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Antropologia Cultural e Alteridade.

Tema: Direitos Humanos no mundo do Trabalho
Delimitação do Tema: O caso dos recicladores de lixo de Cachoeirinha.
Problematização do Tema: Com a Consolidação das Lei Trabalhistas, CLT, os avanços
tecnológicos da atualidade e o surgimento de várias novas profissões, ainda existem casos de
subemprego que se constituem como ataques aos direitos humanos, baseando-se na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, tais ataques são orquestrados ou legitimados pelo aparato estatal e
por políticas governamentais.
Hipótese: As políticas de reciclagem do lixo urbano doméstico implementada por pequenos,
médios e grandes municípios seguem uma lógica mercadológica que inibe a organização dos
trabalhadores em reciclagem que já atuavam na área antes da explosão global de preocupações com
o acumulo do lixo, tais políticas não enxergam ou fingem não enxergar estes trabalhadores e
trabalhadores, implantando modelos mecanizados de coleta do lixo urbano, prática realizada por
grandes empresas que visam somente o lucro com recursos públicos.
Objetivo Geral: Analisar as políticas implementadas pelos poderes públicos municipais para a
coleta e reciclagem do lixo urbano e como estas políticas dialogam ou não com os trabalhadores da
reciclagem independente, que tem nesta função a sua obtenção de renda e de que forma o não
diálogo ou a implantação de mecanismo que dificultam o trabalho desta população se caracterizam
como ataque aos direitos humanos ao não se reconhecer a profissão e o outro, que deveria obter do
poder público o reconhecimento e a garantia de políticas públicas voltadas para a população
trabalhadora da reciclagem. A partir das entrevistas e da análise das políticas públicas
implementadas no município de Cachoeirinha para a coleta mecanizada do lixo urbano, pretende-se
demonstrar de que forma o não reconhecimento desta população cria um empasse configurado na
quebra dos direitos humanos dos mesmos

Método de Pesquisa: Qualitativa
Ferramentas: Entrevistas, leitura bibliográfica, arquivos de vídeo e fotográficos.

A pauta global da reciclagem no Brasil
“A produção de lixo no Brasil não para de crescer. E cresce em ritimo mais acelerado do que a
população urbana.” Com esta mensagem alarmante inicia-se o estudo realizado pela Associação de
Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) contido no Panoroma dos Resíduos
Sólidos no Brasil de 2010. Pelo levantamento, os brasileiros geraram em 2010 cerca de 60,9
milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU), crescimento de 6,8% sobre 2009. No
mesmo período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população
cresceu em torno de 1%. “O total de resíduos coletados também aumentou, em 2010,
aproximadamente 7,7%. Segundo a Abrelpe, 54,2 toneladas foram recolhidas pelos serviços de
coleta domiciliar. Mesmo assim, esse número corresponde a 89% do lixo gerado. Ou seja, os outros
11% ficaram espalhados nas ruas, em terrenos baldios ou foram jogados nos rios.

Rio Grande do Sul. desta forma o poder público pretere a organização de políticas públicas para os trabalhadores e trabalhadoras da reciclagem e passam a adotar medidas chamadas de “modernização” da coleta. Com isso. Com base nestas informações dois fenômenos podem ser observados. ou 42. diretores da empresa Rio Grande Ambiental – responsável pela coleta de lixo – ofereceram dinheiro para políticos. Fábio Branco (PMDB). que vendem o material coletado a galpões de reciclagem privados. reunindo mais de 1. não é tratado e pode contaminar os lençóis d’água.Além disso.700 catadores e catadoras. De acordo com a investigação. foram depositadas em locais inadequados: lixões ou aterros controlados — onde o chorume. do lixo coletado. 1 . Paulo . Neste ano casos de corrupção envolvendo a coleta de lixo foram denunciados pelo Ministério Público. porém outras matérias-primas ainda são pouco reutilizadas. o ex-prefeito Janir Branco (PMDB) e o ex-secretário de Serviços Urbanos. o lixo de outras cidades da região seria depositado no município Segundo os promotores José Alexandre Zachia Alan e Adriano Pereira Zibetti. em troca de apoio na aprovação de um projeto de lei sobre a regionalização do aterro sanitário. Em um segundo momento surge a organização dos trabalhadores por meio do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. A manutenção dos lixões e as licitações do recolhimento do lixo tornam-se extremamente rentáveis. o esquema começou a ser investigado no final de 2012. No ano de 2003 ocorreu o 1º Congresso Latino-americano de Catadores e Catadoras em Caxias.A relação do poder público com as empresas de coleta de lixo urbano A relação do poder econômico no interessa da privatização dos serviços de coletas de lixo em grandes ou pequenas cidades se transforma em um emaranhado de suspeitas de corrupção e casos comprovados de corrupção. a alternativa imposta por estas grandes empresas são os “lixões” que além dos danos causados ao meio ambiente aprofundam o abismo entre o poder público e os trabalhadores autônomos da reciclagem que tem o seu trabalha ainda mais desvalorizado e imposto a condições sub-humanas. O segundo fenômeno trata-se do poder econômico que vê neste mercado uma oportunidade de exorbitantes lucros através da concessão pública da coleta de lixo urbano. Nas vésperas das eleições daquele ano. eleito deputado estadual nas últimas eleições. seis diretores da empresa fizeram repasses de dinheiro a um grupo de três políticos: o ex-prefeito. MNCR. as denúncias procedem da seguinte forma: “O Ministério Público denunciou nove pessoas acusadas de integrar um esquema de corrupção em Rio Grande. O interesse na coleta e no destino sustentável do lixo não está nem no segundo plano da relação das empresas como aparato do estado. O movimento surgiu em meados de 1999 e culminou em 2001 no 1º Congresso Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis em Brasília. que nada mais é do que mecanizar o trabalho gerando desemprego. residem nos grandes subúrbios das metrópoles e são marginalizados por não possuírem organização federativa.4%. tais trabalhadores são essencialmente de baixa renda.” Segundo o sítio do Senado Federal. quase 23 milhões de toneladas. A organização de um mercado de reciclagem que conta com a mão de obra de trabalhadores informais. baseados na simples preocupação da limpeza da cidade. o Brasil recicla 97% das latinhas de alumínio. líquido originado pela decomposição.

além de Ivan Luiz Basso. nesta quarta-feira (23). Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses. a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. O contrato era de R$ 135 mil. cinco pessoas em São Luiz Gonzaga por formação de quadrilha. O promotor Flávio Duarte explica como funcionava o pagamento da propina. que lhe assegure. O empresário ainda não se manifestou.Rogério Mattos Gomes – atualmente secretário do Cassino na gestão do prefeito Alexandre Lindenmeyer (PT). três ex-integrantes do poder municipal recebiam mensalmente vantagens ilegais do responsável pela empresa de coleta de lixo. que já foi candidato a vice-prefeito de Santo Ângelo. além de lavagem de dinheiro. que deveria propor condições de emprego e renda. 2 .” “2.” “4. se necessário. à livre escolha de emprego. que chegava até 15% desse valor: "mensalmente. Todo ser humano.” Percebemos aqui a forma como o aparato do estado. Os outros denunciados são o ex-prefeito Vicente Diel. um dos integrantes do Executivo se deslocava até Porto Alegre e recebia valores entre R$ 20 mil e R$ 30 mil por mês e distribuia pros demais. a Engesa. uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão. o operador financeiro do esquema era Luciano do Nascimento. assim como à sua família. outros meios de proteção social. o ex-assessor jurídico Cláudio Cavalheiro e o ex-secretário de obras Dilamar Batista de Oliveira todos do PSDB .” ." Conforme a investigação. depois que o valor pago pela prefeitura caía na conta da empresa do lixo. O ex-prefeito e demais agentes públicos negam as acusações.” “3. dono da Engesa.O não-reconhecimento dos trabalhadores(as) e o ataque aos direitos humanos Na Declaração Universal dos Direitos Humanos consta as seguintes afirmações. se dedica ao faturamento de grandes empresas que ingressão na concessão dos serviços públicos baseadas em propinas e relação de poder. sem qualquer distinção. Todo ser humano tem direito ao trabalho. tem direito a igual remuneração por igual trabalho. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória. Conforme as investigações. Artigo XXIII “1.” “O Ministério Público denunciou. corrupção ativa e passiva.

na zona norte da cidade. sendo um para lixo orgânico e outro para reciclável. Analisando o contrato de concessão do serviço constam clausulas de aluguel dos contêineres por cerca de 15 milhões de reais anuais.A ótica da cidade sob a leitura da Tolerância O conceito de tolerância que vemos na obra de Castor Ruiz “O (ab)uso da tolerância na produção de subjetividades flexíveis” onde a máxima da limitação das relações individuais se dá no conceito de que a liberdade de um começa onde termina a do outro. o número de empregos gerados seria significamente maior. além disso o número de empregos criados é pífio. Percebemos aqui que o ente público municipal investe milhões de reais em um serviço que não recicla de fato o lixo. mas em contrapartida a coleta manual não passa mais nestes bairros. gerando inclusão e aquecendo mercado interno. através de cooperativas e associações de trabalhadores. Neste contexto analisamos o caso de Cachoeirinha. Através de entrevista com o senhor Leandro. 43km². A empresa que possui a concessão da coleta automatiza é a Conesul. ambas com sede em Santa Cruz do Sul. tudo isso legitimado pelo ente público. que teria sua renda mensal ampliada. pois muitos tem que entrar dentro dos contêineres para ter acesso ao material reciclável. caracterizando um total impedimento a organização livre do seu trabalho. a população-alvo seria a de baixa renda. PIB de 1. porém nos bairros que receberam a coleta automatizada somente contêineres para lixo orgânico foram instalados. . aqui especificamente mostraremos as lixeiras do Bairro Granja Esperança. nem o separa. na prática a lixeira acumula indiscriminadamente todas as origens de lixo. porém aqui percebemos o uso do estado para o bem privado. instituindo uma política pública de construção de galpões de reciclagens. que trabalha recolhendo e reutilizando garrafas PET's percebemos que esta política de automatização da coleta dificulta o trabalho de quem de fato faz a reciclagem. a StadtBus. pois o sujeito que está fora de um círculo de relações e interesses passa a não ser um problema do outro e desta forma a constituição do Estado enquanto ente no sistema liberal e posteriormente no neoliberalismo faz deste um legitimador das diferenças toleradas. outros tantos não conseguem. que espalhou cerca de 900 contêineres na Avenida Flores da Cunha (principal avenida da cidade e uma das que possuem maior tráfego no Brasil) e em alguns bairros. A Conesul também presta serviço para o município de Porto Alegre. criando uma fronteira que legitima desigualdades até hoje. 3 . Flores da Cunha são cerca de 4 contêineres por quadra. Na Av. O governo local iniciou no dia 11 de abril deste ano a implementação da coleta de lixo automatizada. empresa que pertence ao grupo da também concessionária do transporte coletivo.percebemos aqui que o Estado ao não realizar o simples reconhecimento da profissão de catador e reciclador já comete quebra dos direitos humanos. se tal recurso fosse alocado na coleta de lixo autônoma.9 bilhão de reais e orçamento anual girando em torno de 300 milhões de reais. município da região metropolitana de Porto Alegre com mais de 118 mil habitantes.

onde os interesses das grandes corporações se impõe através do ente Estado e altera a correlação de vida coletiva na cidade. mas também da difícil crise dos valores da sociedade.” “Esta não se deriva apenas do nível da relação do cidadão e do Estado. Aqui podemos olhar o caso analisado pelo ótica que Sidekum nos traz. garantias trabalhistas e livre associação. efetua-se. mas produzindo políticas que sufocam a existência harmônica de uma rede de cooperação de trabalhadores associados. “ Vivemos uma época de imensas transformações no campo do relacionamento humano. também na ótica de Sidekum. na medida em que “não interfere” de forma ostensiva na organização do trabalho dos catadores e catadoras. voltando a prioridade pública para a construção de uma rede solidária para a coleta do lixo reciclável. Essa violência.A ausência de alteridade como regra Na obra de Antônio Sidekum “Alteridade e multiculturalismo” no texto “Ateridade e interculturalidade” de 2003. Aqui percebemos que o município em análise está se valendo desta máxima. 5 . iniciando com o reconhecimento do outro. . mas ao não reconhecer a sua importância tanto na manutenção de uma cidade limpa. na qual seriam priorizados os fundamentos éticos da autonomia da subjetividade humana. impondo uma cultura mercadológica em detrimento de uma organização socialmente justa e sustentável da coleta do lixo. mais ao nível das poderosas empresas transnacionais que impõem seus modelos econômicos por meio do fundamentalismo do mercado e através da “vitória” da política capitalista que se ocupa da manipulação das necessidades e do imaginário histórico do povo”. além de passar por uma reformulação do papel do Estado. deve passar por uma ampla cultura de educação fundamental sobre os direitos humanos. porém. ou da relação entre a sociedade civil e o Estado. ou seja da sua escolha de trabalho. Todo este processo.suportadas ou não. mas nunca reconhecendo o outro como ser autônomo de sua subjetividade. mas sim a coexistência dos sistemas. garantindo condições de qualificação deste trabalho. descrito segundo Adam Smith. página 233 e 234 temos a seguinte afirmação. atualmente. pois não se aboliria um mecanismos moderno de coleta de lixo. como na preocupação ambiental de um fim viável e sustentável para a acumulação do lixo ou ainda no emprego e geração de renda de gerados a seus cidadãos e cidadãs comete um ataque frontal e desmedido. Isto é demonstrado pelos atos de terrorismo e violência institucionalizada.Conclusão Sidekum defende “o reconhecimento do direito de poder ser diferente” naquilo que se refere “como inquestionável no projeto existencial da pessoa” desta forma a necessidade de uma “unidade na multiplicidade” se faz necessário. tolerando a sua organização. 4 . Também nos atos de relacionamento político internacionais encontram-se demonstrações do mais alto grau da prepotência e dos fundamentalismos que evidenciam em todos os sentidos da organização econômica e da política Cultural.

gov. Antônio.br/box_1/sua-historia Sítio Gaúcha: http://gaucha.clicrbs. Sidekum. Castor: “O (ab)uso da tolerância na produção de subjetividades flexíveis. Alteridade e multiculturalismo. .html Sítio MNCR: http://www.com. Editora Unijuí.mncr.com.ambientebrasil.org.com.html Ruiz.br/rs/noticia-aberta/mp-denuncia-esquema-envolvendopoliticos-e-empresa-de-coleta-de-lixo-em-rio-grande-120734.br/noticias/materias/2012/03/09/brasil-produz-61milhoes-de-toneladas-de-lixo-por-ano Sítio Ambiente Brasil: http://ambientes. 2003.br/residuos/estatisticas_de_reciclagem/estatisticas_de_reciclag em_-_lixo.clicrbs.senado.br/rs/noticia-aberta/cinco-pessoas-sao-denunciadasesquema-de-corrupcao-envolvendo-coleta-de-lixo-na-regiao-das-missoes-110066.6 – Bibliografia Sítio Senado Federal: http://www12.html Sítio Gaúcha: http://gaucha.