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0800 2831322

ISBN 978-85-7526-425-6

9 788575 26425 6

Ju l i o P i nto | Ve ra Ca sa N ova

Os carros transitando pelas ruas da cidade podem ser lidos de que forma? Essa pergunta lhe pareceu sem sentido? Julio Pinto e Vera Casa Nova, dois
estudiosos de referência no campo da semiótica e
apaixonados por suas possibilidades, debruçam-se
aqui sobre a história da semiótica, contemplando
suas interfaces, suas apropriações e seus usos na
construção do cotidiano. Para o leitor, será simples
perceber que carros transitando pelas ruas da cidade
podem ser lidos como signos de poder econômico,
de poluição urbana, de design automobilístico... Isso
porque a leitura vai semiotizar os carros, transformando-os em signos, conforme o desejo e as possibilidades do sujeito-leitor em sua inserção social.
Instrumento para reflexão sobre a semiótica, em
linguagem acessível e com insights surpreendentes,
este livro desmistifica a temática e aproxima o tema
do leitor de forma a atraí-lo para novas leituras e
percepções acerca do mundo em que vive.

Al gum as se m i óti c a s

explora seus usos e apropriações desde épocas
remotas até a contemporaneidade, revelando suas
inúmeras, e muitas vezes
surpreendentes, faces.
Julio Pinto e Vera Casa
Nova, duas referências no
assunto, mostram que, ao
se falar em semiótica, não
se podem desentranhar os
textos (em seu sentido mais
amplo, isto é, qualquer organização de signos, verbais ou não, que, de alguma
forma, produz significação)
de suas condições de produção e recepção, já que
ela não é uma semântica,
mas uma pragmática (no
sentido linguístico do termo), que pensa a linguagem em operação nos contextos, e não instanciada
em textos desencarnados
de sua sociabilidade.
Algumas semióticas é
uma ferramenta acessível
para aqueles que querem se
aprofundar ou mesmo conhecer o fascinante universo da semiótica, aproximando-a do nosso cotidiano.

Julio Pinto
Vera Casa Nova

Algumas semióticas

O sentido, o discurso ou
a representação? Qual seria
o objeto da semiótica? A resposta pode criar diferentes
campos interdisciplinares,
seja com a psicanálise, com
a lógica, com a antropologia,
seja com a comunicação.
Antes de tudo, entretanto,
procede a preocupação de
não restringir a semiótica ao espaço limitado de
uma ciência. Por quê? Não
é esse o conceito difundido entre a maioria de nós?
Mas, pensando o signo, o
sentido, o discurso ou a representação, uma ciência
tradicional poderia fazer
muito pouco. Melhor será
considerarmos a semiótica
uma pesquisa epistemológica que pode e deve tomar
a própria ciência como objeto; é o que apostam os
autores deste livro.
Embora tenha adquirido nova feição somente
no século XX, a história da
semiótica no Ocidente data
de tempos longínquos, o
que pode ser conferido
nas páginas deste livro, que

Algumas semióticas

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indd 3 28/8/2009 18:26:25 .Comunicação e Cultura Julio Pinto Vera Casa Nova Algumas semióticas Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol.

Série. Brasil) Pinto. Comunicação 2.4014 2. 8º andar . Autêntica Editora Ltda. II. Semiótica da cultura : Sociologia 306. Vera Casa Nova.indd 4 28/8/2009 18:26:25 .4014 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. seja via cópia xerográfica.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro.Copyright © 2009 Julio Pinto e Vera Casa Nova projeto de Capa Christiane Costa editoração eletrônica Tales Leon de Marco Revisão Vera Lúcia De Simoni Castro Ana Carolina Lins Brandão Editora Responsável Rejane Dias Revisado conforme o Novo Acordo ortográfico. seja por meios mecânicos. Vera.4014 Índices para catálogo sistemático: 1. Cultura . Semiótica 7. sem a autorização prévia da Editora. – (Comunicação e Cultura) ISBN 978-85-7526-425-6 1. III. 981. Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. 09-08133 CDD-306. – Belo Horizonte : Autêntica Editora. Casa Nova. Cultura : Semiótica : Sociologia 306. Cultura 4. MG Tel: (55 31) 3222 68 19 Televendas: 0800 283 13 22 www. Título. Funcionários 30140-071 . Linguagem 6.com. SP.Modelos semióticos 5. 2009. Rua Aimorés. Belo Horizonte .autenticaeditora. Julio Algumas semióticas / Julio Pinto. Comunicação visual 3. eletrônicos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida. Signos e símbolos I.

.................................................... 31 Capítulo 3 Semiótica: doctrina signorum Julio Pinto ...............................................................................indd 5 28/8/2009 18:26:25 ............Sumário Capítulo 1 Introdução à semiótica Vera Casa Nova e Graça Paulino ...................................................................................................................................... 61 Capítulo 5 Semiótica greimasiana: estado de arte Ana Cristina Fricke Matte Glaucia Muniz Proença Lara ..........................................................................................77 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol........ 7 Capítulo 2 Roland Barthes: a semiologia in extremis Vera Casa Nova ............ 67 Os autores .................... 35 Capítulo 4 Umberto Eco: a popularização dos estudos semióticos Julio Pinto e Vera Casa Nova ..

indd 6 28/8/2009 18:26:25 .Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol.

mas os diversos sistemas de signos. O nome francês aparecera inicialmente em 1916. e um componente conceitual. Saussure define o signo linguístico como a união entre um componente sonoro.indd 7 28/8/2009 18:26:25 . a que se poderia denominar Semiologia. o linguista fazia breve referência à necessidade de se constituir uma nova ciência que estudasse não apenas a linguagem verbal. uma questão. um caminho: semiologia e semiótica Nos anos 1960. de Ferdinand de Saussure. e sua relação é arbitrária. escolhia-se a denominação de tradição francesa – Semiologia – ou inglesa – Semiótica – com o desejo de marcar posição no polêmico quadro das pesquisas que se desenvolveram no século XX sobre as linguagens. quando se publicou o Curso de Linguística Geral.Capítulo 1 Introdução à semiótica Vera Casa Nova Graça Paulino Uma escolha. não há correspondência necessária entre o material sonoro 7 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. Ambos. enquanto sistemas de signos. o significante. o significado. A Linguística seria apenas uma pequena parte dessa ciência geral das linguagens. Sem perder muito tempo com o assunto. tanto o significante quanto o significado. isto é. são linguísticos.

sem ampliar sua pesquisa para outras linguagens. a constituição da nova ciência. dominante na semiótica norte-americana. uma doutrina dos signos. A distância entre a semiótica americana e a europeia cada vez mais se acentuaria.indd 8 28/8/2009 18:26:25 . 1977. que passava pela necessidade de se nomear adequadamente esse campo de estudos das linguagens. entretanto. não se ocupou especificamente da língua. em 1964. embora assumindo as bases saussurianas. fica clara a opção pelo outro termo – semiótica – disseminado que estava o uso do termo na França. Peirce constrói um aparato filosófico voltado para questões relativas à percepção e à cognição. suas causas.Comunicação e Cultura e o conceito. não só se dedicando à construção dessa nova área de conhecimento. seus processos. Dedicando-se à Lógica e à Matemática. Charles Sanders Peirce. o qual. afastando-se dos modelos puramente científicos. que se daria algumas décadas mais tarde. como o linguístico. Anuncia. e relacionando-as ao “conjunto do saber e da escritura”(Barthes. visto que os primeiros se deteriam na 8 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. que se dedicaria ao estudo dos modos de se obter e comunicar o conhecimento. ou semiótica. introduz uma divisão das ciências que inclui. no século XVII. Já na obra de Greimas. sem necessidade de estarem organizados em sistemas. Saussure se prende ao código verbal. em 1966. mesmo se mantendo afastada qualquer aproximação para com o paradigma peirciano. Sua Semiótica trata dos signos em geral. além da Física e da Ética. ao contrário deste. Emprega “semiótica” com a preocupação de manter-se fiel às origens gregas do termo. p. pensador americano contemporâneo de Saussure. Como linguista que era. como também reintroduzindo a questão terminológica. ao mesmo tempo em que assim assume o diálogo com o filósofo inglês John Locke. Os estruturalistas aproveitaram a sugestão de Saussure. abre outras perspectivas para as pesquisas semiológicas. suas formas sígnicas. Elementos de semiologia. Semântica Estrutural. Quando Roland Barthes publica. 7).

pensador dinamarquês. Semióticos. com o tempo. e de tantas outras. não só linguísticos como não linguísticos. Entretanto. Na Europa. simplista. definindo oficialmente uma escolha que iria tornar-se de uso corrente. de uma Semiótica do Gosto. portanto. Hjelmslev prefere o par expressão/ conteúdo. pensamento. todos os códigos não linguísticos. cuja relação resulta naquilo que ele chama “função semiótica”. relacionando-se a vários outros campos de conhecimento. em 1943. a formação original grega de “semiótica” (semeiotiké: arte dos sinais) torna-se também adequada a uma perspectiva filosófica como a dos pensadores franceses que tentavam desprender-se de uma tradição racionalista e logocêntrica. mantendo-se em desenvolvimento constante em diversos países da Europa e da América. mas a elas análoga. de uma Semiótica das Artes Visuais. presente no radical “logos”. objetos de estudo da semiologia. Os estudos semióticos na verdade se pluralizam cada vez mais. seus Prolegômenos a uma teoria da linguagem.indd 9 28/8/2009 18:26:25 . Isso permitiu a construção. em que define como “semiótica” qualquer estrutura distinta das línguas naturais. enquanto se tentava ultrapassar a questão terminológica. inclusive em língua francesa. considerando a análise dos signos como apenas uma etapa de seu percurso.Introdução à semiótica análise dos signos. de zoossemióticas. por exemplo. os pensadores se deslocam em direção ao estudo de articulações de formas significantes. em Paris. Ao proporem sua classificação. de ecossemióticas. 9 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. de Semióticas da Música. Em vez de empregar os termos saussurianos significante/significado. afastando-se tanto de Saussure quanto de Peirce. Hjelmslev. seriam. A primeira associação internacional de estudos dessa natureza. trabalham o tipo de relação que o signo mantém com o referente. Na verdade. permanecia o distanciamento entre as pesquisas semióticas francesa e americana. fundada em 1969. Essa separação dicotômica se revelaria. para Hjelmslev. publica. adota o termo “semiótica”.

(Kristeva. menos (ou mais) que uma ciência.indd 10 28/8/2009 18:26:25 . cria-se um campo interdisciplinar diferente. Quando há a recriação de um texto em outro código. por exemplo. passou-se a usar a expressão “sistemas intersemióticos” para designar as organizações sígnicas que integram mais de um código em sua constituição. ou ainda a relação literatura/cinema. Intersemiótico seria. Roland Barthes. seja com a Psicanálise. tal como esse conceito é difundido entre nós. procede a preocupação de não restringir a Semiótica ao espaço limitado de uma ciência. surge uma pergunta fundamental: qual seria o objeto da Semiótica? Seria o sentido. seja com a Antropologia. p. no próprio interior deste discurso.Comunicação e Cultura Essa posição possibilitaria que mais tarde se denominasse de “sistemas semióticos” as linguagens diversas. seja com a Comunicação. que recriou a novela de Graciliano Ramos. o ponto de agressividade e de desilusão do discurso científico. Ponto morto das ciências. quando duas artes dialogam entre si. nos anos 1960. Antes de tudo. construindo um texto de dupla referência semiótica. a semiótica é a consciência desta morte e o relançamento do “científico”. Pensando o signo. É o que ocorreu no filme Vidas Secas. por exemplo. 1974. afirma-se que ela não é uma 10 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. o discurso ou a representação. como o fez. Para além dessas questões terminológicas. Melhor será considerarmos a Semiótica uma pesquisa epistemológica que pode e deve tomar a própria ciência como objeto. uma ciência tradicional poderia fazer muito pouco. ela é. Por extensão. ou como algo capaz de explicar a existência delas. o discurso. com esta consciência. enquanto linguagem que combina um código visual e um verbal. sobretudo. de Nelson Pereira dos Santos. trata-se de uma tradução intersemiótica. o cinema. o sentido. seja com a Lógica. a representação? Dependendo da resposta. 41) Na reflexão que Barthes desenvolve sobre a natureza da semiologia em seu livro aula.

transformando-os em signos. proporlhes um protocolo operatório a partir do qual cada ciência deve especificar a diferença de seu corpus” (Barthes. O objeto da semiótica será tudo aquilo que se colocar para um sujeito-leitor como passível de leitura. entendendo-se este como unidade que se manifesta constituída pela função semiótica. mas também a capacidade de lidar com as particularizações nele introduzidas pelo emissor. estaria pressuposto não só o conhecimento do código em si. Assim. de poluição urbana. conforme o desejo e as possibilidades do sujeito-leitor.indd 11 28/8/2009 18:26:25 . Há uma corrente da Semiótica que considera os sistemas de significação como tendo valor em si mesmos. O objeto se tornará então um sistema de signos. e esse sistema constitui um construto semiótico autônomo. 38). podem atualizá-los: como emissores ou como receptores. ou um signo. Ela poderia ajudar certas ciências. na medida em que é lido em seu lugar. Com relação ao receptor. no uso do código. sendo esta o momento da produção de sentido. Trata-se. de acordo com regras que são condições necessárias para as relações de significação. isto é. ser “companheira de viagem. simplesmente atualizado nos diversos momentos da comunicação. os carros transitando pelas ruas da cidade podem ser lidos como signos de poder econômico. De duas maneiras os “usuários” desses sistemas de significação. de uma semiose que depende tanto da existência prévia do 11 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. pela relação estabelecida entre significante e significado. de qualquer modo. pela própria organização interna. os signos só têm condição de existência num sistema. Essa estrutura sígnica seria preexistente. etc. embora tenha relações com a ciência. fala-se em competências e intenções do emissor. unindo entidades ausentes e presentes. de design automobilístico. O signo substitui o objeto. impossível de ser acessado. A leitura vai semiotizar os carros. p. os códigos. Ausente está o objeto em si.Introdução à semiótica disciplina. Por isso. 1989. Para os que assim pensam. independentemente do leitor. em sua inserção social.

Esses foram considerados signos de poder econômico. Importam as inserções do sujeito. esse funciona como suporte. Os odores. No momento em que não é apreendida em si mesma. Tudo se constrói no momento da leitura de mundos. como no exemplo dos carros na rua. que corresponde à própria construção da cultura. como direção. não isoladas. a natureza se torna cultura e é semiotizada. mas é interpretada. da interpretação. independentemente da existência prévia de um sistema de significação.indd 12 28/8/2009 18:26:25 . como limite. Entretanto. A Semiótica do código considera esse momento apenas como um segundo momento. Outra ainda é a perspectiva de uma Semiótica que considera a semiose como uma ação possível. deve considerar que tal processo ocorra no momento da leitura. assim como importam também as condições de interlocução na configuração histórica do próprio código. transformada em portadora de sentidos. como possibilidade.Comunicação e Cultura código. mas interdependentes. não há mensagens propositais aí incluídas. como também da possibilidade de atualizá-lo num momento concreto de comunicação. e o mais estável. a ponto de permitir sua abordagem pela Linguística desconsiderando-se as interferências individuais. Isso se dá especialmente quando a Semiótica trata da língua. Desse modo. que seria de todos o mais organizado. é muito pouco o ato de atualizar. Melhor se posiciona a Semiótica quando considera dialeticamente as instâncias de significação. Não há intenções. embora não houvesse um sistema de linguagem preestabelecido. não há emissor. inteiramente dependente de uma estrutura prévia. Para que uma Semiótica integre esse tipo de produção de sentido. e não num momento prévio. Mas isso não é tudo. seu lugar. Se há um sistema. quando se pensa na complexidade e na importância desse momento da comunicação. sua interferência. em cada ato concreto de linguagem. por 12 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. até a natureza se torna signo ou sistema de signos. do código verbal. Estaria mais próximo de um ato de reconhecimento do que de um ato de produção.

Somos.Introdução à semiótica exemplo.indd 13 28/8/2009 18:26:25 . ao falar dos odores da mulher: O perfume Leitor. Baudelaire. e das vestes. (Baudelaire. 1995. em O perfume. Assim o amante sobre o corpo amado à flor mais rara colhe o que perdura. poetiza essa experiência. capazes de produzir sentido sobre sentido. quem sabe. mas que 13 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. tens já por vezes respirado com embriaguez e lenta gostosura o grão de incenso que enche uma clausura. todos os seres humanos estamos constantemente interferindo nos sistemas convencionais de organização de sentido. p. veludo ou musselina. impedindo que se tornem estáticos. Patrick Suskind. nunca estão colados aos corpos de que parecem emanar. produz outro sentido para a sua percepção. ou de um saquinho o almíscar entranhado? Sutil e estranho encanto transfigura em nosso agora a imagem do passado. ébria almofada. Embora poucos se dediquem a pensar esse fenômeno. nunca são neutros. um perfume de pelos se evolava. interferindo no sentido tradicional da perfumaria. visto que é uma pretensão julgarmos que apenas os homens são capazes de produzir sentido. linguagens sobre linguagens. Como essa personagem. que sua tenra idade penetrava. ou. até também da vida de outros animais. Turíbulo de alcova. vinha uma essência rútila e indomada. Da cabeleira espessa como crina. n’As flores do mal. porque isso corresponde à nossa existência cultural. ao captar fortemente o perfume das coisas. sua existência faz parte da própria vida humana. Isso não quer dizer que a cultura seja apenas significação ou comunicação. 195) Ainda no mesmo percurso semiótico. que se cristalizem. sim. constrói uma personagem que.

propor-lhes um protocolo operatório a partir do qual cada ciência deve especificar a diferença de seu corpus” (Barthes. Uma história da Semiótica Embora tenha adquirido nova feição no século XX. ser. comprometidas. esse campo de conhecimento constituiria uma Semiótica Geral. suas posições são sempre parciais. precisa participar do jogo para assistir a ele. em suma. Não tem como objetivo falar do signo fixo e imutável. dialogar com a Filosofia e as Ciências Humanas. sua companheira de viagem. para pensar sobre ele. Desde os gregos. trabalhar os dados culturais numa perspectiva semiótica que vai. porque se faz também de signos históricos. p. 38). mas um espaço discursivo de circulação e arejamento. “ela pode ajudar certas ciências. suas faltas e seu fascínio. a Semiótica tem uma longa e difusa história no Ocidente. é no âmbito filosófico que se desenvolve uma reflexão mais aprofundada sobre linguagens e signos. então. (Eco. 1980. pode ser entendida melhor se for abordada de um ponto de vista semiótico. que os objetos.. nem uma ciência. capaz de lidar tanto com os pequenos atos cotidianos quanto com as ideologias. é constante a preocupação com os signos.. Assim. A expressão semeiotiké techné era usada na Grécia para designar a prática de diagnose e prognose na Medicina. 14 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. a Semiótica constrói uma linguagem. em sua complexidade. Por sua abrangência. 1989. os comportamentos e os valores funcionam como tais porque obedecem a leis semióticas. vivenciando seus poderes.indd 14 28/8/2009 18:26:25 .Comunicação e Cultura [. relativas.] a cultura. Quer dizer. por algum tempo. tanto com os sintomas quanto com o diálogo entre médico e paciente. 21) Podemos. Entretanto. Não está de fora. nesse caso. p. tanto com as línguas “naturais” quanto com os sinais de trânsito. Nem propriamente uma disciplina. Acontece que. tanto com a estética quanto com a comunicação de massa. para falar das linguagens.

conduzindo essas ideias ao mundo sensível. numa construção de conhecimento que equivale a uma fundação de mundo e de linguagem. p. assim. (Platon. Sua teoria das ideias puras e eternas transforma a linguagem numa representação realizada a posteriori. Há. Distanciando os lugares do mito e da poesia daquele da filosofia. qualquer poder da linguagem. o nome é um instrumento que serve para instruir e para diferenciar e distinguir a realidade. [. Sócrates afirma: Assim. Há. mito e filosofia. uma prática. e.. Em Crátilo. eles ficam num espaço que aponta para a fusão entre o que se diz e o modo de dizê-lo. e “de maneira adequada” significa de forma conveniente ou própria para instruir. um diálogo platônico em que se questiona a exatidão das palavras. Por isso não podemos dizer que há em seus textos uma reflexão explícita sobre a linguagem. que seria mera cópia das cópias que são as coisas. por conseguinte. Os estoicos parecem ter sido os primeiros a chamar a atenção para os signos não linguísticos.. o que demonstra bem a prevalência do referente sobre a linguagem que é considerada mero instrumento de acesso a ele. então. Não se distinguindo em sua época poesia. “de forma adequada” quer dizer de forma adequada ou conveniente ao tecido ou à arte de tecer. 512) O tecido corresponde à realidade. da mesma maneira que a lançadeira faz o tecido. se servirá da lançadeira de forma adequada. Para eles. no pensamento de Platão.indd 15 28/8/2009 18:26:25 . um bom instrutor se servirá de “maneira adequada” do nome. um centramento no significado.Introdução à semiótica A situação dos pré-socráticos mostra bem a interferência de uma concepção de linguagem e de pensamento em todo o processo de significação. a perspectiva de Platão já é bem outra ao pensar a linguagem. o significante 15 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. Platão retira. uma crença e uma filosofia que se fazem linguagem. que é o mundo das ilusões. 1977.] Um bom tecedor. ao mesmo tempo.

Outro importante componente da semiótica estoica é a ideia de que os signos são tripartidos. ao separar ideias. ao determinar a relação entre pensamento e elocução. o poeta e pensador romano Lucrécio. não se sujeita a um raciocínio. O significante. Aristóteles afirma: O pensamento inclui todos os efeitos produzidos mediante a palavra. que são convencionais. 16 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. 89) No Livro IV de seu poema “De rerum natura”. sendo “corpóreo”. (Aristóteles. e “signos”. e dos modos de organização dos diferentes códigos. que identifica o bem soberano ao prazer do corpo encontrado na cultura do espírito.indd 16 28/8/2009 18:26:25 . Embora tenham vivido antes dos estoicos.Comunicação e Cultura e o significado. discorre sobre a doutrina das imagens. o terror. a ira e outras que tais) e ainda o majorar e o minorar o valor das coisas. Trata também dos efeitos de linguagem. embora distintos. tanto na Poética quanto na Retórica. enquanto associadas às paixões e às sensações. os signos podem ser interpretados pelos seres humanos nas mais variadas situações de vida. desvinculados dos processos lógicos. isto é. das interpretações em seu processamento mental e emocional. 1966. Aristóteles. subdivididos em “nomes”. dele fazem parte o demonstrar e o refutar. que são naturais. p. Platão pensa a língua como representação infiel das coisas. constituem-se de um sinal físico. Trata dos símbolos. Assim. suscitar emoções (como a piedade. que. Platão e Aristóteles trataram apenas dos signos verbais. numa perspectiva epicurista. em que se inclui a relação com a natureza. Entretanto. ocorrem simultaneamente na linguagem. ou simulacros. coisas e signos linguísticos. parece sensível a questões semióticas. o que quer dizer que a coisa significada não precede o signo. seriam também representações infiéis das ideias. por sua vez. Na parte referente à tragédia na Poética. o filósofo assume também um modelo triádico da linguagem. uma configuração mental e um objeto a que se referem.

uma “ciência” ou “doutrina” geral dos signos. alguns desses leitores. semioticista norteamericano.. por Agostinho – é grande parte desenvolvimento distintamente latino da consciência semiótica.] Resultante da tensão dessa oposição – provocada. para Lucrécio. sem que essa unificação tenha sido conseguida. Lambertini e Tabarroni (1986: 65-66): Foi Agostinho quem primeiro propôs uma ‘semiótica geral’ – isto é. 130). O papel de Santo Agostinho nesse pano de fundo grego e romano foi bem captado num resumo descritivo recente de Eco. sentem necessidade de interpretar essa sua prática. p. [. Michel de Certeau (Chambers. A semiótica medieval se desenvolve em função da leitura do texto da Bíblia. ao analisar a época de crise da ordem medieval. por assim dizer. em que o respeito pelo texto lido é tanto que ainda 17 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol.. caracteriza o processo que denomina “leitura absoluta”. como Santo Agostinho e São Tomás. mas. em que o signo se torna o genus do qual palavras (onomata) e sintomas naturais (semeia) são espécies. ao mesmo tempo.Introdução à semiótica A linguagem não seria. A semiótica medieval conhece nesse ponto duas linhas de pensamento possivelmente unificáveis. De Certeau assim define os estágios do processo: o começo. O maior e último filósofo da linguagem na Antiguidade foi provavelmente Aurélio Agostinho. O leitor dos textos sagrados tem de cuidar para que sua tradução seja fiel. mas no seu caráter natural e utilitário. 1982). Segundo John Deely (1990. fundamentada em convenções. conhecido como Santo Agostinho.indd 17 28/8/2009 18:26:25 . quando os leitores começam a extrapolar os limites de fidelidade ao texto lido. adquirindo voz própria. Trata-se de uma reflexão religiosa sobre a linguagem e sobre a maneira com que esta representa a vontade de Deus. acabando assim por pensar a linguagem.

que corresponde à marca. formando redes de semelhanças e conveniências. Nada está isolado.d. Nesse contexto de indagação sobre o ser da linguagem. O Renascimento institui uma visão pansemiótica do universo. com a crise da religiosidade medieval. numa relação de ajustamento. p. Quando Boticcelli pinta O nascimento de Vênus. tal era o título de toda a linguagem. que deriva dessa marca. s. evidenciando a integração harmoniosa dos diversos níveis de existência. a devoração. em que todos os elementos se comunicam. a sua maneira de se anunciar e de formular o seu direito de falar” (Foucault. desenvolve-se a ideia de uma complexa configuração dos signos. sendo o seu conteúdo assinalado por essas próprias marcas e pelas semelhanças que as ligam às coisas. que inicialmente seria o texto bíblico. Nesse momento. o leitor se assume como sujeito de uma nova enunciação. deixando de habitar esferas metafísicas. a separação. 18 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. 34). que não seria mais visto como reflexo da vontade divina. quando o leitor passa a considerar o texto um lugar de trânsito que ele atravessa para chegar ao que ainda pode ser por ele.indd 18 28/8/2009 18:26:26 . quando o leitor se deixa marcar. associadas à teologia. Esse texto lido. A linguagem mantém uma relação de semelhança para com as coisas do mundo: “Teatro da vida ou espelho do mundo. instala-se também outra postura quanto à fidelidade da linguagem com relação ao mundo natural. leitor. ainda uma vez. quando o texto se torna espaço de gozo. Desenvolve-se. o conteúdo. tudo se relaciona. dito.b. passa a ser o mundo e qualquer outro texto. que corresponde à própria relação do homem com a linguagem. No Renascimento. Esses são vistos como marcas sobre o mundo. e esta se desloca para o mundo.Comunicação e Cultura impede o diálogo. O mundo antropocêntrico do Renascimento humaniza a linguagem. a relação de semelhança tanto da forma quanto do conteúdo para com a coisa designada. Assim se processa uma semiose. o reino vegetal parece surgir da boca da deusa. o jardim das delícias. a concepção ternária do signo: a forma.

a par do próprio mundo natural. essas relações. tanto no seu papel de emissor. que precisam ser decifrados. “Conhecer será. a astrologia permanece fiel a essa concepção das interferências significativas dos astros sobre todas as formas de vida. O ser humano permanece no centro do processo todo o tempo. pois.d. sinais. As semelhanças começam a passar pelas escolhas de caminhos nas interpretações: nem tudo corresponde a tudo. em certo momento. constrói estruturas possíveis. interpretar: ir da marca visível ao que se diz através dela e que. estabelece uma sintaxe. pois. quase imobilizado enquanto processo semiótico. O texto interpretável é aquele demarcado por 19 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. o conhecimento do mundo exige um levantamento dessas marcas e a sua decifração no universo renascentista. adormecida nas coisas” (Foucault. que institui limites ao universo ilimitado. sem ela. Há restrições que organizam o processo de interpretação. organizando o mundo como linguagem: relaciona os diversos componentes. Além da astrologia. Um desses microcosmos que se fortalece no Renascimento é o da escrita. dando sentido aos aparentes acasos. exigindo a participação do homem. determinando os destinos. uma delimitação. permaneceria palavra muda. p. tudo ficaria lento demais. Não se pode percorrer todos os elementos do universo para interpretar um signo. Os signos naturais poderiam ser descobertos. na medida em que o tornam possível. várias teorias insistem nessa visão pansemiótica do universo.b. Existem marcas. enfim configura toda uma gramática natural das harmonias.Introdução à semiótica Entretanto. 54). s. Segundo Foucault. se assim fosse. essas correspondências não são imediatamente apreendidas pelo homem. nos quais participam com destaque os astros. Até os dias de hoje.indd 19 28/8/2009 18:26:26 . Introduz-se a noção de microcosmos. decifra as metáforas aparentemente incompreensíveis. Essa gramática sem limites exigiria. entretanto. em que tudo é linguagem e tudo faz sentido. Há um livro do universo que funciona como o livro sagrado. em suma. com seus códigos. quanto no de receptor.

que se deixa imobilizar em sinais de uma linguagem classificatória. a tensão. enquanto se quer divulgar o saber. enquanto objeto cultural. políticas e religiosas de seu tempo. projeta-se uma época confiante. Segundo Robert Darnton. que se constitui no próprio livro. sua rota de expansão. Enfim. p. com a invenção da imprensa. a Renascença opta pela hegemonia do texto escrito. apontando o percurso desse domínio da escrita no tempo: “Durante o século 17. preconceitos. scripta manent. material. Entretanto. A linguagem oral não pode ser tocada. “foi durante o século 16 que os homens tomaram posse da palavra”. impõe-se uma forma de conhecimento instituído. A crise interna do pensamento renascentista equivale à irrupção de uma arte maneirista e de uma visão de mundo que vive o desregramento.indd 20 28/8/2009 18:26:26 . E no século 18 aprenderam eles próprios a ler”. que aposta na escrita. visto que. a semiótica da semelhança. apontada. e se afirma. na harmonia das marcas com relação ao mundo a elas semelhante. reações contra minorias. em que Cervantes constrói um cavaleiro de triste figura que zomba 20 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. da harmonia e do equilíbrio se mostraria incapaz de dar contadas contradições sociais. semiótico. Trata-se de uma organização restrita do universo. o conflito. contra leituras diferentes de mundo. Verba volant. começaram a decodificar o ‘livro’ da natureza. Diz ainda Darnton (1992. e permite o controle do processo de enunciação e de leitura. somente através da materialidade da escrita. retida.Comunicação e Cultura uma visibilidade que é a da escrita. com sua poesia oral. se acerta. visto que. grupos de divergência político-religiosas. numa linguagem em que o homem se inscreve. Só nesse pequeno mundo organizado e confiável da escrita se poderia pensar a enciclopédia como forma de compilação do conhecimento. De fato. que tem suas regras específicas de manifestação. Há perseguições. após 1500. Um dos exemplos disso é a história do Quixote. O livro inicia. ao contrário da Idade Média. 232). e controlada por mecanismos de poder. a palavra poderia ser assim “possuída”.

uma concepção binária do signo: a coisa que representa (significante) e a coisa representada (significado). a verdade universal dos signos. Inverte todos os valores e todas as proporções. O humanismo renascentista se restringe. uma proposta de gramática universal. Institui-se. A sintaxe toma o lugar central da gramática. A partir do final do século 17. Em 1660. pois julga a cada instante decifrar signos. não pode ser considerada em seu caráter fragmentário. e as pessoas umas pelas outras. 21 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol..d. s. escrevem a chamada Gramática de Port Royal.] é o jogador desregrado do Mesmo e do Outro.Introdução à semiótica da verdade dos signos. não só dos textos da tradição. reconhece os estranhos. Nessa perspectiva.a. mediada pelo homem.. e. derivada da lógica racionalista tomará o lugar da similitude renascentista. e impõe uma máscara.indd 21 28/8/2009 18:26:26 . agora. que nega validade ao que as línguas têm de diferente umas das outras. correspondendo à ordenação das partes por uma lógica imutável e natural de todas as línguas. pois não mais deixa espaço para a diferença. o estabelecimento da gramaticalidade é impensável. Segundo Foucault. julga desmascarar. espelho do pensamento. na concretude das linguagens que se disseminam socialmente. 74) A “paz” da linguagem da Renascença precisava ser recuperada. assim. Toma as coisas por aquilo que elas não são. dentro do rigor racionalista e universalista que se enrijece como reação à babel do barroco. O que fundamenta essa universalidade é a lógica das ideias. já que. mas isso não mais seria. (Foucault. possível. p. no século 17. como também dos de sua época. Lancelot e Arnauld. dois franceses. é claro. ignora os seus amigos. a semântica só pode ser entendida como parte da lógica. Quixote [. em sua unidade: a razão é universal. sim. Sendo a língua mera representação das ideias. Torna-se impossível trabalhar com uma teoria das significações. que faz uma leitura discordante.

acentua-se a tendência de unir o estudo dos signos à Filosofia. são consideradas imperfeitas. Locke. não há lugar para a arbitrariedade.indd 22 28/8/2009 18:26:26 . Berkeley. Mistura-se. Hobbes. visto que as primeiras precedem e presidem a existência das segundas. a teoria da linguagem à teoria das ideias. 43). como Leibniz. Nessa teoria geral dos signos. mais tarde. às coisas em si. Na Idade Moderna. que ficam fora do percurso do sentido. Os lógicos buscam leis universais. suas similitudes alógicas. desde a recepção até a compreensão final do signo. e seu modelo é a matemática. p. Nelas não há. O signo deixa de ser pensado em seu modelo triádico (que inclui a coisa significada). a linguagem da ciência é que seria a linguagem bem feita. para assumir a binaridade significante/significado.Comunicação e Cultura Como assinala Winfried Noth (1995. especialmente em sua vertente constituída pela Lógica. excluindo os referentes externos e concretos. Entretanto. com suas metáforas. assim. assim. em sua relação com os conceitos. O significado como produção mental passa a fazer parte da história da linguística. As línguas naturais. Por isso. Assim. a separação do significado com relação ao referente. em que os valores se 22 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. Por outro lado. abre um primeiro e antigo caminho para uma abordagem estruturalista. É como se a linguagem pertencesse exclusivamente ao âmbito da Razão. correspondência perfeita entre signo e significado. capaz de trabalhar os códigos como sistemas de relações. abrindo o caminho que dois séculos depois seria trilhado por Ferdinand de Saussure. como percebe Condillac. Grandes pensadores. imprecisas. revelam que o ponto de partida para o percurso da semiótica se torna a lógica e a epistemologia. O racionalismo que conduz a semiótica do século 18 exclui da reflexão sobre as linguagens o imaginário. Bacon. por isso. essa linguagem se basta a si mesma. todos anglo-saxões. essa “mistura” das ideias com as palavras nunca é total. que seria. “o processo semiótico fica completamente confinado à mente.” A Gramática de Port Royal institui. arbitrárias. seus deslocamentos e suas fragmentações.

enquanto articulados por semelhanças e diferenças. de ultrapassá-las. atacados tanto por Platão quanto por Aristóteles. velariam a verdade dos sentimentos. por considerarem o sentido um efeito do discurso. Sentem-se mal lidos. visto que o artista quer desnudar sua alma. estados íntimos em geral. para descobrir a essência. alógico? Essa contradição interna da linguagem romântica acabaria por separar mais radicalmente os territórios de uma linguagem científica que se quer colada ao referente. por isso. ou. isto é. embora clamassem pela compreensão. Os sofistas. que é um campo particular fluido. pois. Os românticos consideravam estar ampliando o campo do “dizível”. o espaço possível para a inclusão do imaginário na linguagem seria a estética romântica. de outra linguagem que se mostra metafórica.” Essa era vista pelos sofistas como persuasiva por natureza. ambígua. vítimas de um padrão social que não é capaz de integrar paixões.indd 23 28/8/2009 18:26:26 . Uma linguagem que é persuasão todo o tempo está necessariamente voltada para o outro. Entretanto. No século 18. como falar em verdades. melhor dizendo. As palavras cobririam. Aliam-se. e não por exigências externas. o leitor deveria ser capaz de transpô-las. simbólica. na 23 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. sonhos. neutra e “verdadeira”. a estética romântica funciona quase que como uma negação da própria linguagem. quer uma sinceridade absoluta no que diz. ligadas aos fatos e às coisas. criadora de efeitos de sentido. e. ao referente. se o campo é o dos sentimentos e das paixões. mal entendidos. Mas. objetiva. inauguraram o que poderíamos denominar uma “filosofia da linguagem. sem compromisso com a verdade. Retórica e semiótica Considerar o significado como efeito da própria linguagem já era uma tradição no campo da retórica. seguindo o caminho aberto pelos sofistas na Grécia antiga.Introdução à semiótica formam enquanto opositivos.

Para Platão. Como tal distinção está voltada para o bem na vida pública. Essa visão romana da retórica viria a desenvolver-se sobremaneira no século XIX. A eloquência. isto é. passaram de seu interesse por falar em público a iniciar estudos de filologia e de gramática.Comunicação e Cultura visão sofística. insistindo “no correto uso da linguagem. A dialética deveria permitir a distinção entre o falso e o verdadeiro. não era a prática sofística. Já Aristóteles reafirma as relações entre retórica. A suprema arte seria a Política. Mas é a época de Quintiliano que constitui o apogeu da retórica romana. começando pela gramática e chegando à produção escolar de discursos políticos fictícios. poetas e prosadores.indd 24 28/8/2009 18:26:26 . afirma ele em sua Arte retórica (livro 1). Sua originalidade consiste em refletir sobre o gosto e o estilo. a preocupação com as condições práticas da comunicação e. uma vez que tinha compromissos éticos e se prendia à expressão de ideias anteriores à própria linguagem. “Não se deve persuadir sobre o imoral”. Sistematiza-se seu ensino. inovando pouco no sentido filosófico dessa prática discursiva. As duas grandes obras de Cícero são De inventione oratoria e De oratore. a única retórica verdadeira era a filosofia. Os romanos transformariam os objetivos da Arte retórica em objetivos políticos assumidos. por outro lado. por ter como objetivo maior a garantia de felicidade na polis. Em Atenas. mas com espírito prático e profissional. mostrando suas funções na vida pública. adquire sentido político a ação retórica como um todo. tornada sinônimo da retórica clássica. o desenvolvimento da beleza do discurso. que tratam das qualidades do orador. ética e política. Os sofistas sicilianos desenvolveram os recursos estilísticos voltados para tornar mais bela a fala. não mais com sentido ético dominante. e os sofistas. 24 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. de etimologia e distinção de sinônimos” (Guthrie. dialética. assim se aproximando do que fazem os artistas da palavra. uma pragmática e uma poética. 1988). predominaram interesses educacionais.

Segundo Barilli. mas uma retórica vista como integrante da própria natureza da linguagem. mesmo quando existe a ameaça do engano. (Eco. não existindo a priori uma “coisa” a ser significada. 1971. psicológicos. como também da maneira como esta é resgatada. A Razão teria sido lentamente trocada pela razoabilidade. sinônimo da eloquentia.indd 25 28/8/2009 18:26:26 . de arte da persuasão que era. p. todo significado passa a ser efeito. enquanto se foi ampliando o espaço de discursos dependentes de consensos. em seus diversos estratos e configurações históricas: nobres. uma espécie de morte da retórica clássica. elementos emocionais. construção de sentido. recortada e tornada atuante na situação de discurso. das crenças cegas: Nesse sentido. do exagero. Não mais a retórica seria vista como uma organização dependente de objetivos exteriores à própria linguagem. biológicos de qualquer ato humano. atuações sobre o interlocutor.Introdução à semiótica embora nunca tenha deixado de presidir a educação das camadas dominantes. derivado das Ciências Exatas e Biológicas do século 19. burgueses e outros. 73) A revalorização da retórica poderia ter ocorrido desde o início do nosso século. Tal “desenvolvimento” seria considerado por alguns pensadores. a retórica. e esta jamais se separa da linguagem. querer o emissor persuadir o receptor. como Todorov. religiosos. na medida em que. tais como o de. 25 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. Segundo Umberto Eco. em caráter excepcional. na esteira de uma mudança de paradigmas epistemológicos correspondente ao questionamento do modelo positivista de verdade. nos tempos modernos foi-se reduzindo o número de discursos baseados numa autoridade inquestionável ou numa dedução lógica irrefutável. – quase entendida como fraude sutil – está sendo mais e mais encarada como técnica de um raciocinar humano controlado pela dúvida e submetido a todos os condicionamentos históricos. que depende não só da estrutura estável do código.

Para Nietzsche. antes da psicanálise. ou axiomas. É possível estabelecer um paralelo entre o modo como Freud articula presença e ausência na cadeia discursiva – uma adquirindo significação em função da outra – e o pensamento de Saussure.].. no mundo concreto e relativo. e colocado em outro lugar. de certo modo.. estaria destituído dessa verdade absoluta que julgava portar.d. e o segundo como escolha já concretizada na superfície do discurso que se organiza. funcionando o primeiro enquanto rede de possibilidades. da interlocução (Freud. na visão de Nietzsche. 136) Ainda no século 19. Tratar-se-ia de uma construção de linguagem – uma retórica – dedicada a sustentar o aparato metafísico ocidental. que viria abalar o edifício da teoria clássica do conhecimento. 1972). segundo a pretensão que sempre se manifesta. p. a grande ruptura se daria com o pensamento de Nietzsche. Quando esse processo se organiza simbolicamente na dimensão verbal. Na construção de linguagem que é o sonho. ou postulados. visto que a organização da narrativa do sonho atende aos princípios da sedução. haveria uma metafísica do signo que faria corresponder a verdade ao transcendente. E é ainda acrescentado a este pacote de teorias do obscuro e do confuso o contributo excepcional da psicanálise freudiana [. s. que é o que poderia ter sido 26 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. O filósofo. (Barilli. uma retórica e uma semiótica. Aquilo que está no discurso só adquire significação porque se projeta numa ausência. o global e o complexo. o paradigmático e o sintagmático.. Este linguista propõe a articulação de dois eixos da linguagem. a lógica se torna outra.indd 26 28/8/2009 18:26:26 . de todo o pensamento analítico. impera a lógica do desejo através de deslocamentos e condensações. no âmbito da filosofia. e não certamente a clareza e evidência de princípios. na medida em que vai propor uma teoria das significações que leva em conta a construção de sentidos e a sua reconstrução – interpretação. A psicanálise freudiana constitui.Comunicação e Cultura No princípio há o obscuro e o confuso.

Evidenciando que todo discurso de opinião exige argumentos dirigidos necessariamente a um interlocutor. Somente com Perelman. que marcou a lógica e a teoria do conhecimento ocidental por três séculos. abre a possibilidade de se vislumbrar uma retórica em todo e qualquer discurso. a uma arte de 27 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. mesmo o científico e o filosófico. por exemplo. apenas da cadeia sintagmática. O Tratado da Argumentação de Perelman se apresenta como uma ruptura da concepção de razão e de raciocínio cartesiano. negadas. na linguagem matemática.Introdução à semiótica dito e não foi. faz-se uma espécie de conciliação entre a lógica aristotélica e os novos caminhos das Ciências Humanas e da retórica. há espaço para demonstração e verdade. A linguagem. nos anos 1950. Se a produção de sentido se associa a um efeito do discurso. A superfície do discurso constitui a cadeia sintagmática. O grande mérito de Perelman é reconhecer essa diferença sem transformá-la numa hierarquia. portanto. em que uma linguagem seria superior à outra.. Definindo campos diferentes para as linguagens. a forma como este se apresenta se torna extremamente relevante: [. durante os quais a ausência dessa lógica tinha sido equiparada à loucura dos instintos ou à violência. o entredito e o interdito.indd 27 28/8/2009 18:26:26 . ele admite que. Essa teoria da linguagem. entre o dito. que vai articular o discurso existente com suas dimensões possíveis. enquanto em outras linguagens dominam a argumentação e a persuasão. faz com que a retórica deixe de ser também uma retórica da presença. constituem o eixo paradigmático. Perelman opta pela persuasão como mecanismo dialógico próprio da filosofia e das outras linguagens que não se restringem à demonstração matemática. que permanecem latentes. concebida como arte de bem falar e de bem escrever. Por outro lado. da expressividade. articula-se. verbal ou não. As possibilidades do dizer.. “esquecidas”.] reduziu-se o estudo da retórica.

indd 28 28/8/2009 18:26:26 . retoma a tarefa de Nietzsche. 1970. de sua esterilidade. de colocar a filosofia em outro lugar. de seu verbalismo. e que permitem obter ou ampliar a adesão do interlocutor. Recusamos a separação. Barilli destaca a definição que faz Perelman do público: não só um conjunto de mentes. de conteúdo e forma. e sempre passíveis de revisão. 1986. Contra essa concepção. e recusamo-nos também a estudar as estruturas e as figuras de estilo independentemente da finalidade que elas devem cumprir na argumentação. que não dependem da lógica formal. e do desprezo que ela finalmente inspirou. A visão de Perelman. a proposta marxista de trabalhar a relação linguagem/ ideologia. quando ele se propõe romper com uma concepção cartesiana da razão.Comunicação e Cultura expressão do pensamento puramente formal. que funcionaria como um dos possíveis modelos de argumentação. O desenvolvimento dos estudos sobre linguagem publicitária. p. em certo sentido. (Perelman. expõe opiniões plausíveis. e passa a ser vista como o estudo dos meios de argumentação. Tomando a filosofia como retórica.540). o faz em nome de um “amplo quadro dentro do qual se inserem os múltiplos e variados meios discursivos” (Mora. A filosofia. Perelman transforma também a retórica num campo filosófico. no discurso. fora da verdade absoluta. 2. mas também presenças sensoriais e afetivas. que está na origem da degeneração da retórica. é que nós devemos nos insurgir. com argumentos também dotados de plausibilidade. tradução nossa) Ferrater Mora destaca a importância de Perelman para a filosofia no que diz respeito à caracterização da argumentação filosófica. cujo contexto pode sempre transformar e ampliar o percurso dos sentidos. p. segundo Perelman. A retórica deixa de ter o sentido pejorativo que tinha adquirido no senso comum. e certos encaminhamentos formalistas dos estudos 28 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. A nova retórica de Perelman. 192. Olbrechts-Tyteca.

R. 1989. s.indd 29 28/8/2009 18:26:26 . Aula. cinema. preparado desde o início do século. com a Semiologia. comum. p. ‘a literatura e ‘a imagem” (Barthes. BAUDELAIRE. Referências ARISTÓTELES. R. já que a abordagem semiológica se interessava pelo discurso e pela representação visual. do ponto de vista semiótico. As flores do mal.d. Rhetorique de l’image. 49. São Paulo: Cultrix. 1995. a um verdadeiro renascimento da retórica. a perspectiva retórica estaria reencontrada. São Paulo: Cultrix. R.Introdução à semiótica poéticos levam. Seuil. 1977. tudo isso funciona como linguagem. Arte retórica. surgida em 1961. s. Communications 4. Abre-se como isso a possibilidade de se analisar mensagens não verbais em sua produção de sentido e sua atuação sobre o outro. televisão. 29 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. tradução nossa). como também se desvela a manipulação ideológica que os dirige e sustenta. desenvolve sistematicamente estudos sobre os sentidos das mensagens transmitidas pelos meios de comunicação de massa: imprensa escrita. d. Poética. nos quais se destacam as mensagens publicitárias. C. A revista francesa Communications. (livro 1) ARISTÓTELES. levando-se em conta a rede sociocultural. não só se faz a análise semiológica e retórica dos discursos modernos. Barthes analisa os códigos e as redes de significação de uma imagem publicitária. nos anos 1960. Em 1964. por exemplo. 1966. Tradução e notas de Ivan Junqueira.. Barthes tem como hipótese a existência de uma retórica formal na base de todo sistema de significação: “É provável que exista uma só forma retórica. publicidade. BARTHES. Nesses trabalhos. Porto Alegre: Globo. mostrando que. BARTHES. ao sonho. rádio. fotografia. Elementos de semiologia. Barthes publica um artigo que se tornaria referência para esses novos estudos da retórica: “A Retórica da imagem”. Moda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. são sistemas de signos. BARTHES.

1990. 1992. As palavras e as coisas. São Paulo: Perspectiva.indd 30 28/8/2009 18:26:26 . São Paulo: Ática. 1977. L.b. 181 KRISTEVA. 1995. A estrutura ausente. 3. Obras completas. 1974. Semiótica básica. S. Historia de la filosofía griega. U. Madri: Alianza Editorial.). M. W. Diccionario de Filosofía.Comunicação e Cultura BARILLI. et al.d. FOUCAULT. Tratado geral de semiótica. M. GUTHRIE. CHAMBERS. C. F. 21. v. 1972. 1988. 1980. 1970. p. 3. s. Rio de Janeiro: Imago. NOTH. Panorama da Semiótica. J. R. FOUCAULT. A história da escrita. U. Lisboa: Portugália. A interpretação dos sonhos. v. J. Lisboa: Editorial Presença. 4. As palavras e as coisas.a. Problèmes actuels de la lecture. DEELY. PLATON. São Paulo: Perspectiva. In: BURKE. R.d.d. São Paulo: Annablume. FREUD. 1986. Peter (Org. Retórica. Paris: ClancierGuenaud. W. Introdução à semanálise. Madrid: Editorial Gredos. São Paulo: Perspectiva. Bruxelas: Editions de l’Université de Bruxelles. 1982 DARNTON. s. K. A escrita da história. C. 30 Algumas Semioticas 280809_FINALGRAFICAcarol. R. São Paulo: UNESP.. Lisboa: Martins Fontes/ Portugália. OLBRECHTS-TYTECA. s. p. Madrid: Aguilar. 1971. ECO. MORA. Traité de l‘argumentation. ECO. v. PERELMAN.

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