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20/8/2014

19&20 - Anita Malfatti em Paris, 1923-1928, por Renata Gomes Cardoso

Anita Malfatti em Paris, 1923-1928
Renata Gomes Cardoso [1]
CARDOSO, Renata Gomes. Anita Malfatti em Paris, 1923-1928. 19&20, Rio de Janeiro, v.
IX,
n.
1,
jan./jun.
2014.
<http://www.dezenovevinte.net/artistas/artistas_amalfatti.htm>.

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Disponível

em:

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Anita Malfatti produziu um grande conjunto de obras durante o período em que
morou na França, entre os anos de 1923 e 1928, com uma bolsa de estudos do
Pensionato Artístico do Estado de São Paulo. A realização desses trabalhos foi aos
poucos descrita em cartas que enviou para Mário de Andrade, grande amigo e
interlocutor de Anita Malfatti desde a exposição de arte moderna realizada em
1917. Esses documentos fornecem muitos dados para a análise de sua produção
artística, de acordo com os contextos da arte europeia e da arte brasileira.
Discutiremos nesse artigo alguns de seus trabalhos, suas possíveis referências e
posterior recepção da crítica de arte francesa.
A paisagem foi enfocada por Anita Malfatti desde os primeiros anos de sua
atividade artística. De sua passagem pela Alemanha, entre os anos de 1910 e 1914,
duas pequenas telas revelam o estudo de aspectos do Impressionismo e do Pósimpressionismo, questões que norteavam as discussões dos artistas com os quais
entrou em contato em Berlim, como Lovis Corinth e os artistas da Secessão. Do
período americano, tornaram-se famosas na história da arte brasileira as paisagens
que fez na ilha de Monhegan [Figura 1, Figura 2, Figura 3 e Figura 4], lugar
frequentado por artistas como Homer Boss, seu mentor nesses anos, e seus demais
amigos pintores. Paisagens como O Farol [Figura 1] e O Barco [Figura 2]
revelam o diálogo de Anita Malfatti com paisagistas americanos como Boss
[Figura 5], Robert Henri [Figura 6], John Sloan [Figura 7a, Figura 7b e Figura
7c] e Rockwell Kent [Figura 8].
Uma das primeiras paisagens realizadas já no contexto desse estágio francês retrata
um aspecto de Veneza, cidade visitada no verão de 1924.[2] Trata-se de Veneza,
Canaleto [Figura 9], obra que permaneceu com a artista até o fim de sua vida. A
paisagem apresenta uma vista de um dos pequenos canais da cidade em um dia
ensolarado, no qual a água do canal reflete a gama de cores dos sobrados à
margem e da ponte. A composição apresenta grande síntese das formas e a
distribuição das cores rememora outras abordagens da paisagem de Veneza no
verão, como algumas aquarelas de John Singer Sargent [Figura 10a e Figura
10b], americano que fez uma série de obras enfocando esses canais, as pontes e os
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Canaleto. que apresenta um contorno mais preciso. como pode ser observado em obras como A onda [Figura 3] ou A ventania [Figura 4]. confundindo os limites entre fundo e primeiro plano. Mas concluiu que tinha dificuldade em encontrá-las no caso dos trabalhos de Anita Malfatti. É possível pensar essa relação porque Sargent tinha grande destaque no cenário americano no mesmo período em que Anita Malfatti ali trabalhou. terra e mar. mesmo exagerada. indicada precisamente em uma crítica de arte publicada no contexto da exposição de Anita Malfatti realizada em Paris.[4] O autor começou o comentário sobre essa exposição ressaltando que era uma prática comum entre os críticos de arte buscar as referências do artista ao percorrer sua exposição. mas aponta. Essa ordenação parece ser uma continuidade da pesquisa iniciada em Veneza. no ano de 1926: “Vlaminck” poder-se-ia refletir diante das paisagens da artista brasileira.htm#_edn1 2/17 . uma diferença essencial na estrutura da composição. por Renata Gomes Cardoso edifícios históricos da cidade. [. com cores que se harmonizam em cada elemento da paisagem.. O estudo das cores na composição de Anita Malfatti. de composição lógica e sólida. para outras referências artísticas. No caso específico dessas duas últimas paisagens. que Anita Malfatti aos poucos observou no ambiente francês. O recorte apresentado na paisagem de Anita Malfatti é muito semelhante ao de Sargent. pois estes apresentavam muitas variações de estilo e de assunto. Essas marinhas são compostas a partir de uma perspectiva aérea. mas há. normalmente o mar ou um rio. a perspectiva nessas duas últimas paisagens lembra muito as vistas aéreas das obras de Marquet [Figura 13a e Figura 13b]. as formas foram construídas com cores que se movimentam na tela. como Porto de Mônaco [Figura 11] e Lago Maggiore [Figura 12]. seguindo um gesto rápido de apreensão da imagem.dezenovevinte. diante de suas marinhas. Nas paisagens americanas. De fato. e “Marquet”.] suas telas atraem o olhar por suas cores brilhantes e pela sensação de equilíbrio. Mas os desenhos? Seu caráter único demonstra ser impossível qualquer tentativa de comparação. Esse tipo de estudo com a cor não foi trabalhado em outras obras desse estágio francês..net/artistas/artistas_amalfatti. e a http://www. 1923-1928. parece tentar um retorno à “festa da cor”[3] de retratos e paisagens do período americano. trabalhado com tonalidades de azul e verde.Anita Malfatti em Paris. Que seja. com um grande plano intermediário. não passou despercebida a semelhança com as marinhas pintadas por Albert Marquet. Paisagens realizadas posteriormente. entretanto. englobando céu. por um momento. apresentam um esquema mais ordenado de luz e sombra.20/8/2014 19&20 . com enfoque na pequena ponte e a luz do verão se distribuindo na água e nas casas. sobretudo.

Anita procurou Maurice Denis. além do conceito de pintura decorativa. No caso de Anita Malfatti. muito conhecido naquele contexto. deveriam ser apenas um pretexto para a expressão das ideias. era também grande admirador de Cézanne. como as casas à beira-mar. encostas e vistas da orla. barcos. A vinculação da atividade de Anita Malfatti com uma arte moderna do eixo de certas pesquisas “moderadas”.20/8/2014 19&20 . então em voga na chamada Escola de Paris. antecipa que seus objetivos e projetos. sobretudo as do eixo simbolista e expressionista do contexto francês. dada por elementos em pequenas dimensões.htm#_edn1 3/17 . Ambos artistas se inspiraram. em que o mesmo tipo de perspectiva pode ser observado. ou ainda de ex-fauvistas. pela qual os motivos da vida cotidiana. muita controvérsia entre os próprios modernistas brasileiros.dezenovevinte. ao longo da linha do horizonte. Denis. apareceu constantemente nas discussões sobre arte travada com Mário de Andrade nas cartas que trocaram. observando-se que os grandes contrastes de cores. Denis colocou em foco. De acordo com cartas trocadas entre os brasileiros.net/artistas/artistas_amalfatti. muito usados anteriormente na composição de figuras e das vistas. uma vez que. mas também por vários textos sobre arte que publicou desde fins do século XIX. nesse caso. os trabalhos de Anita Malfatti dessa fase acabaram criando. talvez o trabalho de Cézanne a tenha conduzido à pintura de Marquet. certamente. pelo exemplo de artistas como Maurice Denis e Albert Marquet. nessa etapa de sua trajetória. a ideia de deformação subjetiva da natureza. Esse equilíbrio foi também destacado pelo crítico de Paris-Times ao analisar as paisagens supracitadas. os artistas desse grupo tinham também em alta estima o pensamento sobre arte e os trabalhos de Paul Gauguin. não apenas por sua atuação artística. que fez parte do grupo dos Nabis. já que suas obras circulavam amplamente no meio artístico francês desses anos. se distanciariam de qualquer tendência que poderia causar escândalo ou qualquer controvérsia. por fim.[5] Cézanne. a partir de paisagens como L’Estaque [Figura 14] e Le golfe de Marseille [Figura 15]. que não compreenderam de imediato o novo repertório de referências. em Paul Cézanne para a composição dessas marinhas. por sua vez. nesse mesmo momento. com pinceladas articuladas e contornos muito distorcidos. ou da natureza.Anita Malfatti em Paris. por Renata Gomes Cardoso paisagem ao fundo. A inserção da produção de Anita Malfatti no grupo de “coloristas” é evidenciada pela orientação buscada no início do estágio na França. foram aos poucos substituídos por uma composição equilibrada. 1923-1928. http://www. como acontecera no Brasil com as obras da fase americana. tal qual era debatido entre Anita Malfatti e Mário de Andrade nesse período. tendo Anita Malfatti sempre se referido a ele como o “mestre”. demonstraram buscar relações com questões derivadas do cubismo. Nessas duas últimas paisagens de Anita Malfatti há uma grande mudança de técnica. Contrariamente. árvores. também pelo viés da moderação característica dos anos pós-guerra.

tendo inclusive participado de um atelier de arte sacra. por Renata Gomes Cardoso visões e emoções do artista. ressaltando que esse retrato é da época da convivência de Anita Malfatti com Victor Brecheret e Antonio Gomide. e pela utilização do claro-escuro para dar volume. As obras de Gomide desse período apresentam linhas sintéticas e curvas estilizando as formas das figuras [Figura 21a e Figura 21b]. ao contrário de retratos como A estudante russa [Figura 19] ou A Estudante [Figura 20]. apenas o Interior de Igreja [Figura 16] foi comentado e reproduzido. Mas enquanto Vuillard apresenta detalhadamente a arquitetura do interior da igreja com leves contornos. artista conhecido por sua relação com o Art Nouveau. resultando em um ambiente fechado e condensado. além de ter publicado textos abordando especificamente essa questão. Canaleto ter figurado no Salão do Outono de 1924.Anita Malfatti em Paris. Merece destaque A Japonesa [Figura 18]. pintada em 1924. que dão suavidade ao pequeno recorte da cena. Ressalta-se o vermelho brilhante do quimono. segundo informa uma carta de Anita Malfatti para Mário de Andrade.[9] Essa obra apresenta.[8] Apesar de Veneza. O estilo com o qual transpõe o interior para tela é muito semelhante à construção das paisagens anteriormente mencionadas. com amplas superfícies de cor. Na linha temporal de realização das obras desse estágio entram também os retratos.20/8/2014 19&20 . pela primeira vez na produção da artista. Maria Rossetti Batista fez uma interessante relação dessa obra com as formas do art déco recorrentes no período. Anita Malfatti ressalta os detalhes com tonalidades e linhas pesadas.[7] Essa orientação parece ter frutificado de forma direta nas obras de Anita Malfatti.[12] Tal linha de síntese foi analisada também por Daysi Peccinini.dezenovevinte. motivo que será trabalhado em diversas telas desse período. outro ponto forte da pintura de Anita Malfatti desde o início de sua trajetória. apresenta uma figura composta de maneira sólida. com as áreas claras tratadas em laranja. pois trabalhou a temática religiosa em diversos trabalhos ao longo desse estágio. mas com maior simplificação das formas. a tela não parece ter chamado a atenção da crítica. estruturadas de acordo com as linhas que definem a arquitetura do interior da igreja. nos trabalhos de Brecheret http://www. pois não foram encontrados comentários na imprensa francesa sobre ela.[6] Ele também trabalhou com temáticas religiosas. Das duas obras enviadas ao salão desse ano. dois artistas muito avaliados e comentados a partir da relação com o art déco. 1923-1928. tonalidade que repercute em boa parte da tela. delimitadas por um contorno fino e preciso. Esse interior confirma o interesse de Anita Malfatti pelas soluções dos mencionados Nabis e tem forte semelhança visual com um interior de igreja pintado por Eduard Vuillard [Figura 17].net/artistas/artistas_amalfatti. A cor novamente é utilizada em amplas superfícies. Trata-se de um retrato da pintora Riu Okanouye[10] e. um interior como enfoque.[11] Gomide estudou em Genebra com Ferdinand Hodler.htm#_edn1 4/17 .

Anita Malfatti retomou uma questão muito comum no ambiente artístico europeu desde meados do século XIX: a apreciação da arte japonesa. por exemplo. Vitor Brecheret e Antonio Gomide nesse período. retratou sua esposa em um quimono vermelho. que culminou no conceito de japonismo. As linhas de contorno utilizadas para construir as mãos e o quimono estão muito próximas do esquema formal trabalhado pelos outros brasileiros. que foram.e muitos de Gomide.net/artistas/artistas_amalfatti.htm#_edn1 5/17 .Anita Malfatti em Paris.dezenovevinte. Anita Malfatti já havia demonstrado seu interesse com temáticas orientais na obra A Chinesa. que determinam ao mesmo tempo a estilização da figura. de 1921-22 [Figura 23]. em que a figura é construída pelo “encadeamento de volumes espiralados”. A composição de um cenário com certos objetos e elementos contribuindo para esclarecer a origem da figura retratada foi uma solução utilizada anos antes. n'A Japonesa. já que moraram na mesma rua em Paris. [14] As duas telas se diferenciam no que tange ao tratamento formal empregado.Riu Okanouye -. finalizada em 1917. com objetos característicos. na obra Tropical [Figura 24]. em retratos ou cenas de interior. apontando ao mesmo tempo para um “espírito construtivo”. Retratar uma pintora japonesa . A convivência entre esses artistas fica ainda mais evidente na escolha de assuntos: a questão religiosa motivou muitos trabalhos de Brecheret . como a lanterna chinesa e o vestido. de Van Gogh aos Nabis. poderia ser um elogio de Anita Malfatti tanto às características específicas dessa pintura. que realizou desenhos. cara a muitos artistas. que estaria ligado às fontes clássicas do artista.[15] quanto uma referência direta a artistas que trabalharam o motivo da japonesa.[13] Considerando a proximidade entre Anita Malfatti. na qual a figura é ambientada com bananeiras. A Japonesa demonstra claramente o diálogo de Anita Malfatti com a produção desses dois artistas. como ficou conhecido no contexto francês. ou a sombrinha e o quimono. por Renata Gomes Cardoso realizados no contexto da Escola de Paris e foi entendida como a linha de força que compõe esculturas como La Porteuse de Parfum [Figura 22]. Mas as referências para o retrato d'A Japonesa vão além da proximidade com a estilização art decó proposta pelos amigos artistas. o que era mais conhecido como japonaiserie. pinturas e vitrais de cenas bíblicas. definitivas para transformações artísticas da pintura europeia. n'A Chinesa.em escultura e esboços . cujas próprias obras pareciam retrabalhar algumas das características essenciais da pintura japonesa.[16] Claude Monet.20/8/2014 19&20 . Outro ponto a se ressaltar sobre esse retrato é a proximidade de Anita Malfatti a artistas http://www. com os trajes típicos e outros elementos dessa cultura. além de ter em alta estima as questões plásticas da arte japonesa. 1923-1928. por sua vez. mas em ambas foram utilizados elementos distintivos que poderiam caracterizar a origem da figura. Ao retratar a japonesa em trajes tradicionais. que contribuem para sua contextualização. coqueiros e frutas. sobretudo nas finalizações em formas angulares e curvas.

contornadas por um traço elegante e sintético. sendo muito escuro. 1923-1928. Esse retrato foi também composto com pinceladas curtas. mas com misturas que formam uma massa opaca. na roupa e no colar. em uma imobilidade quase desgastante. sem detalhes. se comparadas com retratos pintados em finas camadas. com um foco de luz . solução muito usada nos seus famosos retratos “americanos”.net/artistas/artistas_amalfatti. como a citada Riu Okanouye e seu marido. o fundo nessa obra é totalmente diferente dos retratos realizados anteriormente. a variação cromática característica dessa tendência.Anita Malfatti em Paris. Nesse retrato há um grande cuidado ao compor o vestido em azul. http://www. Micao Kono. na Dama de Azul construiu a roupa da figura com linhas menos precisas.20/8/2014 19&20 .htm#_edn1 6/17 . Na Dama de Azul são trabalhados também certos detalhes. o que lembra mais alguns retratos do período de 1910 a 1914. o fundo é normalmente colorido e disforme. sem apresentar. com sutis estilizações nas dobras. podendo-se ver neste uma casa branca meticulosamente pintada. A paleta é muito sóbria na composição da figura. Anita Malfatti optou por um esquema compositivo muito diferente daquele utilizado em A Japonesa e retomou a figura retratada na cadeira. o Retrato de Sílvio Penteado [Figura 26]. como no quimono. Na sequência dos retratos realizados nesse estágio. exposta no Salão dos Independentes de 1926. pintado provavelmente entre os anos de 1921 e 1923. Nos retratos “americanos”. o que contribui ainda mais para condensá-la nesse espaço.dezenovevinte. por vezes apenas sugeridos pela trama da cor. em associações que demonstram muitas afinidades com as pesquisas pictóricas de Anita Malfatti. o que atribui maior distanciamento e leveza. destaca-se também a Dama de Azul [Figura 25]. A solução pictórica adotada na Dama de Azul está muito próxima também do esquema utilizado pela artista em uma obra realizada anteriormente no contexto brasileiro. Apesar do cenário em que a figura se encontra ter sido simplificado. por Renata Gomes Cardoso de descendência japonesa durante esses anos. construídas com um contorno pouco acentuado. ou Tsuguharu Foujita. que confere um distanciamento da aparência natural da modelo. mas com uma abordagem quase pontilhista. tal qual nos retratos “americanos” . porém. com o cuidado de não deixar à mostra as marcas do pincel. Nessa obra. minúcias com as quais a pintora não se detinha em obras anteriores.que chega a parecer uma moldura à frente da figura.aparecendo no máximo a lateral da cadeira -. com a modelo olhando fixamente para a esquerda. Se em A Japonesa Anita Malfatti trabalhou longas superfícies lisas. que combinavam em suas obras questões artísticas próprias do contexto parisiense com aspectos da arte japonesa. deixando massas de tinta aparentes. com o contorno da figura e de suas roupas deformado de uma maneira fluida. porém compôs a obra com uma pose muito mais rígida e condensada.

sem a notória rigidez dos traços http://www. Mesmo Cézanne nunca atreveu-se [sic] a tais loucuras. pelo despojamento da pose. características tanto das paisagens como dos retratos “americanos”.20/8/2014 19&20 .dezenovevinte. As experiências pictóricas de Anita Malfatti no estágio parisiense não foram bem entendidas por outros brasileiros. Acabei com o sofrimento e com a dor. pelas comparações aqui sugeridas. com cores naturais e estilizações no contorno da roupa. [sic] tenho a certeza de que gostaria. pois conhecia suas forças e valha a verdade. as razões de abandonar os grandes contrastes e deformações. cujo tratamento pictórico é único na produção desse período. contente. a artista viu nessa solução pictórica um caminho para o seu trabalho com o retrato. larguei de jogar com os grandes contrastes.htm#_edn1 7/17 . Estou nas meias tintas. apesar de percebermos. Provavelmente. tão elogiada por Mário de Andrade ao comentar suas obras. De certa forma.[17] Anita Malfatti tentava explicar para Mário de Andrade os motivos de algumas mudanças em sua pintura. buscando maior correspondência com o modelo observado. se comparada com a Dama de Azul. passada no Brasil. alegre. De forma semelhante ao trabalho com as paisagens. Ao contrário de A Japonesa. característicos da fase americana. que essas obras estavam em sintonia e em diálogo com aquele meio. como Moça com xale [Figura 27] e Retrato de uma cantora (Cigana) [Figura 28]. É mais calma. Moça com xale. cahiu [sic]. envolvidos com outros artistas e outras questões pictóricas. a solução utilizada na Dama de Azul foi retomada por Anita Malfatti em outros retratos. Este último parece ser a obra à qual se refere em uma carta para Mário de Andrade. tem-se a impressão que Anita Malfatti se esforçava para demonstrar ao amigo escritor que as mudanças em suas pinturas faziam mais sentido naquele contexto do que a continuidade do estilo “americano”. A Dama de Azul estabelece dessa forma uma ligação com os retratos da fase imediatamente anterior.Anita Malfatti em Paris. pelo fato de a Dama de Azul ter recebido críticas positivas ao ser exposta no contexto parisiense. Anita Malfatti transformou a paleta. tarantam [sic] e corpete e flores barulhentas”. pois só a um El Greco pode-se permitir tais extremos convenientemente. por Renata Gomes Cardoso quase pontilhistas. Anita Malfatti comentou seu trabalho com o retrato. Em uma carta enviada a Mário de Andrade no ano de 1925. 1923-1928.net/artistas/artistas_amalfatti. passa maior sensação de leveza. de 1924 e 1925: Faço agora portraits bem bonitos que vc. ao mesmo tempo em que abandonou as deformações mais acentuadas e as cores expressivas. um pouco engraçada sem ser cômica nem trágica. há uma ausência completa do elemento dramático. se referindo provavelmente aos dois citados. Faço tudo mais leve: na minha pintura de agora. de 1926: “estou pintando uma bela camponesa russa cheia de fitas.

por Renata Gomes Cardoso da Dama de Azul. nos dizia como percorreu os Estados Unidos e a Alemanha antes de vir para a França.. portanto posteriormente ao Salão de 1926. mas sabem que retornarão a seus países e construirão a casa com os materiais adquiridos entre nós. Srta. provavelmente a lembrança da tela ajudou Anita Malfatti na composição de seu nu Puritas. ao mesmo tempo em que avaliou a atuação e intenção de artistas estrangeiros em Paris: É evidente. a prova de um sincero patriotismo. Uma jovem brasileira. a fim de fazer no Brasil obra de pintor local e tirar partido do folclore e do pitoresco brasileiro. que expõe nos Independentes um interior e um retrato pintados com uma gama muito fina. Vejoos animados por outros sentimentos que o de alcançar a não importa qual preço um pequeno sucesso pessoal. Ponto curioso. o artista “afirma[va] sua vontade de pintar a natureza sob um aspecto harmonioso e radiante. colocando uma sobre o peito e a outra de lado. que ressaltou as qualidades da pintura de Anita Malfatti.] Ficamos impressionados ao encontrar nos discursos de grande parte dos jovens artistas americanos que vêm estudar a pintura em Paris. Dentre as críticas que a Dama de Azul recebeu. André Warnod ressaltou que a tela de Henri Ottman estava “recebendo muita atenção de todos os visitantes do Salão” e que. [.. cujo título é Puritas [Figura 30]. destaca-se a do importante crítico André Warnod na revista Comoedia.htm#_edn1 8/17 . como se vê no título do artigo. A reprodução da obra é bem maior que a do artista Henri Ottman. Eles são nossos hóspedes. Anita Malfatti. ao invés de usá-la para esconder a nudez feminina. mas se enriquecendo com tudo que achava. Esse recurso adotado por Ottman. mas com o título “Portrait”. sem se ligar mais a um mestre que outro. o que fez invertendo a posição das mãos. com um otimismo pleno de sedução”. Warnod fala elogiosamente sobre esse artista ao longo do texto. No artigo. http://www.[19] Puritas foi finalizada em 1927.[18] O artigo é acompanhado pela reprodução da obra de Anita Malfatti. 1923-1928. os pintores estrangeiros que participam da atividade da Escola de Paris. a cultura francesa. que se ache em um Salão como este muitos indícios que permitem julgar o espírito que anima nossos hóspedes. Em vista do sucesso dessa obra de Ottman no Salão e de acordo com o que foi dito por Warnod. escolhido pelo crítico para comentar o Salão dos Independentes. Essa obra foi realizada no momento em que Anita Malfatti comentava muito a observação de obras dos primitivos italianos e flamengos e a questão religiosa. Vejam por exemplo a atividade a que se dedicam os pintores da América Latina e a vontade que eles demonstram ter para afirmar sua existência. se esforçando para apreender o melhor que podia o espírito francês. com ela.net/artistas/artistas_amalfatti.20/8/2014 19&20 . por exemplo. como fez Ottman.Anita Malfatti em Paris. pois existe uma grande semelhança entre essa obra de Ottman [Figura 29] e uma de Anita Malfatti.dezenovevinte.

que também contribui para estabelecer um paralelo entre a produção de Anita Malfatti e as práticas dos Nabis e de ex-fauvistas. espalhados pelos tapetes. dentre outros. com grande riqueza de detalhes. de Henri Matisse [Figura 33] e de Vuillard [Figura 34]. a cena é normalmente composta com algum elemento intercalando os planos. especificamente.20/8/2014 19&20 .Anita Malfatti em Paris. no que tange à representação de nus de figuras femininas. de Florença. outra crítica sobre o Salão dos Independentes fez um comentário sobre esse retrato. que enfocam a intimidade das figuras no ambiente doméstico. No texto. outro crítico comentou o colorido como um dos elementos mais característicos do talento de Malfatti. Comparando com interiores tratados por outros artistas. era uma solução muito comumente usada nas pinturas dos dois grupos citados. a obra de Anita Malfatti é também composta a partir da observação dos detalhes da cena. com elementos decorativos. por conter normalmente uma figura feminina. contendo as duas reproduções. foi cuidadosamente guardado por Anita Malfatti em um caderno de recortes. seja uma porta. o autor afirma que Anita Malfatti se esforçava por fazer uma obra decente.net/artistas/artistas_amalfatti. artistas vinculados aos estilos expressionistas do cenário francês.[23] Outra obra exposta no mesmo Salão dos Independentes de 1926 e muito citada pela crítica. por Renata Gomes Cardoso com algum elemento cobrindo a nudez. foi muito comum na arte ao longo dos séculos. Retornando à Dama de Azul. A obra foi concebida em viagens a Mônaco e a composição foi muito estudada em desenhos preparatórios. também de Botticelli. um nicho reservado e escondido. uma janela ou uma sacada.dezenovevinte. com uma figura se destacando em um cômodo muito decorado. Puritas foi finalizada após uma viagem de Anita Malfatti para a Itália. muitas vezes nua . Em seus interiores. ficando à parte das modas passageiras do momento. O recorte desse artigo publicado no Comoedia. mas finalizou dizendo que ela ainda não havia encontrado definitivamente sua nota[21]. quanto a Madonna del Magnificat são da Galleria degli Uffizi. que conduz o espectador para a cena do interior. o artista parece ter repetido o grande modelo de Botticelli no Nascimento da Vênus. Essa mistura de elementos e figuras na composição da cena lembra muitos trabalhos de Pierre Bonnard [Figura 32a e Figura 32b]. nesse caso. de 1481. é o Interior de Mônaco [Figura 31]. que seguiam http://www.[20] Tanto Nascimento da Vênus. ou seja.e revelada apenas pela sensibilidade e ousadia do artista.[22] Na revista Les Artistes d’Aujourd’hui. obra famosa de 1486. com significativa repercussão na história da arte brasileira. cortinas e papel de parede que fundem a figura com o ambiente na mesma atmosfera.htm#_edn1 9/17 . 1923-1928. além do artigo de André Warnod. a segurança da pincelada e a sensibilidade da artista para o retrato. um espelho. cópia essa comentanda com Mário de Andrade. momento em que fez uma cópia da Madonna del Magnificat. Em outra crítica foi ressaltada a fineza do desenho do rosto e da mão da figura. Coincidentemente. Esse tipo de composição.

Contudo vendi 2 quadros e duas aquarelas.. a data e a seção em que a revista ou jornal pretendia publicá-la. A galeria é bem simpática e bem colocada sem ser uma galeria de nomeada. [.htm#_edn1 10/17 . no contexto da exposição individual de Anita Malfatti. com a cena trabalhada a partir de massas de cores sem contorno.net/artistas/artistas_amalfatti. Todas vivicitudes [sic] são coisas do passado..[25] Anita Malfatti comentava ao final da carta sobre a interessante dinâmica das relações entre críticos de arte e artistas.. por Renata Gomes Cardoso apresentando seus trabalhos nas galerias de Paris. Isto eu julgava ser superficial. e com preenchimento da composição com arabescos coloridos. Abri no dia 20 [. leitura e correção do artista. A aproximação com esses pintores não é dada apenas pela temática (os interiores tratados normalmente com uma figura. Somente que a pessoa que se encarregara de convidar os críticos e apresenta-los.dezenovevinte.[24] Outra obra comentada pela crítica de arte francesa foi La Chambre Bleue [Figura 35]. [. incluindo na carta as datas previstas para cada uma dessas etapas.20/8/2014 19&20 . realizada na Galerie André. Essa obra foi comentada junto com a Dama de Azul nas críticas que a artista recebeu. Algumas cartas pesquisadas no arquivo de Anita Malfatti revelam que muitas vezes o conteúdo da crítica de arte passava pelo crivo do próprio artista. ou seja. as edições solicitavam ainda ao artista.. 1923-1928. se esse o tivesse.] muitos amigos e desconhecidos vieram me cumprimentar. com a qual a artista procurou recriar a atmosfera e o ambiente. por fim. e como se dava a publicação de notas na imprensa sobre os trabalhos e as participações nas exposições. que está além da cópia. Em um dos artigos.para ser http://www. e foi reproduzida em jornais e revistas. a partir da exposição no Salão dos Independentes de 1926.. em novembro de 1926.Anita Malfatti em Paris. A notícia dessa exposição foi passada em uma carta para Mário de Andrade: Fiz minha exposição.] Só sei que diversos desses críticos começam a me visitar e escrever agora que está tudo acabado.. revisão e modificação pelo autor da nota e.] Aprendi a tratar galerias e procurar críticos enfim toda essa parte que acho tão difícil..] Tive 3 visitas de 3 críticos célebres aqui de Paris. 10 vezes mais do que pintar telas. o autor chamou a atenção para o tratamento dos detalhes e para a evocação.. solicitando que o artista fizesse correções ou adicionasse informações antes da publicação. [. Quando isso tudo mais os artigos deveriam ter saído com 15 dias de antecedência. pois revistas e jornais enviavam a redação inicial da nota. exposta a princípio com o título Nu. Também um grande erro meu foi não ter tido uma boa apresentação com um prefácio. um ou outro “cromo” de alguma obra . em uma cena do cotidiano). Escolhi conforme podia pagar. mas também pela abordagem pictórica. Nas cartas lidas. não o fez nem apareceu para o accrochage [sic] nem durante toda a exposição.uma reprodução .

trata-se de um nu. da década de 1920 [Figura 37]. viril. estudos que provavelmente a auxiliaram para compor suas pinturas com figuras femininas. na qual atualizava o amigo sobre os “nomes do momento” do cenário artístico parisiense. partindo do exterior. Em um dos comentários sobre a exposição de 1926.20/8/2014 19&20 . Anita Malfatti trabalhou o tapete e a cortina de forma semelhante à Interior de Mônaco. na Galeria André. devemos destacar três nus que são de um verdadeiro pintor. flagrado na intimidade do ateliê. um crítico de arte francês observou esse destaque que Anita Malfatti deu à figura: De sua primeira maneira. seguido por uma porta ou janela no plano intermediário. Essa solução era adotada e praticada por muitos artistas do cenário europeu nesses anos. levemente arcaico. que participava constantemente dos Salões “modernos” da capital. sobre esse tapete.dezenovevinte. Vale ressaltar que essa artista foi comentada por Anita Malfatti em uma das cartas enviadas para Mário de Andrade. marcados por um humor profundo.htm#_edn1 11/17 . como o do Outono e o dos Independentes. como certos nus de Henri Manguin [Figura 36a e Figura 36b].[27] O recorte colocado no canto do quarto com a janela é muito semelhante também a um interior pintado por Matisse. toda carne e sensualidade.. estudada com uma perspicácia à qual nada escapa . Exemplos dessa abordagem são as obras Chanson de http://www.. 1923-1928.. ela expôs. inclusive por uma artista. com a modelo sentada em frente a uma janela. (Adoraríamos vê-los ornar as paredes de uma casa feita por Le Corbusier) [.os dois outros nus. por Renata Gomes Cardoso publicada junto com o texto. A composição do nu certamente dialoga com outros nus femininos abordados em interiores. muito coloridos e ambientados em interiores ricamente decorados. de uma linha precisa e sintética. mas sem a presença de uma figura ou nu [Figura 39].net/artistas/artistas_amalfatti. ou os de André Derain.] Mas dentre todas essas excelentes pinturas. Um quarto azul. uma mulher.[29] O autor provavelmente se referiu aos diversos nus realizados pela artista nesse período em vários cadernos de desenho. [. no que tange principalmente ao mercado de arte e valores de obras. um quarto fechado. O motivo de mulheres no cotidiano doméstico foi também trabalhado por Anita Malfatti em situação inversa. dois retratos de mulheres muito impressionantes.. vigorosa. ao fundo. Clémentine-Hélène Dufau [Figura 38]. um pensamento convicto.] O desenho é o cálculo exato de seu pensamento. no primeiro plano. remetendo para a sala ou quarto.Anita Malfatti em Paris.[26] Voltando à obra La Chambre Bleue. mas deu maior destaque à figura. com a figura em uma sacada.[28] um tapete preto cheio de estrelas e. alerta. o rosto se dirigindo para a posição do artista ou do espectador.

Lembrariam as bonecas de Lenei [?]. São figurinhas que outra Marie .a Laurencin . no contexto da exposição individual realizada em 1929 em São Paulo. vestidas de azul celeste ou côr-de-rosa e que parecem pintadas com carmim inocente e talco infantil. ou no balcão. São umas mulherzinhas bem mulherzinhas. mas não pintou: escreveu..] também nos quadros de Anita há uma coisinha encantada que meus olhos preferem para nela se espreguiçar e se estirar mais à vontade. Naquele interior a figura foi apenas sugerida ao fundo com as cores. Guilherme de Almeida diz o seguinte: [.]. onde há sempre em tudo “le gout exquis de moindres choses”.dezenovevinte. o cuidado ingênuo do detalhe. foi também muito abordada por diversos artistas do contexto francês. Anita Malfatti explicou a um jornalista a composição de sua Mulher do Pará: Assim chegamos perto do quadro “No Balcão”. já nas obras abordando exteriores.. O enfoque é semelhante ao da figura que aparece no Interior de Mônaco.Anita Malfatti em Paris. escritor e amigo de Anita Malfatti. por Renata Gomes Cardoso Montmartre [Figura 40] e Mulher do Pará [Figura 41]. Um detalhe que aos poucos aparece nas composições de figuras femininas desse período e que terá continuidade em seu trabalho ao longo dos anos seguintes é a característica estilização no rosto. bellezinhas de “nursery”. Esse tipo de composição de figuras em uma sacada.htm#_edn1 12/17 . São quatro ou cinco pinturas claras. a figura ganhou mais detalhes. Talvez porque são coisas que só uma mulher seria capaz de imaginar e fazer.net/artistas/artistas_amalfatti. às estilizações que Marie Laurencin faz em algumas de suas obras. pelo detalhe em arabesco da sacada e pela janela em persiana. logo após o retorno da artista da França. com formas estilizadas. a pintura de Malfatti lembra a famosa obra Le Balcon. em uma longa crítica de arte que escreveu sobre suas figuras femininas. A relação com essa artista francesa.. A uma primeira vista. 1923-1928. uma criatura dessas terras voluptuosas. nesse “traço feminino”. atrás das figuras. muito semelhante.20/8/2014 19&20 . foi percebida e ressaltada por Guilherme de Almeida. numa varanda colonial. é a “Melindrosa”. como essa sua irmã tropical.. um rosto cheio de serenidade. é a “Romântica”. se as bonecas pudessem ter a alma que Anita pôs nas suas “all dolled” criaturinhas.com certeza seria capaz de inventar. Sejam parecidas com os pensamentos de Mimi Pinson. se Mimi Pinson existisse e os pensamentos tivessem forma. São os sentimentos que Marie Bash Kirtseff quis pintar para Bastien Lapage. como numa almofada sensual. o luxo sensorial do acessório [. frescas. Não sei porque... surpreendentes: é “Jenny l’ouvrière”. de Manet. com uma cabeleira original. Em volta. se Marie Laurencin fosse.[30] Também no contexto dessa exposição. por sinal. ao observar-se sua menor dimensão em comparação com o ambiente em que ela se encontra. é “Dolly”. uma mulher dos trópicos. nenhum adorno http://www.

Tive receio que suposessem [sic] que era vontade de amesquinhar a minha pátria. E logo que desembarquei. Tivemos de aportar subitamente a Belém.20/8/2014 19&20 . mostrando-nos “No Balcão”. em grandes madeixas. apesar do cabelo eventualmente indicar.. Cheguei a bordo muito impressionada. 1923-1928. de certas influências que percebemos nela. Malfatti nos mostrou quadros que estão longe de ser insignificantes. apesar de visualmente não ser possível chegar a essa conclusão imediatamente. quando na altura do Equador o navio sofreu desarranjo nas máquinas.[33] http://www. levei-o comigo para uma exposição de Paris. Foi largamente comentado. o que nos fez logo julgar que a pintora não participava das teorias da imoralidade na arte. comecei o quadro.Anita Malfatti em Paris.. [32] ou que tenha ciência da nacionalidade da artista. à mesma hora. E assim o “Femme du Pará” nacionalizou-se.. Retornamos [. Apreciaram-no muito. com os desenhos em cinza muito claro. Ela estava lá..net/artistas/artistas_amalfatti. Gravei na memória aquele rosto fora do vulgar. notadamente na forma que é tratada A mulher do Pará. desde que o interessado consiga relacionar o “Pará” com o Brasil. E essa [observação] não é uma reprovação.que se destaca sobre uma cortina branca. inspirei-me numa mulher que vi no Pará.[31] Se analisada a partir dessa narrativa. Mas aqui resolvi mudar-lhe o nome. alargando-se no alto do crâneo.] apresenta desta vez um novo aspecto de sua originalidade e não se pode negar o caráter. pois sob essa influência. não um pitoresco de fato . Destacava-se entre outros quadros reproduzindo alguns nus. podendo ser de qualquer lugar nos “trópicos”. Poucos dias depois o vapor partia. Os cabelos. Essa obra chamou a atenção da crítica parisiense. Malfatti [. Tinha eu partido do Rio de Janeiro. A expressão do rosto era também extraordinária. para o olhar de um europeu. E baptizei-o com um nome muito simples. subiam-lhe acima das orelhas.htm#_edn1 13/17 . O penteado era original. Concluído.]. de fundo claramente moderno. já que não há indício na obra da nacionalidade da figura na sacada. Aí. tomando a fresca.dezenovevinte. com destino aos Estados Unidos. com uma silhueta pitoresca . Tinha como uma serenidade expressiva.] ao caminho percorrido [pela artista] entre o último envio [Salão de 1926] e as obras tão fortemente influenciadas por Matisse. a tela pode ser entendida como a única desse período a apresentar uma temática ligada ao Brasil.. por Renata Gomes Cardoso [.. E Anita. explicou: Foi o quadro que fez mais sucesso em Paris. de “No balcão”. que se trata de uma figura exótica. aproveitei o tempo para dar alguns passeios pela cidade que desconhecia. Tentei um esboço. no contexto do Salão do Outono de 1927: A Srta. Eu dera-lhe o nome de “Femme du Pará”. E uma tarde. E voltei no dia seguinte. O dado da nacionalidade só pode ser concluído a partir do título. Analisei-a de novo. regressava eu a bordo quando me chamou a atenção a cabeleira de mulher que estava à varanda. a Srta.mas um pitoresco de pintor. como pode calcular pelo quadro.

com uma estilização mais acentuada no que tange às formas das árvores e à montanha. Por esse conjunto de obras aqui analisadas.htm#_edn1 14/17 .20/8/2014 19&20 . Matisse e ao próprio Manet. quando esteve em férias de verão acompanhada de sua família[35]. demonstram uma ligação com suas obras de períodos anteriores. diálogo claramente percebido nos diversos interiores trabalhados nesse período.Vou começar mais dois nus e mais tarde ao menos mais 15 boas telas para por todos os meus quadros em dia prontos para expor. o próprio colorido e a disposição dos elementos. É diferente de todas as telas do Salon [sic]! Conserva porém a maneira dos meus últimos dois anos. fez uma abordagem da paisagem na região dos Pirineus [Figura 42].[34] Além das referências a Derain. Anita Malfatti relatou a Mário de Andrade: Tenho atualmente no Salon d’Automne [sic] “La Femme du Para” e Villa d’Este. se assemelha também a algumas paisagens tratadas por Derain. laranjas e cores terrosas. nus e os retratos. Sobre a exposição Mulher do Pará no Salão francês. ao compor as árvores e o fundo. em perspectiva. Além de Anita Malfatti ter utilizado a mesma paleta de cores. no momento em que este estreitava relações com os cubistas. Penso que você gostaria muito dela. [. Essa suavização estava também de acordo com o clima geral de moderação artística. em pauta no contexto europeu de pós-guerra e que atingiu a produção de diversos artistas. esboçadas nas telas dessa etapa. aos poucos reveladas para seu principal interlocutor no Brasil. que parece ter fixado a paisagem estando em meio às próprias árvores. é possível perceber como ela foi produzindo de acordo com as referências que apontou para Mário de Andrade nas cartas trocadas. Através das obras desse período de Anita Malfatti. Anita Malfatti demonstrou também em imagem a admiração que tinha por Cézanne..net/artistas/artistas_amalfatti. amarelos. relembram Cézanne.. próximo de Aix-en-Provence [Figura 43]. 1923-1928.] A mulherzinha do Pará foi “um tout petit succès” [sic]. Mário de Andrade.dezenovevinte. mas também levado pela admiração por Cézanne. quando procurou suavizar as técnicas com as quais havia se envolvido quando esteve em ambiente americano. A constante http://www. Além do Porto de Mônaco. por Renata Gomes Cardoso O crítico reafirmou a ligação da pintura de Anita Malfatti com a produção de Matisse. O ponto de vista da artista. A paisagem é construída com verdes. A Villa d’Este não tem boa “eclairage” [sic] .Anita Malfatti em Paris. em que procurou se aproximar do esquema de perspectiva aérea de Cézanne. Os trabalhos com os interiores. percebemos que a atividade artística de Anita Malfatti durante o período em que trabalhou na França caminhava de acordo com determinadas preferências. além de apresentarem muita afinidade com determinadas tendências e artistas do contexto artístico francês. durante seu último estágio no exterior. muito usadas por Cézanne nas abordagens do morro de Sainte-Victoire.

EACH-USP. São Paulo. 1923-1928. BESSON.. reafirmando a sua adequação à produção do período. p. Paris. É admirável. 1922. Mário de Andrade ampliou a sua análise: “Na variedade de agora só uma vez Anita Malfatti conseguiu a intensidade expressiva de antes: na figura do Lazaro do quadro n. fugindo sistematicamente dos processos de composição.dezenovevinte. Diário Nacional. 1926. Não assinado.. foi publicado um texto específico sobre Marquet. de figuração mesmo dos Primitivos. Cf. hoje no Museu de Arte Sacra de São Paulo. a mudez sem ridículo do corpo morto. http://www..net/artistas/artistas_amalfatti.] é uma obra que desperta o entusiasmo e a reflexão. veiculado pela Galeria BernheimJeune. imagem 1 e Nota 10. [2] Carta de Anita Malfatti a Mário de Andrade. ‘voltou para trás’. com quase todos” (Cf. com Anita Malfatti. apesar de não terem o mesmo espaço nas questões em debate no contexto do modernismo brasileiro desses mesmos anos. dez. 331. Anita Malfatti. ANDRADE. foi esposa de Micao Kono. Anita Malfatti conseguiu dar para ela um silêncio milagroso: figura viva que traz ainda nos próprios olhos olhando. Edusp. Com efeito. Doutora em Artes pelo IA/ Unicamp e mestre em História da Arte pelo IFCH/Unicamp. 2006. IEB/USP. Mário de. 5 de outubro de 1924. [. é duma intensidade dramática magnífica. Anita Malfatti I. Arquivo Anita Malfatti. Paris: Rouart et J. para descrever o período em que trabalhou nos Estados Unidos. Paris-Times. pelas edições do Cahiers d’aujourd’hui. Caderno de Recortes. [8] Um dos resultados desse interesse pela questão religiosa é a obra Ressurreição de Lázaro. [1912] 1920. 1920. Isso se deu com Picasso.. Marquet. com Franz Marc. 5 de março de 1929). Vatelin Éditions.” (ANDRADE. Essa informação é dada pela autora na catalogação da obra de Anita Malfatti. em manuscritos. 34. Arquivo Mário de Andrade. Nouvelles Théories . Ao que parece. Paris: Éditions des "Cahiers d'aujourd'hui". A técnica se tornou o objeto real das pesquisas dos artistas e da observação dos espectadores. com a reprodução de alguns desenhos e paisagens. Maurice. se trata duma obra perfeitamente calma. [10] Cf. Marta Rossetti. [3] Esse termo foi usado por Anita Malfatti. IEB/USP. indica que seus trabalhos dessa fase circulavam com facilidade naquele ambiente. Diário Nacional. em 1920.Sur l’art moderne. Obra considerável. Mário de. [7] DENIS. 1 nov. 1 sutil que consegue atingir o valor plástico e psicológico dos Primitivos. E vai ser um gozo para todos quantos detestam pintura ‘futurista’ e que diante desse quadro terão ensejo de exclamar que a ilustre pintora. São Paulo: Ed.] Pois no movimento modernista esse fenômeno também se deu. Théories 1890-1910: Du symbolisme et de Gauguin vers un nouvel ordre classique. como o Bulletin da la Vie Artistique. [6] DENIS.htm#_edn1 15/17 . com Boccioni.. nesse quadro a figura de Lázaro saindo da morte. Maurice.20/8/2014 19&20 . com Léger. imagem 2] e pouca informação biográfica ao seu respeito. onde a pesquisa técnica já não é o verdadeiro ‘assunto’ da tela. inclusive no Salão do Outono. Paris. um dos momentos culminantes da pintura contemporânea do Brasil. BATISTA. Vatelin Éditions. George. entrevistas e palestras. 1924. [4] L’Exposition des Oeuvres de Mlle Annita Malfatti. Anita Malfatti no tempo e no espaço. por Renata Gomes Cardoso participação de Anita Malfatti nos salões dessa década. Em uma crítica seguinte. [5] Além de exposições do artista e da reprodução de suas obras em revistas e jornais que circulavam no período. [9] Le Crapouillot.. _________________________ [1] Profa. sur l’art sacré. Paris: Rouart et J. Encontramos algumas obras dessa artista [Nota 10. Essa obra foi comentada da seguinte forma por Mário de Andrade: “[.Anita Malfatti em Paris. de coloração. 21 de novembro de 1928). que funcionava com júri de avaliação das obras. Dra.

]... mas posso dizer agora que vi a harmonia perfeita . 28 mar. que foi posteriormente adquirida pelo Senador. imagem 6] e Tsuguharu Foujita [Nota 10. dentre outros acessórios. USP. 3. sinto de entrar no verdadeiro mistério da pintura .. Cf. 1989. de pequenos ‘chiostros’ [sic] e fontes cheias de chafarizes e de vilas e parques e frutas e ruelas cheias de escadas cheias de moleques e mulheres a cantar.net/artistas/artistas_amalfatti. Cimabue e Giotto o grande. Caderno de Recortes. [13] Cf. 1987. quero dizer que gostei muito mais dos outros afrescos todos laterais.. Tanto andei. Algumas obras de Kono [Nota 10. Au Salon des Indépendants: Ottman. Taisa (org. Tese de doutorado. em 1924. São Paulo: Imprensa Oficial.4. Dessa visita.. SULLIVAN. p. Roma.) Arte Brasileira na Pinacoteca do Estado de São Paulo.o século. of Califórnia Press. SULLIVAN. 2004. 1989. VERNASCHI.] Gosto muito do Derain. XXX Colóquio do CBHA. Edusp. antecipando que queria fazer a cópia da Madonna do Magnificat: “Como deves compreender estou estourando de novidades. [20] Anita Malfatti fez uma primeira visita à Itália. 21 de junho de 1927. BATISTA. [11] BATISTA. IEB/USP. [17] Carta de Anita Malfatti a Mário de Andrade. Marta Rossetti. O conjunto é verdadeiramente fantástico. Livre Tradução. p. imagem 3 e Nota 10. Daysi Peccinini de. que cores Mário.20/8/2014 19&20 . In. Florença. IEB/USP. IEBUSP. relatou da seguinte forma a sua admiração pela arte italiana. imagem 4] demonstram certas afinidades com as obras de Marie Laurencin [Nota 10.. Todo o Beato Angélico. 290. [16] De acordo com Michael Sullivan. Arquivo AM. [. mas acho que a pintura de Michelangelo parece mesmo um tour-de-force feito por um escultor maravilhoso. 209. o triênio de Sucesso instigante à revisão.” Carta de Anita Malfatti para Mário de Andrade. Em Florença achei a pintura que tanto procurava. muito. imagem 7 e Nota 10.dezenovevinte. [14] De acordo com o catálogo organizado por Rossetti Batista. 1923-1928. Amanhã vou à Villa d’Este considerada a mais bela da Europa pelas 100 fontes que contêm. Os artistas brasileiros na Escola de Paris. Gomide. essa definição de japonisme. [. com a utilização de objetos e roupas. Certamente hei de um dia copiar a Madonna do Magnificat. Cosac Naify. [18] WARNOD.] Não morri pela Capela Sistina e decididamente não gostei do ‘Giudizio Finale’ de Michelangelo. 2010. Univ. enquanto japanaiserie se refere mais à criação de um cenário na pintura. que remetem à cultura japonesa. p 146-155..(calor!!!) [.o e 5. Comoedia . Arquivo Mário de Andrade. ALVARADO. Marta Rossetti.. Que são de diversos grandes artistas. André. Arquivo Mário de Andrade. ai. 19 de agosto de 1924. São Paulo: MWM. no contexto desse estágio. Elvira. tendo o casal morado na França durante os anos de 1920. Brecheret: a linguagem das formas. São Paulo: Instituto Brecheret. preciso calar-me.Seção Beaux-Arts. A mais maravilhosa para mim. IEB/USP.Não sei como pintarei quando voltar mas sinto o espírito muito mais fino e mais apto ao equilíbrio das massas a poder compor com mais riqueza. Cit. de ‘afrescos’ de estátuas e mosaicos do 4. imagem 8]. está ligada ao estudo das técnicas artísticas e da questão puramente plástica da arte japonesa. O ‘Mosé’ é extraordinário como também o Discobulo me deixou imensamente comovida o que para mim foi uma enorme surpresa.achei-a nos afrescos do Perugino (Tríptico) [sic] no Cenaculo do Guirlandaio na Capella Medicea afrescada pelo Benozzo Gozzali e nos mosaicos das igrejas antigas maravilhas a mais maravilhas. por Renata Gomes Cardoso também artista. Op.. [19] Carta de Anita Malfatti a Mário de Andrade. 4 de novembro de 1925. p. [15] Cf. imagem 5 e Nota 10.htm#_edn1 16/17 . todo Botticelli. Michael. [12] Cf. Vivia a perder o fôlego em Florença. 2009. The meeting of Eastern and Western Art. 289. comentou da seguinte forma: “Se vc [sic] soubesse o http://www. uma sobrinha de Freitas Valle teria posado fantasiada para a obra. aquilo é que é cor?!!!! Paulo Ucello. Arquivo Mário de Andrade. tanto vi. eis a Itália . PALHARES. Cf. 1926. Brecheret e a Escola de Paris: Trânsitos em descompasso. Tocadora de Guitarra de Victor Brecheret. No ano em que fez de fato a cópia. sossegue.Anita Malfatti em Paris. Michael. responsável pelo Pensionato Artístico de São Paulo.

La Peinture. Cabe ressaltar que na época dessa carta Mário de Andrade havia feito uma viagem ao Norte do Brasil. Assinado Guy. Livre tradução. 5 fev. [24] Idem. Paris. Trabalho das três às sete da tarde com a galeria fechada. Arquivo Anita Malfatti. A artista se confundiu dizendo que a viagem era para os Estados Unidos. Arquivo Anita Malfatti. Anita Malfatti. [29] F.” Carta de Anita Malfatti para Mário de Andrade. Com reprodução do Nu. essa obra foi exposta com o título La Femme du Para. 9 de maio de 1926. [33] Sem título.20/8/2014 19&20 . IEB-USP. Guilherme de. Arquivo AM. 1 dez. Caderno de Recortes. 15 de maio de 1926. Paris. Arquivo Mário de Andrade. [21] Sem especificação de autor. [31] Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti: os princípios estéticos do modernismo nas telas de uma pintora patrícia. IEB/USP. Les artistes d’Aujourd’hui. certamente se referia à viagem para França. 17 de novembro de 1927. e sendo a obra realizada em Paris. [28] O autor menciona “Une chambre bleue”.net/artistas/artistas_amalfatti. 1928. Cadernos de Recortes. 4 de setembro de 1926 e Cauterets. [25] Carta de Anita Malfatti a Mário de Andrade. 11 fev. tendo mandado notícias sobre seu retorno a São Paulo para Anita Malfatti. manuscrito por Anita Malfatti]. [23] Anita Malfatti. 1923-1928. [34] Carta de Anita Malfatti para Mário de Andrade. 1929. [27] Carta de Anita Malfatti para Mário de Andrade. “logo que desembarquei comecei o quadro”. Carta da edição de La Revue Moderne para Anita Malfatti. Arquivo Anita Malfatti. sozinha. 1928. 8 fev. IEB-USP. Annita Malfatti. 23 de dezembro de 1926. 2 fev. [32] Na França. Revue Moderne. sozinha. Arquivo Mário de Andrade. Paris. Arquivo Mário de Andrade. 1929. 15 de abril de 1926. [35] Cartas de Anita Malfatti para Mário de Andrade. 19 jan. Lourdes. Florença.dezenovevinte. 1929. por Renata Gomes Cardoso que estou fazendo aqui! Copiando a Madonna do Magnificat de Botticelii. Revue de l’Amerique Latine. Nos primeiros dias fiquei acanhada com um medão que Botticelli me visse a fazer gafes diante da “Magnífica”. IEB-USP. não assinado. http://www. E vc que não vem ver este supremo milagre de pintura humana. 17 de novembro de 1927. 19 de setembro de 1926. Diário nacional. IEB/USP. em cartas de 26 de outubro de 1927 e 26 de dezembro de 1927. [30] ALMEIDA. IEB-USP. Seção “Sociedade”. IEB-USP. Caderno de Recortes.Anita Malfatti em Paris.htm#_edn1 17/17 . De acordo com a descrição que fez. 1927. Arquivo Anita Malfatti. Paulo. O Estado de S. IEB/USP. 21 de junho de 1927. M. [22] Anita Malfatti. [Revue [?] Demeure [?]. Les Arts. [26] Carta da edição de Les Artistes d’Aujourd’hui para Anita Malfatti. o que provavelmente inspirou a artista para trocar o nome da obra de Nu para La chambre bleue.