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de Moura Ribeiro Zeron, Carlos Alberto
FEBVRE, LUCIEN. MARTINHO LUTERO, UM DESTINO. TRADUÇÃO DE DOROTHÉE DE BRUCHARD.
SÃO PAULO: TRÊS ESTRELAS, 2012.
Revista de História, núm. 169, julio-diciembre, 2013, pp. 413-420
Universidade de São Paulo
São Paulo, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=285029402015

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um destino. JULHO / DEZEMBRO 2013 411 . Martinho Lutero. p.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. Nº 169. 2012. Tradução de Dorothée de Bruchard. São Paulo: Três Estrelas. Lucien. RESENHAS REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. 413-420.

São Paulo: Três Estrelas. Lucien. Martinho Lutero. 413-420.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. p. JULHO / DEZEMBRO 2013 412 . Nº 169. um destino. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. 2012. Tradução de Dorothée de Bruchard.

é. um numeral. Faculdade de Filosofia. um destino. p. um luteranismo monolítico. 413 . Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron* Universidade de São Paulo Lutero. SÃO PAULO: TRÊS ESTRELAS. ao contrário. que prolonga em linha reta um luterismo não menos monolítico e competindo por almas. Universidade de São Paulo e bolsista do CNPq. quando se refere a Lutero. Não que este determine aquele. 2012. Martinho Lutero. LUCIEN. UM DESTINO. O título resume o que foi empreendido por Lucien Febvre neste livro: o estudo de um homem. cidades por cidades. 2012. em outro. o artigo indefinido “um”. um destino. Tradução de Dorothée de Bruchard. 413-420. Persistimos em recriar. Nº 169. Lucien. JULHO / DEZEMBRO 2013 FEBVRE. no título. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. TRADUÇÃO DE DOROTHÉE DE BRUCHARD.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. São Paulo: Três Estrelas. * Professor titular do Departamento de História. às vezes mesmo a indeterminação da relação entre Lutero e seu destino. num sentido. Letras e Ciências Humanas. O que se interpõe entre os dois termos. MARTINHO LUTERO. examinado em seu contexto histórico. quando se refere ao luteranismo. après coup. Febvre recusa os esquematismos fáceis e resgata a complexidade.

p. Paris: Société d’Histoire Moderne et Contemporaine. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. 3e. O que moveu Lutero. heresia: o maniqueísmo está nas nossas medulas. porque Lutero reagiu a esse contexto e mesmo à evolução do luteranismo. Nº 169. ortodoxia. sep. segundo Febvre. Lucien. jan. Disponível em http:// www. São Paulo: Três Estrelas. em sua fé. aliás. 1 414 . uma vez divulgada. afirma que Lucien Febvre estudou em Lutero menos o homem que o destino.não existe. 71). tal distanciamento tem sua origem bem antes disso. 2012. 1926. Martinho Lutero.) um meio de escapar aos terrores. p. restringindo assim quase exclusivamente seu estudo à revolta de Lutero contra seu meio. o papel do estado político. Ela determina o descompasso que se manifestará mais tarde: “o remédio de Lutero para as suas angústias. Lucien. e à revanche desse meio sobre Lutero: a formação do reformador e seu recuo. t. que resenhou a primeira edição deste livro em 1928.. Porém. não existem dois Luteros.. 389. O consolo que encontrou na certeza pessoal da salvação pela fé originou apenas “uma teologia pessoal”. um destino.. o descompasso encontra-se bem antes: não na reação de Lutero diante do mundo. p. isso se explica. com docilidade.org/stable/20524447.3 A formação e o recuo de Lutero. 16). op.. contra os jesuítas da Reconquista (. social e religioso da Alemanha na evolução da vida e do pensamento de Lutero. 413-420. n. protestantismo. Le progrès récent des études sur Luther: Essai de mise au point. aos tormentos. n. essa “teologia pessoal”. e que o tinha curado. No livro.1 René Pintard.) Branco. catolicismo..2 Se o destino escapa à vontade do homem e o luteranismo se dissocia de Lutero. são motivadas por um sentimento essencialmente religioso..org/stable/20524740.-fev. Todavia. Segundo Lucien Febvre. Febvre escreve: “a tradição mata o espanto. e abençoada. 24-47. no caso. foi uma aflição pessoal. o Lutero de 1520” (p. 194). 2 PINTARD.. desde a juventude: 4 o sentimento do pecado.. solitário e secreto. t. no início. mas de sua tranquilidade interior (. foi entendida e apropriada pelos seus contemporâneos e pelas gerações futuras de maneira variada e diversa: “a passividade total. JULHO / DEZEMBRO 2013 principados por principados. Un destin: Martin Luther by Lucien Febvre. o mesmo que sempre o moveu. Lucien.jstor.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. 1. 17. Revue d’histoire moderne. mas um só. Acesso em: 20/12/2012. 1.. a lição aprendida” (p. não de sua doutrina. Repetimos. a influência da coletividade sobre o indivíduo e.-oct. René.jstor.isto é. às crises de ansiedade que o consumiam” (p. Tradução de Dorothée de Bruchard. Disponível em http://www. Paris: Société d’Histoire Moderne et Contemporaine. Revue d’histoire moderne. repondo a determinação entre os dois termos: . preto. do resignado que.. uma verdadeira ruptura – ou melhor. Le progrès récent des études sur Luther: Essai de mise au point. 4 “. não se mostrou eficaz para todos”. de fato. reconhecen- FEBVRE. mas na sua formação de monge enclausurado e angustiado pelo pecado. “Lutero foi o artífice. 1928. 3 FEBVRE. o de 1547 continua sendo. Acesso em: 04/03/2013. cit.

um destino. Até que ponto o ser humano. 184). instrumento de revolta. o indivíduo cujas ações e reações se trata de explicar. ele preci- Para estudar o estilo de Lutero. Tradução de Dorothée de Bruchard. “a curva de um destino” (p. apesar de afirmar. de acolher nos estudos históricos o conjunto das ciências sociais. Febvre diz que é necessário “um historiador que também seja psicólogo – que saiba e. talvez. atenhamo-nos ao âmbito dos fatos psicológicos e contentemo-nos em destacar. Lutero não tratou de renegar seu passado. deixou-se tocar em suas partes vivas. certas reações do Lutero pós-1525”. que seu livro não é uma biografia. Porém. como disse René Pintard. JULHO / DEZEMBRO 2013 do-se vencido antes mesmo do combate. o problema essencial da história: tal foi nosso intuito” (p. a complexidade da situação histórica de Lutero explica-se sobretudo por meio da psicologia – disciplina que situa o indivíduo no centro das tensões do contexto histórico. Ver também o que escreve à p. disfarçava para si mesmo a extensão de seu recuo agindo firme. nada mais” (p. Febvre visa ao cerne do caráter histórico do homem Lutero. a curva sinuosa e bifurcante de um destino póstumo” (p. um destino. 276: “Fiéis ao nosso propósito. no prólogo à primeira edição (1928). por essa língua. De fato. para poder vislumbrar Lutero. retomada por Marc Bloch e Lucien Febvre. talvez. mais ainda. nas mãos de alguns dos seus seguidores. toda uma era. entre a iniciativa pessoal e a necessidade social. Nº 169. p. investe sua esperança no próprio excesso de sua derrota” (p. aos confins de um tempo presente que estamos pouco preparados para avaliar com sangue frio. Mas somente porque. 5 415 . ao valer-se dessa disciplina para estudar o “problema das relações entre o indivíduo e a coletividade. na maturidade: “Não. certas atitudes. pelo jogo das forças maciças que o historiador erige a seu redor?” (p. E isso o obrigará a um recuo. 6 “Não julgamos Lutero. Forçado a ceder pela investida convergente dos homens e dos fatos. 173). toda uma época do pensamento” (e remete em nota ao seu livro sobre Rabelais) (p. evoque nessa língua. 11) 6 – modéstia do autor. aliás. mas “uma opinião sobre Lutero. 73).Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. São Paulo: Três Estrelas. Lucien. tornar-se-á. contra os adversários que o pressionavam demais” (p. Desde a proposta de Henri Berr. “todo estudo de influências coloca um grave problema. 2012. nos prólogos às reedições seguintes do livro que “nada encontrei para ser alterado” (1944) e que “não creio ter algum retoque a acrescentar ao texto original” (1951). 322). 11). Martinho Lutero. raras vezes a psicologia foi efetivamente mobilizada como em Lutero. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. 287). nem mesmo àquela frase do primeiro prólogo. que é.5 A dificuldade da tarefa o leva a conceder. da maneira menos pior possível. 413-420. que se mantém. e segundo que código? O dele? Ou o da Alemanha contemporânea? Simplesmente estendemos. Qual Lutero. 221). Para Lucien Febvre. Lucien Febvre estuda menos o homem que o destino. bruscamente. adivinhe.

ele conclui: “Não sabemos. pois não dispõe sobre a juventude de Lutero mais do que “um simples olhar para trás. “obra rica e importante” (p. Lucien. Aos sábios. à p. datado de quando ele já tinha 62 anos. Nº 169. Mas ainda era muito pouco. ele não pode oferecer mais do que “uma versão plausível” (p. JULHO / DEZEMBRO 2013 sa fazer incessantemente a crítica das fontes e da historiografia. de comum acordo. Contudo. lançado por sobre os ombros. concentraram sua atuação na figura. a chamada doutrina ou sistema de Lutero é depreender de uma profusão de rascunhos ou esboços parciais uma única tradução. 27): o Rückblick [Retrospecto]. contudo. o limite reside em que “a palavra ‘certeza’. 53). “fonte turva”. de fato. 82-3). resta “saber não saber. a citação de André Gide feita por Lucien Febvre. 28). incluindo as Tischreden [Conversas à mesa]. p. a mais expressiva. 42). um destino. os íntimos recônditos da alma luterana” (p. em um assunto como este. retrospectivamente. temos de abstrair. ‘Mas o mais difícil é ter de apresentar situações de confusa simultaneidade como sendo sucessivas’. a todo instante. aqui. Sabemos também que. 8 Cabe associar. em dado período de sua vida. Não se atrapalhava com sutilezas” (p. Sabemos quanto deixamos de lado do pensamento tão rico de Lutero no início de sua trajetória. um ano antes de falecer. Ao historiador Lucien Febvre faltavam as fontes para fazer a autópsia de Lutero. E assim. as ideias religiosas de Lutero se definem cedo. furtiva e tardiamente” (p. assim. 26). Quanto à historiografia. do mundo infinito de imagens e representações que ele trazia em si e cuja impetuosa abundância mal lograva disciplinar (p.8 Tantos limites não o impediram. todos os historiadores. mais adiante. já compunham um “relato oficial. na doutrina e na obra do homem feito” (p. Para Febvre. 413-420. As demais fontes coevas. 54). São Paulo: Três Estrelas. “ao longo de três séculos. Tradução de Dorothée de Bruchard. entre 1505 e 1517. 243). uma profusão de traços emaranhados que turvavam e perturbavam a imagem principal. [não pode] ser pronunciada senão pelos tolos” (p. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. Felizmente.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. portanto. Não temos como penetrar. de definir categoricamente o perfil psicológico de Lutero: “um homem como Lutero. para traçar uma linha mais ou menos clara. protestantes ou neutros.” 7 416 . um Esboço um tanto esquemático. falando justamente de recordações pessoais. Desenha-se. quando abre um livro. sobre a Epístola aos romanos. semilegendário e quase hagiográfico dos anos da juventude de Martinho Lutero” (p. escreve André Gide. fossem católicos.7 Para Febvre. encontram-se as notas do curso ministrado em Wittenberg em 1515-16. 243: “‘Para desenhar é preciso fazer escolhas’. desse período. Martinho Lutero. 2012. constata que. Reconstituir. 49). “A historiografia tradicional de Martinho Lutero oferecia uma grande vantagem: sua simplicidade. no final do século XIX. uma grande virtude” que ele tenta praticar no livro (p. 56).

REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. um homem. n. JULHO / DEZEMBRO 2013 nele lê apenas um pensamento. seus ensinamentos “Pois um príncipe e senhor deve considerar nesse caso que ele é ministro de Deus e servidor de sua ira (Rm 13. que lhe foi confiada a espada para domínio de tais patifes e está pecando diante de Deus se não castiga e combate e não desempenha a sua função”. 413-420. mas são flagelos de Deus” (p. Não é essa. dividida tanto em classes sociais quanto em esferas concorrentes de poder. sua grande. traziam até o monge. porém. 255). Por isso. um profeta que meditava e atingia a revelação na latrina. sua verdadeira originalidade?” (p. “um príncipe pode merecer o céu com derramamento de sangue. diante da rebelião dos camponeses. p. Assim. portanto. Martinho. o eco de uma voz cujo tom e vigor perturbaram-no profundamente. Lucien. melhor do que outros pela oração”. Mesnard). reimpressas.4). Nº 169. difundidas em todos os círculos.9 Lutero rompeu. surdamente palpitante de paixões mal contidas. um destino. 327. é um sujeito orgulhoso e brutal (p. Num país “sem unidade”. Apenas isso. nem súbita revelação de um homem diante do qual se desenrola um escândalo imprevisto e demasiado visível” (p. É Lutero. A voz de uma Alemanha inquieta.. e não da graça”. 170 e 171. p. para sua imensa surpresa. aliás. 2012. Lutero. L’éssor de la philosophie politique au XVIe siècle. Pierre. para revelar em público seus secretos anseios (p. 120). Nada aprende que já não traga dentro de si” (p. na opinião de Febvre. em Lutero. 153). Paris: Vrin. “Que não se busque. A alma de Lutero. LUTERO. traduzidas em língua alemã. 297). 1977..) a preocupação de agir para introduzir neste mundo mais igualdade” (p. 86). entende que “as 95 teses não são nem panfleto. ele escreveu: “aqui é hora da espada e da ira. é a obediência. a salvação de Lutero.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. 256): “tendo erigido a inação política em lei absoluta” (p.10 A ideia que comanda toda a construção teórica da política. no banho ou na cloaca (p. que deu argumentos para pôr o mundo de ponta cabeça. a relação entre a piedade e a moralidade (P. as 95 teses. nem convocação às armas. em Lutero (. Tradução de Dorothée de Bruchard. 60). Contra as hordas salteadoras e assassinas dos camponeses (início de maio de 1525). contudo. 9 417 . 187) é amplificada pelo fato de que a Alemanha onde ele acorda é “um país sem unidade” (p. o seu. Martinho Lutero. 1). São Paulo: Três Estrelas. não passava de “um pequeno burguês de ideias curtas [que] desconhecia tudo do mundo que o cercava” (p. A complexidade deste despertar de “um homem que não possui com o mundo convivência alguma” (p. 112). 10 MESNARD. 260) – ou. que esperava apenas um sinal. 116) . Em poucos dias. Esse Lutero. em 1524-1525. Lutero entende que “os príncipes são flagelos. nem a injustiça justificam a revolta”. Febvre não dá importância ao episódio da viagem a Roma: “o que interessa a Lutero de 1505 a 1515 não é a reforma da Igreja. dessa forma. nas palavras do próprio Lutero: “nem a maldade.

Estas tensões levarão a cisões mesmo entre seus companheiros e seguidores próximos: com Melanchton. A partir de então. em 1546. de seu próprio luteranismo” (p. É nesse contexto que se dá o rompimento irremediável com Erasmo. E persiste. mas à Alemanha apenas. língua universal. porém. mas agora não apenas na sua derrota pessoal diante do pecado. em muitos aspectos. “em basear plenamente em Deus o poder absoluto dos príncipes” (p. quando. Lutero não se reconhece em nenhum deles. para proclamar que é inútil agir e só vale uma coisa: refugiar-se no seio de Deus. 305). um luteranismo distinto. praticamente só escreve em alemão. Em contraste com os calvinistas. 1533.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. Nº 169. Lutero e outros líderes da Reforma alemã viram-se em face de duas teorias distintas que alegavam a legitimidade da oposição ao imperador – a teoria constitucionalista formulada pelos hessianos e a teoria do direito privado utilizada pelos juristas convocados por 418 . qualquer iniciativa humana (p. decidiram declarar guerra a Carlos V. São Paulo: Três Estrelas. 1530. assim. em legitimar. e uma fé visionária animando alguns gênios heroicos a quem nada nem ninguém intimida e cujo espírito percorre os espaços infinitos (p. desde fins de 1530. 2012. o profeta cochila dentro de Lutero. língua de elite. Tradução de Dorothée de Bruchard. seus despertares. Tem. sua passividade e covardia nas grandes. Nesses momentos. os luteranos encontraram pouca dificuldade para defender a ideia da resistência ativa a seu senhor legítimo. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. E dois campos logo se dividem: Brutal contraste entre uma sociedade luterana desenvolvendo-se em sua mediocridade com seu moralismo farisaico e timorato. em disputa sobre o livre-arbítrio. tanto quanto com a “massa que só segue suas diretrizes para incliná-las aos próprios fins” (p. mas a de todos os movimentos sociais inflamados por suas palavras. Lucien. “após 1525. no ano mesmo da morte de Lutero. as divergências se aprofundam no campo luterano. “sob esse Lutero vivo. JULHO / DEZEMBRO 2013 não são seguidos nem por aqueles que se proclamam seus seguidores. consultado. mas. Ao mesmo tempo. Como quando era jovem. Lutero ainda investe sua esperança na derrota. 305). Não para agir. 290). p. 295). pois já se haviam munido de um estoque considerável de argumentos sobre o caráter justificável da violência política: fato não notado por Lucien Febvre. Renuncia ao latim. um destino. Martinho Lutero. Não é à cristandade que ele se dirige. em 1529. ao contrário. 413-420. nele abdicar de qualquer vontade própria. 272). decerto. Forma-se. respeitado. nem isso: à Saxônia luterana” (p. seu êxito perfeito nas pequenas coisas. por exemplo. 293).

11 Num colóquio realizado no palácio de Torgau entre 25 e 28 de outubro de 1530. também concede que. segundo Pierre Mesnard. os luteranos não apenas desenvolveram o argumento revolucionário que haviam originalmente empregado na década de 1530. Com a guerra de Schmalkalden. reduzindo-se ao estatuto de criminoso privado e. São Paulo: Três Estrelas. aqui. Lucien. para ambos. Mas é fato também que quanto mais Melanchthon desenvolve essa teoria do direito privado. mas. um destino. 11 SKINNER. em boa medida. mais restrições Lutero lhe coloca. em 1531. ele foi o pai involuntário do mundo moderno. notam como frequentemente se afirma que a Reforma foi condicionada pelo estado político da época em que nasceu. Quentin. que conclui seu livro afirmando que “Lutero não era um reformador” (p. convocado por João da Saxônia. deixa de ser uma autoridade instituída por Deus.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. cap. O documento fundamental. na Advertência do doutor Martinho Lutero ao seu querido povo alemão. como reavivaram também a teoria constitucional da resistência dos hessianos. p. redigida por Nicolas von Amsdorf. Lucien Febvre. 2012. 313). 413-420. não há síntese. afirma que a legítima defesa não se enquadrará em um caso de rebelião contra um magistrado legítimo. e porque tais problemas não são o objeto de uma construção teórica definitiva. uma das formidáveis ironias de que a história detém o segredo” (p. sobre a resistência fundamentada no direito privado. mais do que isso. não é mais de Lutero. São Paulo: Companhia das Letras. Nº 169. mas a Confissão de Magdeburgo. Pierre Mesnard e Quentin Skinner. sendo um caso de repelir a força injusta com a força. 1996. Lutero se dissocia de seu destino. Lutero redigiu uma capitulação formal. que alinham os fatos acima. sem dúvida. Tradução de Dorothée de Bruchard. Jonas e Spalatino. As fundações do pensamento político moderno. de 1550. E isso por dois motivos: porque ele não aborda os problemas políticos frontalmente. assinada também por Melanchthon. 16. “É essa. Martinho Lutero. a influência inversa é igualmente notória e manifesta. Ou seja. em que afirma que todo governante que exceder os limites de seu cargo deixará de ser um genuíno magistrado. da grande dificuldade de Lutero em descrever e sistematizar o seu pensamento político. mas através da relação entre Igreja e Estado. JULHO / DEZEMBRO 2013 João da Saxônia. 317). seu pensamento político procede do seu pensamento religioso e adapta-se progressivamente às dificuldades da sociedade contemporânea. no entanto. 419 . todavia. em que desenvolveram a teoria do direito privado esboçada inicialmente por Martin Bucer. em 1546. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. A eficiência prática e a influência notável exercidas pelo pensamento reformado decorrem. claro.

Sobre o governo civil. Martinho Lutero. Lucien. 420 . 2012. Un destin: Martin Luther by Lucien Febvre. um destino. ou de edições em línguas estrangeiras. São Paulo: Três Estrelas. Disponível em http://www. JULHO / DEZEMBRO 2013 O livro. Martinho. Helberto Michel.jstor. Acesso em: 20/12/2012. Sobre a autoridade secular. Não que. Pierre. como avaliava Febvre. Tradução de Erlon José Paschoal. FEBVRE. n. o que surpreende é que esta seja a primeira edição brasileira. um destino. 1996. 1928. 3. Nesse sentido. Organização. L’éssor de la philosophie politique au XVIe siècle.-fev. revisão e apresentação de Luís Alberto de Boni. São Paulo: Martins Fontes. 413-420. o livro – editado com cuidado gráfico e boas traduções do francês e das citações em latim. Martinho Lutero. Recebido: 16/03/2013 – Aprovado: 28/06/2013. Steltzer e Sabatini Lalli. Acesso em: 04/03/2013. 1926. 1998. Paris: Société d’Histoire Moderne et Contemporaine. mas. René. 1977. 1er. ele enfrenta muito bem o debate. 1995. ademais. Escritos seletos de Martinho Lutero. Paris: Société d’Histoire Moderne et Contemporaine. LUTERO. set. p. MESNARD. MÜNTZER. p. 24-47. Lucien. In: CALVINO. Arno F. Le progrès récent des études sur Luther: Essai de mise au point. 2000. 17. Martin N. SKINNER. t. Quentin. PINTARD. altamente prazeroso para quem gosta de apreciar o historiador desvelando francamente como faz o seu ofício. alemão e italiano – é. Tradução de Ilson Kayser. cujo público dependia de edições portuguesas igualmente tardias (1976 e 1994). 2012. Tradução de Dorothée de Bruchard. REVISTA DE HISTÓRIA SÃO PAULO. Nº 169. Lucien.jstor. jan. Martinho. São Paulo: Fundação Editora da Unesp. 389390. As fundações do pensamento político moderno. Antes tarde do que nunca. Thomas e CALVINO. Paris: Vrin.Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron FEBVRE. Martinho.org/stable/20524447. Disponível em http://www. 1. resiste muito bem ao tempo. t. São Paulo: Três Estrelas. n. Tradução de Dorothée de Bruchard. Revue d’histoire moderne. São Paulo: Companhia das Letras. retocado ou acrescentado. p. nada tenha para ser alterado.-out. Revue d’histoire moderne. Dreher. Petrópolis: Vozes. Tradução de Hélio de Marco Leite Barros e Carlos Eduardo Silveira Matos. Referências bibliográficas FEBVRE. Tomás Müntzer e João Calvino. João.org/stable/20524740. João. vê-se. LUTERO. LUTERO. Da liberdade do cristão: prefácios à Bíblia (1520). quase um século depois.