneira. permanece o direito de revogação por parte do Poder Público. Eventualmente.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. Vamos. sempre com o objetivo de proporcionar ao público uma melhor fruição da área. Isso. então. Ainda sobre o tema. no caso.

assim. com exclusividade e conforme a sua destinação. tem sempre um interesse próprio. se a atividade durante o transcurso do tempo acertado ocorrer em condições normais. porém. autorização: precariedade mais acentuada em vista do interesse individual. por isso mesmo. autorização: uso privativo no interesse privado do beneficiário.358-390 Tel: (21) 2709-8329. Os www. autorização: o usuário tem uma faculdade de uso. Di Pietro assinala três diferenças: 1. Concessão de uso Concessão de uso é o contrato administrativo por meio do qual o particular é investido na faculdade de usar um bem público. não vislumbrando razões de interesse público. já se afastaria do conceito de permissão. A concessão é aplicada. nos casos em que a utilização do bem público objetiva o exercício de atividades de utilidade pública de maior vulto e.consultormunicipal. permissão: precariedade menos acentuada em razões do interesse público. para que o utilize com exclusividade e nas condições convencionadas com a Administração". sendo a precariedade da permissão negociada de antemão e fixado um prazo de uso. Toda permissão que estabelece prazo de cumprimento formaliza-se através de contrato e. estabelecendo a Administração suas condições e exigências. RJ CEP 24. A permissão exige licitação quando for objeto de contrato com terceiros. autorizado ou permissionário. permissão: utilização privativa para fins de interesse coletivo. geralmente com intensidade idêntica. Exatamente por força desta fixação de prazo. 112. Entendemos. 2. mais onerosas para o concessionário. Diz Hely Lopes Meirelles que a concessão se caracteriza pelo "caráter contratual e estável da outorga do uso do bem público ao particular. uma permissão sem fixar prazo ou apenas mencioná-lo como indeterminado. invalidando o poder de revogá-la antes do vencimento e dando ao permissionário o direito de indenização.Discute-se qual seria a diferença entre autorização e permissão de uso de bem público. apesar de este existir implicitamente. 3. geralmente. a licitação é obrigatória. durante um período determinado. 2619-4161 . A permissão é sempre fruto de um ato negocial. gratuito ou remunerado e por tempo certo ou indeterminado. dentro do qual os direitos do permissionário ficam garantidos. Em nossa opinião.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. permissão: o usuário tem uma obrigação de uso. Afinal. A questão se concentra no aspecto da continuidade do uso do bem público.adv. a natureza de precariedade da permissão se reduz. cujo cumprimento deve ser obedecido por ambas as partes. o particular. Niterói. que a diferença básica reside na natureza transitória ou não da utilização pretendida pelo particular.

112.prazos são mais prolongados em vista das obrigações assumidas e dos investimentos necessários ao exercício da atividade. a outorga só é possível para fins de interesse público. por exemplo. mediante paga. RJ CEP 24. o Prefeito. seria viável a concessão de exploração de uma rodovia ou de uma ponte urbana. 2619-4161 . em decorrência da concessão. Por isso. Em conclusão deste assunto. é praticamente inviável.358-390 Tel: (21) 2709-8329. poderia fazê-lo por decisão própria e cobrar preço público pela execução do serviço. entretanto. aprovada uma lei pela qual se estabelece a instituição da taxa de erradicação de formigas dos imóveis urbanos. ficando afastada. que o fato de instituir taxa exige. Assim. www. Se um Prefeito resolvesse criar um serviço de erradicação de formigueiros e colocá-lo à disposição dos usuários. percebe-se que a outorga de uso das áreas públicas. de início. teria que observar uma série de aspectos legais imprescindíveis à efetivação da cobrança do tributo. rigorosa obediência aos preceitos legais e aos princípios tributários ditados na Constituição Federal.adv. já que o uso desses bens não se limita a uma determinada particularidade. São duas as grandes espécies de taxas: a) taxas pelo exercício regular do poder de polícia. Niterói. a concessão. permite tanto a autorização quanto a permissão. então. inclusive a obrigatoriedade do contribuinte em utilizá-lo e a conseqüente fiscalização dos imóveis que estariam ou não contaminados pelo inseto. aqui limitadas às ruas e praças públicas. pois o objeto da concessão é o mesmo da destinação do bem. submeter-se a contingenciamentos pré-definidos inafastáveis. no geral. como no exemplo de erradicação de formigueiros. ou seja. não se limita ou se restringe a determinados aspectos ou contingenciamentos pré-definidos.consultormunicipal. impraticável e inadmissível seria a criação do tributo. a parcela de bem público concedida fica com sua destinação desviada para finalidade diversa. ou seja. procedimento de difícil ou impossível aplicação. Temos. Isto porque. por sua natureza política. a concessão de bem público de uso comum somente se viabiliza quando o uso privativo constitua a própria finalidade do bem. Se for. a outorga de concessão nos casos de ruas ou praças. o trânsito de veículos. Deste modo. O conceito de taxa É certo que o preço público. Diz Maria Sylvia di Pietro que quando a concessão implica utilização de bem de uso comum do povo. para executá-la.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. Caso o aspecto material da incidência da taxa se tornar impossível de alcançar.

o ovo ou a galinha. As ruas e praças são bens públicos afetados cuja destinação visa atender as necessidades coletivas. em prol do bem-estar da coletividade. a criação de taxa. Nas palavras de Caio Tácito. em vista da inexistência da figura do sujeito passivo. Taxa de poder de polícia O conceito atual de poder de polícia orienta-se no sentido de interesse público. 112.358-390 Tel: (21) 2709-8329. não pode haver. ou intransferíveis para uso privativo do particular. Todavia. são normas limitadoras da liberdade individual. sendo.b) taxas pela utilização efetiva ou potencial de serviços públicos específicos e divisíveis. não seria cabível a cobrança de uma taxa de poder de polícia daqueles que ocupam áreas públicas de uso comum.consultormunicipal. mediante lei. Ou melhor. assim. nem toda ação de poder de polícia exercida pela Administração Pública tem o dom de criar ou justificar a adoção de uma taxa. Ou. a cobrança da taxa somente se inicia quando já existe a atuação estatal correspondente. porque o poder de polícia de maneira ampla é função primordial do Estado.adv. Niterói. se não houver atividade a que se vincule. tendo a intenção de assegurar e promover o bem-estar público através de restrições às liberdades plenas dos indivíduos e das propriedades particulares. taxa de coleta de lixo. Deste modo. não teria fundamento legal para cobrar taxa de licença de construção de obras. por evidência. nascer a taxa. não há condições de incidência da taxa. justamente por ser a área pública de uso comum um bem público de utilização concorrente de toda a população. então. o que deve ser custeado com o produto do imposto". O 'poder-dever' a que se obriga a administração pública em reprimir ações coletivas prejudiciais ao bem-estar da coletividade não seria motivo de cobrança de uma taxa. inalienáveis. RJ CEP 24. assim.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. Um Município que não possui setor especializado de análise técnica de projeto de construção civil e quadro regular de fiscalização de obras. a partir do exercício desta atividade. para depois. sendo. em condições regulares de atuação. Em outras palavras. www. 2619-4161 . Ou. Na velha discussão de quem nasceu primeiro. assim. no Tribunal de Justiça de Minas Gerais: "não é qualquer poder de polícia que justifica. O poder de polícia se insere em obrigações de não fazer. exigidas dos particulares. nem taxa de "habite-se". quando não há o serviço regular de coleta de lixo. como disse o Ministro Cunha Peixoto. Todas as duas espécies se caracterizam por uma atividade estatal dirigida ao contribuinte. além de ser este poder de polícia um dever inerente e intrínseco à própria natureza do Estado. um tributo vinculado juridicamente a uma atividade exercida pelo Estado. no caso das taxas nasce primeiro a atividade.

Temos. uma situação curiosa. porém. a ser cobrada dos licenciados e. exige-se apenas a comprovação da licença e a verificação se estão ocupando o lugar consignado na licença. Ao liberar anualmente uma licença de ocupação. RJ CEP 24. o momento em que a Administração Municipal exerce. a www. o exercício do 'poderdever' de sua responsabilidade. assim. comentar o peculiar aspecto da hipótese de incidência da taxa de uso da área pública. Aos licenciados. a partir daí. uma atividade que não estabelece uma relação contributiva. 2619-4161 . em sua rotina de reprimir suas ocupações. Ao liberar a licença de ocupação poder-se-ia dizer que houve a manifestação do poder de polícia da Administração Pública ao liberá-la. de pleno. qual seria o exercício regular de poder de polícia sobre os licenciados? Na verdade. Como se a taxa fosse uma espécie de "proteção" contra concorrentes ilegais. por este motivo. o licenciamento anual quebra a transitoriedade do uso privativo do bem público de uso comum. Este procedimento de policiamento das áreas públicas de uso comum. C) em conseqüência. Ou seja. tendo em vista: A) ser uma atividade inerente à Administração Pública. os licenciados são obrigados a solicitar uma nova licença a cada exercício. Niterói. B) ser uma atividade 'uti universi'. não justifica a existência de uma taxa permanente. mas. reprimindo os demais. em rigor. em suas atuações de campo. Os agentes fiscais (guardas municipais e fiscais de posturas) atuam. a fiscalização de poder de polícia. os não-licenciados. não tem o condão de justificar a criação de uma taxa de poder de polícia. de Posturas ou de Guardas Municipais. a taxa de poder de polícia relativa ao uso da área pública deveria ser cobrada uma única vez. e o estudo de viabilidade da outorga. quando o pleiteante requeresse a licença e. Concluindo. Ou seja.adv.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. de fato. Ora.Estamos dizendo que a ação fiscal externa. ou não. pois inexiste sujeito passivo. os nãolicenciados que ocupam e exploram a área pública indevidamente. muito comum na legislação dos Municípios.358-390 Tel: (21) 2709-8329. não fiscaliza os licenciados. Talvez. Mas. suas atividades de controle e análise para conceder a licença. aqueles que não possuem licença para funcionar. Cabe. anual. alguns Municípios exigem a renovação anual das licenças de uso da área pública. Tal exigência resulta um sofisma: exige-se a renovação que venha a justificar a cobrança anual. A chamada taxa de ocupação da área pública é paga pelos licenciados em função da ação estatal sobre os demais. no exame da documentação apresentada. 112. exatamente por isso. em suas atividades de reprimir o uso indevido de áreas públicas por particulares. não fiscalizados. prestada para benefício de toda a população. sim. o fato imponível da taxa seria a liberação da licença. em relação aos serviços internos efetuados pela Administração.consultormunicipal.

mas nem todos os serviços públicos podem ser custeados através da instituição de taxas. pelo contribuinte. pela Administração Municipal. prestado ou posto à disposição do contribuinte. c) a preocupação de realizar o maior lucro possível. fácil observar que não há. de forma alguma. São receitas obtidas através dos processos de gestão administrativa que o Estado aplica em âmbito de regime jurídico de direito privado. 2619-4161 . já não mais obtido a título precário. gerando um direito de uso permanente ao licenciado. Temos. Taxa de serviço público Sabe-se que todos os serviços realizados pelo Estado constituem serviços públicos. Nos termos do tema ora comentado. Com base nos ensinamentos de Bernardo Ribeiro de Moraes.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. quando este se dedica à obtenção da receita. que identificar duas modalidades de preço público: a) quando a atuação estatal não atende a qualquer interesse público. RJ CEP 24. Niterói.consultormunicipal. b) atuação estatal com objetivo puramente financeiro. ou não-coativas: a) ausência de qualquer privilégio jurídico que beneficie o Estado. para admitir a instituição de taxa seria preciso que o serviço fosse: 1º) efetivamente realizado. Serviço geral e indivisível não pode ser custeado por taxa. porém. o serviço público deve preexistir. www. de forma efetiva ou potencialmente. de forma indireta.Administração Municipal está. a fim de se poder custeá-lo. pois os serviços públicos realizados na área pública de uso comum. Preço Público Antonio Theodoro Nascimento chama de Receitas Não Coativas os recursos materiais necessários ao custeio dos serviços públicos que o particular utiliza sem utilizar-se do poder tributário. não atendem os requisitos acima.358-390 Tel: (21) 2709-8329. condição legal de incidência de taxa decorrente do uso privativo da área pública. 112. Para justificar a taxa.adv. 3º) utilizado. O mestre baiano especifica três condições para que se configurem as receitas originárias. utilizando os processos de gestão próprios da economia privada. 2º) específico e divisível.

quando há um interesse público a observar. então. d) exigida pelo Estado ou entidade pública ou privada ligada ao Poder Público. é distinção básica entre preço público e taxa. Já no segundo caso. não será preço público. Diz.consultormunicipal. não há nesta operação qualquer interesse público que venha a condicioná-la.b) quando a atuação estatal tem a considerar. e "taxa facultativa" é preço. também. conforme já decidiu o Supremo Tribunal Federal (a contratação depende da vontade do interessado)". no entanto. e remuneradas por taxa. alvarás de funcionamento e vistorias. o laureado mestre: "O essencial. RJ CEP 24. Neste sentido. www. b) é pecuniária. atender as três condições acima. 2619-4161 . de resolver por si só a aceitar ou não o serviço ofertado. na aquisição de um bem material ou imaterial. Bernardo Ribeiro de Moraes identifica as seguintes características de preço público: a) é uma prestação relacionada com a contraprestação de caráter econômico realizada pelo Estado. quando a Administração Pública resolve vender sucata. Todas essas licenças são previstas em lei. A denominada 'taxa de manutenção e limpeza de estação rodoviária' é preço público. um interesse público inerente ao seu ato. Esta faculdade do adquirente.adv. a natureza das relações estabelecidas entre o Poder Público e o interessado para carrear receita. não há como classificar de preço público as emissões de licenças. no conhecimento do preço público. No primeiro caso.358-390 Tel: (21) 2709-8329. ainda. ninguém iria requerer alvará para abrir o seu estabelecimento se esta licença fosse facultativa. Aliomar Baleeiro ditou que "preço compulsório" é taxa. medido em termos de unidades monetárias. Deste modo. Ninguém pediria uma licença para construir se esta não fosse obrigatória.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. isto é. temos o preço público. referente a aquisição de um bem material ou imaterial. Niterói. se ela nasce em razão da participação da vontade do interessado. De uma forma ou de outra. Se a obrigação nasce da lei. c) decorrente da livre manifestação da vontade do indivíduo. procurando. além de procurar o cumprimento de normas a fim de não prejudicar o interesse público. tem-se como característica fundamental do preço público a livre manifestação da vontade do comprador. é a causa jurídica que dá origem à obrigação da parte. porque todas as exigências de poder de polícia são compulsórias. a Administração Pública pode ser induzida a não ater-se apenas às condições de mercado na fixação do preço. 112.

desratização. Apenas não nos convencemos de que a Constituição quer apenas taxa como contrapartida de serviço público. Assim: A) quando o Estado exerce poder de polícia. de taxa. 2619-4161 . às vezes existindo apenas a simples disponibilidade do serviço. (atividade econômica). atender a lei. prestar serviços de utilidade tais como fornecimento de gás. engendra instrumentalidade para. admitimos em casos tais a adoção do regime de preços". O Professor Edvaldo Brito. por exemplo. O eminente tributarista mineiro Sacha Calmon Navarro Coêlho traça um caminho mais objetivo: "A nós interessa o regime jurídico adotado pelo legislador com escora. distinguiu as atividades econômicas do Estado e os serviços públicos cometidos pela Constituição ao Estado.consultormunicipal. construção de muros e calçadas. o caso é. é claro. Este é um caminho elucidador. serviço de transporte urbano etc. extinção de formigueiros e cupinzeiros. 112. www. também. é de taxa e só dela que se pode cogitar. só seria elidível pela revogação da norma legal. 30). luz. transporte. mas ainda repleto de dúvidas. todos os serviços públicos de interesse local seriam custeados por taxa? Evidente que não. pouco importando se este o preste diretamente ou por interposta pessoa. citado por Sacha Calmon Navarro Coêlho. predominaria a vontade da lei. a contrapartida será sempre sob forma de taxa. irrelevante o querer do obrigado". Niterói. não há como classificar de taxa a oferta de serviços públicos facultativos. limpeza de lotes. telefonia etc. mas a prestação deste serviço pela Administração Pública é facultativa. C) quando o Estado. B) quando o Estado diretamente presta serviço público stricto sensu. porém.358-390 Tel: (21) 2709-8329. ao revés. lembrando que a Constituição Federal dá.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. embora sob concessão. a cobrança só é possível após a acordância do usuário.Ao mesmo tempo. RJ CEP 24. o Professor Sacha Calmon inclui nas distinções entre preço e taxa: "No preço de origem sempre contratual haveria a possibilidade do 'desfazimento do pactuado' e. podendo o proprietário contratar um serviço de particular para realizá-lo e. E continuando o seu magistério. ainda. em regime de Direito Privado. assim. poda de árvores. tais como serviços de cemitério. competência aos Municípios para organizar e prestar diretamente ou sob regime de concessão ou permissão os serviços públicos de interesse local (art. energia. Em se tratando de serviço público cometido pela Constituição ao Estado. Neste caso. Pode até a lei exigir. Na taxa. por exemplo. antes disso. constitucional.adv. e a obrigação. que os proprietários mantenham os seus terrenos baldios fechados com muro de alvenaria.

G) A solicitação por particular de instalar mesas e cadeiras no passeio público.Conclusões De tudo que foi dito acima. F) A instalação de equipamentos nas áreas públicas de uso comum. de início. se a lei local assim estabelecer (inclusive a taxa de fiscalização sanitária. taxa. se for o caso). D) Quando houver vários interessados. mas sem perder o Município o seu poder de exigir o cumprimento de medidas de segurança a favor dos transeuntes e locais que não prejudiquem o trânsito das pessoas. cobrar preço público pelo uso da área pública.358-390 Tel: (21) 2709-8329.adv. H) Caso a Administração Municipal permita. e se não houver tal restrição. o critério de seleção deveria ser. mediante outorga de autorização a título precário. cobrar preço público pelo uso da área ocupada. sempre a título precário. e. E) Tanto por autorização quanto por permissão de uso da área pública de uso comum. a liberação de comércio ambulante deve ser precedida de análise do local a ser ocupado.consultormunicipal. admitindo-se a licitação. Neste caso. cabines de telefonia. desde que seja de proveito de todos e não prejudique de forma permanente o direito de passagem da população. tais como. 2619-4161 . C) O mais razoável é a outorga do uso privativo através de autorização. sendo esta taxa para efeito único da licença inicial. não. prioritariamente. em frente de seus bares ou restaurantes. www. o tipo de produto a ser comercializado e o equipamento a ser utilizado. mediante processo licitatório.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. deveria observar. utilizar-se da permissão. Posteriormente. orelhões e outros devem ser sempre precedidos de análise técnica da Administração Municipal. chegamos a algumas conclusões: A) A área pública de uso comum pertence. aos interessados. B) Pode a Administração Municipal outorgar o seu uso privativo. I) Ocupação de box em mercado municipal deve ser outorgada mediante preço público ou por meio de contrato de locação. podendo. sendo dever da Administração Municipal mantê-la para uso comum de todos. em casos especiais. podendo ser até dispensada a cobrança de preço em vista do interesse público que envolve a instalação de tais equipamentos. o direito de passagem dos transeuntes. em geral. 112. Niterói. à população. postes. a Administração Municipal deveria cobrar preço público. se houver. cobrar taxa pela liberação da licença. RJ CEP 24.

11ª. www. Rio de Janeiro. 1999. Malheiros. Sacha Calmon Navarro. Taxas e Parafiscalidade".consultormunicipal.. Hely Lopes. Atlas. Niterói. Bernardo Ribeiro de. "Curso de Direito Constitucional Positivo". coordenação de Aliomar Baleeiro. 1977. Rio de Janeiro. Forense. ed. Marçal. Renovar. "Compêndio de Direito Tributário". SILVA. 112. 19ª. Antônio Theodoro. São Paulo.. Celso Antônio Bandeira de. São Paulo. "Lei nº. 2005.. TORRES. ed. ed.358-390 Tel: (21) 2709-8329. 3ª. 2007. Roberto Tauil – maio de 2007. ed. livro 7 do "Tratado de Direito Tributário Brasileiro". Rio de Janeiro. MEIRELLES.J) Bancas de jornais devem ser autorizadas mediante pagamento de preço público.br Rua Comendador Manuel Azevedo Falcão. Maria Sylvia Zanella. Forense. 2005. 17ª. ed. RJ CEP 24. COÊLHO. Malheiros. "Curso de Direito Administrativo". "Preços. Bibliografia AGUIAR. 24ª. "Curso de Direito Administrativo". "Curso de Direito Tributário Brasileiro". 4. Afonso Gomes.320". NASCIMENTO. 1992. 1996..... ed. "Curso de Direito Financeiro e Tributário". São Paulo. 2006. 2619-4161 . ed. JUSTEN FILHO. MELLO. Malheiros. "Direito Administrativo". MORAES. São Paulo. 2005. 9ª. Saraiva.. Rio de Janeiro. 2ª. 5ª. Ricardo Lobo. São Paulo. Fórum. ed.adv. Belo Horizonte. Forense. 1995. DI PIETRO. José Afonso da. "Direito Administrativo Brasileiro".