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MAICON JHONATAN DADALT

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

A DEGRADAÇÃO HUMANA SOB A PERSPECTIVA
DE GABRIEL HONORÉ MARCEL

SANTOS – 2006

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MAICON JHONATAN DADALT
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

A DEGRADAÇÃO HUMANA SOB A PERSPECTIVA
DE GABRIEL HONORÉ MARCEL

Trabalho de Conclusão de
Curso
apresentado
como
exigência
parcial
para
a
obtenção do grau de Bacharel
em Filosofia à Universidade
Católica de Santos.
Orientador: Professor Ms. Fábio
Cardoso Maimone.

SANTOS – 2006

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MAICON JHONATAN DADALT
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

A DEGRADAÇÃO HUMANA SOB A PERSPECTIVA
DE GABRIEL HONORÉ MARCEL

Banca Examinadora:

_______________________________________
Prof. Ms. Fábio Cardoso Maimone

_______________________________________
Prof. Ms. João Vieira dos Santos Filho

SANTOS – 2006

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Dedico este trabalho a toda
minha família. Em especial a
minha mãe Ivonete Dalabrida
Dadalt ao meu pai Joecir Luis
Dadalt e ao meu tio Pe. Gelso
André Dadalt, que, de várias
formas, ajudaram-me a chegar
até aqui.

especialmente. somado à confiança de que labutarei por um belo porvir. ensinaram-me com tanto prazer e dedicação o amor ao saber. pelo seu apoio e ajuda que não têm me faltado até hoje. dedicou horas na ajuda para a elaboração deste trabalho. Enfim. especial e amada que é por todos os que o cercam e obtém o seu saber. Sabrina e Matheus que sempre estiveram presentes em minha vida. . Gelso pela forma com que me acolheu. e pelas graças que tem derramado sobre mim e a minha família. aos meus pais Ivonete. com muito amor. e pude descobrir um pouco da filosofia. Aos meus familiares. neste momento. aconselharam-me. paciência e método. Agradeço ao seminário diocesano São José e aos padres que lá estiveram nos dois últimos anos e meio que lá permaneci. de forma generosa e humilde. ajudando-me a chegar até aqui.5 AGRADECIMENTOS A Deus por permitir-me estar aqui. Também sou imensamente grato ao meu tio Pe. agradeço a todos de que de alguma forma apoiaram-me. Aos meus irmãos Dimi. Aos professores do curso de Filosofia do CCE da Unisantos que. Ao professor Fábio Maimone por ter aceitado ser meu orientador e que. Aos meus amigos de classe do curso de Filosofia que sempre estiveram comigo compartilhando suas experiências e seus aprendizados. pois aprendi mais sobre o valor de cada pessoa humana. e Joecir pela educação familiar e o gosto pelo estudo que me deram. Por tudo que estas pessoas fizeram para dar cabo ao meu labor meus sinceros e eternos agradecimentos. porque é detentor de grande inteligência e humilde por excelência. além de todo o amadurecimento que tive em um redescobrir-me. quando cheguei a Santos. acrescentando que ele continue a ser a pessoa amiga. e confesso que sem essa ajuda esse trabalho não teria tido o êxito que julgo que obtive. mesmo longe de mim nestes últimos quatro anos em que estou residindo tão longe de minha terra natal.

a partir da presença das técnicas de aviltamento em nossa sociedade e de como o filósofo deve se portar diante de tais atos. em que circunstâncias ela pode existir em nosso mundo. filósofo. A DEGRADAÇÃO HUMANA SOB A PERSPECTIVA DE GABRIEL HONORÉ MARCEL. segundo Marcel. . pois o que se percebe atualmente é uma coisificação do eu. Este trabalho busca analisar pela visão de Gabriel Marcel. como se dá a liberdade humana. crise. técnicas de aviltamento. valor. considerado por Marcel e quais as formas em que elas podem ser aplicadas e quem geralmente as aplica. 44p. a degradação humana. Palavras-chaves: Liberdade. encerramos a pesquisa ressaltando os problemas da modernidade que se agravam dia-a-dia e qual a atitude do filósofo perante este mundo. Universidade Católica de Santos. mundo. pessoa humana. Por fim.6 DADALT. procuramos averiguar. Maicon Jhonatan. em seu livro “O homem contra os homens”. Em seguida. Trabalho de Conclusão de Curso – UNISANTOS. 2005. conjuntamente discutimos o valor da pessoa humana. Inicialmente. discutimos sobre o conceito das técnicas de aviltamento.

..................................................................................................................12 CAPÍTULO 2 TÉCNICAS DE AVILTAMENTO.............................................39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO..............................21 CAPÍTULO 3 A CRISE DO MUNDO ATUAL E O PAPEL DO FILÓSOFO.................................................................................31 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................43 ...........................08 CAPÍTULO 1 A LIBERDADE E O VALOR DA PESSOA HUMANA..

. a pesquisa deteve-se no estudo da obra: Os homens contra o homem.8 INTRODUÇÃO O presente trabalho busca analisar a degradação humana na perspectiva de Gabriel Marcel. do referido autor. Para tal fundamentação.

Num segundo momento. onde um país depende do outro. entender por que escolhemos Gabriel Marcel para embasar nossos estudos. e era tratado como um objeto. a . Marcel presenciou estes acontecimentos e anunciou um grande avanço da degradação humana. Valorizamos cada um por sua unicidade? Ou simplesmente negociamos o homem. com método de análise dedutivo a partir de pesquisa qualitativa e bibliográfica. contra. Isso faz com que o pensamento de Marcel seja de grande importância para discutir o homem e seu estar no mundo de hoje. mas esta deve realizar-se no campo do real. para ele uma discussão acerca do homem pode e deve ser feita. principalmente. Tal como o mundo se apresenta para nós hoje. como podemos encontrar a liberdade do indivíduo? Ela pode existir? Marcel nos ajuda a pensar o valor da pessoa humana. sua unicidade. em um primeiro momento. um racionalismo que pretende reduzir toda a existência e toda a realidade à experiência conhecida através do método da verificação empírica. ou seja. fraterna e justa. No contexto de um mundo globalizado. se faz de grande importância. pois a técnica avançava e o seu mau uso poderia causar a destruição do homem. Por isso. onde se percebia um alto grau da degradação humana com as técnicas de aviltamento sendo aplicadas nos campos de concentração. tendo como explicitação do resultado. Ocorreram duas grandes guerras. pois o homem é um ser espacialmente localizado. a análise do pensamento de Marcel se faz extremamente atual para nos ajudar a elucidar tais questões e a caminhar para uma convivência mais humana. quando ela é usada para a manipulação. se apresentou semelhantemente na época de Marcel. convém que ressaltemos que a pesquisa realizada é de cunho teórico. Marcel também defende a singularidade e o valor de cada pessoa humana. principalmente. como negociamos uma compra ou venda de algum terreno? Tais questões serão discutidas e abordadas no decorrer de nossa pesquisa.9 Assim. O homem estava sendo substituído pela máquina. Marcel é um filósofo existencialista que apresenta uma filosofia concreta. onde cada ser humano possa mostrar seu devido valor.

o que acarretará a degradação humana. pretendemos por fim relacionar os processos de degradação. conceituado como “pessoa humana”. nada e nem as técnicas podem oferecer segurança à vida. o papel do filósofo diante de tais impasses da modernidade. ressaltando que. saber de suas limitações para conhecer até onde ele pode avançar. podemos observar uma clara desvalorização do mesmo. a partir da análise da obra anteriormente citada. pois a principal característica da mesma é a não determinação. o que dependerá da aplicação que os homens façam delas. procuraremos identificar. em primeiro lugar. No primeiro capítulo tratamos da liberdade e do valor da pessoa humana. Verificaremos que o filósofo deve. a liberdade humana pode se efetuar até mesmo em países totalitários. É nesse sentido que Marcel nos remete a discutir as técnicas de aviltamento. sobretudo na atualidade. para Marcel. pois esta se concretiza por uma ligação com o transcendente. Deste modo. O trabalho foi desenvolvido em três capítulos. pois. questionaremos se tais técnicas só existiram na história. procurando e identificando a responsabilidade e o papel do filósofo diante de tal crise. já no terceiro e último capítulo. Quanto à valorização do indivíduo. . A partir de tais ponderações. deixando claro que a situação do filósofo no mundo é complexa. ou se ainda são aplicadas hoje em dia.10 comunicação mediante texto monográfico. mediante o processo de desenvolvimento das técnicas de aviltamento. Constataremos que os avanços da modernidade e o aprimoramento das técnicas poderão ser eticamente corretos ou não. Avançando em nossa pesquisa. Em meio a isso. Levando-se em conta tal discussão. trataremos da crise que afeta toda a sociedade mundial. ou determinar algum veredicto sobre a realidade. quando nos damos conta do utilitarismo técnico que caracteriza a sociedade. este pode volver-se facilmente para qualquer pseudociência e praticar abertamente o aviltamento. que será objeto de nosso estudo no decorrer do segundo capítulo. Também ressaltaremos que o filósofo deve sentir a angústia do homem e ajudá-lo. segundo Marcel. com a crise do homem contemporâneo.

11 .

O que uma filosofia da abstração. aquela . no mundo. dicotomiza a relação entre o homem e a liberdade.12 CAPÍTULO 1 A LIBERDADE E O VALOR DA PESSOA HUMANA Gabriel Marcel. presente aqui e agora. um ser real. em sua obra: “Os homens contra o homem”. Trabalha o conceito de homem concreto. ou melhor. ou seja. histórico e espacialmente localizado.

vê-se. que está circunstancializado no aqui e no agora. reforça-se. procurou esquecer. significa fazer uma filosofia que esteja diretamente ligada a ele. Trabalhamos. Por conseguinte. Mas os fatos que podemos observar nos revelam algo assustador ou até temerário: o homem separou-se de Deus. mostrando.” (MARCEL. na verdade. então. é o mesmo que ter fé em um Deus justo. trabalhar o homem no concreto. poderão destruir uns aos outros. Ao discutir a agonia humana. Precisa-se. ele se encontra na agonia. Geralmente discutimos o homem só no nível abstrato e esquecemos da parte concreta. quando se percebe que o ser humano pode pôr um fim na própria existência. ainda mais.. que ele está no mundo e que seus atos influenciam também na vida de outras pessoas. 1984. e não quer reencontrá-lo. no sofrimento. e introduz uma segunda. necessariamente. Esta afirmação. não tem e nem é responsável por qualquer ação e. p. desta convivência. que o percebe no presente. o próprio do homem é estar em dada situação – o que certo humanismo abstrato corre sempre o perigo de esquecer. “o homem está na agonia”. Marcel utiliza o conceito de “Técnicas de aviltamento” que. que só é possível pensar em tais ações de degradação praticadas por homens que não só não compreendem a existência. uma anulação de si próprio. claramente. com suas ações inconseqüentes. segundo esta mesma afirmação. mas não praticarmos a justiça. pois está prestes a uma autodestruição. 15) Marcel também traz à tona a afirmação de Nietzsche de que “Deus está morto”. como um ser existente. Devemos compreender. Porque “. o que ressalta o “não sentido da vida” e o da “não existência”.. portanto. onde a coletividade é sobreposta ao indivíduo. ao menos. sozinhos. causam uma degradação a inúmeros indivíduos. Quando afirma que Deus está morto. Contudo. situação mais presente em países totalitários. supõe que ele deixou de existir. não seríamos nada. “o homem está na agonia”. porque os homens.13 operação intelectual onde existe o método que isola os generalismos teóricos dos problemas concretos. com uma filosofia que discute o homem em suas relações. isto é. mas que estão completamente fechados . o homem seria responsável pela morte de Deus. Quando se verificam essas técnicas. pois somos iguais e. que há necessidade de uma convivência igualitária.

ou governo. É lógico que não se pode dizer que Nietzsche tenha dito: “o homem está na agonia”.. ao menos. p. um aviltamento desses homens. Os nossos direitos terminam onde começam os dos outros. por chegarmos até aqui. Mas . já ligada a uma espécie de abuso prévio de que os homens eram culpados. seja esta qual for. ou seja. que o leva a perder o respeito próprio e pelos outros. mas uma afirmação que todos devemos ter ciência. pois qualquer indivíduo tem direito a ela. 1984. porque cada indivíduo é único. para. antes dessa discussão. esta liberdade também pressupõe uma relação entre os homens livres e os países livres. liberdade em países. como podemos discutir a liberdade humana se os indivíduos não puderem exercê-la em seus próprios países.. pois não somos seres isolados. temos o nosso valor de individualidade. mas também implica direitos e deveres de um indivíduo para com os outros. surge uma nova questão: que é um país livre? O conceito de liberdade é muito complexo. mas. mas é possível fazer tal afirmação quando se postula um abuso dos homens. sem conseguirem. estará submetido a situações de não-liberdade naquele lugar. Essa não é uma máxima qualquer. se eles não forem livres? Quando afirmamos a liberdade humana.14 em si. significa. p. em um país. agora. a liberdade torna-se um ponto chave. Por isso. pois todo indivíduo está submetido a uma autoridade. o que animal irracional algum poderia realizar e bastante questionável. Pois. podendo escolher entre uma ou outra ação.” (MARCEL. não sendo livre. impreterivelmente. nos perguntar se o grito nietzscheano não pressupunha uma situação concreta. decisão ou vontade. Assim cabe “. porque um indivíduo livre fará uso de sua liberdade com ou sem valores. O aviltamento é um processo de destruição do indivíduo. 1984. Um homem. 17) Diante disso. ter uma base de reflexão sobre os seus atos. 16) Mas toda essa discussão gira sobre um elemento importantíssimo: a liberdade humana. ter atos e atitudes de acordo com a nossa escolha. nos destruirmos. mas. Quer queiramos quer não. temos presente valores. de certa forma. Uma degradação deles próprios. “não conviria dizer que esta pergunta: Que é um homem livre? Só pode ter solução positiva em país também livre?” (MARCEL. levando-os as suas nulidades e à nulidade de Deus. vamos verificar a já citada.

em todos os graus. Recentemente. no mundo. Pois. o outro também é. pois o país acaba por limitá-la mais do que de fato ela já é. é evidente que num mundo como o nosso ela não pode existir. sua consciência reprova. essas pessoas nem sempre agirão de modo a favorecer o povo. esses mesmos legisladores . Nós até podemos agir por impulso. Pouco se importam com a opinião pública. pois um país. aliás. sabendo que esta nossa atitude acarretará conseqüências. a nossa liberdade é limitada. às vezes. Sabemos que muitas vezes elas tomarão atitudes de acordo com suas vontades e para favorecimento próprio.15 não devemos confundi-lo com o individualismo. foram responsáveis por um grande desvio de verbas de natureza pública. Estão preocupados somente com eles mesmos e com os que os cercam. seriam responsáveis para tornar o Brasil um país para todos. 17) Fica claro. independente do país. Afirma Marcel: Se a liberdade de um povo ou país se define como independência absoluta. tenhamos maior atenção. desse modo. mas. mostrou a todos o mais alto grau de impunidade contra os que desprezam a população. Tal relação requer que os países regrem-se de ações e se submetam a outras. Tratando-se de um país livre ou não. primordialmente. como exemplo. não só pela solidariedade econômica inevitável. Justamente por sermos únicos. Portanto. possivelmente. em todo e qualquer governo há uma ou mais pessoas que governam. que podem ser boas ou más. do exposto. tratando a coisa pública com verdadeiro desdém. Deste modo. p. De certa forma. os que. que a liberdade em absoluto não existe. pois a maioria de nossos legisladores. invariavelmente sempre está se relacionando com o outro. mesmo que essa relação favoreça mais uma parte do que a outra. já que consideram que o brasileiro esquece facilmente as coisas e. o nosso país que sofre constantemente com a corrupção. Temos. mas ainda mais pelo lugar que nele ocupa a extorsão. fazendo com que os indivíduos que habitam neles. a liberdade do indivíduo é regrada. e devemos valorizá-lo e respeitá-lo da mesma forma que nós nos respeitamos. qualquer indivíduo está não só dependente. como também forçado a realizar atos que. também o façam. (1984. todo e qualquer ato nosso terá conseqüências. com mais justiça social e isonomia entre as diversas camadas sociais.

julgando-se livres. postulamos. o Deus de Marcel não é objeto suscetível de demonstração objetiva (racionalismo) nem uma mera função (subjetivismo). afirmar ou negar. é uma liberdade limitada que se restringe sobre leis para um suposto melhor convívio. mas o “Indemonstrável Absoluto”. Como podem ter consciência tranqüila sabendo das brutalidades que seus atos acarretam sobre uma população desvalida? Só um fechamento em si. o amor e o ódio. Essas técnicas vão além de torturas físicas. outros de fome por desvios de verbas. Este é um dos mais altos graus de degradação de um poder público. invadem o eu do indivíduo confundindo-o e fazendo-o assumir crimes que não . porque.16 serão reeleitos nas eleições futuras. supostamente não poderia haver liberdade alguma. Tal ligação deixa o indivíduo livre de atos que venha a cometer contra a sua vontade e o anima. é possível encontrá-la. seria lógico supor que ela não existisse. o que se traduz no dilema persistente de sua essencial liberdade. seria possível para tal situação. deparamonos com técnicas de aviltamento. Por conseguinte. que consistem em fazer com que o indivíduo perca-se dentro de si próprio. O drama da existência humana é um encontro pessoal entre Deus e o eu e alterna entre o sim e o não. eles desfrutam a vida como se nada disso tivesse ligação com eles. Como já foi dito. o indivíduo no seu interior pode ter uma ligação com um “Ser Superior”. desde que haja uma espécie de estoicismo. enquanto milhões de brasileiros morrem em filas de hospitais. já é difícil falar de liberdade. por menor que possa parecer o grau de liberdade. a fidelidade e a infidelidade. esse homem terá de aceitar os acordos que outros homens. E ao homem é dado o poder único de decidir. então como falar dela em um país com regime totalitário? Ora. Na verdade é um abuso dos poderosos sobre o resto da população. ou as pessoas – que governam tal país – façam com outros países. Mais que em qualquer outro lugar. nos estados totalitários. criando – em um regime de opressão – um refúgio interior para o indivíduo. sustenta-o para superar esta situação. que implica uma veneração a algo maior. no caso. Assim sendo. onde. Porém. pois. Discutindo ainda a liberdade em países totalitários. se em países que se encontram em outros regimes não totalitários. do Legislativo. Por mais livre que esse país possa ser.

excitavam todas as invejas. 19) As ações de degradação são atos desumanos. É altamente desesperador saber que o homem pode causar com exímia crueldade um ato de degradação sobre o outro. ou se há uma recuperação. amassado em lama. o caminho pode ser ainda mais desesperador que a degradação mesma. Cair equivalia morrer. revelando os homens contra o homem.. uma coisa. quem o pratica já não pode ser chamado de homem. p. [. [. 61-62) (MARCEL. por quererem ter direito não só à vida do outro. mas um monstro ridículo. Exploravam todas as cobardias. ou seja.] Basta um pontapé que o faça cair na lama. nos nossos excrementos. completamente. como diz Marcel: O caráter das referidas técnicas de aviltamento consiste precisamente em fazer o indivíduo perder contato consigo mesmo. Jacqueline Richet a propósito de Ravensbruck. tinham querido rebaixar. 1984. (Vingt móis à Auschwitz. além de ferir o indivíduo – algo que é considerado invasão do limite alheio. um testemunho de alguém que sofreu em um campo de concentração nazista: Os alemães. e até acusar-se sinceramente de outros que não cometeu..17 cometeu. talvez porque demônio seja a palavra mais próxima. Vejamos. Só um esforço de cada dia mantinha a integridade moral. O que se levanta já não é um ser humano. Cada lembrança desse tipo de vivência pode atingir mais e mais a pessoa aviltada. assim.] Tinham-nos condenado a morrer no nosso próprio lodaçal. mas à manipulação dela. calcar-nos até o nível de animal feroz. Somente manipulação psicológica poderia causar tal estrago. pp. inspirar-nos horror e desprezo de nós mesmos e de quantos nos cercavam. Cabe a . sua dignidade. São atos que superariam o título de crime. ação reprovável – têm a pretensão de ser Deus. restando apenas um animal. o valor da pessoa. o mais alto grau de degradação humana. O verniz civilizado estala rapidamente e vêem-se mulheres de sociedade não serem as últimas a portar-se como regateiras. p. (1984. 41) Tentemos imaginar como pode ser possível tal situação.. Quem sofre essa degradação jamais se recupera. Porque. um ser humano degradando o outro. pô-lo literalmente fora de si a ponto de poder renegar sinceramente atos a que se dera sem reserva. mostrando. suscitavam todos as ódios. escreve M. perdendo. tentavam enviltecer-nos por todos os meios. humilhar em nós a dignidade humana. a título de exemplo. dado que homem algum tem esse direito. a afogar-nos na lama..

42) Usa-se a técnica de aviltamento para ter um indivíduo a nossa mercê. Quem sabe seja para que possamos nos postular como Deus? Porque. voltar contra os Alemães o miserável modo de argumentação de que eles próprios abusaram tão lastimavelmente. não tem mais chance alguma de reencontrar Deus. pois já perdeu por completo a noção do outro. Será que isso não nos faz perdermos ou não querer ver o verdadeiro valor da nossa ação? “Além disso. p. é difícil dizer qual a espécie dele. porque seria deplorável. é afirmar que este indivíduo. 44) É difícil dizer o que leva o ser humano a aplicar tais técnicas. tudo leva a crer que o homem que aperfeiçoou e é mestre em técnica de aviltamento sente ao aplicá-la um gozo comparável ao do sacrilégio. p. . também. pois a solidariedade pode dar abertura a possíveis rebeliões. até mesmo por aqueles que sofreram com elas. somos o senhor. que esses agentes estavam longe de ser todos de raça alemã. (1984. com a precípua finalidade de evitar que os presos mantivessem comunicação ou confiassem neles mesmos. porém. e parece que tudo isso gera um prazer. está perdido e fechado dentro de si.” (MARCEL. e saber se ele o faz inconsciente ou acha-se consciente perante elas. entretanto. Também aqui a explicação racista é absolutamente insuficiente. 1984. Demais. Devemos alegrar-nos com isso. para ressaltar um sentimento de superioridade própria. o outro como coisa? Ademais. tão estupidamente. encontrar um prazer ou uma saída para meu desencontro na degradação do outro. mas não parece ser por racismo. Temos uma problemática: o que justificaria tais atos? Seria por segurança. Mas como pode? O que leva esse indivíduo a tal ponto? Parecenos que muitos aderiram às técnicas de aviltamento. parece-me. Os que foram degradados. que degrada. já que estamos perdidos e fechados. É grande a possibilidade que essas técnicas sejam dissipadas cada vez mais e aplicadas. sabe-se pelos que escaparam. as brutalidades nazistas eram conscientes? As pessoas sabiam o que faziam? Imaginar que um humano degrade o outro conscientemente. E que mediocridade.18 pergunta: por que estamos tratando. cada vez mais. Coloca Marcel: Mas espanta-nos pensar nos inumeráveis agentes de execução necessários para realizá-lo. Esta resposta pode parecer insuficiente.

este ato se perpetua no tempo. como produto. reencontram o caminho de volta e o máximo que podem fazer é o que sofreram (ninguém pode dar o que não tem). e se o jogo das vicissitudes históricas puser um dia à sua discrição os perseguidores da véspera. p. com o tempo há grande probabilidade de contaminação das próprias vítimas. que decide interromper está espécie de círculo infernal de represálias e contra-represálias. gerando um processo cíclico de degradação. caminhamos por identificar o homem como coisa.. tratará o outro da mesma maneira. porque. espera o próximo ano para que também possa fazê-lo. Entendemos que. é mais difícil encontrar essa graça. A única chance de evitar isso é a graça.” (MARCEL. tanto para não dissiparem e não cometerem. reforçando o já mencionado processo cíclico de degradação. Temos. Frisa-se “. p. Quem o sofre. assim. com a tendência materialista. afirmar a singularidade de cada um. 20) Marcel segue buscando uma saída para essa tendência materialista. e. os trotes aplicados em universidades. ficar alerta. Devemos.. um homem possa se sobrepor aos outros. (1984. presente na modernidade. com fito de dar clareza sobre o valor da pessoa humana e que. quando diz: Além disso. para quem sofre tal ação. repudiar qualquer tentativa de opressão. cada vez mais. passível das teorias elaboradas por uma psicologia de essência materialista. é manifesto que. . elas serão tentadas a tratá-los como tinha sido tratadas. Mas deve reconhecer-se que em um mundo onde se generaliza a prática das técnicas de aviltamento. Trocamos o valor da pessoa humana com sua individualidade e singularidade pelo valor de utilidade negociável. proclamar a vida acima de tudo. Marcel bem sintetiza essa contaminação. pois uma pessoa que é tratada pelo seu valor de utilidade ou inutilidade. Perdão esse que deve ser considerado como uma graça. o mais breve possível. 1984. o coletivismo. como exemplo. esse ato de ruptura é cada vez mais improvável. Talvez nenhum caso a ação da graça seja tão claramente discernível como no ato de um ser livre.19 dificilmente. pois necessita da superação. Essa situação tende a piorar cada vez mais. que se realizam ano a ano. atribuindo um valor referente a sua utilidade à sociedade. mas lutarem contra a dita degradação. que um homem modelado segundo certo tipo parece reduzir-se progressivamente a uma coisa psíquica. A autêntica recuperação se dá pelo perdão. 45-46) Fica mais agravado. jamais.

p. existem também aqueles que lutam contra ela. quem sabe neste dia. de que estão no mundo e que podem contribuir para que ele avance igualmente para todos. a ação de cada um seja digna de uma verdadeira existência.20 cuidar para que não nos deixemos corromper. não venhamos a fazer o mesmo com os outros. que está degradada. . Afirma Marcel: Um homem não pode ser ou permanecer livre senão na medida da sua ligação com o transcendente. Apesar de olharmos para esta sociedade. Podemos. conceber Deus como nosso guia. para que. uma ligação com o transcendente. seja ela qual for. É de suma importância termos em mente. que esteja no âmago de cada um. contanto que isso nos permita ter um contato contínuo e claro de nossos atos. e quase entrarmos em desespero. caso submetido à alguma situação. mas algo íntimo. seja qual for à forma dessa ligação: porque é de plena evidência que ela não se reduz necessariamente a modos de prece homologados e canônicos. (1984. e apesar de muitos seguirem nesta degradação. Se todos tiverem consciência de sua existência. assim. devemos lembrar de que cada um é um. 23) Não precisa ser uma ligação com uma instituição. e isso pode evitar nosso desespero. ou com afirmações de indivíduos que se acham no direito de serem responsáveis por tais ligações. como única forma de permanecermos livres.

digo Ser . que a crise do homem ocidental é de natureza metafísica. Este fechamento ocorre quando não há uma ligação com o Ser. pois o indivíduo está fechando-se cada vez mais em si.21 CAPÍTULO 2 TÉCNICAS DE AVILTAMENTO Podemos dizer. a princípio.

Este espaço que nos é dado. há um certo acordo. porém muito rígida que vem ao longo dos tempos e que deve progredir. isto nos faz acreditar em uma organização. “de modo geral. pode-se dizer. depois dos terríveis acontecimentos que devastaram o nosso mundo. e degradando a pessoa humana. não ficar imóvel como já está. como situações distantes de nós. Porém. daqui alguns anos estes fatos simplesmente estarão nos livros de História. Ressaltando a questão da crise. ou seja: não sabemos ao certo o sentido das coisas. bastaria o exercício da mudança. vive uma certa e aparente tranqüilidade. Simplesmente o indivíduo isola-se por completo. Diz Marcel: “nunca será demais acentuá-lo.” (MARCEL. permite-nos fazer um exame de consciência. julgo indispensável uma espécie de balanço humano. tanto para os países que estão em paz. p. os outros. faríamos um grande progresso. todavia. em um curto espaço de tempo. de modo geral. 1984. 35) Assim sendo. O problema consiste. p. não estipulando a necessidade de alguma religião para essa ligação.22 referindo-me a um Criador. o porquê disso. não detentor de uma paz total. 1984. entretanto sempre repetindo esses mesmos acontecimentos. como se jamais tivéssemos passado por isso. daquilo. Coloca Marcel: . pois já teríamos a consciência do que fazemos. pois muitos países insistem em querer guerrear uns com outros. esta pode ser considerada a partir de supostas organizações sociais a que estamos ligados constantemente. melhorar. quanto para aqueles que se acham em conflitos. Não exporemos aqui os motivos de tais conflitos. e às vezes até de maneira mais cruel? Se respondêssemos a essas perguntas. nós. onde o mundo. 35) Se deixarmos o tempo prosseguir. Perguntaremos então: não aprendemos nada com os acontecimentos do passado? Sempre os repetimos.”(MARCEL. que usamos a História e principalmente os livros de História para relatar fatos acontecidos sem o menor sentimento e envolvimento. Não que isso justifique uma inércia em atitudes para uma reforma geral. Neste espaço. que se apresentam a partir da devastação da pessoa e do mundo do qual ela faz parte. talvez de curta duração. Para isso convirá aproveitar a trégua atual. devemos fazer um estudo reflexivo de diversos acontecimentos. a crise do homem ocidental é uma crise metafísica. dado que são vários e variam de caso para caso. Pois.

de si próprio. Surpreende-nos muitas vezes a singular incapacidade dos homens para aproveitar as lições do passado. . p. p. Escreve Marcel: Penso que ao filósofo digno de sua missão incumbiria combater diretamente as forças sub-reptícias que tendem à neutralização do passado e pela sua ação conjugada suscitam o que chamarei insularização temporal do homem contemporâneo. qual o seu limite. (1984. por conseguinte. para que as nossas decisões no futuro sejam as melhores possíveis. entendo por técnicas de aviltamento processos intencionais para atacar e destruir em indivíduos de categoria determinada o respeito de si mesmos. transformando-os pouco a pouco em resíduo que se considera tal e só pode desesperar não só intelectualmente. 36) Apresenta-se. de maneira que procuremos aprender com ela. Porém. de perder o contacto real com o acontecimento. ou de um lado ou de outro. Afirma Marcel: Em sentido restrito. (1984. pois. convencer um indivíduo a assumir uma posição. ela está induzindo-o. 39) Podemos nos perguntar até onde pode haver técnicas de aviltamentos. p. fazendo com que se perca dentro de si próprio. já que o processo de induzir implica em invadir o eu do indivíduo. transformando-se em um monstro que vê seu próprio irmão como inimigo. podemos identificar um grau de parentesco. (1984. ela está por cima do dinheiro. quando ela pretende seduzir. Sendo que a posição da propaganda não precisa ser eticamente correta. técnicas essas que consistem em destruir completamente o indivíduo. O filósofo é um crítico que denúncia às ideologias que se traduzem na perspectiva de técnicas de aviltamento. aliás. também ficaram só na História. pois. A propaganda invade o indivíduo e força-o a uma posição. uma atividade para o filósofo. Então. e se a propaganda pode ser considerada uma técnica de aviltamento? Não sabemos ao certo. mas até vitalmente. quanto à propaganda. ou se prefere. que assim fica reduzido a simples menção abstrata. deixando-os sempre à vista e lembrando que passamos por tal situação.23 Isto significa que em sentido profundo a história é uma maneira de esquecer. ela pode defender uma causa injusta. o de fazer com que estes fatos não fiquem só na memória. 37) Pode-se afirmar que as técnicas de aviltamento.

que mesmo vista deste ângulo. 97-98) Também temos a rádio. Por me ostentar assim. tão orgulhoso de não ser eu. nem se quer nos ocorreria que pudesse vir a tê-lo. peço que meu nome retifiquem. seja tomado assim. da vitrine me tiram recolocam. que perde a sua identidade. objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos. p. causando assim. Pode-se dizer que a propaganda se reduzia aos meios de persuasão empregados para conquistar aderentes a uma empresa ou partido determinado. meu novo nome é coisa. 46) Podemos citar o poema “Eu. 1984. a princípio. sou tecido. “Importaria agora mostrar como o progresso da técnica em geral favoreceu está manipulação. Eu sou a coisa. o indivíduo a uma posição injusta. uma idéia boa. Consideremos. Já não me convém o título de homem. e corrompendo o indivíduo. (1987. Então. seria ilógico querermos voltar no tempo ou mesmo regrar-nos dos avanços que temos. p. mas artigo industrial. É . que nos aparece com uma imensa colaboração de propagar uma idéia. coisamente. por uma degradação que vá gradativamente distorcendo a idéia primeira. sou gravado de forma universal. esta também pode servir as técnicas de aviltamento. difusão de suas vontades e desejos egoísticos e maléficos. não no sentido absoluto do termo. há que reconhecer entre umas e outras íntimo parentesco. Diz Marcel: Embora a propaganda não possa classificar-se globalmente entre as técnicas de aviltamento. (1984. não de casa. ela pode transmitir uma mensagem de paz ou de guerra. 49-50) Que nós avançamos e progredimos isto é um fato. mas para isso é necessário ter da propaganda uma idéia distinta. e especialmente por em relevo o papel prodigioso do rádio. p. etiqueta” de Carlos Drummond de Andrade. Temos aí uma contribuição da rádio para a degradação humana. a propaganda é essencialmente corruptível (e também corruptora). entre as marcas que usa e propaga: Hoje sou costurado. porém no decorrer do tempo a pessoa sente que pela rádio pode superar alguns limites humanos. Era uma propaganda pró. estando ela a ser difundida na rádio. Muitos de nós conheceram um tempo em que a propaganda tinha uma existência simultaneamente relativa e subordinada.” (MARCEL. pois. É certo. saio da estamparia.24 forçando assim. Porém. tarifados. onde ele retrata claramente a coisificacão do homem.

(Marcel. Se não construímos nada. não tenha. sempre somos favorecidos pelas construções alheias. com a técnica – pelo menos teoricamente – temos segurança. 1984. Eis um autêntico paradoxo! Coloca Marcel: Não quer isto dizer que se regresse no curso da história e devam quebrar-se as máquinas. Seria até mais exato dizer que em rigor uma técnica em si mesma é boa. como disse profundamente Bérgson. mas prováveis sobre aquele que. esse nos parece ser seu principal uso. Devemos ter ciência de que quanto mais tecnicamente avançamos e descobrimos. mas é o nosso uso e os beneficiários desse uso que fazem com que ela cause mal. Mas a questão consiste em saber quais as reações da técnica. p. não tendo contribuído em coisa alguma para inventá-la. acabamos por fazer uso demasiado delas. Se quando dispomos de um bem material e nos tornamos escravos dele. do outro a ausência do bem-estar social. abordado a questão da televisão. ou quem sabe . Fica claro. aí está o mal da técnica. que todo o progresso técnico deveria equilibrar-se por uma espécie de conquista interior. eis mais um mal da técnica. orientada para autodomínio cada vez maior. Gabriel Marcel. fica sendo beneficiário. sabemos que ela é outro produto da técnica e que pode ter seu uso para beneficiar ou massificar. que o maior mal não está na técnica. 52-53) Acontece que. não talvez fatais. podermos ligar para a nossa família quando estivermos distante. tanto mais difícil é termos liberdade e desapego a estas mesmas descobertas. 51) Acabamos por observar que a técnica não é ruim por si mesma. de um lado temos a evolução científica. e nem sempre de forma positiva. ou seja. por incarnar certa potência autêntica da razão. Estamos diante de um impasse. mas apenas.25 muito bom termos um remédio para a nossa dor de cabeça. conquista essa que nos permita conhecer cada vez mais e dominar-mos para que nós não viremos escravos das coisas que possuímos. mas em nós que somos beneficiados por ela. mas toda esta evolução deve ser feita com uma conquista interior. portanto. ou por introduzir na desordem aparente das coisas um princípio de inteligibilidade. Embora. os acontecimentos do mundo são imprevisíveis. Porque ela é um grande instrumento ideológico. (1984. não podemos afirmar com certeza se amanhã irá chover ou não. em limites históricos. p.

À medida que tornamos a vida mais técnica. a experiência parece mostrar que. se ela não tiver sentido. muitas vezes nos achamos no direito de eliminar a existência de outros seres humanos. em certo sentido. nos dias de hoje. nós atribuímos um a ela. p. como e quando morreremos. Poderia até perguntar-se se o homem da técnica não acaba por considerar a vida mesma como técnica imperfeita. nos leva a tal conceituação. quando exercida em beneficio de uma humanidade unificada ou melhor em acordo. Seria insensato considerar a técnica em si como pecado. acessível para todos. e o resto vem por acréscimo. pois achamos que ela não tem sentido. quando ao serviço de uma atividade espiritual dirigida para fins superiores. com os produtos dela. desde que a preocupação de segurança domina a vida. porém. pois este é o desvio da técnica. Lembremos que esta palavra não é de uso restrito aos pregadores. Assim como ao nível do indivíduo a técnica seria totalmente benéfica. em maldição. simplesmente não moveríamos um dedo e o conformismo tomaria conta de todos nós. Por conseqüência. vamos sentindo uma certa segurança. Com isso. em suma. a desvitalizar-se. Mas isso não acontece. o problema está que essa segurança desvitaliza a vida. (1984. 56) A técnica é para ser benéfica tanto para o indivíduo quanto para o mundo. colaborar com a qualidade de vida. como alguns crêem ingenuamente. através de práticas como a do aborto. assim no plano internacional seria dom inestimável. mas por outro lado. uma como fatalidade ininteligível.26 teremos uma tempestade. a reconcentrar-se. p. a técnica transforma-se evidentemente em maldição. muito pelo contrário. É como se tentássemos superar o próprio Criador com tais ações. Afirma Marcel: Certamente o escândalo de que falei a pouco é incontestável. 55) Acabamos por aviltar a própria vida. está tende a reduzir-se. A vida acaba por reduzir-se por completo. onde o mau acabamento fosse regra. Se nascêssemos sabendo exatamente o que irá acontecer. transforma-se. como . Não é. mas o uso dela. Podemos que ela se estabelece como pecado. (1984. Como isso não sucede em um nem outro caso. Estabelece Marcel: É a noção mesmo da vida que se avilta. e na pior das hipóteses. esta técnica favorece a desigualdade. sabemos o que acontece e porque está acontecendo. já com a técnica.

seria lógico afirmar. fechada. como fica o tecido moral? Digo. ou se ilude. ou está isolado em si. tecido no sentido de ligações. O homem então se vangloria de não crer em nada. crendo na própria criação. e como pode uma pessoa não se interessar por nada? Viver então para quê? Torna-se interessante imaginar o viver desta pessoa. 57) Podemos. pois não existe abertura para o outro. assim. mas o resgate do que em linguagem pouco familiar aos técnicos deve chamar-se simplesmente de pecado. e talvez seja essa transformação psicológica do visceral que culmina no contentamento ou descontentamento de si. Acabamos por concluir que uma civilização técnica que rejeita qualquer tipo de contemplação e que. e esta atenção restrita. é homem sem ligações. Interessar-se por um ser é ter com esse ser elos vitais.27 um ciclone ou uma epidemia de cólera. também limita os passos de . Tal existência é impensável. Que será então do tecido moral? (. 1984. mas a crença em outrem. que nada tem de realmente valoroso. o homem que nada crê. a quem nada interessa. Se não cremos no próximo como poderei crer em Deus? Este homem esta mais ou menos contente ou descontente. pode dar atenção somente a si-mesmo. em última análise. as suas sensações. uma critica ao niilismo existencialista: Só verdadeiramente cremos o que tem interesse para nós. p. Coloca Marcel: Resta saber que será feito das ligações onde desapareceu não só a crença plena. faz com que se isole. tornando-o um idolatra..) Que é o tecido de um homem que nada crê? A que da atenção? Digo cruamente: a si mesmo. p. é impossível. depois que não existe mais essa crença.. que o homem que em nada crê. Esse homem não pode existir. Também fica difícil imaginar a existência de pessoas que em nada crêem. Mas que é este si-mesmo? Antes de mais. claramente dizer. à medida que passa o tempo e as suas sensações mudam. (1984. a crença em Deus. pois seria um homem que por nada se interessa. (MARCEL. 1984. 59) Portando. O autor estabelece. talvez pudesse até dizer-se a crença na vida. porém adora a sua criação como a um “deus”. p. que a técnica expõe o homem. 58) Devemos averiguar. Podemos dizer que um homem que em nada crê. (MARCEL. pois ele atribuí um valor aos seus êxitos.

pois um saber que se fecha em si não é saber. para alumiar o caminho percorrido e preparar conclusões que vão impor-se nos. ou encontrar a graça (o amor de Deus). conseqüentemente.. “É fácil ver que o recurso a técnicas só é possível em mundo onde os valores universais são calcados aos pés. 60) Se reduzirmos o nosso conhecimento humano a um único saber. p. o degradamos e o reduzimos ao nada. esquecendo-nos do valor do outro. a não ser que e reduza a não sei que palhaçada escarninha. pois tendo valores. Até para os pessimistas de grande linhagem há pelo menos uma coisa seria. não . Devemos considerar que. mas esse verdictum não exige transcendência. p.” (MARCEL. 61) Fica claro. implica justamente o espírito de seriedade.28 cada um. p. causando-lhe muito mal. acaba por reduzir o conhecimento humano. para encontrarmos a autenticidade de tais valores. e é o veredictum que o sábio ou o santo se vêem forcados a proferir sobre um mundo de ilusão e de loucura. encaminha-se inevitavelmente para uma filosofia que melhor deveria chamar-se misosofia. tomando a palavra em uma acepção que Sartre e os seus amigos me parece recusarem? (MARCEL. de cada individuo. Por exemplo: quando estamos diante de uma ação. Pois em uma sociedade onde não existe Deus e o conhecimento é fechado. Porém.. mas um dogma que se estabelece como verdade. 1984. Esta restauração nos permitirá uma possibilidade de avanço sobre as técnicas. objeto de sua “graça”. que quando nos negamos a compreender o homem como criatura de Deus. que uma civilização onde a técnica tende a expandir-se progressivamente do conhecimento especulativo e finalmente a pô-lo em discussão. 1984. alguns valores. 60) O princípio básico para uma saída das técnicas é restaurarmos. estaremos diante de um mundo ilusório. se ela implica em um veredicto. este estará em um único saber. (1984. este ‘‘saber’’ poderá ser chamado de saber? Acreditamos que não. Mas como pode haver tal seriedade. e um veredicto nesta situação não passaria de ilusão? Ora a sabedoria. Afirma Marcel: Observemos. também é necessário um encontro com o transcendente. pois a sabedoria implica em seriedade. delimitado. uma civilização onde se rejeita toda possibilidade de contemplação. com propriedade. voltaremos a considerar o valor individual de cada pessoa humana.

29 percebemos o mal que podemos causar-lhe. Diz Marcel: Em linguagem diferente. com efeito. tratada como objeto e coisificada pelas ações de uma minoria “degradadora”. tratando-o como um ser inferior. Essa verdade é vendida como um produto da técnica. que essa solidariedade se estabeleça cada vez mais entre sub-homens. eliminam a “pessoa humana” através de vários instrumentos de violência. então a existência passa a ter sentido autêntico. e se nos percebemos como criaturas de Deus. p. seres progressivamente tendentes a reduzir-se à própria função. com uma margem reservada a divertimentos onde a imaginação terá cada vez menor parte. isto é. todos têm o direito dela da mesma maneira. A medida para todas as coisas deve ser Deus. mas esta é uma solidariedade sub-humana (robotizada). Diz Marcel: É de recear. tem apenas uma função. mas homóloga. talvez pudesse até dizer-se simplesmente como um ser criado. o que de fato há é a degradação da pessoa. 65-66) Infelizmente. Todavia. (1984. 62) É obvio que não devemos distorcer a verdade. Claro que o maquiavelismo implica um desmentido a reivindicação eterna de Sócrates e de toda a sua posterioridade filosófica. Podem perguntar: como Deus pode ser a medida para todas as coisas? Deus dá a vida. p. p. É o que acontece nos atentados terroristas. onde a verdade é distorcida e desvalorizada. Coloca Marcel: Mas que é a verdade? Pergunta com a ironia mais insultante aquele que é mestre na arte de modelar a opinião na sua vontade. isto seria uma manipulação intencional. pois este homem encontra-se como produto da técnica. usada a favor de uns poucos que procuram impor as suas vontades sobre uma massa. É parte do problema a . e não o eu. se deixamos de lado a vontade egoísta. por meio de um conflito extremo. nos dias de hoje. 64) Podemos até achar que o homem encontra uma solidariedade na técnica. trazê-la para um relativismo e usando-a para as nossas vontades. finitos e abertos ao mundo. (1984. (1984. um objeto que pode ser facilmente substituído. podemos dizer que essas técnicas abomináveis só podem exercer-se quando deliberadamente nos recusamos a olhar o homem como criado à imagem de Deus. nas guerras que.

p. naturalmente. como vimos. (MARCEL. de que cada vez mais isto tende a estabelecer-se. perde também a ligação com o transcendente. 67-68). tendo perdido no sentido mais profundo a consciência de si. Mas o que importa saber é que o homem da técnica. esta cada vez mais desarmado perante as forças destruidoras desencadeadas em torno e perante as cumplicidades que elas encontram no fundo de si mesmos. antes de tudo. 66) O homem da técnica quando perde a consciência de si. a possibilidade de acordar é mais remota. . hoje à disposição de todos os charlatães para imporem o seu electúario aos papalvos. visto que a cada segundo que passa. (1984. sem a ligação transcendental. a impostura tende a proliferar como vegetação parasita.30 tendência de proliferação.p. 1984. à sombra dos meios técnicos. pois estando assim manipulado. das regulações transcendentes que lhe permitem referenciar o seu proceder ou intenções. o problema cresce. Afirma Marcel: Como em tal mundo o domínio da verdade é cada vez mais desapreciado e desertado. isto é. a reflexão sobre seus próprios atos é quase impossível.

foi aclamada por trazer a salvação para a humanidade. a razão que é capaz de prever quando um cometa irá passar pela Terra. a crise da modernidade. ou permitir a cura de novas doenças.31 CAPÍTULO 3 A CRISE DO MUNDO ATUAL E O PAPEL DO FILÓSOFO Atualmente estamos vivendo e enfrentando uma crise. com suas inúmeras descobertas. com as .

A nível ético. quanto mais para a sua família. a paz e a igualdade entre as nações e o desenvolvimento dos povos não se concretizaram. de que com um outro ser humano. que funciona ou não. devem ser estudadas seriamente. concreta e factual.32 suas promessas de modernização. porém o preço pago foi muito alto. o aborto. . a dor e o sofrimento fazem parte da vida da maioria dos habitantes do nosso planeta. que não é capaz nem de comprar sustento para si. E nós estamos percebendo isso de forma dura. As guerras civis que tomam conta do mundo. e levaram a vida de milhares de inocentes. a indústria cultural que massifica e aliena os homens. Avançamos muito. que lida. Em outras palavras. o desenvolvimento científico não está sendo acompanhado pelo bem estar social. pois milhões de pessoas passam fome no mundo todo. Estamos em meio a uma sociedade materialista e tecnicista que busca saciar-se no imediatismo. O racionalismo considera que só é conhecimento verdadeiro aquele que é universalmente válido ou logicamente necessário. embora o racionalismo irmanado do tecnicismo tenha alcançado enorme progresso. isto é. o progresso técnico e econômico não vem gerando o progresso social. por exemplo. a não valorização do indivíduo como pessoa humana. O espírito que domina é o de competição. que trocamos como qualquer outra peça de uma máquina. Tivemos recentemente duas grandes guerras mundiais. mas sim como um objeto que dá lucro ou não. e estamos a beira de uma terceira. Os problemas são sérios e degradam cada vez mais a humanidade. Paradoxalmente. pois será justo o ser humano decidir sobre a vida de outra pessoa? Se um indivíduo encontra-se vivo apenas por aparelhos. as degradações ecológicas. a natureza está à beira de um esgotamento. questões como a eutanásia. de certa forma. Eis os efeitos variados dos aviltamentos cometidos contra a humanidade. que levaram o terror para muitas casas. com uma máquina ou com um computador. A escravidão que está dada como abolida pode ser percebida. melhor. se começamos a ver como um indivíduo deve se submeter para receber um salário irrisório. também não existem praticamente mais valores. foi idolatrado e visto como sendo aquele que desvendaria tudo e encontraria a fórmula para a salvação do mundo.

pelo que faz e pelo que é. sim. Esta situação de angústia tal como o mundo está. para aumentar ou reduzir a probabilidade desse suicídio geral. cultura. e dar fôlego para que o mundo respire e continue a viver sem suicidar-se. e contribui pelo que pensa. em que este poderia ser preso e torturado. onde se inicia a vida e onde termina? Estas são questões que devemos nos aprofundar para melhor trabalhá-las. porque sabemos que essas armas podem causar danos incalculáveis. Podemos observar países sobrepondo-se aos outros. sempre evitando a interferência de pessoas que tenham sobre tais questões o objetivo do lucro. ou como no caso do aborto. extorquindo-os causando sofrimento ao povo. Impossível pensar nisto sem compreender que cada um de nós se encontra a cada momento perante uma opção radical. Em nosso tempo. 96) Por conseguinte. no mundo atual. desvalorizando e desprezando completamente as outras culturas e o multiculturalismo. passível de integral destruição. p. se deve à posições com as quais nos defrontamos e assumimos ao longo de nossas vidas. Por mim considero a situação sem precedentes e definoa brevemente dizendo que o suicídio se tornou possível na escala da humanidade inteira. não como em tempos de ditadura. 1984. que esses países não hesitariam em detonar alguma bomba atômica para a destruição de um como do outro. iniciando-se um ou dois séculos atrás. “Mas hoje a situação mudou. querendo assim impor sua economia. ou ainda. o filósofo não deve só fazer investigações profundas para elucidar algumas questões de cunho emergencial.33 podemos nós desligá-los e dizer que assim amenizaremos seu sofrimento. Suicídio geral. levando a destruição total do nosso planeta. pois. ele pode facilmente volver-se para qualquer pseudociência e querer se apoderar de outros ou . uma criança que não é desejada deve mesmo vir ao mundo. mas é um perigo interior seu e de outros. o filósofo deve mostrar com o exemplo de seu pensamento atos e atitudes para reduzir essa probabilidade de suicídio geral. podemos perceber.” (MARCEL. pois se analisarmos as situações de conflitos que se estabelecem entre alguns países. é em demasia complexa. mas deve sentir as angústias do mundo. e creio que ao filósofo compete tomar posição relativamente a angustia de um mundo. a situação do filósofo.

onde ela se emancipa e pretende ter as chaves da realidade espiritual. o filósofo deve buscar estar por dentro dos acontecimentos de sua contemporaneidade. quando o faz. às técnicas de aviltamento. Relata Marcel: “De aqui vem que a situação do filósofo no mundo atual nos surge entre todas como a mais perigosa e exposta. Para o filósofo é difícil vencer a tentação da fuga. reduziu-se a desempenhar o papel de professor de filosofia. massificado pelas ideologias que atingem e aprisionam a humanidade. 115-116) Em contra partida. são alguns indivíduos que o valorizam. ainda hoje. 91) Fica claro. O perigo é também e principalmente interior. ou pelo contrário. sendo que deveria reagir. manipulador de mentes humanas. dissipando-o ainda mais. mas sempre evasão. não o desnatura. o mundo ou não reconhece o filósofo e pende a tratá-lo como personagem ridícula e um pouco absurda. para não se deixar levar por quaisquer ideologias. o filósofo deixa-se conduzir por uma ideologia política. Assim. não digo para a ciência – porque está praticada na sua verdade. com escândalos dos . por formação. de mero especialista. O problema é que o filósofo já corrompido age como ideólogo. o filósofo é visto como um louco que está distante da realidade. o filósofo pode derivar para a mística: é o que chamarei evasão superior. conserva toda a dignidade e todo o valor – mas para a pseudo-ciência. não raras vezes. o compromete com posições e pensamentos para as vantagens destes mesmos indivíduos. Não quero apenas dizer que ele pode vir a expiar a audácia no fundo de um cárcere soviético ou qualquer outro. 1984. para que esta possa seguir seus conselhos e opiniões.34 mesmo praticar abertamente o aviltamento. Dificilmente a sociedade atribui valor a ele e. porém tal valorização. “O filósofo do século XIX reduziuse na grande maioria dos casos ao professor de filosofia.. por exemplo. quando adotou. e fortalecer esta sociedade que se perde entre a técnica. p. que o filósofo com exceção de alguns. se posso dizê-lo. Torna-se claro. como a psicanálise. contudo se reduz a um expectador. ele torna-se exemplo para a massa.” (1984.. não descansa enquanto não o compromete e. de preferência em uma praia com a cabeça nas nuvens. por não ter uma consciência política. que “. tornando-se apenas um reprodutor de ideologias enquanto exerce o papel de professor de filosofia. Portanto. Mas não é tudo: cedendo ao que um pensador contemporâneo chama a “nostalgia do ser”. p.” (MARCEL.

o filósofo deve estar atento. pois querer ser bajulado. estar sempre na mídia. se assumindo como tal e desejando ser adulado. muitas vezes sempre no papel primeiro. p. que espera ser aplaudido e idolatrado por todos. 96) Assim sendo. 95) Existe também outra tentação de que o filósofo sucumbe facilmente. é quando o filósofo além de ser um reprodutor de ideologias. sobre questões de que só temos conhecimento superficial. 1984. é necessário saber da qualificação deste filósofo. “Desde que um filósofo consente que o tomem a seu cargo a publicidade. mas este também falha como filósofo e com o compromisso filosófico. p. aliás. Isto é deve estar sempre em guarda contra uma pretensão incompatível com a sua vocação verdadeira. p. e empresários.” (MARCEL. É o perigo que consiste em tomar posição. idolatrado pelos outros homens e usa do seu conhecimento para manipular e ganhar dinheiro. 1984. por exemplo.” (MARCEL.35 espíritos mais lúcidos e mais livres do seu tempo um Schopenhauer ou Nietzsche. de oitiva. Isto não significa que ele deve manter-se alheio aos problemas humanos. 92) Pior ainda. nega-se como filósofo. porém conhece apenas superficialmente sobre o assunto. 1984. p. pois isso é uma incoerência de vida. alegando ignorância absoluta em qualquer assunto. muito mais cedo no papel do que na realidade. 97 – 98). torna-se como dever primeiro do filósofo estar atento a seus limites para não ultrapassá-los e ter coragem para assumir tal limitação. a de querer tomar posição mediante algum assunto. do qual se acha profundo conhecedor.”(MARCEL. “O primeiro dever de um filósofo é reconhecer os seus limites e ver que há domínios onde a sua incompetência é absoluta. aquele que se diz revolucionário. Deve o filósofo ter consciência de que não são todos os assuntos que ele conhece a fundo. é negar-se como filósofo. e na maior parte dos casos por assinaturas de manifesto. Dispõe Marcel: “Notarei que ainda aqui surge uma tentação a que o filósofo sucumbe muito freqüentemente. Deste modo. apresenta-se então. que é afinal ignorância pura” (1984. Se algum filósofo não tem qualificação sobre determinado . pois quando este pronuncia um veredicto sobre determinada situação. Quando não é o professor de filosofia. um garoto propaganda.

como em um jogo de xadrez. e querem por qualquer meio. “Se uma minoria em qualquer país é perseguida por motivos raciais ou religiosos. afinal somos finitos. não deve ser ele a dar um veredicto sobre o mesmo. nos colocaríamos de modo igual perante os outros. O silêncio em tal caso é a cumplicidade. a guerra de Israel contra o Líbano. por exemplo. p. . pois este tipo de pensamento acaba por tornar-se um fanatismo. O segundo. em uma guerra como essa. acabar com os terroristas. 99) Deve-se ter em mente que qualquer afirmação fundamentalista ou de totalidade tende para uma manipulação ou um aviltamento. no caso de legitimidade do veredictum. atacando o Hezbollah. O Estado de Israel alega estar em guerra contra o terrorismo.” (MARCEL. quando não se preocupa com os meios para chegar ao fim. o de saber. mas os que se alegam contra o terrorismo. não podemos nos colocar como essa totalidade. “O primeiro dever do filosofo no mundo atual é combater o fanatismo sob qualquer forma de revista” (MARCEL. Todavia. seja qual for o perigo desse protesto.36 assunto. Podemos ter. também. Devemos entender por fanatismo não só os de algum partido extremista ou religiosos fundamentalistas. pondo-se contra a guerra como solução de algum problema. finitos. É lógico que antes de qualquer coisa. deve observar e ver quais as conseqüências que este veredicto acarretará. Porém. Igualmente pode o filósofo. nos anos de 1980. o veredicto do filósofo deve ser a favor da vida. acabam morrendo muito mais civis e inocentes do que terroristas. então. 1984. p. quais as suas conseqüências na ordem da ação” (MARCEL. não hesito em dizer que o filósofo deve entrar a fundo. “O primeiro ponto é o de saber se o filósofo é qualificado ou não para pronunciar um veredictum de absurdidade relativo ao mundo. um grupo militante islâmico libanês que surgiu durante a ocupação israelense do sul Líbano. 98) O filósofo deve. o filósofo deve defender a vida. apenas criaturas. se nos colocamos como essa totalidade. 103) De igual modo. p. 1984. 1984. e se nos percebêssemos como seres conseqüentemente. avaliar quais as possíveis conseqüências de seu veredicto. combater qualquer tipo de fanatismo. Tendo o filósofo razão sobre o seu veredicto. como exemplo concreto e recente. pois só pode existir uma afirmação de totalidade absoluta.

com valores bons e ruins. pois devemos encará-lo apenas como algo de sucessão ao tempo e variável segundo as minhas escolhas. valendo-se de elementos e pensadores da filosofia. pois a essência como tal.” (MARCEL. e um disputa o homem contra o outro. entende. O filósofo em especial. 110) De modo geral. supervalorizamos o mal e o encaramos como distante de nós. porém podemos observar que ao tentarmos tratar de valores. “Eu diria que o filósofo. o primeiro de supervalorizá-lo. compreendi que sou um entre outros ou ainda um com outros. valor. que por uma verdadeira conversão consegue de certo modo dominar o seu mal. isto é. não pode transformar-se sem abuso em um maniqueísmo teórico ou metafísico que trata o bem e o mal como princípios de realidades iguais que disputam entre si o império dos homens. acabamos apenas tratando da palavra. p. deve então tornar o mal mais subordinado ainda. 110) Marcel. 1984. já teria se perdido. porém são dois equívocos. Dessa forma evita-se a valorização do mal e luta-se mais facilmente contra ele. porém sem significado algum. Mas como realidades existentes à medida que tomamos nossas decisões e fazemos nossas escolhas. 1984.37 “Não posso afirmar uma totalidade absoluta sem me colocar subpretícia e disfarçadamente no lugar de essa totalidade: mas se claramente me compreendi como um ser finito. Afirma Marcel: . o segundo de externarmos o mal. em presença do mal que não está apenas perante ele. 111) Nós relacionamos bem e mal. pode adotar atitude análoga à do doente. sendo que um depende do outro. reduzi-lo a uma posição subordinada. com muita facilidade. devemos percebê-lo dentro de nós. p. com maior responsabilidade. Pondera Marcel: “Mas o maniqueísmo prático. relativo ao modo como o bem e o mal se apresentam à consciência militante. assim causamos mal ou bem para nós mesmos e para os outros. não podemos considerar o bem ou o mal como dois extremos.” (MARCEL. p. Portanto não devemos querer tratar de uma filosofia de valores. mas também nele. que não devemos tomar como base o maniqueísmo.” (1984.

percebe-se que o filósofo é de grande importância para fazer a mediação entre o mundo das técnicas e da espiritualidade. causando neste a maior das confusões possíveis. “Trata-se de uma opção decisiva. chamava-se não muito modos do ser ou perfeições.38 “Só se fala de valor em presença de uma desvalorização prévia. p. O que se chama hoje valor. provavelmente abortada. Mas temos de reconhecer hoje que o não-ser pode ser preferido.” (1984. A filosofia dos valores parece-me uma tentativa. 1984. 116-117) . Talvez pudesse dizer-se que entre o mundo das técnicas e o da espiritualidade pura a mediação do filósofo é cada vez mais indispensável. para recuperar nas palavras o que realmente se perdeu nos espíritos. o termo valor tem na essência uma unção compensadora e utiliza-se onde se perdeu uma realidade substancial. de uma escolha entre ser e não-ser. e é esse disfarce que o filósofo deve denunciar expressamente. os espirituais puros correm o risco de pronunciar sobre as técnicas uma condenação. p. mas por outro lado. p. mas capaz de lançar os espíritos na mais temível confusão. 113) Em suma. inoperante talvez de fato. 112-113) Por conseguinte. quer dizer. até mesmo para evitar que muitos espiritualistas condenem o mundo das técnicas. denunciar as ideologias que tentam valorizar o não-ser e discutir valores. por uma espécie de choque reflexo perigoso. afetar o aspecto do ser. devemos estar atentos e sempre escolhermos pelo ser. causando uma massificação.”(MARCEL. De outra forma as técnicas arriscar-se-iam a invadir um domínio que deve ficar inviolado.”(1984. Estabelece Marcel: “Tenho a convicção profunda de que a sorte da filosofia e da civilização está direta e intimamente ligada. como que se eles vivessem em outro.

39 CONSIDERAÇÕES FINAIS Do trabalho exposto verificamos que a análise da obra de Marcel fez com que constatássemos uma crescente degradação humana. pois o homem .

dando valor somente a sua utilidade e não a sua essência. Marcel ressalta a possibilidade de que o homem tem para causar a sua destruição e traz a afirmação de Nietzsche de que “Deus está morto” e a substitui por outra de que o homem está na agonia. Observamos.40 encontra-se perdido em meio a técnica. fecham-se em si. e sobrepõem-se ao outro. como pode um indivíduo realizar atos que a sua consciência reprova? Observamos que estamos vivendo em um mundo globalizado. na medida em que ele pertence a um país e estará sujeito aos acordos que seus representantes farão por ele em nome do seu país. são realizadas por indivíduos que não compreendem o valor da pessoa humana e a singularidade de cada um. pois o indivíduo estará sempre dependente de algum país. considerando este dentro das suas categorias de tempo e espaço. Porém ele pode ser livre até mesmo em países totalitários. pois o indivíduo pode ter um refúgio interior. . Assim entendemos que a filosofia de Marcel tem como principal aspecto a questão do homem. ainda. como objeto. ou seja. As técnicas de aviltamento quando aplicadas. logo a liberdade do indivíduo fica ainda mais restrita. podemos facilmente dissipar as técnicas. e buscamos fazer uma analise da degradação humana. por conseguinte. que a liberdade por absoluto não existe. Surge então. que o permita superar seus atos realizados contra a sua consciência. que nossa sociedade é caracterizada pelo utilitarismo técnico. porém elas são aplicadas em inúmeros outros países. principalmente em países totalitários. Acabamos por concluir. a desvalorização da pessoa humana. ou seja. não conseguindo separar-se dos objetos e. causam as técnicas de aviltamento. pois o homem é quem está fechado em si mesmo e não se abre para o outro. Esse fechamento em si. Partimos então da sua obra os homens contra o homem. Encontram-se em posição de criador. onde supomos não existir nenhuma liberdade por menor que seja. Com a tendência de tratarmos cada vez mais o homem. a questão da liberdade. e um país depende do outro. um ser real e concreto. No primeiro capítulo iniciamos a discussão acerca da liberdade e do valor da pessoa humana. tratando o outro também como objeto . uma ligação com algum Ser.

que foram criados para uma melhor qualidade de vida. mas há também uma trégua entre alguns países. Caminhamos assim para uma aniquilação geral do mundo e da pessoa humana. a atualidade do pensamento de Marcel está no fato de que o filósofo deve estar presente para evitar um suicídio geral de toda a humanidade. Hoje observamos que a maioria dos filósofos está em uma sala de aula com seus manuais e até já massificados e alienados de todas essas questões. causará bem ou mal dependendo do uso que nós fizermos delas. Também não deve o filósofo achar-se conhecedor de tudo. a partir do que pesquisamos. sendo um reprodutor de ideologias para massificar e alienar ainda mais os outros. com propriedade. que causa o isolamento do indivíduo. Nesse sentido. .41 Existe. por mais arriscada que possa ser tal presença. o que nos propicia uma oportunidade para revermos nossos atos. mas ao contrário assumir suas limitações quando necessário. o rádio e a televisão. uma crise metafísica. essa crise da modernidade. em conclusão. Verificamos que a propaganda. a igualdade para todos. percebemos que de fato isso não ocorreu e o que temos é um grande sofrimento para a maior parte das pessoas do mundo. Retomando a crise do mundo. concluímos que a técnica. antes que eles fiquem apenas nos livros de história. pois o próprio filósofo corre o risco de corromper-se como a maioria dos homens. que identifica o homem com o objeto. Assim sendo. depois da promessa do racionalismo de que os avanços das ciências proporcionariam um bem estar social. abre-se uma porta para uma nova questão: até onde pode existir técnicas de aviltamentos? Dado que a maioria de nós pensa que elas são passado e não são mais aplicadas hoje em dia. podem facilmente ser utilizados como meios para aviltar e corromper o indivíduo. no sentido de evolução científica. Estamos no meio de uma sociedade materialista e tecnicista. Deste modo. Pode servir para aviltar ou não. alguns valores e aí consideraremos a singularidade e a individualidade de cada um. uma crise do homem ocidental. Por conseguinte. um mero utensílio que se torna útil mediante a minha necessidade. Pior é o filósofo que deseja ser bajulado e idolatrado por todos os que o cercam. observamos que só encontraremos uma saída para as técnicas de aviltamento quando restaurarmos.

o estudo da obra de Marcel. .42 Portanto. mas interagimos. é dever do filósofo sempre estar atento ao pronunciar algum veredicto. isto é: não existimos isolados no mundo. Marcel nos alerta sobre as diversas formas que as técnicas de aviltamento podem tomar e que devemos procurar agir contra. nos conscientiza sobre a importância da nossa influência na vida dos outros. Em outras palavras. defendendo a vida e ajudando as pessoas a constituírem um existir autêntico que não recaia no desespero ou no suicídio geral. rejeitando qualquer forma de fanatismo ou qualquer afirmação fundamentalista. em última instância.

História da Filosofia. Tradução de Conceição Jardim e outros. 3ª ed. Lisboa. .43 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO. Nicola.

P. CD-Rom. História da Filosofia: de Nietzsche à Escola de Frankfurt. Porto. Derna. Corpo. Antonio Paulo F. São Paulo: Loyola. BOCHÉNSKI. Giovanni. 2005. 4ª ed. 662p. 1997. . 1984. MARCEL. A filosofia concreta de Gabriel Marcel. revisão: Zolferino Tonon. Tradução de Ana Pareschi Capovilla.44 ANDRADE. Tradução de Dr. História da Filosofia Contemporânea. A Filosofia Contemporânea Ocidental. Ed Carlos Henrique. Monografia Universidade Católica de Santos. multimeios. Os Homens Contra o Homem. ROVIGHI. Tradução de Ivo Storniolo. Sofia Vanni. Vieira de Almeida. Gabriel Honoré. Referências bibliográficas: um guia para documentar suas pesquisas incluindo Internet.São Paulo: Olho d’Água. Carlos Drummond. Santos. Innocentius Marie. Rio de Janeiro: Record. São Paulo: Paulus. 496p. ANTISERI. CASTILHO. Tradução de Antônio Pinto Carvalho. Dario. de. 11ª ed. 1975. 250p. 3ª ed.U. 78f. 124p. 3ª ed. 123p. 300p. REALE. 2006. 2004. PESCUMA. São Paulo: E. BATISTA. 1987.