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ROTEIRO INDICATIVO

NOTA PRELIMINAR
O documentário estará dividido em três blocos temáticos de 18 minutos
cada. Os blocos ou capítulos não serão identificados com títulos mas
servirão como pausas para sua exibição em televisão.
Este roteiro é indicativo e nele aparecem apenas fragmentos dos
depoimentos que utilizaremos.
Imagens da Segunda Guerra Mundial: bombardeios, campos de
concentração, soldados, tanques, aviões.
Jornais anunciando a entrada do Brasil na guerra.
Decreto de 31 de agosto de 1942 em que o Brasil declara a
guerra às forças do Eixo.
Imagens de Getulio Vargas e Roosevelt durante a visita do
mandatário norte-americano à base aérea de Natal em 28 de
janeiro de 1943.
Imagens dos pracinhas partindo para o front européio.
Fotos do desembarcando dos pracinhas em Nápoles, Itália.
Esta seqüência de abertura utilizará as narrações dos noticiários
de cinema e rádio da época assim como hinos de guerra.
Créditos iniciais : BORRACHA PARA A VITÓRIA
Material publicitário anunciando produtos feitos com látex:
“Tudo feito de borracha”.
Hélio Pinto Vieira:
A borracha que os Aliados tinham vinha da Malásia, era dos ingleses.
Eles roubaram nossa borracha no século XIX para adaptar lá, mas os
japoneses inimigos tomaram essa região dos ingleses quando a guerra e
então eles tiveram que recorrer a nossa borracha. Se falava que era
uma urgência porque os Aliados precisavam da borracha para os pneus
dos aviões, dos caminhões, dos barcos, sem borracha se ia perder a
guerra. Nos Estados Unidos até proibiram a venda de pneus, era um
colapso e a Amazônia era o maior reservatório de borracha do mundo.
Foto da Hevea brasiliensis.
Imagens das árvores de seringa na Amazônia.
Eu nasci na cidade de Canindé onde tem a romaria de São Francisco. Eu
morava lá meu pai era prefeito, e havia uma divulgação que nessa
época, sua Excelência o Presidente era Getúlio Vargas, então havia uma
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Imagens de Fortaleza na década de 40. que a coisa não estava funcionando pôr isso fomos para Fortaleza. Foi uma viagem completamente original. O SEMTA tinha seus recursos alocados num orçamento próprio proveniente dos Estados Unidos. A gente foi primeiro para o Maranhão mas lá parece que ninguém se alistava. “Pneus para a Vitória”. Foto do Hélio Pinto Vieira quando jovem com sua família em Canindé. Praça José de Alencar. fachada. Foto do Gerardo Nobre na época em que trabalhava no SEMTA. só a Radio Nacional no Rio e aqui acho que era a Ceará Radio Clube. Gerardo Nobre: O que ficou certo nos segmentos entre o Governo dos Estados Unidos e o Brasil foi que seria feita a transposição de trabalhadores que no momento estavam passando por necessidades aqui no Nordeste. Basta lhe dizer que eu passava numa praça onde tinha o Banco do Brasil e o funcionário 2 .divulgação para agente ir para o Amazonas a tirar borracha e ajudar na guerra. Assembléia Legislativa. Nas manchetes: “Mais borracha para a Vitória”. varando aquele interior todo. fomos de caminhão. Foi muito boa. Barão do Rio Branco. foi uma viagem inesquecível. enfrente ao prédio da Assembléia Legislativa. fora do comum. tinha 19 anos e ingressei no SEMTA como analista. onde iriam produzir a borracha e para isso foi criado o SEMTA Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia. Foto do Jean Pierre Chabloz e sua esposa Regina Chabloz em Fortaleza em 1943. corredores. particularmente no Ceará. era muito tranqüila. Nosso amigo que trabalhou com os americanos foi que nos convidou. Na época eu era jornalista da Gazeta de Noticias. Fotos do Palácio do Comércio. Os escritórios foram instalados aqui em Fortaleza. Regina Chabloz: Eu comecei trabalhar logo no início. Fortaleza era uma cidade muito boa. Fotos de Canindé na década de 40. no Centro. Cartazes da campanha publicitária do SEMTA assinada por Jean Pierre Chabloz convocando aos nordestinos para a guerra. para a Amazônia. aquelas pistas secas. escritórios onde funcionava o SEMTA. nessa época não tinha televisão. as inscrições dos que se alistavam. “Vida nova na Amazônia”. etc. no Palácio do Comercio. Rua Senador Pompeu. Meu marido e eu entramos através dos americanos. eu fazia as fichas.

almoço e jantar. ir para o front. e leite para as crianças à noite. as mulheres fardadas com suas crianças. eles vieram para se despedir. A gente era conhecida demais. A gente era muito conhecida.. As mulheres não podiam sair do Núcleo pois como elas vinham do interior não se sabia se tinham alguma doença. era questão de patriotismo. O lugar era onde hoje é a Escola Técnica. O chefe religioso do SEMTA era Dom Helder Câmara e eu fui falar com ele e me disse que não me incomodasse que ele ia resolver o problema e no domingo apareceu lá com um Padre e improvisamos um altar no refeitório e dessa forma oficiaram a missa. muito alto. porque o Núcleo era um pouco fora da cidade. loiro. Hélio Pinto Vieira: O que eu queria era ser expedicionário. Eu dirigia o Núcleo das Mulheres. as barracas. meu marido era suíço. queria ser soldado mesmo. O SEMTA tinha um serviço religioso na sua estrutura bem estabelecido. Elas reivindicavam que não podiam ir á igreja. reclamavam. e tinha dinheiro. A gente preenchia um formulário.. Foto de Jean Pierre Chabloz pintando um modelo nas ruas de Fortaleza. Era em Porangabussu. minha mãe ficou muito aflita. quando meu pai soube. Eu apesar de não ser católica achava justa a reivindicação. tinha aspeto de estrangeiro mesmo e pintava nas ruas. o exercito fazia o controle. uma ficha com seu retrato. Eu cheguei a Fortaleza e me alistei.!. Tinha também uma enfermeira e um médico. Eu sai de Canindé sem dizer nada eu vim para Fortaleza e fiz o alistamento. ele foi responsável pelo Departamento de Desenho e Propaganda do SEMTA. O Núcleo era um arruamento de casas de palha. Tínhamos um refeitório com café. Foto da Regina Chabloz no meio de um grande grupo de mulheres todas com crianças nos braços. mas não tinha idade. Quando avisei que ia embarcar. cada família tinha a sua. tem um cheque para a Sra!. Na época eu tinha 17 anos. uma aventura! Meu pai não queria que eu fosse não. 3 . Fotos do Núcleo de Porangabussu. então o pessoal não deixava elas entrar na cidade. era todo bem controlado.me gritava: Dona Regina. que era dos americanos. Os homens que ficavam dispostos a embarcar tinham o direito de deixar sua família lá sob os cuidados do governo.

Era uma oportunidade. Aquele povo todo se alistando. que nessa época não tinha caminhão de carregar gado. uma camisa branca. o negocio era rigoroso. é espalhada um bocado. Também queriam saber se você era reservista. acho que era Otavio Bomfim. se era algum bandido não alistava não. exigiam seus documentos. nós íamos para o Amazonas a ganhar muito dinheiro com a borracha. etc. mosquiteiro. o Itambé e o Minas Gerais e acho que o Poconé. tudo constava na ficha. para ver se você era analfabeto. dai para Quixadá e de Quixadá pegamos um trem para Fortaleza. o Campo Sales. A gente ficava num agrupamento aguardando. carregador de boi. ninguém sabia se era guerra. fardamento. se era lavrador. as aptidões que ele tinha. se não tinha qualquer coisa na polícia. examinando os olhos. nada de treinamento. você recebia a orientação. o que era. Tinha um exame de seleção. cortavam todinho. Tinha até navios financiados pelo governo. eram tempos de Getúlio.Desenhos de Chabloz com os “biótipos nordestinos” utilizados pela equipe médica na seleção e classificação dos soldados. se falava que você ficava rico. Diversas matérias de jornal anunciando a partida dos grupos para o Amazonas. nos cortavam o cabelo. para ver o grau de instrução. Fotos dos agrupamentos onde ficavam os soldados. um exame médico. eu fiquei de uma semana a 15 dias até preparar o pessoal e fazer o embarque. Seqüência de fotos dos exames médicos: a aplicação de vacinas. Desenho de Chabloz em que aparece todo o equipamento de viagem. tirando sangue. que o governo dava tudo. o comportamento do elemento. enfermeiras tomando a pressão. outra de Quixeramobim e minha mãe é de Juazeiro. era tipo militar ou como chamavam “príncipe de galo” Os exames era para saber 4 . escutando o coração. sua ficha. Não ensinavam nada. outra de Quixadá. Contrato de encaminhamento que era feito a cada soldado no momento de se alistar. se era agricultor. o tipo de físico. Nós fomos vacinados. uma calça de mescla azul. sua vida pregressa. Pedro Pereira da Silva: Eu estava em Madalena. era no pé. aí então eu era tangerino. minha família é uma parte de Canindé. Eu fui de Madalena para Quixeramobim. as pernas. Recebíamos. caneca. uma rede. aqui apenas era a ficha. Lá ficamos num pouso. se era criador. aquela agitação. uma mochila nas costas. fazendo curativos.

Ai meu pai falou para eu vestir uma calça rápido e umas alparcatas. tinha meu gado. suba logo para cima. Para entrar no pouso ficava todo o mundo pelado e apertavam no pinto da gente. Jaime Pinheiro Landim: O sentido que eles falavam era ir à guerra para tirar borracha para ajudar. a borracha era. Vicência Bezerra da Costa: Eu vim mais meu pai. comércio. sem roupa? Ele disse. estava chovendo e o cabra falou que não adiantava eu levar as alparcatas e aí subi no caminhão. aí minha mãe falou: vista a roupa minha filha que nós vamos pôr aí nesse mundo. eu tinha 14 anos. Mas como. eu sabia que era para o beneficio da guerra. sem me despedir da minha mãe nem de mais ninguém. de tapioca.se o camarada não estava com algum tipo de doença.. No Ceará era a seca mas não era pior que aqui. se tem mais de 17 anos é lei do Brasil. Naquele tempo ainda tinha um pouco de vergonha. ela era uma mulher vivida. bolo de milho. minha mãe e meus oito irmãos. Foto dos camiões do SEMTA cheios de trabalhadores. abundância. café. Imagens no 1° Ciclo da Borracha filmadas pelo cinegrafista Silvino Santos na década de 20 no Amazonas onde se observa a riqueza e a opulência dá época: seringueiros tirando borracha. mas tinha minhas coisas. só que era para forrar os navios para não ir para o fundo.. rapaz não tem direito nem de vestir roupa porque vai demorar e nós queremos chegar em Fortaleza ainda hoje. Lupercio Freire Maia: Eu estava no meio da roça mais o papai descascando feijão de corda e o cabra chegou num caminhão e disse. A gente colocava uma lata 5 . tinha burro. porque diziam que a borracha evitava muito bombardeio. no tempo da 1ra Grande Guerra de 1914 a 18 também as pessoas foram e ganharam muito dinheiro Eu não tinha necessidade disso. Por exemplo. naquele tempo não tinha carro. mas eu não sabia bem o beneficio dela. Nós morávamos em Alto Santo. o Teatro da Opera de Manaus. os navios eram forrados com borracha para não ser bombardeados e ir para o fundo. tem que ir. mas tinha cavalo para andar. etc. (Risos) Eu fui porque eu achava que ia ganhar muito dinheiro como soldado da borracha. minha mãe fazia vendas de doces. mas foi aquela influencia de rapaz. desde menino que o pessoal falava que no Amazonas os seringueiros ganhavam dinheiro. Fotos dos cortes de cabelo e barba dos soldados. eu não era rico. é porque meu negocio era tirar borracha. eu não sei bem como era.

é diferente. algum que trazia algum pife. adeus terra onde eu me criei. As famílias vinham separadas dos solteiros. A gente foi para Fortaleza e lá ficamos esperando três ou quatro meses porque meu pai precisou se operar de uma hérnia. não adianta porque aquela era a época do machado e agora é a época da faca. viu?.com as moedas do pessoal que comprava e quando era de tarde a lata ficava pesada que não podia levantar de tanta moeda. A comida era feijão com jirimum e uma carne velha seca. Pedro Pereira da Silva: Quando nós saímos de Fortaleza. se me negar a Deus nessa hora. Imagens de seringueiros extraindo a borracha na década de 20. porque a gente quando vai embarcar. o feijão desse tamanho não era bem cozinhado. tinha uma colher que de um lado era colher e do outro garfo. fica assim distante e aí nos juntemos e cantamos: Adeus terra da infância querida. O café da manhã era o café preto mesmo e um pão. o navio em Fortaleza não encosta no cais. e ele dizia. depois apareceu uns tal de caça-minas e o tal submarino desapareceu. aquilo ali davam num caneco de esmalte. Eu não porque eu era nova e foi só as vacinas. e começou dar disenteria na gente. antes crava em meu peito um punhal Fotos dos soldados da borracha fazendo fila no Cais do Porto na Praia de Iracema para subir no navio. adeus mãe. vem meu anjo. pai como é. eram 4 as horas da madrugada. porque só vinha homem sadio. ele não falou nada. tinha que dormir separado. roupa que a gente que era forte tudo bem. doente não. adeus pai. a carne era uma jabá velha seca que jogavam lá dentro que não sei nem se escaldavam. Divertimento era contar história. Quando foi para sair do Ceará a gente fez um verso que era só choro. eu não sei quando é que voltarei. davam também uma muda de roupa. vem me consolar. 6 . Meu pai já tinha cortado seringa acho que em 1915 e nós perguntávamos. era tudo na inspeção. Fotos do Núcleo de Poramgabussu onde ficavam as mulheres. nós fomos perseguidos por um submarino e até o comandante tirou o navio de rota. Tá na hora da triste partida. mas quem era magro amarrava assim que parceria uma mortalha. adeus todo.

então nós fomos patrulhados o resto da viagem até chegar em São Luiz e ficamos retidos dois dias no porto até eles vasculharem. Daqui a gente ia para São Luiz do Maranhão. eu estava no camarote. a gente pegava um bote para chegar no vapor. dado meu grau de instrução. eles os mandaram porque os barcos nossos demoravam muito em fazer a viagem. Fogo de jeito nenhum. como proceder. do tempo da lei seca. Hélio Pinto Vieira: Aqui você embarcava. Vicência Bezerra da Costa: No navio era bom. Depois das 18 horas não podia falar. Eu me lembro que vinham uns dois ou três japonesinhos no navio. a gente cantava o Hino dos Soldados da Borracha.. Os barcos eram americanos. luxuoso. em Belém desembarcava. um blecaute total. Na madrugada veio um apoio da nossa Marina de Guerra.. “315 homens seguiram hoje para o “El Dorado” da Amazônia”. uns viram o submarino. com espelhos e salões. o vapor ficou ziguezagueando. Quando você chegava a bordo começavam dar as instruções.uma gaita. um torpedeiro parece. foi um pânico a bordo!. Nas manchetes: “Seguirão amanhã para a Amazônia mais de 350 trabalhadores”. o comportamento. eu gostava muito cantar quando era nova: Destemido soldado da borracha deste exercito modesto e varonil 7 . fazia coluna indiana na Ponte Metálica. Eu viajei num barco chamado State Virginia. Tinha os beliches para as moças e mulher. Fotos dos navios cheios de soldados da borracha se despedindo na Praia de Iracema. como itinerante para coordenar tantos homens a bordo. Matérias de jornal com fotos nos navios. a gente andava. orientar no caso de ataque de submarinos. “Aumenta a corrente migratória impulsionada pelo SEMTA”. junto com o comissário de bordo. andava. Nesse percurso um submarino quis nos atacar. porque o vapor não encostava não. ficava arrodeando. de São Luiz até Belém. Não me lembro se eram 200 ou 300 soldados. nem fumar.. Ai eu fui escolhido. eu não vi. distribuir salva-vidas. mas cheio de redes! Fotos dos barcos usados no traslado dos soldados. Imagens de submarinos alemães nas costas brasileiras no período da Guerra. era como estar dentro de casa.

8 . ele queria 50 homens solteiros. esse servia para ser cargueiro. Nessa época não tinha telefone. Davam também uma carteira de católico para se nós naufragasse no navio a procurar a Igreja Católica do outro pais e eles pagavam a passagem de volta para o Brasil. Quando chegamos lá começou morrer gente de sarampo. Alfredo Vieira. os donos dos seringais: Jota Leite. falavam que tinham derrubado um navio e todos tinham morrido. Quando foi uns quatro mês depois nós viemos para Manaus e fomos para um pouso chamado Ponta Pelada. famílias pobres na beira do rio. todo era coronel nessa época. ágil. fomos de Fortaleza a Teresina no Piauí. e o cabra do mocotó grosso. todo era homem conhecido. Eles mandavam fazer fila. Aí chegou os patrão. foram meses.não se esqueça de cumprir o seu dever trabalhando em defesa do Brasil Quando um dia os raios fulgurantes da vitória brilhar em nosso país ai veremos que nossos esforços assegurou a liberdade tão feliz. de Teresina a Maranhão e de Maranhão pegamos um navio até Belém. eram dez caminhão. nós vínhamos quase 5 mil.. aí aparecia os patrão. morria gente. Eu demorei em chegar em Belém porque peguei sarampo em Teresina e fiquei para me curar e depois fui com outra turma. tiravam mais o cabra do mocotó fino.. porque eles achavam que era melhor para seringueiro. Imagens de Belém na década de 40 Pedro Pereira da Silva: Nos viemos no navio Loyde Brasileiro para Belém e ficamos no pouso Tapanã. tinha outro encostado chamado Pinheiro. A viagem foi horrível. andador. Imagens de zepelins norte-americanos no Brasil durante a guerra. porque até ali vinha só comendo. morria gente e foi aquela confusão. era no telegrama. era só rapaziada. agüentava. Imagens do Acre nos anos 40. Lupercio Freire Maia: Tinha aquele zepelim que custodiava os navios. Jaime Pinheiro Landim: Eu fui de caminhão. eu não sei nem quanto durou. fornido. pequenas embarcações transportando madeira. Ele não queria saber se era novo ou se era velho. catapora.

Aqui já tinha muitos cearenses. subúrbio de Manaus. aí tinha o especialista para ensinar aos nordestinos que eram todo brabo. de complexão forte e tal. No subúrbio de Manaus tinha muita seringueira plantada. eu vinha com essa ilusão. eles queriam gente que tivesse certo grau de instrução. a gente não estava acostumado. tinha um defumador para fazer aquela bola de borracha. Depois de uns quinze a vinte dias de treinamento. era bem objetivo. a paisagem mostra as palafitas inundadas. o seringal do Jossias. quando estava tudo afiado. como tirar o látex com aquelas tigelinhas.Subjetiva de uma embarcação pelo rio. Todo dia eram 8 ou 10 homens. e assim por diante. então eles escolhiam. outro era destacado para a região de Juruá. um pelo tipo. muitos 9 . outros contingentes seguiam rumo a Tarauacá e Boca do Acre. como usar aquela faquinha. que iam carregadas de mercadoria e de arigós. Pedro Pereira da Silva: Eu pensava que o Amazonas era numa coisa assim como o Nordeste. É como eu escrevi aqui neste meu trabalho: Hélio Pinto Vieira lê: “Dessa maneira um determinado número era selecionado para ir para a região do Purús. olhava as feições. outro pela educação. Desenho de Chabloz do processo de defumação do látex ou borracha. aí o Coronel mandou umas baleeiras grandes. Quando chegamos no seringal eram quatro horas da tarde e o coronel mandou a gente para uma hospedaria. mas quando nós chegamos e começamos entrar nesse rio e era só água e mato. chegava. Pedro Pereira da Silva: Nós fomos de Manaus até o Laranjal. até que aquela leva de homens fosse completamente absorvida pelo insaciável Minotauro dos seringais”. vinha o seringalista. Hélio Pinto Vieira: Quando você chegava em Manaus você ia para a hospedaria de Ponta Pelada. Imagens aéreas do Rio Amazonas. tudo muito rígido. Depois de você retirar o látex você aprendia a defumar. lá ficavam os agrupamentos de solteiros separados dos casados. Era um naviogaiola com o nome de Júpiter. já tinha arigós lá. Arigós éramos nós. Eu fui o primeiro que desembarquei. O navio ficou lá porque estava muito carregado e a água era pouca. ninguém tinha visto isso nunca. tinha disciplina. Era um negocio diferente.

aí a gente para. tinha que ter a técnica. Foi muita gente nesse tempo. arrodeando. Cada qual ia para uma colocação. Imagens de um seringueiro tirando borracha. às vezes ficavam numa colocação dois ou três. tinha que cortar na altura do olho. mas quando era estrada de centro era mais cedo. de Quixadá”. bebe água. a gente ia cortando. porque aí forma um nó deste tamanho. malandros que não gostavam trabalhar.arigós. quem mandava era ele. Nos gastamos na viagem quase 5 meses. Cada soldado tinha três estradas. Chamavam arigó pôr um pássaro de arribação que tem que vai daqui para lá. Andávamos 20 e 30 quilômetros todo dia. que foi a primeira colocação. tam. aí tinha que apreender dividir a madeira. e acordava uma ou duas horas da manhã. Ave Maria era muito diferente do que eles contavam. dez horas. de lá para cá. quase sempre. A gente ia dormir dez horas. deu rolou. Quando era a estrada de porta a gente saia mais tarde. dando os cortes e colocando as tigelas. chamam de arigó. na maior parte do Ceará. mas se afundava demais e dava naquela água. aí estragou. Quando fechava o corte eram nove. Foi um “manso” para ensinar a gente. eles contavam muita vantagem. e vai arrodeando. sabia colher. de todos os estados. o “manso” sabia cortar. porque a seringa tem que ser dividida em um palmo e duas polegadas e em dois palmos e quatro polegadas. quem fazia tudo. quatro horas. Subjetiva da procura pelas árvores de seringa dentro da floresta. aqui já tinha seringal com o nome de “Fortaleza”. não foi só no tempo da guerra não. tam. aí dava na veia do leite. dez e meia. de “Quixeramobim” Chamavam de arigós porque quando o cabra não sabe de nada. cortar bem aprumadozinho. Imagens de um seringueiro recolhendo a borracha das tigelas e colocando nos baldes. Tinha também aqueles negros do Rio. As vezes colocávamos um cipó entre uma árvore e a outra para não se perder porque tinha muito arigó que como não conhecia se perdia na selva e não voltava mais. que era para o pessoal se animar. Entre uma árvore e outra podia ter cinqüenta metros ou até cem metros. Tinha também os mateiros que indicavam o caminho. mas tudo lá era manobrado pelo patrão. tam. José Pinheiro Landim: O senhor entrava pelas direitas e sai pela esquerda. 10 . come. Tinha o cabra que não aprendia não. Na colocação. chegamos e fomos para a linha de Jatobá. porque se não o pessoal não ia. porque tinha os fiscal.

isso foi o que ele mostrou. foi mostrar o conforto que existia lá. mas eu recebi a resposta dois anos depois. de inseto.. tinha o beribéri. ele foi contratado pelos americanos.. Agora ele não foi certo. nem uma aspirina. era católico. Esse mesmo Antonio Coelho. nem de família. eu falei com o Coronel que queria mandar uma carta para avisar á família em Morada Nova e ele mandou. nem de mulher. 11 . Só Deus sabe como era aquilo. você não tinha direito de nada. no meu tempo já ele estava muito diferente. isso que me disseram.eles eram muito desonestos. Depois a gente se acostumou. rios de dinheiro correndo. enganar os nordestinos com uma propaganda daquelas. foi muito perverso. Foto da Vicência quando jovem com sua família. não tinha remédio. Uma vez um companheiro morreu e não tinha nem enxada para enterrar ele. eu não sei como é que a Universidade guarda um negocio daqueles. devia ter mostrado a realidade. Onde o cabra morria ali mesmo a gente enterrava. Hélio Pinto Vieira: O pessoal chamava Inferno Verde. Detalhes do cartaz da campanha publicitária do SEMTA em que se lê: “Vai também para o Amazonas protegido pelo SEMTA”. eu falava. só com aquela velinha. que foi o outro lado da medalha. tinha mudado muito. a miséria. não tinha cemitério. lia muito a Bíblia. eles contam lá que qualquer coisa ele mandava matar e fazia mesmo. o paludismo. que Deus o tenha. El Dorado Brasileiro. fiquei com raiva. o tétano. tinha uma idade avançada. muita desonestidade. você bota a gente numa terra desta para a gente ficar.. mas meu pai. todo escuro. mas ele foi perigoso. todos aqueles apelidos. Esse estrangeiro. que íamos fazer. Todos os nordestinos ficaram com ódio desse Chabloz. Lupercio Freire Maia: Era uma época muito ruim aquela. Nós sofreu muito. a mata. Vicência Bezerra da Costa: Quando chegamos no seringal nós fizemos foi chorar. Vi casos horríveis. trouxe para distribuir nas prefeituras do interior aqueles cartazes.. Quando tinha luz acesa ficava esse monte de bicho. devia ter mostrado a promiscuidade. mas não. Chabloz. nós não encontramos conforto nenhum. Nós tínhamos nossos livros da escola e dia de domingo nós íamos recordar aqueles nosso tempo da escola. A gente foi nascida e criada na cidade e cair no meio do mato. só os companheiros que iam se avistar quando chegava a noite.

um despertador dentro de uma lata de querosene. tinha as onças. nos topamos nessa distancia aqui. que eram dois sacos. botava o leite na bacia. se era muito leite botava um pouquinho no fundo da bacia. eu joguei na cara dela o chapéu e meti o ferro. o leite ficava bem morno. Imagens de tribos indígenas do Amazonas Quando chegava em casa. eu meto o ferro nela. era grande. Fotos de seringueiros com seus troféus de caça: onças. pringggg. Depois um companheiro meu. atirava num pau e depois atirava de novo e metia a bala no mesmo buraquinho. as vezes tomava logo um banho e aí ia defumar. só que quando ela bateu lá virou-se e pulou encima de mi e deu uma foiçada e me riscou as mãos e eu dei uma furada nela e saiu correndo e foi embora. era só respeitar o que eles davam para a gente. depois ia na beira do igarapé e lavava o balde bem lavadinho. cobras. 12 . A parte que era braba comia cru. deixava emborcado. primeiro era rifle e depois eu comprei uma espingarda. e tinha também os índios. o Manuel. e quando era a hora de sair. na fornalha.Pedro Pereira da Silva: Cada soldado tinha um rifle ou uma espingarda. eu estava com a faca na mão. e com Deus e tinha muito perigo no caminho. eu tinha uma faca e o rifle. A gente era bem armado. batia cuia até oito e novo horas. peguei e disse. Eles só não comiam a parte da bunda. pringggg. não tinha esse negócio de assar não. eu sempre usei chapéu. eu pulei com ela. mas teve uma linha que dizem que antes de nós chegar os índios tinham matado e comido a mulher do cara. mas a gente botava um despertador na cabeceira da rede. a surucucu do brejo. eu vi as presas delas desse tamanho. não podia ferver se não estraga e não serve para nada. a gente aquecia ele e ia em casa. aí o bicho. O cabra dormia. defumava o saco. eu atirava tão bem que colocava uma bala dentro da outra. pôr isso eu sou careca. jacarés. encontrou no outro dia por perto uma onça morta e não foi de tiro. Dizem que não comiam porque amargava. ela pulou lá no meio da estrada e como eu já tinha dito. a jararaca. Ela me cortou o pulso e teve que costurar com linha de costura. bater cuia. Um dia encontrei uma onça que ia correndo detrás de um cachorro. quando ela fez isso assim. as cobras venenosas. chegava que eram amarelas. ajeitava uma comida. aí eu não sei porque eu não comi. aí o cabra estava lascado. ninguém dá chance para onça. mas que nada. eu peguei a faca que tinha trazido do Ceará e me lembrei de um pau que tinha caído por perto. bater cuia. Eu nunca tive problema com índio não. quando eu entrei aqui ela entro lá. Jaime Pinheiro Landim: O seringueiro saia sozinho.

Sa. as crianças estão bem. Sa.. Elas sempre falavam a mesma coisa. Da. Regina. Eu falava para não mandar notícias de que estavam doentes já que a carta demorava em chegar e quiçá quando chegasse já ela estaria boa. muitas não sabiam ler e eu lia para elas e ficava para responder para as que não sabiam escrever. saber que eu tenho vidas com o sacrifício da vida para cumprir com meu dever e peço á Va.15-7-43 Da. família que eu até fazer esta fico com saúde graças ao onipotente criador. Faço votos a Deus que esta estimada cartinha vá lhe encontrar com saúde e fazemos votos de felicidade com sua Exma. Esta é uma delas: Manuscrito original da carta e o envelope Manaus Amazonas.. Sa. que esperavam algum dinheiro. O SEMTA encaminhava as cartas para o Pará. você não está com saudade? É. criar galinha e diversos serviços maneiros.e o mais espero que este pedido seja atendido porque Va. quer a sua querida filhinha. Sa. que quando botar as mulheres para trabalhar peço a Va. Quando chegavam as cartas eu as entregava. pode dizer que eu estou com saudade dele. Eu mandava as cartas e chegavam lá porque eles respondiam. Sra. eu estou bem. Que só avisassem em caso de morte. venho por meio de esta estimada cartinha pedir um especial favor a V. Também eu recebia cartas dos soldados para elas e as lia. em nome de Jesus Sacramentado . elas diziam. Esses serviços é só para homem. vamos lá. eu dizia. Fotos das pélas de borracha agrupadas esperando o embarque. Sa. você não vai falar das crianças?. Elas me falavam para eu escrever. Despeço-me da Va. eu falava. resposta urgente. Dona Regina eu quero botar uma carta para meu marido. Ai eu ia ajudando. dar um trabalho mais maneiro a minha esposa que é Antonia Araújo para que ela esteja sempre juntinho das filhinhas nossas. Regina Chabloz: Eu redigia muitas cartas das mulheres para os maridos que estavam no Amazonas: meu querido esposo estamos bem. porque as vezes eles mandavam dinheiro dentro das cartas. É. 13 .Processo de defumação da borracha. que estavam com muita saudade. eu não digo que não tenha mulheres que trabalhem nesses serviços pesados mas a minha não tem costume de fazer esses serviços porque quando fui fazer a ficha de família falamos é verdade em trabalhos para as mulheres mas era um serviço maneiro como bem fazer renda e engomar os bordados. e assim. Funcionava. com muita saudade. Regina: Saudações. que você quer lhe escrever? Querido fulano. Sa. porque eu soube que as mulheres daí do núcleo irão trazer tijolos e telhas e trabalhar de enxada mesmo.e por bem que Va.

estava tudo espalhado. você descia no barco arrastando a borracha para entregar a eles. Quando eu fui em 1979. eu mandei. foi para um tio meu. em Manaus o quilo de açúcar custava mil reis. Pedro Pereira da Silva: Eu vi japonês mas americanos não. hidroaviões pousando no rio. mas o dinheiro não. só isso. pois a carta chegou. eles queriam receber a borracha no ponto de apoio. Era tudo controlado pelo patrão. Inicialmente quando a gente saia daqui a gente recebia dinheiro. tudo era manobrado por ele lá. O pagamento era a maior dificuldade para você receber. Pedro Pereira da Silva: Nesse tempo todo eu só escrevi uma carta. 500 mil reis era dinheiro. Alfredo Mesquita de Oliveira Fotos das famílias dos soldados que ficaram no Ceará. outro em Fortaleza. foi a primeira coisa que ele me perguntou e eu falei. O americano não foi 14 . Eu consegui pagar minhas dívidas porque era solteiro. distante a não sei quantos km de Manaus. Eu voltei para o Ceará 34 anos depois e eu não encontrei mais ninguém vivo. Regina Chabloz na sua casa manuseia as muitas cartas que guarda de lembrança e folheia seu álbum fotográfico. eu voltei lá só no ano 79. Ele era financiado pelo governo de Belém. se na cidade. criado. Eu sei que teve patrão que enricou. mas muito padre de família morria no seringal e não conseguia saldo. um estava em Riacho do Sangue. só devendo. em Cristo. quando o camarada ia entregar mil e quinhentos quilos de borracha ele botava mil. eu escrevi no mês de janeiro e recebi a resposta no outro janeiro. eu mandei dentro 500 mil reis. nesse tempo todinho. se acabava. Hélio Pinto Vieira: Em todo esse tempo eu só recebi uma carta do meu pai e respondi. Os americanos não iam lá no seringal. era tudo difícil. não conseguia nada. barcos sendo carregados. mas todos os patrões daquela época morreram na miséria porque roubavam demais. depois que você estava lá jogado na mata. Imagens de aviões americanos pousando no aeroporto de Rio Branco. Tinha um seringueiro que trabalhou a vida inteira sem conseguir saldo.obrigado. A mercadoria era explorada. lá no seringal eu ia comprar por dois mil dois mil quinhentos. eu fui direto na fazenda do meu avô lá em Juazeiro mas o pessoal me disse que todo o mundo tinha ido morar em Boa Viagem e encontrei logo um irmão meu. outros tinham ido para São Paulo. alguns recebia outros não recebiam.

se quiser vir embora. teve de tudo. Vicência Bezerra da Costa: Depois a gente teve fartura. ascendia o fogo a lenha e nos chamava. 15 . se quiser ficar lá trabalhando na seringa. Assim foi que nós vencemos. anos 40/50. vinha embora. desses antigos e a BBC de Londres anunciava a queda de Berlim. Os americanos não vinham buscar mais borracha. ai tinha um radio deste tamanho. então eu ficava para tentar colocar eles no caminho. vinha um vapor descendo. mas trabalhamos muito. depois sumiram. ficava. Depois quando eu sai do SEMTA eu fiquei em Fortaleza e fundei uma cooperativa de rendeiras. Meu pai nos acordava ás duas da manhã. Quando terminou a guerra alguns voltaram mas a maioria não tinha recursos. Eu me envolvia muito por causa das crianças. mulher trabalhava igual a homem. aqueles vaga-lumes passando. mas para eles tinham pouca importância. Quando terminou a guerra eu cheguei no seringal à noite. No outro dia eu disse vou me embora. muitos morreram de doenças tropicais. José Pinheiro Landim: Quando terminou a guerra eles não tinham mais nada com isso. os americanos se desinteressaram e tiraram o dinheiro. Imagens da Bomba Atômica. Regina Chabloz: Quando os homens foram as mulheres ficaram aqui esperando. Hélio Pinto Vieira: Eu fiquei lá dois anos. outras com conjuntivite. Eles ficaram lá um ano e tanto pegando a borracha. quando terminou a guerra que cada qual procurasse. eu estranhei. Eu lembro de crianças que chegavam sem poder andar por causa de tanto bicho de pé. eu peguei uma carona e pronto. Nós carregávamos cana até a derradeira luz do dia. era só de ida. aí os homens ficaram lá. encostei e vi pipocando no céu. Imagens da chegada dos pracinhas ao Brasil. mas não tinha viagem de volta. mas de repente acabou a guerra e aí pronto. umas poucas conseguiram ir. que diabo é isso!. uns poucos conseguiram voltar e foi essa dispersão.lá. tinham desaparecido. Eu fiquei quase um ano no SEMTA. Fotos da queda de Berlim. as mulheres ficaram aqui. quase até de noite. algumas vezes os fiscais iam visitar os seringueiros. Imagens de plantações de cana no Acre. Acho que o governo deveria ter dado uma assistência e isso não foi feito.

Quando faziam as festinhas dançava homem com homem. Imagens de uma das festas de forró de soldados da borracha que acontecem em Rio Branco onde a maioria dos casais são pessoas idosas. isso foi o melhor da minha viagem. 500 mil reis custava uma mulher. hoje é uma maravilha. chamava-se Isabel. mas era difícil. tive sete filhos com ela. chamavam os bons seringueiros. Se a gente sabia que tinha um baitola no meio. mulher tinha muito valor. Com 26 anos foi que eu arrumei a primeira mulherzinha. se chamava Joana. eu fui conhecendo e casando. e eu ajeitei minha propriedade e voltei para Altamira porque eu já gostava de uma moça que morava lá. você quer morar comigo? E o cara pagava 500 mil reis para o patrão.Foto de um casamento de seringueiros no Acre na década de 40. aí vai embora e só sobe aqui esses degraus para tomar a bença e ir embora. Eu casei com acrense. e se tinha era muito escondido. é cheinho de mulher. só que o cara ficava doidão com a mulher e aí começava a cair a produção então o patrão tirava a mulher dele e vendia para outro. faziam era matar. juntando. A gente passava anos sem ver uma mulher. dizia o povo. conheci ele dentro da mata. quem é que não se agradava? Então ajeitava ali mesmo. Os médicos eram muito atrasados. Fotos de Vicência com sua família. Meu pai falava que não era para namorar. Quando eu cheguei no Amazonas as mulheres vinham de encomenda. não tem essa de divorciar. era para casar logo. e fui morar num seringal a vinte minutos da casa da minha mãe. nessa colocação que eu fui morar também ascendia a velinha a noite. Pedro Pereira da Silva: Tinha muito pouca mulher naquela época. mas depois 16 . os homens eram de verdade. que é isso rapaz?. porque o governo estava dando umas propriedades. vocês vão bater papo com elas para ver se lhe agrada. casando não. ai colocavam na hospedaria. tira essa praga do meio dos outros para não contaminar. todas nós casamos com seringueiro. de Altamira para Macapá e lá arranjei um terreno que estavam dando. os patrão trazia de Belém e vinha dormindo logo com elas de lá para cá. Minha mãe falava que ela não procurava marido para nós mas se a gente queria namorar podia ir casando logo. olha aqui estão as mulheres. Jaime Pinheiro Landim: Eu vim para Altamira. os cabras se matavam pôr uma velha. mas infelizmente não tive sorte porque me acidentei e tive que ir para Belém me tratar. Hoje não. mãe dos meus filhos. Pôr sorte não tinha baitola não. eu sofri muito. as velhas de 60 anos caiam na festa e dançavam mesmo.

mas para mi eu sou daqui do Acre. gosto mais daqui. Hoje eu estou aposentado. eu sei tudo da 17 . eu tenho uma lembrança de lá. nós viemos para cá para produzir e os pracinhas foram para matar. sofrido e anônimo nas vastidões do “El Dorado” brasileiro”. repara que até a fala é igual. tudo o que você planta se dá. tá certo. suor e lágrimas. tive dois filhos do primeiro casamento. no qual página de raro heroísmo e magnanimidade foi escrita com seu sangue. Mesmo assim eu acho que foi uma vantagem ter vindo porque eu conheci o mundo. sem décimo terceiro. Se tivesse tido a passagem de ida e de volta. Nós fomos trazidos do pouso até Manaus e depois foi como desmamar uma criança. tinha minhas propriedades. Os pracinhas que foram para a guerra recebem dois mil quatrocentos reais. é tudo uma família. Pedro está numa esquina da cidade de Rio Branco cuidando sua banca de vender cigarros e bombons rodeado de amigos. mas foi essa influencia da borracha. que eu tinha vontade de conhecer. os pracinhas nunca foram abandonados pelo governo. mas eu sou um técnico internacional. Cassei no seringal. mais estou no meio dos amazonenses. dez salários mínimos. dos acreanos. mas de qualquer maneira quem é daquela terra nunca esquece. Lupercio Freire Maia: Eu nasci em Morada Nova. dezenove do segundo e seis do terceiro. Deu foi muita perda. comprei esta casa e estou bem. conheci o Amazonas. eu fui até na Malásia para conhecer as plantações de seringa de lá. lances vigorosos de altruísmo e coragem pessoal do nordestino. Jaime está no jardim da sua casa em Fortaleza com seus filhos e netos. Helio Pinto Vieira: “O soldado da borracha deixou gravado de forma indelével para todo o sempre na historia pátria. porque teve muitos deles que choraram para voltar e nunca juntaram dinheiro e morreram por aqui sem ver à família. mas esta é uma terra muito boa. mas tem muitos soldados que ainda não conseguiram se aposentar. Eu não tinha necessidade disso. tenho meus amigos. Ele conversa com os funcionários e consulta livros. eu tinha minhas coisas. A injustiça maior foi não pagar a gente. Imagens de Hélio na Biblioteca da Academia Cearense de Letras. Pedro Pereira da Silva: Com muito trabalho eu consegui minha aposentadoria de dois salários mínimos.voltei para o Ceará. capitulo dos mais belos e tristes. eu podia ter ficado cuidando o que era meu.

eu tenho família lá. adeus pai. porque eu estou muito cansada. vem meu anjo. o Ibama. vem me consolar. se me negar a Deus nessa hora. Desta vez com arranjo musical. Um dia. adeus terra onde eu me criei. sabia? Vicência está olhando para o rio desde uma varanda do seu restaurante em Xapuri. Lupercio passeia pelo seringal modelo ensinado as crianças de um colégio Vicência Bezerra da Costa: Não tem coisa mais linda que o Amazonas. antes crava em meu peito um punhal CARTELA Durante a Segunda Guerra Mundial foram enviados pelo governo de Getúlio Vargas para a região amazônica 53 mil nordestinos. já estou faz tempo juntando um dinheiro.. mas aqui não é minha terra.borracha. eu não me arrependo de ter vindo. meu Deus. Adeus terra da infância querida. que ela nos cantara no início. os peixes. eu volto para o Ceará. Tá na hora da triste partida. Pelo menos 30 mil morreram em completo abandono. adeus todo. adeus mãe. Eu nunca voltei. os rios que não param. eu plantei um seringal modelo aqui no Acre. se Deus permitir e me der forças. Os Soldados da Borracha ainda esperam o reconhecimento oficial e o lugar que merecem na História do Brasil. já dei muitas entrevistas. eu não sei quando é que voltarei. todo o mundo me conhece.. Escutamos a música da despedida dos soldados em Fortaleza. Créditos finais 18 .