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Walter B. Pitkin

Breve introdução à história da estupidez humana

Walter B. Pitkin Breve introdução à história da estupidez humana Capa extraída de <a href=http://www.livrosdificeis.com.br/ " id="pdf-obj-0-6" src="pdf-obj-0-6.jpg">

Capa extraída de

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Walter B. Pitkin

Breve introdução à história da estupidez humana

Do original ianque

A short introduction to the history of human stupidity

Tradução de Edison Carneiro

Editora Prometeu Caixa postal 4793 São Paulo

Direitos exclusivos em língua portuguesa (Brasil, Portugal e colônias) da editora Prometeu

Printed in Brazil

Este livro foi composto e impresso nas oficinas da Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais Ltdª, rua Conde de Sarzedas 38, São Paulo, prà editora Prometeu, em outubro de 1943

O livro foi escrito em 1932 (nota do digitalizador)

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Quanto aos objetivos deste livro

Poderoso, com os músculos dos séculos, vibra sua grande enxada e ri à terra com o vigor das idades sobre a face, carregando nas costas o leve fardo do mundo. Quem fez os êxtases e os contentamentos simples desta criatura muito poderosa prà tristeza ou prà esperança, sólida e chã, irmã mais velha do símio? Quem desprendeu e deixou cair esse maxilar brutal? De quem foi o sopro que produziu uma breve centelha em seu cérebro? Esta é a coisa que a Natureza fez e deu pra lutar com terras e mares não conquistados, pra cavar, rachar lenha, combater por ti e por mim, que acompanhamos as estrelas, que estudamos o céu buscando poder e alimentando ilusão de eternidade. Assim sonhou a Natureza quando deu forma aos sóis e marcou seu caminho na amplidão antiga. Em todos os planetas do universo cheio de estrela não há forma mais transbordante de esperança que esta, o mais eloqüente estratagema da Natureza, que se move sem pensamento e sem plano, invisível. Nenhuma forma há mais prometedora de Espíritos superiores, a cujo lado eu e tu somos símios.

Nota do digitalizador: Tendo em vista a diferença de nomenclatura numérica (Nas Américas 1 bilhão = 10 9 enquanto na Europa a mesma quantia é chamada mil milhões), pra evitar confusão, troquei os termos bilhão por 10 9 . Onde a palavra bilhão ou bilhões aparecer em forma genérica se entenda 10 9 .

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Então

olhamos e vimos, não muito distante, a terra em que habitavam os ciclopes. E vimos a

... fumaça subindo e ouvimos a fala de homens e o balir de carneiros e de cabras. Então veio o pôr-do-sol e a escuridão. Ali dormimos mas quando madrugou reuni meus homens e disse:

Descansai aqui, caros camaradas, enquanto, com meu navio e meus homens, verei que homens são esses. Se selvagens, cruéis e ignorantes do direito ou amáveis com os estrangeiros e tementes aos deuses.

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Índice

Prolegômenos

Ingresso

Motivos

Azorrague

Encargo

Labirinto

Tabu

Palavras

Limite

Arcada

Ciclopes

Ciclos

Acesso

Primogênitos

Vagabundo

Irlanda

Calor

Umidade

Alimento

Cansaço

Moléstia

Drogas

Matador

Espanha

Idade

Nichevo

Psique

Moros 1

Espectro Síntese Elementos Semi-cego Semi-surdo Fantasia Devaneio Faz-de-conta Reflexão lógica

a - Espaço-tempo

1 Moros era o deus da sorte e do destino, filho de de Caos e Nix, a Noite. Conhecido como Destino. Representado como uma entidade cega. Sem ver a quem reservava no futuro, seu caráter era o da inevitabilidade. Tudo e todos, incluindo deuses e mortais, lhe estavam subordinados. Nota do digitalizador. Extraído de Wikipedia

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b - Matemática

Imaginação criadora Arquiteto Linguagem Gramática Chinês Banto Negro

Processo

Luz direta Parvo Níveis Raio de ação Introvertido Extrovertido Beato Fanático Liberal

Kerensky

Ego

Whitman

Glória

Itália

Unilateral Rapidez Atraso Persistência Em ação Dominação Napoleão Criminoso Medo Tímido Condescendência Submissão Soldado Derrotados Austríaco Inércia Cupido Autonomia

Pseudopatéia

Psicagnóia

Simpatia

Mentalidade

Sexo

Contra-sensos

Aparências

Hábitos

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Contatos

Caos

Caos

Roma

França

Grã-Bretanha

América

Dinheiro

Pai

Professor

Advogado

Político

Militar

Tecne

Telos

Amanhã

Jivanmukti

Libertação

Super-Máquinas

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Informe ingens cui lumen ademptum 2

Ππολεγομενον

Prolegômenos

2 Monstrum horrendum, informe, ingens, cui lumen ademptum [Virgílio, Eneida, 3.658] Um monstro horrendo, disforme, enorme, ao qual falta um olho. Se trata do ciclope Polifemo. Dicionário de expressões e frases latinas. Compilado por Henerik Kocher. Nota do digitalizador.

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Ingresso

Motivos

or que se abalançaria, um dos poucos otimistas incorrigíveis que ainda restam no
mundo, a empreender uma Breve introdução à história da estupidez humana? Será vã a aventura e o aventureiro mais estúpido que os demais? Não. Pois a raça humana chegou a um impasse do qual só pode escapar via estudo de seus defeitos e imperfeições. Somos senhores da terra, do ar, do fogo e da água. Voamos mais rapidamente que os pássaros. Mergulhamos nos abismos. Perfuramos as montanhas e reduzimos as florestas a nada. Sobre a natureza exercemos poderes mais vastos que os que nossos antepassados imaginavam nos deuses. Mas somos deuses? Nem tanto! Demônios, talvez. E da terra fizemos o Pandemônio. Pra cada bilhão, em riqueza, que os homens engenhosos acrescentaram nossa parte, outros homens destruíram 10 9 , às vezes em riqueza, às vezes em valor humano, por meio de guerra, trapaça, especulação, jogo, fraude, chicana, praga, mentira, ultraje e, acima de tudo, estupidez mortífera. Pois toda maneira, descoberta por algum pensador, pra tornar baratas as mercadorias, tem sido explorada, defraudada e mal conduzida, de maneira colossal, por outros sem imaginação, de modo que, quanto mais rapidamente a riqueza se acumula num ponto, a decadência e a miséria abundam noutros pontos, em proporção harmoniosa. Enquanto o plantador de algodão do Texas morre de fome porque seu campo não o pode alimentar em virtude de sua abundância, o coli de Hankow 3 anda nu. Enquanto o fazendeiro de trigo do Cansas deserta seus pagos e vaga, com suas panelas e crianças, até a cidade mais próxima pra conseguir dez réis de mel coado, montes de trigo estão abandonados sobre as grandes planícies. Enquanto os banqueiros se queixam de ter excesso de dinheiro parado nos cofres, se recusam a emprestar um dólar a empresas meritórias. Enquanto as fileiras dos sem-trabalho aumentam, os governos gastam dezenas de milhões de dólares, diariamente, em canhões, bombas e couraçados. Enquanto aumentamos os fundos à educação, construímos edifícios escolares cada vez mais magnificentes e formamos professores cada vez mais intensivamente, os alunos estudam e aprendem menos e se tornam maus cidadãos, presa fácil pràs maltas de bandido, pràs fileiras de criminoso, e perene mercado pràs atividades mais indignas. Enquanto os negócios se processam cada vez com mais rapidez, os empregados devoram mais e mais morfina, cocaína e heroína, até que nós, ianques, chegássemos à eminência de usar mais narcótico que qualquer outro povo. Algumas combinações de motivos, percepções e métodos custou, dizem os estatísticos, todo ano, somente em nosso país, o equivalente de 25.000.000.000 ou 30.000.000.000 de dólares em dinheiro, tempo, saúde e felicidade perdidos, somente através dos canais da indústria, distribuição e finança. Desde que fizemos regressar nossos soldados da Europa, em 1918 perdemos ou gastamos, assim, uma soma suficiente pra comprar todas as ferrovias, inclusive terras, trens, trilhos e estações, e todos os navios, todas as fábricas, armazéns, fazenda instrumentos, máquinas, utensílios, automóveis, cavalos, vacas, carneiros, porcos, galinhas, usinas elétricas, telefones e ladrilhos atualmente existentes neste Eua. Entre a Guerra Civil e a Guerra Mundial, inclusive, nossos pais e avós (auxiliados e instigados pelas fêmeas da espécie,

3 Hankow (Boca do Han) - Grande centro comercial da porção mediana do império chinês. Desde 1858 um dos principais lugares aberto a comércio exterior. China Overseas Land & Investment Ltd (COLI ou a companhia), possível origem do termo coli. Nota do digitalizador

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não há dúvida!) dissiparam, da mesma sorte, o suficiente pra equipar a metade da Europa com residências, estradas e fábricas. Pois, apesar de nossa bazófia de eficiência e de riqueza, só somos pouco mais de 25% tão eficientes e ricos como seríamos se... Se o quê? A resposta revela os motivos do presente inquérito. Se nossos chefes políticos, negociantes, banqueiros, eleitores e nós mesmos, em geral, tivéssemos sido apenas melhor informados, mais bem educados, menos tristes, menos receosos, menos gulosos, menos envenenados pelo jogo, mais previdentes e mais completamente conscientes da espécie de mundo em que habitamos e do povo que aqui vive, poderíamos ter feito muito mais com nossas incomparáveis oportunidades. Poderíamos não estar, agora, afundando nos mesmos caminhos cediços e inúteis do velho Mundo, que, à proporção que afundamos, se dirige, como um animal cego e ferido, cada vez mais a baixo, até os pântanos da Ásia. Haverá alguém que o negue? Se há não o conheço. O mundo se imagina errado porque os povos são errados. O que há? Falta de religião? Má educação? Emoções perversas? Má saúde? Tradições vazias? Corrupção de costume e de maneira? Superstição? Pobreza? Ignorância? Glândulas endócrinas funcionando mal? Uma obscura tendência nas mutações e nos cromossomos? Ou algo que ninguém suspeitou até agora? Certamente, alguém deve responder à pergunta. Enquanto não esclarecermos a natureza, os impulsos e as causas de nossas muitas faltas, não as poderemos remediar e continuaremos a ser médicos receitando, cegamente, a pacientes que nunca vimos. Portanto, declaro eu, o próximo empreendimento da raça humana deve ser a análise de si própria. E isso deve começar com a busca às influências predominantes na destruição e decomposição da ordem econômico-social. Enquanto os banqueiros e os magarefes investigam a renda e a superprodução dos açougues, os que se interessam pela natureza humana devem investigar suas contribuições peculiares às desgraças deste século 20. Poderíamos ter iniciado nosso inquérito estudando a ignorância humana, a má- vontade ou algum dos erros que têm raiz nas instituições sociais. Preferimos, entretanto, a estupidez, pois parece estar na base de todos os outros e espalhar, mais longe e com mais sutileza, seu vírus. Um inquérito completo sobre os indivíduos estúpidos e sobre seus atos se tornou necessidade vital do estado mas nenhum estadista dará atenção. Entretanto os indivíduos que evitam os políticos como evitariam um leproso podem estar curiosos de saber um pouco mais sobre o assunto. E, antes de tudo, podem exigir uma explicação de meu singular asserto. Eis em miniatura. Sua expressão completa é esta Breve introdução. Os cientistas, e ninguém mais!, descobriram e inventaram tantas coisas revolucionárias, durante as últimas gerações, que hoje, quando nos aproximamos do meado do século 20, encontramos a raça humana diante de duas grandes crises. Uma é a crise do Melhor, a outra a crise do Pior. Cada crise se estende em dez ou mais campos do esforço humano. A encontramos em nossas escolas, hospitais; nas dotações privadas pro combate à pobreza, ao sofrimento e à ignorância; em nossa política nacional, especialmente no que respeita à conquista de novas áreas pro excesso populacional; em nosso contato com o vasto mundo subterrâneo do crime; em nosso esforço pra combater o desrespeito à lei por parte de cidadãos que em geral não são considerados criminosos; em nosso esforço pra substituir o fanatismo por uma legislação sã; em nossa luta pela solução do desemprego técnico; e, talvez acima de tudo, em nosso esforço, até agora frustrado, pra curar a política da democracia, completamente afetada pelos venenos do Mal Ciclópico.

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O mundo já sofre um sério e agudo desequilíbrio em dois pontos. Temos um excesso de mentes de primeira e de segunda classe, em relação aos postos que utilizam suas altas habilidades. E também temos um aterrador excesso de estúpidos e humanescos, em relação aos postos que utilizam suas habilidades inferiores. Investiguei a primeira crise, na medida do tempo e dos recursos disponíveis. 4 Entre outras coisas, parece que, dentro dos próximos 35 ou 40 anos, as principais nações do mundo terão formado 2.500.000 ou 4.000.000 de cientistas, técnicos e engenheiros. Nesse tempo os métodos de organização estarão tão aperfeiçoados que cada trabalhador fará o dobro do trabalho que costuma fazer hoje. Nesse tempo, também, novas subdivisões e especializações nas tarefas complexas reduzirão ao mínimo as exigências ao homem hábil. É perfeitamente concebível que alguns grandes cirurgiões tenham clínicas de tal modo diferentes, que seus assistentes tomem conta de todas as operações, exceto uma ou duas em cada mês. Os grandes engenheiros terão ainda menos a fazer. E os grandes mestres, em 1975, não terão de perder seu precioso tempo falando a dez ou vinte estudantes numa sala de aula mas falarão, todas as manhãs, a um milhão de alunos via rádio-televisão e terão seus melhores pensamentos gravados em discos, o que reduzirá enormemente o número de mestres requerido pra educar um dado número de pessoas. Já temos, em Eua, mais de 400.000 graduados, a maioria sem preparo, evidentemente, que poderiam e querem trabalhar prà ciência ou nas profissões liberais, se conseguissem empregos agradáveis e remunerativos. Mas não o pode salvo em medicina e odontologia, às quais, naturalmente poucos são inclinados por espírito e por temperamento. Se alargássemos nosso inquérito, de modo a abranger 10% do total de nossa população com inteligência e personalidade superiores, teríamos, por uma série de cômputos que seria fastidioso enumerar, que cerca de 5.000.000 desses (de todas as idades) jamais encontrarão oportunidade adequada pra suas respectivas carreiras. E o que acontece no outro extremo da escala? Já o sabemos, pois a imprensa há muito nos vem contando tristes histórias acerca da Idade da Máquina e do desemprego técnico que causa, juntamente com o número sempre decrescente de operários necessários pra cada unidade de produção ou pra cada serviço pessoal. Sabeis também que a subdivisão do trabalho chega a tal ponto que a unidade de operação se torna tão simples que até os mentecaptos a podem realizar bem, em muitos casos. Todo ano as indústria mais importantes se aproximam cada vez mais do ideal, que um corpo de trabalhador em que cerca de cinco homens são peritos graduados e cerca de 95 homens são trabalhadores comuns que, depois de seis ou oito semanas de traquejo, fazem bem seu trabalho. Nossa crise agrícola é, em grande parte, uma crise de crescente produção mecanizada, cuma pequena fração dos trabalhadores agrícolas requeridos há uma geração. Embora, nalgum tempo, cerca de metade da população total tivesse de suar no eito a fim de alimentar a si própria e à outra metade, hoje um homem facilmente se sustenta e a dez outros, com a química e os instrumentos modernos. Perto de 1975 será sustentado por consumidores da cidade. E então o homem da enxada deverá voltar às cavernas de seus irmãos mais velhos, os ciclopes. O mundo não terá mais trabalho pra ele. Eis uma situação nova prà raça humana. No caminho à Utopia, o que há de melhor e de pior em nós sofre mais. Progredimos? Então, dalgum modo, devemos encontrar modos e maneiras de garantir a melhor chance de vida, liberdade e felicidade enquanto eliminamos o mal de maneira que não ultraje o débil e inconstante senso moral da humanidade. Mas o que fizemos até agora?

4

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Nossos biologistas se alistaram nos regimentos dos eugenistas, que combatem sob diferentes bandeiras, sem comando geral, portanto, de certo modo em vão. Alguns atacam o problema melhor, outros pior. Ninguém ataca o problema como um todo. Um grupo trabalha com nobreza no controle do nascimento, o que é excelente. Outro trabalha na esterilização dos loucos e dos mentecaptos, o que é também admirável, se bem conduzido. Ainda outro grupo (menor) procura um método de captar e estimular o gênio. Um quarto busca o melhoramento da educação superior como meio de salvar da destruição esse vasto exército que fica abaixo do gênio e acima da média racial. Um quinto grupo ataca o problema do crime, um sexto a imigração promíscua. E assim a diante. Mas tanto quanto posso determinar, ninguém dedicou um pensamento, até agora, às possíveis conseqüências do vagaroso e em grande parte invisível acúmulo de desatino, erro, preconceito, hipocrisia, fanatismo e crime causados pela estupidez em centenas de milhões de indivíduos que não são mentecaptos, loucos nem psicopatas. Quanto mais profundamente penetramos nos processos naturais, tanto mais somos esmagados pelo espetáculo duma infinidade de forças diminutas que se reúnem pra causar os acontecimentos ordinários. A história da humanidade não é escrita por uns poucos gênios, uns poucos generais e uns poucos criminosos. Os tipos extremos de personalidade atraem uma atenção imerecida, aparecem nos cabeçalhos dos jornais e são, mais tarde, explorados pelos biógrafos. Mas a corrente da vida, em que nadam, é um milhão de vezes mais larga, mais profunda e mais velha do que eles e é composta de trilhões de gotas dágua feitas de sextilhões de moléculas. E assim a diante, ad ignotum. Assim, me parece, o estadista que sonha cuma sociedade quase perfeita deve, algum dia, ser forçado a observar, a analisar e a superar as fraquezas comuns dos indivíduos comuns, entre as quais nenhuma é tão perniciosa como a simples estupidez.

Azorrague

Se pode, facilmente, provar que a estupidez é o supremo Mal Social. Três fatores se combinam prà estabelecer como tal. Primeiro, e antes de tudo, os indivíduos estúpidos são legião. Em segundo lugar, a maior parte do poder no comércio, finança, diplomacia e política está nas mãos de indivíduos mais ou menos estúpidos. Finalmente, altas habilidades freqüentemente estão ligadas a séria estupidez, de tal modo que as habilidades brilham ante o mundo, enquanto os traços de estupidez se escondem em sombras profundas, só discernidas pelos íntimos ou pelo olhar escrutador dos repórteres. Quantos são esses indivíduos estúpidos? Em sentido absoluto, a pergunta é absurda ou gratuita, pois a definição mais estrita de estupidez implica em que todo mundo deve ser classificado sob a bandeira branca dos mudos, ao passo que qualquer outro método de definição das características deve ser relativista. Assim, prefiro evitar uma resposta precisa e dizer que ao menos três em cada quatro membros de nossa espécie são, sob certos aspectos, bastante estúpidos pra merecer, aqui, menção desonrosa. Isto perfaz uma horda compacta de cerca de 1.500.000.000 de pessoas. Combater seus desatinos, negligências, artifícios, superstições e outras espécies de conduta inferior, seria o mesmo que lutar contra uma praga de gafanhoto. Esmagues aqui um milhão e logo outro milhão se levantará ali, e mais dez milhões escurecerão o céu. Entre esses 1.500.000.000 de pessoas estúpidas, um número aterrador se destaca, especialmente na política e nos pequenos negócios. Em verdade, não é exagero dizer que esses dois campos de esforço humano sempre foram dominados por pessoas de conspícua estupidez e, por motivos biológicos e econômicos, voltaremos em breve ao assunto, mais de perto. Em geral, não se reconhece, entretanto, que o mundo dos banqueiros é talvez ainda mais povoado de indivíduos broncos, nem que esses indivíduos broncos fazem com que muitos negociantes brilhem como pequenos

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leonardos, por contraste. Assim, nosso destino econômico está, se não dominado por inteligências inferiores e aleijões emocionais, ao menos gravemente contaminado. E, quanto mais complexo se tornam os negócio mundial, mais grave se torna essa ameaça Um milhão de indivíduos sem inteligência, que se sentam às mesa de diretores, vice- presidentes executivos, gerentes de departamento etc., têm neutralizado as influências criadoras de homens de cérebro superior, e nunca mais flagrantemente que durante última década. Poucos desses homens merecem suspeita. E assim chegamos a nosso terceiro ponto. É um horrível resultado da espantosa variabilidade do homem, essa correlação peculiarmente enganosa de traços mais delicados com os piores. À proporção que formos progredindo em nosso estudo, encontraremos quase todos os característicos esplêndidos em indivíduos da mais crassa estupidez. Consideraremos grandes artistas como Beethoven e Whitman, que foram fatalmente estúpidos em relação a muitas das melhores coisas da vida. Consideraremos excelentes matemáticos, historiadores de visão larga e estadistas de mente superior, que claudicavam em assuntos comuns, como se fossem coxos sem a ajuda de muleta. Veremos nações empenhadas em guerras fúteis e arruinadas pelos desatinos compreensíveis de chefes de indisputada capacidade. E toda parte, o mesmo espetáculo monótono! E, quando cada cena termina, o mesmo monótono pensamento nos acode: Que maravilha que a humanidade tenha avançado a tal ponto! Manias, superstições, cultos, charlatanices, tratantadas e triste estupidez se mantêm, se não aumentam, em todo o ocidente. Tiveram novo foco no começo da guerra mundial e encontraram completa expressão na década seguinte. Se, posteriormente, desapareceram, mais ou menos, da vista do público, isso não significa que os homens os tenham liquidado. Lhes faltava oportunidade pruma demonstração em massa. E, até o grande colapso financeiro de outubro de 1929, essa vasta galáxia de fraquezas mortais não subiu, outra vez, ao zênite, pra brilhar como uma centena de sóis. Novamente expôs a incompetência dos mais altamente colocados. Novamente deixou a nu a triste inteligência de muitas augustas personagens. Novamente fez murchar a reputação de milhares de financistas, economistas, especuladores, políticos, estadistas e industriais. Sob seus raios impiedosos, os Grandes Negócios se pareceram cum punhado de batata, enquanto milhões de dólares baixavam a 30 centavos. Quando uma catástrofe dessa natureza ocorre duas vezes em 12 anos os homens de pensamento devem estudar suas raízes e seus estímulos. Uma sociedade que se afunda assim tão freqüentemente tem algo de podre no sangue e no cérebro. A menos, que se cure, deve morrer. E o primeiro passo pra qualquer cura é o diagnóstico. Então este pequeno livro, que se esforça em analisar os desatinos, manias e confusões, sem elogio nem condenação. Pois não é estupidez vaiar pessoas cuja única falta é a de que seus antepassados lhes legaram um miserável amontoado de fibras nervosas associativas? E não é um triste passatempo ridicularizar as loucuras doutras pessoas, que agem como agem somente em resultado da má educação, da pobreza, da opressão e da moléstia? Quanto a elogiar, defender ou desculpar essas pessoas, isso é ainda mais estúpido. O caminho a além de nossa atual estupidez é o caminho da destruição. Dalgum modo devemos marcar os tipos inferiores. Dalgum modo devemos melhorar os negligentes e os mal-preparados. Nesse sentido devemos, antes de tudo, chegar à compreensão da infinita variedade da estupidez. E, entretanto, ninguém as pesquisou. Os homens chamam estúpidos a atos que, depois de cuidadosa observação, se revelam brilhantes. Outros exaltam, como heróicos e brilhantes, atos que qualquer crítico pode, em pouco tempo, revelar estúpidos. Pra avaliar essa confusão, atentai sobre alguns acontecimentos ocorridos quando este livro

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estava sendo escrito. E vos perguntai até que ponto a simples estupidez, em cada caso, toma o passo à ignorância, à malícia, aos desatinos de raciocínio, ao egoísmo crasso ou a qualquer outra coisa, Quando o capítulo 1 deste livro estava sendo composto, presidente Hoover garantia à câmara de comércio de Eua que todas as perturbações econômicas terminaram, Já passamos o pior e, continuando a unidade de esforço, nos recobraremos

rapidamente. No dia seguinte, em Nova Iorque, acontecia o pior colapso financeiro da atual geração. No meio da luta contra a estupidez dos clérigos, lemos nos jornais a revelação de que o bom bispo James Cannon é chefe duma firma comercial. Depois o papa de Roma se pronunciou, tempestuosamente, contra as roupas de baixo das mulheres modernas. Entrementes os corretores da rua Muralha se dirigiam, em massa, à casa dos astrólogos, buscando prognóstico sobre a flutuação do mercado. O Collier's Weekly abriu colunas pros artigos de Evangeline Adams, que mais tarde, por meio duma grande rádio- difusora, revelou que J. Pierpont Morgan, o velho, a costumava visitar buscando conselho. Hig Bill Thompson, prefeito de Chicago, empreendeu uma campanha pra destruir a influência insidiosa de rei Jorge V nas escolas públicas de Chicago. As nações européias gastam cerca de 10 milhões de dólares por dia em preparativos prà próxima guerra. O governo francês está construindo 200 fortes ao longo da fronteira alemã. A Romênia acaba de comprar e de pagar um túnel ferroviário, supostamente escavado por uma firma contratante mas, na realidade, construído por soldados austríacos durante a primeira guerra mundial. Henry Ford declarou que em 1950 o trabalhador ianque perderá dólares por dia, de salário. A diocese católico-romana de Nova Iorque proibiu o abade Dimnet de discutir religião com Clarence Darrow. O secretário da agricultura descobriu uma profunda conspiração do governo russo pra arruinar os agricultores ianques, vendendo trigo a varejo no mercado de Chicago. Os cidadãos deste país continuam a gastar, todo ano, com a educação de seus filhos, quase tanto quanto gastam em cigarro. Algum entusiasta pinta a foice e o martelo, o símbolo do partido comunista, e as palavras Votai nos comunistas! nas paredes da igreja do Heavenly Rest, na Quinta avenida, na cidade de Nova Iorque. João W. Barton, banqueiro de Mineápolis, declarou, na associação de banqueiros americanos, que o padrão de vida ianque é muito alto. Os produtores de cosmético, empenhados em guerra de morte uns aos outros, concordam em que precisam dum czar pra dirigir essa indústria. Um colecionador pagou 1450 dólares por uma carta escrita pela mãe de Jorge Washington. O cardeal Hayes, prelado romano, recomendou vinhos leves e cerveja como meio de alegrar os trabalhadores ociosos e empobrecidos durante a atual depressão. O rabi Geller, de Bruclem, declarou que o filósofo hebreu Maimônides leva uma vantagem de cerca de 800 anos sobre Einstein com sua teoria da relatividade. A censura teatral britânica proibia a exibição de The green pastures, porque apresenta Deus no procênio. O duque e a duquesa de Iorque diferem o registro de nascimento de sua filha, princesa Margarete, a fim de impedir que tenha o número 13 no registro. A cidade de Chicago novamente esgotou seu dinheiro e não pode pagar à polícia e ao corpo de bombeiro. O governo francês expulsou William Randolph Hearst por ter tornado público o tratado naval anglo-francês. A senhora Adele O'Donnell, trazendo nos braços o filho de seis meses, vagou, durante dois dias, nas ruas de Nova Iorque, sem alimento,

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antes de ir a um comissariado de polícia pra procurar auxílio. Enquanto decidíamos sobre a inclusão da estupidez dos financistas nestes prolegômenos, o departamento do tesouro de Eua anunciou que, até 6 de abril de 1930 a guerra mundial e suas conseqüências imediatas custaram 51.400.000.000 de dólares ao contribuinte ianque. Poucas semanas depois um telegrama de Pitesburgue informava que João R. Gubo ficara enraivecido com seu cachimbo, que não funcionava bem, e derramara querosene sobre o fumo, puxando uma grande baforada do cachimbo e, por isso, o celeiro em que trabalhava foi devorado pela chama e Gubo morreu, no dia imediato, em conseqüência do ferimento. Mais ou menos no capítulo 12 Mussolini anunciou, na 183ª vez, a restauração do império romano no Mediterrâneo. W. M. Stebbins, secretário do tesouro do estado de Nebrasca, admitiu haver se servido do dinheiro do estado pra sustentar a campanha do merceeiro Jorge W. Norris, que desejava contrapor ao senador do mesmo nome, na esperança de criar confusão entre os eleitores. Entretempo, a direção dos institutos educacionais continua a obrigar os estudantes de escolas secundárias a aprender, de certa maneira, alguma língua estrangeira, que nunca usarão, mesmo que a aprendam. Mussolini publica uma série de livros pra todas as escolas italianas, descrevendo o Mediterrâneo como nosso mar e proclamando que a Itália é grande, forte e temível. 87 escolas continuaram a empregar instrutores de futebol e de beisebol com salário superior ao de qualquer professor. Ao mesmo tempo, algumas clínicas de nossas maiores cidades se enchiam de mulheres que sofriam de diversas moléstias graves, todas causadas por seu esforço pra reduzir o peso, em obediência à moda. Cerca de um milhão de agricultores, tendo perdido todo o dinheiro investido nas colheitas o ano passado, estão novamente plantando trigo, outros cereais e algodão, firmes na convicção de que as novas tarifas e o governo dos republicanos lhes darão oportunidade de fazer dinheiro novamente. Carol fugiu de seu ninho de amor, em Paris, a seu ninho de besouro, na Romênia, onde se fez rei. Hitler começou a resenhar os patriotas alemães cuja cabeça decepará logo que subir ao poder: A de Einstein será a primeira a rolar. Raymond Duncan, de toga e sandália, entusiasmado com Gândi, caminha, penosamente, desde a biblioteca pública de Nova Iorque, na Quinta avenida e rua 42, até a Bateria, de balde em punho, pra tirar colherada de água salgada, (assim pensava mas era, na verdade, água e detrito) que ferveu até deixar apenas o sal (e o detrito), tudo em testemunho de sua estima pelos rebeldes hindus. Várias centenas de jornais ianques continuam publicando anúncio de quiromante, de clarividente e de gurus, 5 que garantem responder a todas as perguntas sobre amor, casamento e negócio. Quando chegávamos à estupidez dos políticos, o departamento agrícola federal sugeriu aos governadores dos estados do sul que, pra defender o preço do algodão, um terço da colheita de 15 milhões de fardos fosse destruído. Agora, enfrentando o pior inverno de nossa era estúpida, chegamos à declaração do secretário Lamont, de há muitos meses, a que nos referiremos futuramente. Os cabeçalhos dos jornais anunciaram: Lamont declarou que o declínio terminou. Eis a declaração: É perfeitamente evidente que o negócio, em geral, fez cessar o marcado declínio que caracterizou tantos meses anteriores, e que há alguns característicos distintamente encorajadores. Enquanto muitos de nós, ianques, apertamos a barriga vazia, o trigo se vende no mais baixo preço já registrado em três séculos; a um amigo meu foi oferecido, à venda, um milhão de acres de terras no

5 No original swami: Título honorífico hindu atribuído tanto a homem quanto a mulher. O termo provém do sânscrito e significa aquele que sabe e domina a si mesmo ou livre dos sentidos. O título indica o conhecimento e domínio da ioga, devoção aos deuses e ao mestre espiritual. Nota do digitalizador

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Arcansas, a 15 centavos o acre, com facilidade de pagamento; cinco bancos de Toledo, Orraio, faliram dentro de poucas semanas, pondo 300 mil cidadãos em contato com a infinita estupidez de nossa era. Pouco depois, Henry Ford baixou seu ucace: 6 Se não tem jardim não tem trabalho! compelindo, assim, seus trabalhadores a se encaixarem em sua máquina quase perfeita, cuma estupidez quase de máquina. Muitos deles obedecem ao edito, entretanto, pois há um duro inverno a diante pra mais de seis milhões de desempregados. Isso, naturalmente, tem pouco a ver com o anúncio do banco federal de reserva de que, ao se encerrar o negócio no dia 2 de setembro de 1931, a Eua faltavam 2 milhões pra terem 5.10 9 dólares em ouro, cerca de metade do ouro existente no mundo. O presidente anunciou que os títulos da dívida somam cerca de 1.500.000.000 dólares. Os deuses são carinhosos com os pobres autores. Na mesma semana 7 em que acabávamos de escrever as páginas finais deste epítome de morologia os ingleses abandonaram o padrão-ouro. Se soube que os alemães, financeiramente, estavam em pior situação que o mais azedo pessimista poderia prever. Novos boatos de guerra secreta na Europa Oriental chegaram até nós, através de nosso serviço secreto. E em poucos dias as tropas japonesas invadiram, aos milhares, a Manchúria, madura prà conquista, enquanto dezenas de milhões de chineses morriam de fome e de peste, na vigília da mais temível corrente do tempo moderno. Durante o mesmo período as agências de emprego, em nossas grandes cidades, anunciaram que, pra cada emprego disponível, havia 45 candidatos. Cidades e cidades no centro-oeste e no sudoeste viram seus bancos fechar as portas e o dinheiro desaparecer de circulação. No meio dessa comédia, Hal Huston, cidadão da Pensilvânia, atirou contra si mesmo, se ferindo de morte, deixando uma carta em que declarava: Este governo 8 é uma desgraça pro mundo e deve ser relegado ao esquecimento. Me desagrada e envergonha continuar sendo um de seus súditos leais e patrióticos.

Discordamos, vigorosamente, de Hal Huston. Tudo o que ele diz da estupidez de nossos conterrâneos, e de todos os outros nacionais, é verdade. Mas suas inferências são tão frágeis quanto seu suicídio. Sendo, como dissemos, incorrigivelmente otimistas admitimos, sem corar, que a década que passou nos animou mais que qualquer outro instante igual da história humana. E por quê? Principalmente porque trouxe à crua luz do dia toda a profunda fraqueza da natureza humana, em geral oculta. Entre essas fraquezas, as mais numerosas e as mais pestilenciais são as tolices do homem de ação:

Governantes, diretores, administradores, burocratas e comerciantes. Logo depois, vêm as tolices de inação em estudiosos, cientistas, engenheiros e técnicos, que, conhecendo o melhor, escolheram o pior. Durante os últimos cem anos, a colossal expansão da riqueza e do conforto materiais obscureceu a incapacidade dos que mais deles se beneficiaram. Poucos inventores, poucos cientistas, cujo intelecto e cuja ingenuidade criaram essa prosperidade, ganharam bastante. Veja o testemunho de Thomas Edison! Os cérebros criadores da nova era não mereciam recompensa nem consideração pública. Os exploradores se punham em evidência, ao mesmo, tempo que colhiam 99% do lucro. As palavras de seus próprios agentes em breve os persuadiram de que eram grandes chefes, poderosos pensadores, estadistas, filósofos. Até messias da Era da Máquina. E o homem comum, que apenas lê alguns títulos de jornal, em breve acreditou em toda essa palhaçada. Hoje sofremos as conseqüências de dezenas de milhares de atos estúpidos. Em liberdade pra fazer sua vontade, os homens de ação provaram o que podiam fazer.

  • 6 Ucace: Nome que tinham os decretos do czar. Nota do digitalizador

  • 7 1932. Nota do tradutor

  • 8 O autor se refere ao governo anterior ao do presidente Roosevelt. Nota do tradutor

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Estamos vendo. E começamos a pensar, afinal. Não vale bem o preço do colapso econômico do mundo? Por mim, acredito que sim. Irei mais longe. Considero os anos entre 1914 e hoje o primeiro ensinamento sério do homem comum. Compelem todos os que não são simples indivíduos broncos a considerar os méritos de sua espécie. O homem começa a ver que a força mais destruidora que há no mundo é o próprio homem. O homem começa a compreender que todos os cultos, práticas, atitudes e crenças anteriores, seja em ciência, comércio, arte ou religião, são provavelmente suspeitos, pois evoluíram através de indivíduos nem um milímetro mais espertos que esses poderosos capitães da indústria. E pede uma auto-análise, juntamente cuma psicografia dos grandes. Eis, pois, o começo duma nova sabedoria. A levemos a diante, polegada a polegada.

Encargo

Neste ponto, podeis protestar. Direis:

Está muito bem fazer um desfile dessas tolices. Mas isso nada prova, por si mesmo. Pois se pode encontrar o mesmo número de casos de alta inteligência, na mesma série de acontecimento. Admito que pudesse ser compilado um interessante volume, reunindo os atos brilhantes, astutos, analíticos e inventivos dos indivíduos. Seria uma Breve introdução à historia do progresso. A maior parte do material que serviria pra suas páginas já foi reunido pelos antropólogos e historiadores. Mas o número de atos de alta inteligência seria maior que os dos estúpidos? Certamente não. Pra cada ato esclarecido da história humana sempre houve um milhão de atos prejudiciais à raça, em virtude da estupidez, preguiça, raciocínio falho, esquecimento, orgulho, preconceito, malícia. Senão, como explicar a lentidão desalentadora do progresso humano? Conhecemos o enorme poder dos atos inteligentes. Os mais valiosos, naturalmente, conduzem a descobertas deliberadamente planejadas, como a longa busca de Edison ao filamento da lâmpada incandescente. Os otimistas podem gritar que uma realização como essa compensa um milhão de tolices mas essa crença agradável não resiste à análise. Poderíamos demonstrar, de maneira aceitável a qualquer pessoa, que, pra cada dólar de lucro, em resultado das invenções e das descobertas, entre dois e dez dólares foram gastos, mal-empregados ou completamente desperdiçados. Ou, então, ponhamos o problema na proporção mais profunda da satisfação humana pra detrimento humano. Todo bem que parte da inteligência de descobridores e inventores é ofuscado por um mal decorrente dalguma estupidez. Notar que não discuto o benefício resultante de descobertas acidentais, como a de Colombo ou a do pobre louco que em primeira vez tropeçou em ouro em Sutter's Creek, Califórnia, ou a de Eduardo Doheny, que, por simples acidente, ficou dono duma fortuna colossal. Será bom limitar nossas comparações, aqui, estritamente, a atos resultantes de bons e de maus pensamentos. O acaso está fora do quadro. Isso simplifica meu argumento. Pois todas as descobertas e todas as invenções do homem primitivo foram simples acidentes e, nem em grau mínimo, o resultado da previsão, planejamento, esforço dirigido a um objetivo. Tanto quanto sabemos, mal podemos duvidar de que jamais alguém se sentou, dizendo a si mesmo: Tentarei descobrir a natureza do fogo e algum método de o produzir. O homem conheceu o fogo por puro acaso: Uma árvore em chama, batida pelo raio, talvez, ou um incêndio produzido por uma faísca surgida, acidentalmente, da fricção de dois pedaços de sílex, ou um vulcão, ou qualquer combustão espontânea. A conquista do fogo foi a maior entre todas as contribuições ao bem-estar de nossa raça, que, não se deve esquecer,

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sempre viveu à sombra dos gelos polares, desde que nossas atuais civilizações nasceram. Se tivéssemos espaço poderíamos demonstrar por que o acaso deveria ter levado o homem a encontrar e a usar a roda, a submeter o boi, o cavalo, o porco e o cão a sua vontade, e a muitos outros triunfos sobre a natureza e sobre o reino animal. Poderíamos, com mais segurança ainda, demonstrar o acidentalismo de muitos dos avanços mais recentes, particularmente quanto à difusão da raça branca sobre os continentes. Por exemplo, como foi descoberta a América? Os escandinavos do século 10 e dos anos posteriores, que chegaram à Groenlândia e depois à costa norte do Atlântico, foram, de acordo com seu próprio testemunho, ali atirados por ventos terríveis. Colombo, o aventureiro, partiu buscando a Índia e seu ouro. Pescadores franceses se fizeram ao mar catando bacalhau e, assim, chegaram à Terra Nova. O pirata Drake queria capturar os galeões espanhóis e seu tesouro e, assim, lhe aconteceu circunavegar o globo. Devemos imaginar esses cavalheiros como possuidores de alta inteligência? Devemos os usar como prova contra nossa tese atual sobre a estupidez? Absolutamente! Suas realizações não têm importância aqui. Com isso em mente, voltemos à crítica original. Podemos encontrar tantos atos inteligentes quantos atos estúpidos em qualquer período ou região dados? Não. A conseqüência dos poucos atos supremamente inteligentes será tão largamente benéfica que faça mais que ofuscar os maus efeitos de muitos atos estúpidos? Outra vez, não. Ou, ao menos, não está provado! Uma prova completa, naturalmente, requereria mais páginas que as deste livro. Assim, o mais que posso fazer é citar a única linha de evidência, que pode sugerir a natureza da demonstração completa. É fisicamente impossível, a qualquer pessoa, agir inteligentemente, mesmo um décimo, tão freqüentemente como agir estupidamente. Pois o comportamento inteligente requer muito tempo pra observação, análise e organização final detalhada. Está encadeado aos fatos e ao ritmo vagaroso da lógica. Mas o ato estúpido está livre de todo esse constrangimento. Pode saltar a diante, como o antílope, sem tocar o chão entre um ponto e outro. Ao contrário do antílope, chega novamente ao chão cum baque surdo mas não vos incomodeis com isso agora, por favor! Existem poucas maneiras certas de fazer as coisas (há quem diga que há apenas uma, porém isso não é verdade) e há um milhão de maneiras erradas de fazer as coisas. O homem inteligente procura o caminho certo, que é difícil de encontrar. O homem estúpido se precipita a diante, sem se deter pra estudar ou pesquisar. Assim, naturalmente, termina seu trabalho mais rapidamente. Submetamos o mesmo fato a outra luz: A essência da inteligência é sua cuidadosa consideração de todas as coisas importantes pra solução de seus problemas, mas a alma da estupidez é sua falta de cálculo. Assim, mesmo que o homem inteligente trabalhasse um pouco mais depressa que o estúpido, não poderia efetuar o mesmo número de atos. Acrescentai a tudo isso este fato estatístico: Mesmo entre inteligências superiores os atos que conduzem a descobertas e invenções significativas ou a reformas úteis são muito poucos. Raro é o homem que contribui com mais que quatro ou cinco melhoramentos distintos prà habilidade e pro conhecimento da raça. As cifras da repartição de patente de Eua indicam que não mais de uma invenção em cem ou mais, importa muito. Entre as poucas importantes, pouco mais de uma, em cem, dá resultado completo. Sobre isso ponhamos as centenas de milhões de indivíduos que nunca realizam um ato brilhante mas consumam muitos atos que prejudicam a si ou aos vizinhos, ao menos um pouco. Finalmente, olhemos o bilhão de indivíduos cuja estupidez é uma mancha sobre a raça. As multidões da Índia, da China e da África central, estragadas pelo rum, ópio, cocaína. Negligentes e irrefletidas, porque sub- alimentadas ou mal-alimentadas, e depauperadas pelo calor úmido, um peso pra si e

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ameaça prà civilização. 9 Somai tudo! Cerca de 2.10 9 pessoas povoam o mundo. Entre elas, cerca de 10 9 são bêbedas, loucas, mentecaptas ou sofrem de malária, tuberculose, lepra, moléstias venéreas, neurastenia tropical, má nutrição e, portanto, são embrutecidas ou viciadas (ou ambos). Do outro bilhão, não mais que cinco ou seis milhões pensam e agem com inteligência progressista, acrescentando, assim, algo ao permanente bem-estar do mundo. O resto da humanidade é muito jovem, muito velho ou muito mal-educado pra evitar sérias tolices de tempos em tempos. Assim, um indivíduo superior deve enfrentar os atos brutais e estúpidos de 300 ou 400 indivíduos inferiores. Não nos deveremos maravilhar com os progressos que fizemos? E, entretanto, estamos na metade da história da inteligência e da estupidez. Como disse, todos conhecemos o poder dos atos supremamente inteligentes. Mas toda a experiência humana também não revela a destrutividade colossal dum único indivíduo bronco, numa vida que, doutra maneira, seria bem ordenada? Um rombo é o bastante pra afundar um navio. Um pequeno escorregão pode produzir um desastre. Um simples descuido pode levar a assassínios. Eis a mais profunda tragédia da vida. Eis nosso mais poderoso argumento a favor duma cruzada mundial contra a estupidez. Um homem pode possuir todos os traços esplêndidos, admiráveis e úteis e, apesar de tudo isso, sofrer dores por comer demasiado num jantar, tomar um coquetel em companhia duma mulher suspeita, esquecer um compromisso, chegar atrasado a uma reunião importante ou outra ninharia semelhante. Se viver fosse questão de meio-termo quão poucos teríamos de nos afligir com a estupidez! Se o sucesso dum homem, seu caráter e influência fossem conformados, não de instante a instante, pela vida e pela morte, mas por alguma soma de qualidades e de méritos, de acordo cum protetor celeste, então ninguém chegaria à falência em resultado duma estúpida colocação de capitais, ninguém teria o coração partido pela perda dum amigo, ninguém seria exposto à condenação pública, somente por ter sido encontrado, completamente bêbedo, na rua e ninguém morreria com certa bebida alcoólica chamada gim. Ocultemos o fato como pudermos. A verdade é que cada pequeno episódio na carreira dum homem é uma questão de vida ou morte. Os meios-termos são impossíveis. Assim, um simples traço químico de estupidez é o bastante pra desfazer grandes atos e findar grandes impérios, afinal de conta. Um passo em falso basta pra lançar os mais astutos e os mais fortes ao abismo. Vinte anos de gênio militar não puderam salvar Napoleão, depois que partiu de Esmolensque a Moscou, quando chegou o inverno. Quarenta anos de trabalho e de ambição não puderam salvar Curzon, depois que foi à Índia e cometeu o desatino de escarnecer do espírito nacionalista ali. Metade duma vida de estudo e de esforço desapareceu num abrir e fechar de olho quando Woodrow Wilson decidiu, num momento de infinita estupidez, comparecer à conferência de paz de Versalhes. A armadilha se despencou, o machado caiu, a bala descreveu uma parábola ... e foi o fim. O fim é sempre mais breve que a coisa que finda. Assim, dizemos, a, guerra contra a estupidez é a guerra pela vida. Mais cedo ou mais tarde, talvez, todos apertaremos o botão errado, com diferença de uma polegada, nos embrenharemos, na escuridão e encontraremos o espaço vazio. Mas por que não adiar o

9 O caso do desaparecimento da menina britânica Madeleine McCann, desaparecida dum quarto do resorte onde estava com a família, em Algarve, Portugal, na noite de quinta-feira, 3 de maio de 2007, revelou o hábito britânico de dopar com tranqüilizante crianças pequenas pra que os pais possam, por exemplo, ir a um jantar. Os pais saíram pra jantar num restaurante próximo e a polícia suspeitou de que teriam exagerado na dose, matando a menina e, por isso, fizeram desaparecer o corpo. Ninguém levantou discussão sobre o impacto deletério desse hábito sobre cérebros em formação. Nota do digitalizador

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momento da insensibilidade fatal? Por que não estudar as causas dos desatinos, com a mesma fria objetividade com que estudamos a cólera-morbo e a loucura? Por que não admitir, ao começar o estudo, que estamos diante dum dos venenos mais letais? Mais de metade da raça humana perece na infância. Entre eles estão os mais estúpidos, mais freqüentemente que nunca. Perdemos, assim, uma oportunidade de aquilatar a raça humana. Revendo minhas notas sobre rapazes e moças que conheci na infância, observo um número incomum de mortes induzidas pela estupidez. Um dos mais esperançosos pianistas, que conheci na escola secundária, morreu antes dos 20 anos simplesmente por lhe faltar senso comum pra obedecer às advertências do pai, no sentido de não beber água dum poço abandonado perto dos estábulos de sua fazenda. O poço estivera coberto de tábuas vários anos e um aviso, pregado na tampa, declarava que a água não servia pra beber. Mas nosso hábil músico, num dia quente, retirou uma das tábuas, enfiou pela abertura um pequeno balde, bebeu um pouco da água e o funeral foi um dos mais floridos do extremo de nossa cidade. Dois outros jovens, ambos instruídos e aparentemente brilhantes em embriologia, se amasiaram com prostitutas mulatas e morreram de sífilis em pouco tempo. Millie, empregada do colégio, resolveu apressar o jantar, atirando um pouco de gasolina sobre a lenha do fogão. Quatro colegiais conseguiram a envolver em cobertores enquanto ela se debatia diante da casa, uma tocha viva. E, em poucos minutos, Millie se juntava à grande caravana dos simples. E assim a diante. Dentro dum círculo estreito de relações, durante meus primeiros anos, encontrei dezenas de casos semelhantes. Esses fatos me forçam à conclusão de que, se os eugenistas são contrariados em sua nobre campanha pra exterminar os mais estúpidos, a própria natureza virá nos auxiliar com toda força. Tomai um ponto de vista progressista e argumentareis que dois mortais, em cada três que sobrevivem à infância, vivem vida estúpida. Voai ao poleiro do perfeccionista e insistireis em que 99% da raça é um composto de estupidez, malícia e de sensualidade. Mas, seja qual for a maneira por que se encarem, os fatos sempre levarão a uma aterradora revisão da história. É nossa atual tarefa. A personalidade inferior sempre foi a força predominante na formação das sociedades e da cultura. Foi também uma influência positiva, não uma simples negação, pois, embora lhe faltem alta habilidade, não é, absolutamente, uma reunião de sinais negativos, mas um feixe de energia, que faz toda espécie de coisa. A classificar ao lado do idiota, indefeso em sua asquerosa situação, seria um erro profundo. Ela prescreveu a cicuta a Sócrates e pregou Cristo à cruz. A considerai apenas em três de seus muitos papéis: Como trabalhador, depois como eleitor e, enfim, como crente: Antes que o homem conquistasse a força da natureza, os músculos do estúpido, do grosseiro e do preguiçoso faziam o trabalho do mundo. O fizeram de má-vontade, devagar e mal, tanto quanto hoje. Assim, estabeleceram o passo da lesma pra todo o rebanho, pois, como entre os passageiros dum trem subterrâneo em hora de movimento ou como numa escola pública, os retardados atrasam os brilhantes e ambiciosos e jamais os brilhantes e ambiciosos fazem adiantar os indolentes. Na medida em que a prosperidade decorre do trabalho, pois, a raça padeceu pobreza milhares de anos mais que se expurgada de seus elementos inferiores. Finalmente, todo o sistema de recompensa e de castigo pelo trabalho deve ter sido determinado, em grande parte, pela exasperação do homem hábil contra a incompetência e, reciprocamente, pela necessidade que tem o incompetente dum poderoso estímulo, sob a forma de pagamento extraordinário ou rápido pontapé. Como eleitor o homem estúpido garatujou sua autobiografia através das tábuas da história. Aqui sua incapacidade excede a do trabalhador, pois, passando ao negócio de estado, está diante de problemas muito mais intrincados que os do banco do carpinteiro.

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Quanto maior é o estado, tanto mais flagrante e desastrosa é a incompetência. Por isso caiu o império romano mas a aldeia africana continua de pé, sem receio de desastre. Por isso o império britânico desaparece ingloriamente de cena mas a Inglaterra vai a diante serenamente, como a grande esperança da humanidade. Até o advento do rádio, do telefone internacional e do avião, foi o cidadão estúpido quem determinou os limites do governo e as áreas de sua nação. Quanto ao crente inferior, toda a magia e toda a religião primitivas devem sofrer uma revisão, a fim de explicar as forças positivas de estupidez, como tendo dado forma a superstições, a medos e a esperanças estúpidas no ego animal. O esforço dos antropólogos pra apresentar as religiões como o primeiro estímulo do espírito científico e moral foram além dos limites razoáveis. Mas disto pouco diremos aqui. É uma história longa e triste. Nossas pressuposições são as seguintes: Em todos os tempos, em todos os lugares, os indivíduos estúpidos constituíram um dos maiores grupos da humanidade inferior. Estiveram presentes em todas as linhas de atividade, na arte, no civismo, na religião. Muitas vezes dominaram o negócio, sob a chefia de espertos aproveitadores. Sempre foram auxiliados por eles últimos e, assim, indiretamente, inscreveram seu nome nas leis, códigos, ética, padrões de gosto, técnicas de produção e administração. A inércia, a preguiça, a relutância, o medo, a grosseria e o puro desatino têm, virtualmente, estragado todos os grandes e nobres movimentos. E o historiador não pode desenhar um panorama verídico do milhão de anos de existência do homem, a menos, que descreva esse aspecto sombrio. Foi moda, mais tarde, lisonjear o leitor com leituras agradáveis sobre as maravilhas do progresso humano. Isso fazia com que o homem parecesse um pouco menos do que um anjo. Exatamente como o poderia fazer a velha teologia. Essas leituras estão em harmonia com o período de super-venda e de compras a prazo. Mas sua voga passou. Desde 1929 todo mundo aprendeu que os indivíduos estúpidos ainda governam o mundo. Presidentes estúpidos enviam mensagens a congressos estúpidos. Banqueiros estúpidos emprestam milhões a comerciantes e industriais estúpidos. Estúpidos diretores de jornal ocultam fatos dolorosos. Estúpidos contribuintes jogam fora bilhões de dólares pra couraçados, fortalezas, granadas e segundos-tenentes estúpidos. Industriais estúpidos construem fábricas três vezes maiores que o necessário. Varejistas estúpidos vendem mercadoria de terceira classe a preço de primeira. Estúpidos nova-iorquinos votam nos criminosos candidatos ao Tammany Hall. Russos estúpidos se deixam levar pelos doutrinadores e se alimentam de pão negro, em nome do progresso. Tudo isso levanta a suspeita de que, se nossa civilização estala, geme e range, no alto, sob o repelão de chefes estúpidos presumivelmente todas as antigas civilizações devem ter sofrido igualmente. Se é assim, então nossa própria era deve encontrar uma nova maneira de as visualizar, nem que seja só pra consolar. Mas um benefício maior deve provir do estudo da estupidez humana. Há somente uma maneira de se elevar acima de nossa estupidez, que é, primeiro as analisar minuciosamente, depois encontrar métodos de as eliminar, pela educação, polícia ou química. Pra o fazer devemos chamar a uma enxada uma enxada, a um louco um louco. Se o não fizermos estaremos ameaçados pelo fogo do Inferno.

Labirinto

Os brilhantes estudos da inteligência não deveriam servir num inquérito completo sobre as variedades de inteligência? Na imensa literatura dos últimos anos, encontrareis excelentes pesquisas sobre os traços mentais superiores e sobre anormalidades inferiores, como a idiotia, a debilidade mental e a personalidade do homem estúpido.

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Mas parece não haver análise do Homem Comum e de sua mente comum. Isso parece estranho, pois o Homem Comum não é o maior problema da humanidade? Não é de acordo com sua mania, fraqueza e bom caráter que a sociedade, em geral, deve ser conformada? Quando decai, o mundo não se abaixa um pouco? E, quando se alça a nova altura, o mundo não se ergue um pouco? Por que, pois, não viria o psicólogo auxiliar o estadista, economista e negociante, de todos aqueles cujo trabalho influi sobre a normalidade das massas? Por que não levar nossa análise a todos os fatores? Por que não analisar todos os desvios no sentido do som, na percepção aguda, no raciocínio equilibrado? Levado por esses propósitos, me aproximo do território inexplorado da estupidez. Parece o melhor porto de entrada pro explorador, visto que a estupidez parece quase universal. Os gênios a exibem. Os homens e as mulheres superiores a ostentam. O Homem Comum nunca está isento dela. Sim, a trilha promete muito. Somente um dia de jornada, porém, antes que se torne um labirinto. Conversando, com amigos, sobre casos supostos de estupidez, encontrei as mais singulares discordâncias. Atos que me impressionaram, à primeira vista, como inteiramente estúpidos, eram considerados inteligentes por algumas pessoas, enquanto outros eram explicados como simples ignorância. Isso me fez ficar cauteloso. Fiz uma dúzia, ou mais, de fichas sobre casos significantes, alguns dos quais estão nas páginas seguintes, e as dei a pessoas cujo julgamento me parecia penetrante. Novamente a mesma diferença de opinião! Não pude evitar a conclusão de que não há um acordo geral acerca do que é a estupidez. Podemos repetir, de cor, a definição do dicionário mas, logo que enfrentamos a conduta de pessoas reais nossa interpretação varia. Procedi, então, inversamente. Pedi a algumas dessas mesmas pessoas, narrar os mais claros casos de estupidez que tivessem observado. E, então, eu é que discordava, muitas vezes, de seus pontos de vista. Sim, somos todos endiabrados! Somos, talvez, tão estúpidos que não possamos reconhecer a estupidez mesmo quando põe sua triste face diante de nós? Teremos adquirido a cegueira pra nossa própria cegueira? Esta possibilidade deu sabor à pesquisa. Mas era apenas um leve sabor, em comparação com o que seguinte. Pois, quanto mais de perto os examinava, os atos estúpidos assumiam contornos e matizes inteiramente novos. E, sob meus olhos, sua própria natureza se transformava, sutilmente. Agora, no fim do estudo mais interessante a que já me dediquei, escrevo finis em todas minhas anteriores noções de estupidez. E, esperemos, essa mesma palavra serve pra indicar o prelúdio duma nova interpretação da mente humana. Ainda não estou fora do labirinto, mas ao menos posso ler alguns postes de sinal na negra escuridão.

Tabu

Espantoso o conhecimento acerca do estúpido! Espantoso em sua escassez, pobreza e casual superficialidade. O buscai em todos os poetas, menestréis, profetas, adivinhos e cronistas e mal encontrareis mais que uma ou duas linhas rápidas. Parece que a humanidade voltou as costas a isso, seu mais terrível azorrague, talvez mesmo porque o estúpido sempre sentiu que se tratava duma cabeça da górgona, cujo olhar transformaria os homens em pedra. Nisso o estúpido tinha razão, pois o mais temível capítulo da história humana continuará a escrever, enquanto os instruídos se esquivem de investigar as tolices passadas e presentes. Mesmo a Breve introdução, piedosamente breve, que aqui segue, é apenas um rápido olhar, um grito monossilábico. Na presença desses clarões o coração sofre e o intelecto se entorpece. A horrível descoberta de São Paulo, a de que Deus escolheu as coisas vãs do mundo pra confundir os sábios, fica prejudicada com esta

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observação. Somente um grande homem, tanto quanto podemos discernir entre anais intermináveis, avançou, impiedosamente, até contemplar de perto o azorrague. Foi Gautama Buda. Também, único entre os grandes pensadores do mundo, o avaliou com exatidão. Buda encontrou apenas três pecados cardeais: Raga (sensualidade) dosa (má- vontade), e moha (estupidez). Desses, considera a estupidez o pior de todos, sob todos os aspectos. Toda sua técnica pra atingir o Arahatship (Nirvana) se baseava na progressiva exterminação desse trio de limitação. Contrariamente à noção corrente entre os ianques, o Nirvana não é um estado em que todos os desejos e sentimentos se aniquilam. É, antes, um estado positivo de bem-aventurança, atingível nesta vida. Os pensadores do Velho Testamento não tinham a mesma profundeza de visão de Buda mas também compreenderam a ameaça do estúpido.

Pois um sonho vem através duma multidão de negócio e a voz dum tolo é conhecida por uma multidão de palavras. Eclesiastes, 5, 3. É melhor ouvir a censura dos sábios que a canção dos tolos. Eclesiastes, 7, 5. As palavras dos homens sábios são ouvidas mais em silêncio que o grito de quem governa entre os tolos. Eclesiastes, 9, 17. As palavras da boca do homem sábio são graciosas mas os lábios do tolo o

tragarão. Eclesiastes, 10, 12 e 13. Uma mulher tola é clamorosa. É simples e nada sabe. Provérbios, 9, 13. E assim a diante, pra 20 ou mais provérbios. Sim, é tudo exato, direis. Entretanto mal aflora o assunto. É sempre tocar e passar. Sempre assim através das idades. Podeis encontrar algum homem instruído que se devotara, durante anos, ao estudo dos indivíduos estúpidos? Pude apenas localizar dois:

Doutor Max Kemmerich, autor de Aus der Geschichte der menschlichen Dummheit, e Loewenfeld, autor de Über die Dummheit: Eine Umschau im Gebiete menschlicher Unzulänglichkeit. 10 Entretanto, os homens gastaram dezenas de anos estudando as baratas, contando os ovos das moscas, fazendo diagramas dos padrões existentes nas asas das borboletas, levantando o censo das abelhas. Não é singular que todos tenham evitado o que Buda, há cerca de 25 séculos, achou que era uma das coisas mais importantes no mundo do homem? Não há qualquer coisa de misterioso no fato de que nosso pequeno grupo de investigação trabalhasse, durante semanas, na imensa biblioteca Central, de Nova Iorque, procurando qualquer coisa que tratasse da estupidez humana, pra só encontrar alguns rápidos ensaios, versos e pilhérias sem muita graça? Não é também de interesse que, entre amigos bem informados e de grandes leituras e indivíduos a quem me dirigi pra sugestões e diretrizes, nem um tivesse coligido dados sobre as pessoas estúpidas ou possuísse referência bibliográfica sobre o assunto? Não vos parece significativo que, em toda a Enciclopédia Britânica, não se mencione nem se discuta a estupidez? Será simples acaso que, em todo o Citações familiares (Familiar quotations), de Bartlett, apenas possamos encontrar algumas linhas rápidas sobre o assunto? Isso não indicará que os homens evitam o que sabem não poder dominar? Não terão o curioso instinto animal de deixar os estúpidos em paz, visto que Gegen Dummheit kaempfen selbst Goetter vergebens? 11 Somente quando todo o material presta Breve introdução foi reunido e estudado, a luz começou a romper a treva. E essa luz me veio das palavras de Jesus no sermão da Montanha:

10 Aus der Geschichte der menschlichen Dummheit (Da história da estupidez humana) Über die Dummheit: Eine Umschau im Gebiete menschlicher Unzulänglichkeit (Sobre a estupidez: Uma revisão na área da deficiência humana). Nota do digitalizador 11 Gegen Dummheit kaempfen selbst Goetter vergebens (Contra a estupidez até Deus luta em vão). Nota do digitalizador.

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Mas vos direi que quem se zangar com seu irmão sem motivo estará em perigo de julgamento e quem disser a seu irmão raca (fátuo) estará em perigo de conselho mas quem disser ó tolo! estará em perigo do fogo infernal. Com essas palavras Jesus fixou a política da cristandade em todos os tempos. Apelando aos meigos e aos brutos, compreendeu perfeitamente a loucura fatal que seria lhes dizer a verdade sobre eles mesmos. Sem dúvida, também, conhecia sua extrema simplicidade, pois não eram todos camponeses, pescadores, bufarinheiros, 12 mendigos e proscritos? Acreditava, também, com sinceridade, na bondade, no poder e na glória das pessoas comuns. Sois o sal da terra. Sois a luz do mundo. Com seu auxílio tramava um movimento mundial. Assim, inteiramente cônscio da conseqüência de suas palavras, fez, da acusação de estupidez, tabu. E todos os que aceitaram, de coração, o sermão da Montanha, então e depois, respeitaram, no mais largo sentido, o tabu. Assim, como se vê, talvez tenhamos de nos haver com a mais profunda diferença entre a cultura do oriente e a do ocidente. Não faremos ressoar cordas menores na harpa da história. Antes forçaremos uma relutante e moribunda civilização ao espetáculo de sua mais colossal estupidez, ou seja, sua má vontade, durante dois mil anos, de admitir, de discutir ou de tentar vencer sua própria estupidez. Buda considerou a estupidez a praga mais negra da humanidade, sua interminável pandemia, e se pôs a estudar os melhores métodos de a vencer. Jesus nunca compreendeu seu significado. Ao contrário, ao mesmo tempo que observava o fato ao menos em parte, valorizou os meigos e os brutos (muitos dos quais são terrivelmente estúpidos) e desencorajou sua crítica à loucura humana. Assim, a atitude cristã tende a ser a de dourar a estupidez, o raciocínio retardado, os desatinos e todas as demais formas de procedimento estúpido. O cristão considera a verdade sobre o tolo uma espécie de exposição indecente e aquele que fala a verdade obsceno. Dali as prateleiras vazias das bibliotecas, onde se deveriam encontrar volumes inteiros sobre as mentes inferiores. Dali, também, o furor do homem estúpido até mesmo contra as mais simples e as mais honestas investigações da inteligência humana como, por exemplo, os desabridos ataques dos moralistas e dos religiosos convencionais contra os testes psicológicos, especialmente durante e depois da guerra mundial. Então, a rápida decadência do culto aos estúpidos, durante os 50 anos passados. Os chefes mais jovens do mundo ocidental se desembaraçaram de atitudes perigosas como a expressa por São Paulo nestas palavras: Se algum homem, entre vós, parece ser sábio neste mundo, que se torne um tolo, pra que possa ser

sábio. Pois a sabedoria deste mundo é loucura pra Deus

...

O Senhor conhece

os pensamentos dos sábios, e sabe que são vãos. Estamos prontos pra voltar ao ponto em que Buda propôs o problema da estupidez humana, prontos pra recomeçar. Estamos preparados, com fortaleza de ânimo e curiosidade científica, pra fundir os grilhões da estupidez cristã e pra observar, registrar, analisar e avaliar o insensato em sua insensatez, pra que possamos, conhecendo melhor um e outro, nos libertar da selvageria e da superstição. Destarte, o tabu será anulado. O anulemos como pudermos, pois os homens persistirão. Outras tendências da psique escapam à atenção. Por exemplo, muitos casos de estupidez são tristes e as pessoas inteligentes não resistem a ponderar, muito tempo, sobre coisas tristes. Há pouca novidade e pouca excitação em acompanhar os cabeças-de-vento de desatino a desatino. Nisso não há lucro nem fama. Assim o ego fica protegido, por uma série de defesa,

12 Bufarinheiro - sm Vendedor ambulante de bugiganga. Nota do digitalizador

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contra a exposição doutra coisa além do tabu estabelecido por estúpidos egocêntricos. Assim, caro leitor, examines bem estas páginas! Este livro bem pode ser o único tratado sobre o assunto, durante outros mil anos.

Palavras

Os indivíduos mais espertos inevitavelmente distinguirão, muito precisamente, todas as variedades de estupidez. Os indivíduos estúpidos, por outro lado, não se verão como os outros os vêem. Assim, escolhi pra registrar aqui as palavras e as frases usadas, pra descrever os modos de estupidez, pelos mais sábios dos antigos e pelos mais sábios dos modernos. Primeiro, os gregos antigos e, depois, os japoneses, que se parecem muito mais com os gregos antigos do que o imaginam muitos ocidentais. Em matéria de estupidez, os gregos certamente tinham uma palavra prà designar, por mais sutil que fosse o matiz da infra-mentalidade. Mas, se devo confiar em meus informantes, os japoneses são igualmente profundos. Ler, apenas, estas palavras, me parece, não teria utilidade. Prefiro descobrir nelas as tendências mais significativas, pois somente elas podem fazer luz sobre o problema da variedade. Como outras línguas, tanto o grego como o japonês distinguem, perfeitamente, quatro aspectos de estupidez: Primeiro, a falta de sensibilidade, que se parece com a morte, com o sono, a cegueira, a surdez e o torpor. Segundo, um estado de confusão em presença de qualquer assunto que requeira observação e decisão. Terceiro, baixa velocidade, seja na reação sensorial imediata ou em qualquer fase posterior do comportamento. Enfim, incapacidade de ir direto ao coração duma situação ou dum problema, que é, em todas as línguas superiores, identificada com a grosseria ou falta de gume afiado, como uma faca ou um punhal, falta de tato. Em diferentes períodos do desenvolvimento da sabedoria o povo distinguia, de maneira diversa, esses quatro aspectos da estupidez. Nos primeiros tempos, naturalmente, não havia distinção. Homero, por exemplo, nos fala do σωθόν βέλορ, a lança rombuda que precisa ser aguçada pra servir ao guerreiro no combate diante da muralha de Tróia. Mas quando Heródoto escreveu sua estranha História os homens usavam a palavra σωθόρ pra significar surdo ou surdo-mudo. No esplendor de Atenas, Sófocles aplicou a mesma palavra à mente e, então, significou estúpido. Surgem aqui, pois, três de nossas quatro fases de significação da mesma palavra, mas em épocas diferentes. Foi também Heródoto quem deu o passo da palavra νωθήρ no primitivo significado de retardado, vagaroso e entorpecido. Pra sua fase intelectual usou o termo no sentido de estúpido. À sombra desse significado mas palpavelmente relacionado com ele, está a palavra crespa βλάξ, cujo uso se referia, primitivamente, a um relaxamento do corpo, como nos indivíduos efeminados e degenerados inferiores. Platão e Xenofonte o aplicaram à mente, e então se tornar um termo regular pra estupidez. Suspeito que sempre houve, implícita, a falta duma força impulsora que penetrasse o âmago do assunto. O termo regular pra retardado é βπδςαρ. Platão e outros sempre o usaram, metaforicamente, pra descrever os obtusos. Nosso termo popular, bronco, é puro grego. Parece ser a maneira mais exata de descrever a mente inferior. Muitas vezes significa um simplório mas também um homem simplesmente estúpido, não necessariamente insensato. Eurípedes o designa entre os termos neutros, pra exprimir a loucura. Esse é o significado regular do substantivo cognato μωπια, que também exprime a insensatez. Nossa definição técnica dum bronco jamais foi concebida, naturalmente, pelos antigos. Não poderíamos entrar em muitos dos mais sutis matizes do grego sem irritar muitos

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de nossos leitores. 13 Platão usa tal quantidade de termos pra formas particulares de estupidez como nenhuma outra língua se pode gabar de possuir. A estupidez que resulta do simples atraso no reconhecimento e no aprendizado tem nome especial no imortal Diálogos, δςζμαθέω como a variedade que resulta da incapacidade total de aprender, δςζμαθέω. Os historiadores e os dramaturgos distinguem ainda muitos outros modos em que vemos, embora não claramente, os vários significados básicos compostos de diferentes maneiras. Eurípedes e Tucídides falam de άζςνεζια como duma falta total de compreensão, enquanto Ésquilo emprega άγνοια como a espécie de estupidez que tem raiz na falta de percepção ou na observação defeituosa. A essa breve lista qualquer estudante de grego pode acrescentar outra exatamente do mesmo tamanho. Os japoneses fazem todas estas distinções e muitas outras mais. Don significa rombo, sem gume. Don-to é uma faca cega. E assim, don-na hito é uma pessoa estúpida. O mesmo acontece com o sinônimo nibui, que descreve a falta de gume afiado numa faca ou num sabre e, também, a falta de agudeza mental. Singularmente, a mesma palavra também serve pra todas as quatro fases de estupidez. Às vezes significa falta de sensibilidade, outras vezes a vagareza da mente, outras a imperfeição e, ainda outra vezes, a falta de poder de penetração. Os japoneses também possuem um termo excelente, que focaliza um aspecto da estupidez não bem diferenciado em inglês, o termo manuke, ou desatino, mas no sentido especial de extemporâneo. Isto se parece com o francês malapropos, mas vai além, acentuando a estupidez que está na base desse procedimento. É significativo que uma raça tão alerta e tão ágil como japonesa use tantos vocábulos pra descrever as variedades de velocidade e de vagareza tanto no comportamento mental com no físico. Mas é ainda mais chocante que o japonês use gu, que significa tolo ou estúpido, como uma palavra humilde pra descrever a si próprio na conversação polida.

Assim: Em minha opinião de estúpido

Também consideram esperteza, no negócio,

... afetar estupidez, na suposição de que os indivíduos estúpidos prevalecem no mundo e com eles podem mais facilmente tratar as pessoas que parecem seus semelhantes. Essa crença penetrou tão profundamente no pensamento japonês que usam a palavra shiremono, tolo ou ignorante, pra se referir a um sujeito astuto! Noutro lugar discutiremos essa significativa psicologia. Deixemos o Japão, notando que há 18 ou 19 termos comuns descrevendo formas de estupidez em sua língua. Certamente, apenas uma raça esperta poderia ser tão analítica. Os romanos eram manifestamente menos espertos que os gregos ou que os modernos japoneses. E sua língua os trai. Nossa palavra fool (tolo) vem de bellows (foles), através de Roma. Significa, pois, saco-de-vento. Portanto, não se trata de simples metáfora quando falamos dos tolos como sacos-de-vento. Os italianos dizem folle, o tomando diretamente do latim follis, que quer dizer fole. Tanto quanto diz respeito a nosso assunto, pois, tolo é uma caracterização cruamente desenhada, colorida, mas imprudente. Um saco-de-vento é uma cabeça vazia, cabeça-de-vento. Mas qual será a causa do vazio e de que espécie é a vacuidade psíquica? Dos romanos também tomamos a palavra stupidity (estupidez) e demos os significados de grosseria, atraso mental, indiferença, anestesia e incapacidade de utilizar o próprio conhecimento. Nesse último sentido temos uma nova contribuição. De quem mais, além do inglês, poderia ela vir? É um traço estritamente pragmático mas profundo, claramente estabelecido pelo filósofo João Locke que, em seu Ensaio sobre o entendimento humano (1690), escreveu sobre a mente: Se move vagarosamente e

13 O que mostra que o autor também faz concessão aos estúpidos. Nota do digitalizador

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não recupera as idéias com rapidez suficiente pra servir a mente quando necessário. Isto, se em grau elevado, é estupidez. Ora, eis um aspecto que não os gregos nem os japoneses observaram. Não é insensibilidade, fraca percepção, nem confusão mental mas vagareza de avaliar o que o indivíduo já possui intelectualmente. Mais adiante descobriremos que é a forma de estupidez em que os ingleses excelem. Ainda mais, cresce de importância à proporção que nosso mundo se torna mais e mais complexo. Vagareza de sensação e de percepção é uma coisa, vagareza de utilização é outra. Os indivíduos que ainda não descobriram a mente humana e seu modo de ação sempre põem, no pensamento, ignorância e estupidez. Poucas raças têm tão pouca visão dos fatos psíquicos como a árabe e sua língua revela essa deficiência. Os árabes usam jahil pra significar ignorante e estúpido. Aparentemente o sentido original dessa palavra era bravio ou bárbaro, pois os modernos muçulmanos aplicam o termo aos árabes pagãos de antes de Maomé. Outra palavra árabe que significa, dalgum modo, a falta de sensibilidade, é ahmaq. O sentido original é incerto e esse significado, ao que sei, pode ser muito recente. Em todo o mundo encontramos a estupidez descrita como uma característica animal mas parece que as raças mais estúpidas o fazem mais. Não encontrei tendência grega, japonesa ou inglesa pressa interpretação que, se existe, não é geral nem importante. Mas os velhos árabes, que não estavam muito longe do pastoreio, e os alemães modernos, que, pra dizer caridosamente, têm inteligência pesada, exibem claramente essa inclinação. Um árabe hesitante, confuso e perplexo é bahim. A raiz da palavra, aqui, quer dizer gado, tanto em árabe como em hebreu. Os alemães gostam de dizer: Dumm wie das liebe Vieh, 14 saudumm ou viehdumm. Isso não está muito longe do francês une bêtise nem da velha frase inglesa as wise as Waltham's calf (tão sábio quanto o bezerro de Waltham). Os romanos não contribuíram pro conhecimento do mundo sobre a estupidez. Com efeito, parecem nem mesmo haver tomado emprestada a delicadeza do grego, a despeito do fato de que tudo o que aprenderam de cultura viesse de professores helenos. Todos os quatro significados principais que já encontramos no grego e no japonês aparecem, naturalmente, em latim. Stolidus descreve uma pessoa que, segundo a velha frase ianque, é tola a seu modo. Aparentemente vem da raiz sto, que é comum ao latim e às primitivas línguas germânicas e significa colocar. Se segue que o stolidus está plantado numa posição, como uma grande pedra cimentada em torrão antigo, que não pode ser removida por força vulgar. Stupidus raramente significa estúpido, no sentido inglês. Normalmente significa entorpecido ou privado de sensibilidade e, assim, é usado pra designar a pessoa assombrada ou confundida. Mas o substantivo cognato stupor é mais freqüentemente aplicado tanto à insensibilidade nativa como à ocasional. Obtusus se aplica à pessoa tornada cega ou estúpida e eis, novamente, o significado de instrumento sem gume e sem a possibilidade de cortar ou penetrar. Há outro significado, estreitamente relacionado a ele, que revela o obtusus como pessoa reduzida ao enfraquecimento mas se trata duma interpretação derivativa. Hebes, sinônimo, tem ambos significados. Esses termos são todos relativamente fracos e de aplicação muito geral. Isso é, descrevem a simples estupidez, sem especificar a forma em que trabalha. Algumas outras palavras, entretanto, implicam ou ao menos sugerem também resultados extremos. Assim, o verbo desipio descreve um tipo de comportamento estúpido que não

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  • 14 Dumm wie das liebe Vieh (Estupidamente gostam do querido gado). Saudumm (idiotice). Viehdumm (estúpido gado). Nota do digitalizador

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se baseia na falta de sensibilidade primária mas sobre a derrocada das funções intelectuais. Em geral significa agir sem compreensão e é comumente usado pra pintar um homem doente em delírio. Mais adiante veremos que muitos exemplos considerados estúpidos são apenas o resultado de alta sensibilidade, que se tornou confusa ou sem sentido. Isso levanta uma confusão infeliz na interpretação. Outra palavra, socors, se aplica à espécie de estupidez que se resolve em simples negligência, sujeira, e coisas parecidas, ou, noutro sentido, à indolência. Encontramos, depois, stultus, um termo genérico prà tolice, e, mais forte que todos os outros, fatuus, muito semelhante a nossa palavra mentecapto. Finalmente, os latinos reconheciam a espécie de estupidez que se deriva dum defeito na percepção do espaço-tempo mas parecem estar menos esclarecidos sobre esse ponto que os japoneses, povo mais alerta. Um ineptus é uma pessoa cujos atos e pensamentos são mal-adaptados. Faz a coisa certa em tempo e lugar errados ou faz a coisa errada em tempo e lugar certos. Portanto, lhe falta o tato. Acho digno de nota o fato de que os romanos descreviam o pedante como ineptus. Tanto os gregos como os romanos parecem ter notado um aspecto da sensibilidade que nós, modernos, passamos batido. Sentiram a profunda analogia existente entre o sabor do sal e a impressão que uma personalidade astuta, engenhosa e jovial nos causa. Voltamos às palavras de Jesus à multidão: Sois o sal da terra. Através do grego e do latim, chega às modernas línguas românicas. O português atual chama uma pessoa de insossa, 15 pra significar estúpida ou sem espírito. Essa palavra, insosso, vem do latim, insulsus, negativo de sulsus, salgado ou salino, portanto agudo, engenhoso, jovial, astuto, e, naturalmente, insulsus designa o estúpido, o falto de engenho, o fraco de mente. Os gregos também sentiram a semelhança de sabor nos alimentos e nas personalidades. As coisas insípidas lhes eram estranhamente parecidas com as pessoas estúpidas. Uma mente vulgar certamente não tem sabor nem odor, nem pode encontrar correspondência positivas noutras pessoas. 16 A idéia de insensitividade está profundamente plantada nas línguas do norte da Europa. Nossa palavra clumsy (grosseiro) vem, em linha reta, do escandinavo klumsa, que significa entorpecido. Nossa palavra blunder (desatino) aparece, na antiga Islândia, como blenda, significando cochilar, modorrar. Aumentada do sufixo ren, que indica freqüência, contumácia, a palavra (agora blunderen) passa a significar a continuação do cochilo, da modorra. E o hábito implícito indica uma condição mental. O mesmo termo pode também ser encontrado em sueco e em dinamarquês. Essa noção de insensibilidade se funde com a falta de poder de penetração em nossa palavra blunt (sem gume). Essa palavra parece provir da mesma raiz primordial, como blunder (desatino), mas muito cedo passou a ter o significado de obtuso, no sentido usado por Chaucer, 17 sem ponta aguda, portanto não penetrante. Como vemos, embora os homens nunca fossem muito sensíveis à estrutura da estupidez, mesmo assim deram alguns passos, a apalpadela, em certas direções. Pra completar a cena literária devemos inventar uma nova linguagem prà morologia. As palavras dos homens estúpidos não podem envolver sua estupidez.

Limite

A estupidez continua a ser, em grande parte, uma região desconhecida, cuja linha fronteiriça ninguém ainda delimitou. Mas, ao passo que ainda é muito cedo pra falar de

  • 15 No castelhano também, insulso (insosso). Nota do digitalizador

  • 16 É um fenômeno de sinestesia. Nota do digitalizador

  • 17 Geoffrey Chaucer (cerca de 1343 - 25.10.1400) - Escritor, filósofo, cortesão e diplomata inglês. Autor de Os contos de Cantuária (The Canterbury tales), obra-prima da literatura inglesa. Nota do digitalizador

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sua fronteira, devemos e podemos fazer a corografia 18 de seu território. Antes de tudo, devemos mostrar em que relação está com relação os reinos irmãos da Ignorância, Superstição, Inércia e Ininteligência. Em que aliança se envolveu com esses reinos, sobre intercâmbio e comércio? Quais os embargos em vigor? Qual o sistema de câmbio e de tarifas que prevalece? Eis questões topográficas e diplomáticas que desafiam o saber e a astúcia de todos nós. Consideremos, em primeiro lugar, sua relação com a ignorância. À primeira vista, parece fácil. Mas que ilusão! Se trata duma verdadeira floresta de problema. A penetrai e chegareis a uma planície gelada, povoada de ferozes enigmas. Eu supunha saber exatamente o que era a ignorância, até que me aproximei. Não a consideramos, em geral, simples falta de conhecimento? Eu a considerava. E a construção da palavra apóia esta noção. Mas o assunto não se esclarece assim rapidamente. Ignorância é um termo negativo. Significa simples falta de conhecimento. A falta, naturalmente, pode ter várias causas. A falta de análise da ignorância pode levar a sérios mal-entendidos. Aqui vão cinco entre as causas comuns de ignorância:

1 - Posso nunca ter tido oportunidade de conhecer o assunto do qual sou ignorante. 2 - Posso o ter conhecido nalgum tempo mas ter perdido de memória por não me interessar.

3 - Posso ter sido mal-informado sobre o assunto. 4 - Posso ter atitude de resistência que me impeça de o conhecer. 5 - Posso ser constitucionalmente estúpido e incapaz de o apreender. Descritos em geral, vão aqui em ordem de gravidade. Se não conhecesse os fatos somente porque nunca me acontecesse os encontrar teria uma excelente oportunidade de os apreender quando deles necessitasse. Mas se não os pudesse assimilar eu estaria permanentemente em desvantagem. Ora, muita estupidez pode se ocultar sob a segunda, a terceira e a quarta variedades de ignorância. Por exemplo, posso ter deixado que algo de valor me escapasse à memória por ser insensível a fatos vitais que, se sentidos e avaliados, me teriam interessado profundamente. Em suma, falta de interesse pode ser, nalguns casos, outro nome pra estupidez. Também, posso resistir a aprender algo, em primeiro lugar em virtude duma atitude e das emoções a ela ligadas mas, em análise mais profunda, em virtude de estupidez quanto à importância do assunto. assim pareço a criança que odeia a tabuada de multiplicar, em parte por causa do trabalho de aprender mas, principalmente, por ser muito jovem (e, às vezes, sem o ensino suficiente) pra perceber sua enorme utilidade. Estúpida quanto a seu valor, se indigna e, assim, deixa de vencer. Mesmo a informação deficiente pode, mais ou menos, resultar em estupidez, embora não seja comum. Pode ser falta de atenção no ouvir, no ler ou no observar, falta de atenção de que a estupidez é um dos ingredientes. Pra aumentar nossa confusão, quaisquer dessas tolices indiretas podem se combinar. Admirai, pois, nossa desgraça. Examinai alguns casos como os seguintes e procurai encontrar a fórmula de cada um. A fronteira entre a simples ignorância e a estupidez foi transposta por um agricultor do estado de Nova Iorque, cujo caso foi relatado, no Journal of the American Medical Association, por doutor Henry S. Martin, de Varsóvia, Nova Iorque. 19 Com vinte anos esse homem foi afligido, em primeira vez, por uma excrescência entre as omoplatas.

18 Corografia - sf - Estudo geográfico dum país ou duma de suas regiões. Nota do digitalizador

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Então do tamanho duma noz e inteiramente indolor, o agricultor não se incomodou. Durante dez anos a excrescência aumentou imperceptivelmente, até ficar do tamanho duma laranja. Naturalmente, a excrescência interferiu um pouco no duro trabalho manual que um agricultor deve realizar. Também deve ter sido um incômodo, em relação a sua roupa e ao cotidiano vestir e despir. Tentai prender, sob a camisa, exatamente entre os omoplatas, uma grande laranja e podereis fazer idéia nítida do tumor. Os médicos o aconselharam, seriamente, a uma operação mas o homem dava ouvido a alguns de seus amigos agricultores, que garantiam que morreria imediatamente se o tumor fosse rasgado. Não uma, porém muitas vezes, durante os anos seguintes, os médicos e os cientistas que souberam do caso o instaram a operar mas sempre em vão. Assim se passaram quarenta anos, durante os quais o tumor cresceu, muito devagar no princípio mas depois mais rapidamente, até pesar 27,22kg e pender das costas como um saco de farinha. Tinha 53,34cm de comprimento e 1,27m de circunferência. Pra andar o homem tinha de se inclinar a diante, pois o saco de veneno lhe chegava aos quadris. Ao chegar aos 70 anos a coisa começou a piorar. Apareceram úlceras na base, o crescimento se processou mais rapidamente e a saúde do homem foi seriamente abalada. Finalmente, aos 78 anos, se resignou à morte. Muito fraco pra trabalhar, muito sobrecarregado pra se locomover e muito velho pra dar importância à vida ou à morte, consentiu em ir a um hospital, a fim de remover o fardo. E isso depois de 50 anos! Foi internado no hospital comunitário do município de Uaiomem, em 26 de outubro e de lá saiu em 18 de novembro de 1927, em perfeita saúde. Sofrera meio século de desnecessária desgraça por acreditar mais nos vizinhos que nos médicos. Infelizmente não temos informação psicológica sobre esse homem, e é pena. Se fosse um homem de mentalidade inferior o julgaríamos de certa maneira. Sendo de inteligência um pouco abaixo da média o veredicto tomaria outro rumo. Mas, em qualquer caso, não é evidente que, ligada a uma ignorância total, uma invencível estupidez governava essa simples personalidade? Mas onde termina a ignorância e começa a estupidez? Teria, por acaso, sofrido muito nas mãos dum charlatão, na infância, e criado medo dos médicos? Teria visto um amigo morrer sob o bisturi, numa operação que todo mundo supunha fácil? Pra diagnosticar sua mentalidade, deveríamos conhecer todas suas experiências anteriores, especialmente de moléstia e cura. Um homem da cidade lê, no jornal, que os fazendeiros de Missure pretendem continuar a plantar trigo, a despeito da baixa mundial de preço. O homem da cidade sabe que 27,22kg 20 de trigo lhes custa cerca de 1 dólar, embora agora o devam vender a menos de 50 centavos. Loucos! Diz ele. Não admira que vão à falência! Mas o caso não é tão simples. O fazendeiro de Missure pode chamar seu crítico de estúpido, com igual razão. Pois o problema do trigo vai muito além do preço de venda. Assim, no Missure, milhares de acres ficaram exauridos em resultado da prolongada plantação de cereal. O solo deve ser renovado ou abandonado. Os homens não podem o abandonar, portanto devem restaurar a fertilidade. Como? O mais barato, rápido e seguro meio de fazer isso é plantar trevo, usando o trigo pra o proteger durante o inverno. O trigo, quando robusto, agüenta bem o frio. Atinge altura considerável, abrigando, assim, o trevo plantado consigo.

20 No texto original 1 bushel de trigo. Bushel é, originalmente, uma medida de volume a seco, usada primariamente pra medir o volume de mercadoria seca. 1 bushel = 8 galões secos = 2150,42in 3 = 35,23907016688 litros. Presentemente mais usado como unidade de massa e não de volume. Todos os bushels usados na transação de grão (milho, trigo, soja, arroz, etc) são unidades de massa. A conversão é feita atribuindo um peso-padrão a cada mercadoria. Por exemplo: Milho = 25,40117272kg, trigo e soja = 27,2155422kg. Nota do digitalizador. Extraído de www.thinkfn.com

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Também a erosão é uma ameaça ao Missure. O trigo protege o solo, que doutra maneira seria estragado pelo inverno e primavera. O lucro proveniente dos cereais é fator de menor importância, como se vê. A fazenda dum homem vale mais que o lucro duma colheita de trigo. Os cereais são a garantia do solo e um meio de rejuvenescer a terra. Assim, quem é o tolo? Alguns de meus amigos me garantem que as palavras mais estúpidas, partidas dos lábios dum homem eminente, nos últimos anos, foram as de Calvin Coolidge, que, em Good Housekeeping, de fevereiro de 1921, escreveu:

Homens e mulheres, em si e de si mesmos, são desejáveis. Não pode haver

muitos habitantes da espécie certa, distribuídos no lugar certo

Certas leis de

... abastecimento e de procura governam, em tempos normais, o ir e vir dos

estrangeiros ...

Não receio a chegada de tantos imigrantes, por ano, quantos as

condições de navegação e os regulamentos de passaportes possam aceitar,

contanto que sejam de bom caráter.

Os críticos afirmam que é a concepção mais bestial e mais vil da vida humana jamais antes confiada ao papel. Iguala a filosofia da Índia e da China e revela, acrescentam os críticos, a mais profunda estupidez.

Discordo. Não se trata, absolutamente, de estupidez, mas de ignorância. Coolidge, advogado de pequena cidade, teve a má sorte de falar sobre um dos mais complexos, enganosos e desesperados problemas do estado, os fenômenos populacionais. Ninguém sabe muito acerca desses fenômenos e os que sabem algo não são advogados nem políticos. Na verdade todos os estudiosos da população concordam em que cada região, cada sistema econômico e, talvez, cada área de solo e clima, tem seu próprio optimum de população, que, se excedido, conduz a desastre. Mas não havia razão pra que Coolidge soubesse. E se poderia igualmente o condenar por sua incapacidade de analisar os componentes dos fenômenos sísmicos. Mas, direis, ser estupidez falar, assim, de coisas que estavam além de sua compreensão. Discordo novamente. Pode ser tido como virtualmente certo que Coolidge não sabia que isso estava além de seu poder de inteligência. Sendo assim, o pior que podemos dizer é que Coolidge era duplamente ignorante. Mas todo mundo o é, hoje em dia, desde Einstein até Evangeline Adams. Já não há domínio de conhecimento comum nem campo de simples verdade conhecida ou cognoscível pelos mortais comuns. Se todos evitássemos falar, a não ser quando soubéssemos exatamente o que quiséssemos dizer, que silêncio mortal envolveria este mundo de tagarelas natos! Vamos à questão mais difícil. Onde passa a fronteira entre a estupidez e a superstição? Quanto, da superstição, é simples ignorância e quanto é estupidez em relação a fatos manifestos? Aqui chegamos à mortificação dos antropólogos e doutros estudiosos. Um em cada dez estudantes superiores, em Atlanta, Jórgia, admite acreditar no powwowismo. 21 Ignorância ou estupidez? Os velhos agricultores do Coneticute acreditam que um pouco de placenta seca, pendurada num saco no pescoço, da criança fará com que os dentes cresçam retos, alvos e fortes. Ignorância ou estupidez? Centenas de negociantes consultaram Evangeline Adams, pretensa astróloga científica. Simples ignorância ou estupidez? Quase todos os dias os jornais, em Nova Iorque ou em Chicago, contam novas histórias de bruxa, de santo, de feitiço. Ignorância ou estupidez? Everett Dean Martin conheceu um médico, cujo preparo científico é tal que chegou a

21 Sistema cerimonial efetuado pra curar moléstia, pra lograr sucesso na guerra, etc., entre os índios algonquinos de Estados-unidos.

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ser professor de medicina, que acredita que o céu está localizado a poucas milhas

adiante da Via Láctea. Qual das duas coisas passa a diante, a ignorância ou a estupidez? Uma mulher de Bruclem, em 1930, viu seu filho à porta da morte, embora cinco médicos afirmassem que a vida do menino podia ser salva por meio duma simples operação. A mulher se recusou a consentir a operação, sob o fundamento de que Deus lhe dera seu filho e se o queria de volta não havia razão pra se queixar. A mulher continuou a orar enquanto as autoridades municipais se dirigiam ao juizado de menor. A mulher lutou até o fim, mas em vão. A criança, internada num hospital, foi operada e em breve se restabeleceu. Essa mulher era apenas uma estúpida, uma ignorante ou ambas as coisas? Devemos fazer a mesma pergunta acerca de todas essas dezenas de milhares de reuniões de oração, missas e outras complicações rituais, como os seguintes exemplos:

Quando o pânico de 1921 se abateu sobre nosso amado país, Roger Babson conseguiu a assinatura de 40 banqueiros, industriais e profissionais liberais, todos eminentes, num Apelo a Eua. Admitindo, no prólogo, que Eua estava em mau caminho, os 40 sábios declaravam que somente remédios espirituais podem curar os males atuais da humanidade. E pediam que o povo se reunisse em oração. Não sabemos se o povo atendeu ao apelo. No verão de 1931 um grande exército de gafanhoto devastou as colheitas do centro- oeste. Os agricultores e suas famílias, então, desesperados com a praga, mandaram celebrar uma missa campal na vizinhança de Cidade Siux, Aioua, a fim de pedir a proteção divina contra a catástrofe causada pelos insetos. Paremos aqui, pois a lista é infinita, monótona e deprimente. Podeis, nalgum desses casos, afirmar, com clareza, onde começa a ignorância e termina a estupidez? Não posso. Tudo o que sei é que cada acontecimento é, dalgum modo, uma obscura união desses dois defeitos mortíferos. A necessidade de viver, a luta à imorredoura felicidade e a inclinação dos homens débeis a se apoiar em seres mais poderosos são, certamente, ativos aqui mas fazem os homens estúpidos tanto quanto nutrem a ignorância, de mil-e- um modos sutis. Assim o labirinto se torna mais ínvio e mais escuro, pois a estupidez humana parece ser o produto de desejos elementares não menos que de incapacidade elementar de função. O psicólogo que em primeira vez se interessar por nosso tema, provavelmente oscilará entre dois pontos de vista. Dum ângulo considera a estupidez uma fase de inteligência inferior, ao passo que, doutro, a considerará uma fase de sensibilidade primária. Enquanto o biólogo prefere pensar sobre a conduta estúpida do homem nos termos usuais de correspondência extrema ou de procedimento manifesto, o psicólogo volta o olhar aos momentos de consciência que precedem o ato final, pois está mais interessado nos fenômenos do sistema nervoso central que nos musculares. Uma primeira classificação, pois, incluiria todos os defeitos das sensibilidades primárias do olho, do ouvido, da língua, das narinas e pele num grupo e, noutro, todos os sistemas de associação e de integração central envolvidos nas funções superiores da memória, da imaginação, da análise, da linguagem e coisas semelhantes. Durante algum tempo, ao menos, seguiremos essa maneira de distinguir a variedade. Mas em breve parecerá não tanto errada quanto inadequada. Em verdade, indica os níveis de organização psíquica a que correspondem várias espécies de estupidez mas não revela o que é, o vejo agora, a mais comum e a mais desastrosa das tolices, a saber, a que resulta da ação combinada de muitas funções, de muitos estímulos e de muitos desejos. As tolices da espécie que arruína as civilizações e adultera as culturas não podem provir, em geral, dum defeito específico num centro nervoso, nem mesmo de todo um sistema nervoso. São o resultado de situações imensamente complexas influenciando

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uma personalidade. Voltamos, pois, à simples proposição de que, assim como a inteligência geral é a capacidade de enfrentar, com êxito, situações novas, a estupidez geral é a incapacidade de o fazer. E as tolices especiais são, muitas vezes (senão sempre), alguma incapacidade especial da mesma ordem. Em todos os casos a situação é tão importante quanto o indivíduo. Eis porque insisto em que a estupidez é um fator histórico genuíno, tão positivo quanto a inteligência ou o gênio. Por ser, dalgum modo ainda a definir, o oposto da inteligência e da sensibilidade, melhoraremos nossa noção sobre a estupidez nos voltando, um momento, à natureza do procedimento inteligente. O limite entre a estupidez e a inteligência não pode ser traçado com linha reta. Se trata, antes, duma terra-de-ninguém, uma zona entre duas forças imensas que às vezes estão em guerra e às vezes modorram durante um armistício. Não podemos dizer que qualquer capacidade isolada, que uma prova de inteligência possa revelar e medir, que coloque um homem dum lado ou doutro nessa terra-de-ninguém. Pois nesses campos superiores da habilidade e do poder humanos o encadeamento dos traços num modelo de integração é extremamente sutil. Dois homens, que parecem quase idênticos na formação mental, podem estar muito apartados entre si, e dois outros homens, entre os quais não haja relação, podem se parecer como dois irmãos. Muitos traços considerados sinais de inteligência superior não são. Alguns psicólogos consideram os altos poderes da memória um dos ingredientes necessários mas, certamente, não são. A memória especializada ou preferencial é, comumente, emparelhada com o domínio dum traço mental superior mas isso pode envolver a memória comum ou abaixo da normal. Muitas mentes poderosas, como a de Benjamin Franklin, não podem lembrar o que comeu no último repasto, onde foi assinada a declaração da independência, quantos estados há na união americana ou qual dos grandes lagos é o menor. A solidez de julgamento também tem sido considerada um sinal de mentalidade superior. Todavia, é uma coisa enganosa. Pois é, em grande parte, questão de objetividade. O extrovertido é infinitamente mais capaz de ver as coisas como são que o introvertido, de modo que um extrovertido de mentalidade inferior pode muito bem ultrapassar um introvertido de mentalidade especial superior na apreciação aos homens e aos negócios assim como na auto-apreciação. Qualquer menino de lavanderia pode ter juízo mais sólido sobre um número maior de assunto que Betovem. A adaptabilidade geral também foi tomada como medida mas merece menos confiança que a memória ou o julgamento. A capacidade de estar à vontade com outras pessoas, de enfrentar as crises com serenidade e calma, de se conformar às leis do país com facilidade e êxito pode ser o resultado duma alta tendência mental. Muitas vezes não é mais que uma forma de esperteza animal. O meio mais fácil de viver sem esforço mental ou físico muito severo! O caminho do covarde moral! O caminho do conformista estúpido! Não nego que possa ser, também, o resultado da análise e do plano mais astuto mas me inclino a acreditar, sobre tão insuficiente evidência, que, nas regiões densamente povoadas, onde a pressão do costume social e a alta tensão da luta pela existência conspiram pra tornar difíceis as inovações e as individualidades marcantes, os homens superiores muitas vezes analisam a situação e decidem prosperar com o menor choque possível, afirmando seu pensamento e preferência independentes o menos possível ou, se necessário, de maneira altamente disfarçada. Soube de vários casos como esse entre chineses de classe alta, ilustres homens dos guetos e prósperos negociantes ianques. Quanto mais forte é o rebanho tanto menos o homem que pensa estará inclinado a se opor abertamente e tanto mais adaptará sua natureza, ao menos em público. Alguns dirão que se trata de hipocrisia, enquanto outros

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concordarão que se trata de bom-senso. De qualquer modo, adaptabilidade assim revelada também pode ser encontrada em variedades inferiores de personalidade e, portanto, não deve ser considerada indiscriminadamente, índice de inteligência. Muitos dos erros na definição da estupidez e da inteligência se enquadram em duas classes. Uma capacidade, que é um instrumento importante da inteligência, é confundida com a própria inteligência, como no caso da memória, ou um resultado final de comportamento exterior é impropriamente chamado ato de alta inteligência simplesmente porque o ato é socialmente são e útil e uma coisa inteligente a fazer. Esse último é, naturalmente, a racionalização sutil dum processo que pode ocorrer sem intervenção ou ajuda da razão. É como a teoria dum eminente físico, já falecido, que sustentava que os cães e os gatos devem possuir conhecimento inato do cálculo integral, pois são capazes de descrever um ângulo exato pra alcançar um coelho ou um rato em fuga. Com esses exemplos de má compreensão diante de nós, vejamos agora quais são alguns dos mais importantes traços que diferenciam a inteligência superior da estúpida. Primeiro, a capacidade de resolver problema. Muitos psicólogos consideram esse traço uma das mais seguras provas de vivacidade mental e não podemos encarecer sua importância. Mas podemos exagerar sua simplicidade. É verdade que aqui temos uma constelação de traço, não apenas um. E com isso não quero dizer que, assim como há muitas espécies de problema, assim deve haver muitas espécies de capacidade usada pra os resolver. Naturalmente, isso é reconhecido universalmente. Não. O que quero dizer é que, em cada problema típico, encontramos vários modos de procedimento, que, quando integrados com propriedade, conduzem ao êxito na solução. E que esses modos devem ser considerados os verdadeiros traços primários. E o que são esses modos? Considerai o processo de solução dum problema. Primeiro, exige uma correta integração das percepções. Os fatos do problema devem ser reunidos diante do pensador e considerados em suas relevantes relações. Em seguida, esses fatos, arrumados em ordem, devem lhe sugerir as espécies de manipulação dignas de serem tentadas. Isso é, a analogia entre esse problema e os anteriores deve surgir vividamente diante de si. Em terceiro lugar, afim de refletir rapidamente de modo a conseguir resultado, o pensador deve ser capaz de reduzir os fatos e o problema, conjuntamente, a alguma espécie de estenografia conceitual. Deve usar símbolos, livremente, e, durante o uso, não se tornar confuso quanto aos significados e às equivalências. Palavras, sinais matemáticos, diagramas e notas altamente abreviadas devem servir e, também, diminutos ajustes musculares, especialmente da laringe. Em quarto lugar, o pensador deve, quando necessário, ser capaz de dividir o problema: Lhe impede o enfrentar por parte, aspecto a aspecto. E isso envolve um grau muito elevado de dissociação controlada. Esta função é chamada abstração ou atenção voluntária mas nenhum desses termos descreve adequadamente sua singularidade fisiológica. O que acontece, simplesmente, é que certos tratos nervosos são, dalgum modo, temporariamente isolados contra todos os estímulos interiores e exteriores, exceto uns poucos, especiais, que se originam no próprio sistema dissociado. É esse último que difere, distintamente, a operação da simples atenção. Depois de haver completado uma série dessas soluções parciais, o pensador deve reunir os resultados parciais e os relacionar entre si. Isso, naturalmente, é um processo integrativo no plano da imaginação e das funções simbólicas. Pro consumar será necessário muita conjetura. Muitas analogias relacionais devem ser lembradas e examinadas e, se elas não derem a pista desejada, novas analogias serão concebidas e experimentadas. Aqui a livre fantasia, mesmo da mais desordenada espécie, não tem

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valor. De modo geral, quanto maior é o número de idéias transitórias, tanto mais certa é a escolha final e mais exata a relação. Mas aqui estamos em perigo de sermos enganados por alguma velha interpretação favorita ou por outra surpreendentemente nova e original. O primeiro perigo é fácil e agradável e pode fortalecer o pensador na convicção de que suas maneiras habituais e pensamento se mostram suficientes pra resolver o novo problema. O último perigo é mais grave pro jovem cujos hábitos intelectuais ainda não se enraizaram: O fará sentir que está a ponto de revolucionar o mundo, de deslumbrar os mortais cuma completa novidade. Ora, o pensador de poder superior estará em guarda contra ambos perigos, seja por precaução ou em resultado de amargas experiências. Tenderá a retardar o julgamento final tanto quanto possível e a afastar, de suas interpretações, seus preconceitos e desejos. Numa palavra, se inibe poderosamente no campo da quimera, da inferência e da analogia mas o faz sem a supressão completa do assunto. E um dos métodos de inibição é submeter as descobertas duma pessoa ao julgamento doutras, antes de chegar a uma decisão final quanto ao valor e significado. Outro método, menos eficiente, é repetir toda a investigação com certas variações apropriadas. Assim, a estupidez deve ser considerada qualquer tipo de comportamento em que um ou mais dos fatores da inteligência podem faltar ou, caso estejam presentes, sejam tão ineficazes que não possam enfrentar a nova situação. A variedade mais profunda, pois, é a em que as percepções básicas falham, em resultado dalguma insensibilidade. Depois, temos uma segunda espécie, quase tão profunda quanto a primeira, em que muitas percepções, individualmente nítidas, não podem ser organizadas de modo a elucidar o significado. A terceira espécie deixa de sugerir maneira de controlar a situação, o que comumente se deve à pouca imaginação e, incidentalmente, à inexperiência. A quarta é uma estupidez causada por uma grosseira estenografia conceitual, linguagem pobre ou outros símbolos defeituosos. A quinta é a estupidez da atenção inconstante e da inevitável confusão de campos não relacionados do discurso. A sexta é dissociação defeituosa dos fatores e das fases significativas da situação, já que é, como dissemos, mais que atenção inconstante. A sétima é a estupidez da má organização dos resultados num plano final de ação. A oitava é falta de imaginação. A nona é a estupidez de deixar de verificar os resultados ou de os pôr a prova por métodos inadequados. Possivelmente, deveríamos acrescentar a essas uma décima espécie, sob a forma de lógica errada, mas me parece que os erros de inferência, em geral, decorrem da terceira, da quarta e da quinta tolices acima mencionadas. Eis as fronteiras do reino do humanesco com a utopia. Aqui encontramos, ao menos, nove espécies de estúpido. Os estúpidos se casam e se misturam em todas as combinações possíveis. Alguns híbridos foram favorecidos pela circunstância, outros foram rapidamente mortos. Alguns se elevam até a glória enquanto outros são caçados pela polícia. A história de todos eles é a história de nossa raça, na maior parte. Nos reportemos a ela.

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Απση

Arcada

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...

Dentro

desse covil um homem

costumava

dormir,

um monstro

que apascentava seu rebanho muito

longe, sozinho, e jamais se

misturava com os de sua espécie.

Morava só, mau e sem lei. Era

maravilhosamente construído esse

maravilhoso ser, não

como os

mortais, que vivem de pão,

mas

como um cume de montanha, que,

se elevando, rude, no meio

da

floresta, se destaca entre as outras

colinas.

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Ciclopes

Ciclos

ltos e baixos assinalam todas as carreiras, seja de rapaz, estadista, corporação,
religião, de reforma, de agricultor ou de bufarinheiro. Aparecem em êxito e em fracasso, na paz e na guerra, na população, no crime e em quase todos os outros domínios de ação. E se parecem, estranhamente, aos altos e baixos do reino animal. Muitas vezes parecem regulares e os ciclos de seu fluxo tornam perplexos os cientistas. O número de corujas, lagópode 22 e ratos do norte varia num ciclo de quatro anos. Assim as raposas têm a disposição tal banquete que as pequenas raposas, que doutra maneira morreriam de fome, engordam e chegam à idade adulta e, assim, a população de raposa aumenta e diminui simetricamente com a do alimento. Lebres, ratos- almiscarados, 23 galos-silvestres, linces, martas e lobos se multiplicam e diminuem num misterioso período de 9,7 anos. Algumas moléstias animais obedecem ao mesmo ritmo, que é singularmente parecido ao curto ciclo lunar de 8,85 anos e quase exatamente a metade do período do longo ciclo lunar de 18,6 anos. No negócio da humanidade não é o ciclo de população o primeiro a chamar a atenção do observador mas os altos e baixos no período de chuva, na importância da colheita, na prosperidade comercial. Quem pode resistir às excitantes correlações descobertas por Ellsworth Huntington? Demonstra, com documentos autênticos do século 19, que cinco grandes ciclos de seca, de perda de colheita e de depressão comercial ocorreram com absoluta simetria. As secas e as perdas de colheitas ocorreram em períodos de 18,6 anos, enquanto os pânicos financeiros se sucederam com intervalos de 18,4 anos. Embora os pânicos raramente ocorressem ao mesmo tempo que as secas e as perdas de colheita, sempre vieram um pouco antes ou um pouco depois.

Ora...

O que tem tudo isso a ver com a estupidez? Mais que ninguém parece haver

suspeitado. Sempre que encontramos a carreira duma criatura governada por ciclos circunstanciais podemos ter certeza de que as condições que afetam seu bem-estar estão além de sua observação e controle. Sabemos que a criatura é vítima de circunstância. Em relação às condições determinantes, é passiva, cega e estúpida. A medida que a inteligência e a energia se desenvolvem a criatura estuda a si e seu ambiente, descobre novas maneiras de conseguir o que deseja e de evitar os males e, portanto, tende a vencer o grande remoinho de acontecimento que a arrasta. Na vida da razão o padrão é conformado pela vontade e não pelas órbitas do Sol e da Lua. As coisas acontecem de acordo com nossos desejos. No extremo inferior a carreira das bactérias e doutros micro-organismos também pode ser determinada, quase inteiramente, pelo ciclo dos acontecimentos cósmicos, digamos, somente por conjetura, pelas variações dos raios cósmicos. Eis as noções básicas do astrólogo encontrando meia confirmação. No ápice da vida, que ainda não foi alcançado, durante cerca de um milênio!, os homens planejarão programas de cem anos e os realizarão nos aspectos essenciais, a despeito de tudo. Então não haverá ciclo, a não ser os da própria vontade. O que são estes ciclos da vontade? Quem os pode profetizar? O mais que posso sugerir é que serão funções matemáticas da classe e da intensidade dos desejos

22 No original ptarmigan - Lagopus é um gênero de aves galiformes, pertencente à família Phasianidae. O grupo é típico das regiões frias do hemisfério norte e pode ser encontrado em habitáculos de tundra, sub- árticos e alpinos. Nota do digitalizador, extraído de Wikipedia. 23 O rato-almiscarado é a única espécie do gênero Ondatra. É um roedor semi-aquático de porte médio nativo da América do Norte. Nota do digitalizador. Extraído de Wikipedia ..

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veementes. Mas apenas significa um pouco mais que nada, a menos que aceiteis, como eu, a hipótese psicológica de que a vontade duma personalidade inteligente e enérgica verdadeiramente transcende as quatro dimensões de tempo e espaço e a e utiliza como meios pra fins, pensamentos, planos e atos de programas em que o passado e o futuro são apenas fatores dum cálculo e de modo algum os determinantes do calculador. Sobre isso voltaremos mais tarde. Os ciclos da natureza, pois, se impõem a todas as criaturas, que são muito ignorantes, muito estúpidas ou muito fracas pra os evitar ou dominar. A estupidez, assim, parece ser apenas uma das três causas interiores do determinismo natural. Mas à proporção que progridamos com a análise começaremos a discernir sua influência sutil na perpetuação da ignorância e mesmo no alicerce das energias humanas. Observaremos, não nalguns, mas em muitos casos, a simples estupidez do olho, do ouvido, da memória ou dos poderes de reflexão impedindo o estúpido de conhecer fatos patentes e princípios de alto valor. Também a veremos inibindo ato, entorpecendo músculo e sufocando iniciativa. Antes de chegarmos ao fim de nosso prolegômeno seremos esmagados pelo pensamento de que Buda tinha razão em classificar a estupidez como um dos maiores de todos os defeitos mortais. Esta breve introdução não pretende ser uma história mas um guia prà história. Assim, nos contentamos com formular o seguinte princípio diretor, que o historiador deve aplicar e observar no curso dos acontecimentos humanos. É mais exato, creio eu, que o de Spengler, e mais compreensivo. Comporta as verdades de Spengler sem admitir suas extravagantes especulações e inexatidões tão comuns. Fornece uma legítima base físico- matemática pros gráficos dos movimentos econômicos, sociais, religiosos e políticos, sem, entretanto, estimular excêntricas simplificações que reduzam a história das nações e das eras a fórmulas apropriadas. Eis, na frase mais breve possível: O deixemos servir de acesso a todo nosso campo de investigação.

Acesso

Um metafísico considera a estupidez um axioma. Numa conferência em Berlim, Einstein, recentemente, notou: Diante de Deus, somos todos igualmente estúpidos e igualmente espertos.

Todas as velhas teologias concordam com isso, como a nova relatividade. É coisa evidente por si. Que o homem deve ter sensibilidade finita, não menos do que capacidade finita pra ativas correspondências, tem sido cantado em prosa e verso. Santayana, há pouco tempo, deu contribuição feliz presse pensamento, da seguinte maneira:

...Não

reter estupidez significaria possuir uma atenção incansável e

interesses universais, realizando, assim, a pretensão de nada de humano considerar estranho a nós. Ao passo que ser absolutamente desprovido de loucura implica auto-conhecimento e auto-governo perfeitos. O homem inteligente que a história conhece floresce dentro dum estúpido e traz, preso à

canga um lunático. 24 Poderíamos ir mais longe, se tivéssemos inclinação à filosofia, e perguntar se a infinita sensibilidade pode ser uma auto-contradição tanto quanto um absurdo biológico. O ato de sentir não é uma coisa baseada sobre nossa capacidade de diferenciar entre coisas presentes no mesmo momento? E como pode ocorrer essa diferenciação?, se estamos igualmente cientes das coisas diferenciadas. Limitados como somos quanto ao trabalho de nossas funções de atenção não podemos imaginar com clareza um ato em

24 George Santayna, The suppressed madness of sane men

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que uma criatura apreende tudo o que existe no universo cum simples golpe de vista psíquico. Nesse ponto o biólogo toma o argumento. Começa por vos pedir que vades a junto do rádio, a fim de fazer uma experiência. Pede sintonizar o programa favorito. Quando o fazeis vos chega música de Pitesburgo, Ora, isto, diz ele, não é mais que uma transformação especial dos sistemas de quanta, com certo comprimento de onda e com certa freqüência. Depois sintonizais Havana, outra onda de energia. Depois São Francisco, ainda outra onda. Então o biólogo nota: Enquanto ouvíeis a música de Pitesburgo, as ondas de Havana, de São Francisco e de centenas doutras estações estavam zumbindo através de vosso sistema nervoso, não menos do que através dos músculos, das meninas dos olhos, dos tímpanos, da casa e de toda a terra. Ainda não é tudo. Enquanto viverdes, um trilhão de trilhão de trilhão de impulsos de energia passará através de vós, todos os dias e todas as noites. Alguns são os raios cósmicos, o desmanchar de átomos de hidrogênio nalguma galáxia perdida. Alguns são raios ultra-violetas, outros infra- vermelhos. Pra vós nada são, enquanto contardes somente com os órgãos naturais de sentido, pois não estão sintonizados com os infinitos e respondem apenas a algumas intensidades e a alguns estímulos. Eis, pois, o stupor mortalis, o stupor vitae final. Vosso sistema nervoso é somente um pequeno, mal-feito e deploravelmente grosseiro receptor de rádio plantado num infinito mar de corrente e de maré atômica. Vosso aparelho só pode captar ondas de certo comprimento e freqüência. Assim também acontece como cérebro e os órgãos sensoriais. Como esse aparelho o intelecto não pode vencer a estática. Obscuras forças exteriores fazem com que os pensamentos se tornem indistintos. Qualquer pequeno defeito põe o aparelho fora de sintonia e o mesmo acontece com vossa tão louvada mente. Em relação à realidade do ambiente, está no mesmo plano dos vermes e dos insetos.

Desçamos agora da metabiologia ao arco senso-motor. Encontramos uma sólida prova de nosso princípio diretor. Eis, apenas semi-oculta, a chave dos maiores mistérios das tolices humanas e dos ciclos de fortuna. Eis a base de todas as experiências dos vertebrados. Eis a limitação específica de nossa natureza. Esse arco tem três fases no sentido do espaço-tempo. Primeiro vêm os nervos sensoriais e sua recepção de estímulo partido do mundo exterior. Em seguida vem o

campo nervoso central, onde essa corrente vinda de fora é, antes de tudo, ligada a experiências anteriores e toma novo caráter e nova direção. Finalmente, há os nervos motores que transmitem esse impulso central às fibras musculares. Tudo isso é psicologia elementar, naturalmente. Mas suas maiores implicações não. Cada fase desenvolve suas próprias debilidades não menos que suas excelências. Os nervos dos sentidos podem ser pesados como chumbo, de modo que poucos aspectos da situação cheguem ao cérebro. Esse era o stupor original do qual falavam os romanos quando, por exemplo, diziam que um homem, que poderia arrancar um dente sem gritar nem gemer, tinha stuporem dentium. Os olhos do cego e os ouvidos do surdo o possuem. A nossa linguagem repugna chamar isso estupidez, embora seja exatamente isso no sentido original, pois estupidez é insensibilidade, seja qual for o plano psíquico em que ocorra. Reservamos o termo pràs insensibilidades no plano cerebral, inexatamente, como mostrarei. E, entretanto, essas insensibilidades constituem, sem dúvida, nove décimos de todo o cortejo das tolices. Incluem o reconhecimento e a lembrança tardos, as associações confusas e falsas, as análises e os julgamentos superficiais e as inferências inexatas, assim como as mais inocentes variedades, como o devaneio e a distração. É

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nos centros associativos do cérebro que ocorrem. E têm lugar depois que os nervos sensoriais lhes transmitiram o choque dos acontecimentos exteriores. Por fim, no campo motor, o procedimento inferior se manifesta principalmente de duas maneiras: Primeiro pela falta de força e, depois, pela falta de destreza. A primeira é matéria de energia livre, a segunda matéria de padrão nervoso. Não damos a alguma dessas maneiras o nome de estupidez. A primeira é debilidade, a segunda é grosseria. Voltemos a nosso princípio diretor. A inteligência, em geral, é a capacidade de se ajustar o indivíduo, com êxito, a novas situações, ou seja, de evitar os desastres e, tanto quanto humanamente possível, de forçar o mundo a lhe dar o que quer, quando quer e onde quer. Do mesmo modo, a ininteligência em geral é a incapacidade de realizar. Todas as três fases do arco senso-motor estão envolvidas aqui. Se uma falha, todas falharão. E se falham, que acontece? Então, o homem é a criatura de circunstância. Anda de acordo com o vento. A neve do inverno o derruba como aos carneiros e aos bois. As moscas fazem pouso em seu corpo. O verão lhe traz a malária e a ancilostomíase. Todos esses altos e baixos descrevem uma curva fantástica, integrada pelas das tempestades e das secas, o crescente e o minguante lunar, a baixa-mar e a preamar, o ir e vir dos insetos e das bactérias, o fluxo e o refluxo dos pássaros e dos animais selvagens. À medida que os acontecimentos da natureza se repetem a história humana se repete através das eras de estupidez e de debilidade. À medida que as condições da natureza, em nosso globo, se dispõem no espaço, a humanidade se dispersa na mesma proporção. Assim, por exemplo, toda a raça mostra, em toda parte, uma densidade de população quase na razão exata das chuvas anuais. Nisso não diferimos muito dos fungos e dos liquens. Mas estamos na metade da tragédia. Os ciclos da natureza são, pro homem, um círculo vicioso, graças à mecânica da seleção natural. Os ambientes difíceis perpetuam, de diversas maneiras, os homens estúpidos, em proporção muito maior que os espertos, os delicados, os meditativos e os imaginativos. Assim, a procriação favorece os primeiros, ao menos durante um ou dois milhões de anos, e a criação os instrui na arte da estupidez. A fuga só pode acontecer por acaso. Sempre e sempre, a curva da necessidade volta sobre si mesma. Entre 10 9 de homens, talvez somente cinco ou dez possam ter ocasião e lugar pra manter a horda em servidão. Um relatório dessa servidão constituiria 99,9999% da genuína história. O outro 0,0001% estaria distribuído entre os poucos homens hábeis, mais dispersos que as estrelas no céu, que se desviaram do tipo central e progrediram por auto-educação, por meio de invenção e de hábil organização de servidores e de auxiliares. Esses poucos têm sensibilidade mais delicada, acima de tudo vêem, ouvem, cheiram e sentem coisas além do alcance do rebanho. Também dissecaram essas experiências sutis, buscaram os ingredientes e os reuniram em novas combinações. Assim se tornaram, pouco a pouco, senhores dos espíritos da terra, do ar e do fogo. Por causa deles, desde então, houve mais altos que baixos. Mas o mundo, mesmo agora, permanece, em geral, em servidão. Conseguimos uma perspectiva útil somente depois de ter considerado, em conjunto, os muitos ciclos de necessidade que, desde que o homem começou sua carreira ainda sem propósito definido, favoreceram os estúpidos e prejudicaram os perspicazes, os arrojados, os sinceros e os perseverantes. Em nenhuma das obras históricas ortodoxas e padronizadas encontrareis essa informação. Em verdade, alguns historiadores a escreveriam, se pudessem. Mas lhes faltam os dados necessários, e não por culpa sua. Assim, nos voltemos ao espetáculo da servidão humana. Alguns arquivos secretos nos foram abertos. Cada mergulho nos dias muito passados nos conduz à escuridão. Devemos, portanto, marchar cautelosamente, como historiadores. Colhemos força e

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coragem dos geógrafos, dos meteorologistas, dos médicos e dos bacteriologistas, dos quais todos, embora poucos o tivessem imaginado, souberam muito mais sobre o passado do homem que muitos historiadores.

Primogênitos

Ao menos quatro vezes (há quem diga seis ou sete) durante os últimos 500 mil anos, o gelo dos pólos avançou ao sul e arruinou a humanidade. Muito antes do que há 500 mil anos, viviam homens que chegaram à fabricação de utensílio de pedra. Presumivelmente, esses primeiros homens se pareciam conosco em osso, nervo e tendão. Mas como eram diferentes sua tradição, ambiente e oportunidade! Podemos fazer uma idéia, mesmo pálida, de sua vida? Podemos deduzir algo sobre seus tipos de estupidez e respectivas causas? Por mais estranho que possa parecer, suponho que podemos conseguir uma noção mais clara desse aspecto de sua mentalidade que de qualquer outro. Antes de tentar lancemos um novo olhar sobre o panorama cinzento de marés geladas e de montanhas de cristal que fluíram e refluíram, compassadamente, durante séculos. Pois aqui chegamos à primeira e à mais potente de todas as causas da estupidez humana. A chamo de primeira, com pleno conhecimento de que, muito antes das eras glaciais, o homem nascera com cérebro um tanto superior aos de seus primos que permaneceram na árvore, depois que desceu e aprendeu a manejar uma clava. Essa foi sua herança animal, seu pecado original. Mas deve ficar fora de nosso atual inquérito, por motivos óbvios. Queremos saber o que o homem fez dessa herança, como se modificou ou, o tentando fazer, fracassou. E por quê? Admitimos que, tanto quanto podemos observar a essa distância, não poderia ter sido outra coisa além de animal, pra começar. Assim, por que levar isso a diante? Mas parece que, desde que começou sua carreira como nova espécie animal, nem a menor parte de seu destino esteve em suas mãos. E é justamente essa parte que nos deve fascinar. O resto é automatismo.

***

Em torno de -500.000 o gelo se espraiou ao sul, não num dia nem num ano mas no curso de séculos. As terras do hemisfério norte que não pôde cobrir foram profundamente afetadas pelo gelo, devastadas, inundadas com pesada chuva, expulsando os animais e exterminando árvores e plantas tão cruelmente que os homens foram forçados a se adaptar, de modo a conseguir alimento, abrigo e o mínimo conforto. Pouco a pouco essa aspereza de clima desapareceu. Se seguiram milhares de anos de temperatura agradável. Os seres vivos marcharam novamente ao norte. Então, aproximadamente em -400.000 o norte foi novamente agitado e o ciclo voltou com toda severidade e devastação. Novamente o calor. Dessa vez demorou muito mais! Cerca de 250 mil anos se passaram entre o ponto máximo da segunda onda de geleira e o da terceira. Então o homem teve sua primeira grande oportunidade. Progrediu na vizinhança de Raidelbergue e seu resto foi ali encontrado em estratos que marcam definitivamente sua era. Até onde se alçou o homem nesse longo intervalo de sol e de alimento fácil? O homem de Raidelbergue, cujo maxilar foi trazido à luz, representará o máximo de cultura? Ou era, talvez, um dos tardos indivíduos de sua própria época? Infelizmente não temos outra maneira de identificar um tolo por seu próprio maxilar, a não ser o modo que o usa pra falar. Permanecemos, assim, em absoluta escuridão quanto ao nível de civilização existente entre o segundo e o terceiro períodos glaciais. Não é impossível que, então, as nações se tivessem elevado a alturas que ainda estão além do nosso

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próprio alcance, pois nossas culturas e nossas formas sociais têm apenas 15 mil anos e se desenvolveram sobre a descoberta da agricultura. Não estejamos, pois, tão certos sobre o fracasso do homem em construir cidade e dominar o ambiente durante os 250 mil anos que conhecemos apenas através de um ou dois maxilares! Novamente veio o gelo. Novamente se desfez. Novamente veio. Novamente refluiu. E, desde o ponto máximo do quarto período glacial, somente se passaram 50 mil anos. Mas ainda vivemos nessa idade glacial. Sabeis que as geleiras ainda cobrem terras maiores do que Eua e Europa Ocidental somados? Sabeis que as crueldades da vida, como as de metade da Ásia e de metade da Europa, são o resultado direto das horríveis flutuações de clima que sempre acompanham o declínio duma idade de gelo? Sabeis que possuímos documentos fidedignos acerca do tempo e dos abastecimentos de gênero alimentício no sudoeste da Ásia de cerca de 70 séculos, todos realçando um fato: A impossibilidade do homem se estabelecer, em vida fácil, durante muitas gerações, numa faixa de terra qualquer entre a Pérsia e a Itália? A flutuação entre calor e frio, entre ventania e calmaria e entre chuva e seca foram rápidas e severas. As interpretando o leitor moderno deve ter em mente o fato de que até mesmo ligeiras modificações, de ano a ano, afetaram, de modo tremendo, o homem, antes da idade da máquina. O habitante da cidade, hoje, em verdade quase não pode imaginar essas influências, a menos que se dirija, nas férias, às florestas do norte e sofra um intervalo de calor escaldante ou uma quinzena de chuvas geladas. Não há lugar, aqui, pra contar a história das tempestades, das inundações, das secas, das geadas e dos ventos furiosos. Essa história foi contada pelos grandes meteorologistas, como C. E. P. Brooks, H. J. E. Peake, Ellsworth Huntington, E. Brueckner e muitos outros. A cena é sempre a mesma: Tribos expulsas pelos ventos quentes, que secam os poços e queimam a vegetação. Tribos que morrem de frio durante súbitas tempestades de neve. Tribos apanhadas por blocos de gelo e carregadas ao mar. Tribos morrendo de sede na orla dos desertos. Tribos desalojadas dos estreitos vales por temporais pavorosos. Tribos morrendo de fome devido à ação dos gafanhotos. Haverá em tudo isso apenas um interesse erudito? Pensai assim, se quiserdes, e vos qualificai de estúpidos por assim pensardes. E, enquanto isso me deixai informar que mais de vinte milhões de chineses estão morrendo de fome; 25 que dezenas de milhares de agricultores ianques, canadenses e sul- americanos estão arruinados em conseqüência duma seca; que durante os últimos cinco anos a Europa teve um inverno que foi um gesto de adeus da era glacial, matando milhares de pessoas da Espanha à Finlândia, num prolongado período de frio que deixou a perder de vista todas as recordações contidas na história escrita; e que quase não se passa um ano, naquele continente, sem devastação causada por chuva e inundação, que desmoralizam ou destruem totalmente mais pessoas que as que já viveram, em qualquer tempo, na Grécia antiga. Digamos doutra maneira. Sir Arthur Keith calculou, cuidadosamente, o provável número máximo de pessoas que poderiam viver no mundo sem a agricultura. Notareis que era a situação há 15 mil anos. Todo mundo vivia com o que havia a mão e morria se nada havia a mão. Ora, parece que não mais que 15 milhões ou 20 milhões de pessoas poderiam subsistir sem o arado e sem a adubação. Não é significativo que, mesmo hoje, contemplemos uma multidão tão vasta como a que regularmente morre de fome ou de sede, ou de moléstias e aflições produzidas pelas variações do clima pós-glacial, que também regulam os naturais abastecimentos de gêneros alimentícios? Essa zona fronteiriça da humanidade preserva, pra nós, o panorama dos milênios anteriores. A luta

25 O autor se refere ao ano de 1932, quando foi escrito este livro. Nota do tradutor

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pela existência não foi principalmente o combate contra os animais selvagens ou contra humanos. Foi contra o clima, que dá e rouba o pão e a água. O que tem isso a ver com o aparecimento da estupidez? Antes de tudo, num clima de traiçoeiras variações de calor e de frio, de inundações e de secas, como o que toda a Europa e a metade da Ásia tiveram durante dezenas de milhares de anos, se não durante a maior parte do último milhão de anos, que espécie de ser humano tinha a melhor chance de sobreviver? Naturalmente, uma criatura que, em contraste conosco, tinha a pele dum rinoceronte, o estômago dum porco e a resistência dum búfalo. Sem aflição, dormia em qualquer parte, sob uma gelada chuva de outono. Sem um tablete de soda, comia raízes e considerava os tubérculos um luxo raro nos meses de inverno. Pulgas, piolhos e mosquitos podem o ter aborrecido mas não puderam vencer. Bebeu água enlameada, depois que os bisões abandonaram o poço. Comeu carne podre, que os lobos não puderam tragar. E, em casos extremos, devorou os próprios pais, indiferente a suas moléstias, durante as grandes fomes. Um rijo freguês. Não? Numa palavra, era enormemente insensível a mil-e-um estímulos que têm grande valor pra vós e pra mim. Mas essa própria insensibilidade é o começo da carreira do homem como gênio estúpido. Pois o que não sentimos fica fora de nossa cogitação. E o que deixamos de considerar constitui a medida de nossa final estupidez, como demonstraremos em breve. Assim, somos levados a nossa primeira descoberta dolorosa. Os poderes de resistência com que nossos ancestrais atravessaram o rude meio milhão de anos que passou contribuíram muito à estupidez e à inteligência tarda geral da raça. O bem de ontem se tornou o mal de hoje. Em certo sentido, tudo isso é um corolário óbvio da visão que o biólogo tem da vida. Somente, acontece ser uma visão que ninguém parece ter tido. Suas ramificações fazem caminho através da sociedade moderna. Considerai, por um momento, sua ação sobre a evolução de todas as altas ordens de inteligência que resultam na ciência e na técnica. Enquanto não aprendeu a lavrar o solo e a esperar a colheita, nossos ancestrais não puderam permanecer, em segurança, num só lugar. Tiveram de vagar, sempre no rastro do alimento. Então não estabelecerem centro de cultura e de tradição, escola, culto, cidade, biblioteca: Nada que concentrasse e preservasse a essência da experiência de cada homem pra benefício dos que deveriam vir depois. Assim, sua sabedoria morreu com eles e qualquer progresso, em nosso sentido, era impossível. Pois o mecanismo dos fatos estava além da compreensão do nômade. Em grande parte, pois, cada geração começava do começo e terminava exatamente onde a geração precedente terminara. Assim, a procriação dos insensíveis foi intensificada durante ao menos 400 mil ou 450 mil anos. Os que apanhavam resfriado, possuíam nervo, não podiam digerir carne podre, não podiam caçar um touro bravio ou suportar uma tempestade de areia foram logo esmagados. E o que admira é que os sobreviventes eventuais se elevassem acima dos símios que povoavam as árvores. Embora não tenhamos meio de provar, não estaremos muito errados admitindo que a primitiva medicina só chegou a ser útil quando a humanidade começou a se estabelecer em cidade, pois a medicina repousa, firmemente, sobre casos clínicos bem estudados. Isso é tão verdadeiro pros xamãs e pros bruxos como pro corpo médico do mais recente hospital metropolitano. Os preventivos, remédios, emplastros e encantações que o homem de Raidelbergue pode ter usado eram, pois, tal mistura de observação errônea, inferência falha, conjectura sem fundamento e de simples má-compreensão, que mal podem ter modificado o tipo físico de herança. Mesmo hoje, ao menos 1.500.000.000 de pessoas chegam à idade adulta apesar dos médicos, em vez de graças aos médicos. As práticas médicas que prevalecem através da Ásia, da África e de certos tratos da Europa

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e da América certamente não prolongam a vida, exceto a dos médicos, que recebem grandes honorários dos herdeiros de suas vítimas. Chegamos, assim, a um novo aspecto do homem primitivo, ou seja, o efeito que a brevidade da vida teve sobre seu pobre pensamento. Sabemos que a duração da vida, entre os selvagens, é de dolorosa brevidade. Mesmo os chineses, que estão muito acima dos mais adiantados homens primitivos, vivem hoje três gerações pra duas nossas. Em muitas tribos um homem é considerado muito velho e digno de veneração especial se passou de 40 anos. Durante a primeira guerra mundial os médicos ingleses descobriram, espantados, que o inglês médio, no distrito de Manchéster, estava, fisiologicamente, também nos 40! A média de idade, na ocasião da morte, em Eua, de acordo com as cifras das seguradoras pra 1920, era 63 anos. Mas um recenseador do ano -15.000 teria, provavelmente, notado que dois terços das pessoas morriam na infância, metade dos sobreviventes desaparecia nos 20 anos ou antes e a fração mais forte perecia, em grande parte, nos 30. Não há razão pra supor que o homem primitivo vivesse mais tempo que seu primo em primeiro grau, o gorila.

***

Nos coloquemos num ponto de vista um tanto diferente. Consideremos o pecado original cuma bússola na mão. Consideremos as diferenças entre os homens do norte e os do sul durante esses milênios de flutuação glacial. O frio polar não invadiu os trópicos, não fez mais que supeditar 26 uma temperatura agradável a seus extremos, durante o período que estudamos. Assim, uma cena diferente surge na pré-história do homem tropical. Até onde podemos conjeturar sobre ela? Nossa pesquisa estará condenada ao fracasso, a menos que mantenhamos claramente, diante de nós, alguns fatos essenciais. O primeiro desses fatos é que o aborígine não era criança nem estúpido, como muita gente supõe. O segundo é que as variações dos tipos humanos, especialmente sob o aspecto mental, devem ter sido muito grandes, dezenas de milhares de anos antes d a cultura do vale do Nilo assumir forma definida. O terceiro é que, já que muitos grupos primitivos eram pouco mais do que famílias grandes, a endogamia era uma necessidade e que, mesmo quando, milhares de anos depois, a exogamia surgiu aqui e ali, muitas vezes conduziu apenas a uma endogamia diluída, pois ao fim dum intervalo de dez gerações o sangue de todas as correntes do clã estava completamente misturado. O quarto fato é que, sempre que, por acaso, nascia um indivíduo mentalmente superior, as dificuldades que se opunham ao pleno desenvolvimento de sua capacidade eram enormes e, por outro lado, suas oportunidades estavam limitadas a atos ligados às necessidades da vida, de modo que seu pensamento devia ocupar-se com coisas imediatas, como encontrar alimento, vencer um inimigo, escapar às tempestades, e assim a diante. Se tivesse podido fazer o recenseamento dos 10 milhões ou mais de cidadãos da média idade da pedra, os recenseadores provavelmente notariam os seguintes fatos:

● 1 - Havia gênios naqueles dias. ● 2 - Mas nenhum deles, em 50 mil, encontrava oportunidade pra demonstrar sua habilidade. ● 3 - Havia imbecis e estúpidos, também, mas ninguém os chamava por esses nomes. ● 4 - Havia homens fracos e fortes, hábeis e tardos, sonhadores e práticos. Mas essas características tiveram pouca oportunidade de se tornar agudas e fortes através de anos de prática. Assim, um ao outro, todos esses indivíduos realmente diferentes se pareciam muito mais do que atualmente.

26 Supeditar - vt Fornecer, ministrar. Nota do digitalizador.

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● 5 - As sensibilidades primárias do homem comum eram excessivamente agudas, como a memória visual, auditiva e olfativa, pois era em torno dessas coisas que girava a vida cotidiana. 6 - A resistência do homem comum a certos estados físicos, como ficar sem comer e sem beber, não dormir, se restabelecer duma ferida, era enorme. 7 - Nas regiões vizinhas aos gelo polar a condição de vida era severa. Ali, portanto, somente os mais rudes e menos sensíveis sobreviveram. Mas, no sul, a não ser nos desertos e nas florestas equatoriais, a vida era muito fácil, e, portanto, as mentes e os corpos inferiores ali conseguiram sobreviver e proliferar, juntamente com os superiores. 8 - Portanto, a média física e mental das tribos do norte ultrapassava a das tribos do sul e o desvio da média era muito menor no norte que no sul: Noutras palavras, o primitivo chefe escandinavo se parecia muito mais com seus subordinados que os reis dantes dos faraós com seus escravos. 9 - Nossos recenseadores notaram essa verdade em -200.000: Somente as tribos tropicais e sub-tropicais tinham, então, escravos e possuíam um sistema de casta social altamente diferenciado. As tribos do norte se pareciam a grupos de famílias, não possuíam senso de casta e, se, por acaso, pudessem ter tido tal pensamento, teriam concordado em que todos os homens nascem livres e iguais. 10 - Entre as tribos das zonas tropicais os imbecis e os estúpidos eram, em geral, forçados a fazer os trabalhos desagradáveis pros espertos. Portanto, sua parte não era invejável mas sempre era melhor que morrer. E essa era a alternativa, tanto no sul como no norte. No norte nem tiveram a oportunidade de fazer os trabalhos penosos, pois morreram muito cedo em virtude de sua própria estupidez. 11 - Graças ao clima favorável e ao abastecimento alimentar a média de duração da vida, nas terras do sul, era um tanto mais elevada que no norte. A diferença não era, porém, muito grande em anos, pois a média do norte era elevada pela têmpera superior das tribos, ao passo que a média do sul era, dalgum modo, diminuída pelo grande número de indivíduos fisicamente inferiores. Mesmo assim a diferença era bastante pra desenvolver, no sul, um grupo de idade influente, constituído pelos mais velhos, que, simplesmente por causa de sua mais longa e mais rica experiência, podiam controlar, guiar e melhorar os jovens, muito mais eficientemente do que se fazia no norte. Provavelmente dez vezes tantos indivíduos das classes superiores passaram, a idade dos 35 no sul quanto no norte. E isto significa o começo da sabedoria organizada, a organização das memórias tribais, os monumentos, as inscrições, as fórmulas, os rituais, as receitas, os mandamentos e a linguagem escrita. ● 12 - No sul os homens sentiam rapidamente as diferenças de intelecto e de esperteza em geral. Se casavam mais ou menos dentro das linhas de classe. Assim, praticando a endogamia através das idades, as peculiaridades físicas e mentais de cada classe tenderam à fusão num tipo humano adaptado à espécie de vida de que se desenvolvera. Nossos recenseadores do ano -200.000 encontraram os primeiros sinais claros desse fato no sacerdócio primitivo, por meio do qual os velhos das tribos do sul conseguiram seu domínio. ● 13 - No sul, também, quanto mais um homem vivia, tanto mais riqueza acumulava, qualquer fosse o nível social. E, quanto mais esperto, tanto mais rico se tornava. Isso trouxe todas as vantagens aos velhos astutos. E incorporaram essas vantagens aos costumes formais de suas tribos. Por decreto religioso, tinham direito às melhores mulheres e aos melhores alimentos e prioridade em todas as outras coisas. Assim, no sul, o governo tribal se tornou, em grande parte, econômico. No norte, era antes uma questão de habilidade pessoal e de bravura em combate. ● 14 - Os velhos ricos, no sul, sempre estavam prontos a contratar os serviços dos

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jovens de rara capacidade, sempre que os encontrassem entre os indivíduos comuns. Assim, os cérebros da comunidade já estavam subindo na escala econômica no ano - 200.000. As classes inferiores estavam perdendo seus melhores elementos em benefício das classes superiores. E, assim, as diferenças intelectuais entre as classes superiores e inferiores se desenvolviam, a princípio imperceptivelmente, depois mais depressa. No norte, entretanto, o processo era muito mais vagaroso, pois a riqueza, mesmo na forma primitiva, não se acumulou ali. Os homens viviam da mão à boca. ● 15 - No sul muitas pandemias mantiveram as classes trabalhadoras em sujeição, com incrível crueldade. Malária, ancilostomíase, tifo, reumatismo e um número desconhecido doutras moléstias devem ter prevalecido nas regiões tropicais e sub- tropicais tanto quanto hoje. E é muito provável que moléstias desconhecidas pra nós, modernos, tenham ceifado a humanidade antiga tanto quanto a influenza reduziu a colheita humana. Tudo isso e mais os insetos portadores de peste, a água impotável, o calor e a umidade, degradaram a todos, exceto uma pequena classe superior. A rápida gestação de criaturas destinadas a uma vida curta era a regra. Era, assim, baixa a eficiência do trabalhador individual. ● 16 - Quando esses milênios passaram ocorreram tremendas modificações climáticas. As regiões férteis secaram e se transformaram em desertos, o gelo refluiu e abriu vasta extensão de terra arável, a água fluvial subiu e formaram gigantescos pântanos, enquanto novas gotas dágua gelada produziram excelentes campos de pastagem onde antes havia deserto. Mas, durante a maior parte desse tempo, o equador continuou a ser o equador, os trópicos continuaram a ser os trópicos. As zonas temperada do norte e sub-tropical do norte é que experimentaram as mais importantes modificações. Ali se processaram as migrações das tribos, ali o processo de seleção natural atingiu o máximo. As massas tropicais, em geral, continuaram a degradação. Os povos da zona temperada eram criados ao acaso, vagarosamente, mas com firmeza. Com a marcha do gelo ao sul certos habitantes superiores do norte avançaram ao meio- dia, ocuparam as melhores terras, escravizaram os nativos ao menos até fazer com que os sustentassem e estabeleceram aldeias tribais nos vales dos rios. Durante cada período de conquista alguns nativos mais capazes encontraram oportunidade pra melhorar a situação, se aliando a seus novos senhores. Então, provavelmente, resultou que os nativos fossem despojados de seu sangue mais delicado e assim afundaram, cada vez mais, no embrutecimento do trabalho penosos, da moléstias e do vício de beber.

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Saltemos até nossa Idade da Máquina e corramos ao ano -15.000, ou quando quer que o homem começou a lavrar o solo, tornando, destarte, possível um aumento estupendo na população do mundo e uma nova ordem de estabilidade social. No intervalo dalguns milhares de anos, um simples momento da história, quantas revoluções! O arado! O cavalo e o cão domesticados! Instrumento pra cortar madeira e bater metal! A roda! Muralha pra proteger a tribo contra os animais bravios e adversários humanos! Canal de irrigação! Canoa, barco a remo, barco a vela! Relativamente a seu mundo o homem neolítico deve ser classificado como o maior de todos os inventores, não menos que como o mais agressivo de todos os organizadores e de todos os autores. Além de tudo, fez algo que pôs a humanidade fora de compasso e que ainda ameaça nossa raça. Começou a modificar todo o ambiente do homem mais depressa que o homem se pode ajustar a cada modificação. Por ironia do destino aperfeiçoou, complicou e comunicou tanta energia às coisas que elas ficaram muito além da sensibilidade de todos, salvo um pequeno número de individualidade superior. Conquistando a natureza, o homem a perdeu.

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Pra avaliar toda a força dessa tragédia devemos lançar um olhar sobre a mentalidade do homem comum no começo da revolução agrícola. Era um selvagem de pele áspera, nervos tardos, laborioso e sem imaginação, que chegou à flor da idade nos fim da adolescência e morreu justamente quando começava a vislumbrar o significado da vida. Noutras palavras, durante meio milhão de anos o homem típico tinha, no máximo, uma mente de criança e uma concepção juvenil da vida. Sendo, em geral, mal-alimentado, seu modo de ação se aproximava ao dum adolescente subnutrido. Procurai analisar o que está implícito nessa afirmação e, assim, chegareis ao pecado original. Nesta Breve introdução, iniciaremos o estudo numa série de capítulo. Muitas descobertas serão truísmos aos sábios e contra-sensos incômodos aos demais. Veremos que as massas que vivem atualmente são descendentes, em linha reta, desses povos pré- históricos; que, como um rebanho, temos praticado a endogamia durante milhares de gerações; que têm, continuamente, perdido seus poucos membros superiores em benefício de classes e de climas mais favorecidos; que suas peculiares tolices invadem quase todos os campos de atividade, desde os órgãos dos sentidos até os centros intelectuais; que, embora sua visão, seu olfato e outros sentidos sejam inferiores, suas mais altas capacidades integrativas de abarcar tempo e espaço são incrivelmente débeis, algumas vezes descendo até zero, como entre muitos índios americanos; que todos os apetites dominam essas funções de reflexão, causando infinitos pensamentos estúpidos; que, por conseqüência, seus indivíduos não podem dirigir a si mesmos, exceto em níveis inferiores de conduta; que, como suas percepções não são nítidas, caem nas muitas espécies de estupidez devidas à intrusão de fantasia nos fatos; que, em resultado do pensamento estúpido, dum lado, e do predomínio dos desejos animais, doutro, se voltam à magia, à astrologia, à quiromancia, aos clarividentes, aos feiticeiros, aos símbolos, aos presságios, aos portentos e ao ritual que os acompanha; e que, finalmente, nas horas de calma como nos momentos de pesar, tendem a afundar no devaneio e a se debruçar sobre seu próprio ego, fugindo da realidade ingovernável que está fora de sua pele.

Vagabundo

Muito se disse sobre as oportunidades dos homens capazes, no tempo dos grandes movimentos de povos. Os bens gelados do velho lar não degelarão sob a quente ambição do jovem aspirante: Tudo está estabelecido, possuído, cristalizado. Mas se parte ao deserto encontra oportunidade na vida. Quando todas as coisas estão instáveis os mais espertos se sentem em casa. Há nisso muita verdade. Entretanto, deixa no escuro outra muito maior. Observamos súbitas ascensões à fama e fortuna. Brilham como meteoro e, na escuridão de nosso semi-conhecimento, iluminam nosso céu. Mesmo assim são, relativamente ao que acontece às massas de pioneiro, somente uma rodilha na pirotecnia do progresso. A meia dúzia de construtores de império que plantaram nossas ferrovias transcontinentais deu aos menestréis motivo pra canção. Mas os milhões de indivíduos que vagaram, em dezenas de milhares de aldeias, procurando uma vida melhor, aonde foram? Qual é sua fama? Onde está sua fortuna? Cecil Rhodes ainda inflama a imaginação dos jovens sonhadores mas olhai os poeirentos currais 27 e as chamejantes planícies da África do Sul da maré humana, de que Rhodes foi somente a onda maior e mais avançada. Não. Se aceitarmos todos os fatos, e não apenas os casos dramáticos, seremos forçados a inferir

27 No original kraal - Aldeia cercada (também craal ou kraul). Palavra vinda do africânder e adotada pelo inglês sul-africano. Um cercado pra gado ou outra criação, situado num domicílio africano ou aldeia cercada por uma paliçada, parede de barro ou outra cerca, em forma circular. No idioma holandês uma aldeia cercada é um termo derivado do português curral, cognato com o curral espanhol, adaptado pelo inglês. Nota do digitalizador. Extraído de http://en.wikipedia.org/wiki/Kraal

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que, pra cada homem arrojado e brilhante que lucra com a vagabundagem, toda uma cidade de pessoas comuns encontra as carreiras comuns de sua espécie. Alguns tiveram sucesso, outros morreram na margem, mas muitos deixaram de melhorar sua parte. Isso tem muito a ver com nosso assunto. No tempo antigo, e em muitas partes do mundo, mesmo agora, as forças que expulsam os homens do lar a novas terras tendem a perpetuar e a aumentar o rebanho dos estúpidos. Nas grandes migrações os estúpidos têm uma grande vantagem sobre os astutos, ao menos sob um aspecto, que às vezes é decisivo. Uma modificação radical no ambiente se reflete tanto sobre a mente como sobre o corpo. Todo hábito é minado, um trejeito cruel, no melhor dos casos, ou fatal, no pior. À medida que a migração normal passa das áreas mais densamente povoadas às de menor densidade populacional, o emigrante típico flutua entre a cidade ou a aldeia e o deserto, da vida doméstica ao acampamento ou à cabana, do convívio dos amigos ao meio dos adversários ou à solidão povoada de uivos de lobo. Altera o sono, alimentação, horas de fadiga e seus próprios movimentos durante o trabalho cotidiano. Muitas vezes deve aprender uma língua e costumes estranhos de etiqueta, dinheiro e negócio. Ora, uma pessoa de alta sensibilidade sofrerá mais que um estúpido sob tais reajustes (o emocionalmente instável, provavelmente, sofrerá mais que todos, mas o ignoramos aqui), pois sente mais profundamente o choque. A história dos imigrantes ingleses no Canadá o demonstrou bem. As grandes planícies entre Uinipegue e Cálgari foram a ruína de muitos homens e mulheres ambiciosos de Londres e de Liverpul. Assim também, nas primitivas gerações, as terras do sul eram um grande cemitério de pioneiros muito delicados, refinados e cultos pra escalar os baluartes dum continente selvagem. Onde quer que tenha ido o homem branco, sempre deixou uma quota de indivíduo superior como sacrifício vivo aos deuses do progresso. Na trilha solitária morreram em cabanas infectas, sob alude de neve ou entre as fauces de grandes animais. Mas os homens de pele grossa, de maxilares de ferro, de mãos pesadas, e os homens da enxada foram a diante. Nem todos os sobreviventes eram estúpidos, longe disso. Mas os estúpidos tinham maior probabilidade que muitos tipos superiores de humanidade. O homem estúpido, em geral, se satisfaz mais facilmente. Portanto permanecerá onde seus irmãos mais astutos desdenham ficar. Também parará no primeiro local que considerar tolerável, enquanto os mais presumidos, os mais ambiciosos e os mais enérgicos continuarão a marchar aos mais remotos países de sonho. Todo estudioso dos pioneiros americanos conhece perfeitamente esse fato, que pode ser observado em todo o continente mas nunca tão vividamente como nos vales perdidos do sul dos Apalaches, cujo silêncio mal foi quebrado pela buzina dos automóveis. Lançai um olhar à gente do buraco das montanhas Azuis. O nome lhes vem dos vales isolados onde habitam. Mas a expressão descreve, por um acidente feliz, sua mente: São buracos vivos, com a visão de Polifemo. Nem todos os oculistas da cristandade lhes podem arranjar óculos que lhes mostrem as profundidades e as distâncias de nosso mundo. Pois são todos rebento de uniões endógamas entre machos e fêmeas que ali vagaram, muito antes da revolução americana. Escória de escoceses e de ingleses, se estabeleceram no primeiro vale quente e agradável que encontraram, cortado de regato e povoado de animal emplumado. O frio do inverno era breve e sem crueldade. Por que deixar, pois, uma região tão boa? É razoável admitir que vez-e-outra nasceu uma criança mais vivaz no buraco, que se não contentava cuma vida que era pouco mais que comer, dormir, pescar, caçar e se sentar pruma conversa em volta do fogo. Um dia não foi mais visto na redondeza mas todos seus parentes de cérebro obtuso permaneceram e em breve se esqueceram até mesmo de sua existência. O mesmo aconteceu durante cerca de cinco gerações. E quem

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mora, atualmente, no buraco? Deixemos que doutor Mandel Sherman diga. Como diretor do centro de pesquisa infantil, de Uóchintão, estudou algum tempo esses povos perdidos da Virgínia. Das cinco comunidades estudadas, a inferior, do ponto de vista da cultural, não tinha meio de comunicação, atividade social, esporte, diversão nem mala postal. Numa geração nenhuma pessoa esteve na escola mais de dois anos. E a correspondência da comunidade era feita pelo filho do sacerdote, que, único entre todos, aprendera a grande arte de escrever. O segundo grupo estava em melhor situação quanto às amenidades da vida: Possuía dois fonógrafos e roupa domingueira pros dias de festa. Na terceira comunidade havia um telefone e uma loja cujo negócio estava orçado no valor de 12 dólares, que vendia tabaco e panela. E a civilização das montanhas Azuis alcançava o ápice na comunidade número 5, com boas estradas de rodagem, mala postal, uma escola, uma igreja e uma organização distrital dirigida por inteligentes pequenos fazendeiros. No curso das observações os investigadores descobriram, naturalmente, uma terrível ignorância nos lares mais atrasados. As crianças não sabiam se vestir, jogar bola nem sabiam a idade que tinham. Preles um quarto de milha e uma milha eram simplesmente acolá. 28 As distâncias e as medidas os perturbavam. E os investigadores os viram falhar, lamentavelmente, em testes de absurdo reservados a crianças de dez anos. À afirmação, Um homem disse: Conheço a estrada de minha casa à cidade, sempre na colina até a cidade e sempre na colina de volta à casa um rapaz de 15 anos respondeu: Alguém teve de lhe ensinar a estrada. À afirmação Houve ontem um acidente ferroviário, mas não muito sério, pois morreram somente 18 pessoas a resposta foi Ele não devia os ter matado. Antes da primeira guerra mundial sempre se podia encontrar certo número de indivíduos superiores nessa solidão mas não mais hoje. Discuti a transformação com médicos que conhecem o território e notei que nenhum dos brancos pobres mais inteligentes ou mais ambiciosos regressou ao pago nativo depois de experimentar uma vida mais ampla nos acampamentos do exército e na linha de frente. Agora, a região dos Apalaches é uma desolação. Esse quadro pode ser observado em todo o mundo, com pequenas variantes. Assim vivem centenas de milhões de personalidades inferiores. Assim, durante toda a carreira de nossa raça, bilhões de indivíduos viveram, procriaram e estabeleceram costumes simples. Seria temerário dizer que talvez um décimo da horda do mundo, em nossa própria idade, tem parentesco com a gente do buraco? Acho que não. Certamente a metade da Ásia e da África tem, o que liquida a questão. Eis o efeito de todas as vagabundagens, desde que o homem, em primeira vez, deu as costas à terra natal. Como o solo escavado por um rio caudaloso caminhando das montanhas ao mar, a aluvião humana mais pesada e mais grosseira chega ao fundo mais depressa, enquanto a mais delicada é levada mais longe. Encontrai os grandes centros originais de migração em massa, portanto, e podereis medir o coeficiente de estupidez em termos de distância e de facilidade de movimento em relação a esses pontos. Ilustraremos essa lei. A Ásia Central, alguma vez fértil e populosa, se elevou ao céu até que os extremos meridionais se tornaram as mais altas cordilheiras e afastaram as chuvas da Índia. O alimento se tornou escasso, de modo que as famílias tiveram de emigrar ou de morrer de fome. Durante milhares de anos, quando a seca se estendeu numa área maior que a América do Norte, homens descarnados vagaram em todas as direções. Os que seguiram

28 1 milha = 1,609km. 0,25 milha = 0,40225km. Nota do digitalizador.

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ao norte pereceram miseravelmente. Muitos dos que seguiram a leste e sudeste encontraram lugares agradáveis, vales fluviais e profundas florestas, onde permaneceram algum tempo. Alguns dos mais arrojados avançaram ao sul, às elevações geladas do Tibete, e outros conseguiram escalar o horrível Himalaia, andando a apalpadela, tropeçando, suando, num esforço constante, até que vissem, lá no alto, o vale de Caxemira. Doravante a jornada foi fácil. Os arianos se tornaram os senhores da Índia setentrional. Esses sobreviventes deviam ter a cabeça dura e a mão pesada. Outros vagabundos seguiram a oeste e sudoeste e, nos primeiros milênios, parecem haver encontrado o leite e o mel. Mas a seca os expulsou. Seguiram mais a oeste e a sudoeste. Assim, sempre houve uma fronteira de pioneiros poderosos, arrojados, engenhosos e, em geral, competentes nalgum círculo concêntrico a um ponto onde a estepe quirguiz se encontram com a Mongólia. De que modo essa fronteira flutuou, de era a era, ninguém sabe. Mas sabemos que flutuou com a areia do deserto. À proporção que a areia avançava os pioneiros recuavam, sempre deixando atrás os estúpidos e os inertes. Os lares mais ricos estavam sempre além do alcance da seca e até lá seguiram os indivíduos superiores. Se pode marcar seu último habitáculo num mapa moderno da Europa e da Ásia, riscando um longo arco desde o mar Egeu ao oeste, até Xangai, China, passando a curva aproximadamente por Gualior, norte da Índia. De cada lado desse arco estará uma zona de 160km ou 300km de largura, e ali estará a fronteira dos indivíduos superiores. As zonas sucessivas ao norte contêm um tipo inferior de humanidade até o círculo ártico, onde, pra todos os fins práticos, se chega a zero, não somente em temperatura como em quociente de inteligência. Bem entendido, esse pequeno desenho geométrico esquematiza o estado e o local durante os milênios imediatamente anteriores ao nascimento da moderna civilização ocidental. O arco é, podemos dizer, algo assim como a linha mediana de 4 mil ou 5 mil anos. Dentro desse período os homens brancos começavam a marchar sobre as montanhas da Índia, os brancos montanheses da Suméria ainda não haviam lançado suas grandes ofensivas contra os simples nômades semitas da Arábia e os ancestrais de nosso amigo Ulisses ainda se não haviam tornado vagabundos. Neste mesmo largo período os pioneiros do leste haviam erigido o que foi, pro tempo, a mais gloriosa cultura já existente, nas planícies da terra que hoje chamamos China, mas a necessidade ainda não impelira os mais inquietos a desafiar a água traiçoeira do mar Amarelo buscando as ilhas do Sol Nascente. O Japão ainda não existia. Toda essa simples distribuição foi modificada pelo homem moderno e suas invenções. Os espertos estão vagabundeando em todo o mundo, com bilhetes de ida e volta. Os estúpidos estão em toda parte, às vezes reunidos como carneiros e embarcados, sobre os oceanos, pra trabalhar pros espertos, como recentemente em Detróite e Pitesburgo. A regra antiga já não tem valor: À medida que ultrapassamos o tempo e o espaço, Também remexemos os caldeirões cheios de espuma de nossa raça e deles retiramos estranhos peixes. A praga de nossos dias é que já não podemos fugir dos estúpidos. Ide aos pontos mais extremos do mundo e eles estarão em vossa companhia.

Irlanda

Os descendentes dessas hordas de famigerados fugitivos que atravessaram a Porta de Ouro durante e depois da selvagem corrida ao ouro gostam de chamar esses imigrantes, pioneiros de cobiça e visão larga. O qualificativo não resiste à análise. A evidência demonstra, em apoio a minha afirmação, que as rápidas correntes migratórias arrastam indivíduos inferiores até o primeiro ponto de parada, onde os despeja. Onde caem, permanecem. Massa inerte que, por seu crescimento, levanta um escolho humano contra as correntes mais vivazes da humanidade. Da Irlanda partiram duas correntes de lama,

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uma rodeando o cabo Hornos até São Francisco e a outra no Atlântico até Nova Iorque e Bóston. Essas três cidades receberam o enxurro e, a contragosto, o guardaram dentro dos muros. Em grande parte em resultado dessa onda de gente, surgiu o Tammany Hall, Bóston se tornou uma triste pilhéria e as classes trabalhadoras de São Francisco têm ainda um padrão de vida inferior ao dos demais ianques. Esses ádvenas 29 tornaram ainda mais vil a corrupção política, sempre vil em nosso país. Como seus descendentes estão dispersos em toda a Terra, nos será útil considerar o núcleo original e sua singular estupidez. Se mais nada pudermos lucrar com esse conhecimento, poderemos, ao menos, aprender muito acerca dos motivos e das características dos vagabundos, extirpando, destarte, de nossa mente, uma velha e tola superstição ianque. Os irlandeses foram os últimos elementos da raça branca a permanecer em estado de genuína escravidão, os últimos a se libertarem do jugo. 30 Não me refiro a acontecimentos políticos recentes. Me refiro, antes, ao domínio dos grandes proprietários rurais durante muitas gerações, até o século 19. Mesmo os historiadores ingleses, mais ou menos prevenidos contra a Irlanda, declararam que a condição dos camponeses desse triste país não se distinguia da escravidão mesmo nos dias da Liga da Terra, em 1879. Isso será, talvez, demasiado, mas não é possível negar o fato essencial, seja qual for a data da libertação. Sempre, desde a invasão anglo-normanda do século 12, os chefes irlandeses foram turbulentos, assassinos, impiedosos. E a história da Irlanda era pouco mais que a crônica de conspiração, assassínio e traição semelhantes aos que se lêem, nos jornais, dos bandidos de Chicago. Apenas os nomes e as datas são diferentes: em vez de Al Capone, Ruffi e Nizzano, são O'Neill, O'Donnell e Macarthy. A quadrilha de Tyrone dava combate à quadrilha de Donegal. E o emblema nacional era o shillalah (cacete), sob cujos golpes os pequenos camponeses eram moídos até a morte. A tudo isso acrescentai a opressão incrivelmente estúpida dos ingleses, que jamais foi exagerada, nem mesmo pelo mais fanático patriota irlandês. O horror da guerra que a rainha Elizabete moveu contra o rebelde Desmond em 1575 igualam os de Filipe de Espanha em Países Baixos. Os camponeses da Irlanda eram assassinados em massa enquanto os sobreviventes eram despojados de alimento e do lar. O canibalismo voltou à baila. Segundo o testemunho fidedigno de Spenser, Eles [os irlandeses dessa grande fome] pareciam esqueletos de morte: Comiam animais mortos, um após outro, poupando os ossos pra cavar suas próprias sepulturas.

Ora, deve haver uma profunda estupidez nos indivíduos que sofrem todas as formas de ultraje de ano a ano. Somente uma natureza de singular insensibilidade poderia subsistir apesar da opressão e da injustiça sofrida pelos antigos irlandeses. As criaturas que reagiam ardentemente ao frio, fome, injúria e cutelo dos thugs e dos exploradores estrangeiros dever ter sido exterminadas rapidamente, deixando somente os resíduos brutais da raça. Em nenhum povo podemos notar mais claramente essa tendência que entre os camponeses da Irlanda, durante os últimos 500 anos. Tomai, por exemplo, sua incrível dedicação à batata, que Raleigh introduziu em 1610. lhes dai crédito e admitis todas as circunstâncias extenuantes. Mesmo assim o fenômeno será quase único na história dos povos. As guerras de Elizabete, é verdade, fizeram com que os irlandeses desistissem das colheitas comuns, pois as plantar era

29 Ádvena - sm sf - Pessoa que chega a um lugar. Quem não é nascido no país. Estranho, forasteiro, adventício. Nota do digitalizador. Extraído de dicionário Kinghost 30 Sempre me chamou a atenção o fato, único no mundo, dos irlandeses ainda estarem divididos entre católicos e protestantes. O cúmulo do arcaísmo. Não me espantaria se propusessem uma cruzada ao oriente contra os infiéis. Até hoje os protestantes comemoram uma vitória contra os católicos no século 15! Nota do digitalizador.

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apenas um convite à pilhagem. Toda a população passou a viver da mão à boca. E já que um homem sozinho podia produzir, com seu suor, batata em quantidade suficiente pra alimentar quarenta bocas, os pobres-diabos se concentravam sobre o tubérculo, que em breve devia demonstrar seu destino. Também, era fácil deixar sob a terra esse produto, dele retirando apenas o necessário pra cada dia. E isso afastava os saqueadores. Ora, desde fim de maio até princípio de setembro não havia batata, pois as velhas reservas estavam esgotadas, devoradas ou apodrecidas sob a terra. O verão era o período chamado meses de comida e, invariavelmente, levava os camponeses às portas da morte por fome, mesmo quando a colheita anterior fora abundante. O que deveriam ter feito os fazendeiros inteligentes? Plantado alguma coisa além de batata, naturalmente. A possibilidade de a guardar contra os thugs poderia ser mínima mas, sem dúvida, valia a pena tentar, já que a alternativa era a fome. E o que deveriam fazer os fazendeiros prudentes, pra evitar futuro desastre? Deveriam ter procurado novas fontes de alimento. E as teriam encontrado, facilmente, nos rios e na água vizinha à costa, pois cardumes de salmão e doutros peixes ali estavam pra serem pescados com linha e rede. Mas o que fizeram os irlandeses? A fome se pronunciou em larga escala e com horrível freqüência no século 18. A primeira vinda em 1739, em conseqüência duma geada invernal que danificou os tubérculos, que apodreceram na chegada da primavera. Desde esse ano até 1880, um intervalo de cerca de 141 anos ou três gerações de camponeses, se verificaram destruição de colheita, total ou parcial, em curtos intervalos, sendo o pior de todos o de 1831 a 1842, quando seis estações de miséria esmagaram o povo irlandês. Certamente, pensará alguém, depois desses terríveis onze anos, os plantadores de batata deveriam usar a inteligência a fim de melhorar a situação. Certamente plantariam, no solo extremamente fértil, outras espécies. Centenas de ingleses e irlandeses inteligentes lhes fizeram solene advertência. O hábito execrável foi largamente condenado. Houve mesmo quem oferecesse peixe aos mais esfaimados irlandeses, apenas pra os ver rejeitar o alimento nutritivo, com desprezo. Todo mundo continuou como antes, plantando batata e morrendo de fome na chegada do verão. Essa não era a maior estupidez. Havia outra pior. Os camponeses procriavam como coelho, não obstante a miséria. Em 1785, depois de várias fomes de diferente intensidade, haviam 2.845.932 irlandeses. Em 1803 havia 5.356.594. Ou seja, quase o dobro, em apenas 18 anos. O horror desse fato chocou os observadores inteligentes e muitas foram as condenações e as advertências durante as primeiras décadas do século 19. Os clérigos e as autoridades locais exortavam os bárbaros miseráveis. O governo, vez-e-outra, aconselhava. E qual foi o resultado? Em 1845 haviam 8.295.061 irlandeses, dos quais quase todos viviam de batata! Os coelhos esconderam a cabeça, de pura vergonha. E então sucedeu o inevitável. Foi o ano do juízo. A colheita falhou quase completamente. As criaturas morriam como mosca. Numa ocasião o governo estava alimentando 3 milhões de vítimas, entre as quais quase 300 mil finalmente pereceram. Os sobreviventes foram deportados mas se encontrou um nome mais agradável pro ato:

Fazer a América.

Dissemos bastante! Quem quer que deseje escrever a história dos celtas irlandeses, o pode fazer nessa monotonia de miséria. A tarefa não me atrai. Terei conseguido meus objetivo se esses fatos esclarecem a existência de estúpidos vagabundos nas migrações modernas. Seria vão imaginar que as novas partes do mundo são povoadas pelos mais delicados pioneiros. Pra ser justo com Jorge Bernardo Shaw e outros irlandeses de seu tipo, acrescentemos uma nota. O celta primitivo é o ciclope deste capítulo. Mas há muita

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gente que se considera irlandês tendo pouco ou nenhum veneno céltico nas veias. Gordon Wasson, que fez um estudo cuidadoso dos antepassados de todos os irlandeses ilustres dos últimos anos, como de muitas das gerações anteriores, me disse que todos os homens que se distinguem do rebanho têm pouco ou nenhum sangue céltico nas veias. Todos são, principalmente, de origem inglesa ou escocesa. Alguns que se vangloriam, em alta voz, de seu sangue irlandês, são os que menos o possuem. E os mais brilhantes são todos guarnição da Irlanda, isto é, descendentes dos ingleses que, em vários períodos da história, foram enviados pra dirigir o negócio da Irlanda e viveram na pequena colônia de Dublim, tão longe quanto possível dos irlandeses nativos. Declarações semelhantes me foram feitas por vários estudiosos ingleses do problema. Parecem razoáveis. Na Irlanda, como na Espanha, que estudaremos em breve, os primitivos selvagens procriaram excelentes híbridos quando cruzaram com raças superiores. A mistura de estirpes liberta a energia, anteriormente contida, da mente e do corpo. A estupidez, em suma, é, aparentemente, o resultado de certos traços biológicos, que são as recessivas de Mendel. Sua subjugação se dá ou por nova combinação, que faça com que as recessivas superiores aflorem, ou pela subordinação e neutralização por novos dominantes. Algum dia um biólogo devotará atenção às questões surgidas dessa situação.

Calor

Nenhuma instituição humana conseguiu subsistir num clima ao qual não estivesse originariamente adaptada. A temperatura sempre triunfou sobre a religião, sistema matrimonial, regra econômica, ética e tudo mais. É por motivos tão simples que não haverá quem não os entenda, à primeira vista. O clima é o ambiente. Mas é muito mais que o simples ambiente. É, também, o regulador do fluxo energético humano, tanto físico quanto mental. Age de dentro a fora e de fora a dentro. Age quando dormimos, trabalhamos, nos divertimos. Sendo uma constante, sempre foi esquecido e negligenciado. Em relação ao clima, nosso comportamento parece o dum pequeno peixe em relação ao oceano onde vive. Nenhum peixe, ao menos que se saiba, avalia o quanto deve ao oceano. Num grau que muitos biologistas e muitas seguradoras parecem esquecer em suas observações, o clima, direta e indiretamente, determina a saúde e a duração da vida das massas humanas, e continuará a o fazer, até que o homem aprenda a governar o tempo. O clima determina o número de bactéria e de inseto, assim como a virulência. Determina a fertilidade do solo e, portanto, as espécies de alimento que o homem deve comer. Determina, mesmo, e não em pequena proporção, o apetite do homem por alimento e bebida, assim como a quantidade que digere e deglute. Determina a quantidade e a espécie de esforço que o homem deve fazer num dia de trabalho. E determina seu modo de ação, numa série de maneira. Assim, separar o estudo dos tipos humanos de comportamento do estudo do clima seria o mesmo que assistir Hamileto sem o desempenho do artista que representasse Hamileto. O sol estupefaz os homens de maneira singular. O calor e a luz, simplesmente, contribuem pouco pro mal, a despeito de certas opiniões eruditas em contrário. Em duas regiões, ao menos, a raça branca suportou grande calor e deslumbrante luz durante tempo suficientemente longo pra demonstrar que não se trata dum sério deprimente mental. Na Qüinslândia, Austrália, e no vale de São Joaquim, Califórnia, a terceira geração de habitante não mostra alteração marcada que se possa atribuir à insolação. No pior dos casos há somente ligeira diminuição da atividade geral, em conseqüência de dois efeitos aparentemente contraditórios do calor. Em quartos de dormir com

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temperatura superior a 21ºC, pouca gente consegue dormir mais de cinco horas de cada vez. Ao mesmo tempo o calor dilata os vasos sanguíneos superficiais, destarte retirando sangue do cérebro. Isso traz a modorra e retarda as operações mentais. Assim, a tendência é fazer a sesta. Isso é inevitável. Ora, não se pode negar que esse retardamento da cerebração constitua uma espécie peculiar de estupidez mas parece ser mais séria do que realmente é, exceto quando agravada por outros fatores extra-calor. O homem branco, sob o calor, pode pensar tão bem quanto sob o frio mas leva mais tempo ou, então, deve ser mais poderosamente excitado. O mal é que as terras quentes onde vão viver são férteis, a existência ali é fácil e a pobreza pode ser evitada com pequeno esforço, de modo que há pouco incentivo ao pensamento rápido e resoluto. Em suma, são as influências indiretas do sol que nos estupefazem. No curso dos séculos, sem dúvida, os astutos perdem todas as vantagens sobre os estúpidos, numa terra soalheira e fértil. Como os companheiros de Ulisses entre os comedores de trevo, o astuto experimenta o alimento e se torna um dos estúpidos. Somente os homens excessivamente brilhantes desdenham esse modo de ação. E, como são um pra um milhão, sua dinastia permanece pequena. Considerai a distribuição comum de classes em velhas e populosas terras tropicais. O círculo superior de capacidade e de poder não é muito menor em relação aos círculos médio e inferior? Não é menor, com efeito, que nas terras mais frias? Uma rápida visão da Índia, da África e da América do Sul o indica. A seleção natural degrada o homem, nos países quentes. De modo que, embora o calor e a luz, como simples estímulos, não possam minar a inteligência, seus efeitos cumulativos econômico-sociais o fazem. Hipócrates, em seu tratado Sobre os ares, as águas e os lugares, notou: Os habitantes da Ásia são conhecidos por sua disposição igual e gentil. Essas qualidades estão de acordo com a uniformidade e a amenidade do clima asiático. Pra desenvolver o vigor e a bravura é necessário um clima que excite a mente, que perturbe o temperamento e que exija bravura e rude trabalho. A essa larga observação os investigadores modernos pouco acrescentaram mais que detalhes confirmatórios mas trouxeram à luz fatos surpreendentes acerca doutro fator, ainda mais malfazejo, do clima, a umidade. Um dos inimigos mortíferos de Ulisses.

Umidade

A umidade, principalmente nas terras quentes, causa tanta estupidez quanto qualquer outra influência. Rivaliza com o ancilóstomo e, se meus cálculos não são muito inexatos, lhe dá distância. Vede, antes de tudo, o que está provado pelos cientistas. 31 A resistência humana ultrapassa o limite quando a temperatura do ar se eleva e permanece a 32ºC, com 100% de umidade. Mesmo que o homem não trabalhe não pode viver continuamente nessa umidade. Perde peso com rapidez e quanto mais gordo mais rapidamente perde. Sofre muito mais do que se fosse exposto a um calor muito maior durante poucas horas. E o sofrimento parece ter relação com a pulsação 32 Em geral, o esforço se torna intolerável quando a pulsação chega a 160 por minuto. Isto esclarece a estatística de suicídio: Os dias mais quentes do verão, regularmente, trazem um súbito

31 Francis G. e Cornelia G. Benedict, The influence of thermal environment upon basal metabolism. Experiências do laboratório de nutrição relatadas à academia nacional de ciência. Sessão de abril de 1924. 32 Vide as experiências do departamento do interior na estação experimental do bur ô de mina de Pitesburgo. W. J. McConnell e R. R. Sayers. Some effects on man of high temperatures. Government bulletin, #2584

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aumento na auto-destruição. E, do mesmo modo, torna mais compreensíveis, pro habitante das terras frias do mundo, essas terríveis mudanças de personalidade que se operam nos homens brancos que partiram aos trópicos. Os cirurgiões do exército britânico realizaram estudos exaustivos quanto ao efeito dos climas tropicais sobre os brancos na Índia e na África. E nosso departamento geral de cirurgia realizou pesquisas semelhantes, embora muito menos extensivas, em Filipinas. A primeira investigação ianque foi conduzida no verão de 1905, por coronel Charles B. Byrde, vice-chefe do departamento e chefe da divisão de Filipinas. E, desde então muitos progressos foram feitos por outros. Os fatos mais importantes estabelecidos por esses trabalhadores tornam absolutamente claro a completa solapagem da mente e do corpo do homem branco em Manila, onde, durante muitos meses do ano, a temperatura diária permanece quase tão alta quanto a do corpo humano. Em tal temperatura o oxigênio contido num metro cúbico de ar é quase um décimo menos do que quando o ar está na temperatura mais suave de 15ºC a 20ºC. Portanto, um homem deve inspirar maior quantidade de ar pra viver, e a situação se agrava pelo exacerbação de todos os processos físicos pelo próprio calor. O fluxo sanguíneo e a respiração se aceleram. Isso gera um excesso de calor que deve, dalgum modo, ser expelido. Assim, o sangue vem à superfície do corpo, onde as glândulas que produzem o suor são anormalmente estimuladas. O ar quente, entretanto, torna a radiação difícil e vagarosa. O sangue tende a permanecer na superfície até esfriar e o resultado é que mais de um terço de todo o sangue fica nos vasos próximos à pele. Isto retira dos intestinos, do cérebro e doutros órgãos a necessária quantidade de sangue, então a má nutrição geral. A conseqüência é neurastenia tropical, 33 uma grave condição de irritabilidade nervosa, cansaço fácil, dor de cabeça e, eventualmente, debilidade mental. Ora, isso pode parecer um simples desequilíbrio. Mas, como processo fisiológico, é um novo equilíbrio. Somente quando o julgamos do ponto de vista social ou moral, o podemos denominar colapso. A estagnação mental e física é o melhor ajuste que o corpo humano pode fazer ao calor e à umidade cruéis dos trópicos. Não é justo o comparar ao procedimento dum corpo em Londres ou em Nova Iorque. Dado o ambiente, como algo poderia ser de grande importância? Por que se esforçar, se o esforço significa morte rápida? Nos trópicos o budista e o iogue são, biologicamente, sábios. O mesmo acontece com o negro do Congo, que se embebeda todas as tardes e dorme durante os dias, embalado por sonhos agradáveis. Pra eles o esforço do homem do norte, seja branco ou amarelo, é loucura. E loucura será o esforço, onde quer que o Sol irradie calor abrasador. Kipling sabia o que queria dizer quando escreveu, sobre a Índia: É uma nação negligente e kutcha, 34 onde todos os homens trabalham com instrumentos imperfeitos e a coisa mais sábia a fazer é não levar alguém ou algo muito a sério. Poderia ter dito o mesmo de quase todas as outras terras quentes e úmidas. Das Índias Ocidentais, por exemplo. O turista que visita essas ilhas mágicas durante os meses secos do inverno vê um paraíso e suspira uma oportunidade de ali viver. Talvez nem suspeite o que os seis ou oito meses de chuvas quentes farão a sua mente. Nem mesmo os negros podem resistir. Chegam à senilidade aos trinta anos, como demonstraram as recentes pesquisas realizadas na Jamaica por professor Seagar, da cadeira Rockefeller de higiene no colégio imperial de Porto Espanha. E isso, também, a despeito do curto período de trabalho, de cerca de 20 horas por semana, em média. O coração e os vasos sanguíneos

33 American journal of medical science, abril de 1907 34 Kutcha - adjetivo anglo-indiano - Cru, imperfeito, temporário, arruinado, de segunda classe (do hindi kaccā). Nota do digitalizador. Extraído de http://dictionary.reference.com/browse/kutcha

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degeneram rapidamente, de modo que, aos 40 anos, muitos negros se cansam rapidamente e simplesmente não têm espírito, no sentido que essa palavra tem no norte. Certamente, alguns de seus defeitos têm raiz noutras influências tropicais, como excesso de amido na alimentação e o inevitável recurso a narcótico, particularmente álcool e fumo. Mas a indulgência prejudicial nessas coisas é em grande parte estúpida, não absolutamente compulsória. A neurastenia tropical traz a inércia psíquica: A vítima não pode pensar claramente acerca de seu auto-governo. Mais uma vez o círculo vicioso! Não precisamos ir à Índia ou às Índias Ocidentais pra notar a curva sinistra. A temos no sul de nosso país. Durante mais de metade do ano o ar, na zona do algodão, está pesado de umidade e abrasado de calor. E o que dizer do típico agricultor algodoeiro? Lembremos que a inteligência geral é a capacidade de se ajustar, com êxito, a novas situações, ao passo que a ininteligência geral é a incapacidade de o fazer. Durante os últimos dez anos esse agricultor agiu com tal ininteligência que não podemos deixar de concluir que se trata dum estúpido. Vejamos, em primeiro lugar, o testemunho de E. C. Westbrook, da escola de agricultura da Jórgia. Notai bem que se refere a homens brancos e não a negros. Durante os últimos cinco anos, a escola realizou experiência em benefício aos plantadores de algodão. Essas experiências foram realizadas em vários tratos locais do estado e consistiam no plantio de boa semente, na cultura feita de acordo com os melhores métodos conhecidos e na seleção, descaroçamento e enfardagem de acordo com a técnica científica. Disse Westbrook:

A experiências foi coroada de êxito. Os agricultores venciam a distância de

muitas milhas pra assistir as demonstrações. Mostrávamos como produzir 900 libras de algodão por acre, ao preço de 6,1 centavos a libra, ao passo que produziam uma média de 150 libras ao preço de 20 centavos. 35 Mas os agricultores voltaram a casa e continuaram a fazer o que sempre fizeram.

Agem com a mesma estupidez quando vendem o algodão. Sam Bass, tesoureiro da cooperativa de algodão da Luisiana, declarou que o fazendeiro de algodão, por puro

hábito, ainda traz o algodão à cidade e dispõe exatamente como o fazia seu avô. E Henry Crosby, co-diretor do Texas Weekly, afirma o que todo mundo sabe na zona do algodão: O fazendeiro sabe pouco, ou nada, sobre a qualidade do algodão. Entretanto isso é importante, já que o preço, pràs diversas qualidades,

difere enormemente

O fazendeiro vem à cidade, olha a tabela de preço,

e, ao crepúsculo, vende

... talvez regateie com o comprador, em geral sem êxito

... o algodão ao preço que pode conseguir. E na estação seguinte não se inquieta

com a qualidade do algodão. 36 Numa palavra: Estúpido! Não pode aprender. Deixemos que si mesmo e seus defensores justifiquem seu procedimento como orgulho, independência ou conservadorismo. Sabemos que se trata de termos pra disfarçar a estupidez. Se há orgulho, então é o orgulho do sujeito estúpido que nem pode saber qual lado do pão tem manteiga. O mesmo acontece com qualquer outro traço que, na prática ou na teoria, possam estar envolvidos na questão. Nem toda essa estupidez pode ser atribuída à umidade, como causa primária. A seleção natural trabalhou muito em toda a zona do algodão, com a luz, solo arenoso,

ancilóstomos e resíduos de escravos que arruinaram a terra pros brancos. Entretanto, quem quer que tenha observado os trabalhadores nos campos de algodão, como

35 1£ = 0,45905kg, 900£ = 413,145kg, 6,1¢/£ = 14,76479¢/t, 150£/20¢ = 290,4549¢/t 150£ = 68,8575kg, 1 acre = 4046,856422m 2 . Nota do digitalizador 36 Esta citação, e as duas anteriores, foram colhidas duma série de entrevistas realizada s pela United Press, em julho de 1931, sobre a crise do algodão

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observei, durante a adustez do verão, poderia ver, mesmo com a metade dum olho, seu terrível veneno. Desenhando vosso atlas da estupidez, fazei um mapa das chuvas no mundo. Marcai todas as zonas de considerável precipitação pluvial no verão, onde a temperatura média da estação chega a 24°C ou mais. Escrevei, nessas zonas, a palavra Ciclópia. Com os mapas ainda a vossa frente, e de lápis em punho, vos lembrai que as regiões de frio extremamente úmido são grandemente desfavoráveis ao homem, embora não causem estupidez nem mesmo em escala parecida à das regiões quentes. Marcai as terras árticas, sub-árticas, os planaltos e as montanhas simplesmente como impróprias pra habitantes superiores. Olhai agora! O quanto da superfície terrena fica fora dessas regiões geladas e da Ciclópia? Menos de metade de nosso próprio país. Menos de metade da Europa. Talvez um pouco da Ásia, da África ou da América do Sul, exceto o Japão. Um ou outro recanto das montanhas da Índia, alguns planaltos através dos Andes e, possivelmente, um quarto do México. Não é de admirar que Ulisses e seus astutos companheiros tivessem de ir tão longe pra encontrar um lar!

Alimento

Muitos homens cavam a própria sepultura com os dentes, diz o velho rifão. A isso acrescento as três artes de cavar sepultura: Comer demais, comer pouco e comer mal. Da primeira dessas artes tratarei um pouco mais tarde, sob o título de auto-governo, visto que me parece, antes de tudo, uma estupidez de controle, não matéria de alimentação. Ainda mais, é rara 37 e não pode figurar na evolução da estupidez das massas, que é nosso interesse imediato. As outras duas artes são universais e perenes. Talvez o maior império dos estúpidos seja o habitado pelos sub-alimentados e pelos mal-alimentados. Poucos povos aprenderam a escolher alimentos convenientes a sua natureza e muito poucos podem, ainda, conseguir alimento bastante, seja bom ou mau. É possível que mais de 10 9 pessoas pratiquem essas duas artes negras, que os estupefazem em grau mensurável. Parece estranho, ao habitante da zona temperada, que a maior parte desse bilhão habite países quentes, onde o alimento se encontra em abundância durante todo o ano. Mas isso é um lugar-comum entre os estudiosos de nutrição: Em geral o homem dos trópicos consome muito amido, especialmente sob a forma de inhame, ao passo que nunca é suficiente o consumo de vitamina e de mineral. O calor também, o enerva, estraga o apetite e leva a estimular o estômago com pimenta, cominho, rum e outros produtos picantes. Visitai um restaurante nativo na Índia ou no México. Mas as zonas frias fornecem multidões de sub-alimentados e mal-alimentados. As grandes planícies da Rússia, da Sibéria, da África e das Américas são provavelmente as piores regiões do mundo sob esse aspecto, pois, fora das cidades, onde a vida moderna penetrou, o regime alimentar é magro e monótono: Pão-preto, queijo de leite de carneiro, chá ou café de má qualidade e batata. Todos os observadores, cujo testemunho pude estudar, concordam, em geral, em que a incrível estupidez do camponês russo resulta, principalmente, de seu abominável cardápio. Não poucos cientistas afirmaram que o atraso dos índios americanos, senão também de seus predecessores, foi causado, em grande parte, por comerem muito milho. A falta de fruta e de verdura tornou estúpidos os mexicanos, desde o tempo dos astecas, e as moléstias intestinais causadas pelo mau alimento abalaram os sentidos e os músculos dos mexicanos de maneira

37 Glutoneria, então, seria coisa de rico na época de redação do texto. Bem diferente do final do século 20 e começo do 21. Nota do digitalizador.

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aterradora. 38 Ora, a coisa curiosa sobre tudo isso é que não é necessário se fartar de milho ou tornar acídulos o pão de centeio e a gordura de porco pra se tornar estúpido. Quando dizemos que os índios comiam muito milho, queremos dizer que, relativamente a tudo o mais que comiam, o milho constituía a maior parte do regime alimentar. Neste caso, perdem o apetite e comem pouco doutras coisas. A alimentação errada, assim, induz a sub-alimentação e, portanto, a semi-inanição e seus estupores peculiares, que são definidos e medidos. Doutor Clemens Pirquet, encarregado do serviço americano de socorro, na Áustria, durante e depois da guerra, observou que era difícil persuadir a criança sub-alimentada a comer bastante. 39 Finalmente, os membros da missão resolveram compelir os pequenos a terminar toda a refeição servida, antes de terem permissão pra deixar a sala. Algumas crianças passavam a manhã inteira beliscando, de má vontade, os alimentos. Novamente o ciclo vicioso! Os românticos, que sonham cuma idade áurea, acreditam que o homem primitivo tivesse os órgãos de digestão dos ciclopes. O imaginam, em sua úmida caverna, como a em que Ulisses foi pilhado, se apoderando das vítimas humanas, as atirando à terra, como cachorrinhos inermes. Adiante, os cérebros voaram, umedecendo o chão. Depois, membro a membro, despedaçou os corpos e deles fez repasto, os devorando selvagemente, como um leão na montanha. Nada deixou de comer: Carne, entranha ou medula óssea. E o ciclope, quando encheu o ventre monstruoso com carne humana e a acompanhou com tragos de leite sem mistura, jazia, em todo comprimento, sobre o chão da caverna, entre seu rebanho.

Ora, é provável que alguns milhares de indivíduos superiores, em cada geração de cinco a quinze milhões, o fizessem. Mas a aparência dos povos primitivos, hoje em dia, nos convence de que seus progenitores eram, em geral, parecidos consigo, uma raça que, aos poucos, escavou sua sepultura com os próprios dentes, perecendo antes de tempo, afundada em estupor. Não esqueçais que foi somente nos últimos 15 mil anos que os homens lavraram o solo. Durante o primeiro meio milhão de anos, devoraram o que estivesse a mão. Vagaram aqui e acolá, no rastro dos animais de caça e dos cereais maduros. Durante muitos dias passaram fome. Noutros dias, comeram tanto que a pele sobre o ventre se tornou azul. E então dormiram uma semana, num estupor de glutões. O homem obteve uma vantagem vital sobre o reino animal quando se tornou onívoro. Mas que preço pagou por esse abençoado privilégio! Comendo tudo, até mesmo barro e peixe podre, como ainda o fazem as crianças abandonadas da Itália, perdeu o delicado poder de discriminação que encontramos em quase todos os outros vertebrados e, assim, perdeu um regime alimentar equilibrado pelos reflexos. Tudo lhe descia na garganta, fosse ou não necessário. Naturalmente, uma criatura que pode comer tudo está em perigo mais grave de desequilíbrio que outra que pode passar apenas com poucas coisas. A primeira pode ter mais oportunidade de sobreviver num mundo precário, mas tem mais probabilidade de sobreviver como um bilioso, moroso, azedo, impulsivo, indivíduo inteiramente repreensível. Quanto mais come mal, tanto mais violentamente seu sistema de glandular endócrino é posto fora de compasso. E isso perturba todas suas emoções e todas suas atitudes. A estupidez no comer leva, assim, à estupidez em geral.

  • 38 É conhecida a vital influência da proteína animal no desenvolvimento da inteligência da prole. A dieta vegetariana compromete a inteligência dos descendentes. Experiências feitas em rato demonstram que mesmo depois de retomada a dieta normal a degeneração intelectual persiste durante várias gerações. Nota do digitalizador.

  • 39 A criança não tem vontade de comer quanto carece de zinco. Nota do digitalizador.

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Man ist was er isst. 40 Desde o tempo dos primeiros homens até o aparecimento do arado e das cidades, a maior parte da população do mundo se deve ter afundado na espessa estupidez dum ventre distendido, intestino inchado e estômago ferido. Às vezes isso era causado pela sub-alimentação mas, com maior freqüência, pela insistência nos mesmos alimentos. Quanto menos seguro o abastecimento de alimento, tanto mais desesperada a insistência, como no clássico exemplo dos homens da Terra do Fogo, que passam longo tempo sem o que comer e que, à chegada duma baleia morta à praia, se fartam da gordura apodrecida até cair num canto, onde permaneciam, envenenados, vários dias. Até que ponto supondes que a estupidez social e política dos ianques é uma questão de alimentação? Quem dera que eu pudesse responder a essa pergunta com exatidão! O que sei é o que os dietetas, os médicos e os estatísticos me dizem. Suas informações são ominosas. Atentai nalguns pontos mais terríveis. As estimativas demonstram que ao menos quatro e meio milhões de crianças das escolas ianques sofrem deficiência alimentar, mais de metade, surpreendentemente, em escolas do interior. 41 Doutor William R. P. Emerson 42 estudou tanto as crianças escolares como as pré-escolares e notou que ao menos um terço delas era mal- alimentado. E graças aos estúpidos hábitos alimentares dos ianques, a deficiência alimentar é, muitas vezes, encontrada entre as crianças ricas de Avenida Parque. 43 E quanto aos adultos? Os serviços de saúde pública de Eua 44 notaram que, enquanto um dentre três dos homens examinados pra servir durante a guerra mundial era rejeitado por incapacidade geral pro serviço militar, 40 mil deles não eram normais em altura, peso, desenvolvimento torácico, e assim a diante. Sobre essa base a saúde pública calculou que 20% dos ianques, cerca de 24 milhões, sofrem, dalguma forma, deficiência alimentar. O instituto de prolongamento da vida 45 notou que 6% dos trabalhadores industriais examinados estavam muito abaixo do peso normal. Ao examinar essas cifras vos lembrai que ao menos 90% de todos esses casos de deficiência alimentar são completamente evitáveis. Ninguém sabe quantos levam à tuberculose. Com certeza, alta percentagem, mas muitos podem ser prevenidos por meio de exata investigação e vigilância constante. Mais estúpidas que todos são as mulheres que se deixam morrer de fome a fim de corresponder à forma e à linha da moda. Milhares de moças e de velhas cocotas 46 cometem essa imbecilidade, de acordo com muitos médicos. Muitas acabam com tuberculose ou pneumonia, o que é menos do que merecem. A falta de alimento não produz essas semi-inteligências. Elas alcançam esse nível com o leite materno, sem dúvida. Quanto mais cedo elas e sua prole desaparecerem, tanto melhor pro resto.

Cansaço

Modificai vosso ponto de vista. Olhai o último milhão de anos, cuma pergunta principal em mente: O que manteve as coisas andando? A resposta é fácil: Rude trabalho e nada mais deram a alguns homens a capacidade de continuar vivendo num

  • 40 Man ist was er isst, citação do autor em alemão: A pessoa é o que come. Nota do digitalizador.

  • 41 Standards of child welfare: A report of the children's bureau conferences, maio e junho de 1919. Children s Bureau Publication, #60, páginas 238-48, 250, Uóchintão, 1919.

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  • 42 Ibidem

  • 43 Borden S. Veeder, The role of fatigue in malnutrition of children, no Journal of the American medical association, 3 de setembro de 1921

  • 44 Relatórios da saúde pública de Estados-unidos, 29 de abril de 1921. Volume 36, #17

  • 45 Eugene Pisk, Health building and life extension, página 189

  • 46 Cocota sf (francês cocotte) Menina pré-adolescente muito vaidosa. Nota do digitalizador.

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mundo severo. Lenhadores e aguadeiros fizeram o trabalho do mundo, enquanto os egomaníacos lutaram por palácio e riqueza. Semeadores e lavradores do solo mantiveram a fome a distância enquanto senhores ladrões governavam férteis vales e pagavam propagandistas pra cantar sua glória. A crônica genuína das civilizações não está escrita nos arquivos oficiais, muito menos cantada pelos menestréis, simples agentes publicitários, buscando donativo dos grãos-senhores cuja fama proclamavam. A humanidade foi conduzida num escuro e vagaroso rio de suor, sangue e lágrima. Seus bilhões de trabalhadores foram, como a própria natureza, sem fala, sem resposta e de coração endurecido às dores, desencanto e obscuridade. Aqui, pois, se oculta a estupidez primordial. Os que tinham fibra pra suportar essa luta áspera só podiam ser de pele grossa, de imaginação tarda e calmos como o granito. Não podiam sentir como nós e, muito menos, sonhar e conceber. Viveram dentro do compasso da labuta diária, bem adaptados a ela e procriando gerações convenientes a essa estrutura. Mesmo assim, muitos milhões ainda devem lavrar o solo até cair de fadiga. E, quando cansados, se tornam estúpidos. Em nenhuma parte se pode encontrar maior número desses seres que nas fazendas do mundo. Como se esquecem, rapidamente, as revelações das zonas rurais! Sempre condados inteiros foram condenados pelos reformadores irados. Certa vez, foi Vermilion County, Ilinóis, depois foi Putnam County, Nova Iorque, e mais tarde Adams County, Orraio. Sempre o mesmo panorama de estupidez, degradação, moléstia e mau-cheiro geral. Os fazendeiros e os aldeões de Orraio vendem seus votos por dois dólares. Alguns, menos pudicos, chegam a pedir 10 dólares, em certas ocasiões. Assassínio, extorsão, sífilis, gonorréia, trabalho forçado, incesto, feitiçaria e todas as artes dos antropóides florescem do Meine à Califórnia, Nenhuma metrópole é pior que qualquer coleção de lugarejos e de zonas do interior, com a mesma população. Só algumas grandes cidades são tão más. Todos os grandes realistas em literatura desenharam o mesmo quadro, carregando nas tintas de acordo com a cena local. Lede Turgueniev, Tolstói e Gorki, se quiserdes a verdade sobre o camponês e o aldeão russos. Lede Flaubert, Maugassant, Balzaque, Zola, Bazin e outros escritores franceses, se quiserdes algo muito próximo dos fatos sobre a vida no campo, na França. Prum golpe de vista sobre os escoceses folheai George Douglas, e, pra muito mais que um golpe de vista sobre os irlandeses consultai George Moore e John Synge. Arnold Bennett foi muito suave na descrição dos pobres- diabos dos condados setentrionais da Inglaterra. Galdós e Palacio Valdés desenharam, com linhas mais firmes e mais profundas, o estúpido espanhol das regiões abertas. E Björnson rivaliza com Ibsen no revelar a estupidez, a superstição, os fanatismo e a existência incolor dos habitantes rurais da Escandinávia. Por que são tão estúpidos esses lavradores do solo? Uma, numa dúzia de causas, é o trabalho demasiado. A mulher do agricultor trabalha, mesmo hoje, de 12 a 16 horas por dia. Os filhos dos plantadores de cana-de-açúcar do Colorado, Utá e Michigan muitas vezes mourejam 14 horas por dia sob sol escaldante. Vive ali algum leiteiro que não esteja de pé antes da madrugada, ordenhando as vacas até depois do crepúsculo? O homem da enxada ainda está conosco, mesmo que a enxada fora trocada por um cultivador de duas asas puxado por um trator de segunda mão. Seria absurdo sugerir que a fadiga é a principal explicação prà estupidez do camponês. Noutra parte mostraremos que, acima de todas as outras influências, e as ultrapassando em escopo e vigor, está a seleção natural que expulsa as variedades sensíveis, ambiciosas, inquiridoras, móveis e sociáveis da humanidade a longe das fazendas, deixando os que podem e querem se escravizar por dez réis de mel coado no

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isolamento. Esbocei rapidamente essa tendência em estudo anterior. 47 Assim, passarei por ela, cuma referência às desanimadoras revelações da mulher do lavrador, num estudo recente do departamento de agricultura. Uma investigação, de casa a casa, sobre a vida de 10.015 mulheres, em fazendas razoavelmente prósperas, revelou que o dia de trabalho, em média, é de 11,3 horas e no verão se eleva a 13,1 horas. Em cada 100 mulheres, 87 nunca tinham férias: Labutavam até a morte. Em cada 10 mulheres 6 não tinham bombas dágua na cozinha e deviam andar até certa distância a fim de conseguir água prà comida e demais necessidades da família. Em cada 4 mulheres 1 devia ajudar no trabalho com as vacas, os porcos e os cavalos. Em cada 5 1 também devia ajudar na colheita, enquanto 1 em cada 3 trabalhava regularmente na ordenha de vaca e no fabrico de manteiga. Que espécie de mulher pode agüentar isso? Que espécie de mulher agüentará? Somente criaturas de cérebro e de mãos pesadas. Moças vivazes, sensíveis e bonitas fogem do interior. Nalguns condados, cerca de metade das mulheres dos agricultores tem inteligência abaixo da normal, de acordo com pesquisadores e mestres-escolas. Mulheres de ciclopes! E procriam novos ciclopes! De modo que o nível da vida rural vai constantemente voltando à origem, tendo se acelerado a modificação, recentemente, pelos imprevistos efeitos das grandes máquinas e colapso mundial dos preços dos produtos agrícolas. Atrás de tudo isso encontramos, como um determinante da seleção natural, esse cansaço da carne e do espírito. Os trabalhadores da cidade também o conhecem, mas de maneira mais suave. Esse cansaço, aqui, é causado, principalmente, pela pura monotonia do esforço, em vez de longas horas de trabalho muscular. O trabalho demasiado, nos primeiros anos, lançou a carga mais pesada sobre o homem. A criança que trabalha demais cresce quase tão estúpida quanto a criança mal- alimentada. Os meninos e as meninas que labutam dez horas por dia nos bairros miseráveis das cidades e nos campos de algodão e de cana-de-açúcar afundam em estupidez crônica. E é provável que os espertos sofram mais que os naturalmente estúpidos. Minhas notas e experiências estabelecem que a fadiga tem um efeito pior e mais assinalado sobre os inteligentes que sobre os estúpidos. Relativamente às suas capacidades, os primeiros sofrem muito mais com a exaustão. Cansado, o estúpido se torna mais estúpido, somente um pouco mais. Por outro lado, o indivíduo superior experimenta um tal abandono na eficiência e na rapidez que os resultados são surpreendentes. Cum adequado relaxamento dos músculos, tanto o estúpido como o inteligente recuperam a capacidade normal. Mas o indivíduo superior volta ao nível comum mais rapidamente. Aqui, como noutros casos, responde mais velozmente às mudanças, às situações novas e aos estímulos variáveis. Mais sensível que os estúpidos, à fadiga, ultrapassa os estúpidos, igualmente, na rapidez do restabelecimento, por meio do repouso. Foram realizadas investigações profundas quanto aos efeitos da falta de descanso necessário pra certa espécie de trabalho. A comissão real canadense que, em 1907, estudou a fadiga entre os telefonistas de Toronto, notou que, depois de duas horas de trabalho constante na mesa de ligação, o trabalhador comum começava a mostrar sinal de exaustão. E, em tempo um pouco maior, variando consideravelmente de acordo com o físico do indivíduo, se desenvolvia um segundo estágio, em que certos padrões de comportamento, como responder a uma chamada fazendo a ligação exata, começavam a falhar. E ao menos um descanso de meia hora era necessário pra restaurar

47 Twilight of the american mind. pg. 279, etc.

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completamente o funcionamento desses padrões. O rigor de atenção que acompanha a fadiga deve ser familiar a todos os que já se encontraram completamente exaustos. Começa sob a forma dum simples esforço pra impedir o fracasso dum padrão de comportamento que se desfaz. Fazeis um longo passeio, ides muitas milhas além do que pretendeis e vos apressais, de volta, a fim de chegar à casa, antes que a escuridão da noite desça sobre a terra. Em breve, vossos pés se arrastam, cansados, e tropeçais nas pedras do caminho. O padrão de comportamento na locomoção está falhando. Fixais a atenção sobre o ato de andar. Fazeis um esforço deliberado pra mover os músculos, de tal modo que os pés avancem direito a diante. Durante algum tempo tudo vai bem. Mas, à medida que vos ides tornando fatigados, os hábitos musculares das pernas se desintegram rapidamente. E deveis vos concentrar sobre cada movimento, de tal maneira que toda a mente estará empenhada na ação e, incidentalmente, isso vos exaure a força muito depressa, da cabeça aos pés. Ora, a estrita atenção é normalmente mantida somente por meio dum grau maior ou menor de suspensão de todas as outras atividades voluntárias, que não as envolvidas no ato de atenção, e também por meio da diminuição da agudeza dos órgãos sensoriais, não semelhantemente envolvidos. Assim, já não vedes nem ouvis coisas e sons que perceberíeis em condições normais. Já não saís da estrada rapidamente, e com exatidão, quando um automóvel se dirige sobre vós. E correis a todo momento o risco de vos ferir, em conseqüência de vosso imperfeito ajuste ao ambiente. Aqui chegamos a uma das causas mais importantes de infortúnio no mundo industrial. Essa grosseria e estupidez que a fadiga produz através do rigor da atenção são perigosas pro trabalhador que labuta com máquina. Se torna menos atento ao próprio movimento e menos consciente do risco que constantemente corre. As estatísticas de acidente no trabalho revelam o fato significativo de que o número de desgraça aumenta, firmemente, desde o começo do trabalho, na manhã, até o meio-dia, e, depois do descanso de meio-dia e da refeição estimulante, o número cai novamente quase até o baixo nível da manhã, se elevando novamente, com firmeza, até o fim do tempo de trabalho. Milhares de pessoas sofrem de fadiga produzida por alguma deficiência na secreção das glândulas endócrinas. Normalmente, estas glândulas funcionam cum ritmo específico, que varia de indivíduo a indivíduo. Se, entretanto, o órgão da glândula endócrina for demasiadamente estimulado, a secreção aumenta anormalmente e, quando o estímulo excessivo continua bastante tempo, a reserva se exaure. E a fadiga e a exaustão vêm imediatamente. Enquanto o ritmo normal da secreção interna não é restaurado não se pode dar o restabelecimento. O efeito do fumo sobre a fadiga é menos certo. As experiências indicam que a capacidade muscular diminui com o uso do fumo, até um máximo de 11%. 48 Ademais, a capacidade de coordenar as reações diminui muito. Embora não tenhamos prova de que a fadiga resulte diretamente do uso imoderado do tabaco, sabemos que é, muitas vezes, um efeito indireto. O fumo diminui, enormemente, a rapidez e a exatidão do trabalho. Os indivíduos que não fumam podem trabalhar muito mais à vontade que os fumantes crônicos, que se concentram mal e têm recordação, percepção, associação e coordenação de ordem inferior. Os grandes fumadores não podem manter, sem grande esforço, em passo constante e rápido a mente nem o corpo. E jamais podem igualar a rapidez e a exatidão dos que não fumam. Trabalhando à vontade, naturalmente, não sentem o esforço. Mas quando forçados a um passo mais rápido que a mente e o corpo, retardados pelo efeito do tabaco, podem agüentar, sentem fadiga não menor que a do

48 Schrumpf-Pierron, Tobacco and physical efficiency. Nova Iorque, 1927

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que não fuma, que está genuinamente esgotado pelo trabalho. De que maneira tudo isso afeta a estupidez? Considerai o fato de que nós, ianques, em 1930, consumimos cerca de 120.10 9 cigarros, mais de 6.500.000.000 de charutos e mais de 152 milhões de quilos de tabaco. Tende também em mente o fato de que, graças a nossa desalentadora negligência ante as moléstias que se podem prevenir, e que discutiremos adiante, o ano de 1930 viu um milhão de nós sofrendo malária e outro milhão sofrendo ancilostomíase, sem falar doutro milhão que constantemente está sob cuidado médico em virtude de moléstias venéreas e outros milhões que sofrem de males menores, como miopia, surdez, maus dentes e assim a diante. E vos lembrai de que, provavelmente, uma grande maioria desses sofredores, tanto das grandes como das pequenas moléstias, fazia parte dos 41 milhões, ou mais, de operários de dez anos ou mais de idade, suscetíveis, portanto, de fadiga, dum modo ou doutro. Não podemos saber, naturalmente, até que ponto, exatamente, os desatinos, tolices, desastres e fatalidades da vida ianque são devidos somente à fadiga. Que a fadiga tenha papel de relevo, não há dúvida. E quando a fadiga proveniente do trabalho demasiado se combina com os efeitos dos narcóticos, moléstia, suscetibilidade à moléstia, defeitos endócrinos, indisposições menores, esforço nervoso, sérias dificuldades e complicações pessoais que levam à zanga, podemos avaliar as perdas em bilhões de dólares e em milhões de horas de trabalho perdido ou inútil. Certamente, também, os desatinos da guerra mundial, como os de todas as outras guerras, eram, muito mais do que podemos conceber, resultado da fadiga e da exaustão levadas ao extremo. Em nenhuma outra ocasião ou situação os homens devem estar tão completamente alertas às modificações desorientadoras, caóticas e mortíferas que quando colhidos nas malhas da guerra. Então, se trata de pensamento rápido, ação rápida, decisão e raciocínio prontos e precisos, ou a morte. Os estúpidos e os superiores perecem, igualmente, em virtude dos desatinos da exaustão na guerra. O cansaço causa muito mais estupidez no velho mundo do que em o novo. Estamos marchando tão extensivamente às máquinas que economizam o trabalho e aos métodos de trabalho por turma, que dentro dalgumas décadas nossos industriais terão aliviado grande parte dessa carga particular dos ombros do trabalhador. A cada ano a fábrica tem um papel menor na obra de cegar o gume da mente do trabalhador. Isso vem àqui quase bruscamente mas nossa última palavra será acentuar o papel prodigioso desempenhado pelo cansaço durante o último meio milhão de anos. Mais uma vez somos levados a admirar o progresso realizado pelo homem, em face desses venenos e dessas tendências interiores que multiplicam sua estupidez.

Moléstia

Os ciclopes sempre estiveram doentes. Vigoroso como é, o ciclope não pode suportar os mosquitos, ancilóstomos e bactérias que infestam o ar, água, solo e intestino. Quando está doente os consoladores garantem que é um indivíduo superior, pois a natureza estabeleceu que suas pragas e pestilências exterminassem os fracos e os deformados, deixando apenas os rudes e os fortes. Então, Polifemo ri, pisca o olho único e sorve outro grande trago de vinho capitoso. 49 Estúpido! Acreditar em tal contra-senso! Não é assim, absolutamente, que funciona a seleção natural. Em verdade, os fracos, em geral, sucumbem nas epidemias, enquanto os fortes resistem. Mas o que dizer dos que não são extremamente fracos nem extremamente robustos? Toda moléstia afeta essa grande maioria de maneira peculiar. A

49 Esse trecho faz lembrar Os sertões, de Euclides da Cunha, onde diz O brasileiro é, acima de tudo, um forte. Nota do digitalizador.

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pneumonia não atinge os que trabalham pouco. A febre tifóide carrega, em primeiro lugar, alguns dos mais robustos. A influenza leva mais cedo à cova os incansáveis e enérgicos, que não podem agüentar a quietude duma cama. E assim a diante. Não há fórmula simples que sirva pra todas as moléstias. Ainda menos se pode argumentar que muitos dos que vencem a moléstia sejam mentalmente superiores. Mesmo se alguns o fossem antes que a aflição chegasse, teriam perdido esse mérito na luta. Esse é o ponto sobre o qual devemos insistir. Jamais alguém contou essa história e poucos terão coragem de a repetir. Nada conheço mais desanimador em toda a carreira humana e humanesca. O caso é que a raça ainda não aprendeu a vencer as causas das moléstias. Uma das principais razões presse fracasso é que as moléstias tornam os homens estúpidos, portanto ignorantes, portanto indolentes, portanto incompetentes como cientistas e como médicos. Pra cada homem morto em conseqüência dalguma praga dois outros viveram de corpo e cérebro estragados. Depois da convalescença vem a estupidez, que se demora, em muitos homens, até o último sopro de vida. Aqui vão algumas páginas do livro negro, que talvez, eventualmente, deva ser aumentado a um grosso volume. A estupidez é produzida por alguma das seguintes causas:

● 1 - Adenóides defeituosas ● 2 - Amídalas defeituosas ● 3 - Cárie dental ● 4 - Epilepsia branda ● 5 - Sífilis branda ● 6 - Várias formas de moléstia cardíaca ● 7 - Malária ● 8 - Ancilostomíase ● 9 - Influenza ● 10 - Tuberculose avançada ● 11 - Muitas moléstias renais ● 12 - Quase todos os defeitos sensoriais pronunciados, como cegueira, surdez, etc. ● 13 - Raquitismo ● 14 - Moléstias das glândulas endócrinas ● 15 - Vários ferimentos sérios ● 16 - Várias auto-intoxicações intestinais ● 17 - Meningite cerebral ● 18 - Escarlatina ● 19 - Pelagra A estupidez, também, é induzida por vários modos de vida maus, entre os quais os mais comuns são:

● 1 - Prolongada alimentação deficiente, especialmente na infância ● 2 - Alcoolismo ● 3 - Hábito de drogas de certos tipos ● 4 - Masturbação prolongada, aparentemente ● 5 - Exaustão física, em conseqüência de trabalho demasiado ● 6 - Excitação emocional prolongada Não é uma lista completa. Qualquer médico poderia citar outras moléstias que transmitem suas próprias tolices depois do restabelecimento. A lista tem como principal finalidade abarcar as aflições comuns e gerais, cujos efeitos mentais foram notados por muitos estudiosos, e cujos efeitos secundários sobre a saúde, o bem-estar e a felicidade dos doentes e dos sãos são facilmente compreensíveis. Se calculássemos o preço que pagamos, em estupidez, pelas moléstias que devastam

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o mundo, ficaríamos perplexos com a magnitude. As moléstias evitáveis, somente em Eua, pasmam os que ousam refletir sobre o significado. Todo ano um milhão de ianques sofre malária, 700 mil estão tuberculosos, outro milhão, ou mais, se enfraquece com a ancilostomíase, 100 mil são atacados de varíola e 20% da população masculina adulta sofre de sífilis, em virtude de cujos terríveis efeitos milhares de crianças são

permanentemente prejudicadas. Doutor Ray Lyman Wilbur calcula que milhares de mulheres são estéreis ou semi-inválidas em virtude da gonorréia. Há muita paralisia, ataxia locomotora e moléstias mentais e muitas crianças prejudicadas por causa da sífilis. Tudo isto pode e deve ser corrigido. É um erro científico, se

não um crime, nascer uma criança com sífilis congênita. Todo ano 26 mil ianques adoecem febre tifóide e cerca de 6 mil morrem, 89 mil adoecem de difteria e mais de 8

mil perecem. Qual é o quadro no resto do mundo? Mais da metade da população total do mundo, que hoje vive em dois terços da superfície habitável da terra, está em constante perigo de infecção devida à mais comum infestação parasitária da humanidade em todo o mundo, a ancilostomíase. Popularmente conhecida como a doença do homem preguiçoso, 50 por causa da apatia e do langor das vítimas, esse terrível azorrague põe em perigo a mente e o corpo de ao menos 1.052.766.000 pessoas, que vivem em cerca de 52.000.000km 2 da área fértil da terra, que é de cerca de 85.000.000km 2 . A moléstia, especialmente insidiosa nos países tropicais e sub-tropicais, é causada por vermes parasitas intestinais, que são expelidos nas fezes das pessoas infectadas, sobre o solo, e que entram no corpo doutras pessoas, em geral através da pele dos pés. Doutor W. G. Smillie, da fundação Rockefeller, descreveu os sintomas da moléstia, que, disse, se manifesta com perturbações do sistema digestivo, anemia progressiva de tipo clorótico, 51 fraqueza física, debilidade, grande diminuição de apetite, fraqueza cardíaca, degenerescência e edema. A moléstia é, também, progressiva: O aumento gradual do número de verme causa aumento correspondente na anemia e na severidade sintomática.

Os efeitos mentais da ancilostomíase são igualmente severos. Um dos mais chocantes sintomas é a inércia mental. As pessoas infectadas tendem a ter reações mentais e físicas muito retardadas. Se interessam pouco pelo que acontece em torno. São tardas e apáticas, têm dificuldade de se concentrar e, quando se lhes fala, parecem não ouvir. Quando se lhes pede fazer algo, compreendem com dificuldade e, vagarosamente, pouco a pouco a pouco, atendem. Uma vítima típica da ancilostomíase teve esta conversa com seu médico, que ilustra, claramente, o retardamento mental característico da pessoa infectada: 52 Como te chamas? Hã? Perguntei como te chamas! Como me chamo? Sim. Como te chamas? Juana. Juana de quê? Juana Maldonado. O que há contigo?

50 No Brasil a ancilostomíase é conhecida, pelo povo, como amarelão 51 Clorótico, atacado de clorose. Clorose - sf medicina - Anemia devida a teor insuficiente de hemoglobina nos glóbulos vermelhos. Nota do digitalizador. Extraído de dicionário KingHost. 52 Walter H. Page, The hookworm and civilization. World's work, vol. 24, #5, setembro de 1912

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O que há comigo? Sim. O que há contigo? Estou cansada. Onde moras? Quem? Eu? Sim, tu. Onde moras? Daquele lado. Juana apontou às montanhas. Em qual bairro? Em qual bairro? Sim. Em qual bairro? El Aoneante. Essa paciente não era normalmente estúpida e, quando curada, respondia com inteligência e alacridade a perguntas semelhantes. Ora, quando souberdes o fato estupendo de que, nos trópicos, ao menos 95% de todas as pessoas, de ambos os sexos, de mais de doze anos de idade, empregadas na agricultura, estão, em grau maior ou menor, infectadas pelo parasito da ancilostomíase, podereis ter a visão duma das mais profundas causas da estupidez do mundo. A infecção dos indivíduos, nas cidade, é menos severa, embora seja, mesmo aqui, uma constante ameaça a toda fase de progresso prà civilização. Alguns países tropicais são uma massa compacta de estupidez, desde o palácio do rei até a choça do camponês, como no Egito, com nove milhões de doentes de ancilostomíase. Ali, o progresso é um sonho ocioso. Como se a ancilostomíase não bastasse, a malária levanta sua horrenda cabeça pra zombar de nós. A malária devasta a mente. Na fase febril faz o paciente absolutamente incapaz de atividade mental e pode mesmo levar à incoerência. Nas regiões onde a moléstia reina os habitantes se afundam em horrível estupidez. Vivem em constante e triste miséria, de mente e corpo negligentes, e nada pode ser feito pra os elevar medicinal ou culturalmente, enquanto continuarem a viver no ambiente envenenado. A malária afeta levemente o homem negro, tanto no corpo quanto na mente. O negro é relativamente imune. Em Ceilão, por exemplo, cerca de 24 brancos pra cada negro morrem da moléstia, enquanto, em Serra Leoa, cerca de 190 pra cada negro brancos sucumbem. Se trata, dalgum modo, de diferenças no sistema nervoso, central, associadas com a mentalidade superior e inferior? Ninguém sabe. Mas, na Índia as condições devidas à malária são indizíveis. Deixemos que o relatório do instituto Ross de doença tropical fale por si. O relatório se refere somente a Bengala mas muitas outras partes da Índia sofrem da mesma forma terrível.

A malária está se alastrando constantemente em muitas partes de Bengala. Centenas de aldeias foram dizimadas, milhares de acres de terra antes próspera e cultivada foram abandonados, cidades populosas foram reduzidas

ao estado de miseráveis aldeias devastadas pela febre, propriedades rurais têm como únicos habitantes o caititu e o leopardo e a selva se arrasta, pouco a pouco, pra reinar novamente sobre uma região donde foi expulsa há milhares de anos. A malária de Bengala pode ser descrita como uma grande tragédia.

A malária é a principal causa de morte em Misore, Cadur, Ximoga e Hassã. Podemos dizer, com segurança, que há mais hindus atacados de malária que seres humanos em toda a América do Norte. E, na América do Sul, exceto nos Andes, que são esparsamente povoados, cerca de nove em cada dez pessoas sofrem de ancilostomíase ou de malária. Talvez nunca saibamos até que ponto a horda de gente estúpida na Europa e seus

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rebentos na América são a prole da sífilis. Não muito depois das tripulações de Colombo regressarem de suas viagens, a moléstia se espraiou sobre o velho mundo como um incêndio florestal. Houve quem supusesse que essa fora a primeira vez que a praga aparecera na Europa mas Léon Ducheyne demonstrou, abundantemente, que a sífilis prevaleceu ao menos dois séculos antes. Os documentos médicos chineses revelam que a sífilis era igualmente comum na Ásia antes da era cristã. Mesmo assim, os séculos 13, 14 e 15 parecem ter sofrido de sífilis muito mais que as gerações anteriores e posteriores. Provavelmente, o tremendo aumento nas viagens mundiais, antes e depois da descoberta da América, espalhou a moléstia ainda mais depressa. Ao mesmo tempo a virulência era muito maior, visto que se abateu sobre povos anteriormente livres dela. Como podemos evitar a conclusão de que dezenas de milhões de europeus foram privados da inteligência nativa durante esses séculos? O nível mental de todo o continente deve ter baixado de maneira aterradora, em vista do que a sífilis faz à mente humana. As crianças nascidas de um ou dois pais sifilíticos são muitas vezes idiotas, imbecis ou retardadas. Quando o veneno herdado é menos violento, o rebento mostra atraso mental, em geral, desde o berço. Se a moléstia é adquirida, mais que congênita, a severidade do atraso mental depende da idade em que ocorre a infecção: Quanto mais cedo mais grave o atraso. Na idade média este efeito deve ter sido muito pior que hoje, pois, em primeiro lugar, a matança foi mais feroz porque a raça não conhecia a moléstia e, portanto, não tinha imunidade e, em segundo lugar, ninguém sabia como tratar a moléstia, mesmo pelo alívio dos males, de modo que toda a força se abateu sobre o sistema nervoso. Os médicos às vezes declaram que todos os europeus têm vários sifilíticos na ancestralidade, baseando essa generalização num século de mistura de raça e de nacionalidade, nas intermináveis invasões de países por imensos exércitos, todos cheios de soldados sifilíticos, e na prostituição internacional, instituição européia. Não precisamos admitir totalmente a hipótese. Nos basta admitir que certo grau de ancestralidade sifilítica é altamente provável na vasta maioria das pessoas de origem européia. Nos fica uma dolorosa pergunta: Que porção de sífilis é suficiente pra fazer uma criança apenas estúpida? Algum dia saberemos a resposta, graças aos estudos genealógicos empreendidos por biólogos e psicólogos. Por enquanto, nos contentamos com conjeturas grosseiras. Minha própria conjetura é que os 25% da população européia e americana cuja inteligência está justamente acima da dos estúpidos podem facilmente representar o preço que o mundo moderno está pagando pela Spirochaeta pallida 53 Se pensais diferente, tomai um lápis e um papel e calculai as ramificações de sangue doente, através de quinze gerações, num país como a Espanha ou a Irlanda, onde remotos cruzamentos de famílias ocorrem continuamente. Muitos médicos me dizem que sou muito conservador, fazendo notar que ao menos cinco milhões de adultos de sexo masculino, em nosso país, atualmente sofrem sífilis (e possivelmente muitos milhões mais); que a proporção na Europa deve ser muito maior, como o afirmam muitos cientistas europeus; que a Ásia, a África e a América do Sul são simplesmente poços de moléstia venérea; e, finalmente, que a proporção, em nossa geração, é muito melhor que em qualquer outra, durante muitos séculos, graças aos novos métodos de tratamento. Não protestarei, pois, num ou noutro caso, o estupor sifilítico pode ser visto, em qualquer dia, escritório ou fábrica. Muitas vezes o encontrei e fiquei desorientado, até que a verdade surgisse. Podemos o encontrar em todos os altos postos do governo em Eua e no estrangeiro, em todas as organizações religiosas,

53 Spirochaeta pallida ou Treponema pallidum é o bacilo causador da sífilis. Nota do digitalizador

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tanto entre os sacerdotes como entre os devotos. Sim, nem mesmo deixa de existir entre médicos eminentes! Houve, nos últimos anos, ao menos dois casos famosos nessa classe. Passamos por cima, cansados de corpo e de espírito, as brandas mas obstinadas tolices adenoidais, amídalas, dentes e ossos defeituosos, com que os mestres-escolas estão dolorosamente familiarizados. Gastamos milhões de dólares, por ano, tentando educar as crianças desse modo afetadas, e estamos jogando fora todos os dólares. E sem dúvida, continuaremos a gastar, pois também não somos esmagados pelos efeitos de centenas de moléstias? Somai todos esses efeitos, os espalhai na população do mundo. Não é maravilhoso que um punhado de mortais tenha escapado com pensamento claro e nervos sensíveis? Talvez, mais tarde, quando a História completa da estupidez seja escrita, investiguemos seriamente a influência das tolices produzidas por moléstias na destruição das civilizações, das raças e dos impérios. Essa tarefa tomará muitos anos e dará trabalho a muita gente, pois há muito material disperso a ser confrontado e interpretado. Muitas vezes, de maneira irresponsável, imaginei se algum dia os cientistas não poderiam provar que o atraso de muitos povos asiáticos foi causado por duas fases independentes de moléstia: Primeiro, pelos efeitos ulteriores de dezenas de moléstias que devastaram o continente durante dezenas de milhares de anos, intermitentemente, e, segundo, pelas transformações no sangue e, portanto, nos tecidos nervosos, produzidas, nos sobreviventes de todas essas moléstias, pelas reações de imunização. Se sabe que os chineses demonstram muito maior resistência fisiológica a várias moléstias que os europeus. Não implicará isso numa estrutura nervosa menos sensível ou numa função mais vagarosa? Levanto a questão e deixo a resposta aos homens doutra década. Observai, também, os russos. Até que ponto pode sua retardada mentalidade ser efeito das infindáveis epidemias que começaram na Ásia Central e avançaram ao oeste? Observai o curso da influenza, a maneira de exemplo. O surto de 1918, em qualquer parte da Sibéria, que finalmente ceifou a vida de 18 milhões de pessoas em todo o mundo e enfraqueceu o corpo e a mente de cerca de 60 milhões mais, era, ouso dizer, um dos 50 mil que se abateram sobre a raça desde o começo do mundo. Quem pôde viver, sob tais horrores? Certamente, os indivíduos dotados de certa rijeza de corpo, senão de mente. Esta rijeza trazia, também, a estupidez? Este problema deve ser resolvido mais tarde.

Drogas

O homem é o único animal que deliberadamente se faz estúpido comendo e bebendo narcótico. Essa horrível perversão duplicou, de acordo com os cálculos mais cautelosos, o total de estupidez no mundo e custou à raça humana, em dólares e centavos, soma muito maior que o valor de todas as casas, de todas as lojas, de todas as fábricas e de todos os edifícios públicos do mundo. Em desatinos, atos de crueldade, megalomanias e coisas semelhantes, o preço que pagamos por esse abuso excede e escapa a todas as estatísticas. Observai, em primeiro lugar, os grupos de estupefacientes, como ópio, cocaína, heroína e morfina. Pois, pra cada grama desses produtos que os médicos receitam aos doentes, homens estúpidos devoram, inalam ou injetam nove gramas, sem outro fim que o de se fazerem ainda mais estúpidos e gozarem os prazeres perversos do estupor. E, entre todos os povos, nós, os ianques, nos envenenamos mais. Lede o relatório especial de 1919 do departamento de tesouro de Eua, sobre o narcotráfico. O consumo de ópio está assim discriminado:

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País

grão (50mg) percápita anual

Áustria

1/2 a 3/5

Itália

1

Alemanha

2

Portugal

2,5

França

3

Holanda

3,5

Eua

36

Assim, pra cada grão consumido por um austríaco consumimos 72 grãos! Vos lembrai de que essa é apenas a quantidade que aparece em vários documentos. O volume de contrabando é desconhecido mas todos os peritos concordam em que excede muito o do comércio legalizado. O conselho de ópio da Liga das Nações reuniu, há poucos anos, os melhores cálculos de diversos investigadores de todo o mundo e notou que esses cálculos convergiam, quase unanimemente, à cifra de 8.600 toneladas por ano. Ora, 1 tonelada de ópio é uma quantidade considerável de estupor. Se déssemos a todos os homens, a todas as mulheres e a todas as crianças da terra uma dose de 450 miligramas anualmente, o mundo necessitaria apenas de 786 toneladas de ópio. O número de adeptos tem sido grandemente exagerado. É de duvidar que tenhamos mais de 200 mil Mas o número dos que se envenenam com longos intervalos, sem sucumbir inteiramente ao narcótico, deve ser enorme. Em meu próprio círculo de conhecimento conheço 20 ou mais, quase todas mulheres, que tomam uma dose de codeína ou outra droga semelhante sempre que sofrem uma perturbação ou têm uma dor de cabeça. (Os médicos clínicos informam, aliás, que as mulheres são muito mais atraídas às drogas que à estupefação mais suave do álcool). Talvez três ou quatro milhões de ianques usem bastante narcótico pra abaixar, de maneira considerável, o nível geral de sensibilidade. Nos voltemos ao álcool. Os ianques bebem cerca de 2.10 9 de galões de cerveja e duzentos milhões de galões de aguardente, todos os anos. A cidra e o vinho não são fáceis de computar, pois os fazendeiros e outros indivíduos do interior os produzem pra uso doméstico, haja ou não proibição. Mas, provavelmente, deveremos acrescentar ao menos outros cem milhões de galões ao mar de álcool em que nadam os ianques estúpidos. Temos, assim, um total de cerca de quatro galões percápita, anualmente, de licores espirituosos, pra todos os adultos e jovens, e cerca de 26,6 galões de cerveja pra cada um. Desse modo as coisas não mudaram muito desde os dias dos pioneiros, pois, então, de acordo com cálculos dos nativos da Califórnia, a metade de todo o ouro encontrado no estado passou às mãos dos baristas, antes mesmo de chegar a São Francisco. Mesmo que se trate duma anedota estatística, esses cálculos contêm, de qualquer maneira, mais verdade que ficção, como o podem testemunhar todos os estudiosos da história de Eua. Podemos converter toda essa prodigiosa absorção de narcótico em unidade de estupidez? De certo modo, sim. Calculando o poder das drogas, comecemos com o fato conhecido de que 1/4 de grão de morfina, tomado diariamente durante três ou quatro semanas, basta pra fixar o hábito, em muitos casos. Prum novato, cinco grãos de ópio mantêm o estupor durante 24 horas. Usando observações semelhantes quanto ao licor, chegamos a algo parecida com a seguinte tabela de potência:

1/2 grão de ópio, cocaína, etc., mantém o indivíduo profundamente estúpido durante uma hora. 1/2 "pint" (1/16 litro) de uísque, de gim ou doutra bebida igualmente espirituosa faz o mesmo. Um "pint" (1/8 litro) de vinho ou um quarto de cerveja fazem o mesmo.

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Às cifras oficiais de consumo de droga, acrescentai 50% ao contrabando e à fabricação clandestina. Dividis o consumo de narcóticos por 75 milhões de adultos e de quase-adultos da população. O que acontece? Cada ianque estaria sob a ação de narcóticos 108 horas por ano, sob a ação de licor espirituoso 64 horas e, sob a ação da cerveja e doutras bebidas menos ativas, 106 horas. Sob a ação de todas essas três formas de abuso, o ianque se mantém profundamente estúpido durante 278 horas de cada ano. Se pudéssemos calcular as tolices secundárias conseqüentes, estaríamos mais perto de todo o horror. Pois, numa hora de quase todos os dias de trabalho (exceto os domingos, os feriados e as férias de verão), este hipotético americano médio é tão estúpido que não pode pensar com clareza em coisa alguma nem pode fazer algo que exija até mesmo destreza ou ponderação inferiores. O que acontecerá se, nessa hora, for chamado a agir numa situação difícil? Lede nossa história, pra encontrar a resposta. Depois desse panorama não parece necessário falar do fumo. Fumando mais de 10 11 cigarros por ano, nós, adultos e adolescentes ianques, fumamos cerca de 1.333 desse doce veneno percápita, ou cerca de quatro cigarros por dia. Isso já é bastante significativo mas acrescentai o fato de que, juntando o fumo de cachimbo, charuto e rapé, consumimos cerca de 4,6kg de tabaco por ano. Pois essa quantidade certamente estupefaz muitas horas na vida de todos os fumantes. E, em verdade, é por isso os homens e as mulheres fumam: Suspiram a um relaxamento dos músculos depois de rude trabalho ou em conseqüência de atribulação. Quase todos perdem a agudeza da sensibilidade depois de cinco ou seis cigarros, após um charuto ou depois de fumar dois cachimbos. Mas ninguém, ao menos que eu saiba, se afunda num estado profundamente estúpido, mesmo depois de muitas horas de fumo. Ficamos nauseados muito antes de perder a cabeça. Estamos, pois, diante de unidades muito menores de estupidez. Talvez seis cigarros, um atrás do outro, dêem em resultado uma suave estupidez, digamos, o bastante pra fazer com que um homem se porte inconvenientemente numa situação delicada ou o bastante pra fazer com que uma moça pareça estúpida e sem interesse e, portanto, não desperte desejo. Admitamos, pra argumentar. Assim, cada americano, dos 75 milhões que chegaram à idade da discrição e do abuso, auto-induz cerca de 222 horas dessa meia-estupidez. Os charutos e os cachimbos acrescentarão 75 horas. Total: 297 horas. Temos ao todo cerca de uma hora, em cada dia de trabalho, prà branda estupidez, e outra hora pràs profundas tolices anteriormente mencionadas. Mesmo assim somos os mais sóbrios de todos os grandes povos, exceto, apenas, os japoneses. Toda a África está bêbeda depois de todo pôr-do-sol. Assim declaram Coudenhove e outros pesquisadores do continente negro. Dois terços da América do Sul jamais são completamente sóbrios, tal é o testemunho de dezenas de negociantes, diplomatas e cientistas de longa experiência na América latina, com quem discuti o assunto. A Rússia é um longo mar de vodca, do qual somente alguns poucos indivíduos superiores conseguem emergir. A França e a Itália oscilam entre o vinho do meio-dia e a aguardente da noite. Mesmo com a cerveja e o ale 54 quase diluídos em água, a Alemanha, Holanda e Grã-Bretanha têm a cabeça à roda, não completamente bêbedas mas cuma visão enevoada das coisas. Índias Ocidentais dorme um sono sem fim, provocado pelo rum. A China e a Índia modorram num falso nirvana de ópio, morfina e rum. Admira, pois, que esses 2.10 9 sejam na maioria doentes, aleijados, imbecis,

54 Ale - Cervejas de fermentação alta, especialmente populares na Grã-Bretanha e Irlanda, incluindo as mild (meio-amargas), bitter (amargas), pale ale (ale clara), porter (cerveja escura muito apreciada por estivadores) e stout (cerveja preta forte). Nota do digitalizador. Extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Cerveja#Ale

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ignorantes, depravados, supersticiosos ou empobrecidos pelas guerras, conspirações, fraudes? Admira, pois, que as boas almas desejem reformar os bêbedos e os adeptos das drogas? Não gostamos de pregar moral, em geral uma empresa estúpida, mas nada custa simpatizar com todos aqueles que tentam melhorar o mundo, mesmo quando acreditamos que o esforço está condenado a total fracasso. Os homens se intoxicam com ópio, fumo ou rum em virtude de suas personalidades inadequadas. Inadequadas a quê? Às vezes a seu próprio ego e ambição, exigências da vida amorosa, esforço e à irritação do trabalho, calor do verão, isolamento depressivo

dos campos de mineração, morte dum filho

Pode alguém fazer uma lista completa de

... todas as coisas a que um homem pode ficar inadequado? A tragédia é que os que são mais fortemente compelidos à intoxicação por motivos interiores são o oposto dos estúpidos. São hipersensíveis, ao menos em relação à situação que lhes faz recorrer a narcótico. Sentem as coisas de maneira aguda mas falta habilidade ou oportunidade prà construção duma vida equilibrada. Assim, anseiam esquecer, fugir, encontrar uma agradável decepção nalgum sonho desordenado. Das várias centenas de grandes bebedores que conheci, somente alguns poucos deixaram de revelar, muito cedo, os sinais familiares dum mortal mal-adaptado. Esse é, também, o veredito dos médicos clínicos. As raras e brilhantes exceções eram homens de imensa energia e de alta capacidade, que se atiravam ao trabalho com ardor e bebiam pra relaxar os músculos, esquecer a preocupação e dormir depressa.

Matador

Durante as centenas de milhares de anos quentes entre as idades glaciais os vales fluviais da Europa e da Ásia eram florestas onde elefantes e rinocerontes caminhavam, esmagando a vegetação. Sobre planícies infinitas, além desses rios, vagavam manadas de bisão, gamo e cavalo, como num pesadelo de caçador. Eram terríveis como a que, ainda na lembrança da última geração, se encaminhou à morte no deserto de Calaári, uma manada de dezenas de milhões de criaturas que se espraiaram sobre a África como uma praga de gafanhoto. E o que dizer do homem desse tempo? Ainda não aprendera a lavrar o solo, plantar a semente e esperar a colheita. Assim, vivia afastado da terra. E, se tornando onívoro, sobreviveu a muitas criaturas de gosto e de poder digestivo mais limitados. Tinha pouca ou nenhuma habilidade no fabrico de utensílio e arma. Assim, quando essas manadas o surpreenderam, devastando a terra, teve de agir, derrubando os animais desgarrados, muitos doentes ou velhos, e devorando a carne sangrenta no local da peleja. Nas secas terríveis, quando as manadas desapareceram buscando água distante, o homem teve de se tornar mais arrojado no ataque e mais rápido na perseguição à caça. Ao chegar o inverno o homem se abrigou nas cavernas e combateu os lobos da floresta, com pedradas, quando sobre ele saltavam. Se, no fim do inverno, o alimento escasseava, capturava e comia os forasteiros, e, caso não os houvesse a mão, devorava, relutantemente, os avós. Durante a velha idade da pedra, se tornou hábil em construir armadilha contra as pequenas criaturas. Vivia nas árvores e apanhava pássaro em vôo. Pescava. Na média idade da pedra se tornou um grande caçador, o mais terrível de todos os matadores. Pois estava, então, fabricando escudo, machado, agulha, lança, flecha. Um instrumental de morte. O tempo do medo passara. Doravante, em bandos bem armados, realizou sortidas contra os mamutes peludos e organizou festins bárbaros. Se lançou contra o bisão, sem temor. E, quando o alimento escasseava, voltava suas novas armas contra outros homens a quem disputava a posse dos bens. O desarmado perdia tudo, o matador vivia e engordava.

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Quando não havia outra coisa a fazer o matador praticava a arte de matar. Ensinava às crianças o manejo das armas. Em ocasião de festa exibia suas habilidades ante as multidões admiradas. Pouco depois de aprender a alimentar o estômago o matador aprendeu a alimentar seu ego. Não é demais supor que, com o advento da agricultura, o matador rapidamente aumentou a força e o prestígio. Pois, acima de tudo, a cultura do solo fez com que cem pessoas pudessem existir onde existira só uma. Os homens se estabeleceram onde o solo era mais rico e mais fácil de trabalhar. Surgiram as cidades. Dentro dalgumas gerações, certamente, os habitantes das boas terras tiveram de lutar contra os invejosos e os famintos das terras infecundas e estéreis. Os que nada tinham avançavam pra tomar. Os que tinham resistiam e combatiam os que não tinham. Quanto mais depressa as gentes proliferavam, tanto mais compacto se tornava o anel de adversário faminto em torno das planícies férteis. Portanto, as batalhas eram mais ferozes. Então chegamos a uma crise nos acontecimentos humanos. Os habitantes da aldeia, em geral, venciam sempre que os inimigos não eram em número esmagador, pois, pelo simples fato de viverem em comum, em contato pessoal uns com os outros, com hábitos fixos, se haviam tornado uma quadrilha, com chefes e cum estado-maior de quadrilheiros sempre pronto prà luta. Os adversários nômades não tinham organização nem propósito definido, exceto quanto à impaciência em se apoderarem do alimento acumulados pelos aldeões. Assim começou o vagaroso domínio da cidade sobre o campo, que ainda não está completo mas que, provavelmente, estará dentro dalguns séculos, certamente antes do ano 2.500. Foi a quadrilha que fundou a civilização e é o quadrilheiro quem ainda a mantém. E a natureza da tarefa o torna completamente insensível ao sangue e sofrimento. Como matador de animal, não necessita tendência delicada. Como matador de ser de sua própria espécie, deve ser frio e duro. Assim, durante o último meio milhão de anos, a seleção natural favoreceu os tipos humanos que se rejubilam com o assassínio ou que condescendem sem náusea. Falo, bem entendido, do rebanho. E os chefes? Devem ser tão brutais como seus quadrilheiros? A questão não é tão simples como os pacifistas gostariam. Al Capone (pra tomar o brilhante exemplo que as manchetes dos jornais conspiraram em fazer inevitável) certamente é dotado de capacidade mental muito acima da dos cidadãos comuns que compram cerveja de suas corporações e ainda mais acima da de seus salteadores, que varrem, a bala, as ruas de Chicago. O mesmo acontecia com muitos chefes de quadrilha de aldeia, desde o ano -10.000. De que maneira poderiam chefiar as quadrilhas se não excedessem ao quadrilheiro comum em força e habilidade? As experiências de laboratório apóiam o ponto de vista de que, embora nem todos os homens de físico e saúde superiores sejam altamente inteligentes, ainda assim os indivíduos altamente inteligentes são, como grupo, muito superiores aos sub- inteligentes sob esses aspectos, assim como em estatura. As pesquisas mais recentes convergem a essa conclusão. No que diz respeito a nosso argumento, não importa qual seja a causa nem qual o efeito: Talvez os chefes de quadrilha fossem aqueles que comeram os alimentos mais nutritivos, em lares que lhes ofereceram todas as vantagens em aprender as trapaças e exercer o próprio engenho ou, talvez, tenham sido exatamente o inverso. De qualquer maneira, os chefes sempre brilharam mais que seus instrumentos. Mas isso significa que desde o aparecimento das quadrilhas de aldeia os chefes multiplicaram e difundiram sua alta mentalidade através dos rebanhos? Se fosse assim, então, como alguns militaristas calorosamente argumentam, a guerra serve ao mais alto fim da natureza, o melhoramento de nossa espécie. De cada conflito surgem homens melhores. Uma bonita teoria, mas puro contra-senso.

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A guerra tende a destruir os inteligentes muito mais rapidamente que os estúpidos. Jamais alguém o demonstrou tão vigorosamente como David Starr Jordan, que devotou ao assunto muitos anos de sua longa e brilhante carreira. 55 Juntamente com H. E. Jordan, esse eminente biólogo investigou os efeitos da guerra civil sobre a população da Virgínia. Dois condados foram intensivamente analisados, ao passo que muitos outros foram estudados menos profundamente. Os resultados foram submetidos à apreciação de 55 veteranos da confederação, de caráter e de inteligência superior. Jordan os resume da seguinte maneira:

● 1 - Os homens importantes do sul faziam parte de companhias seletas e foram os primeiros a se alistar. ● 2 - A nata da população entrou na guerra desde o começo e 20 a 40% morreu antes do fim. ● 3 - A guerra mobilizou, principalmente, os fisicamente capazes, ficando os incapazes na retaguarda. ● 4 - Os conscritos, embora em muitos casos iguais aos voluntários, eram, em média, inferiores em qualidades físicas e morais, sendo piores soldados. ● 5 - Certo número de homens fugiu às colinas e a outros lugares, a fim de evitar a conscrição (os bushmen). Outros desertaram das fileiras, se juntando a eles. Sofriam muito vexame mas a perda de vida era menor. ● 6 - As companhias de voluntário, formadas desde o começo da guerra, perderam mais homens que as companhias de conscritos, entradas mais tarde em ação. ● 7 - O resultado foi que os homens de qualidade e de caráter superiores suportaram muito mais o peso da guerra e sofreram perdas maiores que os inferiores. Assim se produziu uma transformação no equilíbrio da sociedade, reduzindo a percentagem dos melhores tipos sem correspondente redução dos tipos menos desejáveis, uma situação que se projetou na geração seguinte, pois os inferiores viveram e proliferaram e os outros não. O mesmo acontece com todas as grandes guerras, exceto, talvez, as onde muitos soldados eram escravos. Os que mais combatem são os que menos sobrevivem. Os oficiais são destruídos duas vezes tão depressa quanto os soldados rasos, por motivos óbvios. E, também, por motivos óbvios, os oficiais tendem a ser superiores mentalmente. Assim, aqui, como alhures, os estúpidos vencem. Na primeira Guerra Mundial, os estúpidos venceram como nunca. Quando a História da estupidez humana for empreendida, muito depois deste prelúdio ser esquecido, um ou dois volumes serão devotados ao estudo da queda da inteligência nas nações em guerra. Embora não possamos antecipar a estatística podemos prever um gráfico bem triste. Será muito estranho se esse gráfico não demonstrar que a França de 1114 era ao menos 25% menos estúpida que a França de 1932, que a Rússia de 1914 era, talvez, 30% mais inteligente que a horda de Estálin, que a Inglaterra de 1914 era 50% mais astuta, mais sábia, mais aguda, mais alerta e, em geral, melhor que a triste multidão de mendigo e de preguiçoso que atualmente vive de esmola e de recordação do império. Os homens de 1914 nem na metade valiam os homens de outrora. Certamente o inglês de 1914 não era o inglês do tempo glorioso da rainha Elizabete ou, então, todos os documentos são falsos. Certamente o francês de 1914 era um triste reflexo do homem que expulsou de Versalhes os monarcas decadentes. A família dos desgraçados se torna ainda mais desgraçada depois de todas as grandes guerras. O império abre caminho a baixo. E, em tempo, volta ao começo, o homem da enxada, que, olhando as montanhas que limitam as férteis planícies, vê o ciclope conduzindo os carneiros ao aprisco.

55 Vide, especialmente, seus livros The blood of the nation, The human harvest, War and the breed e War's aftermath, que citamos aqui

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Espanha

O caminho sangrento, a baixo, do matador em parte alguma se pode ver tão vividamente como na Espanha. Ali ainda podemos ver o homem pré-histórico trabalhando o campo à maneira pré-histórica. Usa um pau pontudo, com ponta de ferro, pra lavrar o solo, e o instrumento mal arranha a superfície. E, entretanto, a agricultura é a maior e a mais importante indústria do país! Também a água é conseguida de maneira pré-histórica. Rodas de madeira, toscamente trabalhadas, com bilhas de barro amarradas às bordas, são movidas pelas mulheres ou por uma parelha de jumento. Quem, a não ser um homem da velha ou da média idade da pedra, poderia continuar nessa situação quando, em torno de si, outros povos fazem tais coisas de modo novo e melhor? A Espanha não foi separada do mundo, durante séculos, como a China e o Japão. Seu povo teve liberdade de ir e vir e dezenas de milhares de estrangeiros a visitaram, tanto a negócio como a prazer. Seus bascos e catalães são grandes trabalhadores, possuindo os bascos, em especial, grande senso comercial. Entretanto, o espanhol não se modifica, exceto sob a pressão das classes dirigentes, que são muito mais francesas e inglesas que espanholas. Não deveremos observar que todos os períodos de prosperidade da Espanha, e foram muitos, foram quando alguma raça não-espanhola governou, com mão firme, o país? A primeira e a mais feliz dessas ocasiões ocorreu no primeiro e no segundo séculos do calendário cristão. Foi então que os romanos se encarregaram das minas e as exploraram pràs legiões de César. Muitos grandes administradores foram de Roma à Espanha nesses dias e ali nasceram Trajano e Adriano, embora não de família nativa, acrescentemos. Então, morava no país três ou quatro vezes mais gente que hoje. E todos viviam muito melhor que os modernos. Depois, houve o longo meio milênio de cultura árabe, que, sob certos aspectos, ultrapassou a romana. Quando os árabes foram expulsos por combatentes e fanáticos brutais, a Espanha afundou novamente em seu estado natural de ignorância, superstição e pobreza. Recentemente os ingleses têm conseguido o controle econômico do país e, em tempo, desenvolverão nova prosperidade, talvez depois de duas ou três gerações. Não tendo conhecimento profundo dos espanhóis, acho muito fácil aceitar a opinião comum de que o espanhol é incompreensível às pessoas de origem norte-européia. Felizmente, porém, podemos encontrar nele os traços da estupidez sem pretender a completa compreensão de toda sua personalidade. Como a cor dos olhos e do cabelo, um ato estúpido pode ser facilmente identificado, mesmo que pouco saibamos do indivíduo. Assim, aproveitarei a oportunidade de caracterizar, em parte mas não no todo, o híbrido moderno de muitos troncos humanos primitivos, que os recenseadores hoje chamam espanhol. As falhas na descrição representam pura ignorância de minha parte. Mas, como somente alguns leitores poderão preencher as lacunas elas não me incomodam muito. Pois a psicologia do espanhol é considerada um enigma, mesmo aos que conhecem bem a Espanha. O espanhol é o mais puro espécime de homem superior da Idade de Pedra que sobrevive em toda a Europa, assim como os habitantes rurais da costa ocidental da Irlanda são os mais perfeitos tipos inferiores. A chave da compreensão da Espanha deve ser encontrada no fato de que seu povo ainda não reconheceu a importância da vida em grupo, em cidade e do trabalho. Todos os observadores notam a indolência do espanhol, arrogância, sentimento de casta. Mas o que indicam todos esses traços, como grupo? Em que consiste sua integração? Eis um sério problema. Sob certos aspectos, Keyserling se aproximou muito da solução, como, aliás, sob

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muitos outros aspectos, afunda no mais triste raciocínio teutônico. 56 Keyserling declarou:

O espanhol é solitário e isolado, como Dom Quixote: Como se estivesse no

deserto ...

Sabe que deve viver e que, em última análise, ninguém o pode

ajudar. Daí seu culto à varonilidade, ao ânimo viril e, na forma extrema, a

paixão ao domínio sobre os homens (sobre os homens, não sobre as mulheres,

não sobre as coisas!)

Como um homem que depende apenas de si, o

Assim, lhe é difícil aceitar o conceito de

... espanhol não dá nem pede piedade

... justiça no sentido ocidental. Somente o auto-auxílio lhe parece sensato e digno ... A coragem pessoal é tudo. Pra tal mentalidade a justiça abstrata pode se tornar compreensível somente quando surge como a expressão da idéia da Inquisição. Nesse caso, são precisamente as paixões pessoais da vontade de viver e da vontade de poder, que vêm em primeiro lugar. Jamais algo foi tão popular na Espanha como a Inquisição. Todo movimento no sentido da justiça inevitavelmente termina, na Espanha, como uma Inquisição. Keyserling, mais adiante, acrescenta: Na Espanha o tom básico primitivo da vida terrena soa em perfeita ingenuidade, condicionando a vida a um grau não mais conhecido noutra parte do mundo. Eis uma concepção profunda, embora não seja original de Keyserling, pois concorda com muitas impressões e estudos anteriores. O espanhol não tem capacidade pro pensamento abstrato. Nisso está no pólo da humanidade oposto ao ocupado pelos antigos atenienses e pelos modernos alemães. Não pensa em si como espírito mas como carne. Todos seus processos psíquicos se focam sobre a existência individual, seja de que espécie for. Enquanto a Europa Ocidental e a América se esforçavam a um duplo objetivo: O domínio completo do ambiente físico e a organização dos indivíduos em sistemas sociais pro controle e o gozo desse ambiente o espanhol se manteve arraigado no mesmo lugar em que viveu seu vigoroso ancestral da velha idade da pedra. Mais penetrante que Keyserling, Salvador de Madariaga descreve um dos mais profundos característicos de sua própria raça, quando diz, do espanhol: 57

Vimos que não participa das coisas na metade, que está, sempre inteiro onde estiver. É, portanto, natural que não tome partido nas coisas, a menos que as considere de valor. Essa observação faz nova luz sobre a habitual indiferença do homem passional. A indiferença é apenas aparente. No fundo a vida circula em seu ser, e é esse senso da corrente da vida, sempre presente em sua pessoa, que constitui, como vimos, o característico essencial de sua psicologia. Enquanto o desejo do inglês é agir e o do francês compreender, o desejo do espanhol é viver e se deixar viver.

O espanhol, portanto, vive, como esta brilhante análise o diz noutro ponto, num estado de imprevisão. Segue apenas os impulsos interiores, que jamais, a não ser acidentalmente, são focalizados sobre coisas, sobre o poder, sobre a glória ou sobre outros indivíduos. Hoje, pode dormitar, durante horas, à sombra; amanhã, pode se entregar, completamente, aos prazeres do vinho e, depois de amanhã, pode ler a história do Alhambra até queimar as pestanas. Não há um padrão visível e exterior. Integral e subjetivo no largo sentido biológico desses dois termos, permanece sozinho, vive sozinho, exulta sozinho, combate e morre sozinho. Nenhuma outra criatura tem algo a ver com sua marcha. A vida é um drama em que o espanhol é o empresário, o ator, a orquestra e o espectador.

56 Vide Europa, páginas 75-94 57 Englishmen, frenchmen, spaniards, 1928, página 45

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Mas isso é animal. É o livre fluxo dum organismo que ainda não chegou a diferenciar os apetites e os interesses, de modo que se oriente numa direção individual. É o homem de antes das idades glaciais: É o homem da era dos ciclopes, simples como o sol- nascente ou como o vento do oeste. Nele não há o ego inferior dos italianos, nenhuma esperteza felina dos gregos, nenhum fanatismo, devaneio, banditismo e outras falhas na ação e no intelecto que demonstram os franceses, os ingleses, os alemães e os russos. O defeito mais terrível do espanhol é o do homem primitivo em geral, a falta completa do senso vital do tempo. Desligado de todos os interesses, como os que dizem respeito à riqueza, ao comércio, a indústria e ao progresso material, fica soberba mas fatalmente indiferente ao amanhã. E, quando diz mañana, 58 muitas vezes quer dizer nunca. É, como diz Madariaga, um aventureiro vagabundo. A raça, como diz ainda, penetrantemente, Madariaga, é hostil à técnica, pois a técnica liga os homens às coisas. Doutras maneiras, também, os espanhóis de mais pura origem revelam o animal primitivo. Odeia os detalhes, a organização, o planejamento e todas as formas de cooperação pra fim prático. Quando lhe acontece pensar, não pode analisar nem inventar, sempre contempla e intui. Esteta e sonhador, sim, mas nunca pensador lógico e criador. Madariaga declara que o espanhol pensa enquanto fala: Improvisa de intuição a intuição. Não pode pensar de acordo cum plano, nem por previdência. Pra mim isso significa que o espanhol pensa somente como respira: É uma fase do ato geral de viver e não uma função dissociada e hipertrofiada. Em contraste com os povos da Europa e da América, pois, o espanhol tem mais saúde e mais equilíbrio e é mais natural no sentido de preservar, de usar e de unificar todos os dotes primordiais do homem. Não é um mecânico, engenheiro, mestre-escola. Não é isso, não é aquilo, nada mais é além dum indivíduo completo, vivendo uma vida concreta, de maneira concreta. Assim vivem os leões e os cães comuns, embora alguns cães de raça tenham perturbações nervosas, como o homem ocidental. E assim vivem os tires, embora, na opinião de alguns peritos, esses gatos enormes muitas vezes sejam atacados de insânia. Um homem completo, pois, mas de baixo nível! Nós, ocidentais, o devemos invejar, pois o espanhol é uma criatura mais sã que nós quanto à integridade física. Mas poucos o admiramos quanto ao nível mental, pois está num plano entre nós e os ciclopes. A despeito de nós mesmos, perseguimos outros fins e vemos as coisas da perspectiva de nossa estranha linha de marcha. As tendências que faltam à natureza espanhola são, pra nós, as mais importantes. Mesmo que essas tendências nos massacrem (como parece que o fazem), nos agarramos a elas. Como grupo, os impelem a diante, ao domínio da natureza e à conquista de nós mesmos. Pra dominar a natureza o homem deve desenvolver uma habilidade e poder imensos no manejo dos objetos, desde a asa duma borboleta até um couraçado. E isso só lhe parece possível por meio da análise das relações de espaço-tempo e do que essas relações envolvem e implicam. Numa palavra, lógica, matemática, física, química e engenharia. Mas todas essas capacidades faltam ao espanhol. Jamais se excitou com a perspectiva de subjugar as forças da terra, do ar, do fogo e da água. Por quê? Porque jamais teve a possibilidade dessa façanha diante dos olhos? Nem tanto! Sempre e sempre, não-espanhóis lho provaram mas essa prova jamais atingiu o centro de seu ser. Por mais de 1.200 anos outras raças, diante de seus olhos, progrediram em sua própria terra, conquistando o solo e as camadas minerais subterrâneas. Primeiro vieram os romanos e, depois, muito depois, os árabes, procedentes da África, que

58 Mañana - Amanhã. Nota do digitalizador.

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estava, então, se ressecando e forçava os habitantes a procurar a vida noutra parte. E a lição que deram aos espanhóis vale a pena ser esboçada aqui. Esses invasores mouros eram astutos negociantes, nada fanáticos. Desejavam a prosperidade, sem se incomodar com a conversão do povo subjugado à verdadeira fé. Os camponeses e os judeus, tendo sofrido longas perseguições e extorsões sob o domínio espanhol, saudaram a chegada dos árabes e encontraram uma vida mais fácil sob seu domínio, pois tudo o que deviam fazer era dar, honestamente, seu dia ao trabalho e pagar o imposto percápita. Em troca, tinham paz pra gozar os frutos dum dos mais excelentes sistemas agrícolas já surgidos no mundo. Esses árabes trouxeram uma rara perícia em cultivar e irrigar o solo. Cobriram as colinas de Granada com pomar de laranja, figo e romã. Plantaram milhares de amoreiras e criaram uma indústria da seda de grande magnitude. Todas as casas de camponeses eram cobertas de parreira. Os carneiros pasciam nas planícies. A grande planície de Xenil, de cerca de 148km de circunferência, foi metamorfoseada num vasto e irrigado jardim. O açúcar foi produzido em quantidade imensa, muito além da necessidade nacional, de modo que foi possível um proveitoso comércio exterior. Mais ou menos no fim do século 10 todos esses melhoramentos de engenharia e de lavoura científica sustentavam imensa população. Em Córdoba um recenseamento demonstrou que havia 200 mil casas, de modo que não é demais inferir que se tratava duma cidade de cerca de um milhão de habitantes! Os espanhóis observaram e invejaram tudo isso durante muitas gerações. Essa alta prosperidade deve ter sido visível e famosa durante 700 anos, do século 8 ao século 15. Mas houve algum espanhol que aprendesse a lição? Houve alguém que imitasse a agricultura dos muçulmanos? Longe disso. Nem era essa a maior condenação dos celtiberos. Mal o derradeiro muçulmano fora dominado, depois da rendição de Granada em 1492, e já os vitoriosos espanhóis deixavam que a terra afundasse no desleixo, negligência e ruína eventual. A Espanha se tornou, em grande parte, um deserto, que ainda é, um lugar tão horrível quanto os chapadões da Ásia Central. As estradas se transformaram em veredas tortuosas e as veredas em simples picadas no meio do mato. As cidades, antes prósperas, entraram em decadência e ruína. A faixa de terra entre Toledo e Madri, antes rica e densamente povoada, se tornou uma desolação, com três ou quatro aldeias da idade da pedra. Os aurignacianos regressavam. E ali ainda estão. Teriam os muçulmanos esgotado a fertilidade do solo? De modo nenhum, como o provam os recentes estudos do solo. Os espanhóis nada fizeram pra continuar a obra do odiado infiel. O espanhol ainda deve importar açúcar, embora o infiel tenha produzido mais que o suficiente pra si e pra ele, há muitos anos! Não pôde explorar suas próprias minas: Os ingleses o vieram fazer em seu lugar. Em verdade, a prosperidade da Espanha moderna é, na maior parte, obra de estrangeiros. Muitas de suas áreas mais férteis ainda estão inexploradas. (Muito do que o governo classifica de área produtiva não está sendo cultivado). Um engenheiro espanhol ou um negociante espanhol é contradição. Seria o mesmo que falar dum matemático aurignaciano. Os ingleses financiaram e construírem as ferrovias. Os ianques os telefones. Os bons hotéis são de propriedade de estrangeiros e os maus são dos nativos. A mesma insensibilidade à matemática e à direção do negócio aparece, de maneira mais sombria, na antiga atitude espanhola em relação ao trabalho e ao dinheiro. É notório que o espanhol moderno difere um pouco, se difere, do antigo, na firme convicção de que a única maneira certa de se tornar rico é saquear ou encontrar um tesouro. O espanhol sempre foi um salteador de estrada, um assassino, saqueador de povos fracos. Sempre se interessou por loteria e busca a ouro enterrado. Não pode criar riqueza. Pode apenas se apoderar, onde quer que possam ser encontradas e tomadas, por

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sorte, se possível, e, se não por sorte, por violência. Não pode inventar instrumento, máquina nem método de conduta, pra si ou outros, que possam melhorar seu quinhão. Não tem senso de progresso, como o concebemos no norte. Recusa se modificar, provavelmente pela melhor razão do mundo: Não pode! O espanhol genuíno e autóctone nada mostrou, de valor, em todos os séculos estudados pelos historiadores. Não produziu filósofo construtivo. Caldeirão? Tentou uma grande filosofia em La vida es sueño (A vida é sonho) mas tratou idéias magníficas de modo inconsistente e indistinto. No drama, onde suas realizações foram superiores, perdeu tempo em ornamentar e embelezar. E, ademais, era filho de flamenga, não sendo, portanto, espanhol puro. A Espanha jamais produziu um cientista de segunda classe. Não até que Cierva recentemente surgisse com seu extraordinário autogiro, um engenheiro cujas realizações lhe granjeassem honrosa nomeada noutra nação ocidental. Nenhum gênio em medicina ou em cirurgia. Nenhum semi-gênio em qualquer das ciências sociais. Nenhum grande agricultor. Nenhum grande colonizador, embora a Espanha, outrora, tivesse mais colônia que qualquer outra nação. Nenhum grande navegador ou construtor de navio. Nenhum espanhol produziu uma peça de grande música, pois a grande música tem, como ingrediente, certa fantasia matemática. Suas relações, séries, subordinações de classe e desenho total possuem uma estrutura além do poder de imaginação de um aurignaciano. Por outro lado, poucos povos podem exceder o espanhol na música primitiva de canção e de dança. Ali suas criações são celestiais, pois fundem, de modo elementar, a inclinação do corpo, a batida do pé, e balanço da cabeça e o grito lírico que vem da carne excitada. Não tão primitiva quanto o lamento espontâneo do negro, essa música pertence ainda ao mesmo estrato pré-histórico da psique. Quando falo da falta de capacidade criadora em assuntos que exigem capacidade matemática e lógicas, não me refiro a escritores como Cervantes, a pintores como Velásquez nem aos atuais escritores e artistas. No campo da análise, seja dos fatos naturais ou das puras relações matemáticas nos tipos superiores de gênio criador, jamais houve um espanhol. Ou, se houve, é muito obscuro, até mesmo pra ser um tanto conhecido. E, mesmo que fosse citado, seria importante investigar a ancestralidade. Com toda probabilidade, não seria um espanhol puro. Nos últimos anos, quais foram as duas maiores realizações da Espanha? A resposta é fácil: Dom Quixote e a Inquisição. Dom Quixote é o fiel auto-retrato do espanhol como gostaria de ser. A Inquisição é o fiel auto-retrato do espanhol como realmente é. Tendo desenhado esses dois retratos de si mesmo, seu gênio se deteve, completamente exausto.

Idade

Observamos que o homem de antigamente morria jovem. Durante o meio milhão, ou mais, de anos antes de começar a agricultura as tribos errantes encontravam dura dificuldade pra conseguir alimento e abrigo. Os doentes, aleijados e idosos ficavam no caminho. Os jovens e os vigorosos iam adiante. Encontraram alimento mas pagaram alto preço por isso, na perda de sabedoria que ficava no caminho, com a morte dos mais velhos. A mente infantil governou o mundo através desse vasto intervalo de anos, e essa é uma das causas principais da ausência de progresso no homem de antes da enxada. Pois o progresso vem somente através da sabedoria, inteligência e habilidade acumuladas em muitas gerações, preservadas, a princípio, nas lembranças, depois nos memoriais, que passam, intactos, dos velhos aos moços. A agricultura tornou isso possível, pois significa alimento certo, em dado lugar. Nesse lugar os homens se estabeleceram, construíram casa, trabalharam instrumento e transformaram as tradições em pedra e barro. Em contraste com a dureza dos dias

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nômades a vida se tornou fácil e leve. Se um homem envelhecia, ainda podia fazer cerâmica no jardim, apascentar o rebanho, se sentar junto ao fogo nas noites frias. Seus filhos e filhas já não o abandonavam na estrada pra perecer miseravelmente, nem o

comiam. E o velho pôde viver

Isso foi há cerca de 15 mil anos, ou mais. Hoje, que

... cena diferente! O mundo é governado pelos velhos e por suas velhas noções, ao passo que os jovens trabalham pra pagar o preço desse luxo dúbio. Em verdade os velhos contribuíram muito pro nascimento das culturas e somente um louco negaria o valor de seu serviço. Mas, juntamente com sua capacidade peculiar, trouxeram incapacidade cuja magnitude começamos a medir. São estas que nos interessam, pois estão na base das tolices dos senis e pré-senis. O quadro não é belo e fere nossos sentimentos mais delicados mas deve ser desenhado. O homem começa a perder o poder de pensamento claro e de ação construtiva muito mais cedo do que, em geral, se supõe. E os perde completamente muito mais tarde que se imagina. Noutras palavras, o período de declínio é longo, e o declínio é tão suave, em geral, que os observadores deixam de notar e de se prevenir contra ele, até que algum desastre suceda. Aos 35 anos o cérebro começa a definhar. Em média perde cerca de 100 gramas antes dos 65. O fluido espinhal aumenta consideravelmente. As atividades endocrínicas, todas decaindo, em geral suavemente, às vezes nos 45. As funções sexuais se debilitam primeiro, e mais depressa. Entre os órgãos dos sentidos, o do gosto morre primeiro. Grandes áreas da língua e das paredes da boca perdem completamente a sensibilidade. O ouvido começa a falhar pouco depois dos 30 e tende a declinar progressivamente, mais devagar. À proporção que a pele se resseca e enrijece, perde a delicada

receptividade, e, como se sabe, a pele em geral começa a se tornar um couro desde os

40.

O desaparecimento das percepções foi recentemente estudado, dum novo ponto de vista, por W. R. Miles e Bronson Price, da universidade de Estanforde. Esses psicólogos realizaram experiências com 720 indivíduos cujas idades variavam entre 17 e 92 anos e notaram que a capacidade de perceber os objetos começa a declinar aos 17 anos. O

primeiro declínio é muito vagaroso e muito longo e continua, quase imperceptivelmente, até os 62 anos, mais ou menos. Depois, a queda é rápida. Nos 50 um homem percebe as coisas em torno de si tão bem como quando tinha 14 anos. Nos

  • 80 não o faz melhor que uma criança de 6 anos. Não se trata apenas de visão, mas de notar e de identificar as coisas, como tais, no

ambiente. É a espécie de percepção que ocorre quando entrais num quarto, olhais rapidamente em torno, saís e depois dizeis a alguém o que ali notastes. Essa percepção mede, de maneira importante, a rapidez e a exatidão com que apreendeis uma nova situação. Essa capacidade, como se sabe, é um requisito essencial pra dirigir um negócio ou governar um estado, como é a chave do êxito em operações de alta rapidez, como uma guerra. Mas quem dirige os grandes negócios, os governos e as guerras? Como o demonstraremos mais completamente dentro em breve, homens já além dos 50, em geral entre 55 e 70. A idade, em média, em que uma pessoa é registrada nas páginas do Who's who in America 59 é de 55, de modo que não é irracional admitir que os líderes devem ser um tanto mais velhos, pois um homem se torna proeminente, em seu campo de ação, antes de que lhe chegue às cumeadas. Se chamarmos os líderes de homens de

  • 56 a 65, nosso erro será, certamente, trivial. De acordo com esse cálculo, pois, os líderes

ianques provavelmente percebem as coisas (e apreendem situações estranhas) não

  • 59 Quem é quem na América, sua publicação principal, é uma marca registrada de News Communications, Inc. O New York Times se referiu à 60ª edição de Quem é quem na América como a Vanity fair (Feira de vaidade, revista ianque contemporânea sobre cultura, moda e política) do bibliotecário. Nota do digitalizador.

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melhor que uma criança de 10 ou 12 anos. Em verdade, refletirão sobre o que perceberam de maneira superior mas os resultados da reflexão serão limitados pelo que viram e ouviram. A memória se enfraquece muito vagarosamente na idade mediana, e depois um pouco mais depressa. Nos 60 anos, em geral já funciona muito mal, especialmente quanto a nomes próprios e a acontecimentos recentes. O que se aprendeu nos primeiros anos da vida permanece mais tempo. Eis por que, à proporção que as pessoas envelhecem, naturalmente vivem cada vez mais no passado. O presente vale pouco, e as pessoas muito velhas se tornam criança. O nível de energia declina numa curva inconstante, em geral começando pouco antes dos 40. A queda a princípio é muito ligeira, depois, às vezes entre 40 e 50, ocorre um grande mergulho. E, em seguida a um período de depressão, Nos 60 um segundo salto a baixo. Na idade mediana o excesso de energia foi consumido. Doravante tudo o que o homem pode conseguir deve ser usado pra manter as funções do corpo. Assim a vida se torna, em novo e trágico sentido, uma luta amarga pela existência. E o homem centraliza pensamento e esforço cada vez mais sobre si mesmo. O ego preenche um segmento maior do horizonte mental. Eis um quadro da estupidez progressiva, mascarada, especialmente nos homens superiores, por um crescente interesse em simples idéias, palavras, frases, abstrações, teorias e outras funções da linguagem. Por quê? Porque requerem menos energia. São substitutivos à complexa e obstinada realidade do negócio, da política, da sociedade. Todos os grandes sistemas filosóficos são produto de espíritos de idade mediana. O mesmo acontece com muitas das ficções da diplomacia e do estado, com muitas plataformas políticas em que se professam ideais nacionais, com muitas discussões morais. Embora o homem de meia-idade e o senil não o compreendam, todas essas tendências resultam do desejo do mínimo esforço e duma regressão das realidades imediatas. Enquanto o mundo goza uma fácil prosperidade, os homens idosos nos incomodam pouco. Mas que devastação causam quando profundas transformações exigem novos pontos de vista e novos programas de ação no negócio, política, diplomacia e indústria! Dois exemplos colossais e desanimadores dessa tragédia social tão freqüente estão ainda na memória de todos os leitores: O maior foi a primeira guerra mundial e o menor a recente depressão econômica. Que volume poderia ser escrito sobre o preço da estupidez senil nesses dois grandes acontecimentos! Virtualmente, todos os poderosos líderes da Europa em 1914 já haviam passado a flor da idade. E não poucos estavam prestes a chegar à incipiente demência senil. No verão em que arrebentou a guerra mundial os seguintes estadistas, generais e simples políticos tinham as seguintes idades:

Clemenceau 73 Hindenburg 66 Moltke 65 Kitchener 64 Foch, 63 Joffre 62 Sukhomlinoff 62 Asquith 62 Wilson 58

Poucos homens de importância, na direção política ou militar da guerra, estavam nos 40 anos. As duas brilhantes exceções foram Ludendorff, que tinha 49, e Winston

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Churchill, que chegava justamente aos 40. Eis uma das 999 razões por que tudo, no mundo, foi tão mal remendado por essa guerra de anciãos. Dessa curta lista o mais velho era, por todos os títulos, o mais grave insulto à humanidade em geral. O velho Tigre sobreviveu a seu nome e reputação, como revelam os historiadores honestos. Ofegante animal selvagem, governou pela força bruta, astúcia felina e essa estupidez do campônio francês que, em Clemenceau, era elevada à enésima potência. Sua mente parara de se desenvolver perto de uma geração antes da guerra, e nunca fora, aliás, grande coisa. Mas, o que lhe faltava em qualidade, sobrava em energia física. Pagou a Europa um preço absurdo por esse homem: Milhões de corpos, bilhões em dinheiro. E o que realizou? Salvou uma astuta plutocracia e uma estúpida coletividade agrícola que se dão o nome de França. Kitchener e Joffre eram velhos imbecis e nada mais, salvo na juventude, quando eram jovens imbecis. Certos observadores ingleses afirmam, seriamente, que Kitchener foi o homem mais estúpido que já se tornou famoso e é difícil refutar essa afirmação. Ante sua memória os jumentos saúdam. Os maiores historiadores da guerra, tanto ingleses como doutras nações, concordam, essencialmente, no veredito de que quase todos os atos de Kitchener eram nimbados 60 de estupidez, em parte nativa, em parte adquirida na burocracia que tanto tempo ornou e, em parte, pré-senil. É essa a última fase que nos interessa no momento. O homem perdera todo contato com a vida: Vivia numa era morta quando os alemães invadiram a Bélgica. Quando Kitchener assumiu o ministério da guerra, em agosto de 1914, seu biógrafo,

visconde Reginald Esher, tentou ser caridoso com o ancião. Mas lorde Kitchener já não era mais o K. of K. do Sudão e da África do Sul e estava ciente desse trágico

fato ...

Estava mal-informado. Não conhecia a organização do exército, os

métodos de controle parlamentar nem o que essas coisas significavam prà administração pública. Não teve êxito nessa nova esfera e perdeu a confiança

em si mesmo. Essa falta compensou cuma obstinação senil. Talvez não haja ilustração mais perfeita da estupidez da idade mediana que o estupendo desatino de lorde Kitchener, ordenando o uso da espécie errada de granada prà guerra de trincheira, durante a Guerra Mundial. Vivendo das recordações da guerra dos bôeres, em 1900, Kitchener insistiu em usar shrapnel, 61 que todos consideravam inútil prà guerra moderna. Foi repetidamente advertido de sua futilidade e da necessidade de granadas altamente explosivas, que abrissem caminho através das trincheiras inimigas. Kitchener insistiu nas armas antiquadas, que mal danificavam as fortificações alemãs. Numa série de batalha, em 1915, os alemães ceifaram milhares de ingleses, perdendo apenas, graças a suas armas modernas, cerca de 200 homens. Onde poderemos encontrar espécime mais ilustrativo de pensamento pré-senil que a famosa (e, graças-a-deus!, fútil) luta de Woodrow Wilson, em Versalhes, pra inserir no acordo da Liga das Nações uma cláusula proclamando a igualdade de todas as religiões?

De acordo com doutor E. J. Dillon, 62 Wilson declarou que como o tratamento dispensado às confissões religiosas no passado, e poderia ser no futuro, causa de guerras sanguinárias, parecia de desejar que fosse introduzida uma cláusula no acordo, estabelecendo a absoluta igualdade dos credos e das

60 Nimbar - vt Ornar cum nimbo. Aureolar 61 Henry Shrapnel (03.06.1761 13.03.1842) Oficial do exército britânico e célebre inventor da bomba shrapnel (shrapnel shell). Nota do digitalizador.

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confissões.

Embora Wilson tivesse, durante muito tempo, ensinado a arte de governar, em Princetão, e tivesse escrito alguns livros passáveis sobre o assunto, aparentemente não sabia que tal proposta era estúpida, simplesmente porque teria requerido, antes de tudo, uma alteração na constituição britânica. Como lorde Robert Cecil notou, com habilidade, durante as discussões sobre a cláusula, essa constituição proíbe que um católico se faça rei ou se sente, como lorde chanceler, na câmara dos lordes. Nem o professor compreendeu a tremenda carga de dinamite política envolvida em seu piedoso desejo: Teria levantado velhas controvérsias na França, onde as relações entre os católicos e o estado foram constante motivo de inquietação. Daria aos flamengos ocasião pra novos motins na Bélgica. Na Itália, certamente, aconteceria coisa pior.

Como chegou Wilson e fazer, dessa questão religiosa, uma de suas questões principais? Somente a psicologia de sua idade e temperamento explica. Tinha 63 anos em Versalhes e sua energia, que nunca foi grande, declinara tanto que seus amigos viviam ansiosos. Tendo sido sempre um idealista verbal, sua retro-gradação se acelerou desde o momento em que foi compelido a enfrentar imensas e incalculáveis realidades. Não merece censura por isso: Seria o mesmo que condenar um octogenário por perder o último dente. Sem o impulso físico, intelectual e moral pra olhar os fatos de frente e combater os maus espíritos que infestavam Paris, disfarçados em estadistas e reformadores, Wilson se pôs a defender idéias amáveis. Se passaram séculos desde que as guerras religiosas devastaram o ocidente e, como todos os estudiosos dos acontecimentos modernos podem testemunhar, até mesmo as guerras religiosas dos tempos antigos eram, em grande parte, máscara pràs lutas econômicas. Somente entre os selvagens e as hordas bárbaras, como os árabes e os judeus do Oriente Próximo, os homens combatem por credo e, mesmo então, combatem mais por proventos materiais que pela alta causa do Céu. Os pensamentos de Wilson recuavam até as histórias escolares da juventude, provavelmente sob o estímulo de sionistas que se lhe agarravam como sanguessugas. Assim como Kitchener, já senil, insistia sobre o shrapnel e se negava a usar altos explosivos na guerra, Wilson rejeitou o realismo dum mundo completamente desiludido e insistiu sobre os altos explosivos do fanatismo religioso pros dias de paz. Wilson, nesse particular, não era, nem na metade, tão mau quanto centenas doutros políticos, banqueiros, industriais dantes, durante e depois da guerra mundial. Todos foram cruelmente expostos à luz dessa suprema estupidez, principalmente porque os levou a situações totalmente estranhas, que exigiam pensamento, ação e negociação rápidos e flexibilidade de atitude pra fazer face às fortunas da guerra. Quando prepararmos nossa definitiva história da estupidez, teremos dificuldade pra condensar, em menos de dez volumes, a tragicomédia dos patriotas de idade mediana e de idade avançada que, combinando a estupidez e enfraquecida personalidade, conseguiram devastar e empobrecer, durante um século, a Europa. Esses volumes deverão ser seguidos por um ou dois, que exibam o preto que a indústria e o comércio, em todo o mundo, pagaram pelo domínio dos presidentes pré- senis e dos gerentes senis. Se os fatos puderem ser publicados sem ofensa aos sensíveis, convencerão, mesmo os mais céticos, de que devemos controlar os ricos, poderosos e egoístas capitães da indústria, a fim de nos livrarmos dos desastres econômicos. O que se pode fazer? Nossa resposta será dada no fim deste prolegômeno, quando considerarmos os problemas de estado decorrentes da estupidez humana.

Nichevo

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A mente amadurece somente através do uso. Todo ato acrescenta algo à estrutura nervosa. Toda hora de inação detém a realização. Assim, devemos esperar que as pessoas que, através de qualquer concatenação de acontecimento de qualquer natureza, se excitam raramente, permaneçam estúpidas e grosseiras. Devem se parecer com crianças que crescem, sozinhas, em adegas escuras: Seus espíritos são simples rebentos brancos que se dirigem, a apalpadela, à luz, como os rebentos das batatas. Durante os últimos 10 mil anos, ou mais, esse foi o destino da Rússia. E, afirmo, ninguém pode compreender a Rússia do passado ou do presente, exceto começando do começo e observando a extraordinária insuficiência do estímulo no ambiente normal dessa terra maldita. Na cartilha da psicologia a Rússia representa a Ferrugem. Vejamos como. Quem fala dos russos da mesma forma por que falamos dos japoneses e dos suíços trai sua ignorância. A Rússia não é uma raça, nação, tradição, civilização nem clima. É apenas um lugar. E que lugar! Não é uma raça! Antes, um amontoado de raças, numa confusão de línguas e de costumes. Eslavos antigos, povos uralo-altaicos, mongóis, turcos, alemães, tártaros, turco-tártaros, turco-mongóis, eslavo-teuto-turco-mongóis e mil e uma outras misturas de sangue, pra não mencionar o punhado de déspotas escandinavo-teutônicos que, durante gerações, pilhou os camponeses e se deu ar de governo. E depois, naturalmente, os judeus e os maometanos. E, na Sibéria oriental, as vagarosas hordas de chineses que, durante anos, atravessaram a Manchúria e a Mongólia em direção ao país dos sovietes, em bandos de milhares e de dezenas de milhares. Como poderemos falar de todos esses povos ao mesmo tempo? É impossível, naturalmente. Entre eles devem estar todas as espécies e todas as condições de homens. A Rússia não é uma nação, o que é reconhecido por sua forma central de governo, que se chama União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Seus habitantes diferem, entre si, tão grandemente, que uma genuína unidade política não poderá ser conseguida dentro de muitos anos ainda. Isso, naturalmente, não implica que o regime soviético não possa prosperar. Indica, apenas, que, seja qual for o êxito que consiga e retenha, será nalguma outra base, provavelmente a dum benévolo despotismo, o mais amável de todos os governos, enquanto durar. Todo grupo racial tem sua cultura e tradição próprias, naturalmente. Sabeis que, durante todo um século, um dos mais puros distritos alemães no mundo esteve localizado ao longo do Volga? Catarina a Grande levou milhares de vigorosos camponeses luteranos, nos fins do século 18, cujos descendentes ainda ali estão. O mesmo acontece com muitos outros povos. Ninguém sabe quantos milhões de pessoas de origem alemã vivem na Rússia mas podemos estar certos de que a maioria do negócio e da indústria do país está em suas mãos. E devemos estar precavidos contra a inclusão de suas realizações entre os atos dos russos. Foram os alemães que, em primeira vez, combateram e venceram os gafanhotos, que eram uma praga na Rússia; que deram fim às cobras que infestavam horrivelmente a Rússia central; que, em primeira vez, socorreram as vítimas da fome e tomaram precaução a fim de proteger os nativos contra nova fome. Devemos abandonar nosso trabalho sobre a estupidez dos russos? Não. Podemos adotar uma política de definição cuja utilidade outros pesquisadores reconheceram. Podemos falar do russo como o rústico eslavo que lavra o solo e mora, principalmente, em aldeias desoladas, no rico solo negro da Rússia ocidental, central e meridional, assim como nas terras produtoras de cereal da Sibéria. Como um antropólogo certamente argumentaria, esse homem é a verdadeira alma da Rússia e as repúblicas soviéticas não conseguiram modificar seu tipo racial nem a mentalidade. Excede, em

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número, todos os outros povos. É etnicamente puro. É firme em seu comunismo, sem pensar nele como num sistema político. Nunca emigra individualmente e é a aldeia, como uma unidade, que pensa, que decide, que se movimenta. No terreno da agricultura, se mostra altamente adaptável: Se torna pescador, caçador, fruticultor, criador, jardineiro ou plantador de trigo com facilidade. Em suma, um completo homem da terra! O solo centraliza toda sua atenção, todo seu interesse. Também indica o domínio de suas tolices. Como constitui 80% de todos os russos, se vê que, de certa maneira, toda a carreira política da Rússia deve refletir sua capacidade e incapacidade. Antes de os considerar devemos notar alguns fatos sobre a Rússia pré-histórica, que nos ajudam a compreender esse eslavo. As marés da humanidade avançaram e recuaram muitas vezes sobre o que hoje chamamos Rússia. No fim da quarta idade glacial o clima era muito mais quente e mais agradável que agora e a chuva era mais favorável à vegetação rasteira e às florestas. A terra era um labirinto de lago. Os temíveis pântanos, que atualmente cobrem tantos milhares de milhas quadradas no norte, não existiam. Ao contrário, a terra era 30m ou 60m mais alta que o nível do mar, portanto bem drenada e, no clima mais quente, muito atrativa ao homem. Assim aconteceu que nossa espécie se multiplicou e prosperou ali, mais ou menos no ano -10.000, embora essa data seja altamente conjetural. Os restos do homem pré- histórico em torno desses velhos lagos revelam uma enorme população. Pode ter sido, mesmo, o centro da população do mundo durante muitos milhares de anos. Água fresca, semente e grão, animal! Mas, acima de tudo, muito espaço pro homem primitivo se mover sem incomodar os vizinhos! Ora, durante os últimos 10 mil anos uma desgraça se arrasta sobre a face dessa região. O sul está vagarosa mas constantemente, ressecando, enquanto o norte esfriando. O deserto parece ter agido sobre o homem mais depressa que o gelo do norte, mas ambos sobrecarregaram a Rússia. Olhai o mapa da Ásia e da Rússia Européia e vereis a mais longa faixa de deserto e de semi-deserto do mundo, partindo da Manchúria a oeste, através da colossal desolação de Gobi, depois através do Turquestão, terminando em terras semi-férteis da Ásia Menor. A sul e a leste dessa última região o deserto é muito pior e sua ruína se estendeu, nos milênios recentes, à Mesopotâmia, outrora próspera, e, muito antes, a praticamente toda a Arábia. Tudo isso é o resultado duma única transformação de clima causada por uma única série de modificações importantes no ar e na superfície, da terra. Se o frio do norte é o começo duma nova era glacial ali, ou apenas uma fase dessas longas flutuações de temperatura que dividem o período histórico em eras de altos e baixos, ninguém pode dizer. Mas nosso argumento pode passar sem essa informação, pois tudo o que desejo vos transmitir é que, em primeiro lugar, muitas das migrações da Ásia e do nordeste da Europa, durante os últimos cem séculos ou mais, foram causadas, principalmente, pela fome ou escassez de água, produzidas pelo frio crescente no norte e pela seca crescente no sul. E, em segundo lugar, que os atuais eslavos são um tipo superior de homem da idade da pedra, em comparação com os atuais espanhóis, italianos, gregos e noruegueses, mas se atrasaram 5 mil anos em relação aos melhores ocidentais de hoje, principalmente em resultado de seu triste isolamento e da extrema fixação mental e esforço sobre a agricultura de aldeia. Essa fixação é, sem dúvida, antes de tudo, resultado do isolamento. O mujique da estepe nada vê além da lama abaixo dos pés. Vá aonde for, nada mais vê além de lama, lama e lama. Assim, como pode modificar a mente? Estamos, pois, com a chave da estupidez russa, que é profunda e penetrante, embora infinitamente menos sinistra que a estupidez do espanhol. Todos sabemos que a falta de estímulo torna os indivíduos estúpidos. O mecanismo desse fato já é bem conhecido. O

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sistema nervoso se desenvolve através do uso. Dentro de certos limites inferiores se desenvolverá sob ligeiros estímulos mas nunca atinge um nível superior sem considerável variedade e intensidade de experiência. E essa experiência deve surgir nos primeiros anos. A criança deve ver, ouvir, sentir e cheirar muitas coisas, escutar conversas sobre toda espécie de assunto, observar muitas espécies de pessoas e visitar lugares estranhos. Deve se dedicar a uma variedade de estudo e exercitar os músculos de muitas maneiras. Ora, aplicai esses lugares-comuns de psicologia à análise da carreira típica do filho dum mujique, numa aldeia perdida das terras negras, a cem milhas da cidade. Pensai, especialmente, em seus primeiros 20 invernos, que são pouco mais que uma série de hibernação. Em verdade, nalgumas partes da Sibéria os mujiques praticam o latka, ou sono invernal, de maneira surpreendentemente parecida à dos ursos. Toda a família fica na cama cerca de 22 horas em cada 24. Um imenso caldeirão de chá serve pra todo o inverno e, em torno, são colocados montes de pão preto, tudo ao alcance da mão dos que dormem. Durante um ou dois minutos por dia, cada membro da família acorda o bastante pra ingerir um pouco de chá e mastigar um pedaço de pão. E, depois, volta aos doces sonhos do Nirvana! Naturalmente, como não se trabalha, e como todos dormem, sobre o grande fogão horizontal, se perde pouca energia e, portanto, a necessidade de comer é mínima. Quando chega a primavera, todos estão bem descansados. Mas, e a mente? Afunda numa estúpida inatividade, e assim permanece. O mujique é o maior sonâmbulo do mundo. Nunca desperta completamente. Quando se esforça em pensar, mistura tudo, como um homem que mal acaba de acordar. Isso explica, em grande parte, senão no todo, as fraquezas mais graves, profunda falta de lógica e pobre capacidade de observação em assuntos que supostamente mereçam mais atenção. Manifestando um amor simples ao solo e uma tendência fundamental a o trabalhar, continua a ser um dos mais estúpidos agricultores do mundo. Não deve ser mencionado na mesma classe dos chineses. Eis uma porção de provas que poderiam ser completadas por milhares doutras. Não pode apoiar seu esforço de maneira justa, mesmo nas mais simples das atividades necessárias da fazenda. Não usa a enxada nem o sacho 63 nos momentos críticos. Quando os besouros assaltam a plantação, se senta estupidamente pra contemplar a obra ou chama o sacerdote pra benzer a terra. Mas talvez a mais terrível de todas suas tolices seja a de não ter descoberto o efeito do estrume sobre a plantação. O leitor ocidental terá dificuldade em acreditar mas se sabe que antes do regime soviético e de seu tremendo movimento educacional, milhares de camponeses da região do Volga sempre carreavam o estrume do estábulo, o atirando ao fundo do rio! E isso depois de 10 mil anos de agricultura! O estupor do mujique se evidencia melhor, talvez, na incrível tendência a ficar sentado o dia todo fazendo nada. Nas salas de espera das estações ferroviárias, nos bancos dos parques de aldeia, em casas e em lojas durante o inverno, o camponês pode sempre ser visto, imóvel durante horas, com olhar abstrato e distante. Às vezes, quando um pouco mais alerta, cai em devaneio ativo. E ninguém pode sonhar acordado tanto quanto ele. Com efeito, muitas coisas que considera fatos são apenas sonho. Outra forma desse estupor é a obstinação mental. Seja qual for a opinião que o mujique tenha aceito na infância, se fixa sobre ela e se torna insensível a qualquer sugestão que conduza a outro ponto de vista. Eis uma ilustrativa história verdadeira:

63 Sacho - sm Instrumento semelhante à enxada, que os jardineiros usam pra afofar a terra, etc. Nota do digitalizador.

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Um inteligente fazendeiro alemão, perto de Carcóvia, 64 cultivava um fértil trato de terra vizinho ao dum russo. Os gafanhotos se abateram, num dia de calor, sobre o trigo e o teria devastado completamente se o alemão não tivesse recorrido a um estratagema feliz. Amarrou uma corda fina a dois cavalos, fustigou os animais em direções opostas, de modo que a corda dobrasse as hastes de trigo, à proporção que os cavalos galopavam. Este estratagema afastou os gafanhotos. No princípio os insetos regressaram e continuaram o trabalho mas depois de serem desalojados várias vezes pela corda passaram, em massa, ao campo de trigo vizinho. O russo presenciara essa operação da maneira mais vazia possível. Ao perceber que os gafanhotos se dirigiam a seu campo, o que fez? Poderíeis pensar que tivesse atado uma corda a dois cavalos e expulsado as daninhas criaturas. Mas não! Correu até a aldeia, trouxe de lá o sacerdote e teve seu campo aspergido com água benta! Os gafanhotos continuaram e o mujique não teve grão de trigo nessa estação. Conto essa história simplesmente porque estabelece o tipo de mentalidade dessa raça naturalmente dotada mas infeliz. Talvez fosse possível completar a história falando do costume que prevalecia nas quatro livrarias de Carcóvia, ainda em 1840. O russo desejoso de aprendizado ou entretenimento literário, que procurasse livros nesses estabelecimentos, tinha de pagar a peso! Pro russo, tudo o que tivesse peso e estivesse a venda devia ser vendido como hortaliça! Esse fato contradita o que disse, há pouco tempo, sobre a alta adaptabilidade do eslavo como agricultor? Absolutamente. Sua sensibilidade está definitivamente limitada pelo solo. Pra ele, e com ele, o mujique fará quase tudo, na medida em que isso significa plantar eu criar. Mas não fará alguma dessas coisas de espírito alerta, com inteligência criadora, com iniciativa. Dono dos maiores tratos de boas terras do mundo, o eslavo os trabalhou durante 10 mil anos, sem ter contribuído, com melhoramento digno de nota, pro desenvolvimento dalgum ramo da agricultura. Não inventou instrumento nem utensílio. Não produziu novos tipos de fruta ou de cereal. Não descobriu novos e melhores métodos de lavrar o solo ou de fazer a colheita. Os chineses, os igorotas das montanhas filipinas, os italianos, os franceses, os alemães e, acima de todos, naturalmente, os ianques, todos o superaram em seu próprio campo de ação. E, vos lembrai bem! O eslavo pouco mais teve a fazer em todos esses milênios. Em sua própria especialidade é um fracasso. Haverá melhor prova de estupidez que esse fato? Se o regime soviético puder vencer a monotonia da estepe e do inverno russos poderemos presenciar a mais vasta liberação de energia humana de toda a história. Enquanto essas causas primárias de estupidez não forem removidas, ou grandemente atenuadas, os eslavos não poderão competir com os povos da Europa Ocidental nalguma atividade superior da civilização. Em verdade, podem destruir o mercado mundial de carvão vegetal e levar à falência, aqui e ali, milhares de plantadores de trigo, mas até mesmo isso o farão, trabalhando por salários baixos e vivendo muito próximo do nível do coli. Nem toda a perspicácia dos três principais povos não-eslavos, que são o cérebro dos sovietes, pode transformar essa inevitabilidade. E não pode simplesmente porque o mujique racionalizou sua fraqueza e criou uma filosofia de vida que beatifica sua estupidez. Tolstói trouxe a antiga fé em frases docemente simples, esclarecendo que a inatividade é o princípio metafísico da Rússia, que nos preserva das mais nocivas moléstias. O modo fácil e seguro de viver é se sentar à janela e beber chá. Só assim o homem pode dormir, com sonhos

64 Carcóvia (sic), não confundir com Cracóvia, na Polônia. Carcóvia (em ucraniano

, Kharkiv e em

, Kharkov) é a segunda maior cidade da Ucrânia. Localizada no leste do país. Tem cerca de

1.461.000 habitantes (2006). Foi fundada pelos russos em 1656, sendo a capital da Ucrânia até 1934. Nota do digitalizador. Extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Carcóvia

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amenos e sem pecado. Pro eslavo genuíno a vida ideal é a sem esforço, conflito nem luta. Eis a raiz do pacifismo russo. Não é amor fraternal, em qualquer forma ativa: É inércia psíquica. O camponês não tem ambição, pois falta a visão de coisas melhores e a capacidade dos movimentos superiores. Dorme como nenhum outro homem, afunda no estupor de vodca durante semanas inteiras, evita o trabalho como evitaria a peste e permite que seus concidadãos façam o que quiserem, não por uma paixão ardente pela liberdade pessoal mas porque lhe falta energia e convicção pra impor algum costume ou padrão de vida a outras pessoas. Assim inerte está predestinado a ser a vítima do primeiro déspota que surgir. Contra a tirania só possui como arma o vagaroso acúmulo do ódio de massa, que, uma vez numa ou duas gerações, explode com fúria vulcânica, e tão ininteligentemente como o Vesúvio. E tudo porque se faz homem num ambiente que o estimula débil ou monotonamente, o tornando prisioneiro da escuridão gelada metade da vida. Quando escapa dessa prisão, se expande e prova as altas qualidades do sangue que corre nas veias. Mas enquanto permanece encerrado entre a tundra ártica e os desertos arenosos do sul, serve como a mais trágica demonstração do poder da terra sobre o espírito humano. Pode remodelar esse clima horrível, essa infinita monotonia? Se puder, se tornará o maior de nós todos, depois de mil anos. O cientista e o engenheiro dirão, provavelmente, que a estupidez russa desaparecerá tão depressa quanto os russos construam cidades modernas e se transfiram a elas. Assim, em beneficio do mundo, que essa empresa seja acelerada, não importa sob o influxo de que política! Se a libertação é possível, será excessivamente vagarosa. A última década o prova. Quando o relatório do esforço dos sovietes pra treinar os camponeses na agricultura científica for publicado, o que deverá ser feito dentro dalguns anos, tudo o que disse será amplamente confirmado. O supremo esforço de 1931 falhou, como o anteciparam muitos observadores experimentados. Quando este nosso prelúdio ia ao prelo chegaram notícias de Moscou, de que os camponeses colheram abaixo da quantidade habitual de trigo, de modo que a Rússia suspendera a exportação a fim de proteger o povo contra a fome! E, notai, nesse ano se plantaram três vezes mais acres que sempre, num ano em que, em primeira vez, milhares de tratores, dirigidos por mecânicos alemães e ianques, puxaram milhares de grades e arados na Sibéria e na Rússia européia! Sem falar do tempo ligeiramente desfavorável. O que não funcionou a contento? Os indivíduos! É o depoimento sincero dos mais argutos peritos ianques, como Jean Walker, que serviu, durante anos, como técnico em trator e máquina agrícola, na fazenda experimental de Berbhut. É o testemunho de Hickman Price, Jr., que estudou o processo de produção trigueira na União Soviética em 1931, levando uma experiência incomum, como produtor trigueiro em larga escala, no Texas. Esses depoimentos ecoaram entre os competentes na matéria e foram negados pelos incompetentes e pelos propagandistas. Os estudantes selecionados, que trabalham nas fazendas russas, demonstram inata estupidez, mesmo em relação aos mais simples problemas mecânicos. São treinados nas escolas agrícolas durante dois anos, por peritos ianques e alemães e dali saem pra trabalhar nas grandes fazendas do estado, virtualmente sem saber mais que antes de partir da aldeia nativa. Empregam instrumentos e máquinas de modo tão terrível que os tratores têm de passar cerca de 50 minutos nas oficinas de reparação por hora de trabalho no campo! Nem esses jovens se excitam com o trabalho. Permanecem apáticos, negligentes, vazios. Preferem o sono, o chá e o rum a todas as máquinas do mundo. E como muitos indivíduos completamente estúpidos, supõem conhecer todos os problemas da plantação de trigo muito mais intimamente que os instrutores estrangeiros. O surpreendente é que poucos russos sabem produzir trigo, apesar de se haverem

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empenhado nesse trabalho milhares de anos. Os melhores, a parte os melhores culaques, naturalmente, estão no mesmo plano dos ianques mais pobres. E se seus descendentes algum dia se tornarem competentes nalguma coisa, será porque os ocidentais terão remodelado cidades e clima, pondo fim à fatal monotonia da estepe.

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Ψςση

Psique

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Moros

Espectro

escuridão tem espectro, como a luz. São muitas as linhas, que diferem
grandemente, como o amarelo do verde. E o que, pro físico, não passa dum simples incremento de pulsação por segundo, produz efeitos totalmente novos. Assim como a luz aumenta e multiplica uma espécie de bactéria e mata outra, o mesmo acontece com a escuridão. A estupidez é assim. Sendo uma escuridão não é uma disposição gradual de diferenças específicas em energia. Cada espécie trabalha a sua maneira particular, cometendo seus erros particulares. Mas não encontramos transição, duma espécie a outra, que possa ser expressa em equação de quantidade. Não negamos que tais equações existam, mas, se existem, somos muito estúpidos pràs descobrir entre as trevas de nosso labirinto. Nos desfaçamos, pois, da noção do homem estúpido sobre a estupidez. Não é uma qualidade simples e homogênea que existe, em vários graus de diluição, em vários indivíduos. É uma atividade resultante, tão positiva quanto o magnetismo ou a acidose. Seus componentes, velocidades, coeficientes de difusão são numerosos e cada meio em que trabalha mostra sua própria série de constante. Estudar alguns desses muitos fatores e condicionadores é nossa próxima tarefa. Tarefa que, como muitas outras, apenas podemos aflorar. Homem nenhum pode perceber as diferentes curvaturas de três linhas, todas de uma polegada de comprimento, sendo a primeira o arco dum círculo de 16m de raio, a segunda um arco de 30m de raio e a terceira um arco de 160m de raio. Os poderes de organização da região ótica não chegam até este grau de delicadeza. Até agora, ao que sei, nenhum psicólogo realizou experiência neste sentido. Mas minhas experiências, comigo mesmo e com amigos, demonstram que os limites de percepção da curvatura estão muito abaixo dos casos que citei. Pra muitos observadores, arcos de 2,5cm de comprimento, de círculos com 2m de raio, parecem linhas retas. Homem nenhum pode perceber, dentro de limites apreciáveis de erro, a maneira em que diferem duas áreas altamente irregulares, se ambas são, digamos, de mais de 1m quadradas em total, sendo a área de cada uma, parte qualquer desse total. Nem pode ver, de per si, os pontos duma linha ponteada sem também ver a linha, contanto que os pontos estejam muito perto um do outro, como em geral acontece. Nem pode ver uma série de pontos como uma linha, se entre os pontos houver a distância de 3m, enquanto o observador está a distância de 3m do ponto mais próximo. Ora, há milhares desses limites de experiência primária especiais, singulares e significativos. Servem pra definir, no mesmo nível de organização, tanto os estúpidos como os brilhantes. Quais os limites que devemos atribuir aos estúpidos? Quais as formas, visuais, auditivas, abstratamente geométricas e tenuemente lógicas, que ficam fora da percepção do homem estúpido? Essas questões não podem ser respondidas a menos que aceitemos e tenhamos, claramente, na mente, à proporção que avançamos, a completa relatividade dos tipos de sensibilidade. Devemos também lembrar que, quantitativamente, ligeiras variações nos elementos organizados dão nascimento a tolices que diferem como o amarelo do verde. Não é tudo. Nossa dificuldade mal começou. Os tipos de estupidez variam de maneira ainda mais profunda e transcendental, que no fundo, algum dia se provará ser idêntica às leis da física do espaço-tempo.

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Na física, como na psicologia, os acontecimentos, dentro dum dado campo, são funções desse conjunto maior dentro do qual se encontra esse determinado campo. O que percebeis é determinado por vosso mundo de significado. É uma resultante de todas as forças em ação dentro de vosso corpo e de vossa mente. Quando olhais um campo de neve, sob a límpida luz do sol, vedes o branco da neve. Um físico traz instrumento e vos prova que a luz que chega até vossos olhos é muito mais vermelha que parecia. Isso prova que não vedes a neve branca? Absolutamente! Estais experimentando algo muito maior que a camada de ondas de luz que passa através dos instrumentos. Estais vendo um campo de neve e sabeis que se trata dum campo coberto de neve e exposto à luz solar. As cores que vedes são relativas a essa totalidade. Não é tudo. São também relativas a toda a classe de experiência correlata do espaço-tempo doutras neves, doutras localidades, doutras luzes. E assim com todas as experiências, grandes e pequenas. Portanto, a inteligência efetiva do homem depende do número, da variedade e das tendências de organização de todas as experiências diárias, na vida. Nenhuma função isolada, nenhum dote congênito isolado, nenhuma espécie de treinamento isolado constitui a mentalidade. O todo é sempre, maior do que qualquer parte. Geralmente maior que a simples soma aritmética dessas partes. Aqui acontece o que acontece em química: Uma diferença aparentemente ligeira na ordem, na disposição, nas distâncias, nas velocidades, nas acelerações, nas massas e noutros característicos dos átomos resulta em substâncias e comportamentos totalmente diferentes, estejam esses átomos num tubo de experiência ou numa célula do cérebro. A qualidade e o poder da experiência dum homem derivam duma infinidade de acontecimentos, muitos dos quais ocorrem em planos de organização e em ordens de magnitude muito além de nossa observação direta. Enquanto não encontrarmos novos meios de os trazer ao campo de nossa análise não poderemos alcançar os fatos definitivos acerca da estupidez. Pois estupidez é apenas um nome a um hóspede de experiência peculiarmente limitada. Essas experiências variam enormemente de modelo: Um aparece em Beethoven, outro em Mussolini, um terceiro no último czar da Rússia, um quarto em Verlaine, e assim a diante. Não há dois padrões completamente iguais, exceto no resultado final, o fracasso diante de certos acontecimentos e condições importantes. Comparar os padrões apenas em termo elementar não teria utilidade. Devemos descobrir como se construem, como os químicos se esforçam em fazer com seus átomos. Na verdade não poderemos ir muito longe. Mas iremos até onde nossa ignorância, estupidez e invencível preguiça o permitirem. A última palavra sobre a estupidez não será escrita enquanto as personalidades sob investigação não forem, primeiro, analisadas nos traços constitutivos e, depois, como uma combinação integrativa. Há pouca esperança de que nosso assunto seja esgotado ainda durante vários séculos, visto que as pessoas normais se comportam de mais de 50 maneiras distintas, das quais cada qual pode ser considerada um traço. Estabelecer a inter-relação está, naturalmente, muito além da capacidade de qualquer pessoa. Eu me encheria de orgulho se fosse capaz de discernir, exatamente, a inter-relação de quatro ou cinco traços principais. Como discuti esses fatores de personalidade noutro lugar, 65 basta sugerir aqui quais são os mais importantes e de que maneira, às vezes, se combinam. Isso servirá a apenas um fim, o de demonstrar a extraordinária dificuldade de fazer uma análise completa de qualquer caso de estupidez. Isso explicará, pra muitos de meus auxiliares, o enigma que muitos deles mencionaram, escrevendo me exprimiram sua surpresa quanto à dificuldade de chegar ao fundo de muitos

65 The psychology of achievement, Nova Iorque, 1930, especialmente no livro I

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aparentemente estúpidos. O padrão se funde nalgo estranho, enquanto está sendo investigado. Por quê? Porque um ato estúpido, se senão sempre muitas vezes, é resultante dum número desconhecido de traço. E entre eles podemos estar certos de encontrar muitas das seguintes variedades de traço:

1 - Deficiente sensibilidade do olho, ouvido, narinas, etc. 2 - Inteligência geral inferior, que se revela por:

  • a) atraso em aprender novos fatos;

  • b) lembrança e reconhecimento tardos;

  • c) raciocínio errado, em geral limitado quanto ao raio de ação;

  • d) incapacidade de controlar situações complexas;

  • e) dificuldade de concentração;

  • f) mente fechada, impermeável às sugestões e às novidades;

  • g) falta de imaginação ativa.

3 - Inteligência mecânica inferior.

4 - Inteligência abstrata inferior, demonstrada por:

  • a) débil pensamento simbólico, na linguagem e na matemática;

  • b) incapacidade de captar e de manejar as relações abstratas no ambiente,

especialmente espaço e tempo.

5 - Inteligência social débil, demonstrada por:

  • a) habitual má compreensão das atitudes e dos motivos das pessoas;

  • b) tendência a tratar todos os indivíduos como se fossem exatamente iguais como

personalidades;

  • c) falta de tato.

6 - Grosseria, especialmente de mão e de postura (em geral simples fator concorrente,

não causa básica de estupidez)

7 - Interesses débeis, poucos interesses ou interesses desorganizados. 8 - Preparo deficiente (que pode levar quase a qualquer do outros característicos). 9 - Certas moléstias e suscetibilidades de infecção, que causara estupidez especial. 10 - Descarga inferior de energia, que interfere em muita funções. 11 - Vários defeitos de temperamento, muito numerosos pra citar aqui, cada defeito envolvendo alguma fase duma das emoções primárias, como:

  • a) Grande freqüência de excitação, causando subversão e confusão gerais da mente

  • b) Grande extensão do campo de estímulo, que provoca excitação desnecessária por

causas irrelevantes

  • c) Excessivo poder de emoção

  • d) Persistência de maneiras de ação desfavoráveis a pensamento claro e ao

procedimento adaptativo.

12 - Perturbadores traços do ego, alguns dos quais são:

  • a) impulso ou apelo defeituosos, às vezes excessivos até a monomania, às vezes

totalmente ausentes como na demência precoce;

  • b) incapacidade de captar e de manejar as relações quanto aos assuntos exteriores;

  • c) extroversão excessiva, resultando em insensibilidade total quanto às situações que

envolvam os interesses e os direitos do povo;

  • d) reclusão, encerrando o indivíduo contra o mundo, ao ponto de o fazer perder os

contatos vitais e, portanto, agir sobre premissas insuficientes. Um simples olhar neste catálogo de imperfeição convencerá a todos, salvo os mais estúpidos, de que, assim como Boswell teve de devotar grande parte da vida à tarefa de reunir e digerir o velho dr. Johnson por motivos biográficos, devemos gastar anos e anos, se quisermos fazer uma análise completa dum complexo indivíduo estúpido. E a

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estupidez pode ser tão intrincada quanto o gênio, e talvez ainda mais. Andaremos mais depressa se estudarmos, primeiro, o processo integrativo e, depois, inspecionarmos os elementos que nele se combinam. Isso subverte a regra do pedagogo, de ensinar primeiro o mais simples. Mas o pedagogo erra, pois o mais simples é o mais difícil.

Síntese

Considerai o problema, a princípio, como uma síntese. Os homens muitas vezes supõem que algum simples fator visível num padrão total de procedimento deve causar a superioridade ou a inferioridade. Que olhos maravilhosos um campeão de tiro ao alvo deve ter! Que visão aguda um grande aviador deve possuir! E, entretanto, os testes realizados no exército de Eua indicam que muitos dos melhores atiradores têm agudeza de visão abaixo da média. E doutor Conrad Berens, examinador do departamento do comércio, que expede licença pra vôo interestadual, revela o fato singular de que Clarence Chamberlain, o famoso aviador transatlântico, calcula tão mal as distâncias que Berens 66 por um triz não o considerou incapaz de manejar, com segurança, um avião. Trinta pontos maus do departamento do comércio teriam desqualificado Chamberlain, e o aviador recebeu 25 pontos maus. Tudo o que isso prova é que o método de selecionar os homens pelo sistema de pontos é perigoso e injusto, a menos que seja cuidadosamente controlado com senso comum e compreensão. Os surdos dão excelentes motoristas, apesar da óbvia presunção contra eles. Os pensadores tardos muitas vezes conseguem, no fim de conta, os melhores êxitos, mesmo nos terrenos em que o pensamento rápido é uma vantagem. O essencial é o equilíbrio vital em conjunto e não qualquer parte isoladamente. O equilíbrio é maior que o padrão ou o poder. O equilíbrio abarca tanto o padrão como o poder. O equilíbrio é mais importante que todas as coisas equilibradas. Ai do observador que ignore e se concentre apenas sobre os detalhes! O que é esse equilíbrio vital? O compreenderemos melhor como base da estupidez si penetrarmos completamente em sua mais larga e profunda natureza, como a vêem os biologistas e os fisiologistas. A ação integrativa é a mais alta de todas as funções. É a função de ajustar o organismo como um todo ao ambiente como um todo. Assim se torna, num lado, o oposto do simples instinto (ou reflexo) e, noutro lado, o senhor e o administrador de todos os sentimentos, instintos e atitude. Pra ser mais exato, devo dizer que tende a se tornar senhor e administrador, pois nenhum ser humano chegou ao domínio absoluto. Todos deixamos, dalgum modo, de regular a vida de momento a momento de tal maneira a pesar devidamente cada desejo, cada hábito, cada circunstância exterior. O ambiente é muito vasto e muito complicado pra ser assim habilmente avaliado, e o cérebro humano não está adaptado a essa suprema tarefa. Isso não significa que ninguém possa efetuar um ajuste satisfatório na vida. Significa, simplesmente, que os ajustes mais satisfatórios a alcance dos mortais deixam fora de cômputo muitos fatores importantes. Imaginemos o que um homem seria se fosse capaz de integrar seu comportamento. Podemos fazer uma idéia muito clara desse comportamento por meio de experiências em cães cujos cérebros foram removidos e também por meio desses casos extremamente raros de crianças nascidas sem cérebro. Algumas dessas monstruosidades chegaram a

66 Teste de acuidade de visão binocular, de Conrad Berens, MD (18891963), um dos mais proeminentes oftalmologistas do mundo. Nota do digitalizador

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viver seis meses, durante os quais a vida era virtualmente não-integrada, exceto no mais baixo nível vegetativo, onde a integração tem lugar através do sistema nervoso autônomo. Um homem, a que faltassem absolutamente todas as estruturas integrativas, que deveriam inter-relacionar os vários órgãos superiores, poderia, naturalmente, possuir todos os órgãos dum homem normal. Poderia ter olhos, ouvidos, nariz, nervos e músculos perfeitos. Mas cada olho viveria a própria vida, sem ser influenciado pelo que o outro fizesse. Cada olho giraria em órbita independente, como os olhos dos bebês. Olharia, constantemente, dois objetos separados, em vez de coordenar ambos os olhos sobre um único objeto. O mesmo aconteceria com os ouvidos. Cada ouvido ouviria por si mesmo, sem tender a cooperar ou corrigir o outro. Ainda mais notável seria a conduta quando faminto, com sede ou cansado. Se colocando alimento na boca, mastigaria e engoliria. Mas, em caso contrário, morreria de fome, pois se o olho o vê a 3m de distância não exercerá estímulo sobre as pernas, no sentido da locomoção, nem sobre a mão no sentido de agarrar o alimento e levar à boca. Poderá lembrar, com grande vivacidade, que o que viu era alimento, mas nem mesmo esse pensamento o conduzirá até o alimento. Alguém poderia gritar que é alimento e que poderia apanhar, mas, como o ouvido não tem relação com o olho ou com o sistema muscular, ouviria a mensagem sem, entretanto, algo fazer. Tal criatura seria uma simples coleção de células e de órgãos vivos. Não seria um organismo, exceto no mais baixo sentido das palavra. Pois nunca poderia reagir, como um indivíduo completo, ao ambiente como um todo. Toda conduta seria fragmentária. Todas as sensação, sentimento e impulso seriam locais e momentâneos. Teria, possivelmente, ligeira memória local, isto é, cada olho poderia adquirir os próprios hábitos, cada ouvido poderia desenvolver certas maneira de audição, e assim a diante. Mas não haveria troca de experiência, união de impulso. E, na luta pela existência ele e todo os iguais seriam rapidamente derrotados. Pois até mesmo o mais humilde dos animais inferiores hoje existentes o ultrapassaria em astúcia e em adaptabilidade. Não vedes a biologia da estupidez? A criatura estúpida é, num sentido especial, um organismo inferior. Noutro sentido especial, somos todos organismos inferiores. Considerada um espécime de equilíbrio vital, acrescentamos, a criatura é inorganizada a tal ponto que, comparada com indivíduos mais comuns, mais bem sucedidos e mais rudes, é caótica, confusa, sempre insciente e eventualmente colhida em desastres que os homens ou os animais mais eficientes teriam facilmente evitado. Recorramos aos casos. Considerai Verlaine, esse estranho poeta francês cuja trágica passagem através dos labirintos da vida ilustra o comportamento integrativo de espécie somente um nada acima do imbecil. Nele vemos, combinada com inegáveis poderes, uma desanimadora incapacidade a os organizar a algo distantemente parecido a um padrão de vida. O resultado foi, como se sabe, uma carreira de indolência, de impulsos selvagens, de entrega infantil às tentações e de degeneração física e moral inevitável. Era somente no estreito campo das reações estéticas a cores, sons e prazeres sensuais que seus poderes integrativos se elevavam e produziram 18 volumes de versos admiráveis, cuja lúcida simplicidade brilha em estranho contraste com a conduta pessoal do homem. Verlaine parece ter amado profundamente a mãe. Seus escritos e não pouco da conduta em relação a ela demonstram. Mesmo assim, a explorou sem escrúpulo, a fim de conseguir dinheiro pra beber. E não hesitou em a censurar e até ameaçar, quando isso lhe pareceu diplomaticamente certo. Em tudo isso, o comportamento era infantil. Não demonstrava previdência. Era incapaz de coordenar os vários impulsos num programa de ação. E não é impossível que seu amor à mãe jamais se tivesse desenvolvido além do

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estágio infantil. Certamente isso explicará as evidentes inconsistências desse amor. Seu temperamento revelava a falta total de inibição normal. Passou na cadeia dois anos, por tentativa de assassínio contra seu íntimo amigo, o poeta Rimbaud. Brigava com a esposa de modo demoníaco e ela o abandonou, receosa e horrorizada. Arremetia contra a mãe sempre que ela fazia um débil esforço pra negar os exorbitantes pedidos. Assaltou seu amigo e protetor com fúria de bêbedo e voltou à cadeia. Às vezes se tem dito que Verlaine era um completo pagão. Isso não é justo com os pagãos. Verlaine não era pagão no exato sentido do termo. Era uma personalidade psicopata, um dipsomaníaco crônico, um degenerado dos cafés e das boates de Paris e uma mente infantil que apenas podia fazer bem uma coisa: Dar expressão perfeita aos desejos irrealizados. Considerados deste ponto de vista, os inigualáveis versos religiosos de Sagesse (1881) podem ser compreendidos. Não refletem o homem, tal como era mas, simplesmente, projetam, em delicadas e claras palavras, tudo o que não era e tudo o que desejava ser mas que nunca seria, Isto está tão perfeitamente integrado em suas palavras como sua vida estava imperfeitamente integrada em seu padrão de comportamento. Seu defeito fatal, conjuntamente com sua dipsomania, inevitavelmente o levou cada vez a mais longe do mundo dos homens. Desenvolveu uma timidez anormal, aparentada com o medo crônico. Em verdade, não seria hipérbole dizer que Verlaine via, no mundo, um palco e que todos seus movimentos se fizeram caóticos, por uma espécie de medo-do-palco ante todas as coisas. É fácil encontrar outros traços, mesmo nos primeiros anos, que demonstram um profundo receio ao mundo e isso não é incompatível com sua monstruosa raiva. Estas últimos eram ajustes defeituosos aos negócio mundial e, quando terminavam, exerciam tal impressão sobre o poeta que, quando não estava bêbedo nem louco de desejo por álcool, evitava lugares e pessoas. Isso basta pra explicar as vagabundagens. E explica algumas, não outras. Valerá a pena comparar, ponto a ponto, a personalidade de Verlaine com a de Francis Thompson, poeta inglês 67 . As semelhanças básicas são, em geral, chocantes. Os dois homens sofreram a mesma espécie de integração defeituosa: Ambos tinham a mesma concentração interior, poderosamente focalizada sobre os efeitos das palavras, o mesmo medo e o mesmo desgosto no mundo, o evitando ao extremo, e eram grosseiros e ineptos. Ambos foram vítima de seus apetites e procuraram refúgio no consolo da Igreja de Roma. Na verdade suas fraquezas parecem ter emanado de causas diferentes mas isso não importa, no momento. O fato sobre o que devemos insistir é que eram pobremente organizados. Dissemos tudo isso não pra provar algo mas somente pra mostrar a profunda estupidez que se funda sobre um equilíbrio vital defeituoso. Estamos agora diante da questão principal: O que produz um bom organismo e o que produz um pobre organismo? Há duas fases de organização. Uma se refere aos elementos que são organizados e a outra aos padrões e aos processos. Se estivéssemos escrevendo um tratado geral de psicologia deveríamos fazer uma longa pausa e devotar várias centenas de páginas aos ingredientes da personalidade bem ordenada (ou desordenada). Mas devemos voltar às florestas da estupidez. E, assim, apenas podemos esboçar a situação.

Elementos

Os elementos que organizamos se dividem em dois grandes grupos. Primeiro, os membros de nosso corpo físico, braços, pernas e músculos em geral, que pendem duma armação de osso e cartilagem. Segundo, o influxo de excitação que passam através de

67 Thompson é estudado mais adiante, neste livro

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nossos nervos sensoriais e penetram o estranho campo do cérebro, onde reverberam durante anos e se combinam, infinitamente, em padrões singularmente pessoais. Movimentos físicos, visões, sons, odores, lembranças, pensamentos, análises, perspectivas, emoções e atitudes: É o material que é processado, combinado, misturado, condensado, esterilizado, cristalizado e infinitamente transformado nalguma espécie de comportamento unitário que, aos observadores despreocupados, se chama personalidade. Cada elemento tem seu próprio grau de força, vigor natural, duração e travo. Esse grau pode ser chamado índice de sensibilidade. Quando medimos um homem por outro vemos que a raça humana, em conjunto, demonstra distintas tendências comuns em seu sistema de índice. Por elas chegamos a um método objetivo de interpretar a estupidez. Os elementos podem ser grosseiramente agrupados em cinco classes. Desse modo revelam uma ordem normal de força, em 3/4 da raça humana observável, que abarca, principalmente, os povos ocidentais, que foram estudados sob muitos pontos de vista. A ordem normal é a seguinte:

As sensibilidades motoras são as mais fortes. Nisso incluímos, simultâneo às experiências musculares comuns, todas as correspondências a movimentos percebidos no ambiente. O olho, por exemplo, em geral, capta movimentos mínimos no extremo do campo visual, mesmo quando não pode identificar o objeto móvel. O mesmo acontece com a capacidade da pele notar movimento excessivamente lento na superfície. Vêm, depois, as sensibilidades orgânicas, que incluem os apetites e as aversões, as atitudes e as emoções, os vagos sentimentos de bem-estar, de constrangimento, de depressão e coisas semelhantes. As sensibilidades de contato vêm em terceiro lugar, incluindo, principalmente, o gosto e o olfato, assim como o grupo sexual. As sensibilidades de distância conseguem um quarto lugar: Aqui o olho se revela muito mais receptivo que o ouvido. As sensibilidades de lembrança, de fantasia e de análise são, por todos os motivos, as mais fracas de todas. Será mais fácil compreender se tiverdes em mente que isso se reflete claramente no gosto popular. Corresponde à ordem de preferência demonstrada pelas massas em todas as idades e em todos os climas quanto a objetos de simples prazer e entretenimento. Ali encontramos:

1 - Canto e dança, pantomima ação dramática, ritual cheio de movimento e uma variedade de jogos atléticos certamente ocupam o primeiro lugar na estima da horda. 2 - Aventura, entretenimento, esporte e outras atividades ou espetáculos excitantes, como os combates de gladiador, as lutas de boxe, os parques de diversão, a montanha- russa, 68 as histórias de fantasma, as aventuras policiais, as reportagens sobre roubos, assassínios, furacões, incêndios e coisas semelhantes. E, naturalmente, os afrodisíacos. 3 - Alimento, bebida e sexualidade, no gozo imediato, como experiência de contato. 4 - Espetáculos visuais, como cenário, quadro de viagem, efeitos de cor. E, no reino do ouvido, a música destacada dos valores dramáticos em linguagem e ação. Isto é, não canto e dança mas as composições de Bach, Brahms, Chopin. 5 - Reflexões intelectuais, conversação, argumentação, a livre ação da imaginação

68 No original looping-the-loop.

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Nota do digitalizador

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criadora em qualquer campo. Ora, estabelecendo essa ordem normal de sensibilidades, também conseguimos uma pista quanto à colocação e à graduação dos indivíduos estúpidos. Duas grandes lacunas surgem na ordem. A primeira ocorre entre o terceiro e o quarto campos de sensibilidade a segunda, entre o quarto e o quinto campos. As sensibilidades puramente visuais e auditivas são, 9 pessoas em cada 10, muito mais estúpidas que as sensibilidades motoras, orgânicas e de contato. E, o que é pior, se tornam cada vez mais estúpidas no primeiros anos da vida. As crianças ultrapassam os jovens e jovens os adultos, em regra. (Essa diferença de idade, entretanto, é ainda mais pronunciada quanto ao sentido do olfato). Pra piorar as coisas, quase tudo, em nosso novo ambiente, conspira no sentido de tornar estúpidos o olho e o ouvido. Antes que nos voltemos a assuntos mais intrincados do processo psíquico, insistamos sobre isso através de casos e de exemplos.

Semi-cego

Os ciclopes jamais tiveram a visão aguda que, mais tarde, lhes atribuiu. Se admite, em geral, que os selvagens excedem homens civilizados em poder de visão. Mas os psicólogos puseram fim a essa crença. Os estudos de R. S. Woodworth entre as tribos das Filipinas, na exposição de São Luís, em 1904, demonstram sua visão medíocre. Muitos outros observadores encontraram uma estupidez semelhante, e em geral atribuem a aparente superioridade do selvagem a seus hábitos de visão em campo aberto. Os índios do Canadá podem distinguir um bode selvagem sobre um pedaço de gelo num vale tão extenso que o homem branco, ao lado pele-vermelha, mal pode distinguir como uma mancha azulada. O taitiano, ao nadar, percebe um grande peixe nadando abaixo enquanto seu companheiro branco nada vê além de água. O velho cheroqui, dormindo sob as estrelas nas grandes planícies, é despertado pelo rápido clarão dum longínquo relâmpago horizonte, onde o homem civilizado veria apenas a escuridão. E todas essas sensibilidades são o resultado de anos procurando lobo selvagem, grandes peixes em alto mar e escrutando o céu sobre a aproximação do tornado. Se o homem civilizado dedicar muito tempo a estas tarefas poderá ter a mesma acuidade de visão. Todos os homens, selvagens ou não, são semi-cegos, tomados em grupo. A visão sub-normal é terrivelmente freqüente, tanto que me faz imaginar por que os oculistas escolhem os padrões que utilizam como normais. Erich Murr, do instituto de zoologia da universidade de Koenigsberg, fez experiências brilhantes, que demonstram que, sob todos aspectos, o gato é 40 vezes mais sensível que o homem sob outros aspectos, ao menos 80 vezes mais. Os ciclopes não podem ver o tênue fio de luz que desperta a visão nos olhos do gato. Tropeça na escuridão, enquanto o felino vê as coisas claramente. Considerai os seguintes fatos. Na grande conscrição militar de 1918, cerca de 21,7% de todos os homens dados como incapazes tinha visão defeituosa. 69 Todas as pesquisas nas indústrias e nas escolas revelam estados ainda piores de visão. Entre nossas crianças, cerca de 45 milhões de seres ao todo, ao menos 15 milhões têm vista bastante má, de modo a necessitar óculos. Provavelmente há dezenas de milhares mais que vêem bastante mal pra os tornar contrários à leitura, evitando os livros e os bons periódicos, de modo que crescem mal-informados. Certamente, a pouca leitura não é causada por olhos imperfeitos mas por cérebros imperfeitos. É um defeito mental sem esperança de cura. Se alguém pudesse examinar, por milhares, os casos,

69 Gertrudes Seymour, The survey, 27 de abril de 1928

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entretanto, estou certo de que se veria que muitos indivíduos de pouca leitura, que não possuem mentes sub-normais, são, entretanto, prejudicados pelos olhos. O trabalho entre quatro paredes e a luz artificial se combinam pra arruinar a visão. Provavelmente, o constante declínio de atividade física no trabalho e nos divertimentos acrescenta algo a essa hecatombe. O cinema pode se somar a esta lista, embora seja de duvidar sua contribuição. E, pior do que tudo, pra mim, é a enorme quantidade de leitura requerida de milhões de trabalhadores da imprensa, desde o operário mais humilde até o gerente. O efeito é duplo. Primeiro, exige um grande esforço do globo ocular. Depois, envenena o caráter, fazendo com que todos os tipos sejam odiosos. Em investigações recentes sobre a leitura feita por negociantes encontrei muitos que admitiam haver, virtualmente, abandonado toda a leitura cultural, simplesmente por causa da dolorosa urgência em que trabalhavam, diariamente, sobre as notícias, as ordens e as discussões comerciais ligadas com os deveres do ofício. Poucos homens, nesse grupo dalgumas centenas, demonstraram a mais leve pretensão de estar a par dos acontecimentos do tempo, nem mesmo através dum rápido olhar nos jornais. Assim, semana após semana, estupefazem a sensibilidade à tendência do mundo e à relação humana. E se tornam escravos do trabalho. Muita estupidez social nasce de olhos deficientes e de olhos extenuados. O mesmo acontece com a falta de perspectiva, de que falaremos mais tarde.

Semi-surdo

Os ciclopes são semi-surdos também. E as estatísticas médicas revelam que nossos heróis estão perdendo alguns de seus débeis contatos com o mundo sonoro. A surdez parcial está aumentando estranhamente no mundo. Na Europa e na América se realizam, todos os anos, experiências com as crianças das escolas e se nota tendência a ouvir menos. Quais as causas desse fenômeno? Muitas transformações no homem, em seu trabalho e em seu mundo, põem um tecido cada vez mais grosso sobre o ouvido e pouco a pouco afastam os gritos e os tumultos. Recentemente, os investigadores descobriram muitas coisas que arruínam a acuidade do ouvido. O barulho, a alimentação, a fadiga (e, portanto, a espécie de trabalho que se faz), o aborrecimento, a perda de sono e, ao que parece, a falta de interesse pelo que se ouve, podem arruinar e ouvido. Assim, mais uma vez vemos que um estupor gera outro, e que esse par produz um terceiro, e assim a diante, até que os ciclopes fiquem cegos, surdos e entorpecidos na escuridão de sua própria caverna. O barulho naturalmente devasta o ouvido. E todo o mundo se tornou uma casa de loucos: buzinas de automóveis, apitos de fábricas, sirenes de navios, megafones de rua e, por fim, o jaz, essa terrível reductio ad surdum 70 de todos os ouvintes. O estrépito mina o equilíbrio nervoso e entorpece o campo auditivo. As atividades tumultuosas produzem trabalhadores surdos. O ouvido dos guardas ferroviários subterrâneos e aéreos começa a falhar desde cedo, como o dos ferreiros. E, como as pessoas se estabeleceram nas cidades industriais, todas devem ter sofrido dalgum modo. Estudos recentes sobre o barulho em Neva Iorque e noutros pontos o provam suficientemente. Mas também demonstram que muitas outras condições, menos suspeitas, estão pouco a

70 Reductio ad surdum (redução à surdez) O autor faz trocadilho com a expressão latina reductio absurdum (redução ao absurdo), que é um recurso matemático de se fazer uma proposição e se provar que é absurda, portando seu oposto é verdadeiro. Por exemplo: Se todo número par é divisível por 2 então todo ímpar é divisível por três? Supondo isso verdadeiro, como só existem números pares e ímpares, então não existem números primos maiores que 3. portanto a proposição é falsa. Nota do digitalizador.

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pouco nos ensurdecendo a todos. Vejamos algumas. O bom ouvido depende, de maneira surpreendente, da saúde em geral e da nutrição. Isso foi recentemente provado por doutor Dana W. Drury, de Bóston, em seus testes audiométricos sobre cinco grupos. O quadro de futebol da Rarvar, nos fins da estação de bola, tinha o melhor ouvido. Em seguida, vinham os rapazes duma escola secundária particular, onde se presta grande atenção ao físico e à alimentação dos alunos. Em terceiro lugar, estavam as crianças dum instituto pra cego, onde também se dava melhor atenção à alimentação e ao bem-estar físico. O quarto grupo era composto por 100 crianças das escolas públicas de Bóston, que ouviam ligeiramente menos que os cegos. Piores que todos eram as crianças aleijadas e deformadas duma instituição de Massachustes. Os otologistas me afirmam que vários tipos de surdez progressiva variam dia a dia, de acordo com a condição mental e física geral. A perda de sono estraga o ouvido ao passo que um longo descanso o restabelece prontamente. O mesmo acontece com o comer demais e com o comer de menos, bebida, aborrecimento, fumo, etc. Também estou informado de que a simples preguiça e a simples falta de interesse em ouvir as conversas ou a música muitas vezes prejudicam o ouvido. Os médicos afirmam que os pacientes que prestam atenção ao que está acontecendo e entorno de si mantêm a acuidade do ouvido muito mais tempo do que os que permanecem desatentos. Podemos estar, aqui, invertendo causa e efeito. O paciente que mostra indiferença pelos sons o pode fazer em resultado duma inércia nervosa central, em conexão cum defeito no centro auditivo. Pode haver, por exemplo, um atraso nas associações auditivas ou um salto de energia em qualquer parte dos tratos nervosos. O ouvido tem alguma obscura relação com a estupidez. É a causa ou o efeito do nível mental, de modo que ultrapassa qualquer outro órgão sensorial. Provavelmente há muita verdade no conceito popular de que os surdos são calados. As experiências psicológicas mais cuidadosas demonstram que as crianças completamente surdas são retardadas, em média, cerca de 4,5 anos, isto é, um rapazola de 15 anos tem a mentalidade duma criança normal de 10,5 anos. Felizmente há poucos indivíduos surdos como pedra, cerca de 50 mil, em todo o país. Felizmente, também, os parcialmente surdos são imensamente melhores, não somente na capacidade de estabelecer contato com os indivíduos, mas também na linguagem. As crianças que ficaram surdas depois dos 6 anos parecem ter apreendido a linguagem tão bem que a surdez subseqüente não lhes retarda, de modo severo, a inteligência. Notar que isso apóia meu argumento geral de que o fraco convívio da linguagem é sinal de profunda estupidez. Até mesmo os parcialmente surdos muitas vezes caem na estupidez em conseqüência de apreenderem o vocabulário exato muito devagar e de estarem em posição inferior quanto ao uso da linguagem. O vocabulário comum, naturalmente, serve de sólido alicerce ao maior e ulterior vocabulário que a leitura dá. Mas as crianças parcialmente surdas são evitadas pelos companheiros normais, simplesmente por causa do esforço de falar alto e de repetir as palavras, durante a conversação. Assim, os instrumentos do pensamento nunca se tornam eficientes. Devemos esperar, pois, que os indivíduos parcialmente surdos sejam estúpidos, principalmente nas relações sociais e, também, no uso mais delicado da linguagem, especialmente no campo do pensamento criador. Como sempre, falamos de tendências gerais e não das brilhantes exceções, das quais encontramos certo número entre os indivíduos seriamente surdos. Também devemos esperar uma ligeira e difusa estupidez, em muitos campos, resultante dos danos que a falta de prática social e lingüística causa sobre todos os modos de pensamento e de ação. Quanto menos os indivíduos ouvem,

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