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TRABALHO INFANTIL, DIREITOS HUMANOS E

CADEIAS ECONÔMICAS: A RESPONSABILIZAÇÃO
NO CENÁRIO TRANSNACIONAL E NACIONAL.

Rafael Dias Marques1
SUMÁRIO: 1. Intróito 2. O trabalho infantil e o
paradigma
dos
Direitos
Humanos
2.1
Fundamentalidade 2.2 Projeção Positiva 2.3
Aplicabilidade Imediata 2.4 Eficácia horizontal
ou privada 3. Direitos Humanos, Empresas e
Cadeias Econômicas 3.1 Empresas, Direitos
Humanos
e
Cenário
Transnacional
3.2
Empresas, Direitos Humanos e Cenário
Nacional: Responsabilização e Sistema de
Justiça do Trabalho 3.2.1 Responsabilidade da
Cadeia Produtiva e Fundamentação 3.2.2
Formas de Responsabilização 3.2.3 Conteúdo
da
Responsabilização
3.2.4
Atores,
Instrumentos
e
Comandos
de
Responsabilização 3.2.5 Outras estratégias
para além da responsabilização pura 4.
Conclusão

1. INTRÓITO

O trabalho precoce de crianças e adolescentes, abaixo da
idade mínima estabelecida por Lei, representa uma das mais
perversas violações de direitos humanos e verdadeiro à assalto
(assalto) ao conteúdo do paradigma jurídico do trabalho decente.
Realmente, o trabalho infantil significa a negação de um
tipo especial de direito previsto na Ordem Jurídica, um direito
humano, um direito fundamental a não trabalho, que retira sua
dignidade qualificada enquanto direitos de normas internacionais de
direitos humanos, tais como a Convenção das Nações Unidades
sobre os Direitos da Criança, a Convenção (e as Convenções) n. 138
e

182

da

Organização

Internacional

do

Trabalho.

Sua

fundamentalidade também deflui da Constituição Federal de 1988,
1

Procurador do Trabalho e Coordenador Nacional de Combate à Exploração do Trabalho de Crianças e Adolescentes, do
Ministério Público do Trabalho. Ex-Juiz do Trabalho e Ex- Procurador do Banco Central do Brasil.

que, em seu art. 7º, XXXIIII, elenca o não trabalho como direito
social, espécie, portanto, de um direito fundamental.
Tal compostura jurídica irradia uma série de corolários de
direito,

dentre

os

quais

a

projeção

positiva

de

um

direito

fundamental isto é, trata-se de um direito para cuja satisfação não é
suficiente o não fazer, a vedação da conduta, sendo igualmente
necessária, uma ação, um agir, cominado, que se exige do Estado,
da família e da sociedade (art. 227 Constituição Federal).
Portanto, é um direito que, para ser preenchido, exige uma
conduta negativa, relativa a não tomar o trabalho de crianças e
adolescentes, antes da idade mínima, ao lado de uma conduta
positiva, isto é, ações que garantam as condições materiais para
que se frua o direito a não (trabalhar) antes da idade mínima.
Ademais, na forma cominada pela Constituição Federal
(art. 227)

e pelo Estatuto da Criança e Adolescente (art. 4º), a

responsabilidade

pelo

preenchimento

de

referido

Direito

Fundamental repousa sobre uma tríade, a (em) cujos pés se
distribuem vários deveres(,) condutas comissivas e omissivas. Desta
tríade, fazem parte o Estado, a família e sociedade.
Diante dos lindes de investigação do presente estudo, fazse necessário realizar, neste momento, um corte de observação em
relação ao segmento sociedade, especialmente no que se refere às
empresas,

como ator

responsável

(atores

responsáveis)

pelo

adimplemento do direito fundamental ao não trabalho antes da
idade mínima.
Com efeito, quando se fala em sociedade, está-se a referir
um grande gênero, de que fazem parte várias espécies, todas
entrelaçadas em propósitos, gostos, preocupações e costumes,
interagindo entre si. Dentre estas espécies, estão empresas, como
pessoas jurídicas de direito privado, as quais, por certo, estão

abrangidas pelo dever de cumprir o direito fundamental ao não
trabalho.
Assim, no que diz respeito ao objeto deste escrito,
interessa perquirir o papel das empresas frente aos direitos
humanos de crianças e adolescentes, sob o viés do direito
fundamental ao não trabalho antes da idade mínima, com destaque
especial para o problema do trabalho infantil nas cadeias de
suprimentos de grandes corporações econômicas e os limites da
responsabilização.

2.

O TRABALHO INFANTIL E O PARADIGMA DOS DIREITOS

HUMANOS

A história dos Direitos Humanos no mundo, em especial
após a segunda guerra mundial, é a história de reação aos
absurdos. Realmente, os absurdos, no campo da violação dos
direitos, é que lançaram, no seio da consciência jurídica mundial, o
desejo e a necessidade de se ampliar o objeto do que, até então,
conhecia-se como direitos humanos, isto tudo atrelado a um sistema
protetor e garantidor da fruição de tais direitos: vem a ONU e suas
agências, multiplicam-se as Declarações de Direitos, as Convenções
e Tratados de Direitos Humanos, moldam-se novas gerações de
direitos, a exigir cada vez mais do Estado e dos grupos sociais.
Sob essa revolução de compostura, no campo do Direito, é
que se define, então, com mais clareza e solidez teórica, um novel
paradigma jurídico para enxergar certas realidades de violação:
definem-se, pois, os mínimos, para se garantir a dignidade da vida
do ser humano no Planeta Terra, abaixo do que (qual) nada se pode
permitir ou transigir.

Destarte, sob este signo, os mínimos, um (uma) vez
violados por ações humanas, são aptos a gerar, portanto, as mais
gravosas reprimendas da Ordem Jurídica, pois tais transgressões
representam, em si, ataques aos pilares mais basilares do Direito,
capazes, inclusive – tal é seu grau de nocividade – de gerar um
sistema transnacional de proteção e garantia, a partir da mitigação
da soberania dos Estados e da prevalência da Ordem Externa sobre
a Interna.
Assim, os Direitos Humanos passam a ser concebidos, com
clareza, como normas indispensáveis à garantia da vivência digna,
do desenvolvimento e da continuidade existencial dos seres
humanos e da humanidade.
No campo do Trabalho – e considerando-se todos os
absurdos cometidos nos campos de concentração nazistas – houve,
por igual, um vigoroso movimento, sob os auspícios da doutrina
internacional

dos

direitos

humanos.

Definiu-se,

com

maior

robusteza, o paradigma do trabalho decente e do trabalho digno,
moldando-se mínimos indispensáveis, sem os quais não se poderia
falar em dignidade do homem trabalhador.
Destarte, nesse processo histórico, em especial por conta
do fortalecimento da Organização Internacional do Trabalho, de suas
normas e de sua Declaração de Princípios Fundamentais de 1998,
cria-se um sistema internacional de Direitos Humanos do Homem
Trabalhador, o qual erige o paradigma do trabalho decente como
valor fundante das relações de trabalho, paradigma este que não
pode transigir com o núcleo rígido dos mínimos, fincados em quatro
grandes pilares: não discriminação, vedação do trabalho em
condições análogas a de escravo, liberdade sindical e vedação do
trabalho infantil.
Aqui, então, abre-se o ponto de intercessão entre o
trabalho infantil e o sistema internacional de direitos humanos, de

modo que aquela prática passa ser considerada como ofensa grave
à Ordem Jurídica, passível das mais gravosas reprimendas do
Direito.
Essa

abertura

é

protagonizada,

basicamente,

pela

Declaração dos Direitos da Criança de 1989 e, fundamentalmente,
pela Convenção (pelas Convenções) n. 138 (sobre a idade mínima
de admissão a qualquer trabalho e emprego) e n. 182 (sobre as
piores formas de trabalho infantil), estas últimas da Organização
Internacional do Trabalho, as quais, em nível global, traduzem, pois,
o conteúdo do trabalho decente e digno, sob o signo da não
exploração

do

trabalho

infantil.

Todas

estas

normas

foram

ratificadas pelo Estado Brasileiro.
Corporifica-se, aqui, o direito humano ao não trabalho
antes de certa idade, como mínimo a ser observado e perseguido,
cujo objetivo é salvaguardar as crianças e os adolescentes de
situações de trabalho prejudiciais ao pleno desenvolvimento de sua
pessoa humana, garantindo-lhes, assim, condições dignas para sua
plena conformação física, moral, intelectual e psicológica.
No Brasil, esse defluir de coisas da Ordem Internacional foi
plenamente absorvido pela Ordem Interna. Com efeito, confirmando
a compostura de fundamentalidade daquele direito, a Constituição
Federal de 1988, no título dos Direitos e Garantias Fundamentais, no
capítulo relativo aos Direitos Sociais, em art. 7º, XXXIII, proíbe
qualquer trabalho para menores de 16 anos, salvo, na condição de
aprendiz, a partir dos 14. Proíbe, ainda, qualquer trabalho para
menores

18

anos,

nas

atividades

insalubres,

perigosas

ou

prejudiciais ao seu desenvolvimento moral. É, pois, um dos marcos
constitucionais da teoria da proteção integral e prioridade absoluta
de crianças e adolescentes no Direito Pátrio, expressamente
enunciada, em toda sua plenitude, no art. 227 da Carta de 1988.

por opção constitucional. posto no Ordenamento Jurídico. interessam destacar. característico de tal fase da vida humana Disto decorre. pois. ambos os critérios (material e formal) para definir a fundamentalidade de um direito. sempre. . de uma faixa etária em que. particularmente. pessoas especiais que são. seja por conta dos influxos da Ordem Jurídica Transnacional. de onde retira seu fundamento de validade. então. os seguintes. a fim de que crianças e adolescentes. É justamente essa fundamentalidade que impõe observância a um 2 Neste trabalho. vale dizer. os direitos fundamentais2 constituem a base (axiológica e lógica) sobre a qual se assenta um ordenamento jurídico. reconhece-se um tempo de não trabalho. portanto. 2.1 Fundamentalidade Ora. que lhe reforçam o caráter de direito especial. o paradigma de análise da realidade de trabalho de crianças e adolescentes deve ser. seja por mandamento de porte constitucional. Dentre estes atributos. ii) a partir de sua topologia normativa. o direito ao não trabalho antes da idade mínima se conforma de um conjunto de atributos. como norma-ápice. o direito ao não trabalho antes da idade mínima é direito qualificado e especial. possam dedicar-se aos processos formativos de seu desenvolvimento biopsicosocial. alocada na Constituição.Trata-se. como pressupostos de análise para o papel das empresas no cenário dos direitos humanos. as expressões direitos humanos e direitos fundamentais serão tomadas como sinônimas. Concorrem. no âmbito do Direito Pátrio. Por força desse caráter de direitos humanos. o olhar dos Direitos Humanos. Esta fundamentalidade pode ser apreendida por meio de dois vieses: i) a partir do conteúdo do direito com referência aos valores supremos do ser humano e da dignidade da pessoa humana. que.

de modo a preservar a liberdade individual da ingerência desmedida do Estado. se. no vácuo da resistência e da defesa. seja porque a Constituição Federal de 1988 assim o declarou no título dos Direitos e Garantias Fundamentais. em art. aquém do qual não se toleram contenções. Todavia. Assim. como direito humano. imposto ao Estado. isto é. passaram a veicular um dever de fazer. pode-se dizer que o direito ao não trabalho antes da idade mínima. XXXIII. seja porque integra a compostura jurídica do princípio da dignidade da pessoa humana. os direitos humanos encerravam uma prática abstencionista do Estado. aqueles. que ignorava a vida privada e íntima de seus tutelados.2 Projeção Positiva Segundo o processo histórico de criação e afirmação dos direitos humanos. sem o que a fruição do direito fundamental restaria comprometida. este caráter de projeção positiva aparece portentoso. 7°. nos primórdios. que tudo pode sobre os súditos.conteúdo básico e mínimo aos direitos determinados. E assim o é. sendo atributo indispensável para a conformação do valor do trabalho decente e digno. 2. não é suficiente uma expressão normativa de não . assim. por força disso. Surgem. no capítulo relativo aos Direitos Sociais. de modo a se preservar a seara de liberdade individual das pessoas. estes nascem como anteposto necessário ao Estado soberano. No campo do direito humano ao não trabalho antes da idade mínima. no curso do processo de consolidação do sistema. pois. em especial naquelas marcadas por exclusões sócioeconômicas. fartas do Estado absoluto. é dotado de fundamentalidade. passaram a ter uma projeção positiva. para manter uma sociedade livre de trabalho infantil.

para que o direito fundamental possa ser efetivamente fruído. os direitos fundamentais devem produzir efeitos desde logo. isto é. no próprio texto constitucional. a Constituição Federal de 1988 estabeleceu meios judiciais destinados a combater a indevida omissão na aplicação de direitos fundamentais.g. § 2º . instrumentos que garantam essa aplicabilidade imediata. 5º. no sistema jurídico. seja para aqueles em relação aos quais erige um dever de respeitar e de fazer (acepção objetiva). prevista no art. Assim. normativa. Nesse campo. O que não se pode é obstar a fruição do direito.fazer. ou mesmo inexiste.seja no plano concreto – v. deverá o operador do Direito valer-se dos meios assecuratórios genéricos postos no sistema. pela ausência de meios assecuratórios correlatos. LXXI. de não explorar o trabalho de crianças. 103. seja para seus titulares (acepção subjetiva).g. se este não disciplinar os meios assecuratórios adequados. 2. em soma (suma). de nada vale a previsão de direitos fundamentais. a ação direta de inconstitucionalidade por omissão. . Nestas hipóteses. cujas normas de previsão também devem possuir aplicabilidade imediata. Há casos. § 1º: “As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais independentemente de têm sua aplicação expressão imediata”. bem como valer-se de mecanismos de garantia. seja no plano abstrato – v. o mandado de injunção. porém. o intérprete deve buscar. é absolutamente necessária a materialização de condutas de fazer. Assim. em que esta previsão assecuratória específica não está explícita no sistema. 5º. previsto no art. Aliás.3 Aplicabilidade imediata A Constituição Federal de 1988 dispõe expressamente no art.

2. Por igual. não pode a família estimular. É que. ou mesmo permitir e/ou aceitar situações de trabalho para seus filhos menores de 16 anos. Assim. que o próprio texto constitucional faz sobressair a eficácia horizontal. É possível também exigir deles atividades complementares para a implementação destes mesmos direitos .4 Eficácia horizontal ou privada Os direitos humanos produzem efeitos não somente diante do Poder Público. em eficácia horizontal ou privada. mas também à família e à sociedade como um todo. na forma do art. frente a todos aqueles que estão obrigados a extravasar condutas comissivas e omissivas. no ponto. que impõe o cumprimento dos direitos fundamentais também nas relações entre particulares. Tal eficácia horizontal ou privada é bastante típica quando se está frente aos direitos fundamentais de crianças e adolescentes. pela eficácia horizontal deste direito. necessárias ao cumprimento do direito referido. a responsabilidade pelo cumprimento de tais espécies de direitos pertence não somente ao Estado. de modo que há de ter uma postura . subsumindo este apanágio ao direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. observa-se a aplicabilidade imediata daquele direito. pois. Vê-se. dentre os quais o direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima.Assim. a sociedade em geral é incumbida deste mesmo dever. Fala-se. pois. Corolário disso. pois ela também possui o dever de garantir o respeito ao direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. mas também em relação aos particulares. pode-se exigir dos particulares que não violem os direitos fundamentais. fazendo o particular também responsável pela fruição dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes. 227 da Constituição Federal.

colorir-se. seja denunciando realidades de exploração proibida do labor. reconhecendo o direito ao não trabalho antes da idade mínima como direito fundamental. deve ser prontamente reparado. pois significaria retroceder na formação de seu conteúdo. que o marco civilizatório. o quadro perverso da exploração do trabalho precoce dos primórdios da Revolução Industrial. a realidade e nela influi e transforma. centrado nos direitos humanos. como um conjunto de potencialidades inerentes à pessoa humana e sem os quais não se lhe pode permitir um vida digna. por si só. novamente. sob pena de. o Direito não enxerga. por força de todos esses atributos que compõem o sistema de direitos humanos. com todos os seus apanágios acima destacados. É preciso reconhecer. Todavia. O Direito. uma vez atingido. a que a comunidade internacional conduziu sob o forte embate dos fatos sociais. Ele é. moldado que foi pelo fenômeno da expansão da amplitude do princípio da dignidade da pessoa. os aspectos formativos de seu desenvolvimento biopsicosocial. Assim. de maneira a se situarem. gênero do qual é espécie o direito ao não trabalho antes da idade mínima. tão marcante em tal fase da vida humana. portanto. entendido este e. sob um ponto de vista de análise. num segundo plano. o qual. deve olhar a exploração do trabalho de crianças e adolescentes sob a perspectiva dos direitos humanos. em última análise. seja não oferecendo trabalho para crianças e adolescentes abaixo dos 16 anos. em assim se permitindo. não pode se compadecer com o trabalho infantil. em toda a extensão da reparação. necessário dizer que não é digno nem decente permitir que crianças e adolescentes possam trabalhar antes dos 16 anos de idade. seja não comprando produtos derivados do trabalho precoce proibido. . assim.ativa no enfrentamento a situações de lesão.

típicos do capitalismo globalizante. porém dentro da cadeia de suprimentos que se formou para atender suas necessidades de produção/comercialização. não mais viceja com todo vigor. na luta pela prevenção e erradicação do trabalho infantil É que. formadas a partir das necessidades econômicas das empresas. a partir dos influxos das terceirizações e quarteirizações. especialmente quando a violação do direito fundamental ao não trabalho ocorre fora dos seus muros. pessoas incumbidas da aplicação das normas. o fenômeno do trabalho infantil. tem visto com olhos impregnados de permissibilidade. tem sido umas das áreas de mais difícil combate. precisa de agentes. o direito fundamental ao não trabalho e o trabalho infantil? Infelizmente. no interior organizacional das empresas que. de suavidade e de aceitação. o trabalho infantil emigrou do interior das empresas e passou a se diluir ao longo da cadeia econômica ou de suprimentos das corporações. jacente em pequenos negócios desorganizados. na atualidade. . vale dizer. assim. Com efeito.obra cultural e. centrado na responsabilização. Realmente. E como está olhando o segmento empresarial. acompanhando o processo de desconcentração da produção e da comercialização. em virtude de um longo processo histórico. o trabalho infantil espraiado pela cadeia econômica. em empreendimentos rudimentares. estão mais cientes do seu dever de não tomar mão de obra de crianças e adolescentes. os operadores do Direito em sentido amplo. em organizações familiares ou mesmo em sistemas integrados de produção. pela organização do Estado.

mesmo porque suas causas estão ligadas às desigualdades regionais e socioeconômicas. frente aos atributos da fundamentalidade. cuja dissolução tem se mostrado um desafio para a rede de proteção dos direitos de crianças e adolescentes. não raro. Uma vez fixadas as notas que definem o direito ao não trabalho como direito humano e seus principais atributos. EMPRESAS E CADEIAS ECONÔMICAS. Tais áreas representam uma espécie de núcleo duro. é necessário indagar qual o papel das empresas em garantir esta espécie de direito fundamental. tão evidentes no Brasil. Este trabalho informal.E. projeção positiva. quando a violação ocorre na sua cadeia econômica ou de suprimentos ou. quando o trabalho infantil viceja na cadeia econômica ou de suprimentos. que se entrelaçam para dar suporte produtivo ou de comercialização a grandes corporações econômicas. na agricultura familiar e no trabalho doméstico. Disto se cuidará nas próximas porções do presente estudo. 3. está diluído em cadeias econômicas ou cadeias de suprimentos. aplicabilidade imediata e eficácia horizontal. Isto porque as últimas pesquisas realizadas em nosso país pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). demonstram que grande parte das mais de 3 milhões de crianças e adolescentes em situação de labor estão no trabalho informal. há de se questionar qual deve ser o papel das empresas e do próprio sistema de justiça do trabalho. . ainda. DIREITOS HUMANOS. dentro de sua própria estrutura – ainda que esta segunda hipótese seja bem rara nos dias atuais. então.

sob pena de não sobreviverem num mercado cada vez mais selvagem. tais como mão de obra. em busca das chamadas vantagens comparativas. firmou-se uma cruel realidade de barateamento da mão-deobra e de precarização das condições de trabalho dos obreiros: baixos salários. isto é. . por sua vez. Passaram. que) passaram a ser as faces dessa novel realidade socioeconômica. etc. matéria primeira. baixas tecnologias e (. Em tais processos de desconcentração. ausência de organização sindical. exploração do trabalho de crianças e adolescentes. o que levou empresas a migrarem para países em desenvolvimento. E desse modo. a partir de terceirizações. o que significa dizer em busca de condições mais baratas para produzir. trabalho em condições análogos a de escravo. modificar tais seus (essas) processos produtivos em busca de diminuir seus custos. a qual tem mirado para a perversa prática do dumping social. pequeníssimas empresas ou mesmos núcleos familiares começaram a ingressar nessa nova arrumação produtiva. em busca de redução de custos. longas jornadas de trabalho. Estes. processos artesanais de produção. também passaram a deslocar setores de sua produção para terceiros. onde ganha a preferência de grandes empresas. legislações socioambientais mais brandas. em busca de melhores condições para produzir. a intensificar técnicas de desconcentração da produção.A partir da consolidação da globalização. Assim. quem vende os suprimentos por menos. meio ambiente de trabalho degradado. deslocando setores da produção/comercialização para terceiros. os terceiros e quartos do esquema produtivo também começaram a se empenhar no intento de reduzir custos. acentuou-se no mundo inteiro o fenômeno da internacionalização da produção e da mobilização do grande capital. então. Nesse contexto. além de migrarem para espaços onde possam empresas encontrar também tais vantagens optaram por corporativas.

com condições degradantes de trabalho. menores ainda e. é pago sob valores achatados. empresas conhecidas do grande público deslocam setores inteiros de sua produção para outras empresas. Este mesmo esquema se repete em tantos outros segmentos.É assim que famílias inteiras se integram nesse perverso sistema. doenças. seguro agrícola). o endividamento. beneficiando-se do trabalho barato da ponta de baixo. acabam tendo grande parte deles ou mesmo eles inteiros sendo produzidos em oficinas de fundo quintal. sementes. atrelada a seu perverso sistema de integração. . por meio da redução de custos. os denominados “pacotes tecnológicos” (agrotóxicos. posto que o fumo por eles produzidos e vendidos. miséria. nisto incluindo-se a exploração do trabalho de crianças e adolescentes. pequenos produtores rurais assinam contratos de venda de fumo em folha com grandes corporações fumageiras. para aumento da produção. crianças e adolescentes são consideradas forças de trabalho indispensáveis para a produção e aumento de ganhos. servidão. por meio do qual se obrigam a comprar de empresas previamente indicadas no instrumento. por dever contratual. integral e exclusivamente àquelas corporações. filhos dos pequenos produtores. passando a compor a cadeia de suprimentos de uma dada empresa. deslocam para outras tantas. onde. Neste. Tal arranjo produtivo pode ser visto no caso da indústria têxtil e calçadista no Estado de São Paulo. avolumando. na ponta de cima. E disso. por sua vez. que está na outra ponta. de outra banda. para núcleos familiares. que. sobrevém a exploração do trabalho de crianças e adolescentes. fertilizantes. o que gera um crescente endividamento. os sapatos ou roupas que são vendidos por preços vultosos nos shoppings chiques da cidade de São Paulo. Assim. de modo que a renda do pequeno produtor achata-se cada vez mais. Nisto. menores. na região sul do Brasil. assistência técnica. EPIs. não raro. como na produção do fumo.

mais que meros componentes indesejados do sistema a serem sanados. auferem lucros exorbitante.suicídios. seja quando a violação ocorre dentro de suas próprias estruturas. dentre muitos outros casos. não raro. constituem-se nos indispensáveis pilares sobre os quais se edifica atualmente no Brasil e no mundo a produção do fumo potencializada pelos sistemas de integração implementados por empresas transnacionais que. as atividades de grandes corporações econômicas são susceptíveis de produzir na garantia de fruição de direitos humanos. especialmente no campo do trabalho decente. desagregação social e familiar e degradação da natureza. assim. é absolutamente necessário ativar instrumentos de responsabilização das empresas frente à garantia de fruição dos direitos humanos. no beneficiamento da castanha de caju. um direito humano por excelência. Semelhante situação se verifica na produção do carvão vegetal para alimentar grandes siderúrgicas. . seja quando a infração ocorre na cadeia de suprimentos que se teceu em função de sua zona de influência. ao longo das quais os diversos insumos sofrem algum tipo de transformação. Nesse cenário e frente à compostura jurídica do direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. E não é só. somado a seus corolários. no norte e sudeste do país. Esse cenário de reconhecimento do impacto negativo que. entendida tal cadeia como uma conjunto de etapas consecutivas. na produção do óleo do coco babaçu. até a constituição de um produto final (bem ou serviço) e sua colocação no mercado. para atender o interesses de grandes e poderosos empresas de cosméticos. bem como o arrimo de sua responsabilização nesta ordem de coisas.

foi o Estado (foi) considerado o único algoz da infringência dos direitos mais caros da raça humana. Além de poderosa. vale frisar interessante passagem da Revista Super Interessante “Nessa época [década de trinta]. Foi a maior apoiadora da campanha que pôs Hitler no poder.1 Empresas. Todavia. a IG Farben se metia bastante na política. “Associação de Interesses Comuns”. a vida e a liberdade. o futuro chanceler prometeu a Heinrich Buetefisch. conforme referido acima. senão vejamos. a consciência jurídica transnacional passou a divisar outros atores de violações no cenário das atrocidades da segunda guerra mundial. 3. quanto no âmbito nacional. ao doar 400 mil marcos (US$ 15 milhões em valores atuais). O apoio não veio de graça. está intimamente ligada às enormes violação de direitos perpetrada pelo Estado nazifacista (nazifascista). na época da Segunda Guerra Mundial. Em um encontro logo após as eleições. Direitos Humanos e Cenário Transnacional A afirmação internacional dos direitos humanos. Ou IG Farben. de modo que as empresas também começaram a ser vistas – responsabilizadas – por estas mesmas barbáries. chefão de uma das fábricas da IG .já pode ser buscado tanto em nível transnacional. Era um cartel formado por Basf. Hoescht e outras empresas químicas e farmacêuticas alemãs. Bayer. Nesse passar. dentre os quais. a corporação mais poderosa de lá [Alemanha] atendida pelo nome Interessengemeinshaft Farben. Durante muito tempo.

Revista Superinteressante. Instalada nas áreas polonesas anexadas pelos nazistas. Funcionava com mão de obra especializada alemã e escravos de toda a Europa. que garantiria a expansão dela e o investimento em uma tecnologia estratégica. julho de 2014) E não é só. inédito no Brasil). de Jörg Hunger e Paul Sander. O negócio começou tão bem que em 1942 já ganhou uma ampliação. com o objetivo de formar a maior indústria química do Leste europeu. especialmente prisioneiros do campo de concentração vizinho. entre outros. a IG Farben desenvolveu um combustível sintético derivado do carvão. O Grupo Krupp valeu-se dos trabalhos forçados de cerca de 100 mil pessoas. o gás usado nas câmaras de extermínio. a fábrica também fazia os trabalhadores forçados de cobaias para testar novos medicamentos e vacinas” (LIMA. Os aliados ocultos de Hitler. Cláudia de Castro.Farben. vários tipos de plásticos e fibras sintéticas. combustíveis de alta performance (gasolina de aviação e óleo combustível para uso naval). O produto mais notório – e sinistro – a sair de lá foi o Zyklon-B. para produzir borracha sintética. que seria essencial para as Forças Armadas do país na guerra. que garantiu negócios com o governo até 1944. Como a Alemanha não tinha reservas de petróleo. Foi o começo de uma parceria e tanto. de acordo com o livro IG Farben – From Anilin to Forced Labor (‘IG Farben – Da anilina ao trabalho forçado’. Mas o maior projeto dessa união surgiu somente em 1941. com um campo próprio da fábrica. Além disso. seu nome era IG Auschwitz. incluindo prisioneiros de .

trabalhistas e ambientais restou diluído pelo poderio econômico das empresas. como vetor de assimetria. no mundo subdesenvolvido. Acrescente-se a isso a internacionalização da economia. com o incremento da globalização. mas nenhuma sanção foi imposta às pessoas jurídicas que colaboraram com o nazismo. no mundo desenvolvido. públicas. muitas empresas . Com efeito. Realmente. empresas. que substituiu a figura do Estado por grandes corporações econômicas. a partir do qual este deveria assumir uma posição para além do mero respeito às liberdades. foram condenadas por extermínio em massa. Promoveu-se. fortalecendo o papel geopolítico dos grandes conglomerados econômicos. por exemplo. que passaram a exercer enorme influência sobre o jogo político nos Estados então emergentes da descolonização. em especial nos mundo subdesenvolvido. a responsabilização de pessoas físicas associadas a essas corporações. 24 pessoas da IG Farben e 12 pessoas da Krupp. A Siemens usou mão-de-obra dos campos de concentração de Auschwitz e Ravensbrück para produzir diversos equipamentos. acrescido às novas ondas de descolonização das colônias da África e da Ásia. Todavia. dentre os quais câmaras de gás. mas. uso de trabalho forçado e outros crimes contra a humanidade. adotar uma conduta de fazer. portanto. a consolidação do Estado do Bem Estar social.guerra e de campos de concentração e civis de lugares ocupados. voltada à promoção do bem estar dos cidadão. Algumas pessoas ligada a essas e outras empresas foram julgados pelo Tribunal de Nuremberg. fundamentalmente. onde o controle estatal sobre questões sociais. provocaram mudanças no tabuleiro internacional do pode (as quais) agravaram o impacto negativo da atuação empresarial sobre os direitos humanos. principiou a das ser desconstruída nos idos de 1960. cada vez mais transnacionais. enquanto essa espécie pessoas de “imputabilidade” jurídicas.

trabalhista e ambiental. A Nestlé. que também usou mão-de-obra escrava. Dados do Banco Mundial e da Revista Fortune.aumentaram seu faturamento a tal ponto que superaram o PIB de muitos países. como uma espécie de fórum intergovernamental permanente para discussão do papel das empresas na garantia de cumprimento dos direitos humanos.5 milhões de dólares para um fundo de vítimas do trabalho escravo Tal tensão na ordem de coisas foi ecoar na Organização das Nações Unidas. a partir de um crescente de fatos que podem assim ser resumidos: a) Criação da Comissão das Nações Unidades para Corporações Internacionais. em prol da responsabilização das empresas por violações de direitos humanos Exemplo dessa crescente mobilização é que. A a General Eletric teve receita maior que o Peru (157 bilhões de dólares contra 154 bilhões). algumas das empresas que tiveram funcionários e executivos condenados passaram a reconhecer sua responsabilidade direta pelos horrores da Segunda Guerra: a Siemens pagou indenizações às famílias de seus operários sujeitos a trabalhos forçados. dão conta que a rede de supermercados Walmart teve receita equivalente ao PIB da Noruega em 2010 (408 bilhões de dólares para a companhia. com referencia no ano de 2010.. . em especial o impacto cada vez maior da atividade empresarial sobre os direitos humanos. despertando fortes reações de organizações não governamentais e movimentos sociais. seis décadas depois dos julgamentos de Nuremberg. pagou 14. estes novos fatores políticos e econômicos provocaram inúmeras tensões na Ordem Internacional. no campo social. Ora. contra 414 bilhões para o país escandinavo).

que oferece parâmetros sobre condições de trabalho. a partir da Declaração Tripartite de Princípios Relativos a Empresas Multinacionais e Política Social. ainda que verificadas em cadeias econômicas ou de suprimentos criadas para dar suporte a seu funcionamento. o mais vigorosa (vigoroso) avanço no reconhecimento da responsabilidade das empresas por violações de direitos humanos. c) Iniciativas da Organização Internacional do Trabalho. d) Lançamento do Pacto Global no ano 2000. temas como com direitos trabalhistas. trabalho e meio ambiente. mas. Trata-se de documento. foi a publicação dos Princípios Orientadores . eram nove. segurança laboral. foi incluído capítulo sobre recomendações em matérias de direitos humanos. contendo dez princípios (originalmente. com compromissos a serem assumidos por empresas na área de direitos humanos. no cenário internacional. o que culminou com a publicação do documento “Diretrizes para recomendações Empresas sobre Multinacionais”. meio ambiente. aberto à adesão empresarial. Todavia. na sua quinta reforma. Em 2011.b) Iniciativas no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. foi incorporado um décimo princípio sobre o combate à corrupção). capacitação e direitos laborais em geral. saúde e questões tributárias. em 2004. O documento é voltado sobretudo para empresas multinacionais que operam nos territórios dos países-membros da organização ou dos países que tenham aderido às Diretrizes. em 1976. entre outros.

que contempla os princípios 1 a 10.das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos. inclusive com possibilidade de . Para tanto. atuando com a devida diligência (“due diligence”) para evitar infringir direitos e lidar com impactos adversos que possam advir de sua atuação. incluindo empresas. Aqui. punir e reparar” abusos. claramente. inclusive empresas. Há. os denominados Princípios de Ruggie. Os princípios de Ruggie foram aprovados pela Comissão de Direitos Humanos da ONU. também orientações voltadas para a consolidação de uma cultura corporativa de respeito aos direitos humanos. por meio de mecanismos judiciais e não judiciais. (iii) o acesso das vítimas à reparação efetiva. Tais princípios foram baseados nos estudos do Professor de Harvard. John Gerard Ruggie. (ii) a responsabilidade corporativa de respeitar direitos humanos. dá-se luz ao dever do Estado em prover proteção contra violações de direitos humanos cometidas por terceiros. deve tomar as medidas adequadas para “prevenir. ocorridas na sua própria estrutura organizacional ou na sua cadeia de suprimentos. Na primeira seção. por meio da oferta de assessoria às empresas (acesso à informação e capacitação) e da estipulação de cláusulas relativas ao respeito a direitos humanos. regulação e atribuição de responsabilidades (“adjucation”). por meio da Resolução n. por meio de políticas. em seu território ou jurisdição. a fim de que se prever. há fortes indicativo para o avanço da Legislação. Contém diretrizes para Estados e empresas com vistas a garantir o respeito aos direitos humanos e está sustentado nos seguintes pilares: (i) dever do Estado de oferecer proteção contra abusos de direitos humanos cometidos por terceiros. a responsabilidade das empresas por violações de direitos. investigar. representante do Secretário Geral da ONU sobre Direitos Humanos e Empresas Transnacionais. 17/4 e conteúdo pode ser dividido em três grandes seções.

com especial destaque para a responsabilidade quanto às violações ocorridas em suas cadeias de suprimento. Tal seção apresenta como fundamentos a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. traz-se o contorno da responsabilidade das empresas frente aos direitos humanos. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. Como núcleos de comando. vale dizer.auditoria. dentro de suas zonas ou esferas de influência. como sói acontecer na exploração do trabalho de crianças= e adolescentes no contexto das cadeias econômicas. que compreende os princípios de 11 a 24. Na segunda seção. B) Enfrentamento: As empresas devem prevenir ou mitigar impactos negativos em eventos e processos em relação aos quais tenha algum envolvimento. 138 e Conv. isto é. o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos da ONU. absterem-se de violar direitos humanos. Tais zonas dão o limite da responsabilidade dos conglomerados e fundamentam o dever de diligência que estas devem ter em todos esses espaços de projeção. entendidas como espaços para onde as empresas projetam seus elementos de produção e comercialização. 182). bem como as Convenções Fundamentais do OIT (Conv. Aqui merece destaque o paradigma das denominadas Zonas ou Esferas de Influência. merecem destaque: A) Abstenção: As empresas devem adotar de não fazer. em suas cadeias econômicas ou de insumos. devem adotar práticas de auditoria e aferição de riscos decorrentes dos impactos dos elementos de suas zonas de influência sobre os direitos . dentre os quais. C) “Due Diligence” (dever de diligência): as empresas. em transações comerciais realizadas pelo Poder Público com o setor privado. Sociais e Culturais da ONU. o direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima.

não contratam com unidades onde tais tipos de violações ocorram ou mesmo incidindo. Assim.humanos. no sentido de romper contratações então efetuadas ou mesmo promovendo melhorias da tecnologia da produção ou das condições de trabalho dos obreiros. em sua política. D) Política de Compromisso: As empresas devem adotar uma política de compromisso e respeito aos direitos humanos. por exemplo. em si e/ou em suas cadeias produtivas. a fim de que estes não se materializem em espaços onde vicejem condições degradantes de trabalho ou trabalho infantil. em ordem a arrimar um ambiente livre de degradância e trabalho infantil. que permita uma análise da extensão do efeitos de sua atividade na fruição do direito fundamental ao não trabalho e bem como avaliar se sua conduta corporativa está tendo eficácia no enfrentamento de tal violação. tais práticas devem incluir consultas a especialistas e grupos potencial ou efetivamente afetados ou partes interessadas. isto é. interna e externamente. Isto incute na corporação a cultura corporativa que faz introjetar na consciência coletiva empresarial a responsabilidade pela fruição de direitos humanos. Para tanto. E) Politica de Monitoramento: As empresas devem adotar uma conduta de monitoramento a partir da análise de indicadores pré-definidos que deem a medida de contenção dos impactos negativos da atividade empresarial no fruição de direitos humanos. da empresa com violações. F) Dever de Reparação: as empresas devem incorporar. tudo com vistas a evitar a cumplicidade. o dever de indenizar. assumindo. por . ou negligência. por exemplo. as empresas devem estar atentas a seus processos de desconcentração produtiva. o dever de reparar ou mesmo contribuir para reparar os impactos decorrentes de sua atividade sobre os direitos humanos. a qual deve ser aprovada por suas altas instâncias decisórias e difundida.

E. patrimoniais adolescente e/ou ou morais. na experiência brasileira. fruto da omissão de seu dever de diligência sobre espaços de produção albergados em suas esferas de influência. contida ente os princípios de 25 a 31. ou ainda. Confira-se. Dentre estes mecanismos de reparação. reconhecendo-se que também elas podem ser demandadas a fim de que adotem condutas que garantam o respeito aos direitos humanos. crianças. finalmente. E tais influxos podem ser utilizados no ambiente nacional.2 Empresas. seja em sua esfera de influência (cadeias produtivas) . podem ser inserido e melhor ativada. cada vez mais. ocupem o polo passivo em sistemas de monitoramento de tratados de direitos humanos ou outros sistemas a serem criados com a finalidade precípua de apurar a responsabilidade de empresas por violações de direitos humanos. na terceira e última sessão dos Princípios. comunidades atingidas pela exploração do trabalho infantil. preveem-se mecanismos judicias e não judiciais de reparação. como melhor será detalhado no tópico seguinte Por tudo isto. traz-se o contorno da responsabilidade.danos individuais causados (a) ou coletivos. que devem ser colocados pelo Estado à disposição das vítimas. que compreende os princípios de 11 a 24. no campo juslaboralista. a responsabilidade das empresas pela garantia dos direitos humanos. Na segunda seção. Direitos Humanos e Cenário Nacional: Responsabilização e Sistema de Justiça do Trabalho. . tem-se afirmado. no cenário transnacional. 3. o sistema de justiça do trabalho. seja em sua estrutura organizacional.

vocacionados constitucionalmente para tutela do valor do trabalho digno. na ordem jurídica pátria. no cenário transnacional. 3. no campo nacional. dão o tom da responsabilidade das empresas em relação às violações de direitos fundamentais sociais vicejantes em suas cadeias econômicas Tais consequências jurídicas gravitam em torno . na seara dos direitos fundamentais sociais. os fundamentos desse movimento de ampliação da responsabilidade das empresas para além de seus muros.Se. Tais fundamentos abeberam-se das seguintes fontes normativas: A) Constituição Federal: Art. a atingir todos os seus espaços de influência. por exemplo. de início. para ativar a responsabilidade dos conglomerados no cumprimento dos direitos humanos. também no cenário nacional é possível prospectar fundamentos similares. 17 do CDC. suas cadeias econômicas ou de suprimentos. 7°. como. 138 e 182 da OIT. em especial. B) Convenções n. C) Código de Defesa do Consumidor e Sistema de Tutela Coletiva: Art.1 Responsabilidade da Cadeia Produtiva e Fundamentação Nesse sentido e. o qual não se compadece com qualquer resquício de exploração do trabalho de crianças e adolescentes. 6°. 184. 12 e art. há elementos políticos e jurídicos que fundamentam o reconhecimento e a própria responsabilidade das empresas pela garantia dos direitos humanos. um novel papel para sistema de justiça do trabalho. 186 e 227. que precisa ser incorporado por seus principais pilares institucionais. vale dizer. Tais fontes normativas permitem a extração de um punhado de consequências jurídicas que. o direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. assim. 927 e 942. Descortina-se. em especial. conforme se viu no tópico anterior. 170.2. B) Código Civil 2002: Arts. XXXIII. é necessário demarcar. Ministério Público do Trabalho e Justiça do Trabalho.

conforme os ditames da justiça social. Com efeito. por assim dizer. com a “justiça social” e com a “busca do pleno emprego”. Desse modo. Sob os mandamentos normativos da Constituição Federal.função social da propriedade. a fórmula adotada não deriva para o capitalismo selvagem. Em seguida. sob pena de descambar para ilicitudes. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. da livre iniciativa e da livre ocorrência. C) Ordem Econômica e Valorização do Trabalho Humano. A ordem econômica. senão vejamos. com a “existência digna” a todas as pessoas. B) Função Social da Propriedade e normas de proteção ao trabalho. se não valorizar – direta ou indiretamente – o trabalho humano e. Em outras palavras. VIII . na medida em que está temperada pela responsabilidade social dos grupos empresariais.) III . É o que se observa do texto do art. a ordem econômica deve estar fundada em valores sociais. contribuir (para) existência indigna das pessoas. se atentar contra os direitos fundamentais sociais. Daí que o exercício da liberdade econômica somente é válido. 170 de nossa Constituição: Art. o Estado brasileiro assentou-se nos princípios da liberdade econômica. se for compatível com a “valorização do trabalho humano”. pratica ato ilícito toda empresa que. por si ou por seus impactos em suas esferas de influência. a atividade econômica será ilícita se.. Todavia. desconcentrando parte de sua . traçarse-ão alguns comentários de modo a esclarecer o fundamento da responsabilização da cadeia produtiva. observados os seguintes princípios: (. 170.dos seguintes eixos: A) Tríplice Responsabilidade.. pois a liberdade econômica não é absoluta.busca do pleno emprego. tem por fim assegurar a todos existência digna.

a produção de solados de calçados. 138 e 182. pois. entre fornecedor e cliente. gerados na cadeia criada por ela. extrajudiciais ou judiciais. Neste caso. em muitos casos. por força do art. que precisam ser estancados . assenta-se (assentam-se) num liame de segurança. Portanto. por suas necessidades econômicas. em situação de vantagem frente às demais corporações do setor. a empresa passa a se aproveitar dos benefícios da exploração do trabalho. cria condições para exploração do trabalho de crianças e adolescentes. Quando. vez que os produtos. a partir da exploração do trabalho humano. um direito especial. detém custos menores. toda sua produção. atentando. um direito humano. cuja inobservância macula o direito de liberdade econômica daquelas. ao desconcentrar produção. estabelece-se entre eles uma comunhão de interesses. disto gerando ilicitudes e danos. para terceiros e. sendo direito ao não trabalho antes da idade mínima. bem como das Convenções OIT n.produção e. Destarte. Fazê-lo é o mesmo que estimular – e legitimar – o próprio trabalho infantil. uma sinergia econômica. por falhar no dever . clausulada pelos influxos da responsabilidade social. favorecendo-lhe economicamente. faltando com seu dever de diligência. transfere para outrem. uma indústria calçadista. 227. XXXIII e art. contra direitos fundamentais do homem e atingindo as balizes da liberdade econômica. por meio de provimentos de inibição e reparação. é estabelecer que aquele compactue com esta mesma ilicitude. entre seus fundamentos. a responsabilidade social. 7º. baseada na comunhão de propósitos. uma confiança mútua. ou ainda. por exemplo. a atividade empresarial que. Assim. um direito fundamental. a montagem destes. Há de se dizer ainda que as relações empresariais. a ordem econômica tem. pois permitirá ocupar nichos de mercado a menores custos. admitir que um ente empresarial adquira produtos gerados em uma situação de ilicitude.

passou a ser tutelada em razão da relevância social condizente a seu exercício: a propriedade deixava de ser protegida em função somente do indivíduo para ser resguardada em razão também da sociedade. na época em que o mundo jurídico somente conhecia os chamados direitos humanos de primeira geração ou dimensão. Sabe-se que. Com o evoluir do pensamento jurídico e partir da afirmação. a propriedade deixava de ser protegida apenas para a satisfação de interesses individuais. Mas não é só. 170. agora. XXIII. o interesse privado de seu titular. Desse modo. Desse modo. os arts. temperado que foi pelo princípio da função social da propriedade. Vale dizer. Sob a égide da Constituição de 1988. o direito de propriedade. não podendo passar incólume pelos olhos do Direito. art. o direito de propriedade ganhou ares de direito absoluto. a marcha do Estado sobre a esfera jurídica dos cidadãos. atinge os próprios fundamentos da ordem econômica. 5º. somente se justificava seu exercício se não conspurcasse outros direitos igualmente tão caros. a todo custo. o direito de propriedade se justificava para satisfazer. art. III. Em vez disso.diligência. 186 informam a compostura do princípio . outrora súditos no Estado absolutista. durante muito tempo. a fruição do direito de propriedade deveria ser pautado (pautada) pela compatibilização do interesse individual com o interesse social. difusão e incremento dos direitos humanos ao longo do século XX. o direito de propriedade foi esfacelando em sua força absoluta. especialmente para repudiar. tão somente. 184 e art. A responsabilidade das empresas em relação às violações de direitos humanos também decorre da função social da propriedade. permite o trabalho infantil. Por via de corolário.

temperado. ou seus caprichos. última análise. deve ser explorada de acordo com sua função social. para também garantir o bem estar material da comunidade. pelo desrespeito de o produto derivado da exploração passa a ser incompatível com as normas constitucionais e espraia sua ilicitude por toda a cadeia econômica que do produto se vale e que. a propriedade é bem jurídico fundamental protegido e direito fundamental. inclusive na cadeia econômica. 3º da CF/88. de se coordenar entre si. Assim. gerados por meio da . devendo ser respeitadas as disposições que regulam as relações de trabalho e a condições justas de labor. pois. foi sua própria geradora. frontalmente vilipendiada por situações de exploração do trabalho precoce. Por via de corolário. Assim. concretizados no art. qualquer exploração de trabalho infantil. gerada em razão das dinâmicas da propriedade produtiva torna ilícito o produto econômico gerado pelo desrespeito das condições mínimas laborais. a econômicoindividual e a social tem. Dessa forma. ainda mais quando veiculam direitos fundamentais.da função social da propriedade. a uma empresa. a Carta Constitucional determina que a propriedade. Essas duas esferas de fundamento. não é lícito beneficiar-se de tal desrespeito a normas constitucionais adquirindo produtos. bem com aos objetivos da República. disposições trabalhistas fundamentais. na atual ordem constitucional brasileira. internamente. Dessa forma. Há de se destacar: se a propriedade não é explorada de modo compatível a sua função social. Passa-se a proteger a propriedade não apenas para satisfazer a felicidade de seu próprio titular. mas também para atender aos interesses da sociedade. à dignidade do homem trabalhador. como é o caso do direito ao não trabalho. aí incluída a empresarial. por sua função social. a propriedade não pode ser explorada de modo a causar danos ou riscos de danos às relações de trabalho. ou estas duas funções. convivendo harmonicamente dentro do mesmo direito.

exploração do trabalho de crianças e adolescentes. ao final. como visto em outras partes deste estudo. As vantagens. o respeito à dignidade absoluta de todo ser humano demanda condições dignas para o exercício do trabalho. – barateiam o custo da produção do suprimento que vai satisfazer a necessidade da empresa que desconcentrou sua produção. por meio de parcerias comerciais com terceiros que desenvolvem seus produtos a partir da exploração do trabalho precoce. pois os terceiros – e quartos. Nesta mesma linha de raciocínio. como também é defeso a qualquer empresa estimular esta violação a direito humano. Mais ainda: deve (a) empresa. são claras. tem-se que. vale dizer. ainda que está (esta) se dê em sua cadeia econômica ou de suprimentos. fundada no seu dever de diligência sobre sua esfera de influência. por meio da exploração da mão de obra infantil e da precarização das condições de trabalho e. e quintos. à grande . CRFB). as quais são frontalmente violadas quando se explora o trabalho de crianças e adolescentes. conforme exposto acima. etc. é vedado a qualquer empresário beneficiar-se economicamente da exploração do trabalho de crianças e adolescente. juntamente com a Lei da Ação Civil Pública. 1º III. em tal esquema produtivo. Sendo a dignidade da pessoa humana o fundamento máximo de nossa ordem constitucional (art. auferindo vantagens econômicas a partir de cadeias de suprimento. um direito fundamental. Na esfera civil. criadas para satisfazer suas necessidades de produção. pois se atinge um direito muito caro à Ordem Jurídica. também o Código Civil de 2002 e o Código de Defesa do Consumidor – este. adotar as medidas de cuidado a fim de garantir que não está adquirindo produtos oriundos do desrespeito à função social da propriedade. os pilares do sistema de tutela coletiva – permitem impor às empresas a responsabilidade pela violação de direitos humanos. ao conformar. na órbita juslaboralista.

proporciona lucros ao ente empresarial – o adquirente de produtos –. Assim. Ora. parágrafo único. permitir-se-á colocar os produtos finais no mercado. Aquele que. está se beneficiando de práticas ilícitas. nos casos especificados em lei. Parágrafo único. independentemente de culpa. Desse modo. fica obrigado a repará-lo. por ato ilícito (arts. beneficiando-se economicamente da atividade ilícita anterior. risco para os direitos de outrem. pois. a custos menores. na forma do art. Finamente. 927. por sua natureza. se a atividade empresarial de compra de produtos gerados por meio da exploração do trabalho de crianças e adolescentes. na lógica de redução de custos da desconcentração econômica para a cadeia de insumos.empresa da ponta. do Código Civil: Art. por meio dessa relação. está esse agente econômico se beneficiando da exploração do trabalho humano. deve este também ser responsabilizado. Com efeito. Haverá obrigação de reparar o dano. vencendo a concorrência. o que acaba por influenciar o Direito do Trabalho. por sua natureza. risco para os direitos de outrem”. a empresa deve ser responsabilizada civilmente. causar dano a outrem. é preciso assinalar que outros ramos do direito avançaram em matéria de responsabilização solidária da cadeia econômica. . se uma empresa tem relações estáveis com um terceiro que explora crianças e adolescentes no trabalho. 186 e 187). além da responsabilidade objetiva e proteção ao hipossuficiente. entregando-lhe produtos mais baratos. 927. ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. extrai-se da norma acima transcrito que é responsável civilmente por qualquer dano toda pessoa que desenvolva atividade que possa “implicar.

o construtor. dá-se por meio da conjugação de várias leis. 12. a tutela dos direitos coletivos. Assim. o produtor. 12 do CDC é aplicável ao Direito do Trabalho. 12 do Código de Defesa do Consumidor: “Art. por analogia e com mais razão. onde há a mesma razão. diante de sua condição de hipossuficiência. Este dispositivo legal comina a solidariedade entre TODOS os componentes da cadeia produtiva pelos ilícitos e danos causados ao consumidor. deve prevalecer a mesma solução. posto que o art. defeitos decorrentes construção. dentre elas a Lei nº 8. fórmulas. O fabricante. e o importador respondem. de montagem. na ordem jurídica pátria. manipulação. em sentido lato. é que se pode espancar todas dúvidas de que o art. é ainda mais vulnerável que o consumidor. . pela reparação dos danos causados aos consumidores projeto. Desse modo. Ademais. nacional ou estrangeiro. Não é à toa que dispõe o caput do art. aí incluídos os trabalhistas. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos”. via de regra.347/85 (Lei da Ação Civil Pública). independentemente da existência de culpa. apresentação ou acondicionamento de seus produtos.vez que este se fundamenta no aspecto protetivo e social. por fabricação. 17 do diploma consumerista estabelece que são equiparados a consumidor todos os que sejam vítimas de danos decorrentes da cadeia produtiva. se o consumidor é beneficiário de tal tutela especial.078/90 (Código de Defesa do Consumidor) e a Lei nº 7. o trabalhador devem (deve) desfrutá-la. É dentro dessa ideia de sistema coletivo. já que.

costuma-se classificar os fornecedores sujeitos a participar do polo passivo da . Ademais e a fim de que melhor se possa esclarecer de que forma o Direito do Consumidor pode ser utilizado instrumento para fundamentar a responsabilidade da cadeia produtiva. (grifo nosso). e. Se a responsabilidade da cadeia econômica se impõe. as empresas em torno das quais se teceu a cadeia produtiva e no bojo da qual conseguem auferir vantagens econômicas. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado. ela também se aplica à reparação dos danos já causados. por violação de direitos humanos. 932”. seja as reparações aos trabalhadores precoces (crianças e adolescentes) individualmente prejudicados. São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas designadas no art. Parágrafo único. 942. devem arcar com os ônus correspondentes. pelo barateamento da produção em virtude da precarização das condições de trabalho. todos responderão solidariamente pela reparação.Daí que. Com efeito. especialmente em matéria de proteção dos direitos humanos e fundamentais. é necessário recorrer à algumas lições doutrinárias consumeristas. num primeiro momento para a tutela inibitória de proteção dos direitos humanos e fundamentais. A regra também tem previsão no Código Civil: “Art. se a ofensa tiver mais de um autor. de algum modo se beneficiando desse esquema. seja os de natureza difusa.

o direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. campeiam. Hoje. os princípios da proteção e da norma mais favorável. os quais autorizam a conclusão de que a cadeia econômica é responsável solidária para fins trabalhistas (coletivos e individuais). tal tipo de violação é residual. 3. a proteção da parte mais vulnerável na relação jurídica. autorizado que está por toda a fundamentação jurídica lançada no tópico anterior. funda-se na mesma ratio. e c) Fornecedor presumido. considerando o longo histórico de repressão e punição ativados pelo órgãos de fiscalização. Daí o porque referido sistemas se comunicam. pois como visto. isto é. marca ou signo aposto no produto final. Tais conceitos devem se aplicar também ao Direito do Trabalho. Tal forma de violação e responsabilização direta foi muito comum há algumas décadas atrás. b) Fornecedor aparente. perfazendo o que doutrina costuma chamar de “ diálogo das fontes”.relação jurídica de responsabilidade civil nas seguintes categorias: a) Fornecedor real. toma o serviço de crianças e adolescentes. quando ela. em prol da materialização de um sistema protetivo. antes da idade mínima fixada na ordem jurídica. é preciso distinguir duas formas de responsabilização das empresas por violação de direitos humanos. Uma das formas ocorre quando a violação ocorre (acontece) dentro da estrutura produtiva da empresa. Não fosse isso. abrangendo o importador de produto industrializado ou in natura e o comerciante de produto anônimo. o produtor e o construtor.2 Formas de Responsabilização Nesse esquema de ampla responsabilização. tal como o Ministério Público do Trabalho e o Ministério . dentre os quais. a saber. envolvendo o fabricante. que compreende o detentor do nome. na seara juslaboralista.2. diretamente. tanto um como o outro.

Ao contrário. o trabalho infantil não mais está no chão de fábrica de grandes empresas. O domínio do fato pela empresa e omissão na fiscalização da prestação de serviços são facilmente constatados. Isto porque os diversos elementos sociais. para sua. para bem se fixar a responsabilização indireta. ensejando sua responsabilização. há outra forma de responsabilização. geográficos e econômicos atuarão fortemente para se graduar a participação e o nível de responsabilidade social de uma dada corporação econômica.do Trabalho. por fato ocorrido na cadeia. ou seja. Paralelamente. não pode ser desprezada. delimitar o alcance da cadeia para fins de responsabilidade. como a hipótese daquelas que vendem roupas produzidas por oficinas que exploram trabalho infantil. É o caso da revendedora de produto que utiliza. deve-se proceder a um corte na cadeia produtiva. que alimenta os fornos para a produção do ferro-gusa. ainda que indireta. Com efeito. Tal responsabilização da empresa responsável pela tessitura da cadeia. Ministério Público do Trabalho e Justiça do Trabalho devem estar atentos a tal forma. o ferrogusa. Constatado o trabalho de crianças e adolescentes na produção do carvão vegetal. pode ser por isso responsabilizada. a violação ocorre fora dos muros de uma dada corporação econômica. sendo muitas vezes a proprietária da marca. sugerindo-se a responsabilização apenas até a indústria . cada um no âmbito de suas respectivas atribuições. tecnológicos. o domínio do fato e a prática de ato omissivo ou comissivo não será constatado. indireta. Neste passar. é importante. De outra banda. quando a violação de direito ocorre ao longo da cadeia produtiva. Com efeito. podem se divisados casos em que a empresa que comercializa o produto fabricado com utilização de mão de obra de crianças e adolescentes. em determinados casos.

tais como a área geográfica. moderado e baixo). III) Identificar a produção de insumos e serviços com níveis. c) Existência de limitação temporal da vinculação com a empresa adquirente ou tomadora (vínculo temporário ou permanente). isto é. sugerem-se os seguintes passos: I) Identificar as categorias de bens ou serviços da empresa. na informalidade e no sistema de produção integrada. haja vista o distanciamento da participação da revendedora na utilização da matéria-prima carvão vegetal. que passa atingir unidade de regime familiar de produção e comunidades. Tal necessidade de corte na responsabilização remete. e para fins de responsabilização indireta. à necessidade de mapear a cadeia econômica. em comunidades tradicionais. industrialização e distribuição do produto final. sugere-se a utilização dos seguintes critérios: a) Predominância ou não de atividades que não exijam mão de obra qualificada. etc.. Assim é que. também. e) Propensão à existência de agentes de ameaça. b) Existência de atividades produtivas realizadas em regime de economia familiar (urbano e rural). . Para fins de classificação.siderúrgica. especialmente quando esta se ramifica a tal ponto. Para tanto e como base em Manual de Atuação Frente às Cadeias Produtivas. identificar as empresas. econômicas e culturais. por conta da amplitude do conceito de cadeia produtiva. alto. condições sociais. delimitando a atuação apenas para as fases de fornecimento de matéria prima (ênfase na extração). tais como a existência de metas de produtividade e fiscalização do processo extrativo/produtivo. II) Identificar o potencial produtivo de determinada região. d) Vulnerabilidade ou existência de fatores sociais críticos. de acordo com a potencial utilização de mão de obra de crianças e adolescentes (muito alto. o aplicador da lei deve fazer um corte metodológico. da Coordenadoria Nacional de Combate à Exploração do Trabalho de Crianças e Adolescentes. bem como estabelecer a função e importância de cada uma delas na própria cadeia produtiva.

visando sempre à incolumidade da situação violada. os danos advindos da violação são irreversíveis.3 Conteúdo da Responsabilização O presente tópico procurará responder a seguinte indagação: Qual o conteúdo da responsabilização das empresas que violam direitos fundamentais de não trabalhar antes da idade mínima. no campo da responsabilidade civil/trabalhista. focar-se-á no âmbito da responsabilidade civil/trabalhista. pois é aquela que. via de regra.2. Com efeito. deve ser perseguida a todo custo. em virtude dos lindes temáticos deste estudo. posto que. na atuação conformação político institucional. a inibição e a reparação. Desse modo. XXXV da Constituição Federal. de uma tutela de inibição. quando se analisam em direitos fundamentais. justo o conteúdo. com composturas próprias. e por via de corolário. em sua cadeia produtiva? Considerando que a responsabilização deve ser a mais ampla possível. independente (independentes) e complementares entre si. pode ser aplicada pelo Ministérios Público do Trabalho e Justiça do Trabalho. Isto porque. é possível destacar dois conteúdos básicos. posto que a responsabilidade penal interessa a outros sistemas de justiça. ela pode admitir a responsabilidade no campo administrativo. quais sejam. seja indiretamente.3. 5º. e/ou cessem-no e/ou evitem sua repetição. dados do Ministério da Saúde apontam que mais criança e adolescentes se . por meio de provimentos que inibam o ilícito. Todavia. bem como a responsabilidade administrativa importa ao Poder de Polícia do Ministério do Trabalho. a prevenção da violação. Tal forma de tutela assume uma posição de relevo. seja direta. A tutela inibitória está intimamente ligada ao princípio da prevenção e se fundamental no art. por excelência. penal e civil/trabalhista. do dano.

três vezes mais que adultos em uma mesma situação de labor. Neste passar. Luiz Guilherme.” (pág. 36) “(. Tutela Inibitória: individual e coletiva. a continuação ou a repetição do ilícito. e não uma tutela dirigida à reparação do dano. visa a prevenir o ilícito... . conforme a conduta ilícita temida seja de natureza comissiva ou omissiva. em termos relativos. impõe um fazer ou um não fazer.” (pág. seja por meio de um atuação extrajudicial. enquanto o da tutela ressarcitória é saber quem deve suportar o custo do dano. Portanto. independentemente do fato de o dano ressarcível ter sido produzido ou não com culpa. configurando-se como tutela preventiva. da continuação ou da repetição do ilícito. cumpre transcrever excertos da obra do professor LUIZ GUILHERME MARINONI3. culminando por apresentar-se. no campo de violação do direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. 2006.acidentam e morrem no trabalho. imaginase uma tutela que tem por fim impedir a prática. Nos tópicos seguintes.) É melhor prevenir do que ressarcir. seja por meio de um comando judicial. como uma tutela anterior à sua prática. que averba com maestria: “A tutela inibitória. o problema da tutela inibitória é a prevenção da prática. 4 ed. o que equivale a dizer que no confronto entre a tutela preventiva e a tutela ressarcitória deve-se dar preferência à primeira. dar-se-ão exemplos de comandos típicos de inibição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. A tutela de inibição. 38) 3 MARINONI. assim. e não como uma tutela voltada para o passado. Quando se pensa em tutela inibitória. como a tradicional tutela ressarcitória.

que estabelece que “a lei não excluirá de apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. basicamente. 39) “Aliás. 5º. ou perde pois impedir a não sua tem a sua natureza por fim reintegrar ou reparar o direito violado. (pág.“A tutela inibitória é caracterizada por ser voltada para o independentemente dirigida a de impedir futuro. 38/39) “A inibitória funciona. Note-se. a tutela inibitória não deve ser compreendida como uma . ilícito não preventiva. o que permite identificar o fundamento normativo-processual desta tutela nos arts. 39) “[. precisamente no art. através de uma decisão ou sentença que impõe um não fazer ou um fazer.” (pág.. 461 do CPC e 84 do CDC.] Note-se. estar a sendo prática. conforme a conduta ilícita temida seja de natureza comissiva ou omissiva..” (págs. XXXV. a base de uma tutela preventiva geral. encontra-se – como será melhor explicado mais tarde – na própria Constituição da República. com efeito. o fundamento maior da inibitória. a continuação ou a repetição do ilícito. que a inibitória. que se o dano é uma consequência meramente eventual e não necessária do ilícito. ou seja. Este fazer ou não fazer deve ser imposto sob pena de multa. porém. ainda que empenhada apenas em fazer cessar ou repetição.

ainda. bem como a uma lesão de ordem individual e moral. como também podem conspurcar a órbita coletiva. 45). da comunidade e/ou sociedade atingida pela violação de um direito especial. submetida que foi a situações vexatórias e de humilhação. Aquela mesma situação pode. dar azo a um dano de ordem coletiva e moral. acidentada no trabalho e. inválida para o labor. decorrente do trabalho degradante.tutela contra a probabilidade do dano. compreendido como ato contrário ao direito que prescinde da configuração do dano. Tais danos podem atingir a órbita individual das próprias crianças ou adolescentes trabalhadoras. a reparação (deve) dar conta de todos esses tipos de dano. Ademais. Assim. conspurcada pela violação de um direito caro e fundamental a ordem jurídica pátria. Desse modo. podem atingir a esfera patrimonial e/ou moral das crianças e adolescentes vítimas do labor proibido. por via de corolário. (grifos nossos). A responsabilização civil trabalhista também deve ser preocupar com a reparação danos causados. a esfera patrimonial e/ou moral da sociedade e comunidade lesada. ou ainda. (pág. atingindo o acervo ético de uma dada comunidade e/ou sociedade. estes mesmos danos. Mas não é só. da continuação ou da repetição do ilícito. fundamental da ordem jurídica. por exemplo. em um e outro caso. uma mesma situação de exploração do trabalho de crianças e adolescentes pode dar azo a um dano de ordem individual e patrimonial infligido a uma criança e adolescente. que compõe o paradigma do trabalho decente e atinge um dos fundamentos da . a qual deverá ser indenizada por lucros cessantes (uma renda para sobrevivência) e danos emergentes (gastos com tratamento médico decorrente do acidente de trabalho. mas sim como uma tutela contra o perigo da prática.

tem o poder de gerar insegurança e indignação a todos e é incompatível. em função dos limites do presente estudo. Com efeito. bem como nos arts. é todo dano extrapatrimonial. a que se vão dedicar as próximas linhas. na linha do que prega a doutrina civilista clássica. com a consciência coletiva existente na sociedade. então. 5º. O dano moral coletivo. em grave ofensa a um direito fundamental. a dignidade da pessoa humana. O dano moral individual é aquele que atinge uma pessoa em particular. que atinge o patrimônio ético da sociedade. é produzido contra comunidade de uma coletividade lato pessoas ligadas por sensu. ainda que exclusivamente moral deve ser reparado. Tal violação é lhe capaz. um indenização. da Constituição da República. uma individuais homogêneos. consoante impôs a Constituição Federal ao disciplinar o Estado Democrático de Direito. constitui-se. à dignidade da pessoa humana. propiciar a indenização de todos estes tipos de danos. A exploração do trabalho de crianças e adolescentes. nas cadeias econômicas formadas para atender às necessidades produtivas de empresas. A reparação do dano moral está expressamente prevista no art.república. aos valores sociais do trabalho. Mas é precisamente sobre este último tipo de dano. qual seja. 186 e 942 do Código Civil. por sua vez. exigindo. isto interesses é. o dano moral coletiva. como visto. em síntese apertada. que reclama respeito à cidadania. Daí se concluir que as violações aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade resultam em danos morais à coletividade. V. então de. nãoeconômico. atingida nos seus valores e direitos mais essenciais. por força do que todo dano moral. assim. dano moral. coletivos ou difusos. O dano moral pode ser individual ou coletivo – em sentido amplo. portanto. que terá caráter . em sua dimensão laboral. A tutela reparatória devem (deve).

com fundamento nos artigos 186.4 Atores. sem prejuízo da ativação de outros tipos de responsabilidade.preventivo-pedagógico e punitivo. dentre outros. trabalho. em termos econômicos pelo menos. perquirir quem devem ser. visando a recompor os danos causados e de acordo com natureza e extensão destes. Tal espécie de responsabilidade implica condenação em dinheiro (Lei no 7. 3.2. 3º). caput. d) reforço de serviços públicos deficientes numa dada comunidades. Finalmente. assistência social. levando-se em conta a natureza do ato ilícito. na atual conformação político . art. Centros de Referência em Assistência Social – CRAS e Centros de Referência Especializada em Assistência Social – CREAS. para desestimular condutas futuras. a gravidade e continuidade da lesão e o comprometimento do bem jurídico violado e deverá ser ampla o bastante. tais como: a) reversão de bens para a comunidade lesada (tais como centros de formação profissional de adolescentes). ainda que sinteticamente. Instrumentos e Comandos de Responsabilização Na esteira do foco da responsabilização civil/trabalhista. c) campanhas publicitárias que visem à sensibilização e conscientização de comunidades e famílias afetadas. do Código Civil Brasileiro. destaque-se que referida condenação em dinheiro.g. pode ser substituída por determinadas medidas compensatórias. b) equipagem de aparatos públicos integrantes da rede de proteção da infância e da juventude (v. 187 e 927. acerca dos malefícios do trabalho infantil. necessário se faz.347/85. como acontece quando se viola o direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. em seus fundamentos mais caros. Conselhos Tutelares. tais como educação. violar a ordem jurídica laboral. incutindo empresa a constatação de que não valerá a pena.

em a exploração cadeias do produtivas trabalho tecidas de crianças para e atender necessidades econômicas de uma dadas empresa. de que se vai cuidar nesta porção do estudo. direta ou indireta. Como corolário e mesmo justificação da atuação do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho. embutido que está no paradigma do trabalho decente e do trabalho digno e. arrimados naquele paradigma. é necessário considerar-se que adolescentes. Ministério Público do Trabalho e Justiça do Trabalho. seus instrumentos e principais comandos. sobre a perquirição da função do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho. vale dizer. são os principais atores a quem se atribui o dever de aplicar as devidas responsabilizações sobre empresas violam direito fundamentais relacionados ao mundo do trabalho. em última análise. Ora. extreme de dúvidas é que as principais instituições que compõem aquele Sistema. os atores de aplicação da responsabilização. pois ofende-se direito fundamental ou humano. frente . pois. sob essa perspectiva. por violações do direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. isto é. pois. o guardião do valor social do trabalho e da dignidade do homem trabalhador. 45/2004. contido na centralidade do ordenamento jurídico. no standart jurídico da dignidade da pessoa humana. em sua estrutura organizacional ou mesmo. sendo um direito qualificado. de empresas. constitui grave ilicitude. em suas cadeias de suprimentos. o não trabalho antes da idade mínima. na cominação de condenações de tutelas inibitórias e reparatórias. em se tratando de um ofensa a um dos pilares que compõe o paradigma do trabalho decente. É.constitucional. por força dos ventos ampliativos da competência emanados da Emenda Constitucional n. sendo o Sistema de Justiça do Trabalho. e. Ora. e sendo sua lesão dotada de alta gravidade para o ordenamento jurídico.

a desafiar a devida correção. no modo. sob pena de fixação de multa. requisição de documentos. ser previsto o pagamento de uma indenização por danos causados. violado o direito humano ao não trabalho antes da idade mínima. criada para atender um dada empresa ou conglomerado econômico e. ainda. de pronto. A persecução dessa tutela de proteção pode ser feita. seja no âmbito do tutela de inibição. num dado prazo fixado. já identificada no Inquérito Civil Público. em uma dada cadeia produtiva. a adotar determinadas condutas e/ou abster-se de praticar certos comportamentos. a configuração da ilicitude. por meio do qual o Procurador do Trabalho lançará mão de todos os atos instrutórios – inspeção.aos valores centrais violados. seja no âmbito da tutela de reparação. Pode. seja por meio da reparação dos danos causados. para a comprovação da violação do direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. quais sejam: a) o Inquérito Civil Público. pela só atuação do Ministério Público do Trabalho. ou mesmo revertida na forma de bens e serviços para a própria comunidade lesada. etc. via de consequência. . contidos no Termo. Em outras palavras. dano moral coletivo. seja por meio da cominação de um fazer ou não fazer. abre-se via para a necessária correção da ação ou omissão ensejadora da violação. tempo e lugar. por meio do qual empresa violadora reconhece a ilitictude perpetrada. mediante dois importantes instrumentos de sua atuação. b) o Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta. num primeiro momento. dirigida ao Fundo da Infância e da Juventude. em especial. por descumprimento da obrigação assumida. e comprometese. a tutela de proteção dos direitos da infância e da juventude deve ser. oitiva de testemunhas. instituída.

a exemplo do trabalho precoce. alargada que foi pela edição da Emenda Constitucional n. diga-se. frente àquela lesão – grave. bem como da própria sociedade. descortina-se o verdadeiro sentido da competência da Justiça do Trabalho. de sorte que a tutela judicial então requerida deve vir a repudiar toda a forma de trabalho que ofenda aquele paradigma. não raro. vez que lesão a direito fundamental ao não trabalho – há que se buscar sua correção por meio da Justiça do Trabalho. 45/2004. como visto nos tópicos anteriores. Aqui. Assim. qual seja. com a exploração do trabalho infantil. em juízo. o Sistema de Justiça do Trabalho é o competente para aplicar tutelas de inibição ou reparação contra empresas que violam direitos fundamentais de não trabalhar antes da idade mínima. mediante a imposição de provimento judicial de fazer ou não fazer – tutela inibitória do ilícito – e de reparar o dano causado – tutela reparatória.No entanto. já que a tal sistema compete tutelar as relações de trabalho lato sensu. que venha a veicular aquela ilicitude. de modo que. lesada em seu patrimônio ético-moral. diante de tal vil forma de exploração dos direitos da infância e da juventude. inclusive quando estas são atingidas por violações graves. o sistema atribui ao Ministério Público do Trabalho o ajuizamento de Ação Civil Pública. frente à resistência da empresa em assumir as formas de tutelas propostas pelo Ministério Público do Trabalho. diante do princípio da inércia da jurisdição. dos interesses difusos e coletivos de todas as crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil. Portanto. em ordem a promover a defesa. bem como o pedido de tutela inibitória e reparatória. o papel de tutora maior do valor do trabalho decente e digno. a solução extrajudicial não se revela possível. como o trabalho infantil. que não se compadece. então. por força da ampliação de competência proporcionada por referida Emenda. em ordem a fazer cessar .

B) Não contratar. seja extrajudicialmente. no curso da relação contratual). em qualquer das etapas ao longo das quais os diversos insumos serão utilizados pela empresa para a constituição do produto final (bem ou serviço) e sua colocação no mercado. quando constatado violações ao direito fundamental ao não trabalho antes da idade mínima. D) Promover a estruturação de um mecanismo de controle. prejudiciais à saúde. o Ministério Público vem cominando às empresas. definindo a periodicidade. o responsável pelo processo. manter ou permitir que menores de 18 (dezoito) anos o exercício de atividades insalubres. perigosas.situações de trabalho proibidas ou mesmo aplicar reparações de danos causados por tais situações. . as etapas da relação em que haverá a verificação (na contratação. à segurança e à moral. seja por meio de provimento judicial. C) fornecedores Incluir dos nos insumos. Nesse contexto e por força de tal competência. na cadeia econômicas. contratos empresas celebrados que com promovem os a transformação e distribuidores dos produtos finais. cláusulas sociais de não utilização de trabalho infantil. e os procedimentos a serem adotados diante da constatação de um caso de trabalho infantil na cadeia de fornecimento de bens ou serviços necessários para produção. os seguintes comandos de conduta. sem prejuízo de imposição de tutelares reparatórias: A) Não contratar. manter ou permitir que menores de 16 anos desenvolvam qualquer atividade em qualquer das etapas ao longo das quais os diversos insumos serão utilizados pela empresa para a constituição do produto final (bem ou serviço) e sua colocação no mercado.

que estimulam as empresas a se responsabilizar pelo respeito aos direitos humanos.5 Outras estratégias para além da responsabilização pura Além das tutelas inibitórias e reparatórias referidas no tópico. G) Em alguns casos. I) Repassar recursos ao Fundo da Infância e da Juventude. 3) Revisão de documentos. por meio de: 1) Visita às instalações. e acompanhar a freqüência e aproveitamento escolar. empregados e da comunidade sobre os prejuízos do trabalho infantil. toda vez que as lesões ou ameaças de lesões decorrem de sua atividade e se aplicam em seus espaços de influência. especialmente no caso do sistema de integração na indústria do fumo. reconhecer relação de emprego. . bem ainda inclusão em programas sociais. FORNECEDORES E TERCEIROS. diante da presença dos requisitos da relação de emprego e o princípio da primazia da realidade. e 5) Comunicação de resultados. mediante a publicação de informações em embalagens de produtos. comprovantes de pagamentos. H) Cadastrar todas as crianças e adolescentes. 3. 2) Realização de entrevistas com funcionários. entre outros. 4) Elaboração de um plano de ação corretivo.D) Fazer Doações ao Fundo da Infância e da Adolescência E) Implementar ações de conscientização dos clientes. para custeio de projetos de assistência e promoção do desenvolvimento biopsicosocial de crianças e adolescentes. é possível a adoção de outras estratégias. F) Aprimorar o controle da regularidade das condições de trabalho que ocorrem ao longo de sua cadeia no Brasil. etc. filhos de pequenos produtores.2.

conforme previsto no artigo 4o da Lei nº 11. Isto reflete. de 28 de janeiro de 2013. baseado na certificação de empresas que respeitam os direitos humanos. a Municipalidade. sobre cassação da inscrição no ICMS. já há proibição da concessão empréstimos ou renovação de quaisquer ou financiamentos pelo BNDES às empresas cujos dirigentes sejam condenados por exploração da mão de obra de crianças e adolescentes. de trabalho escravo ou em condições análogas. de 16 de junho de 2009. pode condicionar a concessão da permissão.948. à expressa assunção de um termo de compromisso de . com base em seu poder de polícia. cada vez mais. poder de coertividade (coercitividade) das sanções econômicas. outro avanço legislativo recente.Dentre estas. licença ou autorização de exploração de serviços e bens públicos ou de serviços de interesse público. especialmente em suas piores formas. Ademais. No Brasil. como Reino Unido. Nesse exato sentido. veio com a promulgação da Lei Paulista nº 14. podem (pode) ser apontada (apontado) um modelo bastante difundido no Reino Unido. como estratégia de responsabilidade social e fidelização de mercados consumidores cada vez mais conscientes. na Holanda e na Espanha. Com efeito. em mercados cada vez mais conscientes. Holanda e Espanha.946. que apenas reforça a responsabilidade solidária da cadeia econômica violadora dos direitos humanos e fundamentais. o próprio Município pode impor sanções administrativas às empresas em que constatada a utilização de mão de obra de crianças e adolescentes em qualquer fase do seu processo produtivo. de qualquer empresa que se utilize. também bem comum em países desenvolvidos. diz respeito à estipulação de critérios de contratação com o Poder Público e obtenção de financiamento público. Outra hipótese. direta ou indiretamente.

C) Realizar ações de conscientização dos clientes. pela Comissão Parlamentar de Inquérito. pois. D) Desenvolver ações sociais em benefício de crianças e adolescentes 4. Outra estratégia importante e que também aposta na força das sanções econômicas de um mercado consciente. para investigar o trabalho infantil no Brasil. prezam por sua imagem empresarial e não almejam ver esta imagem associada à violação de direitos humanos. os seguintes critérios para a certificação: A) Não utilização de mão de obra infantil em qualquer das fases do processo produtivo. é a criação de Cadastros ou Listas Sujas. pode ainda ser aventado a criação de um selo social pelo município. Há. dentre outros. Esta. contendo o nome de empresas que se valem da exploração do trabalho de crianças e adolescentes. foi uma das providências recomendadas ao Poder Público. um forte poder de inibição. em sua própria estrutura e/ou na cadeia produtiva.combate ao trabalho infantil. difundindo boas práticas empresariais de certificação de cadeias produtivas. quanto aos respeito aos direitos humanos sociais. grandes empresas. inclusive. Com efeito. de modo que a existência de tais listas nela incutem (nelas) um temor e uma pressão psicológica. que as tornam mais vigilantes em seus processos de desconcentração de produção. Finalmente. fornecedores e comunidade sobre os prejuízos do trabalho infantil. em razão do mercado consumidor cada vez mais consciente. criada no Congresso Nacional. B) Alertar os fornecedores contratados que denúncia comprovada de trabalho infantil causará rompimento da relação comercial. em torno das quais se tecem extensas cadeias produtivas. utilizando-se. em sua própria estrutura organizacional e/ou na cadeia de suprimentos. CONCLUSÃO .

o Ministério Público do Trabalho e a Justiça do Trabalho. possam materializar aquela ampla responsabilização. e tornar concretas novas formas de tutelas extrajudiciais ou judiciais. pode-se afirmar. para a irresponsabilidade de corporações econômicas. forte engajamento dos principais atores do Sistema de Justiça do Trabalho. que tem acompanhado o processo de desconcentração da produção. em sua esfera de influência. além da cominação de tutelas de inibição do ilícito e de reparação do dano. que não há mais espaço. atualmente. campo onde. em especial nos casos de violação de direitos fundamentais sociais. a fim de que. perpetrados ao longo da cadeia econômica.Diante de tudo isto. seja no cenário nacional. postos na Ordem Jurídica externa e interna. em relação às ameaças de lesão ou violação de direitos humanos. descurando de seu dever de diligência. transmutar os olhares para a perspectiva dos direitos humanos. há que se arrimar ampla responsabilização àquelas empresas que. pois. o desafio que se põe é. cônscios dos instrumentos e fundamentos jurídicos. o trabalho infantil tem vicejado a torto e a direito. à guisa de conclusão. seja no cenário transnacional. em sua própria estrutura organizacional e/ou na cadeia de suprimentos que se forma para atender suas necessidades econômicas e seus processos de desconcentração da produção. estampadas no trabalho precoce. Esta ampla responsabilização pressupõe. quais sejam. com todos os atributos que lhes são inerentes. segundo o esquema dos direitos humanos. . Diante desse quadro. em especial o impacto da precarização das condições de trabalho. mais eficazes. adotam postura permissiva em relação aos impactos negativos de sua atividade econômica. ao atingir o direito fundamental ao não trabalho. Sendo assim e considerando que a exploração do trabalho de crianças e adolescentes constitui grave violação de direitos humanos sociais.

avançando na tutela coletiva dos direitos de crianças e adolescentes. As novas fronteiras estão aí postas: o alargamento da competência do Sistema de Justiça Trabalhista. Assim. devem figurar sólidas as perspectivas dos direitos humanos e da fundamentalidade do direito ao não trabalho antes da idade permitida. vê-se que a realidade está sempre a influir sobre a inteligência do Direito. Estas novas perspectivas devem arrimar a superação dos remédios jurídicos ortodoxos de tutela de direitos. dentre outros. via dano social genérico ou dano moral coletivo. as ações civis públicas. de modo que se consolidem. a ação civil pública e o processo coletivo. bem como a responsabilização das empresas por violações de direitos fundamentais sociais em suas cadeias de suprimentos. em especial. com base neste paradigma de ampla responsabilização. veículos dos pedidos de inibição do ilícito. um novo alento no histórico de combate ao trabalho precoce no Brasil. se usadas e bem usadas. membros do Poder Judiciário trabalhista e do Ministério Público do Trabalho poderão promover e preencher. cobrando políticas.Tais ferramentas estão postas a serviço do Sistema de Justiça do Trabalho. do direito social ao não trabalho antes da idade mínima. o conteúdo dos direitos fundamentais. reforçando-se o processo coletivo e todas as suas potencialidades. Nesse atuar do Sistema de Justiça de Trabalho. apanágio inarredável da dignidade da pessoa. Por tudo isso. as tutelas inibitórias e reparatórias coletivas. pelos operadores do direito. reinventando seu arcabouço de direitos e formas de garantia da fruição dos bens da vida que lhe são correlatos. todos a . centralidade máxima da ordem jurídica. impondo sanções. as quais permitirão. como mínimo existencial necessário para consecução do trabalho digno e decente. mais e mais. com efetividade e mais amplamente.

Dalmo de Abreu. 2001. São Paulo: Malheiros. é querer tocar esta nova melodia. A ordem econômica na Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: Comentários Jurídicos e Sociais. Marcelo Pedroso. cuja letra torne concreta provimentos de inibição e reparação em face das empresas por violações de direitos fundamentais sociais em suas cadeias de suprimentos. Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2004. São Paulo: Ltr.). SILVA.. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARAGÃO. Emílio Garcia (coord. diante da triste realidade do trabalho precoce. 4º do ECA]. Antonio Fernando do Amaral e. Trabalho infantil e direitos humanos – Homenagem a Oris de Oliveira. In: Cury. 2002. 1997. 4ª ed. . São Paulo: Malheiros.apontar novas formas de atuar para enfrentamento de uma das mais perversas formas de violação dos direitos humanos de crianças e adolescentes: a exploração do trabalho precoce. esfaceladas que estão. São Paulo: Malheiros Editores. 4ª ed. 2005 GRAU. HUMBERTO Teoria dos princípios da definição à aplicação dos princípios jurídicos. Daniel Legitimação: Maurício Capital Cavalcanti. sob a música pungente e dolorida que destrói milhares de infâncias. O tom está dado: ampla responsabilização. BONAVIDES. MENDES. Curso de Direito Constitucional. Transnacional e Responsabilidade Governança como Global na Organização das Nações Unidas. A comunidade jurídica nacional e internacional já o percebe. Paulo. GOULART. [Comentários ao art. DALLARI. Eros Roberto. Tese de Doutorado. Munir. 2010 ÁVILA. Agora.

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