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Abordagem Constitucional do Banco de Dados

Leonardo de Carvalho Ribeiro Gonçalves

Pós-Graduando em Direito Empresarial pela
FGV.

Artigo publicado na Revista Magister de Direito Empresarial, Concorrencial e do
Consumidor nº 07 - Fev/Mar de 2006

SUMÁRIO: 1 Direitos Fundamentais - Artigo 5º da CRFB; 2 Privacidade: Vida Privada, Intimidade e Honra - Artigo
5º, Inciso X, da CRFB; 3 Direito à Informação - Artigo 5º, Incisos XIV e XXXIII, da CRFB; 4 A Importância do Crédito
e do Banco deDados; 5 A Relatividade dos Direitos Fundamentais; 6 Referências Bibliográficas.

1 Direitos Fundamentais - Artigo 5º da CRFB

5º do inciso X. à proteção da saúde. instituindo no seu art. 2004). A dignidade deve ser considerada expressão do valor espiritual e moral inerente à pessoa.A Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB). 2003). em uma sociedade democrática. inciso III. 2000). protegendo-a da devassa tecnológica tão comum na atualidade (Bulos. como fundamento deliberdade. sendo o mínimo invulnerável a que todo estatuto jurídico deve assegurar (Moraes. à segurança pública. a menos que esta ingerência seja prevista por lei e constitua uma medida que. que se orienta para a autodeterminação consciente da própria vida. em vista da sua penetração. com especial destaque para o art." Leonardo Roscoe Bessa (2003) de forma sagaz lembra a Convenção Européia dos Direitos do Homem. à defesa da ordem e à prevenção de infrações penais. A discriminação dos aspectos subjetivos da pessoa humana. domicílio ou correspondência. família. ou à proteção dos direitos e das liberdades alheias. nos reportarmos ao Pacto de São José da Costa Rica. da CRFB. é um critério que valoriza o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana expresso no art. . que direciona o intérprete no sentido de posicionar o homem como centro. nem a ataques a honra e reputação. é necessária à segurança nacional. Argentina. conforme consignado no art. fundamento e fim de toda a atividade pública. inserido no art. de seu domicílio e de sua correspondência. 5º caput e respectivos incisos da CRFB. Chile e Estados Unidos da América. ou da moral. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques. devendo prevalecer como fundamento do progresso social (Slaibi Filho. sujeito." Vale. entendeu conferir especial relevo às qualidades pessoais da pessoa humana. 1º. A dignidade da pessoa humana é prestigiada na célebre Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada em 10 de dezembro de 1948 pela Organização das Nações Unidas ONU. 12 que: "Ninguém será objeto de interferências arbitrárias em sua vida privada. 8º com a seguinte grafia: "1) Toda pessoa tem direito ao respeito de sua vida privada e familiar. Sendo certo que a melhor interpretação é a axiológica. 2) Não pode haver interferência de uma autoridade pública no exercício deste direito. seguindo o exemplo da Alemanha. ao bem estar econômico do país. justiça e paz.

Ninguém pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou abusivas em sua vida privada. mandado deinjunção. na da sua família. Tais direitos têm o precípuo fim de conferir uma esfera protetiva contra a invasão estatal. O nome é critério de identificação do indivíduo. Constituem o motivo da existência e da evolução da humanidade. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou tais ofensas. 5º caput e incisos os direitos de primeira geração consistente nas liberdades públicas (STF. MS 22164/SP. ao contrário devem o maior respeito. mandado de segurança. Min. tal a sua dimensão e penetração nas diferentes camadas sociais. consigna no art. conferindo-lhe identidade no meio social. o menor menos ainda. Rel. ação popular e ação civil pública). entre tantos outros A vida e a liberdade. ou em sua correspondência. O que não significa que entes privados ou outros cidadãos estão autorizados a infringir tais valores. 11: "Proteção da honra e da dignidade 1. Se o maior não pode. a liberdade. a integridade física. valores que respaldaram a Revolução Industrial. Elenquemos alguns dos valores resguardados pela CRFB: A vida. 2. devendo ser embalados com o mesmo cuidado que se deve dispensar a um recém-nascido. que na sua atividade soberana deve se abster de qualquer atividade que importe na ingerência dos valores constitucionalmente prestigiados. a imagem." A CRFB. nem de ofensas ilegais à sua honra ou reputação.11. a honra. a intimidade. o nome. em vista da sua importância. Toda pessoa tem o direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento de sua dignidade. 3. Ademais. confere a devida dimensão aos remédios que garantem o exercício dos direitos fundamentais (habeas data. habeas corpus. Celso de Mello). Ocorre a submissão social às declarações constitucionais. que exterioriza em seu art. a vida privada. em seu domicílio. . não poderiam ter menor guarida. distinguindo-o dos demais.ratificado pelo Brasil através do Decreto nº 678 de 06.92. sintonizada com as conquistas da humanidade e ciosa da importância de tais valores.

reservou o Capítulo II. devam ser enfatizados. sem.406/02 (NCC). conforme lecionava San Tiago Dantas. poder adentrar no íntimo alheio e captar a repercussão da infração. a intimidade são valores diretamente relacionados ao tema e. A personalidade. . alcançando a dimensão do tema. na medida que a percepção pelo sentido influi na formação de opinião. consiste em uma técnica jurídica que tutela direitos fundamentais que nascem com o advento da pessoa e a acompanham durante a sua existência. consiste no conjunto de atributos humanos. como aparência capaz igualmente de qualificar a pessoa. do Título I para discorrer sobre o disciplinamento dispensado aos valores constitucionalmente agasalhados que estão compreendidos no campo de irradiação da personalidade. muitas das vezes só é perceptível a grandeza do seu valor pela própria vítima. na estima que cada um tem de seus atributos. a privacidade.A imagem. pressuposto de todos os direitos subjetivos. por este motivo. citando Urger. em nenhum momento podendo ser desprendida embora excepcionalmente admita a disponibilidade. A Lei nº 10. contudo. todos estes valores integram a personalidade. Na verdade. Não se pode medir. A honra. Na verdade. a sua dimensão é infinita para o seu titular (embora o direito tente delimitá-la). ficando os demais membros da comunidade com uma noção. É aquilo que mais devemos amar e cuidar em nós mesmos. considerada como direito subjetivo que se forma e prospera quando do nascimento e existência da pessoa humana.

tão-somente. opondo-se a situação de publicidade. sua reserva de vida (Bulos. conforme a síntese cirúrgica de Alan Westin (1967): "Who can know what he thinks and feels if he never has the opportunity to be alone with his thoughts and feelings?" A privacidade consiste em uma esfera de proteção dos interesses particulares do titular. quando entender que tal interferência possa comprometer a sua paz e a sua individualidade. consistente em atitudes ou pensamentos externados em momento de solidão ou em número muito reduzido de pessoas que gozam deespecial confiança. que detém o poder de repelir a ingerência desautorizada sobre seus interesses. leciona José Afonso da Silva. Danilo Doneda entende que o NCC no art. ao disciplinar o direito à privacidade. Consiste na esfera secreta da pessoa física. da CRFB A privacidade. 2003). 2002). termo derivado da palavra privado. Direito consagrado no art. Para a doutrina. teve como exclusivo destinatário. que a doutrina tradicional divide em objetiva e subjetiva. nos deparamos com a honra. 21. Por derradeiro. consistente no espaço e no tempo que cada um tem para ficar solitário ou na companhia de poucas pessoas. com quem compartilha suas idéias ou sentimentos.2 Privacidade: Vida Privada. é direito mais restrito. ou seja. Trata-se de campo subjetivo revestido pela idéia de confiança ou segredo. é o trato íntimo. maior a valorização da privacidade. A vida privada. como meio de organização das necessidades e prioridades pessoais. 5º. direito à vida privada é espécie do gênero direito à privacidade (Efing. integra a "vida interior". é o modo de viver abrangendo os membros da família e amigos. Ou. Intimidade e Honra . A primeira consiste na reputação que gozamos no meio social em que estamos inseridos. que cada um estabelece deforma a melhor atender aos seus interesses. Inciso X. atributo integrante da dignidade. A intimidade é um plus com relação a privacidade. é o que as pessoas pensam a respeito dos .Artigo 5º. a pessoa natural. Quanto maior a interação social qualificada pela dinâmica das comunicações. inciso X da CRFB.

" Todos estes direitos subsistem e prosperam na medida em que outros direitos são exercidos dentro dos seus devidos limites.337-8/RS. Benjamin (1998) discorre: . por refletirem em um complexo de relações patrimoniais voltadas ao lucro e à eficiência. ou habilitando o particular a celebrar contratos com pleno conhecimento de causa. Min. onde o uso da informática e a possibilidade de controle unificado das diversas atividades da pessoa. A Súmula 227 do STJ admite o dano moral perpetrado em face dos interesses de pessoa jurídica. estes exclusivos da pessoa humana. delimitando o tema e fixando os limites a serem considerados: "A inserção de dados pessoais do cidadão em bancos de informações tem se constituído em uma das preocupações do Estado moderno. retificálo ou cancelá-lo. Rel. é um conjunto de fatores em tudo diferentes do que seriam para a pessoa humana. como instrumento de perseguição política ou opressão econômica. a lesão à reputação importa em difamação. A honra subjetiva é o sentimento que cada um carrega consigo desuas qualidades pessoais. permitem o conhecimento de sua conduta pública e privada. portanto. até nos mínimos detalhes. também pode servir ao Estado ou ao particular." (STJ. E assim como o conjunto dessas informações pode ser usado para fins lícitos. sequer sabe da existência de tal atividade. Contudo. muitas vezes. o cidadão objeto dessa indiscriminada colheita de informações. O que é admitido pelo art.95) Em perfeita consonância com as novas exigências sociais e econômicas. porém.) A referência deste prejuízo." "A proteção dos interesses da pessoa jurídica através de direitos da personalidade. para alcançar fins contrários à moral ou ao direito. não se pode olvidar a ressalva alinhavada por Danilo Doneda nos seguintes termos: "(. ao mesmo tempo. na prevenção ou repressão de delitos.atributos de outras pessoas.. Neste sentido o Superior Tribunal de Justiça se pronunciou. e a tutela dos interesses da pessoa jurídica que apresentam semelhança com os direitos da personalidade deve ser cogitada suplementariamente e nas ocasiões em que não conflitem com os direitos da personalidade. podendo chegar à devassa de atos pessoais. invadindo área que deveria ficar restrita à sua intimidade. e é dentro deste ambiente que deve ser avaliado. públicos. nas múltiplas situações da vida. Antonio Herman V.. ou privados. Ruy Rosado de Aguiar. 52 do NCC em vista da abrangência de sua redação. DJU 20.04. ou não dispõe de eficazes meios para conhecer o seu resultado. REsp 22. é algo que não se adapta à trajetória e à função dos direitos da personalidade no ordenamento jurídico.

quando não incorretos.. A acumulação de informações sobre o consumidor." José Afonso da Silva pertinentemente acrescenta que: "O intenso desenvolvimento de complexa rede de fichários eletrônicos. impertinentes à sociedade de consumo ou à concessão creditícia."Os organismos privados ou públicos que armazenam informações sobre os consumidores necessitam. seja judicial." 3 Direito à Informação . seja administrativo. não deixa de ser uma invasão a sua privacidade." "A conseqüência imediata desta conduta invasiva dos repositórios de dados pessoais.conjugados aos benefícios acima mencionados . entre os quais se incluem os de consumo. da CRFB .são sem dúvida enormes. de controle rígido. O perigo é tão maior quanto mais a utilização da informática facilita a interconexão de fichários com a possibilidade de formar grandes bancos de dados que desvendem a vida dos indivíduos. O amplo sistema de informações computadorizadas gera um processo deesquadrinhamento das pessoas que ficam com sua individualidade inteiramente devassada. mediante remuneração ou não.. por mais singelas que sejam. sem sua autorização e até sem seu conhecimento. Incisos XIV e XXXIII. especialmente sobre dados pessoais." Na mesma linha de pensamento. constituem poderosa ameaça à privacidade das pessoas. assim. Antônio Carlos Efing é categórico ao consignar que: "A atuação dos arquivos de consumo vem cada vez mais cometendo atrocidades.Artigo 5º. é a afronta à privacidade dos cidadãos. O perigo aumenta quando se sabe que algumas ou muitas destas informações não são acuradas ou atualizadas. Os riscos para o consumidor . Tudo isso sob o pano de fundo de que o intuito de sua guarda é passá-las adiante às mãosde terceiros. no sentido de invadir a esfera íntima dos cidadãos através de lançamento de dados.

170) como método de desenvolvimento nacional (art. inciso II). 2002). como resultante da integração dos diferentes segmentos sociais econômicos e políticos. carreia para o transmissor da informação a prudência como critério preventivo. sem impedimentos. buscando o aprimoramento do seu diferencial como mecanismo assegurador da participação no mercado. O direito à procura de informações. Dentro desta realidade frenética de troca de informações. a despeito das mutações diárias da realidade que envolve a todos. Os meios de comunicação se aperfeiçoaram. ao assegurar ao cidadão o conhecimento da fonte como mecanismo identificador da origem dos dados divulgados. O discernimento e posicionamento. O inciso XIV. como forma de atenderem às novas exigências mercadológicas. 4 A Importância do Crédito e do Banco de Dados A CRFB consagrou a economia de mercado fundada na livre iniciativa (art. O inciso XXXIII exterioriza a participação política que os tempos exigem do cidadão. a CRFB preocupou-se em zelar pelo respeito do cidadão. como expressão de sua liberdade. direcionado para uma participação coletiva como expressão da democracia. O direito de o cidadão ser informado adequadamente sobre quaisquer fatos. todavia. compelindo cada indivíduo a uma atualização interminável. o sigilo profissional.A tecnologia contribuiu decisivamente para a difusão das informações que a cada minuto são repassadas com maior rapidez. 3º. sejam pessoais ou que estejam simplesmente no âmbito de seu interesse. exteriorizando o direito à informação como um direito fundamental a ser enfocado sob diferentes aspectos. capaz de evitar possíveis reparações. que deve ser conjugado com outros . Resguarda-se. só será possível se asseguradas informações completas e adequadas. Finalmente o direito de difundir informações (Efing.

É este o teor do art. como forte instrumento intensificador das relações sociais e econômicas. ao assegurar amplo acesso às informações de interesse coletivo. que munem os mais variados setores da economia de meios para alcançar os objetivos a que se destinam. 5º. o sistema de banco de dados nasceu da dificuldade encontrada por comerciantes em selecionar os consumidores merecedores de crédito. repercute nas relações comerciais e profissionais. destacando-se o Serasa Centralização de Serviços de Bancos S. Estes últimos exercem forte influência sobre a personalidade. 2002). através de controles eficientes capazes de estimular constantemente a realização de novos negócios. Neste sentido afirma-se que a intensificação dos negócios está diretamente relacionado com a proteção conferida ao crédito. e o Serviço de proteção ao Crédito do Brasil (Check-check)." Historicamente. outras empresas foram estruturadas tendo como seu objeto a prestação de informações pessoais de potenciais consumidores. inciso XIV da CRFB.valores como o respeito ao consumidor e a valorização do trabalho. O progresso e a expansão do comércio e da indústria são movidos por empréstimos. deflagrou-se a criação do banco de dados inicialmente por comerciante locais em julho de 1955 em Porto Alegre. há cerca de cinqüenta empresas no setor. As informações constituem-se em eficiente mecanismo capaz de impulsionar decisivamente o crédito. denominado Serviço de Proteção ao Crédito . passando a revestir-se de caráterde informação (Ferreira. Possibilita a crédito a própria existência da indústria e do comércio. capaz de despertar interesse na coletividade. Atualmente. vindo a adquirir uma conotação nacional em vista de uma central que absorve as informações regionais e as repassa em favor dos fornecedores credenciados. Pouco depois. A relevância do crédito com forte penetração nas diferentes esferas da economia. afastando os possíveis inadimplentes (Efing.A.SPC. Desta forma deve ser prestigiada. . Concomitantemente. Desta forma. iniciou-se a expansão para outros estados. É como se posiciona Arnaldo Rizzardo (2000): "Basicamente grande parte das atividades produtivas depende do crédito. 1997).

em vista da dinâmica da economia em constante crescimento. passando a se constituir em critério decisivo na concessão ou negativa do crédito. utilizando-se de divulgação de terceiros por motivos exclusivamente econômicos. Bessa (2003) destaca o Cadastro de Emitente de Cheques sem Fundos (CCF) de responsabilidade do Banco Central. repassa as informações a outras entidades de proteção ao crédito. é possível identificar quatro tipos básicos de poder: o econômico. DJ 08. em um primeiro momento. Tribunal Pleno. e o de Distribuição. Considerando este panorama. Leonardo R. O autor destaca o Cadastro Informativo de Crédito não Quitados do Setor Público Federal (Cadin). tecnológico e de informação. Antônio Carlos Efing define banco de dados nos seguintes termos: "sistema de coleta aleatória de informações. Dos quatro os arquivos de consumo ostentam três.No setor público. que dispõem de organização mediata.522/02. o tecnológico e o da informação. que tem como objetivo cadastrar dívidas não pagas. contribuir para o exame ." As informações armazenadas devem. ou seja. de forma a respeitar o disposto no art. Min. A penetração e solidez das entidades prestadoras de informações pessoais mereceu o pronunciamento do STF no seguinte sentido: "Os arquivos deconsumo são um dado inextirpável da economia fundada em relações massificadas de crédito" (ADIN 1. cujos credores são entidades integrantes da Administração Pública. que. Sepúlveda Pertence). j. Benjamin (1998) condensa esta nova realidade irretocavelmente com as seguintes linhas: "no mundo em que vivemos.04. por compreender um manancial de informações a respeito do consumidor potencial que pretende travar um novo negócio.00. 29 da Lei nº 9. disciplinado pela Lei nº 10.492/97.09. passaram a deter um poder de veto ao crédito. que foram criadas inicialmente com o intuito de prevenção. Os cartórios de protesto de títulos. através de convênios. também contribuem para os bancos de cadastro informando sobre o nome de pessoas detentoras de títulos protestados ou submetidos a ações em curso. normalmente arquivadas sem requerimento do consumidor. Antonio Herman V. tem um caráter claramente público. poder econômico. a atender necessidades latentes através de divulgação permanente de dados obrigatoriamente objetivos e não valorativos. 23. Tais entidades." O banco de dados. o militar.790-5/DF.98. ainda que possam ser mantidas por entidades públicas (Bacen/Cadin) ou privadas (SPC).

Contudo. visto concentrar as informações comerciais de consumidores potenciais. a transmissão do dado será prestada de forma restritiva. objetiva. permanecendo o poder decisório referente a concessão ou não do crédito com o fornecedor. cotidianamente explorada. conferindo margens a distorções e abusos (Efing. e apenas durante o tempo em que esta realidade perdurar. o que pode comprometer os princípios que devem nortear as relações que envolvem esta atividade. Estes são alguns critérios que. 2002). informando de forma clara. A maior segurança diminui o risco de inadimplência estimulando a circulação de bens e serviços. Ocorre que os limites desta intensa atividade. Sendo certo que não compreendem qualquer caráter vinculativo. por ocasião do uso do aparelhamento tecnológico utilizado modernamente como meio de armazenamento de grande acúmulo de dados a serem fornecidos em alta velocidade. sexuais. sem nuances. encontra limites bem definidos. que são . posto que foge à finalidade do banco.promovido pelo fornecedor do risco que envolve a operação. se observados. beneficiando concomitantemente o fornecedor e o consumidor. agilizando a concessão do crédito. Estas informações devem ser mantidas de forma cuidadosa. Tal método pode ocasionar erros nas qualidades das informações cadastradas. sociais. Este freio consiste na delimitação legislativa. Devem. O banco de dados que tanto serve para proteger o crédito. abstraindo questões étnicas. esclarecendo tãosomente a respeito de questões econômicas. que abrange um fantástico manancial de informações individuais. serem repassadas a pessoas credenciadas (fornecedor). pois supera o anonimato do consumidor. também deve submeter-se aos limites impostos pela Constituição Federal e legislação infraconstitucional. o que significa que deverão ser armazenadas apenas quando assegurada a veracidade da situação econômica que se pretende repassar. ainda. É induvidosa a relevância da informação transmitida. religiosas. para esclarecer uma certa negociação pendente. que visa compatibilizar com outros direitos. auxiliando-o ante a tomada de decisão. Deve-se ter especial cuidado. importam em invadir autorizadamente a individualidade de cada um. atendo-se aos aspectos exclusivamente econômicos da vida pessoal do consumidor.

como forma de preservação da individualidade.) ocorre que dois direitos igualmente fundamentais se enfrentam. sopesando-os. preleciona que: "é preciso partir da afirmação óbvia de que não se pode instituir um direito em favor de uma categoria de pessoas sem suprimir um direito de outras categorias de pessoas. procurando adequá-los. ainda que constitucional. de compatibilizá-lo dentro de certa realidade. Bessa.. é que confere à natureza humana especial importância. Norberto Bobbio. Não é possível a desconsideração de certo direito em face de outro de idêntica relevância jurídica. orienta-se em conformidade com o princípio da proporcionalidade de valores. É importante a . A consciência que cada um adquire de que é único. Na maioria das situações em que está em causa um direito do homem (. Trata-se sim. 51) Com este enfoque. podemos nos reportar aos direitos fundamentais concatenados na CRFB de forma a confrontá-los. não havendo sequer outro ser similar." (p. citado por Leonardo R. que em dada situação submete-se a ponderação. posto que integrante de personalidade humana. e não se pode proteger incondicionalmente um deles sem tornar o outro inoperante. inquirindo qual entre os direitos sob exame deve preponderar.. Esta é a posição doutrinária consagrada.igualmente de grande relevância jurídica. Ocorre que o direito. cabendo ao direito zelar pelas qualidades e direitos individuais. 5 A Relatividade dos Direitos Fundamentais É fundamental existir uma esfera protetiva da ingerência alheia.

5º. É efetivamente esta importância de valores que o direito protege e almeja compatibilizar com outros direitos.compatibilização dos direitos fundamentais com a realidade.portanto. teoricamente. ofensivas à honra dos devedores. A legislação específica consolidou a exigência dispensada no art. Ainda assim. com a sua lucidez habitual. teve a preocupação de conciliar as novas exigências econômicas com as conquistas fundamentais do indivíduo fortalecidas ao longo da história. sempre em consideração a premissa de que inexiste direitos absolutos. em virtude da ponderação de valores realizada pelo legislador. pois. regulada a contrário pelo CDC. que conferiu especial proteção ao destinatário final da relação de consumo. inciso XXXII da CFFB. Leonardo de R. disseminam diariamente milhares de informações negativas concernentes a dívidas vencidas e não pagas . sem que importe em desprestígio de certo direito. Bessa. portanto. 28 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. mas sim a atualização frente às novas exigências. novamente. não se pode desconsiderar a sagacidade da ressalva feita por Claudia Lima Marques nos seguintes termos: "Nosso alerta é." A defesa do consumidor como direito fundamental previsto no art. nos lembra que: "Os bancos de dados de proteção ao crédito. pela própria natureza da atividade que exercem. mas sim direitos preponderantes em dado contexto. de uma prática comercial perigosa e muitas vezes abusiva. o direito à honra sofre na hipótese restrição que será legítima apenas se forem atendidos rigorosamente diversos requisitos legais. instrumentalizada de forma eficiente com o advento da Lei nº 8.072. é um dos valores afetados quando não se observa todo procedimento que legitima as inscrições nos arquivos de consumo. A honra. apesar do grande e inegável avanço decorrente da vigência legislativa. Todavia. que impõe deveres e limites à possibilidade de manter. organizar e usar . no sentido de tratar-se em essência.

Posto que indenizar pela metade importa em carrear para o consumidor parte do dano decorrente da prática abusiva. em diferentes esferas das relações negociais. mais ainda. É neste o patamar fundamental que a reflexão deve se estabelecer. 2002). mas considerando o ganho auferido pelo fornecedor com a passividade dos outros consumidores potencialmente lesados pela reiterada prática comercial abusiva do fornecedor. Desta forma se estará alterando uma prática comercial importante. com reveses muitas das vezes de difícil reparação. o interesse público do comércio em geral. ao interesse público consistente na intensificação das relações comerciais e ao constitucional acesso à informação. sem que haja necessidade de se reportar ao remédio do habeas data. a sua exploração inescrupulosa causa igualmente enorme insegurança. Para que se evite o enriquecimento do consumidor. assegura-se o acesso a informação pessoal. deverá a aplicação da lei consumerista ser de tal ordem que pedagogicamente modifique as práticas existentes no mercado.estes bancos de dados deconsumo. afastando obstáculos capazes de inibir uma postura desarmada do consumidor. de maneira a superar possíveis erros. que tendo instrumentos protetivos se portam de maneira mais dinâmica na concessão do almejado crédito e o interesse privado de proteção aos direitos que integram a personalidade e devem. Uma proposta muito bem situada é a que Claudia Lima Marques discorre ao esclarecer que a composição dos prejuízos deve ser feita de forma proporcional e razoável. Ou seja. material ou moral. deverão ser ressarcidos e. pois expõe a individualidade e suas qualificações ao conhecimento público. Por outra matriz. Se esta prática causar dano aos consumidores. Faz-se necessário. a transcrição das palavras lapidares de Gustavo . quando não impossível. sem que se retire a função pedagógica capaz de modificar as práticas mercadológicas existentes." Trata-se de compatibilizar diferentes interesses. Reprimir a atividade consistente no acúmulo de informações econômicas é antes de tudo ilegal. defende a atuação vigorosa do Ministério Publico e das Associações de Defesa do Consumidor que devem voltar suas atividades no sentido da reparação integral. a compatibilização de diferentes interesses igualmente relevantes. cooperação e cuidado orienta no sentido de se facilitar ao máximo o acesso aos dados pessoais do consumidor. promovendo uma desautorizada invasão na vida de cada um. ser respeitados. pela sua coerência. O princípio da boa-fé que impõe o dever de lealdade. posto que tais providências atendem ao fim econômico. o que significará em avanço das relações de consumo (Marques.

que ensina: "A flexibilidade dos critérios. BENJAMIN. Código brasileiro de defesa do consumidor comentado pelos autores do anteprojeto. ed.). Danilo. São Paulo: Saraiva. necessariamente maleáveis. A parte geral do novo código Civil / Estudos na perspectiva civilconstitucional. DANTAS. São Paulo: Revista dos Tribunais.Tepedino. 1998. Antônio Herman V. DONEDA. parte geral. 2002. Rio de Janeiro: Renovar. Rio de Janeiro: Forense. 2003." 6 Referências Bibliográficas BESSA. como valores constitucionais primordiais e unificadores de todo o sistema. 1979. . em função das peculiaridades e das circunstâncias que envolvem cada caso. San Tiago. Uadi Lammêgo. ed. Gustavo Tepedino (coord. BULOS. O consumidor e os limites dos bancos de dados de proteção ao crédito. 5. 2003. 5. Programa de direito civil. Leonardo Roscoe. Constituição Federal anotada. deverá de toda sorte ter pontos de referência implacáveis: a dignidade humana e o respeito à personalidade decada indivíduo servem de guia. Rio de Janeiro: Rio.

. Arnaldo.. 1967. Direito constitucional. 2002. São Paulo: Atlas. Aluízio. direito à comunicação: direitos fundamentais na constituição brasileira. Curso de direito constitucional positivo. 5. RIZZARDO. Alexandre de. MARQUES.EFING. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. Contrato no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. José Afonso da. SLAIBI FILHO. Contrato de crédito bancário. ed. 2000. e ampl. atual. 4. Direito constitucional. São Paulo: Celso Bastos. Privacy and freedom. Nagib. São Paulo: Revista dos Tribunais. SILVA. 2000. ed. 1990. São Paulo: RT. 1992. 2004. Rio de Janeiro: Forense. Direito à informação. MORAES. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2002. Claudia Lima. 15-16. Antônio Carlos. ed. Alan F. WESTIN. Banco de dados e cadastro de consumidores. FERREIRA. New York: Atheneum. 7. rev.