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PÚBLICO•QUINTA-FEIRA, 20 NOV 2003

EURO 2004 E SEGURANÇA NOS ESTÁDIOS

A vinda de milhares de adeptos ingleses a Portugal por ocasião do Euro 2004 é motivo de preocupação e os preparativos já estão a ser feitos. O PÚBLICO falou com autoridades portuguesas e inglesas, que traçam um cenário positivo de antecipação à chegada dos adeptos ingleses

Ingleses apostam na segurança e numa boa imagem para 2004
DANI CARDONA/REUTERS

JOÃO TOMÉ

“A experiência de um dia de jogo envolverá com certeza a passagem por um ‘pub’ [bar], conversar em voz alta e contar anedotas, cantar e, sem dúvida, beber muita cerveja.” Será assim o dia do típico adepto inglês de futebol, descrito por Kevin Miles, responsável da Football Supporters Federation, a federação inglesa de adeptos de futebol, que os portugueses podem esperar encontrar durante a realização do Euro 2004. A reputação de “hooliganismo” associada muitas vezes aos adeptos ingleses é uma imagem que grupos de fãs, Federação Inglesa de Futebol (Football Association) e autoridades inglesas querem apagar de vez, procurando, através da prevenção, minimizar o risco de violência. Apesar de ser cedo par estimativas p cisas, o Home Office (Ministério inglês da Administração Interna), aponta para um número provisório de 50 mil adeptos que deverão vir a Portugal para verem a sua selecção (estimativa que poderá aumentar consideravelmente) e mais de 200 mil ingleses que estarão nessa altura em Portugal de qualquer forma, sendo que muitos destes poderão também aproveitar para ver a sua selecção em acção. Paul Barber, responsável da Federação Inglesa, defende que “nem todos os adeptos ingleses são ´hooligans` e, por isso mesmo, haverá um esforço para melhorar a imagem de Inglaterra e dos ingleses, porque o que se vai passar em Portugal é um torneio de futebol, e não deve atrair violência”, disse ao PÚBLICO. Este dirigente, que acompanha e costuma ser o porta-voz da selecção inglesa, demonstrou um grande optimismo em relação ao Euro 2004: “Vai ser um evento num país muito popular para os adeptos ingleses, já que é um destino turístico e são muitos os ingleses elegem o Algarve para férias. E com o Euro aproveitarão ainda mais.” Esta aposta em impedir que adeptos problemáticos criem problemas, levou o Ministério

do Interior inglês a coordenar, com a ajuda de autoridades portuguesas, “aqueles que serão os preparativos mais vastos de sempre para a participação da Inglaterra (e possivelmente do País de Gales e Escócia) num torneio europeu”, disse ao PÚBLICO Hannah Gardiner, porta-voz do Home Office. Legislação de prevenção É neste contexto que as autoridades do Reino Unido vão pôr em prática a sua “apertada” legislação para os adeptos de futebol violento — a chamada “banning order” (ver P&R) —, e com esse mecanismo esperam prevenir a entrada de “hooligans” em Portugal. Existem actualmente 1800 indivíduos nidos dos estáios ingleses ao abrigo daquela restrição, e de acordo com o Governo britânico, antes do torneio omeçar terão apresentar-se larmente num departamento policial e de entregar os seus passaportes, de modo a evitar a sua vinda para Portugal. Para as autoridades daquele país, “só assim se pode impedir que os ‘hooligans’ estraguem o evento para a população portuguesa e para os milhares de turistas futebolísticos ingleses e de outros países”. Para isso, durante o torneio estará em Portugal uma equipa experiente da polícia inglesa a ajudar a homóloga portuguesa, quer com os “Spotters”, quer com oficiais no Centro Coordenador de Informação Policial (CCIP). Encontro na embaixada A 15 e 16 de Outubro últimos, na Embaixada Britânica em Portugal, realizou-se um encontro sobre os preparativos para o Euro 2004 tendo em vista o elevado número de adeptos britânicos que se espera que venham a Portugal. Inicialmente houve um encontro consular que envolveu também associações de adeptos e diversas autoridades portuguesas e inglesas. Mas um seminário ali realizado constituiu uma oportunidade para organizações britânicas (associações de adeptos, autoridades policiais, Federação Inglesa de Futebol) e a maioria das

autoridades portuguesas envolvidas na preparação do Euro 2004, partilharem experiências e informações sobre os preparativos de segurança para campeonatos internacionais de futebol e as variadas formas de lidar com multidões. Paul Barber, da FA, considera que a etapa de troca de informações “foi muito benéfica, e tendo sido apenas a primeira oportunidade para conhecermos os nossos colegas de Portugal, outras haverão”. Segundo informação da secção de imprensa da embaixada britânica, serão necessários recursos adicionais antes de Junho de 2004. Porém, a próxima fase de preparativos para o Europeu de futebol a nível da representação diplomática dependerá, essencialmente, do resultado do sorteio final. As autoridades portuguesas A partilha de informação e a cooperação com autoridades inglesas tem-se verificado de forma intensa, muito devido à disponibilidade e interesse dos ingleses. A Comissão de Segurança para o Euro 2004 está a fornecer informação específica sobre Portugal e as suas leis, a associações de adeptos e autoridades inglesas. Entretanto, as autoridades inglesas vão facultar as listas e bases de dados já criadas — como é o caso das “banning orders” — às autoridades portuguesas. “Já iniciámos contactos bilaterais que foram particularmente significativos com o Reino Unido, mais pela disponibilidade das autoridades inglesas e pelo interesse que o Euro desperta por lá e também pelos antecedentes de violência que vamos procurar minimizar” explicou o coordenador do CCIP (ver P&R), subintendente Ismael Jorge. Nuno Magalhães, secretário de Estado da Administração Interna, acredita que tudo vai correr bem e considera que existe uma excelente relação com as autoridades inglesas: “Tive oportunidade, numa visita a Inglaterra, em Setembro, de falar com a minha homóloga inglesa, Carolyn Flint, sobre segurança, para além de ter feito múltiplos contactos com todas as forças e serviços de segurança.” ■

A Federação Inglesa de Futebol quer apagar de vez a reputação de hooliganismo

DA D O S As cidades De acordo com o Census de 2001 (INE), são estas as populações residentes nos concelhos das cidades anfitriãs do Euro 2004 Braga – 164.182 residentes Porto – 263.131 Guimarães – 159.577 Aveiro – 73.335 Coimbra – 148.443 Leiria – 119.847 Lisboa – 564.657 Faro – 58.051/Loulé – 59.160 As previsões 1,2 milhões de lugares disponíveis para espectadores, acrescido do número de visitantes, atletas, “staff”, jornalistas e organização. 1400 postos de trabalho criados directamente pela organização 6 milhões de euros de receitas referentes a direitos comerciais 10%) 350 mil adeptos de futebol estrangeiros que virão assistir aos jogos. Esta é uma estimativa da UEFA, antes dos resultados dos “play-off”. O ICEP, que faz a promoção do Euro 2004, pretende conseguir que 500 mil “turistas futebolísticos” venham a Portugal. 4 dias de estadia média, previstos para cada visitante estrangeiro 220 mil adeptos estrangeiros foram ao Euro 2000, que se realizou na Holanda e na Bélgica. A estadia média foi de 1,2 dias por pessoa. A segurança O Orçamento do Estado no apítulo 50 (PIDDAC 3/2004) destinou um valor global de 16,63 milhões de euros que se destina a aquisição de equipamento para as Forças e Serviços de Segurança (FSS). Material a adquirir: cinotecnia (canídeos, canis, etc); protecção e segurança do pessoal (fatos protectores, “sprays” gás pimenta, capacetes e escudos); transporte (viaturas de comando e de cinotecnia)