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Impactos e Dilemas da Adoção de um Sistema de Cotas na UFPR
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Liliana Porto
2
Paulo Vinícius Silva
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Marilene Otani

1. O processo de implementação do sistema
As discussões em torno da implantação de um programa de ações afirmativas na
Universidade Federal do Paraná iniciaram-se em abril de 2001, a partir de seminário
promovido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura. Em junho de 2002, o então reitor
nomeou Comissão vinculada ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão para
organização de propostas com vistas ao vestibular de 2003 – entrada em 2004. Após um
ano, contudo, a comissão de conselheiros havia produzido pouco. Foi criada nova
comissão, formada por professores(as), funcionárias e alunos que desenvolviam suas
pesquisas e reflexões em torno da temática racial. Entre junho e agosto de 2003, esta
segunda comissão elaborou uma versão preliminar de proposta de plano de metas, a ser
discutida com os Conselhos Setoriais e posteriormente avaliada pelo Conselho
Universitário.
De agosto a dezembro de 2003, os membros da comissão debateram a citada proposta
com todos os doze Conselhos Setoriais (órgãos legislativos dos Setores – Faculdades),
com o Conselho da Escola Técnica UFPR e com o Diretório Central dos Estudantes. As
entidades representativas de técnicos(as) e de professores(as)4 não atenderam aos
pedidos de co-organizarem eventos para discussão, restringindo-se portanto a discussão
com estas categorias a sua representação nos Conselhos. Nos meses de janeiro e
fevereiro de 2004, levando em conta os debates precedentes, a comissão redigiu relatório
e o apresentou à Reitoria, que levou o tema e a proposta de Plano de Metas, já
aprimorada, ao Conselho Universitário.
Contendo algumas modificações em relação à proposta inicial apresentada pela comissão
(que tinha como foco as ações afirmativas para negros), a implantação do sistema de
cotas na UFPR se deu a partir do estabelecimento e aprovação do Plano de Metas de
Inclusão Racial e Social pelo Conselho Universitário, ocorridos em 10 de maio de 2004
(Resolução n. 37/04 do COUN). Segundo o Art. 1º. desta resolução, são reservadas 20%
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Professora Adjunto de Antropologia da UFPR, membro do NEAB/UFPR (Núcleo de Estudos AfroBrasileiros) e coordenadora de grupo de pesquisa sobre ações afirmativas na universidade no
interior do Convênio UFSCar/UFPR.
2
Professor Adjunto de Educação da UFPR, presidente do NEAB/UFPR (Núcleo de Estudos AfroBrasileiros) e coordenador do Convênio UFSCar/UFPR.
3
Estudante do Curso de Ciências Sociais da UFPR e bolsista de Convênio UFPR/UFSCar para
pesquisa na área de ações afirmativas.
4
A paritr deste ponto será adotado o genérico masculino, como forma de aliviar o texto.

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das vagas ofertadas em todos os cursos de graduação, cursos técnicos e ensino médio
oferecidos por esta Instituição, a partir do vestibular de 2005, pelo prazo de 10 anos, para
afro-descendentes “que se enquadrarem como pretos ou pardos, conforme classificação
adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)”5, e outros 20% das
vagas para estudantes oriundos de escolas públicas. A opção pela inclusão do candidato
em um dos grupos é voluntária e excludente, e independe das respostas do estudante ao
questionário sócio-econômico que antecede sua inscrição no vestibular (tanto com
relação a sua auto-classificação racial quanto ao perfil da instituição em que cursou
ensino

fundamental

e

médio).

No

entanto,

no

caso

das

vagas

para

afro-

descendentes/negros faz-se necessária uma auto-declaração de próprio punho
identificando o grupo racial a que pertence. Para indígenas, a resolução prevê número
específico de vagas, a serem preenchidas através de processo seletivo específico,
segundo demanda intermediada pela FUNAI – iniciando com 5 vagas em 2005 e 2006,
com ampliação para 7 em 2007 e 2008, chegando a dez nos anos subseqüentes.
A Resolução 37/04 não se restringe a normatizar o sistema de acesso diferenciado a
grupos específicos, mas também aborda a questão da permanência dos estudantes na
universidade, bem como a implantação de um sistema de acompanhamento e avaliação
da nova política. Com relação ao primeiro destes temas, define a implementação de
programa de apoio acadêmico e psico-pedagógico e/ou de tutoria para todos os
estudantes da UFPR que demonstrem dificuldades no acompanhamento das disciplinas,
independente de sua opção ou não pelo sistema de cotas. Em outras palavras, a opção
por um sistema de ingresso diferenciado não implica em uma dinâmica diferenciada após
a entrada na universidade – embora programas federais e estaduais, principalmente de
bolsas, voltados diretamente para cotistas tenham resultado em políticas específicas. Já
com relação ao acompanhamento e avaliação, embora a resolução definisse a
implementação de um programa acadêmico que produzisse relatórios anuais a serem
apresentados ao Conselho Universitário, isto efetivamente não ocorreu. A Comissão
designada para implementação e acompanhamento do plano, por sua vez, solicitou sua
recomposição ao reitor em 2009 – tanto para atender às modificações da universidade
quanto à disponibilidade de participação de seus membros – mas ainda aguarda tal
recomposição. Alguns de seus membros, contudo, continuam atuando no sentido de
acompanhar e avaliar o plano de metas, devido a compromissos e interesses de pesquisa
próprios6.

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Em maio de 2007, através da Resolução 17/07-COUN, esta redação é modificada para
estudantes negros, sendo definidos como negros “os candidatos de cor preta ou parda, que
possuam os traços fenotípicos que os caracterizem como pertencentes ao grupo racial negro”.
6
Caso dos autores deste texto.

28 – Serão convocados para a segunda fase os candidatos melhor classificados na primeira fase em cada curso (independentemente de terem optado ou não pelas vagas de inclusão racial e social). segundo o Edital 01/2004 do Núcleo de Concursos da UFPR: Art. a partir da análise do impacto social relevante e dos bons resultados auferidos pelos alunos cotistas entre 2005 e 2007. quando a relação candidato/vaga for igual ou inferior a 10. na prática. c) N=5. quando a relação candidato/vaga for igual ou superior a 20. Os candidatos que passam para a segunda fase são considerados aprovados na primeira delas. todas as vagas remanescentes seriam preenchidas com os candidatos com melhor resultado na classificação geral. ou seja. o Pró-Reitor de Graduação informou mudanças no concurso vestibular recentemente estabelecidas. A partir de agora. em número de “N” vezes o número de vagas. . em um aumento do número de vagas para cotistas de 7 As duas datas indicam que o vestibular foi realizado em 2005. com entrada para 2006. para somente depois voltar à classificação geral. havendo vagas remanescentes de uma das cotas. quando a relação candidato/vaga for igual ou superior a 5 e inferior a 15. fazendo com que passasse a ter duas fases. a partir de então. quando a relação candidato/vaga for igual ou superior a 15 e inferior a 20. d) N=5. Assim. assumindo “N” um dos seguintes valores. para o vestibular 2008 foi instituído que. b) N=3. quando a relação candidato/vaga for igual ou superior a 15 e inferior a 20. O número de vagas para a segunda fase. sendo preenchidas inicialmente as vagas relativas às cotas e havendo posterior preenchimento das vagas restantes com os aprovados na classificação geral. há uma mudança significativa e que afeta decisivamente o preenchimento das vagas de cotas para negros. b) N=4. o COUN determinou a adoção de reserva de vagas somente entre aprovados na primeira fase. como veremos. a partir do vestibular 2005/20067. passa a ser definido com base em um índice (N) que multiplica o número de vagas do curso de acordo com a relação candidato/vaga no processo de inscrição. passando. c) N=4. ou. a classificação buscará no outro grupo de cotas os aprovados. faremos referência apenas ao ano de entrada. dependendo da relação candidato/vaga em cada curso: a) N=3. ou. Como se explicita no texto citado. segundo o Edital 03/2005. quando a relação candidato/vaga for igual ou inferior a 5. este seria o vestibular 2006. ainda. nesta há concorrência universal.3 Ao longo da sessão. pois os índices acima são reduzidos. Assim. que todos os alunos aprovados no vestibular (segunda fase) sejam ordenados em uma classificação geral. a: a) N=2. e o regime de cotas se aplica apenas na segunda fase. Esta medida resultou. A Resolução 37/04 prevê. no momento de implantação do sistema. quando a relação candidato/vaga for igual ou superior a 20. d) N=6. quando a relação candidato/vaga for superior a 10 e inferior a 15. Entretanto. Em caso de não preenchimento da totalidade das vagas de uma categoria. Neste sentido.

portanto. com a reserva de uma vaga por curso de graduação. 4) modificação. portanto. a partir do processo seletivo 2009. 1º. não explicita detalhes do processo de implementação. desde sua implantação em 2004 (vestibular 2005). com os dados gerais do questionário sócio-econômico. já citada. As mudanças acima descritas são resultado da dinamicidade da regulamentação do Plano de Metas. afirma: “A UFPR designará anualmente.4 escola pública. Trabalhará. incorporando uma terceira fase (em que também não incidem cotas) para os cursos de Matemática. que serão definidos através de normatização específica (sendo os editais de vestibular documentos significativos neste sentido). Matemática Industrial e Estatística a partir do vestibular 2006. dentre as quais vale a pena citar: 1) definição pela não divulgação pública nominal dos cotistas – sendo os nomes dos aprovados reunidos em lista única. membros da comunidade interna e externa para comporem Banca de Validação e Orientação da Auto–Declaração”. Cabe citar. reduziu significativamente mesmo em relação ao percentual atingido no primeiro vestibular com cotas (2005). 2) opção destes por concorrer pelo sistema de cotas através de seleção de categoria pré-definida no ato de inscrição para o processo seletivo do vestibular. Além disso. que a Resolução 70/08 ampliou as ações afirmativas da UFPR. ainda. como ficará claro na análise a seguir. composta por no mínimo um representante da UFPR e representantes do Movimento Negro. responsável pelo processo de avaliação e certificação da autodeclaração dos aprovados no vestibular (dependendo desta a homologação da matrícula)8. através de Portaria do Reitor. Além disso. em que o § 3º do Art. 3) estabelecimento de uma comissão de três membros. algumas decisões operacionais foram tomadas. . essencialmente. não considerará as matrículas efetivamente realizadas ou aquelas inviabilizadas por problemas documentais ou não validação da auto-declaração dos alunos cotistas negros pela Banca de Validação 8 Esta comissão é inserida na Resolução 37/04. preenchido por todos os candidatos no momento de inscrição no vestibular. Nos processos dos vestibulares já realizados. na medida em que os aprovados por cotas raciais não têm atingido o percentual previsto de 20% das vagas – e. após redução das vagas para a segunda etapa resultante da mudança nos índices descrita acima. ensino profissionalizante e ensino médio da universidade para pessoas com deficiência. do fator de multiplicação que define o número de vagas para a segunda fase. Não abordará. o sistema de reserva de vagas para indígenas ou portadores de necessidades especiais. 5) adoção de processo estendido do vestibular. se a Resolução 37/04 define parâmetros gerais de orientação da adoção de políticas afirmativas para a UFPR. A proposta deste texto é analisar como a adoção de uma política de cotas raciais e de escola pública alterou o perfil dos aprovados nos vestibulares da UFPR.

quando se inicia o sistema de cotas. segundo os dados apresentados na Tabela 2. pode-se observar. nos basearemos nos dados dos questionários sócio-econômicos preenchidos por todos os candidatos no ato de matrícula no processo seletivo. A partir deste ano. A Inclusão Racial No que tange à inclusão racial. propomos aqui analisar comparativamente os resultados dos vestibulares da universidade desde 2004. 10 Usamos a categoria “negros” como correspondente ao agrupamento daqueles que se autoclassificam como “pretos” e “pardos” ao responder ao questionário sócio-econômico preenchido no momento de inscrição no vestibular. que houve mais que uma duplicação da presença de negros10 entre os aprovados no vestibular. cremos.6% e 14. Os impactos da política no perfil dos aprovados no vestibular Pensar o sistema de cotas sociais e raciais da UFPR exige que tenhamos em mente ser esta a grande política de inclusão da universidade nos últimos anos.3% do total de aprovados para entre 20. Mudança esta que. não se deve a um aumento semelhante de inscritos negros (enquanto os aprovados negros sobem de 9. A. este aumento entre os inscritos é de no máximo 2. 2. Assim. é evidente e numericamente significativa. No primeiro ano das cotas.5 e Orientação da Auto-Declaração. No entanto. esta análise de seus resultados e das várias possibilidades de sua regulamentação pode. a adoção de cotas gera uma democratização significativa no acesso de negros à Universidade Federal 9 Os dados de escolaridade paterna apresentam resultados similares aos de escolaridade materna. .80% e 16. embora haja uma redução. como já dito. Em outras palavras.80%. Para tanto. os percentuais continuam muito maiores que o ano de referência de 2004 – oscilando entre 14. a partir da totalização realizada pelo Núcleo de Concursos da UFPR. como exemplo de um tipo de política que se instaurou recentemente em várias universidades do país.46%. bem como refletir sobre as diferenças entre grupos de aprovados de acordo com a sua opção por uma das cotas específicas – racial ou social – ou pela concorrência geral. a mudança no perfil dos aprovados da UFPR desde 2005. 3) inclusão social – levando em conta a declaração de escolaridade da mãe dos candidatos/aprovados9. tentando perceber mudanças no perfil racial e sócio-econômico dos aprovados.27 pontos percentuais). Três serão os eixos de nossa análise: 1) inclusão racial – percebida a partir da auto-classificação racial dos candidatos/aprovados. Escolhemos trabalhar com apenas uma variável para simplificar a análise. contribuir para uma reflexão mais ampla – mesmo reconhecendo que uma série de questões fundamentais permanecerão em aberto. 2) inclusão econômica – baseada nos dados de renda declarados. como também fica claro na comparação com os dados da Tabela 1.

37% 79. impede que negros inscritos por cotas raciais se classifiquem para a segunda etapa (pois as cotas não valem para a primeira etapa).45% 81.01% 16. quando então o percentual se estabiliza em pouco mais de 16%.87% 81. enquanto em 2005 13.31% 81.20% no ano seguinte.75% das vagas para cotas raciais foram preenchidas.53% 74. duas questões se colocam.64% 81. A primeira delas remete à diminuição.25% 14. que leva a uma redução média de uma vez o número de vagas de cada curso (com exceção dos cursos que têm entre cinco e dez candidatos/vaga.46% 16.35% Tabela 2: Percentual de aprovados nos processos seletivos da UFPR entre 2004 e 2010.12% 14.57% 15.94% 81.95% em 2009 – taxa mais baixa de todos os anos considerados.06% 14. para os quais o índice permanece o mesmo). e gera uma redução significativa do percentual de vagas preenchidas via cotas raciais. este número caiu para 8. de 26.53% 82.86% 12. também significativa. Primeiro.6 do Paraná. de acordo com auto-classificação racial Brancos Negros 2008 2009 2010 2004 2005 2006 2007 83. chegando a 6.89%. que se observa do percentual de negros a partir do ano de 2006 (segundo ano de adoção de cotas) e do ligeiro crescimento a partir de 2008. Dois são os fatores que contribuem para a redução de 2005 para os anos subsequentes.42% 13.27% 79. . Tabela 1: Percentual de inscritos nos processos seletivos da UFPR entre 2004 e 2010. embora o percentual de aprovados permaneça bem inferior ao de negros entre a população do estado – que é. Assim. Como o número de inscritos por cotas raciais não é alto.46% 81. de acordo com auto-classificação racial Brancos Negros 2008 2009 2010 2004 2005 2006 2007 85.80% 16.30% 20.44% Aqui.32% 79. a mudança no índice “N” que define o número de vagas para a segunda etapa. esta redução.10% 14. que não afeta a concorrência geral e as cotas sociais. segundo PNAD 2008.68% 80.30% 14.15% 14.56% 9.

19% 941 613 65. mesmo com a mudança das normas.15% 5997 1831 30.50% 6109 1781 29. questão que pode ser melhor investigada para a UFPR.89% 5371 1305 24. na medida em que os pardos poderiam ter dúvidas quanto à maneira pela qual seria interpretada sua auto-classificação. os dados demonstram que o mesmo não ocorre com a inclusão racial – e isto ao longo de todo o período.97% 5205 1221 23. 36. este número se reduz para entre 29. Com efeito. . se não há uma redução significativa do número de negros inscritos para o vestibular. enquanto. de acordo com a Tabela 3.04% dos negros inscritos para o vestibular da UFPR optam por cotas raciais.49% 914 629 68.46% 5168 1168 22.7 Tabela 3: Percentual de negros inscritos para o vestibular da UFPR entre 2004 e 2010 que optam por cotas raciais 2004 2005 Inscritos Inscritos Cotas Raciais 2006 Inscritos Cotas Raciais 2007 Inscritos Cotas Raciais 2008 Inscritos Cotas Raciais 2009 Inscritos Cotas Raciais 2010 Inscritos Cotas Raciais Pretos 1258 1025 699 68. 64) aponta uma grande diferença entre a opção pelas cotas raciais entre pardos e pretos no vestibular da UNEB. inclusive.42% Além disso.04% 6040 1782 29. se a inclusão tanto econômica quanto social é garantida pelos dois tipos de cotas. Assim. sendo esta redução maior entre pardos que pretos (entre estes há.53% 6147 1827 29. Assim. os negros têm tanto na concorrência geral quanto nas cotas para escola pública uma taxa percentual de 11 Embora esta seja uma questão que exige maiores reflexões.60% 5085 1179 23.82% 915 670 73. a experiência com a avaliação da auto-declaração talvez seja uma das causas desta redução. Mattos (2008.42% (2010). em 2005.14% 912 652 71.20% 835 561 67. esta redução ocorre entre negros que optam por cotas raciais.72% 6286 1975 31. principalmente com relação aos pretos (pois com relação aos pardos a transferência de vagas das cotas raciais para de escolas públicas traz para eles benefícios). p.15% (2007) e 31.19% 5233 1198 22. A redução descrita é ainda mais relevante quando observamos que são as cotas raciais que garantem a inclusão racial.30% Negros 5654 6451 2325 36. aumento a partir de 2008)11. A adoção somente de um sistema de cotas para alunos oriundos de escola pública continua mantendo o perfil branco preferencial dos aprovados.22% Pardos 4396 5426 1626 29.

mas o que aqui nos interessa é que. que a partir de 2006 optam por ela em menos de 25% dos casos. os resultados dos vestibulares da UFPR demonstram a necessidade de manutenção das cotas raciais. Provavelmente há fatores sociais complexos nesta menor taxa de aprovação de negros em relação a brancos (e amarelos). após a implantação de cotas: .00% 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Nos dois gráficos acima fica evidente como são as cotas raciais que garantem a aprovação de grande percentual dos pretos que ingressam na universidade. Este aspecto se torna ainda mais evidente se inserimos gráficos de inscritos e aprovados.00% 70.00% 60.00% 0. não ser aquela de preferência dos pardos. 30. como vimos na Tabela 3. Ger.00% 10.00% Conc.00% 0.00% 50.00% 80. Racial Escola Pub. Ger. Racial 20.00% 90. se a inclusão racial é uma meta. pretos e pardos.00% 40. Gráfico 1: Aprovação percentual de pretos por categoria de inscrição nos vestibulares 2004-2010 100.00% 50. C.00% Conc. bem como é a categoria de inscrição que mais aprova pardos – apesar de.00% Escola Pub.00% 30. 10. no primeiro e último vestibulares realizados até o momento.00% 20.00% C.8 aprovação (TA – obtida através da divisão do total de aprovados pelo total de inscritos) claramente menor que a taxa de aprovação dos brancos.00% 60.00% 40. 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Gráfico 2: Aprovação percentual de pardos por categoria de inscrição nos vestibulares 2004-2010 70.

Esc. Pub. Pub. 5 e 6 : Distribuição de pretos e pardos.9 Gráfico 3. Pub. Esc. Esc. tanto em termos de opção pelas categorias de inscrição quanto de distribuição de sua aprovação por categorias. por categoria de inscrição. entre inscritos e aprovados do vestibular 2005 Pretos inscritos no vestibular 2005 Pretos aprovados no vestibular 2005 Geral Geral Afro-Desc. Pub. Afro-Desc. Neste caso. 4. mantemos as distinções na autoclassificação dos negros devido aos resultados distintos para pretos e pardos. Afro-Desc. Pardos inscritos no vestibular 2005 Pardos aprovados no vestibular 2005 Geral Geral Afro-Desc. É visualmente explícita a responsabilidade das cotas raciais na inclusão tanto de pretos quanto de pardos na universidade. . Esc.

10 Gráfico 7. o sucesso das cotas raciais na garantia do aumento da presença de negros na UFPR. não seja esta sua opção preferencial no momento da inscrição). Tornar as cotas mais inclusivas . Pub. NOMURA e PERES. uma defasagem de cerca de 10 pontos percentuais na representação dos negros na UFPR. Pardos inscritos no vestibular 2010 Pardos aprovados no vestibular 2010 Geral Geral Afro-Desc. os percentuais sejam menores que o percentual de negros da população paranaense em geral. observado após esta mudança. Os dados relativos aos vestibulares da UFSC (TRAGTENBERG. BASTOS. entre inscritos e aprovados do vestibular 2010 Pretos inscritos no vestibular 2010 Pretos aprovados no vestibular 2010 Geral Geral Afro-Desc. a população negra no Paraná é de 26. por categoria de inscrição.89% (PNAD 2008). apesar das conquistas. Toda a discussão acima demonstra. Pub. Com efeito. Esc. ao passo que nesse artigo a análise é de dados empíricos coletados entre 2004 e 2009. em síntese. contudo. como dissemos. Afro-Desc. os pretos de escola pública estão entre aqueles que têm a menor taxa de aprovação percentual – para os pardos o aumento das vagas para cotas de escolas públicas remanescentes das cotas raciais trouxe um aumento em seu índice de aprovação nesta categoria – que contribuiu para o aumento de cerca de 1% de aprovação de negros entre todos os aprovados. são as cotas raciais também responsáveis pelo maior ingresso de pardos (embora. Pub. Esc. A consideração dos gráficos para o ano de 2010 traz ainda outra observação. Esc. Pub. 8. como indicamos. com a diferença que tais autores fizeram simulações. 2006) são coincidentes com os aqui apresentados. havendo ainda. Esc. embora. Afro-Desc. mesmo com o evidente crescimento do contingente de aprovados que assim se auto-classifica. Mesmo assim. que já se evidenciava no gráfico 2: enquanto no caso dos pretos as cotas para estudantes de escola pública não garantem a inclusão – ao contrário. 9 e 10 : Distribuição de pretos e pardos.

89 vezes menor que a população negra do Paraná. Em 2004 a UFPR tinha 9. 2003. 2000) em direção à promoção de igualdade racial ainda é um projeto. As políticas adotadas até aqui estancam o sangue mas não curam a ferida. ou seja. 1.8% para 11. Então o resultado fica ainda mais limitado.29% 28.57% (tabela 2). buscando pelo menos reverter a retração sofrida do primeiro ano de implantação do sistema para os seguintes. 2007) que para diminuir a desigualdade racial no estado seria adequado que o percentual de negros na universidade fosse maior que o percentual de negros no estado. ao demonstrar o significativo retrocesso do preenchimento de cotas raciais do primeiro ano de implantação do sistema para os seguintes: Tabela 4: Número de cotistas aprovados nos processos seletivos da UFPR entre 2004 e 2010 e percentual em relação ao total de aprovados.77% Anteriormente discutimos (SILVA.32% 22. COTAS 2004 Escola NÃO HÁ Pública COTAS NÃO HÁ Negros COTAS 2008 2009 2010 TOTAL 2005 2006 2007 930 984 985 1264 1572 1604 7339 22.89.31 vezes menor que a população do estado.1 vezes menor que a população negra do estado e a partir de . entre 1960 e 1996 para a população acima de 25 anos os brancos com curso superior completo saltaram de 1. mas ainda não conseguimos nem caminhar na direção da efetiva diminuição da desigualdade.31% (tabela 2) de aprovados negros.95% 7. ou seja.20% 7. ou.6%. coloca-se como uma meta relevante para a Universidade Federal do Paraná. em outras palavras. a população ingressante na UFPR naquele ano foi 2. A tabela abaixo. conforme SILVA.24% 7.75% 28. DUARTE e BERTULIO. Em 2005 os ingressantes negros foram 20.85% 22.44% 6. Significa que se tomarmos os macro-dados relativos à população acima de 25 anos com curso superior completo diminuímos a tendência a acentuar rapidamente o fosso entre brancos e negros.74% 573 353 320 330 380 434 2390 13. a razão era 2. que sintetiza o número de cotistas que aprovados nos vestibulares da UFPR até o momento. Combater as desigualdades raciais acumuladas (em ciclos cumulativos.65 vezes menor que a população negra do Paraná entre 2008 e 2010.75% 8. ao passo que negros passaram de 0. pois o percentual de negros aprovados nas cotas foi em 2005 2. Conforme tabulações específicas dos dados dos censos realizadas por TELLES. O estabilizar em cerca de 16% (tabela 2) significa que mesmo com a cotas a entrada de alunos negros na UFPR foi 1. É possível realizar o mesmo exercício com o percentual somente dos aprovados nas cotas. que a razão entre a população negra no estado e os alunos negros na UFPR fosse menor que 1. no primeiro ano das cotas aproximou-se mas não atingiu-se a proporção de negros na população paranaense.2% para 4%.11 racialmente.50% 28. aponta neste sentido.

5 e 4.00 4. enfrentamos a dificuldade estatística de trabalharmos com faixas de renda fixas nos sete anos. como se explicita no Gráfico 11.00% R$2001. Gráfico 11: Taxa de aprovação por faixa de renda familiar dos candidatos inscritos nos vestibulares da UFPR entre 2004 e 2007. ao compararmos as taxas de aprovação por faixa de renda dos candidatos entre 2004 e 2007.00-R$5000. Por isto. no caso da inclusão econômica é importante ressaltar que ambas as cotas contribuem de maneira significativa para a mesma.00% R$501. observamos um achatamento da inclinação do triângulo desta taxa após a implementação do Plano de Metas. A Inclusão Econômica Ao avaliarmos os impactos do sistema de cotas no aumento da inclusão econômica na UFPR.00% Até R$500.1 vezes.00% 2004 2005 2006 2007 Ao contrário do que ocorre com a inclusão racial. Acrescente-se que. a comparação só é possível entre os anos 2004 a 2007 (em que é possível. Assim. B. chegar a valores comuns). apresentando um perfil de renda familiar significativamente distinto daquele dos . Este achatamento é ainda mais significativo se consideramos que as faixas de renda mais altas tendem a ter uma taxa de aprovação também mais elevada.00-R$1000.00 6. Numa política de promoção de igualdade racial teríamos 27% de cotistas raciais e o excedente de negros aprovados nas outras categorias teria um sentido de combater as desigualdades acumuladas. agrupando faixas. 16.00% R$1001.00% 14.00 2.00% 0. nos últimos três anos. só será possível demonstrar a maior inclusão econômica através do gráfico que considera apenas estes quatro primeiros anos. não tendo sido consideradas as desvalorizações monetárias no período.00 10.12 2006 entre 3.00 8. estas taxas mudaram.00-R$2000. não coincidindo os valores mínimos e máximos. Sendo assim.00% 12. e com a não correção monetária das faixas de renda há tendência a um deslocamento daqueles que se encontravam no topo de uma faixa (teoricamente os que apresentavam maior rendimento naquela faixa) para a seguinte.00% Acima de R$5001.

Geral Cotas Negros Escola Pública Gráfico 13: Distribuição dos aprovados no vestibular 2006.00 25. Aqui.00% 35.00-R$1000.00 25. novamente apresentaremos três gráficos: do primeiro ano de cotas (2005).00% 40.00 15. do primeiro ano de diminuição de vagas para a segunda etapa (2006) e do primeiro ano de transferência das vagas remanescentes de cotas para negros para as cotas para escolas públicas (2008).00-R$5000.00% R$501.00% Conc.00-R$2000.00-R$5000.00 10.00% 0.00% 20.00 15.00% R$2001.00-R$2000.00% Até R$500.00 30.00 30.00% Acima de R$5001.00% R$1001.00% Até R$500.00-R$1000.13 candidatos aprovados pela concorrência geral.00% 35. Em todos os casos – apesar de o gráfico de 2008 trabalhar com faixas de renda muito distintas e mais altas – evidencia-se o que foi dito acima. Gráfico 12: Distribuição dos aprovados no vestibular 2005.00% Acima de R$5001.00% 0.00% Conc.00% 45.00 10. por categoria de inscrição e renda familiar declarada 50.00% R$2001.00% R$1001.00 5.00 5.00% 20.00% 45.00% 40.00% R$501. por categoria de inscrição e renda familiar declarada 50. Geral Cotas Negros Escola Pública .

podemos perceber que o sistema de cotas.R$6080.00% 16.00 R$1521.R$4560.00 .00% 0.00% Acima de R$6081.00% R$3041.R$3040. Quando comparados os índices de aprovação das várias categorias nos diversos anos do vestibular.00 15. Aqui. ano em tempo integral 2. se há um acréscimo geral nas taxas de aprovação nos últimos anos.00 .00 .R$2280.00 25. garantiu uma maior possibilidade de ingresso de estudantes trabalhadores (chegando aqueles que declaram .00 5.00% Desde o 1o.00% Conc.00% 40. percebemos que há um acréscimo das taxas de aprovação daqueles que declaram a necessidade de trabalho desde o início do curso. ano em tempo parcial 4.R$1520. desde que instaurado.00% Até R$760. seja em tempo integral.00% 45.00% Não e não sei 10. efetivamente.14 Gráfico 14: Distribuição dos aprovados no vestibular 2008.00% Desde o 1o.00 30.00% 14.00 . por categoria de inscrição e renda familiar declarada 50. devido principalmente ao aumento de vagas na universidade e certa estabilidade na procura. Geral Cotas Negros Escola Pública As reflexões sobre inclusão econômica também podem ser pensadas a partir da declaração dos estudantes sobre a necessidade de trabalhar ao longo do curso.00% 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Assim.00 20.00% 6.00% 35.00% R$761.00% 12.00% R$2281.00% 0. cabe observar que reunimos as respostas não e não sei devido a ambas indicarem.00% Apenas nos últimos anos 8.00 10. seja em tempo parcial. a ausência da necessidade de trabalho: Gráfico 15: Taxa de aprovação por declaração de necessidade de trabalho nos vestibulares 2004 a 2010 18.00% R$4561.00 .

e supusermos que a opção pela resposta “não sei” ou “apenas nos últimos anos” se aproxima.42% 49.22% 57.78% 69.58% 50. Cotas Escola Conc. desde o início do curso.47% 30. as distinções entre cotistas e não cotistas do ponto de vista econômico são muito mais relevantes.26% 50.13% 47.80% 32. observamos que.66% 53.20% Sintetizando os dados referentes à inclusão econômica podemos afirmar. em certa medida. d) embora haja algumas distinções entre os dois grupos de cotistas. C.42% 43. 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Não sabe e não precisa trabalhar desde Precisa trabalhar desde o início do curso o início do curso Conc. da opção “não”.82% 55. portanto. Cotas Escola Geral negros Pública Geral negros Pública 69. O perfil de renda diferenciado dos cotistas tanto raciais quanto de escola pública também aparece quando levamos em conta a declaração de necessidade de trabalho dos aprovados nos processos seletivos da UFPR.15 necessidade de trabalho em tempo integral mesmo a ter um índice de aprovação mais alto nos últimos dois anos).24% 54. b) ambas as cotas contribuem de maneira relevante neste aumento.53% 67. que: a) a adoção das cotas raciais e de escola pública pela UFPR aumenta a chance percentual de candidatos com renda familiar mais baixa de ingressarem na universidade. Se considerarmos a escolaridade .06% 67. c) o perfil de renda familiar entre cotistas e não cotistas. discriminados por opção ou não por cotas.49% 44.34% 46. pelo menos em tempo parcial. A Inclusão Social Os dados de inclusão social a partir da adoção das cotas apresentam tendência semelhante àqueles discutidos no item anterior.58% 56.87% 52.78% 42.18% 44.01% 31.59% 55.74% 49. enquanto em torno de 55% dos cotistas negros e 50% dos cotistas de escola pública necessitam de trabalhar. seja integralmente.77% 49. 2008 e 2010 (a fim de considerar as mudanças efetivadas no sistema do vestibular e trazer os dados mais recentes). Se considerarmos que apresentam efetiva necessidade de trabalho aqueles que declaram precisar trabalhar seja parcialmente.41% 45. Tabela 5: Declaração de necessidade de trabalho dos aprovados nos vestibulares 2004 a 2010. este número é apenas de em torno de 31% entre os não cotistas. desde o primeiro ano do curso.23% 50.99% 69.76% 68. 2006.94% 32. assim como a necessidade de trabalho de ambos os grupos são diferenciados. A opção aqui será apresentar tabela que discrimine em duas variáveis os dados referentes a 2005.00% 52.00% 47.24% 30.22% 30.76% 45.51% 55.

00% Sem escolaridade 8. novamente são as duas formas de cotas as grandes responsáveis por este achatamento.00% 12.00% Ensino médio completo 4.00% 10. Gráfico 16: Taxa de aprovação dos candidatos nos vestibulares 2004 a 2010. Principalmente nos dois últimos anos. bem como as categorias ensino médio completo e ensino superior incompleto em ensino médio completo. pois há uma clara diferenciação entre a escolaridade das mães de cotistas (observa-se a mesma tendência também com relação à escolaridade dos pais) – sejam raciais ou de escola pública – e não cotistas.00% 0. se acentua a partir de 2008. o índice geral de aprovação no vestibular sobe dois pontos percentuais. quando o aumento da taxa de aprovação geral da universidade se reflete principalmente nos grupos que declaram escolaridade mais baixa da mãe. 2006 e 2010 de percentual de aprovados na concorrência geral e nos dois grupos de cotas com relação à escolaridade declarada da mãe. por sua vez. Este. e pela primeira vez os candidatos com mãe com ensino médio completo superam aqueles em que a mãe possui ensino superior completo. Também desconsideramos aqueles que disseram não saber a escolaridade da mãe.00% 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Além disso. observamos que também há um achatamento no triângulo que representa a taxa de aprovação dos candidatos a partir da adoção do sistema de cotas (Gráfico 16).16 declarada da mãe dos candidatos12.00% Ensino superior completo 2. . Esta situação se explicita quando consideramos os gráficos referentes a 2005. de acordo com escolaridade declarada da mãe 14. 12 A fim de que o gráfico ficasse com a visualização mais fácil. unificamos as categorias ensino fundamental completo e ensino médio incompleto em ensino fundamental completo.00% Ensino fundamental incompleto Ensino fundamental completo 6.

Geral Cotas Negros Escola Pública Gráfico 18: Distribuição dos aprovados no vestibular 2006 da UFPR por escolaridade declarada da mãe.00% 0.17 Gráfico 17: Distribuição dos aprovados no vestibular 2005 da UFPR por escolaridade declarada da mãe.00% Ensino superior completo 10. Geral Cotas Negros Escola Pública .00% Conc.00% Sem escolaridade Ensino fundamental incompleto 30.00% 45.00% Ensino fundamental completo 20.00% Sem escolaridade 30.00% 35.00% 0.00% 5.00% Ensino médio completo 15.00% Ensino fundamental incompleto 25. discriminados por opção ou não por cotas 60.00% 40. discriminados por opção ou não por cotas 50.00% Ensino superior completo 10.00% Ensino fundamental completo Ensino médio completo 20.00% 50.00% Conc.00% 40.

certas questões se colocam como significativas para a reflexão. 18 e 19). enquanto o percentual de aprovados pela concorrência geral que têm mãe com nível superior completo está entre 47% e 57% nos anos considerados.18 Gráfico 19: Distribuição dos aprovados no vestibular 2010 da UFPR por escolaridade declarada da mãe. discriminados por opção ou não por cotas 60.00% Sem escolaridade Ensino fundamental incompleto 30. A análise de resultados e sua divulgação é .00% Ensino superior completo 10.00% Ensino fundamental completo Ensino médio completo 20.00% 40. a meta de garantir que o acesso à universidade pública seja mais democrático. Curiosamente. Novamente. além disso. são estes que apresentam uma maior taxa de mãe sem escolaridade (ficando entre 4% e 6%). Geral Cotas Negros Escola Pública Assim.00% 50. que o ambiente de produção e transmissão de conhecimento que ela representa seja mais plural. 3.7 % entre os cotistas de escola pública e só no ano de 2005 dentre os três considerados chega a mais de 0. a distinção entre aprovados cotistas e não cotistas é mais significativa que aquela entre os aprovados em cada uma das categorias de cotas – pois se há um percentual maior de filhos de mães com ensino superior completo entre cotistas negros que entre cotistas de escolas públicas.00% Conc. apesar de ter havido um crescimento de aprovados com mães com nível superior em 2010.00% 0. Por outro lado. este percentual cai para em torno de 22% nos mesmos períodos entre os cotistas raciais. isto não ocorre entre os cotistas negros. e ainda a necessidade de fazer com que o ingresso seja acompanhado da possibilidade de permanência e sucesso na universidade de todos os grupos sócio-econômico-raciais. e entre 13% e 16% entre os cotistas de escola pública. As possibilidades de reflexão após análise dos resultados de seis anos de implementação do sistema Tendo em vista a discussão desenvolvida acima. percentual este que não atinge 1. também é entre eles que se encontra o percentual mais relevante de filhos de mães sem qualquer escolaridade.5% entre não cotistas (Gráficos 17.

Ao contrário. Observa-se que a questão econômica não abrange todos os sistemas de desigualdade da nossa sociedade. pode-se destacar a elaboração de infra-estrutura e políticas de permanência mais eficazes e abrangentes. Isto se evidencia no caso específico do sistema de cotas da UFPR. as previsões alarmantes daqueles vinculados ao discurso da meritocracia não se cumpriram. não subordinadas a cotas de escola pública. garante tanto a pluralidade racial da universidade como o reconhecimento de que o racismo é presente na sociedade brasileira e exige ações claras e específicas em seu combate. Dentre elas.19 significativa para o contexto do debate acadêmico sobre as Aços Afirmativas. após seis anos de implantação. a menor taxa de aprovação de negros entre os candidatos que optam por cotas de escola pública ou pela concorrência geral aponta como causas fatores sociais mais complexos – dentre os quais se pode aventar as influências do racismo no processo de socialização e de preparação dos candidatos para enfrentar contextos de tensão e concorrência social. p. Não se pode perder de vista que o sistema de cotas da UFPR. Ao se pensar a inclusão na universidade pública. Tomando para a UFPR as palavras de Jaccoud (2008) para o Brasil: “os programas de ação afirmativa vêm democratizando o acesso ao ensino superior e diversificando o perfil racial e social do corpo discente da instituição (2008. a existência de cotas específicas para negros. começaram a se formar os primeiros cotistas. quando consideramos a questão da inclusão racial. deve-se fazê-lo levando em conta não apenas critérios econômicos. e o Plano de Metas de Inclusão Social e Racial não foi responsável por problemas no sistema de ensino. Com efeito. a fim de garantir que a democratização no acesso resulte em uma efetiva formação de qualidade para grupos hoje alijados . muitos deles se destacando academicamente. Além disso. já aprovou em seus vestibulares quase 10. transformou a universidade em um ambiente mais diverso – podendo-se prever que o conhecimento aqui produzido tenha matrizes também mais amplas e diversificadas. pois passamos de uma discussão pública sobre princípios abstratos de justiça distributiva para discussão de procedimentos sobre os processos de implantação de políticas afirmativas e o debate deve avançar para os resultados e progressos de incluir a negros em espaços sociais quase exclusivamente brancos (estamos em acordo com ZONINSEIN. Gostaríamos. Desde o ano passado. de elencar algumas questões derivadas dos resultados observados: I.000 cotistas (7339 em cotas de escola pública e 2390 em cotas raciais). pesquisa ou extensão. A maior inclusão tanto racial quanto social e econômica na UFPR coloca para a instituição a necessidade de encarar as demandas que esta inclusão provoca. Neste sentido. mas também sociais e raciais. 2006). III. 153). II. aqui.

A diminuição da inclusão racial por uma medida justificada apenas por contenção de gastos na mudança das regras no vestibular. e não apenas a sua segunda etapa (inclusive nos processos estendidos)? A análise até aqui aponta que se a proposta é de diversidade em espaços diversos o sistema tem conseguido bons resultados. e não apenas como indivíduos beneficiados por uma política específica. 13 Em palestra realizada no evento Avaliação de Políticas Afirmativas: 6 Anos após Durban. IV. modificando (no mínimo para restaurar os de 2005. Não seria mais coerente e interessante possibilitar o preenchimento das vagas para cotas raciais por negros. A complexidade e interesse da discussão nos impedem de reproduzi-la aqui. quanto em sua inserção em espaços de pesquisa. bem como o Projeto Afroatitude – demonstraram sua significativa contribuição tanto na permanência dos cotistas na universidade. extensão e discussão das políticas afirmativas. Pois se tínhamos nos aproximado mais. mas com a possibilidade de mudanças mais profundas) os índices de definição de vagas para a segunda etapa? Ou mesmo aplicar cotas a todo o processo. As distinções evidentes entre os grupos de cotistas e não cotistas levantam o questionamento de se o modelo da UFPR de um atendimento universal é o mais adequado. não solucionada pela decisão da transferência das vagas para aprovados por cotas de escola pública. o Prof. e não é possível para a instituição (por questões financeiras e humanas) elaborar políticas universais. José Jorge de Carvalho fez uma reflexão bastante interessante sobre o potencial das cotas na produção de um conhecimento descolonizador. Se o perfil e as necessidades dos grupos são diversos. conjugada com a transferência das vagas excedentes para as cotas de escola pública. por exemplo. de um índice adequado de inclusão frente à composição populacional do Paraná. . Acrescente-se ser fundamental que a universidade incorpore na sua reflexão e produção de conhecimento a riqueza trazida pela diversidade. cabe perguntar se a adoção de políticas voltadas para grupos específicos não seria uma opção interessante e coerente com o sistema de cotas. em 2005.20 do processo de educação universitária. Mesmo porque programas externos direcionados para os cotistas – como. não tentando simplesmente o enquadramento dos diversos grupos em um modelo de conhecimento pensado como único e universalmente válido13. V. nos faz pensar em que medida a inclusão racial se coloca como prioridade para a UFPR. mas se a meta é contribuir para a promoção da igualdade racial os resultados são limitados e adequações no sistema são necessárias. bem como dos grupos de cotistas como representantes de grupos sociais. há uma retração significativa nos anos posteriores. bolsas de pesquisa e extensão da Fundação Araucária.

Cadernos de Pesquisa. tal discussão não deve ser tomada como algo que comprometa o projeto político em si mesmo. 2006. O combate ao racismo e à desigualdade: o desafio das políticas públicas de promoção da igualdade racial In: THEODORO. Brasília: IPEA. 2008. Nelson do V. SILVA. Evandro C.) As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos. p. Wilson R. BASTOS. TRAGTENBERG. Iolanda (org. 2000. Marcelo. 161-178. v. JACCOUD. São Paulo: Paz e Terra. Rio de Janeiro: DP&A. MATTOS. Toward best-practices in the management of developmental affirmative action (AA) in Brasil In: OLIVEIRA. 473-495 . embora não se descarte a necessidade de discutir as maneiras de implementação das cotas (observamos que estas são fundamentais na garantia do alcance dos objetivos de inclusão visados). Lincon e PERES. Apesar das inúmeras polêmicas levantadas pela adoção de um sistema de cotas raciais. contribui no sentido de garantir perspectivas também mais plurais no processo de produção do conhecimento. Jonas. p.) Programa de Educação sobre o negro na sociedade brasileira.) Afrouneb: ações afirmativas e compromisso social de uma nova cultura universitária. p. P. André A. Curitiba. 2006. reforçamos. Cadernos PENESB 6. dentre as quais se destaca aquela que aponta para os problemas da classificação racial no Brasil (se auto ou hetero classificação. ZONINSEIN. Paulo V.) Tirando a máscara: ensaios sobre o racismo no Brasil. p. 33-51. p. Luciana. Comunicação na mesa “Ações afirmativas: seis anos após Durban” In: Seminário Avaliação de Políticas Afirmativas. NEAB-UFPR. 135170. Huntley e GUIMARÃES. João. 30/08 a 01/09 de 2007. (org. DUARTE. Como aumentar a proporção de estudantes negros na universidade. Rio de Janeiro: Quartet. REFERÊNCIAS: CARVALHO. Marco. NOMURA. 128. Extensão e natureza das desigualdades raciais no Brasil In: LYNN. n. Salvador: EDUNEB. 2008. Assim. . 2007. Sobre políticas afirmativas na Universidade Federal do Paraná In: BRANDÂO. é importante reforçar novamente que as cotas tornam o sistema universitário mais plural racialmente – o que. B. (org. maio/agosto. Antonio S. A. SILVA. José J..21 VI. Mario (org.) Cotas raciais no Brasil: a primeira avaliação. 57-68. e como esta deve ser feita). Wilson R. Cotas para negros na Universidade do Estado da Bahia: Histórico e breves considerações In: MATTOS. (orgs. 36.