You are on page 1of 7

ESPELHO DE VÊNUS: QUESTÕES DA REPRESENTAÇÃO DO FEMININO

Cíntia Schwantes (UFPel)
Estou retomando aqui uma questão antiga. Quando Platão propôs a expulsão dos poetas da cidade
ideal, pois eles imitam uma imitação, uma das coisas posta a nu foi a obliqüidade da relação
mimética que há entre literatura e sociedade. Isso significa que não encontramos na literatura um
retrato confiável de determinada sociedade. Por outro lado, quando Roland Barthes afirma, algo
provocativamente, que uma única página do Robinson Crusoe permitiria a reconstrução dos saberes
do séc. XVIII, ele está nos dizendo que a literatura presta, sim, um testemunho sobre a sociedade na
qual foi criada. A psicanálise, que considera a literatura correlata aos sonhos, um sistema simbólico
no qual as deformações e as lacunas são tão significativas quanto as afirmações contidas neles, é
uma possível solução a esse impasse. Outras podem ser apontadas. O princípio do qual eu parto
aqui, é o de que a literatura nos fornece sinais indiretos, muito mais do que diretos, sobre a
sociedade na qual circulou, ou circula. A literatura não nos diz como somos, mas sim, como
pensamos que somos, como desejamos ser, e no limite, como não somos.
No que toca à representação de minorias, aos extratos da sociedade que alcançam, por motivos
variados, pouca representatividade política, e de maneira correlata, habitam as margens da
representação literária, a situação se complica um pouco mais. Embora os grupos étnicos índio e,
mais tarde, negro, tenham entrado relativamente cedo em nossa literatura, eles terão estatutos
diferenciados: quanto aos negros, via de regra entrarão na literatura na posição de antagonista ou de
coadjuvante; a literatura brasileira precisará chegar à modernidade para ter protagonistas negros.
Quanto aos índios do Romantismo, quando içados à condição de protagonistas, respondem não por
si mesmos, mas por um ideal de identidade nacional elaborado a partir de outro discurso, o
depoimento europeu sobre os índios, filtrado pela construção filosófica elaborada por Rousseau. O
que nos leva a um outro truísmo: livros nascem de outros livros.
A representação de mulheres, uma outra minoria se dará de forma ainda mais tensa, posto que as
mulheres terão uma representação ambígua, dependendo de sua etnia e de sua classe social. Um
bom exemplo disso é o romance Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel Garcia Marques, no
qual as mulheres índias, que coincidentemente são pobres, agem pela perdição do protagonista,
enquanto as brancas, coincidentemente de classe média, agem para salvá-lo. Se se levar em conta o
fato de que toda a simpatia do narrador se dirige ao protagonista (homem, branco, rico), conclui-se
que apesar de as razões das mulheres índias serem expostas, não há imparcialidade no romance, e

são atribuídas qualidades e limitações que os habilitam. ou não. No tocante ao estabelecimento dos conceitos de feminilidade e masculinidade. Recuando um pouco mais.elas acabam cumprindo a função de coadjuvantes do antagonista. os homens da geração do meu avô “podiam” mimar e pegar no colo as filhas meninas. além de antipática. são bastante ilustrativos. Mas o fato de que “mulher” não é uma categoria unívoca – os fatores de classe e etnia interferem na construção de uma identidade feminina – não é o único nó da questão da representação feminina. nem sequer é central. Ao contrário de outras minorias pouco freqüentadas. Toda uma fatia do subsistema da literatura popular. mas se dispensassem o mesmo tratamento aos meninos. um dos veículos de disseminação das crenças de uma determinada sociedade e uma das ferramentas utilizadas para conduzi-la a um ideal abraçado por sua classe dominante. Obviamente. encontramos indícios de como deve ser um homem e como deve ser uma mulher. com uma freqüência inusitada. Assim. e naturalista. a cumprir determinadas tarefas. nas crenças sobre como devem ser criados meninos e meninas. a literatura também exerce um papel relevante. A literatura é. é centrada em protagonistas femininas. embora não tão abundantes. Todo esse vasto campo de representação do feminino em literatura encontrou pesquisadoras interessadas em desvendá-lo. Além disso. de utilização da literatura como um instrumento de saneamento da sociedade. uma posição que. muito evidentemente. no pior. à medida que mudam as exigências do sistema produtivo de uma determinada sociedade. de classe média. os programas romântico. mudam também as atribuições alocadas em seus membros. homossexuais. desempenham o papel de protagonistas de uma variedade de títulos que abrange vários gêneros literários em diversos sistemas literários. não faltam obras. a dos romances cor-de-rosa. nenhum dos homens da geração do meu pai ajudou as esposas a trocar as fraldas dos filhos – homens são “naturalmente” pouco habilidosos com bebês. ou evitado. no melhor. Por exemplo. a homens e mulheres. igualmente. É dessa forma que os conceitos de feminilidade e masculinidade se constroem. centradas em protagonistas femininas. durante a onda do movimento de liberação feminina. de construção de uma identidade nacional. A primeira coisa que essas pesquisadoras constataram foi a impossibilidade de se investigar tanto a escrita de . heterossexuais). a literatura desempenha a função de modelo a ser seguido. despreparados para as asperezas do mundo e. Assim. Nesse sentido. estaria criando filhos. No tocante à feminilidade. No subsistema erudito. conforme variam as exigências de uma determinada sociedade. as mulheres (brancas. muda também a distribuição de tarefas por gênero. nossa sociedade funciona através de uma divisão de tarefas por gêneros. quer dizer.

é uma carcterística da escrita feminina. com o intuito de representar um mundo que não cabia mais nos limites da representação realista. Em 1997. podem ser incluidos na rubrica de desconstrutores da linguagem. seria um texto masculino. abrisse espaço para a representação do feminino. o maior nome da teoria feminista francesa.mulheres quanto as imagens femininas veiculadas na literatura com os aportes teóricos disponíveis. não é passível de representação – pode-se concluir que o confronto direto não é a opção adotada pelas teóricas feministas francesas. para funcionar. encontra-se prejudicado. Jacques Derrida determinou o fechamento do curso de teoria literária feminista coordenado por Hélène Cixous. as contradições dentro do próprio arcabouço teórico feminista francês. ao passo que um texto centrado na experiência feminina. como Mallarmé. A saída honrosa da teóricas feministas francesas foi a de afirmar que um texto é feminino não (necessariamente) quando é escrito por uma mulher. elas optaram por uma “operação sabotagem” que. da ordenação cronológica. Assim. O problema é que implodir a linguagem é a proposta de vários escritores da modernidade. A língua comum e uma base teórica compatível. Assim. o feminino. portanto. da representação de molde realista. todos marcados pela convicção de que o gênero é irrelevante – porque só existe um gênero passível de investigação. James Joyce. portanto. findaram isoladas não apenas porque o francês perdeu espaço como língua de cultura (o que não isolou o desconstrucionismo. como também porque sua prática acadêmica não se apoiou em lutas políticas que garantissem espaços sociais para a mulher. Elliot. de orientação psicanalítica. de Marinetti. como The Awakening. é claro. . a aproximação entre as teóricas inglesas e americanas. parte do princípio de que a própria estrutura da linguagem depende. de Kate Chopin. Estudos paralelos foram conduzidos na França. no âmbito da literatura. o argumento de que o abandono da lógica. Marinetti. mas quando apresenta características femininas. E levando-se em conta que a teoria feminista francesa. As francesas. S. Esse argumento tem uma falha: ele nos leva a considerar que um texto abertamente misógino. em pouco tempo. a longo prazo. desconstrindo a linguagem pelo lado de dentro. Antes. foi a elaboração de um arsenal teórico que possibilitasse o estudo desse objeto. do silenciamento do feminino – a experiência feminina. A primeira tarefa que se impôs. por exemplo). de matiz sociológico (às vezes marxista) promoveu. o que foi feito. por outro lado. o masculino. T. como Mafarka. por seu registro realista. determinou o abandono dessa corrente teórica. é um texto feminino. principalmente. o futurista. Maiacovsky. com orientações ideológicas diversas. mas também porque optaram por um aporte teórico que. Oswald de Andrade. nos Estados Unidos. Ezra Pound. aliadas ao isolamento das próprias teóricas dentro da academia. nos Estados Unidos e na Inglaterra. Autores diversos. revelou-se problemático.

recusada no contexto de uma instituição . para eludir-se ao controle social (objeto de uma segunda fase. da emoção. “lésbica”. dá atenção às questões de funcionamento da linguagem (que foi o grande campo de pesquisa de meados do século passado até a década de 80) e mais atenção à interferência dos fatores sociais na construção de obras literárias.A corrente teoria feminista anglo-americana parte de um princípio diferente. é toda uma construção identitária. centrada preferencialmente nas obras escritas por mulheres). desenvolvida no seio de uma determinada sociedade. portanto. Em primeiro lugar. mas porque. “gay”. e podem ser pesquisados a partir do mesmo aparato teórico – e estão sendo. conclui-se que não apenas “feminino” é gênero. a longo prazo. na psicanálise. Gênero não é apenas o sexo biológico. Um conceito fundamental para a teoria literária feminista anglo-americana é o de gênero. a teoria literária feminista anglo-americana não tardou a transformar-se em estudos de gênero. a utilização de conceitos e ferramentas de outras áreas aproximou os estudos de gênero dos estudos multiculturais. centrada no sexo biológico. ou interdisciplinares. do pathos. independentemente de suas opções estéticas e programáticas. O arcabouço teórico da teoria literária feminista anglo-americana. Os estudos de gênero partem de uma ampla operação de revisão do cânone literário. “Masculino”. recebimento de salário igual por trabalho igual. a escrita de mulheres. será sempre marcada pela experiência de ser mulher em uma sociedade falologocêntrica – centrada no falo e no logos. na sociologia. e portanto marginalizadora do feminino. leis para punição do estupro e do assédio sexual. embora não seja transparente. Por sua própria estrutura teórica. defenestradas do cânone não necessariamente porque suas obras não tenham qualidade. na tentativa de demonstrar que as escritoras mulheres são. que lhes permitam dedicar-se mais aos filhos. para tornarem-se capazes de expressar uma experiência especificamente feminina. também são. é determinada pelas vivências dos sujeitos que as usam. o de que a linguagem. Em segundo lugar. conhecimentos e ferramentas teóricas que lhe permitam desvendar tanto as coerções sociais que pesam sobre as mulheres (objeto preferencial das primeiras pesquisadoras feministas) quanto as estratégias utilizadas pelas mulheres. legalização do aborto. Assim. seu estatuto de ciência se consolidou. Não é mera mudança de rótulo. criação de creches subsidiadas pelo governo. não importa se convencional ou revolucionária quanto à forma. planejamento familiar subsidiado pelo governo. que procura na história. conforme se prefira chamá-los. Dessa forma. tais como horários alternativos no trabalho. Ao mesmo tempo sua prática acadêmica é lastreada pelos movimentos em prol dos direitos das mulheres. elaborado inicialmente por historiadoras feministas. ao longo da história.

o enredo evolui na direção não só da construção de uma identidade pelo protagonista. a descrição do Bildungsroman seguirá alguns passos: conflito de gerações (geralmente o pai do protagonista deseja que ele siga uma carreira que o desagrada). a escrita feminina sempre negocia no estreito espaço entre o apagamento e a possibilidade de representação. trair e subverter os pressupostos que. elas precisam. não lemos textos. O que caracteriza o Bildungsroman é o fato de que a narrativa acompanha os anos de formação de um protagonista. Dessa forma. ela precisará utilizar a linguagem masculina. Outro problema na representação de minorias na literatura é o fato de que a literatura é polissêmica. concluiremos que o gênero se adequava exclusivamente à nararativização do processo de formação de um protagonista masculino. da ação dialética do protagonista sobre sua sociedade. Caso contrário. uma bem e outra mal-sucedida. Se considerarmos que. Segundo Juliet Mitchell. o que parece falha é exatamente o que lhe confere especificidade. abraçam. da perda de sentido. Uma questão que se coloca é: porque as escritoras mulheres se apropriam de paradigmas que recusam a representação da experiência feminina? Por que. Esse gênero foi revitalizado no Romantismo e apropriado para o estabelecimento de uma identidade minoritária. Em termos estruturalistas. à época. uma viagem. mas paradigmas. A narrativa é construida através das ações do protagonista e de suas reflexões sobre as relações que ele estabelece com o mundo que o rodeia. como explica Kolodny. algumas contraditórias. mas também de sua inserção em um meio social usualmente mais tolerante do que se meio de origem. e a de experimentação sentimental quase nula. elas findam por trair o paradigma. . Como conseqüência. a da burguesia em ascensão. de alguma forma. até no interior de um mesmo texto. Assim. Annette Kolodny afirma que os textos femininos se apropriam de um paradigma que recusa a representação do feminino. a possibilidade de viajar sozinha. Um bom exemplo de como isso acontece é o Bildungsroman feminino. ela correrá o risco do isolamento e. Assim. no limite. duas experiências amorosas (no mínimo). reduzida. aparentemente. que as oportunidades de educação formal eram restritas.literária falologocêntrica. se a mulher escritora desejar ser entendida. e da sociedade sobre ele. a única carreira aberta para moças de boa família era a de esposa e mãe. passível de veicular várias mensagens. um processo de educação formal. de alguma forma.

Após sua formatura. surgido no Romantismo. Jane e Edward Rochester casam e vivem felizes para sempre. em um colégio interno que mais parece uma prisão.. Diversas são as formas de apropriação. quando ele morre sem filhos. sadismo. Vou falar especificamente de uma. intrincadamente relacionadas com a morte. Mas então. Jane poderia ter sido presa em um quarto azul. por exemplo. o romance gótico é povoado de fantasmas. o romance gótico visita exatamente aquelas experiências e sensações banidas pela tentativa iluminista de tornar o mundo um objeto completamente cognoscível.. e permeado por perigos mais reais. a prática da inserção. em um golpe de sorte. o que ele não consegue.. Além do fantasma como elemento gótico. Mr Rochester fica cego. Gênero recente. de fato. Rochester morando em uma casa ainda mais isolada. de elementos vindos do romance gótico. encontraremos os passos do Bildungsroman. em cujo sótão estava aprisionada uma mulher louca. Jane viaja para assumir o cargo de preceptora. a tia Reed. ruínas. mas carregados de elementos góticos. Jane vai encontrar Mr. Jane entra em conflito com sua tutora. Assim. Por um acontecimento inexplicável. com . Rochester chamá-la e corre a seu encontro. Depois de fugir da mansão de Mr. escritoras mulheres tem se apropriado desse gênero marcadamente masculino e utilizado para tentar estabelecer uma identidade feminina. desde o Romantismo. Esses elementos totalmente alheios ao Bildugsroman desestabilizam a narrativa e provocam fissuras através das quais uma experiência feminina de aprisionamento e de tentativa de fuga pode aflorar.. ela recebe uma educação formal. A seguir. Rochester. dentro do paradigma iluminista e masculino do Bildungsroman. ela herda a fortuna do tio paterno. ela ouve Mr. temos a cor do quarto. após o incêndio da mansão de Thornfield. o que trai o paradigma do registro realista do Bildungsroman. Assim. uma inserção social. provocado pela esposa louca. uma vez que seus vilões são encarnações de paixões inconfessáveis: cobiça.No entanto. Vale a pena dizer algumas palavras sobre o romance gótico. lances mais ou menos inexplicáveis do acaso. Era costume nas mansões inglesas decorar cada quarto em tons de uma mesma cor e denominá-lo a partir da cor. luxúria. Ao tentar salvá-la. e que as criadas afirmavam ser malassombrada. Tomando como exemplo Jane Eyre. no qual havia morrido o tio Reed. como professora em uma escola para filhas de proletários mantida pela igreja. Ela passa por duas experiências amorosas (mas nenhuma experimentação sexual). A cor do quarto remete exatamente às pulsões inconfessáveis da sexualidade. Um dos episódios que expõe o conflito é o castigo que a menina recebe por sua desobediência: ser trancada no quarto vermelho. em uma mansão isolada no interior da Inglaterra. Jane alcança.

Mary (ed). Feminist Literary Theory: a Reader. Eugênia C. DeLAMOTTE. Unbecoming Women. A narrativa da formação feminina nunca segue uma trajetória linear e segura: vários perigos a espreitam. New York: Columbia University Press. a inserção em um meio social mais tolerante dificilmente poderia ser considerada bem-sucedida. 1987. 1979. Jane Eyre. . Charlotte. Oxford: Oxford University Press. Susan. Jane Eyre apropria-se do paradigma do Bildungsman passo a passo. 1993. EAGLETON. 1990. British Women Writers and the Novel of Development. mas recheia seu enredo de elementos góticos. Oxford: Oxford University Press. o que retira dele uma das caraterísticas do gênero: a linearidade. No entanto. Oxford: Basil Blackwell. uma vez que Jane passa a viver em quase completo isolamento. Perils of the Night.direito à cura parcial da cegueira que o acometera e ao nascimento de um filho. A Feminist Study of Nineteenth Century Gothic. BIBLIOGRAFIA BRONTË. Podese dizer o mesmo de toda a escrita de mulheres. FRAIMAN.