Prevenir a violência com cooperação e informação

A forma como a segurança de portugueses e estrangeiros será assegurada é uma preocupação, na medida em que todos os serviços portugueses vão ser, especialmente nas cidades anfitriãs e centros de treino, afectados pela quantidade de adeptos que virão a Portugal. Para a segurança nacional durante o Euro 2004 foram criados mecanismos excepcionais de segurança que procuram, através da cooperação, estar mais bem informados e acima de tudo prevenir. Existe uma Comissão de Segurança para o Euro 2004, que está na dependência do Ministério da Administração Interna, um Centro Coordenador de Informações Policiais (CCIP) e as Células Locais de Informações Policiais (CLIP) — ver Perguntas & Respostas. No que diz respeito ao perímetro interior dos estádios, a segurança é coordenada pela Sociedade Euro 2004 SA e está a cargo de segurança privada, dos assistentes de recintos desportivos (Stewards) e voluntários. “Nem todos são hooligans” Para o secretário executivo da Comissão de Segurança, Paulo Gomes, a grande mensagem inicial é a de que “os adeptos estrangeiros não são todos maus, a grande maioria deles são pessoas ordeiras e civilizadas”. “Os verdadeiros ‘hooligans’ são uma ínfima minoria e não podemos tomar a parte pelo todo, senão vamos ter ainda mais problemas e prejudicar uma mais-valia do Europeu, o turismo”, acrescentou Paulo Gomes. A cooperação policial é prática na Europa em vários domínios e para o secretárioexecutivo o Europeu vai usufruir dessa cooperação: “A segurança do Euro 2004 diz também respeito a todas as polícias dos países envolvidos no evento.” A prevenção é assim uma das principais estratégias que as autoridades estão a desenvolver. Mas, e se houver um confronto/ problema? “A polícia está a ser treinada através de acções de formação entre a PSP e a GNR (por vezes em conjunto) e contamos com o apoio de Inglaterra, Holanda, Bélgica e do Cepol [Colégio Europeu de Polícia]”, diz Paulo Gomes. O secretário de Estado da Administração Interna, Nuno Magalhães, contou ao PÚBLICO que a segurança do Euro 2004 “está a ser encarada de forma séria”: “O trabalho que está a ser desenvolvido é no duplo pressuposto: todos os jogos são do mais alto risco, embora existam uns de maior risco do que outros, por exemplo, um Alemanha-Inglaterra), e de todos terem lotação esgotada.” Convenção Schengen Para uma segurança mais eficaz no decorrer do Euro 2004, Paulo Gomes defende que o fundamental é ser o mais preventivo possível e “com duas barreiras, a do país de origem e de chegada [Portugal], existe uma maior prevenção e dissuasão”. Além disso, países como a Inglaterra e a Alemanha têm listas de adeptos com antecedentes violentos, que vão ser entregues às autoridades portuguesas, e é certo que a reintrodução dos controlos fronteiriços nacionais, prevista em casos excepcionais na Convenção de Schengen, permitirá controlar e impedir a entrada desses adeptos violentos em Portugal, e facilitará a sua rápida extradição. De acordo com o disposto no artº 2º, nº 2, da Convenção de Aplicação do Acordo de Schengen, por razões da ordem pública ou de segurança nacional um dos países do espaço Schengen, onde Portugal está incluído, pode decidir pelo restabelecimento de fronteiras. Neste contexto, para o secretário de Estado, Nuno Magalhães essa hipótese é encarada como provável e o Euro 2004 constitui uma forte justificação para se accionar essa cláusula excepcional. O SEF tem quase pronto um documento sobre esta situação que depois será presente aos organismos envolvidos e em última instância ao primeiro-ministro. Coordenação internacional “A Comissão de Segurança, o CCIP [ver Perguntas Respostas], através de uma cooperação policial internacional, vai disponibilizar informação de dados policiais, como movimentos de adeptos e grupos de pessoas no geral”, explicou ao PÚBLICO o coordenador do CCIP, subintendente Ismael Jorge. Este centro nacional de informação policial que envolve a nível operacional a PSP e a GNR, está já em fase de constituição efectiva (já tem sede em Lisboa, perto da Assembleia da República) e em Abril do próximo ano deverá estar a funcionar em pleno, recolhendo e transmitindo informação. “A nossa principal fonte de informação sobre a deslocação dos adeptos são os oficiais de cada um dos países, uns estarão no CCIP outros no terreno [os “spotters”], referiu Ismael Jorge. E acrescentou: “É fundamental na prevenção a actuação dos ‘spotters’,

SEGURANÇA COORDENADA
“Os verdadeiros ‘hooligans’ são uma ínfima minoria e não podemos tomar a parte pelo todo, senão (...) vamos prejudicar uma mais-valia do Europeu, o turismo” “A segurança do Euro 2004 diz também respeito a todas as polícias dos países envolvidos”
PAULO GOMES secretário executivo da Comissão de Segurança

D E S TA Q U E

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PÚBLICO•QUINTA-FEIRA, 20 NOV 2003

DESMOND BOYLAN/REUTERS

pois têm o conhecimento aprofundado dos adeptos dos seus países.” Em coordenação com o centro nacional vão existir os CLIP, um em cada cidade anfitriã, da responsabilidade dos comandos da PSP e GNR, que recolhem e transmitem informação de e para o centro nacional, não se excluindo nesta cooperação a informação de outros locais, nomeadamente centros de treino. De acordo com o subintendente Ismael Jorge já foram feitos vários contactos com as polícias das selecções apuradas e com as outras dez que discutem o apuramento, e haverá cada vez mais encontros com as autoridades desses países. A segurança em Portugal destinada ao Euro 2004 tem estes mecanismos que procuram fazer da informação e prevenção a principal arma contra a violência. “Contamos com a imprensa para divulgar o tipo de trabalho que está a ser feito, para que as pessoas percebam que existem autoridades a preparar com cuidado a segurança do Euro 2004”, contou ao PÚBLICO o coordenadorgeral da Comissão de Segurança, Leonel de Carvalho. ■ JOÃO TOMÉ

“A Comissão de Segurança, o CCIP, através de uma cooperação policial internacional, vai disponibilizar informação de dados policiais, como movimentos de adeptos e grupos de pessoas no geral”
ISMAEL JORGE subintendente e coordenador do CCIP

Na Rua Castilho, em Lisboa, num edifício antigo onde estão alguns escritórios do Ministério da Administração Interna, o gabinete da Comissão de Segurança para o Euro 2004 destoa do resto do edifício, demonstrando boas condições para receber autoridades portuguesas e estrangeiras (não está aberto ao público), tendo em vista a cooperação e a coordenação operacional. O secretário de Estado Nuno Magalhães explicou ao PÚBLICO: “Num plano político existe uma macroestrutura, e depois, num plano mais técnico e operacional existe a Comissão de Segurança, criadas pela mesma resolução do Conselho de Ministros, onde estão representadas todas as forças, servixços e organismos de segurança, bem como as duas sociedades: Portugal 2004 e Euro 2004. A Comissão de Segurança é um órgão que no fundo põe todas as forças a conversarem sobre matérias que cada uma delas no seu interior desenvolverá.” Esta acabará por coordenar a actuação dos diversos organismos e entidades que contribuem para a segurança global do evento, em vertentes distintas como a segurança pública, a segurança privada (a cargo da Euro 2004, SA), a segurança passiva (bombeiros, Protecção Civil e INEM) e a segurança estrutural e tecnológica (a cargo da Portugal 2004 SA). Ao nível do direito internacional, além da Convenção Europeia sobre a Violência dos Espectadores, do Conselho da Europa (ver P&R), a comissão toma também como referência os recentes normativos da UE sobre cooperação policial internacional em matéria de troca de informações sobre futebol. J.T.

As iniciativas
Existem outras iniciativas no âmbito da segurança que ou são mais específicas, estão numa fase embrionária, ou constituem meras hipóteses
SEI (Sistema Estratégico de Informação interliga as forças de segurança) O Europeu de futebol constituirá a maior operação concertada entre as polícias portuguesas e as congéneres estrangeiras. Um sistema de comunicações da PSP totalmente novo, designado de Sistema Estratégico de Informação, Gestão e Controlo Operacional (SEI), que vai ter a primeira fase concluída a tempo do Euro 2004. Este sistema vai permitir uma troca de informação em tempo útil com outras forças de segurança, nomeadamente o SEF, a PJ e também GNR, SIS e Polícia Marítima. O SEI permite racionalizar os procedimentos da PSP e facilitar a troca de informação com as outras forças Assim se poderá estandardizar e normalizar a informação policial a nível nacional. Comissão de Segurança em Berlim para trocar informação Secretário executivo da Comissão de Segurança para o Euro 2004, Paulo Gomes esteve desde dia 5 até dia 9 de Novembro em Berlim, para transmitir e recolher informação sobre adeptos alemães e explicar os mecanismos de segurança que Portugal está a usar, para ajudar as autoridades alemãs na preparação do próximo Mundial em 2006, que vai decorrer na Alemanha. Trauma Room enriquece tratamento médico Inserido no Serviço de Urgência do Hospital S. José, o Trauma Room (TR) é o único serviço a sul do rio Douro que está apto para servir como cobertura o Euro 2004. Este serviço tem 24 horas por dia um médico de cirurgia geral, uma enfermeira e dispõe de todas as especialidades médico-cirúrgica necessárias ao tratamento de doentes traumatizados. O TR dispõe de três salas de recepção e reanimação imediata e equipamento adequado, permitindo a execução de todos os tipos de intervenções de extrema emergência. O serviço de TR é destinado, essencialmente, a vitimas politraumatizadas, motivado por quedas, acidentes muito graves e agressões (com armas brancas ou de fogo), afogamentos, queimaduras e outros. Serve na zona de Lisboa, abrangendo partes distintas que vão desde a Lourinhã até Faro. É considerado pelos responsáveis como um espaço indispensável, pela qualidade humana e técnica, que constitui no país e particularmente na zona metropolitana de Lisboa, e por ser uma mais-valia enriquecendo os meios de segurança que irão rodear o Euro 2004. Equipa interministrial para assuntos de saúde A preocupação do Governo com os aspectos da saúde durante o Euro 2004, que inclui questões de protecção contra o bioterrorismo, levou três ministérios — Saúde, da Juventude e Desportos e da Administração Interna — a criar a Comissão de Acompanhamento Saúde Euro 2004, através de um despacho conjunto publicado a 4 de Novembro. Numa primeira fase, esta comissão contará com 16 elementos e será uma espécie de “suporte” às medidas a criar para a área da saúde do Euro 2004. Desta equipa emanará uma mini-comissão executiva de sete elementos que, no terreno, irá acompanhar todas as operações e medidas na área da saúde. O facto de o Europeu de futebol trazer a Portugal largos milhares de visitantes de vários países agudizou as preocupações em matéria de protecção contra eventuais ataques terroristas com agentes biológicos. Por esta razão, de acordo com a agência Lusa, houve um reforço de verbas na Direcção-Geral da Saúde, para aumentar a capacidade laboratorial que está preparada para diagnosticar a varíola. ■ J.T.