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A HISTÓRIA NA CIBERMÍDIA: PRÁTICAS DISCURSIVAS,
IDENTITÁRIAS E REPRESENTATIVAS.

Mauricio Junior Rodrigues da Silva (UNESP)

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho busca apresentar uma breve análise das práticas
discursivas que se faz da História em sítios virtuais, ou seja, busca perceber quais
são as técnicas de produção de discurso que são utilizadas quando o assunto é
História. As referidas práticas hão de ser investigadas em um campo de pesquisa
altamente fértil, e de considerável importância ao mundo contemporâneo: a
cibermídia.
Para a realização de tal objetivo optou-se por eleger como corpus do referido
trabalho e-textos de sites que contemplam ampla popularidade no campo virtual, em
especial três foram os escolhidos: a enciclopédia livre Wikipédia, cingindo-se ao
conceito que esta dá ao termo “História”, perscrutado no idioma português; o site
Historianet, investigando artigos e descrições acerca da disciplina; e o site Uol
História, buscando perceber como um dos mais influentes provedores da Internet
trata discursivamente a “História”.
Em síntese, buscar-se-á verificar quais são as práticas discursivas acerca da
História atinentes a tais meios para caracterizar o usuário que é engendrado nesse
processo.
Fundado no desígnio de pesquisa citado, parte-se da hipótese de que a
cibermídia, esse conjunto de mídias digitais em ambientes híbridos fixos ou móveis,
por mais volátil, inócuo e anárquico que pareça, traz consigo - por meio dos sítios
virtuais - inúmeros dispositivos de natureza estratégica determinantes à produção ou
à reprodução de saberes nesses ambientes. Em outras palavras, os sítios virtuais
aqui examinados não se apresentam como meros depósitos de informação, isentos
de intencionalidade, mas antes como campos portadores de certas estratégias
discursivas que corroboram para a construção dos “sujeitos” que os utilizam.

Assim. e destacar-se um conjunto de regras. Nesse sentido. sociedade e história. sua ligação com o desejo e com o poder. em específico. o sujeito encontra-se subsumido pela língua. ou de confronto. pelas idéias do pensador Michel Foucault. também. de linha francesa. mas principalmente por ser um assunto adstrito à contemporaneidade. pelo que se luta. e de acordo com Foucault. a história. Nesse horizonte teórico. o intrincamento entre um léxico e uma experiência [.. apresenta um entrecruzamento multidisciplinar de distintas e relevantes áreas do saber como a lingüística. o sujeito não é nada mais que um construto histórico.. rapidamente.. 56). o jornalismo. . Tal premissa teórica é completamente adequada para a análise do referido objeto de estudo em meio tão variável e de difícil categorização como é a o da cibermídia. ou seja. observa-se a importância trabalhos como este não só em razão da existência de poucos estudos sobre o tema. 2000.. entre uma realidade e uma língua. e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação. etc. o poder do qual nos queremos apoderar. O excerto acima representa o arcabouço teórico a ser utilizado neste artigo.] o discurso não é uma estreita superfície de contato. Nisto não há nada de espantoso. p..] não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo. vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas. visto que o discurso [. E poder investigar as dimensões conceituais da História nesse campo se apresenta não só como um desafio teórico. (FOUCAULT. é. sobretudo centradas na proposta de que o sujeito constitui-se por meio das práticas discursivas. pela ideologia.445 [..] Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa.] analisando os próprios discursos. como também uma possibilidade de contribuir para a problematização de um meio que ganha cada vez mais relevância na vida hodierna.. a filosofia. ou ainda o produto de um entrecruzamento entre discurso. é a esperança deste artigo percorrer satisfatoriamente todas as idéias propostas para poder abordar este complexo e substancioso tema. e como parte desta. 2008. aquilo que é objeto do desejo. 9-10). próprias da prática discursiva (FOUCAULT. p. Segundo o próprio autor: [. as interdições que o atingem revelam logo. mas aquilo por que.. pela História e pelo inconsciente. É pertinente mencionar que para Análise do Discurso Francesa (AD). optou-se como aporte teórico pela perspectiva da Análise do Discurso.

da ´imersão´ em uma realidade virtual. Tal presunção coaduna ao caráter híbrido que Adriana de Souza e Silva dá ao termo cibermídia. na medida em que não tem necessidade. Para ela. Pelo excerto é plausível perceber que o termo cibermídia pressupõe um imanente contato com o real enquanto ciberespaço se restringe ao universo digital. enquanto cibermídia precisa. Malgrado tal distinção ainda seja possível no mundo contemporâneo. o ciberespaço é constituído de um espaço imaterial por onde trafega a informação e independente da conexão de sentidos. p. de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.446 2. Ainda de acordo com o autor: O ciberespaço é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital. fazer um uso efetivo da informação vinda do mundo real/material. A cibermídia é engendrada a partir da cibercultura. as tecnologias wireless. assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. fixos ou móveis”. 247) “a cibercultura expressa uma mutação fundamental da própria essência da cultura”. p. é preponderante citar as palavras de Maria Regina Momesso de Oliveira e Maria Silvia Olivi Louzada. (LEVY. A CIBERMIDIA E A HISTÓRIA De acordo com McAdams (2008). Segundo o autor. Ao contrário de ciberespaço. ou seja. Quanto ao neologismo ´cibercultura´. 1999. 17). (2008. p. a experiência com a cibermídia permite ao usuário distinguir a realidade física da digital. os ciber centers. Para aclarar e diferenciar o termo cibermídia da noção de ciberespaço. obrigatoriamente. 202). e as lan houses. essas mídias não se restringem ao plano virtual e imiscuem-se à intefaces externas como a telefonia celular móvel. De acordo com Pierre Levy (1999. segundo as quais: [É possível] afirmar que a cibermídia é diferente de ciberespaço. de práticas. com o avanço da tecnologia é sintomático que definições que abarcam a termologia realidade em contraposição a uma virtualidade sejam cada vez menos plausíveis em um mundo onde o virtual tende a subsumir cada vez mais o real. mas também o universo oceânico de informações que ela abriga. especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais). é possível entender a cibermídia como “um conjunto de mídias digitais em ambientes híbridos. especificamente. de atitudes. “eliminando a distinção tradicional entre espaços físicos .

28). é válido citar o filósofo Zygmunt Bauman (2005. ou seja...” Essa alteração de percepção pode ser estendida ao entendimento que se tem da História na cibermídia. Nesse sentido. a História já não partilhava mais de uma onipotência representacionista como ocorria no século XIX. essa perspectiva ortodoxa de entendimento da História se encontra cada vez mais em descompasso com a hodiernidade. Segundo Marco Antunes de Lima: A pós-modernidade gerou uma dúvida na cabeça dos pensadores.57-58) para o qual o termo crise ganha a rubrica de liquefação. Práticas culturais que surgem nessa nova possibilidade de espaço. quando alguns autores sinalizam para o surgimento da pós-modernidade. a de qual e como será o nosso futuro. (LIMA. e aí os sujeitos passam a perceber de maneira diferente tanto o que i já conheciam como físico e também aquilo que conheciam como digital. um espaço híbrido ocorre quando não mais se precisa ‘sair’ do espaço físico pra entrar em contato com ambientes digitais”. Nesse sentido. Mesmo antes da maturação desse novo ambiente híbrido. Cândida de Oliveira e Lara Nasi afirmam que: [. que agrega o físico e o digital. p. e as últimas décadas mostraram que ele é imprevisível. com o avanço da tecnologia e a formação dos citados ambientes híbridos. Observando essa perspectiva de crise de paradigmas.] um espaço híbrido não se trata apenas dessa pretensa “união” entre o físico e o digital. instaura-se a problemática de se inquirir acerca das dimensões e possibilidades de entendimento da História nesses novos e fluidos ambientes. em um meio onde essas características se encontra cada vez menos evidentes. p. (2006.447 e digitais. 7). p. No último quarto do século XX. como é possível perceber e entender essa disciplina que muitas vezes foi pensada e associada a uma idéia de reconstrução ou ao menos de representação de uma premissa de realidade e verdade. Se outrora a História só poderia ser pensada dentro de campos estritamente representacionistas e materialistas. produzem também uma mudança cultural. O homem possui a necessidade de conhecer o seu futuro. inicia-se um período de constante enfraquecimento dos grandes paradigmas teóricos que até então norteavam o pensamento historiográfico. gerando crises historiográficas e de paradigmas. Segundo ele: .

Essa variabilidade de conceitos quanto posta em análise frente a um meio volátil como é o da cibermídia permite observar uma série multifacetada de práticas que parecem solapar com um sujeito especificado. 2005. p. é coerente afirmar que tal portal angaria grande relevância no âmbito da popularidade na Internet brasileira. Essa “liquefação” como já descrita no excerto se entende ao conceito de História. esses dados coadunam à justificativa de se tomar e-textos do presente portal. em sua área dedicada à História – o Uol História -. Quando o assunto é a História. promovido pelo Grupo Folha. que apresenta conteúdos estritamente formalizados no trato com a História. Esses discursos serão apresentados e analisados a seguir. que um usuário desavisado pensaria ser um sítio virtual de apresentações historiográficas à leigos. o referido portal traz duas possibilidades fundamentais de investigação: o Uol História.” Desprendendo-se do caráter publicitário de tal notícia. Estamos agora passando da fase ‘sólida’ da modernidade para a fase ‘fluida’. ao menos que sejam derramados em um recipiente apertado.57). e coaduna à crise de paradigmas citados anteriormente.448 A principal força motora por trás desse processo tem sido desde o princípio a acelerada ‘liquefação’ das estruturas e instituições sociais. como corpus do presente trabalho. Nesse sentido.96 bilhão. . um dos maiores portais de conteúdo da Internet brasileira: o Universo On-line. Segundo dados do próprio portal “o UOL teve média mensal de 1. Tal liquidez incide ainda sobre a própria identidade e sobre as práticas do historiador e do leigo que partilha os múltiplos conceitos possíveis acerca da História. E os fluidos são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo e. continuam mudando de forma sob a influência de até mesmo das menores forças. um dos presentes objetos deste estudo.704 bilhão de páginas vistas em 2008. (BAUMAN. em suas áreas História do Brasil e História Geral. abrindo caminho para se apreender uma grande possibilidade de discursos que permeiam os indivíduos. Novo recorde em março de 2009: 1. e o Uol Educação. 3. dirigido a um discurso calcado na prática do vestibular. UOL HISTÓRIA: ENTRE O DISCURSO PUBLICITÁRIO E A PRÁTICA INFORMATIVA Em 28 de Abril de 1996. e observando somente o aspecto técnico. instalou-se no Brasil.

com imagens de sites relacionados ao Universo On-line . e outra dedicada a descrever os avanços da mídia. Existem também as seções: Acervo de Páginas. fotos e áudios referentes à importantes ocorrências já tratadas pelo portal. tal abordagem representa a História de forma simplista porque responde a um discurso publicitário calcado pela premissa de que para se atrair mais usuários é preciso convencê-los acerca da importância do produto vendido – o portal do Universo Online – por meio de um discurso direto com esses usuários. que possibilite uma resposta de saber-poder mais precisa e direcionada. que descreve os feitos econômicos e técnicos do portal. a abordagem histórica apresentada pelo portal que se explicita de maneira pretensamente técnica e informativa.como uma imagem de 1995 quando entrou no ar a Folha Web. que mostra as principais propagandas publicitárias realizadas pelo Universo On-line. que responde a uma técnica de saber de cunho publicitário e economicista dirigida a persuasão de usuários leigos. que se resumem a duas linhas do tempo: uma de caráter estritamente publicitário. para finalizar o sítio do Uol História apresenta as linhas do tempo como as já comentadas ferramentas de uso da História. Ou seja. seja em vídeo.449 O Uol História. O referido sítio traz escassas apresentações historiográficas. Além das linhas do tempo. que apresenta a evolução e alteração nos padrões gráficos dos sítios virtuais do portal.Paulo na Internet – e imagens do próprio portal do Universo On-line com suas melhorias técnicas. a seção Prêmios. é um sítio virtual do portal Uol dedicado à apresentações de cunho publicitário. Essas características revelam um discurso amplamente empobrecedor no trato com História. contudo traz consigo um discurso estratégico que objetiva a reprodução de um saber-poder que associa a imagem do . a seção Memória. site da Folha de S. a qual expõe vídeos. que descreve os vários prêmios ganhados pelo portal ao longo de sua existência. a seção Campanhas. que por meio de dados estatísticos demonstra a popularidade e a pretensa superioridade do Uol frente a outros portais. calcado em uma abordagem linear do tempo histórico representado pelas linhas do tempo. a seção Audiência. foto ou áudio. o sítio traz as seções de Home Pages. com a premissa de descrever a história do próprio portal e da tecnologia de um modo geral. da tecnologia e o surgimento da Internet. trazendo dados esparsos e lacônicos que vão desde a impressão da bíblia por Gutenberg em 1445 até a informação de dezembro de 2008 de que a população mundial usa 30% do tempo livre na Internet. Em suma.

Vestibulares. uma vez que o site foi criado para contribuir com estudantes e professores. Notícias. como os escritos de Cristiano Catarin. e a indicação de livros de História.450 portal Uol à idéia de avanço tecnológico. 4. inclusive com certa reflexão histográfica. atualidades e mapas que de alguma maneira se relacionam com o História. É interessante ressaltar que o sítio abre espaço para que colaboradores enviem seus e-textos para serem publicados. o sitio expõe textos e artigos variados que comentam a arte através sendo. É pertinente apresentar abaixo um trecho do e-texto Progressos e Retrocessos da . Atualidades. Livros. Exposto de maneira análoga. apresenta assuntos diversos sobre questões históricas. O sítio virtual apresenta em sua página introdutória notícias esparsas e variadas concernentes à disciplina. o sítio informa que “O HISTORIANET tem como preocupação essencial o didatismo. o site diz que “Todos que fazem a história podem e devem colaborar com textos para o HISTORIANET”. Filmes. que empreende abordagem discursiva da História adstrita à interesses meramente publicitários e técnicos. Mapas. que traz uma abordagem discursiva semelhante à seção anteriormente citada. Na área do sítio responsável pelas instruções do envio de e-textos. Temática. Nessa seção. premissa fulcral para se atrair novos usuários. o sítio Historianet . Os textos em geral não apresentam fontes. ii Ainda nessa seção. Biografias e Ilustrações.iii No que concerne as seções dividas pelo site. HISTORIANET: DIDATISMO E INFORMAÇÃO Diferente do Uol História. é possível perceber uma existência maior de textos autorais. sendo respectivamente: Da Arte. mas ao invés de tratar sobre elementos da arte. além da já referida seção de Colaboradores existe uma separação entre dez seções fundamentais. tem um conteúdo didático e ilustrações como complemento ao descrito.A Nossa História – tem como objeto de seu trato a disciplina da História propriamente dita. abordando desde A Antigüidade da culinária do Oriente Médio até o Romantismo e os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga. tem-se a área Temática. ao destacar a responsabilidade do colaborador frente aos e-textos enviados. Na seção Da Arte. na organização de trabalhos e na preparação de aulas”. notícias direcionadas a educadores e professores.

Os mapas são acompanhados de textos que corroboram para que o usuário possa situar melhor seu entendimento acerca de determinado contexto. As seções Atualidades e Vestibular apresentam respectivamente questões históricas relevantes na hodiernidade e informações para o usuário interessado em prestar o Vestibular. maior credibilidade e estrutura iv metodológica. Eric Hobsbawm. são elencados uma séries de produções cinematográficos que tem na História o pano de fundo para o desenvolvimento do roteiro. o mesmo ainda traz em sua estrutura a possibilidade de se apresentar textos mais complexos e com a citação de autores importantes como Marc Bloch. de Carlos Diegues. enumerando uma lista de vestibulares para o que usuário fique atento e dicas de como se preparar bem para o vestibular. no qual Cristiano Catarin apresenta uma visão positiva acerca dos avanços da Historiografia: Os rumos anunciados pela historiografia contemporânea estão gerando expectativas consistentes para historiadores favoráveis as abordagens estabelecidas pelo gênero. subseção Historiografia. são abordados obras importantes referentes à História. por exemplo. O excerto demonstra que apesar da preocupação estrita do sítio com o didatismo. Apresentando uma qualidade inclusive cômica. tais filmes variam de 1492 – A Conquista do Paraíso. O fato é que a história está acumulando. já citado anteriormente. apresentam respectivamente dados particulares da vida de grandes figuras históricas.451 Historiografia. na seção Temática. em geral em formato de tiras cômicas que satirizam e de forma irônica apresentam determinados contextos históricos. que vão desde aspectos políticos como textos sobre Geraldo . na parte dos Filmes. e assuntos pertinentes ao internauta interessado em conhecer obras sobre a História. e informações variadas relacionadas ao interesse histórico e sobre à educação. a seção Ilustrações apresenta diversas figuras. Nas áreas Livros e Filmes. como Alexandre o Grande e Toussaint Louverture. dentre outros. Alguns estudiosos mencionam um retorno da narrativa. As seções Biografia e Notícias. da história cultural. A seção mapas traz imagens que ilustram de forma ainda mais didática alguns temas e contextos historiográficos. Tais seções ressaltam o discurso didático e até utilitarista que o site partilha. independente das opiniões recentes de pesquisadores acadêmicos. de Ridley Scott até Xica da Silva. com o passar do tempo. Para o historiador Ronaldo Vainfas a história sempre foi uma narrativa.

5. A disciplina “fabrica” indivíduos. Segundo Michel Foucault: O poder disciplinar é com efeito um poder que. 143. que embora não seja tão clarividente no âmbito da cibermídia.. móveis. é possível perceber que o site Historianet traz consigo um discurso iminentemente didático.. sendo estas.. grifo nosso) . segmentos combinatórios. Em apenas um ano de existência essa versão já possuía quase 10 mil artigos..] pode editar o conteúdo de quase TODOS [sic] os artigos [.] ". uma vez que propicia ao usuário que contribui com o site a ilusória pretensão de atuar ativamente na construção dos sentidos partilhados pelo citado ambiente virtual. vi Essa característica se constitui enquanto um dos traços mais interessantes da enciclopédia.tem a função maior de “adestrar”..]". existe. autonomias orgânicas. pautado nas padronizações que o ambiente virtual engendra. de complementação no conteúdo do referido ambiente.452 Alckimin. Em resumo. na versão em língua inglesa. inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais – pequenas células separadas.. mascaradas pela falsa idéia de contribuição. Até hoje já foram criados mais de 5 milhões de artigos em dezenas de línguas [. com uma verve utilitarista que partilha de uma de técnica de saber direcionada a dialogar e a construir sujeitos que tenham interesses em saberes prolixos e objetivos acerca da disciplina. "qualquer internauta [. identidades e continuidades genéticas. Ele não amarra as forças para reduzilas. no qual. "O projeto Wikipédia foi iniciado em 15 de janeiro de 2001. em vez de se apropriar e de retirar. Nesse sentido. (FOUCAULT. procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo.. o mesmo se baseia em um sistema de Wiki.] “Adestra” as multidões confusas. Como fora exposto. WIKIPÉDIA E A ADORDAGEM ACACHAPADA DA HISTÓRIA A Wikipédia é uma enciclopédia livre que se compõe e se completa por informações postadas por seus usuários. p. sobre a UNE até informações sobre a marcha contra o racismo de nome Zumbi + 10. 2002.. sobretudo. é possível citar o conceito de poder disciplinar empreendido por Foucault. ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. o site apresenta um misto de didatismo com informação em sua abordagem discursiva. ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício.v De acordo com o próprio site. [.

é factível perquirir a respeito do modo como a História é abordada no sítio da Wikipédia. Além de apresentar esse conceito limitado de História. criando uma definição completamente acachapada e limitada do conceito de História. no sentido daquele que vê) é a ciência que estuda o Homem e sua ação no tempo e no espaço. Por metonímia.453 Outro fator que deve ser observado ao se abordar as características do site. Ademais estas. que significa testemunho. tem-se acesso a um conceito de História que embora editado por algum usuário.. cujo termo em grego antigo é Ἱστορίαι (Historíai). viii . será Tucídides o primeiro a vii aplicar métodos críticos. sendo respectivamente: A História Narrativa. em outras palavras. o sítio ainda apresenta quatro concepções filosóficas de História: a Providencialista. um desenho. ao se buscar pelo verbete "História" no referido site. uma carta. mas limitada quando se pensa em um site onde usuários de diversos níveis de cultura e de intelectualidade podem contribuir possibilitando uma pretensa variabilidade de conceitos. A palavra história tem sua origem nas «investigações» de Heródoto. definição própria de uma enciclopédia. é difícil precisar se as informações contidas no mesmo são efetivamente verossímeis ou se foram inventadas ao bel-prazer do usuário que contribui com os verbetes. é a falta de confiabilidade do usuário frente aos verbetes apresentados. a Idealista e a Psico-Social. enquadra-se em um padrão enciclopédico. ressaltando uma premissa de História-ciência apresentada no início do verbete. Segundo o sítio. uma obra. uma canção. completar e editar verbetes. Segundo o site: História (do grego antigo historie. Pelo excerto é possível perceber a relação da História com o estudo científico. ou seja. o conjunto destes processos e eventos.. não apresentando assim grandes aprofundamentos conceituais acerca do verbete. são traços da passagem do homem”. Quando trata dos documentos. a Científica e a dos Annales. o site menciona de forma ainda mais lacônica quatro concepções formais de História. uma vez que o usuário pode criar. por vezes. Assim. Um objeto. o sítio estabelece a importância destes a História. Partindo de tais perspectivas. uma hipótese formulada. “não se passa pela vida sem deixar marcas. é possível estender a premissa de análise do presente trabalho a esse campo fértil e variável. A Pragmática. a Materialista. Todavia. como o cruzamento de dados e fontes diferentes. concomitante à análise de processos e eventos ocorridos no passado.

pode-se observar que diante da variabilidade de discursos acerca da História no campo de cibermídia. uma técnica de saber-poder que acaba por padronizar e acachapar certos conceitos. Ricardo da Costa e François. quando se pensa na potencialidade de um instrumento como este. uma indicação bibliográfica que se limita a Carlos Aguirre Rojas. com o bojo de angariar usuários interessados em tais qualidades. inseridas em um tópico chamado Visões da História. seria incoerente pensar em sujeito definido e atuando dentro deste ambiente. Assim. tanto por este perpassar quase um campo de crescente influência na hodiernidade. no verbete História cumprindo com uma finalidade enciclopédica. CONCLUSÃO Concluímos este artigo ressaltando a importância do tema analisado.454 Para finalizar a apresentação do verbete. Em suma. e o Wikipédia. tal mutabilidade de discursos engendra . o objetivo do presente trabalho foi demonstrar como a História pode partilhar no cenário da cibermídia abordagens discursivas distintas que corroboram para uma inconstância identitária dos sujeitos que transitam nesses meios híbridos abordados. Contudo. mas acabando por padronizar conceitos e instituir estratégias de saber em um meio com um potencial de saber amplamente iconoclasta. Há ainda. ao abordar o conceito História. Ao contrário. a Wikipédia cumpre seu papel enciclopédico de apresentar conceitos lacônicos e objetivos acerca dos verbetes procurados. Destarte. tanto pela pouca quantidade de estudos sobre o mesmo. percebe-se o quanto existe por trás de uma ferramenta como esta. com uma estratégia discursiva de se apresentar de forma essencialmente didática e utilitarista. partilhando de um discurso publicitário com a premissa de conduzir o usuário a relacionar avanço técnológico com um portal da Internet. 6. capaz de contribuir com diversos conceitos de História provenientes de colaboradores advindos de culturas e padrões intelectuais distintos. o Historianet. como fora possível observar com o conceito de História. o usuário ainda pode encontrar frases sobre a História de Jacques Le Goff e Henry Steele Commager. A partir do exposto foi possível observar essas distintas estratégias discursivas de saber-poder como: o Uol História.

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