Carlos Biasotti

Adauto Suannes:
Brasão da Magistratura Paulista

2014
São Paulo, Brasil

O Autor
Carlos Biasotti foi advogado criminalista, presidente da
Acrimesp (Associação dos Advogados Criminalistas do Estado
de São Paulo) e membro efetivo de diversas entidades (OAB,
AASP, IASP, ADESG, UBE, IBCCrim, Sociedade Brasileira
de Criminologia, Associação Americana de Juristas, Academia
Brasileira de Direito Criminal, Academia Brasileira de Arte,
Cultura e História, etc.).
Premiado pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, no
concurso O Melhor Arrazoado Forense, realizado em 1982, é
autor de Lições Práticas de Processo Penal, O Crime da Pedra,
Tributo aos Advogados Criminalistas, Advocacia Criminal (Teoria e
Prática), além de numerosos artigos jurídicos publicados em
jornais e revistas.

Juiz do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São
Paulo (nomeado pelo critério do quinto constitucional, classe
dos advogados), desde 30.8.1996, foi promovido, por
merecimento, em 14.4.2004, ao cargo de Desembargador do
Tribunal de Justiça.

Condecorações e títulos honoríficos: Colar do Mérito
Judiciário (instituído e conferido pelo Poder Judiciário do
Estado de São Paulo); medalha cívica da Ordem dos Nobres
Cavaleiros de São Paulo; medalha “Prof. Dr. Antonio Chaves”,
etc.

Adauto Suannes:
Brasão da Magistratura Paulista

Carlos Biasotti

Adauto Suannes:
Brasão da Magistratura Paulista

2014
São Paulo, Brasil

Sumário

Cláusula de Solidariedade.........................................11
I.

As Sombras da Morte................................................13

II.

Vida e Obra de um Justo...........................................15

III. Homem de Letras: Escritor e Poeta.........................28
IV. Brevíssimo “Curriculum Vitae”..................................37
V.

Adauto Suannes: Fotos de Capas de seus Livros.......38

VI. Flagrantes da Vida do Grande Juiz...........................40
VII. O Legado Precioso de Adauto Suannes....................42

Cláusula de Solidariedade

Aos eminentes Desembargadores Alberto Silva Franco
e Ranulfo de Melo Freire pede vênia o autor para, sócios
no revés da fortuna, inscrever-lhes os nomes no pórtico
desta breve memória sobre o saudoso e honrado Juiz
Adauto Suannes, que os contava entre seus melhores e mais
fiéis amigos, e cuja falta hoje pranteiam, oprimidos por dor
sem lenitivo.

I — As Sombras da Morte
De poucos se poderá dizer o que a voz pública,
profundamente consternada com a notícia de sua morte,
ocorrida no dia 27 de março de 2014, vem repetindo sem
cessar em relação ao eminente Desembargador Adauto
Suannes, na tentativa de, num lance retórico, esboçar-lhe o
retrato ou súmula da vida: Era um varão a todas as luzes
grande!
Era-o, em verdade, pois física e moralmente excedia
à craveira comum!
Mais que pela estatura corpórea, que o fazia
sobranceiro à generalidade dos indivíduos, distinguia-se por
qualidades raras de espírito, que não se costumam ver
senão distribuídas entre muitos.
Eram umas naturais, como a intuição do justo, o trato
afável, a acuidade da inteligência, a marca da tolerância, a
jovialidade perene, o pendor para as artes; outras eram
cultivadas, e essas em grau assinalado, de que deram prova
definitiva sólidos cabedais humanísticos e não vulgar
ciência do Direito.
Personalidade tão rica, primorosamente acrisolada por
aturado esforço, a que de ordinário se entregam os que
são chamados a contribuir para o engrandecimento da
sociedade humana, havia de destiná-lo a encargos especiais
e de vulto.

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A Magistratura foi a que o atraiu: atendeu-lhe pronto
à vocação e, sem perdoar a tempo nem a trabalhos,
consagrou-lhe metade de sua larga e útil existência.
No desempenho da árdua função deu logo a conhecer
os princípios que professava e que o haveriam de confortar
sempre: bem esclarecido humanismo jurídico, entranhado
amor às coisas da Justiça, inteireza moral e brandura na
aplicação da Lei.
Foi nas instâncias criminais que melhor pôde revelar
esse notável teor de pensar e de proceder.
Ao magistrado certamente não é lícito fazer tábua rasa
do texto legal; deve contudo preferir-lhe o espírito à forma.
Esta exegese, aliás, não consta somente das letras humanas;
tem por si a rubrica de diploma sagrado: A letra mata, o
espírito porém vivifica (1) .

(1) 2a. Epístola de S. Paulo aos Coríntios, 3,6: “Littera enim occidit, spiritus autem
vivificat”.

II — Vida e Obra de um Justo
Persuadido de que, segundo escritor de nome, “a
idolatria da lei pode obcecar o julgador” (2), não descurava
Adauto, no exercício da jurisdição, de temperar com a
equidade a aspereza da norma legal.
Praticava, sempre que lhe permitiam as circunstâncias
do caso, aquele admirável ditame de Cícero: “Summum jus,
summa injuria” (De Officiis, I, 10).(3)
Nunca lhe esquecia cortar pelos exageros punitivos,
como se desconfiasse da utilidade das penas de longa
duração. É o que revelam acórdãos de que foi relator,
adiante reprduzidos por suas ementas.
I. A questão que respeita à possibilidade da aplicação
do privilégio do art. 155, § 2º, do Código Penal ao furto
qualificado, causa de perpétua discórdia entre abalizados
juristas, assim a entendia, por exemplo, o competente e
liberal Juiz:

“Remansosa a jurisprudência atual em admitir que ao furto
qualificado pode ser aplicado o favor do § 2º do art. 155 do
Cód. Penal” (JTACrSP, vol. 70, p. 235; rel. Adauto
Suannes).

(2) Hélio Tornaghi, Curso de Processo Penal, 1980, vol. I, p. XII; Editora
Saraiva.
(3) Justiça excessiva, desmarcada injustiça.

16
É certo que, para esforçar seu voto – em que admitia
a possibilidade da aplicação do privilégio aos casos de furto
qualificado –, houve de mister recorrer ao eufemismo
“remansosa jurisprudência”. (Era então reconhecidamente
minoritária essa inteligência, como o demonstra, além de
dúvida, ligeira consulta aos repertórios especializados).
Mas, ou porque não é o número o melhor critério da
verdade, ou porque – a estarmos pela doutrina de
Francisco Campos – o juiz criminal fica “restituído à sua
própria consciência” (4), decidiu Adauto que o “favor rei”
(ou benefício do réu) tinha aplicação também aos tipos
qualificados.
Não havia que dizer contra sua argumentação; ao
invés, era força subscrevê-la, à maneira de alguns penalistas
de pulso e vasta nomeada.(5)
(4) Cf. Exposição de Motivos do Código de Processo Penal, nº VII.
(5) Ao presente, vem recebendo sufrágios numerosos a interpretação que
estende o privilégio também ao furto qualificado. Paulo José da Costa Jr., que é
justamente enumerado entre os primeiros penalistas contemporâneos, discorreu
nesta substância em escólio ao capítulo do furto: “Pela colocação do privilegium
logo abaixo do furto simples e do furto noturno, seria lógico restringir sua aplicação a
ambas as modalidades. Entretanto, como a presente faculdade é mais um instrumental
de que disporá o magistrado para melhor individualizar a pena, tem-se decidido pela
sua aplicação mesmo em casos de furto qualificado. Satisfeitos os requisitos de
primariedade e do pequeno valor, o benefício é automático” (Curso de Direito Penal,
11a. ed., pp. 447-448; Editora Saraiva). É opinião em que conspira também
Damásio E. de Jesus: “Em princípio, como no homicídio, o tipo qualificado não afasta
o privilégio. Entretanto, para que a causa de atenuação da pena de furto mínimo
se aplique ao qualificado, além de seus requisitos legais, é necessário que o sujeito
apresente antecedentes e personalidade capazes de lhe permitirem o benefício”
(Código Penal Anotado, 18a. ed., p. 566: Editora Saraiva). Faz ao caso, por fim, o
ensinamento do consagrado penalista Guilherme de Souza Nucci: “Aplicação do

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De que foi, entre nós, precursor de ideias que
importaram muito ao progresso da ciência jurídica, prova-o
sem falta a Súmula nº 511 do Superior Tribunal de
Justiça, editada em 16.6.2014, que enuncia: “É possível o
reconhecimento do privilégio previsto no § 2º do art. 155 do
CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes
a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a
qualificadora for de ordem objetiva”.

privilégio à figura qualificada: há polêmica quanto à possibilidade de aplicação do
privilégio às figuras qualificadas previstas no § 4º, prevalecendo o entendimento da
impossibilidade. Assim, segundo a orientação por ora predominante, o privilégio seria
útil somente às figuras do caput e do § 1º, mas não ao tipo qualificado. Discordamos
desse posicionamento. No caso do homicídio, o § 1º, que é considerado o homicídio
privilegiado, aplica-se, conforme doutrina e jurisprudência majoritárias, não somente
ao caput, mas também ao § 2º, que cuida das qualificadoras. Por que não fazer o
mesmo com o furto? Inexistindo razão para dar tratamento desigual a situações
semelhantes, cremos ser possível a aplicação da causa de diminuição da pena às hipóteses
qualificadas do § 4º” (Código Penal Comentado, 5a. ed., p. 626; Editora Revista dos
Tribunais).
Mas, uma vez que a tratou “ex professo” o colendo Superior Tribunal de
Justiça, pela Súmula nº 511, de 16.6.2014 – que reconheceu a possibilidade da
aplicação do art. 155, § 2º, do Código Penal também ao furto qualificado –, essa
questão decaiu já de alcance e propósito. Será forçoso porém acentuar, nesse
pouco, a originalidade do pensamento de Adauto Suannes, mentor e coartífice
de jurisprudência hoje cristalizada e predominante.

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II. Outra matéria – assaz tormentosa para os cultores
do Direito Penal –, sobre que Adauto Suannes projetou
réstia de luz, foi a do momento consumativo do roubo. Fê-lo
neste teor:
“Se o agente é encalçado, ato seguido à apprehensio da coisa,
e vem a ser privado desta pela força ou desistência
involuntária, não importa que isso ocorra quando já
fora da atividade patrimonial do proprietário: o crime
deixou de se consumar, não passando da fase de tentativa”
( JTACrSP, vol. 73, p. 244; rel. Adauto Suannes).
Tal exegese, que a crítica demasiado severa arguirá de
arrojada, é todavia a que mais se ajusta ao pensamento
de Nélson Hungria, o “Pai do Código Penal” e o maior
penalista brasileiro, recenseados vivos e mortos:(6)
“(...) o momento consumativo – do roubo próprio –
é o da subtração patrimonial, aplicando-se os mesmos critérios
expostos em relação ao furto” (Comentários ao Código Penal,
1980, vol. VII, p. 61; Editora Forense).
Ora, dissertando do furto, escreveu o exímio penalista
estas formais palavras:
(6) De Nélson Hungria disse elegantemete Mário Hoeppner Dutra: “Foi o
Pontífice Máximo do nosso Direito Penal, e até hoje, decorridos que são quase dois
lustros daquele infausto acontecimento – na verdade, quase meio século, pois que
cerrou os olhos à luz no dia 16 de março de 1969 –, nenhum outro lhe tomou o
lugar. A ninguém foi dado coroar-se com a tiara que cobriu a sua fronte de mestre
inigualável” (Discurso de Posse no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1975,
p. 16; Lex Editora).

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“Opinam outros, entretanto, que é necessário estabelecer-se
um estado tranquilo, embora transitório, de detenção da coisa por
parte do agente. Inclino-me, decididamente, por esta última
solução. Penso, aliás, que é a única aceitável perante o nosso
direito positivo. O furto não se pode dizer consumado senão
quando a custódia ou vigilância, direta ou indiretamente exercida
pelo proprietário, tenha sido totalmente iludida. Se o ladrão é
encalçado, ato seguido à apprehensio da coisa e vem a ser privado
desta, pela força ou por desistência involuntária, não importa que
isto ocorra quando já fora da esfera de atividade patrimonial do
proprietário: o furto deixou de se consumar, não passando da fase
de tentativa” (ibidem, p. 25).
Nesta mesma corrente jurisprudencial formaram,
entre nós, Juízes de prol em saber, ciências e virtudes. Em
bem da alegação, cai ao lanço esta meia dúzia de julgados,
que facilmente poderíamos multiplicar, se necessário:

1. “Se o autor do roubo foi detido tão logo o praticou, não
chegando a coisa subtraída a sair da esfera de vigilância da
vítima e nem tendo ele sua posse pacífica, não há cogitar de
delito consumado, e sim tentado” (Rev. Tribs., vol. 566,
p. 323; rel. Silva Franco; apud Mohamed Amaro,
Código Penal na Expressão dos Tribunais, 2007, p. 699;
Editora Saraiva);

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2. “É de se reconhecer a tentativa se entre o fato e a
recuperação do bem mediou reduzido espaço de tempo,
espaço este em que o agente esteve sofrendo a estreita
presença da atividade da vítima, juntamente com policiais
militares, visando a prendê-lo, de maneira que não se
pode dizer tenha ele tido posse mansa e pacífica da res”
(RJDTACrimSP, vol. 11, p. 54; rel. Sidnei Beneti;
apud Alberto Silva Franco et alii, Código Penal e
sua Interpretação Jurisprudencial, 6a. ed., p. 2.473;
Editora Revista dos Tribunais);
3. “Há só tentativa se foi perseguido de imediato, preso e
recuperada a coisa roubada” (STF; Revista Trimestral
de Jurisprudência, vol. 108, p. 909; apud Celso
Delmanto et alii, Código Penal Comentado, 6a. ed.,
p. 323; Edição Renovar);
4. “Na hipótese em que o agente do crime (de roubo) não
teve, em nenhum momento, a posse tranquila dos bens,
pois foi preso logo em seguida à prática do delito, houve
apenas tentativa” (STJ; rel. Min. Vicente Leal;
Rev. Tribs., vol. 792, p. 598);
5. “Se o agente foi de imediato perseguido e preso em
flagrante, retomado o bem, não se efetivou a subtração da
coisa à esfera de vigilância do dono, tratando-se, pois,
de roubo tentado” (STF; RE nº 100.771/1 - São Paulo;
j. 5.12.83; rel. Min. Rafael Mayer; in JTACrSP,
vol. 77, p. 446);

21
6. “Dá-se tentativa quando o agente não teve posse tranquila
da coisa subtraída” (TJRS; Rev. Tribs., vol. 844,
p. 661; rel. Amilton Bueno de Carvalho).
III. Também não ficou indiferente o intimorato Juiz à
controvérsia, que amiúde crepita nos processos criminais,
acerca da tentativa de extorsão: parecia-lhe urgente nova
exegese do art 158 do Código Penal (*), contra aqueles que,
chumbados ao texto da Súmula nº 96 do Superior Tribunal
de Justiça – isto é: “O crime de extorsão consuma-se
independentemente da obtenção da vantagem indevida” –,
não lhe admitem a figura tentada, sob a cor de tratar-se
de infração de natureza formal.
A esse respeito, eis a lição que, em acórdão de sua
lavra, comunicou aos penalistas:
“Obtendo o agente a posse de cheque, cuja emissão e
assinatura se fizeram mediante constrangimento imposto à
vítima, porém detido logo em seguida, antes que pudesse
descontar o título ou posto em circulação, caracteriza-se
mera tentativa de extorsão, quer se tenha ele por crime
material, quer crime formal de consumação diferida”
(Rev. Tribs., vol. 587, p. 349; rel. Adauto Suannes).

(*)

Art. 158 do Código Penal:
“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de
obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que
se faça ou deixar de fazer alguma coisa:
Pena — reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa”.

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Pelo que pertence à tentativa no crime de extorsão,
é esse o entendimento que abraçam penalistas de alta
linhagem.
Nélson Hungria escreveu, com efeito, em sua
monumental obra:
“Apesar de se tratar de crime formal, a extorsão admite
tentativa, pois não se perfaz unico actu, apresentando-se
um iter a ser percorrido. Assim, toda vez que deixa de
ocorrer a pretendida ação, tolerância ou omissão da vítima,
não obstante a idoneidade do meio de coação, ou, no caso de
extorsão mediante sequestro, deixa este, já em execução, de
se ultimar (por circunstância alheia à vontade do agente),
não se pode reconhecer senão a tentativa” (Comentários ao
Código Penal, 1980, vol. VII, p. 77).
E logo abaixo:
“Há que se identificar a tentativa punível ainda no caso,
não muito infrequente, em que a vítima, vencendo o temor
incutido, comunica a ameaça à polícia, e esta predispõe
as coisas de modo a surpreender o extorsionário no ato de
se apoderar da coisa fingidamente consignada ou quando se
apresenta no lugar indicado para recebê-la” (ibidem).

23
Doutrina é esta apadrinhada de graves autores:
“Ocorre (tentativa de extorsão) quando o sujeito passivo,
não obstante constrangido pelo autor por intermédio da
violência física ou moral, não realiza a conduta positiva
ou negativa pretendida, por circunstâncias alheias
à vontade do autor” (Damásio E. de Jesus, Código Penal
Anotado, 18a. ed., p. 610).
Pelo mesmo teor, o provecto penalista Heleno
Cláudio Fragoso:
“Não se exige, para a consumação, que o agente tenha
conseguido o proveito que pretendia. O crime se consuma
com resultado do constrangimento, isto é, com a ação ou
omissão que a vítima é constrangida a fazer, omitir ou
tolerar que se faça e por isso pode-se dizer que, em relação
ao patrimônio, este é crime de perigo” (Lições de Direito
Penal, Parte Especial, 11a. ed., vol. I, p. 217).
Ainda:
“Como no constrangimento ilegal, a tentativa é aqui
perfeitamente admissível, configurando-se quando, apesar
do emprego de meio idôneo, não consegue o agente que a
vítima faça, tolere que se faça ou deixe de fazer alguma
coisa” (ibidem).

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Afigura-se esta interpretação mais conforme ao
direito e à razão. Na real verdade – como quer que
“interpretar, no sentido jurídico, é procurar o pensamento
contido na lei, a significação das palavras, o alcance do texto, a
explicação da frase. Interpretar é descobrir a vontade da lei”
(Vicente de Azevedo, Apostilas de Direito Judiciário Penal,
1952, vol. I, p. 56) –, não entra em dúvida que a todas se
avantaja a interpretação que deu ao texto legal seu próprio
autor: Nélson Hungria, que não somente foi o principal
colaborador e artífice do Código Penal de 1940, mas
também seu exegeta supremo.
Na lição desses conspícuos autores é que nossas
Cortes de Justiça têm firmado sua jurisprudência:
a) “O crime de extorsão comporta a figura da tentativa,
em consonância com a doutrina, visto que a ação
delituosa foi tempestivamente atalhada em sua
execução, de maneira a permanecer a conduta
incriminada aquém da meta optata” (Rev. Tribs.,
vol. 623, p. 313; rel. Emeric Levai);
b) “O enquadramento da extorsão entre os crimes formais
não impede que se reconheça a possibilidade da
tentativa. A extorsão é delito plurissubsistente, isto é,
que se preenche com a realização de vários atos.
Destarte, a atividade criminosa é perfeitamente
cindível: tem um iter criminis e, portanto, pode sofrer
interrupção” (Rev. Tribs., vol. 572, p. 356; rel.
Silva Franco);

25
c) “Embora seja crime formal, a extorsão admite a
tentativa, porque não se perfaz com um só ato: exige
um iter criminis que o agente deve percorrer. Ocorre
a tentativa quando não se verifique qualquer dos
efeitos imediatos à coação (fazer, tolerar ou deixar a
vítima que se faça alguma coisa que resulte ou
possa resultar em prejuízo seu ou de outrem)” (Rev.
Tribs., vol. 555, p. 374; rel. Dirceu de Mello;
apud Alberto Silva Franco et alii, Código Penal e
sua Interpretação Jurisprudencial, 6a. ed., vol. I,
t. II, pp. 2.574-2.575);
d) “Se a vítima da ameaça suportou um estado de
constrangimento, não entregando o dinheiro exigido
pelo réu por convocado o concurso da polícia, tem-se
caracterizado o crime de extorsão na forma tentada,
eis que o agente só não conseguiu seu desiderato por
circunstâncias alheias à sua vontade” (Rev. Tribs.,
vol. 799, p. 602; rel. Ricardo Dip).
A não ser assim, a figura penal da extorsão (art. 158)
não representaria mais que supérflua reduplicação do
crime de constrangimento ilegal (art. 146).
Pela suma autoridade que lhe reconhecem os cultores
da Ciência de Carrara, quer-se transcrita aqui a perspícua
e definitiva lição que, acerca do ponto, ministrou Damásio
E. de Jesus:

26

“Para nós, consuma-se a extorsão com a conduta da
vítima.
Diz-se o crime consumado quando nele se reúnem todos os
elementos de sua definição legal (CP, art. 14, I). A consumação
exige que, presente o elemento subjetivo, o sujeito concretize todos
os elementos objetivos do tipo, havendo perfeita adequação entre
o fato concreto e o modelo legal. O iter criminis da extorsão
apresenta os seguintes elementos, que consubstanciam três
momentos típicos relevantes: 1º) conduta de constranger o sujeito
passivo mediante violência ou grave ameaça; 2º) comportamento
da vítima, fazendo, tolerando que se faça ou deixando de fazer
alguma coisa; 3º) intuito de obtenção da indevida vantagem
econômica.
A obtenção da vantagem indevida é dispensável, uma vez
que se encontra no âmbito da intenção do agente (com o intuito
de). Por isso o crime se diz formal ou de consumação antecipada.
Os outros elementos, entretanto, de ordem objetiva, referentes
ao comportamento do sujeito ativo e à conduta da vítima, são
imprescindíveis à consumação. Se o agente, com o elemento
subjetivo próprio, constrange o sujeito passivo mediante violência
física ou grave ameaça, e este porém não atende à coação, não se
pode afirmar, para fins de consumação, que no crime se reúnem
todos os elementos de sua definição legal. Está faltando a
elementar alternativa fazer, tolerar que se faça ou deixar de
fazer alguma coisa.

27
O crime formal antecipa a consumação ao momento típico
imediatamente anterior à produção do resultado visado pelo
agente. Considerando os três momentos típicos da extorsão,
consuma-se quando da concretização do segundo, i.e., com a
conduta da vítima.
A adotar-se a tese de que a extorsão atinge a consumação
com o simples constrangimento, ter-se-á de aceitar a
consequência lógica de aplicá-la aos crimes que apresentam a
mesma construção típica. Em outros termos, consumar-se-iam
com o ato executório do sujeito ativo todos os crimes em que a
conduta do agente é seguida de comportamento coativo da
vítima. Assim, consumar-se-ia o constrangimento ilegal com a
violência ou grave ameaça (CP, art. 146). E como o
constrangimento ilegal é um crime subsidiário, o princípio
incidiria sobre todos os delitos em que ele constitui meio de
execução. Em face disso, v.g., o atentado violento ao pudor,
na hipótese de o constrangimento visar a que a vítima pratique
ato libidinoso, atingiria o momento consumativo com a
simples violência ou grave ameaça” (Novíssimas Questões
Criminais, 2a. ed., pp. 21-22).
Enfim, o asserto de que a extorsão não conhece
tentativa (porque delito formal ou de consumação
antecipada) não consta da lei; tampouco o professam os
mais reputados mestres de Direito Penal, como Damásio E.
de Jesus, Heleno Cláudio Fragoso e aquele “che sovra gli
altri com’aquila vola”: (7) Nélson Hungria.

(7) Dante, Inferno, IV, 96.

III — Homem de Letras: Escritor e Poeta
Ao mesmo passo que edificava os colegas com a
sabedoria de suas decisões, entretinha-os Adauto com os
lavores de sua pena de escritor acabado e profundo.
Aprendera com o clássico Antônio Ferreira, também
desembargador e poeta, que
“Não fazem dano as musas aos doutores,
antes ajuda a suas letras dão,
e com elas merecem mais favores,
que em tudo cabem, para tudo são” (8).
Numerosos e variados foram os escritos que
produziu, reveladores todos de sua ampla cultura e rica
personalidade(9).
Para amainar a áspera faina dos obreiros do Direito,
deu à publicidade valiosos compêndios:
– “O que é Habeas Corpus”, em que expôs, com
ciência e método, a doutrina fundamental do prestigioso
instituto, sobre transmitir ao leitor oportunas e avisadas
reflexões;

(8) Cf. Poemas Lusitanos, 2a. ed., p. 102; Coimbra.

(9) Aqui vêm a ponto estas palavras do polido Antônio Vieira: “O melhor retrato
de cada um é aquilo que escreve. O corpo retrata-se com o pincel, a alma com a pena”
(Sermões, t. VII, p. 435; Lello & Irmão — Editores; Porto).

29
– “Noções de Direito Público e Privado”, ou súmula da
Ciência Jurídica, examinada à luz de modernas concepções
doutrinárias;
– “Os Fundamentos Éticos do Devido Processo Legal”,
enérgico discurso a respeito da fina arte de acautelar
direitos e fazer justiça, preservadas sempre as regras da
moralidade prática;
– “Justiça & Caos”, libelo contra os desvarios e tibieza
que porfiam em deslustrar a grandeza e majestade do Poder
Judiciário;
– “Cristo, Hoje” e “Ninguém Sofre porque Quer”,
livros de suave inspiração cristã e de solidariedade fraterna,
nos quais, alteando-se às transcendentes esferas da Filosofia
e da Religião, o exemplar Magistrado levou em mira
lembrar aos homens sinceros o cânon dos valores que, nas
horas de atribulações e incertezas, podem assegurar-lhes a
paz e a felicidade, convém a saber: força moral, inteireza de
vida e confiança na promessa divina de que aos justos estará
reservado o galardão da eterna bem-aventurança.
Entre as numerosas locuções e sentenças com que
sobredourava suas habituais conversações (a que preferia
denominar cavacos), figurava, por predileta, esta: O justo vive
da fé! (10).

(10) “Justus ex fide vivit” (S. Paulo, Epístola aos Romanos, 1, 17).

30
– “TEMPOESIA” e “Menas Verdades: Causos Forenses
ou quase”, originais produções artísticas e literárias, que
depõem a favor dos singulares méritos de Adauto Suannes,
como homem de letras e filho das musas.
Pelo que toca a “TEMPOESIA”, florilégio de versos
na voz mesma do saudoso vate, reproduzo – “data venia”
– os termos da carta que lhe então escrevi:

São Paulo, 24 de dezembro de 2007

Querido Amigo e Colega Dr. Adauto Suannes:
Cordiais Saudações!

Faz dias, recebi do Amigo esta preciosa dádiva –
TEMPOESIA –, parto formoso de seu engenho!

Do coração do poeta espero indulgência para a falta
grave de, somente agora, iludindo a tirania do tempo,
agradecer-lhe o fino presente.

Enquanto lhe escrevo, estou a ouvir de novo, no meu
toca-discos, na voz mesma do grande bardo, o clamor de
angústia, a sã doutrina do amor – “L’Amor che move il sole e
l’altre stelle” – e os suspiros da saudade! Pude bem
compreender o alcance do verso horaciano: “bis repetita
placent”. Sim, há coisas que, mesmo repetidas, agradam
sempre! A beleza, inédita que é, tem o direito de repetir-se!

Infinitas vezes hei de ouvir, escutar e recomendar à
memória suas inspiradas poesias: sempre as acharei novas e
belas!

Ao tocar o 70º marco miliário de sua benfazeja e rica
existência, permitiu-lhe Deus entoasse, em coro com os
colegas e amigos (que formam legião), este cântico de
glória, próprio só dos que se elevaram pela prática do bem
e conquistaram a palma dos justos!

32

Todo o velho – (“rectius”: jovem de outrora) – é
uma árvore carregada de frutos! Você, meu querido
Adauto, além dos pomos dourados que advertem da
passagem do ilustre peregrino –, também nos traz estas
olorosas flores, colhidas, como era força, no coração da
primavera: 7 de outubro!

“Che le rose fioriscano sempre sul tuo sentiero”!

Receba meu fraterno amplexo. Que Deus lhe
acrescente generosamente os dias felizes!

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Carlos Biasotti

No que concerne ao livro “Menas Verdades”, tive
ensejo de declarar, em carta a seu autor, o grande cabedal
que dele fazia. (Sofra-se-me que a transcreva aqui, escusada
em alguns passos a licença da linguagem):

São Paulo, 20 de fevereiro de 2011

Meu dileto colega e irmão Dr. Adauto Suannes:

Saúde e Paz!

Acabo de ler seu notável, interessante e original livro
(Menas Verdades: causos forenses ou quase)!

Quis correr suas 289 páginas, primeiro que escrevesse
ao amigo para agradecer-lhe a gentileza do mimo e poder
discretear a respeito dos temas infinitos que nele tratou. (E
já o teria feito há bem de tempo, se minha filha Juliana não
me tivesse arrebatado das mãos seu livro, que levou para
Águas de São Pedro, onde, com o marido (Jomar Juarez
Amorim, o Tonico e a Lenita (estes, meus netinhos),
estanciou por uma semana. Todos gostaram imenso do
livro e confirmaram-se na alta opinião de seu autor. O
mesmo sentiram meus filhos Carlos Augusto e Maria
Helena.

Reintegrado, enfim, na posse da obra, concluí a leitura
de seus últimos capítulos. Estou, pois, em condições de
exclamar – como Dale Carnegie, em seu famigerado
manual “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” (de que
se venderam para cima de 10 milhões de exemplares,
conforme adverte o pregão publicitário da capa, e no
entanto é voz que não pôde contar ao menos com meia

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dúzia de prestantes sujeitos que lhe trasladassem a urna
funerária: “sic transit gloria mundi”! – estou pois, dizia, em
condições de exclamar: meu nobre amigo, “você não sabe que
tesouro existe dentro de você!” (32a. ed., p. 243).

É o que lhe digo, meu caro Adauto Suannes, varão a
todas as luzes grande!

Foram momentos de raro e intenso prazer esses que
me proporcionou a leitura de seu livro. Confesso-lhe,
muito à puridade, que, a princípio, me fez forte abalo no
espírito o título ousado, sotoposto àquele tubarão invicto:
“Menas Verdades: causos forenses ou quase”.

Com que então, pensei entre mim, andará o
conspícuo e sereníssimo Adauto Suannes a agravar o pudor
à venerabunda senhora gramática?! Insidioso engano! Aquilo
que, ao primeiro súbito de vista, se afigurara ao espírito
inadvertido acintosa contravenção das leis do bem escrever,
não era senão congruente e vivaz artifício de linguagem,
que só conhecem os mestres consumados.

Em suas mãos, transforma-se a pena (estilete ou tecla),
por desusada magia, num fino pincel, capaz – “ad instar”
daquele de Boticelli – de produzir “Primaveras”, em feliz
comunhão da beleza e da verdade, segundo a mente de Eça
de Queirós: “Sobre a nudez forte da Verdade o manto diáfano
da Fantasia”!

Seu livro, meu douto amigo, é dos tais que todos os
obreiros do Direito folgaríamos de ter escrito; mas,
empresa de largo tiro, só os predestinados ou pupilos da

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Divindade poderiam executá-la a primor. E isto lhe tocou,
mercê de seus mui particulares dotes de espírito!

Até o prefácio – que, de ordinário, os bons livros
podem dispensar – não se mostrou, no caso, demasiado
nem impertinente; ao contrário, a “Apresentação” (do Juca
Kfouri), o “Prefácio” (do Celso Nascimento) e o introito (do
celebrado Autor) subiram de ponto os quilates da obra.

O primeiro nós todos admiramos por mais de um
predicamento louvável. (Tive oportunidade, aliás, de julgar-lhe processo por delito de imprensa. Aqui vai cópia do voto,
se o leva em gosto).

Em mais de um passo de sua curiosa e alentada obra
achei que aplaudir, sublinhar e remeter ao arquivo das
coisas memoráveis.

A quadrinha dedicada ao erudito Des. Euclides
Custódio da Silveira (p. 5) haverá, por força, de figurar
sempre na antologia profana da divina Têmis! A propósito
de cacofonias, facécias, pilhérias, etc., peço licença ao
amigo para depositar-lhe aos pés algumas folhas que esta
acompanham.

O “causo” do santo Ranulfo de Melo Freire – santo e
sábio, como faz prova o prefácio à 4a. edição dos Crimes
Hediondos (de Alberto Silva Franco) – passa pelo “sublime”
da literatura cabocla: “sartei de banda, cigarrinho de paia!”
(p. 171). Cornélio Pires haveria de “assuntá-lo” com as
mãos nas ilhargas, a casquinar frouxos de riso!

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Eis aí o grande Ranulfo, “com sua marca na testa Iso
9000” (p. 224); ou, como recitava a gente do Tacrim no
intervalo das sessões, durante o rega-bofes: o Ranulfo…
aquele que tem uma testa na mancha! Quanta impiedade
com o bondoso varão, assinalado no epicrânio pela mão de
Deus!

Comovente a história de Ivan, o japonezinho que, na
noite de Natal, envolveu o amigo secreto num cogumelo de
fumo (pp. 267-272). Oportuníssimos também os quinaus
de linguagem: “protocolizara” (p. 152) e “genitora” (p. 265)!

Inventariando as mazelas ecumênicas do Judiciário,
com indignação de profeta bíblico, não esqueceu ao ilustre
escritor reiterar, amiúde, sua profissão de fé na redenção da
Justiça paulista. Que Deus o escute e lhe despache de boa
sombra o pedido!

Outra vez me congratulo com o amigo pela ciclópica e
valiosa contribuição que deu à república das letras.

Conte-me sempre no número de seus admiradores
(que o sou de antanho, isto é, desde o tempo em que o
cavalo de Troia era potrinho).

Receba meu longo e afetuoso amplexo.

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Carlos Biasotti

IV — Brevíssimo “Curriculum Vitae”
Adauto Suannes (nome vocatório ou regimental de
Adauto Alonso Silvinho Suannes) nasceu em São Paulo
(SP) aos 7 de outubro de 1937.
Bacharel pela Faculdade de Direito do Largo de
São Francisco (Arcadas), turma de 1960, ingresssou na
Magistratura paulista em 1963.
Promovido ao Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo, aposentou-se como desembargador em 1985.
Exerceu o magistério em escolas de ensino superior e,
por seu vasto saber, doutrina e probidade, granjeou firme
reputação de jurista.
Enriqueceu a república das letras com obras de real
merecimento – v.g.: Noções de Direito Público e Privado, Os
Fundamentos Éticos do Devido Processo Penal, O que é Habeas
Corpus, Ninguém Sofre porque Quer, Justiça & Caos, etc. – e
honrou as belas artes como pintor, escultor, musicista e
fotógrafo.
Aos 27 dias do mês de março de 2014 veio buscá-lo a
morte.
Que santa glória haja!

V — Adauto Suannes:
Capas de alguns de seus livros

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VI — Flagrantes da Vida do Grande Juiz
(1a. Série)*

Nas fotos, o Juiz Adauto Suannes; embaixo, à sua direita,
com o Des. Eduardo Pereira Santos.

(*) Fotografias dos arquivos do Museu do Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo, aqui publicadas por especial gentileza de seu Coordenador, o
eminente Des. Alexandre Moreira Germano.

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(2a. Série)*

Plenário do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo;
no centro, em pé, o Juiz Adauto Suannes.

Adauto em seu local de estudos.
(*) As fotos que ilustram esta página foram gentilmente cedidas ao autor pela
Dra. Maria Helena Fonseca de Souza Rolim, viúva do insigne Magistrado.

VII — O Legado Precioso de Adauto Suannes
As cláusulas salutares e generosas do testamento
espiritual de Adauto Suannes são dignas de ponderada
leitura e estrita observância dos espíritos bem formados, em
especial dos colegas de magistratura.
Juiz incorruptível, obrava sempre com retidão e
prudência; na justa solução do caso concreto, que buscava
com vivo empenho (por não dizer obstinação), punha a
alma toda.
Chamado a dizer o Direito e a dirimir litígios, não se
dedignava de surpreender na lei a interpretação mais
razoável e humana, segundo o áureo ditame de Recaséns
Siches (11).
Com desassombro e coragem moral, distribuía justiça
com equidade, que, segundo o sentimento comum dos
melhores intérpretes, é a regra, por excelência, dos
julgamentos. O reparo de Carnelutti àqueles a quem essa
terrível e bela função foi cometida descobre esplendor de

(11) Cf. Nova Filosofia da Interpretação do Direito, 1975, p. 189; México).

Esta magnífica e alta doutrina professava também o preclaro Goffredo
Telles Jr.: “Deve o juiz usar a lógica do jurista, que é, precisamente, a lógica do
razoável e do humano” (A Folha Dobrada, 1999, p. 162; Nova Fronteira; Rio de
Janeiro).
Na mesma alheta navegava o douto e austero Des. Teodomiro Dias:
“Amparando os mais fracos, não fazemos favor senão justiça” (apud Odilon da Costa
Manso, Letras Jurídicas, 1971, p. 111).

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centelha divina: “(...) tenham ao menos a consciência de que, ao
julgar, fazem as vezes de Deus” (12).
Suas decisões não exibiam laivo draconiano ou
exagero punitivo, antes se afinavam com a doutrina do
sereno e castiço Manuel Bernardes: “Deve o rigor do castigo
temperar-se sempre com a moderação da clemência” (13).
Aquele que percorreu, sem lapsos nem desvios, essas
escorreitas e saudáveis planícies da Justiça, não é muito
sirva também de paradigma e exemplar a todos os que um
dia tiverem a honra de vestir a toga! (14).
O egrégio varão – que (pela altivez do porte, em que
predominava o tipo morfológico longilíneo) lembrava um
obelisco em movimento –, já o não veremos a deambular
na estrada real do Fórum: foi chamado ao Tribunal de
Deus!
Mesmo quando a morte seja para todos o termo
natural da vida, sempre nos custava crer no infausto
anúncio de que se extinguira, e pois entrara a faltar ao
nosso convívio, a luz desse espírito privilegiado!

(12) Cf. As Misérias do Processo Penal, 1995, p. 19; trad. José Antônio Cardinalli;
Conan Editora.
(13) Cf. Nova Floresta, 1728, t. V, p. 466.
(14) O compassivo Adauto havia por desaire da função judicante isto de alguns
magistrados menearem com demasiada rigidez o gládio da Justiça; preferia
acreditar-se com o exemplo de seu patrono espiritual, o bom Juiz Eliézer Rosa:
“Fazer justiça não é, em muitos casos, obedecer à lei e, sim, obedecer ao direito que é a
fonte da lei” (A Voz da Toga, 1a. ed., p. 41).

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Assim, nunca figuráramos o dia sombrio, em que
estava decretado haveria depor o pálio da mortalidade
aquele talento de eleição, que era no Tribunal de Justiça o
maior entre os grandes, para os colegas modelo cabal.
Ainda (e isto lhe resume e coroa a fecunda existência):
não se nutria de vaidades nem era gloriabundo; punha o
timbre unicamente em bem servir, o que reputava pela
maior das ambições.
Eis por que lhe podemos colocar a curul ao lado
daquela em que a História fez assentar o lendário ministro
Chase, num episódio que Rui se comprazia em relembrar:
“Entre todos os grandes homens que eu tenho visto”, dizia
Lincoln, “Chase vale um e meio de qualquer deles” (Obras
Completas, vol. XXXVIII, t. II, p. 51).
Obediente aos impulsos do coração e guiado pela
razão refletida, compus estas ingratas páginas de saudade.
Comovido, protesto que, se a mágoa pela perda e as
lágrimas ardentes dos amigos pudessem infundir-lhe sopro
de vida, o singular Juiz Adauto Suannes ainda estava entre
nós!
Glória eterna a seu nome!

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