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Questão 1- O texto de J.J.

Reis, “Nos achamos em campo a tratar de liberdade: A resistência
escrava no Brasil oitocentista”, vai alicerça-se na tese da participação efetiva dos escravos no
processo de abolição da escravatura. Segundo Reis, os escravos foram sujeitos políticos e históricos
ativos, fizeram política com uma linguagem própria, interpretando a legislação a sua maneira e
assim, reivindicando sua liberdade.
O tempo histórico em que o autor trata é entre o século XIX e o início do XX. De acordo com ele,
durante a maior parte do século XIX a escravidão no Brasil passou por uma intensa expansão,
relacionada ao desenvolvimento da lavoura de exportação, o desenvolvimento das cidades e a
consequente intensificação do tráfico de escravos. O açúcar prosperava, os campos de algodão
cresciam e em Minas, a utilização de mão de obra era latente, principalmente nas lavouras de café,
onde mais o trabalho escravo foi utilizado durante o século XIX.
Com a formação dos grandes centros urbanos escravistas, a escravidão brasileira alcançaria seu
ápice no século XIX. Foi durante este período que o país mais recebeu escravos africanos, estima-se
que entraram no país cerca mais de um milhão e meio de africanos, principalmente através do porto
do Rio de Janeiro, apesar da proibição do tráfico em 1831.
Com a independência, as classes dominantes brasileiras consolidaram-se conciliando discursos
liberais e civilizatórios com a manutenção da escravidão, porém nem todos compartilhavam esta
visão. As elites e escravistas brasileiros tiveram de enfrentar a resistência dos escravos em cada
lugar em que a escravidão prosperou.
Através de rebeliões e motins os escravos deram início a resistência, porém nem toda revolta tinha
como objetivo por fim ao regime escravocrata. Alguns apenas visavam corrigi-la, buscavam
melhorias, reivindicar alguns benefícios, ou seja, reformar a escravidão, não destruí-la.
Com o passar tempo, a partir do final do século XVIII, as revoltas intensificaram-se e tornaram- se
mais frequentes. O número de escravos na população só aumentava, principalmente de escravos
africanos, alguns considerados mais aguerridos do que os outros, eram os que mais encorajavam a
consciência de força diante das camadas livres. Dentre os escravos africanos, os mais revoltosos
eram os nagôs e haussás, africanos que tinham experiências com guerras, estes foram
principalmente para a Bahia, palco de muitas revoltas.
Além dos escravos africanos, os crioulos também tiveram uma participação importante nos
movimentos de resistência. Organizaram fugas, formaram quilombos e ainda foram mais presentes
que os africanos em movimentos dos setores sociais, como os motins antiluzes na Bahia ou as
revoltas do período regencial na década de 1830.
Era um período favorável a revoltas, com ideologias liberais e abolicionistas por todos os lados, isso
tudo levou os escravos a perceberem brechas, fraquezas e aproveitas oportunidades. Os cativos
estavam atentos a tudo que acontecia a sua volta, a exemplo do que aconteceu no Haiti, que serviu
de exemplo e influência política para eles. Entre os anos de 1814 a 1824, os escravos discutiam
abertamente sobre os sucessos nas Antilhas francesas. O Haiti alimentava o sonho de liberdade dos
escravos, mas mais que isso atormentava os pesadelos dos senhores. Também dentro de uma
conjuntura externa estavam as guerras. Estas enfraqueciam o controle sobre os escravos, criavam
alianças perigosas e desviava a atenção das autoridades, que só depois da guerra tiveram a
oportunidade de continuar com a repressão contra quilombolas e desertores.
Dentro do âmbito interno, o próprio discurso anticolonial serviu à rebelião negra. O discurso usado
na conquista da independência em 1822 sugeria acabar com a escravidão (se referindo ao Brasil se
desvencilhar de Portugal), falava em liberdade, quebra de algemas e grilhões. Os escravos ouviam
isso tudo e interpretavam a sua maneira, incorporando o discurso branco a sua própria causa.
Além do uso de revoltas e do embate direto, os escravos utilizaram-se da legislação da época para
reivindicar sua liberdade. Dentre as mudanças políticas do período, uma das mais importante para a
revolução escrava foi o movimento abolicionista. Mesmo indo contra a visão gradualista do
abolicionismo oficial, os escravos observaram e participaram ativamente do movimento desde as
leis que haviam proibido o tráfico até as que reformaram a escravidão e por fim as campanhas da
última década do regime.
Os cativos acompanhavam, discutiam e agiam encorajados pelo noticiário sobre as coisas que lhes

diziam respeito, faziam sua própria leitura do que estava acontecendo, interpretando – as de acordo
com seus interesses e seus ideais de liberdade eram bastantes radicais e imediatos, muito diferente
do abolicionismo oficial.
As leis de 1850 e 1871 causaram bastante alvoroço entre os escravos. A primeira trouxe aos
escravos a ideia de abolição definitiva. Já a segunda tratava-se do primeiro instrumento legal que
estabelecia abertamente alguns direitos dos escravos perante aos senhores, a exemplo da posse de
pecúlio e a alforria por valores arbitrados em juízo. Os escravos aproveitaram-se bastante dela,
usando- a frequentemente a seu favor, visto que era a primeira vez o que o Estado envolvia- se
claramente nas relações escravistas.
Os escravos também foram estrategistas, usaram de vários mecanismos para conseguir alcançar
seus objetivos, inclusive a religião. Para eles, o melhor momento de “atacar” a escravidão era
seguindo o calendário da “política celestial”, ou seja, período de festas, domingos e dias santos. Era
o momento em que o senhor baixava a guarda, estava despreparado e os cativos adquiram forças
apoiados em seus deuses. Eles também se sustentaram no cristianismo, na nova forma do
catolicismo, a liberdade através dos santos católicos, da linguagem religiosa sincrética.
O que pode-se concluir com o texto de J. J Reis é que os escravos foram substancialmente
participativos, aproveitaram-se de cada situação, desde os problemas entre os homens livres,
brechas abertas pela legislação a elementos próprios da sua cultura e religião para conquistar suas
metas. O processo histórico não passou por eles inalterado, eles desenvolveram sua visão crítica,
fizeram história, foram políticos.