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CONCEITO GERAL DE REVELAÇÃO

1. A revelação na Escritura e nos Padres
Um estudo bíblico sobre a revelação poderia referir-se ao conceito mesmo de
Sagrada Escritura, já que toda ela é, antes de mais nada, palavra de Deus. Para
delimitar os elementos mais significativos frente ao conceito de revelação, nos
ocuparemos unicamente do vocabulário com que o Antigo e o Novo Testamentos
designam essa Ação de Deus. No que diz respeito aos Padres da Igreja, nos
ocuparemos com uma síntese de seus princípios e observações fundamentais.
1.1.

Vocabulário bíblico sobre a revelação

a) No Antigo Testamento não existe propriamente um termo para designar
“revelação” divina, o qual se explica porque o conceito mesmo de revelação é um
ato reflexivo do pensamento no qual se consideram de forma abstrata as palavras e
Ações de Deus como um todo. Como acontece com outras realidades básicas –
como “pecado” ou “justiça” – o que aparece na Escritura é um emaranhada de
aspectos concretos, de acontecimentos, de palavras, cuja totalidade constitui a
revelação. Este fato esta refletido no vocabulário. Ainda que exista a expressão
“revelar” ou “descobrir”, esta não é apropriada para designar a autocomunicação de
Deus, porque este “revelar” está afetado de ressonâncias apocalípticas. A revelação
de Deus é descrita como uma presença e uma palavra de Deus através das
teofanias (Sinai Ex 40,34), da manifestação de Deus em forma humana (Abraão Gn
18), dos acontecimentos históricos, sobretudo os relacionados com a saída do Egito
(Sal 77,15-21), etc. Porem, de modo especial, a revelação de Deus no Antigo
Testamento acontece através da sua Palavra, até o ponto de que a revelação
através da palavra dirigida a outro, a revelação que é o fundamentalmente
escutada constitui uma manifestação de Deus ao povo eleito.
Chamamos palavra de Deus o que no Antigo Testamento se designa como
dabar Yahwhe. Deve-se acrescentar imediatamente que existem notáveis
diferenças entre o dabar bíblico e a nossa palavra. O dabar não era somente um
sinal lingüístico da realidade mediante o conhecimento, mas uma realidade
carregada de força, expressiva e cheia de energia. Etimologicamente dabar aponta
a dois aspectos: à idéia de projeção do que está atrás, no coração (Gn 12, 17; Dt
15,2) e ao mesmo tempo a idéia de “dizer” (Sl 45,2; Gn 11,1). Dabar é o que sai
da boca ou dos lábios mas tem a sua origem no coração. Reflete um valor noético e
um valor dinâmico mutuamente implicados. Em conseqüência, o conteúdo da
palavra não é somente a expressão de uma idéia, mas uma certa comunicação
pessoal pela que o sujeito se introduz de alguma maneira em sua palavra, se
entrega com ela e desta forma lhe confere uma força e uma eficácia que se
convertem em fidelidade.
Com a atribuição de dabar a Yahweh, nos encontramos com a expressão
completa – dabar Yahweh – (que aparece 242 vezes no Antigo Testamento) tem um
significado similar ao que foi exposto. Por um lado é o meio de Deus comunicar algo
(sentido Noético) e, por outro, constitui o primeiro momento do designo salvífico de
Deus que começa a realizar-se quando Deus se dá a conhecer (sentido dinâmico). A
eficácia da palavra de Deus é representada de diversas formas. Um dos mais
importantes, que aparece especialmente no profetismo, é sua força não somente
eficaz mas também criadora.
b) No Novo Testamento acontece um maior esclarecimento do significado da

ensinando nas sinagogas deles.10. Jesus Cristo ocupa o centro do que todos os Padres.3-6). a quem nenhum dos homens tem visto nem pode ver (1Tim 6. àquele que tem poder para confirmá-los pelo meu evangelho e pela proclamação de Jesus Cristo. enquanto que ensinar significa instruir mais detalhadamente os mistérios da fé e os preceitos da vida moral. pregam. continua acontecendo pela palavra. Co 4. a introdução do termo nos livros sagrados é de grande importância. ao mesmo tempo. Como no Antigo Testamento a revelação de Deus que “habita em luz inacessível. Alem dos aspectos próprios de cada um dos Padres sobre a revelação. Algumas são formuladas originalmente . Sinóticos: O que Cristo faz é pregar o evangelho. 1. ensinar. de acordo com a revelação do mistério oculto nos tempos passados. dão testemunho. 5. At 4. Padres da Igreja A reflexão patrística dos três primeiros séculos sobre a revelação participa das mesmas características dos livros canônicos: carece de um caráter sistemático e de reflexão. mesmo aparecendo somente três vezes no conjunto dos seus escritos. ao menos na sua maioria. e aos perigos que poderiam surgir para a fé.17. anunciam a boa nova. Os termos preferidos agora são os que manifestam a relação entre a revelação com o testemunho.23. dá a conhecer. 25-26 o apostolo oferece uma espécie de síntese destes conceitos: “Ora.1.revelação de Deus graças à variedade de termos utilizados para expressa-la. Mas sobretudo São João introduz o termo Logos que. afirmam sobre a revelação. Por isso é possível afirmar que a idéia de revelação se encontra presente em todos os escritos dos patrísticos.42). para que todas as nações venham a crer nele e a obedecer-lhe”.1.2. penetrando todo o pensamento e. O vocabulário torna-se mais rico quando do que fazem os apóstolos: falam. São Paulo fala de um “espírito de revelação” (Ef 1. manifesta. 1Cor 2. Distingue entre a ação de Deus e a dos apóstolos. ensinam. que a natureza da revelação não é objeto de um tratamento específico e sistemático. Estes termos algumas vezes aparecem em Mateus e Lucas: Jesus foi por toda a Galiléia. pregar e evangelizar. utiliza como esquema fundamental para expor o núcleo da revelação os termos mistério e evangelho. Percebemos neles uma compreensão global e não explicitada sistematicamente do mistério revelador e salvador de Deus em Cristo. Em São João não aparecem os termos revelar. pregando a boa nova do Reino” (Mt 4. Cristo é o Logos encarnado. Lc20. são pastores e bispos as suas obras revestem-se de um caráter exortativo. Em Rm 16. Entre estes perigos não se encontravam – ao menos em uma primeira instância – interpretações errôneas sobre a revelação. há uma série de idéias bastante comuns entre eles.2. O mistério revelado de Deus constitui a boa nova da salvação. A diferença de matiz entre pregar e ensinar reside em que o primeiro se refere a proclamação da notícia do Reino de Deus realizado por Jesus. mas agora revelado e dado a conhecer pelas Escrituras proféticas por ordem do Deus eterno. Deus revela. 11. Como os Padres. A revelação não era uma questão para ser exposta ou refletida mas uma novidade de vida trazida por Cristo. que dá testemunho do Pai e da a conhecer a verdade. evangelizar. revelar – prevalecendo o pregar e ensinar. particularmente alguns como Santo Irineu ou Santo Inácio de Antioquia.16). atento às necessidades dos seus ouvintes e leitores. Entretanto podemos afirmar que no Novo Testamento tampouco existe um termo que englobe o conceito da revelação de Deus.

No Antigo Testamento os mediadores são especialmente os profetas. Esta manifestação aconteceu primeiro ao povo judeu através da Lei e dos Profetas e posteriormente a toda a humanidade por meio de Cristo. Para os alexandrinos que vem na revelação propriamente uma iluminação. Esta manifestação de Deus aos filósofos viria a ser uma aliança especial de Deus com os gregos para os levar a Cristo. Os escritos dos apóstolos. acontece num lugar e num tempo e espaço determinados. que chega a falar de um “terceiro testamento” que é o da filosofia grega onde ele via um dom do Logos. e enquanto Logos. Cristo é a revelação e o revelador de Deus. a reação dos padres é muito forte insistindo de modo muito realista na verdade da encarnação (Irineu e Inácio de Antioquia). ainda que trate-se de um conhecimento débil e imperfeito. No Novo Testamento os mediadores – em níveis distintos – são Cristo e os Apóstolos. Frente a interpretação docetista que negava o caráter real da revelação através da carne. Ao mesmo tempo através da sua palavra Cristo é o mestre dos profetas. Deus educa a humanidade desde o princípio e a prepara progressivamente para receber a Cristo. b) Para os Padres revelação é acima de tudo o fato de que Deus se manifestou. vão assumindo um caráter público e oficial como regra de fé. visto que os Padres defendem o conhecimento de Deus fora da revelação. junto a ação do único Verbo de Deus em ambos Testamento. o mestre que instrui a humanidade (Clemente de Alexandria). Podemos resumir os seguintes princípios: a) A afirmação que Deus saiu do seu mistério e se manifestou aos homens. f) Os Padres entendem que o fato da revelação acontecer gradualmente na história é uma condescendência divina. a sua historicidade. A revelação não é a primeira notícia de Deus. d) A revelação de Deus tem um caráter histórico. aquele que faz visível o Deus invisível. deu a conhecer o seu mistério por Cristo. os Padres afirmam a unidade de Deus e da economia reveladora. através deles. Deus se adaptou ao homem. fonte de toda a verdade. Frente às interpretações gnósticas que estabeleciam uma ruptura entre as duas alianças e apresentavam a Cristo como revelador de um Deus distinto do Deus da Lei e dos profetas. c) O plano da revelação. e) Através da idéia de mediação os Padres introduzem um elemento formal que permitirá identificar a autêntica revelação de Deus e distingui-la da doutrina dos hereges.por um ou outro autor e depois se vão estendendo. Por sua vez a Igreja é mediadora na recepção da revelação porque ela a recebeu dos Apóstolos e. A valoração positiva do conhecimento racional aparece especialmente afirmada em Clemente de Alexandria. . Cristo é o que traz a luz a nossas mentes imersas nas trevas. responde a uma ação pedagógica de Deus (Irineu e Clemente). Acontece na história através de mediadores. dando a conhecer e pedindo o que em cada momento era proporcionado ao seu desenvolvimento cognoscitivo. O critério é a apostolicidade. ao serem introduzidos na prática litúrgica da Igreja. social e moral. de Cristo e de Deus. cujo ápice é Cristo. Esta revelação de Cristo acontece através da sua humanidade e através da sua palavra. Junto a uma preparação genérica de toda a humanidade está a eleição do povo de Israel a quem Deus se comunica mediante a Lei e os profetas.

Deste modo a revelação como uma instrução divina. cujo conhecimento próprio é a fé. um conhecimento sobre o que se exerce certo domínio.1. A verdade agora é algo que o homem conquista. 2. crê nesta instrução divina. O ponto crucial entre filosofia e teologia era o conhecimento que se pode ter de Cristo. Depois da reflexão teológica de Santo Tomás aconteceu a decadência da baixa escolástica. sendo assim estabelecido uma relação semelhante a que acontece entre a razão e o seu conhecimento próprio. Não existia uma distinção fundamental entre a iluminação de um conhecimento e de outro. Este conhecimento não pode ser adquirido a partir da filosofia. Neste contexto a filosofia vai delimitando o seu campo frente à teologia. Deus é como um mestre que ensina aos homens o fim que determinou para a vida humana e como quer conduzir esta vida ao seu fim. não algo que vem. Tanto era assim que o cristianismo era considerado a verdadeira sabedoria.2. que preparou a evolução dos séculos XIV e XV.1. as afirmações dos autores podem dar lugar a aulgum equívoco. Vistas desde a natureza. dotado de forças nativas. A introdução da filosofia aristotélica supõe a afirmação do específico da natureza. mas deve ser adquirido por autoridade. Isto propiciava uma mutua assimilação entre cultura e revelação. o conceito teológico de revelação vai construído gradualmente. 2. devido a forte influencia de Santo Agostinho. Isso se deve ao fato de que naquele tempo acontecia um processo de reflexão sobre a natureza da revelação. Em conseqüência há um limite para a razão que não pode legitimar os enunciados da fé que pertencem à ordem .1. A revelação na história da teologia A partir da Idade Media. O saber não é resultado de uma iluminação mas de um conhecimento por causas. já que este é Possível tanto no campo filosófico como teológico. as coisas que estão alem dela são incognoscíveis. Depois da ilustração e a resposta apologética começou uma renovação no campo católico que culminará na teologia da revelação do século XX com os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Revelação e Razão A aceitação da filosofia aristotélica é um fato fundamental também no que se refere à determinação do conceito de revelação. O homem aceita. Os comentaristas e mestres não tinham chegado – de um modo pleno e reflexivo – os conceito de “tradição” e identificavam a revelação fundamentalmente com a Bíblia. A natureza é sempre algo concreto. Um momento chave na história posterior foi a proposta de Lutero que inaugura uma linha de pensamento religioso. Até então o clima filosófico e teológico era platônico. A tradição agostiniana – que entende o conhecimento como iluminação – continuou na teologia de São Boaventura e de outros franciscanos. O papel que corresponde à razão no conhecimento em geral está agora representado pela revelação. A idéia do saber que existia neste ambiente respondia ao modo de compreender a continuidade da mente: o homem está feito para a verdade e toda a verdade o aperfeiçoa. em virtude das quais se dirige para a verdade. Porque não exista uma distinção clara entre cada um dos conceitos. O critério de distinção entre elas não é o próprio conhecimento de Deus. da inspiração e da tradição. ou seja. Se falou por isso de um “biblicismo fundamental” na Idade Média. A teologia da revelação na Idade Media Para os medievais a revelação se resume a Sagrada Escritura.

sem mediadores. Santo Tomás a define como “conhecimento dado sobrenaturalmente ao homem das verdades que superam atualmente o alcance do espírito. admite um papel maior da vontade já que uma vez formado o conhecimento pode escolher as imagens e formas para expressá-lo. Ele distingue na profecia o conhecimento profético propriamente dito e a denuntiatio ou proclamação da profecia. o profeta julga sem erro e com certeza os elementos presentes no seu conhecimento e assim toma posse da verdade que Deus lhe quer comunicar.1. Ainda reconhecendo (como faz Calvino) que Deus se . tem o poder de afirmar que é possível crer nela. no conceito de revelação que apresenta Santo Tomás predomina claramente o aspecto cognoscitivo. Expõe a questão da natureza da profecia e. porém os seus postulados teológicos acabaram afetando profundamente a noção de revelação. da natureza da revelação. Santo Tomás ainda destaca que o papel essencial que tem a luz com a qual se julga o conhecimento profético. a revelação sobrenatural proporciona uma verdade mais profunda e inalcançável sobre o mesmo Deus e a salvação que ele oferece aos homens.2. ao contrario.supra-racional. A profecia é um dom de caráter cognoscitivo. porém seu caráter de verdade somente se legitima pela revelação divina. de uns homens particulares a quem Deus se comunica de forma direta. Graças a iluminação recebida. verdade ou ensinamento. 2. Pode sim dar razões de conveniência ou congruência que fundamentem a credibilidade destas verdades. ensinamento. O homem não é capaz de conhecer com a sua razão a verdade das afirmações de fé. O conhecimento é o mais importante e nele o profeta é mais passivo do que ativo.2. Carisma de profecia Junto com a reflexão sobre o conceito de revelação. a denuntiatio. Se a revelação natural permite conhecer uma certa verdade sobre Deus a partir da criação. O que a caracteriza é a transcendência sobre qualquer outra doutrina. 2. o que deu lugar a uma intervenção do Concílio de Trento. Isso permite afirmar que a revelação não se opõe à razão mas que a completa. verdade de fé. A revelação foi determinada numa relação negativa com a razão: o revelado é aquilo cuja verdade se afirma além e independentemente do alcance da razão. Por isso a fé não é racional mas racionável. Santo Tomás oferece uma explicação do momento originário da mesma. ou seja. O conjunto do revelado é a doutrina sagrada. O primeiro é a redução do papel da razão no conhecimento de Deus. com as que foi instruído por Deus para o bem da comunidade”. A Reforma Luterana A reforma não propôs inicialmente um novo conceito de revelação. a partir dela. A conseqüência é um maior acento na gratuidade da revelação. alcança a fé. A Sagrada Escritura e a pregação ensinam ao homem estas verdades reveladas por Deus e o homem. Ainda que a razão não possa conhecer os elementos intrínsecos do revelado. Se Deus se comunica aos homens através de homens concretos que transmitem aos demais o que eles recebem de Deus. Podemos salientar dois aspectos da interpretação luterana que fazem referencia concreta à revelação. então a realidade da revelação depende também dos receptores diretos da revelação. A partir desta reflexão. Entretanto razão e revelação não são duas realidades totalmente separadas. A afirmação da revelação implica que o que o homem pode conhecer não se identifica com o cognoscível. chamado e movido pela graça.

economia e doutrina que se impões autoritariamente. O segundo aspecto é precisamente o da fé fiducial. a fé não conta mais com a mediação da Igreja. No século XIX alguns autores provindos de tradições filosóficas e culturais diversas realizaram contribuições significativas ao conceito de revelação. 2. Na primeira metade do século XX o conceito de revelação foi objeto da atenta análise de um bom grupo de Teólogos. não tarda em impor-se a idéia de que o único conhecimento de Deus que interessa é o que nos vem através da revelação de Jesus Cristo. A conseqüência será que alem da ênfase na transcendência da revelação que esta postura parece representar. A Escritura é a única regra de fé. Na Alemanha os Teólogos da Escola de Tubinga começaram a apresentar a revelação não somente como verdade. um Deus juiz que por graça olha ao homem com benevolência e perdão. aquela mediante a qual o homem se confia plenamente a Deus. são reforçados pelo principio da sola Scriptura. os ilustrados praticamente dissolviam a revelação divina ou pelo menos a reduziam a um fundo inconsciente que situa-se no âmbito do irracional. Com estes pressupostos. Rahner e outros muitos. mediante a qual conhece o que está revelado e deve crer. mas também como realidade histórica e social. A instalação da fé fora do âmbito universalizador da razão e seu caráter de confiança pessoal e imediata na graça. já estavam fundamentalmente traçadas as linhas fundamentais da teologia da . Os novos conhecimentos bíblicos e patrísticos. fica de algum modo aberto o caminho ao subjetivismo e o racionalismo. as contribuições de movimentos filosóficos. segregando a um segundo plano a ação reveladora de Deus e seu caráter histórico. A única fé que justifica é a “fé-confiança”. Crer não é saber algo de Deus mas entregarse a Ele. A explicitação do conceito teológico de revelação A critica ilustrada da revelação constitui uma das bases sobre as que se apóia boa parte da filosofia moderna. Dentro de uma grande diversidade de posturas teológicas. permitiram um aprofundamento e enriquecimento da natureza da revelação cristã. o movimento ecumênico e a própria renovação do método teológico. No Reino Unido. a um Deus que é o extremo ao homem. ao invés de criticar o conceito ilustrado de razão. Congar. Este testemunho interior individual do Espírito Santo é inseparável da palavra de Deus na Escritura. Ao mesmo tempo insistia numa aproximação mais sintética do que analítica a relação entre revelação e fé. A proposta idealista de uma “filosofia da revelação” confirmava esta tendência do pensamento moderno. de Lubac. Frente a este panorama a reação da apologética. e sua interpretação é feita pelo indivíduo com a assistência que recebe do Espírito Santo. Ao negar o caráter de verdade da revelação e conseqüentemente o de assentimento à fé. Deste modo se mantém o caráter puramente fiducial da fé que não conta com justificação racional alguma. Neste contexto de polêmica com o racionalismo a revelação era apresentada como a verdade de Deus entregue aos homens por meio da palavra. verdade que era testemunhada pelos milagres.3. Newman referia-se a revelação como mistério. a partir do modo como o homem chega a prestar seu assentimento religioso. autores como Garrigou-Lagrange.manifesta aos homens através da criação. Segundo este princípio a Sagrada Escritura é soberana e não pode estar submetida a nenhuma instancia humana para a sua interpretação. empenhouse fortemente na defesa do caráter cognoscitivo da fé e da verdade revelada. ofereceram – desde óticas e princípios distintos – uma rica reflexão sobre a revelação. Nos anos imediatamente anteriores ao Concílio Vaticano II.

Em primeiro lugar a Igreja ensina que recebeu a Boa Nova prometida pelos profetas. a) No Decreto de libris sacris et traditionibus. Concilio Vaticano I O Concilio Vaticano I é o ponto final a uma série de intervenções magisteriais dos Papas no século XIX. ao apóstolos transmitiram e a Igreja. Esta doutrina esta contida nos livros da Sagrada Escritura e nas tradições que partem de Jesus Cristo. com a inspiração do Espírito Santo. promulgado na seção IV (8 de abril de 1546). idealismo e positivismo. 3. Isto foi a conseqüência lógica do clima cultural. Em segundo lugar o concilio afirma que a verdade salvífica e a lei moral.1. promulgada por Jesus Cristo e pregada pelos apóstolos e conservada na Igreja. graça e salvação. Em resumo. que transformam-se num verdadeiro desafio para a fé. Em terceiro lugar o concilio ensina que recebe com igual piedade e reverencia os livros do Antigo e Novo Testamento bem como as tradições não escritas que procedem da boca de Cristo ou do ditado do Espírito Santo e são conservadas na Igreja Católica mediante a sucessão apostólic b) No Decreto de iustificatione (seção VI. Como já foi visto. As posições dos filósofos provocaram uma dupla reação no meio católico : por um lado uma tentativa de dialogo da teologia com o pensamento moderno. o concilio ensina a necessidade da graça e da livre cooperação do homem com a ação divina. Isso foi preparando a Constituição Dogmática Dei Filius. o concilio utiliza o termo Evangelho para designar a revelação que – o termo revelação propriamente dito não aparece no concilio. frente a doutrina protestante da justificação somente pela fé.revelação que sucedeu a apologética. O Evangelho é a única fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes. 13 de janeiro de 1547) o concilio declara já no proemio a exposição da doutrina da justificação como a “verdadeira e sana doutrina” que Cristo ensinou. De fato as águas que começaram a correr com Descartes. . como já foi dito – é a doutrina prometida pelos profetas. realidade pessoal e eclesial. palavra e encontro. A fé com que o homem responde à revelação é um assentimento à verdade manifestada por Deus. Às interpretações extremistas destas duas tentativas fizeram com que os Papas condenassem alguns pontos e fizessem algumas observações a outros. sempre sustentou. por outro lado uma aversão deste pensamento com a conseguinte desconexão da formulação da fé em relação com o pensamento. cuja única fonte é o Evangelho. está contida nos livros sagrados e nas tradições não escritas. A revelação no Magistério da Igreja 3. 3. Contudo não deixou de ocupar-se da natureza da fé. Concilio de Trento O concilio tridentino abordou sobretudo o que se refere a doutrina da Sagrada Escritura e da Tradição para evitar o perigo de conceder a Bíblia uma atenção exclusiva. este século foi permeado pela discussão ao redor da relação entre fé e razão. No capítulo 5 do mesmo decreto. Spinoza e Hume desembocam neste tempo em forma de kantismo.2. promulgada por Jesus Cristo e pregada pelos apóstolos a toda a criatura. pois neste tempo confluíam posturas filosóficas gestadas um ou dois séculos antes mas que até então não haviam produzido um resultado acabado. A revelação é apresentada pelos Teólogos como uma realidade divina entendida como verdade histórica. o Concilio de Trento ensina que a revelação – chamada aqui de Evangelho. do Concilio Vaticano I.

Cesar. Junto com a possibilidade do conhecimento racional de Deus o concilio introduz a revelação sobrenatural. A revelação está aqui afirmada como ação manifestadora de Deus. É um ato de transmissão do conhecimento que Deus tem de si mesmo e de seu designo de salvação para os homens. . Deste modo o concilio recolhe a verdade do racionalismo e evita a sua falsidade: a razão não é uma faculdade perfeitamente adequada para o conhecimento no campo religioso porém tem certa capacidade de conhecer também neste campo. Desta maneira o concilio quer manifestar que a revelação é um ato de amor (bondade) e de ensinamento (sabedoria). principio e fim de todas as coisas. Frente ao deísmo afirma também que Deus cuida e governa o mundo com sua providência. Eunsa. Em primeiro lugar a revelação contem verdade que podem ser conhecidas pela razão mas que. capítulo 2. o concilio afirma que ela e absolutamente necessária para participar dos bens divinos aos que o homem esta chamado e que superam absolutamente à inteligência humana.. Em primeiro lugar não devemos esquecer que o concilio não pretendia expor uma doutrina completa sobre a revelação divina. I). A finalidade da revelação não é alcançar um mero conhecimento oculto mas está ordenada às realidades salvíficas. graças ao fato de terem sido reveladas. O Concilio Vaticano I concebe a revelação como algo que dá a conhecer a verdade sobrenatural de Deus que supera absolutamente o alcance e as possibilidades da razão humana. As circunstâncias históricas que envolveram o concilio e obrigaram a sua suspensão fizeram com que somente fosse aprovada a primeira parte com os seus quatro capítulos. IZQUIERDO. Frente ao semi-racionalismo de Hermes e Günther que admitiam que a revelação somente era necessária como ajuda.) pode ser conhecido com a luz da razão humana” segue agora a Ação de uma pessoa: “aprouve à sua sabedoria e bondade (…) revelar-se a si”. Pamplona 1998. mas somente aqueles pontos que haviam sido afastados ou negados pelo racionalismo e semiracionalismo da época. A afirmação impessoal “Deus (. A possibilidade do conhecimento natural de Deus através das coisas criadas vai dirigida aqui para a justificação da fé em Deus e na revelação frente aos diversos agnosticismos. No entanto essa afirmação deve ser situada num marco mais amplo. Teología Fundamental. pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas”. ação que aparece em relação com dois atributos divinos: a sabedoria e a bondade. Entretanto esta não é a única necessidade da revelação. Essa revelação é uma revelação sobrenatural e se encontra na Escritura e na Tradição. A estrutura da Constituição segue uma ordem lógica.. Afirma contra o hegelianismo a distinção de Deus frente ao mundo e que Deus criou o mundo livremente. o concilio desenvolve sua doutrina sobre a criação (cap. O capítulo II (De revelatione) começa com a afirmação do conhecimento natural de Deus: “Deus.O projeto imediatamente anterior à Dei Filius constava de duas partes e nove capítulos. podem ser conhecidas “facilmente por todos com firme certeza e sem possibilidade de erro”. Em segundo lugar o concilio relaciona inequivocamente a revelação e a salvação: a revelação nasce da bondade de Deus e é absolutamente necessária para que o homem participe daqueles bens divinos aos que esta ordenado pela sua elevação à ordem sobrenatural. Antes de ocupar-se do conhecimento natural de Deus e da revelação. A continuação o texto conciliar passa a considerar o conteúdo da revelação desde um ponto de vista formal.