Janeiro, 2010

ntervenção crítica!
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Além de constituírem problema social, o racismo e o elitismo são também um problema da linguagem. Em alguns casos, talvez seja mais correto dizer que eles induzem a um tipo de doença da linguagem. Frantz Fanon, em seu livro Pele negra máscaras brancas, dedicou todo um capítulo sobre a questão da linguagem e as relações raciais. No capítulo “O negro e a linguagem” ele já tinha observado que “falar é estar em condições de empregar uma certa sintaxe, possuir a morfologia de tal ou qual língua, mas é sobretudo assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização”.1 Nossa formação social, nossa “cultura” (se é que essa palavra pode ser usada aqui), para a manutenção de sua correlação de forças entre classes e grupos étnico-raciais, impõe tanto aos agentes como às vítimas do racismo uma vida em contradição: exige-se que ambos experienciem suas vidas de uma forma mas que a verbalizem de outra, nem sempre coerente com a experiência vivida. Tal demanda, no entanto, arrasta os sujeitos a um tipo de dissociação entre linguagem e realidade que gera grande sofrimento, e tem um potencial extremamente ameaçador à estrutura psíquica dos indivíduos e ao convívio social. É comum, por exemplo, adolescentes conviverem cotidianamente com olhares atravessados de professores e colegas na escola, e serem tratados constantemente com apelativos depreciativos relacionados a sua cor. Simultaneamente, no entanto, esses adolescentes aprendem na mesma escola onde sentem-se desconfortáveis, ou mesmo na
1 Fanon, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. EDUFBA, Salvador, 2008, p. 33.

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No. Zero

A linguagem do racismo, do elitismo e as regras da dominação
Carlos Henrique R. de Siqueira mídia, que “não somos racistas”, ou que vivemos numa “democracia racial”. Ou seja, desde cedo são pressionados a abdicarem de expressar suas experiências de discriminação e preconceito usando o conceito adequado, isto é, o racismo. Nesses casos, os adolescentes com base familiar e social mais frágil podem até mesmo não encontrar na linguagem a que têm acesso em seus ambientes as categorias necessárias para que compreendam seu mal-estar. Essa impossibilidade de exprimir com as palavras adequadas as situações vividas, por sua vez, leva ao aprofundamento da sensação de deslocamento e de baixa auto-estima. Não é raro que isso leve a eventuais fracassos na escola ou nos relacionamentos interpessoais. E, num círculo vicioso e perverso, é provável que ele também não encontre vocabulário no qual consiga explicar para si e para outros, os motivos desses fracassos. Toda essa dinâmica torna uma leitura coerente sobre o mundo uma tarefa impossível, levando os indivíduos a terem grande dificuldade em dar sentido às suas experiências e, por conseqüência, em traçar suas trajetórias no mundo de maneira adequada. Num caso como esse, os sinais que indicam a existência de um problema é o vazio da linguagem e o próprio silêncio, ou aquilo que o antropólogo Robin Scheriff chama de “censura cultural”2. Mas nem sempre é assim. Às vezes, o sujeito que é objeto de discriminação percebe imediatamente o nome do mecanismo que o oprime e o ameaça. Mas quando a palavra “racismo” irrompe em algum ambiente, quando o sujeito nomeia o fato, ele desconcerta e perturba um arranjo social
2 Sheriff, Robin. “Exposing silence as cultura censorship: a brazilian case”. In American Anthropologist 102(1): 114-132.

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desenhado para evitar que essa palavra venha à tona. E quando a correlação de forças lhe é desfavorável nesse ambiente, quando ele está num meio onde é minoria, então o sujeito torna-se o problema, a palavra torna-se o problema e não a situação a qual esse sujeito estava submetido. Para o racista e o elitista o problema é outro. Ele também sofre. Só que a fonte de seu sofrimento é, muitas vezes, ser constrangido a não exercer sem algumas restrições o poder que de fato de-

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Foto 1 - Pixação anti-cotas: “Negro só se for na cozinha do RU (restaurante universitário). Cotas não!”. A linguagem expressa estruturas e valores sociais, e ao mesmo tempo, colabora para a reprodução dos mesmos valores e estruturas.

tém. Por causa disso, ele é compelido a falar sobre o mundo, sobre sua posição na hierarquia social e sobre as relações das quais participa utilizando, no mais das vezes embora não sempre, um vocabulário alusivo, indireto, sugestivo ou indicativo. Isso se dá dessa maneira porque as classes em posição de dominação necessitam de legitimidade e adesão dos dominados. E a experiência acumulada e desenvolvida ao longo do tempo ensinou que tal legitimidade e adesão à dominação é obtida pelo emprego de métodos que não pareçam diretos, que não pareçam confrontadores. Isto é, a dominação é exercida de forma mais estável quando a força não precisa ser empregada, quando pode-se utilizar apenas a ameaça de seu uso, ameaça essa que paira no ar como um saber tácito. Dessa forma, o vocabulário dos racistas e da elite num país tão desigual quanto o Brasil caracteriza-se por ser, via de regra, oblíquo. Nesse caso, a identificação do problema só pode ser feita através de uma leitura cuidadosa. É preciso estar atento às sutilezas dos discursos, aos seus pressupostos e projetos; nem sempre o importante é o

que esse discurso afirma, mas sim o que ele nega. A tarefa aqui é de escuta e decifração. Entretanto, nem sempre os racistas e os elitistas conseguem manter sua linguagem alusiva. Às vezes eles não podem conter o desejo de expressar sua posição dominante de forma direta. Outras vezes, quando desafiados, os dominantes são compelidos a reafirmar sua posição na hierarquia social no intuito de restabelecer a ordem perturbada. Nesses casos, identificamos os sintomas ouvindo a palavra indevida, isto é, o vocabulário ameaçador que exibe o poder e expõe as relações de dominação. Contudo, expor as relações de poder sem rodeios constitui uma clara violação às próprias regras da dominação. Pois ao tornarem-se alvo de crítica e reflexão, a possibilidade de reprodução dessas relações fragilizam-se diante dos dominados. Por motivos diferentes, vimos essa regra ser quebrada algumas vezes nas últimas semanas. Declaração após declaração, intencional ou não, em conjunto elas tiveram o infame mérito de falar diretamente e sem subterfúgios. E quando isso acontece, deve-se tentar romper a “censura cultural” e colocar as práticas de dominação sob questão. Boris Casoy e o elitismo O primeiro desse conjunto de declarações foi o de Boris Casoy, âncora do Jornal da Noite, na Rede Bandeirantes. Casoy foi pego em flagrante desrespeito às regras da dominação devido a um vazamento de áudio. Dificilmente diria o que disse em público, abertamente. Ele certamente acredita no que falou, mas não o diria fora do círculo de sua classe, daquele grupo que lhe seria solidário e cúmplice. Ao fundo do áudio em questão, pode-se até mesmo ouvir seu riso de escárnio, assim como o de seus companheiros de jornal. Não fosse o microfone aberto, ele estaria a salvo. O comentário seria só mais um motivo de riso a custa dos subalternos, compartilhado entre o pequeno grupo de amigos. É por isso que muita gente da corporação dos jornalistas qualificou o episódio de deslize. Palavra também oblíqua, que significa, na verdade, que ele não mentiu, mas apenas enunciou seu pensamento de uma maneira inadequada, além dos limites aceitáveis. Suas palavras e seu riso revelam o caráter

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da estrutura social tanto, ensinam que que, segundo as reprodução das regras da dominaposições de classe ção, não pode ser ocorre à medida que revelada dessa a classe a qual Camaneira. A possoy pertence parece tura de Casoy expreocupada com a põe com crueza classe à qual os lixas relações entre eiros pertencem. A classes. Pois o que posição de dominavimos foi um milção se legitima quanionário, no topo do os dominantes da pirâmide soparecerem querer cial, com salário mudar a situação. na casa das centeMas se na hierarquia nas de milhares de elitista de Casoy os reais, humilhando lixeiros são “o mais Gráfico 2 - O quadro comparativo entre o Brasil em relação aos agregados os lixeiros. de outras regiões nas décadas de 1980 e 1990 sugere que não houve baixo da escala do traO b j e t i v a - nenhuma tentativa séria por parte das elites dirigentes de diminuir as balho”, isso só ocorre mente, Casoy se desigualdade no Brasil. porque ele e os de encontra naquela sua classe batalham faixa de 10% da cotidianamente para população brasileira, que se apropria de algo em que seja assim. A cada defesa de seu modo de vida, torno de 45% a 50% da riqueza nacional. Enquanto de seu status, a cada negociação de salários, os da os lixeiros, no entanto, por sua faixa salarial, não classe de Casoy valorizam-se mais do que merechegam a ocupar a faixa mais baixa de rendimento cem, enquanto os lixeiros e os de sua classe, meentre os trabalhadores, não constituem, em ter- nos. E esse contínuo aumento de diferença entre mos salariais “o mais baixo da escala do trabalho”, os maiores salários e os menores, entre os que se ocupada principalmente pelos trabalhadores infor- valorizam mais e os que se valorizam menos, permais e subempetua a desigualpregados. Esse dade de classe fato, contudo, que os pares de indica que CaCasoy dissimulam soy não estava querer remediar. se impondo aos E cada lixeiros apenas vez que Casoy e do ponto de os de sua classe vista econômicolaboram para co, mas tama manutenção bém do ponto dessa situação de de vista do stadominação e de tus social. Isto diferenciação ené, ele estava, tre classes, mais Gráfico 1 - Representação das faixas de apropriação da riqueza nacional ao como diz uma longo dos anos de 1977 a 2005. Ele revela um padrão estável e duradouro de eles se valorizam, frase conhecida desigualdade. É essa hierarquia que Casoy expressa e reitera com sua visão criando uma esentre nós brasil- elitista. piral na dinâmica eiros, colocando da reprodução das os lixeiros “em seu devido lugar”, de acordo com a posições sociais e de suas hierarquias que é muito escala valorativa de sua hierarquia elitista. difícil de romper As regras de dominação “corretas”, no en-

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o Cônsul do raCismo O Cônsul haitiano no Brasil, o senhor George Samuel Antoine, também foi flagrado em surpresa. Ele foi pego numa conversa privada com um membro da elite branca brasileira. Não teria condições de sustentar seu ponto de vista publicamente. A sua concepção profunda sobre a maldição da herança africana dos negros haitianos só poderia ser revelada aos que garantissem a ele alguma cumplicidade, que não o contestassem, que o deixassem falar sem reprimenda. Porque num debate mais amplo sobre as mazelas da África e dos africanos, necessariamente chegaríamos a algum tipo de responsabilização não do Diabo, mas dos europeus que, desde que no século 15 começaram a seqüestrar pessoas na costa africana para escravizálas, até o momento que decidiram o desenho do continente numa mesa de negociação em Berlim no final do século 19, não cessaram trazer maldições sobre o continente, seus habitantes e a diáspora africana.

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ritórios e contingentes populacionais, explorandoos brutalmente. Quando fizeram isso, em nome da civilização, os europeus instauraram regimes racistas violentos como os da África do Sul, Zimbábue, Angola e Moçambique, para ficar em poucos exemplos, deixando um legado político autoritário e divisões políticas internas de difícil reparação. Em nenhum lugar houve racismo tão violento e tão letal quanto no Congo sob domínio belga que, segundo Adam Rochschild, em seu livro O fantasma do Rei Leopoldo. Uma história de cobiça, terror e heroísmo na África colonial, deixou um saldo de 5 a 8 milhões de mortos, mais que o Holocausto judeu! Para a África e os africanos, portanto, nenhuma maldição foi maior que os europeus. o medo BranCo de arnaldo JaBor O caso de Arnaldo Jabor é diferente. Quando ele disse que a democracia não tinha sido possível no Haiti porque eles tinham “raízes tribais africanas bárbaras”, ele fez isso para o público, de forma consciente e premeditada. Sua declaração reitera deliberadamente as tentativas de violentar a memória e o legado africano nas Américas, atos que tornaram-se cada vez mais freqüentes com a ascensão do negacionismo do racismo. Jabor lançou mão de um estereótipo ofensivo e mal-informado, que sempre parece fora-demoda quando o ouvimos. Como alguém pode se utilizar de um termo tão etnocêntrico, tão identificado com o racismo colonial em pleno ano de 2010? Afinal, que tribos bárbaras são essas de que fala? Elas têm nome? Sabe-se sua localização? Suas barbaridades estão registradas? Ou essa imagem apenas faz parte do imaginário racista de sua classe? Em seu sermão, Jabor desferiu um golpe covarde e unilateral. Como prática comum da grande mídia e da Rede Globo em particular, os porta-vozes da elite falam ininterruptamente, sem jamais proporcionar oportunidade de contestação. Desfrutando de completa falta de responsabilidade pública, disfarçada de liberdade e imprensa, Jabor sequer considera a possibilidade de que os cerca de 100 milhões ou mais de brasileiros que se identificam como negros, possam sentir-se atingidos por tais declarações. Afinal, os brasileiros continuaram a importar africanos para fins de escravidão mais de cinqüenta anos depois que os haitianos inter-

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Foto 2 - Uma das punições mais comuns aos congoleses sob domínio belga era a corte das mãos. Seu legado genocida e brutal continua incomparável.

A intervenção dos europeus na África acabou com o equilíbrio político na região, incentivou guerras entre grupos, proveu os conflitos com armamentos desconhecidos no continente, gerando grande destruição; os europeus apoiaram e promoveram regimes tirânicos que os beneficiavam; colonizou e colocou sob seu domínio imensos ter-

romperam o tráfico em seu país. Que diria então Jabor sobre os negros brasileiros? Mas como ele falava de estrangeiros, ele pode acertar dois alvos numa só sentença: exibia sua xenofobia elitista e ignorância, e indiretamente atingia a população negra brasileira, cuja origem é bastante similar à do Haiti. O caso de Jabor é daqueles em um poderoso membro da elite demarca sua posição e exibe de forma ostensiva seu poder. Nesse caso, questionar seus pressupostos pode colaborar para enfraquecer sua autoridade e legitimidade.

ros genocídios como, por exemplo, a eliminação de populações inteiras na Oceania, além de agressivas guerras de conquista na África e na Ásia. A l g u m tempo depois, a Revolução Francesa foi palco de outra sangrenta revolução, cujo demoCraCia e BarBárie período do Terror Acontece que a “barbárie” propriamente Figura 1 - Os maoris perderam 90% de foi de reconhenunca foi obstáculo para a democratização. O so- suas terras, e foram impiedosamente cida barbaridade. ciólogo histórico Michael Mann, por exemplo, em dizimados pelos ingleses na segunda Sob Napoleão, a seu livro The dark side of democracy. Explaining metade do século 19. França conquisethnic cleansing afirma que se passa justamente o tou boa parte da contrário do que pensa Jabor. Não há democracia Europa e só foi derrotada após derramar muito sem barbárie. Sem ela, jamais seria possível homo- sangue ao longo de praticamente todo o continengeneizar a população, e eliminar do mapa os inas- te, numa guerra que a Europa jamais havia visto. similáveis, aqueles grupos que não desejam a de- Nesses dois exemplos, Inglaterra e França levavam mocracia e o projeto ocidentalista implícito nele. consigo em cada guerra um projeto liberal e deJustamente por isso, a limpeza étnica foi mocratizante. Foi o próprio Hegel quem chamou prática rotineira nas Américas, na África e na Oce- Napoleão, quando invadiu o ocupou a Alemanha ania onde grupos étnicos indígenas resistentes a semi-feudal, de “o espírito do mundo”, o realizatodo custo ao modelo colonial ocidental, foram e dor da Idéia, isto é, da Liberdade. continuam sendo sistematicamente eliminados. Os Estados Unidos, por sua vez, construíram Há outros exemplos sua tão celebrada democracia históricos clássicos que pocom base no trabalho escravo dem ser citados. O caminho e na limpeza étnica da populada Inglaterra rumo à democração indígena nativa. Sem essa cia representativa, por exemlimpeza étnica sua base terriplo, só começa depois de uma torial e, por conseqüência, sua Guerra Civil de grande violênprópria história seriam muito cia. Ela culminou na decapidiferentes da que conhecemos tação de Charles I em 1649 e, hoje. Esse país tornou-se uma depois, em anos de tirania sob nação imperialista e dominou Cromwell, que combateu com boa parte dos países da América mão-de-ferro os privilégios das Central no início do século 20, classes nobres. Entre os sécumodificando completamente o los 17 e 18 a Inglaterra tornoujogo político da região, provose a grande nação imperialista cando muitas das guerras civis e colonialista da modernidade da primeira metade dos século sendo responsável por inúme20.
Figura 2 - Durante o Terror ninguém esteve a salvo da guilhotina, nem mesmo os líderes da Revolução.

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Combateu outros bárbaros na 2a Guerra Mundial no front europeu e no Pacífico. Nesse último front foi responsável pela quase total destruição do Japão, e pelo uso pela primeira vez na história humana, de armas atômicas. Elas foram utilizadas não uma, mas duas vezes. Ambas em ilhas japonesas habitadas praticamente por mulheres, crianças e velhos, à medida que todos os jovens e os homens em idade de combate haviam sido recrutados pelas forças armadas. Em apenas poucos segundos as duas bombas fizeram mais de 220 mil mortos, superando em muito os nazistas na técnica de assassinatos em massa. Jamais tantos foram mortos em tão pouco tempo. Depois disso entrou em guerra com a Coréia, desencadeou uma corrida armamentista mundial e a proliferação nuclear. Combateu o Vietnã, onde deixou terra arrasada, cerca de 1 milhão de mortos em dez anos de guerra direta e indireta, além de gerações inteiras de vietnamitas, além de seus próprios combatentes, mutilados e doentes devido às armas químicas usadas durantes o longo conflito. Recentemente invadiu o Afeganistão e o Iraque, arrasando com ambos os países. Violou praticamente todas as leis internacionais e de guerra, e retrocedeu gerações de conquistas da civilização quando consentiu no uso de tortura, e criou para si o direito de prender cidadãos de qualquer país, a qualquer momento, em qualquer lugar, sem acusação formal, e sem que os mesmos tenham qualquer direito garantido. Se alguma nação pode ser caracterizada como bárbara, creio que os EUA estão entre os mais cotados. Ao mesmo tempo, não creio que seja possível negar que eles têm algum tipo de democracia. Podemos também citar o caso da Alemanha. Nem antes da unificação no século 19, nem depois, ela conseguiu estabelecer uma democracia duradoura. Então entre os anos 1939 e 1945, ao longo da 2a. Guerra Mundial, os alemães foram os autores de algumas das mais bárbaras práticas já registradas na história humana. No entanto, apesar de serem descendentes de párias históricos que sustentaram, promoveram e ou toleraram o nazismo e o holocausto, eles formam hoje uma próspera democracia na Europa Central, e não passa pela cabeça de ninguém ligar as eventuais falhas do povo alemão às suas supostas “raízes

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bárbaras”. Portanto, fazer parte de uma linhagem de “bárbaros” parece não ser motivo suficiente para impedir a instituição de democracias, tal como mostram os casos da Inglaterra, EUA, França e Alemanha. Se é assim, se a “barbaridade” não é o que impede a democracia, o que será? Resta saber o que Jabor quis insinuar com sua expressão “tribos bárbaras africanas. Onde está sua ênfase, em “bárbaras” ou em “africanas”? Antes de decidir sobre o (não)dito, sobre as lacunas no processo de significação, sugiro que façamos como os psicanalistas, e escutemos o que vem por aí. Afinal, o Haiti, a primeira nação independente da America Latina, sempre foi um símbolo de terror na mente da elite branca. Ela significava para o imaginário racista e elitista de todas Américas, a primeira revolução vitoriosa dos escravos, o lugar onde os subalternos viraram o jogo de uma vez por todas.

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