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O nariz de Aguiar Branco
18.04.2008, José Miguel Júdice

Cercado no seu palácio, Menezes começou a morrer aos poucos, transformado numa imagem d"Épinal do seu partido

Há momentos na história das instituições em que tudo muda, de um momento para o outro. Sobretudo em países como Portugal, em que tremer de coragem é um dos atributos mais habituais na classe política. Entre outros exemplos que me chegam à memória, quero concentrar-me no PSD. Que existe uma crise de credibilidade em relação à direcção do PSD parece evidente. Antes mesmo de ter ganho com limpeza o congresso do passado ano, Luís Filipe Menezes já tinha um défice de credibilidade. As elites dos partidos valem o que valem, estando em regra indisponíveis para o trabalho duro, aproximando-se apenas da vida política, borboleteando, se lhes cheirar a poder e se o calor das sinecuras começar a chegar-lhes à pele. Mas não é por serem assim que deixam de ser atribuidoras de estatuto. E Menezes nunca foi considerado credível. Podia, evidentemente, o novo líder ganhar capacidade de sobreviver pela prática da liderança. Infelizmente para ele, o seu consulado tem sido um acumular de factores de descredibilização, aumentando claramente o número dos que se afastam (o último parece ter sido Mota Amaral) e a intensidade da desilusão dos que aceitaram surgir junto dele. Com melhores ou piores pretextos, de forma mais ou menos discreta, são muitos os quadros dirigentes do "menezismo" que já se afastaram. Angelo Correia é apenas um expoente de uma tendência. Por isso a fronda começou cedo e foi-se ampliando de forma consistente. Cercado no seu palácio, sem um Mazarino para jogar os poderosos uns contra os outros, Menezes começou a morrer aos poucos, transformado numa espécie de imagem d"Épinal do seu próprio partido. Mas de situações como esta, muitas vezes, segue-se naturalmente coisa nenhuma. Todos os potenciais candidatos à liderança complotavam e conspiravam, reuniam-se e destilavam, mas nenhum parecia querer agir. Todos aspiravam a que um conjunto de conspiradores, armados com punhais rituais (ou com bombas, para modernizar um pouco o cenário), encontrassem Menezes nuns idos de Março e com isso afastassem do poder partidário quem sempre acharam um usurpador indigno, que iria destruir as elites republicanas do PSD em nome de um novo cesarismo. Todos aspiravam a isso; nenhum queria ser visto com o punhal debaixo da capa. O PSD estava assim a tornar-se numa espécie de nova Roma, cheia de candidatos a Octávio, dispostos a aproveitar a oportunidade que o magnicídio (admito o exagero...) abriria, mas sem ficarem com as mãos manchadas do sangue que a plebe não perdoaria. Como não perdoou a Brutus e aos outros que pensando evitar o cesarismo apenas o consolidaram. Mas tudo mudou de repente com a entrevista de José Pedro Aguiar Branco à Visão. Aí foi anunciado que ele iria tratar de conseguir a convocação de um congresso no Outono, para que da derrota esperada de Menezes nesse momento fosse possível passar a uma nova liderança para a qual com clareza se voltou a disponibilizar. É sabido que sou amigo do antigo ministro da Justiça e que, por isso, este registo de interesses poderá conduzir alguns a pensar que o louvor nasce disso. Nada mais errado, no entanto. O gesto frontal e corajoso pode ser um erro estratégico, mas não deixa por isso de ser uma atitude louvável. Serão inevitáveis os sicários e até louvores podem ter de ser feitos a membros das elites que sacrificialmente irão até às portas do Senado para com um acto trágico tentar evitar uma tragédia. Mas é raro em Portugal que um político, frontalmente, olhos nos olhos, diga a outro que quer o seu lugar e que vai lutar por isso, anunciando até o modo e o tempo da sua acção futura. Há nisto qualquer coisa daquela cortesia guerreira com que há séculos se dizia aos adversários no campo de batalha para dispararem primeiro. Pode realmente ser um erro estratégico. Com este ataque frontal, Menezes ganha pretexto para arregimentar tropas. E pode assim assustar e mobilizar os futuros barões do novo cesarismo com a ameaça do regresso da antiga aristocracia aos lugares, escassos, que já estavam prometidos e começados a saborear. Pode ser, por isso, que o gesto de Aguiar Branco termine sem efeitos, afogado na prudência dos que tremem de coragem. Ou pode ser que outro venha a colher o fruto quando estiver maduro, como de certa forma alguns dizem que Jesus Cristo fez com João Batista. Isso é verdade. Mas também é verdade que José Pedro Aguiar Branco fez o que tinha de ser feito por quem acredita, como ele, que o PSD pode regenerar-se. Por quem acha que este partido pode voltar a ter uma razão para existir, tornando-se numa alternativa real ao PS e fazendo com que o jogo político se faça entre o PS e um partido à sua direita e não entre o PS e partidos à sua esquerda. Com esse gesto, ganhou o direito de afirmar que não é responsável - por calculismo, omissão, cobardia ou diletantismo - pelo que se vier a passar. Penso que, infelizmente, vai fracassar, como vão fracassar as elites do PSD na luta pelo controlo de um partido que mudou de natureza e está inexpugnável a qualquer ideia ou

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estratégia. Eu sei. Mas sempre pensei, como o Cyrano de Rostand "On ne se bat pas dans l"espoir du succès! Non, non, c"est bien plus beau lorsque c"est inutile!" Advogado
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