You are on page 1of 35

Ministério da Educação – MEC

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES
Diretoria de Educação a Distância – DED
Universidade Aberta do Brasil – UAB
Programa Nacional de Formação em Administração Pública – PNAP
Bacharelado em Administração Pública

2009

© 2009. Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Todos os direitos reservados.
A responsabilidade pelo conteúdo e imagens desta obra é do(s) respectivos autor(es). O conteúdo desta obra foi licenciado temporária e
gratuitamente para utilização no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil, através da UFSC. O leitor se compromete a utilizar o
conteúdo desta obra para aprendizado pessoal, sendo que a reprodução e distribuição ficarão limitadas ao âmbito interno dos cursos.
A citação desta obra em trabalhos acadêmicos e/ou profissionais poderá ser feita com indicação da fonte. A cópia desta obra sem autorização
expressa ou com intuito de lucro constitui crime contra a propriedade intelectual, com sanções previstas no Código Penal, artigo 184, Parágrafos
1º ao 3º, sem prejuízo das sanções cíveis cabíveis à espécie.

A848f

Assmann, Selvino José
Filosofia e Ética / Selvino José Assmann. – Florianópolis : Departamento de Ciências da
Administração / UFSC; [Brasília] : CAPES : UAB, 2009.
166p. : il.
Bacharelado em Administração Pública
Inclui bibliografia
ISBN: 978-85-61608-74-3
1. Filosofia – História. 2. Ética. 3. Ética profissional. 4. Administração pública. 5. Educação
a distância. I. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Brasil). II.
Universidade Aberta do Brasil. III. Título.
CDU: 174

Catalogação na publicação por: Onélia Silva Guimarães CRB-14/071

PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Luiz Inácio Lula da Silva
MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Fernando Haddad
PRESIDENTE DA CAPES
Jorge Almeida Guimarães
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
REITOR
Álvaro Toubes Prata
VICE-REITOR
Carlos Alberto Justo da Silva
CENTRO SÓCIO-ECONÔMICO
DIRETOR
Ricardo José de Araújo Oliveira
VICE-DIRETOR
Alexandre Marino Costa
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO
CHEFE DO DEPARTAMENTO
João Nilo Linhares
SUBCHEFE DO DEPARTAMENTO
Gilberto de Oliveira Moritz
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Carlos Eduardo Bielschowsky
DIRETORIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
DIRETOR DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Celso José da Costa
COORDENAÇÃO GERAL DE ARTICULAÇÃO ACADÊMICA
Nara Maria Pimentel
COORDENAÇÃO GERAL DE SUPERVISÃO E FOMENTO
Grace Tavares Vieira
COORDENAÇÃO GERAL DE INFRAESTRUTURA DE POLOS
Francisco das Chagas Miranda Silva
COORDENAÇÃO GERAL DE POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO
Adi Balbinot Junior

xchng sob direitos livres para uso de imagem.COMISSÃO DE AVALIAÇÃO E ACOMPANHAMENTO – PNAP Alexandre Marino Costa Claudinê Jordão de Carvalho Eliane Moreira Sá de Souza Marcos Tanure Sanabio Maria Aparecida da Silva Marina Isabel de Almeida Oreste Preti Teresa Cristina Janes Carneiro METODOLOGIA PARA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Universidade Federal de Mato Grosso COORDENAÇÃO TÉCNICA – DED André Valente de Barros Barreto Soraya Matos de Vasconcelos Tatiane Michelon Tatiane Pacanaro Trinca AUTOR DO CONTEÚDO Selvino José Assmann EQUIPE DE DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS DIDÁTICOS CAD/UFSC Coordenador do Projeto Alexandre Marino Costa Coordenação de Produção de Recursos Didáticos Denise Aparecida Bunn Supervisão de Produção de Recursos Didáticos Flavia Maria de Oliveira Designer Instrucional Denise Aparecida Bunn Andreza Regina Lopes da Silva Supervisora Administrativa Erika Alessandra Salmeron Silva Capa Alexandre Noronha Ilustração Igor Baranenko Projeto Gráfico e Finalização Annye Cristiny Tessaro Editoração Rita Castelan Revisão Textual Sergio Meira Créditos da imagem da capa: extraída do banco de imagens Stock. .

mas abrindo . Esse Programa engloba um curso de bacharelado e três especializações (Gestão Pública. nas várias instâncias administrativas. lança o Programa Nacional de Formação em Administração Pública (PNAP). pela Secretaria de Educação a Distância (SEED) e por mais de 20 instituições públicas de ensino superior. através dos Polos da UAB. esse Projeto será aplicado por todas as instituições e pretende manter um padrão de qualidade em todo o país. sendo metade desse esforço realizado pelo Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB).Os dois principais desafios da atualidade na área educacional do país são a qualificação dos professores que atuam nas escolas de educação básica e a qualificação do quadro funcional atuante na gestão do Estado Brasileiro. por meio da UAB/CAPES. Em primeiro lugar. pelo Conselho Federal de Administração. tal Programa surgiu do esforço e da reflexão de uma rede composta pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP). Em relação ao segundo desafio. O Ministério da Educação está enfrentando o primeiro desafio através do Plano Nacional de Formação de Professores. que tem como objetivo qualificar mais de 300. O PNAP é um Programa com características especiais. Em segundo lugar. Gestão Pública Municipal e Gestão em Saúde) e visa colaborar com o esforço de qualificação dos gestores públicos brasileiros. com especial atenção no atendimento ao interior do país.000 professores em exercício nas escolas de ensino fundamental e médio. o MEC. pelo Ministério da Saúde. que colaboraram na elaboração do Projeto Político Pedagógico dos cursos. vinculadas à UAB. do Ministério do Planejamento.

que ofertará os cursos. Celso José da Costa Diretor de Educação a Distância Coordenador Nacional da UAB CAPES-MEC . possa incluir assuntos em atendimento às diversidades econômicas e culturais de sua região. uniformiza um elevado patamar de qualidade para o material didático e garante o desenvolvimento ininterrupto dos cursos. com apoio de equipe multidisciplinar. Esse material está sendo elaborado por profissionais experientes da área da administração pública de mais de 30 diferentes instituições. Por tudo isso. Por último. a produção coletiva antecipada dos materiais didáticos libera o corpo docente das instituições para uma dedicação maior ao processo de gestão acadêmica dos cursos. sem paralisações que sempre comprometem o entusiasmo dos alunos. A UAB colocará à disposição das instituições um material didático mínimo de referência para todas as disciplinas obrigatórias e para algumas optativas. desta vez contribuindo também para a melhoria da gestão pública brasileira.margem para que cada Instituição. compromisso deste governo. estamos seguros de que mais um importante passo em direção à democratização do ensino superior público e de qualidade está sendo dado. Outro elemento importante é a construção coletiva do material didático.

.............................................................................................. 28 Características gerais da História da Filosofia....................................... 25 O sentido da filosofia.................................................................. 61 A concepção socrática de filosofia: busca de sabedoria........................................ 67 ............ 46 Sócrates e Platão: um confronto entre dois modos de entender a filosofia................. 39 A filosofia moderna.......................................................................................... 23 Os gregos inventam a filosofia............................................Convite para pensar.................................................. 37 A filosofia medieval.................................................................................................................................................................. 9 Unidade 1 – O que é Filosofia O que é filosofia?......... 62 A concepção platônica de filosofia: encontro da sabedoria................... 36 A filosofia antiga.................................................................................................................................................................................. 19 A atitude filosófica........ 20 Especificidade do conhecimento filosófico.................

.............................. 86 Ética antiga............................ a “ética profissional” e a responsabilidade social na Administração Pública Brasileira......................................................................................................................................................................... 85 Ética e moral........................................................ 99 Afinal............................................................................................. 143 Considerações finais........................................................... 118 Duas concepções de poder................................ 91 Ética da convicção e ética da responsabilidade.................... 112 A ética e a política.................................................... 117 Poder... 123 O poder como relação entre seres humanos..... 162 Minicurrículo....................... o que é ética?. medieval e moderna.............           Unidade 2 – Ética Sobre a ética.......... a partir da crise ética............................................................................................. 166             ....................... 126 Poder e liberdade.................................................................................................... 107 “Crise ética” e “crise da ética”............. 136 Administração pública brasileira e ética............... 156 Referências............................................................................................................ 110 Dificuldade atual de formular uma ética..................................... política e ética........................................................................................................................................................................................................... 129 O problema ético.................................................................

            .

os compromissos são tantos.. Paradoxalmente. Tudo é líquido. o mundo que parece mudar tanto. outros passarão por cima de nós. a irritação. Tudo corre. a vontade de competentemente empurrar para longe todos os concorrentes ao            . Nada permanece. até pelo marketing. Tudo muda. não se sabe quando. é que devemos adaptar-nos. na companhia de gente insegura. E todos corremos. Nós. mas também flexíveis. maleáveis. Sei que do meu lado também há gente tão insegura quanto eu.. Escorre. fazendo coisas. Estamos sempre na beirada entre estar dentro e estar fora. Até na universidade professores e alunos correm cada vez mais. e o tempo é uma mercadoria rara. em voracidade cada vez maior. as oportunidades abundantes. A insegurança é nossa companheira permanente. Se não o fizermos. as expectativas muitas.. todos nós sem exceção. venhamos a dar de cara com a morte. e não o mundo a nós. aumenta a indiferença. sempre. correndo o risco da depressão. E ficamos produzindo. pois o mundo é assim como é. parece também ser inflexível e imutável. para podermos nos adaptar sempre ao que se nos pede. mesmo que daqui a pouco. Belo consolo! Mas isso. um emprego. em vez de criar solidariedade entre os inseguros. É preciso mover-se. a rede é vasta. e seremos considerados preguiçosos ou incompetentes. Mas em geral não sabemos para onde corremos.. A vida se torna uma loja de doces para apetites transformados. Temos que estar atentos. entre ser “incluído” e poder ser “excluído” a qualquer hora. Inevitavelmente. Precisamos ser competentes tecnicamente para que alguém nos dê um lugar.

     .

lugar em que só há interesses privados.. do serviço público. Isso é liberdade. Ou então.             . na visão que se tem da administração pública em geral. pois. e pronto! E o Estado? Deve ser uma instituição que deve funcionar como empresa eficiente a serviço do interesse dos indivíduos. tudo o que está diretamente situado como público aparece demonizado. temos uma visão muito paradoxal da relação entre público e privado: por um lado. no qual tudo é legitimável ou justificável. abandonem o barco e o deixem mais tranquilo para mim. homens e mulheres como indivíduos. também eu sou transformado em puro meio pelos outros. que isso é assim. Exemplo desta visão sobre o que é público e sobre a função do Estado e do serviço público é o que disse Margareth Tatcher. that’s it.           meu lado. todos querem que os outros fiquem mais inseguros. como um tempo dizia a propaganda de um refrigerante conhecido: esta é a razão das coisas. nem o interesse público. inevitavelmente. ser exclusivamente um meio para fins privados. nada mais. Como conciliar isso? Certamente tudo isso mexe na visão que se tem da política e do político. ao exercer recentemente o cargo de primeiro-ministro da Inglaterra. sentimo-nos vivendo em um mundo no qual. Só há indivíduos. e basta. E isso ocorre ao mesmo tempo em que consideramos o âmbito privado como um âmbito no qual se faz o bem sempre. Ela disse sem eufemismos: “Não existe esta coisa chamada sociedade”. claramente. defendendo o reinado absoluto da flexibilidade. e não o público. ao mesmo tempo. da indecência. do funcionário público de governos municipais. para alguma coisa. E os outros seres humanos? Estes só importam se me servem. o interesse privado. a percepção de que somos totalmente incapazes de mudar algo. A política também deve ser apenas meio. O governante deve ser meramente um gestor. lugar em que seria impossível fazer o bem. O Estado deve. individualmente. do Estado.. estaduais e federais. Em vez de cerrar fileiras na guerra contra a incerteza. E se diz que isso é a insofismável lei do mercado. Mas não há escolha! Temos a sensação de nunca termos sido tão livres e. Mas quando todos os outros são apenas meios. como se fosse o lugar do mal. vale o privado. Sob outro aspecto. é uma necessidade.

            .

a que o Estado deve servir. e têm que ser competentes. Tudo isso se tornou normal. e nem dá tempo para nada mais do que ficar correndo a seu serviço. da corrida que está acontecendo globalmente. Nesta situação de insegurança. Até que ele nos diga: “você não me serve mais”! “Você é supérfluo. quando deixam de ser úteis ao mercado. para não atrapalhar o sistema de produção. mas por outros. “dignamente” (a morte pode ser digna?!). Inclusive o Estado. E deixar-se comprar também. sobra pouca alternativa. cada vez mais globalmente. Que estamos na fase final da história. paradoxalmente. não em casa. oferecer-se. amoldando-se cada dia a novas exigências estabelecidas não se sabe por quem. Que a história não pode mais mudar. Do contrário serão jogados para fora do jogo. individual ou social. E se diz que não pode ser diferente. de pretensa primazia do privado e do indivíduo como tal. o aparelho estatal. Devem ser “líquidos”. que morra. este estranho senhor sem identidade que é poderoso como ninguém e que tem suas leis. e para nos ajudar a esquecermos que também nós iremos morrer. para mudarmos algo ao nosso redor e dentro de nós. gerem. e às vezes até há gente que fica torcendo para que isso aconteça o mais rápido. mas no hospital especializado. como ficam os administradores tanto públicos quanto privados? Ousaría dizer que eles administram. Também os administradores devem correr. ou melhor. flexíveis. duramente normal. ou até já terminou. Você atrapalha!”. para não atrapalharmos o trânsito e o funcionamento do mercado. que está em todo lugar. organizam a execução de tarefas que em geral não são determinadas por eles mesmos. fazem com que os seres humanos sejam jogados à margem e obrigados a se contentarem em esperar a morte chegar. estabelecidas pelo mercado. E saber apresentar-se. vender-se no mercado. os serviços públicos. E – repito – todos passamos a viver como se nada pudesse ser mudado nesse modo de ser das coisas. e que só nos resta uma coisa: nos iludirmos de que somos livres enquanto nos adaptamos ao que existe!            . E se alguém morrer. executam. Cinicamente. mas exigências consideradas “naturais”. em que. que não deixa ninguém fora de seu controle. não dá trégua a ninguém.

     .

nos leva provavelmente a sermos expulsos da corrida por incompetência. nem favorece maior comunicação de fato. neste caso. Com Zygmunt Bauman (BAUMAN. 11). a ponto de ser instigante a afirmação de um atento leitor do que nos acontece hoje. Pensar nos faz parar. de que adianta pensar? Pensar nos faz mal. Ou então – como diriam os franceses que inventaram o prêt-à-porter (pronto para usar) – agora temos o prêtà-penser. Pode até ser que nos sintamos mais “felizes”. por isso. é tentar pensar também. Talvez nem sempre saibamos quais são as perguntas mais             . sobretudo porque o assédio das informações impede que pensemos. as escolhas parecem diminuir em vez de aumentar. É só pagar que o mercado já oferece tudo pensado. quanto naquele dos desejos sexuais. não se deixar engolir pela lógica que estamos descrevendo. parou de pensar. para nosso corpo e nossa alma. antes de ser feliz. E que é esse o nosso problema fundamental. p. que têm receitas precisas para tudo. insatisfatória. A globalização nos possibilita o acesso cada vez maior a informações. E quando as ofertas são demasiadas. os livros mais lidos são os de “autoajuda”. Só que esta felicidade tem tudo para ser superficial. e maior possibilidade de comunicação. podemos afirmar que nossa civilização atual parou de se questionar. ousamos arrematar: “Questionar as premissas supostamente inquestionáveis do nosso modo de vida é provavelmente o serviço mais urgente que devemos prestar a nossos companheiros humanos e a nós mesmos”. Por isso.           Diante de tudo isso. Neste contexto. E ser inquieto é. E não gostamos dos livros que nos fazem pensar e nos convidam a nos colocar em jogo por nossa própria conta e risco. para ser usado. Pensar causa transtorno no tráfego. Mas isso de modo algum parece favorecer uma visão mais crítica do que acontece. impedindo que sejamos competitivos. por falta de flexibilidade e de produtividade. pois o preço do silêncio passa a ser pago na dura moeda do sofrimento humano. prefiro ser inquieto”. tanto no supermercado dos sabonetes e dos vinhos. pois nos sentimos mais competentes e mais criativos para satisfazer nossos desejos. 1999. como Umberto Eco: “Alguém que é feliz a vida toda é um cretino.

            .

faz bem incluirmos em nossa pergunta pelo que está acontecendo hoje. “criativos”. nos damos conta que estamos repetindo as mesmas perguntas que já se fazem há séculos. já manifestados. seres que fazem. ou não só. que somos frágeis. como já dissemos. certamente não é a era do pensamento. por exemplo. seres humanos. há um duplo movimento na compreensão histórica: o presente pode ser iluminado pelo passado. nós que nos achamos tão estupendamente “modernos”. perdendo em força física. sob todos os aspectos. objetos. sem resposta. mas somos “caniços pensantes” (Pascal). coisas. E o que mais? Nossa “humanidade” também? Nossa liberdade? Nossa felicidade? Por isso. Nada mais. da reflexão. pois nos pode fazer perder o lugar no mercado. e onde até os seres humanos devem ser só produtores e consumidores. mas só o presente. este pode nos enganar a respeito de nossa originalidade e podemos achar que estamos mudando sempre. da profundidade. temos como marca o fato de sermos “seres que falam”. como disse Aristóteles. há milênios. Por mais que repitamos que esta é a era de Aquário. Pois bem: é nesta paisagem que apresentamos um livro-texto que pretende ser um Convite para pensar. importantes que devemos fazer. Já que o passado não interessa. que precisa produzir e consumir. bem mais. E pensar é uma atividade realmente pessoal. convite feito aos estudantes e às estudantes do Curso de Bacharelado em Administração Pública a distância. E isso nos fornece um elemento a mais para podermos pensar no que acontece e nas possibilidades que temos para mudar o presente. E esquecemos as respostas já dadas ou os silêncios. E faz bem também perguntarmos: por que será que paramos de sonhar e renunciamos às energias utópicas? Como sabem os historiadores. Até porque não temos tempo a perder. pensar é perigoso. Parece que nos esquecemos de que nós. melhora nossa capacidade técnica. para quem pensa e para quem está do lado de quem pensa. ou então. mas também o passado acaba sendo melhor compreendido a partir do presente. Escolhi alguns temas para pensar. por mais que            . E além de tudo. para algum animal. uma referência ao que aconteceu ontem. a era do conhecimento. nem o futuro. Claro que mudam certas coisas.

     .

regional. e aí temos a ver com a questão da religião. pois. nomes) sobre a riquíssima tradição do pensamento filosófico ocidental.           no diálogo com o passado e no debate com os nossos contemporâneos se possa pensar mais e melhor. A quarta pergunta. como o do próprio conceito de filosofia. como o da ética. e de outras formas de conhecimento humano (como o senso comum e a ciência). talvez o maior pensador moderno. doutrinas. sobre o ser humano como profissional. para Kant. Pensamos que assim podemos dar uma ideia geral da filosofia em sua história e do valor de uma atitude filosófica. e             . a administração é sempre exercício de poder (Unidade 2). é a seguinte: “o que nos é lícito esperar?”. Trata-se de uma escolha. Mas. que já tem 2. com algumas informações gerais sobre a História da filosofia (Unidade 1).500 anos. e menos ainda de dar conta da filosofia como tal. A isso nos referimos sobretudo na Unidade 1. de teologia e de senso comum). incluindo o debate em torno da relação entre ética e política. e do poder e sua relação com a liberdade. A segunda: “o que devemos fazer?” encontra resposta na ética e na política. como indivíduo e como membro de uma comunidade local. A Unidade 2 procura responder a esta pergunta. que. seres humanos. ao apresentar as quatro perguntas fundamentais para definir a atividade filosófica. sobre o ser humano como problema e como solução. para organizar o texto seguimos o roteiro sugerido por Kant. consideramos preferível escolher alguns temas. incluindo também nesta Unidade aspectos da terceira pergunta. como gente. nacional e cada vez mais cosmopolita ou “global”. Embora não tenhamos a pretensão de responder exaustivamente a todas as questões importantes da filosofia. é a síntese das três perguntas anteriores: “o que é o ser humano?”. de ciência. afinal. sua crise e suas dificuldades teóricas. sem a pretensão de ser a melhor. este convite para filosofar é antes de mais nada um convite para responder à pergunta: o que está acontecendo comigo e com os outros no mundo hoje? Mais do que apresentar um texto cheio de informações (conceitos. a mais difícil de responder. que nos leve a pensar mais sobre o que somos nós. A primeira pergunta é: “o que é possível conhecer”? (os conceitos de filosofia. dito de forma sintética.

            .

0 . está presente. certamente teremos muitos motivos para pensar mais e melhor. 2 9 + * + . 4 . com mais vontade de continuar a viagem reflexiva do que ao ler esta Apresentação. - / = 1 1 . com a mesma intensidade. deste convite para pensar. / 6 . * 5 2 4 1 7 . - . . 4 * * 1 7 0 + 1 / . que tem na política (ou deveria ter nela) o seu lugar por excelência? Para que serve a felicidade? Para que serve o amor? Para que serve o prazer sexual? Para que serve a amizade? Se estas coisas forem apenas meios. 7 7 * * = ) 4 * 1 7 7 2 . * 1 9 7 1 9 ) + 4 5 7 * 9 . ) D  # . Saiba mais ( Seguiremos este caminho na companhia de alguns autores ou companheiros – e poderia ser com tantos outros. ao final. * > . quando se conseguir o dinheiro. quem sabe. as coisas que são meios para alguma coisa? Para que serve a liberdade. esperando que todos os leitores e leitoras se sintam bem e. G . 1 ) 2 : 7 5 1 1 9 . Certamente a filosofia não serve para nada. se o amigo servir para nos trazer mais      $ % !  &  '  % # . estudar estas “bobagens”. 9 4 7 ) C 7 ( * / B . em todo transcorrer do texto que aqui apresentamos. . . . ) 3 4 < 7 1 5 . Mas se tais “coisas” forem valiosas por si mesmas. > 1 1 ) 1 + / . + + 7 9 . de algum modo. 2 7 * 0 8 * / @ * * . . Só para dar um exemplo: se um amigo servir como meio para fazer mais dinheiro. > . ? ? 1 ) 1 + / ? . < 1 H 9 . 9 : 6 = 1 4 . . 1 5 ? + . Concordo. Pensar não serve para nada. 1 = 9 . + + : A *  * * + 0 . certamente serão menos importantes. talvez alguns até nem gostem dele e considerem “chato” ter que “estudar filosofia”. + 1 Claro que nem todos gostarão. Mas quem disse que são importantes só as coisas que servem. estas coisas inúteis. . acabará a amizade. 4 ? .

não há outra saída senão pensar também. independente da profissão. 7 ? > + * . ? 5 .  "  1 1 ) ! / 2 1   . ou ser críticos. 2 4 +   1 2 . muito vasto. * D Obviamente não será uma disciplina de filosofia que irá tornar os futuros administradores públicos novos “especialistas” em filosofia. se queremos tanto ser modernos. 7 . 5 1 5 F 9 * 4 F   . como cidadãos. como diziam os Iluministas modernos. conhecendo um conteúdo determinado. Muitos textos clássicos estão aí disponíveis nas livrarias. Insisto: interessa não tanto que o administrador se torne um filósofo. 1 * 9 1 1 I 5 . e cada vez mais na internet. ? ) *   B B B 4 * * 9 . Pode ser bom – e talvez os que formularam o currículo mínimo do curso de Administração pensassem nisso ao incluir a Filosofia – que o administrador também seja estimulado a pensar por própria conta e risco. . 0 E * . Aude sapere! Ousa saber! Aliás.

Acho. repito o convite para pensar: a aceitação do convite pode tornar a vida mais interessante. porém. e a amizade for de fato um valor para ambos os amigos. que vale a pena correr este risco. Por isso. conseguido o prazer. 1999. Neste caso. e não apenas na nossa capacidade de produção e de consumo. E certamente o serviço público será mais responsável também. aristotelicamente. quem sabe. Edit. ninguém é obrigado a pensar. estudante. instigando-nos a ficar mais atentos para as brechas que podem surgir e nos surpreender cá e lá. acaba a amizade. e conquistam assim também o prazer de serem amigos. pensar é um jeito de cada um cuidar de si. UnB. mas se este amigo for mais que um meio. e espero que você. em cada uma de suas Unidades. Professor Selvino José Assmann             .           prazer. ou nunca tornará o dinheiro um fim a alcançar. embora menos produtiva e menos consumível. dentro de nós e entre nós. É disso que falamos quando dizemos que a filosofia não serve para nada. pensar é perigoso. Contudo. deixando-se provocar por ele e por seu desejo de conhecer um pouco mais o mundo em que vivemos e a si mesmo. Neste sentido. possa acompanhar o texto. Lembro de muito bom grado a sabedoria de Aristóteles: “com amigos se pensa e se age melhor” (Ética a Nicômacos. nem a ter a coragem de pensar! E pensar não dá dinheiro. pois se poderá perceber que o mundo que temos não é o único possível nem o melhor dos mundos. mais uma vez: pensar vale a pena! O convite está feito. sugerindo. mudanças mais substantivas. como já disse. Brasília. levando-nos quem sabe a resistir ao que nos parece acontecer de maneira inevitável. Além do mais. certamente. mais leve e mais profunda. “coisa inútil” no mercado. 3. neste caso. então percebemos que a amizade é mais que meio para outras coisas. poderei confirmar. E aqui se fala da amizade que é fim. ou que tem valor em si mesma. Pensar é uma atitude improdutiva. p. 1155 a. e se torna ela mesma um fim. E se cada um cuidar melhor de si. que mutuamente se tornam mais exigentes. conforme se disse acima. a nossa convivência com os outros poderá ser mais agradável. 153).

            .

J ^ K _ L ` M N a O b Q c f d a R a e h M c i R f a S g b s h t M i a T U c V O j f T b g f Q a g R k d W c c k m M g a X l _ b S _ c m f Y M n ` Z k a d W g _ h O l _ g ` a [ X f \ o c M h m ] g _ f m u c ` a p d c _ e h _ k ` g c f q v r f ^ p k f f c g ` b h a i d g b _ g i h b _ k c ` f a g c c { f h i c m g a c b u f k c m _ p _ i g f i g f w u } h m b m a i a _ m c b c i k h x c o c c ` a a d _ h a k m g h c a _ h k c ` a m c g g ` m b f i g c f b k c i c d p k g g g ~ f m h w c _ _ k k t _ c i f y p c g h a f ` h w _ i _ f z k f _ u a m _ v c h k g | m f P _ b k y g g b m i a a u ` a g m b c i _ f y c t k u a h c i a b b _ „  … ` € _ f g g b d i f a s a _ g h c c { ` h a d g b _ h h _ _ ` m a _ c u m t _ u u { m _ a l n g f b m k a c c  k   ‚ g † o ƒ g b k f m c _ b l _ i g f u f c k p f k c c k g _ g g t { b m _ k _ t g h f u g c _ † a c k { u m p _ t _ i u _ f f a b _ i } c c b m i a  _ ‡ d k c Š c i g … _ p t ‚ g g b c f o i a m c k _ h h g f g h y t u c b _ h         g h ` ‰ p { a c d c ` f _  h _ a ˆ d z ` a _ m c h f _ ` c p i _ a g c m h k ‚ g _ v u _ x t h m c g i g f b c l a k c     .

     .

                       .

            .

‹ c f _ g h i t k c b i g { g h i c u _ h a b a m a c b k _ c k a h m a p d a b c k g  a d .

Mas este significado do termo certamente é muito amplo e vago. mas as suas doutrinas ainda estão vinculadas à religião. Buda (Índia) e Zaratustra (Pérsia).  g f g   t d b c i g  u b Š † _ c h b f Š t t h b i l g f _ i t _ a m f n Œ  Ž          . Diz-se assim que se tem uma “filosofia de vida”. e não caracterizadas por uma exclusiva racionalidade. por exemplo.     c t u m Filosofar é pensar sobre o que nos acontece. em que filosofar significa saber viver.  g i x No seu sentido mais comum. sabedorias diferentes daquela ocidental. ou melhor. com uma Filosofia. Por isso se fala dos sábios orientais Confúcio e Lao Tsé (China). sobre o sentido do que nos acontece ou sobre o significado da vida humana ou da vida biológica como tal. Até mesmo pensar não é a mesma coisa para todos. Assim há. saber viver com sabedoria. de acordo com uma doutrina. _ h   _  ` a   c { ‰ g g f f “ g p g b u i h m d c h h h h a i n p c d i c c j g „ c g m … i a _ u c a a b m b _ f „ •  ˆ a g c _ l f z i t x ‘ a _ h u t j k c c p u f a { a c d g h m f k g h _ _ x g t _ a k f c c _ u b h u l { … h a g _ g c a v k h l c _ d u ” ˆ i ` h a k g b g ‘ f k g g c f g h f g p u x c h h i y u ’ c g b _ t k c c c i € h p g a h { k u g t c g b k i x _ m a k u h ^ a h g b g b b c b k y _ f h c b f m d ’ _ a c c u m _ g c m g _ u u u g i a b m _ f a f g b m ˆ g g c _ _ h f a p g g g c f ` g c h f t g h g a i † u g c p i p _ c x _ € h g b h Há um sentido menos comum. o substantivo filosofia ou o verbo filosofar tem a ver com pensamento ou com o ato de pensar.

4 ? 7 G + 7 * * + Ø = = * Ï 2 + 4 Ù < * â @ ? 5 7 Õ 1 ) 1 Ô 7 Ý + Ò 5 Ü . Falamos. á Þ + 1 3 5 ) 2 Ô 4 Ô Þ 4 . = + . de fato são poucos os que têm esta atitude. exigindo-se para isso o conhecimento dos textos da História da Filosofia. Ö 2 H 0 Õ * ã + ? Þ Ó B > ? ß 4 Þ ä 4 = @ ? æ Ü Þ H . que resultaram em uma multiplicidade de fragmentos e de livros. C B Þ 7 á ( Ô * 5 Ô ) 9 1 7 Ô 7 ä * ã @ 1 . 5 Ð á * @ ) 9 4 6 5 1 à å * Ú 1 7 1 . Mesmo que digamos que “de filósofo e louco todos têm um pouco”. 2 . quem sabe. ) . Ô 2 1 ä B ã . 2 4 % Á Ÿ Ÿ µ ™ ¯   ™ ¢ À ˜ ¥ µ ¸ ˜ ¤ ¥ ™ › ¦ › ™ ¥ ¢ ¥  ¥ ¡ ž ¥ ¥ š Ÿ › š š ¯ › ¢ ¤ ™ ž Ÿ ™ ž ž ± £ ž ¡ ¥ ¡  ˜ ˜ ¤ « › ¦ Ÿ ˜ › ¤ › ² š Ÿ ¥ › ™ ¯ › ™ £ ¥ ¤ Ÿ ´ › Ÿ ˜ ™ › ™ ž ¬ ¥ Ÿ ¡ µ › ™ ¢  ¨ ¹ Ÿ ˜ › › ž ¥ ¤ ¤ ¦ ¥ ½ š ™ ˜ š ¦ ™ ¦ › › ¥ ¡ ž ¢ ¢ ™ ¨ ¯ £ ¥ Ÿ ¥ Ÿ ¯ ¢  ¥ ž ™   ž ¡ £ ¥ ¤ › µ › š œ ª   £ ¢ Ÿ  ž ¢ ¡ ¡ › ™   ¥ ¢ › ž ® Ÿ ¨ › £ š ž ž ¤ ¢ ¨ ¼ ™ ¤ ¡ › Ÿ ž ¥ ® ¸  ¤ ¤ › £ © ¤ Ÿ œ ž Ÿ ›  ˜ ˜ › ¬ › . ? F 1 Ñ Ö × Û 9 5 Ó Ñ + 7 Ñ . @ . 1 * . e que nem sempre nos agrada. Þ Ò B             . 7 5 4 ? * ( 1 ) 5 2 Ó > 1 1 7 Ò > Ü 7 Î 3 Ñ 9 + Ñ 7 5 Ì . deixando-nos. . angustiados demais. aqui da Filosofia que quebra com o nosso saber prático do dia a dia.           – — ˜ ¤ ™ š › ¨ ¡ › ¬ Ÿ ›    ¥ ˜ Ÿ © ¯ ¥ ´ £ ¦ ž ¶ š » ˜ ž ¸ ž ž Ÿ š ™ ¥ › ™ Saiba mais $ Í 9 9 . 7 Õ . . Þ * ? B 9 . pois à primeira vista parece ser perda de tempo ou incômodo exagerado com as coisas. para além do conveniente. 7 * ) . H 5 . portanto. podemos dizer que filosofar é ter uma atitude filosófica. + > F * * 1 . mas também a criação do hábito de pensar de maneira rigorosa e crítica. 9 ã . á ) * å - B > Ô . Ô Ô 1 & ™ ¦ › à ® ¢ ž ° ¥ Ä š š ¢ ¡ Æ › Â Ç ¤ Ÿ © ž ž ® È ˜ ™ š Æ ¥  › Ë › ¦ ¥ ˜ ´ ¡ ¤ ¥  © ž š ˜ ± › Ÿ ¡ š £ š ¥ › ¡ ™ ž µ ¥ ž ˜ ¦ ¤ ž › › »   ™  ™ ¡ ¨ ¤ ž ¥ ¥ ¶ ¢ ¥ · ™ ¯ › › ž Ÿ – ž ­ ž ¥ ™ ¦ ™ © Ÿ ¥ œ ™ ž ­ ¤ ¥ ¼ ¥ ¥ ¦ ¬ » ™ Ÿ ¨ ¥ ™ ¥ ˜   › – ¨ š › ž ™ ˜  £ ¤ ¥ ¦ › ž ¥ ¦ ¶ ™ ¤ ­ ¿ ™   ¥ ™ ¾ ž › ¦ ¤ ˜ › ¤ š ¨ Ÿ ¥ Ÿ ¶ ¥ ¤ ¡ ™ ©  £ › › ž ˜ Ÿ › ¬ ¡ ¢ Ÿ ˜ ¨ ™ œ ¯ © › › £ ˜ ž › ¥ ¨ ¹ ¦ š Ÿ ™ » ¨ £ ¨ ¥ ˜ ¬ ™ ™ š ± ¥ £ Ê ˜ ¶ ™ ¢ É © › › ¥ ¼ ¥ ¨ ¥  Å ™ ° ¹ ® ¨ ¥ ¥ š § Ÿ ± ™ ¦ ¥ ³ ž ž » Ÿ ¥ ­  › ¥ £ º   ¥ ¡ ™ ž › Ÿ ¢    ¢ £ ™ ¥ ¡ ¯ › š ™ › ®  – ¥ ¬ ™ £ ­ ° Ÿ Ÿ ˜ › ˜ › ž ¤ š ¼ Ÿ ¥ › ž › µ © › ¬  ž ¥ ™ ¥ › ¦ £ › ™ ¯ ž ¥ ¢ ¢ › ¦ ž ­ À ' . ! ž Á ¢ »  ›  ¥ ™ £ ž ž ˜ Embora a filosofia também consista em um determinado conteúdo de conhecimentos acumulados durante dois mil e quinhentos anos.

            .

vivendo nas nuvens. poder-se-ia dizer que o Brasil e os demais paises da América Latina até hoje nunca proporcionaram um grande filósofo nem sequer uma importante doutrina filosófica. o filósofo parece desligado da realidade. ou o fato de haver grandes filósofos na Inglaterra e na França dos Séculos XVII e XVIII. que – diga-se de passagem – não devemos confundir com “falar mal”. e não tanto depois. em geral.‹ ç ˜ © ¶ ™ ž ¨ ž   ¯ ¢ › ¡ £ µ ž ™ › ¦ ž £ š › £ š ¥ ¦ ž ¡ ¥ ™ ¦ ž ˜ ™ ¥ ™ ¶ ± ¬ ˜ ¥ ™ ­ è ¯  ¥ ¢ Ÿ › ¥ ¡ › š £ š ž › ¡ £ ¥ ¤ › ¤ Ÿ ˜ ¡ ™ š › é © £ º ¦ ž ˜ ¥ › Ÿ ž ¡ Ÿ ¯ ¢ › › ¥ © ¦ ¥ ê ž µ £ ž š ¥ › ¦ ž › ¯ ¢ › ¥ ¦ ž £ š › ¦ › œ ­ O antropólogo e educador brasileiro Darcy Ribeiro (19221997) repetiu que pensar é questionar o óbvio. ou ditado popular italiano. Não precisamos de muito para perceber que só povos historicamente importantes apresentam grandes pensadores. e não antes nem depois. Assim. e não antes. também é verdade que nunca se desconheceu a importância histórica e teórica da atividade filosófica. Um exemplo disso é o fato de haver grandes pensadores na Itália precisamente na Renascença. que a atitude filosófica se confunde com uma atitude crítica. em coisas abstratas. Neste contexto. perdido ou aparentemente alheio aos problemas concretos da vida. o filósofo é inimigo mortal de qualquer fanatismo. Por que isso? Mais ainda: podemos facilmente constatar que só existem grandes pensadores em momentos históricos importantes da vida de um povo. Nesta mesma perspectiva. Como exemplo da visão depreciativa da filosofia temos a história do antigo sábio grego chamado Tales que.        . mas identificar como sendo a capacidade de perceber melhor o que estamos querendo conhecer. ao olhar para o céu a fim de entender os movimentos das estrelas. acabou caindo num poço. bastante conhecido: “a Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual tudo continua tal e qual!” Por mais que haja uma visão pejorativa a respeito dos filósofos e da filosofia. de qualquer dogmatismo. Reconhecemos também. Ou com uma definição. Ou que aparecem filósofos importantes nos Estados Unidos a partir do Século XX. distraído. e aí podemos perceber se isso é um mal ou um bem.

     Œ  Ž          .

Hegel o dizia de maneira melhor: cada filosofia é o próprio tempo em pensamento. e nunca apenas um gênio tomado isoladamente. Pois bem: filosofar é refletir. Claro que podemos ter filósofos que privilegiam uma visão mais conservadora do próprio tempo ou do próprio povo e outros talvez mais raros na História da Filosofia – que acentuam a crítica à própria situação e por isso são mais utópicos. com as raízes do que acontece. Por exemplo. Por isso toda definição sempre tem a ver com a essência. O filósofo faz perguntas do tipo: o que é a realidade? Como a realidade é? Por que a realidade é assim? Ele procura a essência. assim como não pertence à essência de uma flor o fato de ser amarela ou vermelha. É um movimento de volta sobre si mesmo. Falar de reflexão lembra o espelho no qual a gente se reflete. um porta-voz consciente de um povo. radical). Refletir é pensar o próprio pensamento. tomar o próprio eu como objeto de compreensão. Filósofo não inventa a realidade. Mas nenhum pensador se tornou importante ou se tornou um clássico deixando de se preocupar com a própria situação. e cada filósofo é. Refletir é. para definirmos o ser humano como “animal racional”. Essência é aquilo que torna uma coisa aquilo que ela é. busca desvendar os porquês das coisas.           ë ¡ £ ˜ µ ¡  ž ž ¬   ˜ š ¥ ¥ ž ¯ ¢ ¤ š ž ¢ ž Ÿ Ÿ ¤ › £ ¤ ¥ µ › ™ º ˜ ™ ž ¢ š š › ¥ ¡  ¶ Ÿ ˜ ¢ Ÿ ¶ ¥  ¤ ¡ Ÿ ® ˜ › ¥ ž Ÿ º ¢ ¥ ˜ š Ÿ £ ™ ¤ š ž ¶ ™ › Ÿ  ˜ ž ¨ ¥ ˜ œ ¬ © ¶ ¡ ž ™ ¥ ™ ž ¨ ™ ž ž ™ ¢ ˜ ¦ ž ¢ ¡ ¨  ¢ © © š ¢ › ˜ © ™ Ÿ ž ™ ¡ ¥ ž › ™ ¨ £ ˜ š ¥ › ­ Todo filósofo é. Neste caso. por exemplo. mas interpreta a realidade em que vive. portanto. da essência humana. a essência humana consiste em ser animalidade e racionalidade. o significado e a origem do que quer conhecer. se pode afirmar que toda filosofia é e deve ser radical. pois. Não é.             . por assim dizer. O filósofo reflete. Por isso. alguém que pensa o próprio tempo a partir da sociedade em que vive. ser da raça branca ou amarela ou negra. Ele eleva a um conceito o que é real. pois não se contenta em ficar na superfície das coisas. Sujeito é quem é capaz de ser objeto para si mesmo. mas procura ir às raízes (por isso.

            .

concatenando as afirmações entre si. vai precisar dela. De toda forma. do ponto de vista mais específico.. “eu gosto de”. embora possamos afirmar que só sabe bem o que é filosofar quem realmente o faz. o conflito.. o senso comum.. quem gosta de chegar às raízes. ter cada vez mais perguntas. É ì Å Ë Â Æ Â Ë Â Ä À Ä Å Ä È Ë È í î Å Ë Â ï Å í Á È Æ Â Ç È É Ê Æ Â Ë È Vamos insistir ainda mais em compreender o que é a filosofia.‹ É isso que distingue o ser humano dos animais.. quem prefere uma vida tranquila. que são incapazes de se verem como objeto. Talvez devamos afirmar que o filósofo é quem assume correr o risco de viver mais inseguro. É esta capacidade humana que nos distingue dos seres animais: se dissermos que os animais conhecem. ao terra-a-terra. como dissemos. não vai querer fazê-lo.. e talvez nem felicidade. sabem que sabem. O pensador alemão contemporâneo Theodor Adorno disse que só se põe a filosofar quem suporta a contradição. Esta atitude filosófica deve ser claramente separada da mera opinião ou dos gostos pessoais. que nos serve de apoio para várias observações feitas nestas páginas. Com a pensadora brasileira Marilena Chauí. E quem quer alcançar maior profundidade. Quem gosta de tranquilidade. os seres humanos conhecem que conhecem. e não respostas. rigoroso. Não é filosófico dizer “eu acho que”. superando. fica longe da Filosofia. Por isso somos capazes de rir de nós mesmos. mesmo que isso não lhe venha a trazer certezas ou tranquilidade.. ser mais radical. A filosofia estabeleceu-se como saber lógico. podemos dizer que. a filosofia se apresenta com quatro definições gerais:        . uma vida mais grudada ao cotidiano.

     Œ  Ž          .

identifica-se a filosofia com a sabedoria de vida. X em segundo lugar. que se esforçou por mostrar que as verdades cristãs não eram contrárias à razão. filosofia é esforço racional. p. rigoroso. a forma e os conteúdos dos valores éticos. Neste caso provavelmente incluiríamos como “filosofias” o Budismo. pela qual se aceitam verdades não demonstráveis e que tantos considerarão até mesmo irracionais. que fazem com que se defina uma identidade do povo. o Cristianismo. 1995. 1995. o que também não convém.           X em primeiro lugar. o que não convém. falamos de visão de mundo de um povo. políticos e estéticos. X em terceiro lugar. e não conseguiríamos distinguir entre filosofia e religião. ou como “filosofia de vida”. Visão de mundo é um conjunto de ideias. E esta definição corresponde mais claramente com a História da Filosofia. ou até mesmo razoáveis. para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido (CHAUÍ. e X em quarto lugar. Claro que isso não significa que. sob todos os pontos de vista.             . como tentou fazer um pensador da qualidade de Tomás de Aquino. com a origem. a filosofia é admitida como fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas (CHAUÍ. Mas definir assim a Filosofia nos faz confundila com cultura. de uma cultura. Assim conseguimos perceber a diferença entre religião e filosofia. de valores e de hábitos práticos de um povo. Aquela tem por base a fé. do conhecimento científico. p. 17): ela preocupase costumeiramente com os princípios do conhecimento (por exemplo. sistemático. as verdades de fé não sejam aceitáveis. o que chamamos epistemologia ou teoria do conhecimento científico). 16).

            .

‹ .

essa forma de conhecimento sistemático.      Œ  Ž   v Assim. Vale a pena! É û ü Å û È É Â í ý Å í Á À ï À Â Ç È É È Æ Â À A filosofia. e é análise. mas uma reflexão crítica sobre a ciência. foi criada uma comunidade de língua e de religião. Mesmo assim.br/~wfil/textos. com a civilização micênica). Não deixe de ler este artigo interessante. 1995. Mas isso não a torna sinônimo de ciência. seus hábitos. não a torna uma religião. com a sociologia. Convite à Filosofia. para aprofundar a temática e confrontar com o que se diz aqui. nem a identifica com a psicologia. Í EWING. O que é filosofia e por que vale a pena estudá-la. mas uma análise crítica sobre o sentido da experiência religiosa e sobre a origem das crenças. por mais que estas ciências do fenômeno humano tenham parentesco histórico com ela.cfh. o que fez com que se        þ     ÿ              .htm>. é crítica. 2009. tem uma história de mais de dois mil e quinhentos anos. Cada cidade com sua cultura. O livro está acessível na sua íntegra em: <www.br/~wfil/ewing.cfh.ufsc. Acesso em: 3 ago. constituindo posteriormente cidades independentes e rivais entre si.htm>. sua política. Sugerese a leitura da Unidade 1 – A Filosofia. Marilena. os conceitos.C. a história ou a ciência política. C. Neste caso. enquanto a filosofia estuda o “porquê” e o “que é”. se concentraram nas costas do Mediterrâneo em pequenas e distintas nações. a filosofia é reflexão. ð ñ ò ó ô õ ò õ ö ÷ ø ö ù ñ ú ú ú ú ú ú Veja mais informações sobre o que é filosofia nos textos indicados a seguir. A. desde os primórdios (por volta de 1500 a.ufsc. se costuma dizer que as ciências humanas (e as ciências em geral) estudam “o quê” e o “como” dos fenômenos. Nascida na Grécia Antiga. ali se consolidou. São Paulo: Ática. ÍCHAUÍ. tornando-se uma das principais marcas da civilização ocidental. Disponível em: <http://www.. Os gregos.

           .

             .

.

    .

#  1 2 1 . A +  7 4 1  7 )  . Eram os bárbaros. 1 = 5 7 * 2 + 1 9  . 3 + .           Saiba mais * ) A Î * @ 9 1 * + 2 * 1 / + . aos quais se opunham todos os que não falavam o grego. e “bárbaro” significa precisamente aquele que não fala o grego.  4 . 4 7 F 1 %  ? # ! 1 * % " # 9 / " .  * : ? 4 + * constituíssem em um povo.

Anaximandro. havia também a Magna Grécia. 4 / ? 4 > * + . e pelos primeiros nomes da Ciência e da Filosofia: Tales de Mileto. + 9 Î 5 2 4 1 7 2 1 C . ceramistas. e foi para Siracusa que depois viajou Platão para tentar aplicar sua teoria. Heráclito. Nápoles. Além da região conhecida como Grécia. 7 / A genialidade grega. escultores. Crotona) e insular (Siracusa. Xenófanes e Parmênides. cidades da Sicília). Agrigento. foi afirmada por Homero. pintores. Ali viveram pensadores como Pitágoras. incluindo partes do sul da Itália peninsular (Tarento. reconhecida historicamente – alguns falam do “milagre grego” –. Empédocles. . 6 . Ú = 1 7 * Ú / .

. B = * 4 . 5 . as tragédias e as comédias. . 2 5 ) 4 4 / 2 7 = * @ 1 . 1 1 B Você lembra da Guerra do Peloponeso (431-401 a. * / 2 1 ? 9  4 7 . * Ú  C  9 Ñ * × ? . . o autor de comédias. Clístenes e Péricles. 4 ? 5 1 . *  ? ? 1 < @   . 1 7 / 7 . e neste contexto surgem as artes. á Ô . esta última realizando e sofrendo grandes alterações sociais e políticas. 4 1  1 â . B D    #  & Ú * + 9 1 * 5 + Ø 2 . ? . entre Atenas e Esparta. 6 .). 5 7 ) 9 4 1 ? 5 C  ? . 2 * < ? 5 1 Ü   Ï 4 . e com o desenvolvimento do comércio e a expansão da colonização grega. É em Atenas que vivem os grandes trágicos Ésquilo. mostrando que a vida da cidade. por volta dos Séculos VI e V a.. . ? ) . 1 5 * 9 * + 1 7 / . C . * / 5 6 + ) 4 . com Sólon. ? . Ú G . é um chão propício no qual pode germinar melhor a atividade filosófica. e os             . através da qual se afirmou a superioridade da primeira? Atenas criou a democracia direta. a política. / + G ? * 7 ) 4 7  2 / * * . 1 ? . Sófocles e Eurípedes. 9 Ô 1 å / + @ B ä 4 Õ 1 ( ? 7 ) 1 * . Aristófanes.  . 7 . + 8 @ 1 2 1 7 / A 1 + G 2 * ? * / . 4 * * 5 + 4 . H + . ? 1 7 / Ú . F . * 0 4 + 9 * 7 * . Ð . 1 > 5 / 2 4 + . a importância de Esparta e Atenas. : . + . . 1 1 7 4 7 2 ? 5 * ? . 1 7 / D C . + . C. ? @ A 4 1 ) 4 7 4 ) + G ) 7 . 2 C . C. Û B Entre as cidades-estado foi consolidada. * + + 4 * * @ > . 4 1 ( 4 + 9 7 / . ) 8 2 2 4 1 7 / G ) + . 4 * / G = * ) .  1 7 = 1 / 1 . Depois disso se consolida em Atenas a Filosofia.

            .

‹ .

Por outro lado. . 4 . que não só conservaram as obras clássicas do pensamento grego com a posterior criação da famosa Biblioteca de Alexandria. ( .). 5 7 * 1 7 5 . os primeiros professores que se fizeram pagar pelo ensino.). 9 1 / + 2 9 . . 1 1 ? . 7 . 5 #  / ä * . D . 4  Ñ . Na mesma cidade. Sócrates (470/469-399 a. = *  5 * = 7 * 2 * 1 ? 5 . Ô á Ò B Þ + ? 2 7 * 1 . + Ô ? 5 * + 1 1 1 5 * > 1 9 ) 4 . . Ô + 7 . o seu discípulo Platão (428/427-348/347 a. > . de passagem. B C F . 1 1 . sábios e homens letrados. ) . E depois. B 9 4 1 ? Þ á á .  Em todo caso. ? 5 7 2 2 5 1 ) . Em todo caso. ? % 7 Ó 9   7 . Ô . . 7 1 1 2 ? # + . 2 9 F Þ 1 Ü  . 1 . com a implantação da doutrina judaicoSaiba mais cristã no mundo greco-romano. 7 7 5 ? * 0 5 Ý * 5 . que ele aprendeu com seu mestre Aristóteles. Ñ . 4 B 1 7 4 ! 4 1  ? 1 " 7 + .      Œ  Ž         primeiros historiadores. Heródoto e Tucídides. . C. passa então a existir uma ideia de “universalidade” também na política. + Þ Ô 0 9 .). 7 5 F 2 1 D ) Î 4 2 * . – 322 a. C. . mas também continuaram atraindo para as novas cidades artistas. 1 2 . 2 * B 7 * @ 2 4 B . onde praticamente já não é mais possível ao cidadão participar da vida política. 1 2 * + 9 2 * < B * 7 . 1 . o imperador Alexandre contribuiu para que a cultura grega. + Ô Ô ? . 4 * 4 9 4 Þ ) 5 Ñ . o que vai se consolidar depois. criador do Liceu. B æ 9 1  + 9 ? 7 . %  5 ) 1 2 4 "  / ? 2  #  * 4 * > 4 . o fim da autonomia das cidadesestado. continua em Roma e depois floresce em toda a Europa. sucedido pelo domínio romano da Grécia. estabelecendo o império macedônico. no norte e África. 5 . + 1 1 9 * 5 .  6 . B * 5 â . 4 @ 1 @ . H 7 F * 1 + 1 9 . : 0 ? 5 . assim como fizeram os sofistas. e isso facilita o estabelecimento da mesma religião para todos. de um só deus para todos. se expandisse pelo Oriente Médio. I 4 0 + *  * 5 + * @ 7 . e Aristóteles (384 a. * 5 á . Podemos. obrigando-o a encontrar o sentido da sua vida fora desta. 1 * 9 . C. Platão e Aristóteles. . a Filosofia grega não morre. * 1 %  1 2 . afirmar que é este o momento em que se começa a dar valor ao indivíduo e à vida privada. ? 2 > 4 9 . 0 . Ò 9 1 1 . depois de seu pai Felipe já ter conquistado a Grécia. @ ? G * 1 7 + * * * 5 7 ? 4 2 . jovem imperador que viria a confirmar. 4 * á + ) 5 7 4 1 + Î 4 . É o momento em que a política começa a perder a primazia. os três maiores expoentes da filosofia grega: Sócrates. os filósofos Anaxágoras e Demócrito lecionaram. 1 5 1 1 . Como não lembrar dos períodos “helênico” ou “alexandrino”. 1 7 . professor de Alexandre Magno. ) 7 0 7 Þ Ñ á - ? 5 ? 5 5 ) > . 2 H 9 2 .  . ) H I 1 9 1 : B / ? 5 Þ ( ) 7 Ü 1 1 H . @ Ü + 4 1 * * ? .        * + . 4 1 ( !  ) : ) . C. condenado à morte por um governo tirânico. 1 ã 7 2 H B Ô 2 1 . +  * . Deixam de existir as cidades-estado autônomas e passa a existir a ideia de império. ? Þ 1 . fundador da Academia. 9 + : ? 2 * .  4 1 1 0 . 2 1 @ + 4 1 4 . .

Assim. que aos poucos deixa de ser uma religião marcada pela mentalidade oriental e passa. Este casamento entre razão grega e religião judaico-cristã foi a base da Idade Média e – como se reconhece cada vez mais – a base da própria tradição moderna. Por tudo isso se pode dizer que a filosofia é filha da Grécia e que o Ocidente tem lá o seu berço. como veremos no final da Unidade 1. nem deve ser dono. e não em alguma crença ou alguma opinião             . sólida e permanente. O filósofo é o amigo. procura chegar ao fundamento último. E isso se faz fundamentando a verdade na razão. mas é alguém que pretende sê-lo. presente no livro de Platão chamado O Banquete. amizade pela sabedoria. que amante não é alguém que é dono daquilo ou de quem ele ama. Lembremos. A República. e não se pode odiar. e a de Platão. o amor acaba. como já dissemos. o Cristianismo.           a partir do casamento feito entre a racionalidade grega e a nova religião. que é de formação grega. De saída já se poderia dizer: para ser filósofo se deve amar. a mesclar a nova religião com o pensamento racional grego. amor pelo saber. A busca da verdade está vinculada à aposta e ao desejo de organizar a vida individual e social ou política de maneira mais objetiva. à essência ou à raiz das coisas e dos problemas. filósofo é quem. a de Sócrates. procura da compreensão da realidade. portanto. Filosofia significa. quando apresentaremos e discutiremos as duas concepções de filosofia. É Å í Á Â Ä È Ä À Æ Â Ç È É È Æ Â À A palavra filosofia é originariamente grega: philos (amigo) + sophia (sabedoria). pode ser atribuída a Sócrates. e não consegue ser dono. porém. presente no mais famoso livro dele. A concepção da filosofia como procura amorosa da verdade. sobretudo a partir da obra de Paulo de Tarso (o apóstolo São Paulo). o amante da sabedoria. Quando se possui o objeto amado (coisa ou pessoa).

            .

ao tentar resolver seus problemas. mas para todas as ocasiões e para todos os povos?        . neutro e universal da realidade. sendo ela. de todos os povos. a raiz da ideia moderna de ciência. E qual é este problema? Responder às seguintes perguntas: como encontrar uma solução segura e definitiva para os problemas políticos? Como encontrar um jeito para que se estabeleça uma ordem. ç ˜ ¡ ™ © ž ¥ ž ™ ž £ ¦ ¨ › ˜ › ˜ ¤ ˜ Ÿ ¥   ¥ ¥ œ £ ¤ › ž  ¬ ž ¥ ˜ ž ™ ™ œ ¢  ¡ Ÿ ž › ± © ™ › ¨ ž Ÿ ¡ ¥ ê ™ ž ›  £ ¥ ¨ Ÿ Ÿ › ¥ £ Ÿ š ¥ › ¤ ™ ž ž © ™ ¬ £ › Ÿ ¥ ¡ ¬ ž ˜ ¤ ™ ¥ ¤ › › ¡ ­ Hegel. a justiça. mas para resolverem um problema prático. Especialista no estudo do pensamento antigo. ou que ela seja uma invenção casual de algum gênio. como dizia Aristóteles. e para que a solução valha não apenas para aquela ocasião. e não uma criação que se inscreve num contexto histórico favorável a tal saber. Jean-Pierre Vernant (2002) afirma que os gregos inventaram a filosofia não simplesmente para satisfazerem uma curiosidade de entender as coisas. não é a ciência. irá escrever no Século XIX que os gregos inventaram a filosofia por terem sido o primeiro povo que. como tantas vezes se pensa. mas é a filosofia que teve por primeiro esta pretensão. É importante insistir nisso para não pensarmos que a filosofia existiu sempre. uma harmonia. de um saber com validade universal. por isso. o fez como se estivesse resolvendo os problemas de todos os seres humanos. para todos os tempos. ético e político. Portanto. na convivência humana. de um saber objetivo e neutro. o primeiro conhecimento objetivo.‹ interessada ou interesseira. um dos grandes pensadores modernos. É isso que caracteriza a razão como fundamento da objetividade do conhecimento.

     Œ  Ž          .

olfato. se formos fiéis à razão. visão). que é única. Não se trata de dizer que a sabedoria oriental é melhor ou pior do que a filosofia. se busca encontrar uma solução firme. opiniões que mudam. mas também no ser humano. como algo compreensível pela razão. E esta solução está na razão. aparece a extraordinária solução grega. a unicidade do fundamento. Por isso. portanto ocidental. pois só a partir daí se consegue ver as coisas como uma unidade. assim como a desejamos. por mais que haja uma sabedoria oriental. objetiva. convém dizer que a filosofia só existe a partir da Grécia antiga. imutável. De fato. que está presente na realidade. sólida. Ao invés de fundamentar as soluções dos problemas éticos e políticos nos sentidos (audição. Este fundamento sólido é a razão. eterna. universal. tato. e por isso. que é a sabedoria ocidental. ou seja. esta não deveria ser chamada de “filosofia oriental”. nos sentimentos mutáveis. neutra. que funciona em tudo e em todos os seres humanos do mesmo jeito. mas se trata de assinalar que são saberes diferenciados e incompatíveis. por mais que alguém possa valorizar mais a cultura oriental. nas opiniões das pessoas. Dissemos que a filosofia é grega. que nunca deixam de ser contrários: o Yin e o Yang. Na filosofia sempre buscamos e acabamos afirmando um princípio único. e             . O Yin é o princípio feminino passivo da natureza. a filosofia tem como princípio e característica a unidade da realidade. como dissemos. Por isso. uma ordem. que constitui. chegaremos a uma verdade segura. e só por isso também será possível afirmarmos que há um cosmos. nos interesses de grupo ou pessoas.           Diante desse problema. mas para todos os seres humanos. enquanto que para o oriental isso nunca é possível. que valha não só pra mim. Isso é importante para termos clareza e entendermos melhor a distinção entre Oriente e Ocidente. enquanto o Yang é o princípio masculino ativo na natureza. a unicidade da razão. na natureza. o nascimento da filosofia e da ciência como tal: para resolvermos com segurança e vigor os problemas devemos encontrar um fundamento sólido. pois a cultura do Oriente se fundamenta em dois princípios que nunca coincidem.

            .

Conhecendo a natureza. É o que expressa a conhecida frase de Francis Bacon: “saber é poder”. e como a realidade funciona de acordo com esta lei. por exemplo. o nascimento da ciência como tal. com a formulação de leis (naturais ou sociais). A ela interessam as causas últimas. um domínio sobre ela. necessariamente.‹ também para tentarmos compreender o que levou o Ocidente a ser vitorioso sobre o Oriente. e não a causa mais imediata. com a contribuição importante de Copérnico. como é o caso da mitologia ou da teologia. e pode dispor dela para seu próprio interesse. Mas interessa à filosofia perguntar por que há leis. ¨   ¸ ¦ Ÿ  ˜ © › š ž ž ž ¤ ¥ ™ › Ÿ £ ¤ ž ž › ¾ © š ¥ ¥ µ ¢ ™ ˜ ™ ¯ › ¨ £ ™ Ÿ ž ˜ ž ¹ © ˜ ¤ ž ¥ £ ž ž ™ £ ¢ £ ¥ º ¢ ž ¥ › ˜ ¯ ¡ ¤ ¤ š ¦ › ¦ ¤ £ › œ ¥ ¢ ž ¤ ™ ¤ ¦ › ¥ £ ž  Ÿ › š º › ˜ ¦ › £ š ¦ ™ › ž ¥ £ › £ Ÿ ž ž š ¥ ¦ š ¦ ¥ ¡ ž ¤ ¾ ¦ ¡ ¦ ¦ ˜ › £ ž ž £ ˜ › ¤ ¢ ¤ š ž ¦ ž ž ž £ ž ¡ ¡ š ¥ ¡ ž ¥ £ ¯ ž š ¤ ¥ › ¥ ™ Ÿ © › Ÿ ¥ Ÿ › œ ¥ ¢ © ¤ ¦ ž £ ¥ š ¥ š › ¤ ž Ÿ ™ š £ ! ˜ › ¥ ¥ ¤ ¤ § ¢ š ¤ ™ ¦ ¥ ž ›  ¦ ¥ ¤ › ¥ ¸ ˜ ž ¦ › ž ™ ¥ ž ™ Ÿ ¡ ™ š ž › ˜ Ÿ ¹ ­ À ciência. E insistimos: o nascimento da filosofia entre os gregos também é. Esta forma de conhecer é bastante recente. Na Antiguidade e na Idade Média praticamente os dois conceitos se equivalem. uma crença ou a fé. não interessa saber por que existe uma lei natural. tendo cerca de quatrocentos anos. para que o ser humano se torne senhor da natureza e senhor de si mesmo. quais os princípios destas leis. Bacon e Newton. de certa forma. Esta ciência nasceu com a pretensão de permitir ao ser humano ter um controle prático da natureza. o ser humano liberta-se dela. permitindo dessa maneira um agir mais seguro para os seres humanos. Esta forma de conhecimento possibilita um conhecimento sistemático e seguro. Pode-se assim        . pelo menos sob certos pontos de vista. como faz a ciência. em contraposição a outros saberes que não partem de uma fundamentação racional. que incluem em si. Só na modernidade é que foi estabelecida mais claramente uma distinção entre filosofia e ciência. Galileu. enquanto ciência e filosofia se baseiam na razão. mas qual é tal lei.

     Œ  Ž          .

formas de organizar a vida comunitária. mais do que um saber puramente teórico. o conhecimento mais comum. um método de investigação. Pelos exemplos também percebemos que o senso comum muda historicamente por influência do saber científico e tecnológico. sobretudo. para estabelecer melhor uma relação entre causas e efeitos. para responder de forma mais precisa às perguntas formuladas pelos estudiosos. e aquilo que eles devem fazer para viver melhor ou para ter uma vida feliz depois da morte. formas de sobreviver frente ao clima e frente à natureza. além das formas já citadas (mitologia. embora não se trate de uma crença. Antes de procurar definir melhor o que é a filosofia. e. uma lógica geral empregada para garantir uma certeza maior e até infalível. vencendo normas tradicionais de conduta e resolvendo novos problemas. teologia. não de forma rigorosa e sistemática. sem que se conheçam os motivos pelos quais algo se faz assim e não de outro modo. plantio. alimentação. conforme ocorre com o conhecimento científico. Isso acontece de maneira espontânea e prática. sobretudo. Filosofia). Por isso. que é a crença religiosa. o senso comum é. vestuário. usando técnicas herdadas de seu tempo e de sua comunidade. em suma. uso da técnica etc. cuidado com saúde.           romper com crenças e práticas supersticiosas. o senso comum tem a ver com uma crença.             . chamado em geral como “senso comum”. ciência. pela qual os seres humanos definem o sentido da vida. uma imparcialidade ou neutralidade. Por isso.). que repercute na vida das pessoas através de outra forma de conhecer. É o conhecimento que recebemos de uma geração para outra. o camponês sabe plantar e colher segundo hábitos e normas que aprendeu dos pais. um saber fazer. mais teórica. mais recentemente. e hoje aprendemos a usar o carro ou outros meios técnicos a partir do ensino passado por quem já o faz. como fazer habitação. Assim. colheita. e que nasce do esforço que os seres humanos fazem normalmente para resolver os problemas práticos e imediatos que surgem no dia a dia (por exemplo. E não podemos esquecer. a ciência é. uma objetividade. vale a pena repetirmos que existem várias formas de conhecimento humano. conservação de produtos. Por exemplo. afastando temores brotados da ignorância.

            .

também acontece entre os cientistas: em geral os grandes cientistas são os que mais reconhecem a precariedade do conhecimento científico. enquanto os cientistas medianos ou medíocres tendem a se apresentar como gênios. Isso. Em geral. Platão. Mas. mesmo que todas mantenham a ideia de se tratar de uma tarefa executada racionalmente. Todos sabem. E com isso também nós nos tornamos mais racionais. E por isso insistimos em definir a filosofia. aliás. O mesmo acontece. o que é a matemática. os engenheiros. não só serve para suscitar em nós uma perplexidade ou uma insegurança. Esta pluralidade de definições da filosofia. ou então. Todos os químicos concordam com a definição da química. ao contrário do que acontece normalmente com cada uma das ciências naturais ou humanas. quem pensa pouco e sabe pouco. inclusive os matemáticos. Mas para se saber que sabemos pouco é indispensável estudar e pensar muito. Neste sentido. por conseguinte.‹ Mesmo que ao senso comum pertençam elementos do saber científico. há motivos para continuar afirmando como o sábio Sócrates: que o ato de filosofar em última instância nos leva a perceber que sabemos pouco. e mesmo que o senso comum seja. da teologia. o saber mais presente na existência de cada um de nós. um dos maiores filósofos de todos os tempos. E a prova apresentada por Platão        . os médicos. os físicos. isso não impede que devamos distinguir entre os saberes. com os biólogos. percebemos que há praticamente uma definição para cada filósofo ou cada doutrina filosófica. que quanto mais pensamos. mais ou menos. mas também nos convida para que também nós sejamos mais críticos com qualquer doutrina ou verdade que nos for apresentada. os sociólogos. os historiadores. reconhece (e o faz em duas ocasiões!) que seu mestre Sócrates é muito mais sábio do que ele. ao mesmo tempo em que perceberemos melhor o alcance e os limites da própria razão. imagina saber muito. da mitologia e da própria filosofia. os psicólogos. na medida em que tais saberes se tornaram comuns no comportamento cotidiano das pessoas e nas relações entre elas. mais percebemos o limite de nosso conhecimento.

     Œ  Ž          .

Isso nos levaria a dizer hoje – e não seria apenas em tom de brincadeira! – que Sócrates é um trabalhador intelectual “improdutivo”! Se a filosofia.ufsc. Kantiana. Hans Georg. Mario.”). que em geral se identifica como Filosofia Medieval) e “filosofias” de países diferentes (Filosofia Alemã.. Por mais que ela não possa ser vista como um determinado conteúdo (não tem sentido dizer “a filosofia afirma que. da tecnologia. do senso comum.. “filosofias” de perspectivas diferentes (Filosofia Grega.. Acesso em: 3 ago.             . Norte-americana. Marxiana.br/~wfil/textos. HÖSLE. por exemplo: GADAMER. ver. 2002. da mitologia. Entre mito e política. Tomista. ao lado das ciências. São Paulo: EDUSP.cfh. Francesa. pode-se afirmar que há “filosofias” de períodos históricos diferentes (Filosofia Antiga. falase da “filosofia” de cada filósofo (Filosofia Cartesiana. Í Sobre o debate entre filósofos e sofistas. há pouco falecido: VERNANT. ÍSugerimos. Medieval. da teologia. (Entrevista). Disponível em: <http://www. Inglesa. Moderna e Contemporânea). e assim por diante). 2. entre Filosofia e Tragédia. Trad. sociais e naturais. Vittorio. Portuguesa de Selvino José Assmann. para a relação entre Filosofia e Mitologia. é uma atitude diante dos acontecimentos e diante da vida em geral. a obra do grande especialista francês.htm>. Por fim. 2009. Jean-Pierre.. que se confunde com Filosofia Antiga. Filosofia Cristã. Platônica.           para sustentar isso é bem surpreendente: ele diz que Sócrates é mais sábio porque nunca escreveu um livro ou um artigo! Sócrates nunca se considerou capaz ou no direito de fixar uma verdade por escrito. por um lado. ð ñ ò ó ô õ ò õ ö ÷ ø ö ù ñ ú ú ú ú ú ú Amplie seus conhecimentos através das obras indicadas a seguir. ed.). Italiana.. por outro é também um campo do saber humano. As raízes do pensamento filosófico. VEGETTI.

            .

‹ .

     Atividades de aprendizagem ‡ c i f g c ‘ Š l i t _ g g h h f { i a g • ` a ‘ g m p c f _ h h p h i c t _ f c h m c c l i _ _ u € p c m Š n f f t g a h g g { b h p h g _ p b … _ c k f g Š c f t u c _  b h h i c m f d g _ c s l t _ u c m h c _ h u | h t c b #  _ u x c h g b _ i g ‘ i _ c p f g h g b … i h p _ c f k k _ z g { a Š p ‘ f a g t c h k c d p g ` _ c c u d e _ c g i l f f a c m l h _ _ b p ˆ " i f g c o i i a p _ f m m g _ _ m a h u Š c h t g f g d k t g g i l _ t t ‰ _ i h g  ‡ _ k  a _ d _ x † g g i _ „ c f a _ b l c a { k Š c f _ g g g x f c u † c g … c _ c m „ i f i a ` l c a d { _ h t b _ a ` a l c g { f t h u c d c { ` ” b _ a f m u c c { k k a h g i a h b c i x g c k f Š c t f g g d a p s a f … g ’ _ g $ l c c { _ g g c g i c t k f i u u p b f t b _ u i m t m g u h s l t _ g f b g m k m a b g b c k f ‡ g c g g  c u f f h h t g t ' b u ` _ h g m t s g h f g k _ u & f b k % s d _ s g t € g u m Š x t t b _ u Š u c a g h i h k g Š _ ` i h b _ k k h h c i g e c p _ f ` { g m s h g b c _ u g _ g g g b h t k g g p _ p g b s y _ g b f i    g c   f g h  ` m h $  _ a k b k f f g d _ c g i l a h c c g _ { ` h c a c b l g ~ ` { a g u g e h d ` _ b f a h d _ g _ a ` _ a h ` t h a i Š g t _ a c a k m t _ c ’ d c  c d _ Š c g f h g ` c b m c a k n b g m g a c c c i _ t f ‘  w d a _ Œ  Ž          .