OS BISPOS DO BAZAR – UMA ANÁLISE DE PARADIGMAS PARA EMPRESAS DE DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE

Cid Rodrigues de Andrade

Escola Politécnica de São Paulo Av. Prof. Luciano Gualberto, Cidade Universitária, São Paulo, SP.

Abstract This paper focuses on the strategical decisions about software industry firms development model. It concerns the effects of model selection in software industry. It claims that open model represents a risk to closed model based firms. The paper proposes that software firms must redesign yours strategical planning. The analysis takes as its starting points a literature revision and companies opinions. Keywords: Strategical decisions, development model, Free Software 1. Introdução (Fundamentos e literatura) Este artigo pretende analisar as estratégias para definição de modelo de desenvolvimento na indústria de produção de software, em particular em relação ao paradigma do software livre. A indústria clássica de desenvolvimento de software é composta de empresas que atuam em determinados mercados de acordo com seu porte. As grandes empresas, em geral, trabalham com produtos voltados à produção em escala mundial. Estes produtos podem ser desde software básico até aplicações de uso específico, mas desenvolvidas de modo a atingir um grande número de usuários. Um exemplo de software básico é o sistema operacional. Já no caso de aplicação específica temos as ferramentas de Computer AidedDesign (CAD) ou Enterprise Resource Planning (ERP). As pequenas empresas costumam atender a necessidades customizadas de clientes de pequeno e médio porte, desenvolvendo suas soluções sob encomenda. Entre elas encontra-se uma faixa intermediária com características de produtos das pequenas, mas produzindo com ganhos de escala, porém mais modestos do que os ganhos das grandes empresas. O esforço requerido dentro desta indústria clássica para o desenvolvimento de software básico é de tal monta que inviabilizaria a concorrência de pequenas empresas sob o mesmo paradigma. Destarte, estes produtos eram, até pouco tempo, exclusividade das grandes empresas produtoras de software. Por outro lado, se softwares de ERP das grandes empresas teriam condições de atingir, a princípio, qualquer porte de cliente, vemos também que os seus custos de licenciamento e implantação não os tornam atraentes para pequenos e mesmo médios clientes. Nesta área as pequenas e médias empresas de software encontram seu campo de atuação. Para a compreensão desta indústria é importante analisarmos as teorias econômicas que estudaram a Inovação Tecnológica e a gestão empresarial da Tecnologia de Informação. 2. Métodos Este artigo é, basicamente, uma revisão de literatura em três áreas. A primeira, desenvolvida anteriormente, refere-se a questões de microeconomia, em especial as vinculadas com Inovação Tecnológica e Concorrência. Outra área de leitura foi a de Estratégia Empresarial, em especial a focada em Tecnologia de Informação. A terceira área é a de um modelo de desenvolvimento de software que pretende instalar um novo paradigma neste mercado: o de Software Livre.

Contudo, para poder ter compreensão mais abrangente dos problemas aqui tratados, encaminhei um breve questionário a quarenta software-houses aleatoriamente selecionadas a partir de buscas em websites de busca e anúncios de revistas especializadas. O objetivo foi testar este questionário para uma pesquisa mais ampla a ser realizada em outros trabalhos. Dos questionários enviados, houve o retorno de 7,5% deles, ou seja, três questionários. Embora eles não sejam representativos do ponto de vista estatístico, as respostas ali presentes serviram para o desenvolvimento de outro questionário e para obtenção de alguns dados sobre os quais podem ser realizar algumas conjecturas. 3. Resultados A primeira grande contribuição na área de Inovação Tecnológica foi estabelecida por Schumpeter (1942), ao afirmar que, a despeito dos desejos dos economistas, as grandes empresas contribuem mais para a criação de um padrão de vida elevado do que para seu rebaixamento. Esta afirmação levou a uma série de estudos sobre a importância da grande empresa e da empresa monopolista no cenário econômico. Mas estas grandes empresas (e todos nós) devemos ter presente que Schumpeter não deixava de avisar que “o capitalismo é, pela própria natureza, uma forma ou método de mudança econômica, e não apenas nunca está, mas nunca pode estar, estacionário”. Ele ilustra ainda um cenário onde a abertura de novos mercados e o desenvolvimento organizacional revolucionam a estrutura econômica a partir de dentro, destruindo a velha e gerando uma nova, incessantemente. Assim sendo, é mais relevante avaliar como o capitalismo cria e destrói as estruturas do que como elas são administradas. Schumpeter ainda esclarece que a concorrência baseada em novas mercadorias, tecnologias, fontes de oferta e tipos de organização é tão mais eficiente do que a concorrência por preço “como um bombardeio comparado a se forçar uma porta”. E para ele esta concorrência age não apenas quando existe de fato, mas também quando é meramente uma ameaça onipresente. Schumpeter ainda propõe que haveria dois modelos sob os quais são erigidas as inovações tecnológicas. Um modelo é o de pequenas empresas inovadoras fundadas por empreendedores essencialmente inovadores. Outro modelo é o da grande empresa com condições de grandes investimentos em P&D. De acordo com Possas (2002), a visão de concorrência de Schumpeter é conhecida como concorrência schumpeteriana e caracteriza-se “pela busca permanente de diferenciação por parte dos agentes, por meio de estratégias deliberadas, tendo em vista a obtenção de vantagens competitivas que proporcionem lucros de monopólio, ainda que temporários”. A concorrência é, portanto, um processo de revolução de estruturas e criação de oportunidades e não um processo de ajustamento em direção a um suposto equilíbrio de concorrência perfeita. Possas destaca como as estratégias competitivas das empresas – no que se referem a inovação, investimento, preços e outros – e as estruturas de mercado geram uma dinâmica industrial que transforma a configuração da indústria, em termos de produtos, processos e rentabilidade. Esta abordagem foi retomada nas últimas décadas por alguns economistas, em especial, Nelson e Winter (1982) que adotam uma perspectiva “evolucionária” da teoria microeconômica. Eles introduzem noções de busca de inovações, procedidas pelas empresas a partir de estratégias, e de seleção de resultados realizada pelo mercado. Este é visto como um ambiente de seleção por excelência. Outra contribuição vem de Lundvall (1988). Ele afirma que as empresas não são a fonte exclusiva de inovações, pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Estas inovações seriam favorecidas por todo um cenário que ele denomina Sistema Nacional de Inovação. Este sistema seria composto por empreendedores, laboratórios de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) das grandes empresas, cientistas, universidades, governos e mesmo usuários finais por intermédio de mecanismos como clubes de usuários.

Também destaco Malerba e Orsenigo (1997) que informam como diferentes setores apresentam características distintas na forma como introduzem inovações tecnológicas. Eles partem do trabalho de Schumpeter, que ilustra como as grandes empresas, com seu conhecimento acumulado, competência em P&D, capacidade de financiamento tornam-se preponderantes na inovação tecnológica e criam relevantes barreiras de entrada em suas indústrias. Eles propõem que, na indústria de software, existe uma larga variedade de oportunidades e soluções tecnológicas em potencial e boas condições de apropriação de vantagens competitivas relacionadas à inovação. Eles indicavam que, na época, as oportunidades estavam geograficamente concentradas na região conhecida como Vale do Silício. Outra visão da qual não podemos prescindir é a de Hasenclever e Tigre (2002) que destacam os dois modelos de Schumpeter sobre a empresa inovadora. Aqueles dois modelos podem coexistir e os autores citam como exemplo desta coexistência a criação da Microsoft, que revolucionou os padrões da indústria de software e introduziu significativas barreiras à entrada. Entretanto, Hasenclever e Tigre (2002), demonstram que alguns autores como G. Dosi sugerem que estes regimes, em geral, representam a evolução de uma indústria. O modelo empreendedor surge na emergência da indústria. Porém, na fase da maturidade, a inovação tecnológica é uma arma concorrencial, capaz de derrubar certas barreiras à entrada e criar outras, provocar o desaparecimento de certos concorrentes e gerar outras turbulências que, como dito por Schumpeter, revolucionem as estruturas da indústria. A análise da literatura demonstra a importância de se compreender a concorrência. Para agir de maneira propositiva e manter a longevidade de uma empresa, é necessário estabelecer uma estratégia que permita à empresa diferenciar-se das demais e obter vantagens competitivas. Os participantes do modelo de produção de software conhecido como software livre adotaram um posicionamento estratégico que lhes permitiu atingir altos níveis de excelência de seus produtos e lhes permitiu competir de forma inusitada com empresas de grande porte já estabelecidas nesta indústria. Entretanto, o fundamento da vantagem competitiva obtida por este modelo não é consensual, em parte devido a ser baseado em um modelo de negócios de tal forma distinto do comum até o seu surgimento, que ainda hoje causa estranhezas. As mudanças que este modelo está impondo à indústria de produção de software ainda estão em andamento e tornaram-se visíveis ao mercado somente em 1998, sendo muito recentes, portanto. Nesta época a IBM demonstrou a intenção de investir um bilhão de dólares no GNU/Linux, tornando-o mais conhecido fora do ambiente técnico e acadêmico. É irônico que o Bazar se fez mundialmente conhecido somente quando os bispos desta Catedral foram visitá-lo. Apesar deste modelo permitir apropriações tipicamente capitalistas, parcela considerável de sua força advém de uma fonte que subverte alguns valores deste sistema econômico. Isto leva o mercado a repensar suas estratégias competitivas. Se, por exemplo, analisarmos a proposição de Laurindo e Carvalho (2004), de que a intensidade das forças competitivas é inversamente proporcional ao potencial de lucro em uma dada indústria, qual seria a intensidade daquelas forças se um dos atuantes desta indústria agisse de forma a, aparentemente, abrir mão de seu lucro (e até mesmo de seu faturamento)? Os sistemas operacionais, pacotes de aplicativos de escritório e ferramentas de desenvolvimento compõem parcela expressiva deste mercado, do ponto de vista de faturamento e visibilidade. Nesta área não é numerosa a quantidade de concorrentes, o que lhes permite tomarem ações que visem aumentar a participação no mercado com objetivos monopolistas. Assim as empresas que obtivessem este monopólio conseguiriam exercer considerável domínio neste mercado. Como esta indústria tinha este caráter, ela adquiriu um perfil mais concentrado do que a maioria das indústrias de seus clientes podendo exercer forte poder de negociação sobre

eles. Este poder é majorado por ser baseado em produto que se tornou um insumo vital à produtividade de seus clientes. Existe, contudo, uma tendência destes produtos serem pouco diferenciados entre si, possibilitando torná-los em commodities. Isto diminui a capacidade de algum participante monopolizar este mercado, forçando quem tiver esta intenção a elevar as barreiras de entrada de forma a garantir sua posição. Esta elevação ocorreu por meio da existência de barreiras de saída expressivas e da própria força que um monopólio adquire intrinsecamente. De forma até certo ponto surpreendente, ocorreu que diante do alto risco na obtenção de retornos, o modelo de software livre surgiu como se abrisse mão destes retornos. Destarte, as barreiras de entrada se tornam pouco significativas uma vez que seu poder de intimidação ao surgimento de novos concorrentes ocorre em um aspecto ao qual estes não são sensíveis. Esta estratégia competitiva fornece aos alinhados ao software livre uma posição favorável nesta indústria. Raymond (2000a) propõe que o modelo de software livre pode ser visto como um sistema adaptativo impelido por uma dinâmica baseada na força dos membros das comunidades que o compõem. Esta força é gerada por valores que poderiam ser considerados incomuns, uma vez que, em geral, só podem ser explicados por intermédio da busca de status social reconhecido por seus pares e obtido não pelo uso da força ou da apropriação da capacidade de realizar trocas comerciais. Este status é obtido pela participação ativa e disponibilização do fruto de suas capacidades para a comunidade. É relevante notarmos que parte preponderante da força dos competidores que agem sob o modelo tradicional advém de uma tendência dos clientes desta (e de outras) indústrias se deixarem influenciar pela força que a manutenção do status-quo tem na tomada de decisão de compra dos produtos. Contudo, o modelo de software livre adquire notoriedade e visibilidade pelo antagonismo com o modelo denominado “proprietário” e que eu prefiro denominar de modelo fechado. Estabeleceu-se entre estes modelos uma relação dialética. Como tal, ela se torna mais clara quanto mais estes modelos se contrapõem e antagonizam-se mutuamente, mas tende a se tornar inócua se um dos modelos se tornar preponderante na indústria. Os modelos de desenvolvimento aqui discutidos são chamados por Raymond (1998) de Catedral e Bazar, no clássico “The Cathedral and the Bazaar”. Ele propõe uma dicotomia onde software pode ser desenvolvido por uma pequena equipe de especialistas em um ambiente fechado, como em uma catedral (o modelo fechado), ou por desenvolvedores em qualquer lugar do mundo, por intermédio de livre colaboração, de uma forma quase caótica, como em um grande bazar (modelo de software livre). Para ele, o Bazar se comporta como uma coleção de agentes autônomos tentando maximizar a utilidade de um processo que produz uma ordem espontânea auto-evolutiva mais elaborada e eficiente que qualquer quantidade de planejamento centralizado seria capaz de fazer. Porém os desenvolvedores não estariam movidos por objetivos comumente estudados pela economia clássica, mas por uma intangível satisfação de seus próprios egos. Essa satisfação advém do respeito obtido pela comunidade de desenvolvedores e usuários e pelo prazer pessoal obtido por intermédio da reação de seus pares a seu comportamento aparentemente altruísta, como ressalta Raymond (2000a) em “Homesteading the Noosphere”. A Cware (S.I.) expõe que outros fatores além do reconhecimento entre desenvolvedores leva ao sucesso do modelo Bazar. Afirma-se que para entender a dinâmica deste modelo, é necessário compreender as forças que impelem os movimentos de software baseados em comunidades. O artigo afirma que estas forças são como uma tempestade. Uma tempestade seria um complexo padrão climático aparentemente caótico, mas que na realidade demonstra ser um padrão bem organizado de forças e condições. Contudo, Cavalier (1998) afirma que o número de participantes que fazem contribuições efetivas do Bazar afeta o sucesso do empreendimento.

Raymond (2000b) aprofunda sua visão em “The Magic Cauldron”. Nele o autor demonstra que um software não deve ser precificado como se fosse um produto fruto de uma atividade fabril. Ele destaca que em suas entrevistas foi levado a um cenário que permite afirmar que os desenvolvedores não tem seus salários diretamente relacionados com o preço de venda de seus softwares. Ele afirma que “software é uma indústria de serviços sob a persistente e infundada ilusão de ser uma indústria de manufatura”. Desta forma ele afirma que a software livre começa a despontar não apenas como um paradigma tecnológico, mas também como uma mudança na ordem econômica. O fato de produzir software de acordo com o modelo de Bazar destaca um modelo de software pago por serviços e desestrutura o modelo de precificação do software fechado. Seus estudos levam a indicar que a transição deste modelo não irá afetar os desenvolvedores tanto quanto aos investidores que financiam o modelo da Catedral. Ele observa que é falsa a impressão que o modelo Bazar afetaria drasticamente a carreira dos desenvolvedores. Essa impressão vem de um cenário no qual todos os softwares seriam livres, o que eliminaria o valor de mercado dos softwares e, conseqüentemente, não haveria mais recursos para remuneração dos desenvolvedores. Contudo, a remuneração destes não está correlacionada com o preço de venda dos softwares. Além disso a demanda pelo desenvolvimento e manutenção não declinaria neste cenário. O que mudaria, isso sim, é o modelo de financiamento ao desenvolvimento de software e a fonte de receitas. Ao examinar os motivos pelos quais uma empresa pode ser levada a produzir sob o modelo de código fechado, Raymond (2000b) chega a diversos cenários. Ele afirma que ao abrir a fonte de um produto, o ganho com confiabilidade e desenvolvimento colaborativo, alavancando o valor dos serviços como suporte e customização, supera as perdas pelo preço de venda. Além do mais, as despesas com desenvolvimento precisam ser vistas como “sunk costs” (custos irrecuperáveis) que não mudarão em um modelo ou outro. Pelo contrário, no modelo de Bazar os custos de desenvolvimento são compartilhados entre os participantes. A conclusão de Raymond é que as empresas devem “disponibilizar a receita e abrir um restaurante”. Kuwabara (2000) afirma que qualquer movimento de cunho social requer um poder ao qual se contrapor, e que essa representação de poder seria, neste caso, a Microsoft. O poder e a influência desta empresa, associado com os altos custos e restrições de licenciamento geraria um clima de insatisfação propício ao surgimento de movimentos alternativos. O surgimento da Internet favoreceu a união deste grupo em torno de um objetivo comum. O Bazar não seria simplesmente um agrupamento de pessoas motivados unicamente por reconhecimento mútuo, mas por oposição à Microsoft e ao modelo de código fechado. Ironicamente, quanto mais forte a Microsoft se tornava, mais fortes eram os movimentos antagônicos a ela. Esta relação dialética se acirraria até que a Microsoft perdesse sua força ou mudasse de foco. Ele compara a fase atual do desenvolvimento de software livre, em especial o Linux, com a fase de transição de estados da matéria. Ele nos lembra que o instante no qual um corpo muda de estado é denominado Fase de Transição. Nesta fase um sistema está instável e dinâmico, num prenúncio de que uma situação nova está em germinação. É um período onde estes sistemas têm características de ambos estados, aquele que está sendo abandonado e o que está se avizinhando. Kuwabara chama esta fase de Limite do Caos. Ele traz a idéia de que os altos níveis de qualidade e desempenho obtidos pelo Linux são frutos das propriedades de interações locais que se agregam em um processo evolucionário com padrões de auto-organização. O autor corrobora com a posição de Eric Raymond de que existe um Jogo de Reputações, do qual os hackers participam ao se dedicar a projetos de software livre em busca de status social. Na comparação com o método de Catedrais, o método Bazar é visto não como um feliz acidente, mas como um método confiável e aplicável de modo geral. As software-houses que responderam ao questionário enviado são todas desenvolvedoras, exclusivamente, de software de código fechado. Todas afirmam que suas receitas são derivadas do preço de venda de licenças, o que justificaria a escolha deste

modelo. Uma delas destacou que produz softwares para serem executados em sistema operacional de código fechado, pois seus clientes necessitam da responsabilidade civil que a empresa de desenvolvimento deste sistema operacional pode oferecer. Contudo, todas afirmaram que o modelo do Bazar oferece riscos à continuidade de suas operações. Apesar disto, não faz parte dos planos de negócios das mesmas virem a desenvolver software sob o modelo de livre. Indagadas sobre qual seria o impacto para suas empresas se um produto substituto ao delas chegasse ao mercado tendo sido desenvolvido como software livre, elas apresentaram duas posições distintas. Enquanto uma acredita que perderia totalmente seu mercado, a outra sente-se menos ameaçada, devido à fidelização de seus clientes. Porém, é conveniente destacar que, em geral, estas empresas demonstram que utilizam softwares livres, apropriando-se das vantagens técnicas e econômicas destes. Convém destacar uma passagem de “Homesteading the Noosphere” que apresenta um risco que deve ser conhecido pela empresas cujo modelo de desenvolvimento seja o fechado. Após concluir que os desenvolvedores se empenham em projetos de software livre à busca de status social obtido pelo reconhecimento entre os pares, Raymond diz que esta análise tem mais implicações do que as óbvias. Ele fala que se um desenvolvedor se envolver com um projeto muito semelhante a algum já existente, ele não terá grande destaque, e seu reconhecimento seria menor. O mesmo ocorreria se ele fundasse um projeto tão distinto dos outros que ninguém compreendesse ou notasse. Também haveria pouco interesse em competir com projetos de grande sucesso, como é o caso do servidor de conteúdo web Apache. Portanto existe uma tendência dos projetos surgirem na “vizinhança” dos existentes. Este fato faz com que haja um padrão previsível na criação de projetos. Na década de 70 do século XX, os projetos eram de “inutilitários” e programas de demonstração. A década seguinte teve como foco as ferramentas de desenvolvimento e para Internet. A década de 90 teve a atenção voltada para sistemas operacionais, de tal forma que nela vimos o surgimento do GNU/Linux. Em cada caso, um nível novo e mais difícil de problemas é atacado quando o anterior já está resolvido. A próxima categoria de softwares que seria desenvolvida no início do século XXI, na visão de Raymond, seria a de aplicativos, softwares para usuários não-técnicos e ele ilustra esta visão destacando o desenvolvimento do Gimp, programa para manipulação de imagens, e das interfaces gráficas KDE e Gnome. Além destes exemplos vale destacar os esforços que foram voltados à produção de jogos e programas de entretenimento neste período. Com o estabelecimento de casos de sucesso nesta área e o crescimento do GNU/Linux no mercado corporativo, devem começar a surgir projetos cada vez mais audaciosos para automação comercial, uma área onde a maioria das pequenas software-houses atua. Ao se analisar a quantidade de projetos da comunidade de software livre, aqueles voltados para esta área já surgem logo atrás dos utilitários de sistema, ferramentas de Internet e de desenvolvimento, entretenimento e bancos de dados. 4. Conclusão A discussão do tema serviu para esclarecer como o modelo de desenvolvimento do Bazar tem suas repercussões econômicas, além das meramente técnicas. Diante da visão schumpeteriana da destruição criativa, torna-se imperativo às empresas desta indústria consolidar seu posicionamento estratégico diante de um competidor que usa outras táticas neste jogo. Denotamos deste trabalho que o modelo Bazar traz riscos para as empresas que se encastelarem no modelo Catedral, sem procurar nenhuma forma de diferenciação. Por outro lado, as que optarem por desenvolver seus produtos como software livre, precisam desenhar sua estratégia com muito cuidado, pois estarão se utilizando de um modelo de

negócios que remunera seus esforços de maneira particularmente distinta da que elas vêm utilizando. Qual seria, em compensação, a probabilidade de sucesso dos primeiros projetos na área de automação comercial? De acordo com os modelos de Raymond, há de se esperar que algum desenvolvedor, à procura de seu status social, deva se lançar nesta seara e obter sucesso, ao contrário de alguns que podem não consegui-lo. Contudo, em seguida a este projeto, a disponibilização de outros semelhantes torna-se-ia uma questão de tempo. Para que esta discussão possa prosseguir, urge dar continuidade à elaboração de outro questionário que possa ser distribuído a uma gama maior de empresas de desenvolvimento de software e cuja análise de resultados possa ser mais produtiva. Outro estudo valioso seria pesquisar nas bases públicas de projetos de software livre sobre a data de criação dos projetos e cruzar estes dados com sua categorização, fazendo um mapa do ciclo de cada categoria. A análise teórica tende a ser mais completa com a inclusão das visões de Marsili sobre os padrões de Regime Tecnológico, o que espero fazer em breve. O que já não me atrevo, mas espero que alguém o faça, é rever o tratado de Lundvall sobre o Sistema Nacional de Inovação, propondo um Sistema Global de Inovação. 5. Referências Bibliográficas CAVALIER, F.J. III. (1998) Some Implications of Bazaar Size. Disponível em <http://mibsoftware.com/bazdev>. Acesso em 12 out. 2004. CWARE Inc. (S.I.) The Linux Storm. Disponível em <http://www.cwareco.com/papers/linux_storm.html>. Acesso em 26 out. 2004. HASENCLEVER, L.; TIGRE, P. Estratégias de inovação. In Kupfer D.; Hasenclever, L. Economia Industrial: fundamentos teóricos e práticos no Brasil. Rio de Janeiro. Elsevier. KUWABARA, Ko. (2000) Linux: A Bazaar at the Edge of Chaos. Disponível em <http://firstmonday.org/issues/issue5_3/kuwabara>. Acesso em 12 out. 2004. LAURINDO, F.J.B.; CARVALHO, M.M. Anotações de aula. LUNDVALL, B.-A. (1988) Innovation as an interactive process: from user-producer interaction to the national system of innovation. Londres. Pinter. MALERBA, F.; ORSENIGO, F. (1997) Technological Regimes and Sectoral Patterns of Innovative Activities. Industry and Corporate Change, v.6, n.1 NELSON, R.; WINTER, S. (1982). An evolutionary theory of economic change. Harvard Un. Press. POSSAS, M.L. (2002) Concorrência schumpeteriana. In Kupfer D.; Hasenclever, L. Economia Industrial: fundamentos teóricos e práticos no Brasil. Rio de Janeiro. Elsevier. RAYMOND, E.S. (1998) The Cathedral and the Bazaar, v. 1.33. Disponível em <http://www.catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar>. Acesso em 22 out. 2004. RAYMOND, E.S. (2000a) Homesteading the Noosphere, v. 3.0. Disponível em <http://www.catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar>. Acesso em 22 out. 2004. RAYMOND, E.S. (2000b) The Magic Cauldron, v. 3.0. Disponível em <http://www.catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar>. Acesso em 22 out. 2004. SCHUMPETER, J. (1942) Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro. Zahar. 1983.