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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

FFLCH-USP
Alexandre Dias Cardoso Lindo
Francisco Inácio Bueno
Flávio Eduardo de Souza Caldas
Grace Joplin

A MENTE DO VILÃO
O PNP na música da periferia de são Paulo

Trabalho sobre o PNP - Professora Drª. Ana Rosa Ferreira Dias

São Paulo - 11/06/2012

.2 SUMÁRIO A fazer...

O PNP NA MÚSICA DA PERIFERIA DE SÃO PAULO Estudo do português não padrão (PNP) A constatação da segregação social pelo léxico PNP Justificativa Este trabalho visa fazer um estudo da ocorrência do português não padrão na linguagem da periferia da cidade de São Paulo. Rosana Bronks e U-Time. a partir disso. (BAGNO. Sendo então o cenário musical nosso pano de fundo social. 2001:28) .] O português não padrão é a língua da grande maioria pobre e dos analfabetos do nosso povo. consequentemente a língua das crianças pobres e carentes..país que tem a pior distribuição da riqueza nacional em todo o mundo –. Ele é considerado “feio”.. A escolha do cenário musical se deu por acreditarmos que este seria um recorte interessante para análise. “tosco”. pela terrível injustiça social que impera no Brasil. “rude”. marginalizadas. e que fossem específicos de uma comunidade linguística. não comuns no português padrão. à frente para verificar como a integração entre a forma escrita e a forma oral captada através da música ocorreria. presumindo-se que esta não sofre muita interferência do português padrão nos registro da escrita das letras das musicas. “estropiado”. Definido o corpus analisaremos as ocorrências que caracterizam o PNP dentro dos traços de oralidade encontrados. Consideramos então como fator primordial o conceito das palavras: marginalização e preconceito linguístico. em conjunto com outros artistas que representam as respectivas bandas: Banda Black Rio. oprimidas. representante do grupo “Racionais Mc´s”. buscamos selecionar letras que pudessem colaborar no levantamento de dados a respeito da ocorrência de traços de oralidade. Por ser utilizado por pessoas de classes sociais. . “pobre” “errado”. “deficiente”. e partiremos em análise ao conteúdo gírio para definir seus significados dentro da música e expandir para uma breve reflexão sobre seu uso. [. que frequentam as escolas publicas.3 INTRODUÇÃO Este trabalho pretende destacar e examinar as evidências do português não padrão (PNP) contidas no Rap “A Mente do Vilão” composição de Mano Brown. É também. muito embora “uma correção aqui e lá” aconteça. seguindo. o PNP é vitima dos mesmos preconceitos que pesam sobre essas pessoas. desprestigiadas.

Os Racionais representam uma fatia da sociedade negligenciada deste imenso país chamado Brasil.4 Desta forma chegamos aos Racionais MC’s. U-time. Organização . Referência teórica Utilizaremos o conceito da linguística de Saussure para analisar a letra da musica com complementação de informações técnicas disponibilizadas no livro “A Língua de Eulália” com consulta paralela a outros livros de base. como por exemplo: Jean Claudel (livro que a grace trouxe). e segue um sistema. Mano Brown. Fundamentar as análises pela linguística de Ferdinand de Saussure. Analisá-la de acordo com as informações técnicas que absorvemos em aula através de bibliografia direcionada e outros meios. 4. Objetivo 1. Destacar as ocorrências do PNP na letra da musica “A Mente do Vilão”. 3. Este parágrafo precisar ficar mais claro.  Observar fatores relevantes sobre a linguagem da comunidade marginalizada. Rosana Bronks. o que está na teoria está na sociedade. verificar se a integração dessa linguagem na sociedade altera a construção da gíria comum na cidade de São Paulo. Grupo escolhido para analisarmos o fato linguístico. Expectativa  Integrar a teoria e a realidade demonstrando que ambas se encontram em relação simbiótica. composição: Banda Black Rio. 2. O corpus Nosso corpus é a letra da música “A Mente do Vilão”. Elaborar interpretação e compreensão de como a gíria fechada pode contribuir na construção do PNP.

é a letra extraída de sua contrapartida oral que fora transcrita em apuração auditiva da música e utilizando como suporte duas referências encontradas na internet (dispostas ao fim desta monografia em anexo). mas também do um significado um pouco mais amplo dessa construção musical que traz ares da marginalização nas periferias de São Paulo.1 “A Mente do Vilão” Está música escolhida pela observação de sua letra e seu conteúdo hermético e obscuro ao falante comum do português. existia a previsão de ser lançada junto ao trabalho intitulado “Supernova Samba Funk” da banda Black Rio. e aí entramos do campo da suposição. em seguida dispor-se-á um pequeno dicionário de gírias contidas na obra analisada. e no capítulo seguinte.uol. Como dados complementares expomos que esta música gravada em meados de 2010 não pertence a nenhum trabalho lançado pelo autor Mano Brown e por nenhum dos seus co-autores: William Magalhães (Black Rio). de que com acontecimentos relacionados à banda Racionais Mc´s de violência e morte 1 em seus 1 Fonte: http://atarde.jsf?id=5609887 visualizado em 09/06/2012. porém não chegou a ser incluída no CD. pipoca. função. gírias fechadas como: galachão. nas análises. se organizando da seguinte forma: fecham-se grupos de verificação teórico-analítica. e partindo da curiosidade de descobrir o significado desses termos saímos em busca não só do significado estrito das palvras em linguagem gíria.br/noticia. teremos uma interpretação desta obra a partir das verificações obtidas anteriormente 1.com. . chavão. ou ferramentas de análise apresentando previamente obras em que essas ferramentas se encontram e seus respectivos autores. fundão etc. Du Bronk´s (Rosana Bronks) e Dom Pixote (U-time). Talvez. enumeram-se esses grupos e a seguir junto à letra da música devidamente organizada anexa-se essa enumeração às ocorrências.5 O que você verá mais abaixo. Capitulo I – Apresentação do corpus e critério de seleção 1.

br/entretenimento/noticia/?id=32575 visualizado em 08/06/2012 4 Fontes: http://gringosrecords. . e também outros acontecimentos2 anteriores como o tumulto gerado no dia da apresentação da banda durante eu show na virada cultural de São Paulo em 20073. o grupo vendeu durante a carreira cerca de 1 milhão em álbuns.6 shows.com/noticias/confusao-no-show-do-racionais-mc-deixou-genero-forado-maior-evento-de-cultura-em-sao-paulo-43.com.uol. Essencialmente podemos entender os critérios como: a oralidade transcrita e a gíria para seleção de material.br/folha/cotidiano/ult95u104625. observávamos fundamentalmente como era apresentado o material escrito (significante) e depois como era cantado (som). de não fazer uso de grandes mídias e se recusar a participar de grandes festivais pelo Brasil. coisa que não era objetivo antes. e que independente dos acontecimentos.shtml visualizado em 09/06/2010 3 Fonte: http://www. mas que pelo discurso foi aos poucos sendo estabelecido na mente das pessoas como tal. demonstrando uma proximidade da escrita com a forma oral. discutindo temas como o crime. drogas e consciência política. Invariavelmente constata-se que suas letras falam sobre a realidade das periferias urbanas brasileiras.musicblog.br/260101/RAP-VIRA-TRAUMA-NA-VIRADACULTURAL-2010/ e http://www.com.tvexibir. e a partir disso não veicularam esta música em que sua letra dá margem a essa suposta apologia ao crime.html visualizadas em 08/06/2012.com. além do alto grau de conteúdo das expressões em linguagem gíria. por isso o grupo talvez esteja tentando evitar letras que façam apologia ao crime. a fala que é captada nas canções do grupo é a representação do que existe na sociedade e exprimem o descontentamento dessa marginalização por parte do restante da sociedade. Esta preocupação era para identificar se ao cantarem as palavras não eram modificadas em relação ao som. ou até podese presumir que o grupo esteja procurando evitar a referida apologia porque esta sucessão de acontecimentos prejudicou4 o espaço dos artistas de Rap dentro de eventos na cidade de São Paulo. 1.folha. 1. preconceito social e racial. Apesar de atuar essencialmente na periferia paulistana. pobreza.band.2 Critérios de seleção Das diversas músicas do grupo que fomos pesquisando.3 Qualificação da música 2 Fonte: http://www1.

principalmente a do Hip-Hop. que é o tupi. a convergência da cultura Pop Norte-americana. comerciais. Disponível em <http://www. IELP I – Ana Rosa Dias. e destarte. várias línguas foram fundamentais.com/watch? v=2gqz4BHYcck> acesso em 05/06/12 . 21/05/2012 – Universidade de São Paulo. mas um tupi simplificado gramaticalizado pelas jesuítas. essa convergência se reflete também nas lutas sociais enfrentadas lá e aqui concomitantemente. 2001: 94) Tempos depois. O Brasil é um país jovem e em construção. principal língua indígena. e até suas guerras fazem-se influenciar em terras Brasileiras. vidas em português”. depois vieram os portugueses. e transformam todos os setores que compõem essa comunidade linguística. tornado uma língua comum. culturais. A língua é passível de transformação. é uma construção social. em continua transformação. (TEYSSIER. presta atenção: é reinventar o Brasil que nós queremos”.youtube. obviamente. depois os negros escravos que aqui chegaram e contribuíram na construção deste país. Ao lado do português existe a língua geral. uma rede de associações que consolida o que hoje conhecemos como língua. A língua é viva e como qualquer organismo vivo. No Brasil já se encontravam os índios. Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro “A coisa mais importante pros brasileiros. sofre mudanças. Sendo eles uma construção social acabam apresentando em sua constituição aspectos: políticos. (capítulo 1). Os signos da fala são arbitrários. mas manejam-no de forma imperfeita. 5 5 Documentário: O Povo Brasileiro.. africana ou mestiça aprenderam o português. House e outras tendências além dos produtos e de sua cultura midiática como seriados. das regiões costeiras. a cultura negra Norte-americana encontra aceitação e reconhecimento nas zonas mais periféricas da cidade de São Paulo e ao instalar-se gera a partir daí uma série de mudanças na fala dos moradores dessas zonas.7 “Há línguas em português” José Saramago. pois estes vão sendo moldados ao longo da história. eclético por natureza. filosóficos. Na constituição da formação do povo brasileiro. Enfim. personagens históricas. a influência de todas estas culturas é um fato em nossa realidade linguística. em depoimento no filme: “Língua.. ideológicos. As populações de origem indígena.

. “A realidade é uma construção discursiva”. [. a história é mais antiga. Em pleno século XXI há tantos povos.] não tem apenas o sentido de informar”.] “Quando usamos a língua queremos ser acreditado. [. A linguística é uma disciplina e um campo do conhecimento. tantas línguas. e a fala uma comparação com a própria roupa que usamos? Ou seja. essas relações de poder ficam fáceis de enxergar com a tamanha desigualdade social que se observa. Capítulo II – fundamentação teórica A linguistica não tem a função de fazer juízo de valor sobre a lingua isso fica a critério de disciplinas como a antropologia..8 Não seria então esta reinvenção proposta uma faceta da forma. E esse espaço discursivo tem pretensões especificas. R. da fala. Disso nasce a raiz da ideia do preconceito linguístico. é só pensar nos tipos de gramaticas que se tinha desde o século XVI até hoje. sociologia. portanto. facilita sua identificação e. história. Isso nos fornece o estrato social. informação obtida em aula . (informação verbal)6. . Enquanto disciplina. 6 DIAS. desde que o homem começou a refletir sobre sua língua e a língua de outros homens já podemos falar em conhecimento sobre a linguagem. A língua é uma forma não apenas de comunicação.anotação. E esta disciplina tem como objeto o estudo das línguas naturais que surgem espontaneamente como meio de comunicação social. a situação hierárquica que ocupa na sociedade.. A. mas fundamentalmente ideológico-discursiva. 12/03/2012. será que não há nenhuma tensão. do inicio do século XX pra cá. que acaba provocando segregação e “categorizando grupos sociais”. 2.. persuadir.. F. Logo. A Mente do Vilão é dessa forma extrato social. Universidade de São Paulo (USP). autônoma. ficando o PNP como um marcador factual. Qual a melhor forma de se falar? Tipos e formas de falas caracterizam muito bem grupos sociais e caracterizando estes. jogo de poder? Esta forma de poder é conflagrada dentro de nosso próprio território brasileiro. do estilo. Agora como campo do conhecimento. é relativamente nova. No caso do Brasil. Sua preocupação está em identificar como ocorre. Estas e outras questões filosóficas estão em voga ainda hoje.. de identidade? A identidade de nosso povo paulatinamente vem sendo forjado ao longo dos tempos. tantas formas de fala dentro de um mesmo território nacional.

] Eu tive de me segurar para não rir. UNIVESPTV. Assim dependendo do meio social. geográfico e situacional (Conf. ela se manifesta através das línguas naturais e através de outras forma de expressão que a gente costuma chamar de linguagem. trata-se apenas de uma variante linguística que é nesse caso. Disponível em <http://www. 2. uma falante do português não padrão (PNP).] O ponto de vista cria o objeto [grifo meu]. Essa maneira de pronunciar as palavras não está correta e nem incorreta.com/watch?v=ndv6mSyXbZ4> Acesso em 06/11/2012 . do teatro. Silvia ri. A langue (sistema inconsciente presente no cérebro de todo o individuo) e a parole (que é a fala. é isso que cria o objeto científico. como a linguagem do cinema. mas que não acham correto como Eulália diz.. Gadet apud Preti 1972: 8). [. a linguagem humana enquanto tal não se manifesta. O que é o PNP? [. heteróclita e a gente deve no circuito da fala eleger aquela dimensão que é comum a todas7. o português não padrão. Infelizmente essa é a atitude que a maioria das pessoas têm ao ouvirem outras quando se comunicam usando essas variantes. – É mesmo! E a mais engraçada foi: “percurá os hómi” – confirma Sílvia.. dos quadrinhos. quando ela disse aquelas coisas na mesa – acrescenta Silvia. do local e da situação em 7 Maria Cristina Altman é professora titular do departamento de linguista da universidade de São Paulo. Então a linguagem é extremamente complexa.youtube. E o que significa isso? Uma variante é uma das infinitas maneiras de se comunicar que existem e que variam conforme vários critérios: social.9 Quando a gente fala em língua devemos pensar numa manifestação concreta de uma capacidade universal humana abstrata. o caos a variabilidade). Ah. Ela é extremamente complexa.. Eu me lembro – Adianta-se Emilia. – Ela disse “os probrema”. Saussure dividia então o mundo da linguagem em: langue e parole. O comentário que fazem acerca do modo como Eulália pronuncia as palavras é ofensivo e zombeteiro. A língua enquanto objeto científico de estudo não esta ai pronta pra ser estuda. Emília e Vera estudantes universitárias que vão passar as férias na chácara da professora Irene e lá encontram a Eulália. Que coisas? – quer saber Vera. homogêneo.. “moio ingrês’’. 2000:14). 22/11/2011. “os fosfro”. riem pela maneira como a personagem faz uso das mesmas palavras que elas também conhecem. (BAGNO. observada. O objeto de estudo da linguística (ciência da linguagem) deve ser o coletivo e não o individual. sei lá agora não me lembro – responde Sílvia. e Emília a imita. É o linguista que deve definir a partir de que ângulo de que ponto de vista ele vai estudar a linguagem. Esse é um diálogo entre três amigas: Sílvia. Ela é coordenadora do CEDOCH (Centro de Documentação em Historiografia da Linguística).

Mas. É um mito pensarmos que há. Pensa-se que a norma culta é “a língua perfeita. os dialetos. . então. uma norma regional. que é uma variante. seus hábitos e sua cultura.” (SILVA. há variação de sua fala. “A norma é aquilo que já se realizou e. Trata-se. seus dialetos. portanto. tampouco com um vaqueiro do interior de Tocantins. os falares regionais como o caipira. Por exemplo. ou riem ou lançam correções sobre o falar do PNP. Haja vista a imensidão geográfica existente. uma única forma de falar e que esta deve ser sempre correta. ANO?: 189). o PNP é uma variante linguística. Logo. ou seja aquele que não faz parte da norma padrão. teoricamente. uma escolha. etc. é uma maneira. 2. Essas formas são opções de se comunicar perante as pessoas e a sociedade e dentro dessas opções encontramos inúmeras delas. sempre se realizará no grupo social. O português não padrão – PNP – pode ser também definido como sendo um conjunto de todas as inúmeras variedades que existem e que não fazem parte da norma culta. por que há esse tipo de comportamento? Estudos apontam que é principalmente.1 O Preconceito perante as variantes (e o falante) Assim como a norma culta. precisará fazer uso de outra maneira de se comunicar quando na presença de seu patrão na empresa em que trabalha. as inúmeras línguas e variantes. uma norma formal. ao qual todos os falantes que quiserem falar e escrever bem devem usar” (SILVA. Por qual motivo ainda há. como por exemplo: as gírias. o PNP também é. ou para produzir um texto para a escola em que estuda. um falante não falará com seus amigos e família de maneira formal. seus usos. no Brasil e em qualquer lugar do mundo. ANO? 188). um tipo de comunicação e também uma norma. é a tradição à qual todos estão submetidos e obedecem sem sentir. uma opção ao falante. o nordestino etc. Além do mais nenhum individuo se comunica da mesma forma que outro mesmo estando na norma culta.10 que se encontra o falante. Encontramos no PNP todas as formas que estão marginalizadas socialmente do vocabulário da vida das pessoas. tanto preconceito – assim como no diálogo do texto de Bagno . Reiterando. o “bon usage”. o mineiro.perante esse tipo de variante? A reação é sempre a mesma. como o português que não é o padrão. por uma questão social. temos uma norma informal.

o PNP é senão a variante que é mais usada devido à várias características (e vantagens). idêntico ao caso de uma sanção como forma de punição contra o falante e contra sua variante. . A sociedade é constantemente iludida pela pressão da norma culta. ALEÓNG.2 As vantagens do PNP Ao contrário do que muitos pensam que se trata de um jeito de se comunicar como sendo vulgar e inferior. 2000: 36-37). Tradição oral (falamos “vamu”). Há estudiosos que acreditam ser esse preconceito de ordem social devido à diferenças de classes. pois ela existe e continuará a existir conforme o tempo e o espaço. PP Você quer? Redundante. de um mito linguístico. Entretanto é plausível mencionar que não se trata da diferença de classes estritamente. descriminado e nem banido da linguagem social. e a classe alta fala português padrão. 2001:159). Consequentemente. portanto. Tradição escrita (escrevemos “vamos”). os falantes que praticam o português não padrão são descriminados e desprestigiados pela sua escolha e na maioria das vezes até banidos de um círculo social. Artificial (obedece aos padrões cultos). Caso observemos os benefícios que existem em comparação com a norma culta. Natural (usamos de acordo com a nossa lógica). us mais termos para enunciar a mesma coisa. Bagno. formando assim um circulo vicioso de pressão e preconceito. PNP cê qué? Economico nos termos e na sua enunciação. veremos várias diferenças (Conf. isto é. a língua sofre alterações constantemente o PNP é uma delas e não deve ser. 2. Seja conhecida ou desconhecida a origem do preconceito. a classe baixa fala o português não padrão como a personagem Eulália. é relevante discutirmos essa questão e a levarmos adiante. logo acaba exercendo essa pressão para com seus indivíduos. pois esta é indevida e não é bem vinda pela sociedade (Conf. que é um cidadão de classe relativamente alta e que sofreu vários comentários preconceituosos da mídia devido ao novo termo que “criou”. haja vista o caso do “convivível” pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.11 de uma ficção. como a personagem Irene ambos personagens criados por Marcos Bagno em seu livro “A Língua de Eulália”.

mais recorrentes são os fenômenos de supressão de um fonema (ou uma sílaba). Estudos linguísticos revelam que há vários fenômenos responsáveis pela formação do PNP. Alguns exemplos de metaplasmos. (não foi encontrado evidencias de rotacismo na analise da letra) . LEITE ANO? :1). como: “amostrar” que é o verbo atual “mostrar”. Fala formal (em situações restritas). (Conf. “O PNP deixa vir à tona as forças transformadoras da língua e evolui com mais rapidez que o PP. a saber: (Conf.3 Por que afinal. 2000: 37). (não foi encontrado evidencias de rotacismo na analise da letra) Metaplasmos: São fenômenos que continuam agindo na língua desde a passagem do latim para o português. Bagno 2000: 74-127) Rotacismo: É a troca de uma letra por outra. Aprendido. então por que o usamos ao invés da norma padrão? O fato é que há inúmeros motivos científicos que comprovem o motivo no qual adotamos em certas ocasiões o uso do PNP. O PNP além de todas as características mencionadas também é mais suscetível a mudanças. apontaremos em nosso estudo alguns desses fenômenos. É por isso que quando há uma mudança na norma padrão é porque esta já se cristalizou há tempo na norma não padrão. justamente para impedir que elas o desfigurem muito depressa” (Bagno. social e situacional. como na palavra “flor”. usamos o PNP? Se já inferimos que o PNP é apenas uma opção a mais em nossas escolhas de uso da língua. pois não é conservador como a norma padrão que não aceita alterações com facilidade. e não um modo errado de se comunicar. que refreia essas tendências. aquele idioma falado pelos portugueses nos primeiros séculos de colonização do Brasil.12 Aprendido (passa de gerações a gerações). Além daqueles de ordem geográfica. Fala Popular (em qualquer situação pessoal). como: “está” torna-se “tá”. 2. e que ficaram em nosso falar. primeiro contato vem da gramática escolar. Arcaísmo: São termos oriundos do passado do português arcaico. que torna-se “frô’’. ou “você” para “cê”.

A gíria desse grupo é tão fechada que chega até a ser objeto de um resultado do preconceito social e racial no qual vive esses jovens e aqueles simpatizantes com as canções e a mensagem codificada existente na letra da música. a manifestação emocional de um grupo que se sente marginalizado e excluído da sociedade. não desejam que seu significado seja aberto e acessado a todos os que estão fora de seu círculo social que é o dos jovens (negros) discriminados pela sua cor e classe social. isto é. Em suma. na letra de canções estilo rap da banda Racionais. fazerem uso dessa variante para causar impacto na sociedade. um vocabulário diferenciado e curioso. adotamos a gíria de grupo ou seja: "a gíria considerada como parte integrante de um grupo social restrito" (PRETI. D. Há muitas análises e conclusões científicas que comprovam o motivo no qual o falante se comunica daquela forma e não de outra. pelo preconceito . observa-se na música “A Mente do Vilão”. Nesse caso. quando os falantes não se sentem pressionados pela norma padrão e fazem de sua variante a norma mais adequada e valorizada. Por isso. estamos falando da gíria que é o foco de nossa investigação. 2. A forma como a gíria que usam se manifesta abriga não só a presença de uma variante linguística e sim motivos sociais e emocionais.13 Redução de ditongos: Dificilmente ao falar pronunciamos o ditongo existente na palavra “beijo”. Os integrantes querem na verdade. Temos aqui o que Bloomfield classificou como “comunidade linguística” (apud Calvet 2002:115) que é quando seus membros falam de um modo que se entendem entre si e que pessoas externas a essa comunidade não entendem o que querem dizer. o fato é que tratase de uma redução de ditongos que a língua faz naturalmente. Observamos nesse caso a presença de “segurança linguística” (CALVET 2002: 72). Quem canta a música dos Racionais não está só cantando e sim estruturando sua linguagem de acordo com a gíria e também se integrando à comunidade do grupo rapper e negro juvenil.4 A gíria de grupo como uma das variantes Um fenômeno efêmero e criativo. nunca iremos nos referir ao caso de atribuir a falta de instrução escolar como um dos motivos nos quais um falante se apropria do PNP mesmo aqueles falantes que não possuem nenhuma instrução educacional. 2004:101). pelo PNP e não de acordo com a norma padrão. e sim dizemos “bejo” e não há nada de mal nisso.

p. supressão de fonemas no meio do vocábulo. é o nome que caracteriza a supressão de um fonema (ou sílaba) do início de um vocábulo. O rap colabora com a intenção dos cantores.8 Na sequência apresentaremos as ocorrências enumeradas na letra da música: .8 ⁷ Apócope. 3. p. pág 103) temo a ocorrência na música analisada do seguinte caso citado: ¹ h) Supressão do r final das palavras. ² Transformação de lh em i. p. p. é nome dado ao metaplasmo que acrescenta um fonema no final da palavra. Paul Teyssier. 2005) ⁶ Despalatização. a escrita assimilou essa chiante e a reforçou). p. é o nome dado à transformação de um fonema oral em um fonema nasal.3 ¹⁰ Síncope. p. 4 ¹¹ Monotongação. p.7 ¹² Ditongação. Isabelle Lins Leite. p. 4 *(no caso específico do termo à vonts a supressão final adicionou um s chiante como contrapartida ao t mudo que se pronuncia[ tʃ]. p. é o nome dado a transformação de uma vogal ou hiato em ditongo. como vimos anteriormente que há preconceito com o PNP –. social econômico – e linguístico.4 ⁸ Aférese.7 ¹³ Nasalação.56 ³ Assimilação consonantal n e d “ A Língua de Eulália”.88 ⁵ Eliminação das marcas redundantes de plural e gênero. ⁹ Epítese. 74 ⁴ Redução de dintongos: ou > o p. é o nome dado à transformação ou redução de um ditongo em uma vogal. é o nome dado ao fenômeno que suprime um fonema no final de um vocábulo.80 – ei > e. p. p. Capítulo III – Análise: métodos e procedimentos Dentre os aspectos inovadores da fonética brasileira citada em (História da Língua Portuguesa.48 Em (Metaplasmos contemporâneos: Um estudo acerca das atuais transformações fonéticas da língua Portuguesa. Marcos Bagno).14 racial. 103 Em (A Língua de Eulália. pois serve como forma de expressar essa revolta e insatisfação com o uso exacerbado da gíria de grupo. p. é nome dado a transformação dos fonemas palatais em em nasal ou oral. p.

a arma tá⁸ sem trava Sem silenciadô¹ pra oureiada¹²⁺². os branco⁵ que aqui tem Só pega o que tá⁸ dentro da mala sem ferir ninguém Salve FEBEM. só pra⁸ contar as de cem O bang loco⁴ tá⁸ aqui. vai pras nuvem⁵ Em campo de novo. a cena é verdadera⁴ A banda é a Black Rio. tenho uns plano⁵ executando Na terra da garoa tá lucrando Andando contra o vento. chega Don Pixote Do lado dos monstrões. [Pixote] Vamo⁵ caminhando observano³. pode vim¹⁺¹³. agora é pra valer. me inspiro com o Wu Tang Canta a realidade das ruas que te leva além É o fim que vem. tem vitória A maioria é o povo. vida gangsta⁷ Rimas e brilhantes. Cosa Nostra Perigo do caraio⁷. com a Black Rio zen Alguns pipoca⁵ vem.. William Magalhães Nessa qualidade vem alguns milhões Não sabe de onde eu vim. talvez não vai saber O Rosana tá⁸ aí. sou Du Bronk's Entre lobos e hienas passo á vonts⁸* No volante do fusquinha essa é a visão Coleta das verdinhas dividindo o pão Febre da ZS. seis função vindo⁵ de galachão (peraê)⁸⁺⁹ [Black Rio] Você não sabe de onde eu vim Você não sabe o que é sofrer Cosa Nostra tá⁸ chegando aí E todo mundo vai saber [Du Bronks] Pode par que não dá ímpar. só quer fazê¹ o bem Nego¹⁰ faz refém. vou vivendo um clima tenso Revólver na cintura de All Star e lenço A Cosa Nostra vem. tipo o Ryu e o Ken . a vida é passagera⁴ Chega de ensaio.15 A Mente do Vilão Black Rio/Mano Brown/Rosana Bronks/U-time [Mano Brown] Fértil como a terra preta é a mente do vilão Quem vem lá. a música traz sorte Representa Brown.

né⁸⁺⁹ pra qualquer um memo¹⁰ não Enquanto a vanguarda negra e a vã. nu⁴ durma no barulho né⁸⁺⁹? Banda Black Rio na porra do bagulho Hé! [Black Rio](3x) Você não sabe de onde eu vim Você não sabe o que é sofrer Cosa Nostra tá chegando aí E todo mundo vai saber  Terra preta: Tipo de solo fértil e antropogênicos da região Amazônica. Sadã. o molho azedo¹¹ Abandonaro⁷ o Peugeot. sem flagrante na nave Sou crioulo. nunca em vão. Fundão meu divã Inédito em avã premier. sabe. filosofia sã.hãhahã. Talibã. nem cor. a um passo do precipício Não de som nem de erva. contra o GOE. Al-Kaeda. sem férias. porque não tem alarme bom quando o bom ladrão quer Vocês dão taça de veneno e quer suflé? Fértil como terra preta é a mente do vilão. Quem vem lá. um alvo sem pose Magrelo chavão desde os doze Meu País demonstrou vergonha de ter minha cor (hã. Hosama. pularo⁷ o muro a milhão Só se for. espalhando os sonhos em grãos Na contenção.16 Quem representou bem mostrou ter coragem [Black Rio] 'Você não sabe de onde eu vim' [Mano Brown] E no principio era trevas. Malcom foi Lampião Lâmpadas para os pés.hã) Seus cuzão⁵. os moleque é zica carai⁷.  Função: Gíria para designar ladrãoes de tênis e relógio. tenho vários por mim Olha! enquadraro⁷ os patrícios. tá suave. de manhã. dando um pelé nos Rocam Pé-di-porco é pé frio. e elas gostam assim Não ando sozin⁶. contra a Ku-Klux-Klan Eu já pã. tá firmão. vai que vai. vão. seis função vindo de galachão O coração da quebrada percorrendo as artérias Vão. no inicio do inicio Um cego leva uma leva.hã. sou chave. vixe. os seis é meia de lã (hã. louco de solidão No principio era trevas. negros do dois mil e dez Fã de Mumia Abu-Jamal. nem close. Iraque. Vietnã Contra os boy. . dá trabai⁷ Né? na selva a gente é o que é.hã) E o blunt é de maçã.

 Tá: Está > tá 4. M. Lucerna.82. Falta editora edição e ano CALVET. Metaplasmos contemporâneos: um estudo acerca das atuais transformações fonéticas da língua portuguesa. 2001.com. . J. Martins Fontes. São Paulo. 4ª.br/significado/galach%C3%A3o/2675/ visualizado em 08/06/2012. Tanto fizeram que tudo aquilo que foge aos padrões e às normas da língua escrita é considerado “errado”. Contexto. Edição. 11ª edição – São Paulo: Contexto. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. Parábola. Referencias Bibliográficas BAGNO. São Paulo. (pesquisa em http://www.17  Galachão: Carro Ford modelo Galaxie. São Paulo. M. 2000 PRETI. Edição.dicionarioinformal. L. LEITE. P. Conclusão “Muito bem. como se fossem verdadeiros crimes contra o “bom português”. 5. TEYSSIER.  Peraê: Espere > pera + aí peraê. Dino “Transformações do fenômeno sociolinguístico da gíria” in Estudos de Língua Oral e Escrita. 2002. 2004. “Comportamentos e atitudes” in Sociolinguística: uma introdução crítica. Por isso alguns fenômenos que ocorrem na língua falada são duramente combatidos e atacados. BAGNO. História da Língua Portuguesa. “Quem ri do quê?” in A Língua de Eulália. L. 8ª. Bagno a língua de Eulália p. São Paulo. I. 2001.

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