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A

Influência de Liebman n o Direito
Processual Civil Brasileiro.
Alfredo Buzaid
Professor

Catedrático da Faculdade de Direito
Universidade de São Paulo

da

Capítulo I.
O Homem.
SUMÁKIO: 1. O intuito deste ensaio. 2. A vinda do Mestre
ao Brasil. 3. Os primeiros discípulos de São Paulo. 4. Os
processualistas do Rio de Janeiro. 5. As dificuldades iniciais
do professor.

1. Ao escrever este breve ensaio sobre A Influência de
L I E B M A N no Direito Processual Civil Brasileiro, não intento
fazer u m panegírico, de que o Mestre não necessita e que poderia ofender-lhe a modéstia, menos ainda compor u m juízo
crítico de sua obra, para o qual não m e sinto habilitado, nem
a publicação onde se inserirá este trabalho seria o lugar adequado. Aspiro tão só a oferecer u m depoimento vivo, sincero
e cheio de afeto do discípulo, que testemunha a saudade que
ficou depois de seu regresso para a Itália e o reconhecimento
imperecível pelo magistério que exerceu durante seis anos na
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Estas
páginas traduzem, pois, o penhor da eterna amizade, que se
cultiva há mais de trinta anos.
A vida de ENRICO TULLIO LIEBMAN, conquanto tivesse sido
curta a sua permanência entre nós, incorpora-se definitivamente na história do direito processual civil brasileiro como
u m marco fundamental, como u m apostolado da ciência, como
u m templo do saber. Antes dele houve grandes processualistas, mas não houve escola; depois dele houve escola, no seio
da qual floresceram grandes processualistas. Ele foi u m divisor que, pondo remate a certo estilo de atividade processual,
inaugurou entre nós o método científico, que os seus discípulos abraçaram apaixonadamente.

132 —

2. Foi ao início da Segunda Guerra Mundial que aportou
ao Brasil E N R I C O T U L L I O L I E B M A N , professor catedrático já
aureolado 1. Regeu, a princípio e por pouco tempo, u m curso
na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais.
Depois transferiu sua residência para São Paulo, onde foi
contratado para ministrar o curso de extensão universitária na
Faculdade de Direito, aí permanecendo até 1946. Neste ano
regressa à Itália. A sua Pátria, finda a guerra, reclamava-lhe
a volta, a fim de assumir a cátedra da Faculdade de Direito
da Universidade de Milão.
Começam então os preparativos da viagem entre os olhares
tristes e lamentosos dos discípulos, que anteviam a hora de dar
o adeus ao Mestre. Surgem os primeiros acenos da saudade,
antecipando a melancolia, por já não poderem reunir-se com
o Mestre, como fizeram anos seguidos, e m sua casa, todos os
sábados. Era aí, nesse íntimo convívio, que propunham questões, explanavam temas fundamentais e ouviam as sábias lições.
3. As aulas do Mestre, no curso de extensão universitária, proferidas primeiro e m italiano e logo mais e m português,
eram concorridas. Dos que o assistiram com rigorosa assiduidade, fazendo constantemente perguntas ao Mestre, alguns tiveram a fortuna de freqüentar a sua casa, onde foram recebidos
com a maior cordialidade. Participaram desse grupo Luís E u L Á L I O D E B U E N O VIDIGAL, O primeiro dentre os nossos já livre-

-docente e depois professor catedrático; B E N V I N D O A I R E S , que
domina latim e grego, além de várias línguas vivas, inclusive
alemão; B R U N O A F F O N S O D E A N D R É , inteligência penetrante, que
exercia a função de juiz e já hoje está no ápice de sua carreira
como Desembargador do Tribunal de Justiça; J O S É F R E D E R I C O
M A R Q U E S , também magistrado e mais tarde professor catedrático da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, autor de obras fundamentais; e, finalmente, quem
escreve estas memórias, àquele tempo cultor da ciência do processo e preparando o seu concurso à docência na Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo. Sentados junto a u m a
mesa comprida, e m cujo centro ficava o Mestre, enliçavam-se
nas prolongadas tertúlias, para as quais vinham já preparados
após u m a semana de largas meditações.
1.

E N R I C O T Ú L I O LIEBMAN, Efficada ed Autorità delia Sentenza, posta em

vernáculo por A L F R E D O B U Z A I D e B E N V I N D O AIRES, Ed. Forense, Rio de Janeiro,

1945; Le Opposizioni di Mérito nel Processo d'Èsecuzione, trad. bras. de J. Guimarães Menegale, Ed. Saraiva, São Paulo, 1952.

sendo Desembargador no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Ed. com extenso prólogo. M A C H A D O G U I M A R Ã E S mais reflete do que escreve e viveu sempre torturado pelas mais requintadas meditações. entre outros. 336 páginas. M A C H A D O G U I M A R Ã E S escreve uma tese sobre A Instância e a Relação Processual (Rio. Ê u m autêntico espadachim. Rio de Janeiro. dois notáveis processualistas: Luís M A C H A D O G U I M A R Ã E S e E L I É Z E R ROSA. com a qual alcança a docência livre na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Ed.— 133 — 4. v. onde ocupou a presidência. Este eminente jurista prestou a mais valiosa contribuição para a revisão do projeto. e Estudos de Direito Processual Civil. ambos se dedicavam empenhadamente ao estudo do direito processual civil. 4. artigos e conferências. imensa cultura e curiosidade insaciável. IV. 1939). ELIÉZER R O S A publicou: Dicionário de Processo Civil. Comentários ao Código de Processo Civil. reunidos n u m volume com apresentação de Oto Gil e carta de Eliézer Rosa. de Direito. Forense. não prosseguindo em sua carreira por motivo de saúde. . 1957. ELIÉZER R O S A é u m místico do direito processual civil. Rio de Janeiro. transmitiu aos seus alunos jóias de alto saber. que era a Capital da República. Rio de Janeiro-São Paulo. Do grupo do Rio de Janeiro fazia parte também Luís ANT Ô N I O D E A N D R A D E . Rio de Janeiro. que colaborou com MACHADO GUIMARÃES nos Comentários ao Código de Processo Civil4'. criticando com ardor e veemência3. Carência de Ação e Limites Objetivos do Recurso de Apelação. Ingressou na magistratura. Luís MACHADO GUIMARÃES. IV. Guanabara. sendo expositor diserto e vestindo os seus pensamentos com louçanias de estilo clássico. Outro centro de estudos processuais situava-se no Rio de Janeiro. 1969. dividindo a sua evangelização entre o culto da ciência e a devoção de u m crente. escreveu parte dos Comentários ao Código de Processo Civil. conheceu o Mestre. 1970. 3. nota prévia. 1942. ELIÉZER R O S A criou vários cursos no Rio de Janeiro e. que veio a converter-se no Código de Processo Civil vigente. Seus livros saíram a lume graças ao zelo de amigos e discípulos2. Além da obra já citada no texto. 5. 1962. E m defesa dos princípios fundamentais da ciência sai a combate em livros. ENRICO TULLIO LIEBMAN foi professor no sentido mais completo da palavra. N a curta permanência nesta cidade. Leituras de Processo Civil. v. Inteligências privilegiadas. Os parcos vencimentos do magistério eram assaz insuficientes para atender às condições normais de sub2.

nomeadamente o direito lusitano. cabedal de saber e agudeza de penetração que caracterizaram as obras editadas na Itália. De uma feita. e m que o Mestre provou que dominava c o m absoluta segurança assim o direito positivo vigente. M a s todos têm... É verdadeiramente difícil dizer qual dos seus escritos sobreexcede os demais. em verdade. A atividade intelectual. 83 e segs. elaborada segundo o rigor dos princípios científicos. Vejam-se alguns pareceres reunidos e publicados nos Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro. Os mais brilhantes ensaios foram redigidos pelo Mestre com aquele m e s m o descortino. nos artigos de doutrina e nos comentários a arestos dos tribunais. nos livros. Sugeriu-se-lhe então que desse pareceres. 2. E m qualquer deles há sempre u m a idéia nova e valiosa para a interpretação do direito nacional. SUMÁRIO: 6. 179 e segs. 7. O Labor Científico. O leitor pode preferir u m a outro trabalho conforme suas inclinações pessoais. 6..134 — sistência. declinou amavelmente o obséquio sob a alegação de que.a ed. nas conferências. não podia fazer concorrência aos profissionais que militavam no foro. 5. o que lhe aprazia não era tanto esse gênero lucrativo de atividade intelectual quanto o estudo desinteressado das instituições processuais. Capítulo II. José Bushatsky Ed. para cuja exegese contribuiu sem rival. p. Mas.. Os pareceres são lições de notável cultura e saber. A exegese do Código de Processo Civil. como toda a doutrina anterior. O labor intelectual do Mestre se desenvolve na cátedra. Esse é o homem. com notas de Ada Pelegrini Grinover. C o m verdadeiro custo aceitou a idéia e passou a escrevê-los5. convidado a integrar um escritório de advocacia com o encargo único de arrazoar causas e recursos. . Vieram-lhe e m socorro os direitos autorais devidos pela publicação das Instituições de C H I O V E N D A e da edição brasileira dos Embargos do Executado e da Eficácia e Autoridade da Sentença. n u m país que o recebeu c o m tanta hospitalidade.

ENRICO T U L L I O L I E B M A N .— 135 — quanto à substância. quanto à forma. Tendo entrado e m vigor e m 1940 o Código de Processo Civil. Ed. obedecendo ao método adotado e m Eficácia e Autoridade da Sentença. que adaptou ao direito brasileiro com notas de altíssimo valor. a m e s m a erudição e. apondo-lhes notas com remissões ao direito brasileiro. v. 7 Esta produção do Mestre. p. 141 . 1965. como escrevia. com larga investigação histórica e ricas fontes de direito comparado. VII e seg. Sobre as notas de L I E B M A N . O Mestre trabalhava de modo paciente e tranqüilo.. vigoroso e persuasivo. p. na elegância do seu estilo e na forma sentenciosa dos seus conceitos. introdução às Instituições de Direito Processual Civil de C H I O V E N D A . a monografia intitulada Eficácia e Autoridade da Sentença. convém começar pelas Instituições de C H I O V E N D A . ocorre-lhe a feliz idéia de mandar traduzir as Instituições de C H I O V E N D A . A s notas variam de extensão. publica os Embargos do Executado. Saraiva. de modo claro. ver A L F R E D O BUZAID. H á notas que exaurem o tema e m toda a plenitude6 E m 1945 sai a lume. e m 1952. E . n e m escrevia coisas apressadas. porém. e m interpretá-lo. desde logo. Dentre as obras que publicou. além de incluir outros ensaios7 E m 1947 reúne os seus artigos. Tudo que lhe saía da pena tinha a força e o esplendor de u m estudo profundamente meditado.a ed. Conquanto seja obra eminentemente doutrinária.° 1. o m e s m o rigor. ocupa-se L I E B M A N . clareza e elegância de linguagem cristalina. durante o qüinqüênio de sua permanência no Brasil. de 18 de setembro de 1939. e segs. N ã o tinha pressa de escrever. conferências. teve o mérito de fixar e m base definitiva a doutrina do Código de 1939. baixado pelo Decreto-lei n. outras. Ele falava. que transmite a beleza dos seus pensamentos sem ostentação. U m a s são de mera correspondência entre o direito italiano e o direito brasileiro. O fascínio do seu magistério estava na simplicidade de sua exposição. posta e m vernáculo. com ser quantitativamente satisfatória. 2. pareceres e comentários a acórdãos no volume designado por Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro.608. 6. Eficácia e Autoridade da Sentença. são verdadeiros estudos sobre as instituições processuais. Ninguém o via titubear. enriqueceu-a o Mestre com u m prólogo e notas de acomodação ao direito brasileiro. tinha sempre a segurança do sábio. 7. I..

Este livro cuida de procedimentos especiais. . A ação como categoria autônoma e as ações especiais. outra e b e m distinta é a ação especial. que o acolheu e m suas linhas básicas. isolando-a do direito subjetivo.° Considerações Gerais. M a s u m a coisa é o conceito de ação.— 136 — Capítulo III. A análise do primeiro requer u m a apreciação geral das suas idéias. Livro III — do processo cautelar. Livro II — do processo de execução. 43 e segs. Livro V — das disposições finais e transitórias. basta que as observações se cinjam aos três primeiros livros. Para a verificação das idéias do Mestre. a que correspondem ações geralmente nominadas. Enauanto aquela tem três condições. 8. no qual a sua influência opera por repercussão. § 1. Considerada e m sua natureza. L I E B M A N . A influência das idéias de LIEBMAN há de ser considerada no plano dos conceitos e no plano da política legislativa. p. típica. 9. que o Código de Processo Civil consagrou. estas têm condições 8. A Repercussão das Idéias de Liebman no Código de Processo Civil Vigente. a ação é u m a categoria jurídica autônoma 8. que proclama a autonomia da ação. SUMÁRIO: 8. 10. mantendo-lhe a unidade fundamental. Classificação das ações especiais. sendo a matéria distribuída da seguinte forma: Livro I — do processo de conhecimento. 9. nominada. O estudo do segundo dá u m a clara perspectiva da repercussão do seu sistema no Código de Processo Civil. da sua doutrina. A influência de Liebman no plano dos conceitos e no plano da política legislativa. do seu pensamento no direito processual civil contemporâneo. Problemi dei Processo Civile. Livro IV — dos procedimentos especiais. que são necessárias e suficientes para a sua admissibilidade. O Código de Processo Civil compõe-se de cinco livros. não havendo mister detido exame do livro IV. Esta solução de política legislativa não se divorcia da doutrina. classificados em duas espécies — procedimentos de jurisdição contenciosa e procedimentos de jurisdição voluntária.

outras pela finalidade a que se propõem (ex. m a s como critério de determinação da legitimidade ativa e passiva9. . A s ações especiais. outras e m todo o desenvolvimento da relação processual (ex. invocando a redação do art. 10. A s ações especiais são. por requisitos específicos e m consideração do fim a que estão preordenadas. O legislador de 1973 colheu a este respeito os melhores subsídios da doutrina moderna e reduziu ao mínimo indispensável as chamadas ações de procedimento especial. divisórias e demarcatórias) e. sobre terem tal poder. I. Instituições. dotadas de u m plus. no Livro IV.— 137 — próprias. vê aí u m a contradição com a doutrina abstrata da ação. qualificam-se. n. a crítica feita por C E L S O A G R Í C O L A B A R B I que. esta afirmação não subentende o dualismo — direito subjetivo e ação. A inclusão delas. Forense. Este fato não desnatura o caráter abstrato da ação. finalmente. CHIOVENDA. entretanto. p. Quando por exemplo. portanto. sem prejuízo das outras condições. 1975. Diritto Processuale Civile. mobiliárias e imobiliárias. p. que serve para lhes dar a conotação adequada e m correspondência com o tipo de direito material que a ordem jurídica positiva estabelece. 111. possessórias). Por outro lado. devendo reputar-se a expressão legal "direito de exigi-las" não como grau de subordinação à relação jurídica material. senão na necessidade de lhes estabelecer procedimento especial. abraçada pelo Código de Processo Civil (Cf. C E L S O AGRÍCOLA BARBI. indicando não tanto a preexistência do direito deduzido e m juizo quanto a espécie da matéria sobre que se controverte. dadas as peculiaridades que as qualificam. pois. algumas e m seu momento inicial (ex. não podia o Código omitir a clássica divisão das ações e m pessoais e reais. Cf.. E m outras palavras. o Código de Processo Civil estatui que "a ação de prestação de contas competirá a quem tiver o direito de exigi-las ou a obrigação de prestá-las" (art. A menção dessas espécies de ações típicas e nominadas obedece aos imperativos da realidade e tem o mérito de atender a u m a tradição duas vezes milenária. a ação é o poder jurídico de invocar a prestação jurisdicional. Não procede. 914). inventário de bens do falecido).° 10. 10.a ed. v. que caracterizam a ação. 44). cujos bons resultados a doutrina há longo tempo proclama 10 . 7. que visam a individuá-las. I. 9. não se funda. SATTA. pois. petitórias e possessórias e muitas outras. Comentário ao Código de Processo Civil. 914 do Código de Processo Civil.

cuja afirmação e atuação se reclamam. São Paulo.— 138 — Por considerações peculiares ao direito brasileiro. não se justificava politicamente a separação. I. foram incluídos no Livro IV os procedimentos de jurisdição voluntária. 11. v. 13. Doutrinas fundamentais. que preparam o seu ensaio fundamental sobre UAzione nel sistema dei Diritto Processuale Civile"13. Partidário desta teoria. I. Instituições. 97 e segs. 11. 14. com notas de Ada Pelegrini Grinover. tema tormentoso do direito processual civil. p.. Optou pela primeira solução não só para ser fiel à tradição. p. C H I O V E N D A . Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro. que procuravam explicar a natureza jurídica da ação.. SUMÁRIO: 11. a ação15. Era livre o legislador de tratar esta matéria. 1947.a ed. p. 19. 12. como também porque. Ano XIII. Dito já o essencial à guisa de considerações gerais. levou L I E B M A N às mais profundas meditações. A esse tempo eram b e m conhecidas as correntes principais. 107 e segs. 12. enquanto permaneceu na América. correndo perante órgãos do Poder Judiciário.. Handbüch. n. 1940. W A C H . ou reunindo no Código tais procedimentos. p. Concepto de Ia Acción Civil. 2. L I E B M A N . Problemi dei Processo Civile. p. cabe-nos agora descer à análise da influência de L I E B M A N no plano dos conceitos fundamentais. 13. como também por sustentar que objeto do processo é a vontade concreta da lei.° Da Ação e Das Condições de Sua Admissibilidade. isto é. L I E B M A N . L I E B M A N . deu-lhe C H I O V E N D A conotação original. assim como o próprio poder de reclamar-lhe a atuação. em "Revista de Estúdios Jurídicos y Sociales". foi nestas terras que escreveu Concepto de Ia Acción Civiln e o seu famoso estudo sobre O Despacho Saneador e o Julgamento do Mérito 12. U m a a considerava direito concreto. Cf. não só ao considerar a ação u m direito potestativo. O conceito de ação. Montevideo. ou ordenando-os e m lei especial.°s 6 e 15. Condições de admissibilidade da ação. 22 e segs. Saraiva & Cia.. 217 e segs. que se resolve no direito a obter do Poder Judiciário u m a sentença favorável14. Conceito de ação. § 2. 15. O Código de Processo Civil vigente consagra a doutrina de Liebman. .

admitem condições da ação. Estudos. I. p. m a s o exercício de u m a função por parte de órgão do Estado e u m a sujeição por parte do adversário. N ã o é essa. a única distinção. p. Estudos sobre o Processo Civil Brasileiro. de pronunciar a espécie de decisão requerida pelo autor20. A idéia tem a sua correspondência na doutrina do direito concreto. Por isso lhe corresponde não u m a obrigação.— 139 — A outra doutrina é a da ação havida como direito abstrato. escreve C H I O V E N D A . não direito subjetivo material. desde a posição extremada daqueles autores que reputam a ação direito de obter a prestação jurisdicional.a ed. 2. a legitimidade e o interesse19.. I. 150. consiste e m demonstrar que o material do processo se projeta n u m trinômio: pressupostos processuais. 1 e segs. da maior relevância.a ed. p. 12. 130. 122.a ed. Estudos. esta doutrina tem cambiantes vários. che. "se 1'attore afferma un fatto e da esso vuol dedurre una conseguenza giuridica. Outra. p. 22. "Se Ia norma". ove anche il fatto fosse vero. A possibilidade jurídica supõe. . Principii di Diritto Processuale Civile. assim. já para a segunda a primeira condição (existência do direito) é substituída pela possibilidade jurídica. que não pode evitar os efeitos da ação18. Einlassugszwang. Instituições. n.°s 38 usque 40. L I E B M A N . "a cui l'attore si riferisce non esiste come norma astratta. v. è vano ricercare se sia divenuta concreta. nota 30. p. Rocco. cit. Estudos. L I E B M A N . Sentenza Civile. M a s enquanto para a primeira as condições da ação são a existência do direito. 129. C H I O V E N D A . C H I O V E N D A . 2. Ia domanda è infondata"22. D E G E N K O L B .. 21. na ordem jurídica positiva. condições de ação e lide 21. que reconhece e proclama a justeza do conceito de C H I O V E N D A . para quem a ação é direito subjetivo processual. Instituições.. 16. entendida como a possibilidade para o juiz. na ordem jurídica a que pertence. 124.. porque. p. v. A doutrina do direito concreto e a doutrina do direito abstrato na modalidade construída por L I E B M A N . 3. até os moderados. n. 18. tal como fora pedida pelo autor. 19. porém. p.° 38. N ã o é outro o sentir de C A L A M A N D R E I . desprovida de qualquer condição 16. cit. a existência do tipo de providência. 80 e segs. 20. que lhe põem condições subjetivas e objetivas de admissibilidade17 Desta corrente intermédia u m dos processualistas mais notáveis é L I E B M A N . L I E B M A N . 17 L I E B M A N .

Eis aí as três condições de admissibilidade da ação. não se diz que a ação é infundada. e. quando anche una risposta positiva a simile indagini porterebbe senza dubbio a una risposta negativa ai susseguente problema di diritto"23. p. ou sem julgamento do mérito (art. v. o se. exposto pelo autor na petição inicial. Estudos cit. Todas as outras decisões têm caráter preparatório e auxiliar. ipotesi piü difficile m a piü evidente. 128. E m estreita correspondência com o conceito de ação está o de jurisdição. m a s sim que o autor dela é carecedor.— 140 — non ne deriverebbe. a quem é assegurada a possibilidade de deduzir no processo as razões que tiver para impugnar o pedido. que se expressa nos seguintes termos: "quando não concorrer qualquer das condições da ação. a legitimidade das partes e o interesse processual". LIEBMAN. Studi sul Processo Civile. porque não há na ordem jurídica positiva o tipo de providência jurisdicional requerido pelo autor.. 122. se 1'attore chiedesse Ia morte dei convenuto). cujo concurso é indispensável para que o juiz conheça do mérito da causa. a cujo respeito a lei exige a iniciativa da parte". p. inclui o Código o de n. N o sistema de L I E B M A N . e m toda plenitude.°). prima di decidere il problema di diritto. não só as que conhecem dos pressupostos processuais. como a possibilidade jurídica. conforme as disposições que o Código estabelece (art. o processo se extingue com julgamento do mérito (art. Sendo a jurisdição a atividade do Poder Judiciário destinada a atuar a vontade concreta da lei nos casos e formas legais. 9. a que o Código dedica u m artigo assim enunciado: "Art. p. não suscitadas. A lide é aí o conflito real ou virtual de interesses. só quando o magistrado decide a lide é que se configura. sprecasse il tempo ad indagare se il fatto è vero. Lehrbuch.. Dentre os casos e m que o processo se extingue sem julgamento do mérito. 24. ato declaradamente jurisdicional no sentido mais próprio e restrito. I. O Código de Processo Civil vigente perfilha a doutrina de L I E B M A N .° VI. N a verdade. CALAMANDREI. ROSENBERG. 269). a que o juiz deve dar u m a resposta 24. — in simili casi sarebbe perfeitamente inutile che il giudice. como também as que conhecem 23. ouvindo-se as alegações do réu. 267). O juiz decidirá a lide nos limites e m que foi proposta sendo-lhe defeso conhecer de questões. Tattore pretende un effetto che giuridicamente non può nel vigente sistema legislativo da nessun fatto nascere (p. 1. 397.a ed. . O mérito da causa é propriamente a lide. 13. 8.

o sistema unificado os Códigos de Processo Civil da Itália (art. 27. Execução fundada em título judicial e ação executiva fundada em título extrajudicial. 14. à satisfação do credor. como observa L I E B M A N . e m C H I O V E N D A . 474). quando o título era judicial. Processo de Execução. é atividade que por si nada tem de jurisdicional e adquire esse caráter só por ser u m a premissa necessária para o exercício da verdadeira jurisdição25. A u m simples relance de olhos b e m se vê que as condições de admissibilidade de u m a via e de outra eram distintas. Estudos cit. Estudos cit. . 15. 15. da Alemanha (§ 704 e 794). de ação executiva. de Portugal (art. posto que ambas tendessem. 128. A nova denominação.ser julgada.. Este princípio foi acolhido pelas Ordenações reais e depois pelo Code de Procédure Civil napoleônico de 180G. p. fundada e m título extrajudicial. b) pela ação executiva. O direito costumeiro francês reafirmou energicamente a equivalência das sentenças e dos instrumentos públicos (lettres obligatoires faites par devant notaire ou passées sous seel royal) e reconheceu a ambos a exécution parée. através de u m conjunto de atos executivos. quando o título era extrajudicial.° 88.°). Recusar-lhe o julgamento ou reconhecê-lo possível não é ainda propriamente julgar.° 6. A unificação dos títulos executivos. fundada e m sentença condenatória. pode . Até o advento do Código de Processo Civil de 1973 conheceu o direito brasileiro dois meios de realizar a função executiva: a) pela parata executio. portanto. § 3. L I E B M A N . I. SUMÁRIO: 14. p. Instituições. nota 17. 16. que corresponde à execução propriamente dita27 Promovia-se a 25. diferentes foram os resultados da evolução histórica nos países do continente europeu..° Da Execução. L I E B M A N . como tradicionalmente era conhecida e a ação. pela concorrência dos requisitos prévios. 46) e a Lei de Execuções da Áustria (§ 1. v. Efetivamente adotaram. verificam se a lide. nota 10. L I E B M A N . 26. do qual passou para a maior parte das legislações modernas 26 . n. n. 49. Mas. de ação executória. nos nossos dias.— 141 — das condições da ação e que. Esse dualismo do direito brasileiro levou o Mestre a designar a ação.

dando-lhes tratamento unitário. Função preventiva e ação cautelar. 19. sendo assegurada ampla defesa ao réu e devendo realizar-se a audiência de instrução e julgamento como ato essencial de validade da relação jurídica processual.). que se iniciavam pela penhora. seguia o procedimento ordinário. abria-se u m incidente de mérito que. ou autorizava a execução a retomar o seu curso ou lhe punha termo. m a s tinham desenvolvimento ulterior distinto. se contestada. 1. quanto à ação executória.° 737. — o legislador brasileiro. N e n h u m a razão científica aconselhava a manter o dualismo e preponderantes razões de ordem prática recomendavam a supressão de ações especiais. o direito de impugnação às matérias taxativamente enunciadas no art. na verdade. a evolução da tutela dos títulos executivos judiciais e extrajudiciais. limitava.010. 17. Sob este aspecto manteve a tradição do Regulamento n. O Código de Processo Civil brasileiro de 1939 incluiu-as no Livro V como medidas preventivas sob a epígrafe de processos acessórios (art. através de duas ações. 16. O Código segue a primeira orientação porque. a ação executiva nada mais é do que u m a espécie da execução geral. 18. SUMÁRIO: 17. A ação executiva. ao contrário. conforme a sentença que fosse proferida. portanto. o nascimento dos instrumenta guarentigiata na Idade Média. de 1850 . públicos e particulares no direito europeu continental e no direito brasileiro e a necessidade de dar tratamento sistemático a institutos tão importantes. Entre os bons resultados obtidos pela revisão de conceitos no direito processual civil está a nova doutrina das medidas cautelares. § 4. já considerável e desnecessariamente multiplicadas no direito nacional. que elaborou o Código de Processo Civil de 1973.° Do Processo Cautelar. e por isso reúne os títulos judiciais e extrajudiciais. Se o executado oferecesse embargos. Disciplina jurídica do processo cautelar. era livre de adotar a política de unificação dos títulos executivos ou de manter o dualismo das ações. 675 e segs. O Código de 1939. Graças ao magnífico trabalho de LIEBMAN — que analisa a execução desde a actio iudicati romana até o direito intermédio.— 142 — execução forçada. Poder acautelatório do juiz.

Além dos procedimentos cautelares específicos. erigindo-a à categoria de ação autônoma consoante a função preventiva do processo. 675 e especialmente de seu n. LIEBMAN. n.° 84. Instituições. que se pode dizer que. Tal modo de ver correspondia àquele tempo ao conceito civilístico da ação e retardou o acolhimento das novas idéias que isolaram a medida cautelar. n. I. Fê-lo e m três disposições legais. como organismo processual. u m objeto próprio. quando ainda não se sabe se o direito acautelado existe30. u m provimento final. e m seguida se esforçou por construir a doutrina do poder acautelatório geral. Instituições. LIEBMAN. a idéia preponderante. Instituições. u m a individualidade própria: u m a demanda. sugerindo: "Todavia. prossegue o ilustre autor. v. o juiz dispõe efetivamente desse poder geral" 32. 29. se limitaram a reproduzir. que é a ação acautelatória"28. "também na legislação brasileira omite-se atribuição expressa ao juiz de u m poder acautelatório geral. u m a relação processual. v. v. 31. n. n. titulo VII). 797. 32. na conceituação dessas medidas era a assessoriedade do processo preparatório preventivo ou incidente. CHIOVENDA. posto e m confronto c o m o processo principal. v. I." A segunda estatui: "Art. Só e m casos excepcionais. 798.° 82. nota 10. A primeira reza: "Art. Instituições. observando: " O processo acautelatório tem. n. os termos do art. porque existe como poder atual. Por outro lado. . Mas. em CHIOVENDA. em CHIOVENDA. I. de fato. determinará o juiz medidas cautelares sem a audiência das partes. É mera ação.° 82. 30. nota 10.. como assinala o Mestre. segundo as necessidades e as circunstâncias fora dos casos tradicionais especialmente previstos"31. L I E B M A N ressaltou a doutrina moderna. de que ele se possa valer. que os Códigos estaduais. expressamente autorizados por lei. N a verdade. CHIOVENDA. Instituições. I. v. o poder jurídico de obter u m a dessas medidas é. que 28. conforme a lição de C H I O V E N D A . A outorga ao juiz de u m poder cautelar geral foi reconhecida amplamente pelo Código de Processo Civil de 1973. nota 1.° II são redigidos de modo tão amplo e genérico. Assim falava sobre o Código de 1939. 18. atendendo ao magistério de L I E B M A N . LIEBMAN. ao menos na pendência da lide. em CHIOVENDA.° 82. que não se pode considerar como acessório do direito acautelado. u m a forma de ação. ação cautelar"29. no regime do pluralismo legislativo.° 84.— 143 — (parte I. Durante esse longo período. I.

deu-lhes caráter unitário e sistemático. § 5. A revelia. antes do julgamento da lide. O capítulo I contém disposições gerais. 28. a exibição de coisas. Ação ãeclaratória e ação declaratória incidental. Ampliação dos poderes do juiz. a caução. para evitar o dano. que está dividido e m dois capítulos. A ação declaratória já estava regulada no Código de Processo Civil de 1939 (art.° Disposições Especiais do Código de Processo Civil. 799. finalmente. Conceito de coisa julgada. os alimentos provisionais. 29. 27. O capítulo II abrange os procedimentos cautelares específicos. 26. o seqüestro. 20. Substituição processual. autorizar ou vedar a prática de determinados atos. O processo cautelar constitui objeto do Livro III. a justificação da existência de fato ou de relação jurídica. cause ao direito da outra lesão grave e de difícil reparação". ao tratar de todas as espécies. poderá o juiz determinar as medidas provisórias que julgar adequadas. os protestos. poderá o juiz. o procedimento e a eficácia das medidas. a saber: o arresto. poderá o juiz decretar de ofício medidas preventivas na pendência do processo.°). 25. tendo o legislador brasileiro compreendido que. ordenar a guarda judicial de pessoas e depósito de bens e impor a prestação de caução". Tal é o poder cautelar geral. Fica concluída aqui a análise da influência de L I E B M A N no plano dos conceitos fundamentais. 24. que regem. Importa agora entrar no estudo particular do seu pensamento e m numerosas disposições especiais constantes do Código de Processo Civil vigente. Por considerações peculiares à natureza de cada espécie. o atentado. documentos e escrituração comercial. § 2. e m circunstâncias especiais.— 144 — este Código regula no Capítulo II deste Livro. a terceira dispõe: "Art. a homologação do penhor legal. Surgiu desde logo . Escassez de normas sobre a revelia do Código de 1939. Limites objetivos da coisa julgada. o protesto e a apreensão de títulos e outras medidas provisionais. a busca e apreensão de pessoas e coisas. a posse e m n o m e do nascituro. 23. O dever de lealdade processual. 22. a produção antecipada de provas. o ar rolamento de bens.°. além do poder cautelar do juiz. S U M Á R I O : 20. N o caso do artigo anterior. Ato atentatório à dignidade da justiça. notificações e interpelações. quando houver fundado receio de que u m a parte. E . regulou o Código procedimento próprio. 2. A direção do processo. Mas. 19. 21.

por conseguinte. em CHIOVENDA. porque "quem afirma a ausência de interesse para a ação declaratória quando é proponível t a m b é m a condenatória. . u m instituto denominado ação declaratória incidental. I. tendo o autor a possibilidade de intentar a ação condenatória. para pôr cobro a essa disputa.° 124. em CHIOVENDA. M a s o parágrafo único do art.°. 469. que amplia às questões prejudiciais a coisa julgada. 2. fica excluído o interesse para ajuizar a ação declaratória. nota 6. declarando que "considerar-se-ão decididas todas as questões que constituem premissa necessária da conclusão". N o entender de L I E B M A N .°. 287. com êxito. ambas as ações concorrem.° 66. 4. Instituições. consagrou no art. O princípio dominante a este respeito é que elas são julgadas. LIEBMAN. O direito europeu conhecia e já aplicava. O Código de 1939 não continha nenhuma regra sobre a ação declaratória incidental. n e m por isso carece o autor de interesse processual para propor a ação declaratória. E coerentemente com este enunciado estatuiu que não faz coisa julgada a apreciação da questão prejudicial. n. LIEBMAN. 35. incidenter tantum e. por ser avessa à jurisprudência. decidida incidentemente no processo (art. 34. e m regra. v. no curso do processo. 5. v.— 145 — a conhecida controvérsia se. I.° 124. sem efeito de coisa julgada34. I. n. Instituições. nota 6. de sorte que. à tradição do direito brasileiro e às mais importantes legislações modernas 35 . A nota de L I E B M A N tende a afastar a exegese.°. se o direito já tiver sido violado. Instituições. parágrafo único: " É admissível a ação declaratória. Foi este instituto que o Código de Processo Civil de 1973. v. III). em CHIOVENDA. ao prescrever: "Se. LIEBMAN. que empolgou juristas e tribunais. se tornar litigiosa relação jurídica de cuja existência ou inexistência depender o julgamento da lide. nota 8. estatuiu no art. 33. qualquer das partes poderá requerer que o juiz a declare por sentença". O intérprete não pode restringir a ampla fórmula da lei"38. O legislador do Código de 1973. introduz no art. ainda que tenha ocorrido a violação do direito". parágrafo único do Código de Processo Civil u m a limitação que aí não se contém (como se essa disposição estabelecesse que o interesse na simples declaração deve subsistir somente se nenhuma outra ação for proponível no caso concreto). poderia levar o intérprete a crer que a coisa julgada abrangeria t a m b é m as questões prejudiciais. n.

36. O art. v. estabelecendo no art.° 271. em CHIOVENDA. portanto. distinguindo-se assim da figura muito mais conhecida do representante"36.— 146 — 21. cientes de que são destituídas de fundamento. isto é. II — proceder com lealdade e boa fé. e m nome próprio. 37. 233. dando origem à rica literatura. n.580. n e m alegar defesa. Eis aí u m a definição plenamente satisfatória do instituto. direito alheio.°: "Ninguém poderá pleitear. Instituições." 37 O Código de Processo Civil vigente disciplina. Código Civil. o processo se nobilita quando realiza o direito e se degrada quando passa a ser arma da alicantina. Ora não lhes é lícito agir e m detrimento do processo. os deveres das partes e a sua responsabilidade por dano processual. em CHIOVENDA. 6. L I E B M A N assinala que "essa tendência das legislações mais recentes eqüivale a outra manifestação de abandono da concepção individualista do processo. . sob a influência dos Códigos de Processo Civil da Áustria (§ 178) e da Alemanha (§138). o problema da lealdade das partes ganha excepcional importância. parágrafo único. de dolo ou de improbidade. diz que "a característica da substituição processual consiste e m que u m a pessoa (substituto) atua no processo por u m direito alheio. LIEBMAN. nota 1. não hesitante e m limitar a liberdade das partes e m consideração ao princípio da conduta processual honesta e que. art." E o art. 14 impõe às partes e aos seus procuradores o dever de: I — expor o fato e m juízo conforme a verdade. réu ou interveniente. nota 10. III — não formular pretensões. Desde o último quartel do século passado. O art. M a s no Código de Processo Civil faltava u m a norma que explicitasse o conceito. Código Comercial. n. 517). salvo quando autorizado por lei. substituída por u m a concepção publicística. transformando-o e m meio de fraude. arts. L I E B M A N . A s partes servem-se do processo para conseguir a atuação da vontade concreta da lei. LIEBMAN. m a s no n o m e próprio. II. e m seções distintas. II. como verdadeira parte." 22. n e m praticar atos inúteis ou desnecessários à declaração ou defesa do direito. Instituições. 289. Instituto de direito público. I V — não produzir provas. 17 define os atos que individuam o litigante de má-fé. estabelece a obrigação de só se utilizar do processo para fins e com meios lícitos. comentando C H I O V E N D A . O Código de Processo Civil vigente não hesitou e m adotá-la. 233 e 1. v. 16 estabelece que "responde por perdas e danos aquele que pleitear de má-fé como autor. N o direito positivo nacional há várias disposições legais que indicam casos de substituição processual (Cf.

128. procurando conciliar as duas tendências antagônicas38. como órgão do Estado. Tudo quanto entende com a lide. porém. Ele não pode ser utilizado para fins contrários ao direito.— 147 — 23. que é objeto do processo. como subrogar-se à parte na colheita e formação do material probatório quando ela. C o m efeito. n. a que o juiz. deixa de produzir a prova no prazo e forma legais. serve t a m b é m para apreciar a tendência política do Estado. sendo o juiz. que importem e m sacrificar o princípio dispositivo. para o que está habilitada a requerer as providências que se destinam a esse fim. O Código de Processo Civil vigente realiza o equilíbrio entre as partes. O processo é u m a instituição de direito público destinada à administração da justiça.° 261. este poder é. N a d a obsta. M a s o mérito do legislador está e m estabelecer u m a real harmonia entre o princípio dispositivo e o fortalecimento da autoridade judicial. de sua natureza. sem prejuízo do interesse que tem a parte de ativar o andamento célere do processo. por isso é defeso ao juiz julgar tanto ultra ou extra petita (arts. À parte cabe a iniciativa de ajuizar a ação. A concepção publicística. Instituições. 459 e 460). — parece ponto pacífico na legislação e na doutrina dos países democráticos. v. ou como regime totalitário. até de ofício. assegurando às partes igualdade de tratamento. em CHIOVENDA. u m a vez proposta a ação. Aí estão três princípios cardiais do novo sistema. sendo defeso ao Estado subrogar-se nele ou expropriá-lo. que se funda na autoridade do Estado como parte integrante da relação jurídica processual. M a s . compete ao juiz dirigir o processo. a q u e m toca o ônus probandi. sobre ser u m dos temas fundamentais do direito processual civil. pessoal e indisponível. Que o juiz seja dominus processi. L I E B M A N fez a tal respeito ponderações judiciosas. dos pressupostos processuais e das condições de admissibilidade da ação. 38. velando pela rápida solução do litígio e prevenindo ou reprimindo qualquer ato contrário à dignidade da justiça (art. cabendo-lhe o controle. . É que. justifica a ampliação dos poderes do juiz. à ética e à justiça. O estudo dos poderes do juiz e a determinação dos seus limites. Incumbe ao juiz assegurar às partes igualdade de tratamento. o impulso de promover os atos que formam a relação processual fica a cargo do juiz. pode o Código conferir-lhe atribuições tais. II. 125). ou como sistema democrático de garantia de direitos individuais. 24. LIEBMAN. pertence às partes. nota 9. parte integrante da relação processual.

cit. exercida pelo Poder Judiciário. p. O Código de Processo Civil arma o juiz de poderes excepcionais para coibir os atos atentatórios à dignidade da justiça." (06. VI. tem o juiz o dever de prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da justiça. porque pode subtrair o direito de defesa. enquanto lhe não for relevada a pena 39. Os Princípios Constitucionais e o Código de Processo Civil. A administração da justiça é u m a das atividades primordiais do Estado. b e m como a exibição de documento ou coisa. art. enumera alguns deles no art. IV — não indica ao juiz onde se encontram os bens sujeitos à execução. é incontrolável a decisão do juiz. por entender que ele retira ao devedor o direito ao contraditório ( A D A PELEGRINI GRINOVER. 601: "Se. Pela nobreza de sua função e pela relevante tarefa de pacificação social. por certo. 600: "Considera-se atentatório à dignidade da justiça o ato do devedor que: I — frauda a execução. As críticas feitas ao novo instituto. não procedem. Reage o Poder Judiciário a tais manifestações. C o m o estes ocorrem com mais freqüência no processo de execução. advertido. III — resiste injustificadamente às ordens judiciais.. II — se opõe maliciosamente à execução. porque muito exige. 556). não se adequando à sua dignidade a prática de ato que tenda a diminuir-lhe o prestígio. a dificultar-lhe o cumprimento das sentenças ou a embaraçar maliciosamente a execução. começando por advertir o litigante e terminando por vedar que requeira ou pratique no processo quaisquer atos. A ilustre professora A D A PELEGRINI G R I N O V E R argúi-lhe desenganadamente a inconstitucionalidade. proceda à inspeção pessoal." (ALCIDES D E M E N D O N Ç A L I M A . conspire para retardar a marcha do processo ou use de artifícios fraudulentos para obstar a satisfação dos direitos. 123). de certo modo. A L C I D E S D E M E N D O N Ç A L I M A manifesta sua repulsa ao referido dispositivo legal. II. Os consagrados processualistas não apontam a norma constitucional que teria sido violada. desde que. finalmente. o devedor perseverar na prática de atos definidos no artigo antecedente." O eminente Prof. Código de Processo Civil. que o litigante impunemente desdenhe a autoridade dos seus julgados. 555). é defeso ao devedor requerer. o juiz. por decisão lhe proibirá que daí por diante fale nos autos. p. recorrer ou praticar no processo quaisquer atos. ou se sirva de máximas de experiência. ordene a realização de perícia. p." O direito de atuar no processo civil tem por limite o respeito ao Poder Judiciário. não pode a lei tolerar. E. 25. determine o comparecimento das partes. a nosso ver. limitam-se a argumentar que a sanção imposta . prognosticando que "se tornará letra morta. v. empregando ardis e meios artificiosos. Comentários ao Código de Processo Civil. E mais adiante observa que "até de inconstitucionalidade foi tachado.— 148 — para formar o seu convencimento. Preclusa esta decisão. 39. t. enquanto não lhe for relevada a pena.

há diferença substancial entre o processo de conhecimento e o processo de execução. pode ser impugnada por agravo de instrumento e fica assim sujeita ao duplo grau de jurisdição. só após a advertência ao devedor. Imprensa Oficial da Bahia. que tinha o réu. assegurada pela eficácia do título. E M Í L I O COSTA. 201 e seg. N o primitivo direito romano era necessário o comparecimento das partes e m juízo para a instauração regular do processo civil. entretanto. Contmaciale. quando e m Portugal as Ordenações Filipinas (Liv. II Processo Civile. W E N G E R . se o devedor frauda a execução. Logo está também sob o controle do Tribunal. Da Revelia do Demandado. 1911. avessa a nenhum canon da Constituição e não tem. Profilo storico dei Processo Civile Romano. Giuffrè. Da Contumácia no Processo Civil Brasileiro. 15 e Tit. Soe. alterações tão sensíveis e substanciais como a revelia. a decisão do juiz. R O G É R I O L A U R I A TUCCI. Das rómische Zivilprozessrecht. 40. C A L M O N D E P A S S O S . capitulando-se de direito de defesa a resistência ilegítima do devedor. 1960. trad. constitui atentado à dignidade da justiça. ou por fuga do réu ou por outra causa. Ora. 371 e segs. eiva de inconstitucionalidade. Istituzioni di Procedura Civile Romana. era havido como se contestasse a ação por negação geral. Tit. E. A sanção imposta pelo art. — o seu ato. Lib. não contesta. 21 e seg. empregando ardis e meios artificiosos. O pressuposto lógico dessa solução legal era a obrigação. no processo de execução. de estar e m juízo quando citado40. a que alude o art. Tolerá-los seria condescender com a fraude. . propõe u m a ação. sendo revel. Enquanto no processo de conhecimento vige o princípio da igualdade entre os contendores. 601. p. subordina-o aos princípios que regem o processo de execução. Ora. se resiste injustificadamente às ordens judiciais ou se não indica ao juízo onde se encontram os bens sujeitos à execução. o credor tem u m a posição de preeminência. ao contrário. não é. de R I C A R D O O R E S T A N O . Raros institutos sofreram. o efeito de se reputarem verdadeiras as no art. 1 e segs. Como. o devedor não se defende..— 149 — 26. pois. C o m efeito. 20) admitiram que o réu. que são o instrumento do devedor contra a execução. mas também não tem o direito de obstar de m á fé à realização das providências que tendem à satisfação do pedido do credor. prosseguindo o processo e m seu desenvolvimento normal. Realmente. it. se a ela se opõe maliciosamente. Salvador. impugna. através dos tempos. portanto. 19 e segs. O rigor deste princípio foi abrandado mais tarde. constituem o exercício de u m a ação. A tendência mais recente atribuiu à revelia. não se limita a contradizer. menosprezo à majestade da justiça e grave ofensa à ordem jurídica instituída pelo Estado. N o processo de execução.. Munique. a que corresponde a parte debitoris u m estado de sujeição. a norma legal citada não subtrai ao devedor o direito de defesa. embarga. n e m sempre isso era possível. e m geral. 1964. p. 101 e segs.. São Paulo. sobre ser ilícito. o direito romano impôs graves sanções ao revel. Por outro lado.. os embargos. Ver: M A X K A S E R . 600 representa desdém à autoridade judiciária. que abre u m juízo de mérito e se encerra normalmente com a sentença que a acolhe ou a rejeita. 1966. p. p. p. RISPOLI. III. porque até a sentença ainda não se sabe qual deles tem razão. p. 601 cerceia o direito de defesa. A prática dos atos definidos no art. 601. 1938. É certo que no processo de execução não tem o devedor obrigação de cooperar com o juízo.

— 150 — afirmações dos fatos constantes da petição inicial41. II — se o litígio versar sobre direitos indisponíveis. porque são havidos por verdadeiros. obrigação de contestar. Dispõe o art. c) compete ao juiz verificar se ocorreu a revelia. e. 319: "Se o réu não contestar a ação. II) . 1. como pretendem os autores. caso e m que conhecerá diretamente do pedido. 321). 28. art. 320: " A revelia não induz. em C H I O V E N D A . u m ônus. a revisão do conceito de coisa julgada. o ônus de contestar a ação.° 351. pois. é defeso ao autor alterar o pedido e a causa de pedir. 319. L I E B M A N . . n. 42. algo que a esse efeito se ajunta 41. salvo promovendo nova citação do réu. não o fazendo. U m a das mais importantes contribuições de L I E B M A N para o direito processual civil foi. que a lei considere indispensável à prova do ato. d) ainda que se verifique a revelia. A sua doutrina demonstra que a coisa julgada não é u m efeito da sentença. diversamente. se presumirão verdadeiros os fatos articulados pelo autor (arts. Instituições. T e m o réu. O Código de Processo Civil vigente tratou com largueza desta matéria. N ã o tem. v. 330. não sendo contestada a ação. 483. algum deles contestar a ação. proferindo sentença de mérito (art. nota 1. 27 A o analisar a revelia no Código de Processo Civil de 1939. para que o juiz admita a revelia. Mas. a quem será assegurado o direito de responder no prazo de quinze dias (art. a que corresponde o risco de perder a demanda. Código de Processo Civil. ocorrendo qualquer das hipóteses indicadas nos números I. III. 320. reputar-se-ão verdadeiros os fatos afirmados pelo autor. porque a esta idéia não corresponde nenhum direito do autor. II e III do art. observou L I E B M A N que "estranhamente escasso é o Código e m disposições atinentes à revelia e isto explica as vacilações de seus intérpretes42. impôs o Código a observância de certas regras: a) do mandado de citação há de constar a advertência ao réu de que. há de imputar-se a si próprio o possível insucesso na causa. V 285) b) a revelia não induz o efeito mencionado no art. tem. o efeito mencionado no artigo antecedente: I — se. 232." E no art. m a s sim modo de manifestar-se e produzir-se dos efeitos da própria sentença. contudo. ou requerer ação declaratória incidental. III — se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público." A revelia exime ao autor o ônus de provar os fatos alegados. conforme esta orientação de política legislativa. sem dúvida. havendo pluralidade de réus.

a sua imutabilidade identifica-se com a eficácia do efeito declarado naquele ato. Eficácia e Autoridade da Sentença.. no entanto. é. pelo contrário. tendo a sentença u m comando. sem constituir objeto do processo e m sentido estrito. LIEBMAN. 485 e seg. Direito Judiciário Brasileiro. L I E B M A N . N ã o se identifica ela com a definitividade e infungibilidade do ato que pronuncia o comando. u m a qualidade mais intensa e mais profunda. O conceito de coisa julgada material. não abrangendo n e m os motivos n e m as questões prejudiciais. p. não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário. estatui o Código de Processo Civil vigente: "Art. T e m prevalecido. o juiz deverá examinar como premissa da questão principal" 47 Perfilhando esta lição. o entendimento de P A U L A B A T I S T A e J O Ã O M E N D E S J Ú N I O R . no Código de Processo Civil vigente.° 15. 45. ou. que torna imutável e indiscutível a sentença. § 185. 469. segundo os quais a coisa julgada é restrita à parte dispositiva do julgamento 46. Pois bem. . que reveste o ato também e m seu conteúdo e torna assim imutáveis. Compêndio de Teoria e Prática do Processo Civil.. Eficácia e Autoridade da Sentença. nota 1. P A U L A BATISTA. p. 29. Incidem todas as definições correntes no erro de substituir u m a qualidade dos efeitos da sentença por u m efeito seu autônom o 4 3 . 3. conclui definindo a coisa julgada como a imutabilidade do comando emergente da sentença.a ed. L I E B M A N ensinou que "não se abrangem na coisa julgada. se ajusta à doutrina de L I E B M A N : "Art. n. os efeitos quaisquer que sejam do próprio ato 44. 44." Emprega aí o Código a palavra eficácia no sentido de qualidade ou modo de se manifestarem ou se produzirem os efeitos da própria sentença.° 9. observou L I E B M A N que "a questão dos limites objetivos da coisa julgada é u m a das mais controvertidas no direito brasileiro"45. J O Ã O M E N D E S JÚNIOR. 47. 1940. ainda que importantes para determinar o alcance da parte dis43. 52. ainda que discutidas e decididas. e m outras palavras. 467. Rio de Janeiro. 53. p. Denomina-se coisa julgada material a eficácia. Eficácia e Autoridade da Sentença. N ã o fazem coisa julgada: I — os motivos. além do ato e m sua existência formal. as questões que. L I E B M A N . Em nota que apôs à edição brasileira da Eficácia e Autoridade da Sentença. Eficácia e Autoridade da Sentença.-^ 151 — para qualificá-los e reforçá-los e m sentido b e m determinado. n. Depois de analisar as várias teorias. 46. L I E B M A N .

Eficácia e Autoridade da Sentença. em mensagem do Presidente da República. aprendeu a venerá-lo como homem. "embora pondo fim ao processo. decidida incidentemente no processo. Este Código de Processo Civil é u m monumento imperecível de glória a L I E B M A N . 4) A N T Ô N I O A R O L D O F. constituída pelos eminentes juristas JOSÉ CARLOS M O R E I R A ALVES. porém. 5) H A N S C A R L O S G. Discutido e aprovado nas duas Casas do Congresso. estabelecida como fundamento da sentença. 28 de setembro de 1972. a partir de 1958. decorridos vinte anos do magistério. a 11 de janeiro de 1973. p. em "corsi singoli". . 48. II — a verdade dos fatos. LUÍS A N T Ô N I O D E A N D R A D E ."48. A influência de L I E B M A N no Direito Processual Civil brasileiro prossegue. 6) JOAQ U I M M U N H O Z D E M E L L O . não produzem. escrito sob emoção. dr.— 152 — positiva da sentença. art. a elaborar o Anteprojeto de Código de Processo Civil. 7) J O S É CHIZZOTTI. teve o discípulo a honra de ser convidado. acentua L I E B M A N . a autoridade da coisa julgada. a 2 de agosto de 1972 49. circunscrita à parte dispositiva da sentença. 3) A N T Ô N I O C E L S O C. pelo Ministro da Justiça. D A P O Z Z O . SELIGSON. tornam-se sem dúvida imutáveis depois de decorridos os prazos para interposição dos recursos. o pedido formulado pelo autor (Código de Processo Civil. em que o juiz acolhe ou rejeita. F E R R A Z . no todo ou em parte. não lhe resolvem o mérito. 50. as que julgam o mérito da causa. Oscar Pedroso Horta. 57. Já é tempo de concluir. Só fazem coisa julgada. Conclusão. JOSÉ FREDERICO M A R Q U E S e C Â N D I D O D I N A M A R C O .869. Desta plêiade de novos processualistas fazem parte: 1) C Â N D I D O D I N A M A R C O . assim. p." A coisa julgada é. isto é. é o testemunho vivo do discípulo que desde 1941. III — a apreciação da questão prejudicial. 459). 69 e segs.° 99. LIEBMAN. E. foi encaminhado ao Congresso Nacional. haurindo-lhe de contínuo as lições. pois. Este ensaio não tem a pretensão de ser uma análise crítica da doutrina do Mestre. cujo texto entregou em 1964. "As decisões que". como professor e como Mestre do direito processual civil. 2) I V A N O. as sentenças que decidem a lide. freqüentaram as aulas do Mestre na Universidade de Milão e foram recebidos com toda a hospitalidade em sua casa durante o tempo de seu estágio. foi sancionado como Lei n. revisto anos mais tarde por uma Comissão. dirigindo e orientando uma nova geração de jovens processualistas que.° 5. 49. representando o fruto do seu sábio magistério no plano da política legislativa 50. Diário do Congresso Nacional n. Esse documento. R O G H I .