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O direito dos povos (III)
francisco providência

Nuno Rogeiro, Comentador político Ao contrário do que se tem dito, a declaração de independência do Kosovo, se comparada com muitos actos semelhantes, ocorridos desde 1991, não foi "unilateral". Não o foi, no sentido em que resultou de um período extenso de relações de "mais do que protectorado" internacional (*). Não foi, no sentido em que culminou uma série de negociações sobre a resolução política do problema. Não o foi, no sentido em que o novo estado adoptou as linhas básicas do "Plano Attisari", a estratégia oficial da ONU para o território. Não o foi, no sentido em que a declaração de independência manteve todos os compromissos de presença estrangeira na ex-província. É assim que o juiz Richard Gladstone, que tem sido a medida da legalidade internacional dos processos de reconciliação, pode afirmar que, nos últimos oito anos, sempre se discutiu a "melhor opção final", do ponto de vista da legalidade e da realidade uma declaração de independência supervisionada. Isto é, não "unilateral", mas controlada. As outras opções seriam o retorno do Kosovo a uma forma de autonomia dentro da Sérvia, o que colheria a oposição da maioria da população local, e a expulsão, pelo Kosovo, de todas as instituições internacionais de fiscalização e controlo, o que levaria ao ostracismo da nova república. À destruição do mito da "unilateralidade", deve juntar-se o desmantelamento do mito da "total ilegalidade", como vimos em peças anteriores. Se não havia, na Resolução 1244, uma permissão explícita de independência, não havia também uma proibição expressa da mesma, dado que todas as ligações à Jugoslávia foram consideradas transitórias, e instrumentais para a execução de um processo

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político, independente da vontade única de Belgrado. Por alguma coisa a Assembleia-Geral da ONU, e o Conselho de Segurança, se abstiveram de votar uma moção declarativa da "ilegalidade" da independência, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com a separação unilateral da Rodésia (esta, "unilateral" em sentido próprio), em 1965. Muito menos se adoptou um mecanismo de sanções contra o Kosovo, que pareceria obrigatório, se o acto de independência fosse claramente ilegal. O essencial parece resolvido. Os kosovares são "um povo", estabelecido em regime de continuidade num território definido, com limites históricos (re)conhecidos. Um povo que, face à impossibilidade de auto-determinação interna (obstruída pelo regime de Milosevic), optou por uma forma de separação, com efeitos externos. Esta separação teve apoio internacional, e culminou numa resolução da ONU. Portugal deve decidir a questão do reconhecimento com base nos méritos próprios, e não no exemplo e receios de outros. Deve ser uma decisão ponderada, mas autónoma. E, se possível, precisa de congregar um consenso dos órgãos do Estado. A não ser assim, será preferível o silêncio. Que também tem um limite. (*) "Mais do que protectorado", na medida em que, nos protectorados clássicos, o estado protegido geria a sua vida interna, deixando ao protector as funções de soberania externa, enquanto que, neste caso, a comunidade internacional mandatada interferia nas duas esferas. Nuno Rogeiro escreve no JN, semanalmente, às sextas-feiras

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