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Fundamentos do direito – Léon Duguit

Léon Duguit inicia seu livro diferenciando duas grandes concepções do direito: o
direito objetivo – ligado à ética e, conseqüentemente, ao comportamento dos indivíduos
na sociedade de acordo com esses valores; e o direito subjetivo, o qual possibilita o
reconhecimento da pessoa no âmbito social, à medida que suas ações sejam
consideradas em conformidade com o direito objetivo.
Para estabelecer os fundamentos do direito, o autor desconsidera a concepção de
que este somente existe e se desenvolve dentro de um aparato de poder que regulamenta
todo o seio social, isto é, dentro do Estado. Sua justificativa a essa postura é a de que
“não se pode conceber a inexistência de um direito”. (pg. 9)
A fim de apontar caminhos que possam clarear a questão referente à presença de
um conjunto de normas além daquele estatal, Duguit aponta basicamente duas doutrinas
distintas: a do direito individual e do direito social.
Apesar de diferentes, basicamente ambas possuem a idéia de que o homem nasce
livre, isto é, possui amplo direito individual de desenvolver toda a sua capacidade física,
intelectual e moral. Como todos possuem o mesmo direito, é dever dos indivíduos
respeitar o desenvolvimento de todos os outros, constituindo-se assim a regra do social.
A partir deste ponto, o autor começa a distinguir as duas doutrinas. Destarte, a
individualista prega que a vida em sociedade somente seria possível com a limitação do
direito individual de cada membro, pois somente dessa forma a preservação dos direitos
gerais seria garantida. Vê-se, portanto, que se parte do direito objetivo para chegar-se ao
direito subjetivo.
O ideal presente nessa corrente é a igualdade, pois sendo a restrição dos direitos
individuais realizada de maneira equitativa, nenhum homem seria prejudicado por essa
limitação. Desse modo, o Estado estaria impedido de postular e realizar qualquer ação
que atentasse contra a igualdade natural humana.
Além disso, o autor também menciona que tal doutrina muito influenciou a
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Isso porque há referências
nela acerca da “conservação dos direitos naturas e imprescritíveis do homem” (pg. 13),
revelando assim a existência de um direito eterno e imutável. Destarte, toda civilização
teria como incumbência a aproximação do seu conjunto de normas vigentes com este
direito natural.
Entretanto, Duguit critica a base da doutrina individualista por ser “a priori”,
metafísica, pois a afirmação de que o homem nasce igual, isolado, independente dos

como a horda – homens agrupados para comum defesa e subsistência. o que une a humanidade é a “solidariedade social”. Assim sendo.outros. e solidariedade por divisão do trabalho. Todavia. e com direitos provindos justamente dessa independência é considerada pelo autor como uma “abstração desvinculada da realidade”. A partir desse momento. Essa corrente não considera afirmações “a priori”. os homens de um mesmo conjunto possuem necessidades que são supridas na vida em comum. que são a expressão moderna de agrupamento e pode ter se originado de formas distintas. Esta se fundamenta no homem como ser essencialmente coletivo e. todos os homens nascem em sociedade e são dependentes dela. ao contrário. todo grupo se organizou segundo alguns “estágios”. a “nação”. torna-se cada vez mais visível. não vive isolado dos demais. o axioma da doutrina individualista é a existência de um direito absoluto e imutável. isso não pode ser aceito cientificamente. seus direitos e deveres originam-se da regra comum aplicada a toda comunidade. está totalmente inserido num contexto coletivo e. Esta última. isto é. que se constituem de uma congregação de família as quais possuem as mesmas origens tradicionais. a qual consiste na diferença de ambições e capacidades que. realizar toda atividade propícia a desenvolvê-la organicamente”. dessa forma. através do progresso.15) Sua crítica se baseia na visão de que o homem. Para ela. (pg. Os homens são. Dessa socialização surge a consciência de cada um acerca da sua individualidade e. seguindo esta lógica. em sociedade. isto é. Apesar da enorme quantidade de grupos sociais distintos. conseqüentemente. (pg. o autor começa a analisar outra tendência contraposta à individualista: a doutrina do direito social. a par com isso. Em síntese. por isso. o autor salienta a contradição da igualdade natural com a realidade. em sua condição natural. devem ser tratados distintamente. 25) . Dessa forma. sujeito a todas as obrigações de uma vida social. família. as “cidades”. Para Duguit. é considerado evoluído à medida que satisfaz as necessidades de determinado povo. pois todo o direito se origina da própria evolução do homem e. se completam e permitem um processo de troca entre os homens. Além disso. o autor estabelece dois elementos primordiais dos laços que unem um povo: a solidariedade por semelhança. que os anseios e desejos dos seres humanos só podem ser alcançados através da própria vida em comum. por fim. que possui uma característica a mais em relação à horda – os laços sanguíneos. diferentes entre si e. sendo assim. laços desenvolvidos ao longo do tempo em um determinado grupo social. o qual provém da natureza humana. o direito social se resume a “não praticar nada que possa atentar contra a solidariedade social sob qualquer das suas formas e. e. por natureza.

não na acepção individualista. entende-se como uma diferença entre governados e governantes que existe em toda a sociedade humana. que Duguit considera como “todas as doutrinas que determinam a origem do poder político na vontade coletiva da sociedade submetida a esse poder. Pelo contrário. Social porque só existe pelo fato dos homens viverem em sociedade. contudo. 26). Nesta parte do livro. a qual propõe a legitimação do poder político de um indivíduo ou um conjunto deles a uma divindade e. Há também as doutrinas democráticas. a liberdade também é um direito do homem. é necessário ressaltar que. portanto. Assim. considerar esta última como soberana implica afirmar que ela possuiu uma vontade diferente daquela dos homens . Individual porque só pode ser aplicada a indivíduos que possuem consciência. sem. e que atribuem a legitimidade do mesmo à circunstância de haver sido instituído pela coletividade que rege” (pg. 39). deixar de valorizar o indivíduo. isto é. Permanente porque todas as relações sociais são de semelhança ou de divisão do trabalho. o autor critica a visão de Rousseau a respeito da vontade geral. Primeiramente. Entretanto. é essa distinção que possibilita o fortalecimento da solidariedade social. portanto. independentemente do grau de diferenciação. Além disso. Mutável pelo motivo de que a regra sempre se adéqua às necessidades sociais. pois todo homem possui o direito de desenvolver sua atividade para servir à solidariedade social. conforme tal postulado. portanto. Entretanto. a diferença entre si não constitui um mal. Essa doutrina se divide em duas: a sobrenatural. cada homem possui direitos e deveres diferentes na mesma comunidade e. que considera a providencia divina presente em toda ação humana. cada um cumprindo seu papel em prol da coletividade. os direitos dos homens provêm da sua qualidade de serem seres coletivos. através da Revolução. o autor começa a sondar a respeito das origens do poder. substituiu-se a soberania divina pela soberania popular. surgem doutrinas distintas que tentam justificar as formas de organização social. a qual foi muito difundida na França nos séculos XVII e XVIII e que pregava que somente o escolhido prestaria contas com Deus e.Esta regra é simultaneamente social e individual. Logo. Após tais análises. não haveria empecilhos a seus comandos. Por este. “a regra de direito mostra-se ao mesmo tempo permanente e mutável” (pg. não possui caráter científico. no entanto. possuem obrigações a cumprir e precisam desse poder para realizá-las. e a divina providencial. Desse modo. Uma delas é a teocrática. como não há respostas definitivas a respeito da legitimação do poder por meio da coerção material.

formulam o direito. a coletividade e o seu governo. Logo. não possuem o direito de participarem no exercício de seu poder. não se dá a ninguém”. Soberano é a pessoa coletiva da nação. à medida que. 52). “não se pode demonstrar que uma maioria possua legitimamente o poder de impor a sua vontade. é um fato decorrente da evolução social. A pessoa soberana e coletiva deve ser substituída pelo “homem real”. considerações metafísicas não são imprescindíveis na governabilidade. seja por meio da força econômica. Sua justificativa baseia-se na concepção de que a vontade geral somente se expressa pela vontade da maioria e. Para ser legítimo. o Estado seria detentor do “poder público” e teria o direito de constranger a fim de vigorar ordens. executivo e judiciário. surge o que o autor denomina “o despotismo das assembléias populares”. o qual não dá garantias de que sua vontade estará em conformidade com as vontades dos indivíduos. o poder político necessita estar em conformidade com o direito e. o que muitas vezes acarreta em injustiças. neste ponto do livro. e em toda sociedade. . O contrato social. organizam e fiscalizam os serviços estatais. os representantes do povo consideram-se no direito de impor suas vontades. O Estado deve ser entendido como uma relação recíproca entre governantes e governados. O fator comum dentre elas é que os mais fortes sempre impõem a sua vontade. Assim. Todavia. religiosa. portanto. dessa forma. O autor. existe. Além disso. sendo assim. Isso porque. moral ou intelectual. o Estado-fato. na visão do autor. Portanto.que a compõe. impõe a existência de um “eu comum” personificado. através do sufrágio universal. alude à teoria da “personalidade jurídica do Estado”. complexa ou não. sendo os primeiros aqueles que possuem maior força e. o sufrágio universal não está calcado na soberania nacional. pois esta presume uma vontade superior diferente das vontades individuais que compõem a estrutura estatal. e isto é a fonte dos poderes legislativo. para o autor. que estabelece que a instituição seja um sujeito de direito constituídos por elementos como a territorialidade. Duguit considera a essa teoria do Estado-soberano falha. dessa forma. nem mesmo constituindo-se em 99%” (pg. ou seja. Outra crítica a Rousseau por parte de Duguit é a respeito da citação do primeiro: “na medida em que cada um se dá a todos. De acordo com o autor. 43) Dessa forma. pela imposição dessa vontade aos demais. desse modo. todas as suas ações devem estar classificadas de acordo com o “efeito causado no mundo do direito” (pg. a coerção material pode ser empregada para assegurar a vigência do conjunto de normas do Estado. e os indivíduos. o poder político.

A submissão do Estado ao jugo da lei está prevista tanto na doutrina individualista quanto na social. Ao admitir-se o Estado como pessoa. e o direito constitucional como direito público interno. o indivíduo também não pode executar algo contra o Estado. na concepção individualista. o qual é o fator justificante e legitimador de todo poder político. seria fruto de um Estado soberano acima de qualquer membro. Este ainda se dividiria em administrativo e jurisdicional. As leis estabelecidas devem estar sempre de acordo com a solidariedade social e os seus funcionários – juízes. Já a segunda argumenta que governantes e governados devem submeter-se à lei igualmente a fim de que a solidariedade social não seja afetada.75) Outra controvérsia que é aludida no livro diz respeito à sanção contra o Estado. Além disso. contudo.Sendo assim. Este. que regulamenta as relações entre a população e os governantes. Sobre o direito público. Esse é um importante meio de verificação do direito e pode ser percebido na jurisprudência. e se manifesta com o costume. Duguit o conceitua como um conjunto de normas que regulamentam as relações do Estado com os particulares. não pode constranger a si mesmo. Já o segundo corresponderia aos limites impostos pelo próprio Estado ao poder público. Para . Duguit também divide o direito público em internacional e privado. além de suas relações recíprocas. Contudo. todos os homens estão submetidos à mesma norma porque possuem o mesmo objetivo: cooperar na solidariedade. é fundamental que os governantes velem pela aplicação do direito. legisladores – devem se comportar da maneira determinada para todos. não há distinção entre direito público e direito privado. sendo que não há grandes distinções a respeitos desses. através da doutrina defendida pelo autor. sendo também é reconhecido pelo direito escrito. pois tudo o que é válido para os governantes também é adequado aos governados. O direito público. este também está à mercê das suas próprias leis – Estado de direito – e vendo-se obrigado a elaborar determinadas normas em detrimento de outras. Alem disso. pela doutrina social. A primeira afirma que qualquer empecilho à liberdade de cada um atenta contra o direito fundamental. essa teoria “não é capaz de conceituar com seriedade a limitação do Estado pelo direito” (pg. Esse direito já existe de certa forma na consciência dos indivíduos. sendo detentor do monopólio de toda a força coercitiva. Uma hipótese para conceber a distinção entre direito privado e público seria considerar que o primeiro é resultado daquilo que é imposto pelo Estado aos seus indivíduos. nas decisões judiciais e em certas práticas que se repetiram ao longo do tempo.

exercem sua liberdade – que consiste no desenvolvimento de sua capacidade física e moral – no âmbito social. Tal doutrina também se equivoca ao considerar que o homem possui direitos porque a condição da natureza humana é ser livre e igual perante os demais.isso. Duguit também critica Rousseau alegando que este entra em contradição ao considerar a vontade geral como indivisível. a respeito do contrato social – elemento chave na teoria política e do direito – que refutado como passo intermediário fundamental na criação de um modelo jurídico e social. O Estado. Ao discorrer sobre a corrente individualista. é necessário ressaltar que Rousseau defende tal argumento por considerar que. o autor exprime suas críticas a ela em certos pontos. o homem está seguindo somente a lei da razão. destarte. é feito de homens. ao aceitar o contrato social e submeter-se à vontade geral. Seus direitos e deveres. pois é ele que possui toda a força. desse modo. Fundamental é a comunidade. desse modo. é necessária a apresentação de fundamentos e elementos semelhantes. Entretanto. Léon Duguit considera lícita a distinção entre direito público e privado. mas ambas postulam fundamentos para legitimação do Estado e do direito e. os quais se unem para satisfazerem suas necessidades e. o livro possui uma linguagem objetiva e utiliza comparações entre teorias jurídicas distintas para. sendo que todo indivíduo submete-se a essa vontade e faz parte dela concomitantemente. como por exemplo. pode recorrer à indenização. Conclusão Léon Duguit apresenta basicamente duas doutrinas jurídicas divergentes. portanto. o autor expõe seu parecer relatando que todo aquele que pretende resolver alguma questão de direito deve recorrer ao Estado. Na análise do caráter de ambos os direitos. tentam encontrar o melhor caminho para a evolução de toda lei e toda instituição social. provêm da relação recíproca entre os homens. não podendo existir uma vontade soberana acima das vontades dos seus membros. portanto. e esta se faz conhecida à medida que todos são seres . pois são aplicados em situações diferentes. pois todo indivíduo nasce num contexto coletivo. podendo diferir entre si apenas o tipo de sanção que cada um emprega. no final. Por fim. pode aplicar execução prévia. Caso o indivíduo considere ilegítima a posição estatal. além da função de realizar o direito e. mas tal consideração não deve ser levada além daquilo que lhe cabe. criar uma base de argumentação e posicionar-se em relação ao assunto. não abrangendo assim a dimensão social em que o ser está envolvido. De maneira geral.

. pois somente dessa maneira o direito. todos os indivíduos devem submeter-se ao poder estatal. que isso seria possível graças à razão. feito por governantes e governados que estão igualmente sob o respaldo da lei.racionais. Rousseau ponderou. o Estado deve ser apreciado como “Estado-fato”. e sua função é colocar em vigor todo o direito concebido em sociedade. Por fim. necessária e imprescindível é a obediência a ele. Como esta é soberana. bem maior de toda uma comunidade – pois é através dele que a “solidariedade social” se mantém – vigora como regulador institucional e social. pois o direito é o fundamento de todo o poder político. ao afirmar que cada um doa-se por inteiro a todos. reconhecida e seguida por todos sem exceções. isto é. contudo. percebe-se que. Para isso. mas que todos continuam submetidos somente a sua própria vontade. É. e sim na própria vontade dos indivíduos. Assim sendo. Mesmo assim. a coação material pode ser utilizada. na essência. a vontade geral não consistiria numa vontade acima dos membros da República. portanto um Estado de direito. As justificativas da origem e da legitimação desse poder podem variar.