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Problemas informáticos arrastam-se na justiça e desesperam funcionários e utentes
16.04.2008, Mariana Oliveira

O ministro da Justiça vai hoje ao Parlamento explicar as dificuldades informáticas comuns a todo o sector que tutela. Pelo retrato que o PÚBLICO aqui traça, terá muito para dizer

a É o sistema informático das conservatórias dos registos civis que está constantemente inoperacional, uma situação que se agravou na última semana. São os computadores obsoletos dos tribunais que demoram uma eternidade para abrir um e-mail com uma peça processual. São as demoras de horas e horas para conseguir uma certidão numa conservatória do registo predial. É negro o retrato da Justiça quanto ela se pinta através dos múltiplos sistemas informáticos, muitos deles incompatíveis entre si. As dificuldades desesperam funcionários e utentes, mas o Ministério da Justiça (MJ) responde com números às queixas de quem não consegue cumprir os objectivos devido às constantes falhas do sistema. "[Às 7h48] Estou desde as 6h55 a tentar informatizar um assento de nascimento sem o conseguir. Como conseguir cumprir os objectivos? Resido a 70 quilómetros do meu local de trabalho, pelo que me levantei às cinco da manhã na esperança de a esta hora o sistema funcionar melhor, mas não adianta e já não é a primeira vez. Assim não dá. Estou triste, muito triste", escreve um funcionário num e-mail a que o PÚBLICO teve acesso. O MJ não nega os problemas existentes nas diversas conservatórias (registo civil, comercial, predial, automóvel) e nos tribunais e justifica-os com um aumento de utilizadores. "No sector dos registos já foram emitidas mais de 572 mil certidões permanentes através da Internet, efectuadas mais de 852 mil publicações on-line de actos da vida das empresas e enviadas mais de 405 mil informações empresariais simplificadas, por via electrónica, em 2007", alega o ministério. E reconhece: "Esta disponibilização de novos serviços on-line e a utilização crescente dos sistemas provoca, por vezes, a necessidade da sua reformulação e redimensionamento. Por vezes, estas intervenções podem levar a alguma menor capacidade de resposta dos sistemas, que é necessária para serem realizadas as intervenções técnicas necessárias". "Perigo de ruptura" Para justificar o desespero dos trabalhadores, voltam os números. "Os funcionários das conservatórias têm utilizado, cada vez mais, os sistemas informáticos e os sistemas informáticos têm permitido esse aumento. No período de 10 de Março a 9 de Abril de 2008 foram praticados 247.433 assentos, o que significa um aumento de quase 80 mil actos" relativamente ao período entre 10 de Janeiro e 9 de Fevereiro. Mas a existência de problemas nos sistemas informáticos da Justiça não é nova. Em Fevereiro, o semanário Sol noticiava um excerto de um relatório do então presidente do Instituto das Tecnologias de Informação de Justiça (ITIJ), Mário Valente, onde este garantia que existia perigo de "ruptura durante o primeiro trimestre de 2008" dos servidores do ministério, caso não fossem "tomadas medidas urgentes". Já em Março, o Sol volta a noticiar um parecer do presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, José Tribolet, onde este sustenta que "nenhum dos actuais sistemas informáticos disponíveis na Justiça se adequa minimamente às exigências actuais de funcionamento". Tribolet fez o parecer a pedido do procurador-geral da República, Pinto Monteiro, que rejeita o alargamento do sistema usado pelos funcionários judiciais aos magistrados. Paulo Gonçalves, do Conselho Superior do Ministério Público, explica porquê: "O Habilus, o sistema usado nas secretarias dos tribunais, é um sistema antiquado que foi feito por dois funcionários judiciais há cinco ou seis anos numa lógica de desenrasca. Tem um processador de texto muito rudimentar que não se adequa às exigências dos procuradores". O presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, Fernando Jorge, queixa-se dos computadores obsoletos, da falta de uniformização dos sistemas e da quase ausência de formação.
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