Aprender a pesquisar é fundamental

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Em nossas escolas não se ensina a pesquisar
João Luís de Almeida Machado
Doutor em Educação pela PUC-SP

O estudante vai à escola. O professor define um tema a ser trabalhado em
suas aulas. Durante os próximos 50 ou 100 minutos de uma modorrenta aula
expositiva apresentam-se aquelas informações consideradas essenciais a respeito
do tema. Depois de todo esse tedioso compromisso é passado aos alunos um
trabalho de pesquisa. Trata-se de um aprofundamento a respeito do assunto
central da aula.
O próximo passo nesse compromisso é dado pelos estudantes que se
encaminham para a biblioteca ou acionam os mecanismos de busca da internet.
Livros e sites de pesquisa auxiliam os grupos a conseguir as informações desejadas
que, a partir desse momento são impressas, lidas e adaptadas para uma nova
versão, elaborada pelos alunos.
Depois de tudo isso, os trabalhos são entregues ao professor, que passa ao
trabalho de avaliação e se compromete a devolver tudo corrigido depois de alguns
dias. As notas são dadas, os registros são feitos, os trabalhos são devolvidos. Todo
mundo fica satisfeito, o que devia ter sido feito foi realizado da melhor forma
possível... Será? O que deveriam ter feito os alunos para realmente efetivar sua
pesquisa? O professor agiu de forma correta ao definir os parâmetros do trabalho
estabelecendo apenas o tema e algumas poucas diretrizes? Isso é o que devemos
caracterizar como pesquisa?
A resposta é curta e seca, mas de fundamental importância para iniciarmos
essa discussão, o que acabamos de descrever, a despeito de representar o que
acontece em muitas e muitas escolas de nosso país, nos mais diferentes níveis de
ensino (do Fundamental a Universidade), não pode jamais ser caracterizado como
pesquisa.
De acordo com o estimado dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o
conceito para a palavra pesquisa é o seguinte:
Pesquisa – (substantivo feminino) – 1. Conjunto de atividades que têm por
finalidade a descoberta de novos conhecimentos no domínio científico,
literário, artístico etc. 2. Investigação ou indagação minuciosa.
Muito mais que uma simples definição retirada de um dicionário, a
conceituação acima nos permite observar algumas palavras essenciais para uma
plena compreensão do vocábulo e da prática da pesquisa.
Por exemplo, ao estabelecer que a pesquisa é um “conjunto de atividades”,
descaracterizamos as práticas corriqueiras das escolas brasileiras como sendo
pesquisa. “Um conjunto” nos coloca diante de uma série de ações e práticas,
referendadas por uma metodologia estabelecida e reconhecida a nível nacional e
internacional, estipulando que para o referendo de um conhecimento pesquisado
são necessárias intervenções, análises, pesquisas de campo, muitas leituras de
bibliografia especializada, utilização de termos técnicos referenciais para cada ramo
da pesquisa, entrevistas, busca de informações em órgãos especializados,
informações atualizadas a partir de publicações científicas reconhecidas,...
Poucos são os professores, mesmo nas universidades, que se utilizam de um
leque tão amplo de instrumentos e práticas para firmar os conceitos e referendar os
conhecimentos adquiridos e pesquisados. Muitos educadores do 3º Grau conhecem
a metodologia de pesquisa apenas a partir de manuais e referenciais bibliográficos
estabelecidos como cânones nessa área. A prática na utilização desses
instrumentais só é aperfeiçoada realmente por quem se imiscuiu nos campos de
pesquisa e ensino, se aprofundando com o apoio de instituições, mestres e
doutores que tenham a pesquisa como foco e parte de suas realidades.

Ainda pensando na definição do Dicionário Houaiss. a responsabilidade e a concentração que demandam uma pesquisa. É claro que não queremos que todas essas realizações que determinam o que seria uma verdadeira pesquisa sejam aplicadas desde a mais tenra idade.. nas etapas posteriores. Ao atingirem o ensino universitário.. O advento da tecnologia de ponta e das possibilidades de rapidamente acessar bancos de dados. mestrado. ou ainda ficar constando apenas nos dicionários. Não se conhecem nem mesmo os alicerces. ao “copiar e colar” dos computadores e da internet. raramente permitem ou estimulam os universitários a participar opiniões. mais modernamente. o nível de empenho. doutorado ou pós-doutorado. atualizaria suas práticas. aprofundaria os conceitos e forneceria oportunidades fortuitas para tornar essa postura de pesquisadores uma realidade em suas vidas. entretanto as aulas são pouco interessantes. para quem se aventura a fazer especializações. textos. revistas científicas. muitos estudantes não se dão nem mais ao trabalho de repensar as informações e adaptá-las criando um novo texto a partir dos originais. especialmente na universidade.. entrevistas com especialistas e tantas outras chances que nos são dadas através do uso dos computadores e da internet foram reduzidos a uma prática reducionista e melancólica conhecida como “copiar e colar”. quando nossas crianças ainda estão na 5ª ou na 6ª série do Ensino Fundamental. artístico”. Para superar isso seria necessário que fossem remodelados os cursos de graduação. questionar práticas. Mas as bases devem surgir já nessa fase.com. a constante indagação por informações que podem alterar os rumos da discussão acerca de um determinado tema.. os alunos devem ter conhecimento teórico e prático que lhes permitam realizar pesquisas de forma efetiva. Já existem tais cursos nas grades curriculares da grande maioria das faculdades que formam os licenciados para dar aulas. Ao advogar a busca por minúcias. Os professores continuam ensinando como há muitos anos atrás e seu repertório de técnicas e métodos de pesquisa ainda remonta as cópias de livros ou. ao continuar sua primeira conceituação de pesquisa vemos a seguinte idéia: “têm por finalidade a descoberta de novos conhecimentos no domínio científico.planetaeducacao. Repararam na idéia de finalidade associada à produção de “novos conhecimentos”? Que novos conhecimentos podem surgir a partir da simples compilação de dados e informações já produzidas anteriormente por outros profissionais? Para piorar. Os alunos têm que ir incorporando ao seu repertório os conhecimentos necessários para que. nem mesmo os melhores e mais preparados professores da universidade conseguirão reparar os vícios assumidos nas primeiras etapas da formação de nossos estudantes. percebe-se a complexidade.. apenas a efetivação de cursos mais objetivos e realizadores nas áreas de didática. metodologia e pesquisa. O plágio é a ação mais regular em nossas pesquisas.. Se passarmos a vida inteira dizendo que para pesquisar basta compilar dados dos livros ou da internet. Profundidade na busca de novidades através da pesquisa nos mais diversos setores não se aprende desde cedo na escola.br/novo/impressao. Extraído de http://www. Isso não significa promover grandes alterações curriculares nas faculdades que formam nossos professores. sugerir projetos. pior ainda. literário. A universidade lhes daria então novos subsídios. A tal “investigação minuciosa” prevista ainda no Houaiss parece mesmo condenada a existir restritamente em algumas universidades ou centros de pesquisa. as construções ainda são feitas na base do “pau a pique”. a procura de detalhes.Nos ensinos Fundamental e Médio a realidade é ainda pior. não motivam os estudantes a aplicar o que foi aprendido na teoria e. estejam prontos para aplicar tais conhecimentos e ampliar os horizontes da pesquisa científica em nosso país.asp?artigo=304 . como profissionais e como cidadãos. Isso só acontece depois do 3º Grau.