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A CONSTRUÇÃO DE UMA ANDRAGOGIA PRÓPRIA PARA A FORMAÇÃO

POLICIAL MILITAR
DOROTEU, Leandro Rodrigues. Cursou CFO na APMB, Direito na UNIP.
Pós-graduado em Direito Público, Docência do Ensino Superior e Direito
Empresarial. Mestre em Linguística pela Universidade de Franca. Mestre
em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo CAES-Polícia
Militar do Estado de São Paulo.1

Resumo
Estudos ligados às áreas de interesse da atividade policial militar constituem um
ramo de ciência que vem conquistando o reconhecimento dos órgãos governamentais de
educação, as Ciências Policiais ou Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública.
Dentre essas áreas de interesse está a formação policial militar que conta com rituais e
técnicas próprias, com base nos valores da hierarquia, disciplina, civismo, honestidade,
ética, e Direitos Humanos vêm formando policiais no Brasil há aproximadamente dois
séculos. Trata-se de um estudo que procura demonstrar, à luz das Ciências da Educação
na sua subárea Educação de Adultos também conhecida como Andragogia, como a
qualificação do operador de segurança pública dentro de padrões legais aceitáveis,
levando a conhecer e a praticar táticas e técnicas operacionais que proporcionarão uma
efetividade dos procedimentos por parte de policiais. Com uma aplicação correta da lei
buscando a preservação da vida a todo custo e com respeito aos valores constitui uma
Andragogia própria.

Palavras-chave
Polícia Militar. Formação. Andragogia. Educação. Valores.
1. Introdução
Ensinar é algo que exige uma técnica específica que, para tanto, existe a
Pedagogia que é um curso superior na área das Ciências da Educação que prepara
professores para ensinar crianças e adultos. Na educação superior principalmente nos
cursos que formam bacharéis e nas disciplinas específicas da área do conhecimento em
que se está formando esse bacharel há uma dificuldade na formação para as práticas
pedagógicas dos professores. A formação policial militar é ainda mais específica que a
formação adquirida na educação superior e possui algumas disciplinas práticas e teóricas
também muito específicas e com práticas pedagógicas próprias.
Quando se fala na preparação de policiais em geral o termo correto é formação que
não é sinônimo de ensino. O ensino é um processo complexo, caracterizado por
competências e habilidades específicas e especializadas, as quais visam a realização da
aprendizagem, através da reconstituição do conhecimento e da aquisição crítica da
cultura aperfeiçoada, baseado em altos padrões de qualidade e nos fundamentos da
1 E-mail: leandrodoroteu@hotmail.com. Cursou CFO na APMB, Direito na UNIP. Pós-graduado em Direito
Público, Docência do Ensino Superior e Direito Empresarial. Mestre em Linguística pela Universidade de
Franca. Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo CAES-Polícia Militar do
Estado de São Paulo.

conhecimentos. A procura prioritária é. caberá ao professor. consolidando a identidade profissional e social. A proposta do treinamento pensado sob esse prisma é a aplicabilidade das técnicas de ensino específicas para adultos. promover a aprendizagem significativa. A formação dos agentes de Segurança Pública é o processo crucial para a melhoria dos padrões de atuação. a formação pressupõe a mudança gradativa das qualidades intelectuais e a evolução para o alcance de habilidades. instrutores e monitores envolvidos no processo formativo dos policiais militares. portanto ensinado a agir nas mais extremas situações. mental e emocionalmente sobre o .ética. operador de segurança pública está diretamente ligada a sua preparação. Em relação às teorias da educação. trabalhos acadêmicos e manuais que. como tiro. em geral. mediante o processo intencional de ensino. E pelo entendimento e difusão das melhores práticas andragógicas que apoiarão uma qualificação específica dos professores. buscando permanentemente. os progressos científicos e o conhecimento acumulado. pois se espera que com uma formação robusta e consolidada se minimize os erros e abusos. Com base na compreensão das características do trabalho e das práticas cotidianas. Estudos sobre formação policial militar no Brasil. o respeito à vida e aplicação correta das leis. algumas disciplinas específicas e essenciais para a atividade policial militar. o certo é que na atual sociedade onde a onda de informações e sua circulação ocorrem em proporção nunca antes vista. Conforme os quatro pilares da educação delimitados pela UNESCO por Delors (2001) Aprender a conhecer. Lendeman (1926). Um novo formato de treinamento policial militar é recomendado por Alexandre Flecha Campos (2008) utilizando-se de alguns fundamentos de Andragogia trazendo conceitos de educação com a obra. um diálogo com a Andragogia Atualmente é possível encontrar estudos. identificar e indicar formas concretas de realização e aperfeiçoamento deste processo que constitui e passa por essa Andragogia específica. com responsabilidade pela busca do próprio desenvolvimento profissional e pela observação das regras do setor em que atuam. pautado num conjunto de relações. Que é possível efetivamente apenas quando o professor. 2. atitudes e hábitos. Atualmente existe um consenso da necessidade de um trabalho intenso de repercussão nacional para a qualificação da formação em Segurança Pública. as quais têm como objetivo a preparação de trabalhadores competentes. promove as condições para que o aluno opere físico. a qual aperfeiçoa o compromisso com a educação e a cidadania. Antes disso. sendo responsáveis por aquilo que está na área de ação de seu poder. sendo. acima de tudo. relatam práticas exitosas de seus autores. A ação do policial. Aprender a ser. eram ministradas com base em manuais das forças armadas. Já a formação é um rito contínuo de evolução e aperfeiçoamento. com foco no aluno. sobretudo. Aprender a fazer. Aprender a viver junto. já utilizadas em outros contextos como na educação superior e corporativa. que não estão adequados ao contexto da atividade prática da polícia militar de proximidade diária com o cidadão. The Meaning of Adult Education – traduzido: O Significado da Educação para Adultos de Eduard. Onde esses conhecimentos são exercitados e testados. Assim. mantendo o equilíbrio emocional que é muito exigido nas ocorrências e. C.

16). a autogestão. que resultavam na formação de um policial truculento uma vez que tendia a repetir na população aqueles dissabores que havia experimentado na aula. mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE. o ambiente militar. provocar humilhação e constrangimento no aluno. ou simulacro destinado ao treinamento. 2001). Sem expressar a visão da Andragogia específica aqui proposta. ao escrever acerca do ensino de Direitos Humanos na Segurança Pública. capaz de elevar a formação a um nível de excelência e superar obstáculos de diversas naturezas com o intuito de concentrar diferentes tecnologias e inovações de modalidades de desenvolvimento peculiares às atividades de segurança pública. Ricardo Balestreri (1998). mas também dos valores indispensáveis à perpetuação da atividade policial ostensiva e preventiva. p. doutrina e leis). 1996. (LIBÂNEO. o que se vê é lembrado.1999). Ambiente onde o professor que comumente recebe o nome de instrutor por vezes se arvora dessa condição. já que o foco está na aprendizagem e não mais no ensino. A citação do educador brasileiro é importante no contexto de formação de policiais. o ambiente policial militar (disciplinas teóricas e práticas) o ambiente onde praticado o aprendizado. (ALCALÁ. se busca os conhecimentos. A Andragogia é definida como ciência e arte atribuída ao campo da Antropologia. A andragogia aqui proposta é baseada nos mesmos princípios educacionais. A aprendizagem se realiza no aluno e para isso o professor deve ser a ponte e não um abismo entre o aluno e o conhecimento “Ensinar não é transferir conhecimento. Os constrangimentos e humilhações eram muito comuns nas aulas de tiro. e que tem como propósito proporcionar uma oportunidade para que se atinja a auto-realização com a aquisição dos novos saberes. Mas tal pretensão ainda é insuficiente para alcançar as necessidades e pretensões da formação policial militar que objetiva moldar um caráter e condicionar comportamentos permanentemente e em diversos contextos de vida do policial. Sob essa perspectiva abre-se o espaço para que se reflita acerca da professoralidade policial militar que é a preparação dos professores que já domimam sua área técnica e devem passar a dominar os saberes didáticos específicos para o seu público e conteúdo a ser aprendido. A interiorização no indivíduo das competências utilizando-se das técnicas e métodos adequados na formação. a qualidade de vida e a criatividade do participante adulto. Produzirá um resultado eficiente e eficaz. as habilidades e as atitudes. as ruas. assevera que a instrução deve atender aos aspectos da legalidade (conceito. mas que deve promover a aquisição não só de saberes. que permite a incrementação do pensamento. A mudança de comportamento que se espera desse policial militar que é fruto da socialização realizada em um novo ambiente. e dele se apropria. orientado com características sinérgicas pelo facilitador do aprendizado. Como um processo.objeto do conhecimento. desenvolvida por meio da prática fundamentada nos princípios da participação e da horizontalidade. O Coronel Nilson Giraldi da Polícia Militar do Estado de São Paulo desenvolveu um método que leva o seu nome e nesse método foi abolida todo e qualquer tipo de prática vexatória o foco é formar um policial à luz dos Direitos Humanos e respeitador deles. Acerca da aprendizagem o Coronel Nilson Giraldi (2008): “o que se ouve-se esquece. técnica (procedimentos e métodos) e competências. Essa pretensão é a mesma que se busca nas Instituições de Ensino Superior e nos cursos corporativos que trabalham com público adulto. e o que se faz se aprende” depreende-se que uma ação Andragógica específica é a . A Andragogia aplicada à formação policial militar deve levar em conta o local onde é realizada a formação. para até. mas imersa de forma permanente na Educação.

Há outra expressão relativa a isso “se policiar”.simulação da realidade e a repetição exaustiva tanto dos fundamentos do tiro. o que pode ensejar situações estressantes ao extremo. Também envolve a aquisição de determinados saberes para uso em contextos individuais ou coletivos. Dessa forma.1 A formação policial militar e o preparo para implicações fisiológicas e psicológicas decorrentes das atividades profissionais Toda a profissão tem os seus percalços e as suas dificuldades. Da educação andragógica aplicada à formação policial se espera que sejam respeitados os Direitos Humanos e que prepare o aluno para em toda a sua carreira respeitar os valores da instituição dentre eles a hierarquia e a disciplina. onde o policial entra em uma situação de estresse. A promoção da mudança comportamental. Argumenta-se que daí surgiu o termo tripaliare (ou trepaliare). a própria etmologia da palavra trabalho que vem do latim tripalium (ou trepalium). O policial militar que de fato aprende deve desenvolver o que é chamado de disciplina consciente que consiste em fazer sempre o que se espera dele. pares e superiores. como o correto uso dos uniformes. Nessas situações o policial deve utilizar força letal contra o indivíduo. que extrapolem o limite por elas impostos ou que constituam erro na execução. Lembrando que esse fator fisiológico não é levado em consideração pelo Direito que responsabiliza os agentes operadores de segurança pública pelos seus atos que não estajam amparados pelas excludentes de ilicitude. p.3) Estudos comprovam que no momento do emprego da força letal o ser humano. como dos procedimentos. em situação de estresse extremo. E dentre outras vantagens o policial ainda é condicionado. observa-se que a formação policial militar não pode ser resumida a uma formação acadêmica. comportamento social. um instrumento utilizado na lavoura. trabalhando apenas com seu raciocínio intuitivo ou por meio de seu condicionamento psicomotor. a princípio. seu conhecimento intelectual de quando atirar fica prejudicado. ser capaz de manter aquela conduta ou comportamento esperado independente de fiscalização. Dessa forma. CAMPOS (2008). (KURZ: 1997. 2. que significava acometer alguém ao tripalium. De acordo com Bruner (1969) “aprender é desenvolver a capacidade de resolver problemas e pensar sobre uma situação”. Além do preparo para o enfrentamento que está vinculado ao lado técnico da profissão deve ser observada também a formação militar que exige um . No mencionado método a verbalização é treinada em ambientes que simulam a realidade sendo uma alternativa para resolução da crise antes do efetivo uso da arma de fogo. A Andragogia específica deve treinar o policial em situações que proporcionem um estresse semelhante ao real e condicionem o indivíduo para respostas efetivas e dentro da lei mesmo com o comprometimento momentâneo de seu conhecimento intelectual. que era. Nos fins do Século VI. do tiro em sí. Além dessa dificuldade normal a atividade policial militar pode sujeitar o policial a confrontos onde a sua vida é exposta a risco iminente. o termo passou a também designar um instrumento romano de tortura utilizado contra os escravos. no treinamento prático. tende a perder o seu raciocínio intelectual. em uma possível situação de perigo. postura entre subordinados. A palavra é composta por "tri" (três) e "palus" (pau) . ao uso adequado do seu armamento fazendo constante análise do nível de ameaças que está enfrentando.o que poderia ser traduzido por "três paus".

Atividades que acarretam um condicionamento físico e mental resultando no condicionamento de reflexos que serão os responsáveis pela exteriorização dos gestos e das atitudes do policial militar formado. e a vivência pelos cadetes do “mundo de fora”. além do conhecimento teórico na sua área do saber.condicionamento comportamental específico dessa categoria de profissionais que é conhecida e esperada pela sociedade. galgar de forma progressiva a sua formação policial e militar. a adoção de um estilo militar de organização é incentivada com o objetivo de mobilizar os policiais para reagir. de experiências que muitas vezes não confirmam ou mesmo cantradizem isso. . Tal condicionamento pode ser observado na postura. 03) A formação militar é a forma pela qual a instituição. o modelo de prontidão militar é apontado como o que. Relacionadas à formação militar. mais conhecida como estética militar. pelo fato de não estar se tratando simplesmente de atividades intelectuais. 2007. é capaz de complementar de maneira supostamente mais eficiente a ação da polícia para controlar o crime. e a outra metade do corpo docente formada por mestres e doutores. após alguns ritos de passagem. foram agregados como professores nas Instituições de Ensino Superior. (PONCIONI. Nesse contexto. por meio da reprodução de aspectos culturais e tradicionais moldam os neófitos para que estes adquiram aspectos semióticos de um militar. do organismo. de maneira aderente e disciplinada. afirmando uma posição de superioridade moral. Castro (1990. e os professores tinham a sua formação nas universidades da Europa. a fim de responder imediatamente às situações apresentadas. no uso de uniformes e na ordem unida momentos em que a organização e a disciplina dos militares são exercitadas e postas à prova. o desenvolvimento de um processo de formação continuada em que a prática docente e os processos sejam fundados para a reflexão. por excelência. não possuem uma formação específica em disciplinas relacionadas às práticas didáticas. que ocorre nas escolas e academias militares. A professoralidade e a construção da Andragogia específica Tema que tem causado grande reflexão no meio acadêmico são a formação e o papel dos professores na educação superior. Com uma primeira expansão dessa modalidade de ensino os bons profissionais. 3. em regra. Para essas atividades é necessário um preparo do corpo. Houve uma época no Brasil. p. prestígio e distinção sociais dos militares em relação aos “paisanos”. pois estes. portanto uma preparação e exercício do corpo e da mente. A ordem unida e o Treinamento Físico Militar utilizado na formação dos policiais militares exigem gestos e atos sincronizados. o acesso à educação superior ainda era muito restrito. aqueles com reconhecimento no mercado. p. Mais recentemente o MEC passou a exigir formação mínima de especialista que pode chegar a um porcentual de 50%. Para a prática docente exige-se. principalmente os professores de cursos onde se formam bacharéis. onde indivíduos vocacionados conseguem. sendo que quando se aumenta o número de mestres e doutores melhora a avaliação da instituição. 43) exemplifica bem a tensão que se encontra a formação do militar na sociedade atual: A construção da identidade social do militar tem lugar em meio a uma tensão entre uma “visão ideal” que permanece aproximadamente a mesma desde a década de 1930.

já que não havia a regulamentação da profissão ou o curso tivesse passado por processo de credenciamento no sistema civil de ensino. Mas seja qual for a opção pelas instituições de formação. O cenário atual aponta para a busca de regulamentação legal da profissão ocorrida. viabilizando experiências. ao tratar da competência desse profissional menciona: Cabe ao professor assumir um papel ativo e crítico. Filisofia. (SENASP. especialização.Fazendo uma comparação do ensino policial militar com o sistema civil de ensino ele está no momento de transição entre quando os profissionais reconhecidos foram chamados para dar aulas e especialistas mestres e doutores devem compor o quadro de professores. O termo professor é pouco utilizado no ensino policial militar e quando utilizado é relacionado a civis que são contratados especificamente para ministrar aulas de determinadas disciplinas mais afetas ao mundo civil como Metodologia Científica. 2 Aquele que é perito ou muito versado em qualquer das belas-artes. 17) Interessante ressaltar que o mencionado material. dentre outros. Modernamente a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) em material relacionado às ações formativas na área de segurança pública utiliza sempre o termo professor aos profissionais que se encarregam de tal prática. na Polícia Militar do Estado de São Paulo por meio da Lei Complementar 1036/2008 que regulamenta a graduação e pós-graduação dos profissionais de segurança pública do estado criando. aprofundar. assim considerado pela Justiça do Trabalho. Sociologia. Sem que de fato houvesse tal título. por exemplo.” No aspecto legal. O requisito legal para ministrar aulas em cursos técnicos é possuir no mínimo graduação. especialização. aperfeiçoamento ou altos estudos de policiais militares a formação docente é tema de atual relevância que não pode ser descartado. o Mestrado e o Doutorado Profissional em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. alguns ramos do Direito e algumas áreas da Administração que não são específicos da atividade policial militar. o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. além de já ter oferecido alguns cursos de pós-graduação lato sensu. mestre. Quando se refere a professor. não há qualquer restrição ou limitação da atuação de agentes de segurança pública na função de professor relacionada a questões hierárquicas. Instrutor. uma arte ou uma língua. auxiliar e Tutor. abrindo espaços para que os profissionais da área de segurança pública possam ampliar. Monitor. Tal constatação reflete uma realidade já encontrada em diversas polícias militares onde independentemente de grau hierárquico o policial militar que detém conhecimento técnico pode ser professor/instrutor de superiores hierárquicos sem que . sem ano. p. Inicialmente trataremos da demoninação atribuída tradicionalmente nas instituições militares relacionadas a certas funções desses profissionais. o Dicionário Michaelis (2013) Atribui o seguinte significado ao termo: “sm (lat professore) 1 Homem que professa ou ensina uma ciência. que é dirigido para todos os agentes encarregados da segurança pública no Brasil. transferir conhecimentos e refletir sobre a prática e as relações desta com o conhecimento e com o mundo. As polícias militares sempre certificaram os seus cursos com base no Artigo 83 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira e por décadas as instituições e seus profissionais se intitulavam “Bachareis em Segurança Pública”. Outro caminho foi adotado Pela Polícia Militar do Distrito Federal que credenciou junto ao Ministério da Educação o Instituto Superior de Ciências Policiais (ISCP) que teve autorização para oferecer os cursos de Tecnólogo em Segurança Pública e Bacharelado em Ciências Policiais. Psicologia. professor é o profissional que possui o requisito legal e registro profissional no Ministério da Educação. para os cursos superiores a formação mínima é pós-graduação latu sensu. Professor.

como tem ocorrido com as aulas de tiro onde se aplica o Método Giraldi. sem ano) Monitor que é aquele que atua em conjunto com o professor conduzindo os alunos à aprendizagem. no âmbito do Exército Brasileiro. (SENASP. detém conhecimentos. para isso. (MINISTÉRIO DO EXÉRCITO. como especialistas em assuntos militares. promovendo uma interação entre o sujeito e o objeto e retirando o aluno da posição de expectador passivo.com isso haja a quebra da disciplina ou da hierarquia. Voltando ao instrutor. No contexto do Exército Brasileiro a função de monitor é desempenhada por subtenente ou . é um termo de utilização ampla tanto em policias militares como nas forças armadas como se pode observar no Manual do Instrutor documento publicado pelo Exército Brasileiro em 1997 que assim conceitua: Este manual tem por finalidade orientar aqueles que ministram sessões de instrução ou de aula no âmbito do Ministério do Exército e. Tem o seu fundamento e necessidade de sua utilização no ensino policial militar principalmente em disciplinas práticas nas quais um único professor não seria capaz de dispensar a devida atenção a todos os alunos. após a observação de algum fenômeno. um conceito abrangente de instrutor que engloba os professores militares e civis. o importante é a prevelência de um ambiente de respeito das duas partes. considera que todos os oficiais. No amplo conceito da palavra instrutor incluem-se os professores militares e civis dos Quadros do Magistério Militar e Complementar de Oficiais (Magistério). Com abordagens metodológicas que levem em conta a contextualização. O termo instrutor. Muito além de um termo que designa a atividade profissional de interagir e instigar o aluno para que este consiga. devem possuir os conhecimentos específicos de sua profissão e estar capacitados a ajudar na aprendizagem desses conhecimentos por seus instruendos. Portanto. Por meio da contextualização o professor aproxima os conteúdos ministrados o máximo possível da realidade profissional do aluno. E os monitores são aqueles que acompanham. a interdisciplinariedade e a transversalidade. construir a sua aprendizagem. sem ano. utilizado no ensino pré-escolar e nas séries iniciais do ensino fundamental. reporta aos detentores de cadeiras de disciplinas específicas da área policial militar. A interdisciplinariedade é a proximidade das disciplinas a serem ministradas de forma que não haja fracionamento das informações e como consequência do diálogo entre as disciplinas ocorre a contextualização. p. 7). O Dicionário Michaelis (2013) atribui o seguinte significado ao termo: “adj+sm (lat instructore) 1 Que. às faculdades da mente e partes do corpo. certamente o mais utilizado no meio policial militar. a partir de suas próprias reflexões fundamentadas. p. 7) O documento atribui. ou aquele que adestra. 1997.” Adestramento foi muito utilizado como referência ao treinamento de militares e apesar de ser muito usual no treinamento de aminais o significado dicionarizado do termo remonta ao ensino. 2 Que. subtenentes e sargentos. A transversalidade diz respeito a determinados temas como Direitos Humanos que passam a se relacionar com todos os demais conteúdos do currículo que e são trabalhados a partir do enfoque da disciplina transversalizada. a aplicação na área de segurança pública preconizada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública e praticada por algumas polícias militares é pautada em referenciais teóricos buscados no meio acadêmico como: “O Processo de Construção do Conhecimento Segundo Piaget” (SENASP. ou aquele que dá instruções ou ensino. mas o professor é que dirige o processo. O termo e o papel do instrutor não encontram tanto respaldo científico nas Ciências da Educação como a atividade docente praticada pelo professor.

13) A atividade policial militar possibilita que haja um policial na graduação de cabo ou soldado que possua as qualificações necessárias e. acionando um superior somente em situações especiais. ou emprega policiais em tipos especializados de policiamentos como policiamento de choque. 13) No manual do Exército Brasileiro há ainda. seja qual for a sua graduação. p. Em ambos os casos de policiamento territorial ou especializado o policial militar. As polícias militares. 1997. na qual se faz necessário a adoção de meios e procedimentos com vistas à apropriação de . com cães. empregadas nas forças armadas servem muito bem e estão adequadas ao contexto de emprego dos seus efetivos. monitor ou auxiliar. possa atuar como professor de outros policiais. As conceituações de instrutor. atualmente há a difusão das informações na internet. Bem como. 2003. a função de auxiliar que é atribuída a cabo ou soldado. no controle e avaliação da sessão de instrução ou aula. um nível que poderia ser classificado como abaixo do monitor. empregam os seus efetivos em frações reduzidas já que tem que cobrir a maior área possível com o seu efetivo. o que faz com que o professor não seja mais o único detentor da informação que a traz para o aluno. p. etc. Ao partimos da pressuposição de que não existe preparação prévia sistematizada para ser professor da educação superior. entendemos que a aprendizagem docente e. A professoralidade está ligada a esse papel de transformador e assim. 245) A simples reprodução de aulas sem um pensar constante e consciente da atividade gera riscos já que nesse caso não são levados em conta diversos fatores que estão diretamente implicados no processo. para produzir-se como professor. na orientação. agora lhe cabe proporcionar o pensar reflexivo a partir do maior conjunto de informações possível contextualizadas com a aula. 1997. (ISAIA. apesar da idêntica organização militar.” (MINISTÉTIOS DO EXÉRCITO.sargento com a seguinte conceituação: “Monitor é o militar que auxilia o instrutor no planejamento e preparação. porém em cursos ou estágios para oficiais também pode ser um oficial. dessa forma. pensando no professor como esse sujeito promotor de transformação interna: Tal perspectiva nos possibilita pensar a professoralidade a partir da atividade realizada pelo sujeito. “Auxiliar é o cabo ou soldado engajado que coopera principalmente na preparação e na orientação da sessão de instrução. experiência profissional e interesse em atuar na formação/especialização de outros policiais. consubstanciadas no que costumamos denominar de trajetórias de formação. escolar. Este monitor é geralmente um sargento. Dessa forma é possível que haja um policial militar com especialização na área. está habilitado a solucionar a situação que se depara. sua conseqüente professoralidade instauram-se ao longo de um percurso que engloba de forma integrada as idéias de trajetória e de formação.1 A professoralidade na educação superior Professoralidade é um termo técnico ligado à área da didática que surgiu a partir do momento em que pesquisadores constataram a necessidade de se repensar a atuação dos professores principalmente aqueles que atuam na educação superior. trânsito urbano ou rodoviário. 3. p. montado.” (MINISTÉTIOS DO EXÉRCITO. Já que a exigência de pós-graduação é apenas um requisito legal em uma parcela desses cursos sequer há um módulo de formação docente e o que se observa é a reprodução de aulas que esses professores tiveram quando alunos e agora se espelham naqueles professores que mais lhes cativavam.

aperfeiçoamento e altos estudos de seus profissionais. inseridas nesse sistema de ensino trabalham pesquisam e desenvolvem soluções na área de Ciências Sociais Aplicadas e existe uma cobrança social pela excelência na formação. Apesar a existência de cursos técnicos na área como Curso de Técnicas de Ensino. Assim sendo. pressupõe-se que no mínimo se busque os traços propostos por Cruz (apud LEITINHO. e apesar de na sua quase totalidade não se sujeitar aos processos avaliativos governamentais tem instituições de ponta com pesquisa e desenvolvimento e profissionais disputados no mercado de trabalho. O professor policial militar está inserido em um contexto social específico e sofre as pressões desse contexto.. Estudos etnográficos já comprovaram que alunos mais adaptados à doutrina militar apresentam melhores resultatos quando comparados aos que resistem. não tem vagas ociosas ou pressão mercadológica. mas também as inerentes ao próprio sujeito que aprende. as motivações do aluno para o estudo. também. 81): “compromisso educativo. o que é oferecido por esses cursos. Já as polícias militares. O ensino militar que teve o seu espaço reservado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional recebendo equiparação ao sistema civil de ensino. da organização do processo de trabalho docente a nível de instituição [. (LIBÂNEO. especialização. é um processo dinâmico e pessoal de alta complexidade principalmente quando ocorre em um contexto de socialização militar. Para tanto.]. Na falta de um apoio institucional cabe a ele ser o último mediador desses conflitos que acarretam consequências diretas na formação de seus alunos. 3.33) Assimilar a formação. mais do que conhecer os conceitos. 1994.2 A professoralidade policial militar para Andragogia específica. como a incentivação. não é um ensino massificado como ocorre atualmente com a educação superior. Envolve influências não só ambientais. p. Algumas questões já estão superadas no meio policial militar como o escalar professor . do ambiente escolar. a condução do processo de ensino requer uma compreensão segura das condições externas e internas que influenciam a aprendizagem e. do entendimento do modo como se processa e como as pessoas aprendem no contexto policial militar. É muito seletivo em seu processo de seleção para ingresso. Para Libâneo: Há outros fatores que influenciam no processo de assimilação ativa e no estudo. a proposta é de repensar e alinhar as práticas Andragógicas específicas. influência da personalidade e das capacidades dos professores. aprender. a Secretaria Nacional de Segurança Pública traz bases iniciais de um tratamento científico do processo de ensino-aprendizagem no contexto da segurança pública brasileira. 2005). Formação de Formadores ou a própria Especialização em Docência do Ensino Superior.. reflexividade e capacidade para trabalho em grupo”.conhecimentos/saberes/fazeres próprios à área de atuação docente. tanto internas quanto externas. domínio da matéria. Mas essa proposição é genérica e não leva em conta questões específicas que permeiam as polícias militares. p. 2008. das relações afetivas e emocionais. (ISAIA e BOLZAN. Como mencionado anteriormente. O repensar e alinhar as práticas requer uma atitude de profissionalismo da atividade docente no meio policial militar. Esse nível de excêlencia jamais será alcançado sem que se passe pela sistematização e difusão da preparação de seus professores a partir das condições específicas que cercam o processo de aprendizagem.

entre a concepção e a execução. (VEIGA. objetivos propostos inicialmente no momento da elaboração do Plano de Ensino verdadeiro contrato entre professor. docentes ou alunos. na formação dos . ou mesmo um profissional melhor formado e mais motivado e consciente de sua missão. Apesar do distanciamento que há entre o ensino praticado na caserna policial militar. da educação corporativa. é pouco estudado e debatido no meio acadêmico. A docência é permeada de significado ideológico e a ideologia predominante é a ideologia policial militar. as pesquisas que podem resultar em melhores resultados práticos. já pressupõe o compromisso educativo. de seu papel social e de seu valor passa pelo processo de formação. essa é adiquirida durante a formação. O êxito dessas atividades resultará no desenvolvimento da transformação da personalidade do militar em formação. 4. portanto. do ponto de vista prático. técnicas e táticas profissionais. A reflexão sobre o processo ainda é incipiente. entre o saber e o fazer. A atividade criativa é bem vinda com a interligação de análise e crítica. Não é comum o tratamento específico dessa área de formação de adultos apesar da existência de um público. habilidades e atitudes. por exemplo. A capacidade para trabalho em grupo é praticamente que inerente aos militares. o que não ocorre mais. entre a finalidade do conteúdo e a ação policial. uma parcela de o ensino militar. ou mesmo pelo simples desconhecimento. Jamais deve ser esquecido ou relegado o contexto social em que ocorre a prática. mas pode haver alguma dificuldade naqueles policiais que devido o grau hierárquico não receberem formação específica par direcionar tais trabalhos. conteúdos. Pois a melhor prestação do serviço de segurança pública. superação e propostas de ação. em dinâmicas como estudos de casos. ambiente cultura e objetivos específicos.para determinada disciplina. O trabalho docente que é a mediação entre os alunos e a reflexão que promoverá a aquisição das competências. A consciência crítica com o embasamento técnico que pode ser utilizada. se há um despreso em relação ao processo o resultado afeta a coletividade. Espera-se do professor policial militar que consiga unir a sua práxis teórica ao contexto prático. 2010) A construção proposta é de cunho pedagógico. regulamentado no Artigo 83 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996). Pelo reduzido número de pessoas a ele ligadas que também atuam no campo acadêmico. instituição e alunos. a capacidade de reflexividade será fruto da formação como docente e deve estar calcada nas bases e valores institucionais. A falta de reflexão acadêmica acarreta prejuízos no seu aperfeiçoamento enquanto prática. Conclusões O ensino policial militar. Processo de formação que já se espelhou. Mas em sua maior parte são aplicadas técnicas próprias que passaram por adequação no máximo para atendimento das diretrizes relativas ao respeito aos Direitos Humanos. é a reelaboração do trabalho pedagógico que é mais amplo que o trabalho docente. Seja pela pouca abrangência se pensarmos no número de instituições. o domínio da matéria é um pressuposto básico que deve ser avaliado no momento de vinculação do professor com a disciplina a ser ofertada. Na falta de produção específica são aplicados conceitos e técnicas da educação superior. Hoje os professores são voluntários.

Bibliografia ALCALÁ. conteúdo a serem trabalhados. B. and Human Rights have formed cops in Brazil for nearly two centuries. Education. Keywords: Military Police. À medida que se forma militares a partir da educação superior ocorre uma desmilitarização tácita fruto da perda dos valores que não foram adequadamente cultivados no militar em formação. Atualmente esse parâmetro de formação foi superado e procurou-se aproximar a formação da educação superior. Esses valores são essenciais para a sobrevivência da instituição enquanto conserva suas características de militar. This is a study that seeks to demonstrate in the light of Educational Sciences in its subarea of Adult Education also known as Andragogy. based on the values of hierarchy. Andragogy. Uma Teoria de aprendizagem. formação de combate onde do outro lado da linha está o inimigo. 1998. F. J. leading to learn and practice tactics and operational techniques which will provide effective procedures by the cops . A. A proposta aqui exposta passa pela profissionalização dos professores que além do conhecimento técnico passem a dominar também saberes didáticos específicos para o público. para que ocorra a transformação da prática docente haja uma proposta pedagógica consolidada capaz de atender as demandas específicas da instituição e reflita de forma positiva no contexto social. Among these areas of interest is military police training that has its own rituals and techniques. . Values.profissionais das forças armadas. constructing an own Andragogy. the Police Science or Police Security and Public Order Sciences. ethics. as the qualifications of the operator of public safety under acceptable legal standards. A. Teste de aptidão de tiro. 2008. 5. civility. R. BRUNER. S. Direitos Humanos: coisas de Polícia. Es la andragogia una Ciência? Caracas: Ponencia. honesty. THE BUILDING OF AN OWN ANDRAGOGY FOR THE FORMATION OF MILITARY COP Abstract Studies related to the areas of interest of military police constitute a branch of science that has gained recognition from government educational agencies. 1969. ambiente. Training. discipline. CAMPOS. BALESTRERI. With a correct application of the law seeking to preserve life at all costs and with respect to the values. Goiânia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do livro. 1999. Dessa forma. mas os valores e o processo são muito específicos. Passo fundo: Capec.

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