You are on page 1of 18

4. 

44

A compreensão da estrutura urbana de uma determinada área remete a uma série de fatores que interferem nas transformações do espaço que a envolve, permitindo a compreensão da evolução do seu processo de ocupação. A inserção desse espaço investigado no contexto particular de cada ambiente urbano favorece uma leitura capaz de alcançar uma caracterização peculiar do lugar. Para esta compreensão, foi realizada uma leitura morfológica da área estudada. O estudo analítico, por sua vez, abrange como elementos de análise o traçado e o parcelamento do solo; o lote e o edifício, numa investigação das tipologias edilícias; o mobiliário e os equipamentos urbanos; e, nesse contexto, a relação entre os espaços público e privado. Todos esses elementos são abordados como componentes estruturadores e definidores do ambiente urbano. Como instrumentos de análise, o estudo morfológico fez uso dos “mapas de NOLLI”. A produção desses mapas consiste num desenho como figura-fundo, cujo resultado gráfico revela as relações entre os domínios público, semipúblico e privado, assim como as relações entre distâncias e acessibilidade e cheios e vazios, expondo claramente “diversas das relações entre os elementos conformadores do tecido urbano. “ (DEL RIO, 1990, p.74) Para a análise das atividades predominantemente desenvolvidas na área de estudo, recorreu-se ao estudo de “uso do solo” através de levantamento de campo. O objetivo do estudo tipológico é “reduzir a algumas categorias analíticas a variedade das formas existentes, a partir da definição de critérios para a sua identificação e classificação”. (MERLIM, 1988 apud DEL RIO, 1990, p. 71). As categorias consideradas nesse estudo são embasadas na “classificação dos usos” que norteiam e controlam o uso e ocupação do solo de Natal, desde o Plano Diretor de 1984, que apresenta os seguintes usos: residencial, comercial, prestação de serviços, institucional e industrial, tendo cada um variações pertinentes a escala de abrangência do equipamento na fração urbana que se insere. (PMN,

1984)

Essa classificação é qualificada pela abordagem social que, por sua vez, procura identificar os atores sociais que atuam na área, considerando-os determinantes para a dinâmica urbana e, consequentemente para a sua configuração espacial. E isso se dá à medida que o homem atua no processo de ocupação e transformação do espaço urbano a partir de suas ações diretas e indiretas.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

4.1. Delimitação da área objeto de análise

45

A área de estudo é aqui considerada como aquela definida pela área de influência imediata do projeto de intervenção urbanística arquitetônica, incorporando uma fração urbana situada à oeste no bairro da Ribeira. Margeada pelo Rio Potengi, a área abriga equipamentos de importante significado para o tema do projeto de intervenção proposto, a saber: o Cais da Avenida Tavares de Lira e o Atracadouro da Pedra do Rosário, na Avenida do Contorno. (FIGURA 08) Portanto, é delimitada pela fração que contorna a Avenida Tavares de Lira (a partir do cais à margem do rio) (FOTO 30), a Avenida Rio Branco, a Rua Juvino Barreto e a Avenida do Contorno, até o marco da Pedra do Rosário, retornando ao Cais da Tavares de Lira pela margem do rio Potengi.

4.1. Delimitação da área objeto de análise 45 A área de estudo é aqui considerada como

De acordo com a Lei da Operação Urbana Ribeira (OUR) que divide o bairro em sub-setores, a área de estudo apresentada insere-se na Área de Recuperação Histórica (ARH), para a qual é apontada a emergente necessidade de propostas de intervenção urbanístico- arquitetônica que orientem a requalificação do ambiente urbano, devolvendo-lhe a

FOTO 30 – Visão geral da Avenida Tavares de Lira. Ao fundo, Cais à margem do rio. FONTE: Mizá Dias, 2001

vitalidade que um dia lhe caracterizou. Por outro lado, a área de estudo também está

inserida na Zona Especial de Preservação Histórica (ZEPH) delimitada no macrozoneamento do Plano Diretor desde 1984, conferindo- lhe índices urbanísticos que restringem a ocupação e alterações na sua configuração edilícia e paisagística.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

4.2.-Estudo Morfológico da Área de Estudo Traçado e Parcelamento

46

Representando parte da fração mais antiga do bairro, a área apresenta um traçado marcado por uma malha ortogonal definida, predominantemente, por vias estreitas. A convergência dessas vias para determinados pontos sugere um sistema radial no desenho das ruas. (FIGURA 09) Nesta configuração, foi possível identificar duas áreas para onde

concorrem as vias do bairro: a região que envolve a Praça Augusto Severo (FOTO 31) e o

4.2.- Estudo Morfológico da Área de Estudo Traçado e Parcelamento 46 Representando parte da fração mais

Largo da Igreja Bom Jesus (FOTO 04). Vale lembrar que esses lugares foram apontados como uns dos mais significados na representação imagética dos usuários do bairro, fator que conferiu-lhes a caracterização de nós no ambiente investigado. Nessas áreas, fica estabelecida a articulação entre a área de estudo e o

bairro como um todo, bem como sua

FOTO 31 – Visão geral da Praça Augusto Severo/ Ribeira. FONTE: Mizá Dias, 2001
FOTO 31
Visão geral
da Praça Augusto
Severo/ Ribeira.
FONTE: Mizá Dias, 2001
4.2.- Estudo Morfológico da Área de Estudo Traçado e Parcelamento 46 Representando parte da fração mais

articulação com outras áreas da cidade.

Estudos

anteriores

sobre

a

análise

morfológica do bairro da Ribeira, como o

4.2.- Estudo Morfológico da Área de Estudo Traçado e Parcelamento 46 Representando parte da fração mais

FOTO 32– Desnível topográfico/ Descida para a Av. Tavares de Lira- Largo da Igreja Bom Jesus. FONTE: Mizá Dias 2001

FOTO 33 – Desnível topográfico/ Avenida Junqueira Aires e descida para o bairro da Ribeira- Praça Augusto Severo. FONTE: Mizá Dias 2001

trabalho de CARVALHO, et all (1993), apontam que essas áreas apresentavam um grande desnível topográfico em relação ao resto da cidade, o que dificultava a ligação do bairro com a Cidade Alta, únicos núcleos urbanos do início da ocupação do espaço citadino. As características topográficas são registros indeléveis na configuração do tecido urbano e os desníveis nessas áreas marcam as vias de interligação entre a região baixa e a região alta. (FOTOS 32 e 33)

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

47

No entorno da Praça Augusto Severo, “A solução para este problema (de comunicação entre os bairros) foi a secção da praça, unindo a recém construída Avenida Duque de Caxias (construída de 1910 a 1939) à Avenida Junqueira Aires e unindo definitivamente os dois bairros mais antigos da cidade. Por elas passaram os bondes puxados a burro, os bondes elétricos e, atualmente, a maior parte das linhas de ônibus de Natal” (CARVALHO, et all, 1993, p. 41) que circulam na cidade em direção a todas as partes. A malha definida a partir do desenho descrito preserva seu traçado original e registra, portanto, a forma de assentamento do início da ocupação do bairro e da própria cidade de Natal. Caracterizada por um traçado de vias que associa a ortogonalidade com elementos radiais e sinuosos no ponto mais elevado de sua topografia (aspecto que define um traçado irregular e que se reproduz por todo o bairro) o desenho urbano da área apresenta uma configuração a partir da qual encadeia-se a proposição de um crescimento orgânico, que se estabeleceu obedecendo às características topográficas e naturais do sítio.

Hierarquia Viária

No que se refere à hierarquia viária, a classificação adotada encontra referência nos conceitos definidos pelo Plano Diretor do município. (PMN, 1984) A categorização apresentada em termos legais define a estrutura viária da cidade a partir da seguinte classificação: vias estruturais I e II, coletoras I e II e locais. As vias “estruturais I” configuraram-se como fundamentais para o direcionamento da expansão do município a partir dos seus primeiros núcleos de ocupação e são os eixos de penetração para a cidade. As vias “estruturais II” são eixos de articulação interna e de escoamento do trânsito e do transporte coletivo, configurando-se como corredores de comércio, serviços e atividades industriais. (Ibid) Entre as vias da área de estudo, a Avenida Rio Branco enquadra-se nessa categoria. (FIGURA 10) Quanto às “coletoras I”, estas caracterizam-se por possibilitar a distribuição do fluxo do trânsito estrutural e local. Da área de estudo, aqui enquadram-se as Avenidas Tavares de Lira, a Rua Sachet e a Rua Juvino Barreto. Os eixos “coletores II” alimentam a circulação das estruturais, tendo como representação do bairro da Ribeira a Avenida do Contorno e a Avenida Duque de Caxias. A Avenida Duque de Caxias possui mão dupla e apresenta canteiro central na sua configuração. Além disso, é, juntamente com as Avenidas Tavares de Lira, Hidelbrando de Góes, Silva Jardim e Almino Afonso, a via mais larga do bairro. Caracteriza-se ainda como eixo viário principal de escoamento, distribuindo o tráfego para as demais áreas da cidade. Por ela, trafega um percentual de aproximadamente 50% das linhas de ônibus municipais que, somadas aos veículos particulares, aos transportes alternativos e aos ônibus intermunicipais acarretam grande congestionamento de tráfego no seu entorno.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

As demais

ruas

do

bairro

são

de

importância

para

o

tráfego

local

e

apresentam-se

como

 

vias

estreitas,

pavimentadas

e

de

fluído

de

tráfego

prejudicado.

São

denominadas

de

“vias

locais”.

Com

a

carência

de

áreas

de

estacionamento,

que

 

se

encontram

atualmente

resumidas

a

uma

parte

do

canteiro

central

da

Avenida

Duque

de

Caxias,

essas

vias

estreitas

e

de

menor

movimentação

têm

sido

ocupadas

por

veículos

estacionados,

o

que

além

de

representar

uma

ocupação

inapropriada

48

As demais ruas do bairro são de importância para o tráfego local e apresentam-se como vias
FOTO 34 – Rua Dr. Barata– Via Local no bairro da Ribeira. FONTE: Mizá Dias, 2001.
FOTO 34 – Rua Dr. Barata– Via Local no bairro
da Ribeira.
FONTE: Mizá Dias, 2001.
do
espaço
público,
apresenta-se
como
um

agravante para a circulação nas áreas (internas) mais antigas do centro histórico. A partir da característica das suas vias e importância como eixos de circulação e

mobilidade

urbanas,

pode-se inferir

que

a

área de

estudo representa um “ponto de

cristalização” para o conjunto do sistema de circulação

da cidade.

Como foi visto na

evolução da ocupação do bairro, a função de passagem para outras áreas da cidade sempre esteve presente na dinâmica urbana da Ribeira. Resistindo às inúmeras transformações ocorridas na área, a centralidade no âmbito de fluxos e disponibilidade de infra-estrutura para oferta dos diferente modais de transporte coletivo permanece evidente.

Perfil Fundiário

No que se refere ao parcelamento do solo, a leitura morfológica partiu de uma caracterização da configuração física atual, realizada através de levantamentos in loco e da base cartográfica como instrumentos de análise. De um modo geral, o perfil fundiário do bairro da Ribeira expressa um parcelamento irregular, no que os lotes e as quadras apresentam-se com formas e dimensões variadas. (FIGURA 11) Ratificando a análise produzida por CARVALHO, et all (1993), é possível encontrar na área dois padrões de ocupação do solo: (01)lotes estreitos, profundos (em alguns casos prolongando-se de uma rua a outra) ou não, geralmente de forma retangular, definindo um traçado ortogonal; e (02) lotes grandes, com formas irregulares. O levantamento in loco constata a permanência dessas características na configuração espacial do bairro. No primeiro padrão, nota-se que a implantação do edifício no lote ocupa, na grande maioria dos casos, 100% de sua área. Aqui, o conjunto urbano revela uma paisagem densa

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

Compreende-se por “ponto de cristalização” áreas consolidadas, no âmbito das atividades que acolhem e do seu significado ou representação na dinâmica urbana da cidade.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

............................................................

49

de massa edificada, com edificações lindeiras à via e sem recuos laterais entre as mesmas. Os registros fotográficos (FOTO 34) revelam que as edificações são, em sua maioria, com dois pavimentos. A representação se dá na fração mais antiga do bairro, que envolve as Ruas Chile, Silva Jardim, Duque de Caxias e Sachet estendendo-se até a Travessa Aureliano, quando encontra a Rua Chile. Na área de estudo em análise, as quadras que envolvem a Rua Chile, a Avenida Tavares de Lira, Duque de Caxias e a Travessa Aureliano inserem-se no padrão então descrito. (FOTO 34) É válido ressaltar que essa fração coincide com a Zona de Recuperação Histórica, delimitada pela Lei da Operação Urbana Ribeira (PMN, 1997), e com a Zona Especial de Preservação Histórica, estabelecida na Lei nº3175/84. Assim, o uso e a ocupação do solo nessa área, bem como qualquer intervenção ali proposta, fica sob a égide e prescrições urbanísticas dos referidos instrumentos da legislação urbanística. No segundo padrão, está a fração identificada pelo traçado mais irregular, com a presença de trechos radiais e lotes maiores e irregulares, que acabam definindo quadras também maiores e que fogem do padrão retangular. A representação se dá no conjunto que envolve o limite leste do bairro da Ribeira até a Avenida Rio Branco e no limite sul do bairro até a rua Sachet. Nessa fração identifica-se uma ocupação com mais vazios no interior do lote, pela presença dos recuos laterais e até mesmo frontais. Os grandes lotes são ocupados por empreendimentos institucionais e equipamentos públicos, de uso coletivo, ou prestadores de serviço. Na relação com o zoneamento definido pela Lei da Operação Urbana Ribeira, essa fração está associada com os três sub-setores identificados na referida Lei. A fração do limite leste mais a sul está na Área Adensável, para a qual são permitidos formas de uso e ocupação conforme parâmetros da “Zona Adensável” definidos para outras áreas da cidade. (FIGURA 07) Já a fração do limite leste mais a norte encontra suas prescrições urbanísticas na “Zona de Renovação Urbana”, considerada propícia para a expansão do bairro. No que se refere à fração no limite sul, esta fica sob as prescrições da “Zona de Recuperação Histórica”. É exatamente nesse último trecho que se insere a parte cabível à área de estudo em análise. Assim, as quadras que envolvem a Estação Ferroviária, o Teatro Alberto Maranhão e a Praça Augusto Severo e seu entorno imediato- elementos que compõem a área de influência imediata do projeto urbanístico proposto, estão inseridas nesse padrão. Verificando-se o traçado do bairro da Ribeira, identifica-se ainda um padrão intermediário. As quadras entre as Avenidas Duque de Caxias e Rio Branco e ainda as quadras limítrofes com os bairros de Rocas e Santos Reis formam esse conjunto. Expressas dentro de um traçado regular, as quadras comportam, em sua maioria, grandes lotes. A ocupação define um índice intermediário entre os apresentados anteriormente: menor do o primeiro (que chega a uma ocupação de 100% no lote), porém maior do que o segundo

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

50

(cuja fração chega até a se enquadrar na Área Adensável, como visto em análises anteriores). Na relação com o disposto pela Lei da Operação Urbana Ribeira, a fração aqui identificada apoia-se na Zona de Renovação Urbana e, as quadras limítrofes com os bairros de Rocas e Santos Reis na Zona de Recuperação Histórica, coincidindo também com a Zona Especial de Preservação Histórica (PMN, 1984), por compor o conjunto que representa as primeiras áreas de ocupação do bairro e da cidade.

Tipologias edilícias- atividades urbanas e períodos históricos

O estudo tipológico consiste no inventário e categorização das edificações

identificando as atividades que nelas se expressam. A partir dos elementos estruturais evidentes na forma e na composição do edifício, é possível ainda associá-lo a um determinado estilo arquitetônico e período histórico. Quanto aos estilos arquitetônicos, a classificação parte da identificação dos períodos e momentos históricos por que passou o bairro da Ribeira, cuja consolidação se deu mais intensamente a partir do final do século XIX e resultou na sua configuração atual. No que se refere à análise tipológica de uso do solo na área de estudo, o levantamento in loco abrangeu inicialmente todo o bairro da Ribeira, cujo (FIGURA 03) representa os resultados obtidos. Porém, para efeito de análise e observações aqui inferidas, considera-se a área de estudo, definindo um conjunto que bem representa a ocupação de todo o bairro. Nessa área, destacam-se como

50 (cuja fração chega até a se enquadrar na Área Adensável, como visto em análises anteriores).
FOTO 35 – CORREIOS- Exemplo de edificação destinada ao uso institucional.
FOTO
35
CORREIOS-
Exemplo
de
edificação
destinada
ao
uso
institucional.
50 (cuja fração chega até a se enquadrar na Área Adensável, como visto em análises anteriores).

FOTO 36 – Concentração de depósitos e oficinas. Rua Chile/ Ribeira. FONTE: Mizá Dias, 2002.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

atividades propulsoras de sua dinâmica

urbana: prestação de serviços, institucional

(FOTO 35), comercial, industrial, e residencial, listados em ordem decrescente. Destacam-se ainda as categorias desocupado e residencial-favela, como especificidades do local. Na área de estudo, predominam edificações que desempenham atividades ligadas à prestação de serviços, expressa, sobretudo, pela incidência de depósitos e

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

oficinas. Concentram-se, principalmente,

............................................................

51

nas Ruas Chile (FOTO 36), Dr. Barata e Câmara Cascudo e ocupam, em geral, tanto galpões como pequenas edificações que assumem um aspecto de deterioração na estrutura

física do edifício. Quando a reforma e a restauração para o re-uso nessas edificações são evidentes, percebe-se apenas o tratamento das fachadas, procurando conservar e destacar os elementos que denunciam seu significado histórico para a cidade. Essas edificações representam o núcleo da ocupação inicial da Ribeira que se processou na expressão de armazéns, casas e edificações comerciais, principalmente a partir da instalação do porto em

1872.

Os depósitos estão concentrados na Rua Chile e ocupam grandes edificações que

51 nas Ruas Chile (FOTO 36), Dr. Barata e Câmara Cascudo e ocupam, em geral, tanto

atendem, basicamente, à indústria pesqueira, instalada às margens do Rio Potengi (FOTO 37). As oficinas encontram- se espalhadas por toda área estudada e abrigam atividades de marcenaria, mecânica de automóveis, refrigeração e eletrodomésticos, dentre outras. Esse tipo de atividade tem contribuído para a deterioração da paisagem e os

FOTO 37 – Norte Pesca. Indústria pesqueira situada na Rua Chile/ Ribeira. FONTE: Mizá Dias, 2002.

conseqüente valores negativos atribuídos

ao bairro.(DIAS, 2000)

No âmbito da caracterização da filiação estilística, o período que abrange os últimos anos do século XIX e o início do século XX é marcado por uma “miscelânea de estilos históricos” (BRUAND, 1991, p. 33 apud MEDEIROS, 2000), denominado ecletismo, resultando em edificações sem unidade de estilo. A composição das edificações que datam desse período apresenta uma variedade de

elementos que expressam influências classicizantes, art decò e proto-modernas , estas já prenunciando a arquitetura modernista que se consolidou com as edificações construídas entre as décadas de 30 e 60 do século XX Partindo do pressuposto que a adoção de um partido arquitetônico se relaciona diretamente com o uso atribuído ao edifício que o incorporará, a maior expressividade dos estilos arquitetônicos configurados no bairro da Ribeira encontra sua manifestação mais

Características classicizantes: presença de cornijas nas fachadas, pilastras demarcadas, cercaduras nas esquadrias, pé direito elevado, acesso principal demarcado, capitéis ornamentados, balaustradas decorativas, detalhes em estucaria, entre outros. Características art decò: traços mais retos, detalhes decorativos, estucaria, platibanda com detalhes escalonados e outros. Características proto-modernas: vergas retas, uso de vazios(em painéis de vidro), ausência de cercaduras nas esquadrias, pilastras e acessos demarcados e volumetria estática, porém com indícios de jogo de volumes com saliências e reentrâncias nas fachadas.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

52

impetuosa nas edificações destinadas à prestação de serviços públicos, identificadas pela natureza institucional, seja na tipologia de uso atual ou de épocas passadas. É o caso do prédio do Antigo Palácio do Governo (FOTO 07) que situado na Rua Chile funciona atualmente como Palácio da Cultura e Sede do Ballet Municipal. Este, datado de meados do século XIX, foi construído num estilo neoclássico puro, cujos elementos são reconhecidos principalmente pela presença do frontão triangular, das cornijas nas fachadas, detalhes em estucaria, cercaduras nas esquadrias, além da notável volumetria pesada. As edificações institucionais encontram-se espalhadas por todo o bairro e constituem exemplares que expressam mais claramente o estilo arquitetônico semelhante ao período de sua construção. Como a ocupação mais intensa do bairro se dá a partir do início do século XX, grande parte das edificações aqui referidas datam desse período, expressando a justaposição de estilos e a adoção de partido características da época. “Os prédios construídos nessa época, com o uso, principalmente de vários elementos históricos e decorativos, expressam riqueza, representam poder e sugerem monumentalidade, seja pelo uso exagerado de ornamentos, seja pela proporção volumétrica do edifício.“ (MEDEIROS,

2000)

No espaço investigado, o uso institucional, juntamente com a prestação de serviços (mencionado anteriormente), se destaca na atual configuração tipológica e os elementos arquitetônicos referentes ao período histórico de sua construção se manifestam claramente nas edificações destinadas a essa atividade. Destaca-se ainda, que edificações construídas originalmente para as residências de personagens importantes da época também impõem uma arquitetura expressiva. Neste grupo, como integrantes da área de estudo imediato, se inserem as antigas residências do Dr. Januário Cicco (onde atualmente funciona o Albergue Cidade do Sol, na Av. Duque de Caxias) (FOTO 38) e a do Sr. Fortunato Aranha (prédio atualmente sob propriedade do MEC- Ministério da Educação e Cultura, também situado na Avenida Duque de Caxias) (FOTO 39), com influências mais classicizantes que, associadas a outros estilos,

52 impetuosa nas edificações destinadas à prestação de serviços públicos, identificadas pela natureza institucional, seja na

FOTO 38 – Antiga residência do Dr. Januário Cicco. Uso atual: serviço. FONTE: Mizá Dias, 2002.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

52 impetuosa nas edificações destinadas à prestação de serviços públicos, identificadas pela natureza institucional, seja na
FOTO 39 – Antiga residência do Sr. Fortunato Aranha. Uso atual: instituição. UM ESPAÇO MULTIMODAL FONTE:
FOTO 39 – Antiga residência do Sr. Fortunato
Aranha. Uso atual: instituição.
UM ESPAÇO MULTIMODAL
FONTE: Mizá Dias, 2002.
NO BAIRRO DA RIBEIRA
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

............................................................

53

compõem um estilo eclético. Outras antigas residências que merecem destaque é o atual prédio do Colégio Salesiano, antiga residência de Juvino Barreto que foi construída ainda no século XIX (CARVALHO; et al, 1993) e a casa de Câmara Cascudo, situada nos limites do bairro com a Cidade Alta. Compondo ainda o conjunto de significativos exemplares do ecletismo no bairro da Ribeira, destacam-se na área de estudo as seguintes instituições: o prédio da Associação Comercial, a Junta Comercial do Estado, a Secretaria de Segurança Pública, o Centro Clínico da Ribeira e o Teatro Alberto Maranhão.

53 compõem um estilo eclético. Outras antigas residências que merecem destaque é o atual prédio do
FOTO 40 – Centro de Treinamento e Desenvolvimento Ferroviário. FONTE: Mizá Dias, 2001. FOTO 41 –
FOTO 40
Centro
de
Treinamento
e
Desenvolvimento Ferroviário.
FONTE: Mizá Dias, 2001.
FOTO 41 – Prédio da REFSA – CBTU.
FONTE: Mizá Dias, 2001.

Os prédios da Receita Federal, do Ministério da Fazenda, da Secretaria do Interior DECON-PROCON, da antiga Delegacia de Polícia da Ribeira, da antiga Estação da Estrada de Ferro do RN e a praça José da Penha compõem, juntamente com os edifícios apresentados anteriormente, o conjunto eclético do final do século XIX e

início do século XX do bairro da Ribeira como um todo. (MEDEIROS, 2000). Encontram-se ainda na área de estudo

algumas edificações que, apresentando elementos mais simples com ausência de ornamentos, definem um momento arquitetônico considerado como um prenúncio do movimento modernista na cidade. Consideradas “proto-modernas”, as edificações que representam esse momento são: o Centro de Treinamento e Desenvolvimento Ferroviário (FOTO 40), o

prédio da REFSA (FOTO 41) e o prédio do antigo cinema Politheama, juntamente com o

edifício da Rua Dr. Barata com a Travessa Aureliano, sendo essas últimas edificações destinadas atualmente à prestação de serviços. O conjunto proto-moderno do bairro da Ribeira é complementado com os seguintes prédios: Correios, Delegacia Federal de Agricultura, União Nacional dos Economiários- Delegacia Regional do RN, Delegacia Fiscal, Instituto Técnico e Científico de Polícia, Delegacia do Ministério do Trabalho (FOTO 13), Centro de Atendimento ao Contribuinte da

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

54

Receita Federal, o Moinho Natal e o atual Tribunal do Juri (antigo Grande Hotel) (FOTO 09). (ibid) Obras integrantes da arquitetura moderna ainda caracterizam a tipologia edilícia da área de estudo. Os representados desse movimento na fração abordada são o prédio do Antigo Terminal Rodoviário (FOTO 11), o prédio da Caixa Econômica Federal (FOTO 15), a Capitania dos Portos e outros prédios que se encontram abandonados ou sub-utilizados. Os prédios modernistas situados em outras áreas do bairro e que merecem destaque pela função que desempenham são ainda: o Banco do Brasil, o SETRANS, o Ministério da Integração Regional, o ITEP, a CAERN e o IPASE. Como é possível observar na análise tipológica descrita acima, a área de estudo apresenta um predomínio de edificações institucionais e de prestação de serviços de grande expressividade arquitetônica, revelada nos elementos manifestos na composição dos edifícios. Vale ressaltar ainda que a tipologia edilícia concebida para a área representa o processo de ocupação que se estende ao bairro como um todo.

As articulações na configuração urbana do bairro da Ribeira

A análise da maneira como o espaço é articulado se dá na caracterização das relações espaciais que são expressas entre o domínio público x privado e o espaço edificado x não edificado. Os estudos de HERTZBERGER (1999) apreciam a articulação do espaço para criar lugares e unidades espaciais, cujas dimensões e níveis de demarcação possam torná-las capazes de acomodar as relações dos seus usuários. Nessa concepção, os conceitos de “público” e “privado” passam por uma “gradação de demarcação territorial”, acompanhada pela sensação de acesso, de responsabilidade e de propriedade sobre o espaço ou objeto investigado. Essa gradação e suas correlações podem ser estabelecidas previamente em termos legais, mas a vivência do homem no lugar é preponderante para sua determinação. Assim, as noções de “público” e “privado” podem ser interpretadas como de sentido “coletivo” e “individual”, respectivamente. “Num sentido mais absoluto, podemos dizer:

pública é uma área acessível a todos a qualquer momento; a responsabilidade por sua manutenção é assumida coletivamente. Privada é uma área cujo acesso é determinado por um pequeno grupo ou por uma pessoa, que tem a responsabilidade de mantê-la.” (HERTZBERGER, 1999, p. 12) Cabe ressaltar ainda que a apropriação do espaço urbano e os usos que se revelam a partir da organização social e econômica fazem emergir, num patamar intermediário, os lugares considerados semi-públicos. Portanto, se as casas são de domínio privado; as ruas, as praças e os locais abertos de convívio comunitário são de domínio público. As áreas internas aos ambientes construídos e que estimulam o uso coletivo podem ser consideradas semi-públicas. Estas se

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

55

expressam nos pátios internos ou afins de instituições e nas “ruas internas” de galerias comerciais e/ou de serviços. No bairro da Ribeira, o domínio público é definido pelas ruas e logradouros, pela praça Augusto Severo e seu entorno que envolve a área da antiga rodoviária, pelo largo da Igreja Bom Jesus, pelo largo da Rua Chile, e pela área que envolve o Cais da Tavares de Lira. Assim, através da planta figura-fundo (FIGURA 12) nota-se a presença de unidades espaciais cujas interações entre si conduzem à articulação interna do próprio bairro e deste com o resto da cidade. Os espaços semi-públicos encontram-se espalhados por todo o bairro, expressos nas inúmeras edificações institucionais (da esfera pública ou privada). O domínio privado é representado pelas edificações que definem a massa edificada no bairro. Entre os espaços privados, merece ressalva os diversos prédios destinados à atividade comercial. Portanto, a articulação manifesta na relação dos domínios público x privado do ambiente investigado denota um equilíbrio de interação entre os mesmos. A Ribeira assume um caráter de lugar público em potencial, favorecendo sua comunicação com os bairros vizinhos e outras centralidades urbanas da cidade. O enfoque na relação entre espaço edificado x não edificado revela o índice de ocupação no espaço, que observado numa correlação com os níveis de verticalização caracteriza a densidade de ocupação do bairro e infere níveis de aproveitamento da infra- estrutura disponível. A partir dessa caracterização, os parâmetros urbanísticos orientam para a identificação de áreas potenciais de ocupação e expansão. A análise da articulação entre o espaço edificado e o não edificado no bairro da Ribeira (FIGURA 13), revela uma mancha mais fechada no trecho que compreende a área mais antiga do bairro, definida nas Ruas Chile, Frei Miguelinho e Dr. Barata, onde as edificações ocupam quase 100% do lote. Nos termos da verticalização, as edificações apresentam um certo equilíbrio com a estrutura física e infra-estrutura instalado no lugar. As ruas estreitas que definem esse conjunto intensificam a sensação do alto índice de ocupação no espaço, contudo, o trecho apresenta uma densidade baixa no âmbito da verticalização. Na área compreendida pelas Ruas Sachet, Almino Afonso, Frei Miguelinho e Silva Jardim nota-se a presença de algumas áreas vazias no interior do lote das edificações – o índice de ocupação no lote fica entre 70% e 90%. As quadras limítrofes com o bairro das Rocas são as que apresentam menores índices de ocupação. Quanto à intensidade de ocupação, ainda predominam edificações com até 02(dois) pavimentos, mas já se observa o surgimento de edificações com 03(três), 04(quatro) e até 06(seis) pavimentos. Nesse trecho, algumas ruas são mais largas, mas a massa edificada conforma um espaço mais denso do que o apresentado anteriormente.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

56

As demais áreas do bairro da Ribeira, nos limites com os bairros de Cidade Alta e Petrópolis, expressam um índice de ocupação no lote bem menor (em torno de 50%). Predominam as edificações térreas, com algumas incidências de edificações com até 04(quatro) pavimentos. Esse trecho corresponde à Área Adensável nos termos das prescrições legais da Operação Urbana Ribeira, indicando a viabilidade de um aumento do potencial de utilização da terra no lugar. De acordo com a caracterização acima estabelecida, a área de estudo é expressa numa relação público x privado que evidencia a primazia do coletivo. A presença dos terminais de transporte coletivo e das edificações destinada às atividades de cultura, lazer e serviços públicos garante essa caracterização, associada ao sistema de vias que, conforme apresentado anteriormente, favorece a circulação de veículos, o acesso ao bairro e sua articulação com o resto da cidade.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

4.3.-Os Elementos de Destaque

57

A partir das atividades desenvolvidas na área de estudo observa-se a presença de alguns elementos que se destacam no cenário urbano, seja pela sua função econômica- social seja pelo papel histórico-cultural a eles atribuídos. Partindo para uma abordagem mais precisa a respeito da circulação urbana no bairro da Ribeira e a influência na cidade como um todo, foram destacados os elementos que se revelam mais significativos para a compreensão da temática da circulação urbana e investigação da área de projeto que acolherá o espaço multimodal proposto. (FIGURA 08)

Praça Augusto Severo

A área que hoje compreende a Praça Augusto Severo (FOTO 31) foi até meados do século XIX uma das regiões que recebiam as águas do Potengi, nos períodos das altas marés. Constantemente alagada, a área era conhecida como “pântano da campina da ribeira”. (SEMURB, 2001) Como foi tratado no discurso da evolução do bairro, sua situação geográfica e

topográfica, por um lado, foram condicionantes naturais que se colocavam como barreiras para a ocupação da área, e vencer os “pântanos” e as “áreas alagadiças” que se estendiam pela Ribeira foram preocupações que se manifestaram em vários projetos urbanísticos dos fins do século XIX e meados do século seguinte. Nesse processo, constantes aterros na região ribeirinha da cidade, foi dando forma ao posicionamento de praças nos pontos de maior desnível com a cidade baixa. (DIÁRIO DE NATAL, 2001) Essas regiões cristalizaram-se como áreas de convívio comum e atualmente encontram-se consolidadas nas praças Augusto Severo e José da Penha, também identificadas no imaginário popular. Registros históricos mencionam a existência da praça Augusto Severo (antiga Praça da República) já em fins do século XIX. A denominação atual surgiu em homenagem à Augusto Severo, devido ao seu falecimento em 1902. Em 1904, os projetos urbanísticos para o bairro contemplaram o ajardinamento da praça Augusto Severo, o que, segundo alguns historiadores, resultou no espaço mais belo e agradável da cidade. Era um cartão postal que, juntamente com a importância econômica e social do bairro, atraía visitantes de outras localidades. (SEMURB, 2001) Assim, refere Câmara CASCUDO (2000) sobre a praça: “o antigo pântano havia sido transformado em um

dos mais belos recantos (

...

)

servindo a freqüentadores assíduos por um bom papo,

acompanhado de boa música executada pela banda musical da polícia militar. Era um

verdadeiro jardim tropical, com belos canteiros, e fonte ornamental de bronze ( bela praça que a cidade já teve”.

...

);

a mais

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

58

O projeto da praça só veio ser desenhado em 1905, quando a área foi “regularizada e transformada em um agradável passeio, contando com fonte, chafariz, pontes e coreto”. (CARVALHO, et all, 1993, p. 63) É nesse período também que a iluminação pública chega à cidade e a primeira fração urbana a receber energia elétrica englobava a praça Augusto Severo. Ainda na primeira década do século XX, foi iniciada a abertura, entre outras, das Avenidas Tavares de Lira e Duque de Caxias, que terminava na praça recém-construída e inaugurada a 15 (quinze) de novembro de 1905. (SEMURB, 2001). Em 1913 e 1926, essas avenidas, com a Tavares de Lira já ostentando as dimensões atuais, encontravam-se totalmente abertas. Contudo, foi apenas a partir de 1939, que a então avenida Duque de Caxias (cuja denominação foi estabelecida no período da Segunda Guerra em homenagem ao patrono do exército) foi estendida a Avenida Junqueira Aires, o que segmentou a praça e definiu um traçado reduzido a 1/3 (um terço) do seu espaço original. (BRITO, et all, 1991, p. 32) Por outro lado, a união dessas duas avenidas facilitou a ligação entre a Ribeira e a Cidade Alta, dada até então apenas pela avenida Rio Branco. Seccionada, a praça foi mantida guardando a estátua de Augusto Severo e assumiu, desde então, uma forma triangular. Do outro lado da avenida foi construído, em 1963, o Terminal Rodoviário. A configuração atual da Praça Augusto Severo foi definida desde sua ampliação até o edifício do Teatro Alberto Maranhão, área conhecida como “Largo do Teatro”. Durante o processo de ocupação do bairro, foram se estabelecendo no entorno da praça importantes estabelecimentos culturais, de ensino, sociais e econômicos para o bairro e para a cidade como um todo. Nessa área estão, além do Teatro Alberto Maranhão (1904) já mencionado, o prédio do antigo Grupo Escolar Augusto Severo (1908), posterior Faculdade de Direito e atual Secretaria de Segurança Pública; o antigo Politheama (1911), atual estabelecimento comercial pertencente a firma Limarujo Comércio Ltda; a antiga escola Doméstica de Natal (1914), atual posto de assistência médica do INSS; a antiga residência do empresário Juvino Barreto e atual Colégio Salesiano; o prédio da Junta Comercial (1930); o prédio da Antiga Rodoviária (1963) e ainda o prédio da Estação da Rede Ferroviária Federal. Entre essas edificações, 05(cinco) pertencem ao conjunto de imóveis tombados do bairro da Ribeira, que compreende um total de 10(dez). (QUADRO nº 01). Essa característica sinaliza a importância que essas edificações e seu entorno representam para a cidade. Na análise morfológica, a praça Augusto Severo é apontada como área de expressivo significado social, histórico-cultural e econômico, de cristalização no bairro e de ser palco de conflitos no âmbito da circulação e mobilidade urbana. A convergência de mais de 50% das linhas de ônibus intra-urbanos para o terminal rodoviário, somados aos ônibus

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

59

intermunicipais, transportes alternativos e a presença da estação ferroviária na área remete a um fator que, associado às funções expressa pelas suas edificações, resulta num espaço de grande movimentação e circulação de pessoas. Aparece, portanto, como área potencial de referência no estudo da implantação do espaço multimodal de passageiros para Natal, mantendo uma relação direta com a intervenção proposta no “projeto da praça” que, como visto anteriormente, busca o fortalecimento de suas características como espaço cultural e sua qualificação como área de convívio público.

O prédio da Antiga Rodoviária

O prédio da antiga rodoviária de Natal (FOTO 23) foi construído durante a administração municipal de Djalma Maranhão e inaugurado em 1963 (SEMURB, 2000). A instalação da rodoviária no bairro da Ribeira surgiu como uma tentativa de promover um impulso no comércio local, que começava a afirmar-se como decadente e transferia-se paulatinamente para outras áreas da cidade. A iniciativa, porém, não revelou sinais de recuperação para a vitalidade do bairro e, no final da década de 70, a transferência do Terminal Rodoviário para as imediações do conjunto Cidade da Esperança também contribuiu para reforçar o esvaziamento populacional do bairro e seu declínio como área de atração na cidade. Atualmente, o prédio se expressa como um terminal de ônibus de algumas linhas municipais, por onde transitam também linhas intermunicipais e ainda transportes alternativos. A edificação abriga, em suas instalações internas, pequenos bares e lanchonetes no pavimento térreo e alguns escritórios e órgãos afins no seu pavimento superior. Os elementos arquitetônicos de sua composição revelam um modernismo já consolidado: volumes sobrepostos com pavimento térreo recuado, formando uma circulação com abrigo; laje em balanço e marquise com forma sinuosa, revelando a plasticidade oferecida pelo concreto. (CASTRO, et all, 1999, p. 37) O estudo de Análise Comportamental no prédio, feito como subsídio para o desenvolvimento de uma proposta projetual de re-uso (CORTEZ, 1996) revela que “o fluxo

de ônibus é ainda maior do que fora antes, porém o perfil do usuário mudou. Agora são passageiros rápidos e sôfregos que vão e vem dos colégios e trabalhos, tentando passar o

mais rápido por ali (

...

)

“. (ibid) A proposta desenvolvida a partir desse estudo aponta como

agente propulsor de vitalidade uma área de lazer. Assim, o autor propõe a reutilização do prédio dando lugar a um palco para manifestações artísticas e uma praça no térreo e salas para escritórios no pavimento superior. Para efeito de significado para o objeto de estudo, o destaque dessa proposta se dá na indicação de uma praça no térreo articulada com a já existente. Aqui, pode-se recorrer

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

60

novamente ao “projeto da praça”, que define um tratamento para o prédio nas mesmas linhas gerais do lazer cultural.

O prédio da Estação da Rede Ferroviária Federal

No prédio onde atualmente funciona a administração da Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU (FOTO 26) e a estação de trens urbanos locais, funcionou a Great Western- a antiga estrada de ferro dos ingleses. A composição dos elementos de sua fachada revela a caracterização do proto-modernismo, prenunciando a consolidação do movimento moderno característico das construções de períodos posteriores. Pela estrada de ferro inglesa operava uma linha regular de passageiros e cargas entre os estados do Rio do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Passado ao Governo Federal, as linhas existentes e toda área do entorno ficou sob domínio da Rede Ferroviária Nacional, a quem cabe atualmente a administração daquela área. É de domínio da Rede Ferroviária:

as três edificações imediatamente vizinhas ao prédio; o Centro de Treinamento, que apresenta um museu no térreo, um auditório no pavimento superior e escritórios administrativos da Rede; e todo pátio interno, onde estão as vias férreas e as edificações de apoio à operação do trem.

A Pedra do Rosário

À margem direita do Rio Potengi, a plataforma que ostenta a Pedra do Rosário (FOTO 24) foi construída em 1974, tendo sido inaugurado o Largo do Rosário, em novembro do mesmo ano. “No centro da plataforma encontra-se uma coluna de alvenaria, encravada na pedra, com uma réplica da imagem da santa Nossa Senhora da Apresentação“. (NESI, 1994, p. 21) A proximidade com a Igreja do Rosário, no bairro da Cidade Alta, atribuiu o nome ao local. A importância da área remete a valores religiosos e místicos da população local. Foi naquela pedra que, conforme registros históricos, apareceu, em fins do século XVIII, a imagem da santa, erguida posteriormente sobre a pedra. Em comemoração do Bi- Centenário da alocação da imagem na pedra, foi fixada, em 1953, uma placa que representa, como refere NESI (1994), “um brado de alerta do mestre Câmara Cascudo, em prol da preservação daquela Pedra- um marco sagrado da História da Cidade do Natal”. Dada sua importância para a identidade local, diversos eventos sociais organizados na área têm resgatado seu valor histórico, social, religioso e cênico-paisagístico. Daquele local vislumbra-se o mais belo por do sol da cidade de Natal. Atualmente, a plataforma funciona ainda como ancoradouro de pequenas embarcações de passageiros que fazem um percurso pelo rio Potengi.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................

O Cais da Avenida Tavares de Lira

61

O Cais da Avenida Tavares de Lira (FOTO 25) foi construído no ano de 1869, em substituição ao Cais da Alfândega, este construído em 1863 e localizado onde atualmente funciona a Capitania dos Portos, na esquina da Rua Chile com a Travessa Aureliano. O Cais 10 de Junho, como foi chamado inicialmente, contribuiu com a consolidação e firmação do bairro da Ribeira como centro comercial da cidade até o término da Segunda Guerra Mundial. Ali embarcavam e desembarcavam passageiros e a rua estendida entre o Cais e a Avenida Duque de Caxias foi se impondo como a mais importante artéria do bairro

da Ribeira, e talvez de Natal, situação que se manteve até o bairro entrar no processo de esvaziamento populacional e decadência físico-espacial. (DIARIO DE NATAL, p. 265) É uma avenida que exprime a alma tumutuária do bairro. Há de tudo nessa avenida.

Deságua no Potengi, de cujo cais se admiram os poentes. (

...

)

Avenida de festa e de

trabalho. Cortam-na ainda os bondes promíscuos, isto é, sem distinção de classes. ( ) ... A avenida Tavares de Lira é bem a avenida democrática.” (A REPÚBLICA – “Psicologia da Avenida Tavares de Lira” – 24 de janeiro de 1926 apud DIÁRIO DE NATAL, 2001, p.

265)

O obelisco presente na Avenida, alocado nas proximidades com o cais, foi inaugurado em 1913. Encomendado da Europa, o obelisco de 5metros de altura foi colocado para ornamentar a então principal via do bairro e é, nos dias atuais, um elemento marco do período áureo do bairro da Ribeira. A função do cais como área de embarque e desembarque para o transporte hidroviário de passageiros atuou precariamente por vários anos e encontra-se desativada nos dias atuais. O equipamento apresenta um nítido estado de abandono e apenas as embarcações de apoio à atividade pesqueira do entorno atraca no estabelecimento.

MIZÁ CILAYNE FERNANDES DIAS

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO
TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

UM ESPAÇO MULTIMODAL

NO BAIRRO DA RIBEIRA

............................................................