You are on page 1of 10

TV EM QUESTÃO > TV GLOBO, 50 ANOS

Globo 50 anos: Dez razões para
descomemorar
Por Ângela Carrato, professora da UFMG, em 21/04/2015 na edição 847 do Observatório da
Imprensa

Era para ser uma festa de arromba, com eventos se sucedendo em todo o país. Grande
parte do que a TV Globo preparou para comemorar seu cinquentenário, a ser completado
no domingo (26/4), está mantido, mas, sem dúvida, não terá o mesmo brilho de outras
épocas. Depois dos problemas verificados durante a sessão solene da Câmara dos
Deputados em homenagem à emissora, em que três militantes em prol da democratização
da comunicação tiveram que ser retirados por seguranças, as festas em locais abertos ou
de acesso público estão sendo repensadas. Os cuidados se justificam.

Nunca a audiência da TV Globo, centro do império da família Marinho, esteve tão baixa.
O Jornal Nacional, seu principal informativo, que chegou a ter 85% de audiência, agora
não passa dos 20%. Suas novelas do horário nobre estão perdendo público para similares
da TV Record. No dia 1º de abril aconteceram atos em prol da cassação da concessão da
emissora em diversas cidades brasileiras. O realizado no Rio de Janeiro, em frente à sua
sede, no Jardim Botânico, foi o mais expressivo e contou com 10 mil pessoas. Número
infinitamente maior participou, no mesmo horário, do tuitaço e faceboquaço
“Foraglobogolpista”.
Artistas globais e a viúva de Roberto Marinho integram a relação de suspeitos de crimes
de evasão fiscal e serão alvo de investigação pela CPI do Senado, criada para analisar a
lista de mais de oito mil brasileiros que têm depósitos em contas secretas na filial do banco
HSBC, na Suíça. Este escândalo internacional envolve milhares de pessoas em diversos
países. A diferença é que fora do Brasil o assunto tem tido destaque e é coberto
diuturnamente, enquanto aqui, a mídia, Globo à frente, prefere ignorá-lo ou abordá-lo
parcialmente.
Além disso, o conglomerado teria sonegado o Imposto de Renda ao usar um paraíso
fiscal para comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo Fifa de 2002. Após o
término das investigações, em outubro de 2006, a Receita Federal quis cobrar multa de R$
615 milhões da emissora. No entanto, semanas depois o processo desapareceu da sede
da Receita no Rio de Janeiro. Em janeiro de 2013, uma funcionária da Receita foi
condenada pela Justiça a quatro anos de prisão como responsável pelo sumiço. No
processo, ela afirmou ter agido por livre e espontânea vontade.
Nem mesmo a campanha filantrópica “Criança Esperança”, promovida em parceria com a
Unesco, se viu livre de críticas. Um documento datado de 15 de setembro de 2006,
liberado pelo site WikiLeaks em 2013, cita que a Rede Globo repassou à Unesco apenas
10% do valor arrecadado desde 1986 com a campanha (à época R$ 94,8 milhões). A
emissora garante “desconhecer” essa informação e afirma que “todo o dinheiro arrecadado
pela campanha é depositado diretamente na conta da Unesco”.
Como se tudo isso não bastasse, ao assumir a postura pró-tucanos durante a campanha
eleitoral de 2014, a emissora perdeu parte da régia publicidade oficial com que sempre foi
contemplada. O governo não anuncia mais na TV Globo e nem na revista Veja e, pelo
menos até o momento, não há indícios de que o quadro esteja prestes a se alterar.
Motivos que têm levado cada dia mais repórteres e equipes da emissora a serem alvo de
protestos e recebidos aos gritos de “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo!”
Os protestos contra a Rede Globo, pelo visto, vão continuar e existem pelo menos 10
razões para que os setores comprometidos com a democratização da mídia no Brasil não
tenham nada a comemorar neste cinquentenário.
1. Canal 4 estava prometido à Rádio Nacional

Em meados de 1950, Roberto Marinho era apenas um entre os vários empresários da
comunicação no país. O magnata da época atendia pelo nome de Assis Chateaubriand e
detinha a maior cadeia de jornais, rádios e duas emissoras nascentes de televisão. A rádio
líder absoluta de audiência e mais querida do Brasil era a Nacional, a PR-8 do Rio de
Janeiro, de propriedade do governo federal. O sucesso da Nacional era tamanho que
animou seus dirigentes a solicitar que o então presidente da República lhe concedesse um

canal de TV. Constava do currículo da Rádio Nacional já ter feito experiências pioneiras na
área, ao ocupar o canal 4 para televisionar (como se dizia na época) dois dos seus
programas.
O presidente da República era Juscelino Kubitschek, que considerou justa a
reivindicação, uma decorrência natural da liderança da emissora. Na publicação de final de
ano em 1956, a direção da Rádio Nacional anunciava para “breve” a entrada no ar da sua
emissora, a TV Nacional, canal 4, conforme compromisso assumido por Juscelino. As
concessões de canais de rádio e TV eram atribuições exclusivas do ocupante do Executivo
Federal.
Os meses se passaram e Juscelino ”esqueceu-se” da promessa. No final de 1957, para
surpresa da direção da Rádio Nacional, o canal 4 que lhes fora prometido acabou
concedido para a inexpressiva Rádio Globo, de Roberto Marinho. A decisão foi
condicionada por pressões diretas de Chateaubriand, que aceitava qualquer coisa menos
que a Rádio Nacional ingressasse no segmento televisivo, temendo as consequências
disso para seus negócios. Neste contexto, o canal ir para Roberto Marinho era um mal
menor.
O Brasil perdeu assim a chance histórica de ter, no nascedouro, duas modalidades de
televisão: a comercial, representada pelas emissoras de Chateaubriand, e a estatal voltada
para o interesse público como seria a da Rádio Nacional.
2. Acordo com a Time-Life feriu interesses nacionais

Ao contrário da Rádio Nacional, que dispunha de todas as condições para colocar no ar
sua emissora de TV, a de Roberto Marinho precisou aguardar alguns anos. Para a
implantação da TV Globo, a partir de 1961, foi decisivo o apoio do capital internacional,
representado pelo gigante da mídia norte-americana Time-Life. A emissora começou a
operar de forma discreta em 26 de abril de 1965 e seus primeiros meses foram um
fracasso em termos de audiência.
Em junho de 1962, Marinho passou a ser apoiado com milhões de dólares, num episódio
que a emissora ainda hoje sustenta que se tratou apenas de “um contrato de cooperação
técnica”. A realidade, fartamente documentada por Daniel Herz, em sua obra já clássica A
história secreta da Rede Globo (1995), prova o contrário. Roberto Marinho e o grupo
Time-Life contraíram um vínculo institucional de tal monta que os tornou sócios, o que era
vedado pela Constituição brasileira. Foi este vínculo que assegurou à Globo o impulso
financeiro, técnico e administrativo para alcançar o poderio que veio a ter.
A importância da ligação com os norte-americanos, nos primórdios da emissora, pode ser
avaliada pela declaração do engenheiro Herbert Fiúza, que integrou a sua primeira equipe
técnica: “A Globo era inspirada numa estação de Indianápolis, a WFBM. E o engenheiro de
lá foi quem montou tudo, porque a gente não sabia nada”.
Chateaubriand, que antes havia ficado satisfeito em inviabilizar o canal de TV para a
Rádio Nacional, percebeu o risco que suas emissoras passavam a correr. Tanto que
dedicou ao “Caso Globo/Time-Life” nada menos do que 50 artigos, todos atacando
Roberto Marinho e acusando-o de receber, na época, US$ 5 milhões, repassados em três
parcelas, o que representava “uma ofensiva externa contra os competidores internos”
(Morais, 1994, p.667).

A repercussão dessas denúncias foi tamanha que a CPI criada pelo Congresso Nacional
para apurá-las acabou descobrindo que a TV Globo mantinha não um, mas dois contratos
com o grupo Time-Life. Em um deles, os norte-americanos tinham participação de 49%.
Em outras palavras, não se tratava de contrato, mas de sociedade. A CPI pôs fim à
sociedade. Mas, ao invés de sair penalizada do episódio, a Globo foi duplamente
beneficiada: Roberto Marinho ficou com o controle total da emissora e os militares, então
no poder, não tomaram qualquer providência contra ela. A TV Globo poderia ter tido sua
concessão cassada.
3. O apoio à ditadura militar (1964-1985)
Nos anos 1960, o Brasil era visto pelos Estados Unidos como sua área de influência
direta. E a TV Globo foi fundamental para trazer para cá o way of life norte-americano
juntamente com o seu modelo de televisão. A TV comercial, um dos tipos de emissora
existentes no mundo, adquire aqui o status de única modalidade de TV. Não por acaso,
Murilo Ramos (2000, p.126) caracteriza o surgimento da TV Globo como sendo “a primeira
onda de globalização da televisão brasileira”, que, concentrada num único grupo local,
monopolizou a audiência e teve forte impacto político e eleitoral ao longo das décadas
seguintes.

Durante quase 20 anos, TV Globo e governos militares viveram uma espécie de
simbiose. Os militares, satisfeitos por verem nas telas da Globo apenas imagens e textos
elogiosos ao “país que vai para a frente”, retribuíam com mais e mais benesses e
privilégios para a emissora. A partir de dezembro de 1968, com a edição do AI-5, o país
mergulhou no “golpe dentro do golpe”, com prisão e perseguição a todos os considerados
inimigos e adversários do regime e a adoção de censura prévia aos veículos de
comunicação.
A TV Globo enfrentou alguns casos de censura oficial em suas telenovelas, mas o que
prevaleceu na emissora foi o apoio incondicional de sua direção aos militares no poder e a
autocensura por parte da maioria de seus funcionários.
Ainda hoje não falta quem se recorde de situações patéticas em que o então
apresentador do Jornal Nacional, Cid Moreira, mostrava aos milhares de telespectadores
brasileiros cenas de um país que se constituía “em verdadeira ilha de tranquilidade”,
enquanto centenas de militantes de esquerda eram perseguidos, presos, torturados ou
mortos nas prisões da ditadura. Some-se a isso que a TV Globo sempre se esmerou em
criminalizar quaisquer movimentos populares.
4. O combate permanente às TVs Educativas

Desde 1950 que as elevadas taxas de analfabetismo vigentes no Brasil eram uma
preocupação constante para setores nacionalistas e de esquerda. Uma vez no poder,
algumas alas militares viram na radiodifusão um caminho para combater a subversão e, ao
mesmo tempo, promover a integração nacional. O resultado disso foi que, em 1965, o
Ministério da Educação e Cultura (MEC) solicita ao Conselho Nacional de
Telecomunicações a reserva de 48 canais de VHF e 50 de UHV especificamente para a
televisão educativa.

O número era dos mais significativos e poderia ter representado o começo de canais
voltados para os interesses da população, a exemplo do que já acontecia em outras partes
do mundo. Pouco depois do decreto ser publicado, Roberto Marinho começa a agir para
reduzir sua eficácia. E, na prática, conseguiu seu intento. O decreto-lei nº 236, de março
de 1967, se, por um lado, formalizava a existência das emissoras educativas, por outro
criava uma série de obstáculos para que funcionassem. O artigo 13, por exemplo, obrigava
essas emissoras a transmitir apenas “aulas, conferências, palestras e debates”, ao mesmo
tempo em que proibia qualquer tipo de propaganda ou patrocínio a seus programas.
Traduzindo: as TVs Educativas estavam condenadas à programação monótona e à falta
crônica de recursos.
Como se isso não bastasse, o artigo seguinte fechava o cerco a essas emissoras,
determinando que somente pudessem executar o serviço de televisão educativa a União,
os estados, municípios e territórios, as universidades brasileiras e alguns tipos de
fundações. Ficavam de foram, por exemplo, sindicatos e as mais diversas entidades da
sociedade civil.
Dez anos após este decreto-lei, apenas seis emissoras educativas tinham sido criadas no
país, número muito distante dos 98 canais disponíveis. As emissoras educativas não
conseguiam avançar, esbarrando na legislação que lhes obrigava a viver exclusivamente
do minguado orçamento oficial, ao passo que as televisões comerciais, em especial a
Globo, experimentavam crescimento sem precedentes. Crescimento que contribuiu para
cristalizar, em parcela da população brasileira, a convicção de que a emissora de Roberto
Marinho era sinônimo de qualidade.
5. O programa global de telecursos

Oficialmente, o projeto tinha o nome de Educação Continuada por Multimeios e envolvia
um convênio entre a Secretaria de Cooperação Econômica e Técnica Internacional (Subin)
da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, o BID, a Fundação Roberto
Marinho (FRM) e a Fundação Universidade de Brasília (FUB). Aparentemente, o seu
objetivo era nobre: “O atendimento à educação de população de baixa renda do país,
mediante a utilização e métodos não tradicionais de ensino”.
Na versão inicial, o convênio tinha 15 cláusulas, com a FRM assumindo a condição de
entidade executora e a FUB a de sua coexecutora. Na prática, o convênio ficou conhecido
como Programa Global de Telecursos e atendia exclusivamente aos interesses da FRM.
Através dele, a FRM pretendia, sem qualquer custo, apoderar-se do milionário “negócio”
da teleducação no Brasil. Para tanto, esperava contar com recursos nacionais e
internacionais inicialmente da ordem de US$ 5 milhões embutidos em um pacote de U$S
20 milhões solicitados pela Subin ao BID, no início de 1982.
A parceria com a FUB era importante por ela ser uma entidade voltada para o ensino
público e estar isenta de impostos para a importação dos equipamentos necessários à
montagem de um centro de produção televisiva a custo zero. Em outras palavras, a FRM
pretendia tornar-se a administradora da verba (nacional e internacional) destinada às
televisões educativas no Brasil, geridas pela Funtevê, entidade governamental.
Imediatamente, a Funtevê deixou nítido que o convênio exorbitava as competências da
FRM e da própria UnB. É importante assinalar que pela UnB um dos raros entusiastas
deste convênio era o seu então reitor, capitão de mar-e-guerra José Carlos Azevedo.

A discussão em torno deste convênio e da tentativa das Organizações Globo de
apropriarem-se dos recursos destinados às TVs educativas brasileiras ganham a imprensa
nacional no final de 1982 e início de 1983. Matéria publicada pelo jornal Folha de
S.Paulo (17/04/1983), sob o título de “Globo poderá monopolizar teleducação”, tratava o
assunto em forma de denúncia. O “tiroteio” entre os jornais Globo e Folha de
S.Paulo durou vários meses e o convênio, que acabou não sendo assinado, só foi
sepultado três anos depois, com o fim do regime militar. Sem muita cerimônia, o então
secretário-executivo da FRM, José Carlos Magaldi, chegou a admitir que “é óbvio que não
fazemos teleducação por patriotismo”.

Esta não foi a primeira e nem a última tentativa das Organizações Globo de se
apoderarem da teleducação no Brasil. Aliás, a FRM tem, nos dias atuais, representado o
Brasil em vários fóruns internacionais sobre educação e teleducação. O MEC sabe disso?
6. O caso Proconsult e o combate a Leonel Brizola
Antes dos petistas, Leonel Brizola foi um dos políticos brasileiros mais combatidos pela
TV Globo e por seu fundador, Roberto Marinho. Marinho nunca o perdoou pelo fato de ter
comandado a Rede da Legalidade, nome que receberam as emissoras de rádio que,
quando da renúncia de Jânio Quadros à presidência da República, em 1961, passaram a
defender a posse de seu vice, João Goulart. Brizola, então governador do Rio Grande do
Sul, era cunhado de Goulart.
Com a vitória do golpe civil-militar de 1964, Brizola foi para o exílio e só pode retornar ao
Brasil com a anistia, em 1979. Político com fortes compromissos populares, em 1982
disputou o governo do Rio de Janeiro, pelo PDT, partido criado por ele.
O caso Proconsult foi uma tentativa de fraude nas eleições de 1982 para impossibilitar a
vitória de Brizola. Consistia em um sistema informatizado de apuração dos votos, feito pela
empresa Proconsult, associada a antigos colaboradores do regime militar. A mecânica da
fraude consistia em transferir votos nulos ou em branco para que fossem contabilizados
para o candidato apoiado pelas forças situacionistas, Moreira Franco, do então PDS.
As regras da eleição de 1982 impunham que todos os votos (de vereador a presidente da
República) fossem em um mesmo partido. Portanto, estimava-se um alto índice de votos
nulos. Os indícios de que os resultados seriam fraudados surgiram da apuração paralela
contratada pelo PDT à empresa Sysin Sistemas e Serviços de Informática, que divergiam
completamente do resultado oficial. Outra fonte que obtinha resultados diferentes dos
oficiais foi a Rádio Jornal do Brasil. Roberto Marinho foi acusado de participar no caso.
A fraude foi extensamente denunciada pelo Jornal do Brasil, na época o principal
concorrente de O Globo no Rio e relatada posteriormente pelos jornalistas Paulo Henrique
Amorim, Maria Helena Passos e Eliakim Araújo no livro Plim Plim, a peleja de Brizola
contra a fraude eleitoral(Conrad Editores, 2005). Devido à participação de Marinho no
caso, a tentativa de fraude é analisada no documentário britânico Beyond Citizen Kane,
de 1993. A TV Globo, por sua vez, defendeu-se argumentando que não havia contratado a
Proconsult e que baseava a totalização dos votos daquela eleição na totalização própria
que O Globo estava fazendo.

Em 1994, Brizola venceu novamente Roberto Marinho e a TV Globo ao obter, na Justiça,
direito de resposta na emissora. Em 15 de março, um constrangido Cid Moreira (que por
27 anos esteve à frente da bancada do Jornal Nacional) leu texto de 440 palavras que a
Justiça obrigou a TV Globo a divulgar em seu telejornal mais nobre.
Foram cerca de três minutos nos quais Cid Moreira, a cara do JN, incorporou Leonel
Brizola, então governador do Rio de Janeiro, no mais célebre e então inédito direito de
resposta, que abriu caminho para que outros cidadãos buscassem amparo legal contra
barbaridades cometidas pela mídia brasileira.
7. Ignorou as Diretas-Já
O PMDB lançou, em dezembro de 1983, uma campanha nacional em apoio à emenda do
seu deputado Dante de Oliveira (MT) que restabelecia as eleições diretas no país com o
slogan “Diretas-Já”. O primeiro grande comício aconteceu em São Paulo, em 25 de janeiro
do ano seguinte, e coincidiu com o 430º aniversário da cidade. A TV Globo ignorou o
comício que reuniu milhares de pessoas na Praça da Sé. Reportagem
do Fantástico sobre o assunto falava apenas em comemorações do aniversário de São
Paulo. Omissões semelhantes aconteceram em relação a outros comícios pelas Diretas-Já
em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.

De acordo com o ex-vice-presidente das Organizações Globo, José Bonifácio de Oliveira
Sobrinho, o Boni, em entrevista ao jornalista Roberto Dávila, na TV Cultura, em dezembro
de 2005, foi o próprio Roberto Marinho quem determinou a censura ao primeiro grande
comício da campanha pelas Diretas-Já. Segundo Boni, àquela altura “o doutor Roberto
não queria que se falasse em Diretas-Já” e decidiu que o evento da Praça da Sé fosse
transmitido “sem nenhuma participação de nenhum dos discursantes”. Para Boni, aliás, no
caso das Diretas-Já houve uma censura dupla na Globo: “Primeiro, uma censura da
censura; depois, uma censura do doutor Roberto”.
A versão de Boni é diferente da que aparece no livro Jornal Nacional – A Notícia Faz
História, publicado pela Jorge Zahar em 2004, e que representa a versão da própria
Globo para a história de seu jornalismo. O texto não faz referência alguma a uma
intervenção direta de censura por parte de Roberto Marinho. Aliás, a Globo vem tentando
reescrever a sua história e, ao mesmo tempo, reescrever a própria história brasileira. Isto
fica nítido, por exemplo, quando se compara a história brasileira com a versão que é
publicada pela Globo através dos verbetes do Memória Globo. Pelo visto, a emissora
aposta na falta de memória e na pouca leitura da maioria dos brasileiros para emplacar a
sua versão dos fatos. Foi a partir da campanha das Diretas-Já que teve início a utilização,
pelos diversos movimentos populares, do bordão “O povo não é bobo. Abaixo a Rede
Globo”.
8. Manipulação do debate Collor x Lula
Na eleição de 1989, a primeira pelo voto direto para presidente da República desde 1964,
a TV Globo manipulou o debate entre o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva e o do
PRN, Fernando Collor. O debate era o último e decisivo antes da eleição. No telejornal da
hora do almoço, a TV Globo fez uma edição equilibrada do debate. Para o Jornal
Nacional, houve instruções para mudar tudo e detonar Lula. Foram escolhidos os piores
momentos de Lula e os melhores de Collor. Ainda foram divulgadas pesquisas feitas por

telefone segundo as quais Collor havia vencido. Além disso, o jornalista Alexandre Garcia
leu um editorial nitidamente contra Lula e o PT.

Desde então, pesquisas e estudos sobre este “caso clássico de manipulação da mídia”
têm sido feitas no Brasil, destacando-se as realizadas pelo sociólogo, jornalista e professor
aposentado da UnB Venício A. Lima.
Apesar dos esforços da TV Globo para manter a versão de que a edição deste debate foi
equilibrada, novamente seu ex-diretor José Bonifácio Sobrinho contribuiu para derrubá-la.
Depois de abordar o assunto em entrevistas à imprensa, por ocasião do lançamento de
seu livro de memórias, o ex-dirigente global deu entrevista à própria GloboNews, canal
pago da emissora, na qual admitiu, para o jornalista Geneton Moraes Neto, que, durante
os debates da campanha presidencial transmitidos pela Globo em 1989, tentou ajudar o
candidato alagoano. Para muitos, Boni só fez esta “revelação bombástica”, que quase
todos já sabiam, para tentar promover seu livro.
9. Contra a democratização da mídia

Todos os países democráticos possuem regulação para rádio e televisão. Na GrãBretanha, por exemplo, a mídia e sua regulação caminharam juntas. O mesmo pode ser
dito em relação aos Estados Unidos, França, Itália e Japão. Nestes países, tão admirados
pelas elites brasileiras, nunca ninguém fez qualquer vínculo entre regulação e censura,
simplesmente porque ele não existe. No Brasil, onde a mídia em geral e a audiovisual em
particular vive numa espécie de paraíso desregulamentado, toda vez que um governo
tenta implementar o que existe no resto do mundo é acusado de ditatorial e de querer
implantar a censura.
Quando, em 2004, o governo do presidente Lula enviou ao Congresso Nacional projeto
de lei criando o Conselho Nacional de Jornalismo, uma espécie de primeiro passo para
esta regulação, foi duramente criticado pela mídia comercial, TV Globo à frente. Desde
sempre, as Organizações Globo foram contrárias a qualquer legislação que restringisse o
poder absoluto que desfruta a mídia no Brasil. Prova disso é que os dispositivos do
Capítulo V da Constituição brasileira, que trata da Comunicação Social, continuam até hoje
sem regulamentação.
Entre outros aspectos, o Capítulo V proíbe monopólios e oligopólios por parte dos meios
de comunicação, determina que a programação das emissoras de rádio e TV deva dar
preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. O capítulo enfatiza,
ainda, que as emissoras e rádio e TV devem promover a cultura nacional e regional, além
de estimularem a produção independente. Todos esses aspectos mostram como a TV
Globo está na contramão de tudo o que significa uma comunicação democrática e plural.
Aliás, os compromissos dos mais diversos movimentos sociais brasileiros com a
regulação da mídia foram reafirmados durante o 2º Encontro Nacional pelo Direito à
Comunicação, promovido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, de
10 a 12 de abril, em Belo Horizonte. O evento reuniu 682 participantes entre ativistas,
estudantes, militantes, jornalistas, estudiosos, pesquisadores, representantes de entidades
e coletivos de todo o Brasil. Presente ao encontro esteve também o canadense Toby
Mendel, consultor da Unesco e diretor-executivo do Centro de Direitos e Democracia.

A carta final do encontro, intitulada “Regula Já! Por mais democracia e mais direitos”,
disponível na página da entidade (www.fndc.org.br), reafirma “a luta pela
democratização da comunicação como pauta aglutinadora e transversal, além de
conclamar as entidades e ativistas a unirem forças para pressionar o governo a abrir
diálogo com a sociedade sobre a necessidade de regular democraticamente o setor de
comunicação do país”.
10. Golpismo

Para vários pesquisadores e estudiosos sobre movimentos sociais no Brasil, a mídia, em
especial a TV Globo, tem tido um papel protagonista nas manifestações contra a
presidente Dilma Rousseff e o PT. Alguns chegam mesmo a afirmar que dificilmente essas
manifestações teriam repercussão se não fosse a Rede Globo.
Em outras palavras, a Rede Globo, tão avessa à cobertura de qualquer movimento
popular, entrou de cabeça na transmissão destas manifestações e, no domingo 15 de
março, por exemplo, mobilizou, como há muito não se via, toda a sua estrutura com o
objetivo de ampliar a dar visibilidade a esses atos. Quase 100% de seus jornalistas
estiveram de plantão. Durante o programa Esporte Espetacular, exibido tradicionalmente
nas manhãs de domingo, o esporte deu lugar para chamadas ao vivo sobre os protestos,
que, em tom de convocação, passaram a ocupar a maior parte do tempo.
Nas entradas ao vivo em todas as cidades onde aconteciam mobilizações, os microfones
da emissora captaram gritos de guerra contra o atual governo e xingamentos contra a
presidente. Em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, foi possível ouvir inclusive
palavrões. A título de comparação, as manifestações de 13 de março, que também
aconteceram em todo o Brasil e defenderam a reforma política, não mereceram cobertura
tão dedicada do maior conglomerado midiático da América Latina.
Erick Bretas, diretor da Rede Globo que há poucas semanas defendeu abertamente o
impeachment da presidente Dilma nas redes sociais, voltou a se pronunciar sobre os atos
do dia 15, utilizando uma frase de Bob Marley para convocar, através de sua página no
Facebook, o povo às ruas: “Get up, stand up”.
Não se sabe se Bob Marley apoiaria a postura de Bretas, mas, sem dúvida, é fato que
entre os princípios editoriais da TV Globo não consta nem a “isenção” e muito menos o
equilíbrio que tanto prega. Por isso, talvez o melhor resumo sobre a realidade desses
protestos e a empolgação da transmissão feita pela TV Globo seja a do professor Gilberto
Maringoni, ex-candidato do PSOL ao governo de São Paulo. Segundo Maringoni, “a
manifestação principal não está nas ruas. Está na TV”.
Nas redes sociais, internautas repudiaram a cobertura feita pela TV Globo e alcançaram,
durante 48 horas ininterruptas, para a hastag#Globogolpista, a primeira posição entre os
assuntos mais comentados do Twitter. Novos protestos estão previstos para o dia 26/4.
Razão pelo qual este promete ser o pior aniversário da TV Globo em toda a sua história.
***
Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da
UFMG. Este artigo foi publicado no blog Estação Liberdade